Legislação Educacional Brasileira: Hierarquia e Impactos
Legislação Educacional Brasileira: Hierarquia e Impactos
A legislação educacional no
Brasil Colônia
Desde que os jesuítas chegaram ao Brasil, já iniciaram suas
práticas educativas. Eles possuíam como principal objetivo
disseminar e preservar a cultura portuguesa e religiosa, que
era católica. O jesuíta Inácio de Loyola foi o fundador da
Ordem dos Jesuítas.
Com os primeiros colégios jesuíticos, uma pedagogia
religiosa foi sendo implantada. Mesmo com todas as disputas
diárias pela posse dos territórios, a educação e catequização
organizada pelos jesuítas impactaram os conflitos sociais e
contribuíram com a doutrinação dos escravos, mediante
ameaças de castigos divinos, promessas de obtenção de
indulgências plenárias e vida celestial. A religião e a
educação influenciaram não apenas a escola, mas a moral, a
ética, os direitos e os deveres do homem colonial. Tratou-se
de uma educação e religião que doutrinou e castigou em
nome da fé, em espaços públicos e privados.
O processo educacional colonial desenhou-se com modelos
educacionais diferentes. De um lado, uma educação formal,
longa e diversificada para ingressar no sacerdócio, nas
fileiras das ordens religiosas ou complementar os estudos
em Portugal. Esse tipo de educação era destinado aos
portugueses e seus descendentes, ministrada nos colégios,
nos seminários e na Universidade de Coimbra. De outro lado,
uma educação para a prática dos serviços subalternos e para
cumprir os deveres para com Deus, para com o Estado e
para com os senhores. Esse modelo educacional, por sua
vez, estava destinado aos índios, negros, mestiços e cristãos
novos, a maioria da população, ministrada nas missões, nos
engenhos e nas igrejas.
Logo, o plano normativo e as regras apareceram por meio
das constituições eclesiásticas e do conceito de “direito
divino”, porém com uma concepção de justiça diferenciada,
entre senhor e escravo, com justificativas legais, políticas e
espirituais.
As primeiras regras normativas educacionais foram as
Constituições da Companhia de Jesus (1547-1551) e a Ratio
Atque Institutio Studiorum Societatis Iesu (1548-1599).
A redação das Constituições da Companhia de Jesus foi
realizada por Inácio de Loyola. Fundamentadas nos
“exercícios espirituais”, as constituições tratam da educação
escolar e das instituições educativas a fim de assegurar
uniformidade devido ao acelerado crescimento da Ordem e
atender às exigências culturais específicas dos locais onde
os colégios foram instalados, com base nas primeiras
experiências pedagógicas e dos estatutos portugueses já
existentes (CASIMIRO, 2007).
Por esta expressão, exercícios espirituais, entende-se
qualquer modo de examinar a consciência, de meditar,
contemplar, orar vocal ou mentalmente, e outras atividades
espirituais [...] porque, assim como passear, caminhar,
correr são exercícios corporais, também se chamam
Exercícios Espirituais os diferentes modos de a pessoa se
preparar e dispor para tirar de si todas as afeições
desordenadas, e, afastando-as, procurar e encontrar a
vontade de Deus, na disposição da própria vida para o bem
da mesma pessoa (KLEIN, 1997, p. 26 apud CASIMIRO, 2007,
p. 92, grifo do autor).
A Ratio Studiorum representou a versão final das
constituições, ou seja, da missão da Companhia de Jesus
fundada por Inácio de Loyola. Esse documento é o conjunto
de normas pedagógicas, com seiscentas regras, que vão
permitir a prática educativa, religiosa e missionária. Esse
material tratou de forma mais específica as razões da
educação na concepção da Companhia de Jesus e influenciou
a educação escolar e a pedagogia em muitos lugares do
mundo. Não trouxe uma concepção pedagógica, no sentido
de uma sistematização educacional completa, mas
aconselha um ordenamento para as atividades, funções,
metodologias e modos de avaliação na Companhia de Jesus.
