Desportos de Natureza e Sustentabilidade
Desportos de Natureza e Sustentabilidade
Tese de Doutoramento em Turismo, Lazer e Cultura – ramo Lazer e Desporto, orientada pelo Professor
Doutor Rui Adelino Machado Gomes e apresentada à Faculdade de Ciências do Desporto e Educação
Física da Universidade de Coimbra.
Setembro de 2013
FACULDADE DE LETRAS
FACULDADE DE CIÊNCIAS DO DESPORTO E EDUCAÇÃO FÍSICA
COIMBRA
2013
RICARDO JOSÉ ESPÍRITO SANTO DE MELO
COIMBRA
2013
Melo, R. (2013). Desportos de Natureza e Desenvolvimento Local Sustentável:
Análise dos Praticantes e das Organizações Promotoras dos Desportos de
Natureza. Tese de Doutoramento, Faculdade de Letras e Faculdade de Ciências do
Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal.
ii
Parte dos resultados desta tese foram apresentados nos seguintes eventos
científicos:
iii
Melo, R., & Gomes, R. (2011). From the naturalistic movements to the nature sports
[Abstract]. In J-F. Loudcher, M. Hasse, e C. Neto (Ed.), Book of Abstracts of
the XVIth International Congress. Sport and Tourism (p. 59). Estoril, Portugal:
Faculdade de Motricidade Humana. ISBN: 978-972735-177-0.
Melo, R., & Gomes, R. (2010, Abril). Desportos de Natureza e Desenvolvimento
Local: estado da arte. In 7th International Week of ESEC: Sustainable World.
Coimbra, Portugal: Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de
Coimbra.
Melo, R., & Gomes, R. (2010, Junho). Nature Sports and Local Development: a
Research Project. Paper presented at the CIT 2010, International Congress on
Tourism: Heritage & Innovation. Porto, Portugal: Instituto Superior de Ciências
Empresariais e do Turismo.
Melo, R., & Gomes, R. (2010). Nature Sports and Local Development [Abstract].
Proceedings of EASS 2010, European Association for Sociology of Sport
Conference: Sport, Health and Environment. Revista Portuguesa de Ciências
do Desporto, 10(1) (supl.), p. 46. ISSN: 1645-0521.
Melo, R., & Gomes, R. (2010, Março). Nature Sports and Local Development: state
of the art. Poster session at the 17th Erasmus/Socrates Intensive Course:
Sport and Leisure. Hamburg, Germany: Hamburg University.
Melo, R., & Gomes, R. (2009, Outubro). Desportos de Natureza e Desenvolvimento
Local: Projecto de Investigação. In 1º Workshop do Programa de
Doutoramento em Turismo, Lazer e Cultura. Coimbra, Portugal: Faculdade de
Letras e Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da
Universidade de Coimbra.
iv
À Joana e ao Duarte
AGRADECIMENTOS
vii
realizadas nestes últimos anos, que me fizeram crescer tanto a nível profissional,
como a nível pessoal.
A todos os meus amigos e colegas que me deram força para realizar esta
viagem, em especial aos meus amigos da Confraria da Xixa, por todos os bons
momentos que tivemos e que me fizeram esquecer, embora temporariamente, as
agruras da vida.
À minha família, que sempre me apoiou de forma incondicional em todas as
minhas aventuras, mesmo sem compreender muitas das vezes o significado do que
eu estava a fazer.
Um agradecimento muito especial aos meus pais, que sempre foram a minha
grande referência, e que tudo fizeram para que eu pudesse chegar sempre mais
além.
Ao Duarte, que nasceu a meio da viagem, quero pedir desculpa pelas minhas
ausências, não só físicas, mas principalmente mentais. Foste sempre a bonança no
meio da tempestade que por diversas vezes se fez sentir.
À Joana, por toda a sua dedicação, especialmente durante estes últimos
cinco anos. Por ter estado sempre presente, mesmo quando não era fácil estar, por
ter sido a força que me impulsionou a empreender esta jornada, por nunca me ter
deixado abandonar esta viagem, mesmo quando eu achava que era impossível
chegar ao final da aventura. Sem ti tudo teria sido bem mais difícil.
A todos agradeço por ter chegado ao cume da montanha e por ter conseguido
regressar…
viii
RESUMO
ix
suas actividades preferencialmente no concelho de residência. No entanto, este
perfil de prática é distinto em função das diferentes características de cada
actividade dos DN, do perfil dos praticantes e do âmbito socio-organizacional da
prática. Em relação à oferta, foram identificadas quatro tipologias de OPDN:
empresas (turismo, desporto, etc.); clubes desportivos; clubes de praticantes e
associações (ambientalistas, culturais, desportivas, recreativas, etc.). Os resultados
apontam para uma oferta distinta pelos diferentes tipos de OPDN. Os dados
mostram que o surf é a actividade desenvolvida por mais empresas; o BTT, a vela e
as multiactividades por mais clubes desportivos; e o BTT e o pedestrianismo pela
maioria das associações. Os resultados indicam que tanto os praticantes como os
dirigentes das OPDN consideram as três dimensões dos impactos (ambientais,
económicos e socioculturais) como geralmente positivas, sugerindo que o impacto
dos DN na sustentabilidade do desenvolvimento local é positivo. Os resultados
mostram também que ambos os grupos (praticantes e dirigentes) percepcionam, de
forma geral, a repercussão dos impactos positivos como relevantes, e os impactos
negativos como não relevantes. Tanto os praticantes com os dirigentes das OPDN
indicam apresentar um comportamento sustentável nos locais de destino e junto das
comunidades locais. Os praticantes dos DN referem que os valores despendidos
com as práticas dos DN são expressivos, quando comparados com os valores
médios gastos com as actividades de lazer turístico em Portugal, o que mostra que
os DN são uma componente importante do lazer e do turismo dos praticantes. A
maioria dos dirigentes das OPDN também considera que o sector dos DN apresenta
um potencial de crescimento nos próximos 10 anos. A segmentação dos praticantes,
baseada nas razões (benefícios esperados) para a prática dos DN, resultou em seis
grupos de praticantes: aventureiros ambientalistas, aventureiros sociabilizadores,
ambientalistas eclécticos, aventureiros competitivos, higienistas ambientalistas, e
turistas ambientalistas. Estes seis segmentos foram caracterizados em função das
características dos praticantes que os compõem.
x
ABSTRACT
Nature Sports (NS) are a growing phenomenon around the world and their
contribution for the sustainability of territories is well accepted. This thesis aims to: i)
characterize the NS practitioners, over 18 years, residents in mainland Portugal,
identifying their demographic characteristics, leisure practices and free time uses,
and NS practice profile; ii) characterize the Nature Sports Organizations (NSO),
operating in mainland Portugal, identifying their general profile, the supply and
demand characteristics, and the profile of its managers; iii) identify the impacts
(environmental, economic and sociocultural) generated by NS and their contribution
for the sustainability of local development, based on the perception of the NS
practitioners and promoters of these activities, and their behaviors in the local of the
practices. The data was collected by applying two online questionnaires to a sample
of practitioners (n=1126), and NSO managers (n=166), and analyzed using the
Statistical Package for Social Sciences (SPSS) software. The general profile of the
NS practitioner corresponds to a young male, single, with a higher level of education,
employed in highly qualified professionals groups, with an economic capital above
the national average, and resident on the coastal region of the country. They present
an active lifestyle, centered on expressive practices (sports and outdoor). Regarding
the NS practices, the data points to a satisfied demand, although the inquired
practitioners indicate they would like to experience the favorite activity more often,
assuming some constraints that affect the frequency of their practices, based mainly
in lack of time and money. On the other hand, the environmental (e.g. for the contact
with nature) and adventure (e.g. to have new experiences and adventure sensations)
issues are the main reasons for practicing NS. The data suggests that MTB, followed
by trekking and kayaking, are the most practiced NS in Portugal. The NS are, in
general, performed throughout the year at least once a week, on weekends, and
during the morning. Practitioners travel to various areas of practice (without fixed
places to practice), performing their activities preferably in the county of residence.
However, this practice profile is distinguished according to the different
characteristics of each NS activity, the practitioners’ profile, and socio-organizational
scope of the practices. On the supply side, four types of NSO were identified:
business (tourism, sports, etc.); sport clubs; practitioners clubs; and associations
xi
(environmental, cultural, sporting, recreational, etc.). The results point to a distinct
offer by the different types of NSO. The data shows that surfing is the activity
developed by more companies; MTB, sailing and multiple activities by more sports
clubs; and MTB and trekking by most associations. The results indicate that both NS
practitioners and NSO managers consider the three dimensions of the impacts
(environmental, economic and socio-cultural) as generally positive, suggesting that
the NS impact on the sustainability of local development is positive. The results also
show that both groups (practitioners and managers) perceive, in general, that the
repercussion of the positive impacts is relevant, and the negative impacts are not
relevant. Both NS practitioners and NSO managers indicate to present a sustainable
behavior in the destinations of practices and with the local communities. Practitioners
report that the values spent with NS practices are significant when compared with the
average spent with leisure tourism in Portugal, which shows that NS are an important
component of leisure and tourism for them. Most NSO managers also consider that
the NS sector has growth potential for the next 10 years. The segmentation of
practitioners, based on the motivations (expected benefits) for the NS practice
resulted in six groups of practitioners: environmentalists’ adventurers, sociable
adventurers, eclectic environmentalists, competitive adventurers, environmental
hygienists, and environmentalists’ tourists. These six segments were characterized
according to the characteristics of the practitioners that compose them.
xii
SUMÁRIO
xiii
2.4.1. TIPOLOGIAS E SECTORES DE PRÁTICA DOS DESPORTOS
DE NATUREZA .............................................................................. 97
2.4.2. SISTEMAS DE CLASSIFICAÇÃO DOS DESPORTOS DE
NATUREZA .................................................................................. 101
2.5. A PARTICIPAÇÃO NOS DESPORTOS DE NATUREZA .......................... 107
2.5.1. OS DESPORTOS DE NATUREZA E AS CULTURAS
DESPORTIVAS ............................................................................ 107
2.5.2. OS DESPORTOS DE NATUREZA E A PERSPECTIVA DO
SERIOUS LEISURE .................................................................... 116
2.5.3. OS DESPORTOS DE NATUREZA E AS TEORIAS DO RISCO .. 122
2.5.4. MOTIVAÇÕES, PREFERÊNCIAS E CONSTRANGIMENTOS À
PRÁTICA DOS DESPORTOS DE NATUREZA............................ 129
2.5.5. EXPERIÊNCIA, COMPETÊNCIA, INDEPENDÊNCIA E
COMERCIALIZAÇÃO DOS DESPORTOS DE NATUREZA ........ 139
2.6. AS ORGANIZAÇÕES DOS DESPORTOS DE NATUREZA ..................... 143
2.6.1. O MODELO EUROPEU DE ORGANIZAÇÃO DO DESPORTO .. 143
2.6.2. AS ORGANIZAÇÕES PROMOTORAS DOS DESPORTOS DE
NATUREZA .................................................................................. 145
2.6.3. PERSPECTIVAS SOBRE AS ORGANIZAÇÕES
PROMOTORAS DOS DESPORTOS DE NATUREZA ................. 153
2.7. OS DESPORTOS DE NATUREZA E O DESENVOLVIMENTO LOCAL ... 166
2.7.1. O CONCEITO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ......... 166
2.7.2. OPERACIONALIZAÇÃO DO CONCEITO DE
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL....................................... 171
2.7.3. O CONCEITO DE DESENVOLVIMENTO LOCAL ....................... 175
2.7.4. CONTRIBUTOS DOS DESPORTOS DE NATUREZA PARA A
SUSTENTABILIDADE DO DESENVOLVIMENTO LOCAL .......... 178
III. A PROBLEMÁTICA E OS OBJECTIVOS DO ESTUDO .................................. 187
3.1. NOTA INTRODUTÓRIA ............................................................................ 189
3.2. ENUNCIADO DO PROBLEMA ................................................................. 189
3.3. OBJECTIVOS DO ESTUDO..................................................................... 192
IV. METODOLOGIA ............................................................................................... 195
4.1. NOTA INTRODUTÓRIA ............................................................................ 197
4.2. OS DESPORTOS DE NATUREZA SELECCIONADOS ........................... 198
4.3. UNIVERSO E PLANO DA AMOSTRA ...................................................... 198
xiv
4.3.1. UNIVERSO E AMOSTRA DOS PRATICANTES DOS
DESPORTOS DE NATUREZA..................................................... 198
4.3.2. UNIVERSO E AMOSTRA DAS ORGANIZAÇÕES
PROMOTORAS DOS DESPORTOS DE NATUREZA ................. 199
4.4. INSTRUMENTOS DE RECOLHA DE DADOS ......................................... 201
4.4.1. INQUÉRITOS POR QUESTIONÁRIO ......................................... 201
4.4.2. INQUÉRITO POR QUESTIONÁRIO AOS PRATICANTES DOS
DESPORTOS DE NATUREZA..................................................... 203
4.4.3. INQUÉRITO POR QUESTIONÁRIO ÀS ORGANIZAÇÕES
PROMOTORAS DOS DESPORTOS DE NATUREZA ................. 204
4.5. RECOLHA DOS DADOS .......................................................................... 205
4.5.1. RECOLHA DOS DADOS SOBRE OS PRATICANTES DOS
DESPORTOS DE NATUREZA..................................................... 205
4.5.2. RECOLHA DOS DADOS SOBRE AS ORGANIZAÇÕES
PROMOTORAS DOS DESPORTOS DE NATUREZA ................. 206
4.6. TRATAMENTO DOS DADOS ................................................................... 207
V. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ................................. 211
5.1. NOTA INTRODUTÓRIA ............................................................................ 213
5.2. OS PRATICANTES DOS DESPORTOS DE NATUREZA......................... 213
5.2.1. APONTAMENTOS INICIAIS ........................................................ 213
5.2.2. PERFIL SOCIODEMOGRÁFICO DOS INQUIRIDOS .................. 216
5.2.3. PRÁTICAS DE LAZER E ESTILOS DE VIDA DOS
PRATICANTES DOS DESPORTOS DE NATUREZA .................. 226
5.2.4. CARACTERIZAÇÃO DO PERFIL DA PRÁTICA DOS
DESPORTOS DE NATUREZA..................................................... 239
5.2.5. SÍNTESE CONCLUSIVA.............................................................. 267
5.3. AS ORGANIZAÇÕES PROMOTORAS DOS DESPORTOS DE
NATUREZA .............................................................................................. 272
5.3.1. APONTAMENTOS INICIAIS ........................................................ 272
5.3.2. CARACTERIZAÇÃO SOCIODEMOGRÁFICA DOS
DIRIGENTES DAS ORGANIZAÇÕES PROMOTORAS DOS
DESPORTOS DE NATUREZA..................................................... 279
5.3.3. PERFIL GERAL DAS ORGANIZAÇÕES PROMOTORAS DOS
DESPORTOS DE NATUREZA..................................................... 282
5.3.4. CARACTERIZAÇÃO DA OFERTA DAS ORGANIZAÇÕES
PROMOTORAS DOS DESPORTOS DE NATUREZA ................. 288
xv
5.3.5. CARACTERIZAÇÃO DA PROCURA NAS ORGANIZAÇÕES
PROMOTORAS DOS DESPORTOS DE NATUREZA ................. 298
5.3.6. SÍNTESE CONCLUSIVA.............................................................. 306
5.4. CARACTERIZAÇÃO DOS IMPACTOS DOS DESPORTOS DE
NATUREZA NA SUSTENTABILIDADE DO DESENVOLVIMENTO
LOCAL E DOS COMPORTAMENTOS NOS LOCAIS DE DESTINO
DAS PRÁTICAS ....................................................................................... 312
5.4.1. APONTAMENTOS INICIAIS ........................................................ 312
5.4.2. ANÁLISE DA PERCEPÇÃO SOBRE OS IMPACTOS E DOS
COMPORTAMENTOS DOS PRATICANTES DOS
DESPORTOS DE NATUREZA NOS LOCAIS DE PRÁTICA........ 314
5.4.3. ANÁLISE DA PERCEPÇÃO SOBRE OS IMPACTOS E DOS
COMPORTAMENTOS DAS ORGANIZAÇÕES PROMOTORAS
DOS DESPORTOS DE NATUREZA NOS LOCAIS DE
PRÁTICA ..................................................................................... 331
5.4.4. SÍNTESE CONCLUSIVA.............................................................. 340
5.5. PERFIL DOS SEGMENTOS DOS PRATICANTES DOS DESPORTOS
DE NATUREZA ........................................................................................ 342
5.5.1. APONTAMENTOS INICIAIS ........................................................ 342
5.5.2. ABORDAGEM METODOLÓGICA ............................................... 344
5.5.3. SEGMENTOS DOS PRATICANTES DOS DESPORTOS DE
NATUREZA .................................................................................. 346
5.5.4. CARACTERÍSTICAS DOS SEGMENTOS DOS PRATICANTES
DOS DESPORTOS DE NATUREZA ............................................ 349
5.5.5. SÍNTESE CONCLUSIVA.............................................................. 358
VI. CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................. 365
6.1. NOTA INTRODUTÓRIA ............................................................................ 367
6.2. CONCLUSÕES GERAIS .......................................................................... 367
6.3. LIMITAÇÕES DO ESTUDO ...................................................................... 381
6.4. PERSPECTIVAS FUTURAS .................................................................... 382
BIBLIOGRAFIA ....................................................................................................... 385
ANEXOS ................................................................................................................. 409
xvi
LISTA DE GRÁFICOS
xvii
Gráfico 24. Valores médios da importância das razões (constrangimentos)
apontadas pelos praticantes para não praticarem de forma tão regular, nas
nove actividades dos Desportos de Natureza onde se obtiveram mais
respostas, numa escala de 1 a 5, em que 1 corresponde a nada importante
e 5 a totalmente importante.............................................................................. 264
Gráfico 25. Grau de associação à prática dos Desportos de Natureza apontado
pelos praticantes das nove actividades onde se obtiveram mais respostas. ... 266
Gráfico 26. Número de Organizações Promotoras de Desportos de Natureza, em
Portugal continental, por tipologia de organização........................................... 273
Gráfico 27. Sexo dos dirigentes das Organizações Promotoras dos Desportos de
Natureza........................................................................................................... 279
Gráfico 28. Nível de escolaridade dos dirigentes das Organizações Promotoras
dos Desportos de Natureza.............................................................................. 280
Gráfico 29. Percepção dos impactos ambientais por parte dos praticantes dos
Desportos de Natureza. ................................................................................... 315
Gráfico 30. Percepção dos impactos económicos por parte dos praticantes dos
Desportos de Natureza. ................................................................................... 315
Gráfico 31. Percepção dos impactos socioculturais por parte dos praticantes dos
Desportos de Natureza. ................................................................................... 315
Gráfico 32. Classificação média da repercussão dos impactos (ambientais,
económicos e socioculturais) no desenvolvimento local por parte dos
praticantes dos Desportos de Natureza. .......................................................... 316
Gráfico 33. Classificação da repercussão dos impactos ambientais no
desenvolvimento local por parte dos praticantes dos Desportos de Natureza. 317
Gráfico 34. Classificação da repercussão dos impactos económicos no
desenvolvimento local por parte dos praticantes dos Desportos de Natureza. 318
Gráfico 35. Classificação da repercussão dos impactos socioculturais no
desenvolvimento local por parte dos praticantes dos Desportos de Natureza. 319
Gráfico 36. Índice de comportamentos sustentáveis. .............................................. 322
Gráfico 37. Índice de comportamentos sustentáveis por idade. .............................. 322
Gráfico 38. Forma de deslocação para os locais de prática. ................................... 323
Gráfico 39. Forma de realizar as refeições nos locais de prática. ........................... 324
Gráfico 40. Percentagem de vezes que os praticantes pernoitaram quando
praticaram Desportos de Natureza. ................................................................. 325
Gráfico 41. Tipologia de alojamento utilizado pelos praticantes quando
pernoitaram para realizar Desportos de Natureza. .......................................... 325
Gráfico 42. Rubrica de despesas efectuadas pelos praticantes para realizar
Desportos de Natureza. ................................................................................... 326
Gráfico 43. Rubrica de despesas efectuadas pelos praticantes para realizar
Desportos de Natureza nos locais de prática. .................................................. 326
Gráfico 44. Valor dos gastos com os Desportos de Natureza. ................................ 329
Gráfico 45. Percentagem dos gastos despendidos com os Desportos de
Natureza nos locais das práticas. .................................................................... 329
Gráfico 46. Percepção dos impactos ambientais por parte dos dirigentes das
Organizações Promotoras dos Desportos de Natureza. .................................. 331
xviii
Gráfico 47. Classificação da repercussão dos impactos ambientais no
desenvolvimento local por parte dos dirigentes das Organizações
Promotoras dos Desportos de Natureza. ......................................................... 332
Gráfico 48. Percepção dos impactos económicos por parte dos dirigentes das
Organizações Promotoras dos Desportos de Natureza. .................................. 333
Gráfico 49. Classificação da repercussão dos impactos económicos no
desenvolvimento local por parte dos dirigentes das Organizações
Promotoras dos Desportos de Natureza. ......................................................... 334
Gráfico 50. Percepção dos impactos socioculturais por parte dos dirigentes das
Organizações Promotoras dos Desportos de Natureza. .................................. 335
Gráfico 51. Classificação da repercussão dos impactos socioculturais no
desenvolvimento local por parte dos dirigentes das Organizações
Promotoras dos Desportos de Natureza. ......................................................... 336
Gráfico 52. Plano de boas práticas e/ou código de conduta. .................................. 340
Gráfico 53. Distribuição da média das razões apontadas pelos membros de cada
grupo para a prática dos Desportos de Natureza por cada segmento. ............ 347
Gráfico 54. Distribuição da média dos factores da associação aos Desportos de
Natureza por cada segmento. .......................................................................... 347
xix
LISTA DE TABELAS
xx
Tabela 30. Âmbito socio-organizacional da prática dos Desportos de Natureza.--- 249
Tabela 31. Âmbito organizado da prática dos Desportos de Natureza. --------------- 250
Tabela 32. Razões para a prática dos Desportos de Natureza. ------------------------- 260
Tabela 33. Constrangimentos à prática dos Desportos de Natureza.------------------ 262
Tabela 34. Características associadas aos Desportos de Natureza. ------------------ 265
Tabela 35. Tipologias de Organizações Promotoras dos Desportos de Natureza
por distrito. --------------------------------------------------------------------------------------- 275
Tabela 36. Caracterização das Federações que tutelam as 23 actividades dos
Desportos de Natureza. ---------------------------------------------------------------------- 277
Tabela 37. Número de clubes de praticantes por actividade. ---------------------------- 278
Tabela 38. Idade dos dirigentes das Organizações Promotoras dos Desportos de
Natureza. ----------------------------------------------------------------------------------------- 279
Tabela 39. Forma de exercício das funções dos dirigentes nas Organizações
Promotoras dos Desportos de Natureza. ------------------------------------------------ 280
Tabela 40. Número de horas de dedicação dos dirigentes às Organizações
Promotoras dos Desportos de Natureza. ------------------------------------------------ 281
Tabela 41. Ocupação profissional dos dirigentes das Organizações Promotoras
dos Desportos de Natureza. ---------------------------------------------------------------- 281
Tabela 42. Principal função dos dirigentes nas Organizações Promotoras dos
Desportos de Natureza. ---------------------------------------------------------------------- 282
Tabela 43. Número de Organizações Promotoras dos Desportos de Natureza por
tipologia. ------------------------------------------------------------------------------------------ 283
Tabela 44. Forma jurídica das Organizações Promotoras dos Desportos de
Natureza. ----------------------------------------------------------------------------------------- 283
Tabela 45. Distribuição geográfica da sede social das Organizações Promotoras
dos Desportos de Natureza. ---------------------------------------------------------------- 284
Tabela 46. Âmbito territorial de referência das Organizações Promotoras dos
Desportos de Natureza para o desenvolvimento das suas actividades. -------- 285
Tabela 47. Ano de fundação das Organizações Promotoras dos Desportos de
Natureza. ----------------------------------------------------------------------------------------- 286
Tabela 48. Fundação das Organizações Promotoras dos Desportos de Natureza. 287
Tabela 49. Empregados das Organizações Promotoras dos Desportos de
Natureza. ----------------------------------------------------------------------------------------- 287
Tabela 50. Número de Desportos de Natureza desenvolvidos pelas
Organizações Promotoras dos Desportos de Natureza. ---------------------------- 288
Tabela 51. Actividades dos Desportos de Natureza mais oferecidas e mais
desenvolvidas pelas Organizações Promotoras dos Desportos de Natureza. 290
Tabela 52. Actividades que as Organizações Promotoras dos Desportos de
Natureza prevêem que constitua uma nova oferta.----------------------------------- 291
Tabela 53. Número de actividades que as Organizações Promotoras dos
Desportos de Natureza prevêem cancelar. --------------------------------------------- 292
Tabela 54. Oferta de actividades complementares pelas Organizações
Promotoras dos Desportos de Natureza. ------------------------------------------------ 292
Tabela 55. Âmbito de organização das actividades dos Desportos de Natureza. -- 293
xxi
Tabela 56. Formação dos técnicos das Organizações Promotoras dos Desportos
de Natureza. ------------------------------------------------------------------------------------- 294
Tabela 57. Tipo de formação fornecida pelas Organizações Promotoras dos
Desportos de Natureza. ---------------------------------------------------------------------- 294
Tabela 58. Pedido de autorização dos espaços de prática dos Desportos de
Natureza. ----------------------------------------------------------------------------------------- 295
Tabela 59. Equipamentos das Organizações Promotoras dos Desportos de
Natureza. ----------------------------------------------------------------------------------------- 296
Tabela 60. Critérios de segmentação utilizados pelas Organizações Promotoras
dos Desportos de Natureza. ---------------------------------------------------------------- 297
Tabela 61. Principais formas de divulgação das actividades utilizados pelas
Organizações Promotoras dos Desportos de Natureza. ---------------------------- 297
Tabela 62. Principais canais de distribuição de distribuição utilizados pelas
Organizações Promotoras dos Desportos de Natureza. ---------------------------- 298
Tabela 63. Estratégias de comercialização utilizados pelas Organizações
Promotoras dos Desportos de Natureza. ------------------------------------------------ 298
Tabela 64. Número de praticantes das Organizações Promotoras dos Desportos
de Natureza. ------------------------------------------------------------------------------------- 299
Tabela 65. Crescimento do número de praticantes das Organizações Promotoras
dos Desportos de Natureza. ---------------------------------------------------------------- 299
Tabela 66. Frequência da procura das actividades/serviços das Organizações
Promotoras dos Desportos de Natureza. ------------------------------------------------ 300
Tabela 67. Sazonalidade da procura das actividades/serviços das Organizações
Promotoras dos Desportos de Natureza. ------------------------------------------------ 300
Tabela 68. Nível de experiência dos praticantes das Organizações Promotoras
dos Desportos de Natureza. ---------------------------------------------------------------- 301
Tabela 70. Sexo dos praticantes nas Organizações Promotoras dos Desportos
de Natureza. ------------------------------------------------------------------------------------- 301
Tabela 69. Idade dos praticantes nas Organizações Promotoras dos Desportos
de Natureza. ------------------------------------------------------------------------------------- 302
Tabela 71. Base territorial de recrutamento dos praticantes das Organizações
Promotoras dos Desportos de Natureza. ------------------------------------------------ 303
Tabela 72. Constrangimentos apontados pelos dirigentes das Organizações
Promotoras dos Desportos de Natureza para a prática dos Desportos de
Natureza. ----------------------------------------------------------------------------------------- 304
Tabela 73. Razões apontadas pelos dirigentes das Organizações Promotoras
dos Desportos de Natureza para a prática dos Desportos de Natureza. ------- 304
Tabela 74. Perspectivas de crescimento das actividades dos Desportos de
Natureza ------------------------------------------------------------------------------------------ 305
Tabela 75. Perspectivas de futuro do sector dos Desportos de Natureza. ----------- 306
Tabela 76. Comportamentos dos praticantes dos Desportos de Natureza nos
locais de prática -------------------------------------------------------------------------------- 320
Tabela 77. Índice de comportamentos sustentáveis. --------------------------------------- 321
Tabela 78. Hierarquização das principais rubricas de despesas dos praticantes
com os Desportos de Natureza ------------------------------------------------------------ 328
xxii
Tabela 79. Classificação da repercussão dos impactos ambientais
percepcionados pelos dirigentes das diferentes Organizações Promotoras
dos Desportos de Natureza. ---------------------------------------------------------------- 333
Tabela 80. Classificação da repercussão dos impactos económicos
percepcionados pelos dirigentes das diferentes Organizações Promotoras
dos Desportos de Natureza. ---------------------------------------------------------------- 335
Tabela 81. Classificação da repercussão dos impactos socioculturais
percepcionados pelos dirigentes das diferentes Organizações Promotoras
dos Desportos de Natureza. ---------------------------------------------------------------- 337
Tabela 82. Comportamentos das Organizações Promotoras dos Desportos de
Natureza nos locais de prática. ------------------------------------------------------------ 339
Tabela 83. Índice de comportamentos sustentáveis das Organizações
Promotoras dos Desportos de Natureza. ------------------------------------------------ 339
Tabela 84. Tamanho dos segmentos dos praticantes dos Desportos de Natureza. 349
xxiii
LISTA DE MAPAS
Mapa 1. Distribuição dos inquiridos por distrito de Portugal continental. ------------- 225
Mapa 2. Distribuição geográfica das Organizações Promotoras dos Desportos de
Natureza por distrito de Portugal continental. ------------------------------------------ 274
xxiv
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
xxv
QPDN2011: Questionário aplicado aos Praticantes dos Desportos de Natureza -
2011
RAE: Resíduos Ajustados Estandardizados
REP: Recreation Experience Preference (Preferência da Experiência Recreativa)
RNAAT: Registo Nacional de Agentes de Animação Turística
RNCFD: Registo Nacional de Clubes e Federações Desportivas
RTR: Região de Turismo do Ribatejo
SPSS: Statistical Package for the Social Sciences (Estatística para as Ciências
Sociais)
SSS: Sensation Seeking Scale (Escala da Procura de Sensações)
TP: Turismo de Portugal
TV: Televisão
UE: União Europeia
UNEP: United Nations Environment Programme (Programa das Nações Unidas para
o Ambiente)
UNESCO: Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura
WCED: World Commission on Environment and Development (Comissão Mundial
em Ambiente e Desenvolvimento)
WTO [OMT]: World Tourism Organization [Organização Mundial de Turismo]
WTTC: World Travel & Tourism Council (Conselho Mundial de Viagens e Turismo)
xxvi
I. INTRODUÇÃO
1.1. APONTAMENTOS INICIAIS
A tese que aqui se apresenta, denominada de Desportos de Natureza e
Desenvolvimento Local Sustentável: Análise dos Praticantes e das Organizações
Promotoras dos Desportos de Natureza, corresponde ao trabalho de investigação
realizado no âmbito do programa de doutoramento em Turismo, Lazer e Cultura -
ramo Lazer e Desporto, bi-tutelado entre a Faculdade de Letras e a Faculdade de
Ciências da Educação Física e Desporto, da Universidade de Coimbra.
Qualquer trabalho de investigação, e mais ainda uma tese de doutoramento,
supõe enfrentar numerosos desafios, motivações e necessidades. A nível científico
encara-se o desafio da constituição de uma teoria, através de uma revisão da
literatura sobre o objecto de estudo que suporte o trabalho empírico a realizar; a
selecção de uma metodologia que se adeqúe às características da dimensão e da
problemática do estudo; o desafio de ampliação do conhecimento nas matérias em
estudo que sirva tanto a comunidade científica como a todos os agentes envolvidos
no campo de estudo. A título profissional, enquanto professor das unidades
curriculares relacionadas com os Desportos de Natureza, na Escola Superior de
Educação do Instituto Politécnico de Coimbra (ESEC), pela necessidade de
compreender este fenómeno nas suas diferentes dimensões. Por fim destaca-se, a
nível pessoal, o desenvolvimento da investigação em duas áreas que são
simultaneamente um desafio e uma motivação (Desportos de Natureza e
Desenvolvimento Local), aspectos que se consideram de maior importância para
desenvolver um projecto desta natureza.
