Efeitos de Intervenção em Habilidades Socioemocionais
Efeitos de Intervenção em Habilidades Socioemocionais
Psicologia ISSN 1516-3687 (impresso), ISSN 1980-6906 (on-line). Sistema de avaliação: às cegas por pares
(double-blind review)
e Educação [Link]
Universidade Presbiteriana Mackenzie
Este artigo está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-Não
Comercial 4.0 Internacional. 1
HABILIDADES SOCIOEMOCIONAIS EM UMA INTERVENÇÃO 2
Resumo
Este estudo objetivou avaliar o efeito de uma estratégia de intervenção em Educação para Carreira visando
o desenvolvimento das habilidades socioemocionais. Participaram 62 estudantes do 9º ano do Ensino
Fundamental II de uma escola pública. Os dados foram obtidos por meio do Instrumento para Avaliação de
Habilidades Socioemocionais (Senna 2.0). Os efeitos da intervenção foram analisados nas comparações
entre o grupo de intervenção A (GA) e o grupo controle (GC), de Intervenção B (GB) e intragrupos. Os re-
sultados mostram diferenças estatisticamente significativas apenas entre grupos e em duas dimensões:
amabilidade, a favor do grupo de intervenção A (GA), e abertura ao novo no grupo de intervenção B (GB).
Tais achados mostram benefícios que o programa de intervenção para o desenvolvimento das habilidades
socioemocionais pode propiciar à Educação para a Carreira. Como limitação, destaca-se o pequeno núme-
ro de participantes, tornando-se necessários estudos com amostras maiores, visando a replicação dos
resultados. O estudo aponta aspectos metodológicos a serem considerados no delineamento de programas
de Educação para a Carreira, com mais sessões, visando maior alcance e resultados mais efetivos ao longo
do tempo.
Palavras-chave: habilidades socioemocionais, desenvolvimento socioemocional, aprendizagem socioemo-
cional, educação para a carreira, intervenção
Abstract
This study aimed to evaluate the effect of an intervention strategy in Career Education aimed at developing
socioemotional skills. Participated 62 students of the ninth grade of Elementary School II of a public school.
Data were obtained using the Instrument for the Assessment of Socio-Emotional Skills (SENNA 2.0).
Intervention effects were analyzed in comparisons between Intervention Group A (GA) and Control Group
(GC), Intervention B (GB) and intragroups. The results show statistically significant differences only between
groups and in two dimensions: Agreeableness in favor of Intervention Group A (GA) and Openness to the
new in Intervention Group B (GB). Such findings show benefits that the intervention program for the
development of socioemotional skills can provide to Career Education. As a limitation, the small number of
participants stands out, making it necessary for studies with a larger sample, aiming at replicating the
results. The study points out methodological aspects to be considered in the design of Career Education
programs, with more sessions, aiming at greater reach and more effective results over time.
Keywords: socioemotional skills, socioemotional development, socioemotional learning, career education,
intervention
Resumen
Este estudio tuvo como objetivo evaluar el efecto de una estrategia de intervención en Educación para la
Carrera dirigida al desarrollo de habilidades socioemocionales. Participaron 62 estudiantes del grado no-
veno de la Enseñanza Básica II de un colegio público. Los datos fueron obtenidos mediante el Instrumento
de Evaluación de Habilidades Socioemocionales (Senna 2.0). Los efectos de la intervención se analizaron en
comparaciones entre el Grupo de Intervención A (GA) y el Grupo de Control (GC), la Intervención B (GB) e
intragrupos. Los resultados muestran diferencias estadísticamente significativas solo entre grupos y en
dos dimensiones: Amabilidad a favor del Grupo de Intervención A (GA) y Apertura a lo nuevo en el Grupo
de Intervención B (GB). Tales hallazgos muestran los beneficios que el programa de intervención para el
desarrollo de habilidades socioemocionales puede brindar a la Educación para la Carrera. Como limitación,
se destaca el pequeño número de participantes, lo que obligó a realizar estudios con una muestra mayor,
con el objetivo de replicar los resultados. El estudio apunta aspectos metodológicos a ser considerados en
el diseño de programas de Educación para la Carrera, con más sesiones, buscando mayor alcance y resul-
tados más efectivos en el tiempo.
