DEPÓSITO MERCANTIL
De forma introdutória a este tema importa primeiramente referir que
o mesmo se encontra previsto entre os artigos 403º a 407º do Código
Comercial , mais concretamente no título XIII do livro II , tendo
sempre aqui em conta a relevância das normas gerais que se
encontram determinadas entre os artigos 1185º e 1206º do Código
Civil , normas estas que o regime do Código Comercial vai aplicar
subsidiariamente.
O contrato de depósito (regime do código civil)
O depósito encontra-se nos artigos 1185º e seguintes do Código civil.
(ler o artigo) , ou seja , o contrato de depósito consiste ,
basicamente , na guarda ou custódia de uma coisa , sendo para esse
efeito que o depositante a entrega ao depositário , o qual se obriga a
restituir a mesma quando este lha exigir.
O depósito não é sujeito a qualquer forma especial.
Obrigações do depositante
O depositante tem as obrigações de pagar a retribuição (regulada
pelo art.1200ºcc) quando a mesma seja devida , deve também
reembolsar as despesas , e tem quando seja caso a obrigação de
indemnização
No que se refere ao contrato de depósito, a obrigação principal do
depositante é consiste em satisfazer ao depositário o preço acordado,
partindo do pressuposto que o depósito é remunerado. Assim, e nos
termos do art. 1199 do CC, o depositante tem de pagar um preço,
abonar o depositário das despesas e a indemniza-lo de algum
prejuízo. Esta obrigação está imbricada no princípio que proíbe o
enriquecimento sem causa, e ao princípio da boa fé, mais do que ao
conteúdo típico do contrato.
O depositante tem o direito de exigir em qualquer momento a
restituição do objeto depositado.
Em caso de não devolução, quando reclamado, é compelido a
devolver o mesmo. Pouco importa se o depósito seja voluntário ou
necessário. É Indiferente também que o inadimplemento da obrigação
de restituir seja intencional ou fruto de negligência, dolosa ou
culposa, sujeita a coerção.
Direitos e obrigações do depositário :
Art. 1187º CC , Art.405º e 406º do CCom
Temos o regime geral no art.1187º do CC , onde podemos verificar
que o depositário tem as seguintes obrigações :
Guardar a coisa depositada;
Avisar imediatamente o depositante, quando saiba que algum
perigo ameaça a coisa ou que terceiro se arroga direitos em
relação a ela, desde que o facto seja desconhecido do
depositante;
Restituir a coisa com os seus frutos
Agora , do lado do código comercial podemos verificar que , de
acordo com o art.405º que tratando-se de depósitos de títulos de
crédito , valores mobiliários ou outros instrumentos semelhantes , o
depositário tem como obrigação , proceder à cobrança e a todas as
mais diligências necessárias para a conservação do seu valor e
efeitos legais, sob pena de responsabilidade pessoal.
O art.406º do CCom diz que , caso o depositário tenha a devida
autorização para utilizar a coisa , cessarão os direitos e obrigações
próprias de depositante e depositário, e observar-se-ão as regras
aplicáveis do empréstimo mercantil, da comissão, ou do contrato que,
em substituição do depósito, se houver celebrado, qual no caso
couber.
Ou seja , nesta ultima temos aqui uma espécie de conversão do
contrato de depósito mercantil num contrato de empréstimo
mercantil ou de comissão , ou seja , na verdade não é uma conversão
propriamente dita , mas o que acontece é que serão aplicadas a este
depósito mercantil em que é permitido ao depositário utilizar a coisa
depositada , as regras do empréstimo mercantil ou de outro contrato
que aqui se enquadrar.
O direito de retenção do objecto depositado é-lhe conferido para
garantia de suas pretensões:
• A de ser reembolsado das despesas feitas com a coisa;
• A de ser indemnizado dos prejuízos provenientes do depósito,
até que o depositante lhe pague o valor líquido das despesas, ou dos
prejuízos, provados imediatamente.
Quando isso não acontecer, pode o Depositário recusar-se a restituir o
objecto, ou também quando:
1ª- O objecto depositado é judicialmente embargado;
2ª- sobre a coisa pende execução de que tenha conhecimento oficial;
3ª- tiver suspeita de que o objecto foi furtado ou roubado.
