Capítulo Um
Lyssa
Adentro os corredores do Imperial College, meu novo inferno, me
sentindo estranha, para dizer o mínimo. Sinto como se tivesse
escorregado de tobogã em um novo mundo, bem diferente das paredes
da propriedade Bellerose, as quais estou acostumada.
Imperial College é a escola mais renomada do Reino Unido, estando
entre as melhores do continente. Ele abriga os herdeiros da elite do país,
equipando-os com os melhores professores e tecnologia de ponta para
estudos avançados, além dos importantes cursos para prepará-los para a
vida de responsabilidade que os aguarda. Isso é o que você encontra no
site deles.
Olhando, posso dizer facilmente que este lugar não passa de arrogante,
pomposo e corrupto, assim como os pais que são odiados pelos seus
filhos, alunos desse pandemônio. A maioria não liga para suas
responsabilidades futuras, como administrar uma grande rede de
empresas, um Estado, ou até uma fortuna de biliões. E aposto que não
ligam para o ensino de ponta que recebem, pois só se importam com
suas mesadas e a próxima loja onde vão estourar o cartão black do papai.
Estudando o papel que a diretoria me deu, contendo o número e senha
do meu armário, junto com os horários das minhas aulas, vou
caminhando até encontrar o armário preto 303. Não deixo de notar que,
apesar da quantidade de alunos nos corredores, todos andam com
elegância e classe. Bem, ao menos a maioria, já que dois idiotas esbarram
em cada lado meu, quando estou prestes a digitar meu código. Por sorte,
meu equilíbrio é mais forte e consigo me recompor sem cair de cara no
chão.
Os caras que me empurraram continuaram andando, não se
importando se uma garota caiu ou não por causa deles. Sinto que me
mandariam ao inferno se eu fosse tirar alguma satisfação, por isso tento
dar de ombros e guardar minha bolsa e livros. Eu registro suas costas
quando já estão longe, sentindo minhas bochechas queimarem de raiva.
É isso que eles ensinam por aqui? Falta de educação?
Respirando fundo, tento controlar a emoção. Tensa demais, depois de
ter vindo até aqui sozinha, sendo que apenas a ideia de sair de casa me
apavorava lá no fundo. Estou estressada, com medo e meu instinto me
diz para escapar. Eu não estaria admitindo isso a ninguém, é claro. Eu
não iria sair correndo para chorar e pedir ajuda, como fiz há um tempo,
não mesmo.
Se você não cuidar de si mesma, ninguém o fará, Dyane sempre me disse. E
aquela pequena víbora está certa, não posso mais fugir.
Passei três anos da minha vida fazendo isso, e não é uma ideia tão ruim...
Bato a porta do armário, ajeito meu blazer preto com detalhes em
dourado, que faz parte do uniforme. Começo minha busca pela sala de
ciências, a primeira aula do dia.
Solto um suspiro porque me sinto como na caça ao tesouro, só que em
vez de moedas de ouro vou encontrar um professor de meia idade em
uma sala fedendo a detergente.
Me sabotaram. Tenho certeza disso quando entro no banheiro femino,
meus passos pesados, mostrando meu nervosismo. Eu sou alheia a tudo
enquanto tiro meu blazer, ponho-o sobre a pia e avalio o estrago. Há
uma enorme mancha pálida na parte superior esquerda. Eu bufo.
Não pode ser, os experimentos nunca foram um problema para mim, eu
sei que fiz tudo certo. Aquele tubo praticamente explodiu na minha cara,
coisa que não deveria acontecer, outra certeza minha. O que me leva à
próxima certeza: alguém sabotou meu experimento quando eu devia
estar distraída.
Avaliando minha camisa branca social no espelho do banheiro vazio,
vejo que não foi danificada. Então eu jogo o blazer no lixo, decidindo
comprar um novo mais tarde, e vou lavar meu rosto com água gelada.
Eu estou tão mal quanto pensei estar. Meu rosto pálido não é incomum,
mas o roxo em volta dos meus olhos diz que não ando dormindo horas
suficientes por noite. Meus olhos verdes, estão confusos e injetados,
quase como se eu fizesse abuso de alguma substância. Meu cabelo longo
e escuro parece sem vida, combinando com a cor dos meus lábios.
