Guerra na Ucrânia e Drones no Exército
Guerra na Ucrânia e Drones no Exército
06 18 62
05 Editorial
06 Em Foco
ORION 2024 Órgão de divulgação e preservação da cultura
militar, nos termos da alínea a), do artigo 75.º, do
18 Atualidades Decreto Regulamentar n.º 11/2015, de 31 de julho
O Mundo em Perspetiva
PROPRIEDADE DO ESTADO-MAIOR DO
A Guerra na Ucrânia e o Poder Terrestre 18 EXÉRCITO
Morada: Rua do Museu da Artilharia, 1149-065
Doutrina LISBOA
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Aprontamento da 5.ª FND CatMec/ROU 42
Diretor:
O Aprontamento do Pelotão de Carros de Combate como
Subdiretor e Chefe de Redação:
contributo Nacional para o Multinational Battle Group Slovakia 48
Condutor do Diretor:
Divulgação Cabo-Adjunto Márcio Quintela
Redatores/Revisores:
Imagens de Alcácer-Quibir – Emoção e Criatividade 54 Alferes Frederica Cunha
Técnica Superior Ana Rita Carvalho
Imagem do Mês
Assistente de Redação:
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Design/Paginação:
62 Cultura e Lazer
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Técnica Superior Tânia Espírito Santo
Assistente Técnico Nelson Pinho
Visão da História Secretaria e Distribuição:
Sargento-Chefe David Custódio
O Monte das Tabocas: O começo da derrota dos Cabo-Adjunto Ana Gavino
82
€2,00; Assinatura anual (11 números): via
Acontecimentos superfície – Continente, Açores e Madeira:
€20,00; via aérea – países europeus: €45,00;
restantes países: €65,00.
3
EDITORIAL
Caros leitores,
N
a edição de maio do Jornal do Exército, o nos- em torno desta complexa figura da nossa História.
so enfoque vai para o Exercício ORION 2024, Na parte da revista dedicada à Cultura e Lazer, con-
que envolveu 1 400 militares, incluindo for- cretamente na Visão da História, damos à estampa o ar-
ças estrangeiras. Com uma longa tradição no treino ope- tigo “O Monte das Tabocas: O começo da derrota dos
racional do Exército Português, o ORION é o principal Holandeses no Brasil”, da autoria do Coronel Hermes
exercício realizado em solo nacional, inserido no Military Gonçalves, Oficial de Ligação para os Assuntos Culturais
Training and Exercise Programme da Aliança Atlântica. e Doutrinários do Exército Brasileiro, em que nos narra
Na rubrica Atualidades, apresentamos uma disser- as ações militares dos portugueses e indígenas, no nor-
tação do Major-General Vieira Borges, que nos traz um deste do Brasil, no contexto das invasões holandesas, em
artigo intitulado “A Guerra na Ucrânia e o Poder Terres- meados do século XVII.
tre”. Começando por caraterizar o ambiente operacional Ainda na Visão da História, o Dr. Miguel Laranjei-
da atualidade, o autor propõe nove pontos para reflexão, ra evoca um episódio por si vivido, quando em missão
através dos quais analisa a atuação das Forças em conten- na Bósnia-Herzegovina. “O português é um cidadão do
da, os esforços internacionais, incluindo a ajuda de Portu- mundo”, assim se intitula a sua sugestiva crónica, entre o
gal, e as consequências do conflito para o poder terrestre. tom divertido e a reflexão séria sobre a forma de ser e de
Também no âmbito doutrinário, o Major-General estar do militar português, quando e onde é chamado a
Fonseca Rijo apresenta-nos uma interessante dissertação desempenhar a sua missão.
sobre o ensino da Tática, partindo de um conceito em que O Jornal do Exército agradece o valioso contributo
se conjugam ciência e arte. Intitulado “Ensino da Tática”, destes seus ilustres colaboradores.
o artigo evoca o pensamento de Carl Von Clausewitz e, Boas leituras!
revisitando diversos autores, questiona o porquê de en-
sinar Tática e quais as vantagens que resultam, para um
Exército, da formação dos seus quadros nesse domínio
essencial na Arte da Guerra. Jornal do Exército
O Jornal do Exército sente-se honrado com o presti-
moso contributo dos nossos Generais, que em muito vem
enriquecer esta publicação.
No que respeita ao treino operacional, destacam-se
os Exercícios STRONG IMPACT 24 e CARPHATOS
SHIELD 241, ambos realizados no Campo Militar de
Santa Margarida. O STRONG IMPACT é o maior Exer-
cício de Apoio de Fogos do Exército Português. O CAR-
PHATOS SHIELD insere-se âmbito do aprontamento
da Companhia de Atiradores Mecanizada de Rodas, que
constitui a 5.ª Força Nacional Destacada para a Roménia.
No mesmo âmbito, divulgamos o artigo “Apronta-
mento da 5.ª FND CAtMec/ROU”, da autoria do Capitão
de Infantaria João Lopes, Segundo Comandante da Com-
panhia de Atiradores Mecanizada de Rodas, da Força Na-
cional Destacada para a Roménia, no qual é descrita a
missão, a constituição e o aprontamento da Força, que,
em maio, foi projetada para o Teatro de Operações.
Também sobre o aprontamento de Forças discorre a
Tenente-Coronel de Cavalaria Elisabete Silva, Coman-
dante do Grupo de Carros de Combate, no seu artigo “O
aprontamento do Pelotão de Carros de Combate como
contributo nacional para o Multinational Battle Group
Slovakia”, em que nos fala do Pelotão de Carros de Com-
bate Leopard 2 A6, a ser projetado para a fronteira leste
da Aliança Atlântica.
Publicamos, ainda, um artigo do Professor Vítor de
Oliveira, intitulado “Imagens de Alcácer-Quibir – Emo-
ção e Criatividade”. Revisitando o mito sebastianista, o
autor interpreta algumas imagens representativas do Rei
Desejado e da trágica Batalha de Alcácer-Quibir, que, ao Capa do Jornal do Exército, agosto de 1973, INFANTARIA AO
longo dos tempos, têm preenchido o imaginário nacional ASSALTO (GUERRA DE 1914-1918) - Quadro a óleo da época
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Frederica Cunha
Alferes
Redatora do Jornal do Exército
ORION 2024
O Exército Português realizou com sucesso o Exercício Militar
ORION24 no Campo Militar de Santa Margarida, entre os dias 29 de
abril e 10 de maio, contando com a participação de mais de 1400
participantes, incluindo forças estrangeiras
O
Campo Militar de Santa Margarida, em Cons- tuguês, o Exercício ORION é o principal evento tático rea-
tância, foi palco do Exercício ORION 2024, lizado em solo nacional, inserido no Military Training and
realizado entre 29 de abril e 10 de maio. Com Exercise Programme (MTEP) da Aliança Atlântica. Este
uma longa tradição no treino operacional do Exército Por- Exercício tem como missão primordial proporcionar um
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EM FOCO
ambiente de treino altamente realista de uma forma regular e sistemática a interoperabilidade tática em opera-
às Unidades Operacionais do Exérci- planear uma série de exercícios com ções conduzidas num ambiente mul-
to Português, simulando fielmente as vista à manutenção e aperfeiçoamen- tinacional, num cenário de Conflito
condições das operações militares. to das capacidades operacionais dos de Elevada Intensidade, de acordo
A exemplo de edições anteriores, militares, individual e coletivamen- com o Artigo 5.º da NATO. Este ar-
o Jornal do Exército marcou presença te, assim como do Exército na sua tigo estabelece o princípio da defesa
no Campo Militar de Santa Margari- globalidade. mútua entre os países membros da
da para uma cobertura exclusiva do Na sua concretização, o ORION Aliança, ou seja, estabelece que um
Exercício ORION, onde teve o pri- 24 assume-se como um Exercício ataque armado contra um ou mais
vilégio de entrevistar o Comandan- que tem por objetivo a manutenção dos países aliados na Europa ou na
te da Brigada Mecanizada, General e aperfeiçoamento das capacidades América do Norte será considerado
Calmeiro, e o Diretor do Exercício, operacionais dos militares, a nível in- um ataque contra todos os membros.
Coronel Ferreira. dividual e coletivo, bem como treinar Isso significa que os países membros
“O ORION é o principal Exercício o planeamento e a execução de ope- da NATO se comprometem a prestar
Tático do Exército Português, trata-se rações de combate, incrementando a assistência, incluindo o uso da for-
de um Exercício que é programado
pelo Exército Português, está inseri-
do no programa de treino e exercícios
militares da Organização do Tratado
do Atlântico Norte, e é liderado ou
conduzido pelo Comando das Forças
Terrestres.” – Diretor do Exercício,
Coronel Ferreira
Na sua elocução, o Brigadeiro-
-General Calmeiro, Comandante da
Brigada, deu-nos a entender que “O
ORION é o principal Exercício Tático
do Exército Português. Este Exercício
ORION é naturalmente liderado pelo
Comando das Forças Terrestres. É o
culminar do plano integrado de treino
operacional do Exército.”
O Comando das Forças Terrestres
(CFT), ao longo dos anos e no âmbi-
to do treino operacional, tem vindo
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EM FOCO
dos Açores, a Zona Militar da Ma- Brigadeiro-General Luís Calmeiro, Comandante da Brigada Mecanizada
deira, o Agrupamento Mecanizado,
o 1.º Batalhão de Infantaria Meca-
nizada de Rodas, o Agrupamento de
Informações, Vigilância, Aquisição
de Objetos e Reconhecimento, o Ba-
talhão de Engenharia, o Batalhão de
Apoio de Serviços, a Bateria de Ar-
tilharia de Campanha, a Bateria de
Artilharia Antiaérea, a Companhia
de Transmissões, o Pelotão de Polícia
do Exército, o Destacamento de Coo-
peração Civil-Militar e o Módulo de
Operações Psicológicas.