Palabras clave: habilidades socioemocionales, desarrollo socioemocional, aprendizaje socioemocional,
educación para la carrera, intervención
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1 O termo preferencialmente utilizado pelos autores, neste estudo, é habilidades socioemocionais, porém, pode ser
usado competências socioemocionais quando são abordados outros autores que fazem uso desse termo, ou dos dois,
competências e habilidades, como potencial humano.
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et al., 2014). Também é possível observar, nos estudos selecionados, ganhos maiores em progra-
mas com crianças pequenas e limitações nas avaliações de programas com adolescentes, como é
o caso deste estudo. O Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning [Casel] (2005)
aponta que a aprendizagem socioemocional é um processo que envolve diversas estratégias de-
senvolvidas a longo prazo, sendo fundamentais as iniciativas de pares e familiares além da pró-
pria escola e dos conteúdos ali desenvolvidos.
Tendo em consideração a relevância das práticas em Educação para a Carreira e o inves-
timento na aprendizagem socioemocional, considera-se relevante investigar uma intervenção
em Educação para a Carreira desenvolvida em uma escola da rede pública de ensino com alunos
do Ensino Fundamental II para o Ensino Médio no contexto brasileiro. Isso posto, a hipótese
deste estudo é a de que programas de intervenção em Educação para a Carreira favoreceriam o
desenvolvimento de habilidades socioemocionais e habilidades de carreira. Assim sendo, este
estudo objetiva avaliar o efeito de uma estratégia de intervenção em Educação para Carreira com
foco no desenvolvimento das habilidades socioemocionais e de carreira com alunos do 9º ano de
uma escola pública brasileira, visando analisar dois grupos: um de intervenção e um de compa-
ração, em três momentos do processo.
Método
Tipo de estudo e participantes
Este estudo baseou-se no delineamento quase experimental, com medidas de pré-teste/
pós-teste com grupo controle não equivalente, cujas características são apresentadas posterior-
mente. A amostra foi selecionada por conveniência, tendo em vista que se trata de um estudo em
uma escola com apenas duas turmas de 9º ano. A amostra constituiu-se inicialmente por 70
adolescentes que estavam cursando em 2019 o 9º ano do Ensino Fundamental II. Os dados foram
coletados em uma escola pública da rede estadual de ensino de uma cidade do interior do Estado
de São Paulo. Foram organizados dois grupos: o grupo de intervenção A (GA) e um grupo contro-
le (GC). Inicialmente o GA foi composto por 34 participantes, sendo que a maioria tinha 14 anos
de idade (94.1%) e era do sexo masculino (61.8%). Considerando os alunos com as duas medidas,
o grupo contém 31 participantes. O GC, no início da coleta de dados, tinha 38 participantes; a
maioria era do sexo masculino (57.5%) e tinha 14 anos de idade (70%). Considerando os alunos
com as duas medidas, o grupo contém 31 participantes, que fizeram parte da amostra final do
GC. Ou seja, a amostra final considerada nas análises foi constituída de 62 participantes. O gru-
po de untervenção A (GA) foi desenvolvido no primeiro semestre de 2019. O grupo controle (GC)
passou pela intervenção no segundo semestre de 2019, e foi nomeado de grupo de intervenção
B (GB). Todos foram pré-testados ao mesmo tempo no início da pesquisa, e essa testagem foi
denominada Momento 1. O pós-teste 1, chamado de Momento 2, foi aplicado no final do pri-
meiro semestre. Após a intervenção do grupo de intervenção B (GB), ou seja, no Momento 3,
todos passaram novamente pela testagem, denominada pós-teste 2.
