A EVOLUÇÃO DA RESPONSABILIDADE CIVIL POR DANOS MORAIS NA ERA
DIGITAL
THE EVOLUTION OF CIVIL LIABILITY FOR MORAL DAMAGES IN THE
DIGITAL AGE
Bruno Lima de Souza
Matheus Maia Amorim
Mirna Miranda de Oliveira
RESUMO
Este estudo analisou a evolução da responsabilidade civil por danos morais na era digital,
destacando mudanças no contexto jurídico e social e suas implicações para a proteção dos
direitos individuais e a justiça. A revisão exploratória e qualitativa da literatura revelou um
cenário complexo, com um aumento significativo de casos de reparação judicial por conteúdo
online. O Marco Civil da Internet enfrenta críticas devido à ambiguidade sobre a
responsabilidade dos provedores, exigindo ordem judicial para responsabilização, gerando
debates sobre a liberdade de expressão. A constitucionalidade do artigo 19 também é discutida
no contexto da regulação online. Apesar dos desafios, o Marco Civil é essencial ao estabelecer
parâmetros legais para proteger os direitos dos usuários da internet, necessitando adaptações
para acompanhar as rápidas transformações tecnológicas e demandas por proteção e
responsabilização no ambiente digital. Diante das transformações sociais e tecnológicas na era
digital, a responsabilidade civil por danos morais adquire relevância, exigindo reavaliação dos
paradigmas do Direito. O estudo explorou sua evolução, identificando desafios e implicações
para a proteção dos direitos individuais online, destacando a importância do Marco Civil da
Internet na regulação desse campo.
Palavras-chave: Era digital, danos morais, responsabilidade civil.
ABSTRACT
This study analyzed the evolution of civil liability for moral damages in the digital age,
highlighting changes in legal and social contexts and their implications for the protection of
individual rights and justice. The exploratory and qualitative literature review revealed a
complex landscape, with a significant increase in judicial cases seeking redress for online
content. The Brazilian Internet Bill of Rights (Marco Civil da Internet) faces criticism due to
ambiguity regarding the liability of internet service providers, requiring judicial orders for
accountability and sparking debates about freedom of expression. The constitutionality of
Article 19 is also debated within the context of online regulation. Despite challenges, the Marco
Civil is essential in establishing legal parameters to protect internet users' rights, necessitating
adaptations to keep pace with rapid technological changes and demands for protection and
accountability in the digital environment. Amidst social and technological transformations in
the digital age, civil liability for moral damages gains relevance, demanding a reassessment of
legal paradigms. The study explored its evolution, identifying challenges and implications for
the protection of individual rights online, emphasizing the importance of the Marco Civil da
Internet in regulating this field.
Keywords: Digital era, moral damages, civil liability.
2
1 INTRODUÇÃO
Na era digital, a questão da responsabilidade civil por danos morais adquire uma nova
complexidade diante das transformações sociais e tecnológicas em curso. Como ressalta
Carvalho (2020), a revolução digital trouxe consigo uma série de desafios e impactos que
exigem uma reavaliação dos paradigmas tradicionais da responsabilidade civil. Nesse contexto,
torna-se crucial analisar como as mudanças tecnológicas têm redefinido os parâmetros dessa
responsabilidade, conforme pontua Silva (2019).
A relevância desse estudo é evidenciada pela crescente importância da
responsabilidade civil por danos morais no ambiente digital. Como afirmam Ferreira e Almeida
(2021), o avanço da tecnologia proporcionou novas formas de interação e comunicação,
aumentando as possibilidades de ocorrência de danos morais. Assim, compreender a evolução
dessa responsabilidade torna-se essencial para a construção de um sistema jurídico eficaz e
adequado aos desafios contemporâneos.
Diante desse contexto, o presente trabalho tem como objetivo geral analisar a evolução
da responsabilidade civil por danos morais na era digital, identificando as principais mudanças
ocorridas no contexto jurídico e social e suas implicações para a proteção dos direitos
individuais e a promoção da justiça. Para alcançar esse objetivo, propõem-se os seguintes
objetivos específicos:
Investigar as novas formas de danos morais surgidas no ambiente digital, como o
cyberbullying, a violação de privacidade online e a difamação nas redes sociais; Analisar as
adaptações legislativas e jurisprudenciais necessárias para lidar com os desafios específicos
relacionados à responsabilidade civil por danos morais na era digital; Avaliar o papel das
empresas de tecnologia e plataformas online na prevenção e reparação de danos morais
causados por suas atividades; Propor medidas e estratégias para aprimorar a proteção dos
direitos individuais e promover uma cultura de responsabilidade no ambiente digital;
Esses objetivos orientarão a análise e discussão sobre a evolução da responsabilidade
civil por danos morais na era digital, contribuindo para um melhor entendimento dos desafios
e oportunidades desse contexto em constante transformação.