29
procura, desta forma, uma ruptura com as evidências do senso comum. Com efeito,
a ciência e o senso comum, apesar de terem muitas vezes em comum um
determinado objecto real, pressupõem dois códigos de leitura diversos já que
consistem em objectos intelectuais distintos. A ciência apoia-se num universo
conceptual diferente que pressupõe uma série de novos conceitos e de relações
entre eles (Nunes, 1996).
As investigações em Ciências Sociais procuram o conhecimento da realidade
social – que constrói a respeito desta, e mediante quadros categoriais, operadores
lógicos de classificação, ordenações, etc. -, mediante processos complexos
influenciados ainda pelas nossas necessidades, vivências, interesses, instrumentos
que nos proporcionam informação sobre a realidade e modos de a tornar inteligível,
mas que nunca se confundem com ela. As Ciências Sociais “(...) procuram enunciar
leis científicas e recorrem a métodos de verificação que sujeitam os esquemas
teóricos ao controle dos factos de experiência” (Nunes, 1996, p. 202), na tentativa de
explicar, de forma articulada, as práticas e as estruturas sociais, quer dizer, as
condutas humanas e as condições materiais e simbólicas que delas resultam e, por
sua vez, as determinam (Silva & Pinto, 2005).
Com base neste paradigma de investigação, esta tese procura também a
solução para problemas que são racionalmente, e de uma forma geral, problemas
susceptíveis de resolução, através de uma actividade de pesquisa, que foge a
questões filosóficas, da religião ou da ideologia e se situa a um nível de abstracção
e generalidade que lhe permite elucidar regularidades, formular leis, e construir
modelos interpretativos. Este processo, mediante a elaboração e o teste dos meios
necessários (conjuntos coerentes de conceitos e relações entre conceitos, as
teorias, uma linguagem conceptual adequada e tanto quanto possível exclusiva,
instrumentos técnicos de recolha de tratamento de informação e métodos de
pesquisa) parte de princípios pressupostos e/ou de axiomáticas explícitas, e vai
construindo sistemas de relações conceptuais, primeiro assumidos hipoteticamente
e logo submetidos a sucessivas provas de validação, para chegar a resultados
transformados de imediato, ou a prazo, em novos problemas.
A delimitação do objecto científico de investigação das Ciências Sociais faz-se
progressivamente através de uma interrogação sistemática dos aspectos da
realidade social que resulta de problemáticas elaboradas e que vão definindo o seu
próprio objecto (Nunes, 1996). Por outro lado, tal como sugerem Silva e Pinto
30
(2005), quando se delimitam objectos de estudo suficientemente específicos para a
investigação, como é o caso, a pluridisciplinaridade torna-se inevitável. Desta forma,
para analisarmos os Desportos de Natureza como um fenómeno social, associado
ao desporto, ao turismo, ao lazer e à natureza, tem que se recorrer às distintas
perspectivas das Ciências Sociais como a História, a Sociologia, a Geografia, a
Economia, a Gestão, entre outras disciplinas científicas.
31
culturais únicos, inerentes a esses territórios. Tendo em conta que a actividade
turística necessita sempre de um espaço físico (natural e cultural) para o seu
desenvolvimento, uma vez que é este que providencia, de forma geral, as atracções
para os turistas, as condições oferecidas pelos territórios rurais e pelos espaços
naturais constituem-se como novos destinos turísticos.
Os Desportos de Natureza, associados ao lazer, têm-se afirmado como um
potencial factor de desenvolvimento do turismo e são, aliás, modalidades que
integram o Turismo de Natureza e o Turismo Náutico, dois dos dez produtos
incluídos no Plano Estratégico Nacional do Turismo (PENT) (Resolução do Conselho
de Ministros n.º 53/2007). A este respeito salienta-se que o Turismo de Natureza
induz um mercado de 22 milhões de viagens por ano, com crescimento anual médio
de 7% (valor estimado entre 1997 e 2004), representando 9% do total das viagens
de lazer realizadas pelos europeus (Turismo de Portugal, 2006a), enquanto o
Turismo Náutico totaliza aproximadamente 3 milhões de viagens representando,
aproximadamente, 1,2% do total das viagens de lazer realizadas pelos europeus,
com um mercado a crescer entre 8 e 10% ao ano (Turismo de Portugal, 2006b). De
salientar ainda que o turismo representa, em Portugal, 9,2% do Produto Interno
Bruto (PIB), gerando uma receita de 7,6 milhões de euros, e uma balança turística
positiva de 4,7 milhões de euros (Instituto Nacional de Estatística, 2011c).
Estas evidências levam-nos a considerar que os Desportos de Natureza têm
vindo a ter um crescimento acentuado, e têm-se consolidado desde a década de
1970 como um dos grupos mais sólidos e com mais futuro no âmbito da nova cultura
desportiva (Dias, Melo, & Júnior, 2007; Miranda, Lacasa, & Muro, 1995) e turística.
Este crescimento está associado quer à valorização do tempo de lazer, quer à busca
de actividades de ar livre (Costa L. P., 2007) e a uma maior necessidade de contacto
com a natureza, da procura de sensações e emoções numa sociedade demasiado
rotineira e controlada, de procura de novos estados de consciência numa sociedade
dessacralizada e laica, e um novo modo de viver o tempo livre (Miranda, Lacasa, &
Muro, 1995).
Uma série de indicadores balizam a emergência destas novas relações entre
desporto, turismo, lazer e natureza. Tem-se observado um conjunto de iniciativas e
produções literária-científicas centradas em torno destas inter-relações, salientando-
se a publicação, em Portugal, de um livro sob o tema Meio Ambiente e Desporto,
apresentado sob uma perspectiva internacional (Costa L. P., 1997) e que realça a
32
ligação entre o desporto e o desenvolvimento sustentável; e os três volumes que
apresentam os estudos e pesquisas no Brasil, de 1967 a 2007, sobre o tema Meio
Ambiente, Esporte, Lazer e Turismo, coordenados por Almeida e Costa (2007a;
2007b; 2007c). Também noutros países da Europa se tem prestado especial
atenção a esta problemática, salientando-se a título de exemplo, em França, alguns
números temáticos da revista Cahiers Espaces, e em Espanha na revista Apunts.
Esta temática tem sido abordada, também, em diversos encontros científicos onde
tem sido possível discutir os diversos problemas postos em causa.
A efervescência teórica e mediática em torno das práticas desportivas e
recreativas realizadas em espaços naturais tem também contribuído para uma
melhor compreensão das questões veiculadas por este fenómeno, em especial na
elaboração de mecanismos e de instrumentos que promovam o desenvolvimento
sustentável dos territórios onde se praticam estas actividades, salientando-se a
produção de legislação específica sobre estas actividades. O governo português,
reconhecendo a importância das actividades turísticas que são desenvolvidas nas
áreas naturais, e seguindo a resolução do Conselho de Ministros em 1996
(Resolução do Conselho de Ministros n.º 102/96), criou o Programa Nacional do
Turismo de Natureza (PNTN) (Resolução do Conselho de Ministros n.º 112/98). O
PNTN faz parte de um conjunto de orientações políticas internacionais direccionadas
para o desenvolvimento sustentável das áreas naturais. No caso particular do
turismo, visa permitir a recuperação e conservação do património natural e cultural
apoiado em quatro vectores principais: conservação da natureza, desenvolvimento
local, qualificação da oferta turística e diversificação da actividade turística. Um ano
mais tarde foi publicado o Regime Jurídico do Turismo de Natureza (Decreto-Lei n.º
47/99, de 16 de Fevereiro, alterado pelo Decreto-Lei n.º 56/2002, de 11 de Março),
que tem como objectivo enquadrar juridicamente as iniciativas do Turismo de
Natureza, exclusivamente na Rede Nacional de Áreas Protegidas (RNAP), visando a
promoção e afirmação dos valores e potencialidades que estes espaços encerram.
Reconhecendo também a importância das actividades desportivas em espaço
natural e as suas potencialidades para o desenvolvimento do Turismo de Natureza,
o governo português criou, em 1999, o Programa Desporto de Natureza em Áreas
Protegidas (Decreto Regulamentar n.º 18/99, Alterado pelo Decreto Regulamentar
n.º 17/2003, de 10 de Outubro). Este é um programa que visa regulamentar a
animação ambiental nas modalidades de animação, interpretação ambiental e
33
desporto de natureza nas áreas protegidas. Este diploma refere também a
obrigatoriedade da elaboração de uma Carta do Desporto de Natureza para cada
uma das Áreas Protegidas, constituindo uma tentativa de estruturação e ao mesmo
tempo de condicionamento dos locais de prática, relativamente à dimensão espacial
e temporal, tendo em conta as problemáticas e os impactos ambientais.
A publicação da Lei de Bases do Desporto (Lei n.º 30/2004, de 21 de Julho),
mais tarde complementada pela Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto
(Lei n.º 5/2007 de 16 de Janeiro), veio também consagrar a articulação entre a
prática desportiva e outros sectores, nomeadamente com o ambiente e o turismo.
Com o crescimento do sector empresarial no que se refere à animação
turística, o governo português estabeleceu pela primeira vez o enquadramento legal
destas actividades (de animação turística), que incluem a oferta empresarial dos
Desportos de Natureza (Decreto-Lei n.º 204/2000, de 1 de Setembro, alterado pelo
Decreto-Lei nº 108/2002, de 16 de Abril). Constatando a desactualização do diploma
anterior, quase uma década depois foi estabelecido um novo regime jurídico que
define as condições de acesso e de exercício da actividade das Empresas de
Animação Turística (EAT) e dos Operadores Marítimo-Turísticos (Decreto-Lei nº
108/2009, de 15 de Maio). Este diploma congrega o regime de acesso à actividade,
independentemente da modalidade de animação turística exercida, e cria o Registo
Nacional dos Agentes de Animação Turística (RNAAT), regulada por portaria própria
(Portaria n.º 1087/2010, de 22 de Outubro), e que contém uma relação actualizada
dos agentes a operar no mercado. Este diploma (Decreto-Lei nº 108/2009, de 15 de
Maio) prevê também que as actividades próprias da animação turística possam ser
desenvolvidas por outras entidades, que não as EAT (ou outras que tenham acesso
ao exercício destas actividades, como as agências de viagens), desde que
cumulativamente: pertençam ao movimento associativo, não tenham uma finalidade
lucrativa, prevejam no seu objecto social o desenvolvimento destas actividades, e
cumpram os requisitos legais exigidos. A referida lei (Decreto-Lei nº 108/2009, de 15
de Maio) prevê ainda que os agentes de animação turística possam desenvolver as
suas actividades em áreas classificadas ou outras com valores naturais (designadas
por actividades de Turismo de Natureza), desde que sejam reconhecidas como tal
pelo Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB). As empresas
que exerçam as actividades reconhecidas como Turismo de Natureza, assim como
as entidades do movimento associativo que desenvolvam actividades na rede das
34
áreas protegidas devem respeitar o código de conduta estabelecido por diploma
próprio (Portaria n.º 651/2009, de 12 de Junho).
O crescimento destas práticas tem originado, evidentemente, uma pressão
acrescida, que se traduz na ocorrência de impactos (ambientais, económicos e
socioculturais) positivos e/ou negativos nos locais de destino. Apesar de existirem
alguns instrumentos de planeamento, ordenamento e de preservação ambiental, em
especial nas áreas protegidas, como é o caso da referida Carta do Desporto da
Natureza (Decreto-Regulamentar nº 18/99, de 27 de Agosto), e da retórica
desenvolvimentista que acompanha o discurso dominante, em especial no domínio
político, não existem dispositivos, em Portugal, que permitam avaliar os impactos
dos Desportos de Natureza, e que evidenciem que o crescimento destas práticas
signifique desenvolvimento nas áreas de destino e entre as populações locais. Daí a
necessidade social e o interesse conceptual de identificar os impactos (ambientais,
socioculturais e económicos) dos Desportos de Natureza no desenvolvimento local
das comunidades de destino. Por outro lado, também não existem estudos, em
Portugal, que caracterizem em profundidade os praticantes e as organizações
promotoras destas actividades. Estas evidências levantam novos desafios à
investigação na tentativa de explicar este fenómeno nas suas diversas dimensões
(Dias, Melo, & Júnior, 2007).
35
corresponde ao rompimento com os preconceitos e as falsas evidências, que
somente nos dão a ilusão de compreender as coisas. A ruptura só poderá ser
atingida a partir de uma coerência conceptual, susceptível de exprimir a lógica que o
investigador supõe estar na base do fenómeno a estudar. Esta base teórica permite
criar as proposições explicativas desse fenómeno e, em simultâneo, prever qual o
plano de investigação a definir, as operações a aplicar e as conclusões que
consequentemente se podem esperar no final da observação. Uma proposição só
tem legitimidade científica quando pode ser verificada ou testada pelos factos,
designado por verificação ou experimentação, e corresponde ao terceiro acto do
processo (Quivy & Compenhoudt, 2005).
De acordo com este procedimento, esta tese está organizada em seis
capítulos: um inicial, introdutório, onde se faz o enquadramento do objecto de
estudo, incluindo a(s) questão(ões) de partida e os objectivos gerais da tese; um
segundo, exploratório, que apresenta um enquadramento teórico depois de
exploradas as leituras; um terceiro, construtivo, que apresenta a problemática e os
objectivos do trabalho; um quarto, metodológico, que apresenta o modelo de análise,
e os procedimentos metodológicos desenvolvidos para a realização da observação e
para o tratamento dos dados; um quinto, analítico, que apresenta os resultados e a
respectiva discussão desses resultados; e um sexto e último, conclusivo, que
apresenta as principais conclusões do trabalho e algumas recomendações para
futuras investigações.
36
estratégias de marketing, políticas de gestão, meios humanos e físicos utilizados?
De que forma é que atraem os praticantes para as suas organizações? Que relações
de animação e mediação se estabelecem entre estas e os praticantes?
iii) Relativamente à relação entre os Desportos de Natureza e o
desenvolvimento local, que impactos (ambientais, económicos e socioculturais)
decorrem nos locais de prática e nos territórios subjacentes, resultantes do
desenvolvimento das práticas dos Desportos de Natureza, e que repercussões têm
na sustentabilidade do desenvolvimento local, na perspectiva dos praticantes e dos
dirigentes das organizações que promovem os Desportos de Natureza?
37
II. ENQUADRAMENTO TEÓRICO
2.1. NOTA INTRODUTÓRIA
Este capítulo está dividido em sete secções, e apresenta-se com o intuito de
rever a literatura mais actualizada e mais relevante sobre a temática desta tese.
Nesta primeira parte, Nota Introdutória, são apresentados de uma forma muito
resumida os conteúdos das secções que se exploram de seguida.
A segunda secção, intitulada de Desportos de Natureza, Turismo e Lazer,
procura enquadrar e posicionar os Desportos de Natureza nas esferas do desporto,
do turismo, do lazer e da natureza. Inicialmente procura apresentar uma análise
sobre os tempos, espaços e práticas de lazer, culminando com a apresentação de
um conjunto alargado de tipologias de classificação das actividades de lazer e usos
dos tempos livres. A segunda parte desta secção prossegue com uma abordagem
ancorada no conceito de estilos de vida, explorando as diversas perspectivas
teóricas que analisam este tema. No final desta secção são examinados os
conceitos de desporto, turismo, lazer e natureza, de forma a compreender as suas
conexões quando relacionados com os Desportos de Natureza, destacando-se
algumas categorias conceptuais que emergem das interligações entre estes
conceitos, como são os casos do turismo desportivo, do turismo de natureza, do
turismo de aventura e do turismo activo.
A terceira secção, intitulada de Desportos de Natureza: Apontamentos
Históricos e Socioculturais, procura apresentar uma revisão da literatura centrada
nos aspectos históricos e socioculturais sobre as actividades realizadas na natureza.
A análise é efectuada desde as sociedades primitivas, seguindo um carácter
progressivo e inter-relacionado, onde se pretende mostrar uma evolução cronológica
que procura situar os diferentes níveis e os diferentes significados que foram sendo
atribuídos às actividades na natureza, culminando com a apresentação e
interpretação do significado e da influência sociocultural contemporânea destas
práticas.
Uma análise da Categorização das Práticas dos Desportos de Natureza é
realizada na quarta secção deste capítulo. São expostos as tipologias, modelos e
sectores da prática, e os sistemas que têm vindo a ser utilizados para classificar os
Desportos de Natureza, permitindo caracterizar e categorizar as diferentes
actividades que são incluídas neste sector.
Na quinta secção é efectuada uma revisão sobre os temas relacionados com
a Participação nos Desportos de Natureza. Partindo dos diferentes significados da
41
participação, esta secção é iniciada com a revisão sobre o tema das culturas
desportivas, prosseguindo com a análise da participação sob a perspectiva do
serious leisure (lazer sério) e, ainda, sobre as teorias sociológicas do risco.
Posteriormente é realizada uma interpretação da participação sob a óptica das
teorias psicossociológicas da motivação e dos constrangimentos para o lazer. A
secção é finalizada com a revisão sobre as atitudes e preferências na participação.
O tema das Organizações Promotoras dos Desportos de Natureza é
apresentado na sexta secção. A revisão é iniciada com uma abordagem ao Modelo
Europeu de Organização do Desporto, prosseguindo-se com a clarificação e a
definição conceptual sobre as organizações que promovem estas práticas em
Portugal, de acordo com a legislação em vigor. No final da secção são apresentadas
as diversas perspectivas teóricas que têm orientado os estudos empíricos sobre as
organizações que promovem os Desportos de Natureza.
A sétima secção procura enquadrar a relação entre os Desportos de Natureza
e Desenvolvimento Local. Começando com a análise do conceito de
desenvolvimento sustentável, sublinham-se de seguida os diversos paradigmas que
têm proposto a operacionalização deste conceito. A questão conceptual do
desenvolvimento local é o tema da terceira parte desta secção. Por fim são
apresentados os potenciais contributos que os Desportos de Natureza apresentam
para a sustentabilidade do desenvolvimento local.
42
de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se
ou, ainda, para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua
participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora após livrar-se ou
desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais” (Dumazedier,
1973, p. 34).
Duas críticas podem ser apontadas a esta definição: a primeira diz respeito à
oposição entre tempo de lazer e tempo de trabalho, que é exposta por Kelly (1972) e
Roberts (1978) quando consideram o princípio da ubiquidade do lazer na realidade
social - que pressupõe que se podem viver situações de lazer em diferentes
contextos sociais (família, trabalho e comunidade), não se estabelecendo uma
separação entre tempos-espaços de lazer e tempos-espaços de trabalho, como
demonstram alguns trabalhos (Boon, 2006; Filho, 2010); uma segunda crítica é
referente à questão da livre escolha individual, pois são evidentes os
constrangimentos no acesso às actividades de lazer, impostos pelos contextos
socioculturais (grupo de pertença, diferentes condições de acesso, etc.) (e.g.
Jackson, 2005a). Apesar destas críticas, a síntese de Dumazedier permitiu delimitar
o lazer como um objecto de estudo específico, distinguir o tempo livre do tempo de
lazer, e determinar as funções do lazer (Gomes R. A., 2005b).
Aos tempos e práticas de lazer são atribuídos diferentes significados em
função das diferentes concepções das Ciências Sociais. No entanto estas
concentram, de forma geral, a sua atenção nas relações entre o trabalho e o lazer
(Haworth & Veal, 2004). A este respeito Estanque (2005, p. 89) salienta: ”(…) umas
que acentuam o lazer como compensação ou oposição ao trabalho, outras que
põem a tónica no prolongamento entre os dois campos; umas pessimistas, que se
centram na desumanização do trabalho e na alienação, outras que salientam as
vantagens de acréscimo de tempos livres, proporcionado pelas tecnologias e
modalidades flexíveis de trabalho; umas sublinhando a mudança de valores e as
suas consequências em ambas as esferas, outras advogando a crescente ausência
de relação entre elas”.
Face a esta complexidade de análise, Rojek (1985) refere que o lazer deve
ser encarado nas suas múltiplas componentes e significados sociais, propondo
quatro regras fundamentais para a sua análise: 1) a actividade de lazer é um
fenómeno da vida adulta que se define em oposição ao mundo do jogo da criança;
2) a prática de lazer é uma conquista de actores qualificados e conhecedores; 3) a
43
estrutura e o desenvolvimento das relações de lazer é um efeito das regras de
legitimação de prazer e desprazer; 4) as relações de lazer devem ser
sociologicamente examinadas como dinâmicas, e como processos relativamente em
aberto.
O lazer e o turismo, na óptica de Estanque (2005), passaram a constituir,
desde meados do século XX, objectos decisivos da disputa hegemónica entre a
racionalidade mercantilista e a expressividade espontânea dos rituais recreativos
das culturas tradicionais. As necessidades de expansão do mercado e do
crescimento económico capitalista converteram o lazer e o turismo na mais poderosa
indústria moderna (Estanque, 2005), cujo crescimento “(…) está associado à
redução do horário de trabalho, aos novos tempos de emprego, ao aumento da
escolaridade obrigatória (que retarda a entrada no mercado de trabalho e cria um
grupo social muito propenso a actividades lúdicas), à crescente amplitude do
período pós-aposentação, ao desenvolvimento tecnológico, ao desemprego, à
melhoria da qualidade de vida, ao aumento dos rendimentos das famílias, à entrada
da mulher no mundo do emprego” (Santos, 2005, p. 130).
Nesta perspectiva, a massificação do tempo de lazer e a sua
institucionalização surgem como elementos identificadores daquilo que é designada
como a sociedade do lazer (Dumazedier, 1962), ou do tempo livre (Sue, 1982). O
lazer corresponde também à principal motivação para o trabalho da maioria da
população do mundo ocidental, quer por via do consumo quer por via da produção,
assumindo-se como a orientação central na vida quotidiana da população,
especialmente a que mantém relações significativas com o espaço urbano (Santos,
2005).
44
O tempo permeia cada aspecto da vida social e constitui a componente
básica de todos os fenómenos sociais. Nesta perspectiva, a atenção ao modo como
se usa o tempo, nas sociedades contemporâneas, é um factor muito importante para
a entender. Gama (2008, p. 85) refere que “compreender a sociedade é também
compreender como a imbricação do tempo e da duração geram as configurações
espaciais, as combinações espácio-temporais”. O processo de formação dos tempos
modernos é, nas palavras de R. A. Gomes (2005a), inextricável das condições em
que se realiza, e nesse sentido, a diversidade e a heterogeneidade dos tempos
sociais apenas pode ser surpreendida na globalidade das suas circunstâncias. O
tempo social constitui uma representação da organização social, dividida e
sequenciada pelos actos vividos pelos indivíduos, grupos e instituições, e que
podem ser distinguidos segundo diferentes categorias e ritmos (Gomes R. A.,
2005b).
Baseado numa perspectiva biopsicossocial, Munné (1985) apresenta uma
classificação do tempo social, constituída por quatro categorias:
a) A primeira categoria corresponderia ao tempo psicobiológico, que é
ocupado e organizado pelas necessidades biológicas e psíquicas elementares, que
engloba o tempo passado a dormir, a comer, na actividade sexual, etc., e portanto é
um tempo condicionado intrinsecamente;
b) A segunda categoria corresponderia ao tempo socioeconómico, que diz
respeito ao tempo subordinado ao trabalho e ao preenchimento das necessidades
económicas fundamentais, constituído pelas actividades laborais, pelas actividades
domésticas, pelos estudos, sendo um tipo de tempo que está, na sua quase
totalidade, condicionado socialmente, sendo apenas condicionado individualmente
nas circunstâncias que visam a realização pessoal;
c) a terceira categoria diz respeito ao tempo sociocultural, constituindo o
tempo dedicado às acções de sociabilidade dos indivíduos, resultante dos
compromissos assumidos pelos sistemas de valores estabelecidos pela sociedade,
e nesse sentido, tanto pode ser condicionado social como individualmente;
d) a quarta e última categoria, o tempo livre, referir-se-ia às acções humanas
realizadas sem ocorrência de uma necessidade ou pressão externa, onde o sujeito
actuaria com a intenção de fazer uso desse tempo com total liberdade, dependendo,
apenas, da sua percepção para o uso do seu tempo.
45
O tempo também surge associado a uma estrutura simbólica suportada por
duas séries de durações (Gama, 2008; Gomes R. A., 2005b): um tempo cíclico e um
tempo evolutivo. O primeiro é um tempo cósmico e portanto quantitativo, relacionado
com a alternância entre o dia e a noite, das estações, mas também um tempo
cronometrado da sociedade industrial; o segundo é um tempo sociocultural e por
conseguinte qualitativo, que se refere à vida e à sua evolução, e que tem como
conteúdo os hábitos, normas, representações e valores relativos a esse tempo.
O tempo é para Gama (2008, p. 86) a “sequência de instantes, quantificáveis,
de percepção diferenciada, longo ou curto, aprazível ou angustioso, célere ou
parado, inscreve-se na duração e, como o espaço, mede-se em distância”. A este
respeito, Gurvitch (1979) considera que o tempo aparece conceptualizado e
hierarquizado para cada tipo de sociedade, existindo um tempo de ritmo próprio que
se mede de forma específica no seio de cada agrupamento, e que aparece com uma
cadência lenta, média ou repentina. Nesta perspectiva, Pronovost (1996) distingue
três escalas de tempo ao associar o ritmo à estrutura simbólica: i) o tempo
macrossocial é o tempo à escala da sociedade global marcado pelos ritmos
sazonais ou anuais, os ciclos de vida, os horários de trabalho, o tempo escolar, os
circuitos de deslocação, a estrutura espaciotemporal das cidades, etc.; ii) o tempo
das organizações é um tempo gerado pelas diferentes organizações do trabalho,
que estruturam a vida segundo a organização dos horários por turnos, rotativos ou
contínuos, que influenciam grandemente o tempo microssocial dos trabalhadores; iii)
o tempo microssocial que é estruturado pela escala da vida quotidiana, e que
corresponde ao tempo ordinário e banal, tal qual é percebido, representado e vivido
pelos indivíduos e pelos grupos.
Dos factores que estruturam os tempos sociais, R. A. Gomes (2005b) dá
particular evidência a três deles: i) o tempo é estruturado em função das actividades
significativas que o compõem, e neste sentido, quanto maior é o coeficiente de
significação de uma actividade tanto mais estruturante ele é; ii) as redes de
interacção social, em função dos grupos e dos meios sociais, dos ritmos que lhe são
próprios e do seu sistema de valores, assim como os grupos de idade relacionados
com o ciclo de vida, têm um papel determinante na ancoragem dos lazeres e nas
suas actividades nucleares; iii) as significações sociais, que se referem a uma forma
de integração e inteligibilidade comuns que se observam a propósito de certos
acontecimentos ou actividades de lazer, e estão dependentes do sistema geral de
46
valores sociais, das normas de comportamento e das expectativas quanto ao
exercício dos papéis sociais. Com a mercantilização do lazer, as significações
sociais ligadas ao lazer criam simulacros de períodos que constituem eles próprios o
fluxo do tempo.
As actividades de lazer transformaram-se na própria definição de consumo
discricionário (Rojek, 1985; Schor, 1992), pois o tempo livre é hoje para todos os
grupos sociais um tempo de consumo, tornando-se este no principal indicador
temporal do lazer (Gomes R. A., 2005b).
47
se constitui como a expressão máxima da transformação do espaço em lugar
(Santos, 2005). A transformação de espaços em lugares depende das percepções
individuais e das percepções do grupo, expressas através de normas, regras,
reconhecimento, controlo, muitas vezes definidas pela apropriação dos espaços e
acções de outras pessoas ou instituições (Santos, 2005). Os lugares também se
opõem aos não-lugares, pois estes últimos são espaços de passagem incapazes de
dar forma a qualquer tipo de identidade (Augé, 2005).
A lógica capitalista do lazer, devotada à obtenção de lucro, deteve o primado
na exploração dos espaços outrora vazios (Lefèbvre, 1974; Santos, 2005), desde as
praias (turismo de sol e mar), às altas montanhas (escalada, montanhismo), aos rios
e quedas de água (canoagem e canyoning), aos grandes desertos (expedições e
desportos motorizados), às entranhas da terra (espeleologia), às grandes florestas
(expedições), às calotes de gelo (trenó, exploração), aos mares (pesca submarina,
pesca de alto mar, exploração submarina), até ao espaço sideral (viagens em aviões
orbitais) (Santos, 2005). O lazer tornou-se, assim, num serviço que ganha atributos
industriais devido à sua produtividade e à sua capacidade de modificação do espaço
(Lefèbvre, 1974), que permitiu a criação de resorts, parques e reservas naturais,
catedrais de desporto, parques temáticos, etc. - as catedrais de consumo (Santos,
2005).
O impacto reflexivo do espaço na sociedade pode ser representado de
diversas formas. Em termos gerais Dear (1988) refere que as relações sociais são
constituídas, constrangidas ou mediadas pelo espaço. A primeira relação
estabelece-se através da organização da produção em actividades baseadas nos
recursos e nos meios do território; a segunda é provocada, por exemplo, pelo
envolvimento construído ou pelos limites impostos pelos acidentes da natureza; e a
terceira aparece, por exemplo, pelo desenvolvimento de crenças e ideologias em
certos confinamentos locais ou regiões.
48
de lazer e o significado das diversas escalas de análise para a compreensão do
lazer, sublinhando que o tempo de trabalho/tempo de lazer põe em evidência a
importância de três ou quatro tipos de lazer, conforme a dimensão do tempo livre se
relaciona com o dia, a semana, o ano, ou o final de vida (Tabela 1).
Tabela 1. Classificação das actividades de lazer.
Fim de ano Fim de vida
Fim de dia Fim-de-semana
(Férias) (Reforma)
Jogos de
Mesa, Jogos de Mesa, Jogos de Mesa, Jogos de Mesa,
Televisão, Televisão, Rádio, Televisão, Rádio, Televisão, Rádio,
Em casa Rádio, Leitura, Leitura, Audição de Leitura, Audição de Leitura, Audição de
Audição de Música e Bricolagem Música e Bricolagem Música e Bricolagem
Música
Jogos ao ar
Espaço de Jogos, Passeios a Jogos, Passeios de Passeios a pé, jogos
livre, Passeios
pé, Desportos, Idas Bicicleta, Desportos, ao ar livre, Idas ao
alcance a pé, Idas ao
ao Café, Idas ao Idas ao Café, café, Idas ao Cinema
imediato café, Idas ao
Cinema Espectáculos e Teatro
Cinema
Passeios de curta
Passeios de curta
duração (a pé,
Espaço de duração (a pé, bicicleta, Passeios, Viagens de
bicicleta, automóvel)
Fora de automóvel), Pequenas Automóvel (Campo,
alcance Cinema e Teatro,
viagens, Ida ao Campo, Montanha, Praia,
Casa Espectáculos, Saída
médio à Montanha, à Praia, Termas)
de Ambientes de
Visitas Culturais
vida Quotidiana.
Viagens de Turismo,
Espaço de Viagem de Turismo,
Estâncias Termais,
Cruzeiros, Desportos,
alcance Montanha, Campo
Regiões turísticas,
longo Visitas Culturais,
Praia
Cruzeiros.