Dentre as mais importantes inovações da Ratio, há que se
destacar o planejamento do ensino por metas e objetivos e a
avaliação constante, que se tornaram fatores básicos da
educação moderna (CASIMIRO, 2007). A Companhia de Jesus
é expulsa apenas em 1759 e é obrigada a sair do Brasil em
1760, com a política pombalina. Em meados do século XVII,
com Portugal em crise econômica e política, o então rei de
Portugal, D. José I, nomeou Sebastião José de Carvalho e
Melo, o Marquês de Pombal, como seu ministro. Pombal
tinha como missão recuperar a economia e modernizar a
cultura portuguesa, por meio do que se denominou como
Reformas Pombalinas. “A ideia de pôr o reinado português
em condições econômicas tais que lhe permitissem competir
com as nações estrangeiras era talvez a mais forte razão das
reformas pombalinas.” (SECO; AMARAL, 2006, p. 3)
A reforma educacional pombalina tirou o comando da
educação das mãos dos jesuítas e passou para as mãos do
Estado, substituindo o único sistema de ensino existente no
país, que era a proposta pedagógica jesuítica. As reformas
pombalinas iniciaram com o Alvará Régio de 28 de junho de
1759, acabando com as escolas jesuíticas de Portugal e de
todas as colônias e criando as aulas régias ou avulsas de
Latim, Grego, Filosofia e Retórica (primeira experiência de
ensino promovida pelo Estado na história brasileira); foi
idealizada a figura do “Diretor Geral dos Estudos” (para
uniformizar a educação na Colônia, fiscalizar a ação dos
professores e do material didático, evitando afrontas às
determinações da Coroa). Em 1767, é criada a Real Mesa
Censória, que assume a administração e direção dos estudos
das escolas menores de Portugal e suas colônias, e, em
1772, os estudos menores ganharam amplitude e
penetração com a instituição do chamado “subsídio literário”
para a manutenção dos ensinos primário e secundário.
Subsídio literário: imposto que, além do pagamento dos
ordenados aos professores, para o qual ele foi instituído,
poderia ainda obter as seguintes aplicações: 1) compra de
livros para a constituição da biblioteca pública, subordinada
à Real Mesa Censória; 2) organização de um museu de
variedades; 3) construção de um gabinete de física
experimental; 4) ampliação dos estabelecimentos e
incentivos aos professores, dentre outras aplicações
(CARVALHO, 1978, p. 128).
Um novo sistema educacional é implantado, pior que o
anterior, devido às precárias condições de trabalho dos
professores, de um ensino fragmentado e da falta de um
currículo regular. Além disso, há continuidade na
escolarização baseada na formação clássica, ornamental e
“europeizante” dos jesuítas.
“A preocupação básica era de formar o perfeito nobre,
simplificando os estudos, abreviando o tempo do
aprendizado de latim, facilitando os estudos para o
ingresso nos cursos superiores, além de propiciar o
aprimoramento da língua portuguesa, diversificar o
conteúdo, incluir a natureza científica e torná-los mais
práticos.” (SECO; AMARAL, 2006, p. 8)
A legislação educacional no
Brasil Imperial
O Estado Imperial no Brasil começou a se desenhar em 1808,
com a transmissão da família real portuguesa para cá. O
ensino nesse período continuou com resquícios do período
colonial, atendendo prioritariamente as classes dominantes,
sem nenhum compromisso com as classes populares.
A situação da instrução pública e particular, nas Províncias
do Império, passava pelos seguintes problemas: o número de
escolas existentes em todo o Império não satisfazia às
necessidades de ensino para a população; as escolas
funcionavam, na sua grande maioria, em casas alugadas,
mal situadas, sem condições higiênicas e pedagógicas; não
se admitia a coeducação dos sexos; o período de
escolaridade formal iniciava apenas a partir dos sete anos; a
frequência nas escolas era muito pequena; os professores
não possuíam as necessárias habilitações para lecionar no
magistério primário, nem vencimentos dignos; muitas
disciplinas indispensáveis deixaram de ser ensinadas, como a
educação física, intelectual e moral dos alunos; e, a
intolerância religiosa fechou as escolas aos não católicos.