3
2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Trata-se de uma pesquisa que adotará uma abordagem qualitativa, buscando
compreender a complexidade e nuances da evolução da responsabilidade civil por danos morais
na era digital. A análise será realizada por meio de uma revisão crítica da literatura existente,
permitindo uma compreensão aprofundada do tema. O estudo terá caráter exploratório, uma vez
que visa a explorar e compreender as transformações e desafios enfrentados no campo da
responsabilidade civil por danos morais diante do avanço da tecnologia e da digitalização da
sociedade. Com relação aos meios de investigação, esta, será predominantemente bibliográfica,
utilizando-se de fontes acadêmicas, como artigos científicos, livros, teses e dissertações,
disponíveis em bases de dados eletrônicas, publicadas nos últimos 10 anos.
Como se trata de uma pesquisa bibliográfica, não serão utilizados instrumentos de
coleta de dados. A coleta será feita por meio da busca e seleção criteriosa de fontes na literatura
acadêmica. Os dados serão extraídos dos textos selecionados e analisados de acordo com os
objetivos da pesquisa. A análise dos resultados será realizada por meio de técnicas de análise
de conteúdo e síntese temática.
Os dados extraídos dos estudos selecionados serão organizados e categorizados de
acordo com os principais temas e tendências identificados na literatura. Serão exploradas as
relações entre os diferentes aspectos da evolução da responsabilidade civil por danos morais na
era digital, buscando identificar padrões, lacunas e áreas de conflito ou consenso na literatura
revisada. Este procedimento metodológico garantirá uma análise abrangente e rigorosa da
evolução da responsabilidade civil por danos morais na era digital, contribuindo para o avanço
do conhecimento nessa área e fornecendo insights importantes para a prática jurídica e para a
formulação de políticas públicas.
4
3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
3.1 Evolução Tecnológica e Transformações Sociais
A evolução tecnológica tem sido um dos principais motores de transformação social
na contemporaneidade. Desde o surgimento da internet até o desenvolvimento de tecnologias
mais recentes, como inteligência artificial e blockchain, a sociedade tem passado por mudanças
profundas em suas formas de interação e organização. Essas transformações têm impactado não
apenas a maneira como nos comunicamos e consumimos informações, mas também como
trabalhamos, nos relacionamos e exercemos nossos direitos individuais (CASTELLS, 2005).
O advento da internet, em particular, inaugurou uma nova era na história da
humanidade, possibilitando a conectividade instantânea entre pessoas de diferentes partes do
mundo. As redes sociais, por exemplo, tornaram-se espaços de sociabilidade virtual, onde
indivíduos compartilham experiências, opiniões e informações em tempo real. Essa ampliação
do alcance da comunicação trouxe consigo uma série de oportunidades, mas também desafios
em relação à proteção da privacidade, à segurança das informações pessoais e à disseminação
de conteúdos prejudiciais (SILVEIRA, 2000).
No contexto da responsabilidade civil por danos morais, a evolução tecnológica trouxe
novas formas de violação dos direitos de personalidade. O cyberbullying, por exemplo, é um
fenômeno que se tornou mais prevalente com o uso generalizado das redes sociais e dos
dispositivos móveis. A difamação, a exposição indevida de informações pessoais e outras
formas de violência psicológica têm encontrado na internet um ambiente propício para se
proliferar, muitas vezes de forma anônima e impune (MARTINS, 2019).
Diante desse cenário, torna-se essencial uma reflexão sobre o papel do direito na
regulação das relações sociais no ambiente digital. A legislação, por sua vez, tem buscado se
adaptar às novas realidades tecnológicas, por meio da criação de leis específicas e da
interpretação criativa dos princípios jurídicos fundamentais. No Brasil, por exemplo, o Marco
Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014) estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para
o uso da internet no país, contribuindo para a proteção da privacidade e dos direitos individuais
dos cidadãos (LEMOS & LEVY, 2010).
