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Guerra na Ucrânia e Drones no Exército

A legitimação só se torna visível como problema e objecto de estudo quando é questionada.

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Nabiacus
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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n.

º 740 / mensal / maio 2024 / € 2,00

A Guerra na Ucrânia e o Poder


Terrestre
35144
Major-General João Vieira Borges
Aplicabilidade dos Drones no
ército
SUMÁRIO

06 18 62
05 Editorial
06 Em Foco
ORION 2024 Órgão de divulgação e preservação da cultura
militar, nos termos da alínea a), do artigo 75.º, do
18 Atualidades Decreto Regulamentar n.º 11/2015, de 31 de julho

O Mundo em Perspetiva
PROPRIEDADE DO ESTADO-MAIOR DO
A Guerra na Ucrânia e o Poder Terrestre 18 EXÉRCITO
Morada: Rua do Museu da Artilharia, 1149-065

Doutrina LISBOA
Contactos: Tel. civil: 218 842 300 | Tel. militar –
O Ensino da Tática 22 423 000 | Fax civil: 218 842 527 | Fax militar: 423
227 | e-mail: eme@[Link] | Sede da Direção,
Redação, Edição e Administração: Palácio dos
Exercícios Condes de Resende, Campo de Santa Clara, 34,
1100-469 Lisboa
Exercício STRONG IMPACT 24 30 NIPC: 600021610 | Contactos: Tel. civil: 213 567
795 | Tel. militar: 414 026 | Fax civil: 213 567 791
Exercício CARPHATOS SHIELD 241 38 | Fax militar: 414 091 | e-mails: JE@[Link] |
site oficial: [Link] | Estatuto Editorial:
Aprontamento [Link]
zacao/ceme/gabeceme/je
Aprontamento da 5.ª FND CatMec/ROU 42
Diretor:
O Aprontamento do Pelotão de Carros de Combate como
Subdiretor e Chefe de Redação:
contributo Nacional para o Multinational Battle Group Slovakia 48
Condutor do Diretor:
Divulgação Cabo-Adjunto Márcio Quintela
Redatores/Revisores:
Imagens de Alcácer-Quibir – Emoção e Criatividade 54 Alferes Frederica Cunha
Técnica Superior Ana Rita Carvalho

Imagem do Mês
Assistente de Redação:
60 Sargento-Ajudante Mónica Martins
Design/Paginação:

62 Cultura e Lazer
Alferes Vânia Fernandes
Técnica Superior Tânia Espírito Santo
Assistente Técnico Nelson Pinho
Visão da História Secretaria e Distribuição:
Sargento-Chefe David Custódio
O Monte das Tabocas: O começo da derrota dos Cabo-Adjunto Ana Gavino

Holandeses no Brasil 62 Grafismo:


Sargento-Ajudante Mónica Martins
Técnica Superior Tânia Espírito Santo
Testemunho
Colaboração Fotográfica:
O Português é um cidadão do Mundo 72 CAVE; DCE
Impressão Gráfica:
Livros e Revistas 74 Greca – Artes Gráficas, Lda. – Rua José Maria
Baptista Valente, 194 Armazém – A
4465-260 S. Mamede de Infesta,

78 Desporto e Saúde Tel: 229 069 660, e-mail: comercial@[Link]


Tiragem: 3000 exemplares. Depósito Legal n.º
1465/82 ISSN – 0871/8598. Preço de Capa:

82
€2,00; Assinatura anual (11 números): via
Acontecimentos superfície – Continente, Açores e Madeira:
€20,00; via aérea – países europeus: €45,00;
restantes países: €65,00.

Os artigos publicados com indicação de autor são


da inteira responsabilidade dos mes­­mos, não refle-
Capa: tindo, necessariamente, o pensamento do Coman-
Exercício ORION 24 (Centro de Audiovisuais do Exército) do do Exército Português.

3
EDITORIAL
Caros leitores,

N
a edição de maio do Jornal do Exército, o nos- em torno desta complexa figura da nossa História.
so enfoque vai para o Exercício ORION 2024, Na parte da revista dedicada à Cultura e Lazer, con-
que envolveu 1 400 militares, incluindo for- cretamente na Visão da História, damos à estampa o ar-
ças estrangeiras. Com uma longa tradição no treino ope- tigo “O Monte das Tabocas: O começo da derrota dos
racional do Exército Português, o ORION é o principal Holandeses no Brasil”, da autoria do Coronel Hermes
exercício realizado em solo nacional, inserido no Military Gonçalves, Oficial de Ligação para os Assuntos Culturais
Training and Exercise Programme da Aliança Atlântica. e Doutrinários do Exército Brasileiro, em que nos narra
Na rubrica Atualidades, apresentamos uma disser- as ações militares dos portugueses e indígenas, no nor-
tação do Major-General Vieira Borges, que nos traz um deste do Brasil, no contexto das invasões holandesas, em
artigo intitulado “A Guerra na Ucrânia e o Poder Terres- meados do século XVII.
tre”. Começando por caraterizar o ambiente operacional Ainda na Visão da História, o Dr. Miguel Laranjei-
da atualidade, o autor propõe nove pontos para reflexão, ra evoca um episódio por si vivido, quando em missão
através dos quais analisa a atuação das Forças em conten- na Bósnia-Herzegovina. “O português é um cidadão do
da, os esforços internacionais, incluindo a ajuda de Portu- mundo”, assim se intitula a sua sugestiva crónica, entre o
gal, e as consequências do conflito para o poder terrestre. tom divertido e a reflexão séria sobre a forma de ser e de
Também no âmbito doutrinário, o Major-General estar do militar português, quando e onde é chamado a
Fonseca Rijo apresenta-nos uma interessante dissertação desempenhar a sua missão.
sobre o ensino da Tática, partindo de um conceito em que O Jornal do Exército agradece o valioso contributo
se conjugam ciência e arte. Intitulado “Ensino da Tática”, destes seus ilustres colaboradores.
o artigo evoca o pensamento de Carl Von Clausewitz e, Boas leituras!
revisitando diversos autores, questiona o porquê de en-
sinar Tática e quais as vantagens que resultam, para um
Exército, da formação dos seus quadros nesse domínio
essencial na Arte da Guerra. Jornal do Exército
O Jornal do Exército sente-se honrado com o presti-
moso contributo dos nossos Generais, que em muito vem
enriquecer esta publicação.
No que respeita ao treino operacional, destacam-se
os Exercícios STRONG IMPACT 24 e CARPHATOS
SHIELD 241, ambos realizados no Campo Militar de
Santa Margarida. O STRONG IMPACT é o maior Exer-
cício de Apoio de Fogos do Exército Português. O CAR-
PHATOS SHIELD insere-se âmbito do aprontamento
da Companhia de Atiradores Mecanizada de Rodas, que
constitui a 5.ª Força Nacional Destacada para a Roménia.
No mesmo âmbito, divulgamos o artigo “Apronta-
mento da 5.ª FND CAtMec/ROU”, da autoria do Capitão
de Infantaria João Lopes, Segundo Comandante da Com-
panhia de Atiradores Mecanizada de Rodas, da Força Na-
cional Destacada para a Roménia, no qual é descrita a
missão, a constituição e o aprontamento da Força, que,
em maio, foi projetada para o Teatro de Operações.
Também sobre o aprontamento de Forças discorre a
Tenente-Coronel de Cavalaria Elisabete Silva, Coman-
dante do Grupo de Carros de Combate, no seu artigo “O
aprontamento do Pelotão de Carros de Combate como
contributo nacional para o Multinational Battle Group
Slovakia”, em que nos fala do Pelotão de Carros de Com-
bate Leopard 2 A6, a ser projetado para a fronteira leste
da Aliança Atlântica.
Publicamos, ainda, um artigo do Professor Vítor de
Oliveira, intitulado “Imagens de Alcácer-Quibir – Emo-
ção e Criatividade”. Revisitando o mito sebastianista, o
autor interpreta algumas imagens representativas do Rei
Desejado e da trágica Batalha de Alcácer-Quibir, que, ao Capa do Jornal do Exército, agosto de 1973, INFANTARIA AO
longo dos tempos, têm preenchido o imaginário nacional ASSALTO (GUERRA DE 1914-1918) - Quadro a óleo da época

5
Frederica Cunha

Alferes
Redatora do Jornal do Exército

ORION 2024
O Exército Português realizou com sucesso o Exercício Militar
ORION24 no Campo Militar de Santa Margarida, entre os dias 29 de
abril e 10 de maio, contando com a participação de mais de 1400
participantes, incluindo forças estrangeiras

O
Campo Militar de Santa Margarida, em Cons- tuguês, o Exercício ORION é o principal evento tático rea-
tância, foi palco do Exercício ORION 2024, lizado em solo nacional, inserido no Military Training and
realizado entre 29 de abril e 10 de maio. Com Exercise Programme (MTEP) da Aliança Atlântica. Este
uma longa tradição no treino operacional do Exército Por- Exercício tem como missão primordial proporcionar um

6
EM FOCO

ambiente de treino altamente realista de uma forma regular e sistemática a interoperabilidade tática em opera-
às Unidades Operacionais do Exérci- planear uma série de exercícios com ções conduzidas num ambiente mul-
to Português, simulando fielmente as vista à manutenção e aperfeiçoamen- tinacional, num cenário de Conflito
condições das operações militares. to das capacidades operacionais dos de Elevada Intensidade, de acordo
A exemplo de edições anteriores, militares, individual e coletivamen- com o Artigo 5.º da NATO. Este ar-
o Jornal do Exército marcou presença te, assim como do Exército na sua tigo estabelece o princípio da defesa
no Campo Militar de Santa Margari- globalidade. mútua entre os países membros da
da para uma cobertura exclusiva do Na sua concretização, o ORION Aliança, ou seja, estabelece que um
Exercício ORION, onde teve o pri- 24 assume-se como um Exercício ataque armado contra um ou mais
vilégio de entrevistar o Comandan- que tem por objetivo a manutenção dos países aliados na Europa ou na
te da Brigada Mecanizada, General e aperfeiçoamento das capacidades América do Norte será considerado
Calmeiro, e o Diretor do Exercício, operacionais dos militares, a nível in- um ataque contra todos os membros.
Coronel Ferreira. dividual e coletivo, bem como treinar Isso significa que os países membros
“O ORION é o principal Exercício o planeamento e a execução de ope- da NATO se comprometem a prestar
Tático do Exército Português, trata-se rações de combate, incrementando a assistência, incluindo o uso da for-
de um Exercício que é programado
pelo Exército Português, está inseri-
do no programa de treino e exercícios
militares da Organização do Tratado
do Atlântico Norte, e é liderado ou
conduzido pelo Comando das Forças
Terrestres.” – Diretor do Exercício,
Coronel Ferreira
Na sua elocução, o Brigadeiro-
-General Calmeiro, Comandante da
Brigada, deu-nos a entender que “O
ORION é o principal Exercício Tático
do Exército Português. Este Exercício
ORION é naturalmente liderado pelo
Comando das Forças Terrestres. É o
culminar do plano integrado de treino
operacional do Exército.”
O Comando das Forças Terrestres
(CFT), ao longo dos anos e no âmbi-
to do treino operacional, tem vindo

JE 740 > maio 2024 >>> 7


ça, em resposta a um ataque armado operações atuais e futuras da NATO, O ORION, o Exercício em si este ano,
contra qualquer um deles. O Artigo refletindo a constante preparação tem objetivos específicos também, por
5.º foi invocado apenas uma vez na do Exército para enfrentar desafios exemplo, o objetivo macro – treinar as
história da NATO, após os ataques de convencionais em conflitos dessa forças -, mas tem objetivos específicos
11 de setembro nos EUA, demons- natureza. que passam por desenvolver o planea-
trando o compromisso dos membros “O Objetivo do Exercício ORION, mento, o controlo e a execução tática
da Aliança com a defesa coletiva e a grosso modo, é treinar as audiências de uma operação no âmbito de uma
segurança mútua. de treino. Treinar em que áreas? Trei- grande operação conjunta, com foco
O Diretor do Exercício, Coronel nar o planeamento e execução de ope- numa operação defensiva, móvel, exe-
Ferreira, ressaltou a importância de rações de combate, para melhorar a cutando um retardamento, como foi o
treinar operações de alta intensidade, proficiência e a interoperabilidade no caso deste ano em que está a ser trei-
alinhadas com as atuais situações no ambiente multinacional num cenário nado.” – Diretor do Exercício, Coro-
leste da Europa, onde forças portu- de Conflito de Alta Intensidade no nel Ferreira
guesas estão destacadas. O cenário âmbito das Missões do Artigo 5.º da É importante referir que esta ne-
realista do ORION é baseado em NATO, o que é o caso do ORION24. cessidade de treinar conflitos de alta
intensidade, tendo em conta o Arti-
go 5.º da NATO, não surge da atual
situação que se vive entre a Ucrânia
e a Rússia, Israel e Hamas, o Con-
flito Azerbaijão com a Arménia, a
Guerra da Síria ou até a Guerra civil
no Iémen, mas da necessidade de o
Exército analisar a sua capacidade
de desenvolver operações conven-
cionais no âmbito de conflitos desta
natureza.
“Nós procuramos, efetivamente,
estar em linha com as atuais opera-
ções que estão a decorrer no leste da
Europa. E nós temos forças destacadas
precisamente na Roménia, e o cenário
que está a ser jogado, ou que é contem-
plado neste Exercício, é precisamente
um cenário realista, é um cenário que
foi trabalhado pela NATO e que é pre-
cisamente baseado em Operações cor-

8
EM FOCO

rentes e futuras da Aliança Atlântica.”


– Comandante da Brigada Mecaniza-
da, Brigadeiro-General Calmeiro.
Durante o ORION 2024, as forças
do Exército Português foram treina-
das no planeamento e execução de
operações de combate em ambiente
de alta intensidade, num contexto
multinacional no âmbito da Defesa
Coletiva (Artigo 5.º do tratado da
NATO) e da Segurança Cooperativa.
O Exercício ORION 2024 mo-
bilizou uma quantidade massiva de
recursos humanos, materiais e finan-
ceiros, representando o ápice de um
ciclo de treino operacional composto
por diversos outros exercícios. Além
das forças do Exército Português, o
evento contou com a participação da
Força Aérea Portuguesa e de milita-
res de nações aliadas, incluindo Eslo-
váquia, Espanha e Roménia.
O exercício foi dividido em duas
fases distintas: uma fase de Exercício
de Postos de Comando (CPX), reali-
zada de 16 a 18 de abril, seguida por
uma fase com tropas no terreno (LI-
VEX), que ocorreu de 29 de abril a 10
de maio. Ambas as etapas foram con-
duzidas no Campo Militar de Santa
Margarida.
A cooperação conjunta entre o
Exército e a Força Aérea Portuguesa,
bem como a participação de forças
aliadas, destacou a importância da
interoperabilidade e da integração
em operações militares modernas. O
ORION 2024 proporcionou um am-
biente de treino realista e desafiador,
permitindo que as tropas aprimoras-
sem as suas habilidades num cenário
multinacional.
O envolvimento de recursos sig-
nificativos reflete o compromisso do
Exército Português em manter suas
forças preparadas para enfrentar os
desafios contemporâneos. O ORION
2024 representa um marco impor-
tante no ciclo de treino operacional,
consolidando os esforços de aprimo-
ramento das capacidades individuais
e coletivas das tropas.
Nesta edição do Exercício, a
exemplo de edições anteriores, alar-
gou-se o papel de audiência de treino
a grande parte do Exército, incluí-
ram o Comando e Estado-Maior da
Brigada Mecanizada, a Zona Militar

JE 740 > maio 2024 >>> 9


10
EM FOCO

dos Açores, a Zona Militar da Ma- Brigadeiro-General Luís Calmeiro, Comandante da Brigada Mecanizada
deira, o Agrupamento Mecanizado,
o 1.º Batalhão de Infantaria Meca-
nizada de Rodas, o Agrupamento de
Informações, Vigilância, Aquisição
de Objetos e Reconhecimento, o Ba-
talhão de Engenharia, o Batalhão de
Apoio de Serviços, a Bateria de Ar-
tilharia de Campanha, a Bateria de
Artilharia Antiaérea, a Companhia
de Transmissões, o Pelotão de Polícia
do Exército, o Destacamento de Coo-
peração Civil-Militar e o Módulo de
Operações Psicológicas.
O Exercício ORION viabiliza
igualmente a certificação de unida-
des do Exército Português, no âm-
bito dos compromissos NATO e UE,
reforçando a interoperabilidade no
quadro daquelas organizações, tendo
em vista a constituição de forças que
permitirão dar resposta aos compro-
missos assumidos pelo Estado Por- entre os elementos das diferentes Português. Por fim, pretende-se trei-
tuguês no âmbito da segurança e de- funções de combate das suas unida- nar os elementos/módulos com res-
fesa. Traduz-se como oportunidade des operacionais. Além disso, bus- ponsabilidades específicas nas tarefas
privilegiada para testar a prontidão ca-se executar e aprimorar as ações do Apoio Militar de Emergência.
das unidades da Componente Opera- de coordenação com os outros Ra- “Temos de trabalhar para que to-
cional do Sistema de Forças, em res- mos das Forças Armadas e, deseja- dos tenhamos as mesmas técnicas, as
posta a todo o espetro das operações velmente, com elementos de Forças mesmas táticas, os mesmos procedi-
terrestres. Armadas de outros países, com a in- mentos, para que dentro dos caos que
Com a realização destes exercícios tenção de obter a interoperabilidade é o combate, se todos soubermos o que
militares, pretende-se aplicar e vali- indispensável à participação e cons- é que todos fazem e como fazem…
dar a doutrina em vigor para o pla- tituição de Forças Multinacionais – Obtermos procedimentos iguais… E
neamento e conduta das operações, NATO, ONU e União Europeia – no há muitos mecanismos que se vão re-
bem como praticar e aperfeiçoar as âmbito dos compromissos de Defesa solvendo por eles próprios.” – Coman-
necessárias ações de coordenação e Segurança assumidos pelo Estado dante da Brigada Mecanizada, Briga-
deiro-General Calmeiro.
O objetivo do ORION 24 é treinar
a interoperabilidade entre militares
de vários países em operações táticas
ofensivas, defensivas, de retardamen-
to e reconhecimento, no âmbito do
planeamento, coordenação e execu-
ção para missões da NATO ao abri-
go do Artigo 5.º. Contribui também
para aumentar a credibilidade do
Exército, reforçar a visibilidade das
diferentes dimensões da sua missão,
melhorar a atratividade e fortalecer a
Imagem Institucional.
“O principal objetivo do exercício
ORION é treinar a interoperabilida-
de, que começa entre nós, dentro das
nossas forças, do sistema de forças,
dos elementos da Componente Opera-
cional do Sistema de Forças… Temos
aqui militares e subunidades de todo
Coronel Pedro Ferreira, Diretor do Exercício ORION 24 o Pais… Continente e ilhas… E essa

JE 740 > maio 2024 >>> 11


interoperabilidade começa, precisa-
mente, dentro do Exército." – Coman-
dante da Brigada Mecanizada, Briga-
deiro-General Calmeiro.
Considerando a atual conjuntu-
ra mundial, este Exercício contri-
bui para a preparação das Forças do
Exército Português, ao utilizar um
cenário baseado em operações cor-
rentes e futuras da NATO, com foco
em operações defensivas alinhadas
com as atuais operações no leste da
Europa. A Força em Exercício inclui
células de CIMIC e PSYOPS para de-
senvolver a proximidade e apoio à
comunidade civil (Destacamento de
Cooperação Civil-Militar e o Módulo
de Operações Psicológicas).
A participação de países aliados
no ORION 24 é importante para fo-
mentar a cooperação internacional,
a inovação e modernização, assegu-
rando um produto operacional de
elevada prontidão. Permite comparar
técnicas, táticas e procedimentos, co-
locando-os em prática em ambiente eslovacos (forças estrangeiras no ter- espanhóis, e 82 viaturas blindadas e
multinacional. Inclui a afiliação da reno). A par destes também tivemos de artilharia.
Brigada Mecanizada Portuguesa com presentes neste Exercício quatro ob- “Neste ORION participou uma
a Brigada XI de Espanha e a intenção servadores eslovacos, dois espanhóis, Companhia Espanhola, um Pelo-
de afiliar a Brigada de Intervenção ao dois norte-americanos e um francês tão Romeno e um Pelotão Eslovaco.
MNC-SE da Roménia. (observadores estrangeiros). Em ter- Em todos os exercícios com Países da
O Exercício envolveu um total mos materiais foram empregues 319 Aliança, nós procuramos o contacto
de 1415 participantes, incluindo 129 veículos, destacando-se 11 Carros de próximo com as forças estrangeiras e
militares espanhóis, 25 romenos e 17 Combate LEOPARD portugueses e é uma excelente oportunidade para

12
EM FOCO

para manter as capacidades opera-


cionais em nível elevado. O Exercí-
cio foi dividido em fases, incluindo
projeção e retração de tropas, exer-
cício de transmissões, treino cruzado
de operações e ação de fogos reais
conjuntos.
“O cenário que estivemos a utili-
zar no Exercício ORION24, de algu-
ma forma, assenta no mais recente e
realista cenário da NATO, baseado
em Operações correntes e futuras da
Aliança. Nesta edição tal como na edi-
ção transata foi executada uma Ope-
ração Defensiva, enquanto que num
passado recente o foco era o Treino de
Operações Ofensivas. Portanto, des-
ta forma, ao fazermos esta mudança
procuramos treinar em linha com as
atuais Operações no Leste da Europa,
procurando dar o maior realismo pos-
sível às nossas forças, para poderem
treinar em linha com os atuais confli-
compararmos técnicas, táticas, pro- é uma excelente oportunidade para tos e ameaças.” – Diretor do Exercí-
cedimentos e para os colocarmos em compararmos as tais técnicas, táticas cio, Coronel Ferreira.
prática, uns com os outros. O relacio- e procedimentos, e para os colocar em As capacidades/forças do Exérci-
namento entre as forças e a capacidade prática. Todos estes procedimentos, é to Português avaliadas no Exercício
de ligação para conseguirem operar de de ressalvar, são efetuados em língua ORION24 incluira duas audiências
forma combinada é essencial para que inglesa, que é a língua Oficial NATO, de treino: Primária e Secundária.
este Exercício também se desenvolva. e, portanto, contribui para uma maior Constituiram como audiências pri-
No caso em concreto do ORION24 ti- interoperabilidade, também a esse márias de treino o PelCC SVK (Pelo-
vemos os militares Romenos inseridos nível, entre os países.” – Diretor do tão de Carros de Combate Eslováquia
no Segundo Batalhão de Infantaria Exercício, Coronel Ferreira. - que irá ser projetado para a Eslová-
Mecanizada de Rodas e com recurso a O cenário do ORION 24 foi um quia), e o Comando e Estado-Maior
viaturas portuguesas, nomeadamente ambiente multinacional, com recur- da Brigada Mecanizada, que serve
as PANDUR. A Força Eslovaca esteve sos humanos empenhados e moti- de base para o F(HQ) (Force Sensing
a trabalhar em conjunto com os nossos vados, buscando maximizar o treino Head Quarters), EUBG 25-2 / 26-1
Comandos Portugueses, utilizando as
viaturas portuguesas, nomeadamente
as VAMTAC (estes, quer os Coman-
dos Portugueses quer os Eslovacos
em conjunto no exercício ORION,
constituiram aquilo que nós chama-
mos as forças opositoras). E depois
tivemos os Espanhóis, que também
estiveram inseridos no Agrupamen-
to Mecanizado que foi constituído à
base de subunidades da Brigada Me-
canizada e foi comandado pelo Gru-
po de Carros de Combate. Antes de
se iniciar o Exercício, aquilo que nós
chamamos o “STARTEX”, as diversas
forças envolvidas (os espanhóis, os ro-
menos, os eslovacos, os portugueses)
iniciaram aquilo que nós chamamos
o “CROSSTRAINING”, ou seja treino
cruzado, onde partilharam os seus co-
nhecimentos. De facto, este Exercício

