Conversa Inicial
O título da parte do Catecismo da
Igreja Católica que fala sobre a
liturgia é "A celebração do mistério
cristão". Essa palavra, "mistério",
aparece frequentemente quando o
assunto é liturgia. Por isso, nesta
primeira aula, vamos entender o que
significam alguns termos importantes
para o nosso estudo, como liturgia,
mistério, mistério pascal,
sacramentalidade,
celebração e memória.
Assim, vamos entender também em
que consiste a ação salvífica de Deus
na história e a presença de Cristo na
Igreja.
Tema 01 – O que significa liturgia?
Em grego, "liturgia" significa algo
como "serviço público". Era uma
palavra usada no mundo grego para
se referir a todo tipo de serviço
prestado para o bem comum –
inclusive o serviço dos sacerdotes
nos templos pagãos. Foi por isso que
a tradução grega da Bíblia usou esse
termo para se referir ao serviço dos
sacerdotes judeus no templo de
Jerusalém. É muito significativo que,
no Novo Testamento, os Atos dos
Apóstolos também usem essa palavra
para se referir à celebração cristã.
Mas não só: Hebreus a usa para
designar o ministério de Cristo como
sumo sacerdote, Filipenses a usa
para falar da vida cristã entendida
como oferta de todo o nosso ser e 2
Coríntios a usa para se referir à coleta
pública realizada por Paulo. Fato é
que, enquanto, no Oriente, "liturgia"
passou a designar a celebração
eucarística, no Ocidente, a palavra só
foi resgatada para o uso eclesial no
século XIX, designando toda a ação
celebrativa da Igreja, povo de Deus
Tema 02 – O mistério
pascal de Cristo
O que quer dizer mistério? Essa palavra, de origem grega,
significa algo como "fazer conhecer", "iniciar a", "entrar no
âmbito do conhecimento, da iniciação", "revelar o que está
oculto". Paulo a usa largamente em suas cartas, referindo-
se ao plano salvífico de Deus, àquele sentido profundo que
está presente em toda a criação e em toda a história. É a
sua vontade de salvação, o seu amor, que se expressou de
modo insuperável na pessoa de Cristo Jesus. "Este
mistério é Cristo em vós" (Cl 1, 27).
Como o ponto focal do mistério é a paixão, morte,
ressurreição e ascensão de Jesus, muito cedo se
consolidou o uso da expressão "mistério pascal", mesmo
que para se referir a toda a ação salvífica de Deus na
história. Ainda, os Padres da Igreja empregaram o
termo mistério para designar os eventos da história da
salvação – como fazemos no rosário – e os ritos cristãos –
os sacramentos –, por meio dos quais esses eventos se
tornam presentes.
Tema 03 – A ação
salvífica de Deus na
história
É uma lógica presente na criação, na antiga aliança, na
vida de Jesus e na Igreja. O núcleo do mistério é Deus que
se revela como Amor. A participação na vida de Deus-Amor
é a nossa vocação; é o sentido da criação e a vontade do
Pai. O pecado é precisamente a falta de confiança no amor
de Deus. A história da salvação é, assim, o empenho de
Deus para nos arrancar da desconfiança, do medo e da
rivalidade e revelar-nos de modo inequívoco o seu amor
misericordioso e incondicional.
Toda essa história é sacramental: feita de gestos que são,
ao mesmo tempo, sinal e instrumento do amor de Deus.
Jesus é o sacramento do Pai por excelência: a sua vida foi
toda para os outros, toda amor, e, assim, plena
manifestação do Pai, que culminou em sua morte e
ressurreição, entrega livre que testemunha que Deus é
todo Amor e que o Amor é a Vida.
Tema 04 – A presença
de Cristo na Igreja
pelo Espírito Santo
Com a sua ressurreição e ascensão, Cristo inaugurou um
novo modo da sua presença no mundo. Esse evento não é
a sua ausência, o seu retirar-se, mas a consolidação de
sua presença entre nós, conosco, em nós. O corpo de
Jesus Ressuscitado não está em outra dimensão e apenas
projeta sua sombra na Igreja. Com a sua entrega de amor,
Cristo assumiu uma existência totalmente espiritual, isto é,
relacional: sua presença é sempre presença-para-o-outro;
está ali onde se lhe dá abertura.