Admite-se o direito de requerer o depósito judicial do objecto, quando:
• Obrigatoriamente, o depositário tiver fundada suspeita de que
tem à sua guarda um objecto furtado ou roubado;
• Por motivo plausível, não possa guardar o objecto e o
depositante não queira receber o mesmo;
• O depositário se tornar capaz, hipótese na qual o seu curador
deverá recolher ao depósito público, se o depositante recusar-se a
receber o objecto.
O que é o contrato de depósito mercantil?
Antes de partir para a explicação propriamente dita do que é o
depósito mercantil importa referir o artigo 1185º do CC , no qual se
pode ler que “Depósito é o contrato pelo qual uma das partes entrega
à outra uma coisa, móvel ou imóvel, para que a guarde, e a restitua
quando for exigida” , ou seja , temos aqui a base subsidiária do
regime do depósito comercial , estando este último sujeito ao que é
referenciado no CC.
O depósito comercial , também conhecido do ponto de vista
internacional como “depôt commercial” , “lagergeschaft” ou
“comercial bailment” é o contrato pelo qual uma das partes entrega à
outra uma coisa destinada a atividade comercial, para que esta a
guarde e restitua quando for exigida , ou então como é referido no
artigo 403º do CCom “Para que o depósito seja considerado mercantil
é necessário que seja de géneros ou mercadorias destinados a
qualquer ato de comércio”.
Independentemente de se aplicar ao depósito comercial estas regras
gerais do regime previsto no código civil , importa também ter em
atenção , de acordo com o Professor José Engrácia Antunes , os outros
regimes especiais/específicos do depósito mercantil , sendo estes :
Depósito de mercadorias em armazéns gerais (art. 94º e 408º a
424º do CCom) ;
Depósito bancário (art.407º CCom e DL n430/91 de 2 de
novembro) ;
Depósito de títulos a crédito e instrumentos financeiros
(art.405º CCom e Art.343º do CVM) ;
Depósito fiduciário
Agora , partindo para uma análise do regime do Código Comercial
propriamente dito , podemos observar através do art.403º do CCom ,
no qual se pode ler “Para que o depósito seja considerado mercantil é
necessário que seja de géneros ou mercadorias destinados a qualquer
ato de comércio.”
De acordo com este artigo podemos verificar que o legislador
pretende estabelecer que a vertente comercial do depósito surge do
simples facto de este ter como pressuposto a existência de “géneros
ou mercadorias destinados a qualquer ato de comércio”.
Ou seja , de certa forma podemos daqui interpretar que é mercantil
qualquer e todo o depósito que seja relacionado com o exercício de
atividades empresariais , principalmente quando as mesmas são
levadas a cabo por empresários que se dedicam profissionalmente a
estas mesmas atividades (ex: armazenistas , bancos , entrepostos
comerciais etc....).
De acordo com o Professor José Engrácia Antunes , apesar desta
exigência deste caracter comercial , nada impede que este tipo de
depósitos sejam realizados , excecionalmente , por particulares
devido , por exemplo , à existência de conexões com outros atos
mercantis acessórios (ex : acessoriamente a uma operação de
compra e venda mercantil , de comissão , de transporte etc...).
O depósito mercantil tem natureza onerosa de acordo com o art.404º
do CCom , o que não acontece no regime do código civil nos seus
artigos 1186º e 1158º do CC. Isto vai em encontro à natureza
lucrativa do comércio , como afirmava Adriano Anthero.
Independentemente disto , é possível definir uma retribuição no caso
do depósito civil , assim como será licito às partes de um depósito
mercantil acordar na gratuitidade deste.
Em suma , e de uma forma generalizada , o contrato de depósito
mercantil é um acordo entre duas partes, onde uma (o depositante)
confia bens móveis ou mercadorias à guarda de outra (o depositário),
geralmente por um período determinado. Este tipo de contrato é
comum no contexto comercial e é regulamentado pelas leis
comerciais e civis de cada país.
No contexto mercantil, o depósito pode ocorrer por diversas razões,
como armazenamento temporário de mercadorias antes da
distribuição, armazenamento de produtos para venda futura, entre
outros propósitos comerciais.
Este contrato estipula os direitos e deveres de ambas as partes
envolvidas. O depositário deve garantir a segurança e a integridade
dos bens depositados, enquanto o depositante tem o direito de exigir
a devolução dos bens no estado em que foram depositados, de
acordo com os termos acordados.