JE 740 > maio 2024 >>> 13


(European Union Battle Group ano lizada através do CREVAL (Combat de lições identificadas/lições apren-
2025, segundo semestre e ano 2026, Readiness Evolution) PelCC SVK e didas para analisar e recomendar
primeiro semestre). As audiências da estrutura do Exercício, que inclui melhorias.
secundárias de treino englobaram o o SITCEN (Situation Center) dividi- As primeiras lições identificadas
Agrupamento Mecanizado da Bri- do em "Scenario" e MEL/MIL (Main no exercício incluíram a preparação
gada Mecanizada, o 2BIMec(R) (Se- Events List/ Main Incidents List) para atempada da receção das diferentes
gundo Batalhão de Infantaria Meca- criação e injeção de incidentes. Exis- Unidades, o brífingue in-processing
nizada de Rodas), a Bateria de Bocas tiram células de resposta como HI- como boa prática, e o cross training
de Fogo, o AgrlSTAR (Agrupamento CON (Higher Control), SITFOR (Si- essencial antes da fase LIVEX/FTX.
Intelligence, Surveillance, Target Ac- tuation Forces) e DIREVAL (Director Uma das principais lacunas encon-
quisition and Reconnaissance), o Ba- of Evoluation), além de uma célula tradas foi a representação de viatu-
talhão de Engenharia, a Bateria AAA
(Bateria de Artilharia Antiaérea),
o Batalhão de Apoio de Serviços da
Brigada Mecanizada, a Companhia
de Transmissões do Regimento de
Transmissões, o Pelotão de Polícia do
Exército, o Destacamento CIMIC e o
Destacamento PYOPS.
“Os Romenos estiveram a traba-
lhar com as Viaturas PANDUR, os
Eslovacos estiveram a trabalhar com
as viaturas portuguesas VAMTAC,
tivemos inserido no agrupamento me-
canizado um subagrupamento tático
espanhol com equipamentos e tive-
ram o carro de combate LEOPARD
e tiveram a Viatura de Combate de
Infantaria PIZARD.” – Comandante
da Brigada Mecanizada, Brigadeiro-
-General Calmeiro– Comandante da
Brigada Mecanizada, Brigadeiro-Ge-
neral Calmeiro.
A avaliação das capacidades/for-
ças no Exercício ORION24 foi rea-

14
EM FOCO

ras da SITFOR como Pelotão Inimi-


go, dificultando a compreensão das
ações.
As principais adversidades en-
frentadas pelos militares no Exercício
ORION24 incluíram a diversidade
de nacionalidades e línguas faladas,
as condições climatéricas, o cansaço
acumulado e a alimentação diferen-
ciada. Os militares foram incentiva-
dos a melhorar as suas capacidades
operacionais através da motivação
durante o treino e da aprendizagem
contínua.
O Campo Militar de Santa Marga-
rida oferece diversas vantagens para
a realização deste tipo de Exercícios,
sendo um campo de manobras de ex-
celência do Exército, um laboratório
de experimentação, com capacidade
de alojamento suficiente e diversas
infraestruturas para treino. Além
disso, permite a concentração dos
meios num só local, possui carreiras
de tiro para diferentes armamentos,
64 km2 de áreas de instrução e é uma
das maiores instalações militares da
Europa, sendo a maior instalação mi-
litar portuguesa em termos de guar-
nição e a segunda maior em termos
de área ocupada. para além de ser uma das maiores da Mecanizada, Brigadeiro-General
“O Campo Militar de Santa Mar- instalações da Europa, em Portugal é Calmeiro.
garida é o Campo de Manobras por a segunda em termos de área, mas é O planeamento de um Exercício
excelência do Exército, é aqui que é o a primeira em termos de conjugação com esta dimensão, envolvendo um
Laboratório da experimentação. Por- de instalações com subunidade de grande volume de forças, durante um
tanto é aqui que nós treinamos… Este treino…” – Comandante da Briga- período considerável, conduzindo

JE 740 > maio 2024 >>> 15


ações fora de áreas militares especí-
ficas, constituiu-se num desafio que
do Tratado do Atlântico Norte.
Merece, igualmente, o meu reco-
“Manifesto o
terminou sem nenhum incidente de nhecimento, a capacidade e interope- meu elevado
segurança.
“Este Exercício para além da par-
rabilidade demonstradas na condu-
ção de operações com a componente apreço pela
te tática, também teve como objetivo aérea e com Forças de países aliados, forma altamente
aumentar a credibilidade do Exército, dado que permitiram reforçar a pro-
melhorar a atratividade, fortalecer a ficiência ao nível das técnicas, táticas profissional
imagem institucional, de forma a ter-
mos um Exército pronto para servir,
e procedimentos, assim como a troca
interpessoal de experiências, por via
como decorreu o
preparado para combater e é através das quais, o Exército demonstrou, Exercício ORION
do treino que nós trabalhamos esta
área." – Comandante da Brigada
uma vez mais, uma inequívoca apti-
dão para acolher a realização de exer- 24, planeado e
Mecanizada, Brigadeiro-General cícios multinacionais. executado num
Calmeiro. Como Comandante do Exército,
Em jeito de conclusão, o General enalteço, particularmente, a dedica- ambiente conjunto
Chefe do Estado-Maior do Exérci-
to, Eduardo Mendes Ferrão, no final
ção, abnegação, o sacrifício pessoal
e familiar, e o empenho de todos os
e combinado, que
expressou o seu elevado apreço pela militares e trabalhadores civis en- permitiu exercitar
condução profissional no ORION 24,
pela dedicação, sacrifício e empenho
volvidos, direta e indiretamente, no
planeamento e na execução do Exer- as mais complexas
de todos os envolvidos, proferindo a cício ORION 24, que se traduziu num tarefas inerentes
seguinte mensagem: exemplo claro de capacidade de or-
“Manifesto o meu elevado apre- ganização, competência e prontidão, a uma operação
ço pela forma altamente profissional
como decorreu o Exercício ORION 24,
e desse modo, credibilizando o Exér-
cito Português como uma Instituição
militar terrestre de
planeado e executado num ambiente pronta para servir, preparada para alta intensidade,
conjunto e combinado, que permitiu
exercitar as mais complexas tarefas
combater e desde sempre a Honrar
Portugal. no quadro dos
inerentes a uma operação militar ter- Assim, determino a concessão de compromissos
restre de alta intensidade, no quadro dois dias de mérito a todo o efetivo
dos compromissos internacionais as- que participou no Exercício ORION internacionais (...)."
sumidos no âmbito da Organização 24.” JE

16
EM FOCO

JE 740 > maio 2024 >>> 17


João Vieira Borges

Major-General
Presidente da Comissão Portuguesa de História Militar

A Guerra na Ucrânia e o Poder


Terrestre
Partindo de uma caraterização do ambiente operacional atual,
o General Vieira Borges reflete, neste artigo, sobre as linhas
de força de uma nova ‘Arte da Guerra’, elaborando nove pontos
para reflexão, tendo em conta as múltiplas dimensões e domínios
que envolvem os conflitos recentes, marcadamente a Guerra na
Ucrânia, as lições aprendidas até ao momento e o apoio de Portugal

A
pós mais de dois anos de Guerra na Ucrânia, desta Guerra para o Poder Terrestre em geral e para o caso
em que fui desafiado a colaborar, como co- de Portugal em particular.
mentador, em cerca de quatro centenas de in- Decorrente dessa mesma honrosa intervenção (em jei-
tervenções nos diferentes Órgãos de Comunicação Social to de reflexão), que teve lugar no Estado-Maior do Exér-
(televisões e rádios) e, como professor, em mais de três cito no dia 18 de janeiro de 2024, necessariamente mais
dezenas de conferências em diferentes universidades e ins- alargada no âmbito e de cariz mais reservado em algumas
tituições, aceitei o desafio do Comando do Exército para temáticas, fui desafiado pelo General Eduardo Mendes
abordar, em ambiente mais reservado, as consequências Ferrão, Comandante do Exército, a escrever algumas li-

18
O MUNDO EM PERSPETIVA >>> ATUALIDADES

nhas dessa comunicação para o Jor-


nal do Exército. E o desafio, natural-
mente aceite, foi entretanto atrasado
(mas também beneficiado) pela es-
crita de um livro, em coautoria com o
Professor Doutor António Telo, exa-
tamente sobre o tema da Guerra da
Rússia na Ucrânia.
Este texto, sem as tradicionais
preocupações de cariz académico, é
sustentado na minha experiência de
acompanhamento diário da situação
na Ucrânia, mas também nos vários
escritos de atores (maioritariamen-
te comandantes ucranianos) e auto-
res (caso de Mick Ryan) que acom-
panham as operações no teatro de
operações, muitas vezes na linha da
frente. É dirigido a um público mais
alargado, inclusivamente para além
do universo do Exército (militares e
civis), em que alguns camaradas dis-
põem de conhecimento muito apro-
fundado em algumas matérias, seja
no âmbito do pessoal, das informa-
ções, das operações, da logística, e
mesmo do material. E pretende refle-
tir, primeiro sobre as lições da Arte
da Guerra na sua dimensão maior,
mas também e a jusante, sobre algu-
mas lições de âmbito essencialmente
militar. Entre estas, destacarei as re-
lacionadas com o Poder Terrestre, e
necessariamente com o Exército de
Portugal, entretanto empenhado em como “Competição Estratégi- dor estratégico e desafio aos in-
várias missões diretamente relacio- ca”, que se traduz no confronto teresses, segurança e valores do
nadas com a Guerra na Ucrânia, que mais global entre as grandes Ocidente. Nessa luta por uma
não deixarei de destacar. Para ter- potências (e em especial entre «Nova Era», o Irão e a Coreia
minar, lançarei alguns desafios que os EUA, a Rússia e a China), no do Norte são entendidos como
devem ser tidos em devida conta em sentido da construção de uma “parceiros” da Rússia e da Chi-
tempo de Guerra, mas também em «Nova Era». Da parte da Chi- na, e criadores sistemáticos de
tempo de Paz, como nos avisa o co- na e da Rússia, o seu objetivo instabilidade regional e mesmo
nhecido ditado latino “Se queres a é que essa «Nova Era» termine global.
Paz, prepara-te para a Guerra”. com a hegemonia dos EUA e – E as denominadas “Ameaças
do dólar. Da parte dos EUA, o Compartilhadas”, como a ex-
1. O Ambiente Internacional objetivo passa por consolidar plosão demográfica, as alte-
Caracterizar o ambiente inter- um mundo multipolar, em que rações climáticas, a transição
nacional em poucas linhas é hoje as democracias (com liberda- energética, a insegurança ali-
muito fácil, sobretudo na perspetiva de, em Estado de direito, e com mentar, as pandemias, a luta
do Ocidente, depois de tantos livros, respeito pelo direito interna- pelos recursos estratégicos, o
artigos e estratégias nacionais assu- cional…) se sobreponham aos terrorismo, a (des)informação,
midas pelos nossos aliados e pelas regimes autoritários ou mesmo o ciberespaço e as tecnologias
organizações internacionais de que às autocracias. Neste âmbito, emergentes e disruptivas, na
fazemos parte. Assim, posso carac- a Rússia é identificada como a sua grande maioria ameaças e
terizar, muito sinteticamente, o am- mais significativa ameaça à Se- riscos de cariz transnacional,
biente externo a dois níveis: gurança e à Paz, perturbadora com maior ou menos peso
– O que a NATO, a União Eu- nos flancos Leste e Sul da Euro- na construção do Mundo do
ropeia e os EUA identificam pa, e a China, como competi- Futuro.

JE 740 > maio 2024 >>> 19


Este ambiente internacional, com
visões diferentes em função do posi-
cionamento geopolítico, geoestraté-
gico e mesmo geoeconómico, marca
seguramente a dimensão mais global
da conflitualidade e influencia os
atores envolvidos nas dimensões re-
gionais (caso do conflito no Médio
Oriente) e mesmo locais.

2. Portugal: Tão longe da


Ucrânia, mas tão perto dos
Ucranianos
No caso de Portugal, e como
membro fundador da NATO e des-
de 1986 fazendo parte da União Eu-
ropeia, com uma assumida política
externa Euro-Atlântica, tem sido de
sublinhar o apoio claro à Ucrânia e
aos Ucranianos, desde o primeiro
dia da invasão, “defendendo a pre-
servação da unidade, da soberania
e integridade territorial do país, em
face da agressão injusta e ilegal da Em termos militares e apesar assistência militar, de cerca de 125
Federação Russa”. E esse apoio tem- dos condicionamentos conhecidos milhões de euros, até ao final de abril
-se manifestado em termos políticos, em termos de material e pessoal, o de 2024, que inclui equipamento e
financeiros, humanitários, sanitários, apoio de Portugal tem sido dado ten- material letal e não letal, maiorita-
educacionais, e mesmo militares, de- do como pressuposto a manutenção riamente da componente terrestre
signadamente no quadro da ONU, da das capacidades nacionais e o cum- (munições; 28 Auto Blindados de
NATO, da União Europeia, do G7, primento das principais missões, Lagartas TP12 M113; três Carros de
das relações bilaterais e inclusiva- designadamente no que respeita à Combate Leopard 2 A6; nove obuses
mente no âmbito do Ukraine Defense defesa do território nacional. E esse de 105 mm; etc.), inclui ainda o trei-
Contact Group. apoio tem passado por um pacote de no militar (a missão European Union
Military Assistence Mission Ukraine
EUMAM-UA, que já formou mais de
900 militares ucranianos) e a partici-
pação em três das oito coligações de
apoio à Ucrânia (Air Force Capability
Coalition/F-16 Training; Maritime
Capability Coalition (MCC); e mais
recentemente a Armoured). E entre
as Forças, destaco ainda os quatro
elementos na Tailored Forward Pre-
sence; a Companhia de Atiradores
mecanizada, reforçada com um mó-
dulo de defesa antiaérea e um mó-
dulo conjunto de informações, na
Enhanced Vigilance Activities, para
além de uma Força Tarefa Conjunta
de Operações Especiais, no âmbito
da cooperação bilateral com a Romé-
nia, num total de 222 militares, assim
como a nova missão da NATO para
a Eslováquia (treinada recentemen-
te em Santa Margarida no Exercício
ORION24, que teve a participação de
cerca de 1400 militares).
Esta postura singular, de um país

20
O MUNDO EM PERSPETIVA >>> ATUALIDADES

cuja capital se encontra a mais de em 2019, e não só por influência da 1. A guerra convencional morreu;
4.000 km de distância de Kiev, tem COVID-19, a Arte da Guerra evo- 2. A tecnologia não nos salvará; 3.
por base vários aspetos, de que desta- luiu consideravelmente, como refere Guerra e paz vão coexistir sempre; 4.
co: a relação especial dos portugueses o General Rafael Dávila Álvarez, em Conquistar o coração e a mente não
em geral com a grande comunidade 2022, na sua obra A Arte da Guerra basta; 5. As melhores armas não dis-
ucraniana em Portugal (que se ma- Hoje. param balas; 6. Os mercenários vão
nifesta no apoio financeiro e militar A Guerra mantém-se como a dominar o panorama militar; 7. Vão
por 87% dos portugueses no inquéri- continuação da política por outros surgir novas potências mundiais; 8.
to da SEDES realizado entre 16 de ja- meios, a ser desencadeada como Haverá guerras sem Estados; 9. As
neiro e 12 de fevereiro de 2024, assim método de conquista, dissuasão ou guerras na sombra prevalecerão; 10.
como nos eurobarómetros da União domínio ideológico, e a ser violenta Existem muitas maneiras de conquis-
Europeia, em valores próximos dos e desafiadora da ordem. Por outro tar a vitória.
82%); a postura política nacional de- lado, os seus principais atores, no Es- Nesse sentido, o General Álvarez
terminada no apoio à Ucrânia e na tado soberano deste século XXI, con- é mais estrutural na sua análise, com
condenação da invasão da Rússia; a tinuam a ser os políticos, os militares grande fundamento histórico, argu-
ênfase que os diferentes órgãos de co- e os povos. Mas a evolução tecnoló- mentando as mudanças com base
municação social atribuem à guerra gica e o enquadramento internacio- numa matriz que inclui o militar, o
na Ucrânia; e o facto de a fronteira nal que acima referi, e que está em artista, o académico, o armamentista,
alargada do nosso Atlântico correr mudança para uma nova arquitetura o logístico, o social, o político inter-
mais riscos no caso de uma «Nova global da segurança e defesa, a que no, o político externo, o desinforma-
Era» dominada pela Rússia e/ou pela se podem adicionar arquiteturas re- tivo e o cibernético.
China. gionais e mesmo locais (estas últimas Apresento de seguida nove pontos
ditadas ou influenciadas pela primei- para reflexão sobre a Arte da Guerra,
3. Tendências da Arte da ra), tem levado a algumas alterações, que não pretendem ser castradores
Guerra que inclusivamente colocaram em de outros pontos possíveis, eventual-
Depois de A Nova Arte da Guerra, causa as 10 teses de Sean McFate, as mente mais importantes em determi-
de Sean McFate, ter sido considera- quais tiveram a “bênção” do Gene- nada conjuntura ou circunstância.
do o livro do ano pelo The Economist ral Stanley McChrystal no prefácio: E começo com a questão da Guer-

JE 740 > maio 2024 >>> 21


ra Convencional. Efetivamente, a um todo, que necessita de elevada de futebol ou do cuidar da família.
Guerra Convencional não morreu, integração entre todos os inúmeros Esta deve ser uma preocupação do
nem todos os tipos de Guerra, mais sistemas (de deteção e alerta, de co- Estado e da Organização das Nações
adequados em cada tempo e circuns- mando e controlo e de tiro - com ve- Unidas, muito para além da Igreja X
tância, desde a guerra civil, a subver- tores aéreos, terrestres e marítimos). ou Y, pois estão em causa valores co-
siva, a híbrida, a fria, a preventiva, ou Os drones são claramente os protago- muns da Humanidade.
a psicológica. Todas elas estão pre- nistas desta guerra, em evolução tão Um terceiro ponto tem relação
sentes no Mundo de hoje, com maior rápida no teatro de operações que com a logística, e muito especialmen-
ou menor preponderância nesta ou obrigam a alterações na tática, na or- te com as novas dimensões e exigên-
naquela região. No entanto, a Guer- ganização, na doutrina, na logística, cias da logística atual. A diferença en-
ra Convencional da Rússia na Ucrâ- e na proteção dos equipamentos, e do tre os EUA na operação Desert Storm
nia, a par da Guerra em Gaza, veio pessoal (na linha da frente, nos últi- e a Rússia na invasão da Ucrânia é
desmentir as principais teses de Sean mos meses, cerca de 90% dos feridos enorme no que respeita à logística,
McFate, um combatente paraquedis- são vítimas de ataques com drones em especial no início das operações.
ta da 82ª Divisão Aerotransportada FPV Kamikase, com baixa frequên- A logística pode não vencer as guer-
do Exército norte-americano, que cia, com um motor e sem rotores – há ras, mas ajuda a perdê-las. Nesse sen-
também foi mercenário, muito con- um ano esse valor tinha origem nas tido, e muito para além da dimensão
dicionado por anos de operações de granadas de artilharia). A sua utili- do apoio às tropas no teatro de ope-
paz e de luta antiterrorista. zação futura por outros atores que rações, quem melhor souber diversi-
Por outro lado, e como segundo não as Forças Armadas (caso das or- ficar as suas dependências sairá vito-
ponto de reflexão, considero que as ganizações terroristas) constitui uma rioso. Como refere o General Álvarez
aplicações da Revolução Tecnológica ameaça real a ter em devida atenção. (p. 136), “convém repetir que a guer-
e Digital à Arte da Guerra têm sido, Estas novas tecnologias matam mais, ra é a continuação da economia para
e continuarão a ser, consequentes, com maior alcance e precisão e com alcançar a hegemonia na produção e
designadamente no que respeita à In- uma nova dimensão, a “higiénica”. distribuição dos recursos”.
teligência Artificial, seja na dimensão Mata-se sem ver os olhos do inimi- Um quarto ponto de reflexão diz
base do combatente de Infantaria, go, a partir de um gabinete, algures a respeito ao elemento mais impor-
seja em dimensões mais alargadas, milhares de quilómetros do teatro de tante da Guerra: o combatente. O
como no caso da defesa aérea como operações, no intervalo de um jogo sistema de serviço militar tenden-

22
O MUNDO EM PERSPETIVA >>> ATUALIDADES

cialmente tem vindo a caminhar no futuro, os Estados terão seguramente como um sétimo ponto de reflexão
sentido oposto ao que vinha tendo maior cuidado com a contratação de sobre a Arte da Guerra, que abarca
desde o final da Guerra Fria, e não mercenários nas suas diferentes pers- obrigatoriamente as dimensões po-
só devido à Guerra na Ucrânia. Efeti- petivas, sejam empresas militares lítica, económica, social, psicológica,
vamente, assistimos à adoção do ser- privadas (Blackwater, Triple Canopy, entre outras, a par da militar. E nesse
viço militar obrigatório por um con- DynCorp…) que visem substituir os sentido, o espaço mediático tem hoje
junto alargado de países, depois de cidadãos por “sombras”, sejam vo- um papel ainda mais importante ao
vários anos de experiência do regime luntários internacionais ou mesmo nível da informação, da contrainfor-
de voluntariado e contrato ou mes- legiões estrangeiras (modalidade mação e da desinformação, pois as
mo de sistemas mistos. E esta opção defendida por McFate para os países guerras também se ganham (nos e)
tem relação direta com as ameaças ocidentais, cujos jovens não querem através dos média!
mais ou menos perigosas e prováveis, combater, mesmo nos casos mais ex- O oitavo ponto de reflexão tem
mas também com questões de âmbito tremos de invasão e ocupação dos relação, inevitável, com a tão neces-
político e mesmo social. Cada caso é seus países!). sária base industrial de defesa. Efeti-
um caso, mas a evolução nesse senti- Um sexto ponto diz respeito ao vamente, com a globalização, nem os
do pelo espetro de países ameaçados crescendo de importância das ope- EUA nem a China são autossuficien-
pela Rússia tem sido uma constante. rações multi-domínio, utilizando, de tes em termos de produção de arma-
Um quinto ponto tem relação com modo integrado, as cinco dimensões mento. No entanto, está a ser desen-
os mercenários, cujo protagonismo da Guerra: terra, mar, ar, espaço, ci- volvido um esforço concertado entre
efetivamente se acentuou com a pos- ber. Em teoria, tem sido muito dis- aliados dos dois lados da contenda
tura do grupo Wagner na Ucrânia e cutido, mas poucas Forças Armadas no sentido de o Estado ser simulta-
em especial por parte do seu líder, têm capacidade para aplicar opera- neamente mais eficaz e eficiente na
Prigozhin, em relação às lideranças ções multi-domínio, o que é o caso sua indústria de defesa e menos de-
militares do Kremlin. Mas aquilo a da Rússia, incapaz até ao momento, pendente do exterior. Nesta Guerra,
que se assistiu foi ao seu desmoronar, apesar de mais de dois anos de lições a Europa constituiu um exemplo real
exatamente pelas mesmas razões que aprendidas no teatro de operações da das consequências (negativas) ine-
Maquiavel apresentou ao “Príncipe”: Ucrânia. rentes ao desinvestimento na indús-
os mercenários são “desumanos, am- Considero o espaço mediático e a tria de defesa e nas Forças Armadas
biciosos, indisciplinados e infiéis”. No transparência (gestão das perceções) em geral.