A partir de 1822, com a Declaração da Independência do
Brasil, novas questões e preocupações surgem para a
organização do Estado brasileiro. A elite dirigente do país
tinha algumas prioridades, que eram enfrentar lutas
armadas, tanto internas quanto externas, atreladas à
consolidação do Estado nacional. A educação fica totalmente
de lado, como é possível perceber na Carta Constitucional de
1824, outorgada por D. Pedro I, que tratou da questão do
ensino apenas no Art. 179, limitando-se a estabelecer a
gratuidade da instrução primária a todos os cidadãos. Em
1827, em forma de lei, a criação de escolas de primeiras
letras passa a ser orientada em todas as cidades, vilas e
lugares populosos do Império, o que, na prática, não se
efetivou.
Por meio do Ato Adicional, de 6 de agosto de 1834, houve um
processo de “descentralização” das responsabilidades com a
escola pública, já naquela época. O Ato instituiu as
Assembleias Legislativas provinciais com o poder de elaborar
o seu próprio regimento, o qual deveria estar de acordo com
as imposições gerais do Estado, repassando ao poder local o
direito de criar estabelecimentos próprios, além de
regulamentar e promover a educação primária e secundária.
E, bem ou mal, foi por meio da descentralização instituída
por meio desse Ato Adicional que, em 1835, foi criada a
primeira Escola Normal do país, em Niterói, para atender à
demanda de docentes. Em seguida, outras Escolas Normais
foram criadas: em 1836 a da Bahia, em 1845 a do Ceará e,
em 1846, a de São Paulo.
De forma geral, no período imperial, a escola pública foi
negligenciada, com pouco (ou nenhum) investimento e
atenção por parte do governo, e seus problemas se
agravaram. Em 1885, algumas modificações aconteceram
por meio do Plano Geral de Reforma, que deu atenção
especial aos aspectos da fiscalização do ensino e, além disso,
determinava que os alunos não católicos pudessem
frequentar as escolas públicas, sendo tolerada a liberdade
individual e de culto.
A legislação educacional no
Período Republicano
A República, inaugurada em 1889, é consolidada pela
Constituição, adotando o regime presidencialista e
representativo, com opção pelo sistema federativo. O
modelo de Estado era oligárquico, em que o poder
vinculou-se à oligarquia cafeeira da região Sudeste do
Brasil.
A Constituição Republicana trouxe a permissão do
funcionamento de classes mistas; definiu que cada estado
organizaria sua educação, mantendo como base um
regime democrático sendo o ensino, público é leigo; o
Estado com a responsabilidade de manter e legislar sobre
a instrução pública; defendeu a liberdade de culto, a
coeducação dos sexos, a laicidade e a gratuidade; a
duração do curso primário e secundário de oito anos.
Porém, por contrariar os interesses das classes
dominantes, as reformas não produziram os resultados
esperados; nenhum conceito ou ideia pedagógica foi criado
nesse período e o sistema educacional continuava a ser
orientado pelas ideias das escolas jesuíticas. Somente o
ensino superior teve uma atenção maior por parte do
Governo e, portanto, recebeu incentivos para o seu
desenvolvimento.
A organização dos dois sistemas escolares permanece. A
dualidade do ensino, com origens no Brasil Colônia, foi
ganhando força!
[...] a dualidade de sistema que deu lugar ao regime de
descentralização, o sistema federal constituído do ensino
secundário e superior, e os estaduais com possibilidades
de instruírem escolas de todos os graus e tipos, não se
manteve e acentuou a linha de demarcação entre as
profissões liberais e as atividades manuais e mecânicas,
como também facilitou reprodução, pelos estados, da
organização escolar tradicional [...] (AZEVEDO, 1976,
130).
Ditadura Militar
O golpe militar se efetivou em 1º de abril de 1964 e deu
início à implantação da ditadura militar no Brasil, com
duração entre 1964 e 1985. Esse Estado iniciou com a
aliança política entre os militares, as empresas norte-
americanas e os tecnoburocratas, apoiados pela tradicional
classe dos latifundiários.