As cláusulas específicas do contrato de depósito mercantil podem
variar dependendo das necessidades e acordos entre as partes
envolvidas, mas geralmente incluem informações como a descrição
dos bens depositados, as condições de armazenamento, as
responsabilidades de cada parte, as taxas ou compensações pelo
serviço prestado, entre outros detalhes importantes.
Características do depósito mercantil :
O depósito mercantil é um contrato bilateral , oneroso , salvo quando
exista convenção expressa em contrário , tal como podemos retirar
do artigo 404º do CCom que foi mencionado anteriormente.
Este gera obrigações tanto para o depositante como para o
depositário.
A bilateralidade do depósito está ligada ao caracter da retribuição ,
assim , a propósito do depósito gratuito , há quem perfilhe e o tenha
como negócio unilateral , pois as únicas obrigações que existem são
as respeitantes ao depositário.
Como refere Cunha Gonçalves “É unilateral , porque o depositário não
é obrigado a prestação alguma tirada do património. Todavia , sendo
renumerado o contrato deixa de ser rigorosamente unilateral”.
De acordo com o art.1192º do CC o depositário não pode recusar a
restituição da coisa depositada com fundamento de que este não é
proprietário da coisa nem tem sobre ela outro direito.
Outra figura que diferencia o depósito mercantil do regime de outros
contratos , como o empréstimo ou comodato , está presente no
art.1189º do CC onde se verifica que o depositário não tem direito de
usar a coisa depositada nem de a dar em depósito a outrem. Quando
tal permissão exista , cessarão os direitos e obrigações próprios de
depositante e depositário e observar-se-ão regras de outros regimes ,
como o do empréstimo mercantil , comissão , etc... , tudo isto tal
como foi mencionado anteriormente.
O contrato de depósito e o contrato de transporte
Quanto à distinção a operar entre o contrato de transporte e contrato
de depósito resulta que no contrato de transporte de coisas, o
transportador obriga-se face ao carregador a transportar uma
determinada mercadoria de um lugar para o outro e a entregá-la ao
destinatário, em troca de um preço. Este contrato encontra-se
regulado no art. 366-393 do Ccom, e em legislação avulsa, incluindo
diversas Convenções aplicáveis ao contrato de transporte. O
transportador deve conseguir obter um resultado, levar a mercadoria
até ao destino e para a qual a deverá custodiar e trata-la
adequadamente. Dependendo dos casos o transportador pode
também assumir outras prestações ou serviços acessórios, como por
exemplo a carga e descarga, empacotar a mercadoria, o depósito, e a
reexpedição, operações aduaneiras, a contratação de seguros,
pallets, contentores e outras medidas auxliares, etc.
No contrato de depósito a única obrigação ou principal é a de guarda,
enquanto que no contrato de transporte a obrigação principal é
transportar a mercadoria de um lado para o outro, sendo as restantes
acessórias e dependentes desta.
OBJETO
Somente as coisas móveis podem ser objetos de um contrato de
depósito mercantil. Entende-se por coisas móveis os bens que podem
ser transferidos de lugar.
Sendo o objeto uma das partes mais importantes do contrato, o
mesmo deve estar claramente especificado, para que não gere
dúvidas sobre o objeto que é deixado e o que será retirado depois de
determinado tempo. Por exemplo, se o objeto do contrato for um
automóvel, deve obrigatoriamente conter a marca do veículo, o ano,
o modelo, motor, o número do chassi, cor, entre outras.
CONCLUSÃO
I – O contrato de
depósito civil e o contrato de depósito mercantil, partilham o mesmo
regime legal, distanciando-se este último do primeiro pelo carácter
profissionalizante;
II – O contrato de
depósito mercantil distingue-se de alguns contratos de carácter civil e
mercantil;
III – Na distinção
operada com os contratos mercantis, como o de transporte, ou o
atípico contrato de logística verifica-se que no que respeita ao
contrato de depósito a obrigação exclusiva e/ou principal é a guarda
ou custódia; Para o contrato de logística e para o contrato de
transporte, a obrigação de custódia é acessória da obrigação
principal;
IV – Quanto à
responsabilidade o depositário responde pela bitola de um bonus
pater familiae, a que acresce uma responsabilidade qualificada pelo
carácter mercantil do depósito.