JE 740 > maio 2024 >>> 23


Um nono e último ponto diz res- mada de decisão, decorrentes nios, maior peso das componentes
peito à dissuasão nuclear e à ameaça da partilha de informações ao média e pesada, aquisição de novos
nuclear. Se a dissuasão nuclear vem nível superior, e com o exte- sistemas (carros de combate, viaturas
funcionado como instrumento de rior (civil e militar - satélites, blindadas, artilharia de campanha,
Paz, em especial durante a Guerra UAV…); artilharia antiaérea, drones, mísseis,
Fria, as mais recentes ameaças nu- – O peso significativo da artilha- unidades de guerra eletrónica e a ci-
cleares, constantes dos discursos do ria, com sistemas de comando bernética, C4ISR, I2CEWS e ISTAR,
Kremlin, são complexas e perigosas. e controlo mais céleres, maior mobilidade e contramobilidade, etc.),
É importante e urgente que sejam poder de fogo, alcance e pre- reforço e adaptação da logística e das
criados mecanismos a nível interna- cisão (casos dos HIMARS e informações militares, reformulação
cional e traçadas linhas vermelhas ATACMS); da doutrina e da tática, reforço das
nos discursos das potências nuclea- – A imprescindibilidade da defe- reservas de guerra e das reservas de
res, caso contrário viveremos numa sa aérea em geral e da artilharia recrutamento, reorganização das for-
instabilidade, incerteza e insegurança antiaérea em particular, não só ças, e aumento dos efetivos, mas com
permanentes. na proteção antiaérea das uni- pessoal qualificado e motivado.
Estas são algumas das muitas ten- dades de combate, mas muito Só assim se pode “ganhar a guerra
dências da Arte da Guerra nos últi- especialmente na proteção das antes da guerra”, seja na Ucrânia ou
mos anos, mas uma das mais antigas cidades e das infraestruturas em qualquer outro teatro e operações.
permanece com grande perenidade: estratégicas, como centrais
“Quando o mundo está em paz, um energéticas; 5. Desafios
homem de bem mantém a espada ao – A necessidade do poder aéreo Para terminar, e decorrente do
alcance da mão.” (Sun Tzu). para a importante conquista da que vem sucedendo na Guerra na
supremacia aérea (desde o iní- Ucrânia (e sem deixar de dar uma
4. Lições Militares da Guerra cio da guerra, a Rússia já tinha vista de olhos à Guerra em Gaza),
na Ucrânia perdido 349 aeronaves de asa deixo alguns desafios de cariz militar
No teatro de operações da Ucrâ- fixa e 325 helicópteros nos pri- para as Forças Armadas em geral e
nia, de Guerra convencional de ele- meiros dias de maio de 2024); para o Exército em particular:
vada intensidade, muitas têm sido as – A importância do treino, da – Estudar a prontidão para uma
lições militares (por vezes de difícil motivação, da inovação, e da Guerra de Alta Intensidade
separação relativamente a outras capacidade de adaptação dos (pessoal, sistemas de armas,
componentes que também fazem combatentes, mas também dos organização, munições,
parte da guerra) identificadas por sistemas de armas, em especial resiliência da população…),
ambas as partes e muito especialmen- nas guerras de longa duração; sem esquecer as Operações
te por comentadores, desde militares – A necessidade de trei- de Paz e outras Missões (que
a professores. Eis algumas das que nar e executar operações implicam maior colaboração
considero entre as mais significativas: multi-domínio; com as forças e serviços de
– O peso significativo do poder – E a obrigatoriedade de dispor segurança e com a proteção
terrestre, relativamente ao po- de reservas de guerra ao nível civil);
der aéreo, ao marítimo, ao es- do armamento e das muni- – Investir em novas tecnologias
pacial e ao cibernético; ções, assim como de reservas e adquirir, com caráter de
– A grande vulnerabilidade das de recrutamento ao nível do urgência (ou atribuindo maior
maiores plataformas de com- pessoal. prioridade na aquisição - no
bate face a sistemas defensivos Esta é uma Guerra Convencional âmbito da revisão da Lei de
de baixo custo. É o caso dos entre dois Estados, apoiados por ou- Programação Militar), novos
carros de combate, dos navios tros atores, no âmbito de uma Guerra sistemas de armas, caso de
de guerra e dos aviões de com- de cariz global, e por isso utilizadora sistemas de armas e munições
bate, face a drones de baixo cus- de todos os instrumentos do poder, de artilharia antiaérea;
to ou a sistemas canhão como desde o militar ao económico, pas- – Reformular o sistema de
o Gepard e a mísseis portáteis sando pelo mediático e diplomático. forças (e eventualmente o
como o Stinger e o Javelin; Em função das lições atrás referi- dispositivo) com unidades de
– A importância do apoio logís- das, julgo que é tempo de se repensar manobra, que também devem
tico numa operação militar de o Poder Terrestre na Guerra de hoje ser médias/pesadas, móveis,
longa duração e em especial e de amanhã, sobretudo no sentido flexíveis, e dotadas de alto grau
para a potência invasora; de prepararmos as Forças Armadas de letalidade e eficácia;
– O sucesso decorrente da infor- para a Guerra de alta intensidade – Integrar Forças Terrestres
mação centrada em rede nos e por um longo período de tempo. com aliados (Battle Groups da
vários níveis e escalões; Isso implica mais operações de armas NATO e Frente Leste), ganhado
– As vantagens ao nível da to- combinadas e em múltiplos domí- experiência, projetando

24
O MUNDO EM PERSPETIVA >>> ATUALIDADES

política externa e prestigiando


a Instituição;
– Melhorar o recrutamento/re-
tenção (apesar de a maior parte
das ações depender dos incen-
tivos aos militares, em termos
de carreira, de vencimentos e
de segurança social), reajustan-
do o processo de formação dos
combatentes e aperfeiçoando a
liderança, no sentido de termos
mais e melhores combatentes.
Como referiu o Presidente
da República, Professor Doutor
Marcelo Rebelo de Sousa, no dia
12 de janeiro de 2024 na Academia
Militar, “O mundo está a mudar
e a única verdadeira constante é
a mudança. Quem não for capaz
de saber acompanhar, ou melhor,
ANTECIPAR A MUDANÇA, então
não pode ser chefe…”. E a mensagem
não era só para os cadetes ou para
os militares, mas também para os
decisores políticos.
Ao longo da sua longa História,
Portugal quase nunca esteve prepara-
do para “a nova conflitualidade”, por
razões políticas, geopolíticas, finan-
ceiras e de desinvestimento nas suas
Forças Armadas. Nas Invasões Fran-
cesas (mesmo depois do Rossilhão!),
no Ultimato, na Grande Guerra (mi-
lagre de Tancos), na Guerra de África
(1961), nas Operações de Paz, e ago-
ra para fazer face a cenários adversos
decorrentes da nova conflitualidade
na Europa, no Médio-Oriente e no
Mundo, não estávamos, nem esta-
mos, suficientemente preparados em
pessoal e material.
Considerando esta lição impor-
tante da História, entendo que é
preciso pensar o futuro e passar das
palavras aos atos, em linha com a
perceção dos portugueses em geral,
que apoiam financeiramente e mili-
tarmente a Ucrânia em valores supe-
riores a 80%. E termino com as pala-
vras experientes do General Thierry
Burkhard, CEMGFA da França: “Os
Estados e os seus aparelhos militares
e de Defesa Nacional deverão rapida-
mente adaptar-se às novas realidades
estratégicas, operacionais e táticas,
aproveitando o conflito na Ucrânia
para observar, analisar, aprender e
agir…”. JE

JE 740 > maio 2024 >>> 25


Fonseca Rijo

Major-General
Diretor da Direção Administração de Recursos Humanos

O Ensino da Tática
A formação profissional militar, sustentada em sólidas bases
científicas e na excelência de um pensamento crítico e criativo,
correlaciona-se diretamente com o nível de desempenho dos
militares e com o sucesso no campo de batalha

P
orquê ensinar tática? Ou numa outra perspetiva, Education and Battlefield Effectiveness”, de 2018, que a for-
quais as vantagens diretas, para um Exército, que mação académica militar está diretamente correlaciona-
advêm do investimento no ensino dos seus ofi- da com a excelência do desempenho e, portanto, com o
ciais em geral e da tática em particular? sucesso em combate. Advoga ainda que a formação, não
Nathan Toronto, Professor Associado do Colégio de sendo como que uma apólice de seguro contra o fracas-
Defesa dos Emirados Árabes Unidos, conclui, no seu tra- so, possibilita, todavia, a criação de uma arquitetura inte-
balho de investigação “Learning Military Power: Military lectual que permita conduzir regularmente com sucesso

26
DOUTRINA >>> ATUALIDADES

as operações militares. Salienta que


a chave dessa formação reside em
apresentar a teoria aos alunos, incen-
tivando-os ao pensamento crítico,
contribuindo assim para a excelência
da própria organização militar, com
um particular enfoque na ação de-
senvolvida pelas escolas de formação
pós-graduada (após Academia Mili-
tar), nomeadamente de estado-maior
e escolas de guerra.
Também o Tenente-General Leo-
nard Holder, ex-Comandante do US
Army Command and General Staff
College, em conjunto com o Profes-
sor William Murray do Smithsonian
Museum, elaboram no seu artigo
“Prospects for Military Education”
que, neste século XXI, a formação objeto da arte é a capacidade criativa. fórmula algébrica pronta a aplicar.
profissional militar será crucial na Alerta, todavia, sobre o propósito do Aqui entra o papel da arte.
determinação da eficácia das Forças estudo da ciência: Será então legítimo, neste ponto,
Armadas dos Estados Unidos. Defen- It is meant to educate the mind questionar: Se ensinar a teoria, Dou-
dem os autores que a história militar of the future commander, or, more trina e Tática, é mais ou menos óbvio,
mais recente comprova a correlação accurately, to guide him in his self-e- então como se ensina a arte?
entre o sucesso no campo de batalha ducation, not to accompany him to Ivone Richter, na sua tese de dou-
e a formação dos oficiais. the battlefield; just as a wise teacher toramento Interculturalidade e estéti-
A tática é entendida enquanto um guides and stimulates a young man’s ca do quotidiano no ensino das artes
misto de ciência e arte. A memorável intellectual development, but is care- visuais, aponta que o grande desafio
obra Da Guerra, de Carl Von Clau- ful not to lead him by the hand for the do ensino da arte é construir a rea-
sewitz, traduz esta ideia em torno de rest of his life. lidade através da liberdade pessoal.
duas aceções: Saber e Capacidade, A ciência, ou por outras palavras, É importante que a prática pedagó-
advogando que, se o objeto da ciên- a teoria, é assim vista como um qua- gica subjacente estimule o potencial
cia (saber) é o conhecimento, já o dro de referência e não uma qualquer do aluno e o incentive a reelaborar as

JE 740 > maio 2024 >>> 27


– Nos princípios da aprendiza-
gem de adultos;
– Nas metodologias de gestão de
projetos;
– No modelo de liderança
ADAIR 1.
Se o último aspeto pode ser de al-
guma forma discutível, por se tratar
de um modelo que não é considera-
do por alguns como o mais adequa-
do presentemente, pese embora seja
um modelo de liderança funcional,
orientado para os resultados, seguido
pela Escola de Fuzileiros e pelas For-
ças Armadas do Reino Unido, já os
aspetos relacionados com os princí-
pios da aprendizagem de adultos não
se afiguram de todo descartáveis.
Congratulo, neste particular, a
Escola das Armas, pela publicação
de um artigo na Revista das Armas
Combinadas n.º 5, intitulado “O Pro-
cesso de Decisão Militar – Jornadas
de Nivelamento de Formadores”. Este
artigo enfatiza inequivocamente não
só a necessidade da detenção de co-
nhecimentos, mas também de ex-
periência por parte do formador de
tática, realçando ainda a importân-
cia das competências pedagógicas e
de mediação do saber. Advogando a
importância de sistemas de simula-
ção, apela também à necessidade de
suas ideias criativas. Esta ideia subli- extrai-se que o ensino da tática deve estimular a criatividade, iniciativa e
nha, aliás, o pensamento de Clause- assentar fundamentalmente em três liberdade de pensamento tático, con-
witz e de Toronto, no que respeita à aspetos: tribuindo, assim, para o “aumento do
capacidade criativa enquanto Objeto
da Arte do Comandante Militar. Ain-
da, e a título de curiosidade, mas com
pertinência, as Diretrizes Curricula-
res de Arte do Estado do Paraná, no
Brasil, impõem que a metodologia
do ensino da arte se organize em três
momentos:
– Sentir e perceber (a apreciação
e apropriação);
– Trabalho artístico (a prática);
– Conhecimento em arte (a
fundamentação).
Do aludido até aqui, afigura-se
que o ensino da arte da tática requer
um método, incentivador da criati-
vidade, da liberdade individual e da
análise crítica.
Tomemos como referência Greg
McMahon, no seu mais recente livro,
intitulado Teaching Military Tactics
(abril 2023). Da sinopse deste livro

28
DOUTRINA >>> ATUALIDADES

gosto e prazer pelo ensino da tática”. dos factos; Fink, ex-presidente da Professional
Em 1967 foi fundado em Har- – A pesquisa dos efeitos às and Organizational Development
vard, pelo filósofo Nelson Goodman, causas; (POD) Network in Higher Educa-
o “Project Zero”, com o propósito de – A investigação e avaliação dos tion, dos EUA, são experiências de
estudar e desenvolver o ensino das ar- meios empregues. aprendizagem que resultam em algo
tes. Pelo valor transversal deste pro- O Tenente-General Holder, no de significativo para a vida e desem-
jeto, o mesmo rapidamente se esten- seu artigo atrás referido, também penho profissional do aluno. Isto im-
deu a outros domínios, tais como a defende que, para além da Defe- plica saber distinguir de forma clara
resolução de problemas, pensamento sa Nacional, o maior benefício que a aprendizagem passiva, resumida à
crítico e inteligência organizacional. as Escolas Militares devem trazer é receção de informação e ideias e re-
Tendo como principal investigador produzir Comandantes e Oficiais produção das mesmas, da aprendiza-
Howard Gardner, autor da teoria das de Estado-Maior imaginativos e gem ativa, que envolve a experimen-
Inteligências Múltiplas, este projeto é adaptativos, aumentando os curri- tação e reflexão, não só sobre o que
hoje reconhecido na comunidade in- cula em matéria da arte da guerra. se está a aprender, mas como se está
ternacional como fonte de partilha de Devem também estas escolas pro- a aprender.
boas práticas no domínio do ensino mover reformas autênticas, por via Para isso, a incursão sobre novas
e aprendizagem, defendendo acer- da implementação de metodologias abordagens taxonómicas da apren-
rimamente a importância da imple- educativas adequadas, com recurso dizagem afigura-se fundamental,
mentação duma Cultura do Pensar. a melhores instrumentos tais como substituindo as abordagens centradas
De acordo com Mark Church, pro- programas de autodesenvolvimento, exclusivamente na natureza dos con-
fessor de Harvard também associado ensino à distância, sistemas de simu- teúdos, por abordagens centradas nas
ao projeto, o ensino assenta num tri- lação e aprendizagem colaborativa. aprendizagens.
pé que estimula a observar, pensar e Também o tamanho e composição Observação e reflexão, espírito
questionar. Reconhecemos estar uma das classes merecem atenção cuidada crítico e criativo, metodologias e cur-
vez mais perante a abordagem crítica neste processo. ricula adequados, talvez aqui resida o
Clausewitzinana, que sugere três ati- Está, portanto, em jogo a criação gosto pela aprendizagem da tática, o
vidades intelectuais nelas contidas: de experiências de aprendizagem sig- ensino da arte tão necessário e aduzi-
– A descoberta e interpretação nificativas, que, no parecer de Dee do por vários autores. JE

1
John Adair, professor da Royal Military Academy Sandhurst, no Reino Unido, desenvolveu um modelo de liderança, baseado no conceito de Liderança
Centrada na Ação, defendendo que a liderança deve ser ensinada e desenvolvida, ao invés de se considerar uma competência inata

JE 740 > maio 2024 >>> 29


Artur Alves *

Tenente-Coronel de Artilharia
Comandante do Grupo de Artilharia de Campanha 15.5 Rebocado

Exercício STRONG IMPACT 24


O Exercício STRONG IMPACT, realizado no Campo Militar de Santa
Margarida, é o maior Exercício de Apoio de Fogos do Exército
Português, nele participando forças de Artilharia de Campanha
e de Artilharia Antiaérea, bem como militares de países aliados,
como a Espanha, França e Roménia

R
ealizou-se no Campo Militar de Santa Marga- Artilharia Antiaérea (AAA) de Portugal, do Reino de Es-
rida, no período de 11 a 22 de março de 2024, panha e observadores de França e da Roménia, envolven-
o Exercício STRONG IMPACT (SI) 24, onde do cerca de 450 militares participantes. Trata-se do maior
participaram forças de Artilharia de Campanha (AC) e de exercício anual de Apoio de Fogos conduzido pelo Exérci-

30
EXERCÍCIOS >>> ATUALIDADES

to Português, assente no mais recente – Planeamento: de dezembro de cise (FTX) e Live Fire Exercise
e realista cenário da NATO, baseado 2023 a fevereiro de 2024, a fim (LFX);
em operações correntes e futuras da de definir os objetivos do Exer- – Avaliação: durante os meses de
Aliança Atlântica. cício e de treino, estruturas e abril e maio, a fim de concluir
Este exercício teve por finalidade forças participantes, e requisi- o SI 24 e participar no processo
exercitar o planeamento, coordena- tos, através da programação e de lições aprendidas.
ção e condução de operações milita- planeamento do Exercício; Foram previstos um total de 19
res terrestres num cenário de empre- – Execução: de 11 a 22 de mar- objetivos de treino, salientando-se
go de forças fictício, que configurou ço de 2023, com a participa- a condução de operações terrestres,
um conflito no Continente Europeu ção efetiva das audiências de em conflitos de alta intensidade, com
e foi dividido em três fases: treino em Field Training Exer- particular ênfase ao nível do Grupo

Planning Execution Evaluation

December January February March April May

Stage 1: Stage 2: STAGE 3: STAGE 4:


19DEC - 08JAN 08JAN - 04MAR 04MAR - 08MAR 08APR - 05MAY
(BST)
Exercise Exercise Planning Exercise Evaluation
Specif ication and Products 11MAR - 17MAR and Reporting Stage
and Concept Development (FTX)
Development (EXPLAN, MEL/MIL
(EXPEC) AND RLS) 18MAR - 21MAR
(LFX)

JE 740 > maio 2024 >>> 31


de Artilharia de Campanha (GAC)
e da Bateria de Artilharia Antiaérea
(BtrAAA), o treino da proficiência
operacional das Unidades de AC e
de AAA do Exército e de outras na-
ções, no planeamento, coordenação,
integração e sincronização do apoio
de fogos, gestão das medidas de coor-
denação do espaço aéreo, comando e
controlo do espaço aéreo e proteção
antiaérea (AA). Pretendeu-se, igual-
mente, exercitar a capacidade Con-
tra Sistemas Aéreos Não Tripulados
(C-SANT) e garantir o treino em
condições próximas do real, execu-
tando fogos reais com os diversos sis-
temas de apoio de fogos.
Dadas as circunstâncias atuais,
em que perdura há mais de dois anos
um conflito de alta intensidade entre
estados europeus, o qual veio acen-
tuar a relevância dos fogos como o
elemento mais destrutivo em comba-
te, este Exercício proporcionou, para
além das condições de treino propí-
cias à criação de rotinas, nas práticas
e nos procedimentos, de forma con-
junta e combinada, um espaço de re-
flexão multinacional. Importa, neste
sentido, relevar o cross training que
permitiu o conhecimento mútuo das
capacidades, possibilidades e modo
de funcionamento dos materiais que
equipavam as unidades para o SI 24,
o emprego do conceito shoot and
scoot 1, o treino conjunto com Joint
Terminal Attack Controller (JTAC) e
a execução de fogos conjuntos com
a Força Aérea Portuguesa, envolven-
do o Elemento de Apoio de Fogos
(EAF), Observador Avançado (OAv)
e JTAC como momentos a relevar.
Com o objetivo de enquadrar o
SI 24 no ciclo anual de treino opera-
cional do Comando das Forças Ter-
restres, os Grupos de Artilharia de
Campanha da Brigada Mecanizada,
da Brigada de Intervenção e da Bri-
gada de Reação Rápida realizaram
antecipadamente os seus exercícios
setoriais, designadamente o ONÇA
241, o URANO 241 e o TROVÃO
241. Com esta calendarização, as
unidades não só planearam anterior-
mente o emprego dos fogos de AC ao
nível Brigada, como exercitaram as
lideranças capitalizando, em profi-
ciência técnica e tática, o treino dos

32
EXERCÍCIOS >>> ATUALIDADES

seus militares. No caso do Grupo – Proficiência Tática e Técnica assegurando o estímulo de in-
de Artilharia Antiaérea (GAAA) da que aumenta a sobrevivência terajuda e potenciando a inte-
Brigada de Intervenção, o exercício e proteção da Força. O cenário roperabilidade entre unidades,
setorial terá lugar no 2.º semestre do utilizado e, particularmente, configurando um provável
corrente ano. os incidentes injetados permi- quadro de atuação de forças
A fim de cumprir com sucesso os tiram treinar as Táticas, Téc- NATO.
objetivos de treino, consideraram-se nicas e Procedimentos (TTP) O SI 24 desenvolveu-se de acor-
as seguintes ideias: das unidades participantes, em do com o cronograma de Planea-
– Alinhamento coerente com especial o shoot and scoot, a ca- mento e Condução do Exercício.
o Plano de Treino Operacio- pacidade anti-drone, o uso de Numa fase inicial, entre 11 e 12 de
nal. O SI 24 decorreu após o técnicas de camuflagem e dis- março, as forças e meios foram pro-
treino setorial das Brigadas ciplina de movimentos, consi- jetados das suas Unidades de ori-
estar concluído. Foram dili- derando lições aprendidas dos gem para o Campo Militar de Santa
genciados os devidos ajustes conflitos recentes, nomeada- Margarida. Seguiu-se um período
temporais e procedimentais, mente a guerra entre a Rússia de treino conjunto entre as unidades
respeitando a sua sequência e a Ucrânia. nacionais e estrangeiras participan-
natural, do individual para o – Foco nos compromissos inter- tes, com exposição de capacidades,
coletivo, e sincronizando os nacionais e nacionais. A parti- treino de simulação no simulador de
diferentes ciclos, por forma a cipação de forças estrangeiras Observação de Tiro INFRONT 3D 2
assegurar que as unidades de permitiu realizar o exercício e atividades de preparação e manu-
AC e AAA atingissem o nível num ambiente internacional, tenção dos materiais. Realizou-se o
adequado ao seu escalão. Com
o presente alinhamento, os ní-
veis necessários de treino para
o ORION24 seriam, de igual
forma, respeitados.
– Preparação para cenários de
emprego com elevada incer-
teza global. Como resposta ao
ambiente operacional incerto,
complexo e plástico, conside-
rou-se um cenário que alude
a tarefas táticas no âmbito de
operações defensivas, ofensivas
e de estabilização. Desta forma,
foram criadas condições fictí-
cias de instabilidade e incerte-
za, muito próximas do real.