A partir dessa aliança política, são realizados os acordos
MEC-USAID – acordos entre o Ministério da Educação (MEC),
do Brasil, e a Agência dos Estados Unidos para o
Desenvolvimento Internacional (United States Agency for
International Development – USAID), dos Estados Unidos.
Esses acordos, assinados e executados principalmente entre
1964-1968, mas que se estenderam até 1976, embasaram
as reformas educacionais que aconteceram no período da
ditadura militar.
A compreensão sobre os acordos MEC-USAID é fundamental
para entender o sistema e a legislação educacional no
período da ditadura militar.
“Os [acordos] MEC-USAID inseriram-se num contexto
histórico fortemente marcado pelo tecnicismo
educacional da teoria do capital humano, isto é, pela
concepção de educação como pressuposto do
desenvolvimento econômico. Nesse contexto, a ‘ajuda
externa’ para a educação tinha por objetivo fornecer as
diretrizes políticas e técnicas para uma reorientação do
sistema educacional brasileiro, à luz das necessidades
do desenvolvimento capitalista internacional. Os
técnicos norte-americanos que aqui desembarcaram,
muito mais do que preocupados com a educação
brasileira, estavam ocupados em garantir a adequação
de tal sistema de ensino aos desígnios da economia
internacional, sobretudo aos interesses das grandes
corporações norte-americanas. Na prática, os MEC-
USAID não significaram mudanças diretas na política
educacional, mas tiveram influência decisiva nas
formulações e orientações que, posteriormente,
conduziram o processo de reforma da educação
brasileira na Ditadura Militar.” (MINTO, 2006, p. 58)
A Lei 4.440/1964 institucionalizou o salário-educação, que
regulamentou a contribuição das empresas industriais e
agrícolas com mais de 100 trabalhadores, obrigando-as a
manter o ensino primário para seus empregados e seus
filhos ou transferindo uma taxa dos impostos ao governo.
Elas só seriam isentas caso estabelecessem convênios com
escolas particulares por meio do “sistema de bolsas”. Os
recursos do salário-educação eram distribuídos da seguinte
forma: 50% eram destinados aos governos das Unidades da
Federação para o desenvolvimento do Ensino Fundamental e
50% controlados pela União, por meio do Fundo Nacional de
Desenvolvimento da Educação (FNDE), para serem aplicados
nas unidades federativas menos privilegiadas.
Nesse período, muitas foram as facilidades, por meio de leis,
para as escolas particulares, como a Lei 4.917 de 17 de
dezembro de 1965.
Os acontecimentos de destaque no período foram:
1966: organização do Projeto Rondon a partir do I
Seminário de Educação e Segurança Nacional.
1966: organização da Confederação Nacional de
Educação (CNE).
orientações a partir do Plano Decenal de Educação
da Aliança para o Progresso (prestação de contas
sobre os avanços educacionais exigidos por órgãos
liderados pelos Estados Unidos, como o Conselho
Interamericano Econômico e Social –CIES).
Lei 5.370/1967: criação do Mobral, para erradicar o
analfabetismo no Brasil em dez anos, com foco na
faixa etária dos 15 aos 35 anos de idade.
Plano de Desenvolvimento Educacional (PDE) com
vigência entre 1967 e 1976. A teoria do capital
humano e a conceituação econômica da educação
eram os fundamentos para acelerar o processo de
desenvolvimento educacional.
fim da vinculação constitucional de recursos para a
educação (Legislação de Ensino – Constituição
Federal).
Decreto 60.897/1967 (programa de expansão e
melhoramento do ensino técnico industrial). O
governo lança mão de empréstimo externo para a
expansão do ensino técnico.
política educacional visava à formação técnico-
profissional do ensino médio e aumentar vagas no
ensino superior para capacitar pessoas com foco
no desenvolvimento do país.
Decreto 869/1968, pela Associação dos
Diplomados da Escola Superior de Guerra,
determina a disciplina Educação Moral e Cívica
como obrigatória aos currículos escolares de todos
os níveis e os Estudos de Problemas Brasileiros
para o Ensino Superior.