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Instrumentos
Instrumento para avaliação de habilidades socioemocionais - Senna 2.0. Denominado em sua
primeira versão Social and Emotional or Non-cognitive Nationwide Assessment (Senna 1.0) (Primi
et al., 2016), o instrumento passou por mudanças e uma nova versão foi elaborada e denomina-
da Instrumento para Avaliação de Habilidades Socioemocionais (Senna 2.0) (Primi et al., 2021),
utilizada neste estudo. Trata-se de uma medida que permite traçar o perfil de habilidades so-
cioemocionais em crianças e adolescentes na faixa etária de 11 a 19 anos, como aponta o título
do instrumento. Tem por base as cinco dimensões do modelo Big Five, denominadas macrocom-
petências no Senna – em um modelo amplo e abrangente, que organiza cinco dimensões nuclea-
res com 17 conceitos mais específicos denominados facetas ou competências (Sette & Alves,
2021)2. No Senna 2.0, as macrocompetências são: (a) Amabilidade (A) [competências: empatia,
respeito, confiança]; (b) Autogestão (C) [competências: determinação, organização, foco, persis-
tência, responsabilidade], na versão anterior era denominado Conscienciosidade; (c) Engajamen-
to com os outros (E) [competências: iniciativa social, assertividade, entusiasmo], na versão an-
terior era Extroversão; (d) Resiliência emocional (N) [competências: tolerância ao estresse,
autoconfiança, tolerância à frustração], na versão anterior era denominado Estabilidade emocio-
nal; e (e) Abertura ao novo (O) [competências: curiosidade para aprender, imaginação criativa,
interesse artístico].
As dimensões do Big Five possuem o acrônimo ocean, em que cada letra representa uma
dessas dimensões, como explicado no parágrafo anterior. Vale ressaltar que enquanto nas habili-
dades socioemocionais podem ser denominadas macrocompetências, a literatura da área as chama
de dimensões, sendo compostas por facetas. As dimensões explicam o funcionamento mais amplo,
já as facetas descrevem com maior especificidade um comportamento (Sette & Alves, 2021).
Cada faceta ou competência é composta por itens que tratam de questões de identidade
e de autoeficácia. Existem duas versões do Senna 2.0, uma com 162 itens (completa) e outra com
54. Neste estudo foi usada a versão com 54 itens, uma vez que ela tem os mesmos valores psi-
cométricos que a versão completa, mas pode ser aplicada em situações que requerem um instru-
mento de menor tempo de aplicação. Isso foi considerado na escolha para uso nesta investigação,
uma vez que o instrumento foi aplicado três vezes nos mesmos participantes.
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3 Campos et al. (2020). Adaptação e evidências de validade baseadas na estrutura interna da Escala de Domínios de
Criatividade. Psico, 51(3), e34502. [Link]
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grupo para delinear melhor as ações e as atividades, e ao final da intervenção para avaliar se hou-
ve ou não as mudanças pretendidas. A função do grupo controle, neste desenho metodológico, foi
verificar se houve alguma mudança entre o grupo que recebeu a intervenção e o grupo que não a
recebeu, e se elas são decorrentes do desenvolvimento natural ou se podem ser atribuídas ao efei-
to da intervenção. Este estudo caracteriza-se como delineamento quase experimental, pois os
“grupos podem não ser equivalentes, porque os participantes não foram aleatoriamente distribuí-
dos pelas condições”, uma vez que participaram as duas turmas de 9º ano da escola e sendo os
grupos separados de acordo com esse critério (9º ano A foi escolhido como grupo de intervenção
A (GA) e 9º ano B como grupo controle (GC). No semestre seguinte, o GC participou de uma inter-
venção, passando a ser denominado grupo de intervenção B (GB). Entre as vantagens dessa meto-
dologia, destaca-se a redução de custos e a possibilidade de intervir em ambientes específicos,
onde não é possível uma distribuição aleatória dos participantes, como é o caso deste estudo, em
que a melhor condição para a coleta foi a organização dos grupos por turma (Shaughnessy et al.,
2012), que foi a condição da escola para a realização da pesquisa-intervenção. O delineamento
quase experimental com pré-teste e pós-teste com grupo controle não equivalente é uma meto-
dologia bastante utilizada em estudos de avaliação de programas e serviços.
