[Negativo 8]
(Recebida em: 3 de março)
Carta no 175
Prezado Eric,
Hoje foi um dia estranho. Está difícil separar o dentro e o fora, as coisas que
penso das coisas que sei. Às vezes é assim. Há áreas
escuras em minha mente. Feridas e buracos imensos cujo fundo não consigo enxergar,
por mais que eu me concentre.
Os buracos estão em toda parte e, depois que você os per- cebe, não consegue parar.
Alguns são poços escuros com ecos e outros têm água negra parada nas profundezas.
Dentro deles posso ver uma distante lua cheia e a silhueta recortada de uma pes-
soa, olhando de volta pra mim. O contorno me deixa aterrorizado. Sou eu lá embaixo?
Ou você? Talvez não seja ninguém. A vista se torna o reflexo e... algo mais, outra
coisa. Algo que conheci e talvez perdi, ou talvez não. Sei que o que escrevo não
faz sentido, mas às vezes as coisas mais estranhas são essenciais para mim. Como se
os rótulos tivessem caído e fossem recolocados no lugar errado. Escrevo o que
parece ser importante; mesmo quando releio e não significa nada, deixo como está,
pois o que sei? Não perca a fé em mim, Eric.
Pra onde foi tudo? Escrevi muita coisa que agora não está aqui. As coisas se perdem
e é assim a vida, mas... Mas. Ontem à noite, sonhei que havia cinco armários
vermelhos. Quatro estavam
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cheios e eu os tranquei em algum lugar. Terá sido um sonho ou os últimos destroços
de uma lembrança afundada? Você sabe o que
eu quero dizer. Dentro e fora. Objeto e reflexo. Frente e trás. Posi- tivo e
negativo. Acho que estou deixando as coisas mais confusas, em vez de esclarecê-las.
Vou parar de escrever agora.
Pesar e esperança,
Eric
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