49
Cazes (1992) sistematiza os tempos e categorias de lazer e turismo,
demonstrando como os dois conjuntos de actividades são sinergéticos. Ao lazer
turístico, Cazes (1992) associa cinco temporalidades consideradas como
responsáveis pela diferenciação de acções ou apropriações: i) quotidiano -
excursionismo; ii) semanal – turismo de curta duração; iii) ocasional – férias
repartidas; iv) sazonal - férias; v) pós vida activa - reforma.
Em função da natureza das suas práticas e dos seus espaços, Patmore
(1983) divide o lazer em quatro grandes sectores: o turismo, o desporto, as artes e o
recreio, e a sociabilização. Nesta perspectiva, “o lazer está por todo o lado e em
todo o lado, por intermédio dos lugares de prática, dos equipamentos e dos
operadores responsáveis pelos serviços” (Santos, 2005, p. 138)
D’Epinay (1983) também apresentou uma grelha para resolver os problemas
de análise conceptual e empírica do uso dos tempos livres (Tabela 2).
Tabela 2. Critérios de categorização do uso dos tempos livres.
Espaço da prática Exterior (ou público)
Doméstico
(ou privado) Bairro
Espaço Espaço extra-
Posição do indivíduo urbano urbano
De sociabilidade
Domésticos
Interacção a) local
Emissor
Comunitários
b) urbana
Domésticos De expressividade
Expressividade
Expressivos a) artística b) desportiva c) ao ar livre
Receptor
Domésticos
Informação Espectaculares informativos
Receptivos
50
emissor, distinguindo os lazeres activos dos lazeres passivos; iii) o terceiro critério
permite discriminar diferentes práticas de lazer (activas ou passivas), para distinguir
os níveis de interacção entre os sujeitos consumidores de lazer, divididos em três
conjuntos de práticas: informativas, expressivas e de sociabilidade. Esta grelha
analítica permite obter uma tipologia das práticas e do uso dos tempos livres, assim
como distinguir a procura dos indivíduos.
Em Portugal, a grelha inicial de D’Epiney (1983) tem sido sujeita a diferentes
adaptações, embora na maior parte dos casos estas se limitem a aumentar o
número de práticas, adequando o número de tipologias às novas realidades sociais
e culturais (Gomes R. A., 2005b). A proposta de Pais (1987) sobre o uso dos tempos
livres e dos espaços de lazer pelos jovens portugueses é um desses casos. Esta foi
também sujeita a adaptações por R. A. Gomes (2005c), na análise dos tempos livres
dos estudantes universitários de Coimbra (Tabela 3).
Tabela 3. Categorias do uso dos tempos livres.
Categoria Uso dos tempos livres
Domésticos Receber amigos em casa; ir a casa de amigos; jogar cartas, damas e
comunitários dominó; jogar bilhar ou matraquilhos; jogar xadrez.
Domésticos Jogar máquinas electrónicas; jogar computador; navegar na Internet;
expressivos fazer palavras cruzadas; pintar ou desenhar; cozinhar por divertimento.
Abandono Descansar e não fazer nada.
Sociabilidade urbana Ir a festas de carácter popular (bailes); ir ao café, cervejarias; comer fora
e local num restaurante; ir a bares e discotecas; jogar bingo.
Expressão artística Fazer teatro, tocar um instrumento musical, fazer fotografia.
Expressão ao ar livre Passeios ao ar livre, praia; campismo; piquenique; caça e pesca.
Espectaculares de
Espectáculos desportivos; exposições, visitas a museus; passeios pelas
participação
ruas ou centros comerciais.
expressiva
Cinema; reuniões culturais; conferências; fazer cursos de pintura,
Espectaculares
fotografia; teatro; concertos de música clássica e ópera; concertos de
informativos
música pop e moderna.
Domésticos
Ver TV; ouvir rádio; ouvir música; ler jornais, livros e revistas.
receptivos
Natação, hidroginástica, polo aquático; ginástica; fitness (aeróbica, step);
musculação em ginásio; atletismo, corrida ou jogging; judo, karaté ou arte
marciais; desportos colectivos; desportos náuticos; ciclismo, e
cicloturismo; patinagem, hóquei, skate; ténis, ténis de mesa, badminton,
Expressão desportiva
squash, equitação; dança, Ballet, expressão corporal; ioga, ioga, tai chi,
bioenergia; massagens, sauna; montanhismo e orientação; parapente,
asa delta e voo livre; actividades de risco e aventura; desportos de
Inverno, esqui; exercícios em casa com aparelhos de manutenção.
Fonte: adaptado de R. A. Gomes (2005c).
51
Outras grelhas foram sendo adaptadas em Portugal, em função das
necessidades específicas dos objectos em estudo, em especial na análise das
práticas culturais. São os casos das adaptações propostas por Pinto (1994) e J. T.
Lopes (2000), tal como se mostra na Tabela 4.
Tabela 4. Grelha de classificação das práticas culturais.
I. Espaço Doméstico
1. Práticas domésticas criativas: fazer “bricolage”; artesanato; escrever um “diário”; cozinhar por
divertimento.
2. Práticas domésticas expressivas, de interacção e sociabilidade: receber familiares em casa;
receber amigos em casa; ir a casa de familiares; ir a casa de amigos.
3. Práticas domésticas receptivas, de consumo e/ou fruição: ver TV; ouvir rádio; ouvir música; ler
livros sem ser de estudo ou profissionais; ler jornais; ler revistas; ver filmes vídeo em casa.
4. Práticas domésticas de abandono: não fazer nada; dormir a sesta.
II. Espaço Público
5. Práticas expressivas públicas: Frequentar festas de carácter popular; passear; fazer desporto;
fazer “jogging”; fazer pequenas viagens; ir à pesca; ir à caça; ir à praia; passear em centros
comerciais; ir a feiras.
6. Práticas participativas públicas: assistir a jogos de futebol (ou outros espectáculos desportivos);
assistir a touradas; ir ao circo; ir a concertos de música popular e moderna.
III. Espaço Semipúblico
7. Práticas expressivas semipúblicos: ir a cafés, cervejarias, pastelarias; ir à missa ou a cerimónias
religiosas; ir a discotecas; ir a bares; almoçar ou jantar fora sem ser por necessidade; jogar em
máquinas electrónicas (casas de jogos); ir às compras (roupa, discos, livros, etc.).
8. Práticas receptivas semipúblicos: ir ao cinema.
9. Práticas de rotina semipúblicos: comprar comida e mercearias.
IV. Espaço Associativo/espaço semipúblico organizado
10. Práticas associativas criativas: fazer teatro amador; dançar (dança contemporânea, ballet, jazz
e folclore); tocar (num grupo musical, coro, rancho, etc.); cantar (num grupo musical, coro, rancho,
etc.).
11. Práticas associativas expressivas: ir a associações recreativas ou a colectividades locais;
V. Espaço da cultura cultivada/sobre legitimada
12. Práticas eruditas criativas: escrever (poemas, contos, etc.); artes plásticas (pintar, desenhar,
etc.); fazer fotografia (sem ser em festas ou em férias).
13. Práticas receptivas e informativas de públicos cultivados: ir ao teatro; ir a concertos de música
clássica; visitar museus, exposições, etc.
52
culturais e o círculo da cultura cultivada” (Lopes J. T., 2000, p. 198). Mantendo a
categorização de D’Epinay quanto ao estatuto do sujeito, propõe quatro conjuntos de
práticas: criativas, expressivas (interactivas), de participação e de recepção/
consumo, permitindo enriquecer o leque de modos de apropriação da cultura (Lopes
J. T., 2000).
J. T. Lopes (2000) adapta o modelo de classificação, das práticas culturais,
desenvolvido por Pinto (1994), introduzindo uma outra categoria retirada da proposta
de J. V. Pereira (1994) - práticas de sociabilidade semipúblico. Esta grelha permite
uma classificação mais fina das práticas culturais, na medida em que faz uma maior
distinção dos modos de apropriação da cultura, oferecendo uma identificação das
categorias das práticas culturais com base na sua origem na cultura de massas ou
na alta cultura.
Elias e Dunning (1992, p. 145) referem que é necessária uma compreensão e
distinção entre as actividades de tempo livre e as actividades de lazer, pois, “(…)
todas as actividades de lazer são actividades de tempo livre, mas nem todas as de
tempo livre são de lazer”. Consideram também que as características particulares
das actividades de lazer só podem ser compreendidas se forem consideradas, não
apenas em relação ao trabalho profissional mas, também, em relação às actividades
de não lazer, no quadro do tempo livre. Desta forma, organizam um quadro teórico a
partir da busca da excitação no lazer, que serve de indicador da orientação do fio
teórico que percorre o espectro, onde se salienta que todas as actividades de lazer
integram um controlo descontrolado das restrições das emoções.
Partindo da teoria do processo civilizacional, Elias e Dunning (1992)
apresentam um espectro do tempo livre, que integra o lazer essencialmente no
contexto do homo ludens (Huizinga, 2003) e nas suas formas de participação nas
actividades de jogo ou miméticas, onde os indivíduos podem participar, seja como
intervenientes ou espectadores. Este espectro apresenta três categorias e dez
subcategorias de actividades: algumas actividades de tempo livre apresentam um
carácter de trabalho, embora este se distinga do trabalho profissional; algumas das
actividades de tempo livre, são voluntárias, embora nem todas as actividades sejam
agradáveis e algumas sejam altamente rotineiras. Salientam ainda que todas as
categorias do espectro do tempo livre, consideradas como um todo, podem
distinguir-se pelo seu grau de rotina e de destruição da rotina, que pode variar. Em
geral, o trabalho profissional é muito rotineiro e as actividades do tempo livre vão
53
decrescendo o seu grau de rotina desde as actividades que são classificadas em 1
(rotinas do tempo livre), sendo um pouco menos rotineiras aquelas que se
classificam em 2 (actividades intermediárias), e ainda menos rotineiras as que se
classificam em 3 (actividades de lazer). As actividades de lazer são, nesta
perspectiva, uma categoria de actividades em que a restrição rotineira de emoções
pode, até certo ponto, ser publicamente reduzida e aprovada socialmente, mais do
que qualquer uma das outras. Estes autores abrangem no espectro do tempo livre
as seguintes actividades (Elias & Dunning, 1992):
1) Rotinas do tempo livre
a) Provisão rotineira (e.g. comer, beber, descansar, dormir, etc.);
b) Governo da casa e rotinas familiares (e.g. conservar a casa em ordem, organizar
as rotinas, cuidar da roupa, comprar alimentos, etc.);
2) Actividades intermediárias
a) Trabalho particular voluntário para outros (e.g. participar em questões locais,
actividades de caridade, etc.);
b) Trabalho particular voluntário para si próprio de natureza séria (e.g. estudos
privados com vista a progressos profissionais, construir rádios, ser amador de
astronomia, etc.);
c) Trabalho particular voluntário para si próprio de tipo mais ligeiro e menos
exigente (e.g. fotografia amadora, trabalho em madeira, colecção de selos, etc.);
d) Actividades religiosas;
e) Actividades de formação de carácter voluntário (e.g. leitura de jornais, audição
de debates políticos, visionamento de programas de TV, etc.);
3) Actividades de Lazer
a) Actividades de sociabilidade (e.g. participar, como convidado, em reuniões
formais - casamentos, banquetes, etc. -, participar em lazer comunitário
relativamente informal - reuniões em bares ou em festas, encontros familiares,
comunidades de conversa banal, etc.);
b) Actividades de jogo ou miméticas (e.g. participar em actividades miméticas de
elevado nível organizativo - membro de uma organização, como um clube de futebol,
teatro amador, etc. -, participar como espectador em actividades miméticas bastante
organizadas, sem fazer parte da organização - assistir a jogos de futebol, etc.);
c) Miscelânea de actividades de lazer menos especializadas (e.g. viajar nos
feriados, comer fora para variar, dar um passeio a pé, etc.).
54
2.2.2. LAZER E ESTILOS DE VIDA
O conceito de estilos de vida tem uma longa tradição em diversas disciplinas
e campos de estudo, incluindo os estudos do lazer (Veal, 2001). No entanto, a
característica mais notável da literatura sobre os estilos de vida talvez seja a falta de
consenso sobre o significado do termo (Veal, 2000). A literatura contém uma
variedade de abordagens que são, aparentemente, totalmente independentes para o
conceito de estilos de vida, decorrentes de diferentes disciplinas e correntes de
investigação, entre as quais (Veal, 2000): a) weberiana; b) subcultural; c)
psicológica; d) pesquisa de mercado – psicográfica; e) estilos de lazer/turismo; f)
espacial; g) estilos de vida socialistas; h) outras.
A partir de uma extensa revisão da literatura sobre o conceito de estilos de
vida, apresentados pelas diversas perspectivas, Veal (2000) expõe sete categorias
que estão potencialmente associadas ao conceito de estilos de vida:
i) Actividades/comportamentos: o estilo de vida compreende os padrões de
consumo, actividades de lazer, práticas domésticas e actividade de trabalho
remunerado;
ii) Valores e atitudes: os valores e atitudes têm influência no estilo de vida
(compra e padrões de consumo), mas não são, necessariamente, parte do estilo de
vida;
iii) Grupos versus indivíduos: em certa medida a emissão de grupo versus
análise individual depende do detalhe com o qual são classificados os estilos de
vida, e este é influenciado, em parte, pela estrutura disciplinar do investigador.
Qualquer definição de estilo de vida não deve excluir a possibilidade de análise do
indivíduo, assim como a do grupo;
iv) Interacção do grupo: os indivíduos que compartilham um estilo de vida
comum, não têm necessariamente qualquer contacto social, embora muitos o
tenham. A interacção do grupo é uma característica fundamental de um estilo de
vida particular, quando esse grupo em particular é constituído por uma subcultura.
Embora todos os grupos subculturais tenham um estilo de vida diferenciado, nem
todos os estilos de vida resultam dos processos complexos que são intrínsecos às
subculturas. A interacção do grupo não é, por conseguinte, uma característica
necessária do estilo de vida;
v) Coerência das actividades/estilos de vida: apesar da coerência, no
sentido de compatibilidade, ser uma provável, e importante, variável na análise do
55
estilo de vida, não é uma componente necessária para a definição de estilo de vida,
uma vez que a alguns estilos de vida pode faltar coerência;
vi) Facilidade de reconhecimento: embora o estilo de vida possa ser um
aspecto importante da vida das pessoas, a clareza com que estas percebem os seus
próprios estilos de vida varia consideravelmente. A facilidade de reconhecimento
pode ser uma característica de alguns estilos de vida, mas não é uma parte
necessária da definição do estilo de vida;
vii) Escolha: nas sociedades Ocidentais, o estilo de vida envolve a escolha,
embora o grau de liberdade de escolha varie de indivíduo para indivíduo, de grupo
para grupo e da época histórica. Esta questão diz respeito à forma como os estilos
de vida são formados ao invés da natureza dos estilos de vida próprios. As pessoas
têm estilos de vida (ou modos de vida) se estes tiverem sido desenvolvidos no
contexto de uma escolha ampla ou limitada. A questão de escolha, não precisa, por
isso, de fazer parte da definição do estilo de vida.
viii) Como resultado dessa revisão da literatura, Veal (2000) apresenta uma
definição que, na sua opinião, dá ao conceito de estilo de vida uma identidade clara,
operacional e teoricamente útil: "Lifestyle is the pattern of individual and social
behaviour characteristic of an individual or a group” (Veal, 2000, p. 16).
Prestando especial atenção à abordagem Weberiana, Rojek (1985) afirmou
que um dos legados mais duradouros de Weber para a sociologia do lazer é o
conceito de estilo de vida. A abordagem Weberiana ao estilo de vida foi sugerida,
aliás, como potencial fornecedora de um quadro conceptual para o desenvolvimento
dos estudos do lazer (Veal, 1989a; 1989b), apesar das críticas que se levantaram
(Critcher, 1989; Jarvie & Maguire, 1994; Scraton & Talbot, 1989).
O argumento de Weber é o de que as divisões na sociedade resultam não só
da classe social, que é baseada nas relações económicas, mas também do status,
que é baseado na honra e no prestígio. Esta visão distancia-se, assim, da análise
marxista que apresentava os mecanismos de domínio a campos determinados pelos
recursos económicos. Um grupo de status é distinguido pela honra que lhe é
concedida pelo resto da sociedade, mas também pelo seu estilo de vida particular
(Weber M. , 1948). O estilo de vida adoptado por um grupo de status serve para
marcar os limites do grupo e reforçar o sistema de honra que sustenta o status do
grupo (Veal, 2000).
56
O contributo de Bourdieu para a análise de classes coloca igualmente a
ênfase na dimensão simbólica das representações e dos estilos de vida (Estanque,
2005). O trabalho de Bourdieu (1979) demonstra como as infinitas variações de
capital cultural, lazer e gosto (estilo de vida) reflectem a variação infinita no capital
económico e do poder de classes e fracções de classe em toda a sociedade. Nesta
perspectiva, Veal (2000) sublinha que a concepção de Weber sobre o estilo de vida
não é independente da classe, mas é simplesmente uma manifestação de
associação de classe. Esta questão tem sido discutida e, em condições modernas, o
estilo de vida pode ser visto, pelo menos, como parcialmente independente da
classe (Veal, 1989a; 1989b).
As práticas sociais que são incorporadas nos mapas cognitivos e nas
representações dos indivíduos e dos grupos permitem analisar as configurações das
classes a partir de esferas da vida onde o lazer ocupa um papel fundamental
(Bourdieu, 1979; Estanque, 2005). Existe uma correspondência entre as diferentes
posições no espaço social e os estilos de vida (Bourdieu, 1983), que é resultante
das “experiências vividas ao longo de uma trajectória e incorporadas através dos
habitus de classe particulares que afirmam e estruturam na prática o enquadramento
social dos indivíduos” (Estanque, 2005, p. 95). Em condições semelhantes são
produzidos habitus substituíveis que criam, por sua vez, segundo a sua lógica
específica, práticas diversas e imprevisíveis, mas restringidas aos limites do
confinamento do seu habitus de classe. Estes esquemas geradores, que exprimem,
segundo a sua lógica própria, diferenças ligadas à posição na estrutura da
distribuição dos instrumentos de apropriação, são convertidos, assim, em distinções
simbólicas (Bourdieu, 1983). Nesta perspectiva, o conhecimento das características
referentes à condição económica e social (o volume e a estrutura do capital
apreendidos) só permite compreender ou rever a posição do indivíduo ou grupo no
espaço dos estilos de vida. O gosto, que corresponde à propensão e à aptidão para
a apropriação (material e/ou simbólica) de uma determinada categoria de objectos
ou práticas distintas e distintivas, é a fórmula generativa que está no princípio do
estilo de vida, definido por Bourdieu (1983, pp. 83-84) como “(…) um conjunto
unitário de preferências distintivas que exprimem, na lógica específica de cada um
dos subespaços simbólicos, mobília, vestimentas, linguagem ou héxis corporal, a
mesma intenção expressiva, princípios da unidade de estilo que se entrega
57
directamente à intuição e que a análise destrói ao recortá-lo em universos
separados”.
O lazer torna-se, assim, importante na análise das classes, pelo
enquadramento cultural que as desigualdades veiculam, sob a forma de estilos de
vida particulares (Estanque, 2005). Através dos variados mecanismos de poder
simbólico e das formas de legitimação cultural que lhe estão acessíveis, as classes
dominantes tendem a perpetuar os seus privilégios, e a desenvolver e consolidar
formas hegemónicas de enquadramento das classes populares de forma a
aperfeiçoar os seus próprios meios de reprodução da estrutura das classes, como
uma forma permanente de reinvenção e distinção dos seus estilos de vida; enquanto
as classes médias e populares põem em marcha formas de apropriação e imitação
sujeitas a processos de permanente desvalorização no mercado de bens simbólicos,
através dos quais as desigualdades se reproduzem e legitimam (Estanque, 2005). O
estilo de vida corresponde, assim, ao mapa cognitivo que permite aos indivíduos
orientarem-se no espaço social do seu grupo de pertença, ou ao deslocamento para
outros grupos de referência, que está, no entanto, sujeito a modificações mediante
trajectórias sociais ascendentes, descendentes ou estagnantes (Gomes R. A.,
2005b).
O trabalho de Veal (2001) examina o lugar do conceito de estilo de vida nos
estudos do lazer, à luz de três publicações:
i) Kenneth Roberts (1999) conclui que o estilo de vida não é um conceito
chave para os estudos do lazer, porque não substituiu factores como a classe,
género, idade e classe social que fornecem aos indivíduos um sentido de identidade;
ii) Chris Rojek (2000) analisa as características distintivas dos paradigmas
teóricos dominantes de estudos do lazer/sociologia do lazer ao longo dos últimos
trinta anos, e sugere que, embora os estudos culturais tenham tido uma grande
influência sobre os estudos do lazer, na prática, têm-se preocupado mais com a
classe. Rojek (2000) sugere, portanto, que um foco renovado sobre a cultura poderia
fornecer um caminho para os estudos do lazer/sociologia do lazer;
iii) Steven Miles (2000) argumenta que o conceito de subcultura,
tradicionalmente utilizado em estudos da juventude, tem sido comprometido pela sua
associação com os paradigmas estruturais da tradição neomarxista, dos estudos
culturais da década de 1980 e 1990, e que, portanto, o termo estilo de vida é mais
adequado para estudar a vida dos jovens de hoje.
58
Tendo em conta estas e outras recentes contribuições para a teoria do lazer,
Veal (2001) argumenta que o conceito de estilo de vida continua a ser um conceito
útil, e que pode ter uma contribuição significativa para o desenvolvimento dos
estudos do lazer.
59
dinheiro por parte do visitante na economia regional (Hall & Page, 2006). Apesar das
visitas de um dia, ou excursões, representarem uma actividade recreativa comum,
para que o turismo ocorra é necessário que o tempo de lazer decorra num período
de tempo que permita uma longa estadia longe do local de residência (Cooper,
Fletcher, Fyall, Gylbert, & Wanhill, 2007).
Alguns autores (Pigram, 1985) referem que o turismo é realizado num
enquadramento essencialmente recreativo, enquanto outros (Murphy, 1985)
manifestam uma opinião contrária, conceptualizando a recreação como uma
componente do turismo. A inclusão da viagem no mesmo dia, nas directrizes oficiais
internacionais, para a recolha e a definição de estatísticas do turismo, veio tornar
esta divisão entre recreação e o turismo ainda mais arbitrária (Hall & Page, 2006).
Apesar destas aparentes contradições é notória, no entanto, uma convergência
entre os dois conceitos, em particular no que diz respeito às teorias, actividades e
impactos (Hall & Page, 2006).
A relação entre o lazer e o desporto é também evidente. Deste ponto de vista
temos assistido a um crescimento acentuado das práticas de carácter lúdico e de
auto-organização, em detrimento dos modelos desportivos ultracompetitivos que
eram comuns e exclusivos até meados do século XX. Aliás, o próprio conceito de
desporto que está incluído na Carta Europeia do Desporto, e que surgiu no período
pós-moderno, é entendido como “(…) todas as formas de actividades físicas que,
através de uma participação organizada ou não, têm por objectivo a expressão ou o
melhoramento da condição física e psíquica, o desenvolvimento das relações sociais
ou a obtenção de resultados na competição a todos os níveis” (Conselho da Europa,
1992, p. 3). Esta definição implica uma noção mais ampla de desporto, englobando
um leque mais vasto de actividades que não estariam contempladas em definições
anteriores. Não negando a ideia de competição no desporto, esta definição atribui
outros significados que incluem todas as suas novas formas, incluindo as que se
associam ao lazer, à recreação e ao turismo. Esta definição está em conformidade
com as ideias de alguns autores que defendem que uma definição lata de desporto
permite aumentar o significado das ligações entre o desporto e o turismo (Standeven
& De Knop, 1999), assim como entre estes e o lazer.
Gibson (1998a) refere, inclusive, que dos novos segmentos do turismo se
destaca a viagem relacionada com a actividade física e o desporto. O turismo
desportivo, termo que tem sido adoptado, nos anos recentes, para descrever a
60
viagem de lazer relacionado com o desporto (Gibson, 1998b), não é mais do que
uma nova forma de turismo que interliga o desporto ao turismo (Pigeassou, 2004).
Esta relação tão vincada pode ser chamada de relação simbiótica (Standeven & De
Knop, 1999), apresentando uma significante e expansiva área de mútuo interesse
entre a gestão do desporto e o desenvolvimento do turismo (Hinch & Higham, 2004).
A importância deste segmento é evidenciada tanto pela crescente atenção
prestada pelas indústrias do desporto e do turismo, como pelo desenvolvimento de
diversos trabalhos de índole académico (Gibson, 2005). O súbito interesse por este
fenómeno é atribuído, segundo Gammon e Robinson (2003), a cinco factores: a) à
crescente popularidade dos eventos desportivos nacionais e internacionais; b) a uma
maior compreensão dos benefícios que podem ser alcançados através da
participação activa em muitas actividades desportivas; c) a uma maior apreciação do
valor do desporto, por parte dos governantes, tanto em relação à economia como
em relação às relações nacionais e internacionais; d) à criação de uma programação
de eventos desportivos, mais variada e cuidada na oferta anual, disponível tanto
para espectadores como para participantes; e) ao facto do interesse desportivo dos
indivíduos ser, não apenas mais móvel, mas também de estes serem capazes de
comunicar de uma forma mais eficaz devido à melhoria das tecnologias e infra-
estruturas globais.
O interesse e os comportamentos associados ao turismo desportivo são
variados. Nesta óptica, Gibson (1998b), através de uma revisão da literatura,
configurou estes comportamentos em três tipos: 1) o turismo desportivo activo, que
está associada à participação activa na prática desportiva; 2) o turismo desportivo de
eventos, que pressupõe a participação, enquanto espectadores de um espectáculo
desportivo; 3) o turismo desportivo de nostalgia, que inclui a visitação de museus,
entre outras actividades de visitação a espaços de memória, relacionados com as
actividades desportivas. Com base nestas tipologias, Gibson (1998b, p. 49) refere-se
ao turismo desportivo como a “(...) leisure-based travel that takes individuals
temporarily outside of their home communities to participate in physical activities, to
watch physical activities, or to venerate attractions associated with physical
activities”.
Gibson (1998a) refere ainda que uma das categorias de turismo desportivo
que mais se tem destacado é o turismo desportivo activo. Em relação a esta
categoria, De Knop (1990) identifica três tipos de férias desportivas activas: a) as
61
férias desportivas puras, como a viagem para esquiar; b) tirar partido das instalações
desportivas de um destino de férias, apesar de o desporto não ser o principal
propósito da viagem; c) as férias desportivas privadas, onde o turista toma parte em
actividades desportivas não organizadas, como a canoagem, o BTT, mergulho, etc.
Estas tipologias de viagens activas referem-se aos diferentes propósitos da viagem,
que vão desde a motivação principal, no caso da primeira categoria, à motivação
secundária (viagens que obedecem a outras motivações principais como o sol e mar
por exemplo), casos da segunda e terceira categoria.
Umbelino (2005) refere que as experiências turísticas, independentemente
dos tipos de motivações dos turistas, acabam por englobar quase sempre as
práticas de lazer disponíveis nos destinos, que são designadas, de forma geral, por
animação turística. Nesta óptica, M. S. Lopes (2006; 2009) considera a animação
turística como um conjunto de instrumentos ou de técnicas, orientadas para
potenciar e promover o turismo, mediante um estímulo que leva as pessoas a
participarem na descoberta dos locais, dos sítios e monumentos que visitam, tendo
como pressuposto a necessidade de se criar motivação e implicar o turista numa
participação cultural e social que não descure o relacionamento com o meio e com
as populações visitadas.
A animação turística é, para além de outras experiências (ambientais,
culturais, recreativas, etc.), uma experiência promovida mediante a produção e
apresentação de experiências desportivas (Pérez, 2009), entre as quais os
Desportos de Natureza (Decreto-Lei nº 108/2009, de 15 de Maio). É nesta
perspectiva que Hall (1992a; 1992b) identifica o desporto como um dos maiores
interesses da experiência turística e articula três domínios do desporto, dos quais se
destaca o outdoor adventure tourism (turismo de aventura na natureza). Este
domínio representa uma área intrinsecamente relacionada com o turismo desportivo
que se encontra nas actividades recreativas que ocorrem em espaços naturais,
muitos deles classificados como desportos, como a canoagem, o esqui, o surf (Hinch
& Higham, 2004), e o montanhismo (Beedie & Hudson, 2003). Confirmando esta
ideia, diversos autores (Hall & Page, 2006; Weiler & Hall, 1992) referem que os
espaços naturais e as actividades desportivas na natureza são claramente uma
maior componente do turismo.
É também associado à natureza e aos espaços naturais que surgem outras
tipologias de turismo, nomeadamente o Turismo de Natureza e o Ecoturismo, que
62
também incluem as actividades desportivas na natureza. Segundo o PNTN
(Resolução do Conselho de Ministros n.º 112/98, p. 4348), “(…) o turismo de
natureza pressupõe a prática integrada de actividades diversificadas, que vão desde
o usufruto da natureza através de um passeio à prática de caminhadas, escalada,
espeleologia, orientação, passeios de bicicleta ou a cavalo, actividades aquáticas e
subaquáticas, entre outras, ao contacto com o ambiente rural e culturas locais,
através da sua gastronomia e manifestações etnográficas, rotas temáticas,
nomeadamente históricas, arqueológicas e ou gastronómicas, e a estada em casas
tradicionais”. O Turismo de Natureza tem, assim, como principal objectivo viver
experiências de grande valor simbólico, interagir e usufruir da natureza englobando
actividades desportivas, contemplação da natureza e actividades de interesse
especial (Turismo de Portugal, 2006a).
O Ecoturismo é definido de diversas formas (Bjork, 2000; Blamey, 1997),
apresentando, no entanto, três princípios que são enunciados de forma consensual
(Blamey, 1997; Weaver & Lawton, 2007): i) as atracções são predominantemente
baseadas na natureza; ii) as interacções de visitantes com as atracções devem ser
focadas na aprendizagem e/ou na educação; e iii) a experiência e a gestão de
produtos devem seguir os princípios e as práticas associadas à sustentabilidade
ambiental, económica e sociocultural. Fennell (2001) através de uma análise de
conteúdo às definições de Ecoturismo refere que as variáveis mais frequentemente
evidenciadas nas definições incluem: a) a referência ao local onde decorre o
Ecoturismo (e.g. áreas naturais); b) a conservação; c) a cultura; d) os benefícios
para os habitantes locais; e) a educação. Em relação às actividades de Ecoturismo,
Black e Crabtree (2007) referem que estas são desenvolvidas, geralmente, em áreas
remotas, com condições específicas, envolvendo muitas das vezes actividades
físicas como a canoagem ou o pedestrianismo, entre outras.
Por outro lado, considerando que a aventura e o risco são das principais
motivações para a prática destas actividades (Swarbrooke, Beard, Leckie, &
Pomfret, 2003), surgem outras designações que se associam a estas duas
características, como o Turismo Activo e o Turismo de Aventura. O Turismo Activo
engloba uma nova filosofia que combina a aventura, o Ecoturismo e a cultura, numa
viagem de descoberta (Active Tourism Organization, 2002). Esta nova filosofia de
turismo contrasta com um tipo de turismo passivo e com o turismo de massas, no
sentido em que é um turismo de pequena escala, de baixo impacto e de alta
63
qualidade, dirigido e administrado localmente, e que não só traz vantagens para os
visitantes mas também ajuda a promover o desenvolvimento local, através dos três
pilares da sustentabilidade – crescimento económico, protecção da biodiversidade, e
valorização cultural (Active Tourism Organization, 2002).
O Turismo de Aventura é um campo bastante complexo, com grande
diversidade intrínseca e sem fronteiras claramente definidas, resultante de uma
variedade de correntes de pensamento (Millington, Locke, & Locke, 2001). Estas
actividades decorrem usualmente num destino incomum, exótico, remoto ou
selvagem, onde os participantes incorporam elevados níveis de intensidade, através
de experiências que envolvem níveis elevados de risco percebido ou perigos
controlados, relacionados com desafios pessoais (Millington, Locke, & Locke, 2001).