O Exercício ORION viabiliza
igualmente a certificação de unida-
des do Exército Português, no âm-
bito dos compromissos NATO e UE,
reforçando a interoperabilidade no
quadro daquelas organizações, tendo
em vista a constituição de forças que
permitirão dar resposta aos compro-
missos assumidos pelo Estado Por- entre os elementos das diferentes Português. Por fim, pretende-se trei-
tuguês no âmbito da segurança e de- funções de combate das suas unida- nar os elementos/módulos com res-
fesa. Traduz-se como oportunidade des operacionais. Além disso, bus- ponsabilidades específicas nas tarefas
privilegiada para testar a prontidão ca-se executar e aprimorar as ações do Apoio Militar de Emergência.
das unidades da Componente Opera- de coordenação com os outros Ra- “Temos de trabalhar para que to-
cional do Sistema de Forças, em res- mos das Forças Armadas e, deseja- dos tenhamos as mesmas técnicas, as
posta a todo o espetro das operações velmente, com elementos de Forças mesmas táticas, os mesmos procedi-
terrestres. Armadas de outros países, com a in- mentos, para que dentro dos caos que
Com a realização destes exercícios tenção de obter a interoperabilidade é o combate, se todos soubermos o que
militares, pretende-se aplicar e vali- indispensável à participação e cons- é que todos fazem e como fazem…
dar a doutrina em vigor para o pla- tituição de Forças Multinacionais – Obtermos procedimentos iguais… E
neamento e conduta das operações, NATO, ONU e União Europeia – no há muitos mecanismos que se vão re-
bem como praticar e aperfeiçoar as âmbito dos compromissos de Defesa solvendo por eles próprios.” – Coman-
necessárias ações de coordenação e Segurança assumidos pelo Estado dante da Brigada Mecanizada, Briga-
deiro-General Calmeiro.
O objetivo do ORION 24 é treinar
a interoperabilidade entre militares
de vários países em operações táticas
ofensivas, defensivas, de retardamen-
to e reconhecimento, no âmbito do
planeamento, coordenação e execu-
ção para missões da NATO ao abri-
go do Artigo 5.º. Contribui também
para aumentar a credibilidade do
Exército, reforçar a visibilidade das
diferentes dimensões da sua missão,
melhorar a atratividade e fortalecer a
Imagem Institucional.
“O principal objetivo do exercício
ORION é treinar a interoperabilida-
de, que começa entre nós, dentro das
nossas forças, do sistema de forças,
dos elementos da Componente Opera-
cional do Sistema de Forças… Temos
aqui militares e subunidades de todo
Coronel Pedro Ferreira, Diretor do Exercício ORION 24 o Pais… Continente e ilhas… E essa
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EM FOCO
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EM FOCO
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EM FOCO
Major-General
Presidente da Comissão Portuguesa de História Militar
A
pós mais de dois anos de Guerra na Ucrânia, desta Guerra para o Poder Terrestre em geral e para o caso
em que fui desafiado a colaborar, como co- de Portugal em particular.
mentador, em cerca de quatro centenas de in- Decorrente dessa mesma honrosa intervenção (em jei-
tervenções nos diferentes Órgãos de Comunicação Social to de reflexão), que teve lugar no Estado-Maior do Exér-
(televisões e rádios) e, como professor, em mais de três cito no dia 18 de janeiro de 2024, necessariamente mais
dezenas de conferências em diferentes universidades e ins- alargada no âmbito e de cariz mais reservado em algumas
tituições, aceitei o desafio do Comando do Exército para temáticas, fui desafiado pelo General Eduardo Mendes
abordar, em ambiente mais reservado, as consequências Ferrão, Comandante do Exército, a escrever algumas li-
18
O MUNDO EM PERSPETIVA >>> ATUALIDADES
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O MUNDO EM PERSPETIVA >>> ATUALIDADES
cuja capital se encontra a mais de em 2019, e não só por influência da 1. A guerra convencional morreu;
4.000 km de distância de Kiev, tem COVID-19, a Arte da Guerra evo- 2. A tecnologia não nos salvará; 3.
por base vários aspetos, de que desta- luiu consideravelmente, como refere Guerra e paz vão coexistir sempre; 4.
co: a relação especial dos portugueses o General Rafael Dávila Álvarez, em Conquistar o coração e a mente não
em geral com a grande comunidade 2022, na sua obra A Arte da Guerra basta; 5. As melhores armas não dis-
ucraniana em Portugal (que se ma- Hoje. param balas; 6. Os mercenários vão
nifesta no apoio financeiro e militar A Guerra mantém-se como a dominar o panorama militar; 7. Vão
por 87% dos portugueses no inquéri- continuação da política por outros surgir novas potências mundiais; 8.
to da SEDES realizado entre 16 de ja- meios, a ser desencadeada como Haverá guerras sem Estados; 9. As
neiro e 12 de fevereiro de 2024, assim método de conquista, dissuasão ou guerras na sombra prevalecerão; 10.
como nos eurobarómetros da União domínio ideológico, e a ser violenta Existem muitas maneiras de conquis-
Europeia, em valores próximos dos e desafiadora da ordem. Por outro tar a vitória.
82%); a postura política nacional de- lado, os seus principais atores, no Es- Nesse sentido, o General Álvarez
terminada no apoio à Ucrânia e na tado soberano deste século XXI, con- é mais estrutural na sua análise, com
condenação da invasão da Rússia; a tinuam a ser os políticos, os militares grande fundamento histórico, argu-
ênfase que os diferentes órgãos de co- e os povos. Mas a evolução tecnoló- mentando as mudanças com base
municação social atribuem à guerra gica e o enquadramento internacio- numa matriz que inclui o militar, o
na Ucrânia; e o facto de a fronteira nal que acima referi, e que está em artista, o académico, o armamentista,
alargada do nosso Atlântico correr mudança para uma nova arquitetura o logístico, o social, o político inter-
mais riscos no caso de uma «Nova global da segurança e defesa, a que no, o político externo, o desinforma-
Era» dominada pela Rússia e/ou pela se podem adicionar arquiteturas re- tivo e o cibernético.
China. gionais e mesmo locais (estas últimas Apresento de seguida nove pontos
ditadas ou influenciadas pela primei- para reflexão sobre a Arte da Guerra,
3. Tendências da Arte da ra), tem levado a algumas alterações, que não pretendem ser castradores
Guerra que inclusivamente colocaram em de outros pontos possíveis, eventual-
Depois de A Nova Arte da Guerra, causa as 10 teses de Sean McFate, as mente mais importantes em determi-
de Sean McFate, ter sido considera- quais tiveram a “bênção” do Gene- nada conjuntura ou circunstância.
do o livro do ano pelo The Economist ral Stanley McChrystal no prefácio: E começo com a questão da Guer-
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O MUNDO EM PERSPETIVA >>> ATUALIDADES
cialmente tem vindo a caminhar no futuro, os Estados terão seguramente como um sétimo ponto de reflexão
sentido oposto ao que vinha tendo maior cuidado com a contratação de sobre a Arte da Guerra, que abarca
desde o final da Guerra Fria, e não mercenários nas suas diferentes pers- obrigatoriamente as dimensões po-
só devido à Guerra na Ucrânia. Efeti- petivas, sejam empresas militares lítica, económica, social, psicológica,
vamente, assistimos à adoção do ser- privadas (Blackwater, Triple Canopy, entre outras, a par da militar. E nesse
viço militar obrigatório por um con- DynCorp…) que visem substituir os sentido, o espaço mediático tem hoje
junto alargado de países, depois de cidadãos por “sombras”, sejam vo- um papel ainda mais importante ao
vários anos de experiência do regime luntários internacionais ou mesmo nível da informação, da contrainfor-
de voluntariado e contrato ou mes- legiões estrangeiras (modalidade mação e da desinformação, pois as
mo de sistemas mistos. E esta opção defendida por McFate para os países guerras também se ganham (nos e)
tem relação direta com as ameaças ocidentais, cujos jovens não querem através dos média!
mais ou menos perigosas e prováveis, combater, mesmo nos casos mais ex- O oitavo ponto de reflexão tem
mas também com questões de âmbito tremos de invasão e ocupação dos relação, inevitável, com a tão neces-
político e mesmo social. Cada caso é seus países!). sária base industrial de defesa. Efeti-
um caso, mas a evolução nesse senti- Um sexto ponto diz respeito ao vamente, com a globalização, nem os
do pelo espetro de países ameaçados crescendo de importância das ope- EUA nem a China são autossuficien-
pela Rússia tem sido uma constante. rações multi-domínio, utilizando, de tes em termos de produção de arma-
Um quinto ponto tem relação com modo integrado, as cinco dimensões mento. No entanto, está a ser desen-
os mercenários, cujo protagonismo da Guerra: terra, mar, ar, espaço, ci- volvido um esforço concertado entre
efetivamente se acentuou com a pos- ber. Em teoria, tem sido muito dis- aliados dos dois lados da contenda
tura do grupo Wagner na Ucrânia e cutido, mas poucas Forças Armadas no sentido de o Estado ser simulta-
em especial por parte do seu líder, têm capacidade para aplicar opera- neamente mais eficaz e eficiente na
Prigozhin, em relação às lideranças ções multi-domínio, o que é o caso sua indústria de defesa e menos de-
militares do Kremlin. Mas aquilo a da Rússia, incapaz até ao momento, pendente do exterior. Nesta Guerra,
que se assistiu foi ao seu desmoronar, apesar de mais de dois anos de lições a Europa constituiu um exemplo real
exatamente pelas mesmas razões que aprendidas no teatro de operações da das consequências (negativas) ine-
Maquiavel apresentou ao “Príncipe”: Ucrânia. rentes ao desinvestimento na indús-
os mercenários são “desumanos, am- Considero o espaço mediático e a tria de defesa e nas Forças Armadas
biciosos, indisciplinados e infiéis”. No transparência (gestão das perceções) em geral.