Estou um lixo, eu sei. Desde que Papai se foi, tenho ficado no quarto
das gêmeas para tomar conta de Mabella, que não consegue dormir
sozinha e uma vez que Trícia não está, eu ocupo essa tarefa. Mas nunca
consigo dormir com ela chorando a noite toda, até que o sono tire a
melhor de seu corpinho. Se eu dormisse mais de três horas por noite nas
últimas semanas, seria realmente muito.
Expiro com força, aliviando a ansiedade alojada no meu peito. Não sei o
que está acontecendo comigo hoje, pareço estar no limite. O truque de
esvaziar a mente e focar no agora, que eu aprendi a utilizar, não está
querendo funcionar. Merda.
Raiva súbita me atinge e eu bato o punho fechado contra o granito da
pia, causando um baque surdo. Um soluço me faz consciente de que não
estou sozinha, como eu pensava. Tem alguém no banheiro comigo e
está… chorando.
Engoli e me lembrei de que a aula de ciências com o sr. Maddock ainda
estava acontecendo.
"Olá? Quem está aí?", eu chamo-a, um pouco hesitante.
O que há com todo mundo? Chorar não vai resolver suas merdas, muito
menos fazer sentir-se melhor. Estava seriamente cansada sobre isso.
"Vá embora!", uma voz frágil e chateada grita, me indicando que está na
última cabine à minha direita.
Ela me pediu para ir embora, era isso que eu deveria estar fazendo, não
é da minha conta. Afinal, não poderia ajudar. Mas ela estava chorando, e
não sabemos que precisamos de ajuda até alguém ajudar.
"Saia, ou então me deixe entrar", parei em frente aonde ela estava,
minha preocupação era genuína. Ouvi outro soluço, ela fungou. "Por
favor, eu só quero conversar", pedi, mesmo não fazendo ideia do que
dizer.
Um minuto depois, a porta se abriu. Tudo que vi foi ela encolhida,
segurando os joelhos e apoiando o queixo sobre eles. Havia um
emaranhado de fios escuros emoldurando seu rosto molhado pelas
lágrimas, e o rímel borrado ao redor dos olhos cor de mel, eles estavam
tristes. Ela fungou, tentando manter as lágrimas longe, mas seu corpo
magro e pequeno ainda tremia.
Uma onda de empatia passou por mim e eu estendi a mão, oferecendo
ajuda para levantar, que ela aceitou depois de me encarar como se eu
fosse um alienígena. Segurando firme sua mão, abracei sua cintura fina
com o outro braço e levei-a até as pias. A soltando, busquei um pouco de
papel e o umedeci, usando como lenço para limpar seu rosto. Sentia seus
grandes olhos me analisando enquanto me concentrava na tarefa de
arrumá-la. Apertei os lábios juntos, me impedindo de fazer perguntas
desnecessárias, mas acabei soltando um suspiro.
"O que?" Ela perguntou e eu não respondi. "Me diga, você queria
conversar", a garota me afastou de seu rosto.
Ela estava fragilizada, e agora que eu a tinha visto desse jeito, ela se
sentia desconfortável, indicando que não se mostrava nesse estado com
frequência ou nunca. Ela não precisava conversar, nem queria, mas
estava iniciando um diálogo para que eu esquecesse de que ela estava
chorando há poucos minutos. De que ela era fraca. Provando, então, que
se via como alguém fraco, mas tentava esconder essa característica, com
medo de que alguém além dela mesma pensasse isso.
Novamente, outra onda de empatia me pegou enquanto eu a analisava.
Não a enxergava como uma pessoa fraca, não que minha opinião
importasse.
"Qual o seu nome?" Perguntei finalmente, jogando o papel molhado no
lixo. Ela sorriu.
"Chelsea", disse com entusiasmo. Isso, garota, se recomponha!
"Bom, Chelsea, eu sou a Lyssa", sorri também, apertando nossas mãos
em um comprimento exagerado. "Fique sabendo que eu levo meus
segredos até o túmulo, e se me perguntarem, nunca nos vimos nessa
bagunça", apontei para o meu blazer no lixo e para seu rosto ainda
vermelho, e ela ofegou, rindo baixinho.