O Turismo de Aventura integra geralmente um conjunto de práticas de lazer ao ar
livre, constituídas de forma geral por actividades desportivas realizadas em
diferentes ambientes como a terra, o ar, a água e o gelo (Greenwood & Yeoman,
2007). No entanto, o Turismo de Aventura nem sempre decorre em espaços naturais
ou em locais exóticos (Weber K. , 2001), sendo que as actividades desportivas
baseadas na adrenalina, incluídas no Turismo de Aventura, apenas são abrangidas
no Turismo de Natureza quando realizadas em espaços naturais (Buckley, 2006).
64
diferenças semânticas que representam distintivas formas de encarar este
fenómeno.
Não sendo o principal objectivo desta revisão identificar e enumerar todos os
termos que são usados para designar estas actividades, esta análise incide em dois
períodos históricos que deram origem a algumas actividades desportivas e a
consequentes correntes terminológicas, que expressam a origem e a trajectória das
práticas de actividades na natureza, permitindo mapear as correntes que, de alguma
forma, foram precursoras do conceito que é aqui denominado de Desportos de
Natureza. Tal como refere Bessy e Mouton (2004), o vocabulário nunca é neutro e
por detrás das palavras encontra-se um desenvolvimento que vai para além da mera
linguagem retórica e, neste sentido, os termos gradualmente impostos através do
discurso dominante são transmissores de novas práticas que respondem a novas
questões sociais. Esta é uma tentativa de se atribuir um significado histórico e
sociocultural aos Desportos de Natureza, com a intenção de se compreender este
fenómeno, cuja problemática já fora identificada por Bourdieu (2003), através da
qual se pode colocar um conjunto de duas questões:
a) Em primeiro lugar, existirá um espaço próprio de produção, dotada da sua
própria lógica, no interior do qual se engendram os produtos desportivos? Nas suas
palavras, existirá um sistema de instituições e de agentes que estão associados aos
Desportos de Natureza, tendendo a funcionar como um campo?
b) Em segundo lugar, em que contexto histórico surge a ideia da procura da
natureza para fins desportivos e de lazer, de actividades, como por exemplo, o
montanhismo ou o surf? Esta última questão remete para a identificação clara das
condições históricas e socioculturais do aparecimento dos Desportos de Natureza, a
partir da ideia da fundação do desporto moderno.
Esta análise assenta na ideia de que o desporto, o turismo e o lazer são
autênticas metáforas da sociedade, ou seja, a projecção e a reprodução dos valores
e das circunstâncias socioculturais que acompanham cada período da história da
sociedade humana, e o testemunho irrefutável que reflecte a mentalidade e os
modelos de cada época a que se refere. Estas actividades, em especial as
actividades desportivas, são claras manifestações representativas das sociedades
contemporâneas, que constituem elementos fundamentais do processo civilizacional
das mesmas (Elias, 1989), e como construção social representam as ideias e os
valores dominantes (Gomes R. A., 2009).
65
Apesar desta análise se focar em dois períodos históricos, que se consideram
fundamentais no desenvolvimento das actividades desportivas e recreativas na
natureza, não se pode negar que existem outras relações com a natureza, que se
foram desenvolvendo ao longo do percurso histórico da humanidade, e que devem
ser analisadas para compreendermos este fenómeno. Ao se considerar que a
procura e a utilização dos espaços naturais como locus para as práticas lúdico-
recreativas não é um fenómeno recente, deve-se analisar a relação do Homem com
a natureza na contemporaneidade, mas também esta relação ao longo da história
(Dias, Melo, & Júnior, 2007).
A este respeito, Moscoso (2003) refere três relações do Homem com a
natureza ao longo da história humana: i) a primeira relação é uma relação natural,
que se expressa porque a natureza é o habitat natural e único do Homem, facto que
decorreu nas sociedades ocidentais até à revolução industrial; ii) a segunda é uma
relação biocultural, atribuída devido ao seu carácter mágico-religioso, uma das
primeiras formas de conceber a natureza, que se manifesta como um espaço de
fascínio, mescla de atractivo e de temor, de mitos e lendas e refúgio de personagens
mágicas, espaços frequentemente sacralizados e carregados de símbolos, inclusive
ainda nos nossos dias. Esta relação passa a ter uma orientação metafísica quando
as actividades na natureza começam a ser motivadas pelos seus próprios elementos
e experiências, através dos seus estímulos cognitivo e a sua forma de operar,
basicamente, racional e humanista; iii) a terceira é uma relação sociocultural, que
acontece devido à (re)aproximação do Homem à natureza que engloba,
progressivamente, vínculos culturais, científicos, de lazer, desportivos e
aventureiros, com o objectivo de compreender o funcionamento do próprio mundo.
Converte-se em gérmen da prática de actividades na natureza desde um ponto de
vista social, educativo, desportivo, turístico, etc. Um humanismo que move a prática
para satisfazer e reformular constantemente propósitos, inquietude e novos desejos.
Dando expressão a estas relações, Cubero (2008) refere que o Homem ao
longo da sua história apresenta três vínculos com a natureza: o vínculo utilitário, o
vínculo educativo, e o vínculo recreativo e desportivo.
Em relação ao vínculo utilitário com a natureza, parece indesmentível que as
civilizações primitivas viviam em contacto com a natureza e completamente
dependentes dela. Neste período histórico, o vínculo com a natureza era
essencialmente utilitário pois era lá que o Homem nascia, se alimentava, se divertia,
66
era a natureza que ele temia e ao mesmo tempo adorava, e era nela que morria
(Betrán J. , 2002). Este vínculo, como tal, ainda se mantém nos nossos dias,
ampliado e reformulado em função dos acontecimentos que têm precipitado a sua
(re)configuração (Cubero, 2008). Nas palavras de J. Betrán (2002), as práticas
desportivas atuais são um símbolo cultural predeterminado pelas práticas ancestrais.
É aliás a partir da análise da íntima relação entre o Homem e a natureza nas
sociedades primitivas e das suas acções básicas que poderemos interpretar a
origem dos Desportos de Natureza. Dessas relações surgem grupos de actividades
desportivas atuais que têm origem nas práticas utilitárias ancestrais (Betrán J. ,
2002; Parra, 2001): i) das capacidades filogenéticas aos desportos individuais; ii)
das práticas com objectos aos desportos com recurso a equipamentos desportivos;
iii) das embarcações para transporte aos desportos náuticos; iv) das práticas
utilitárias aos desportos de deslizamento; v) das práticas eólicas aos desportos
aéreos; vi) dos artefactos mecânicos aos desportos de motor; vii) dos jogos
equestres aos desportos hípicos; viii) das actividades físicas em meio natural
(sistemas naturais) aos Desportos de Natureza. Destas relações salientam-se as
relações culturais, corporais e motrizes que os Homens tinham com o meio natural
pois, muitas das práticas foram (re)adaptadas até encontrarem o seu sentido e
espaço na sociedade actual. Tais actividades físicas em meio natural deixaram de
estar influenciadas pela necessidade de sobrevivência para se converterem,
fundamentalmente, num modo de recreação e libertação das cargas impostas pela
sociedade moderna (Cubero, 2008).
O vínculo educativo com a natureza compreende as actividades em meio
natural, e está enraizado no processo formativo que teve o seu ponto de partida nos
séculos XV-XVI, a partir do qual muitas pessoas e organizações levaram a cabo
estas actividades atribuindo-lhes fins educativos (Betrán J. , 1989; Cubero, 2008;
Funollet, 1989). Tendo como ponto de partida a época Renascentista, Cubero (2008)
refere que se podem considerar como precursores das actividades educativas na
natureza, vinculados à formação de crianças e jovens, personagens históricas como
Vittorino da Feltre (1378-1446), Jerónimo Mercuriales (1530-1606), Michel de
Montaigne (1522-1592), Johann Goethe (1749-1832), Jean-Jacques Rousseau
(1712-1778), Francisco de Amorós (1770-1848), Lord Byron (1788-1824), Johann
Pestalozzi (1746-1827), Robert Baden-Powell (1857-1941), Georges Hébert (1875-
1957); Karl Gaulhofer (1885-1941), Margarette Streicher (1891-1983), e Kurt Hahn
67
(1886-1974), bem como as associações juvenis, surgidas no início do século XX. J.
Betrán (2002) refere que grande parte das actividades físicas educativas
desenvolvidas ao longo da história da humanidade ocorreram em contacto directo
com a natureza, não sendo menos verdade, no entanto, que à medida que os seres
humanos foram resolvendo o dilema cultura-natureza a favor da primeira se dedicam
a transformar a segunda, afastando-se dela. Desde o período referido surgem
diversas correntes educativas tendo como pano de fundo o meio natural, dos quais
são exemplos: o movimento naturalista, fundado por Georges Hébert (Hebertismo),
que procura um retorno às origens, através da execução dos gestos naturais da
espécie humana (um conjunto de 10), praticados no bosque e no rio; e o movimento
escutista, que surgiu em Inglaterra em 1907, por iniciativa do General Baden Powell.
Nesta última corrente, a ideia geral é procurar lugares para jovens (e crianças) onde
estes se possam libertar, divertir e se formar. O seu pilar básico é o contacto com o
meio natural e o desenvolvimento de uma pessoa altruísta, cívica, pacifista e
universalista. Nesta óptica, pode-se considerar o escutismo como uma das
organizações associativas com maiores repercussões sociais no campo da
educação não formal. A sua criação supõe um importante avanço na incorporação
da educação activa, e da educação física no âmbito extra-escolar em contacto com
a natureza (Sobral, 1985).
O vínculo desportivo e recreativo com a natureza corresponde ao processo de
constituição do campo desportivo (Bourdieu, 2003), iniciado nos finais do século XIX,
e princípios do século XX, e que é agora designado como desporto moderno. Esta
configuração deveu-se aos acontecimentos sociais ocorridos nessa época: por um
lado, através do movimento desportivo criado por Thomas Arnold, em Inglaterra, em
1828, que permitiu institucionalizar e sistematizar os jogos populares, convertendo-
os em desportos no seio dos colégios britânicos, com o objectivo da ocupação do
tempo livre dos jovens através da prática de actividade física desportiva regulada e
competitiva; e por outro a instauração dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, pelo
Barão Pierre de Coubertain, em 1894. Este processo de desportivização também se
fez sentir no seio das actividades físicas desportivas realizadas nos meios naturais,
apesar de ter acontecido com um certo atraso em relação a outras modalidades
desportivas (Cubero, 2008; Lapetra, 1996). Com a criação das federações
desportivas (canoagem, montanhismo, esqui, etc.) estas actividades foram-se
institucionalizando, contribuindo para a difusão da prática e para o relançamento do
68
seu processo de desportivização (Lapetra, 1996). Progressivamente, estas
actividades, mais ou menos lúdicas ou utilitárias, converteram-se em interesse
desportivo. A prática destas actividades tornou-se mais acessível, permitindo a
transferência dos usos e dos costumes da burguesia para as classes populares
(Lagardera, 1992), estendendo-se até chegar, actualmente, a uma significativa
massa social (Lapetra, 1996).
69
pelas jovens elites europeias, que se estenderam mais tarde às classes médias
altas, em especial da sociedade britânica, e que ficou conhecida por Grand Tour.
Esta viagem, cuja rota tinha um itinerário que era comum à generalidade dos que a
efectuavam, passava essencialmente por França, Itália, Alemanha e pelos Países
Baixos, via Suíça (Goeldner, Ritchie, & Mcintosh, 2002). O Grand Tour, segundo
Monk (1960), foi um dos grandes responsáveis pelo culto do cenário natural, dentro
da abordagem de uma estética do sublime, em especial quando eram ultrapassadas
as paisagens montanhosas dos Alpes. Estas experiências eram descritas,
posteriormente, aos que desconheciam os cenários vivenciados, muitas delas dando
origem a livros que relatavam os mais diversos aspectos das viagens, como por
exemplo os livros de relato das viagens de Johann Wolfgang von Goethe (1749-
1832), Edward Austen-Knight (1768-1852) ou Tobias George Smollett (1721-1771)
(Goethe, 2001; Knight, 1986; Smollet, 1981). A estética do sublime passou,
entretanto, a ser cultivada sob os mais diversos ângulos das artes, desde a poesia à
pintura.
A transformação desta atitude sobre as regiões selvagens advém, nos
Estados Unidos da América (EUA), do crescimento do território habitável que se foi
aproximando cada vez mais destas zonas. Esta mudança foi gradual e para isso
muito contribuíram personagens chave como Henry David Thoreau (1817-1862),
John Muir (1838-1914), Aldo Leopold (1887-1948), Robert Marshal (1901-1939),
entre outros, que escreveram e falaram sobre esta mudança de atitude (Watters,
1986).
A crescente ocupação dos centros urbanos pela população rural, para
trabalhar nas novas indústrias, influenciou o enorme desenvolvimento da Europa e
leste dos EUA, durante o século XIX (Bell, 2008). No final desse século (XIX), os
trabalhadores começaram a questionar a qualidade de vida nas cidades poluídas e a
desejar escapar desse mau ambiente (Bell, 2008; Dias, Melo, & Júnior, 2007). Em
1865 foi fundado em Inglaterra o primeiro grupo ambientalista que reivindicava mais
espaços naturais para o lazer da população (Dias, Melo, & Júnior, 2007), e alguns
grupos de pessoas, que habitavam cidades inglesas, que se expandiram perto de
paisagens selvagens, formaram clubes para caminhar ou passear de bicicleta no
campo durante os fins-de-semana (Bell, 2008).
A institucionalização e a popularização do hábito de se procurar os ambientes
naturais com o objectivo da realização das actividades de recreação e lazer, em
70
especial das práticas desportivas, são geradas, em grande parte, pela fundação de
clubes - uma marca do desenvolvimento do desporto moderno (Betrán & Betrán,
1995b; Dias, Melo, & Júnior, 2007). Um pouco por toda a Europa e América do Norte
foram desenvolvidos clubes para realizar actividades recreativas ao ar livre.
Exemplos são os clubes de campo em Inglaterra, os clubes de caminhadas na
Alemanha, e os clubes outdoor nos EUA. No entanto, o exemplo que melhor
exemplifica esta institucionalização é a organização dos clubes de montanhismo que
surgiram, pelo menos, a partir de 1857, com a fundação do Clube Alpino de Londres,
ao qual se seguiram outras iniciativas análogas, como a Associação Alpina da
Áustria em 1862, os clubes alpinos Suíço e Italiano em 1863, o Clube Alpino Alemão
em 1869, o Clube Alpino Francês em 1874, o Clube Alpino Belga em 1883, o Clube
Alpino Americano em 1902, e o Clube Alpino do Canada em 1906. A criação destes
clubes marca consideravelmente a institucionalização e a sistematização daquilo
que é designado, actualmente, de Desportos de Natureza. Não poderemos deixar de
considerar que a quantidade de iniciativas, a sua amplitude geográfica e o facto de
que grande parte desses clubes existir até os dias de hoje é significativo para se
considerar que não se trataram de esforços isolados, mas sim de uma determinada
conjuntura, tratando-se já da constituição de uma subcultura, articulada a um campo
em constituição (Dias, Melo, & Júnior, 2007), apesar de, durante muito tempo, estas
práticas estarem reservadas a uma elite desportiva e social (Bessy & Mouton, 2004)
O progresso de algumas ciências, durante o século XIX, foi outro factor
importante que permitiu o estreitar da relação entre o Homem e a natureza,
permitindo um maior conhecimento e compreensão sobre o meio ambiente natural,
estimulando a procura dos espaços naturais para fins científicos, reduzindo a
influência e os constrangimentos de natureza religiosa (Dias, Melo, & Júnior, 2007),
e representando, assim, o culminar do projecto emancipatório do Homem (Betrán &
Betrán, 1995b)
A procura crescente pelas actividades recreativas ao ar livre estimulou o
desenho dos primeiros parques nacionais onde o cenário e, em certa medida, a
protecção da vida selvagem foram combinados com as oportunidades de recreação
(Bell, 2008). Como consequência, surgiram os primeiros parques nacionais nos
EUA, no final do século XIX, seguindo-se iniciativas análogas um pouco por toda a
Europa, Austrália, Nova Zelândia, Canadá e Japão, com os mesmos propósitos
(Bell, 2008).
71
Na década de 1920 e 1930, na Grã-Bretanha, Europa e Norte da América, as
actividades ao ar livre, como os passeios de um dia de comboio ou de autocarro, os
piqueniques e as caminhadas, a natação, a canoagem e os estudos na natureza,
tornaram-se num passatempo comum realizado pelas diversas classes sociais (Bell,
2008). O desenvolvimento dos transportes (a bicicleta, o comboio, o carro e mais
tarde o avião), que está articulado com a revolução científica-tecnológica do século
XIX, aumentou consideravelmente as possibilidades de mobilidade, estimulando o
desejo de conhecer novos lugares (Dias, Melo, & Júnior, 2007). Com a massificação
do carro próprio e o desenvolvimento das vias de acesso nos anos 1950s e 1960s,
este novo poder de deslocação massificou o acesso a áreas remotas anteriormente
inacessíveis (Bell, 2008).
A expressão destes acontecimentos em distintos países permite separar as
actividades recreativas na natureza em dois paradigmas ideológicos que surgiram
neste período, e que ainda vigoram, e que se expressam em dois conjuntos distintos
de países, que pela sua ligação histórico-cultural, apresentam um modelo similar.
Um paradigma que segue a tradição das práticas de plein air (ar livre), originário de
França, e que é importando para outros países como Portugal e Espanha, etc.; e um
outro paradigma adoptado pelos países de expressão anglo-saxónica (Reino Unido,
EUA, Nova Zelândia, Austrália, etc.) e pelos países do Norte da Europa (e.g.
Noruega) que adoptam o conceito do outdoor recreation (recreação outdoor).
As actividades ao ar livre ganharam expressão na Europa, em especial em
França, através das correntes higienistas que surgiram na segunda metade do
século XIX. Estas apregoavam os méritos do ar livre como melhoria das funções
respiratórias, mas também se associaram ao exercício físico praticado no meio
natural, sinónimo de boa saúde (Bessy & Mouton, 2004). As novas representações
de retorno à natureza tiveram também a sua aplicação através dos movimentos
educativos naturalistas do início do século XX, em especial, através do surgimento
do Hebertismo, por Georges Hébert em 1903 (Bessy & Mouton, 2004), sob a ideia
do retorno à natureza, promovendo a virtude contra a decadência da vida urbana
(Vigarello, 1981). As mudanças sociais que ocorreram anos mais tarde
(generalização das férias pagas, progresso dos transportes, a acção voluntarista dos
movimentos laicos ou religiosos, etc.) deram origem a um modo de vida higienista e
a um idealismo político que favoreceram as relações com a natureza (Bessy &
Mouton, 2004).
72
Os termos adoptados por este paradigma foram evoluindo ao longo do tempo,
embora o itinerário de um conceito não seja simples de sequenciar em períodos,
porque as significações são múltiplas, as sobreposições presentes e as transições
às vezes são longas (Bessy & Mouton, 2004). Dando expressão a este facto,
Beauchard (2004) refere que se utilizam, actualmente, seis termos genéricos na
língua francesa para designar estas práticas que decorrem em meio natural: i) sports
de plein air (desportos de ar livre); ii) activités physiques de pleine nature
(actividades físicas na natureza); iii) activités sportives de pleine nature (actividades
desportivas na natureza); iv) activités de pleine nature (actividades na natureza); v)
loisirs sportifs de nature (lazer desportivo na natureza); vi) tourisme sportif (turismo
desportivo). Cada termo tem as suas próprias conotações e referem-se a grandes
correntes no mundo do desporto que decorreram em diferentes épocas da evolução
destas práticas, nomeadamente: à saúde e ao movimento higienista; à educação; à
competição; ao meio ambiente; ao lazer; e à economia (Beauchard, 2004). A
evolução destes termos revela representações diferentes sobre a natureza, e
relações distintas entre o universo desportivo e o ambiente global (Bessy & Mouton,
2004).
Por sua vez, nos países anglo-saxónicos (em especial no Norte da América),
as actividades da recreação outdoor surgiram associados às políticas nacionais de
preservação da terra, originárias na segunda metade do século XIX, às políticas de
conservação e gestão dos espaços naturais, no final do século XIX, e em especial à
criação do sistema de parques, no início do século XX (Jensen & Guthrie, 2006). As
grandes oportunidades de desenvolvimento da recreação outdoor surgiram
associadas a estas iniciativas e à criação de inúmeros clubes outdoor, no final do
século XIX (Jensen & Guthrie, 2006), a par com as organizações juvenis (e.g.
escutismo), que surgiram no início do século XX (Watters, 1986).
Um factor que marcou o grande crescimento destas actividades foi o
desenvolvimento dos programas outdoor, em especial do Outward Bound,
desenvolvido originalmente por Kurt Hahn, durante a segunda guerra mundial, com o
objectivo de ajudar os marinheiros Ingleses em situações de sobrevivência (Watters,
1986). Este programa foi importado, anos mais tarde, para os EUA, por Joshua
Miner, que desenvolveu o Colorado Outward Bound School no Verão de 1962.
Influenciados pelo espírito do Outward Bound, Paul Petzold criou duas escolas para
treinar outdoor leaders (instrutores), enquanto Willie Unsoeld foi porta-voz do
73
movimento da Wilderness Recreation (recreação nos lugares selvagens) durante
anos (Watters, 1986). Estas iniciativas deram origem ao desenvolvimento de
programas outdoor nas escolas, diferentes das abordagens dos clubes outdoor
anteriormente criados, por duas razões (Watters, 1986): as actividades dos
programas outdoor eram da iniciativa dos participantes, e as decisões desses
grupos eram tomadas democraticamente.
O termo outdoor recreation é apontado por Jensen e Guthrie (2006) como o
chapéu de outros termos que são geralmente associados à educação, tais como:
outdoor education (educação outdoor), experiential education (educação
experimental), environmental education (educação ambiental), adventure education
(educação pela aventura), challenge education (educação pelo desafio), wilderness
education (educação em zonas selvagens), assim como outros termos como outdoor
pursuits (actividades outdoor) e adventure recreation (recreação aventura), etc.
Cada um destes termos tende a expressar uma perspectiva diferente dos demais.
Este conceito abrange um grande espectro de actividades, que não apenas as
actividades físicas desportivas, nomeadamente (Jensen & Guthrie, 2006):
actividades de aventura outdoor (campismo, caminhada, escalada em rocha); ii)
actividades motorizadas (passeios turísticos de carro ou de autocarro, fora de pista,
snowmobiling); iii) educação outdoor; educação ambiental (centros na naturais ou
ambientais, acampamentos); iv) caça e pesca (tiro com arco, espingarda, fly fishing),
v) educação outdoor (birdwatching, observação da vida selvagem); vi) educação
pela aventura (percursos de desafio, expedições selvagens, actividades de
aventura); vii) interpretação natural, histórica ou cultural (encenações históricas,
caminhadas em trilhos naturais, visita a museus); viii) natureza e arte (fotografia,
pintura).
Seguindo estes apontamentos (históricos e socioculturais) pode-se afirmar
que este novo imaginário colectivo é o resultado de diversos factores,
nomeadamente (Dias, Melo, & Júnior, 2007, p. 363): “o crescimento das cidades; a
nova organização do trabalho e a valorização dos momentos de lazer; o higienismo;
a noção de pitoresco; a doutrina do sublime e o romantismo; a teologia natural; a
difusão da figura do homem académico; a popularização de algumas ciências e os
avanços tecnológicos; tudo articulado com o conjunto de mudanças de natureza
económica”.
74
2.3.3. PÓS-MODERNIDADE: NOVOS VALORES, NOVAS PRÁTICAS NA
NATUREZA
As mudanças que ocorreram a partir dos anos 1960-70s operaram uma
autêntica transformação no campo social e cultural das sociedades ocidentais. Este
novo período apelidado, pelos analistas, de pós-modernidade é referido por suceder
ao período moderno, e surge como um processo de transformação ideológica
produzida de forma tão marcada, que se fala de um conceito de mutação histórica.
Trata-se de um período transitório entre a era industrial e uma sociedade de serviços
(Betrán & Betrán, 1995a).
A teoria do progresso ilimitado, herdada das abordagens ilustradas do século
XVIII, pela mão da ciência, deixou de ser o paradigma epistemológico do nosso
tempo, cujo processo originou grandes problemas, em especial os ambientais, dos
quais a própria natureza já começou a se revelar, através das proteladas alterações
climáticas. Vivemos, pois, num período a que o filósofo e historiador alemão Karl
Jaspers chamou de Era Axial, para designar os períodos históricos de mudanças e
transformações profundas.
Seguindo esta ideia, também o campo desportivo sofreu as suas
transformações. As práticas desportivas realizadas na natureza tiveram um novo
impulso através do florescimento de um novo paradigma desportivo que teve a sua
origem no Norte da América, nos anos 1960s (Bourdieu, 1979; Pociello, 1981;
Wheaton, 2010). Estas práticas surgiram em consonância com os novos valores e
procuras sociais, que se disputam na praxis do tempo de lazer activo (Betrán &
Betrán, 1995b), redimensionando de forma significativa o campo do desporto. Estas
transformações reflectem-se no sistema das práticas, onde se podem identificar
globalmente as suas evoluções (Pociello, 1999) e que, de alguma forma, explicam a
tendência de evolução do próprio conceito de desporto. Pires (1990) afirma que esta
é a terceira fase de desenvolvimento do desporto, entendendo-se a primeira como o
jogo que ocorreu na sociedade agrícola numa dimensão local, a segunda durante a
revolução industrial numa dimensão global, e a terceira que configura as práticas
não-formais e informais, específicas da sociedade pós-industrial.
O surgimento destas novas modalidades desportivas na Europa decorreu
através de um processo e de uma dinâmica de complexificação surpreendente sobre
um duplo efeito: por um lado, através da importação dos novos desportos como o
surf, o windsurf e o voo livre (Pociello, 1981), pelos membros da grande e da nova
75
pequena burguesia (Bourdieu, 1979) e, por outro lado, pela criação de novas
modalidades através de um processo de diferenciação interna de práticas
estabilizadas (Pociello, 1981), como o esqui e a canoagem, que deram origem a
novas modalidades como o esqui fora de pista ou a canoagem freestyle,
respectivamente. Ao mostrar que estes dois processos (de importação e de criação
por diferenciação interna) não são independentes, Pociello (1981) acredita na ideia
de que este fenómeno é na realidade constituído como um sistema. As práticas
desportivas assim estruturalmente organizadas mantêm entre elas relações
sistemáticas que operaram de forma permanente, embora desconhecidas para nós
(Pociello, 1981).
As actividades desportivas realizadas na natureza expandiram-se, em
especial a partir dos anos 1980-90s, devido a uma mudança de valores que realça
uma nova relação com o eu, com o outro e com a natureza (Bessy & Mouton, 2004).
Diversos factores contribuíram para o desenvolvimento destas práticas, entre elas a
tecnologização (Pociello, 1999) e a mercantilização (Corneloup & Bourdeau, 2004).
Esta nova vaga de práticas desportivas na natureza surge ligada ao
aparecimento das novas tecnologias, atestando a tendência para uma sociedade
altamente tecnificada e individualizada (Fuster, Funollet, & Gómez, 2008), e que tem
permitido um maior desenvolvimento, diferenciação e especialização das práticas.
Os materiais e os equipamentos são, na maioria destas actividades, indispensáveis
para a sua realização (Davidson & Stebbins, 2011), surgindo como elementos
mediadores entre o indivíduo e o meio, permitindo transformar, em acções motrizes,
o aproveitamento das energias do meio como a velocidade do vento (parapente), a
força das ondas (prancha de surf), a altura ou a inclinação do terreno (prancha de
snowboard) (Fuster, Funollet, & Gómez, 2008). Surgem ainda como elementos de
segurança (cordas na escalada) e/ou de protecção dos agentes meteorológicos
(vestuário para a chuva ou neve). Ao analisarmos o desenvolvimento tecnológico,
observa-se uma tendência para o desenvolvimento dos materiais e equipamentos
com uma crescente adaptabilidade individual, permitindo uma maior autonomia, uma
maior facilidade de auto transporte e uma maior fiabilidade, possibilitando a
realização destas práticas a qualquer momento, de forma rápida, segura, e se
possível sem contar com a presença de mais ninguém (Fuster, Funollet, & Gómez,
2008). De forma geral, o desenvolvimento dos equipamentos e dos materiais tem
conferido a todas as actividades uma melhoria de qualidade da execução, a sua
76
segurança, e também a sua estética e vistuosidade (Betrán & Betrán, 1995b),
permitindo oferecer, em especial às novas gerações, experiências inebriantes de
mobilidade acrobática e vertiginosa a baixo custo energético (Pociello, 1999).
Estas práticas desportivas tornaram-se, também, produtos de consumo,
gerados, em parte, por três factores (Wheaton, 2010): i) pela espetacularização das
práticas, provocada pela produção de eventos que atraíram milhares de
espectadores ao vivo e pela televisão (TV), como os X-Games; ii) pela crescente
mediatização promovida pela indústria cinematográfica e televisiva através da
produção de séries e de canais de TV, focados em expedições extremas; iii) através
das campanhas de marketing, que associam diversos produtos de consumo a
actividades ou eventos desportivos. Estas actividades desportivas são, assim, um
produto desportivo (Heinemann, 1994), que corresponde às exigências e imposições
socioculturais e económicas do período pós-moderno.
O desenvolvimento destas actividades simboliza uma passagem de uma
natureza passiva, que atua sobre a pessoa, para uma natureza viva que o praticante
procura domesticar e explorar em todos os sentidos (Bessy & Mouton, 2004). A
natureza é assimilada prioritariamente como um terreno de jogo e de aventura
(Bessy & Mouton, 2004; Pociello, 1981; Pociello, 1995), onde o ambiente não é mais
do que um quadro de práticas que se utiliza para finalidades hedonísticas e/ou
competitivas, no qual se procura uma integração com o meio - que não é mais do
que um local de passagem (Bessy & Mouton, 2004). É neste sentido que Vigarello
(1981) refere que este é um momento de viragem de uma natureza dita de esquerda
(desporto hebertista), para uma natureza marcada ideologicamente à direita
(desportos californianos).
Muitas designações foram atribuídas a estes desportos tais como: alternative
sports (desportos alternativos), new sports (novos desportos), extreme sports
(desportos extremos), adventure sports (desportos de aventura), panic sports
(desportos de pânico), action sports (desportos de acção), whiz sports e lifestyle
sports (Booth & Thorpe, 2007; Midol, 1993; Midol & Broyer, 1995; Rinehart, 2000;
Rinehart & Sydnor, 2003; Wheaton, 2004). Apesar das diversas nomenclaturas,
muitos concordam em ver estas actividades como apresentando um potencial e uma
alternativa para desafiar as formas tradicionais de ver, de fazer e de compreender o
desporto (Wheaton, 2004; Wheaton, 2010). No entanto, de forma geral, estes termos
tendem a salientar as características socioculturais desses desportos, que surgiram
77
em contracorrente com o desporto tradicional e os seus valores dominantes (Booth
& Thorpe, 2007; Bourdieu, 1979; Breivik, 2010; Rinehart, 2000; Rinehart & Sydnor,
2003; Wheaton, 2004) cujas designações dão ênfase ao factor risco (real ou
percebido) que lhe está inerente (Breivik, 2010) e às características associadas aos
estilos de vida dos seus praticantes (Wheaton, 2004).
