Direito internacional público
Introdução
Direito Internacional Público « (1) conjunto de normas que, num dado momento, disciplinam a (2) comunidade
internacional e regulam as (3) relações que no seu seio se estabelecem entre Estados, OI’s, particulares e outros sujeitos
sui generis, definindo os respetivos direitos e deveres» (p. 24)
«conjunto de normas…»
No Capítulo 4 serão estudadas as fontes de Direito Internacional Público;
O conceito de “norma” abrange uma multiplicidade de instrumentos.
«(…) disciplinam a comunidade internacional (…)»
Engloba todos os sujeitos de direito internacional;
O conceito de “sujeitos de DI” inclui, atualmente, não só os Estados, mas também as Organizações Internacionais
(OI), os indivíduos e outros sujeitos, como as Organizações Não-Governamentais (ONG) que se envolvem nas
dinâmicas socias que vão além das fronteiras nacionais.
« (…) relações que no seu seio se estabelecem entre Estados, OI’s, particulares e outros sujeitos sui generis, definindo os
respetivos direitos e deveres (…)»
O DIP propõe-se a regular as atividades dos sujeitos internacionais que se repercutam ou envolvam outros sujeitos
(Estado-Estado; Estado-OI; indivíduo-Estado…);
Para tal, estabelece direitos e deveres mútuos que devem ser respeitados para a manutenção da ordem
internacional.
Direito Interno Direito Internacional
Instituições com competência legislativa (Ass. República, Inexistência de órgão legislativo ou executivo centralizado
Governo, Ass. Regionais)
Determinação prévia dos procedimentos normativos Inexistência de procedimentos normativos pré-definidos e
(Constituição e Lei) uniformes
Articulação das fontes de Direito pré-determinada (por ex. Inexistência de regras de hierarquia consensualmente aceites
supremacia da Constituição)
Existência de tribunais para dirimir conflitos com força Inexistência de tribunais de jurisdição obrigatória
obrigatória
Existência de uma administração para prevenir e reprimir Inexistência de uma administração competente para executar a
violações da lei e executar sentenças (administração policial, lei e as sentenças judiciais
prisional…)
História e Fundamentos do Direito Internacional Público
IDADE MÉDIA
Período-espaço fundamental: Respublica Christiana
Expansão do cristianismo » universalismo cristão;
Consolidação do poder papal » autoridade suprema do Papa (incluindo para decidir matérias de guerra e paz e
para reconhecer Reinos e Monarcas);
Fundamentação das relações entre os vários Reinos a partir do “consenso da Cristandade”: ideal teológico
comum, subordinação a um direito natural de matriz cristã e partilha de valores fundamentais de autoridade,
hierarquia e tradição.
IDADE MODERNA
Hugo Grócio – “pai do Direito Internacional”
• Jusnaturalismo secularizado;
• Procura um novo alicerce para o Direito Internacional, que não tenha uma base confessional;
• Construção de uma normatividade universal supra estadual: «existem princípios de direito natural derivados da
natureza divina, suscetíveis de captação pela razão, válidos mesmo na hipótese (…) de Deus não existir» (p. 77);
• Direito comum entre as nações, deduzido da natureza humana.
- Época Ibérica
Tratado de Tordesilhas: divisão do Mundo em duas partes, para efeitos missionários, e respetiva entrega a
Portugal e Espanha;
Ideia de mare clausum: demarcação dos mares e atribuição da respetiva jurisdição aos dois Reinos, sendo a
violação dessa demarcação sancionada com pena de excomunhão pelo Papa;
Autores de relevo: Francisco Vitória; Francisco Suárez; Luis de Molina;
Derrota do Rei D. Filipe em 1588 » início da decadência da Península Ibérica;
Direito Internacional é cada vez menos determinado pela autoridade do Papa e das potências católicas em
declínio.
Escolástica Tardia - escolástica: corrente de pensamento que procurava compatibilizar a fé (católica) com a razão.
Francisco Vitória (Salamanca):
• Defesa de uma comunidade global alicerçada no direito da razão natural;
• Construção do conceito de “guerra justa” bilateral.
Francisco Suárez (Coimbra):
• Legitimação do poder político a partir de um pacto de transferência do poder do povo para o Monarca;
• Distinção entre o recurso à força legítimo e ilegítimo, a partir de princípios de justiça natural.