Delineou-se um programa de intervenção com 14 sessões, incluindo as de pré e de pós-
-testagem dos participantes, com encontros semanais de aproximadamente 90 minutos, e den-
tro da disponibilidade de horário ofertada pela escola. A intervenção focalizou dois eixos centrais:
(a) as habilidades socioemocionais, com cinco sessões, e (b) as habilidades de carreira, também
com cinco sessões que objetivaram a ativação dos comportamentos exploratórios e de autoco-
nhecimento, a clarificação dos interesses profissionais e a informação sobre mundo do trabalho
e dos campos de atuação. Para avaliação do segundo eixo da intervenção, elaborou-se outro
estudo (submetido à publicação), cujas competências de carreira foram avaliadas por meio da
Escala de Maturidade para a Escolha Profissional [Emep] (Neiva, 1999, 2014). Também utilizou-
-se um questionário de avaliação da intervenção, com os feedbacks dos alunos a respeito da ex-
periência com o programa e a aprendizagem ao longo do processo de intervenção em Educação
para a Carreira. Registram-se outras avaliações, neste estudo, com o objetivo de esclarecimento
sobre a estratégia de intervenção desenvolvida.
No que se refere ao eixo desenvolvimento das habilidades socioemocionais, este conteú-
do iniciou-se na segunda sessão do programa. A primeira sessão da intervenção objetivou a
apresentação, o estabelecimento das regras (combinados) e a exploração do autoconceito. A
segunda sessão focalizou o desenvolvimento da habilidade Amabilidade, e foram usadas ativida-
des como troca de papéis entre os participantes diante de algumas situações complexas que eles
vivenciavam em casa e na escola, com apresentação e discussão das “palavras mágicas” e vídeos.
A terceira sessão objetivou o desenvolvimento da habilidade Engajamento com os outros, sendo
usados vídeos e role plays dos tipos de comunicação (assertiva, passiva e agressiva). A quarta
sessão focalizou o desenvolvimento da habilidade Resiliência emocional, sendo feita a apresen-
tação em slides de vinhetas âncoras do Senna 1,0, representadas por personagens. A tarefa era
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momentos da intervenção, com as médias, medianas, desvio padrão e erro padrão. Os efeitos da
intervenção são apresentados nos resultados em duas grandes seções: as comparações Entre
grupos e as comparações Intragrupos. Na seção Entre grupos, os resultados estão organizados
por momentos da intervenção, e na seção Intragrupos, de acordo com o grupo avaliado.
Resultados
Para além das análises que serão apresentadas na seção Resultados, também foi elabo-
rada a Tabela 1 com a análise descritiva, incluindo as médias, medianas, desvio padrão e erro
padrão por cada grupo nos Momentos 1, 2 e 3 nos cinco domínios do Senna 2.0. As descritivas
encontram-se divididas em valores entre grupos e intragrupos.
Tabela 1
Descritivas obtidas nas comparações entre grupos e intragrupos
Entre grupos
-0.60 0.98/ -0.48 0.69/ -0.66 0.99/ -0.48 0.73/ -0.82 0.93/ -0.23 1.20/
Abertura
(-0.54) 0.17 (-0.68) 0.12 (-0.81) 0.17 (-0.54) 0.12 (-0.54) 0.17 (-0.26) 0.21
-0.13 1.35/ -0.63 0.99/ -0.09 0.92/ -0.27 1.15/ -0.23 1.11/ -0.19 1.00/
Autogestão
(0.04) 0.24 (-0.77) 0.17 (-0.09) 0.16 (-0.20) 0.19 (-0.39) 0.20 (-0.30) 0.17
-0.47 1.89/ -0.31 1.33/ -0.54 1.44/ -0.33 1.71/ -0.39 1.80/ -0.31 1.82/
Engajamento