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O MUNDO EM PERSPETIVA >>> ATUALIDADES
Major-General
Diretor da Direção Administração de Recursos Humanos
O Ensino da Tática
A formação profissional militar, sustentada em sólidas bases
científicas e na excelência de um pensamento crítico e criativo,
correlaciona-se diretamente com o nível de desempenho dos
militares e com o sucesso no campo de batalha
P
orquê ensinar tática? Ou numa outra perspetiva, Education and Battlefield Effectiveness”, de 2018, que a for-
quais as vantagens diretas, para um Exército, que mação académica militar está diretamente correlaciona-
advêm do investimento no ensino dos seus ofi- da com a excelência do desempenho e, portanto, com o
ciais em geral e da tática em particular? sucesso em combate. Advoga ainda que a formação, não
Nathan Toronto, Professor Associado do Colégio de sendo como que uma apólice de seguro contra o fracas-
Defesa dos Emirados Árabes Unidos, conclui, no seu tra- so, possibilita, todavia, a criação de uma arquitetura inte-
balho de investigação “Learning Military Power: Military lectual que permita conduzir regularmente com sucesso
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DOUTRINA >>> ATUALIDADES
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DOUTRINA >>> ATUALIDADES
gosto e prazer pelo ensino da tática”. dos factos; Fink, ex-presidente da Professional
Em 1967 foi fundado em Har- – A pesquisa dos efeitos às and Organizational Development
vard, pelo filósofo Nelson Goodman, causas; (POD) Network in Higher Educa-
o “Project Zero”, com o propósito de – A investigação e avaliação dos tion, dos EUA, são experiências de
estudar e desenvolver o ensino das ar- meios empregues. aprendizagem que resultam em algo
tes. Pelo valor transversal deste pro- O Tenente-General Holder, no de significativo para a vida e desem-
jeto, o mesmo rapidamente se esten- seu artigo atrás referido, também penho profissional do aluno. Isto im-
deu a outros domínios, tais como a defende que, para além da Defe- plica saber distinguir de forma clara
resolução de problemas, pensamento sa Nacional, o maior benefício que a aprendizagem passiva, resumida à
crítico e inteligência organizacional. as Escolas Militares devem trazer é receção de informação e ideias e re-
Tendo como principal investigador produzir Comandantes e Oficiais produção das mesmas, da aprendiza-
Howard Gardner, autor da teoria das de Estado-Maior imaginativos e gem ativa, que envolve a experimen-
Inteligências Múltiplas, este projeto é adaptativos, aumentando os curri- tação e reflexão, não só sobre o que
hoje reconhecido na comunidade in- cula em matéria da arte da guerra. se está a aprender, mas como se está
ternacional como fonte de partilha de Devem também estas escolas pro- a aprender.
boas práticas no domínio do ensino mover reformas autênticas, por via Para isso, a incursão sobre novas
e aprendizagem, defendendo acer- da implementação de metodologias abordagens taxonómicas da apren-
rimamente a importância da imple- educativas adequadas, com recurso dizagem afigura-se fundamental,
mentação duma Cultura do Pensar. a melhores instrumentos tais como substituindo as abordagens centradas
De acordo com Mark Church, pro- programas de autodesenvolvimento, exclusivamente na natureza dos con-
fessor de Harvard também associado ensino à distância, sistemas de simu- teúdos, por abordagens centradas nas
ao projeto, o ensino assenta num tri- lação e aprendizagem colaborativa. aprendizagens.
pé que estimula a observar, pensar e Também o tamanho e composição Observação e reflexão, espírito
questionar. Reconhecemos estar uma das classes merecem atenção cuidada crítico e criativo, metodologias e cur-
vez mais perante a abordagem crítica neste processo. ricula adequados, talvez aqui resida o
Clausewitzinana, que sugere três ati- Está, portanto, em jogo a criação gosto pela aprendizagem da tática, o
vidades intelectuais nelas contidas: de experiências de aprendizagem sig- ensino da arte tão necessário e aduzi-
– A descoberta e interpretação nificativas, que, no parecer de Dee do por vários autores. JE
1
John Adair, professor da Royal Military Academy Sandhurst, no Reino Unido, desenvolveu um modelo de liderança, baseado no conceito de Liderança
Centrada na Ação, defendendo que a liderança deve ser ensinada e desenvolvida, ao invés de se considerar uma competência inata
Tenente-Coronel de Artilharia
Comandante do Grupo de Artilharia de Campanha 15.5 Rebocado
R
ealizou-se no Campo Militar de Santa Marga- Artilharia Antiaérea (AAA) de Portugal, do Reino de Es-
rida, no período de 11 a 22 de março de 2024, panha e observadores de França e da Roménia, envolven-
o Exercício STRONG IMPACT (SI) 24, onde do cerca de 450 militares participantes. Trata-se do maior
participaram forças de Artilharia de Campanha (AC) e de exercício anual de Apoio de Fogos conduzido pelo Exérci-
30
EXERCÍCIOS >>> ATUALIDADES
to Português, assente no mais recente – Planeamento: de dezembro de cise (FTX) e Live Fire Exercise
e realista cenário da NATO, baseado 2023 a fevereiro de 2024, a fim (LFX);
em operações correntes e futuras da de definir os objetivos do Exer- – Avaliação: durante os meses de
Aliança Atlântica. cício e de treino, estruturas e abril e maio, a fim de concluir
Este exercício teve por finalidade forças participantes, e requisi- o SI 24 e participar no processo
exercitar o planeamento, coordena- tos, através da programação e de lições aprendidas.
ção e condução de operações milita- planeamento do Exercício; Foram previstos um total de 19
res terrestres num cenário de empre- – Execução: de 11 a 22 de mar- objetivos de treino, salientando-se
go de forças fictício, que configurou ço de 2023, com a participa- a condução de operações terrestres,
um conflito no Continente Europeu ção efetiva das audiências de em conflitos de alta intensidade, com
e foi dividido em três fases: treino em Field Training Exer- particular ênfase ao nível do Grupo
32
EXERCÍCIOS >>> ATUALIDADES
seus militares. No caso do Grupo – Proficiência Tática e Técnica assegurando o estímulo de in-
de Artilharia Antiaérea (GAAA) da que aumenta a sobrevivência terajuda e potenciando a inte-
Brigada de Intervenção, o exercício e proteção da Força. O cenário roperabilidade entre unidades,
setorial terá lugar no 2.º semestre do utilizado e, particularmente, configurando um provável
corrente ano. os incidentes injetados permi- quadro de atuação de forças
A fim de cumprir com sucesso os tiram treinar as Táticas, Téc- NATO.
objetivos de treino, consideraram-se nicas e Procedimentos (TTP) O SI 24 desenvolveu-se de acor-
as seguintes ideias: das unidades participantes, em do com o cronograma de Planea-
– Alinhamento coerente com especial o shoot and scoot, a ca- mento e Condução do Exercício.
o Plano de Treino Operacio- pacidade anti-drone, o uso de Numa fase inicial, entre 11 e 12 de
nal. O SI 24 decorreu após o técnicas de camuflagem e dis- março, as forças e meios foram pro-
treino setorial das Brigadas ciplina de movimentos, consi- jetados das suas Unidades de ori-
estar concluído. Foram dili- derando lições aprendidas dos gem para o Campo Militar de Santa
genciados os devidos ajustes conflitos recentes, nomeada- Margarida. Seguiu-se um período
temporais e procedimentais, mente a guerra entre a Rússia de treino conjunto entre as unidades
respeitando a sua sequência e a Ucrânia. nacionais e estrangeiras participan-
natural, do individual para o – Foco nos compromissos inter- tes, com exposição de capacidades,
coletivo, e sincronizando os nacionais e nacionais. A parti- treino de simulação no simulador de
diferentes ciclos, por forma a cipação de forças estrangeiras Observação de Tiro INFRONT 3D 2
assegurar que as unidades de permitiu realizar o exercício e atividades de preparação e manu-
AC e AAA atingissem o nível num ambiente internacional, tenção dos materiais. Realizou-se o
adequado ao seu escalão. Com
o presente alinhamento, os ní-
veis necessários de treino para
o ORION24 seriam, de igual
forma, respeitados.
– Preparação para cenários de
emprego com elevada incer-
teza global. Como resposta ao
ambiente operacional incerto,
complexo e plástico, conside-
rou-se um cenário que alude
a tarefas táticas no âmbito de
operações defensivas, ofensivas
e de estabilização. Desta forma,
foram criadas condições fictí-
cias de instabilidade e incerte-
za, muito próximas do real.
Quadro 1 – Meios constitutivos do Grupo de Artilharia de Campanha 10,5 Rebocado para o SI24
Materais
Meios projetados por: Humanos Viaturas de
Obuses / Morteiros Outros Especiais
Comando
GAC 155 AP
138 6 obuses M109A5 3 M577 46 (P, M e L) –
(GACA XI)
Pel AA (ZMM) 4 – –
Pel AA (ZMA) 5 – –
34
>>> ATUALIDADES
36
EXERCÍCIOS >>> ATUALIDADES
“O SI24 alcançou
os objetivos,
centrados no
planeamento,
controlo e
condução das
operações
terrestres, num
ambiente instável,
imprevisível e
complexo onde se
exigiam elevados
níveis de prontidão,
eficácia e
interoperabilidade
das unidades
O SI24 alcançou os objetivos, – Utilizou o sistema de simulação
centrados no planeamento, controlo INFRONT 3D, capitalizando o participantes.”
e condução das operações terrestres, treino e a interoperabilidade,
num ambiente instável, imprevisível com aumento da proficiência Comandos e Estados-Maiores
e complexo onde se exigiam elevados operacional, reduzindo custos; pela presença de forças estran-
níveis de prontidão, eficácia e inte- – Revigorou e ampliou a coope- geiras integrando processos e
roperabilidade das unidades partici- ração nacional e internacional, sistemas automáticos de co-
pantes. O contexto de treino criado contando com uma presença mando e controlo próprios;
proporcionou exercitar o Grupo de significativa (cerca de 30%) de Adicionalmente constituiu um
AC e o Elemento de Defesa Aérea da militares estrangeiros de qua- valioso fórum artilheiro de treino
Brigada na condução do processo de tro nacionalidades; bilateral e multilateral, em que a in-
decisão militar e na direção técnica – Treinou-se práticas aprendidas teroperabilidade saiu reforçada, em
e tática do tiro. Mas proporcionou na guerra da Ucrânia, como função dos mecanismos de respos-
mais! Foi um exercício que: as que decorrem do uso mul- ta rápida, através da participação
– Possibilitou um treino con- tifacetado dos SANT com in- de subunidades constituídas, e que
junto, valorizando os fogos terferência no movimento, en- constitui um valor acrescentado nos
conjuntos pela massificação e tradas e saídas e sobrevivência processos de aprontamento, projeção
variedade de efeitos, disponi- das unidades de AC e AA em e sustentação de forças, bem como na
bilizando outras possibilidades posição; capitalização da imagem da Artilha-
ao Comandante; – Trouxe acrescidos desafios aos ria Portuguesa. JE
* Coautores:
Tenente-Coronel de Artilharia José Maldonado, Comandante do Grupo de Artilharia Antiaérea
Tenente-Coronel de Artilharia Sérgio Rocha, Comandante do Grupo de Artilharia de Campanha 15.5 Autopropulsionado
Tenente-Coronel de Artilharia Diogo Serrão, Comandante do Grupo de Artilharia de Campanha 10.5 Rebocado
1
O conceito Shoot-and-scoot é uma técnica de Artilharia, que consiste em efetuar a saída de posição imediatamente após a realização de fogos indiretos
sobre o alvo inimigo, com a finalidade de garantir a sobrevivência da força, através da diminuição do tempo de exposição aos fogos de contra-bateria
da Artilharia Inimiga.
2
É um simulador de tiro indireto e permite treinar a observação e regulação do tiro das bocas de fogo de Artilharia de Campanha e Morteiros.
3
Artillery Hunting Radar é um sistema de aquisição de objetivos baseado na deteção das trajetórias dos projéteis de Artilharia e Morteiros.