Um dos termos que melhor expressa esta nova corrente desportiva é o termo
desportos californianos, designado por destacar a origem geográfica e cultural
destes desportos, que surgiram nos anos 1960s, na Califórnia - EUA (Bourdieu,
1979; Pociello, 1981). Este paradigma é associado aos desportos que se
desenvolvem segundo uma estrutura motriz e a um estilo particular das práticas:
surf, windsurf, voo livre, skate, freesbe, etc. (Pociello, 1981). Estes desportos estão
associados a uma filosofia pacifista e ecologista, onde os praticantes procuram uma
harmonia com a natureza, através de uma prática livre e emocional, que se opõe à
perspectiva competitiva (Bessy & Mouton, 2004; Pociello, 1981; Vigarello, 1981). No
seguimento da corrente dos desportos californianos, surge o termo desportos de
deslize, para designar as actividades que recorrem à utilização das energias da
natureza como um meio de propulsão, que proporciona o deslizamento na água, no
ar ou na terra (Lacroix, 1985; Loret, 1995). No entanto, esta perspectiva é também
transposta para o ambiente urbano – glisse urbaine (deslize urbano) (Loret &
Wasser, 2001) através das modalidades como o skate ou patins em linha.
O termo novos desportos tende a salientar e a destacar o carácter inovador
de certos desportos em contraste com os desportos da modernidade (Betrán &
Betrán, 1995b). Na mesma linha de pensamento, o termo desportos alternativos
surgiu, e é usado, para caracterizar os desportos que representam uma alternativa
ou oposição aos valores da cultura desportiva dominante (Rinehart, 2000; Wheaton,
2004), cujas actividades desportivas tendem a criar, muitas das vezes, grupos e
ambientes que levam à origem de subculturas (Breivik, 2010). O termo lifestyle
sports aponta precisamente para essas características. Wheaton (2010) refere que a
popularidade destes desportos, e os estilos de vida que lhes estão associados,
estão relacionados com um amplo desenvolvimento cultural da modernidade tardia,
onde se podem ver algumas das questões centrais e os paradoxos do capitalismo
avançado ou das sociedades da modernidade tardia como a expressão da auto-
identidade cada vez mais fragmentada, móvel, múltipla, pessoal, auto-reflexiva, e
sujeita à troca e à inovação, ao declínio do colectivo e dos valores da comunidade, e
78
a um focus concorrente no self – um impulso social da individualização. Belinda
Wheaton cunhou este termo para representar, historicamente, novas formas de
prática desportiva que, entre outras coisas, incorpora uma ideologia de participação,
de promoção do hedonismo, de diversão e auto-expressão, que enfatiza a
criatividade e a estética, e fetichiza as noções de risco e de perigo (Wheaton, 2004).
Neste tipo de desportos o factor risco é, sem dúvida, uma das características
mais evidenciadas. O termo desportos de risco (risk sports), segundo Langseth
(2011), acentua precisamente o papel fundamental que a tomada voluntária de risco
assume na participação nestes desportos, sugerindo actividades que colocam os
participantes em situações onde estes possam ficar gravemente feridos ou sofrer
consequências fatais se cometerem erros. Por outro lado, o termo desportos
extremos (extreme sports) foi generalizado a partir dos anos 1980s, associado às
actividades relacionadas com feitos grandiosos, excessivos ou imoderados, que são
levadas ao extremo para atingir os limites (Le Scanff, 2000), e associados ao estilo
de vida outdoor (Breivik, 2010). No entanto, Breivik (2010) refere que o seu conteúdo
tem mudado ao longo dos anos, em especial com a introdução dos Extreme Games
(Jogos Extremos), em 1995, aparecendo agora incluídos novos desportos como o
skate, o snowboard, e o BMX, associados a um estilo de vida mais urbano. Breivik
(2010) refere que não existe uma clara fronteira entre os desportos incluídos nos
conceitos anteriormente designados, embora o conceito de desportos de aventura
cubra um amplo campo de desportos e actividades físicas, que inclui a generalidade
desses desportos, nomeadamente: a) têm elementos de desafio, excitação e (em
muitos desportos) risco; b) têm lugar em ambientes naturais ou em espaços
artificialmente construídos; c) apresentam um menor grau de organização do que a
corrente principal do desporto; d) representam uma liberdade em relação, ou em
oposição, à cultura desportiva dominante; e) são actividades individualistas mas que
tendem a formar grupos e subculturas em volta da actividade.
79
prática desportiva que se desenrolam em meio natural, e que se assemelha a um
dos maiores mitos do nosso tempo (Bessy & Mouton, 2004; Vigarello, 2000). A
designação de Desportos de Natureza inscreve-se, assim, num processo histórico
de evolução de um nome atribuído às práticas físicas que se desenrolam em meio
natural, que revela a evolução da representação da natureza, que apresenta uma
crescente preocupação com a sua protecção, valorização e estruturação, explorando
a ligação entre o universo desportivo e o envolvimento global, através das questões
emergentes associadas às mutações políticas, económicas e culturais da sociedade
contemporânea. Os Desportos de Natureza compreendem as actividades aéreas
(parapente, asa delta, etc.), terrestres (canyoning, escalada, pedestrianismo,
actividades equestres, BTT, etc.) e aquáticas (canoagem, surf, windsurf, vela, etc.)
que se desenrolam em meio natural. Esta definição exclui um certo número de
práticas identificadas ou evocadas noutros estudos como as visitas a jardins, os
desportos motorizados, a pesca e o golfe (Bessy & Naria, 2005). Estas actividades
impõem uma motricidade que necessita de uma descodificação da informação, um
controlo das emoções, e uma relação com o assumir de um risco relativo, ligado à
maior ou menor incerteza do meio, onde os praticantes procuram sensações
múltiplas - ludismo, extremo, bem-estar, descoberta, convivialidade, etc. (Bessy &
Mouton, 2004).
A evolução deste conceito tem em conta, segundo Bessy e Mouton (2004) as
seguintes dimensões:
i) O processo de difusão do desporto na sociedade;
ii) A emergência do conceito de desenvolvimento sustentável;
iii) O papel das actividades desportivas no desenvolvimento económico local
e na estruturação dos territórios.
Pode-se ainda acrescentar, às três anteriores, uma quarta dimensão que é a
mercantilização das actividades na natureza, através de labels (produtos)
associados, em especial, à ecologia (Bouhaouala & Bouchet, 2007) e à aventura
(Varley, 2006).
De facto, o processo de difusão do desporto na sociedade durante as últimas
duas décadas é um primeiro dado explicativo. Este processo tem origem na
campanha internacional lançada pelo Conselho da Europa em 1966, denominada
por Desporto para Todos, consolidado mais tarde pela Carta Europeia do Desporto
(Conselho da Europa, 1992), cujo enunciado expõe e define a prática desportiva
80
como um direito fundamental de todos os cidadãos. Este documento tornou-se,
aliás, num instrumento político-ideológico e um marco extremamente importante
neste movimento, que originou o desenvolvimento de um novo paradigma
desportivo, especialmente na Europa. A este processo configura-se uma nova
(re)estruturação desportiva, associada a novas formas de prática e a novos
consumos, salientando-se a invasão dos desportos na vida quotidiana, das
actividades de lazer para os ecrãs da TV (Bessy & Mouton, 2004), permitindo a
desportivização da sociedade.
Da mesma forma, as mudanças mais significativas da prática desportiva
atingem, de igual modo, os Desportos de Natureza. Estas práticas favorecem o
desenvolvimento de projectos desportivos muito diferentes, que permitem
modalidades de prática extremamente variadas, das mais estruturadas às mais
informais, privilegiando as formas auto-organizadas, que são as mais populares
entre os praticantes (Bessy & Mouton, 2004).
O desenvolvimento da prática dos Desportos de Natureza é progressivo, e
são numerosos os indicadores que permitem observar este fenómeno. Tem-se
denotado uma tendência pela vida rural, uma atracção pelas práticas desportivas na
natureza durante o tempo de lazer, e um sucesso notável na participação em
eventos desportivos ao ar livre (informais e formais), enquanto espectadores ou
praticantes (Corneloup & Bourdeau, 2004). Este facto é comprovado pelo estudo
sobre as práticas desportivas em França, que indica que um em cada três franceses
entre os 15 e os 75 anos esteve envolvido numa actividade desportiva na natureza
(Mignon & Truchot, 2002). Se os dados anteriores são relevantes para demonstrar a
difusão destas práticas na sociedade, outras evidências são apontadas por Bessy e
Naria (2005) para perceber o desenvolvimento deste fenómeno: i) os fabricantes
indicam que a venda de artigos desportivos, posicionados no segmento outdoor,
está em progressão regular de 15% a 20% ao ano; ii) tem aumentado o
planeamento de inúmeros sítios naturais (percursos, vias de escalada, áreas de
descolagem e de aterragem, etc.) e de equipamentos desportivos inovadores, como
as estações de surf, os espaços artificiais de águas vivas, e as bases de multi-lazer;
iii) é também visível a multiplicação de uma nova geração de eventos desportivos de
vocação participativa (raids, challenges, corridas de aventura, etc.). Corneloup e
Bourdeau (2004) salientam ainda, do lado da oferta, o crescente número de
prestadores de serviços associados aos Desportos de Natureza, de base associativa
81
e de base comercial/turística, que apresentam um constante aumento do volume de
negócios.
Se limites existiam na relação entre o desenvolvimento sustentável e os
Desportos de Natureza, esta é hoje uma realidade que está estruturada de forma
progressiva e que dá aos Desportos de Natureza uma nova legitimidade no campo
desportivo e turístico (Bessy & Mouton, 2004). Um marco importante que permitiu
consolidar esta relação foi a emergência do conceito de desenvolvimento
sustentável, que teve origem no final do século XX, e que atestou a crescente
consciência da sociedade perante a degradação do meio ambiente, decorrente do
processo de desenvolvimento, declarando a necessidade de criar um novo
paradigma que articule, em especial, o desenvolvimento socioeconómico com a
protecção da qualidade ambiental (Fidélis, 2001).
Associado ao fenómeno turístico, os espaços naturais e as práticas
desportivas na natureza, estão a ser factores dominantes durante as férias e as
migrações estivais. A preservação desses espaços e a manutenção das populações
que tradicionalmente os exploravam é actualmente uma das maiores questões que
se colocam no panorama político. Neste contexto, os Desportos de Natureza
excedem os interesses higiénicos e lúdicos anteriores, apresentando-se como
vectores de estruturação dos territórios que tecem relações estreitas com o turismo e
o desenvolvimento sustentável (Bessy & Naria, 2005), participando, assim, numa
dinâmica espacial que extravasa largamente o fenómeno desportivo, colocando em
causa a questão dos problemas territoriais (Augustin, 2002). Esta nova percepção
sobre este fenómeno não é inconsequente sobre a representação dos Desportos de
Natureza e sobre o papel que desempenha no desenvolvimento sustentável (Bessy
& Mouton, 2004). Quando cruzam as dimensões económicas, socioculturais e
identitárias, os Desportos de Natureza estão cada vez mais a desafiar os diferentes
actores (políticos, económicos, institucionais, etc.) interessados em preservar o
ambiente (Bessy & Mouton, 2004), e a ser capazes de desenvolver o sistema
turístico, permitindo o desenvolvimento sustentável dos territórios e a conservação
da natureza (Decreto-Regulamentar nº 18/99, de 27 de Agosto).
Os Desportos de Natureza participam, assim, numa relação estreita com o
desenvolvimento local, tendendo a contribuir para a sustentabilidade dos territórios
dos locais de prática (em especial nas zonas rurais), para uma valorização das
manifestações socioculturais, para o fomento do tecido económico, e para uma
82
sensibilização e conservação ambiental desses territórios (Martins, 1993), sendo
esta a premissa para uma concepção sustentável destas práticas (Fuster, Funollet,
& Gómez, 2008).
A evolução e o respectivo investimento nas áreas naturais são indicativos de
uma nova relação com a natureza, onde as múltiplas modalidades de prática se
desenvolvem no interior de dois tipos de natureza que se distinguem que se opõem
e têm o seu próprio público (Bessy & Mouton, 2004): uma natureza selvagem e uma
outra equipada ou domesticada. A natureza selvagem (que não é ou é muito pouco
equipada) é representada pelas regiões mais hostis do mundo (desertos,
montanhas, oceanos, florestas tropicais, etc.), e corresponde aos teatros das
grandes expedições, de raids e desafios de todo o género (e.g. corridas de
montanha, maratonas no deserto, etc.), realizadas por uma minoria de praticantes
que procura as práticas extremas; por sua vez, a natureza domesticada (urbanizada
e equipada) é apresentada nos meios suburbanos (e.g. através dos parques de lazer
e dos circuitos de manutenção), e nos meios rurais (e.g. através das estações de
BTT, de voo livre, dos centros e pistas equestres, dos percursos pedestres, dos
espaços de lazer de natureza, etc.), a fim de facilitar o acesso ao maior número de
pessoas possível (Bessy & Mouton, 2004). Os Desportos de Natureza participam,
assim, num duplo processo, que Pociello (1995) definiu como urbanização da
natureza e de naturalização da cidade.
Se até aos anos 1980s, o lazer desportivo na natureza envolveu os espaços
de plena natureza, fora dos grandes núcleos urbanos (nas zonas de montanha por
exemplo), o destaque dos últimos 30 anos é o aumento acentuado das práticas dos
Desportos de Natureza realizadas em zonas de proximidade (Corneloup &
Bourdeau, 2004) e fora dos limites dos espaços naturais protegidos. A
transformação desta lógica territorial modificou a lógica dos espaços. Corneloup,
Bourdeau e Mao (2004) observaram este processo nas zonas de montanha
francesas, na época estival, denotando um desvio e uma descida progressiva das
práticas para o fundo dos vales das montanhas, espacializaram a prática dos
Desportos de Natureza em quatro círculos concêntricos em torno de um sítio
turístico de natureza: indoor (no interior da zona urbana), arounddoor (na periferia da
zona urbana), outdoor (na natureza), e wilddoor (nas profundezas da natureza). Esta
lógica territorial e espacial permite uma sinergia comercial entre as diferentes
actividades turísticas e os diferentes espaços, podendo-se afirmar que a
83
mercantilização dos Desportos de Natureza é indissociável do aumento da sua
territorialização (Corneloup, 2005).
Face a estas novos desafios apresentados pelo lazer e pelo turismo
desportivo na natureza, os diversos intervenientes interessados neste campo
actuam no mesmo sentido, apesar de se posicionarem de uma forma particular, e
em função das lógicas dominantes que os dirigem. Os actores políticos e
institucionais têm colaborado em estratégias no que diz respeito às preocupações
com os territórios, o meio ambiente e a construção de uma indústria do turismo.
Bessy e Mouton (2004) referem que apesar das diferenças locais, a acção conjunta
destes actores, a favor da integração dos Desportos de Natureza no
desenvolvimento sustentável, contribui para a evolução da percepção deste novo
conceito, atribuindo-lhe novos desafios e, portanto, um novo lugar na nossa
sociedade.
Os Desportos de Natureza tornaram-se, nos últimos anos, num produto de
mercantilização, que tem transferido o seu domínio de desenvolvimento da esfera
pública para a privada. A crescente mercantilização das actividades recreativas tem
tido um grande impacto no tempo de lazer, porque enquanto antigamente o tempo
livre era principalmente autodirigido, agora é objecto de consumo através da
aquisição de produtos ou serviços. Muitas das actividades recreativas que eram
espontâneas e não supervisionadas são agora formalmente organizadas e vendidas.
A crescente mercantilização das práticas desportivas e em particular dos
Desportos de Natureza está muito associado à indústria do lazer e do turismo, em
especial aos novos segmentos do turismo que surgem associados à crescente
procura de férias activas, desde os anos 1980s (Gibson, 1998a; Priestley, 1995).
Este facto é explicado, em parte, porque os clubes desportivos focados
principalmente sobre os valores do esforço, de competição e de aprendizagem
técnica, deixaram de corresponder às expectativas resultantes do campo do lazer
desportivo (Paget, Mounet, & Guilhon, 2007). Desta forma, foram surgindo diversas
estruturas desportivas comerciais, constituídas para satisfazer as necessidades
expressas, comercializando os seus produtos com ênfase nos aspectos lúdicos,
acessíveis e sem restrições na prática desportiva (Leblanc, 2001; Paget, Mounet, &
Guilhon, 2007; Pigeassou & Garrabos, 1997).
O processo de criação de empresas seguiu uma lógica que começou com a
descoberta das actividades desportivas, reforçada depois pelo surgimento de um
84
mercado cada vez mais dinâmico (Bouhaouala, 2004). A criação de empresas
despontou no final de 1980s a meados dos anos 1990s, devido às condições
socioeconómicas favoráveis às actividades turísticas na natureza (Bouhaouala,
2004; Viñuelas, Betrán, & Plantalamor, 1995). Através do compromisso das
instâncias políticas locais e regionais sobre o desenvolvimento socioeconómico local
(criação de emprego, manutenção da população local, etc.), e da emergência de
uma procura pelas novas formas de turismo, foram criados os primeiros prestadores
de serviços de lazer, compostos essencialmente por centros de férias, municípios e
parques naturais regionais, sendo estes dois últimos os primeiros empregadores na
área do turismo desportivo (Bouhaouala, 2004). Este contexto possibilitou a
instalação no mercado dos praticantes experientes que, através do uso das suas
competências técnicas desportivas, passaram do consumo das práticas ao
fornecimento da oferta, com o estatuto de trabalhadores sazonais (Bouhaouala,
2004). Os dirigentes que vieram a criar as primeiras empresas iniciaram-se como
monitores desportivos assalariados por temporada, instalando-se posteriormente, e
de forma definitivamente, por conta própria (Bouhaouala, 2004). Esta experiência foi
um factor catalisador na tomada de decisão de romper com o trabalho assalariado, e
da criação das primeiras microempresas de serviços outdoor, em meados dos anos
1980s (Bouhaouala, 2004). A este propósito, Bouhaouala (2004) refere quatro
períodos que deram origem a diferentes formas empresariais, em França:
i) O primeiro período acontece no final dos anos 1980s, com o surgimento
dos trabalhadores independentes e dos monitores sazonais;
ii) O segundo período decorre até 1995, com o aparecimento das formas
intermediárias através da associação de amigos, principalmente sob a forma de
agrupamento de trabalhadores independentes, e dos centros de férias;
iii) O terceiro período dá-se depois de 1995, com o surgimento das
organizações empresariais, que apresentaram novas formas de gestão:
racionalização da produção, pagamento de impostos corporativos, maiores quotas
de mercado, etc.;
iv) O quarto período surge depois de 2002, com o aparecimento de outras
formas comerciais e organizacionais como as organizações administrativas,
familiares, etc.. Neste período realizaram-se fusões e/ou aquisições, estabelecendo-
se quotas de mercado cada vez mais importantes.
85
Com o crescimento e desenvolvimento dos Desportos de Natureza, o
mercado, e o marketing associado à mercantilização destas actividades, tem criado
alguns rótulos que destacam as principais características destas actividades. Entre
outros destacam-se dois: o ecolabel e o adventure label. Estes labels tendem a criar
um imaginário colectivo da representação de um consumo mais ecológico
(Bouhaouala & Bouchet, 2007), e de uma vida mais aventureira (Varley, 2006).
O ecolabel representa um mecanismo legislado que assegura altos standards
de performance ambiental (Font, 2002), com dois objectivos principais (Gallastegui,
2002): i) fornecer aos consumidores mais informações sobre os efeitos ambientais
do seu consumo, gerando uma mudança para padrões de consumo mais
respeitadores do ambiente; ii) encorajar os produtores, governos e outros agentes a
aumentar os standards ambientais dos produtos/serviços. O ecolabel é, assim, uma
referência de excelência (De Boer, 2003) que se destina a incentivar uma mudança
para hábitos de consumo ambientalmente mais amigáveis (Gallastegui, 2002). No
entanto, as actividades com o ecolabel, mais do que os objectivos/benefícios
apresentados, são criadoras de um imaginário de consumo associado a
produtos/serviços sustentáveis, que advêm do aumento das crescentes
preocupações ecológicas (Dias, Melo, & Júnior, 2007).
Estas práticas desportivas que se associam às novas formas de turismo,
como o Turismo de Natureza e o Ecoturismo, tendem a assumir-se mais
sustentáveis, suaves e discretas, representando uma relação de complementaridade
com a natureza (Joaquim, 1997). Estes novos segmentos correspondem a uma clara
manifestação, e a uma tendência de consumo eco das actividades de lazer ou
turísticas (Gomes R. A., 2009), uma versão green (verde) das actividades de
aventura (Breivik, 2010), seguindo uma tendência ideológica pós-moderna do gosto
pelo ecológico (Betrán & Betrán, 1995b). Esta dimensão de participação nos
Desportos de Natureza aponta para que estas práticas sejam um fenómeno da
sociedade, e uma tendência estruturalmente ancorada nos modos de vida
contemporânea (Bessy & Naria, 2005). A este propósito, Chazaud (2004) e Pociello
(1995) apontam para a tendência da naturalização ou ecologização das práticas
desportivas. Brymer & Gray (2009), no seu trabalho empírico sobre a representação
da natureza, também referem que existe uma relação ecocêntrica entre estes
desportos e a natureza, e que é descrita pelos participantes destas actividades como
omnipresente e ubíqua, uma fonte de poder inato e de significado pessoal.
86
Por outro lado, R. A. Gomes (2009) refere que as actividades eco
(ecoturismo, ecolazer e ecodesporto) representam a construção imaginária de um
regresso a uma natureza selvagem, o retorno a um paraíso perdido, e uma nova
busca das raízes locais. As práticas desportivas ao ar livre participam nesta busca
de uma identidade que se possa enraizar de novo num território e lugar. A busca da
onda perfeita por quem pratica surf, do lugar mais idóneo para voos rasantes por
quem pratica parapente, ou o caminho mais desconhecido e exótico por quem
pratica pedestrianismo, participando neste simbolismo, assente simultaneamente
numa atitude errante e contemplativa (Gomes R. A., 2009).
O adventure label segue esta mesma lógica. É usado nas actividades
turísticas e de lazer na natureza (Desportos de Natureza) como uma representação
simbólica, onde a aventura é socialmente construída e submetida a um processo de
mercantilização (Beedie & Hudson, 2003). A mitologia da natureza selvagem, em
especial da montanha, é incorporada com noções românticas de exploração,
viagem, e procura (Beedie & Hudson, 2003). Esta ideia é já expressa por Simmel
(1959), que usou o termo aventureiro na interpretação das formas pelas quais os
viajantes se identificavam quando procuravam as actividades de lazer. Na visão de
Simmel (1959), os turistas saem da regularidade da sua vida quotidiana, que é
amplamente conhecida, para lugares, práticas e experiências que são efémeros e
em grande parte desconhecidas. A aventura é agora icónica na tentativa de enfatizar
a alteridade na oferta de actividades turísticas e experiências de alguns lugares,
tornando-se um segmento essencial da identidade turística a ser cada vez mais
servida de uma maneira formal (Cloke & Perkins, 2002).
A esta concepção de aventura está inerente a noção de risco, real e/ou
percebido, e que tem sido alvo de gestão pela indústria do lazer e do turismo. A
gestão do risco tem sido paradoxal pois se, por um lado, se tem assistido a uma
tentativa de redução do risco real, em especial através da criação de leis e de
sistemas de gestão do risco e da segurança (Martin & Encinas, 2004; Melo &
Mendes, 2011; Pimentel & Melo, 2013; Renn, 1998), por outro, tem sido induzido um
aumento da percepção do risco, de forma a atrair praticantes que procuram
elevadas sensações, em actividades que não apresentam um risco real elevado
(Dolnicar & Dickson, 2004; Palmer, 2004). A inter-relação entre o risco percebido e o
risco desejado tem sido um factor importante para a comercialização destas
actividades pois, não só influenciam os comportamentos de consumo, como também
87
os comportamentos durante a realização da actividade, tanto em indivíduos que
procuram um risco mais elevado (onde o risco desejado é maior que o risco
percebido) como pelos que procuram riscos menores (onde o risco desejado é
menor que o risco percebido) (Dolnicar & Dickson, 2004; Wilde, 1999). Neste
sentido, o sucesso da comercialização dos Desportos de Natureza radica na
instrumentalização do risco (Matute & Agurruza, 1995), onde o fornecimento de um
óptimo nível de risco desejado conduz a uma maximização da procura das
actividades de aventura (Dolnicar & Dickson, 2004).
Feixa (1995), ao analisar o discurso dos meios de comunicação social,
através de uma visão antropológica, refere que as actividades físicas de aventura na
natureza não provêm dos seus aspectos práticos ou materiais, mas sim da sua
dimensão imaginária ou simbólica. Argumenta que a aventura aparece como um
cenário para a gestão controlada das emoções, em que as acções se subordinam à
percepção dos riscos reais e dos perigos imaginários, e que mistura três visões da
vida e do mundo (Feixa, 1995): o ponto de vista físico externo (natureza, água,
velocidade), a visão emocional interna (risco e liberdade) e a visão química
resultante (adrenalina). Os seus argumentos prosseguem referindo que a aventura
se situa entre a natureza e a cultura, constitui uma emoção mimética, integra um
ritual, e se apresenta como um fenómeno social total.
Cloke & Perkins (2002), ao analisarem a comercialização da aventura na
Nova Zelândia, examinam a conexão entre o consumo e a promoção do lugar, as
formas em que são influenciadas as representações e as experiências do lugar, e a
formação de identidades culturais em diferentes lugares. Neste sentido a aventura é
revestida de um sentido imaginário, seguindo a visão de Urry (1990), dos pós-
turistas de massas (pós-turistas). Os objectos de desejo dos pós-turistas são valores
simbólicos relacionados com a novidade, a obtenção de capital cultural, e de
emoção intensa e espectáculo. Esses objectos de desejo são fornecidos por novas
formas de empreendimento comercial que fornecem produtos de nicho que
permitem aos turistas afastarem-se do que antes era visto como turismo de massas,
para terem acesso a actividades especializadas, muitas vezes em lugares distantes
(Cloke & Perkins, 2002). No entanto, os pós-turistas que julgam estar longe das
experiências encenadas do turismo, são igualmente atraídos para o espectáculo e
outras atracções turísticas do mercado do turismo (Cloke & Perkins, 2002; Crick,
1995).
88
A mercantilização dos lugares de turismo de aventura é baseada em quatro
características (Cloke & Perkins, 2002): i) os lugares da aventura transformam-se em
atracções particulares; ii) os espectáculos constituem o triunfo da aparência sobre a
realidade; iii) as experiências corporais que incluem a excitação, a emoção, o medo
e superação do medo, podem ser comprados como parte de uma experiência; iv) as
memórias que são oferecidas sob a forma de uma impressão fotográfica ou vídeo,
que surgem com o advento da tecnologia digital, tornam disponível uma gama mais
rápida e flexível da memorabilia.
89
A este propósito, Pociello (1981) refere que esta tendência de evolução das
práticas com um cariz predominado pelo modelo ultracompetitivo dos países anglo-
saxónicos para as práticas com uma matriz livre (ou californiana), denota uma clara
tendência para a estetização das práticas, um processo definido pelo próprio como
desterritorialização das práticas.
Ao analisarmos esta tendência de evolução das práticas desportivas podemos
constatar que as diversas actividades dos Desportos de Natureza têm surgido, de
forma cíclica, através de um duplo processo. Por um lado tem-se assistido ao
surgimento de práticas que provêm de um processo de desportivização de práticas
recreativas (ou utilitárias) que corresponde à sua institucionalização, e por outro ao
surgimento de novas práticas através da reconversão das práticas anteriores,
originando novos modelos que apresentam um carácter essencialmente recreativo e
livre - processo que se pode chamar de des-desportivização das práticas. Estes
processos que podem ser observados na generalidade das práticas dos Desportos
de Natureza (Defrance, 1987) foram alvo de análise mais específica na escalada
livre (Hoibian, 1995) e no voo livre (Jorand, 2008) em França. Este processo é
manifestado por conflitos, adaptações e renovações, por uma espécie de revolução
e de ruptura com a forma de conceber a prática, e que marca a emergência de
novas modalidades. A redefinição social destas actividades e a (re)categorização
simbólica que se opera em determinadas ocasiões são determinantes para a
definição da prática legítima que constitui o foco central destes espaços sociais
(Defrance, 1987; Hoibian, 1995; Jorand, 2008). Esta abordagem opõe-se às análises
que tratam o desporto como uma entidade homogénea, que a glorifica ou a condena
(Hoibian, 1995).
Embora estes processos originem novas modalidades, as práticas anteriores
continuam a persistir. Assiste-se, assim, no interior do mesmo desporto a uma gama
extremamente ampla de diversas modalidades diferentes e contraditórias de prática,
que através do seu processo de evolução poderão coexistir e portanto interagir
(Pociello, 1981). A este respeito Jorand (2008) refere que os novos adeptos do voo
livre (Desportos de Natureza) são confrontados com dois tipos de prática: um que
simboliza o retorno à natureza, a simplicidade e a estética, e que defende um voo
gratuito em harmonia com a natureza; um segundo tipo que promove os valores
tradicionais do desporto - o registo, a concorrência e a regulação.
90
Esta análise desperta uma discussão entre novos e velhos desportos (de
natureza), mais precisamente sobre o posicionamento destes desportos entre a
modernidade e a pós-modernidade. A este respeito Soto (2007) refere que os
Desportos de Natureza não representam um fenómeno exclusivamente pós-
moderno pois, seguindo a teoria de pós-modernização de Inglehart (1998), apesar
das sociedades ocidentais avançadas estarem a produzir uma mudança cultural
para o pós-modernismo, tal mudança não pressupõe, contudo, uma ruptura com as
condições estruturais modernas. Baseando as suas ideias nesta tese, Soto (2007)
argumenta que os Desportos de Natureza incluem algumas das principais
características tanto da modernidade como da pós-modernidade, ao constituírem um
claro exemplo da dinâmica sociocultural das sociedades avançadas em contínua
tensão entre a autonomia, a liberdade, a flexibilidade e a subjectividade, com a
racionalidade, o compromisso, a identidade colectiva, a disciplina e a
mercantilização.
A estrutura actual dos Desportos de Natureza é a consequência directa de um
processo histórico do que Bourdieu (1979) designou como produto das lutas
anteriores para transformar ou conservar a sua estrutura. Pociello (1989) refere que
a tentativa de modelizar a evolução das práticas de lazer desportivo (Desportos de
Natureza) passa pela análise de um sistema relativo a variáveis internas e externas
do campo desportivo. Estas práticas desportivas articulam-se, assim, em torno de
três modelos, sobre um fundo de diversificação das actividades e da sua
diferenciação interna (Pociello, 1989):
i) Um modelo de prática competitivo, ascético e duro, constituído por um
afrontamento institucional e um confronto individual, popularizado pelo desporto
espectáculo, fortemente estruturado pelas federações nacionais (e internacionais), e
pelas ligas profissionais ou semiprofissionais, e que é defendido pelas organizações
fundamentalmente misoneístas ligadas à formação, e formatadas para a gestão das
elites desportivas que enquadram e que a controlam estritamente;
ii) Um modelo original qualificado de aventureiro ou de catastrófico,
construído sobre uma licitação de proezas incomparáveis e de aventuras individuais
inéditas e arriscadas, que é encarnado pelos praticantes de excelência das
actividades desportivas na natureza que procuram uma gestão mediática das suas
proezas aventureiras. Este modelo, eminentemente produtor de novos espaços e
descobridores de novos meios atesta, através dos seus múltiplos formatos
91
mediáticos, um consumo crescente no grande público, através das imagens de
exploração e das representações da aventura. Ao mesmo tempo, também revela um
desenvolvimento correlativo com as figuras heróicas (um renascer dos mitos
desportivos) particularmente sensíveis na nova geração;
iii) Um modelo participativo e hedonista, lúdico e recreativo, construído sobre
as modalidades livres e autónomas (mas também consumidoras de serviços), ditas
de lazer. Este modelo, baseado nas alterações culturais e turísticas (ou higiénicas e
estéticas) das actividades existentes, define-se como anti competitivo, analógico e
convivial, e organiza-se sobre estruturas que não exigem uma obrigatoriedade
participativa.