(-0.68) 0.33 (-0.30) 0.22 (-0.68) 0.25 (-0.68) 0.28 (-0.68) 0.32 (-0.11) 0.32
-0.16 1.25/ -0.81 1.06/ -0.16 1.21/ -0.42 1.44/ -0.18 1.13/ -0.66 0.97/
Amabilidade
(-0.18) 0.22 (-0.80) 0.18 (-0.08) 0.21 (-0.55) 0.24 (-028) 0.20 (-1.10) 0.17
Resiliência -0.69 1.37/ -0.94 1.40/ -0.56 1.28/ -0.58 1.85/ -0.71 1.29/ -0.56 1.29/
emocional (-0.90) 0.24 (-1.06) 0.24 (-0.58) 0.22 (-0.58) 0.31 (-0.58) 0.23 (-0.74) 0.22
Intragrupos
Notas: GA1 = Grupo de intervenção A Momento 1; GC1 = Grupo controle Momento 1; GA2 = Grupo de intervenção A
Momento 2; GC2 = Grupo controle Momento 2; GA3 = Grupo de intervenção A Momento 3; GB3 = Grupo de intervenção
B; х̃ = Média; Md = Mediana; SD = Desvio padrão; SE = Erro padrão; GA12 = Grupo de intervenção A Momentos 1 e 2;
GC12 = Grupo controle Momentos 1 e 2; GA23 = Grupo de intervenção A Momentos 2 e 3; GC23 = Grupo controle Mo-
mentos 2 e 3; х̃ 1 = Média Momento 1; Md1= Mediana Momento 1; SD1 = desvio padrão Momento 1; SE1 = Erro padrão
Momento 1; х̃ 2 = Média Momento 2; Md2= Mediana Momento 2; SD2 = desvio padrão Momento 2; SE2 = Erro padrão
Momento 2; х̃ 3 = Média Momento 3; Md3= Mediana Momento 3; SD3 = desvio padrão Momento 3; SE3 = Erro padrão
Momento 3.
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Tabela 2
Comparação de médias entre grupos dos Momentos 1, 2 e 3 para os grupos GA e GC/GB
Comparação no Momento 1
Teste t de Student
Dimensão t p d
A 2.29 0.02 0.56
C 1.73 0.08 0.42
N 0.74 0.46 0.18
O -0.57 0.57 -0.14
Teste U de Mann-Whitney
Dimensão U p rpb
E 494 0.41 0.12
Comparação no Momento 2
Teste t de Student
Dimensão t p d
C 0,71 0.48 0.17
Teste U de Mann-Whitney
Dimensão U p rpb
Teste t de Student
Dimensão t p d
A 1.83 0.07 0.46
C -0.12 0.90 -0.03
N -0.47 0.64 -0.12
Teste U de Mann-Whitney
Dimensão U p rpb
E 458 0.47 0.11
O 355 0.04 0.31
Notas: A = Dimensão Amabilidade; C = Dimensão Autogestão; O = Dimensão Abertura ao novo; N = Dimensão Resi-
liência emocional; E = Dimensão Engajamento com os outros; d = tamanho do efeito de d de Cohen; rpb = tamanho
do efeito da correlação de ponto bisserial.
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Comparações intragrupos
Tabela 3
Comparação de médias intragrupos dos Momentos 1-2 e 2-3 para o grupo GA
Teste t de Student
Momento intragrupo t p d
Teste W de Wilcoxon
Notas: A = Dimensão Amabilidade; C = Dimensão Autogestão; O = Dimensão Abertura ao novo; N = Dimensão Resi-
liência emocional; E = Dimensão Engajamento com os outros; ‘1’ = Aplicação no Momento 1; ‘2’ = Aplicação no Momen-
to 2; ‘3’ = Aplicação no Momento 3; d = tamanho do efeito de d de Cohen; rpb = tamanho do efeito da correlação de
ponto bisserial.
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teste t de Student foi utilizado. Quando não, o teste W de Wilcoxon foi utilizado. Os resultados
são apresentados na Tabela 4.
Tabela 4
Comparação de médias intragrupos dos Momentos 1-2 e 2-3 para o grupo GC/GB
Teste t de Student
Momento intragrupo t p d
Teste W de Wilcoxon
Notas: A = Dimensão Amabilidade; C = Dimensão Autogestão; O = Dimensão Abertura ao novo; N = Dimensão Resi-
liência emocional; E = Dimensão Engajamento com os outros; ‘1’ = Aplicação no Momento 1; ‘2’ = Aplicação no Momen-
to 2; ‘3’ = Aplicação no Momento 3; d = tamanho do efeito de d de Cohen; rpb = tamanho do efeito da correlação de
ponto bisserial.