Além das questões legais, é importante considerar também os aspectos éticos e sociais
envolvidos na evolução tecnológica e suas transformações sociais. A disseminação de fake
news, a polarização política nas redes sociais e o uso indevido de dados pessoais são apenas
alguns dos desafios éticos que surgem nesse contexto. É fundamental promover uma cultura
5
digital baseada na responsabilidade e na ética, capaz de garantir um ambiente online seguro e
inclusivo para todos os indivíduos (MARTINS, 2019).
Em suma, a evolução tecnológica e as transformações sociais têm impactado
profundamente as relações humanas, tanto no ambiente físico quanto no digital. Nesse contexto,
o direito desempenha um papel fundamental na proteção dos direitos individuais e na promoção
de uma sociedade mais justa e equitativa. No entanto, para que isso seja possível, é necessário
um esforço conjunto de legisladores, juristas, tecnólogos e cidadãos, visando à construção de
um ambiente digital que respeite e promova a dignidade humana.
3.2 Conceito e Fundamentos da Responsabilidade Civil por Danos Morais
A responsabilidade civil por danos morais é um dos institutos fundamentais do Direito
Civil contemporâneo, que visa proteger os direitos de personalidade das pessoas. Esse ramo do
direito tem como base a reparação dos prejuízos causados a aspectos imateriais da pessoa, como
a honra, a imagem, a privacidade e a integridade psicológica (GONÇALVES, 2019).
Segundo a doutrina especializada, a responsabilidade civil por danos morais possui
três elementos essenciais para sua configuração: o dano, o nexo de causalidade e a culpa ou o
dolo do agente causador do dano. O dano moral consiste na lesão ou ofensa a um direito de
personalidade, causando sofrimento, constrangimento, dor emocional ou abalo psicológico à
vítima. O nexo de causalidade estabelece a relação de causa e efeito entre a conduta do agente
e o dano sofrido pela vítima. Já a culpa ou o dolo do agente refere-se à conduta ilícita praticada
com negligência, imprudência, imperícia ou intenção de causar o dano (DIAS, 2018).
A proteção dos direitos de personalidade está consagrada na legislação brasileira,
especialmente no Código Civil de 2002, que estabelece a responsabilidade civil objetiva nos
casos de violação desses direitos. Isso significa que, independentemente da culpa do agente,
este será responsabilizado pelos danos morais causados, bastando a comprovação da ocorrência
do dano e do nexo causal (GONÇALVES, 2019).
Além disso, a Constituição Federal de 1988 assegura o direito à indenização por danos
morais decorrentes de violações à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem das pessoas.
Essa proteção está alinhada aos princípios fundamentais do Estado Democrático de Direito, que
visa garantir a dignidade da pessoa humana e a promoção da justiça social (BRASIL,1988).
Nesse contexto, a responsabilidade civil por danos morais desempenha um papel
essencial na proteção dos direitos individuais e na preservação da integridade moral das
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pessoas. É por meio desse instituto jurídico que se busca assegurar a reparação adequada dos
danos causados, promovendo a justiça e a equidade nas relações sociais.
3.3 Desafios da Responsabilidade Civil por Danos Morais na Era Digital
Na contemporaneidade, a responsabilidade civil por danos morais na era digital
apresenta desafios singulares, exigindo uma análise multifacetada para sua compreensão e
enfrentamento. Diante da rápida evolução tecnológica e das transformações sociais decorrentes
do uso massivo da internet e das redes sociais, surgem questões complexas relacionadas à
proteção dos direitos de personalidade no ambiente virtual.
Um dos principais desafios enfrentados é a identificação dos responsáveis pelos danos
morais causados na internet. Em um contexto digital marcado pela facilidade de anonimato e
pela disseminação rápida de conteúdos, muitas vezes é difícil determinar a autoria das ofensas
ou violações aos direitos de personalidade. Essa dificuldade de identificação dos responsáveis
pode comprometer a responsabilização pelos danos causados, criando um ambiente propício
para a impunidade (BARBOSA, 2018).
Além disso, a jurisdição e a competência para julgar casos de responsabilidade civil
por danos morais na era digital também representam um desafio. Com a transnacionalidade das
comunicações online, surgem questões relacionadas à aplicação das leis e à execução das
decisões judiciais em um contexto globalizado. A falta de harmonização entre as legislações de
diferentes países pode dificultar a obtenção de justiça para as vítimas de violações de direitos
na internet (GOMES & GODOY, 2017).