4
Field Handling Trainer.
5
Thermal Weapon Sight.
6
Battle Management Terminal.
Major de Infantaria
Comandante da Companhia de Atiradores Mecanizada de Rodas da 5.ª Força Nacional Destacada na Roménia
A
Organização do Tratado do Atlântico Norte paz, contribuindo para o reforço da defesa da fronteira da
(NATO, na sigla inglesa) deliberou, na Cimeira NATO a sudeste, com a projeção para a Roménia de uma
de Varsóvia de 2016, reforçar a presença mili- Unidade de Escalão Companhia, desde o primeiro semes-
tar na parte oriental do território da Aliança, com vista a tre de 2022, para integrar as estruturas de forças daquela
melhorar a sua postura de dissuasão e defesa, o que viria Organização de defesa nesta região, inserido na missão
a revelar-se essencial após a invasão do território ucra- enhanced Vigilance Activity 1.
niano por parte da Rússia, em 24 de fevereiro de 2022. Neste âmbito, a 5.ª FND (Força Nacional Destacada) a
Portugal, como membro da NATO, reafirmou o seu forte ser projetada em maio para o Teatro de Operações (TO)
compromisso com esta Organização e reiterou o seu em- da Roménia iniciou o aprontamento no final de novembro
penho nos esforços internacionais para a manutenção da do ano transato. Esta FND está organizada numa Com-
38
EXERCÍCIOS >>> ATUALIDADES
Inspeção Operacional,
CREVAL
A inspeção ocorreu durante o pe-
ríodo de 9 a 11 de abril, assente em
três fases distintas:
– Fase I - Em aquartelamento, fo-
ram apresentados os brífingues
da Equipa de Inspeção (EI) e
do Comandante da 5.ª FND
CAtMec/ROU, foram avalia-
dos os recursos de que a força
dispõe, o conteúdo e cumpri-
mento do programa de treino
e aprontamento e os procedi-
mentos contidos nas normas e
planos;
– Fase II - No campo, com o ob-
jetivo de avaliar as capacidades
táticas da força, no âmbito do
planeamento e conduta de ope-
rações enquadrada num Field
Training Exercise (FTX);
– Fase III - Com realização de
um debrífingue da EI ao Co-
mandante da Força e represen-
tante da UnOrg para o apron-
tamento da força.
Execução
O exercício CARPHATOS
SHIELD 241 teve como objetivo va-
lidar o Plano de Treino, Normas de
Execução Permanente (NEP) e as
Técnicas, Táticas e Procedimentos
(TTP) da 5ª FND CAtMec/ROU,
constituindo-se como audiência pri-
mária de treino, em que o Centro de
Gravidade para este exercício foi a
avaliação Combat Ready na CREVAL
da Força. Para além do objetivo refe-
rido foi também possível confirmar e
validar o seguinte:
– A exercitação da terminologia,
metodologia e procedimentos
de planeamento, de acordo
com o processo de planeamen-
to operacional em vigor, em
ambiente controlado e fazendo
uso da língua inglesa para inte-
rações com o escalão superior e
comandos laterais;
– A prática e teste de atividades
de prevenção, mitigação e rea-
ção a incidentes do foro sani-
tário e psicológico, de acordo
40
EXERCÍCIOS >>> ATUALIDADES
com as TTP da força; mento, o Comando (Cmd) e Estado- módulos da força prestaram apoio à
– A implementação, prática dos -Maior (EM) da BrigInt constituiu-se manobra da CAtMecRodas e a Sec-
fluxos de informação diários como Cmd e EM da Multinacional ção de Comando da Força, para além
e semanais, de acordo com o Brigade South East (MNBde-SE), a do comando e controlo da operação,
estabelecido na Roménia e em fim de garantir o fluxo de comuni- garantiu permanentemente a ligação
Território Nacional, de forma cações similar ao existente no TO. O com o seu escalão superior. Durante
a contribuir para o Situational FTX incidiu numa operação defen- toda a operação, a Força foi sujeita a
Awareness. siva, tendo a CAtMecRodas inicial- vários incidentes injetados e à pre-
O exercício foi executado sob a mente ocupado uma zona de reunião sença de uma força opositora, garan-
forma de Live Exercise (LIVEX), do e posteriormente uma posição de tindo assim uma reprodução mais
tipo FTX, e para efeitos de enquadra- combate. Paralelamente, os restantes próxima possível do ambiente opera-
cional pretendido.
Para que a Força terminasse o
Exercício com o sentimento de mis-
são cumprida, houve a necessidade
de desenvolver uma preparação e
um treino bastante rigorosos, ten-
do como princípio sempre presente
o aperfeiçoamento diário de cada
militar, resultando num assinalável
melhoramento do seu desempenho
nas tarefas inerentes ao seu cargo, em
prol de um objetivo comum. Con-
siderando que os militares da Força
são oriundos de diferentes Unidades,
foi exercido um esforço suplementar
na gradual integração destes milita-
res, originando assim a coesão pre-
tendida e inspirando uma confiança
mútua no cumprimento da missão,
assim como foi verificado durante
o exercício CARPHATOS SHIELD
Visita do General Chefe do Estado-Maior do Exército
241. JE
1
Reforço da presença militar, dissuasão e defesa territorial da NATO.
Capitão de Infantaria
2.º Comandante da Companhia de Atiradores Mecanizada de Rodas da 5.ª Força Nacional Destacada na Roménia
N
a sequência da invasão da Ucrânia pela Rús- uma Unidade de Escalão Companhia para a Roménia, no
sia, e subsequente ativação dos planos de de- âmbito das Forças Nacionais Destacadas (FND), para in-
fesa da Organização do Tratado do Atlântico tegrar as estruturas de forças da NATO nesta região. Esta
Norte (NATO, na sigla inglesa), foi decidido projetar participação, com um efetivo total de 200 militares, tra-
42
APRONTAMENTO >>> ATUALIDADES
“Aquartelada
nas instalações
militares de
Caracal, na maio de 2024, reforçar a presença de ríodo de 27 de novembro de 2023 a
Roménia, a 5.ª forças na região sudeste da Aliança,
no âmbito das enhanced Vigilance
25 de maio de 2024 foi destinado ao
aprontamento da Força, sendo con-
FND CAtMec/ Activities, e contribuir para a postura duzido de forma faseada, de modo
de dissuasão e defesa territorial desta a assegurar que a mesma cumpra os
ROU deve estar organização internacional. requisitos definidos e esteja apta a
A Força é constituída pelo Co- executar as missões e tarefas que lhe
preparada para mando e por cinco Subunidades possam ser atribuídas. Este processo
realizar atividades (Companhia de Atiradores Meca-
nizada de Rodas, Módulo de Defe-
é finalizado e validado através da ava-
liação da FND como um todo, tendo
e tarefas com sa Antiaérea, Módulo Conjunto de em vista a sua certificação. Para tal, o
Informações, Módulo Geográfico calendário de aprontamento foi divi-
o objetivo de Meteorológico e Destacamento de dido da seguinte forma:
Apoio). Os 200 militares são oriun- – Fase I, Aprontamento Admi-
reforçar a dos de 31 Unidades, Estabelecimen- nistrativo-Logístico (27 de no-
presença de forças, tos e Órgãos (U/E/O), constituindo-
-se em 19 Oficiais, 47 Sargentos e 134
vembro a 29 de dezembro de
2023);
contribuindo Praças, dos quais 178 militares são do – Fase II, Treino Orientado para
género masculino e 22 militares são a Missão (2 de janeiro a 19 de
para a dissuasão do género feminino. abril de 2024);
As diretivas de aprontamento – Fase III, Preparação para a Pro-
e defesa em emanadas pelo Comando das Forças jeção (22 de abril a 25 de maio
território Romeno, Terrestres (CFT) e pela Brigada de In-
tervenção (BrigInt) definem as linhas
de 2024).
Aprontamento
no âmbito da NATO orientadoras para o aprontamento
Administrativo-Logístico
da 5.ª FND CAtMec/ROU, tendo
e dos acordos sido definida como Unidade Orga- Uma das primeiras prioridades
nizadora (UnOrg) a BrigInt e como do Aprontamento Administrativo-
bilaterais (…)” Unidade Mobilizadora o RI14. O pe- -Logístico foi analisar a Estrutura
44
APRONTAMENTO >>> ATUALIDADES
46
APRONTAMENTO >>> ATUALIDADES
dos os recursos de que a Força dis- numa tentativa de garantir o cresci- Apoio Avançada (intermediário para
põe, o conteúdo e cumprimento do mento na função dos militares menos garantir apoio) e RSOMI no Port of
programa de treino e aprontamen- experientes, impondo uma carga ho- Embarkation (resposta rápida como
to e os procedimentos contidos nas rária de treino acima do estipulado, ponto de entrada inicial).
normas e planos; Fase II, no campo, por forma a identificar possíveis la- Uma vez que todo o material e
que consistiu na avaliação das capa- cunas e a sua resolução num período equipamento já se encontra no TO
cidades táticas da força, no âmbito do curto de tempo. da Roménia, será adotado o RSOMI
planeamento e conduta de operações Outro desafio prendeu-se com a na área de operações. Em 12 de maio
enquadrada num Field Training Exer- falta de formação em áreas críticas. de 2024, será projetada uma Advan-
cise (FTX); Fase III com realização de Foram verificadas necessidades de ce Party, de 50 militares, através de
um Debriefing da EI ao Comandante formação, das quais se destacam os voo civil com destino ao aeroporto
da Força e representante da UnOrg cursos de condução das várias tipo- de Bucareste, para garantir a prepa-
para o aprontamento da força. Esta logias de viaturas, Curso de Chefe de ração e receção das viaturas e mate-
avaliação teve como documento-base Viatura PANDUR e VAMTAC, bem rial na Unidade Militar em Caracal,
o mais recente Allied Command Ope- como o Tactical Combat Casualty base de operações da FND ROU. A
rations (ACO) Forces Standards, Vol. Care (TC3), resultando num esforço 23 de maio, será feito o processo de
VII, de junho de 2023, do qual foram adicional no planeamento do treino Transferência de Autoridade da 4.ª
analisados todos os critérios de ava- operacional. para a 5.ª FND. E em 25 de maio,
liação de diversas áreas. serão projetados os restantes 150
Na fase do TOM, o maior desafio Preparação para a Projeção militares da Força através de voo
foi garantir uma Força coesa e uni- A 5.ª FND CAtMec/ROU encon- fretado.