JE 740 > maio 2024 >>> 33


torneio STRONG IMPACT 24 per- executantes. De 15 a 17 de março de- 50 iluminantes e cinco de fumos.
mitindo fortalecer o espírito coleti- correu o FTX, projetando-se as uni- Na presente edição do SI24, o
vo e individual, num ambiente des- dades de escalão bateria para o ter- GAC 10,5 Rebocado e a 2ª BtrAAA
portivo que fortaleceu a cooperação reno, para cumprirem as tarefas de do GAAA constituíram-se como au-
e camaradagem. apoio de fogos e de proteção AA a fim diências primárias de treino, organi-
Os Postos de Comando do GAC e alcançarem os efeitos adequados em zando-se à custa dos meios huma-
da 2.ª BtrAAA do GAAA foram ati- benefício da Brigada Mista de Mano- nos e materiais de outras forças da
vados a 11 de março, testando a sua bra. No período de 18 a 21 de abril, Estrutura Nacional da Componente
mobilidade em mudanças futuras de decorreu o LFX, focado nos proces- Operacional do Sistema de Forças
posição, mantendo a capacidade de sos de coordenação e direção técnica e forças estrangeiras. Os quadros I
comando e controlo e garantindo o de tiro. Foram nestes dias disparadas e II detalham informação sobre os
fluxo de informação com as unidades cerca de 130 munições high explosive, meios.

Quadro 1 – Meios constitutivos do Grupo de Artilharia de Campanha 10,5 Rebocado para o SI24
Materais
Meios projetados por: Humanos Viaturas de
Obuses / Morteiros Outros Especiais
Comando

GAC 155 AP 37 2 obuses M109A5 1 M577 2 M548A1 –

GAC 155 AP
138 6 obuses M109A5 3 M577 46 (P, M e L) –
(GACA XI)

GAC 155 Reb 44 2 obuses M114A1 2 11 (P, M e L) –

GAC 105 Reb 68 3 obuses M119LG 3 12 (P, M e L) –

2 morteiros 120mm Tampella


ZMM 29 1 6 (P, M e L) –
1 morteiro 81 mm

ZMA 8 1 morteiro 81 mm – 1 (P, M e L) –


1 Raven B
CSV/AGRISTAR 2 – – 2 (P, M e L)
DDL

Quadro 2 – Meios constitutivos da Bateria de Artilharia Antiaérea para o SI24


Materais
Meios projetados por: Humanos
Sistemas antiaéreos Viaturas
Sistemas Míssil Portátil Stinger:
4 FHT4
2ª BtrAAA 34 9 (M e L)
4 TWS 5
4 BMT 6

BtrAAA (BrigMec) 11 1 FHT 3 (M e L)

Pel AA (ZMM) 4 – –

Pel AA (ZMA) 5 – –

3 Sistemas Míssil Ligeiro Mistral


Sec Míssil (GACA XI) 14 (URO VAMTAC) URO VAMTAC KT5
4 Terminais do inteligentes (C2)

(P - Pesadas, M - Médias, L - Ligeiras)

34
>>> ATUALIDADES

JE 740 > maio 2024 >>> 35


te, partilhou-se a informação ao nível
do Posto Central de Tiro, em tempo
próximo do real, beneficiando deste
meio para a aquisição de objetivos.
Ao nível da defesa AA, a 2.ª
BtrAAA constituiu-se como uma
Army Organic Air Defence da Briga-
da, incidindo no planeamento e im-
plementação da proteção AA, com os
vários níveis de prioridades planea-
dos, em todas as unidades. Consti-
tuiu um Centro de Operações Táticas
coordenando todas as suas unidades
de tiro. Ao nível do Módulo de Defe-
sa Antiaérea, que agregou as Secções
e Esquadras de AA, o foco residiu
no planeamento da proteção AA e
acompanhamento em todas as fases
da operação de uma unidade de esca-
lão Batalhão, a par do treino das TTP
Nestas duas semanas de treino, a total interoperabilidade e proficiên- de todas as unidades de tiro.
ocorreram alguns acontecimentos cia dos elementos terrestres e aéreos A interoperabilidade foi uma
relevantes ao nível dos fogos, quer com responsabilidades na Observa- prioridade, demonstrada pela eficaz
pela novidade do acontecimento, ção, Comunicação, Comando e Con- integração dos sistemas Stinger e Mis-
quer pelo elevado nível de interope- trolo do Tiro de AC e Close Air Su- tral, no planeamento das posições de
rabilidade e coordenação alcançado. pport (CAS), muito particularmente cada sistema de armas, possibilitando
O sistema radar de contrabateria os OAV e elementos do Tactical Air comunicar entre forças que utilizam
Arthur 3 foi estreado pelo GACA XI Controller Party. sistemas de comunicações diferentes
no SI 24, o qual dispôs do sistema Com sucesso limitado, monito- e, deste modo, permitindo uma exe-
automático de comando e controlo rizaram-se em tempo real as bate- cução coordenada das operações.
Thalos. De igual modo, executou-se rias, através do Sistema Informático Os exercícios da série SI cons-
uma Missão de Tiro de Iluminação de Gestão Operacional e avaliou-se tituem-se como o mais importante
Coordenada, criando condições para a condução de missões de tiro atra- Exercício de coordenação de fogos
a subsequente missão de supressão vés dos sistemas UAV Raven B DDL, do Exército Português. A presente
de F-16. Neste contexto, o empenha- oferecendo, de forma imersiva e di- edição foi planeada e conduzida pelo
mento de meios aéreos sobre o alvo nâmica, a oportunidade de observar Comando das Forças Terrestres, onde
beneficiou da iluminação máxima e regular tiro, em tempo real. Neste se ficcionou um cenário de emprego
alcançada através dos fogos terrestres contexto, foi registado um alvo ter- de forças no âmbito do artigo V da
e, sendo a primeira vez que tal missão restre em foto e vídeo e, por esta via, NATO, de escalão Brigada, numa es-
de tiro fora cumprida, evidenciou-se das suas coordenadas. Posteriormen- trutura conjunta e combinada.

36
EXERCÍCIOS >>> ATUALIDADES

“O SI24 alcançou
os objetivos,
centrados no
planeamento,
controlo e
condução das
operações
terrestres, num
ambiente instável,
imprevisível e
complexo onde se
exigiam elevados
níveis de prontidão,
eficácia e
interoperabilidade
das unidades
O SI24 alcançou os objetivos, – Utilizou o sistema de simulação
centrados no planeamento, controlo INFRONT 3D, capitalizando o participantes.”
e condução das operações terrestres, treino e a interoperabilidade,
num ambiente instável, imprevisível com aumento da proficiência Comandos e Estados-Maiores
e complexo onde se exigiam elevados operacional, reduzindo custos; pela presença de forças estran-
níveis de prontidão, eficácia e inte- – Revigorou e ampliou a coope- geiras integrando processos e
roperabilidade das unidades partici- ração nacional e internacional, sistemas automáticos de co-
pantes. O contexto de treino criado contando com uma presença mando e controlo próprios;
proporcionou exercitar o Grupo de significativa (cerca de 30%) de Adicionalmente constituiu um
AC e o Elemento de Defesa Aérea da militares estrangeiros de qua- valioso fórum artilheiro de treino
Brigada na condução do processo de tro nacionalidades; bilateral e multilateral, em que a in-
decisão militar e na direção técnica – Treinou-se práticas aprendidas teroperabilidade saiu reforçada, em
e tática do tiro. Mas proporcionou na guerra da Ucrânia, como função dos mecanismos de respos-
mais! Foi um exercício que: as que decorrem do uso mul- ta rápida, através da participação
– Possibilitou um treino con- tifacetado dos SANT com in- de subunidades constituídas, e que
junto, valorizando os fogos terferência no movimento, en- constitui um valor acrescentado nos
conjuntos pela massificação e tradas e saídas e sobrevivência processos de aprontamento, projeção
variedade de efeitos, disponi- das unidades de AC e AA em e sustentação de forças, bem como na
bilizando outras possibilidades posição; capitalização da imagem da Artilha-
ao Comandante; – Trouxe acrescidos desafios aos ria Portuguesa. JE

* Coautores:
Tenente-Coronel de Artilharia José Maldonado, Comandante do Grupo de Artilharia Antiaérea
Tenente-Coronel de Artilharia Sérgio Rocha, Comandante do Grupo de Artilharia de Campanha 15.5 Autopropulsionado
Tenente-Coronel de Artilharia Diogo Serrão, Comandante do Grupo de Artilharia de Campanha 10.5 Rebocado

1
O conceito Shoot-and-scoot é uma técnica de Artilharia, que consiste em efetuar a saída de posição imediatamente após a realização de fogos indiretos
sobre o alvo inimigo, com a finalidade de garantir a sobrevivência da força, através da diminuição do tempo de exposição aos fogos de contra-bateria
da Artilharia Inimiga.
2
É um simulador de tiro indireto e permite treinar a observação e regulação do tiro das bocas de fogo de Artilharia de Campanha e Morteiros.
3
Artillery Hunting Radar é um sistema de aquisição de objetivos baseado na deteção das trajetórias dos projéteis de Artilharia e Morteiros.
4
Field Handling Trainer.
5
Thermal Weapon Sight.
6
Battle Management Terminal.

JE 740 > maio 2024 >>> 37


Nelson Sousa

Major de Infantaria
Comandante da Companhia de Atiradores Mecanizada de Rodas da 5.ª Força Nacional Destacada na Roménia

Exercício CARPHATOS SHIELD 241


No âmbito do aprontamento da 5.ª Força Nacional Destacada -
Companhia de Atiradores Mecanizada de Rodas, para a Roménia
(5.ª FND CAtMec/ROU), realizou-se no Campo Militar de Santa
Margarida, no período de 8 a 12 de abril, o Exercício CARPHATOS
SHIELD 241

A
Organização do Tratado do Atlântico Norte paz, contribuindo para o reforço da defesa da fronteira da
(NATO, na sigla inglesa) deliberou, na Cimeira NATO a sudeste, com a projeção para a Roménia de uma
de Varsóvia de 2016, reforçar a presença mili- Unidade de Escalão Companhia, desde o primeiro semes-
tar na parte oriental do território da Aliança, com vista a tre de 2022, para integrar as estruturas de forças daquela
melhorar a sua postura de dissuasão e defesa, o que viria Organização de defesa nesta região, inserido na missão
a revelar-se essencial após a invasão do território ucra- enhanced Vigilance Activity 1.
niano por parte da Rússia, em 24 de fevereiro de 2022. Neste âmbito, a 5.ª FND (Força Nacional Destacada) a
Portugal, como membro da NATO, reafirmou o seu forte ser projetada em maio para o Teatro de Operações (TO)
compromisso com esta Organização e reiterou o seu em- da Roménia iniciou o aprontamento no final de novembro
penho nos esforços internacionais para a manutenção da do ano transato. Esta FND está organizada numa Com-

38
EXERCÍCIOS >>> ATUALIDADES

Organograma da 5.ª FND CAtMec/ROU

panhia de Atiradores Mecanizada de (UnOrg), encerrou a fase II – Treino Marinha e Estado-Maior-General


Rodas, equipada com a plataforma de Orientado para a Missão (TOM) do das Forças Armadas, a fim de nive-
combate Viatura Blindada de Rodas aprontamento da 5.ª FND CAtMec/ lar e uniformizar os conhecimentos
PANDUR II 8x8, um Módulo de De- ROU e teve como objetivo a certi- e assegurar que todos estão aptos a
fesa Antiaérea, com o míssil portátil ficação da Força em Combat Ready, proceder individualmente de acor-
Stinger, e assente na Viatura Tática pela Inspeção-Geral do Exército, do com a situação e com a ameaça
Ligeira Blindada 4x4 URO VAMTAC que realizou a avaliação através de com que possam vir a ser confronta-
ST5, um Módulo Conjunto de Infor- uma Combat Readiness Evaluation dos, fazendo uso correto do seu ar-
mações, um Módulo de Apoio Geo- (CREVAL). mamento e equipamento; instrução
gráfico e Cartográfico e um Destaca- Uma das tarefas-chave do apron- e treino de nível Secção, Pelotão e
mento de Apoio, que garante grande tamento é preparar a força para a Companhia/Módulo, com o objetivo
parte do apoio de serviços da Força. CREVAL, pelo que, de uma forma de garantirem os conhecimentos ne-
faseada e exigente, foi conduzido o cessários para desenvolverem tarefas
Preparação seguinte treino: nivelamento indi- críticas desses escalões. O resultado
O exercício CARPHATOS vidual, considerado fundamental, deste treino foi testado no anterior
SHIELD 241, planeado e conduzido tendo em conta que os 200 militares exercício da força, CARPHATOS
pela Brigada de Intervenção (Bri- que integram a força são oriundos de START 241, no qual foram extraídas
gInt), como Unidade Organizadora 31 Unidades diferentes do Exército, boas práticas e lições identificadas,

Início da Inspeção Operacional - CREVAL

JE 740 > maio 2024 >>> 39


Visão do apontador da Metralhadora Pesada em preparação para o exercício final
do aprontamento.

Inspeção Operacional,
CREVAL
A inspeção ocorreu durante o pe-
ríodo de 9 a 11 de abril, assente em
três fases distintas:
– Fase I - Em aquartelamento, fo-
ram apresentados os brífingues
da Equipa de Inspeção (EI) e
do Comandante da 5.ª FND
CAtMec/ROU, foram avalia-
dos os recursos de que a força
dispõe, o conteúdo e cumpri-
mento do programa de treino
e aprontamento e os procedi-
mentos contidos nas normas e
planos;
– Fase II - No campo, com o ob-
jetivo de avaliar as capacidades
táticas da força, no âmbito do
planeamento e conduta de ope-
rações enquadrada num Field
Training Exercise (FTX);
– Fase III - Com realização de
um debrífingue da EI ao Co-
mandante da Força e represen-
tante da UnOrg para o apron-
tamento da força.

Execução
O exercício CARPHATOS
SHIELD 241 teve como objetivo va-
lidar o Plano de Treino, Normas de
Execução Permanente (NEP) e as
Técnicas, Táticas e Procedimentos
(TTP) da 5ª FND CAtMec/ROU,
constituindo-se como audiência pri-
mária de treino, em que o Centro de
Gravidade para este exercício foi a
avaliação Combat Ready na CREVAL
da Força. Para além do objetivo refe-
rido foi também possível confirmar e
validar o seguinte:
– A exercitação da terminologia,
metodologia e procedimentos
de planeamento, de acordo
com o processo de planeamen-
to operacional em vigor, em
ambiente controlado e fazendo
uso da língua inglesa para inte-
rações com o escalão superior e
comandos laterais;
– A prática e teste de atividades
de prevenção, mitigação e rea-
ção a incidentes do foro sani-
tário e psicológico, de acordo

40
EXERCÍCIOS >>> ATUALIDADES

Deslocamento tático da CAtMecRodas

com as TTP da força; mento, o Comando (Cmd) e Estado- módulos da força prestaram apoio à
– A implementação, prática dos -Maior (EM) da BrigInt constituiu-se manobra da CAtMecRodas e a Sec-
fluxos de informação diários como Cmd e EM da Multinacional ção de Comando da Força, para além
e semanais, de acordo com o Brigade South East (MNBde-SE), a do comando e controlo da operação,
estabelecido na Roménia e em fim de garantir o fluxo de comuni- garantiu permanentemente a ligação
Território Nacional, de forma cações similar ao existente no TO. O com o seu escalão superior. Durante
a contribuir para o Situational FTX incidiu numa operação defen- toda a operação, a Força foi sujeita a
Awareness. siva, tendo a CAtMecRodas inicial- vários incidentes injetados e à pre-
O exercício foi executado sob a mente ocupado uma zona de reunião sença de uma força opositora, garan-
forma de Live Exercise (LIVEX), do e posteriormente uma posição de tindo assim uma reprodução mais
tipo FTX, e para efeitos de enquadra- combate. Paralelamente, os restantes próxima possível do ambiente opera-
cional pretendido.
Para que a Força terminasse o
Exercício com o sentimento de mis-
são cumprida, houve a necessidade
de desenvolver uma preparação e
um treino bastante rigorosos, ten-
do como princípio sempre presente
o aperfeiçoamento diário de cada
militar, resultando num assinalável
melhoramento do seu desempenho
nas tarefas inerentes ao seu cargo, em
prol de um objetivo comum. Con-
siderando que os militares da Força
são oriundos de diferentes Unidades,
foi exercido um esforço suplementar
na gradual integração destes milita-
res, originando assim a coesão pre-
tendida e inspirando uma confiança
mútua no cumprimento da missão,
assim como foi verificado durante
o exercício CARPHATOS SHIELD
Visita do General Chefe do Estado-Maior do Exército
241. JE

1
Reforço da presença militar, dissuasão e defesa territorial da NATO.

JE 740 > maio 2024 >>> 41


João Lopes

Capitão de Infantaria
2.º Comandante da Companhia de Atiradores Mecanizada de Rodas da 5.ª Força Nacional Destacada na Roménia

Aprontamento da 5.ª FND CAtMec/ROU


A participação Nacional na estrutura de Forças da NATO, na
região leste da Aliança, está consignada numa Força de Escalão
Batalhão, com cerca de 200 efetivos, que a partir de maio será
projetada para a Roménia como a 5.ª FND CAtMec/ROU

N
a sequência da invasão da Ucrânia pela Rús- uma Unidade de Escalão Companhia para a Roménia, no
sia, e subsequente ativação dos planos de de- âmbito das Forças Nacionais Destacadas (FND), para in-
fesa da Organização do Tratado do Atlântico tegrar as estruturas de forças da NATO nesta região. Esta
Norte (NATO, na sigla inglesa), foi decidido projetar participação, com um efetivo total de 200 militares, tra-

42
APRONTAMENTO >>> ATUALIDADES

duz-se na constituição da 5.ª FND


CAtMec/ROU, no âmbito da missão
da NATO enhanced Vigilance Ac-
tivities. A 5.ª FND CAtMec/ROU é
constituída por militares do Exército
e da Marinha, e a sua preparação de-
corre no Regimento de Infantaria n.º
14 (RI14), em Viseu.
Aquartelada nas instalações mi-
litares de Caracal, na Roménia, a
5.ª FND CAtMec/ROU deve estar
preparada para realizar atividades
e tarefas com o objetivo de reforçar
a presença de forças, contribuindo
para a dissuasão e defesa em terri-
tório Romeno, no âmbito da NATO
e dos acordos bilaterais, nomeada-
mente participar em ações de treino
e em exercícios combinados com as
Forças Armadas da Roménia e outros
Países Aliados. A missão da 5.ª FND
CAtMec/ROU será, a partir de 23 de

“Aquartelada
nas instalações
militares de
Caracal, na maio de 2024, reforçar a presença de ríodo de 27 de novembro de 2023 a
Roménia, a 5.ª forças na região sudeste da Aliança,
no âmbito das enhanced Vigilance
25 de maio de 2024 foi destinado ao
aprontamento da Força, sendo con-
FND CAtMec/ Activities, e contribuir para a postura duzido de forma faseada, de modo
de dissuasão e defesa territorial desta a assegurar que a mesma cumpra os
ROU deve estar organização internacional. requisitos definidos e esteja apta a
A Força é constituída pelo Co- executar as missões e tarefas que lhe
preparada para mando e por cinco Subunidades possam ser atribuídas. Este processo
realizar atividades (Companhia de Atiradores Meca-
nizada de Rodas, Módulo de Defe-
é finalizado e validado através da ava-
liação da FND como um todo, tendo
e tarefas com sa Antiaérea, Módulo Conjunto de em vista a sua certificação. Para tal, o
Informações, Módulo Geográfico calendário de aprontamento foi divi-
o objetivo de Meteorológico e Destacamento de dido da seguinte forma:
Apoio). Os 200 militares são oriun- – Fase I, Aprontamento Admi-
reforçar a dos de 31 Unidades, Estabelecimen- nistrativo-Logístico (27 de no-
presença de forças, tos e Órgãos (U/E/O), constituindo-
-se em 19 Oficiais, 47 Sargentos e 134
vembro a 29 de dezembro de
2023);
contribuindo Praças, dos quais 178 militares são do – Fase II, Treino Orientado para
género masculino e 22 militares são a Missão (2 de janeiro a 19 de
para a dissuasão do género feminino. abril de 2024);
As diretivas de aprontamento – Fase III, Preparação para a Pro-
e defesa em emanadas pelo Comando das Forças jeção (22 de abril a 25 de maio
território Romeno, Terrestres (CFT) e pela Brigada de In-
tervenção (BrigInt) definem as linhas
de 2024).