Corneloup (2011) através de uma análise cultural das práticas dos Desportos
de Natureza apresentou os princípios de uma forma cultural em emergência, a forma
transmoderna, que se tornou numa forma cultural contemporânea e dinâmica (ver
Tabela 5).
Tabela 5. Estilos de prática e a forma cultural transmoderna.
Estilo de prática Forma moderna Forma pós-moderna Forma transmoderna
Eco (caminhada, surf,
Pedestrianismo, kayak, Raide BTT, surf,
Práticas alpinismo, etc. canyoning, kayak surf
BTT, etc.) arte, música,
etc.
Grande Rota,
Multicultural: modo de
Itinerância Conquista, objectivos, Spot e spot surf
vida; projecto circular
projecto sequencial
Adulto, homem Mulheres, seniores,
Indivíduos, segmentos,
Público desportivo,
estilo, jovens
criativos culturais,
aventureiros novos rurais
Corpo Energético Lúdico, vertiginoso Ecológico
Separação, Hibridação, Mestiçagem cultural,
Princípios culturais uniformização, fragmentação, transcultural,
centralização estetização naturalidade
Linha Direita Curva Espiral
Dimensão Outdoor/ wildoor,
Outro lugar (ar livre) Indoor/ aroundoor
Geodesportiva Transversalidade
Provação, Desafio, ludismo,
Atmosfera, reencontro,
Imaginário performance, vertigem, emoção,
recreação
competição sensação
Esta análise evidência quatro formas de prática desde a idade média até à
actualidade, que se têm renovado e que actualmente coabitam dentro do campo das
actividades recreativas na natureza (Corneloup, 2011):
92
i) A forma tradicional: organiza-se através dos jogos tradicionais que foram
fortemente desenvolvidos na idade média. Estes jogos são marcados pela
diversidade e pelas suas particularidades regionais e sociais, não incorporando as
regras e as normas introduzidas pelo modelo do desporto moderno. Uma variedade
de práticas tem permitido constituir um enorme património recreativo que continua a
ser inovado através da criação de novos jogos e pela redescoberta de outros
antigos. Hoje em dia, diversos festivais têm sido desenvolvidos através destas
temáticas em todo o território, cujo retorno do conteúdo e do interesse pelas práticas
medievais (jogos de armas, jogos nos castelos, etc.) têm, assim, ilustrado esta
dinâmica;
ii) A forma moderna: apareceu no século XIX e continuou a sua expansão
no decurso do século XX. Foi durante esta época que os desportos modernos foram
criados (desportos colectivos, de combate, individuais, etc.). Uma dominante
institucional, normativa e republicana impôs-se na tentativa de organizar da melhor
forma estas práticas, favorecendo a comparação e permitindo o desenvolvimento
das práticas nacionais, através da noção de igualdade, de vitória, de classificação e
de hierarquia. Os Desportos de Natureza desta época (alpinismo, espeleologia,
canoagem, vela, pedestrianismo, etc.) estão desta forma ligados a uma cultura
energética, contemplativa e prometeica, pela vontade de dominar a natureza, os
seus corpos e os elementos. Uma forte sociabilidade masculina, urbana e elitista foi-
se desenvolvendo através dos clubes e das instituições nacionais (federações,
ministérios, etc.). Esta forma foi dominante no decurso do século XX, não se
devendo deixar de considerar, no entanto, que decorreram inovações, e que esta
forma continua a impregnar o imaginário e as mentalidades dos indivíduos
contemporâneos. O declínio do simbolismo pela conquista da natureza é
retransmitido através do simbolismo competitivo que se introduz em cada vez mais
Desportos de Natureza, pois nunca como hoje se propagaram tantas práticas
competitivas através de challenges, raids, provas de BTT, etc.;
iii) A forma pós-moderna: emergiu nos anos 1980s-2000s como uma nova
cultura produtora de uma ruptura radical com a cultura moderna pela sua vontade de
repensar a ligação com a natureza, consigo, com as instituições e com os outros.
Surfar sobre a vaga, voar pelos ares, jogar com os elementos aéreos, etc. - tudo é
possível para deslizar, voar e procurar múltiplas vertigens. As inovações lúdicas,
comerciais, tecnológicas ou imaginárias estão em contínuo movimento para produzir
93
os micro-universos correspondentes às expectativas dos seus nichos culturais. Uma
abertura social é produzida em direcção aos jovens, às mulheres, às famílias, às
pessoas com mobilidade condicionada e aos diferentes segmentos de clientelas em
emergência (homossexuais, celibatários, grupos de motivação, etc.). Uma outra
corrente cultural surgiu, modificando a relação com o corpo, com a segurança, com
os locais de prática, com o vestuário usado e com as representações que lhes estão
associadas. Os valores hedonistas e lúdicos tornaram-se centrais nesta forma, bem
longe dos conquistadores e aventureiros da modernidade;
iv) A forma transmoderna: pode ser considerada como um movimento
cultural que pretende ultrapassar (e ir além) da modernidade, estabelecendo no
entanto ligações com as anteriores formas históricas. As práticas recreativas são
fundamentais para repensar a relação entre o desporto e o território, o turismo e
lazer, ou entre a urbanidade e a ruralidade numa perspectiva pós-turística. A questão
central da transmodernidade coloca-se na redefinição da cultura desportiva criadora
de princípios de acção que levam a pensar de outra forma a declinação das práticas
desportivas legítimas. A utopia das práticas hedonistas e vertiginosas da pós-
modernidade é também questionada na perspectiva de requalificar a ligação com os
próprios, com os outros e com a natureza. Assim, os indivíduos não estão mais na
disposição de se envolverem numa prática prometeica e dominadora sobre a
natureza como o previsto pelo projecto moderno, mas antes disponíveis para
construir os contornos de uma relação ecorecreativa com a naturalidade das práticas
escolhidas. Estes princípios culturais são, assim, actividades que permitem qualificar
o conteúdo desta forma.
Corneloup (2011) refere que a noção de transmodernidade é utilizado para
qualificar a configuração histórica que se traduz numa inversão das ligações entre o
passado, o presente e o futuro, o poder vertical e o horizontal, os sedentários e os
nómadas, a secularização e a espiritualidade ou entre a centralidade e a periferia. A
emergência social da forma transmoderna surge através de elementos que se
inscrevem numa configuração histórica que tenta impulsionar os novos regimes de
acção para elaborar um projecto em consonância com as questões
contemporâneas, em especial (Corneloup, 2011): i) a emergência de uma sociedade
de risco que modificou a abordagem política de desenvolvimento; ii) o reforço das
práticas económicas alternativas ao capitalismo clássico, como a economia social e
solidária; iii) as mudanças de funcionamento da economia ancoradas numa
94
economia do conhecimento; iv) uma forte progressão da economia verde e de um
consumo sustentável; v) a emergência de uma sociedade recreativa com um estilo
de vida ecológico, que apresenta uma nova forma de encarar as ligações entre
trabalho e lazer, o urbano e o rural, o tempo para si e para os outros, e as formas de
intercâmbio social; vi) novos códigos de conduta e práticas culturais dentro de um
vasto movimento relativista, com vontade de repensar as ligações, as combinações
e as trocas interculturais para favorecer a emergência de práticas transculturais que
valorizam a multiculturalidade; vii) os modos de pensar a vida em conjunto, as
formas de cooperação e os valores de referência de uma sociedade.
Esta cultura e este estilo transmoderno das práticas recreativas na natureza
são marcados por princípios como (Corneloup, 2011):
a) A naturalidade recreativa: marca uma sensibilidade particular e uma
releitura da relação com a natureza. É também marcada pela relação com a prática
recreativa através de uma estética sensorial que se exprime através de uma forte
ligação com o movimento romântico e transcendentalista, e que procura no outdoor
e no wildoor a sua dimensão espacial de referência;
b) A multiculturalidade: contrariando a visão moderna e pós-moderna da
monocultura desportiva que reduz a relação com a natureza à performance, ao
teste, ao lúdico ou ao desafio. Neste sentido, procura uma abordagem mista com
diferentes dimensões culturais das práticas na natureza (com a música, dança,
pintura, teatro, poesia, observação ecológica, gastronomia, filosofia, etc.), permitindo
o desenvolvimento do reencantamento de um imaginário rural, através das
mediações culturais propostas pela leitura do território, das paisagens e da cultura
popular;
c) A transculturalidade: funciona contra a lógica de separação entre velhos e
novos (Desportos de Natureza), através da combinação das práticas tradicionais
com as práticas modernas, pós-modernas e ecológicas. É também marcada por uma
transversalidade pela ligação com a cultura, com a história, e com o sistema
endógeno dos Desportos de Natureza e pelas práticas envolvidas. Neste sentido,
tem provocado rupturas com as ancoragens históricas dos seus princípios, das suas
instituições e dos seus praticantes;
d) A cadeia ecodesportiva e a bioprática: visa a produção de um estilo
conectado com um conjunto de elementos que produzem uma coerência entre os
locais de prática, as formas de consumo, os meios de transporte e o equipamento
95
comprado, etc. Esta nova corrente tem modificado a visão logística na forma de ligar
os diferentes elementos da cadeia recreativa, tendendo a valorizar a viagem
ecológica;
e) O estilo recreativo: é uma maneira de repensar as ligações entre as
práticas desportivas, a economia, o trabalho, o sector quaternário, a política ou a
religião, e o território de vida. Inscreve-se na vontade de reconsiderar o lugar do
trabalho na sociedade actual, de repensar os percursos de vida, e de construir as
formas de vida em comum, oferecendo aos indivíduos o desenvolvimento de um
estilo de práticas itinerantes que possibilitam um modo de vida quotidiana;
f) A espiritualidade ecológica transmoderna: procura o sentido, o diálogo, a
discussão e a harmonia através de uma relação mais compartilhada da vida no seio
de habitats colectivos. Centra-se nas trocas com as diferentes expressões da
natureza através dos materiais, das práticas desportivas, da observação, e dos
bioprodutos, etc., e na importância da reflexividade, da meditação e da comunhão
forte com a natureza. Esta espiritualidade expressa-se pelo compartilhar e pela
vivência de experiências e de uma espiritualidade profunda, que se incorporam nas
práticas de itinerância (e.g. alpinismo), não reduzindo a finalidade da prática à
conquista (do pico), mas também sobre a vivência de experiências humanas,
espirituais, culturais e desportivas, pensadas na globalidade da viagem.
A forma transmoderna tornou-se num referencial da sociedade
contemporânea aglomerando diversos actores que estão ligados e que constituem o
seu núcleo central ou periférico, ao participam na renovação das formas
institucionais, sociais e comerciais das acções recreativas, tais como a comunicação
soicla, os partidos políticos, as Organizações Não Governamentais (ONGs), os
fornecedores, os distribuidores, os fabricantes e as associações, ou os territórios
(Corneloup, 2011).
As actividades e os produtos transmodernos devem incluir a naturalidade, a
interculturalidade, a transculturalidade desportiva, respeitar uma corrente ecológica e
favorecer a convocação de um imaginário e espiritualidades específicas. Em
contraposição a outros profissionais de outras formas culturais (modernidade e pós-
modernidade), está a consolidar-se, hoje em dia, uma terceira geração que procede
aos técnicos de desporto (primeira geração) e aos marketers dos serviços
desportivos (segunda geração), e que demonstram um desejo de se envolverem no
ecodesenvolvimento recreativo (Corneloup & Bourdeau, 2002), apresentando um
96
conjunto de quatro competências (Corneloup, 2011): a) competências ecológicas
relacionadas com o conhecimento do meio e dos ecossistemas que permitam trocas
surpreendentes, íntimas e profundas com a natureza; b) competência transcultural,
patrimonial e criativa na perspectiva de produzir inovações recreativas na forma de
produzir as mediações simbólicas multiformes com a natureza, com o lugar, as
práticas e os públicos; c) competências humanas e relacionais que permitam a
partilha, a comunicação, a reflexividade e a empatia no centro de um tempo
recreativo vivido; d) competências transversais para montar projectos colectivos,
produzir a mediação e participar no desenvolvimento do território.
Indivíduos, Pessoas,
Publico em questão Elitista, especialista
segmentos desenvolvimento
Forma de Republicano, Marketing, Inspirado,
desenvolvimento educativo empresarial desenvolvimento local
Politica
Cidadãos responsáveis,
Actores de Actores institucionais Marketers, clientes
governança
referência
Prestadores, Ecodesigner,
Profissionais Monitores, guias
gestores mediadores
Dominante Criador de produtos, Transmissor (passeur),
Planeador, técnico
profissional ambiência, estetismo tradutor
Segurança, logística, Marketing (serviços, Ecológico, relacional,
Competências técnica territórios, clientes) transcultural, transversal
Estância de Tematização, free Micro-ecológico, sistema
Estância de esqui
montanha style/ride recreativo
97
rafting ou a canoagem de águas bravas (Hill B. , 1995; Lipscombe, 1995; Millington,
Locke, & Locke, 2001; Turismo de Portugal, 2006a). Essa escala envolve diferentes
graus de desafio, incerteza, familiaridade com o meio ambiente, capacidades
pessoais, intensidade, duração e percepções do controlo (Lipscombe, 1995). As
actividades soft atraem normalmente os praticantes iniciantes e com menor
experiência, que muitas das vezes recorrem a guias, convertendo a experiência em
níveis menores de risco real, enquanto as actividades hard são geralmente
desenvolvidas por praticantes experientes e comprometidos na actividade, e que se
expõem a níveis de risco mais elevados (Hill B. , 1995). A este respeito, Holyfield
(1999) refere que quanto maior o risco percebido ou real maior a distância simbólica
entre um novo aventureiro e um outro rotinado.
Addison (1999) desenvolveu um modelo que permite enquadrar as diferentes
tipologias de actividades, dispostas em quatro quadrantes. Este modelo é baseado
em dois eixos: um constituído pelo grau de independência, isto é o grau em que os
participantes dependem (ou não) de outrem para organizar as suas actividades, e
um outro baseado no grau de desafio, determinado segundo o maior ou menor grau
de perigo e de capacidades técnicas exigidas. Cada eixo apresenta uma escala
contínua, do grau menor para o maior, de cada um dos atributos. Assim, em cada
um dos quadrantes é apresentada uma das categorias, de acordo com as formas de
desenvolvimento das actividades dos Desportos de Natureza:
1. Lazer - experiência enquadrada que é segura e não requer capacidades
avançadas pelos praticantes (e.g. actividades enquadradas numa empresa de
animação turística);
2. Recreação - actividade autodirigida, que não é especialmente perigosa
nem requer capacidades avançadas (e.g. caminhada ou canoagem recreativa
independente);
3. Competição de aventura - evento organizado, que possui certos perigos e
requer altos níveis de habilidade (e.g. corridas de aventura ou ecochallenges)
4. Aventura intensa – uma experiência realizada sem o apoio de
organizadores externos ou guias, que requer altos níveis de capacidade e auto-
suficiência para superar os perigos inerentes (e.g. explorações independentes ou
expedições em locais sem possibilidade de resgate).
Recorrendo às definições da Organização das Nações Unidas para a
Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) relativas à educação permanente, o modelo
98
FIN (educação formal, informal e não formal) adquiriu uma configuração e conteúdos
próprios adaptados à coerência da teoria e da prática das actividades desportivas.
Neste sentido, o modelo FIN (Formal, Informal e Não-formal) sugere três âmbitos de
desenvolvimento das práticas desportivas (Costa L. P., 1986; Ferrando, 1990) que
podem ser aplicadas aos Desportos de Natureza: i) um âmbito formal e clássico que
corresponde às práticas realizadas numa organização formal (e.g. clube desportivo),
e que apresenta um modelo competitivo federado e regulado; ii) um âmbito não
formal que se desenrola no âmbito de uma organização não formal (e.g. associação
desportiva, recreativa, etc.), mas que não apresenta, no entanto, um modelo
competitivo federado nem regulado; iii) um âmbito informal que se desenvolve,
através de práticas auto-organizadas, por via de uma liberdade institucional, num
âmbito recreativo com a família, os amigos ou de forma individual, por exemplo.
Corneloup e Bourdeau (2004) referem que existem oito sectores da prática
dos Desportos de Natureza, que combinam variáveis como o acesso (livre ou a
pagar), o enquadramento (ou não), e a organização territorial e dos locais de prática
(baixo ou alto). São eles:
Sector 1: Práticas livres e gratuitas, como a canoagem, a vela, o BTT, o voo
livre e a caminhada, realizadas no meio natural, em espaços públicos sem estarem
equipados, como o mar, lagos, florestais, caminhos rurais;
Sector 2: Práticas livres e gratuitas, como a escalada, o canyoning e o
pedestrianismo, realizadas em locais de prática públicos e equipados, como a maior
parte das falésias de escalada, os canyons e os percursos pedestres;
Sector 3: Práticas livres e a pagar, como as vias ferrata, e o arborismo,
realizadas em espaços pouco equipados, como os parques desportivos ou lúdicos.
Sector 4: Práticas livres e a pagar, como o esqui e a vela, realizadas em
estações desportivas como as estâncias de esqui ou centros náuticos, em troca por
exemplo do fornecimento de meios mecânicos ou de equipamento.
Sector 5: Prestação de serviços enquadrados e a pagar (in, around, out e
wilddoor), realizados pelos múltiplos prestadores de serviços.
Sector 6: Actividades enquadradas num clube, escola ou centro local, como a
orientação, o surf, etc.
Sector 7: Produtos integrados em centros turísticos, como o mergulho, o
windsurf, etc.
99
Sector 8: Práticas competitivas federadas (todas as práticas federadas)
realizadas pelas diferentes federações dos Desportos de Natureza.
Partindo de uma análise territorial, Corneloup e Bourdeau (2004) interpretam
as relações intra e intersectoriais (desde as práticas livres e gratuitas às actividades
do mercado) que se estabelecem no domínio das práticas turísticas (e de lazer)
desportivas na natureza. Referem que cada sector apresenta a sua própria
autonomia, a sua realidade e as suas formas de funcionamento. Em muitos dos
casos, os diferentes actores – associações empresariais, parceiros ou federações -
participam na estruturação dos sectores, mesmo na ausência de uma organização
global (Corneloup & Bourdeau, 2004). As ligações intra-sectoriais podem existir, por
exemplo, entre as federações, os operadores turísticos e os fabricantes. Da mesma
forma, é possível observar a presença de ligações intersectoriais entre, por exemplo,
o sector do fornecimento de serviços de exploração dos meios mecânicos numa
estação de esqui (sector 4), as empresas de prestação de serviços de esqui (sector
6), e as actividades supervisionadas num clube local (sector 5). O território,
concebido como um sistema produtivo local, também participa na estruturação do(s)
sector(es) que se desenvolve(m) nos locais de prática, cujos efeitos vêm agitar a
lógica do mercado em cada um dos sectores de prática (Corneloup & Bourdeau,
2004). Os desafios são, obviamente, agravados quando os vários sectores estão
presentes na mesma área de prática (práticas livres, gratuitas e pagas, enquadradas
em percursos construídos, etc.), levantando-se a questão das relações entre os
diferentes actores que operam na mesma área, para definir o espaço comum
compartilhado em torno do qual se construiu a regulação das trocas entre as várias
partes interessadas (Corneloup & Bourdeau, 2004). Os efeitos territoriais também
são visíveis na manutenção dos caminhos (percursos pedestres), na construção de
estradas de acesso, no melhoramento das mrgens dos lagos, no equipamento dos
locais de prática (escalada, via ferrata, canoagem, etc.), no desenvolvimento de
actividades de animação local, e na gestão dos refúgios, que constituem alguns
exemplos de melhorias e/ou equipamentos que beneficiam os profissionais de
turismo e dos Desportos de Natureza (Corneloup & Bourdeau, 2004). O que está em
jogo é, não só a interacção destes sectores, mas a forma de conceber o
desenvolvimento desses sectores, pois as questões de ordem ecológica, económica,
desportiva e política que são colocadas, não se inscrevem no mesmo universo de
concepção do lazer desportivo de natureza e no mesmo campo de valores em
100
função dos sectores, dos actores, e dos públicos que se apresentam localmente
(Corneloup & Bourdeau, 2004).
101
construídas a partir de diferentes objectivos e com diferentes critérios, não se
verificando consenso entre os autores que as apresentam. M. A. Moreira (2007)
refere que alguns sistemas de classificação são estabelecidos em função de
aspectos psicológicos; outros em função de aspectos fisiológicos; outros ainda em
função de aspectos morfológicos, onde os desportos podem ser agrupados em
função do número de praticantes (desportos colectivos, individuais e duplas); em
função de serem ou não actividades de competição, com as regras consideradas
como condicionantes das mesmas, bem como a forma de avaliação (julgado,
medido e pontuado); e ainda aqueles cujos movimentos são associados ao
envolvimento que caracterizam as actividades, dentro de um contínuo, em função da
previsibilidade do meio.
Um dos primeiros autores a apresentar uma classificação das actividades
desportivas foi Bouet (1968). Em função das experiências vividas durante a prática,
factores como a consciência corporal, os movimentos efectuados, a presença de
obstáculos, o rendimento e a competição, construiu uma classificação constituída
por cinco grupos de actividades (Bouet, 1968): i) desportos de combate; ii) desportos
com bola; iii) desportos atléticos e gímnicos; iv) desportos de natureza; v) desportos
mecânicos.
Durand (1968) estabelece uma classificação com uma orientação
exclusivamente pedagógica e classifica os desportos em quatro grupos: desportos
individuais, desportos colectivos, desportos de combate, e desportos de natureza.
Knapp (1979) caracteriza as actividades através de um contínuo, em função
da previsibilidade do meio: num dos polos estão as actividades com movimentos
habituais (actividades fechadas), e no outro polo as actividades com movimentos de
dominante perceptiva (actividades abertas), permitindo estabelecer uma
classificação de dificuldade crescente das actividades.
Parlebas (1981) apresenta uma classificação segundo os critérios da acção
motriz, caracterizando as actividades em função da situação motora (psicomotora e
socio motora), considerando três critérios: interacção com companheiros, interacção
com adversários, e incerteza do meio.
Almada (1992) apresenta uma classificação das actividades desportivas,
tendo em conta o praticante e os problemas por ele sentidos na prática da
actividade, através da definição dos factores presentes (principais características, os
objectivos e as variáveis) e da sua dinâmica, numa perspectiva ecológica. Esta
102
classificação é baseada em seis categorias: i) desportos individuais; ii) desportos
colectivos; iii) desportos de combate; iv) desportos dos grandes espaços; v)
desportos de adaptação ao meio; vi) desportos de confrontação directa.
Com o crescimento das actividades físicas desportivas na natureza, são
diversos os autores que têm elaborado, nos últimos anos, sistemas de classificação
relacionados com estas actividades. Igual (2005) refere-se a uma classificação que,
segundo ele, é utilizada desde os anos 1960s, e que discrimina as actividades
desportivas na natureza em duas tipologias:
i) Actividades fundamentais – as actividades de ar livre sem as quais não
seria possível realizar nenhum projecto na natureza (marcha, acampamento);
ii) Actividades complementares – aquelas que alimentam e ampliam o
conjunto das actividades na natureza. São as que estão continuamente em
mudança, adaptadas às novas tendências da sociedade (actividades de
conhecimento do meio, actividades utilitárias, actividades desportivas, actividades de
sobrevivência, actividades plásticas).
Delgado (1991) elaborou um modelo de classificação que supõe uma visão
mais ampla das actividades em meio ambiente natural, destacando a grande riqueza
de sensações como principal característica do desenvolvimento integral do
indivíduo:
i) Actividades promocionais: envolvem uma alta participação e/ou
assistência na actividade (e.g. excursões, marchas ecológicas, visitas, dias
especiais, corridas a pé, audiovisuais e conferências, ecoturismo, entre outras);
ii) Actividade livres: envolvem o uso de recursos naturais e artificiais de
proximidade, que facilitam o acesso aos espaços, aos equipamentos e aos
conhecimentos para o seu desenvolvimento (e.g. rotas e circuitos ecológicos,
rocódromos, circuitos de cicloturismo, ludotecas, percursos de equitação, circuitos
integrados, etc.);
iii) Actividades programadas: requerem a participação inicial de um mediador
ou animador, sendo organizadas segundo um processo pedagógico que requer
continuidade no seu desenvolvimento: a) actividades fundamentais no meio
ambiente natural (e.g. marcha, acampamento, orientação, construção de refúgios,
etc.); b) actividades fundamentais no meio ambiente artificial (e.g. parques aventura,
ludotecas, jogos de adaptação, etc.); c) actividades desportivas no meio ambiente
103
natural (e.g. água – natação, canoagem, remo, vela, etc.; terra – escalada,
espeleologia, corrida de orientação, etc.; ar – parapente, asa-delta, etc.);
iv) Actividades de investigação e formação: com uma relação interdisciplinar
com outras matérias. São organizadas, existindo um mediador e têm continuidade
no seu desenvolvimento (e.g. granja-escola auto-suficiente, horta biológica, visitas
de estudo – flora, fauna, topografia, geologia, etc., colónias ecológicas, entre outras).
Betrán e Betrán (1995a) apresentaram uma classificação taxonómica das
Actividades Físicas de Aventura na Natureza (AFAN), partindo de uma selecção de
critérios, que engloba cinco grupos que dão origem aos aspectos que compõem o
desenvolvimento das actividades e que dão lugar à posterior classificação segundo
as suas características intrínsecas e extrínsecas: i) ambiente físico; ii) ambiente
pessoal; iii) actividades; iv) valoração ético-ambiental; iv) ambiente social.
Numa outra proposta, Funollet (1995) classificou e ordenou as actividades
desportivas praticadas em ambiente natural, dividindo as diversas categorias em
duas dimensões: i) determinantes da actividade desportiva em meio natural; ii)
determinantes didácticas da actividade desportiva em meio natural. Em relação à
primeira dimensão incluiu as seguintes categorias: a) trajectória (bidimensional ou
tridimensional); b) plano (horizontal ou vertical); c) elemento (estável ou instável); d)
contacto (directo ou indirecto); e) deslocamento (caminhar, deslizar, cavalgar, nadar,
flutuar, escalar, rapelar, submergir, ou voar). Na segunda dimensão inclui as
seguintes: a) energia (autogerada ou gerada – animal, ambiente, gravitacional,
hidráulica, eólica, solar ou motor); b) acção (individual, imbricada, ou em equipa).
Quílez (1997) utilizou um modelo de classificação das actividades físicas
desportivas de natureza, que permitiu agrupar estas actividades em três dimensões:
i) Habilidades perceptivo-motoras: a) percepção de si mesmo (alimentação,
primeiros socorros, e segurança pessoal);
ii) Habilidades motoras básicas: a) de locomoção; b) manipulativas;
iii) Habilidades específicas: a) básicas de desenvolvimento (marcha,
acampamento, construções, material e equipamento, organização de itinerários,
orientação); b) terrestres (pedestrianismo, montanhismo, escalada, espeleologia,
descida de cascatas, BTT, etc.); c) aquáticas (natação, vela, canoagem, rafting,
mergulho, hidrospeed, surf); d) aéreas (voo livre, ultraligeiros, balão, parapente,
pára-quedismo).
104
Guillén, Lapetra e Casterad (2000) com o fim de facilitar a selecção,
organização e programação das actividades físicas em meio natural caracterizaram
as distintas práticas, estabelecendo uma escala que marca a dificuldade ou
exigência própria de cada uma delas:
a) Características espaciais: referem-se às condições do espaço de cada
actividade (espaços acessíveis e/ou próximos da residência; espaços não acessíveis
e/ou afastados da residência);
b) Características do ambiente: referem-se às características dos locais dos
espaços. São classificados como: artificial (e.g. rocódromo); equipado: natural com
elementos artificiais (e.g. percurso pedestre); semi-selvagem: natural limitado ou
balizado (e,g, estância de esqui); selvagem: natural aberto ou sem limites (e.g. mar).
c) Características temporais: referem-se às condições temporais que exige a
prática real de cada actividade. A escala vai desde actividades que se podem
realizar de forma pontual numa sessão de 1 a 3 horas (escalada desportivas) a
actividades que requerem a estância de um ou vários dias fora do ambiente natural
(uma travessia por exemplo);
d) Características segundo a frequência da prática: este critério marca o
grau de experiência, domínio ou conhecimento que o praticante tem da actividade.
Actividades habituais – realizadas bastantes vezes pelo praticante ou praticadas
assiduamente. Actividades ocasionais – realizadas pela primeira ou segunda vez, ou
praticadas muito poucas vezes;
e) Características materiais: refere-se aos materiais necessários para
realizar a actividade. Identifica o mínimo material específico e necessário para
abordar cada actividade. Actividades que exigem grande quantidade de material
e/ou apresentam custos elevados para a sua realização (e.g. alpinismo), e
actividades que requerem pouco material e/ou são de custo acessível
(pedestrianismo);
f) Características cognitivo-motoras: referem-se às exigências do tipo
cognitivo-motoras que são apresentados à pessoa que pratica quando realiza uma
actividade deste tipo (entendem-se por exigências cognitivo-motrizes os
procedimentos, conhecimentos, experiências e estratégias que, a efeitos de
aprendizagem, requerem a prática de uma actividade concreta no meio natural, tanto
de tipo mental ou motora – habilidade ou técnica. Actividades que exigem uma
105
aprendizagem difícil a nível cognitivo-motor (parapente) e actividades que exigem
uma aprendizagem fácil a nível cognitivo-motor (pedestrianismo).
g) Características segundo os recursos humanos: referem-se ao conjunto de
pessoas especialistas e/ou responsáveis técnicos que são necessários para o
desenvolvimento óptimo da actividade. Actividades que requerem a presença de
várias pessoas responsáveis (espeleologia) ou que requerem a presença de uma só
pessoa responsável (BTT).
Em Portugal, Fernando (2005), num estudo sobre os modelos taxonómicos
das actividades desportivas, refere que estes permitem agrupar as actividades com
base nos comportamentos humanos face às actividades na natureza, baseados em
duas variáveis:
i) Uma dimensão que inclui as variáveis que estão associadas aos aspectos
da actividade: objectivos reais; relação com o meio em espaços abertos; sentido de
acontecimento;
ii) Uma dimensão que inclui as variáveis que estão associadas às
solicitações que estes aspectos que provocam na pessoa.
Carvalhinho (2006) também efectuou um estudo de caracterização dos
Desportos de Natureza tendo como base os trabalhos de Betrán e Betrán (1995a),
Funollet (1995) e Pires (1990). O modelo de análise centrou-se em 4 dimensões:
1) Contexto físico: a) meio sobre o qual se realiza: ar (meio aéreo); terra
(meio terrestre); água (meio aquático); b) trajectória da deslocação do praticante –
bidimensional ou tridimensional; c) plano que a actividade ocupa do ponto de vista
dimensional (sentido de desenvolvimento da actividade): horizontal, vertical ou misto
(quando se desenvolve nos dois planos); d) estabilidade do meio onde se
desenvolve a actividade: estável (quando a superfície de contacto não varia) ou
instável (quando a superfície de contacto pode variar a qualquer momento
independentemente da vontade do praticante); e) contacto entre o praticante e a
superfície: directo, quando contacta directamente com a superfície; ou indirecto,
quando a superfície é contactada indirectamente por intermédio de um artefacto
mecânico-tecnológico (e.g. BTT) ou animal;
2) Contexto pessoal: a) sensação causada pela actividade: prazer/relax
(paz, prazer prolongado, relaxamento), risco/vertigem (stress, carga emocional
intensa, incerteza), ou misto (quando existem as duas sensações na mesma
actividade sem a predominância de uma das sensações anteriores); b) recursos
106
biotecnológicos: corpo, animal, artefacto mecânico-tecnológico (material não
motorizado, fundamental no desenvolvimento da actividade como por exemplo a
prancha de surf) ou motor (material motorizado como por exemplo a moto 4);
3) Contexto social: a) implicação motora da actividade a desenvolver:
individual (quando não depende de outros para realizar a actividade), em grupo sem
colaboração (quando a actividade é realizada em grupo mas não depende
directamente de outros) ou grupo com colaboração (quando é realizada em grupo e
depende directamente de outros);
4) Contexto ético-ambiental: as actividades podem apresentar um impacto
ecológico baixo, médio ou alto.