Isso se dá no Espírito Santo, o amor de Deus, que nos faz
ver a presença do Senhor que enche o mundo e que é
desvelada, sobretudo, na liturgia. Cristo, cabeça e
membros, é o único sacerdote da nova aliança, isto é, o
mediador, o lugar do encontro entre Deus e a humanidade.
A liturgia é exercício de sua função sacerdotal: é ele que
ora e celebra em nós, é nele que o mistério é celebrado.
Assim, a Igreja e a liturgia são o prolongamento da ação
salvífica de Deus.
Tema 05 – A liturgia,
memorial e
celebração do
mistério de Cristo
Israel celebrava a páscoa como um memorial, isto é, por
meio de um rito que permitia, pela participação nele, a
participação naquele evento recordado. Não se tratava de
uma mera lembrança da libertação, mas de uma
atualização. Acontece o mesmo na liturgia cristã, memorial
da libertação realizada em Cristo. Nela, recordamos no
Espírito a salvação realizada e a tornamos presente pelo
mesmo Espírito. Esse memorial é celebrado, isto é,
expresso em sinais sensíveis, manifestado visivelmente.
O encontro entre Deus e a humanidade se dá em um ato
comunicativo vivenciado com todo o nosso ser: corpo,
espírito, interioridade e relações. É um momento específico
em que, em comunidade, abrimos espaço para que Deus
se manifeste. A sua presença, assim, por meio dos
sacramentos, nos toca e nos transforma, realizando em nós
a salvação, isto é, a comunhão com Deus-Amor e a
transformação da nossa vida em amor.
Na Prática
O conteúdo desta primeira aula é fundamental para seguir
adiante, já que o tempo todo nos referiremos à liturgia
como a "celebração do mistério pascal de Cristo". Por isso,
é importante que você pergunte a si mesmo como vive
esse mistério da salvação. Tudo o que aqui foi dito – a
nossa participação na vida de Cristo, a revelação de Deus-
Amor, a presença de Cristo na Igreja por meio do Espírito:
para você se tratam de frases, de conceitos, ou de algo
vivido, experimentado? Até que ponto você enxerga a vida,
morte e ressurreição de Cristo como o sinal maior do amor
de Deus por você?
Neste ponto, é bom pararmos um pouco e orarmos,
meditando sobre o olhar misericordioso de Deus sobre nós,
que se expressa por meio de tantos sinais na nossa vida.
Finalizando
Esta primeira aula foi fundamental para inserir o tema da
liturgia em uma visão orgânica da vida cristã, em profunda
relação com o coração da nossa fé, o mistério de Cristo. O
que aqui foi colocado é pressuposto para o que vem em
seguida e, por isso, não pode ficar à margem. Mais do que
não esquecer esse conteúdo, importa torná-lo vida.
Deixar-se inserir no mistério de Cristo, compreendendo que
esse caminho é o caminho da verdadeira formação cristã,
mais do que o estudo da doutrina ou a obediência a
normas. A vida em Cristo – como filhos de Deus, ungidos
pelo Espírito e servos da humanidade –, a vida de
discípulos-missionários, de salvos-salvadores com Cristo, é
que constitui a existência cristã.
Referências
BUYST, I.; SILVA, J. A. da. O mistério
celebrado: memória e compromisso I. São Paulo:
Paulinas; Valência: Siquem, 2003.
CASTELLANO, J. Liturgia e vida espiritual: teologia,
celebração, experiência. São Pulo: Paulinas, 2008.
CELAM. Manual de liturgia II: a celebração do mistério
pascal: fundamentos teológicos e elementos constitutivos.
São Paulo: Paulus, 2005.
GERHARDS, A.; KRANEMANN, B. Introdução à liturgia.
São Paulo: Edições Loyola, 2012