da, treinada para cumprir a missão tra-se atualmente na Fase III. A pro- Nesta fase, ainda em Território
que lhe estava atribuída. Com uma jeção de uma Força baseia-se no pres- Nacional, importa consolidar as lis-
composição que integra militares de crito nos manuais Reception, Staging, tas de pessoal e material a projetar
31 U/E/O, com tipos de formação e Ownward Movement and Integration para o TO, planear e realizar a Ce-
vivência totalmente díspares, tornou- (RSOMI) for NATO/ EU-Led Military rimónia de Outorga do Estandarte
-se imperioso estimular uma ideo- Operations, normalmente dividi- Nacional, preparar as cargas coleti-
logia centralizadora e congregadora. do em três grandes áreas, em que se vas e individuais para a projeção e
A solução passou por garantir um destaca RSOMI na área de operações por último elaborar o Relatório Fi-
ritmo elevado de treino e exercícios, (tradicional), RSOMI numa Base de nal de Aprontamento. JE
Tenente-Coronel de Cavalaria
Comandante do Grupo de Carros de Combate
T
eve início a 26 de janeiro de 2024, no Campo integrado numa Unidade de Escalão Batalhão (UEB) do
Militar de Santa Margarida, o aprontamento Exército do Reino de Espanha por um período de até seis
de um Pelotão de Carros de Combate (PelCC) meses. Este contingente é constituído, na sua totalidade,
Leopard 2 A6, contributo nacional no âmbito do Multina- por um Pelotão de Carros de Combate, uma Equipa de
tional Battle Group Slovakia (MNBG SVK), e que irá ser Manutenção (Casco e Torre), uma Equipa de Transmis-
48
APRONTAMENTO >>> ATUALIDADES
sões, uma Enfermeira e um Instrutor Carros de Combate M47 Patton participantes nas primeiras manobras realizadas pela
Avançado de Tiro (Master Gunner) Divisão Nun’Álvares, em 1953, no Campo de Instrução Militar de Santa Margarida
como elemento de ligação, num total (CIMSM) (Arquivo da Brigada Mecanizada)
de 27 militares, contando com os Ele-
mentos Nacionais Destacados.
Apesar de ser a primeira vez que
Portugal se prepara para projetar
uma força de Carros de Combate
(CC) para um Teatro de Operações,
esta tipologia de forças tem um vasto
historial de prontidão no âmbito da
Aliança Atlântica. Desde os primór-
dios da mecanização das forças por-
tuguesas, mais concretamente desde
a década de 50, que, ao abrigo da
Organização do Tratado do Atlânti-
co Norte (North Atlantic Treaty Or-
ganization [NATO]), foi assinado um
acordo bilateral de defesa entre Por-
tugal e os Estados Unidos da Améri-
ca, que resultou na chegada dos pri-
meiros CC M47 Patton. Desde então
tem-se vindo a testemunhar uma
evolução destes sistemas de armas,
assim como, uma contínua afetação ria capaz de ser projetada para uma os países membros da Aliança deci-
dos mesmos à NATO. área operacional além da Europa diram aperfeiçoar, e reforçar, o con-
Em 2003 foi estabelecido um com vista a cumprir missões especí- ceito de NRF, por forma a melhorar
mecanismo de resposta da Alian- ficas, nomeadamente, no âmbito das a respetiva capacidade e flexibilidade
ça Atlântica, NATO Response Force missões não Artigo 5.º do Tratado de emprego, apresentando o concei-
(NRF), tendo em vista dotar a NATO do Atlântico Norte. Neste quadro e to de “enhanced NRF” (eNRF). Esta
com uma capacidade militar de res- em 2015, na sequência da Cimeira NRF reforçada passou a dispor de um
posta rápida e efetiva, que se traduzia de Varsóvia e no contexto da inter- novo elemento de escalão Brigada de
na prática numa Força expedicioná- venção russa no Leste da Ucrânia, elevada prontidão, a “Very High Rea-
diness Joint Task Force” (VJTF), capaz
de ser projetada com um tempo de
aviso de cinco a sete dias e com um
dos seus Batalhões, o “spearhead Bat-
talion”, com um nível de prontidão de
48h.
Desde o estabelecimento da NRF,
e no quadro das várias Forças que o
Exército aprontou, destacam-se os
Agrupamentos Mecanizados (Agr-
Mec) da NRF 5, em 2006, da NRF 12,
em 2009 1, e da VJTF 22 2, entre 2021
e 2023, por integrarem Unidades de
CC nas respetivas estruturas orgâ-
nicas. Os Esquadrões de Carros de
Combate (ECC) dos primeiros dois
AgrMec encontravam-se equipados
com o CC M60 A3 TTS, entretan-
to fora de serviço, e o Esquadrão de
Carros de Combate atribuído à VJTF
22, equipado com o CC Leopard 2
A6.
Em 2021, no contexto da União
CC M60A3 TTS e viaturas de rodas do AgrMec/BMI/NRF 5, na estação Europeia e no quadro da Land Rapid
ferroviária de Saragoça, no Exercício Cohesion 05 (Arquivo da Brigada Mecanizada) Response (LRR), o Exército, através
do Esquadrão de Reconhecimento, uma força, nomeadamente nas ações nistrativo-logístico, onde, cumulati-
aprontou um Pelotão de Carros de de Treino Físico, nas Listas de Tarefas vamente foram treinados e validados
Combate, tendo, neste âmbito, sido Essenciais ao Cumprimento da Mis- as Técnicas, Táticas e Procedimentos
projetados para o campo de mano- são (LTEM) e nas Sessões de Tiro, respeitantes ao treino individual/
bras de São Gregório, em Saragoça, assim como a Publicação Técnica do treino de nivelamento; de fevereiro a
com a finalidade de participar no Exército PTE 245-01-Avaliações de maio, a fase do treino orientado para
Exercício BETA21. Guarnições de CC Leopard 2 A6, que a missão, dividida em várias subfa-
Enquadrado no NATO Force Mo- avalia e certifica os conhecimentos ses, nomeadamente as referentes aos
del (NFM) e nas ofertas nacionais de dos elementos das guarnições de CC treinos de escalão Guarnição, Secção
forças no âmbito da Force Sourcing quanto à sua proficiência técnica e tá- e Pelotão, enquadrados nos vários
Conference (FSC) 3/23, foi aprovado tica, foi elaborado um programa de exercícios setoriais, onde se incluem
o oferecimento de forças para o Mul- aprontamento para o PelCC MNBG os das séries RINO do GCC, ROSA
tinational Battle Group Slovakia (MN SVK. BRAVA da BrigMec e ORION do
BG SVK). Neste quadro foi oferecido Por conseguinte, o programa de Exército. Neste último foi efetuada
um PelCC, Tier 1 in place, a partir do aprontamento foi estruturado em três a certificação e avaliação (CREVAL)
segundo semestre de 2024. Para cum- fases fundamentais: de janeiro a feve- do PelCC MNBG SVK. Após a cer-
prir este desiderato, a Brigada Meca- reiro, a fase do aprontamento admi- tificação da força segue-se a fase de
nizada (BrigMec) constituiu-se como
Unidade Organizadora (UnOrg)
para o aprontamento e manutenção
da prontidão do PelCC e o Grupo
de Carros de Combate da BrigMec
(GCC/BrigMec) constituiu-se como
a Unidade Mobilizadora (UnMob).
O aprontamento do PelCC
SVK
Programa de Aprontamento
Decorrente das orientações ema-
nadas superiormente, e tendo por
base o catálogo de treino disponível
no Sistema de Aprontamento de For-
ças do Exército (SAFE), que define
os níveis a atingir pelos militares de Esquadrão de Carros de Combate do AgrMec VJTF 22
50
APRONTAMENTO >>> ATUALIDADES
Master Gunner a controlar as sessões de tiro de CC através do Video Training Equipment (VTE)
Preparação para a Projeção. mente foram validadas nas sessões Leopard 2 A6, assim como, pela expe-
Paralelamente a estas fases foram de tiro com fogos reais, realizadas no riência acumulada no aprontamento
ainda planeadas sessões de treino em Campo Militar de Santa Margarida de Forças no âmbito da NRF, VJTF e
simuladores de CC em Espanha, no- O processo de edificação de uma LRR.
meadamente nas instalações da Bri- força de CC Leopard 2 A6 encontra-
gada Mecanizada Extremadura XI -se bem estruturado e solidificado Aprontamento
(BRIMZ XI) em Badajoz e no Centro no GCC, em grande parte devido De uma forma mais simples o que
de Adiestramiento (CENAD) em Sa- ao historial de Treino Operacional se pretende com o aprontamento de
ragoça, durante as quais teve lugar a desde que o GCC atingiu a Full Ope- forças é que estejam prontas para
certificação das guarnições em simu- rational Capability (FOC) e a conse- combate, requerendo, para isso, con-
ladores, qualificações que posterior- quente certificação da sua capacidade dição física, proficiência técnica e de-
sembaraço tático.
Imersos nesse espírito, iniciou-
-se a primeira fase do aprontamen-
to, orientada mais para a preparação
individual, que incluiu, para além da
preparação base idêntica às restantes
forças, sessões de treino em simula-
dores para CC que ocorrem no âmbi-
to das relações de cooperação bilate-
ral entre a BrigMec e a BRIMZ XI do
Exército Espanhol e tem como finali-
dade o treino de procedimentos dos
elementos da guarnição, incluindo a
prática da técnica de tiro realizada
num contexto de uma situação tática
em ambiente simulado. Esta fase ter-
minou com a realização do exercício
RINO 241 do GCC, que teve como
principal objetivo a validação das
tarefas individuais das Guarnições
de CC em diversas áreas, tais como
a topografia, tiro individual e tarefas
no seu respetivo posto de combate no
Tiro de CC Leopard 2 A6 CC Leopard 2 A6.