Aprontamento
no âmbito da NATO orientadoras para o aprontamento
Administrativo-Logístico
da 5.ª FND CAtMec/ROU, tendo
e dos acordos sido definida como Unidade Orga- Uma das primeiras prioridades
nizadora (UnOrg) a BrigInt e como do Aprontamento Administrativo-
bilaterais (…)” Unidade Mobilizadora o RI14. O pe- -Logístico foi analisar a Estrutura

JE 740 > maio 2024 >>> 43


Orgânica de Pessoal e a Estrutura Or- tos, o Plano de Moral e Bem-Estar e o ção da Ordem de Batalha, iniciou-se
gânica de Material, seguindo-se a in- Plano de Manutenção. o processo da Dotação Individual de
digitação dos militares e a preparação Foi também dado início aos pro- Fardamento e Equipamento (DIFE),
das infraestruturas para receção dos cessos de credenciação, elaboração sendo distribuída de acordo com o
militares oriundos de outras Unida- de passaportes especiais, aferição clima e condições do Teatro de Ope-
des. Nesta fase foram elaborados vá- linguística, aprontamento sanitário rações (TO).
rios planos que são necessários para a (exames de rotina, vacinação e cursos Do ponto de vista dos procedi-
certificação da Força, destacando-se de índole sanitária) e aprontamento mentos administrativo-logísticos
o Programa de Aprontamento, o Pla- psicológico, através de uma equipa coletivos, foram diligenciadas as me-
no Administrativo-Logístico, o Plano do Centro de Psicologia Aplicada do didas para cumprir com o Plano de
de Integração para Recompletamen- Exército (CPAE). Após a consolida- Afetação de Meios, garantindo assim

44
APRONTAMENTO >>> ATUALIDADES

a concentração dos materiais e viatu-


ras para aprontamento. No âmbito da
formação, após serem recolhidas to-
das as necessidades, foram planeadas
e distribuídas por todo o período de
aprontamento, garantindo que todos
os militares cumprem com o estipula-
do no respetivo Job Description. Nes-
ta fase, é também dado o início a um
conjunto de palestras essenciais para
cumprimento da missão, abordando
diversos temas, desde assuntos de
âmbito operacional, psicológico, ca-
racterização do TO bem como temas
de informação e contrainformação.
O programa de treino físico foi ini-
ciado nesta fase, através da realização
de um controlo tendo em vista ava-
liar a condição física de cada militar.
A primeira fase do aprontamento
terminou com o reconhecimento de
comandantes ao TO da Roménia, que
foi essencial para se preparar e pla-
near a fase II.

Treino Orientado para a


Missão
O Treino Orientado para a Mis-
são (TOM) versa sobre o programa
de aprontamento da FND, de acor-
do com o TO, dando prioridade à
condução de atividades de instrução
destinadas a nivelar e uniformizar os
conhecimentos e capacidades essen-
ciais, ao nível individual, por forma
a assegurar que todos estão aptos a
proceder individualmente de acordo
com a situação e com a ameaça com
que possam vir a ser confrontados,
fazendo uso correto do seu arma-
mento e equipamento.
É nesta fase que se dá início a um
conjunto de programas previstos no
Plano de Aprontamento da Força,
dando mais ênfase ao treino opera-
cional e ao programa de tiro, de for-
ma a preparar os militares da Força
com os conhecimentos necessários
para conduzir as tarefas críticas ine-
rentes à sua missão e tarefas específi-
cas de Secção, Pelotão e Companhia.
Quanto ao Módulo de Defesa
Antiaérea, tratando-se de uma área
específica com militares provenien-
tes de várias Unidades, foi decidido
iniciarem o TOM no Regimento de
Artilharia Antiaérea, garantindo as-
sim um reforço de formação especí-

JE 740 > maio 2024 >>> 45


fica durante um mês. Para além de
sessões de tiro e instrução em quar-
tel, foi executado um Cross Training
no Regimento de Comandos, de 29
de janeiro a 2 de fevereiro, a fim de
exercitar e aumentar a proficiên-
cia, a nível individual e coletivo, em
ambiente urbano, tendo participado
parte da CAtMec. Posteriormente,
esta formação foi replicada a todos
os militares da Força através da con-
dução do Exercício “URBAN VIRIA-
THOS”, de 12 a 16 de fevereiro, na
Escola das Armas, em Mafra.
Após terem sido abordadas todas
as áreas e níveis do treino operacio-
nal, realizou-se o exercício “CAR-
PHATOS START 241” na semana de
4 a 8 de março, na região de Vouzela,
com vista à preparação para o exer-
cício “CARPHATOS SHIELD 241”.
Neste último exercício, realizado
de 1 a 12 de abril, foi encerrado o
programa de tiro, tendo-se também semana do exercício foi dedicada à te o período de 9 a 11 de abril, e as-
aproveitado para ministrar a todo Combat Readiness Evaluation (CRE- sentou em três fases distintas: Fase
o efetivo formação no âmbito nu- VAL), onde a Força foi avaliada em I, em aquartelamento, em que foram
clear, biológico, químico e radioló- diversas áreas, pela Inspeção-Geral apresentados os brífingues da Equipa
gico (NBQR) e Counter-Improvised do Exército, com vista à Certificação de Inspeção (EI) e do Comandante
Explosive Devices (C-IED). A última Nacional. A inspeção ocorreu duran- da 5.ª FND CAt/Mec/ROU, e avalia-

46
APRONTAMENTO >>> ATUALIDADES

dos os recursos de que a Força dis- numa tentativa de garantir o cresci- Apoio Avançada (intermediário para
põe, o conteúdo e cumprimento do mento na função dos militares menos garantir apoio) e RSOMI no Port of
programa de treino e aprontamen- experientes, impondo uma carga ho- Embarkation (resposta rápida como
to e os procedimentos contidos nas rária de treino acima do estipulado, ponto de entrada inicial).
normas e planos; Fase II, no campo, por forma a identificar possíveis la- Uma vez que todo o material e
que consistiu na avaliação das capa- cunas e a sua resolução num período equipamento já se encontra no TO
cidades táticas da força, no âmbito do curto de tempo. da Roménia, será adotado o RSOMI
planeamento e conduta de operações Outro desafio prendeu-se com a na área de operações. Em 12 de maio
enquadrada num Field Training Exer- falta de formação em áreas críticas. de 2024, será projetada uma Advan-
cise (FTX); Fase III com realização de Foram verificadas necessidades de ce Party, de 50 militares, através de
um Debriefing da EI ao Comandante formação, das quais se destacam os voo civil com destino ao aeroporto
da Força e representante da UnOrg cursos de condução das várias tipo- de Bucareste, para garantir a prepa-
para o aprontamento da força. Esta logias de viaturas, Curso de Chefe de ração e receção das viaturas e mate-
avaliação teve como documento-base Viatura PANDUR e VAMTAC, bem rial na Unidade Militar em Caracal,
o mais recente Allied Command Ope- como o Tactical Combat Casualty base de operações da FND ROU. A
rations (ACO) Forces Standards, Vol. Care (TC3), resultando num esforço 23 de maio, será feito o processo de
VII, de junho de 2023, do qual foram adicional no planeamento do treino Transferência de Autoridade da 4.ª
analisados todos os critérios de ava- operacional. para a 5.ª FND. E em 25 de maio,
liação de diversas áreas. serão projetados os restantes 150
Na fase do TOM, o maior desafio Preparação para a Projeção militares da Força através de voo
foi garantir uma Força coesa e uni- A 5.ª FND CAtMec/ROU encon- fretado.
da, treinada para cumprir a missão tra-se atualmente na Fase III. A pro- Nesta fase, ainda em Território
que lhe estava atribuída. Com uma jeção de uma Força baseia-se no pres- Nacional, importa consolidar as lis-
composição que integra militares de crito nos manuais Reception, Staging, tas de pessoal e material a projetar
31 U/E/O, com tipos de formação e Ownward Movement and Integration para o TO, planear e realizar a Ce-
vivência totalmente díspares, tornou- (RSOMI) for NATO/ EU-Led Military rimónia de Outorga do Estandarte
-se imperioso estimular uma ideo- Operations, normalmente dividi- Nacional, preparar as cargas coleti-
logia centralizadora e congregadora. do em três grandes áreas, em que se vas e individuais para a projeção e
A solução passou por garantir um destaca RSOMI na área de operações por último elaborar o Relatório Fi-
ritmo elevado de treino e exercícios, (tradicional), RSOMI numa Base de nal de Aprontamento. JE

JE 740 > maio 2024 >>> 47


Elisabete Silva *

Tenente-Coronel de Cavalaria
Comandante do Grupo de Carros de Combate

O aprontamento do Pelotão de Carros


de Combate como contributo Nacional
para o Multinational Battle Group
Slovakia
O Pelotão de Carros de Combate Leopard 2 A6, cujo aprontamento
decorreu desde janeiro de 2024 no Campo Militar de Santa
Margarida, integrará uma unidade de Escalão Batalhão do Exército
Espanhol, constituindo o contributo Nacional para o Multinational
Battle Group Slovakia, a operar na região leste da Aliança Atlântica,
com um empenhamento previsto de seis meses

T
eve início a 26 de janeiro de 2024, no Campo integrado numa Unidade de Escalão Batalhão (UEB) do
Militar de Santa Margarida, o aprontamento Exército do Reino de Espanha por um período de até seis
de um Pelotão de Carros de Combate (PelCC) meses. Este contingente é constituído, na sua totalidade,
Leopard 2 A6, contributo nacional no âmbito do Multina- por um Pelotão de Carros de Combate, uma Equipa de
tional Battle Group Slovakia (MNBG SVK), e que irá ser Manutenção (Casco e Torre), uma Equipa de Transmis-

48
APRONTAMENTO >>> ATUALIDADES

sões, uma Enfermeira e um Instrutor Carros de Combate M47 Patton participantes nas primeiras manobras realizadas pela
Avançado de Tiro (Master Gunner) Divisão Nun’Álvares, em 1953, no Campo de Instrução Militar de Santa Margarida
como elemento de ligação, num total (CIMSM) (Arquivo da Brigada Mecanizada)
de 27 militares, contando com os Ele-
mentos Nacionais Destacados.
Apesar de ser a primeira vez que
Portugal se prepara para projetar
uma força de Carros de Combate
(CC) para um Teatro de Operações,
esta tipologia de forças tem um vasto
historial de prontidão no âmbito da
Aliança Atlântica. Desde os primór-
dios da mecanização das forças por-
tuguesas, mais concretamente desde
a década de 50, que, ao abrigo da
Organização do Tratado do Atlânti-
co Norte (North Atlantic Treaty Or-
ganization [NATO]), foi assinado um
acordo bilateral de defesa entre Por-
tugal e os Estados Unidos da Améri-
ca, que resultou na chegada dos pri-
meiros CC M47 Patton. Desde então
tem-se vindo a testemunhar uma
evolução destes sistemas de armas,
assim como, uma contínua afetação ria capaz de ser projetada para uma os países membros da Aliança deci-
dos mesmos à NATO. área operacional além da Europa diram aperfeiçoar, e reforçar, o con-
Em 2003 foi estabelecido um com vista a cumprir missões especí- ceito de NRF, por forma a melhorar
mecanismo de resposta da Alian- ficas, nomeadamente, no âmbito das a respetiva capacidade e flexibilidade
ça Atlântica, NATO Response Force missões não Artigo 5.º do Tratado de emprego, apresentando o concei-
(NRF), tendo em vista dotar a NATO do Atlântico Norte. Neste quadro e to de “enhanced NRF” (eNRF). Esta
com uma capacidade militar de res- em 2015, na sequência da Cimeira NRF reforçada passou a dispor de um
posta rápida e efetiva, que se traduzia de Varsóvia e no contexto da inter- novo elemento de escalão Brigada de
na prática numa Força expedicioná- venção russa no Leste da Ucrânia, elevada prontidão, a “Very High Rea-
diness Joint Task Force” (VJTF), capaz
de ser projetada com um tempo de
aviso de cinco a sete dias e com um
dos seus Batalhões, o “spearhead Bat-
talion”, com um nível de prontidão de
48h.
Desde o estabelecimento da NRF,
e no quadro das várias Forças que o
Exército aprontou, destacam-se os
Agrupamentos Mecanizados (Agr-
Mec) da NRF 5, em 2006, da NRF 12,
em 2009 1, e da VJTF 22 2, entre 2021
e 2023, por integrarem Unidades de
CC nas respetivas estruturas orgâ-
nicas. Os Esquadrões de Carros de
Combate (ECC) dos primeiros dois
AgrMec encontravam-se equipados
com o CC M60 A3 TTS, entretan-
to fora de serviço, e o Esquadrão de
Carros de Combate atribuído à VJTF
22, equipado com o CC Leopard 2
A6.
Em 2021, no contexto da União
CC M60A3 TTS e viaturas de rodas do AgrMec/BMI/NRF 5, na estação Europeia e no quadro da Land Rapid
ferroviária de Saragoça, no Exercício Cohesion 05 (Arquivo da Brigada Mecanizada) Response (LRR), o Exército, através

JE 740 > maio 2024 >>> 49


Esquadrão de Carros de Combate do AgrMec VJTF 22

do Esquadrão de Reconhecimento, uma força, nomeadamente nas ações nistrativo-logístico, onde, cumulati-
aprontou um Pelotão de Carros de de Treino Físico, nas Listas de Tarefas vamente foram treinados e validados
Combate, tendo, neste âmbito, sido Essenciais ao Cumprimento da Mis- as Técnicas, Táticas e Procedimentos
projetados para o campo de mano- são (LTEM) e nas Sessões de Tiro, respeitantes ao treino individual/
bras de São Gregório, em Saragoça, assim como a Publicação Técnica do treino de nivelamento; de fevereiro a
com a finalidade de participar no Exército PTE 245-01-Avaliações de maio, a fase do treino orientado para
Exercício BETA21. Guarnições de CC Leopard 2 A6, que a missão, dividida em várias subfa-
Enquadrado no NATO Force Mo- avalia e certifica os conhecimentos ses, nomeadamente as referentes aos
del (NFM) e nas ofertas nacionais de dos elementos das guarnições de CC treinos de escalão Guarnição, Secção
forças no âmbito da Force Sourcing quanto à sua proficiência técnica e tá- e Pelotão, enquadrados nos vários
Conference (FSC) 3/23, foi aprovado tica, foi elaborado um programa de exercícios setoriais, onde se incluem
o oferecimento de forças para o Mul- aprontamento para o PelCC MNBG os das séries RINO do GCC, ROSA
tinational Battle Group Slovakia (MN SVK. BRAVA da BrigMec e ORION do
BG SVK). Neste quadro foi oferecido Por conseguinte, o programa de Exército. Neste último foi efetuada
um PelCC, Tier 1 in place, a partir do aprontamento foi estruturado em três a certificação e avaliação (CREVAL)
segundo semestre de 2024. Para cum- fases fundamentais: de janeiro a feve- do PelCC MNBG SVK. Após a cer-
prir este desiderato, a Brigada Meca- reiro, a fase do aprontamento admi- tificação da força segue-se a fase de
nizada (BrigMec) constituiu-se como
Unidade Organizadora (UnOrg)
para o aprontamento e manutenção
da prontidão do PelCC e o Grupo
de Carros de Combate da BrigMec
(GCC/BrigMec) constituiu-se como
a Unidade Mobilizadora (UnMob).

O aprontamento do PelCC
SVK

Programa de Aprontamento
Decorrente das orientações ema-
nadas superiormente, e tendo por
base o catálogo de treino disponível
no Sistema de Aprontamento de For-
ças do Exército (SAFE), que define
os níveis a atingir pelos militares de Esquadrão de Carros de Combate do AgrMec VJTF 22

50
APRONTAMENTO >>> ATUALIDADES

Master Gunner a controlar as sessões de tiro de CC através do Video Training Equipment (VTE)

Preparação para a Projeção. mente foram validadas nas sessões Leopard 2 A6, assim como, pela expe-
Paralelamente a estas fases foram de tiro com fogos reais, realizadas no riência acumulada no aprontamento
ainda planeadas sessões de treino em Campo Militar de Santa Margarida de Forças no âmbito da NRF, VJTF e
simuladores de CC em Espanha, no- O processo de edificação de uma LRR.
meadamente nas instalações da Bri- força de CC Leopard 2 A6 encontra-
gada Mecanizada Extremadura XI -se bem estruturado e solidificado Aprontamento
(BRIMZ XI) em Badajoz e no Centro no GCC, em grande parte devido De uma forma mais simples o que
de Adiestramiento (CENAD) em Sa- ao historial de Treino Operacional se pretende com o aprontamento de
ragoça, durante as quais teve lugar a desde que o GCC atingiu a Full Ope- forças é que estejam prontas para
certificação das guarnições em simu- rational Capability (FOC) e a conse- combate, requerendo, para isso, con-
ladores, qualificações que posterior- quente certificação da sua capacidade dição física, proficiência técnica e de-
sembaraço tático.
Imersos nesse espírito, iniciou-
-se a primeira fase do aprontamen-
to, orientada mais para a preparação
individual, que incluiu, para além da
preparação base idêntica às restantes
forças, sessões de treino em simula-
dores para CC que ocorrem no âmbi-
to das relações de cooperação bilate-
ral entre a BrigMec e a BRIMZ XI do
Exército Espanhol e tem como finali-
dade o treino de procedimentos dos
elementos da guarnição, incluindo a
prática da técnica de tiro realizada
num contexto de uma situação tática
em ambiente simulado. Esta fase ter-
minou com a realização do exercício
RINO 241 do GCC, que teve como
principal objetivo a validação das
tarefas individuais das Guarnições
de CC em diversas áreas, tais como
a topografia, tiro individual e tarefas
no seu respetivo posto de combate no
Tiro de CC Leopard 2 A6 CC Leopard 2 A6.

JE 740 > maio 2024 >>> 51


Ordem de Operações ORION 24

Após certificação das compe- numa manobra de pelotão ou esqua- ter à NATO, são utilizadas as listas de
tências individuais dos elementos drão e sempre acompanhadas e vali- verificação preconizadas no manual
das guarnições, iniciou-se a II Fase dadas pelo Master Gunner do GCC. Allied Command Operations Forces
do aprontamento. Nesta fase foram Para finalizar a fase do Treino Standards (ACO FS), Vol VII (Com-
efetuadas duas sessões de treino em Orientado para a Missão efetuou-se bat Readiness Evaluation of Land
simuladores, tendo a última sido o Exercício ORION 24 onde a força Headquarters and Units), que tem
efetuada no Centro de Adiestramien- foi certificada. como finalidade estabelecer a polí-
to "San Gregorio", sediado em Sara- tica, metodologia, procedimentos e
goça, e que teve como finalidade a A Inspeção Operacional (CRE- critérios para planeamento, condu-
prossecução dos procedimentos dos VAL), o método para a certificação ção e comunicação das avaliações
elementos da guarnição, a prática da Como referido, inserido no Exer- de prontidão de combate dos Quar-
técnica de tiro, bem como o treino tá- cício ORION 24, o PelCC MNBG téis-Generais e Unidades Terrestres
tico ao nível de pelotão com recurso SVK, à semelhança das restantes For- (NATO, 2023).
aos contentores de simulação tática. ças Nacionais Destacadas, foi sujeito O mesmo manual refere que as
O treino com recurso a sistemas de a uma Inspeção Operacional desig- avaliações devem ser conduzidas
simulação permite efetivar uma ti- nada CREVAL (Combat Readiness como um processo contínuo que
pologia de treino num ambiente de Evaluation). Esta inspeção teve dupla consiste em várias verificações de
combate simulado resultando numa finalidade: por um lado providen- controlo de prontidão com feedback
franca evolução da proficiência téc- ciar ao Comandante da Unidade re- direto aos Comandantes e Estado-
nica das guarnições de CC. comendações para melhorar as suas -Maior, permitindo ações corretivas
Com a finalidade de consolidar e forças e apoiar a certificação pela ao longo de todo o processo, devendo
validar as tarefas coletivas de guar- entidade competente, que no caso do ainda considerar os princípios funda-
nição, realizou-se o exercício RINO Exército é o General Chefe do Esta- mentais da avaliação, particularmen-
242 do GCC. Com o mesmo desíg- do-Maior do Exército, que certifica te, a imparcialidade, a transparência
nio, mas no patamar do Pelotão, rea- as forças, sob proposta da Inspeção e não se deixar influenciar (Free of
lizou-se o exercício ROSA BRAVA Geral do Exército 3 (Decreto Regula- Undue Influence).
242. Estes exercícios terminaram mentar n.º 2/2023) e, por outro, ava- Desde a CREVAL à 5.ª FND/
com um exercício de Fogos Reais liar e verificar a prontidão de comba- CAtMec/Roménia (ROU) que as
(LFX), onde se efetuaram as Tabelas te das forças declaradas à NATO. inspeções têm como base sete áreas:
de Tiro preconizadas para a certifi- Com base na doutrina de referên- Prepare, Project, Engage, Sustain, C3
cação das guarnições, enquadradas cia, nas avaliações de forças a come- (Consultation, Command and Con-

52
APRONTAMENTO >>> ATUALIDADES

PelCC MNBG SVK no fim do LFX ORION 24


“Apesar de cientes
dos desafios que
se avizinham,
inerentes à
projeção e
sustentação de
uma unidade de
escalão pelotão,
para um Teatro
de Operações a
cerca de 2500km
trol), Protect e Inform, num total de de relatórios e resolução de inciden-
aproximadamente 590 critérios de tes no âmbito da manutenção e do do Território
avaliação.
Nos dois primeiros dias, decor-
apoio sanitário.
Nacional, o ciclo de
reu a Fase I e Fase II da avaliação Desafios treino operacional
(avaliação em aquartelamento), nor- Para além do treino operacional
malmente designada de avaliação e da certificação da força, projetar e consolidado, assim
documental, onde o foco foi avaliar sustentar uma Força Nacional Desta-
os recursos de que a força dispõe, o cada requer uma logística meticulo- como a experiência
conteúdo e cumprimento do progra-
ma de treino e aprontamento e os
sa, pronta e eficaz. No caso específico
de uma unidade pesada, equipada
acumulada de
procedimentos contidos nas normas com Carros de Combate, de escalão participação
e planos. pelotão, que não tem, doutrinaria-
Foram também avaliados os crité- mente, a parte proporcional de apoio em exercícios,
rios relacionados com o processo de logístico, acrescida do facto de que
planeamento do Pelotão, nomeada- o PelCC MNBG SVK será integra- nacionais ou
mente os procedimentos de comando
(processo de planeamento aos baixos
do num batalhão multinacional, de
características distintas, e num novo
internacionais,
escalões), tendo esta fase terminado Teatro de Operações, essa capacidade conferem-nos a
com a apresentação da Ordem de logística terá de ser ainda mais atenta
Operações em caixa de areia. às necessidades da força. confiança de que
A Fase III, CREVAL, coincidente Apesar de cientes dos desafios
com o primeiro dia do Field Training que se avizinham, inerentes à pro- estamos prontos
Exercise do ORION 24, teve como
objetivo avaliar as técnicas, táticas e
jeção e sustentação de uma unidade
de escalão pelotão, para um Teatro
para combate.”
procedimentos do Pelotão, nomeada- de Operações a cerca de 2500km do
mente reações ao contacto (fogos di- Território Nacional, o ciclo de trei- nais ou internacionais, conferem-nos
retos, indiretos e aéreos), formações no operacional consolidado, assim a confiança de que estamos prontos
de combate, ocupação de uma posi- como a experiência acumulada de para combate.
ção de combate, elaboração e difusão participação em exercícios, nacio- Decisão no Combate! JE

* Coautor: José Isidoro, Major de Cavalaria, 2.º Comandante do Grupo de Carros de Combate

1
NRF 5 e NRF 12, os Agrupamentos foram aprontados pela Brigada Mecanizada, através do 1.º Batalhão de Infantaria Mecanizado, tendo sido reforçado
com um Esquadrão de Carros de Combate do Grupo de Carros de Combate.
2
O AgrMec VJTF 22 tem como Unidade Organizadora a Brigada de Intervenção e integra duas Companhias de Atiradores equipadas com a viatura
PANDUR II (RI 13 e RI 14), bem como um Esquadrão de Carros de Combate equipado com o CC Leopard 2 A6 (GCC). O Agrupamento iniciou o seu
período de aprontamento em janeiro de 2021, integrando a BrigVJTF em 2022.
3
A Inspeção-Geral do Exército (IGE) tem por missão apoiar o CEME no exercício da função de controlo e avaliação, designadamente através da realização
de inspeções e auditorias (Decreto Regulamentar n.º 2/2023).