Outro desafio importante diz respeito à prova dos danos morais no ambiente digital. A
natureza efêmera e volátil dos conteúdos online pode dificultar a obtenção de provas concretas
sobre as ofensas ou violações ocorridas. Além disso, a subjetividade dos danos morais, que
muitas vezes se manifestam por meio de sofrimento emocional ou abalo psicológico, torna
ainda mais complexa a comprovação desses prejuízos perante o judiciário (GOMES &
GODOY, 2017).
É necessário, portanto, desenvolver estratégias e mecanismos específicos para
enfrentar esses desafios e garantir uma efetiva proteção dos direitos de personalidade na era
digital. Isso inclui a adoção de legislações e políticas públicas que promovam a
responsabilização dos infratores, o fortalecimento da cooperação internacional para enfrentar
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violações transfronteiriças e o estímulo à educação digital e à conscientização sobre os impactos
das condutas online (TEPEDINO & ALVIM, 2020).
Ademais, a sociedade como um todo deve se engajar na construção de uma cultura
digital baseada no respeito mútuo, na ética e na responsabilidade. A promoção de valores como
a empatia, a tolerância e a diversidade podem contribuir para a criação de um ambiente online
mais inclusivo e seguro, onde os direitos de todos os indivíduos sejam respeitados e protegidos.
3.4 Normas Jurídicas e Jurisprudência Aplicáveis
As normas jurídicas e a jurisprudência desempenham um papel fundamental na
regulação e na aplicação da responsabilidade civil por danos morais na era digital. No contexto
brasileiro, diversas normas e decisões judiciais têm contribuído para definir os parâmetros e os
limites dessa responsabilidade, adaptando-os às peculiaridades do ambiente virtual.
Uma das normas jurídicas mais relevantes é o Código Civil de 2002, que estabelece as
bases da responsabilidade civil no ordenamento jurídico brasileiro. O artigo 186 do Código
Civil dispõe que aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar
direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito. Já o artigo
927 prevê que aquele que causar dano a outrem fica obrigado a repará-lo, independentemente
de culpa, sendo o responsável sujeito à responsabilidade objetiva nos casos de violação de
direitos de personalidade na internet (DIAS, 2018).
Além do Código Civil, outras normas específicas têm sido criadas para lidar com
questões relacionadas à responsabilidade civil por danos morais na era digital. Um exemplo é
o Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014), que estabelece princípios, garantias, direitos e
deveres para o uso da internet no Brasil. O Marco Civil da Internet tem como objetivo promover
a proteção dos direitos de personalidade dos usuários da rede, estabelecendo regras claras para
a responsabilização de provedores de internet e de conteúdo por danos decorrentes de suas
atividades (BARBOSA, 2018).
No que diz respeito à jurisprudência, as decisões dos tribunais brasileiros têm
contribuído para consolidar os entendimentos sobre a responsabilidade civil por danos morais
na era digital. A análise de casos concretos permite aos magistrados aplicar os princípios gerais
do direito à realidade específica das relações virtuais, adaptando-os às novas demandas e
desafios surgidos com o avanço da tecnologia.
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É importante destacar que a jurisprudência tem papel dinâmico e evolutivo, refletindo
as mudanças na sociedade e na tecnologia. Assim, as decisões judiciais têm o poder de
influenciar a interpretação das normas jurídicas e de contribuir para o desenvolvimento do
direito aplicado à era digital (GOMES & GODOY, 2017).
Em suma, as normas jurídicas e a jurisprudência desempenham um papel
complementar na regulação e aplicação da responsabilidade civil por danos morais na era
digital. Enquanto as normas estabelecem os princípios e as regras gerais, as decisões judiciais
adaptam esses princípios à realidade específica dos casos concretos, contribuindo para a efetiva
proteção dos direitos de personalidade no ambiente virtual.
3.5 A evolução das jurisprudências
AGRAVO REGIMENTAL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. PUBLICAÇÃO DE ANÚNCIO
FALSO NA INTERNET. LEGITIMIDADE PASSIVA DO PROPRIETÁRIO DO
VEÍCULO DE COMUNICAÇÃO. SÚMULA STJ/7. DANO MORAL. AUSÊNCIA DE
RESPONSABILIDADE. DECISÃO AGRAVADA. MANUTENÇÃO.