Após certificação das compe- numa manobra de pelotão ou esqua- ter à NATO, são utilizadas as listas de
tências individuais dos elementos drão e sempre acompanhadas e vali- verificação preconizadas no manual
das guarnições, iniciou-se a II Fase dadas pelo Master Gunner do GCC. Allied Command Operations Forces
do aprontamento. Nesta fase foram Para finalizar a fase do Treino Standards (ACO FS), Vol VII (Com-
efetuadas duas sessões de treino em Orientado para a Missão efetuou-se bat Readiness Evaluation of Land
simuladores, tendo a última sido o Exercício ORION 24 onde a força Headquarters and Units), que tem
efetuada no Centro de Adiestramien- foi certificada. como finalidade estabelecer a polí-
to "San Gregorio", sediado em Sara- tica, metodologia, procedimentos e
goça, e que teve como finalidade a A Inspeção Operacional (CRE- critérios para planeamento, condu-
prossecução dos procedimentos dos VAL), o método para a certificação ção e comunicação das avaliações
elementos da guarnição, a prática da Como referido, inserido no Exer- de prontidão de combate dos Quar-
técnica de tiro, bem como o treino tá- cício ORION 24, o PelCC MNBG téis-Generais e Unidades Terrestres
tico ao nível de pelotão com recurso SVK, à semelhança das restantes For- (NATO, 2023).
aos contentores de simulação tática. ças Nacionais Destacadas, foi sujeito O mesmo manual refere que as
O treino com recurso a sistemas de a uma Inspeção Operacional desig- avaliações devem ser conduzidas
simulação permite efetivar uma ti- nada CREVAL (Combat Readiness como um processo contínuo que
pologia de treino num ambiente de Evaluation). Esta inspeção teve dupla consiste em várias verificações de
combate simulado resultando numa finalidade: por um lado providen- controlo de prontidão com feedback
franca evolução da proficiência téc- ciar ao Comandante da Unidade re- direto aos Comandantes e Estado-
nica das guarnições de CC. comendações para melhorar as suas -Maior, permitindo ações corretivas
Com a finalidade de consolidar e forças e apoiar a certificação pela ao longo de todo o processo, devendo
validar as tarefas coletivas de guar- entidade competente, que no caso do ainda considerar os princípios funda-
nição, realizou-se o exercício RINO Exército é o General Chefe do Esta- mentais da avaliação, particularmen-
242 do GCC. Com o mesmo desíg- do-Maior do Exército, que certifica te, a imparcialidade, a transparência
nio, mas no patamar do Pelotão, rea- as forças, sob proposta da Inspeção e não se deixar influenciar (Free of
lizou-se o exercício ROSA BRAVA Geral do Exército 3 (Decreto Regula- Undue Influence).
242. Estes exercícios terminaram mentar n.º 2/2023) e, por outro, ava- Desde a CREVAL à 5.ª FND/
com um exercício de Fogos Reais liar e verificar a prontidão de comba- CAtMec/Roménia (ROU) que as
(LFX), onde se efetuaram as Tabelas te das forças declaradas à NATO. inspeções têm como base sete áreas:
de Tiro preconizadas para a certifi- Com base na doutrina de referên- Prepare, Project, Engage, Sustain, C3
cação das guarnições, enquadradas cia, nas avaliações de forças a come- (Consultation, Command and Con-
52
APRONTAMENTO >>> ATUALIDADES
* Coautor: José Isidoro, Major de Cavalaria, 2.º Comandante do Grupo de Carros de Combate
1
NRF 5 e NRF 12, os Agrupamentos foram aprontados pela Brigada Mecanizada, através do 1.º Batalhão de Infantaria Mecanizado, tendo sido reforçado
com um Esquadrão de Carros de Combate do Grupo de Carros de Combate.
2
O AgrMec VJTF 22 tem como Unidade Organizadora a Brigada de Intervenção e integra duas Companhias de Atiradores equipadas com a viatura
PANDUR II (RI 13 e RI 14), bem como um Esquadrão de Carros de Combate equipado com o CC Leopard 2 A6 (GCC). O Agrupamento iniciou o seu
período de aprontamento em janeiro de 2021, integrando a BrigVJTF em 2022.
3
A Inspeção-Geral do Exército (IGE) tem por missão apoiar o CEME no exercício da função de controlo e avaliação, designadamente através da realização
de inspeções e auditorias (Decreto Regulamentar n.º 2/2023).
Professor
Antigo docente do Colégio Militar e da Universidade Católica
P
arta-se de um princípio evidente: as represen- da batalha tudo é criação temperada com maior ou menor
tações da batalha de Alcácer Quibir são todas emoção interpretativa grandiosa, estilizada ou trágica.
improváveis e fruto de elucubrações artísticas. São dois os estados das imagens da batalha, que pode-
Enquanto que para o retrato do Rei Dom Sebastião po- mos agrupar da seguinte forma: um grupo reúne as que
demos contar com sete retratos do natural, e mais umas acompanham as descrições da ordem da batalha escritas
quantas cópias, o que nos permite conhecer, com alguma em primeira mão e que permitem reconstituir com algu-
fidedignidade, o desenvolvimento da pessoa do Rei, acerca ma certeza e detalhe a forma como se organizou o exército
54
DIVULGAÇÃO >>> ATUALIDADES
Relação da batalha de Alcaçer que mandou hum cativo ao Dor Paulo Afonso. desastre, nos corpos jazentes amon-
BNF, Portugais 8, n.º 29, f. 120. (figura 1) toados a significar a tragédia em que
redundou a jornada de África, e al-
gumas outras, poucas, mostram um
corpo jazente, representando o Rei.
A maior parte das imagens que
tentam reproduzir o calor da Batalha
são apresentadas de lado, em hori-
zontalidade de direita para a esquer-
da (a maior parte) ou vice-versa. É o
que apresenta a clássica gravura de
Debrie de 1751, que abre o Livro Se-
gundo do Tomo IV, do livro de Diogo
Barbosa Machado, onde se vê à direi-
ta o Rei a cavalo, de espada erguida,
entusiasmando os seus cavaleiros a
atacarem os mouros que se aproxi-
“São dois os
estados das
imagens da
batalha, que
podemos agrupar
da seguinte forma:
um grupo reúne as
que acompanham
as descrições
da ordem da
batalha escritas
em primeira
mão (…) Todas as
outras imagens,
totalmente
interpretativas,
de Dom Sebastião (Luís Costa e Sou-
sa). São os manuscritos de um vete-
e de outro, diferenciados unicamen-
te pelas vestimentas e proteções da
podem organizar-
rano anónimo (fig. 1) e os diagramas cabeça, ou pelos estandartes, numa se num outro
impressos em obras posteriores que confusão de lanças, espadas, cimi-
mostram a posição dos Exércitos (fig. tarras, cavalos e soldados, de onde conjunto, segundo
2). Todas as outras imagens, total- emerge a figura de um cavaleiro, que
mente interpretativas, podem organi- presumidamente será o Rei portu- uma ordem lógica
zar-se num outro conjunto, segundo
uma ordem lógica da batalha: a luta,
guês. O conjunto pictórico centra-se
nessa suposta figuração, em atitudes
da Batalha: a luta,
o seu desfecho e a morte do Rei. Na de ímpeto e de fulgor guerreiro, para o seu desfecho e a
primeira sequência mostram-se os enfatizar a valentia do soberano. Ou-
combatentes guerreiros de um lado tras criações artísticas mostram o morte do Rei.”
56
DIVULGAÇÃO >>> ATUALIDADES
os fidalgos tangiam à noite enquanto Diogo Barbosa Machado, Memórias para a história d’el-rei D. Sebastião, Tomo IV,
esperavam pelo combate do dia se- 1751 (figura 3)
guinte, o que gerou o mito romântico
das dez mil guitarras espalhadas pelo
chão juncado de cadáveres depois da
tragédia, ao mesmo tempo que des-
taca a figura de Camões, não como
participante, mas como incentivador
do Rei para a jornada de África, “Vós,
novo temor da Maura lança, Maravi-
lha fatal da nossa idade”, escrito na
estrofe seis do Canto primeiro de
Os Lusíadas, que segura debaixo do
braço.
Porém, de todos os exemplos ci-
tados sobressai o quadro de Jorge
Colaço, de 1897, comprado à família
do pintor pelo Museu Militar. (fig. pela descrição de um movimento ex- ao mesmo tempo que representa to-
9) É aí que o podemos admirar des- traordinário, pintado de frente e já dos os aspetos que fizeram de Alcá-
de 2013, altura em que foi devolvido não em plano horizontal: os cascos cer Quibir um marco importante na
pelo Instituto dos Pupilos do Exérci- dos cavalos atropelam-nos, sente-se História, que ecoou por toda a Euro-
to, onde estava por empréstimo e de- a força da luta e damo-nos conta de pa: a derrota de cristãos do ocidente
pois do restauro que lhe devolveu a que a violência da cena nos vai inva- e a primeira vitória do mundo árabe
sua grandiosidade. dir e arrastar no seu furor. O quadro dos tempos modernos, cujo signifi-
Diferencia-se de todos os outros dá grandeza e ferocidade à Batalha, cado ainda hoje é celebrado a qua-
Alberto de Sousa, “Batalha de Alcácer Quibir”, Chagas Franco, João Soares, Quadros da História de Portugal, 1917. (figura 4)
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DIVULGAÇÃO >>> ATUALIDADES
tro de agosto, como marco histórico panhia de cinco ou seis cavaleiros de mento e à perceção da envolvência
importante na história de Marrocos. Tânger, porque os fidalgos e cavaleiros feroz da batalha.
Nele estão presentes o Rei português estavam tão acobardados que muitos De Dom Sebastião se disse já qua-
Dom Sebastião, o Xerife Mawlay Ah- deixavam os cavalos e abrigavam-se se tudo, quase tudo já se discutiu so-
mad al-Mansur, à esquerda um fra- sob as carruagens para se refrescar. bre a vida e a sua ação na História, já
de moribundo agarrado à Cruz de [...] Todavia, o rei combatia junto da tudo se insinuou sobre a pessoa, que
Cristo e o amontoado trágico dos batalha em companhia de dois ou três tem sido adulada, vilipendiada, exal-
corpos mortos, destino final de uma que lhe tinham ficado. E era tão gran- tada, incompreendida e até reinven-
Batalha feroz. Esta pintura de Jorge de o estrago, que só ele fazia nos inimi- tada. Mas por esta curta e rápida re-
Colaço reflete bem as palavras de Fr. gos, ferindo e matando, que diziam os senha exemplificativa e forçosamente
Luís Nieto, que o artista poderia ter mouros que era fogo do céu. escassa de alguns exemplos das cem
lido na descrição da Batalha em es- O único senão da criação de Jorge representações que recenseei, em um
panhol deixada manuscrita pelo do- Colaço é a representação figurada do conjunto de Imagens de D. Sebastião,
minicano, da qual foi testemunha e Rei que em todos os retratos conhe- que será publicado em breve, desco-
que só foi publicada em 1891: Mas o cidos usa cabelo curto e raso e não a brimos como é rica a temática que
rei de Portugal não deixava de fazer frondosa cabeleira loira ondulando tem como objetivo o Rei Desejado e
algumas arremetidas a, um lado e a ao vento do combate. Mas até esse como está bem presente ainda como
outro dos inimigos, apenas em com- pormenor inusitado ajuda ao movi- inspiração literária e figurativa. JE
Jorge Colaço, El Rey D. Sebastião em Alcasser Kebir, 1897, Museu Militar de Lisboa. (fotografia 9)
Coronel
Oficial de Ligação para Assuntos Culturais e Doutrinários do Exército Brasileiro
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VISÃO DA HISTÓRIA >>> CULTURA E LAZER
Conforme descrito na estrofe de Vista aérea recente, de norte para sul, do cume do Monte das Tabocas.