JE 740 > maio 2024 >>> 53


Vítor de Oliveira

Professor
Antigo docente do Colégio Militar e da Universidade Católica

Imagens de Alcácer-Quibir – Emoção e


Criatividade
A vida e feitos de Dom Sebastião têm sido objeto de múltiplas
representações e interpretações, ao nível da escrita e da
iconografia, permanecendo a figura e personalidade do “Desejado”
e da Batalha de Alcácer Quibir como um dos grandes temas do
imaginário nacional

P
arta-se de um princípio evidente: as represen- da batalha tudo é criação temperada com maior ou menor
tações da batalha de Alcácer Quibir são todas emoção interpretativa grandiosa, estilizada ou trágica.
improváveis e fruto de elucubrações artísticas. São dois os estados das imagens da batalha, que pode-
Enquanto que para o retrato do Rei Dom Sebastião po- mos agrupar da seguinte forma: um grupo reúne as que
demos contar com sete retratos do natural, e mais umas acompanham as descrições da ordem da batalha escritas
quantas cópias, o que nos permite conhecer, com alguma em primeira mão e que permitem reconstituir com algu-
fidedignidade, o desenvolvimento da pessoa do Rei, acerca ma certeza e detalhe a forma como se organizou o exército

54
DIVULGAÇÃO >>> ATUALIDADES

Relação da batalha de Alcaçer que mandou hum cativo ao Dor Paulo Afonso. desastre, nos corpos jazentes amon-
BNF, Portugais 8, n.º 29, f. 120. (figura 1) toados a significar a tragédia em que
redundou a jornada de África, e al-
gumas outras, poucas, mostram um
corpo jazente, representando o Rei.
A maior parte das imagens que
tentam reproduzir o calor da Batalha
são apresentadas de lado, em hori-
zontalidade de direita para a esquer-
da (a maior parte) ou vice-versa. É o
que apresenta a clássica gravura de
Debrie de 1751, que abre o Livro Se-
gundo do Tomo IV, do livro de Diogo
Barbosa Machado, onde se vê à direi-
ta o Rei a cavalo, de espada erguida,
entusiasmando os seus cavaleiros a
atacarem os mouros que se aproxi-

“São dois os
estados das
imagens da
batalha, que
podemos agrupar
da seguinte forma:
um grupo reúne as
que acompanham
as descrições
da ordem da
batalha escritas
em primeira
mão (…) Todas as
outras imagens,
totalmente
interpretativas,
de Dom Sebastião (Luís Costa e Sou-
sa). São os manuscritos de um vete-
e de outro, diferenciados unicamen-
te pelas vestimentas e proteções da
podem organizar-
rano anónimo (fig. 1) e os diagramas cabeça, ou pelos estandartes, numa se num outro
impressos em obras posteriores que confusão de lanças, espadas, cimi-
mostram a posição dos Exércitos (fig. tarras, cavalos e soldados, de onde conjunto, segundo
2). Todas as outras imagens, total- emerge a figura de um cavaleiro, que
mente interpretativas, podem organi- presumidamente será o Rei portu- uma ordem lógica
zar-se num outro conjunto, segundo
uma ordem lógica da batalha: a luta,
guês. O conjunto pictórico centra-se
nessa suposta figuração, em atitudes
da Batalha: a luta,
o seu desfecho e a morte do Rei. Na de ímpeto e de fulgor guerreiro, para o seu desfecho e a
primeira sequência mostram-se os enfatizar a valentia do soberano. Ou-
combatentes guerreiros de um lado tras criações artísticas mostram o morte do Rei.”

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Fr. Luis Nieto. (Trad. de IoannemThomam Freigius), Historia De bello Africano: in mam, que reproduz em perspetiva
quo Sebastianus... Portugalliae Rex, periit ad diem 4. Aug. Anno 1578, 1581. a formação dos dois Exércitos, tal
(História da guerra africana na qual morreu o rei Sebastião, no dia 4 de Agosto de como aparecem descritos nas cróni-
1578. Traduzida da língua espanhola, primeiro em francês e depois em latim.
cas e nas gravuras antigas: o crescen-
(figura 2)
te do lado dos árabes, o quadrado do
lado cristão (fig.3). Modernamente,
sirva o exemplo de Alberto de Sou-
sa que, em 1917, interpretava assim
a Batalha (fig. 4). Do epílogo da luta
e desalento da derrota dá conta o de-
senho de Manuel de Macedo (1839-
1915), (fig. 5) um dos grandes e pro-
líficos ilustradores do século XIX, em
gravura de Caetano Alberto da Silva
(1843-1924). E da morte do Rei, a
ilustrar o conhecido poema de Fer-
nando Pessoa “Esperai! Caí no areal e
na hora adversa”, na Mensagem, a in-
terpretação de Carlos Alberto Santos
(1933-2016) (fig. 6). Ou ainda outra,
muito sugestiva, totalmente impro-
vável, segundo as crónicas, mas que
tem um interesse particular por ser
um dos primeiros exemplares a cores
saídos da litografia do catalão Gar-
dette. (fig. 7)
Estas são gravuras que podemos
designar, ainda que impropriamen-
te, “históricas”. Mas, curiosamente,
a demonstrar a perenidade do tema
sebástico, há modernamente um in-
teresse renovado na figura do Rei
português e no acontecimento fulcral
do seu reinado, a Batalha de Alcácer
Quibir. Além de outras manifesta-
ções artísticas, é notória a apropria-
ção do tema em livros destinados a
um público infantil ou juvenil, que
os criadores artísticos, designers ou
ilustradores não desdenharam abor-
dar. Normalmente, num tratamento
imagético inspiradamente ingénuo,
mas sugestivamente entendível por
público infantil.
Em outro registo, vale a pena de-
termo-nos na obra do pintor João
Carlos (1899-1960), cujo traço muito
próprio nos mostra outras caraterís-
ticas interpretativas acrescentadas da
mitografia sebástica (fig. 8). O Rei é
novamente a figura central, de espa-
da em riste, a cumprir a sua icono-
grafia, e os elementos históricos estão
incluídos: o desembarque, a figura
do Xerife, a cruz arrojada pelo chão,
o apontamento de morte expresso
pela caveira e pelo abutre. Mas ago-
ra, o pintor introduz as guitarras que

56
DIVULGAÇÃO >>> ATUALIDADES

os fidalgos tangiam à noite enquanto Diogo Barbosa Machado, Memórias para a história d’el-rei D. Sebastião, Tomo IV,
esperavam pelo combate do dia se- 1751 (figura 3)
guinte, o que gerou o mito romântico
das dez mil guitarras espalhadas pelo
chão juncado de cadáveres depois da
tragédia, ao mesmo tempo que des-
taca a figura de Camões, não como
participante, mas como incentivador
do Rei para a jornada de África, “Vós,
novo temor da Maura lança, Maravi-
lha fatal da nossa idade”, escrito na
estrofe seis do Canto primeiro de
Os Lusíadas, que segura debaixo do
braço.
Porém, de todos os exemplos ci-
tados sobressai o quadro de Jorge
Colaço, de 1897, comprado à família
do pintor pelo Museu Militar. (fig. pela descrição de um movimento ex- ao mesmo tempo que representa to-
9) É aí que o podemos admirar des- traordinário, pintado de frente e já dos os aspetos que fizeram de Alcá-
de 2013, altura em que foi devolvido não em plano horizontal: os cascos cer Quibir um marco importante na
pelo Instituto dos Pupilos do Exérci- dos cavalos atropelam-nos, sente-se História, que ecoou por toda a Euro-
to, onde estava por empréstimo e de- a força da luta e damo-nos conta de pa: a derrota de cristãos do ocidente
pois do restauro que lhe devolveu a que a violência da cena nos vai inva- e a primeira vitória do mundo árabe
sua grandiosidade. dir e arrastar no seu furor. O quadro dos tempos modernos, cujo signifi-
Diferencia-se de todos os outros dá grandeza e ferocidade à Batalha, cado ainda hoje é celebrado a qua-

Alberto de Sousa, “Batalha de Alcácer Quibir”, Chagas Franco, João Soares, Quadros da História de Portugal, 1917. (figura 4)

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“De Dom Sebastião Manuel de Macedo (desenhador), Alberto (gravador), “Alcacer-Kivir”. Gervásio
Lobato, História de Portugal, 1883. (figura 5)
se disse já quase
tudo, quase tudo já
se discutiu sobre
a vida e a sua ação
na História, já tudo
se insinuou sobre
a pessoa, que
tem sido adulada,
vilipendiada,
exaltada,
incompreendida e
até reinventada.
(...)
descobrimos como
é rica a temática
que tem como
objetivo o Rei
Desejado (...).”

Carlos Alberto Santos, Batalha de


Alcácer Quibir, 2003. (figura 6) Litografia. de Gardette e Cia., Barcelona,1847/1848 (figura 7)

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DIVULGAÇÃO >>> ATUALIDADES

tro de agosto, como marco histórico panhia de cinco ou seis cavaleiros de mento e à perceção da envolvência
importante na história de Marrocos. Tânger, porque os fidalgos e cavaleiros feroz da batalha.
Nele estão presentes o Rei português estavam tão acobardados que muitos De Dom Sebastião se disse já qua-
Dom Sebastião, o Xerife Mawlay Ah- deixavam os cavalos e abrigavam-se se tudo, quase tudo já se discutiu so-
mad al-Mansur, à esquerda um fra- sob as carruagens para se refrescar. bre a vida e a sua ação na História, já
de moribundo agarrado à Cruz de [...] Todavia, o rei combatia junto da tudo se insinuou sobre a pessoa, que
Cristo e o amontoado trágico dos batalha em companhia de dois ou três tem sido adulada, vilipendiada, exal-
corpos mortos, destino final de uma que lhe tinham ficado. E era tão gran- tada, incompreendida e até reinven-
Batalha feroz. Esta pintura de Jorge de o estrago, que só ele fazia nos inimi- tada. Mas por esta curta e rápida re-
Colaço reflete bem as palavras de Fr. gos, ferindo e matando, que diziam os senha exemplificativa e forçosamente
Luís Nieto, que o artista poderia ter mouros que era fogo do céu. escassa de alguns exemplos das cem
lido na descrição da Batalha em es- O único senão da criação de Jorge representações que recenseei, em um
panhol deixada manuscrita pelo do- Colaço é a representação figurada do conjunto de Imagens de D. Sebastião,
minicano, da qual foi testemunha e Rei que em todos os retratos conhe- que será publicado em breve, desco-
que só foi publicada em 1891: Mas o cidos usa cabelo curto e raso e não a brimos como é rica a temática que
rei de Portugal não deixava de fazer frondosa cabeleira loira ondulando tem como objetivo o Rei Desejado e
algumas arremetidas a, um lado e a ao vento do combate. Mas até esse como está bem presente ainda como
outro dos inimigos, apenas em com- pormenor inusitado ajuda ao movi- inspiração literária e figurativa. JE

João Carlos, Morrer, mas devagar..., 1933. (figura 8)

Jorge Colaço, El Rey D. Sebastião em Alcasser Kebir, 1897, Museu Militar de Lisboa. (fotografia 9)

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Exercício ROSA BRAVA 242
(Divisão de Comunicação do Exército)
Hermes Gonçalves

Coronel
Oficial de Ligação para Assuntos Culturais e Doutrinários do Exército Brasileiro

O Monte das Tabocas: O começo da


derrota dos Holandeses no Brasil
Durante os anos da União Ibérica (1580-1640), em que a Espanha
deteve um importante monopólio comercial no Brasil, os Países
Baixos, seus rivais, começaram a disputar as riquezas do território,
tendo desencadeado diversas ações hostis, com incursões na Bahia
e Pernambuco, e depois no interior do Brasil, face às quais emergiu
a resistência local e os movimentos de defesa luso-brasileiros
Militares do Exército Brasileiro, no alto da Pedra da Sentinela, ponto mais alto do Monte das Tabocas, cerimónia evocativa à
Batalha de 3 de agosto de 1645

De Formião, filósofo elegante, A disciplina militar prestante


vereis como Anibal escarnecia, não se aprende, Senhor, na fantasia,
quando das artes bélicas, diante sonhando, imaginando ou estudando,
dele, com larga voz tratava e lia. senão vendo, tratando e pelejando
– Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto X, estrofe 153

62
VISÃO DA HISTÓRIA >>> CULTURA E LAZER

Conforme descrito na estrofe de Vista aérea recente, de norte para sul, do cume do Monte das Tabocas.
Camões que abre este artigo, o ideal Arquivo de Djalma Andrade
seria sempre buscar o conhecimento
militar por meio da recolha oportuna
de ensinamentos práticos no cam-
po de batalha. Em tempo de paz, na
(grata) impossibilidade de realizar
essa tarefa com as duras experiências
bélicas reais, entre outras possibilida-
des, os pesquisadores na área militar
não devem esquecer de outro campo
fecundo de ensinamentos doutriná-
rios: a História Militar.
Neste ponto, é sempre bom des-
tacar que grandes chefes militares,
como Napoleão Bonaparte, sempre
instigavam os seus principais Oficiais
a ler, e reler, os grandes clássicos mi-
litares em busca da exata noção dos
princípios imutáveis da guerra.
Assim sendo, um dos conflitos Guararapes (abril de 1648 e feverei- Contudo, tais vitórias não foram
militares de grande valor para o estu- ro de 1649) têm sido destacadas por concretizadas nem rápida, nem facil-
do da Arte da Guerra, num Ambiente historiadores militares, brasileiros e mente, tendo demandado uma longa
Operacional dentro do Brasil, são as portugueses, pela sua grande impor- preparação por parte dos patriotas
chamadas “Guerras Brasílicas”, ocor- tância para a vitória da Restauração portugueses empenhados, pelo me-
ridas entre 1624 e 1654. Nesse longo de Portugal (1640-1668), após a con- nos, desde 1645, na efetiva liberta-
conflito, entre outras, as Batalhas dos turbada União Ibérica (1580-1640). ção do Nordeste do Brasil do jugo

Esquema da Batalha do dia 3 de agosto de 1645, no Monte das Tabocas

JE 740 > maio 2024 >>> 63


holandês. Foi no Monte das Tabocas, agora submetido à Coroa de Espanha. flito com os novos senhores de Por-
situado no atual Município de Vitó- Nessa lógica, em termos práticos, os tugal, planearam uma série de ações
ria de Santo Antão (46 km a Oeste portugueses, e seus vastos territórios hostis contra a zona açucareira do
do Recife) onde a sorte dos patriotas ultramarinos, em especial o Brasil, Brasil: inicialmente, sem sucesso, na
locais começou a mudar nesse longo ficaram proibidos de comerciar com Bahia e, com algum lapso, invadindo
embate. os holandeses, antigos aliados e par- um setor até então menos defendido,
O longo conflito entre as Provín- ceiros comerciais de longa data, o que que era a Capitania de Pernambuco.
cias Unidas Holandesas (Holanda), lhes acarretou enormes prejuízos. Cabe mencionar que as ações
representadas pela Companhia das Dentre o vasto leque de parce- hostis levadas a cabo foram reali-
Índias Ocidentais, e Portugal, em rias comerciais frustradas pela União zadas por um braço comercial das
terras brasileiras, uma verdadeira das Coroas espanhola e portuguesa, Províncias Unidas, chamado Com-
“Guerra dos 30 anos no Brasil”, teve destacou-se a da comercialização do panhia das Índias Ocidentais (WIC),
as suas origens remotas quando os açúcar de cana produzido por enge- criado na esteira de um empreen-
portugueses, após o desastre militar nhos por todo o Brasil, com destaque dimento similar (a Companhia das
ocorrido em Alcácer-Quibir (1578), para os da sua região Nordeste. Estes, Índias Orientais) que foi usado, com
acabaram por cair sob o jugo es- por terem sido originalmente finan- sucesso, por comerciantes holande-
panhol. A Espanha, após a União ciados com capital holandês, foram ses, para incursões militares contra
Ibérica, e então sob a Dinastia dos um exemplo do acordo económico, territórios hispano-portugueses no
Habsburgos, tornou-se um verdadei- mutuamente satisfatório, que havia Oriente (Ilhas Molucas, Java e outras
ro império global, com inimigos di- entre Portugal e Holanda - até 1594, antigas possessões Ibéricas).
versos, entre eles a República das Sete ano em que os holandeses começam É interessante também notar que
Províncias Unidas dos Países Baixos a cobiçar abertamente as riquezas desde a primeira incursão holandesa
(1581-1795), entidade política hoje do Brasil - em especial o açúcar e o (1624-1625), o ataque à praça-for-
conhecida como os Países Baixos, ou, pau-brasil. te de Salvador, já tinham ocorrido
mais simplesmente, a Holanda. Não obstante, os holandeses, ao menções a uma forte resistência aos
Esta, em face dessa sua antiga ini- verem-se privados dos lucros que tra- invasores por meio do uso de táticas
mizade com a Espanha, acabou por dicionalmente obtinham com a sua de fustigação (ataques inesperados,
iniciar hostilidades com Portugal, antiga parceria açucareira, e em con- desgastantes e mortíferos) pelos ha-

Primeiras emboscadas da Batalha do Monte das Tabocas. Ilustração de Alcebíades Júnior

64
VISÃO DA HISTÓRIA >>> CULTURA E LAZER

Esquema gráfico que demonstra os movimentos militares anteriores ao confronto de 3 de agosto de 1645.

bitantes locais. Tal estado de coisas nova incursão, desta feita na já referi- do Recife. Além disso, conseguiu
privou os invasores da possibilida- da Capitania de Pernambuco. manter vívida a reação local ao inva-
de de firmarem o domínio sobre a Para tal ofensiva, os holandeses sor, sobretudo por meio das chama-
Zona do Recôncavo, ou seja, as áreas organizaram uma força militar com das “Companhias de Emboscada” ou
de produção de alimentos para a 54 navios de guerra, entre 6200 e “Companhias de Assalto”.
subsistência nos arredores da então 7200 militares, com os quais desem- Como referido acima, essas uni-
cidade-fortaleza e capital do Brasil barcaram, sem muita resistência ini- dades de guerra irregular tiveram a
seiscentista. cial, na praia do Pau Amarelo (situa- sua origem imediata na defesa po-
Enfraquecidas pela resistência da a cerca de 16 quilómetros ao norte pular apresentada anteriormente em
montada pelos habitantes locais, as de Olinda) e, rapidamente, ocuparam Salvador, sendo novamente ativadas
forças holandesas mantiveram po- Olinda e, posteriormente, o porto do por Mathias de Albuquerque no fa-
sição enquanto puderam ser rea- Recife, mais a sul. moso Arraial Velho do Bom Jesus -
bastecidas por via marítima, o que Mais importante, sem perda de cujas fundações estão hoje situadas
permaneceu inalterado, até que uma tempo, e sem dúvida tentando evitar nos arredores do Recife – e que man-
forte armada de naus portuguesas, o impasse surgido na ocupação de tém em suspenso a vitória completa
espanholas e napolitanas, sob co- Salvador, as forças holandesas am- dos holandeses.
mando de Dom Fadrique de Toledo, pliaram a sua área de ocupação para Tais Companhias de Emboscadas,
proveniente da Europa nos primeiros o interior, buscando dominar a re- durante cerca de cinco anos, pese
meses de 1625, iniciou um bloqueio gião dos engenhos de açúcar (a cha- embora as suas limitações de efeti-
total a Salvador, forçando os holan- mada Zona da Mata) e garantir fon- vos e de meios, conseguiram manter
deses à rendição. tes de abastecimento alimentar para o invasor em constante sobressalto,
Apesar dessa derrota inicial, os as suas posições costeiras. impedindo o seu livre trânsito pelas
holandeses não desistiram, e finan- Apesar do sucesso inicial avas- estradas, atacando patrulhas, des-
ciados com recursos obtidos por salador, a resistência ibérica fez-se tacamentos e comboios inimigos,
meio de incursões corsárias contra os notar por meio de diversas ações do impedindo assim a pacificação do
transportes de prata espanhóis, na re- Mestre de Campo General (Tenente- território.
gião do Caribe, logo voltaram a ata- -General) de Pernambuco, Mathias Esses agrupamentos de milicia-
car. Em 1630, mais experimentada, de Albuquerque, com destaque para nos locais e portugueses, reforçados
e em maior número, a WIC tentou o incêndio dos depósitos de açúcar por indígenas e negros escravos (li-

JE 740 > maio 2024 >>> 65


bertos ou não), utilizaram ao máxi- tes originais de Pernambuco (cerca clusive, e gradualmente, ampliaram o
mo táticas de guerrilha ancestrais do de 7000 pessoas) para a Capitania seu controlo territorial sobre a região
Velho Mundo, mescladas com táticas Real da Bahia. No caminho, cercaram nordeste brasileira, culminando com
de uso corrente pelos indígenas bra- e ocuparam o Forte de Porto Calvo, uma nova incursão a Salvador (1638)
sileiros. Aliaram, ainda, um elevado tendo então capturado, julgado e e a breve ocupação do Maranhão
conhecimento do terreno, e do clima executado Domingos Fernandes Ca- (1641 a 1643).
tropical, para maximizar o efeito das labar, o responsável pela traição que No ano de 1645, contudo, já com
suas ações de interdição e atrito con- gerou a derrocada portuguesa naque- o domínio holandês politicamente
tra o invasor. le ano. bastante desgastado, um grupo de
Mesmo assim, sem apoio da me- Deste momento em diante, até patriotas nascidos dentro e fora do
trópole e sitiado por forças holan- 1645, os holandeses conseguiram antigo Estado do Brasil, em plena
desas superiores, o Arraial Velho, um arranjo político e militar que Guerra de Restauração entre Portu-
cercado, rendeu-se em 1635, tendo lhes permitiu obter vários anos de gal e Espanha (travada entre 1640 e
Mathias de Albuquerque escapado estabilidade na região (Governo de 1668), decidiram reacender a luta
com parte significativa dos habitan- Maurício de Nassau). Com isto, in- contra os invasores holandeses no

Mapa ilustrado das antigas prefeituras holandesas de Pernambuco e Itamaracá, durante a ocupação holandesa do Nordeste do
Brasil (1630-1654). Ano de 1662.