I. A convicção a que chegou o Tribunal a quo quanto à legitimidade passiva ad causam do
proprietário do site em que se publicou o anúncio falso decorreu da análise do conjunto
probatório. O acolhimento da pretensão recursal demandaria o reexame do mencionado suporte.
Incide nesse ponto a Súmula STJ/7.
II. A responsabilidade pelo dano decorrente de fraude não pode ser imputada ao veículo de
comunicação, visto que esse não participou da elaboração do anúncio, tampouco do contrato de
compra e venda do veículo.
Agravo Regimental improvido.
(AgRg nos EDcl no Ag n. 1.360.058/RS, relator Ministro Sidnei Beneti, Terceira Turma,
julgado em 12/4/2011, DJe de 27/4/2011.)
RECURSO ESPECIAL. DIREITO DO CONSUMIDOR. PROVEDOR. MENSAGEM
DE CONTEÚDO OFENSIVO. RETIRADA. REGISTRO DE NÚMERO DO IP. DANO
MORAL. AUSÊNCIA. PROVIMENTO.
1.- No caso de mensagens moralmente ofensivas, inseridas no site de provedor de conteúdo por
usuário, não incide a regra de responsabilidade objetiva, prevista no art. 927, parágrafo único,
do Cód. Civil/2002, pois não se configura risco inerente à atividade do provedor. Precedentes.
2.- É o provedor de conteúdo obrigado a retirar imediatamente o conteúdo ofensivo, pena de
responsabilidade solidária com o autor direto do dano.
3.- O provedor de conteúdo é obrigado a viabilizar a identificação de usuários, coibindo o
anonimato; o registro do número de protocolo (IP) dos computadores utilizados para
9
cadastramento de contas na internet constitui meio de rastreamento de usuários, que ao provedor
compete, necessariamente, providenciar.
4.- Recurso Especial provido. Ação de indenização por danos morais julgada improcedente.
(REsp n. 1.306.066/MT, relator Ministro Sidnei Beneti, Terceira Turma, julgado em 17/4/2012,
DJe de 2/5/2012.)
AGRAVO REGIMENTAL. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. DANO MORAL.
INTERNET. SITE DE RELACIONAMENTOS. NÃO EXCLUSÃO
REPRESSIVAMENTE DE PERFIL COM CONTEÚDO OFENSIVO.
1.- Tendo o Acórdão recorrido afirmado que o provedor não retirou o perfil de conteúdo
ofensivo em tempo hábil, depreende-se que o recurso especial assentado em premissa fática
contrária esbarra na Súmula 07/STJ;
2.- A inércia do provedor que, após notificado pelo usuário, não promove a remoção da sua
página de rede social com conteúdo ofensivo, enseja responsabilização civil. Precedentes.
3.- Em casos como o dos autos, o valor fixado a título indenização por danos morais morais
(R$ 12.000,00) não denota excesso capaz de justificar a intervenção retificadora desta Corte
Superior.
4.- Agravo Regimental a que se nega provimento.
(AgRg no AREsp n. 479.351/SP, relator Ministro Sidnei Beneti, Terceira Turma, julgado em
24/4/2014, DJe de 16/5/2014.)
PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS
MORAIS. DIVULGAÇÃO. ATO ILÍCITO. INTERNET. COMPETÊNCIA.
DOMICÍLIO DA VÍTIMA. RECURSO PROVIDO.
1. A competência para julgamento de ação de indenização por danos morais, decorrente de
ofensas proferidas em rede social, é do foro do domicílio da vítima, em razão da ampla
divulgação do ato ilícito.
2. Recurso especial provido para manter a competência da 7ª Vara Cível do Foro de São
Bernardo do Campo.
(REsp n. 2.032.427/SP, relator Ministro Antonio Carlos Ferreira, Quarta Turma, julgado em
27/4/2023, Dje de 4/5/2023.)
RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER C/C PEDIDO DE
INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS E MORAIS. NEGATIVA DE
PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. AUSÊNCIA. SITE DE INTERMEDIAÇÃO DE
COMÉRCIO ELETRÔNICO. NOTIFICAÇÃO EXTRAJUDICIAL. VIOLAÇÃO AOS
TERMOS DE USO DA PLATAFORMA. REQUERIMENTO DE EXCLUSÃO DE
ANÚNCIOS. IMPOSSIBILIDADE. MULTA POR EMBARGOS PROTELATÓRIOS.