"Obrigada, Lyssa" Chelsea se jogou em mim, me trazendo para um
abraço apertado. Fiquei rígida a princípio, mas depois relaxei e retribuí o
gesto.
Nos soltamos, suspirando simultaneamente, fazendo as duas rirem. Ela
foi andando para a porta, dizendo que precisava ir porque estavam
esperando por ela, agradeceu de novo e disse para me cuidar. Eu ri um
pouco, já que ela parecia tímida e desajeitada, tropeçando em seus pés
antes de sair pela porta e deslizar para os corredores.
Fiquei ali por um tempo, pensando que estava feliz em ter ajudado
Chelsea. Mesmo que não tenha resolvido seu problema, acho que
consegui por um sorriso novamente em seu rosto, e talvez ele não fosse
verdadeiro, mas algo me dizia que a maioria não era.
Três horas depois, ali no refeitório, senti que poderia chorar de alegria
ao finalmente encontrar minhas irmãs no meio daquele pesadelo. Elas
estavam sentadas em uma mesa um pouco afastada, perto das janelas,
cada uma tinha sua bandeja de comida. Eu não peguei nada para comer,
estava sem apetite. Foi a manhã mais longa da minha vida, e sinto que
meus ombros só vão relaxar quando chegar em casa.
"Oh Deus, faça-a calar a merda da boca", Trícia resmungava, dando um
enorme gole da sua garrafa de água.
"Eu estou dizendo, ele era o cara mais gato que já vi…", Mabel dizia
enquanto brincava com uma mecha do seu cabelo
castanho-avermelhado.
Sentei diante delas na mesa, revirando os olhos, eu interrompi: "... Em
toda a minha vida! Sério, ele olhou para mim e foi tão mágico", copiei
seu jeito bobo de menina apaixonada, citando o mesmo discurso que ela
fazia desde que começou a reparar nos garotos.
Trícia, que obviamente estava de ressaca, ria da cara de desgosto que
sua irmã gêmea fazia ao me ter cortando seu barato. Nós a conhecíamos,
Mabel era incrível, mas tinha tendência a se apaixonar pelo primeiro
menino bonito que visse, e sempre contava uma versão romantizada dos
fatos de como se conheceram.
"Eu disse para proibir os livros de romance enquanto era tempo, no
entanto, ninguém me ouviu" Trícia lamentava, suspirando alto. "Agora,
teremos que lidar com ela até que um pobre coitado a peça em
casamento, leve ela para longe, e finalmente nos faça livres de suas
histórias esquizofrenicamente melosas".
"Você fala de mim, mas já se ouviu?", a mais nova debocha. Elas se
encaram, fazendo aquela coisa de comunicação por telepatia. Enfim,
gêmeas.
Eu senti inveja dessas duas a maior parte da minha infância. Até hoje
sinto, às vezes. A conexão que elas tinham, o vínculo, a cumplicidade,
tudo isso, eu daria qualquer coisa para ter isso com alguém. Mabel
sempre fala sobre querer encontrar sua alma gêmea, o que ela não
percebeu, é que ela está bem ao seu lado. Trícia, por outro lado, sabia, e
por isso era bem mais cética sobre encontrar o cara certo. A questão é:
elas se completavam. E eu, passei boa parte da minha vida pensando que
a minha outra metade era um grande idiota por não ter me encontrado
ainda. Bom, eu tive que crescer… mas ele ainda era um idiota.
"Já escolheram o curso que irão fazer, além dos obrigatórios?" Trícia
perguntou, me libertando dos meus devaneios.
Tínhamos cursos obrigatórios, pelo que eu entendo, precisávamos
cumprir uma certa carga horária de cada um deles para nos formar no
final do ano. Eles incluíam línguas estrangeiras, oratória, informática,
etiqueta e boas maneiras, e alguma contribuição filantrópica.
Ela e Mabel estavam conversando animadamente enquanto eu estava
calada e pensativa. Notei que as duas não pareciam nem um pouco
nervosas no primeiro dia de aula, na verdade, estavam bem animadas.