66
VISÃO DA HISTÓRIA >>> CULTURA E LAZER

“António Dias Segundo assentamentos exis-


tentes, o Mestre de Campo António
e das demais capitanias subjugadas
pelo invasor estrangeiro. Em parale-
Cardoso e os Dias Cardoso, Cavaleiro da Ordem lo, em meados de 1645, a paz relativa
seus homens de Cristo, teria nascido no Porto, por
volta do final do século XVII, filho
nas áreas ocupadas pelos holandeses
rapidamente caminhou para o confli-
começaram a de pais com origem fora da nobreza, to militar aberto.
tendo vindo jovem para o Brasil para O ponto inicial dessa conflagra-
instruir, nas matas tentar a sorte nas lides castrenses. ção começou justamente quando as
que cercavam Por relato de cartas-patentes de 1648
e 1656, existentes no Arquivo Nacio-
forças patriotas, comandadas por
João Fernandes Vieira (natural da
alguns engenhos nal da Torre do Tombo (situado em ilha da Madeira) e pelo já referido
na Zona da Mata Lisboa), temos que esse renomado
militar português teria servido no
Sargento-Mor António Dias Cardo-
so, conseguiram atrair um conside-
pernambucana, Brasil, de forma contínua, e sempre rável contingente holandês para um
de armas na mão, desde 1624. combate nos termos desejados pelas
o que pode ser Ao longo desse longo período, forças locais. Tal atração deu-se jus-
considerado como foi sendo sucessivamente promovi-
do a Alferes, Ajudante, Capitão, Sar-
tamente pela constatação dos ho-
landeses acerca da presença de uma
o núcleo militar gento-Mor e, finalmente, Mestre de força insurgente significativa, nos ar-
dos patriotas Campo, sempre por meritórios ser-
viços na guerra contra os holande-
redores do Recife, o que levou a uma
ofensiva militar.
em armas para ses. Nesse documento, há referências Em 3 de agosto de 1645, uma for-
aos seus destacados serviços, prova- ça holandesa com cerca de 1500 ho-
a libertação de velmente, sob o comando de Matias landeses e indígenas tapuias, coman-
Pernambuco e das de Albuquerque, “em varios asaltos,
emboscadas e recontros que se lhe
dados pelo Coronel Hendrik Van
Haus, avançou sobre posições dos
demais capitanias ofereçerão junto da villa de Olimda chamados “rebeldes” na região hoje
subjugadas nas fortificações do Reçife e outras
estançias adonde proçedeo com val-
conhecida por Monte das Tabocas,
sendo surpreendidos pelo terreno
pelo invasor lor conhecido” (sic), e depois, sob (que desconheciam) e pelo número,
João Fernandes Vieira e Francisco ímpeto e audácia das milícias patrio-
estrangeiro.” Barreto, quando “procedendo nellas tas que realizaram seguidas embos-
(pelejas e batalhas) cô valor conheci- cadas desmoralizantes sobre as suas
do signalandosse nas mais das ditas tropas.
nordeste brasileiro. Essa luta, acesa ocasioens recebendo nellas feridas de Segundo o historiador brasileiro
desde 1624, pelo menos, haveria de se que sua vida correo grande perigo e Coronel Claudio Rosty, em Tabocas,
arrastar por quase mais uma década, na aclamação da liberdade daquelas dos cerca de 1200 patriotas em pre-
tendo demonstrado o elevado valor Capitanias (...) que demais trabalhou. sença, somente cerca de 200 teriam
militar dos combatentes portugueses, Por essa destacada folha de ser- armamento de fogo, estando os de-
nascidos, ou não, em Portugal. viços, ainda servindo no Brasil, em mais “armados” de forma improvisa-
Contudo, mesmo com a Restaura- dezembro de 1644, ou começo de da (flechas, piques com pontas tosta-
ção de Portugal, efetivada em 1640, o 1645, foi designado pelo Governador das, terçados e mesmo pedras). Por
Reino liberto tentou aos poucos reto- do Brasil, então sediado em Salva- outro lado, aparentemente, os cerca
mar a autonomia que perdera por 60 dor, para se infiltrar na Capitania de de 700 holandeses, e mais outros tan-
anos. Na realidade, de imediato, não Pernambuco, “acompanhado por 60 tos indígenas aliados, estavam mui-
teve condições políticas, nem espe- homens escolhidos”, a fim de prover to mais bem armados e equipados
cialmente financeiras, de lutar aber- apoio militar, ainda que de forma ve- do que os patriotas, muito embora
tamente pelos seus territórios perdi- lada, aos patriotas que então come- Nestscher alegue que essa tropa era a
das enquanto sob jugo espanhol. çavam a querer insurgir-se contra o última unidade móvel, fora das forti-
Mesmo assim, de forma velada, as domínio holandês. ficações, e carecesse de pagamentos e
autoridades portuguesas em Salvador A partir dessa histórica infiltra- do mínimo suprimento bélico (inclu-
buscaram manter vivo o espírito de ção, António Dias Cardoso e os seus sive munições).
resistência pernambucano, o que fi- homens começaram a instruir, nas Conforme o Frei Rafael de Jesus,
zeram por meio do envio clandestino matas que cercavam alguns engenhos na época da Batalha, o Monte das
de recursos, suprimentos e homens na Zona da Mata pernambucana, o Tabocas, situado a cerca de 40 qui-
de armas, como por exemplo, um que pode ser considerado como o lómetros do centro do Recife, tinha
destacado militar chamado António núcleo militar dos patriotas em ar- uma configuração vegetal que lhe
Dias Cardoso. mas para a libertação de Pernambuco deu o nome: cheio de tabocas, ou

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Vista recente da várzea entre o Rio Tapacurá e o sopé do Monte das Tabocas, palco principal dos combates de 3 de agosto de
1645. Arquivo de Jones Pinheiro

seja, renques de bambu grossos, em atrito sobre a necessária coesão das lação, persistindo na subida monte
linhas sucessivas, com passagens li- linhas batavas. acima, com as suas linhas bastante
mitadas para o prosseguimento rumo Tanto Santiago como Jesus apon- desarticuladas, quando foram con-
ao topo. A primeira linha de tabocas taram que os patriotas fizeram uma tra-atacados pelos defensores, pro-
então distaria cerca de 1000 metros emboscada inicial na transposição do venientes do alto do monte. Estes
do curso do Rio Tapacurá, após uma curso de água, o que só tornou mais lançaram-se num decidido combate
campina, e segundo Santiago, acom- instintiva a reação dos holandeses ao corpo-a-corpo com a tropa holande-
panharia a trilha em aclive para o alto que se mostrou ser uma isca para as sa, já desequilibrada, que acabou por
do monte. emboscadas principais que transcor- recuar.
Passado este primeiro tabocal, reram mais adiante. É narrado que o destemido Coro-
depois de um descampado de menor Com isso, após o rio, e depois de nel Haus repetiu por mais três vezes
extensão, haveria um segundo ren- um provável dificultoso avanço pela o assalto inicial. Na quarta, e última,
que que ascendia quase ao topo do campina barrenta, quase na primeira tentativa, já no lusco-fusco (e tendo
monte. Por sinal, o cimo à época es- linha de tabocas, os atacantes foram sido o tempo inteiro fustigado por
tava com densa cobertura de árvores acometidos por sucessivas embosca- novas emboscadas) mesmo assim,
e, em sua orla, mais um renque dos já das, de variados pontos (provavel- quase tomou o cume. Contudo, nessa
citados tabocais. mente por uma mescla de fogos, fle- altura, a tropa estrangeira, com a mo-
No caminho para a presa, que chas e mesmo pedras). Tendo então ral abalada por insucessos contínuos
julgavam certa, os holandeses avan- reduzida capacidade de fogos, após ao longo da jornada, desmoralizou-
çaram meio que temerariamente, uma provável pausa para reajuste dos -se e começou a abandonar o campo
tendo, ao cruzar o rio caudaloso, seus dispositivos, os homens de Haus de batalha, cruzando de volta o rio
provavelmente diminuído considera- avançaram pelas poucas passagens para longe dos resolutos defensores.
velmente (por ação da humidade) a disponíveis na primeira linha de ta- Quando a noite caiu, os defen-
sua pretensa superioridade de fogos. bocais, rumo ao segundo descampa- sores mantiveram, e melhoraram, as
Além disso, com fardas e apetrechos do, já em aclive considerável. suas posições no campo de batalha,
molhados, o solo húmido e barrento A partir daí, os holandeses sofre- preparando-se para os eventuais no-
(pesado), devem ter sofrido a ação do ram novas emboscadas de desarticu- vos ataques que poderiam vir no dia

68
VISÃO DA HISTÓRIA >>> CULTURA E LAZER

seguinte. Nesse ponto, João Fernan- Nordeste brasileiro, tendo ficado Voltando ao Monte das Tabocas,
des Vieira mandou patrulhas percor- restritos a algumas cidades e fortes no que toca às inovações táticas apre-
rerem os arredores de onde trans- litorais, com destaque para as locali- sentadas pelos patriotas no episó-
correra o centro da batalha, tendo os dades de Olinda, Recife e Itamaracá. dio pode-se dizer que elas surgiram
portugueses “achado 50 olandeses, Após as Batalhas dos Guararapes, tanto das circunstâncias (exército de
que davão guarda a mais de quatro- entre 1649 e 1654, as forças patriotas patriotas sem recursos) quanto da
centos feridos, que desmayados pella sitiaram o centro de gravidade po- natureza do ambiente operacional
falta de sangue, & pello trabalho da lítico holandês na região, ou seja, o (clima quente, húmido e coberto de
marcha, não poderão passar avante binómio Olinda-Recife, sufocando-o florestas, campinas e zonas alaga-
na conserva dos seus”. e privando-o de ser reabastecido de diças) que os envolvia. Além disso,
Com o raiar do dia, e com a con- víveres e outros insumos, salvo pelo aquele núcleo inicial de combatentes
firmação do abandono do campo pe- mar. aproveitou o melhor conhecimento
los holandeses, ficou patente a vitória Deste modo, surgiu um impasse, geográfico e a maior resistência dos
dos locais (idem), com o que, com o pois graças à hegemonia naval ho- seus elementos a um clima tropical
sucesso confirmado, os patriotas, se- landesa, no mesmo período, e sem do que o seu inimigo europeu (apesar
nhores do campo de batalha, captu- artilharia de sítio (pesada) não havia do apoio prestado por índios tapuias
raram grandes quantidades de mos- como as forças patriotas, sem arma- e potiguaras ao holandês).
quetes, arcabuzes, espadas, outros mentos e equipamentos adequados, Enquanto os holandeses, mais por
armamentos e, sobretudo, pólvoras e investirem nessas cidades fortifica- hábito que adestramento, combatiam
munições. das. Segundo Castro, isso perdu- quase que atavicamente, emassados
A partir deste e de outros reve- rou até que uma frota portuguesa no seu típico Batalhão seiscentista,
ses inesperados (com destaque para conseguiu cortar as comunicações os luso-brasileiros, até por conta da
o Combate da Casa Forte de Rita holandesas, levando à rendição do carência de armamentos de ponta,
Gomes), e até às Batalhas dos Gua- esquema defensivo montado pela foram forçados a combater em or-
rarapes, os holandeses praticamen- Companhia das Índias Ocidentais, na dem aberta. Era observação comum
te deixaram de atuar no interior do Campina do Taborda, em 1654. pelos holandeses que a tática patriota

Vista recente do Rio Tapacurá, a montante do local de travessia holandês, onde hoje existe um pequeno açude.
Imagem do Instituto Histórico e Geográfico de Vitória de Santo Antão.

JE 740 > maio 2024 >>> 69


Vista da Capela de Nossa Senhora de Nazaré, erguida nos anos 1960, conforme desejo nunca realizado por João Fernandes
Vieira, líder da Insurreição Pernambucana (1645-1654). Imagem do Instituto Histórico e Geográfico de Vitória de Santo Antão .

era romper os "quadrados" holande- São Lourenço, distante pelo menos Em face do acima exposto, de
ses e, a partir daí, partir para a luta 20 quilómetros a nordeste do Monte forma bem resumida, cabendo até
corpo-a-corpo na qual a tropa local das Tabocas, tendo avançado, decidi- maiores aprofundamentos, é lícito
tinha grande vantagem - até mesmo damente, para esmagar os patriotas, dizer que foi o Monte das Tabocas o
pelo pouco equipamento em face das cujas posições estimavam estar no ponto de partida para o processo que
agruras do clima. chamado Engenho do Covas. Não os culminou nas chamadas Batalhas dos
Outra observação holandesa re- encontrando ali, foram atraídos para Guararapes (já no contexto do co-
veladora é que a artilharia holandesa a nova posição, distante cerca de 15 mando militar vitorioso de Francisco
quase sempre era inútil nas refregas, km mais adiante. Barreto de Menezes, o Conde do Rio
de menor ou maior escala (tornado- Dos variados relatos dessa Bata- Grande).
-se assim um estorvo), haja vista que lha podemos destacar alguns princí- É certo que a formação dessa força
as peças visavam molestar linhas de pios da guerra ali utilizados que, com militar efetiva, cujo cerne surgiu no
soldados em ordem cerrada, coisa ligeiras variações, também estarão Monte das Tabocas, baseou-se num
que raramente viam os patriotas fa- presentes, igualmente, nas 1.ª e 2.ª longo processo de aclimatação local
zer em campo aberto. Batalhas dos Guararapes, como por de uma estratégia tão antiga como a
Mais uma vez, é razoável presu- exemplo: surpresa, ofensiva, segu- guerra: a aproximação indireta. Esta,
mir que tal superioridade organiza- rança e unidade de comando. Além como é bem sabido da história mili-
cional, pese embora a penúria dos disso, os patriotas empregaram um tar, quase sempre foi o padrão histó-
patriotas, pode ter prestado um mau judicioso uso do terreno (para forçar rico de resposta a agressores externos
serviço ao invasor, ao menos naquele o combate), agressividade nas ações com grande capacidade militar frente
momento. Se não vejamos: segundo ofensivas, amplo emprego de opera- a defensores menos preparados.
Jesus, o tempo na época da batalha ções de inteligência e psicológicas, Logo, nos Guararapes consoli-
estava muito instável e chuvoso, com exploração das agruras do clima lo- dou-se uma doutrina autóctone, que
o que o caudal do Rio Tapacurá, nor- cal, sem esquecer da notável ação de traduziu para a geografia, o clima e a
malmente vadeável, estava bastante comando e capacidade de liderança personalidade dos locais os grandes
forte e elevado. Segundo consta, a evidenciadas pelos comandantes, em avanços doutrinários da chamada
tropa holandesa provinha da Vila de todos os níveis. “Guerra dos 30 anos”, na Europa. Por

70
VISÃO DA HISTÓRIA >>> CULTURA E LAZER

outro lado, podemos dizer que nas


Tabocas é que teria surgido o primei-
no solo hoje defendido pelo moder-
no Comando Militar do Nordeste”.
“Passados quase
ro esboço dessa futura reação militar. Passados quase quatro séculos da- quatro séculos
É que, como vimos, foi lá que o quelas históricas jornadas militares,
grande artífice do chamado “Exército o Exército Brasileiro, além de outros daquelas históricas
Libertador”, o Mestre de Campo An- vultos históricos daquele período,
tónio Dias Cardoso, testemunhou as homenageia o heroísmo, a coragem jornadas militares,
suas tropas improvisadas a aplicarem
vitoriosamente as técnicas de em-
e o profissionalismo demonstrados
pelo Mestre de Campo António Dias
o Exército
boscada, guerrilha e “de matar”, que Cardoso. Isto vem ocorrendo de vá- Brasileiro (…)
treinaram por meses, sob toda a sorte rias formas, inclusive pela atribuição
de dificuldades, homiziados contra do nome deste personagem históri- homenageia
a repressão holandesa nas chamadas co como patrono do 1.º Batalhão de
matas do “pau brasil”. Forças Especiais - “Batalhão António o heroísmo, a
Nessas verdadeiras oficinas dou-
trinárias naturais, Dias Cardoso
Dias Cardoso” - atualmente sediado
em Goiânia, capital do estado brasi-
coragem e o
trouxe para a aprendizagem inicial leiro de Goiás. profissionalismo
das táticas, técnicas e procedimentos Finalmente, cabe referir que o
necessários para a vitória: capatazes, município de Vitória de Santo Antão, demonstrados
ferreiros, mascates, comerciantes, es- onde se situa o Monte das Tabocas,
cravos libertos, índios, além de um anualmente, com a presença de es- pelo Mestre de
bom número de milicianos portu-
gueses. Tal núcleo de insurgentes é
colas locais, e com apoio do Exército
Brasileiro, realiza a evocação dos fei-
Campo António
considerado hoje em dia, pelos his- tos gloriosos dos nossos antepassados Dias Cardoso. Isto
toriadores militares brasileiros, como comuns na defesa daquele solo. Tudo
“a célula mater do Exército Brasileiro isso, de modo a não deixar morrer vem ocorrendo
de várias formas,
inclusive pela
atribuição do nome
deste personagem
histórico como
patrono do 1.º
Batalhão de
Forças Especiais -
“Batalhão António
Dias Cardoso”
- atualmente
sediado em Goiânia,
capital do estado
brasileiro de Goiás.”

nas novas gerações a lembrança da-


queles feitos memoráveis, como fonte
inspiradora, para semelhantes ações
Carta Patente de promoção a Mestre de Campo concedida por El Rei de Portugal heróicas, caso necessárias, num hi-
em 04/05/1656. Arquivo Nacional da Torre do Tombo potético porvir. JE

JE 740 > maio 2024 >>> 71


Miguel Laranjeira

Técnico Superior do MDN


Colaborador do Jornal do Exército

O Português é um cidadão do Mundo


E esta é a nossa realidade, verdadeiro motivo de gáudio para todos
nós, portugueses. Onde quer que vamos, por muito difícil que seja
a conjuntura do local, acabamos por fazer amizade com toda a
gente, de todas as facções

D
urante o exercício que levou a minha com- empenhados nos trabalhos de rotação das forças (chegada
panhia à zona de responsabilidade norte-a- de uma nova e partida da anterior).
mericana na Bósnia e Herzegovina, tivemos Uma das zonas de responsabilidade seria a cidade de
a oportunidade de assumir a responsabilidade de patru- Srebrenica, onde foi empenhado um dos nossos pelotões.
lhamento dos americanos, enquanto estes se encontravam Uma das secções desse pelotão iniciou uma patrulha con-

72
TESTEMUNHO >>> CULTURA E LAZER

festa naquele local, beberam-se umas


quantas cervejas e terá havido direito
a abraços e tudo. No final, despedi-
ram-se e vieram embora, tendo re-
tomado a patrulha. Os americanos
interrogaram aos portugueses se já
haviam estado naquele local, pois
aparentemente os locais já os conhe-
ciam, tendo obtido a seguinte respos-
ta, por parte dos portugueses:
- Não, nunca cá estivemos. É a
primeira vez. Sabem, nós portugue-
ses somos cidadãos do mundo.
Os americanos, admiradíssimos,
fizeram silêncio.
E esta é a nossa realidade, verda-
deiro motivo de gáudio para todos
nós, portugueses. Onde quer que va-
mos, por muito difícil que seja a con-
junta com os militares americanos ximo dos portugueses, identificando juntura do local, acabamos por fazer
que se encontravam disponíveis para as cores da nossa bandeira na manga amizade com toda a gente, de todas
nos explicar o que era necessário fa- da farda de um dos nossos soldados, as facções, e sem termos que dar tra-
zer. Percorreram as ruas e ruelas da exclama alto e bom som, dirigindo-se tamento preferencial a qualquer um
cidade, os militares portugueses far- aos restantes presentes no local: deles. Aliás, a nossa longa História
dados normalmente, mas armados, e -Португалски!!! Португалски!!! 1 fala por si. Se não tivéssemos esta
apenas de boina, o que correspondia - Cмоква!!!, Cмоква!!! 2 – E diri- característica de cidadão do mundo,
ao dress code que o estado de segu- gindo-se para o balcão do bar, gritou: jamais conseguiríamos ter estado em
rança em vigor impunha. Já os ame- - пиво!!! пиво!!! 3 – Lá vieram as tanto local do mundo, e com um vas-
ricanos, iam sempre com o seu flak cervejas para os portugueses, para os to Império, baseado principalmente
jacket (colete balístico) envergado e o locais e também para os norte-ame- nas nossas relações com os outros
capacete colocado na cabeça. Tal fac- ricanos presentes, os quais pareciam povos e não tanto na repressão dos
to fazia com que os miúdos se diver- estar a experienciar um sonho. Fez-se mesmos. JE
tissem a arremessar-lhes pedras, não
no intuito de aleijar, mas tão somente
porque achavam graça ao barulho
que as pedrinhas faziam ao embater
nos capacetes.
Dado que estava um dia bastante
quente, e ao passarem em frente a um
bar, os portugueses sugeriram aos
americanos que entrassem, por for-
ma a beber alguma coisa fresca. Os
americanos resistiram bastante, mas
lá acabaram por aceitar acompanhá-
-los. Entraram pelo bar adentro, ten-
do obtido o silêncio, os olhares pou-
co amigáveis e todas as atenções dos
locais que se encontravam no interior
do bar. Os americanos estavam a ver
que a coisa ainda ia dar para o torto.
As coisas mantiveram-se neste pon-
to, até que um dos locais, mais pró-

1
Portugalski – Português em Servo-Croata, mas em cirílico, dado estar-se em território sérvio da Bósnia, na Republika Sprska.
2
Figo, o famoso jogador de futebol e que fez mais pela diplomacia de Portugal no Mundo que o que conseguiria um Batalhão desenfreado de Ministros
dos Negócios Estrangeiros, Embaixadores, diplomatas.
3
Pivo! – Cerveja, em Servo-Croata.
Fotografias: Miguel Silva Machado

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A Palavra é uma Arma: Folhetos sobre as
Invasões Napoleónicas

O livro A Palavra é uma Arma: Folhetos desses folhetos e sua influência na opi-
sobre as Invasões Napoleónicas aborda a nião pública portuguesa durante esse
publicação de folhetos em Portugal du- período histórico. A obra destaca a im-
rante as invasões napoleónicas, servin- portância desses folhetos como instru-
do como propaganda anti-napoleónica mentos de comunicação e mobilização
para fortalecer a resistência à ocupação da população contra a presença france-
francesa. O livro analisa o conteúdo sa em Portugal.