AFASTAMENTO.
10
1. Ação de obrigação de fazer c/c pedido de indenização por danos materiais e morais ajuizada
em 7/8/2015, da qual foi extraído o presente recurso especial interposto em 20/3/2023 e
concluso ao gabinete em 8/8/2023.
2. O propósito recursal é definir se a) houve negativa de prestação jurisdicional, b) é possível
atribuir ao intermediador de comércio eletrônico a obrigação de excluir, em razão de notificação
extrajudicial, anúncios de vendas que violem os termos de uso da plataforma e c) os embargos
de declaração opostos pela recorrente tiveram intuito protelatório.
3. Devidamente analisadas e discutidas as questões de mérito, e suficientemente fundamentado
o acórdão recorrido, de modo a esgotar a prestação jurisdicional, não há falar em violação do
art. 1.022 do CPC/15.
4. Para o Marco Civil da Internet (MCI), os sites intermediadores do comércio eletrônico
enquadram-se na categoria dos provedores de aplicações, os quais são responsáveis por
disponibilizar na rede as informações criadas ou desenvolvidas pelos provedores de
informação.
Precedentes.
5. A publicação de anúncios em plataforma de comércio eletrônico é regida pelos seus termos
de uso, os quais são utilizados, entre outras finalidades, para estabelecer as práticas aceitáveis
no uso dos serviços, bem como as condutas vedadas. Não há regulamentação, no MCI, das
práticas implementadas pelas plataformas de comércio eletrônico em virtude do
descumprimento dos termos de uso. Assim, é preciso considerar as disposições aplicáveis aos
provedores de aplicações.
6. Salvo as exceções previstas em lei, os provedores de aplicações apenas respondem,
subsidiariamente, por danos gerados em decorrência de conteúdo publicado por terceiro após o
desatendimento de ordem judicial específica (art. 19 do MCI). Busca-se evitar o abuso por parte
dos usuários notificantes, o monitoramento prévio, a censura privada e remoções irrefletidas.
Nessa linha, conforme jurisprudência desta Corte, não é possível impor aos sites de
intermediação a responsabilidade de realizar a prévia fiscalização sobre a origem de todos os
produtos. Isto é, à exceção das hipóteses estabelecidas no MCI, os provedores de aplicações
não têm a obrigação de excluir publicações realizadas por terceiros em suas páginas, por
violação aos termos de uso, devido à existência de requerimento extrajudicial.
7. Na espécie, portanto, a pretensão da recorrida de atribuir à recorrente a obrigação de excluir,
em razão de requerimento extrajudicial, todos os anúncios relativos a produtos anunciados em
seu site (Mercado Livre), que estão em desconformidade com os termos de uso, não encontra
respaldo no ordenamento jurídico. A imposição de exclusão genérica de conteúdos obrigaria a
ré a realizar uma verdadeira devassa nos anúncios existentes em sua plataforma.
Ademais, por se tratar de publicações não ofensivas a direito da personalidade recorrida, mas
alegadamente violadoras dos termos de uso, já que houve disponibilização de produtos em
desconformidade com as regras técnicas, seria necessário oportunizar aos anunciantes dos
produtos o contraditório antes da exclusão dos anúncios.
8. Nos termos da Súmula 98 do STJ, "embargos de declaração manifestados com notório
propósito de prequestionamento não têm caráter protelatório". No particular, os embargos
opostos pela recorrente tiveram por objetivo assegurar a manifestação expressa do Tribunal a
11
quo a respeito do conteúdo do art. 19 do MCI, a fim de garantir o prequestionamento, razão
pela qual deve ser afastada a multa aplicada com fundamento no art. 1.026, § 2º, do CPC.
9. Recurso especial conhecido e provido.
(REsp n. 2.088.236/PR, relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em
23/4/2024, DJe de 26/4/2024.)
AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO EM
RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS
CUMULADA COM OBRIGAÇÃO DE FAZER. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO
JURISDICIONAL. NÃO CONFIGURAÇÃO. INTERNET. CONTEÚDO OFENSIVO.