Lei 5.537/1968: cria o Fundo Nacional de
Desenvolvimento Educacional (FNDE).
Lei 5.540/1968: Reforma Universitária
(racionalização administrativo-pedagógica).
Decreto 477/1969: um dos mais importantes
instrumentos de repressão, atribuiu às autoridades
universitárias e educacionais do Ministério da
Educação e Cultura (MEC) o poder de, em caso de
atitudes consideradas subversivas pela ditadura
militar, suspender estudantes por até três anos,
expulsar e impedir matrícula durante cinco anos e
demissão de funcionários e professores,
impedindo-os de trabalhar no ensino superior por
cinco anos.
Lei 5.692/1971: regulamentou o ensino de primeiro
e segundo graus e ampliou a obrigatoriedade
escolar de quatro para oito anos, juntando o antigo
primário com o ginasial, acabando com o exame
de admissão e criando a escola única
profissionalizante. Reforma do ciclo médio de
profissionalização compulsória e generalizada de
todos os alunos.
Parecer 2.018/1974: o Conselho Federal de
Educação (CFE) instituiu normas e procedimentos
que regulamentam a implantação dos programas
dirigidos às populações de educação pré-escolar,
além de recomendar que fossem buscadas novas
fontes de recursos financeiros para subvencionar a
educação pré-escolar.
O CFE, por meio do Parecer 1.600, recomendou a
necessidade de habilitação ao nível de 2º grau
para os professores que atuassem na pré-escola.
Plano Quinquenal (1975-1979): o objetivo principal
era atingir 100% de escolarização da faixa etária
de 7 a 14 anos até 1980: expandir a oferta de
vagas do ensino médio e superior; capacitar
recursos humanos para incrementar a
produtividade do ensino; reformular o currículo nos
três níveis de ensino; promover a interação de
escola e comunidade; implantar e expandir as
universidades; eliminar gradativamente o
analfabetismo de adolescentes e adultos; prestar
assistência técnica e financeira às instituições
particulares de ensino, visando à expansão
quantitativa e melhoria do ensino.
1976: o CFE determinou, por meio da Resolução
58, a inclusão obrigatória de Língua Estrangeira
Moderna, no currículo de 2º grau,
predominantemente a língua inglesa.
1982: por meio da Lei 7.044/1982, aconteceu a
reformulação da Lei 5.692/1971, com mudanças na
proposta curricular e dispensando as escolas da
obrigatoriedade da profissionalização.
Toda a política educacional nesse período esteve ligada ao
ajuste ideológico necessário às metas da ditadura militar
que promoveu a democratização do acesso à educação no
Brasil, porém com concepções voltadas aos interesses do
mercado e de estímulo e favorecimento à privatização do
ensino.
Décadas de 80 e 90
Entre 1983-1984, o Brasil organizou-se em torno de um dos
maiores movimentos de massa da história do país, as
“Diretas Já”.
Em 1985, terminou o período ditatorial. A organização de
diferentes movimentos sociais, lutando pela
redemocratização do país e reivindicando o retorno de um
Estado de direito, certamente contribuiu para a elaboração
de uma nova Constituição Federal, a de 1988.
Na educação, dois destaques são fundamentais quando
olhamos para a década de 1980: a educação para a
democracia e a educação para a cidadania.
A década de 1990 inicia com mudanças significativas em
função da abertura do mercado, o fenômeno chamado
globalização, inovações tecnológicas, enfim, novas
exigências sobre os indivíduos. A escola é convocada pelos
governos, organismos internacionais e empresários para
promover uma educação de qualidade para todos.
Novamente, o que determina a educação é o Estado e o
Mercado. Esses conceitos serão discutidos na próxima
seção de estudo.
É durante essa década que a segunda Lei de Diretrizes e
Bases n. 9.394/1996 é discutida e aprovada, buscando
conciliar as reivindicações de movimentos sociais populares
e de educadores, que buscavam uma educação
democrática e cidadã, e os interesses políticos e
econômicos das classes dominantes, que buscavam uma
formação educacional que atendesse às novas exigências
do mercado, nacional e internacional.