Claro, tinham razões para isso, sair um pouco da mansão devia ser um
alívio para elas. Então, pensando bem, elas não tinham com o que se
preocupar fora da mansão, eu tinha. Estremecendo, perdi o controle.
Cheiro de pneu queimado, gritos, disparos...
Sangue, cordas, dor e então...
Olhos demoníacos…
Era perigoso ir lá agora, reviver os sons, cheiros, cenas e a dor daquele
dia. Não era uma boa ideia, então me forcei a voltar.
"Vou me inscrever nas aulas de desenho, dizem que a sra. Harley é
excelente", minha irmãzinha mais nova disse. "E você, Lyssa?" Seus
olhos verdes, que eram a marca da família, eram mais suaves e claros
que os meus, traziam uma calma que eu precisava naquele momento.
"Mecânica" Respondi, a palavra me fez sorrir. Trícia revirou os olhos
para mim.
"Não tem mecânica aqui, você sabe disso", ela parecia frustrada. Eu
sorri ainda mais.
É claro que não tinha. O IC é um colégio de prestígio que ensina seus
alunos a serem como seus pais. Isso significa que jamais incentivariam
os jovens herdeiros a sujarem as mãos de graxa e fazerem o trabalho
pesado que outro subordinado possa fazer por eles. Principalmente uma
dama como eu.
"Se não tiver, vou pedir a Dyane que me transfira para outro lugar",
anunciei como se fosse algo grave.
Eu não dava a mínima. Meu plano não era ficar aqui por muito mais
tempo, e se tivesse que ser um pé no saco de Dyane, que seja.
"Você só quer ir embora, não é?", ela me conhecia.
"Olhe em volta, Trícia, parece que estamos em um filme da Disney! Não
vai demorar muito para você esbarrar em um bad boy, que no final vai
ser um príncipe. Ou a Mabel, em um nerd gatinho que vai realizar suas
fantasias mais obscuras. Ou eu, vou acabar em uma guerra com uma
vadia loira que comanda a escola", contei todo o cenário enquanto elas
me olhavam estranho. "Tá, talvez eu esteja exagerando…"
"Talvez?" Mabel arqueou a sobrancelha, depois suspirou. "OK, agora
cale a boca", fiquei quase aturdida com sua fala. "E me responda, por que
diabos a realeza está olhando para nós?" Ela parecia agitada enquanto
olhava para uma mesa atrás de mim. Realeza?
"O que quer dizer com realeza?" Perguntei a elas. Eu com certeza senti
alguns olhares nas minhas costas, eles queimavam. E mesmo assim, não
me virei.
Minhas irmãs me encaravam como se eu fosse estúpida. Achei graça do
nervosismo delas, pareciam garotinhas assustadas com a ideia de serem
pegas por comer sobremesa antes do jantar.
"Temos os reis, as rainhas, os príncipes e a princesa. Juntos, eles
formam a realeza que comanda o Imperial College. Ou seja, eles têm o
fodido poder de acabar com a sua vida dentro desse lugar, e às vezes,
fora daqui também", a gêmea mais velha explicou.
"Eles carregam sobrenomes poderosos, por isso fazem o que querem
por aí. Não existem consequências para eles" Mabel parecia quase sem
fôlego. "São unidos, e se você não é um deles, não pode fazer nada sem
permissão antes. Se desrespeitá-los, pode pagar caro por isso", agora ela
parecia meio apavorada.
Trícia voltou a falar: "Então, agora que está informada sobre o império
tirano, talvez possa nos dizer, por que todos eles estão nos encarando
agora mesmo?", só agora eu notei que as duas não paravam de olhar na
direção onde imagino estar a mesa deles.
Eu tinha que admitir, não estava muito surpresa. Afinal, o nome do
lugar é literalmente Colégio Imperial, uma hierarquia era fácil de se
prever. Todo grupo tem líderes. Mas assim como minhas irmãs, estava
curiosa para saber porquê eles levantaram seus olhos reais na nossa
direção.
O rosto de pânico das duas era impagável, eu tive de rir. Então eu me
levantei devagar, me virei e… lá estavam eles. A realeza.