URL. INDICAÇÃO CLARA E ESPECÍFICA. REMOÇÃO. RESPONSABILIDADE
CIVIL SUBJETIVA. PROVEDOR. CARACTERIZAÇÃO. CULPA. NOTIFICAÇÃO.
OMISSÃO. REVISÃO. SÚMULA Nº 7/STJ.
1. A discussão dos autos reside em definir se é legal a ordem judicial que determina a remoção
de URLs específicas por provedores de busca.
2. Não há falar em negativa de prestação jurisdicional se o tribunal de origem motiva
adequadamente sua decisão, solucionando a controvérsia com a aplicação do direito que
entende cabível à hipótese, apenas não no sentido pretendido pela parte.
3. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça define que (a) para fatos anteriores à
publicação do Marco Civil da Internet basta a ciência inequívoca do conteúdo ofensivo pelo
provedor, sem sua retirada em prazo razoável, para que este se torne responsável e (b) após a
entrada em vigor da Lei nº 12.965/2014, caso dos autos, o termo inicial da responsabilidade
solidária do provedor é o momento da notificação judicial que ordena a retirada do conteúdo da
internet.
4. Na hipótese, a responsabilidade civil do provedor da internet decorreu do não cumprimento
da ordem judicial que determinou a remoção de conteúdo indicado pelas URLs.
5. Esbarra no óbice da Súmula nº 7/STJ alterar a conclusão das instâncias ordinárias de que a
parte autora indicou, em sua inicial, de forma expressa, clara e específica as URLs que deveriam
ser excluídas do provedor da internet.
6. A Segunda Seção do STJ decidiu que a aplicação da multa prevista no art. 1.021, § 4º, do
CPC não é automática, por não se tratar de mera decorrência lógica da rejeição do agravo
interno.
7. Agravo interno não provido.
(AgInt nos EDcl no AREsp n. 1.753.362/RJ, relator Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva,
Terceira Turma, julgado em 8/4/2024, DJe de 11/4/2024.)
12
3.6 Marco Civil da Internet
O Marco Civil da Internet, instituído pela Lei n° 12.965/2014 no Brasil, representa uma
legislação pioneira e abrangente que estabelece princípios, direitos e deveres para o uso da
internet no país. Essa lei foi promulgada com o objetivo de garantir a liberdade de expressão, a
privacidade dos usuários e a neutralidade da rede, ao mesmo tempo em que busca regulamentar
questões relativas à responsabilidade dos provedores de internet e à proteção dos dados dos
usuários.
Um dos aspectos fundamentais do Marco Civil é o estabelecimento dos princípios
basilares que devem nortear a utilização da internet no Brasil. Conforme disposto no artigo 3°
da lei, são princípios como a garantia da liberdade de expressão, o respeito à privacidade dos
usuários, a proteção dos dados pessoais e a preservação da neutralidade da rede, que visa
assegurar o tratamento isonômico dos dados trafegados na internet.
Além dos princípios, o Marco Civil traz disposições específicas para a proteção da
privacidade e dos dados pessoais dos usuários. O artigo 7° da lei estabelece que os dados
pessoais dos usuários só podem ser coletados mediante consentimento expresso e específico,
respeitando-se a finalidade informada ao titular dos dados. Essa disposição reflete a
preocupação do legislador em resguardar a privacidade dos indivíduos no ambiente digital.
Outro ponto relevante do Marco Civil é a definição da responsabilidade dos provedores
de internet em relação aos conteúdos gerados por terceiros. Conforme previsto no artigo 18 da
lei, os provedores não podem ser responsabilizados civilmente por danos decorrentes de
conteúdos publicados por terceiros, a menos que descumpram uma ordem judicial específica
para remoção desse conteúdo. Essa disposição visa garantir a liberdade de expressão e evitar a
censura prévia no ambiente online.
Contudo, o Marco Civil da Internet também tem sido alvo de críticas. Uma das
principais críticas refere-se à redação ampla e ambígua de alguns dispositivos, o que pode gerar
interpretações conflitantes e incertezas quanto à sua aplicação. Campos e Prado (2014)
destacam que a falta de clareza em determinados pontos do Marco Civil pode prejudicar a
segurança jurídica e a efetividade da legislação.