António Ventura e Mário J. Freire da Silva, A Palavra é uma Arma: Folhetos sobre
as Invasões Napoleónicas, Centro de História da Universidade de Lisboa; Biblioteca do
Exército, 2023

O Livro do Império

O Livro do Império, de João Morgado, que desafiava a Corte e a Inquisição. O


aborda a vida de um poeta arrependido livro aborda também a obra Os Lusía-
e a História de Portugal em vésperas da das, um poema épico salvo pela Inqui-
batalha de Alcácer-Quibir. Retrata os sição para a redenção de Portugal, e ex-
tempos finais do Império Português no plora a interação dos portugueses com
século XVI, destacando a corrupção da os habitantes dos territórios além-mar
nobreza, a influência da Inquisição e a do Império.
publicação de uma obra provocadora,

João Morgado, O Livro do Império, Clube do Autor, abril de 2024

Portugal e as Armas – História das Armas de


Fogo Portáteis e das Indústrias Militares
O livro Portugal e as Armas, do Ma- explora também o desenvolvimento e
jor-General Renato Marques Pinto, evolução das armas de fogo, a indústria
aborda a história das armas de fogo militar portuguesa, e destaca a impor-
portáteis e das indústrias militares em tância desses elementos na história mi-
Portugal ao longo dos tempos. O livro litar do país.

Major-General Renato Marques Pinto, Portugal e as Armas – História das Armas de


Fogo Portáteis e das Indústrias Militares, Edições Colibri, fevereiro de 2024

74
LIVROS E REVISTAS >>> CULTURA E LAZER

The ETIM: China's Islamic Militants and the


Global Terrorist Threat
O livro The ETIM: China's Islamic Mi- este grupo terrorista que exige a inde-
litants and the Global Terrorist Threat, pendência do Xinjiang, uma região au-
de J. Todd Reed e Diana Raschke, abor- tónoma da China, e a sua conexão com
da a East Turkistan Islamic Movement a ameaça terrorista global. O foco prin-
(ETIM), um dos grupos militantes mu- cipal da obra centra-se na ETIM, a sua
çulmanos mais significativos na China. história, as suas atividades e a sua re-
O livro examina de forma abrangente lação com o terrorismo internacional.

J. Todd Reed e Diana Raschke, The ETIM: China's Islamic Militants and the Global Ter-
rorist Threat Bloomsbury Academic,, junho de 2010

Défense et Sécurité Internationale (DSI)

A revista Défense et Sécurité Interna- evolução do grupo aeronaval”, “HA-


tionale aborda conteúdos relacionados MAS - Anatomia de uma força híbrida”,
com a defesa e segurança a nível inter- “Irão - Uma potência aérea balística”,
nacional. Nesta revista bimestral vemos “CHAR T-80 - A bota secreta de Mos-
temas como: “SUKHOI SU-57 - O Caça covo” e “Nuclear - A dissuasão comum
Russo desvenda-se”, “Porta-Aviões - A francesa”.

Défense et Sécurité Internationale (DSI), n.º 170, março a abril 2024

TERREmag

A revista TERREMAG - Le magazine Nesta revista bimestral são tratados


officiel de L'Armée de Terre aborda tópi- temas como: “Dossier: A nova Força
cos relacionados com o Exército Fran- Operacional Terrestre”, “Zoom sur: O
cês, incluindo operações, treino, equi- Combatente do futuro” e “Imersão: A
pamentos, e as atividades dos militares. brigada “Scorpion” na sala de ensaios”.

TERREmag, n.º 4, abril a maio de 2024

JE 740 > maio 2024 >>> 75


Exército comemora o Dia Mundial
da Atividade Física. O Exército Português
comemorou o dia mundial da atividade física,
reconhecendo o seu papel fundamental na
manutenção da prontidão dos seus militares,
assim como na construção de um estilo de vida
saudável, ativo e equilibrado. Este dia tem como
objetivo inspirar e motivar as pessoas a integrar
o desporto na sua rotina diária, reconhecendo os
inúmeros benefícios da sua prática, tais como a
melhoria da saúde cardiovascular, o bem-estar
mental, a melhoria da qualidade do sono, a
redução do sedentarismo, a diminuição do risco
de doenças crónicas e a elevação da autoestima e
autoconfiança.

Militar do Exército sagra-se Campeão


Nacional Militar de Trail. No passado mês
de abril, realizou-se o “Trail das Linhas de Torres
2024”, um Running Challenge com o objetivo de
promover a prática desportiva e a atividade física,
proporcionando um desafio de corrida de Trail
em diferentes percursos. Nesta prova destacou-
-se o Sargento-Ajudante Mário Fonseca, em 1.º
lugar, sagrando-se Campeão Nacional Militar de
Trail. Também ficaram em destaque pelas exce-
lentes prestações o Tenente Filipe Silva, como 1.º
Classificado, no escalão 45-49, o Sargento-Chefe
João Pedro, como 3.º Classificado, no escalão 50-
54, e a Furriel Cláudia Machado, como 1.º classi-
ficado no escalão Sénior feminino e 3.º no geral
feminino. Esta prova de 47 quilómetros, ligan-
do Mafra a Torres Vedras, decorreu em simul-
tâneo com o "2nd Military Running Challenge",
um evento que contou com a participação de 119
atletas, dos três Ramos das Forças Armadas, das
Forças de Segurança e civis, oriundos de seis paí-
ses diferentes.

Militar do Exército conquista


Medalha de Prata no “Abu Dhabi
Grand Slam – Jiu-Jitsu World
Tour 23/24”. O Exército Português
felicitou o Major Luís Calado, a prestar
serviço no Centro de Capacitação Tática,
Simulação e Certificação, pela medalha de
prata conquistada no “Abu Dhabi Grand
Slam – Jiu-Jitsu World Tour 2023-2024”. O
"Abu Dhabi Grand Slam - Jiu-Jitsu World
Tour 23/24" é uma série de torneios inter-
nacionais de jiu-jitsu brasileiro organizados
pela Federação de Jiu-Jitsu dos Emirados
Árabes Unidos (UAEJJF) e pela Abu Dhabi
Jiu-Jitsu Pro (AJP) como parte do circuito
de competições da AJP.

78
O EXÉRCITO E O DESPORTO >>> DESPORTO E SAÚDE

Militar do Exército Português


sagra-se Bicampeão Mundial de
Skyrunning. O Exército Português felicitou o
Sargento-Mor Leonardo Diogo, a prestar serviço
na Zona Militar da Madeira, por ter alcançado
mais uma vitória na 2.ª edição do Masters
Skyrunning World Championships, sagrando-
se Bicampeão Mundial na categoria M55 da
distância Ultra-55 quilómetros. O Masters
Skyrunning World Championships é um evento
internacional de corrida de montanha para
atletas veteranos, organizado pela Federação
Internacional de Skyrunning. O Sargento-Mor
Leonardo Diogo foi o primeiro do seu escalão
a cruzar a linha de chegada, após percorrer os
55km do trajeto em 07h35min, renovando o
título que já era seu, numa prova que decorreu
debaixo de altas temperaturas e com baixos
níveis de humidade, dificultando a progressão
dos atletas num terreno enlameado pelas chuvas
da semana anterior.

Regimento de Artilharia n.º 4


promove Bootcamp – Military
Challenge. O Regimento de Artilharia
n.º 4, sediado em Leiria, em colaboração
com o Velocity-Centro de treino, promoveu
o “Bootcamp – Military Challenge”, encontro
que reuniu cerca de 40 participantes, propor-
cionando-lhes uma experiência diferenciada,
através da realização de diversas ativida-
des de cariz militar. O Bootcamp – Military
Challenge é um desafio físico militar intenso,
que promove o desenvolvimento do espíri-
to de equipa, da resiliência e da liderança,
competências que permitem aos homens e
mulheres que servem no Exército enfrentar
as situações mais adversas e de maior risco,
próprias da sua condição militar.

Exército Português em destaque


na Prova Fireman Challenge.
As equipas do Exército Português e da
Academia Militar estiveram em desta-
que, no passado mês de abril, na Fireman
Challenge, prova a contar para as ligas
Obstacle Course Racing 2024, num per-
curso de 13 quilómetros com 35 obstá-
culos, ao longo do terreno acidentado
da Serra da Malcata, junto ao Rio Côa.
Coletivamente, o Exército venceu a com-
petição na Liga Competitive e conquis-
tou duas medalhas de prata na Liga Elite
masculina e feminina.

JE 740 > maio 2024 >>> 79


David Veríssimo

Capitão de Medicina
Interno de Endocrinologia do Hospital das Forças Armadas

A obesidade é uma doença crónica


A obesidade é uma doença que incide sobre 70% da população
portuguesa, tendo frequentemente início na juventude e estando
relacionada com fatores genéticos que afetam o metabolismo e
também com o estilo de vida

P
ortugal foi dos primeiros países do mundo a Esta disfunção tem geralmente início na juventude,
classificar a obesidade como doença, em 2004. com o estilo de vida cada vez mais sedentário e uma maior
Apesar deste reconhecimento, quase 70% da facilidade de acesso a alimentos de elevado teor calórico.
população portuguesa sofre de excesso de peso e obesidade Aliados a estes fatores estão um conjunto de vários genes
e principalmente do estigma associado a estas condições. que determinam a apetência do indivíduo para a ingestão,
Mas se as pessoas com hipertensão ou diabetes não são absorção e gasto calóricos.
consideradas culpadas das suas doenças porque o serão Se numa fase precoce é possível atuar na prevenção da
as pessoas com obesidade? E se mais de metade da popu- obesidade, com alterações do estilo de vida como a dieta
lação sofre desta doença porque continuamos a culpar o e o exercício, quando a doença se estabelece e o metabo-
indivíduo? lismo de torna disfuncional, estas medidas são frequente-
A obesidade é uma doença metabólica, de origem mul- mente insuficientes.
tifatorial, com grande componente genético e que se asso- Embora a restrição calórica ou o aumento do gasto
cia a mais de 200 outras patologias. energético sejam importantes e obtenham resultados a

80
A OBESIDADE É UMA DOENÇA CRÓNICA >>> DESPORTO E SAÚDE

curto-médio prazo, o metabolismo disfuncional levará missão de outras comorbilidades associadas, como a dia-
ao reganho médio de 80% de peso ao fim de cinco anos, betes, a hipertensão ou a dislipidemia. Infelizmente con-
mesmo mantendo todas as medidas iniciais. Portanto, não tinuam a surgir obstáculos para que o tratamento seja
se trata apenas de “fechar a boca” e “fazer mais exercício” largamente difundido, como o elevado custo, a ausência
como frequentemente se aconselha a quem tem obesida- de comparticipação e a falta de disponibilidade nas farmá-
de. O reconhecimento desta doença destaca a necessidade cias como principais motivos.
de um tratamento dirigido. Para além de ser uma doença, a obesidade é crónica,
Inicialmente, os fármacos disponíveis para o trata- exigindo um tratamento contínuo para manter os resul-
mento da obesidade tinham pouca ou nenhuma eficácia, tados alcançados. Um acompanhamento multidisciplinar,
e o único tratamento realmente eficaz era a cirurgia ba- envolvendo endocrinologistas, nutricionistas e psicólogos,
riátrica/metabólica, um tratamento cirúrgico que visa a é essencial para abordar os diversos aspetos desta doença
reposição do normal metabolismo gastrointestinal. Mas o complexa e promover uma saúde sustentável a longo prazo.
cenário começou a mudar com a entrada no mercado dos Concluindo, torna-se fundamental reconhecer a obe-
agonistas GLP-1, inicialmente comercializados para con- sidade como uma doença crónica e abordá-la de forma
trolo da Diabetes mellitus. Este grupo de medicamentos abrangente, tanto em termos de prevenção como de tra-
demonstrou corrigir um componente importante da dis- tamento. A colaboração entre profissionais de saúde e a
função metabólica da obesidade, equilibrando o apetite, o disponibilidade de opções terapêuticas acessíveis são
esvaziamento gástrico e a absorção intestinal. essenciais para enfrentar este que é atualmente o maior
Estes fármacos demonstraram ótimos resultados no desafio de saúde pública mundial, de forma eficaz e com-
tratamento da obesidade, promovendo igualmente a re- preensiva. JE

JE 740 > maio 2024 >>> 81


Cerimónia Militar de receção do Ministro da Defesa Nacional
As Forças Armadas receberam, no passado mês de abril, o Ministro da Defesa Nacional, Dr. Nuno Melo. A cerimónia de-
correu junto ao Monumento aos Combatentes, em Belém, com a participação dos Chefes Militares das Forças Armadas
Portuguesas, onde foram prestadas as Honras regulamentares e realizado o desfile das Forças em parada. O Ministro da
Defesa prestou também homenagem aos militares mortos ao serviço de Portugal.

54.º Aniversário da Arma de


Transmissões e 59.º Aniversário do
Regimento de Transmissões
O Exército Português comemorou, no passado mês de abril, o 54.º
Aniversário da Arma de Transmissões e o 59.º Aniversário do
Regimento de Transmissões. A história da Arma de Transmissões
remonta a mais de duzentos anos, iniciando-se em 1810, tendo
sido efetiva a sua criação e separação da Arma de Engenharia, em
1970, assumindo como Patrono o Arcanjo S. Gabriel, o mensagei-
ro divino. Fazendo-se sempre honrar a divisa “POR ENGENHO E
POR CIÊNCIA". A missão da Arma de Transmissões do Exército
Português concentra-se sobretudo em assegurar e desenvolver as
comunicações dos Comandos e grandes Unidades, manter o ma-
terial de transmissões e realizar operações de guerra eletrónica. Da
mesma forma, a missão do Regimento de Transmissões do Exército
Português é instalar, gerir e manter o Sistema de Transmissões, as-
segurando e mantendo a rede de comunicações entre as Unidades
Militares. Estas comemorações decorreram no Regimento de
Transmissões, no Porto, e foram presididas pelo Chefe do Estado-
Maior do Exército (CEME), General Eduardo Mendes Ferrão,
pelo Diretor Honorário da Arma de Transmissões, Major-General
Viegas Pires, entre outras entidades militares e civis. No discurso
do CEME, foram enaltecidos “os relevantes serviços prestados pela
Arma de Transmissões, no âmbito das comunicações de campa-
nha, das comunicações permanentes, da informática, e da inves-
tigação e desenvolvimento, destacando o papel dos seus militares
no desenvolvimento de inúmeros equipamentos, em colaboração
com a indústria nacional”. Foi também ressaltada “a relevância
do Regimento Transmissões, no contexto da sua participação em
missões operacionais e de apoio à população civil”, reconhecendo
os militares e trabalhadores civis que ali servem, encorajando-os
a prosseguirem o trabalho desenvolvido com garbo e empenho,
fazendo jus à divisa.

82
ACONTECIMENTOS

75.º Aniversário da NATO


No mês passado, em abril, Portugal, enquanto país fun-
dador, juntou-se aos restantes 31 países membros para
celebrar o 75.º aniversário da Organização do Tratado
do Atlântico Norte (NATO), invocando a sua funda-
ção, no dia 4 de abril de 1949, em Washington. Desta
forma, celebra-se tradicionalmente o elo transatlântico
entre aliados europeus e norte-americanos, que, de for-
ma permanente, têm zelado pela salvaguarda da liber-
dade e segurança de todos os seus membros e das suas
populações, de acordo com os princípios da Carta das
Nações Unidas. No cumprimento dos compromissos
assumidos com a NATO, o Exército Português integrou
missões em distintos teatros de operações, incluindo
na Bósnia-Herzegovina, na Albânia, na Macedónia,
no Kosovo, no Iraque, na Lituânia, no Afeganistão e
atualmente na Roménia. Comprometido em honrar os
compromissos nacionais assumidos junto da NATO,
o Exército Português continuará a trabalhar incansa-
velmente para fortalecer o papel de Portugal como um
contribuinte ativo para a paz e a segurança global.

46.º Aniversário da Brigada


Mecanizada
Decorreu em 6 de abril, no Campo Militar de Santa
Margarida, a Cerimónia do 46.º Aniversário da
Brigada Mecanizada. Esta data evoca a Batalha dos
Atoleiros, travada em 1384, um acontecimento deci-
sivo para a História e para o futuro de Portugal, no
qual a força liderada por Dom Nuno Álvares Pereira
enfrentou e derrotou, de forma expressiva, uma nu-
merosa força castelhana, abrindo o caminho rumo à
consolidação da nação portuguesa. Esta Cerimónia
foi presidida pelo Chefe do Estado-Maior do Exército
(CEME), General Eduardo Mendes Ferrão, onde
destacou os grandes desafios, a muito curto prazo,
da Brigada Mecanizada e expressou também o seu
reconhecimento pelos serviços prestados, na certe-
za de que continuarão a honrar a sua ilustre divisa
"FEITOS FARÃO TÃO DIGNOS DE MEMÓRIA”.

JE 740 > maio 2024 >>> 83


Dia do Combatente
As comemorações do Dia do Combatente, que decorre-
ram no Mosteiro de Santa Maria da Vitória (Mosteiro da
Batalha), foram presididas pelo Presidente da República
e Comandante Supremo das Forças Armadas, Professor
Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, tendo o programa in-
cluído a Celebração Eucarística, a Cerimónia Militar e a
Cerimónia de Homenagem aos Mortos junto ao Túmulo do
Soldado Desconhecido, na Sala do Capítulo. Em 9 de abril
de 1921, os dois Soldados Desconhecidos, provenientes da
Flandres e da África Portuguesa, foram conduzidos para o
Mosteiro da Batalha, conhecido como Templo da Pátria,
simbolizando o heroísmo e sacrifício do Povo Português
nos referidos teatros de operações. Desde então, o Túmulo
do Soldado Desconhecido passou a ter uma guarda de hon-
ra e uma vela acesa como sinal do respeito perene pelos que
caíram no cumprimento do dever. O Exército Português
respeita e faz respeitar o Legado Histórico, que se projeta
na forma de ser e estar da Instituição Militar. É um vínculo
solidário e vigoroso, que perdurará nas gerações futuras,
contribuindo para a preservação da Memória Coletiva pelo
sacrifício supremo daqueles que deram a vida pela Pátria.

Comemorações dos
50 anos do 25 de abril
No âmbito das comemorações dos 50
anos do 25 de Abril de 1974, o Exército
Português associou-se à Comunidade
Civil, de norte a sul do continente e nas
regiões autónomas, em inúmeras ati-
vidades envolvendo as suas Unidades,
designadamente através da participação
em cerimónias militares, em atos sole-
nes, em concertos musicais, em exposi-
ções, no lançamento de obras literárias,
em seminários, em conferências, em
palestras, em recriações históricas, e em
desfiles, entre outras iniciativas que assi-
nalaram esta data histórica.

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ACONTECIMENTOS

Força Nacional Destacada


na Roménia recebe novos
equipamentos de proteção
A 4.ª Força Nacional Destacada na Roménia re-
cebeu novos equipamentos de proteção, constituí-
dos por capacetes, coletes com proteção balística
e porta-carregadores, à semelhança dos que já se
encontram em utilização pela 14.ª Força Nacional
Destacada na República Centro-Africana. Estes
artigos foram projetados com o apoio da Força
Aérea Portuguesa, que transportou, igualmente,
uma variedade de equipamentos essenciais para a
sustentação do Contingente Português. O Exército
garante, em permanência, a valorização do seu po-
tencial humano e mantém o esforço de moderni-
zação dos equipamentos dos nossos militares, fa-
tores essenciais para o cumprimento das missões
que lhe estão confiadas, assegurando um produto
operacional de elevada prontidão e competência.

Seminário “O Futuro das


Operações Terrestres:
Unidade Escalão Brigada”
No âmbito do Curso Avançado de Planeamento
Militar Terrestre 2024, o Instituto Universitário
Militar levou a efeito um seminário dedica-
do ao “Poder Militar Terrestre”, subordinado
ao tema “O Futuro das Operações Terrestres:
Unidade Escalão Brigada”. O evento contou
com uma sessão de abertura e uma conferên-
cia, que trataram dos desafios enfrentados pela
componente terrestre das Forças Armadas.
Este seminário fez parte de uma iniciativa que
teve em vista discutir e analisar as tendências
e perspetivas futuras das operações terrestres.

JE 740 > maio 2024 >>> 85


U/E/O ativam os seus Planos de Emergência Internos
Com o objetivo de testar a capacidade de resposta a acontecimentos imprevistos ou inesperados, que, pela sua gravida-
de, coloquem em risco a segurança das pessoas, instalações ou do meio ambiente, algumas Unidades, Estabelecimentos
e Órgãos (U/E/O) do Exército ativaram os seus Planos de Emergência Internos. Os militares e civis do Regimento de
Transportes, com o apoio do Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa, participaram numa ação de treino, acom-
panhada de formações de resposta a eventuais situações de emergência específicas. O treino abordou a formação para
atuar em situações de sismo, a manipulação de substâncias perigosas, a manipulação de extintores e o ensino de técnicas
de desencarceramento e extração de vítimas de acidentes de viação. Esta capacitação e o treino dos recursos humanos do
Exército contribuem para a mitigação ou minimização dos efeitos provocados por situações de catástrofe ou por outras
emergências complexas, no interior de instalações militares ou fora delas, e em quaisquer outras circunstâncias.

Major de Artilharia
reconhecido pela Ordem dos
Engenheiros
O Major de Artilharia Tiago Castro, a prestar serviço
no Centro de Informação Geoespacial do Exército,
foi o vencedor do Prémio de Excelência do Colégio
de Engenharia Geográfica, em reconhecimento ao
seu notável desempenho no Mestrado em Engenharia
Geoespacial, realizado na Faculdade de Ciências da
Universidade de Lisboa. A cerimónia decorreu na sede
da Ordem dos Engenheiros - Região Sul, onde foram
atribuídos prémios aos estudantes de 12 especialidades
de Engenharia que se destacaram com a nota mais alta
nos seus cursos de licenciatura e mestrado/mestrado
integrado.

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ACONTECIMENTOS

Banda Militar dos Açores


organizou um Workshop
para jovens músicos
A Banda Militar dos Açores, em parceria com o
Município de Nordeste, organizou um Workshop de
Música destinado a 54 jovens músicos, oferecendo-
-lhes uma oportunidade de aprendizagem, ao longo
de uma semana, numa jornada de formação com os
músicos militares. Esta é mais uma iniciativa de en-
tre as que têm contribuído para melhorar a qualida-
de das Bandas Filarmónicas açorianas, assim como
fomentar a expressão individual e fortalecer os laços
por meio da música, impactando positivamente o
crescimento pessoal dos jovens participantes.

RE1 recebeu crianças de Lar de


Infância e Juventude
O Regimento de Engenharia n.º 1 recebeu a visita especial de
crianças da Casa Dr. Alves, Lar de Infância e Juventude, uma
das instituições vinculadas à Fundação Dr. Agostinho Albano
de Almeida, que acolhe crianças e jovens em situação de perigo.
Durante esta visita, as crianças tiveram a oportunidade de explo-
rar o emblemático Castelo de Almourol e atravessar o Rio Tejo
em duas embarcações operadas por militares da Companhia de
Pontes. Esta experiência despertou grande satisfação e certa-
mente ficará marcada para sempre nas suas memórias.

JE 740 > maio 2024 >>> 87


88
ACONTECIMENTOS

JE 738 > março 2024 >>> 89

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