Século XXI
As transformações ocorridas na década de 1990
impactaram diretamente a situação educacional do país nos
anos 2000, ou seja, o início do século XXI.
Na educação, podemos citar o Plano Nacional de Educação
(2001-2010), institucionalizado na LDB; as avaliações
externas dos sistemas educacionais; a descentralização das
responsabilidades com a educação entre os entes
federativos e a sociedade civil; a gestão democrática; entre
outros.
A educação na Constituição Brasileira de 1988 e na LDB
9.394/1996 discutiremos de forma mais aprofundada na
próxima unidade de ensino. De qualquer forma, é
importante destacar a importância das duas leis para a
educação brasileira.
Até o momento, é possível identificar um percurso histórico
da legislação educacional intenso, porém com muitas
descontinuidades entre um governo e outro. Além disso,
poucos foram os avanços significativos com foco em uma
educação de qualidade para emancipação dos indivíduos.
Temos, ainda, caminhando com o dualismo educacional,
presente desde o período colonial, ou seja, a educação
sempre foi diferenciada entre os trabalhadores e os “donos
do poder” (classes capitalistas).
Saviani (2008) destaca que uma característica estrutural da
política educacional brasileira é a descontinuidade das
políticas. As reformas se apresentam num movimento que
pode ser reconhecido pelas metáforas do zigue-zague ou do
pêndulo. A metáfora do zigue-zague indica o sentido
tortuoso, sinuoso das variações e alterações sucessivas
observadas nas reformas; o movimento pendular mostra o
vaivém de dois temas que se alternam sequencialmente
nas medidas reformadoras da estrutura educacional.
Conclusão
A legislação educacional pode ser considerada como uma
fonte histórica imprescindível para compreender a educação
brasileira? Essa fonte deve ser olhada e estudada
observando os seus conteúdos, as informações,
interpretando os conflitos e identificando os diferentes
pontos de vista?
É estudando e compreendendo toda a história da educação,
incluindo as políticas, a legislação e as práticas, que é
possível entender o que acontece no presente, assim como
as tentativas que já foram feitas em determinados
momentos históricos.
Porém, é possível interpretar a legislação sem compreender
o contexto político, social e econômico? Com certeza, não.
Vimos, durante a retrospectiva desta seção, como a
educação sempre esteve associada e foi utilizada para
atender a interesses políticos e econômicos de alguns
setores sociais.
Observando a história, percebemos que, infelizmente, pouco
avançamos em relação a uma mudança de concepções, de
olhar a educação de outra perspectiva. Portanto, conhecer a
legislação, sua história, seus limites, avanços e perspectivas,
faz do pedagogo um profissional consciente, crítico e capaz
de promover mudanças significativas na sua atuação.
Neoliberalismo e a expansão
educacional na América Latina
“Durante o Consenso de Washington, conferência do
International Institute for Economy (IEE), realizada na capital
americana, em novembro 1989, funcionários do governo dos
EUA, dos organismos internacionais e economistas latino-
americanos discutiram um conjunto de reformas essenciais
para que a América Latina superasse a crise econômica e
retomasse o caminho do crescimento. Formou-se a ideia
hegemônica de que o Estado – sobretudo nos países
periféricos – deveria focar sua atuação nas relações
exteriores e na regulação financeira, com base em critérios
negociados diretamente com o Fundo Monetário
Internacional (FMI) eo Banco Mundial.” (YANAGUITA, 2011, p.
2)
O neoliberalismo é uma ordem social que se refere à
redefinição do liberalismo clássico, influenciado pelas teorias
econômicas neoclássicas. De maneira bem geral, podemos
dizer que seus princípios básicos são os do Estado mínimo,
privatização, livre circulação do capital, abertura da
economia, ênfase na globalização e princípios econômicos
do capitalismo (como a produção de mais-valia).