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4 ANÁLISE DOS RESULTADOS
A análise da jurisprudência e da legislação vigente revela um cenário complexo e
dinâmico em relação à responsabilidade civil por danos morais na era digital. Nota-se um
aumento expressivo de casos envolvendo a busca por reparação judicial em decorrência de
conteúdos veiculados na internet, refletindo o impacto crescente das interações online em
questões jurídicas. O Marco Civil da Internet (Lei n° 12.965/2014) surge como um marco
regulatório relevante, porém, enfrenta críticas quanto à sua eficácia e aplicabilidade.
Um dos pontos críticos do Marco Civil é a abordagem ambígua em relação à
responsabilidade dos provedores de internet por conteúdos gerados por terceiros. Conforme
observado pelo STJ (REsp 1.783.269-MG), a jurisprudência tem interpretado que a
responsabilidade desses provedores é secundária, dependendo do descumprimento de ordem
judicial para remoção de conteúdo ilícito. Essa interpretação reflete a necessidade de balancear
a proteção da liberdade de expressão com a responsabilização por danos decorrentes de abusos
na rede.
Outra questão relevante é a discussão sobre a constitucionalidade do artigo 19 do Marco
Civil da Internet, que exige prévia ordem judicial para responsabilizar os provedores por danos
decorrentes de atos ilícitos de terceiros (STF, TEMA 987). Essa exigência tem sido alvo de
debates, especialmente diante da crescente demanda por proteção contra abusos e violações
cometidas no ambiente digital.
A jurisprudência também aborda a dificuldade na fiscalização e cumprimento das
disposições do Marco Civil, especialmente no que se refere à remoção de conteúdos ilegais. A
complexidade em identificar e retirar conteúdos ofensivos, conforme discutido por Feldmann e
Souza (2022), destaca os desafios práticos na aplicação da lei e na responsabilização efetiva
dos infratores online.
Apesar das críticas e desafios enfrentados, o Marco Civil da Internet desempenha um
papel fundamental ao estabelecer parâmetros legais para a proteção dos direitos fundamentais
dos usuários da internet. No entanto, sua aplicação requer constante adaptação e aprimoramento
para acompanhar as rápidas transformações tecnológicas e as demandas crescentes por proteção
e responsabilização no ambiente digital.
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5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante das transformações sociais e tecnológicas em curso na era digital, a
responsabilidade civil por danos morais adquire uma nova complexidade e relevância,
demandando uma reavaliação constante dos paradigmas tradicionais do Direito. Este estudo
explorou a evolução dessa responsabilidade, identificando os desafios específicos e as
implicações para a proteção dos direitos individuais e a promoção da justiça no ambiente online.
A análise dos objetivos propostos revelou a emergência de novas formas de danos
morais no contexto digital, como o cyberbullying, a violação de privacidade online e os crimes
contra honra nas redes sociais. Esses fenômenos refletem a urgência de adaptações legislativas
e jurisprudenciais para lidar com os desafios contemporâneos relacionados à responsabilidade
civil.
A pesquisa, conduzida por meio de uma abordagem qualitativa e exploratória, permitiu
uma compreensão mais profunda das transformações e desafios enfrentados no campo da
responsabilidade civil por danos morais diante do avanço tecnológico. A análise crítica da
literatura existente revelou a importância de estratégias específicas para enfrentar os desafios
da identificação dos responsáveis, da jurisdição transnacional e da prova dos danos morais no
ambiente digital.
A fundamentação teórica destacou o papel crucial das normas jurídicas, especialmente
o Marco Civil da Internet, na regulação e aplicação da responsabilidade civil na era digital.
Embora enfrentando críticas quanto à sua eficácia, o Marco Civil representa um marco
regulatório relevante que busca equilibrar a liberdade de expressão com a proteção dos direitos
individuais dos usuários da internet.
Por fim, é fundamental promover uma cultura digital baseada na responsabilidade, ética
e respeito mútuo, visando criar um ambiente online seguro e inclusivo. A proteção dos direitos
de personalidade no ambiente digital requer um esforço conjunto de legisladores, juristas,
tecnólogos e cidadãos para garantir a efetiva aplicação das normas e a promoção da justiça no
ciberespaço.
Em suma, este estudo contribui para um melhor entendimento dos desafios e
oportunidades da responsabilidade civil por danos morais na era digital, fornecendo insights
importantes para a prática jurídica, formulação de políticas públicas e construção de uma
sociedade mais justa e equitativa no ambiente online.
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