107
que maneira for de estar a sacrificar a um dever e menos ainda a buscar a
maximização do ganho (específico)” (Bourdieu, 2003, p. 125). O habitus é entendido,
desta forma, como as percepções, os pensamentos e as acções adquiridas que se
traduzem por predisposições duráveis.
Para Bourdieu (2003, p. 120) “a estrutura do campo é um estado da relação
de força entre os agentes ou as instituições envolvidas na luta ou, se preferirmos, da
distribuição do capital específico que, acumulado no decorrer das lutas anteriores,
orienta as estratégias posteriores. Esta estrutura, que está na origem das estratégias
destinadas a transformá-la, está ela também sempre em jogo: as lutas cujo lugar é o
campo têm por parada em jogo o monopólio da violência legítima (autoridade
específica) que é característica do campo considerado, quer dizer, em última
análise, a conservação ou a subversão da estrutura da distribuição do capital
específico”. No interior dessa relação de força, os agentes que monopolizam o
capital específico, tendem a utilizar estratégias que visem a manutenção da ordem
estabelecida, frequentemente, com intransigência em relação às mudanças de
classe, enquanto, inversamente, os agentes que possuem menor capital, tendem a
utilizar estratégias de subversão e ruptura, dentro de certos limites. A transposição
desses limites pode determinar a sua exclusão do campo. As transformações
impostas por esses agentes são revoluções parciais, ou seja, são revoluções que
não colocam em questão os fundamentos do objecto de disputas (em jogo).
Bourdieu (2003, p. 191) considera que “(...) um dos factores que coloca os
diferentes jogos ao abrigo das revoluções totais, cuja natureza destrói não apenas
os dominantes e a dominação, mas o próprio jogo, é precisamente a própria
importância do investimento, em tempo, em esforços, etc., que supõe a entrada no
jogo e que, como as provas dos ritos de passagem, contribui para tornar
praticamente impensável a destruição pura e simples do jogo”.
A existência de um campo e dos seus limites é determinada pelos interesses
específicos, pelos investimentos feitos pelos agentes dotados de um habitus e pelas
instituições. Assim, habitus e campo estão intimamente relacionados, onde o campo
estrutura o habitus e o habitus constitui o campo.
O campo das práticas desportivas é, assim, o lugar onde, entre outras coisas,
se disputa o monopólio de imposição da definição legítima da prática desportiva,
amadorismo contra profissionalismo, desporto-prática contra desporto-espectáculo,
desporto de elite contra desporto popular ou de massa (Bourdieu, 2003). Os
108
Desportos de Natureza podem ser assim considerados como uma subcultura do
campo desportivo.
O desporto, como fenómeno social e cultural, acompanha e é acompanhado
pelo contexto sociocultural onde se desenvolve. Compartilha, manifesta, reproduz e
configura os valores predominantes no contexto sociocultural onde se produz. O
desporto transforma-se e acompanha as mudanças e o desenvolvimento da própria
sociedade com que mantêm uma relação de isomorfismo sistémico (Martin & Martin,
2001). No entanto, o desporto como um mecanismo sociocultural central de
expressão, interpretação e configuração de significados e valores da sociedade
contemporânea torna-se complexa mediante a diferenciação-individualização de
uma profusão de diversas culturas desportivas que permitem incorporar uma
estruturação de universos simbólicos pessoais a partir de um universo fragmentado
de constelações éticas e simbólicas que permitem ao indivíduo reflexivo tomar
decisões (Martin & Martin, 2001).
Culturas desportivas
A expressão culturas desportivas tem em conta os efeitos teóricos do avanço
das Ciências Sociais (História, Sociologia, Demografia e Geografia) e das Ciências
da Cultura (Antropologia, Etnologia, Mitologia) dentro do domínio das práticas, das
representações e dos mitos desportivos que se diferenciam de acordo com o país e
os grupos. Será necessária uma abordagem que parta de um campo desportivo
acessível e familiar, que tenha a sua estrutura e a sua lógica própria, visando a
descrição e a interpretação dum universo de práticas, de técnicas e de símbolos que
tomam um importante lugar e cobrem de sentido a vida social contemporânea
(Pociello, 1995).
Recorrendo aos principais conceitos de cultura, retirados da Sociologia da
Cultura e dos desenvolvimentos da Antropologia Cultural, Pociello (1995) apresenta
três perspectivas distintas para o conceito de culturas desportivas, que se relevam
passíveis de aplicação ao campo desportivo: uma perspectiva sociológica restrita;
uma perspectiva sociológica menos restrita; uma perspectiva sociológica mais
alargada.
Na perspectiva sociológica restrita, a noção de cultura deverá ser entendida
como uma propriedade distintiva de classe, dentro de uma sociedade hierarquizada
e estratificada. Neste sentido, a cultura define o stock de bens materiais e
109
simbólicos, e as práticas reservadas exclusivamente à classe dominante, que
participam na sua hegemonia cultural e que as distinguem das classes
hierarquicamente inferiores. Os Desportos de Natureza surgem, segundo esta
perspectiva, como um produto ou uma prática distintiva, que conserva as suas
funções distintivas através de mecanismos de selecção económica de acesso às
práticas, pela posse de objectos onerosos necessários ao seu exercício (vestuário,
equipamentos, etc.) e locais de prática que exijam um esforço financeiro
(deslocações para locais distantes e exóticos, etc.); a partir da aquisição de bens
simbólicos, que permitem a aquisição dos instrumentos cognitivos de apropriação
selectiva (linguagem, rituais de iniciação, maneiras, etc.), ou ainda de propriedades
físicas e técnicas (que necessitem de um grande investimento temporal). Esta
perspectiva conduz à distinção de uma cultura desportiva de tradição aristocrática e
burguesa que marca claramente, em cada período histórico, a sua distância e a sua
oposição sobre a cultura desportiva popular. Hoje em dia assistimos a esta distinção,
quer nas relações de oposição entre práticas de culturas desportivas diferentes,
como os desportos de massas, caracterizados por outros tipos de investimentos
corporais, mais directos ou vigorosos, possíveis de profissionalização (futebol,
basquetebol, etc.) e os Desportos de Natureza, associados ao lazer e ao prazer
(vela, parapente, montanhismo, etc.); quer dentro da mesma cultura desportiva,
como é o caso da prática de Desportos de Natureza com um volume de capital
superior (práticas de domínio tecnológico e informacional como o voo livre e a vela,
etc.), e a prática de modalidades de menor volume de capital (práticas com
predomínio da utilização da força corporal como o BTT, a canoagem, etc.); dentro,
ainda, da mesma modalidade, através da segmentação das suas disciplinas, como o
caso da canoagem (em linha, slalom, touring, etc.) (Pociello, 1999). Estas relações
de oposição são produtoras de um sistema de gostos e desgostos, de apreciação e
depreciação sobre as práticas desportivas dos outros. Se os desportos praticados
pelos grupos dominantes têm a função de manter as distâncias sociais, exercem, ao
mesmo tempo, uma forte atracção sobre os grupos que lhes são imediatamente
inferiores, assegurando, assim, uma certa difusão de modelos, de cima para baixo,
no espaço social. Desta forma, o sistema de práticas dos Desportos de Natureza, de
técnicas e de valores próprios desta cultura, confere aos grupos particulares um
sentimento de pertença e a certeza de se diferenciar de outros grupos (ou classes)
sem que seja necessário racionalizar as suas razões. Para cada uma das
110
modalidades ou segmentos de uma modalidade, o modo de apropriação e da
percepção das próprias práticas é representativo de cada um dos grupos que o
indivíduo integra. Neste registo integram-se, por exemplo, os praticantes
competidores, que apresentam uma lógica de investimento físico e temporal, com a
prática e com a instituição, em antagonismo com os praticantes turistas, que têm
uma lógica de maior investimento cultural, estético e turístico da actividade (Pociello,
1981).
Numa perspectiva sociológica menos restritiva, a cultura deverá ser entendida
como a organização, a transmissão e a reprodução das práticas e dos produtos
simbólicos próprios de um qualquer grupo social, não prejulgando a natureza das
suas relações nem os seus relatos de subjugação. Esta cultura é a representação do
que o grupo faz dele mesmo, constituindo a sua identidade (e a sua ideologia). É
estruturante dos seus estilos de vida, apresentando uma certa coerência interna com
a sua função, como marca social, regional ou geracional, que contribui para a sua
integração comunitária. A diversificação das práticas desportivas é, também, seguida
pela multiplicação e volatilidade de subculturas. Devido a esta massificação,
construíram-se subculturas desportivas cristalizadas nas diferentes zonas
geográficas, que apresentam uma concentração e um predomínio de certos
desportos (montanhismo, vela, surf, parapente, etc.), sobre um ancoragem territorial
bem definida, suportada pelas suas culturas (alpinas, marítimas, litorais, torrenciais,
etc.) onde, de facto, a cartografia e a geografia desportiva revelam claramente os
efeitos territoriais destas cristalizações culturais sobre cada uma das modalidades
desportivas. Dentro deste mesmo registo, os eventos desportivos (e.g. campeonato
do mundo de surf, em Peniche) produzem um maior impacto, e podem desempenhar
uma função de produção da identidade comunitária. Eles asseguram nitidamente, a
uma escala local ou regional, uma função de integração e coesão social. A
homogeneização dos gostos e dos comportamentos desportivos sob a influência dos
meios de comunicação social, e do papel estruturante do consumo televisivo, sobre
o conjunto de práticas desportivas cultivadas não impede a continuidade das
culturas desportivas regionais. Com a criação, depois dos anos 1960s, de uma
cultura desportiva intermédia, de grupos promotores de quadros em ascensão, tem-
se verificado o intercalar de modelos e de práticas (importadas e adoptadas) por
este grupo, entre o lazer desportivo da burguesia (com um volume de capital
superior) e os desportos mais populares de carácter combativo do corpo, em força
111
ou em energia (com um volume de capital inferior). Estes grupos em expansão
procuram uma identidade cultural e uma estabilidade social, numa fronteira, muitas
das vezes, flutuante. A cultura desportiva intermédia está, desde então, desenvolvida
para cumprir o seu papel, parcial e temporário, mas bem real, de identificação de
cada um dos grupos sociais.
Na perspectiva sociológica mais alargada, a cultura pode adoptar um sentido
antropológico, que descreve um grupo estruturado de práticas, de instrumentos e de
técnicas, padrões da indústria, da cultura e do habitat, dos tipos de costumes, de
crenças e de mitos, assim como dos usos tradicionais e lúdicos do corpo, que são
características de uma sociedade e de uma visão unificada e coerente do mundo.
Este sentido de cultura parte da constatação da diversidade dos povos, da
divergência da sua história e das suas irredutíveis diferenças culturais, que permitem
a determinada civilização de distinguir-se de outras culturas. Se existe uma
tendência para a universalização de uma cultura dos Desportos de Natureza,
através da difusão planetária dos seus eventos competitivos normalizados e pela
cobertura mediática efectuada pelos meios de comunicação social, devem-se
enfatizar, ao mesmo tempo, os processos singulares de apropriação desse mesmo
objecto por diferentes culturas nacionais. A constatação da relatividade das culturas
e do arbitrário das suas variações fá-las considerar como igualmente legítimos e
propõe não negligenciar nenhum dos objectos, dos mais modestos em aparência,
que os compõem. Desta forma, os Desportos de Natureza podem ser considerados
como um conjunto de práticas e de gestos técnicos, mas também devem ser
analisados os seus ritos de aprendizagem, os equipamentos, os ornamentos, os
vestuários, os hábitos alimentares, e os discursos de celebração que os
acompanham. O seu modo de abordagem da cultura passa pela ruptura com o
etnocentrismo e sobre a superioridade suposta pela etnografia, sobre os grupos
étnicos que observa. A aplicação desta perspectiva à nossa própria sociedade,
desenvolvida e complexa, deste olhar da etno-sociologia, não deve fazer-se com a
distância, a soberba e o sentimento de superioridade que o elitismo do cientista
pode às vezes abranger. Esta perspectiva tem uma consequência teórica e
metodológica imediata. Neste sentido, procura observar o praticante dos Desportos
de Natureza, dentro do seu meio cultural, como homem total, com a mesma
profundidade e o mesmo respeito que o antropólogo tem com os indígenas que
estuda.
112
A disposição social das práticas e dos gostos desportivos
Pociello (1999) refere que, para poder lutar no combate social, para obter um
lugar na sociedade, para fazer face a uma concorrência feroz que se manifesta, é
necessário dispor de armas sociais particulares. Baseado nos trabalhos de
Bourdieu, Pociello (1999) considera que existem, quatro tipos principais de recursos
e competências a serem incluídos de forma eficaz nesta luta:
- O capital económico: abstracção objectivada através do indicador de
rendimentos e de bens patrimoniais disponíveis, ou posto à disposição pelos pais;
- O capital cultural: observável pelo período de estudo e de diplomas obtidos.
Pode ser adquirido no sistema escolar ou universitário, mas também pode ser
herdado (como no capital antecedente), devido à integração num meio intelectual ou
artístico muito rico. O capital cultural pode ser acumulado numa linha da família, por
várias gerações, ocupando desta forma a mesma posição transmitida;
- O capital social: rede de relações sociais que estão disponíveis (já
adquiridas pela família), que depois poderão ser desenvolvidos pessoalmente. É
uma rede de relações, onde circula a credibilidade e confiança (exploráveis) e
acompanhado pelo apoio, pela ajuda mútua e pela solidariedade que poderá
mobilizar, sempre, em proveito próprio;
- O capital simbólico: ligado à fama e ao prestígio social que possa criar uma
personalidade reveladora da concentração de energia social, captada, como por
magia, sobre um público alargado. Cada celebridade da política e do desporto é
capaz de cristalizar, sobre o seu nome, o seu capital de energia social, que é
possível de transferir e de explorar nos domínios sociais, políticos, e profissionais,
mais diversos. Actualmente, a presença dos meios de comunicação social
representa também, compreensivelmente, um papel fundamental.
Tendo em conta essencialmente os dois primeiros tipos de capital (económico
e cultural) definidos acima, Bourdieu e Saint-Martin (1976) dispuseram cada
indivíduo (e o grupo a que pertence) sobre um espaço bidimensional, construindo
assim o Espaço das Posições Sociais (EPS). Na vertical dispuseram o volume global
de capital detido (expressão que poderia ser chamado, trivialmente, de bagagem).
Na horizontal dispuseram a estruturação do capital a partir da perspectiva da relação
entre capital cultural e capital económico detido (composição da bagagem).
Desta forma, é simples localizar as diversas actividades desportivas sobre
este espaço, pela simples sobreposição, em função da regularidade dos dados
113
estatísticos que podem ser observadas, entre alguns tipos de desportos e alguns
grupos sociais. Numa análise ao sistema dos desportos masculinos, Pociello (1981)
construiu sob o EPS distingue as seguintes práticas:
i) As práticas de domínio energético concentram-se na parte inferior do
espaço, enquanto as práticas informacionais estão concentradas na parte superior
do espaço;
ii) A oposição entre um fenómeno de motorização das práticas (quadrante
superior direito) de um outro que se designa de ecologização das práticas
(quadrante superior esquerdo), que opõe o fenómeno ostentatório de consumo
(característicos do maior capital económico) a um fenómeno de aproveitamento das
fontes de energia naturais (característicos dos indivíduos com um maior capital
cultural) respectivamente.
114
desportiva em função dos seus interesses, e das características turísticas e culturais
que esses locais apresentam. Quando realizam uma actividade, esta é
necessariamente acompanhada por uma visita cultural. A contemplação do meio e
das paisagens apresenta uma lenta evolução e um investimento cultural, estético e
turístico da actividade. Com bastante reserva em relação à competição não são,
todavia, insensíveis à prática de actividades exploradas por outros praticantes.
Os puristas são constituídos por antigos competidores (idades entre 31-40
anos) ou por bons praticantes, que possuem muito bom nível técnico. São eles que
escolhem os locais mais difíceis das práticas e os modos mais difíceis de exploração
aventureira. São os primeiros ocupantes dos espaços e hipersensíveis à sua
capacidade. Ecologistas militantes, lutam contra o micro-poder e contra a diminuição
dos espaços de prática (através das associações de defesa). Apresentam a
nostalgia dos seus anos de ouro, que lhes ofereceram tanto o prestígio social de
uma prática rara, como o júbilo dos conhecimentos adquiridos. São os depositários
da memória e da cultura do meio.
Lefèvre (2004) ao analisar a estruturação social das práticas de alta
montanha identificou oito ideais tipos de praticantes:
i) Alpinista topo de gama (10%): homem entre os 33-42 anos; de profissão
liberal; com segunda casa perto do Monte Branco; muito interessado em desporto,
actividades de lazer ambientais sofisticadas ou motorizadas; com tradição familiar de
actividades de montanha; corridas prestigiadas de grande altitude (neve/mista) no
verão, e expedições desafiadoras; recorre a guias em caso de subida difícil;
ii) Cliente de guia de montanha (9%): sexo masculino; 42 anos; director de
empresa; não é muito adepto de desporto (caminhada/caça, manter a forma);
alternância de actividades motorizadas e supervisionadas de luxo; downhill esqui;
montanha de alta altitude apenas no verão com guia (muito pouco investimento
pessoal); expedição comercial organizada nos Himalaias;
iii) Alpinista clássico (13%): homem com mais de 42 anos; professor ou
profissão científica; adepto de desportos; variedade de montanhas de alta altitude
durante todo o ano (investimento significativo exclusivamente em actividades de
montanha); iniciador de alpinismo; rota de montanha (misto e manuseio de corda)
versus actividades modernas; actividades no âmbito de associações;
iv) Entusiasta da escalada livre (21%): homem de 18-25 anos; estudante;
extremamente interessado em desporto; experimenta uma grande variedade de
115
actividades de natureza; muito pouca experiência de montanhismo; essencialmente
actividade de verão; todos os tipos de escalada livre (rocha, gelo e misto); novas
formas de actividades; escalador forte, iniciador de escalada em rocha, competidor
de escalada em rocha; com e sem ligação a uma organização;
v) Amador aventureiro (10%): do sexo masculino entre os 26-32 anos;
gestor sénior ou engenheiro do sector privado; extremamente interessado em
desporto (competição, desportos individuais); variedade de actividades de aventura
(incluindo caminhadas de longa distância); iniciado no alpinismo (neve/misto, verão,
cume do Monte Branco); escalador competente;
vi) Purista (9%): do sexo masculino entre 33-42 anos; profissão intermédia
(professores e profissões similares); casa perto do Monte Branco; interessado em
desporto; forte investimento em neve e desportos de montanha; bom nível de
montanhismo (rocha, neve, gelo e misto) e escalada em rocha; compromisso ou
exposição; escalada artificial; terreno de montanha; iniciador de uma actividade de
montanha; com e sem ligação a uma organização;
vii) Caminheira (11%): mulher com mais de 42 anos; trabalhadora no
escritório ou trabalhadora manual; não muito interessado em desporto (aulas de
fitness, caminhadas, ciclismo); diferentes tipos de caminhadas (panorâmica,
montanhas de média altitude, caminhadas em glaciar excepcionalmente no verão);
organizada por associações;
viii) Profissional (17%), homem entre os 33-42 anos; profissional da
montanha; casa próxima do Monte Branco; extremamente interessado em desportos
de alto nível; actividades durante todo o ano em montanha ou alta montanha,
mesmo motorizadas; todas as actividades de escalada incluindo as novas;
apresenta o empenho e a comprometimento com o risco como um amador; homem
prático e experiente.
116
definido nesta perspectiva como uma actividade não-coagida, encetada durante o
tempo livre, que os indivíduos querem realizar no sentido de se satisfazerem ou de
se preencherem (ou ambos), usando as suas habilidades e recursos para terem
sucesso nessa mesma actividade (Stebbins, 2007). As três formas desta perspectiva
são o serious leisure (lazer sério), o casual leisure (lazer casual) e o project based
leisure (lazer baseado no projecto) (Stebbins, 2007):
a) O serious leisure é considerado como a procura sistemática de uma
actividade profunda e duradoura, suficientemente substancial e interessante por
natureza, que possibilite ao participante obter a sensação de que persegue uma
carreira que adquira e expresse a combinação de habilidades específicas,
conhecimentos, e de experiências que requerem um maior ou menor grau de
perseverança (Stebbins, 2007). É tipicamente contrastante com o casual leisure ou
unserious leisure (lazer não sério), que é consideravelmente menos substancial e
não oferece o tipo de carreira descrito (Stebbins, 2005a). No entanto, não existe
uma remuneração significativa; na verdade, normalmente não existe qualquer
remuneração (Stebbins, 2007);
b) O casual leisure é definido como uma actividade do imediato,
recompensável intrinsecamente, agradável e vivida num curto espaço de tempo, e
que requer pouco ou nenhum treino especial para o apreciar (Stebbins, 1997);
c) O terceiro tipo de lazer que tem sido observado, o project based leisure, é
definido como um comprometimento de curto prazo, moderadamente complicado,
que tanto pode decorrer uma vez ou ocasionalmente (embora pouco frequente)
(Stebbins, 2005b). É criativo e requer um planeamento, considerável esforço, e por
vezes, habilidade ou conhecimento (Stebbins, 2005b). No entanto, este tipo de
actividades não são desenvolvidas com um sentido de carreira (Davidson &
Stebbins, 2011), não pertencendo por isso ao serious leisure, nem tencionam evoluir
para tal (Stebbins, 2005b).
Stebbins (2007) descreve três tipos de serious leisure: amateur (amador),
hobbyist (hobbyista), e volunteer (voluntário). Os amadores operaram no mesmo
campo onde os profissionais trabalham, principalmente no campo da arte, do
desporto, das ciências e do entretenimento (Stebbins, 2007). Os amadores estão
inevitavelmente ligados, de forma ou de outra, aos seus homólogos profissionais,
que se aglutinam, juntamente com o público que os dois grupos partilham, num
sistema tripartido de relações e relacionamentos: o sistema profissionais-amadores-
117
público - PAP (Davidson & Stebbins, 2011). Um profissional é identificado e definido
(economicamente) por aquele que é pago pela actividade em questão, o que realça
a possibilidade de alguns amadores e hobbyistas começarem a retirar alguma fonte
de rendimento (monetário) das suas actividades de lazer (Davidson & Stebbins,
2011). Alguns praticantes de actividades que se incluem nos Desportos de Natureza
poderão ser considerados como amadores pois apresentam as características
definidas por Stebbins. Um bom exemplo que ilustra esta tipologia são os praticantes
de modalidades (e.g. surf) que participam em provas inscritas num quadro
competitivo não profissional, de forma não remunerada (ou parcialmente
remunerado através de prémios), mas que ambicionam entrar (ou entram mesmo)
em circuitos competitivos profissionais (e.g campeonato do mundo de surf).
Aos hobbyists falta o alter-ego profissional dos amadores (não apresentam
um equivalente profissional) embora, por vezes, tenham equivalentes comerciais, e
pequenos públicos que se interessam pelo que fazem (Davidson & Stebbins, 2011).
São classificados de acordo com cinco subtipos (Stebbins, 2007): coleccionadores,
produtores e tinkerers; participantes em actividade não competitivas; competidores
em grande parte dos desportos não profissionais; jogadores; e entusiastas de artes
liberais. Muitas actividades dos Desportos de Natureza são incluídas nas actividades
de participação não competitiva, onde se incluem, por exemplo, as actividades de
pedestrianismo ou os passeios a cavalo. Mas também há hobbies que oferecem, em
grande parte, desafios na natureza, que se integram no âmbito da prática da
competição não formal, como as provas de BTT ou as competições de kitesurf.
Os voluntários ajudam outras pessoas de uma forma não coerciva, por uma
combinação de razões pessoais e altruístas, de forma formal ou informal, sem
nenhuma remuneração ou com um pagamento simbólico, em prol do benefício tanto
de outras pessoas (fora da própria família) como deles próprios (Stebbins, 2007).
Eles estão presentes em mais de uma dúzia de grandes áreas da vida da
comunidade, e têm um contributo importante para o seu desenvolvimento, através
do uso das suas valiosas habilidades, conhecimentos e experiência. As suas
funções (e.g. apoio organizacional em eventos, etc.) são diferentes das do casual
volunteers (voluntários ocasionais), que são também muito importantes, mas que
realizam tarefas muito mais simples, como a distribuição de panfletos para a
promover uma competição de BTT ou a venda de bilhetes para uma prova de
canoagem.
118
Todo o serious leisure é definido por seis qualidades distintivas (Stebbins,
2007): a) a necessidade de ser perseverante em aprender, por exemplo, as técnicas
de escalada, para ser um bom escalador; b) permitir encontrar uma carreira no
desenrolar do serious leisure, formados através das suas próprias contingências
especiais, pontos de inflexão e etapas de realização ou envolvimento; c) um esforço
pessoal significativo, baseado no conhecimento especialmente adquirido, na
formação, na experiência ou na habilidade e, às vezes, nesses quatro em
simultâneo; d) foram identificados, até agora, vários benefícios duráveis ou
resultados amplos do serious leisure, principalmente a partir de pesquisas sobre os
amadores: autodesenvolvimento, auto enriquecimento, auto-expressão, regeneração
ou renovação de si mesmo, sentimentos de realização, aumento da auto-imagem,
interacção social e de pertença, e produtos físicos duradouros que advêm da
actividade (e.g. uma pintura, artigo científico, ou um peça de mobiliário), e a auto-
satisfação; e) o ethos único que cresce em torno de cada caso, cuja componente
central é o mundo social especial em que os participantes prosseguem os seus
interesses nos seus tempos livres; f) a sexta qualidade está ancorada ao redor das
cinco qualidades anteriores - os participantes no serious leisure tendem a identificar-
se fortemente com as actividades escolhidas. Estas seis qualidades têm sido
comummente usado para separar o serious do casual leisure. Este procedimento é
necessário quando se estuda uma actividade de lazer pela primeira vez, uma vez
que não é sempre evidente no início, de se tratar de serious, casual ou project-
based leisure (Stebbins, 2007).
Stebbins (1997) identificou inicialmente seis tipos de casual leisure: jogo,
relaxamento (e.g. dormir, passear), entretenimento passivo (e.g. ver TV, ler livros,
ouvir música), entretenimento activo (e.g. jogos de azar, party games), sociabilidade
(e.g. conversação), e estimulação sensorial (sexo, comer, beber, passear). No
entanto, mais recentemente foram incluídos mais dois tipos: casual volunteer
(voluntariado casual), e actividade aeróbica agradável (e.g. aulas de aeróbica e
acções de aeróbica realizadas individualmente por meio de programas televisivos ou
gravados em vídeo) (Stebbins, 2009). Numa breve revisão dos tipos de casual
leisure, Davidson e Stebbins (2011) referem que estes oito tipos de lazer partilham
pelo menos uma característica central, que é o hedonismo: produzem um nível
significativo de puro prazer, ou gozo, para aqueles que participam nelas, o que numa
ampla linguagem coloquial, serviria como o termo científico para a prática de fazer o
119
que surge naturalmente. Neste sentido, algumas actividades dos Desportos de
Natureza são, para alguns praticantes, actividades de casual leisure, pois o esforço
e desafio são mínimos (Davidson & Stebbins, 2011). Isto acontece em situações em
que os indivíduos participam uma ou duas vezes numa actividade, para terem uma
experiência ou para dizerem que a realizaram.
O project-based leisure inclui dois tipos de projectos: one shot projects
(projectos únicos) e ocasional projects (projectos ocasionais) (Stebbins, 2005b).
Davidson e Stebbins (2011) referem que o project-based leisure define outra
fronteira nas práticas dos Desportos de Natureza como um tipo de lazer. É possível
realizar projectos em ambientes naturais, incluindo um fim-de-semana único a
praticar alpinismo, ou uma semana a realizar uma travessia marítima em caiaque.
Estes projectos pressupõem, por exemplo, uma reserva antecipada de alojamento, a
poupança de dinheiro e a reserva de tempo (eventualmente férias) para a sua
concretização. Um participante também pode ler sobre a montanha ou sobre a zona
marítima, antes da ocasião. No entanto, tais projectos não são de serious leisure,
pois não apresentam as características centrais descritas.
Numa investigação aplicada a três Desportos de Natureza - escalada,
canoagem e snowboard, Stebbins (2005a) reúne muitos dos componentes
essenciais das suas teorias, na perspectiva do serious leisure. Este trabalho de
investigação baseia-se numa síntese dos interesses do autor nos lugares de
diferentes tipos de lazer na vida contemporânea e nas atuais experiências reais de
pessoas, cujas escolhas de estilo de vida as têm levado para as montanhas, por
causa das possibilidades de aventura que estes desportos proporcionam (Beedie,
2008). De fundamental importância no trabalho é a dualidade entre o serious e o
casual leisure e o conceito de estilo de vida e de leisure careers (carreiras de lazer)
(Stebbins, 2005a). Beedie (2008) refere que Stebbins posiciona esta investigação na
teoria e na pesquisa meso estrutural, o meio-termo entre a macro (institucional) e a
micro (individualista) sociologia. Mas, ao mesmo tempo, Stebbins também se baseia
em ideias sociopsicológicas, especialmente no conceito de flow de Csikszentmihalyi,
permitindo que a amálgama deste conjunto de ideias teóricas seja posteriormente
desenvolvida na parte empírica do trabalho (Beedie, 2008). A ambição desta
investigação era usar essa estrutura para procurar respostas para o problema
central do significado de lifestyle balance (equilíbrio do estilo de vida). A partir da
tradicional perspectiva dos estudos de lazer, que refere que as nossas vidas
120
consistem em trabalho, lazer e numa área cinzenta indeterminada entre estes dois
(tarefas domésticas e responsabilidades familiares, por exemplo), Stebbins (2005a),
argumenta que, para a parte do lazer desta equação, podemos alcançar um optimal
leisure lifestyle (estilo de vida de lazer ideal), através de um equilíbrio entre casual e
serious leisure. Os resultados da investigação mostram uma exploração desse
equilíbrio através da elaboração de dados de grupos de pessoas cujas vidas têm
uma participação significativa no serious leisure, através do domínio do risco nas
actividades desportivas acima enunciados. Estes praticantes são descritos como
hobbyistas porque as suas escolhas de lazer são escolhas livres. O que eles têm em
comum, para além do elemento risco, é a atracção pelos elementos naturais – água,
rocha e neve, no ambiente de montanha.
Kane e Zink (2004) exploram a experiência complexa de canoístas num tour
de aventura através dos atributos e qualidades do serious leisure de Stebbins. Estes
autores referem que o serious leisure está relacionado com o conceito de campo de
Bourdieu, ou mais descritivamente com uma forma de pensamento que fornece um
quadro teórico adequado para a compreensão das experiências do turismo de
aventura (Kane & Zink, 2004). Os resultados revelaram uma interpretação da
experiência dos participantes e do seu entendimento da experiência que, apesar de
imbuída nas imagens e na linguagem da aventura, é focada nos atributos do serious
leisure, de desafio pessoal, status e sucesso seguro, concluindo que a experiência
do pacote de um tour de aventura pode ser um marcador significante no
desenvolvimento da carreira de serious leisure (Kane & Zink, 2004).