Camões que abre este artigo, o ideal Arquivo de Djalma Andrade
seria sempre buscar o conhecimento
militar por meio da recolha oportuna
de ensinamentos práticos no cam-
po de batalha. Em tempo de paz, na
(grata) impossibilidade de realizar
essa tarefa com as duras experiências
bélicas reais, entre outras possibilida-
des, os pesquisadores na área militar
não devem esquecer de outro campo
fecundo de ensinamentos doutriná-
rios: a História Militar.
Neste ponto, é sempre bom des-
tacar que grandes chefes militares,
como Napoleão Bonaparte, sempre
instigavam os seus principais Oficiais
a ler, e reler, os grandes clássicos mi-
litares em busca da exata noção dos
princípios imutáveis da guerra.
Assim sendo, um dos conflitos Guararapes (abril de 1648 e feverei- Contudo, tais vitórias não foram
militares de grande valor para o estu- ro de 1649) têm sido destacadas por concretizadas nem rápida, nem facil-
do da Arte da Guerra, num Ambiente historiadores militares, brasileiros e mente, tendo demandado uma longa
Operacional dentro do Brasil, são as portugueses, pela sua grande impor- preparação por parte dos patriotas
chamadas “Guerras Brasílicas”, ocor- tância para a vitória da Restauração portugueses empenhados, pelo me-
ridas entre 1624 e 1654. Nesse longo de Portugal (1640-1668), após a con- nos, desde 1645, na efetiva liberta-
conflito, entre outras, as Batalhas dos turbada União Ibérica (1580-1640). ção do Nordeste do Brasil do jugo
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VISÃO DA HISTÓRIA >>> CULTURA E LAZER
Esquema gráfico que demonstra os movimentos militares anteriores ao confronto de 3 de agosto de 1645.
bitantes locais. Tal estado de coisas nova incursão, desta feita na já referi- do Recife. Além disso, conseguiu
privou os invasores da possibilida- da Capitania de Pernambuco. manter vívida a reação local ao inva-
de de firmarem o domínio sobre a Para tal ofensiva, os holandeses sor, sobretudo por meio das chama-
Zona do Recôncavo, ou seja, as áreas organizaram uma força militar com das “Companhias de Emboscada” ou
de produção de alimentos para a 54 navios de guerra, entre 6200 e “Companhias de Assalto”.
subsistência nos arredores da então 7200 militares, com os quais desem- Como referido acima, essas uni-
cidade-fortaleza e capital do Brasil barcaram, sem muita resistência ini- dades de guerra irregular tiveram a
seiscentista. cial, na praia do Pau Amarelo (situa- sua origem imediata na defesa po-
Enfraquecidas pela resistência da a cerca de 16 quilómetros ao norte pular apresentada anteriormente em
montada pelos habitantes locais, as de Olinda) e, rapidamente, ocuparam Salvador, sendo novamente ativadas
forças holandesas mantiveram po- Olinda e, posteriormente, o porto do por Mathias de Albuquerque no fa-
sição enquanto puderam ser rea- Recife, mais a sul. moso Arraial Velho do Bom Jesus -
bastecidas por via marítima, o que Mais importante, sem perda de cujas fundações estão hoje situadas
permaneceu inalterado, até que uma tempo, e sem dúvida tentando evitar nos arredores do Recife – e que man-
forte armada de naus portuguesas, o impasse surgido na ocupação de tém em suspenso a vitória completa
espanholas e napolitanas, sob co- Salvador, as forças holandesas am- dos holandeses.
mando de Dom Fadrique de Toledo, pliaram a sua área de ocupação para Tais Companhias de Emboscadas,
proveniente da Europa nos primeiros o interior, buscando dominar a re- durante cerca de cinco anos, pese
meses de 1625, iniciou um bloqueio gião dos engenhos de açúcar (a cha- embora as suas limitações de efeti-
total a Salvador, forçando os holan- mada Zona da Mata) e garantir fon- vos e de meios, conseguiram manter
deses à rendição. tes de abastecimento alimentar para o invasor em constante sobressalto,
Apesar dessa derrota inicial, os as suas posições costeiras. impedindo o seu livre trânsito pelas
holandeses não desistiram, e finan- Apesar do sucesso inicial avas- estradas, atacando patrulhas, des-
ciados com recursos obtidos por salador, a resistência ibérica fez-se tacamentos e comboios inimigos,
meio de incursões corsárias contra os notar por meio de diversas ações do impedindo assim a pacificação do
transportes de prata espanhóis, na re- Mestre de Campo General (Tenente- território.
gião do Caribe, logo voltaram a ata- -General) de Pernambuco, Mathias Esses agrupamentos de milicia-
car. Em 1630, mais experimentada, de Albuquerque, com destaque para nos locais e portugueses, reforçados
e em maior número, a WIC tentou o incêndio dos depósitos de açúcar por indígenas e negros escravos (li-
Mapa ilustrado das antigas prefeituras holandesas de Pernambuco e Itamaracá, durante a ocupação holandesa do Nordeste do
Brasil (1630-1654). Ano de 1662.
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VISÃO DA HISTÓRIA >>> CULTURA E LAZER
seja, renques de bambu grossos, em atrito sobre a necessária coesão das lação, persistindo na subida monte
linhas sucessivas, com passagens li- linhas batavas. acima, com as suas linhas bastante
mitadas para o prosseguimento rumo Tanto Santiago como Jesus apon- desarticuladas, quando foram con-
ao topo. A primeira linha de tabocas taram que os patriotas fizeram uma tra-atacados pelos defensores, pro-
então distaria cerca de 1000 metros emboscada inicial na transposição do venientes do alto do monte. Estes
do curso do Rio Tapacurá, após uma curso de água, o que só tornou mais lançaram-se num decidido combate
campina, e segundo Santiago, acom- instintiva a reação dos holandeses ao corpo-a-corpo com a tropa holande-
panharia a trilha em aclive para o alto que se mostrou ser uma isca para as sa, já desequilibrada, que acabou por
do monte. emboscadas principais que transcor- recuar.
Passado este primeiro tabocal, reram mais adiante. É narrado que o destemido Coro-
depois de um descampado de menor Com isso, após o rio, e depois de nel Haus repetiu por mais três vezes
extensão, haveria um segundo ren- um provável dificultoso avanço pela o assalto inicial. Na quarta, e última,
que que ascendia quase ao topo do campina barrenta, quase na primeira tentativa, já no lusco-fusco (e tendo
monte. Por sinal, o cimo à época es- linha de tabocas, os atacantes foram sido o tempo inteiro fustigado por
tava com densa cobertura de árvores acometidos por sucessivas embosca- novas emboscadas) mesmo assim,
e, em sua orla, mais um renque dos já das, de variados pontos (provavel- quase tomou o cume. Contudo, nessa
citados tabocais. mente por uma mescla de fogos, fle- altura, a tropa estrangeira, com a mo-
No caminho para a presa, que chas e mesmo pedras). Tendo então ral abalada por insucessos contínuos
julgavam certa, os holandeses avan- reduzida capacidade de fogos, após ao longo da jornada, desmoralizou-
çaram meio que temerariamente, uma provável pausa para reajuste dos -se e começou a abandonar o campo
tendo, ao cruzar o rio caudaloso, seus dispositivos, os homens de Haus de batalha, cruzando de volta o rio
provavelmente diminuído considera- avançaram pelas poucas passagens para longe dos resolutos defensores.
velmente (por ação da humidade) a disponíveis na primeira linha de ta- Quando a noite caiu, os defen-
sua pretensa superioridade de fogos. bocais, rumo ao segundo descampa- sores mantiveram, e melhoraram, as
Além disso, com fardas e apetrechos do, já em aclive considerável. suas posições no campo de batalha,
molhados, o solo húmido e barrento A partir daí, os holandeses sofre- preparando-se para os eventuais no-
(pesado), devem ter sofrido a ação do ram novas emboscadas de desarticu- vos ataques que poderiam vir no dia
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VISÃO DA HISTÓRIA >>> CULTURA E LAZER
seguinte. Nesse ponto, João Fernan- Nordeste brasileiro, tendo ficado Voltando ao Monte das Tabocas,
des Vieira mandou patrulhas percor- restritos a algumas cidades e fortes no que toca às inovações táticas apre-
rerem os arredores de onde trans- litorais, com destaque para as locali- sentadas pelos patriotas no episó-
correra o centro da batalha, tendo os dades de Olinda, Recife e Itamaracá. dio pode-se dizer que elas surgiram
portugueses “achado 50 olandeses, Após as Batalhas dos Guararapes, tanto das circunstâncias (exército de
que davão guarda a mais de quatro- entre 1649 e 1654, as forças patriotas patriotas sem recursos) quanto da
centos feridos, que desmayados pella sitiaram o centro de gravidade po- natureza do ambiente operacional
falta de sangue, & pello trabalho da lítico holandês na região, ou seja, o (clima quente, húmido e coberto de
marcha, não poderão passar avante binómio Olinda-Recife, sufocando-o florestas, campinas e zonas alaga-
na conserva dos seus”. e privando-o de ser reabastecido de diças) que os envolvia. Além disso,
Com o raiar do dia, e com a con- víveres e outros insumos, salvo pelo aquele núcleo inicial de combatentes
firmação do abandono do campo pe- mar. aproveitou o melhor conhecimento
los holandeses, ficou patente a vitória Deste modo, surgiu um impasse, geográfico e a maior resistência dos
dos locais (idem), com o que, com o pois graças à hegemonia naval ho- seus elementos a um clima tropical
sucesso confirmado, os patriotas, se- landesa, no mesmo período, e sem do que o seu inimigo europeu (apesar
nhores do campo de batalha, captu- artilharia de sítio (pesada) não havia do apoio prestado por índios tapuias
raram grandes quantidades de mos- como as forças patriotas, sem arma- e potiguaras ao holandês).
quetes, arcabuzes, espadas, outros mentos e equipamentos adequados, Enquanto os holandeses, mais por
armamentos e, sobretudo, pólvoras e investirem nessas cidades fortifica- hábito que adestramento, combatiam
munições. das. Segundo Castro, isso perdu- quase que atavicamente, emassados
A partir deste e de outros reve- rou até que uma frota portuguesa no seu típico Batalhão seiscentista,
ses inesperados (com destaque para conseguiu cortar as comunicações os luso-brasileiros, até por conta da
o Combate da Casa Forte de Rita holandesas, levando à rendição do carência de armamentos de ponta,
Gomes), e até às Batalhas dos Gua- esquema defensivo montado pela foram forçados a combater em or-
rarapes, os holandeses praticamen- Companhia das Índias Ocidentais, na dem aberta. Era observação comum
te deixaram de atuar no interior do Campina do Taborda, em 1654. pelos holandeses que a tática patriota
Vista recente do Rio Tapacurá, a montante do local de travessia holandês, onde hoje existe um pequeno açude.