É na América Latina que o neoliberalismo se desenvolveu de
forma mais intensa, alterando de forma significativa os
investimentos públicos em áreas como a saúde, a educação
e a segurança social, reorientado para a criação de
condições de investimento e de garantias aos investimentos
privados. Os investimentos na educação não diminuíram,
mas foram reorientados, a partir de novas políticas
educacionais, provocando o enfraquecimento da escola
pública latino-americana (GENTILI, 2006).
A América Latina é composta por 20 países: Argentina,
Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, El
Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua,
Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e
Venezuela.
Os impactos da década de 90 na
educação brasileira
Na década de 1990, as reformas educacionais estavam
pautadas em orientações dos organismos multilaterais para
formar um trabalhador que dominasse os conhecimentos e
habilidades exigidos na sociedade moderna. O trabalhador,
nesse contexto, precisa adaptar-se a uma nova realidade
econômica e social e à nova dinâmica da organização e
produção do trabalho, que exige domínio de habilidades e
conhecimentos diferenciados (PINTO, 2011).
Nesse sentido, vários conceitos passam a ser incorporados
nos documentos educacionais, como: autonomia,
individualidade, descentralização, competências,
empregabilidade, eficiência, eficácia, entre outros.
Os conceitos de eficiência e eficácia são do campo da
administração, derivados da teoria da qualidade total.
Eficiência significa fazer certo as coisas.
Eficácia significa fazer as coisas certas.
Assim, cumprir uma tarefa na sua totalidade faz com que
um indivíduo seja eficaz, ou seja, cumpriu e executou algo
de acordo com o esperado. Porém, se alguns aspectos
deixam a desejar ou porventura houve algum contratempo,
o indivíduo não foi eficiente.
A autonomia, difundida pelas políticas de cunho neoliberal,
referia-se à necessidade de um trabalhador capaz de tomar
iniciativas e não apenas de um cumpridor de ordens e
executor de tarefas. Porém, na prática, o que se identificou
foi a responsabilização do indivíduo no desenvolvimento de
posturas garantidoras da eficácia e da eficiência. O indivíduo
passa a ser responsável pelo seu sucesso e fracasso,
precisando adquirir capacidade adaptativa. Mesmo com um
discurso de coletividade, o que passou a ser valorizado
foram as competências individuais, aumentando a
competição entre os indivíduos. O projeto educacional da
capital apresentou-se com concepções de pragmatismo,
tecnicista e economicista.
Um importante acontecimento que influenciou de forma
intensa as políticas educacionais dos países com as maiores
taxas de analfabetismo na década de 1990, foi a
Conferência Mundial de Educação para Todos – Financiada
pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a
Ciência e a Cultura, Fundo das Nações Unidas para a
Infância, Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento e, destaque-se, pelo Banco Mundial –,
realizada em Jomtien (Tailândia) em 1990.
Nesse encontro, os países se comprometeram a assegurar
uma educação básica e de qualidade a crianças, jovens e
adultos. A princípio, não parece haver nada de errado com
esse compromisso. Entretanto, é necessário explicitar que a
motivação que o sustentou relaciona-se com pressões para
que os países garantam a elevação dos níveis instrucionais
de suas populações, de modo a favorecer as relações com o
trabalho: o trabalhador mais qualificado ou menos
desqualificado de que as empresas multinacionais
necessitavam (PINTO, 2011).
Dito de outro modo, a difusão dos novos conhecimentos e
habilidades exigidos pela sociedade moderna deveria ser
realizada pela escola, preparando os indivíduos para as
novas formas de organização do trabalho e necessidade de
produção.
Ao longo da década de 1990, outros organismos
multilaterais irão reiterar as recomendações de reformas
educacionais atendendo às exigências da nova economia e
organização do trabalho. Um exemplo é a UNESCO – criada
pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1948, com o
objetivo de coordenar as políticas de desenvolvimento dos
países da América Latina – que convoca especialistas do
mundo inteiro para compor a Comissão Internacional sobre
Educação para o século XXI, coordenada por Jacques Delors.