Reforma protestante: questionamento do poder espiritual e político (absoluto) do Papa;
Tese protestante: defesa da soberania popular, da autodeterminação dos povos e do direito de resistência conta
tiranos;
Guerra dos Trinta Anos: conflito de natureza político-religiosa, em que o Imperador Fernando II procurou eliminar
a heresia protestante e consolidar o poder do Sacro Império Romano-Germânico;
Oposição entre visões do Mundo: perspetiva católica alicerçada no poder centralizado e supremo do Papa e
correspondente soberania dos Monarcas reconhecidos pelo papado vs. perspetiva protestante fundada na
resistência aos abusos de poder, quer religiosos, quer seculares, defensora da descentralização do poder e
soberania popular.
- Época Francesa
Paz de Vestefália (1648): tratado de paz, assinado em Osnabruck e Munster, que pôr fim à Guerra dos Trinta Anos e no
qual são afirmados alguns dos princípios basilares da evolução histórico-política, constitucional e jurídico-internacional
subsequente:
• Centralidade da figura do tratado internacional na conformação das relações entre os Estados e, por
conseguinte, da igualdade soberana dos Estados;
• Surgimento de uma pluralidade de Estados independentes, que arrogam soberania sobre o seu território
independentemente das interferências do Papa e do Imperador;
• Afirmação do princípio da tolerância religiosa;
• Reconhecimento da independência da Holanda e da Confederação Helvética (Suíça), criando condições para a
afirmação do princípio da soberania popular;
• Desconfessionalização e secularização da política, do Estado e do Direito.
Modelo de Vestefália + Expansão do absolutismo (centralização para obter receita)» fortalecimento dos Estados
soberanos na Europa;
Paradigma da monarquia absoluta: França (Luís XIV – “Rei Sol”);
Revolução Francesa » pretensão de universalidade dos ideais revolucionários;
Crescente poder e influência franceses » campanhas napoleónicas;
Reação face ao imperialismo revolucionário universalista: renascimento dos nacionalismos;
Fim da hegemonia francesa com a derrota de Napoleão (Waterloo, 1815).
IDADE CONTEMPORÂNEA
Pós-Revolução Francesa: inauguração de uma nova ordem sociopolítica – liberalismo, igualdade, direitos
fundamentais, constitucionalismo, democracia, republicanismo…
Concerto Europeu: período que mediou entre a derrota de Napoleão e a Primeira Guerra Mundial, pautado por
uma ideia de equilíbrio de poder e estabilidade (entre os Estados da Europa) – Convenção de Viena e formação da
Santa Aliança.
Aumento exponencial do número de tratados internacionais e recurso à arbitragem como meio de resolução de
litígios;
Nascimento e expansão do positivismo jurídico.
Tratado de Versalhes: põe fim à Primeira Guerra Mundial, tendo como objetivos últimos a paz e cooperação entre
os Estados;
Anexo ao Tratado de Versalhes: Pacto de criação da Sociedade das Nações (SDN).
SDN: pretendia ser um fórum aberto a todos os Estados, para discussão e resolução das questões internacionais.
SDN fracassa, mas constitui o embrião da ONU;
Pós-Segunda Guerra Mundial: assinatura da Carta da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Declaração
Universal dos Direitos do Homem;
Começam a surgir novos sujeitos de Direito Internacional: OI e indivíduos.
Resumo:
Direito Internacional contemporâneo
Valores primordiais: liberdade, igualdade, consentimento, reciprocidade e imparcialidade.
Tendência para perspetivar a comunidade internacional, não como uma rede de Estados, mas, segundo o ideal
kantiano, como uma “república mundial (…) povoada por cidadãos do mundo” (p. 92).
Primazia e universalidade dos direitos humanos.
Direito internacional alicerçado em princípios de justiça aceitáveis por todos os Estados democraticamente
legitimados e baseados no valor da dignidade da pessoa humana.
Surgimento de novos atores institucionais na cena internacional (UE, Mercosul, grupos beligerantes, territórios
sob mandato, organizações não governamentais, organizações religiosas internacionais…);
Afirmação do indivíduo como sujeito de direito internacional;
Ascensão das empresas internacionais (política e economicamente mais poderesos que muitos Estados);
Heterogeneidade de Estados (diferenças ideológicas, culturais, religiosas, económicas, territoriais, demográficas…);
Novos desafios pós-Guerra Fria, designadamente o terrorismo internacional;
Transição de um direito internacional de coexistência para um direito internacional de cooperação.