Imagem do Instituto Histórico e Geográfico de Vitória de Santo Antão.
era romper os "quadrados" holande- São Lourenço, distante pelo menos Em face do acima exposto, de
ses e, a partir daí, partir para a luta 20 quilómetros a nordeste do Monte forma bem resumida, cabendo até
corpo-a-corpo na qual a tropa local das Tabocas, tendo avançado, decidi- maiores aprofundamentos, é lícito
tinha grande vantagem - até mesmo damente, para esmagar os patriotas, dizer que foi o Monte das Tabocas o
pelo pouco equipamento em face das cujas posições estimavam estar no ponto de partida para o processo que
agruras do clima. chamado Engenho do Covas. Não os culminou nas chamadas Batalhas dos
Outra observação holandesa re- encontrando ali, foram atraídos para Guararapes (já no contexto do co-
veladora é que a artilharia holandesa a nova posição, distante cerca de 15 mando militar vitorioso de Francisco
quase sempre era inútil nas refregas, km mais adiante. Barreto de Menezes, o Conde do Rio
de menor ou maior escala (tornado- Dos variados relatos dessa Bata- Grande).
-se assim um estorvo), haja vista que lha podemos destacar alguns princí- É certo que a formação dessa força
as peças visavam molestar linhas de pios da guerra ali utilizados que, com militar efetiva, cujo cerne surgiu no
soldados em ordem cerrada, coisa ligeiras variações, também estarão Monte das Tabocas, baseou-se num
que raramente viam os patriotas fa- presentes, igualmente, nas 1.ª e 2.ª longo processo de aclimatação local
zer em campo aberto. Batalhas dos Guararapes, como por de uma estratégia tão antiga como a
Mais uma vez, é razoável presu- exemplo: surpresa, ofensiva, segu- guerra: a aproximação indireta. Esta,
mir que tal superioridade organiza- rança e unidade de comando. Além como é bem sabido da história mili-
cional, pese embora a penúria dos disso, os patriotas empregaram um tar, quase sempre foi o padrão histó-
patriotas, pode ter prestado um mau judicioso uso do terreno (para forçar rico de resposta a agressores externos
serviço ao invasor, ao menos naquele o combate), agressividade nas ações com grande capacidade militar frente
momento. Se não vejamos: segundo ofensivas, amplo emprego de opera- a defensores menos preparados.
Jesus, o tempo na época da batalha ções de inteligência e psicológicas, Logo, nos Guararapes consoli-
estava muito instável e chuvoso, com exploração das agruras do clima lo- dou-se uma doutrina autóctone, que
o que o caudal do Rio Tapacurá, nor- cal, sem esquecer da notável ação de traduziu para a geografia, o clima e a
malmente vadeável, estava bastante comando e capacidade de liderança personalidade dos locais os grandes
forte e elevado. Segundo consta, a evidenciadas pelos comandantes, em avanços doutrinários da chamada
tropa holandesa provinha da Vila de todos os níveis. “Guerra dos 30 anos”, na Europa. Por
70
VISÃO DA HISTÓRIA >>> CULTURA E LAZER
D
urante o exercício que levou a minha com- empenhados nos trabalhos de rotação das forças (chegada
panhia à zona de responsabilidade norte-a- de uma nova e partida da anterior).
mericana na Bósnia e Herzegovina, tivemos Uma das zonas de responsabilidade seria a cidade de
a oportunidade de assumir a responsabilidade de patru- Srebrenica, onde foi empenhado um dos nossos pelotões.
lhamento dos americanos, enquanto estes se encontravam Uma das secções desse pelotão iniciou uma patrulha con-
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TESTEMUNHO >>> CULTURA E LAZER
1
Portugalski – Português em Servo-Croata, mas em cirílico, dado estar-se em território sérvio da Bósnia, na Republika Sprska.
2
Figo, o famoso jogador de futebol e que fez mais pela diplomacia de Portugal no Mundo que o que conseguiria um Batalhão desenfreado de Ministros
dos Negócios Estrangeiros, Embaixadores, diplomatas.
3
Pivo! – Cerveja, em Servo-Croata.
Fotografias: Miguel Silva Machado
O livro A Palavra é uma Arma: Folhetos desses folhetos e sua influência na opi-
sobre as Invasões Napoleónicas aborda a nião pública portuguesa durante esse
publicação de folhetos em Portugal du- período histórico. A obra destaca a im-
rante as invasões napoleónicas, servin- portância desses folhetos como instru-
do como propaganda anti-napoleónica mentos de comunicação e mobilização
para fortalecer a resistência à ocupação da população contra a presença france-
francesa. O livro analisa o conteúdo sa em Portugal.
António Ventura e Mário J. Freire da Silva, A Palavra é uma Arma: Folhetos sobre
as Invasões Napoleónicas, Centro de História da Universidade de Lisboa; Biblioteca do
Exército, 2023
O Livro do Império
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LIVROS E REVISTAS >>> CULTURA E LAZER
J. Todd Reed e Diana Raschke, The ETIM: China's Islamic Militants and the Global Ter-
rorist Threat Bloomsbury Academic,, junho de 2010
TERREmag
78
O EXÉRCITO E O DESPORTO >>> DESPORTO E SAÚDE
Capitão de Medicina
Interno de Endocrinologia do Hospital das Forças Armadas
P
ortugal foi dos primeiros países do mundo a Esta disfunção tem geralmente início na juventude,
classificar a obesidade como doença, em 2004. com o estilo de vida cada vez mais sedentário e uma maior
Apesar deste reconhecimento, quase 70% da facilidade de acesso a alimentos de elevado teor calórico.
população portuguesa sofre de excesso de peso e obesidade Aliados a estes fatores estão um conjunto de vários genes
e principalmente do estigma associado a estas condições. que determinam a apetência do indivíduo para a ingestão,
Mas se as pessoas com hipertensão ou diabetes não são absorção e gasto calóricos.
consideradas culpadas das suas doenças porque o serão Se numa fase precoce é possível atuar na prevenção da
as pessoas com obesidade? E se mais de metade da popu- obesidade, com alterações do estilo de vida como a dieta
lação sofre desta doença porque continuamos a culpar o e o exercício, quando a doença se estabelece e o metabo-
indivíduo? lismo de torna disfuncional, estas medidas são frequente-
A obesidade é uma doença metabólica, de origem mul- mente insuficientes.
tifatorial, com grande componente genético e que se asso- Embora a restrição calórica ou o aumento do gasto
cia a mais de 200 outras patologias. energético sejam importantes e obtenham resultados a
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A OBESIDADE É UMA DOENÇA CRÓNICA >>> DESPORTO E SAÚDE
curto-médio prazo, o metabolismo disfuncional levará missão de outras comorbilidades associadas, como a dia-
ao reganho médio de 80% de peso ao fim de cinco anos, betes, a hipertensão ou a dislipidemia. Infelizmente con-
mesmo mantendo todas as medidas iniciais. Portanto, não tinuam a surgir obstáculos para que o tratamento seja
se trata apenas de “fechar a boca” e “fazer mais exercício” largamente difundido, como o elevado custo, a ausência
como frequentemente se aconselha a quem tem obesida- de comparticipação e a falta de disponibilidade nas farmá-
de. O reconhecimento desta doença destaca a necessidade cias como principais motivos.
de um tratamento dirigido. Para além de ser uma doença, a obesidade é crónica,
Inicialmente, os fármacos disponíveis para o trata- exigindo um tratamento contínuo para manter os resul-
mento da obesidade tinham pouca ou nenhuma eficácia, tados alcançados. Um acompanhamento multidisciplinar,
e o único tratamento realmente eficaz era a cirurgia ba- envolvendo endocrinologistas, nutricionistas e psicólogos,
riátrica/metabólica, um tratamento cirúrgico que visa a é essencial para abordar os diversos aspetos desta doença
reposição do normal metabolismo gastrointestinal. Mas o complexa e promover uma saúde sustentável a longo prazo.
cenário começou a mudar com a entrada no mercado dos Concluindo, torna-se fundamental reconhecer a obe-
agonistas GLP-1, inicialmente comercializados para con- sidade como uma doença crónica e abordá-la de forma
trolo da Diabetes mellitus. Este grupo de medicamentos abrangente, tanto em termos de prevenção como de tra-
demonstrou corrigir um componente importante da dis- tamento. A colaboração entre profissionais de saúde e a
função metabólica da obesidade, equilibrando o apetite, o disponibilidade de opções terapêuticas acessíveis são
esvaziamento gástrico e a absorção intestinal. essenciais para enfrentar este que é atualmente o maior
Estes fármacos demonstraram ótimos resultados no desafio de saúde pública mundial, de forma eficaz e com-
tratamento da obesidade, promovendo igualmente a re- preensiva. JE
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ACONTECIMENTOS
Comemorações dos
50 anos do 25 de abril
No âmbito das comemorações dos 50
anos do 25 de Abril de 1974, o Exército
Português associou-se à Comunidade
Civil, de norte a sul do continente e nas
regiões autónomas, em inúmeras ati-
vidades envolvendo as suas Unidades,
designadamente através da participação
em cerimónias militares, em atos sole-
nes, em concertos musicais, em exposi-
ções, no lançamento de obras literárias,
em seminários, em conferências, em
palestras, em recriações históricas, e em
desfiles, entre outras iniciativas que assi-
nalaram esta data histórica.
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ACONTECIMENTOS
Major de Artilharia
reconhecido pela Ordem dos
Engenheiros
O Major de Artilharia Tiago Castro, a prestar serviço
no Centro de Informação Geoespacial do Exército,
foi o vencedor do Prémio de Excelência do Colégio
de Engenharia Geográfica, em reconhecimento ao
seu notável desempenho no Mestrado em Engenharia
Geoespacial, realizado na Faculdade de Ciências da
Universidade de Lisboa. A cerimónia decorreu na sede
da Ordem dos Engenheiros - Região Sul, onde foram
atribuídos prémios aos estudantes de 12 especialidades
de Engenharia que se destacaram com a nota mais alta
nos seus cursos de licenciatura e mestrado/mestrado
integrado.
86
ACONTECIMENTOS