O objetivo dessa comissão foi preparar trabalhadores para
empregos existentes e desenvolver capacidade de
adaptação a empregos inimagináveis (SHIROMA, 2000).
Nesse artigo, você poderá ampliar seus estudos com relação
às reformas educacionais latino-americanas nos anos de
1990. O autor faz uma discussão, mostrando como a
educação mais tem servido aos interesses da acumulação
do capital e pouco tem proporcionado a emancipação
humana.
Conclusão
Durante o estudo, foi possível conhecer e refletir sobre as
políticas neoliberais que ganham força e orientam as
políticas educacionais da América Latina, a partir de uma
reestruturação do sistema capitalista mundial que entra em
crise, no final da década de 1970 e durante toda a década
de 1980, guardando as devidas especificidades políticas e
econômicas de cada país.
As políticas educacionais e sociais que, no discurso
neoliberal, eram defendidas como recurso para acabar com
o analfabetismo, trazer qualidade, eficiência e eficácia à
educação na educação básica para promover maior/melhor
educação aos indivíduos, promoveram, na verdade, uma
expansão da oferta de uma educação sucateada, com
condições precárias de escolarização, professores
desvalorizados, mal pagos, uma educação mínima para um
indivíduo que precisava apenas atender às exigências de
produção do capital.
Confirmando essa análise, Demo (2008, p. 5) afirma que “as
habilidades do século XXI não nos tornam,
necessariamente, ”mais hábeis” para nós mesmos, mas
mais “bem encaixados” no ritmo da produtividade
neoliberal”.
Na prática (AULA 4)
Profissionais de Pedagogia e a
educação nacional
A LDB n. 9.394/1996 contempla no Título II os Princípios e
Fins da Educação Nacional. No artigo 2º, consta que: “A
educação, dever da família e do Estado, inspirada nos
princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade
humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do
educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua
qualificação para o trabalho”.
Para responder a essa indagação, é necessário colocar-se
no papel de alguém que se formou em Pedagogia que,
atuando como docente, na área de coordenação ou gestão,
deve compreender que a educação não é responsabilidade
apenas da escola, mas também da família e do Estado e
que, juntos, devem garantir os princípios de liberdade (de
expressão, de opinião, entre outros), de solidariedade
humana (o respeito ao próximo, a tolerância, a convivência
com as diferenças, entre outros), prezando pelo
desenvolvimento pleno do educando (todas as suas
aprendizagens, cultura, entre outros, devem ser
considerados para o desenvolvimento do indivíduo), o
exercício da cidadania (conhecer seus direitos e deveres,
atuando de forma consciente e crítica enquanto cidadão)
e, também, preparar os indivíduos para o trabalho
(identificar as necessidades de conhecimentos e
habilidades para atuar nos novos mercados e com as
novas organizações de trabalho).
As políticas educacionais
a análise da intervenção do Banco Mundial nas políticas
educacionais brasileiras evidencia a expansão das políticas
mais convenientes aos interesses do capital. Essas políticas
contam com o apoio decisivo dos governos e das elites
nacionais que viabilizem sua inserção e operacionalização,
conforme as orientações das agências que monitoram, por
meio do mecanismo das condicionalidades, as metas
acertadas nos ditos acordos de cooperação internacional.
Nesse sentido, a propalada “cooperação” consiste, de fato,
em estratégia de expansão das políticas e interesses do
capital internacional, sendo que a educação, nessa
perspectiva, restringe-se ao papel de reproduzir a força de
trabalho para o capital, formar ideologicamente conforme
os interesses do mesmo e servir como segmento do
mercado a ser explorado comercialmente pelo setor
privado.” (LOPES, 2008, p. 89).Ao ler o texto acima, que
aborda as políticas educacionais com viés neoliberal
o Dentre os impactos negativos das políticas neoliberais para
a educação, podemos destacar a formação de um sistema
educacional voltado para atender ao mercado, à
competitividade e às necessidades pontuais das
organizações empresariais de cada momento político e
econômico e, deixando para segundo plano, a formação e
construção dos indivíduos em cidadãos emancipados e
livres.