Discussão
Este estudo objetivou avaliar o efeito de uma estratégia de intervenção em Educação
para a Carreira com foco no desenvolvimento das habilidades socioemocionais e habilidades de
carreira, com alunos do 9º ano de uma escola pública brasileira. Retomando, os alunos foram
avaliados em três momentos: antes da intervenção, após a intervenção e cinco meses depois,
para o grupo de intervenção A (GA). Vale relembrar que o grupo controle teve a intervenção
realizada após o pós-teste do GA.
Ao verificar os resultados da análise descritiva na Tabela 1, observa-se, na comparação
das médias nos Momentos 1-2, que elas foram maiores no Momento 1 nos domínios Engajamen-
to com os outros (E) e Abertura ao novo (O), enquanto nos demais domínios, o Momento 2
apresentou valores mais elevados. Deve-se destacar que uma vez que se trata do grupo
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com as preocupações direcionadas à próxima etapa do ciclo escolar, o que foi dito pelos partici-
pantes na entrevista de devolutiva realizada ao final do processo de intervenção.
A ausência de diferenças estatisticamente significativas pode estar relacionada ao tama-
nho da amostra, pequena (n 62) e teoricamente insuficiente do ponto de vista estatístico para
observar diferenças válidas. Nesse sentido, destaca-se a necessidade de estudos com número
maior de participantes. Outro aspecto importante no que se refere à ausência de efeitos obser-
váveis estatisticamente nos demais domínios avaliados nas comparações entre grupos e nas
comparações intragrupos é o tempo relativamente curto da intervenção, uma limitação deste
estudo. Embora o programa tenha sido desenvolvido em 12 sessões, apenas cinco focalizaram
especificamente o desenvolvimento de habilidades socioemocionais. Isso pode ter amenizado os
efeitos da intervenção nesta variável.
Além disso, conforme visto na revisão de literatura, as intervenções focalizadas no desen-
volvimento de habilidades socioemocionais variaram bastante, de oito a 40 sessões. E nem todas
obtiveram os resultados pretendidos. No estudo de Zyga et al. (2018), com oito sessões, obser-
vou-se a promoção de algumas mudanças nos níveis socioemocionais, mas as análises indicaram
que os ganhos estavam relacionados a fatores escolares e individuais. O estudo de Sidera et al.
(2019), realizado em 11 sessões, também não se mostrou eficaz na redução da agressividade ou
na obtenção de melhoras do nível de empatia ou desconexão moral por meio do desenvolvimen-
to das habilidades socioemocionais. O de Kiviruusu et al. (2016) teve duração de seis meses, mas
não foram encontradas diferenças, o que os autores relacionaram com o tempo relativamente
curto da aula dedicada ao programa. O de Leal et al. (2020), com 12 sessões, obteve resultados
positivos no desenvolvimento socioemocional e na exploração de carreira. Os estudos de Garcia
et al. (2019) e Pavoski et al. (2018), com 14 sessões, promoveram a redução dos sintomas ansio-
sos e depressivos. O estudo de Romero et al. (2019), com 19 sessões, e o de Chaux et al. (2017),
com 40 sessões, apresentaram redução dos problemas de comportamento e agressividade.
Ou seja, além de uma grande variabilidade na duração das intervenções, todos apresen-
taram um número maior de sessões focalizadas especificamente no desenvolvimento socioemo-
cional quando comparados ao presente estudo. A ausência de resultados nesta investigação cor-
robora as considerações do estudo de Kiviruusu et al. (2016), que também apontam o período de
seguimento, relativamente curto, como um fator influenciador na ausência de resultados da in-
tervenção.