Era um grupo de oito pessoas, estavam sentados em uma enorme mesa
um pouco longe de nós, isolados do resto dos alunos. Percebi rápido que
"realeza" combinava bem com a postura deles: bonitos, indiferentes e
arrogantes. Todos eles, exceto dois deles, me encaravam. E eu os
encarava de volta, mas não com a mesma intensidade e propósito - eu
estava analisando-os, já eles estavam me intimidando. A intensidade dos
olhares me queimavam e me fezeram querer correr, pela terceira vez só
nesta manhã.
Ignorei todos na mesa, porque uma das pessoas que não estava me
olhando, ganhou minha atenção: Chelsea. Sim, aquela mesma Chelsea
que encontrei chorando no banheiro, aquela a qual eu ajudei e me
agradeceu. Ela estava sentada na mesa deles, o que significava, era óbvio,
que fazia parte do grupo. A pequena pilantra tirou o olhar fixo da
bandeja e olhou para mim, logo desviando para qualquer lugar que não
fosse na minha direção.
Ah, é claro! No meu primeiro dia aqui, eu tinha que dar a sorte de esbarrar em
alguém que fazia parte de um grupo do qual todos tinham medo. Isso, garota,
bom trabalho.
Não querendo ficar mais ali, e já de saco cheio de tudo aquilo, ignorei
todos os olhos em cima de mim e fiz minha caminhada até a saída do
refeitório. Quando já estava no pátio, senti minhas irmãs no meu
encalço.
"Ei, vá mais devagar!" Uma delas gritou porque não conseguia
acompanhar meu ritmo.
"Estou atrasada para aula de biologia. Vejo vocês em casa!" Gritei, sem
me dar ao trabalho de olhar para trás.
Era mentira. Biologia era só às terças, e eu não dava a mínima de chegar
atrasada. Só queria um momento de paz, por isso corri até as escadas de
emergência. Eram dois prédios, separando o fundamental do ensino
médio. No prédio dois, onde eu estudava, havia três andares. Mas se você
subisse pelas escadas de emergência, que fica perto da secretaria,
descobriria que existia um andar a mais que nenhum aluno tinha acesso.
Era um lugar inutilizado, todo empoeirado e escuro, mas silencioso e
tranquilo. Eu imaginava que esse poderia ser o sótão do Imperial
College.
Como eu encontrei isso? Estava em uma visita para conhecer a escola,
mas em certo momento, Dyane e sra. Toussaint, a diretora, começaram a
conversar e não via o fim daquilo. Escapei de fininho e desbravei a
construção, encontrando alguns lugares interessantes, que registrei
mentalmente para ocasiões como essa. Sabia que precisaria de sossego.
Eu definitivamente não suportava multidões por muito tempo.
E aqui estava eu, apoiada no peitoril de uma das janelas, olhando para o
gramado lá embaixo, vendo que as pessoas pareciam formigas daqui. Eu
sorri com o pensamento. Estava cantando uma melodia que gostava,
observando a vista, cada detalhe. O dia estava feio, o que não era
incomum da tão nublada Londres, e talvez fosse chover mais tarde.
Suspirei, me sentindo melhor do que há minutos atrás. Acabei me
desligando por um tempo.
Fiquei imaginando o que Papai me diria se estivesse aqui, se me visse
indo para a escola novamente, enfrentando o passado e tudo mais.
Decidi que ele estaria mais do que orgulhoso de mim, como sempre
estava. Ele me olharia vestida com trajes formais do uniforme e diria que
o estilo combinava comigo, e que eu estava linda. Suspirando, quase
pude ouvir sua voz me dizendo essas coisas. Aqueles olhos
verde-acinzentados iguais aos meus, e o sorriso atencioso que possuía.
Sim, papai, eu sinto a sua falta.
Com esses pensamentos, abri os primeiros botões da camisa e passei os
dedos no ombro esquerdo, sentido a elevação na pele, causada pelas duas
cicatrizes na região. Sempre que eu ficava muito nostálgica, tocava a
cicatriz mais próxima que encontrasse. Alguns não acreditariam, mas me
trazia certa paz. Elas diziam que tudo tinha passado, que eu estava
segura… por agora.