Destaca-se que outros fatores devem ser considerados ao avaliar os resultados do efeito
da intervenção no que se refere ao desenvolvimento de habilidades socioemocionais. Dentre eles,
incluem-se o grau de participação e de engajamento dos participantes, o que poderia influenciar
a ausência de resultados significativos quando se analisa o efeito da intervenção entre grupos e
intragrupos. Nesse sentido, deve-se ponderar sobre o fato de a coordenadora do programa não
fazer parte do círculo de convivência dos participantes, sendo uma agente externa, de fora da
escola, o que pode ter comprometido o desenvolvimento do vínculo necessário para um melhor
engajamento dos participantes nas atividades propostas.
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Também se pontua que cada aluno possui um nível específico de desenvolvimento das
habilidades socioemocionais. Isso fica claro nos resultados tanto das comparações entre grupos
quanto intragrupos, nas quais se observa uma grande dispersão nos valores das médias e media-
nas apresentados nos cinco domínios avaliados ao verificar os valores da Tabela 1. Essa hetero-
geneidade sinaliza que os alunos apresentavam desenvolvimento dos cinco domínios bastante
distinto e amplo, podendo refletir inclusive na ausência de resultados verificáveis estatistica-
mente. O conteúdo de cada dimensão ou macrocompetência desenvolvido em uma sessão tam-
bém era de certa forma complexo para ser desenvolvido em um único encontro, afinal, não se
modificam facilmente dimensões psicológicas, o que requer programas de maior duração no
tempo. Essa pode ter sido uma das limitações tanto da intervenção quanto do estudo.
De forma geral, os resultados encontrados no presente estudo sinalizam pistas para o
desenvolvimento de futuras pesquisas e intervenções. Além disso, apontam aspectos metodoló-
gicos a serem discutidos, objetivando qualificar as práticas. Assim também para a elaboração de
políticas públicas que visem a universalização da oferta de programas e serviços, com foco na
Educação para a Carreira e no desenvolvimento socioemocional. Como apontado por Evans et al.
(2015) e Freeman et al. (2014), as práticas de Educação para a Carreira se desenvolvem em mo-
dalidades e formas distintas de intervenção, assim, são recomendados estudos sobre modelos de
intervenção. Como desdobramento deste estudo, sugerem-se futuras investigações também so-
bre instrumentos de avaliação das intervenções. Propõe-se que futuras intervenções sejam de-
senvolvidas durante todo o ano letivo ou mesmo durante todas as etapas escolares, conforme o
objetivo inicial das práticas de Educação para a Carreira, visando promover o desenvolvimento da
consciência e de competências de carreira e de habilidades para a vida desde a infância.
Nesse sentido, uma oportunidade para avaliar futuramente possíveis efeitos de interven-
ções de longa duração seria por meio das competências propostas pela BNCC, que vêm sendo
implementadas de variadas formas pelas escolas brasileiras, uma vez que além de incluir o de-
senvolvimento das habilidades socioemocionais na escola, entre as dez competências-chave,
encontra-se o Projeto de Vida e Trabalho, o que se aproxima das práticas de Educação para a
Carreira desenvolvidas principalmente no contexto internacional.
Tendo em consideração a relevância das práticas em Educação para a Carreira e o inves-
timento na aprendizagem socioemocional para o desenvolvimento pessoal, o sucesso acadêmico,
a adaptação ao trabalho e outras variáveis de carreira, torna-se cada vez mais necessária a im-
plementação de programas em instituições de ensino com enfoque no desenvolvimento de ha-
bilidades socioemocionais (Durlak et al., 2011; Garcia et al., 2019; Leal et al., 2020; Pavoski et al.,
2018; Primi et al., 2016; Romero et al., 2019). Se programas com enfoque socioemocional forem
bem-sucedidos, além de tornar o jovem mais engajado em seu desempenho acadêmico, pode
também prepará-lo para as novas demandas da vida e do trabalho, que se encontram em cons-
tante atualização e requerem dos trabalhadores inúmeras habilidades que possibilitem melhor
adaptabilidade ao mundo do trabalho e capacidade de enfrentamento dos inúmeros e complexos
desafios que a contemporaneidade apresenta ao ser humano e aos coletivos.
Psicologia: Teoria e Prática, 25(3), ePTPPE14759. São Paulo, SP, 2023. ISSN 1980-6906 (on-line).
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