Green e Jones (2005) referem que os participantes em serious leisure estão
geralmente altamente identificados com a subcultura da actividade escolhida. Estes
autores argumentam que o turismo desportivo pode fornecer, consequentemente,
aos participantes do serious leisure (Green & Jones, 2005): 1) uma forma de
construir e/ou confirmar uma identidade de lazer; 2) uma hora e local para
interagirem com outros, compartilhando o ethos da actividade; 3) um momento e
lugar para desfilar e celebrar uma identidade social valorizada; 4) uma forma de
promover uma carreira de lazer; 5) uma forma de sinalizar uma fase da carreira.
Para estes, compreender o nexo do serious leisure, identidade social e subcultura, é
uma forma de ser-se capaz de descrever e explicar a participação no que eles
chamam de serious sport tourism (turismo desportivo sério) (Green & Jones, 2005).
121
Getz e McConnell (2011) aplicaram a teoria do serious leisure e do ego-
envolvimento para procurar avançar teorias relativas ao serious sport tourism. Para o
efeito analisaram os participantes no evento de BTT - Trans Rockies Challenge. Os
participantes foram questionados, após o evento, sobre os motivos, o seu
envolvimento no desporto, viagem relacionada com o evento, destinos e
preferências sobre eventos. A análise revelou que a maioria dos entrevistados
estava altamente envolvido no BTT competitivo, e foram motivados principalmente
pelo autodesenvolvimento através do cumprimento de um desafio. Muitos
respondentes também participam num grupo de outros eventos desportivos de
competição que fornecem similares recompensas pessoais. Os resultados sugerem
que muitos turistas desportivos sérios desenvolvem carreiras de viagem centradas
em eventos competitivos. Um quadro hipotético para avaliar as seis dimensões de
trajectórias de carreira da viagem de eventos é desenvolvido, levando a considerar
as implicações práticas de gestão e necessidades de investigação (Getz &
McConnell, 2011): i) motivação; ii) estilo da viagem; iii) frequência; iv) espacialidade;
v) tipo de eventos; vi) critérios do destino.
122
Tal como Langseth (2011) refere, estas duas perspectivas não são
apresentadas de forma assim tão simples. Ele argumenta que ao serem
apresentadas neste formato, as duas perspectivas são condensadas, permitindo
uma melhor compreensão sobre as contradições basilares que fundamentam as
suas assunções socio-filosóficas entre actores, sociedade e desejo, demonstrando
que estes modelos abstractos pertencem às duas escolas dominantes do
pensamento sobre o discurso sociológico do risco, interpretando a modernidade de
duas formas completamente distintas.
Através da perspectiva da compensação, a modernidade é principalmente
entendida de acordo com as críticas dos sociólogos clássicos (Langseth, 2011): a
compreensão de Marx de alienação e exploração, e o foco de Weber na expansão
da racionalidade formal (a jaula de ferro), e a conseguinte perda de sentido, pode
ser vista como um indicativo da percepção da modernidade. Deste ponto de vista, a
modernidade faz com que os seres humanos sejam incapazes de expressar
algumas das suas características. Argumenta-se, sob esta perspectiva, que os
Desportos de Natureza, enquanto actividades de risco, surgem como uma forma de
quebrar com estes constrangimentos, oferecendo uma vida mais colorida e excitante
(Langseth, 2011). O panorama da perspectiva da adaptação está, por contraste,
enraizado em estudiosos cuja matriz é a modernidade tardia ou reflexiva (Langseth,
2011). Beck, Giddens e Lash (1994), por exemplo, interpretam a modernidade cuja
individualização e a quebra dos constrangimentos estruturais se tornam o centro da
questão, e onde os projectos de vida individuais se tornam empreendimentos
reflexivos pelo qual as pessoas têm que escolher, activamente, como se exibir. A
participação nos Desportos de Natureza torna-se, sob esta perspectiva, um sinal
particularmente da procura de quem se é (Langseth, 2011). Assim, a perspectiva da
compensação compreende a participação em actividades de risco, como o quebrar
com os valores da modernidade, enquanto a perspectiva da adaptação vê o mesmo
fenómeno como seguindo os valores da modernidade (reflexiva/tardia).
Claro que tanto os sociólogos clássicos (Marx e Weber), como
contemporâneos (Beck, Giddens e Lash), estão conscientes da complexidade da
modernidade (Langseth, 2011). Weber, por exemplo, viu várias vantagens da
modernidade em comparação com os modos anteriores de organização social. No
entanto, foram os problemas levantados pela modernidade que mais caracterizaram
o trabalho desses sociólogos clássicos. Beck, Giddens e Lash (1994), embora
123
focando a modernidade como um processo de libertação das fronteiras sociais como
a classe, também sustentam este processo que é, em si mesmo, constrangedor da
procura constante das pessoas para tomarem escolhas e de serem responsáveis
pela escolhas feitas.
Um estudioso que tornou a complexidade da modernidade uma questão
central na sua teorização foi Peter Wagner (Langseth, 2011). De acordo com a
sociologia histórica de Wagner (1994), a modernidade contêm a ambiguidade da
liberdade e da disciplina. Um discurso sobre a libertação está interligado com o
discurso da disciplinação. Inerente na modernidade é tanto a crença na luta pela
autonomia individual, como a institucionalização da disciplinação do indivíduo. Estas
duas ideias, de acordo com Wagner (1994), coexistem na história da modernidade.
Em algumas fases da modernidade, a disciplina tem sido acentuada, noutras, tem
sido a autonomia pessoal e a liberdade.
Perspectiva da compensação
De acordo com Langseth (2011), o que está conceptualizado como
perspectiva da compensação é uma teoria colectiva que enfatiza o facto da
sociedade moderna estar excessivamente preocupada com a segurança e com o
evitar do risco, constrangendo assim o comportamento dos indivíduos. Esta
perspectiva considera a tomada voluntária de risco como uma profunda necessidade
de compensação a uma vida altamente rotinizada, regulada, aborrecida e
demasiado segura, onde diversos constrangimentos sociais inerentes à
modernidade são apresentados como forças que empurram os actores para a
participação em desportos de risco (Langseth, 2011), entre os quais os Desportos de
Natureza.
Vários trabalhos empíricos foram desenvolvidos atestando este pensamento,
e oferecendo diferentes leituras. Os trabalhos mais proeminentes sobre a tomada
voluntária de risco são os desenvolvidos sob o âmbito do edgework. As actividades
que se enquadram neste conceito apresentam uma característica fulcral que é o
facto de em todas elas estar presente uma clara ameaça ao bem-estar físico ou
mental, e inclusive a ameaça de morte ou de dano (Pereira A. L., 2009). Ao
desenvolver o conceito de edgework, Lyng (1990) salienta que as capacidades
relevantes dos edgeworkers são essencialmente de natureza cognitiva – uma forma
especial de controlo mental sobre situações limite. Lyng (2005) argumenta que na
124
vida diária onde a maior parte das nossas acções são reguladas por instituições
burocráticas, pouca coisa resta para as emoções profundas, e que os actores
sentem que estão a ser roubados das suas escolhas individuais e empurrados por
forças não identificadas.
Nesta óptica, os Desportos de Natureza permitem experienciar intensas
sensações de autodeterminação e controlo, providenciando um escape das
condições estruturais, e suportando a alienação definida por Marx, e
oversocialization (excessiva socialização) referida por Mead (Lyng, 1990). É uma
forma de lidar com a alienação sentida no trabalho burocrático da vida diária (Lyng,
1990), que permite sentir uma sensação de autonomia pessoal nas acções, onde os
comportamentos não são constrangidos pelas normas estruturais do seu ambiente
social, ou seja, permitem experienciar o sentimento de controlo sobre situações que
a maioria das pessoas consideraria como totalmente incontroláveis (Pereira A. L.,
2009). É o que Milovanovic (2005) refere como sendo a resposta às fronteiras
impostas pela sociedade. No fundo, esta é a capacidade que os edgeworkers
acreditam ser a determinante do sucesso ou fracasso na negociação do limite (Lyng,
1990), a exploração do edge por assim dizer (Lyng, 2005). Esta ideia vai ao encontro
do argumento de Weber (Weber M. , 2001) sobre o desejo de encontrar espaços
privados e de autonomia face à crescente racionalização da sociedade moderna,
procurando encontrar e experimentar alguma autonomia e algum (re)encantamento.
O cultivo da tomada de risco, neste contexto, é visto como algo que providencia uma
oportunidade para os indivíduos colocarem em prática a sua coragem, de controlar o
medo, de provar algo a si próprios (Pereira A. L., 2009), o que lhes permite viver com
a sensação de agência pessoal (Rojek, 2000).
Outra teoria que reflecte a ideia da compensação é a compreensão do
processo civilizacional de Elias (1989). Esta teoria refere que através da
modernidade, os afectos têm sido crescentemente suprimidos pelas normas sociais
e pelos códigos de conduta, levando à disciplinação dos impulsos e desejos
humanos, criando uma tensão incessante entre impulsos interiores e o controlo
exigido socialmente (Elias, 1989). Neste sentido, uma das poucas arenas onde é
legítimo mostrar excitação nos dias de hoje é através das actividades de lazer (Elias
& Dunning, 1992), como os Desportos de Natureza. A busca da excitação pode ser
visto, portanto, como uma imitação moderna do desejo natural que existia nas
sociedades anteriores onde as condutas não eram (tão) reguladas ou constrangidas
125
(Elias & Dunning, 1992). Os Desportos de Natureza podem ser vistos, desta forma,
como válvulas de escape onde os constrangimentos sociais que usualmente
controlam os comportamentos dos indivíduos são normalmente aliviados (Langseth,
2011), e onde os participantes podem ser colocados em contacto com sensações e
emoções que geralmente não encontram no seu dia-a-dia (Holyfield, Jonas, &
Zajicek, 2005). Os praticantes dos Desportos de Natureza procuram, segundo esta
ideia, uma fuga ao seu quotidiano, ou seja o que é definido como evasão (Levinas,
2001), ou aventura (Simmel, 1959), expressando uma ruptura com o quotidiano da
vida moderna sob o ponto de vista da experiência corporal.
Os Desportos de Natureza podem ser considerados, também, como
elementos de contracultura, pois, estes são vistos como opositores aos valores
tradicionais da sociedade moderna, inclusive de desafio às estruturas patriarcais
(Midol & Broyer, 1995), onde os grupos de praticantes destas actividades ousam
praticar comportamentos transgressivos que dão origem a novos valores sociais.
Esta tentativa de afirmar uma identidade, de romper com o anonimato, em protesto
contra as conformidades e os adestramentos da sociedade que o agastam, poder
ser considerada como uma forma de protesto, ou mesmo de transgressão (Pereira
A. L., 2009). É neste sentido que Lewis (2004) refere que a escalada é, assim como
muitos dos Desportos de Natureza, mais do que uma tentativa de escape da vida na
modernidade, é uma forma de criticar a vida diária moderna.
Os Desportos de Natureza podem constituir, também, um desafio contra a
procura sistemática da segurança ontológica, quanto mais não seja porque desafiam
a morte. Este confronto com a morte pode ser real, no caso dos alpinistas de alta
montanha (Pereira A. L., 2009), ou simulada. Nesta última perspectiva, os Desportos
de Natureza, entre muitas outras actividades, surgem como a necessidade de
conceber formas que possibilitem a representação da morte, face à concepção
moderna de a encarar (Shilling, 2003), que pode ser entendida na perspectiva da
função mimética do lazer a que se referem Elias e Dunning (1992), ou do jogo
simbólico com a morte referido por Le Breton (2000).
Perspectiva da adaptação
Enquanto a perspectiva da compensação vê a procura pelas actividades de
risco como uma forma de escape na modernidade, a perspectiva da adaptação vê o
mesmo fenómeno como uma forma de se comportar de acordo com os imperativos
126
culturais da sociedade pós-moderna (Langseth, 2011). Nas sociedades pré-
modernas os riscos são encarados como situações perigosas relacionadas com a
natureza (e.g. desastres, doenças, etc.), violência (e.g. roubos, guerras, etc.) e
forças religiosas (e.g. forças diabólicas, condenação, etc.) (Breivik, 2010). Nas
sociedades pós-industriais o perfil do risco mudou, resultado dos processos
industriais e sociais. Este tornou-se mais intenso e abrangente (e.g. guerra nuclear)
e também mais imprevisível (e.g. crise financeira, desemprego, etc.), e sob a
circunstância em que novos riscos ocultos são continuamente expostos e
dramaticamente retratados pelos meios de comunicação social, o individuo tem que
decidir qual é a melhor resposta (Breivik, 2010).
Os riscos negativos incontroláveis podem ser, contudo, contrabalançados por
formas positivas de risco com as quais podemos lidar. A partir desta perspectiva, os
Desportos de Natureza podem ser uma arena onde podemos testar as nossas
capacidades físicas e mentais quando confrontados com situações de risco. Giddens
(1997) considera que as situações mais exigentes são aquelas que nos momentos
decisivos levam a consequentes mudanças. Momentos fatídicos são encontrados
em situações de tomada de risco individual onde se pode influenciar o resultado
usando as nossas capacidades, coragem e vontade.
A alegria e a emoção na tomada de risco é resultado de 3 factores (Breivik,
2010): 1) consciência do risco; 2) exposição voluntaria ao risco; 3) confiança de que
possui as capacidades necessárias para lidar com o risco. A escolha individual da
arena do risco e o tipo de risco é uma parte importante do clima do risco na pós-
modernidade. A autoconstrução significa que podemos subir a uma montanha muito
elevada (acima dos 5000 metros) apesar do aumento do risco de acidente. Giddens
(1997) chama a isso de risco cultivado. Este conceito apresenta dois elementos
fundamentais (Giddens, 1997): 1) o primeiro assinala um corte activo com algumas
formas de risco; 2) o segundo cultiva o risco através de formas sociais e valores
culturais. No final, isso significa que no plano de vida de alguns é incluído um pacote
de risco que resulta na sua escolha de estilo de vida. Os Desportos de Natureza são
arenas onde o projecto de vida (arriscado) moderno pode ser encenado de uma
forma clara e compreensível (Breivik, 2010).
Palmer (2004) refere que, outrora marginalizadas, estas actividades são
agora incorporadas no domínio público, pois, com as mudanças culturais, cada vez
127
mais pessoas se tornaram adventure seekers (procuradores de aventura), cuja
participação se torna, portanto, num marcador de experiências de um estilo de vida.
Kusz (2004) refere que a aprovação dos meios de comunicação social
oficiais, em relação aos desportos extremos, deve ser visto como um símbolo do
ideal americano onde o individualismo, a autoconfiança e a tomada de risco são
estágios centrais. Estes ideais não são, particularmente, exclusivos dos EUA, e
podem ser vistos como ideias centrais nas fases tardias da modernidade (Langseth,
2011).
Numa análise relacionada com os praticantes de escalada em rocha, Beedie
(2007) vê o desporto como uma expressão da valorização da liberdade individual na
modernidade. Na mesma linha de pensamento, Crosset e Beal (1997) referem que
os desportos de risco não devem ser vistos como excedendo os valores da
modernidade, mas sim como actividades que celebram os valores inerentes na
modernidade tardia, como o individualismo e a realização individual. Como Goffman
(1967) refere, não são os contabilistas e os funcionários que são admirados pela
sociedade, pelo contrário, as pessoas têm enorme respeito por aqueles que
apresentam conquistas individuais e coragem, como os alpinistas de alta montanha,
e os velejadores a solo numa volta ao Mundo. Através da perspectiva do modelo da
adaptação, o ethos dos Desportos de Natureza corresponde ao código cultural da
modernidade tardia. É visto como uma extensão da modernidade ao invés de
transcender essa realidade. Abramson e Fletcher (2007) referem que a expansão da
escalada em rocha nos últimos anos é vista, com maior incidência, como uma
extensão física e simbólica dos esforços para angariar o valor do prometido futuro
humano – através da absorção do risco, da dor e autoconfiança no imediato – do
que como um rebelde abandono do mesmo presente social. Através da perspectiva
da adaptação, o tomador de risco personifica os valores da modernidade (tardia),
como o individualismo, a autenticidade, a criatividade, a espontaneidade, o anti
convencionalismo, a flexibilidade, a auto-realização e a procura para uma vida
interessante e excitante. A perspectiva adaptativa afirma que os imperativos
culturais levam os actores a gravitar através da participação em desportos de risco.
Duas forças interconectadas são reconhecidas através desta perspectiva: a
individualização e o abraçar do risco.
128
2.5.4. MOTIVAÇÕES, PREFERÊNCIAS E CONSTRANGIMENTOS À
PRÁTICA DOS DESPORTOS DE NATUREZA
Os estudos da motivação resultaram essencialmente das investigações sobre
as necessidades humanas desenvolvidas por Maslow (1943; 1954) e
Csikszentmihalyi (1975), e foram progressivamente adoptadas para as actividades
recreativas na natureza. A investigação relacionada com as motivações para a
procura de actividades recreativas na natureza foram abundante durante os anos
1960s, apesar de geralmente limitadas a uma descrição da participação em
actividades específicas, tais como a canoagem ou o campismo (Tarrant, Bright,
Smith, & Cordell, 1999). Diversos investigadores começaram a explorar a natureza
teórica das motivações durante os anos 1960s (Burch, 1969) e 1970s (Hendee,
1974), embora os estudos mais abrangentes sobre a motivação para a prática das
actividades recreativas na natureza tenham sido realizados por Driver e pelos seus
colaboradores (Driver & Brown, 1978; Driver & Knopf, 1976; Driver & Tocher, 1970).
Estas investigações tiveram inicialmente uma abordagem centrada no resultado da
actividade e não na actividade em si, o que levou Driver (1977) a considerar a
motivação como o resultado psicológico desejado e esperado na participação em
actividades recreativas. Segundo esta perspectiva, os participantes nas actividades
recreativas na natureza apresentam um comportamento específico que advém da
percepção dos resultados desse mesmo comportamento. Assim, as motivações são
referidas como as consequências (Driver & Knopf, 1976), e os resultados
psicológicos (Driver & Brown, 1978) desejados.
O significado da motivação teve também um enfoque relacionado com a
expectativa dos praticantes sobre as condições que iriam encontrar, ou as
expectativas da sua experiência na realização das actividades (Schreyer &
Rogenbuck, 1978). A importância de estudar as motivações nas actividades de
recreação na natureza está relacionada com o seu potencial para influenciar a
satisfação das necessidades individuais, preferências, expectativas e/ou resultados
desejados (Tarrant, Bright, Smith, & Cordell, 1999).
Os trabalhos de Driver (1977) conduziram à elaboração de escalas
psicométricas que podem ser usadas para medir as dimensões da experiência
recreativa dos indivíduos, e que se tornaram conhecidas como a Recreation
Experience Preference (REP) (Escala de Preferências da Experiência de
Recreação). O pressuposto básico da utilização destas escalas está relacionado
129
com o facto de vários itens da escala se correlacionam de forma a fornecer
informações sobre um amplo domínio da preferência da experiência. Tarrant, Bright,
Smith, e Cordell (1999) dão o exemplo da obtenção de informações sobre a
extensão na qual um indivíduo valoriza o escape da pressão física em actividades
de recreação na natureza, que requer a determinação da importância de vários itens
correlacionados, criados para medir as necessidades: a) de tranquilidade; b) de
privacidade; c) de escapar às multidões; d) de libertar o stress físico.
Os primeiros trabalhos empíricos da motivação focaram-se (Manfredo, Driver,
& Tarrant, 1996): a) na descrição da preferência da experiência recreativa em várias
actividades; b) na identificação dos diferentes tipos de experiências desenvolvidas
por diferentes praticantes na mesma actividade; c) em estabelecer uma relação
entre o ambiente e as preferências de lazer; d) em identificar a relação entre as
condições de não-lazer e as preferências nas experiências recreativas; e) na
exploração da relação entre a preferência da experiência e as características do
sujeito; f) no desenvolvimento metodológico da escala REP.
No entanto, alguns investigadores questionaram a validade destas escalas
(Williams, Schreyer, & Knopf, 1990), referindo que a extensão dos itens específicos
que se correlacionavam entre eles diferia, dependendo da experiência passada dos
indivíduos. Para solucionar as questões levantadas sobre a validade destas escalas,
Manfredo, Driver e Tarrant (1996) conduziram um meta-análise da estrutura das
escalas REP, analisando os resultados dos 36 diferentes estudos que tinham
aplicado essas escalas, aplicando a análise factorial confirmatória sobre elas. A
análise sugere que os 19 domínios gerais e os 41 itens da escala são únicos e
significativos para descrever as motivações da maioria dos indivíduos que participam
em actividades de recreação na natureza, incluindo factores como o reforço da auto-
imagem, a exploração, autonomia, introspecção, e união, que não são geralmente
associados ao conceito de recreação, mas que, no entanto, são importantes para a
sua compreensão.
A soma das motivações pessoais quantifica a preferência pela experiência
recreativa. As escalas de REP podem, portanto, ser usadas numa variedade de
formas, dependendo de como são redigidas e administradas (Tarrant, Bright, Smith,
& Cordell, 1999): a) se administrada imediatamente antes de uma actividade, testam
o que motiva os participantes a participar nessa actividade específica; se
administrada imediatamente após uma actividade testam a obtenção de preferências
130
ou de satisfação; b) se administrados meses após as actividades ou sem uma
actividade específica em mente, testam as preferências para a recreação em geral.
Chazaud (2004) agrupa as motivações para a prática do turismo e do lazer
desportivo na natureza em seis principais categorias:
1. Para estar em contacto com a natureza; para apreciar a natureza e a
paisagem; para defender o ambiente;
2. Para ter novas experiências/sensações de aventura; para desafiar as
capacidades; para pôr-se à prova;
3. Para ocupar o tempo livre; para interagir com outras pessoas/contacto
social; pelo convívio que proporciona;
4. Por recomendação médica/ questões de saúde; para manter e/ou melhor a
condição física; para relaxar/ quebrar com a rotina do dia-a-dia;
5. Para estar envolvido numa competição desportiva;
6. Para visitar outros locais/ destinos; para conhecer outras tradições e outras
culturas; para visitar e defender o património.
Existem muitos obstáculos na investigação sobre a participação nas
actividades recreativas na natureza. As motivações por si só não explicam a
participação nestas actividades (assim como noutras actividades recreativas) porque
determinados factores parecem negar as motivações individuais e a capacidade de
participar nestas actividades. Esses factores são geralmente designados de
constrangimentos (ou restrições). Jackson (1988) definiu os constrangimentos como
factores que podem inibir a participação em actividades ou limitar a satisfação na
participação. Os constrangimentos de lazer são também definidos como barreiras,
obstáculos, ou factores inibidores, percebidos ou reais, que influenciam a
participação de um indivíduo, a frequência, a intensidade, a duração, a qualidade, a
preferência, ou a liberdade de escolha numa actividade de lazer (Goodale & Witt,
1998).
Jackson (2000; 2005b) refere que a investigação sobre os constrangimentos
para o lazer tem como objectivo investigar os factores que são assumidos pelos
investigadores e/ou percebidos pelos indivíduos que limitam a formação de
preferências de lazer e/ou inibem ou proíbem a participação e divertimento no lazer.
Existem três justificações gerais para a investigação sobre os constrangimentos para
o lazer (Jackson, 2005b): i) é requerida a investigação de todos os factores que
influenciam a escolha, tanto positivos (e.g. motivações, benefícios antecipados)
131
como negativos (e.g. constrangimentos), para compreender a escolha e o
comportamento individual. Neste sentido, os estudos sobre os constrangimentos
podem ajudar a explicar porque é que as relações observadas entre valores e
atitudes, preferências de lazer, e o evidente comportamento de lazer apresentam
uma relação frequentemente ténue; ii) para contribuir para a geração de novos
conhecimentos em aspectos sobre o lazer que se pensavam que eram bem
conhecidos, como a participação, motivação, satisfação, e conflitos na recreação e
no lazer; iii) por ser um dispositivo útil para atingir a comunicação entre académicos
com experiências disciplinares, interesses actuais, e orientações metodológicas
divergentes, tornando-se numa espécie de esperanto conceptual.
As investigações sobre os constrangimentos na participação em actividades
recreativas surgem, pelo menos, nos anos 1960s com a United States Outdoor
Recreation Resources Review Commission (ORRRC) (Comissão de Revisão dos
Recursos de Recreação Outdoor dos Estados Unidos) (Goodale & Witt, 1998;
Jackson & Scott, 1999). No entanto, a investigação sistemática sobre os
constrangimentos de lazer, como uma subárea de investigação do lazer, surgiu com
algumas publicações chave nos anos 1980s (Jackson, 2005b), embora estas
investigações tenham sido meramente descritivas e não explicativas, e com pouco
desenvolvimento teórico (Stockdale, 1989; Walker & Virden, 2005).
Consequentemente, os investigadores tendiam a fazer determinadas suposições
sobre os constrangimentos, e sobre o seu impacto na recreação e no lazer dos
indivíduos (Jackson, 2005b). Nesta perspectiva, Jackson (1993) identificou seis
dimensões de restrições que parecem ser comuns a diferentes contextos: a)
isolamento social: características que envolvem a interacção entre pessoas; b)
acessibilidade: falta ou acesso limitado a transportes; c) razões pessoais:
representam as habilidades ou motivações individuais; d) custo: custos da
experiência ou custos do equipamento; e) tempo: refere-se a níveis de intensidade
da participação; f) instalações: massificação e manutenção.
O trabalho de Crawford e Godbey (1987) apresentou uma das teorias mais
marcantes neste campo. Estes investigadores apresentaram um modelo que
categoriza os constrangimentos em três tipologias (Crawford & Godbey, 1987): a) os
factores intrapessoais - definidos como as qualidades psicológicas individuais que
afectam o desenvolvimento das preferências de lazer (e.g. medo de ficar ferido na
escalada em rocha); b) factores interpessoais - definidos como os factores sociais
132
que afectam o desenvolvimento das preferências de lazer (e.g. falta de companhia
para escalar); c) os factores estruturais - definidos como os factores que intervêm
entre o desenvolvimento das preferências de lazer e a participação (e.g. falta de
dinheiro para comprar o equipamento necessário para escalar). Na óptica de
Jackson (2005b), este trabalho trouxe duas grandes contribuições para o campo dos
constrangimentos de lazer: i) o primeiro contributo está relacionado com o facto de
os constrangimentos afectarem não só a participação e a não participação, mas
também as preferências; ii) o segundo está relacionado com a ampliação da gama
de constrangimentos que podem ser reconhecidos como afectando o
comportamento no lazer, em especial os factores estruturais.
Estendendo essa linha de pensamento, Crawford, Jackson e Godbey (1991)
apresentaram um modelo hierárquico de importância dos constrangimentos de lazer,
dos mais próximos (intrapessoais) para os mais distantes (estruturais). Este modelo
sugere que os factores intrapessoais e interpessoais influenciam as preferências de
lazer e que os factores estruturais intervêm entre as preferências e a participação.
Assumindo que grande parte da investigação sobre os constrangimentos, no
passado, era baseada numa concepção de constrangimentos como obstáculos
intransponíveis que levam à não participação no lazer, Jackson, Crawford e Godbey
(1993) elaboraram uma visão alternativa sobre as restrições à participação no lazer,
que designaram de constraint negotiation (negociação dos constrangimentos). Esta
visão sobre os constrangimentos é usada para explicar a forma como os indivíduos
superam os efeitos das restrições para participar em determinado tipo de actividades
de lazer (Jackson, Crawford, & Godbey, 1993; Kay & Jackson, 1991; Scott, 1991),
partindo da preposição central de que a participação no lazer é dependente não da
ausência dos constrangimentos mas na negociação dos mesmos (Jackson,
Crawford, & Godbey, 1993). Considerando as estratégias de negociação que
facilitam o desenvolvimento de actividades de lazer, Jackson, Crawford e Godbey
(1993) tiveram em conta o relativo sucesso na negociação dos constrangimentos, as
interacções entre os diferentes tipos de constrangimentos, e o equilíbrio entre os
constrangimentos e motivações.
Deste estudo sobressaem três tipologias de indivíduos no que diz respeito às
suas respostas quanto aos constrangimentos (Jackson, Crawford, & Godbey, 1993):
a) indivíduos que não participam nas suas actividades desejadas (resposta reactiva);
b) indivíduos que, apesar de experienciar constrangimentos, não reduzem ou de
133
outro modo mudam a sua participação (resposta proactiva de sucesso); e c)
indivíduos que participam mas de uma forma alterada (resposta proactiva de
sucesso parcial).
Embora estas tipologias conceptuais tenham sido baseadas em
especulações, Jackson (2005b) refere que este modelo tem sido suportado em
estudos qualitativos, como por exemplo o trabalho de Henderson, Bedini, Hecht e
Schuler (1995), cujos grupos são referidos respectivamente como, respondentes
passivos, empreendedores e tentadores.
Jackson e Scott (1999) formaram, mais tarde, um modelo de
constrangimentos de lazer, indicando a inter-relação entre motivações,
constrangimentos e preferências. Este modelo descreve o envolvimento da
negociação das restrições na formação de preferências de lazer, a decisão de
participar, a participação real, e a avaliação. A inclusão da avaliação deste modelo
destaca a natureza dinâmica e cíclica das motivações e restrições. Uma vez que as
motivações são os benefícios esperados de participação, a avaliação dos benefícios
actuais após a participação pode levar a uma modificação das motivações, assim
como as restrições e a negociação das restrições podem igualmente mudar com o
resultado da avaliação da experiência (Jackson & Scott, 1999).
Recentemente surgiram avanços na teoria e nos métodos de investigação dos
constrangimentos de lazer, colocando a negociação num contexto amplo do
comportamento de lazer, explorando as relações entre os constrangimentos e outros
conceitos através da análise multivariada (White, 2008). Na senda destes trabalhos,
uma das mais inovadoras e profícuas linhas de estudo dos constrangimentos de
lazer está a ser conduzido por Mannell e colaboradores (Hubbard & Mannell, 2001;
Loucks-Atkinson & Mannell, 2007; Mannell & Loucks-Atkinson, 2005). Usando a
modelação de equação estrutural nos testes empíricos de modelos alternativos de
negociação de constrangimentos de lazer, estes investigadores contribuíram para a
ampliação do conhecimento sobre a forma de como os constrangimentos operam na
vida dos indivíduos, e de como estes interagem com outras variáveis importantes,
como as preferência e a motivação (Jackson, 2005b). Nesta linha, Hubbard e
Mannell (2001) utilizaram a análise factorial confirmatória e a equação estrutural
para analisar quatro modelos concorrentes do processo de negociação dos
constrangimentos. Nesse trabalho foi encontrado um suporte para um modelo de
constrangimento-efeito-mitigação, evidenciando a não existência de uma relação
134
directa entre motivação e os constrangimentos percebidos. Este estudo atesta
também a forte relação entre a motivação e a participação, através da influência
positiva nos esforços de negociação dos constrangimentos.
A ideia de que a auto-eficácia pode fornecer esclarecimentos adicionais sobre
o processo de negociação dos constrangimentos (Henderson, Bedini, Hecht, &
Schuler, 1995; Hubbard & Mannell, 2001) encaminhou a extensão da investigação
nesta área para um modelo baseado na teoria social cognitiva, e para a
incorporação de um constructo de negociação-eficácia, por parte de Loucks-
Atkinson e Mannell (2007). Na mesma linha teórica e metodológica, White (2008)
estendeu as investigações prévias de Mannell e colaboradores (Hubbard & Mannell,
2001; Loucks-Atkinson & Mannell, 2007), conduzindo um teste empírico de um
modelo conceptual de negociação dos constrangimentos no contexto da recreação
na natureza. O modelo propõe que a motivação é directa e positivamente
relacionada com a participação nas actividades de recreação na natureza, e que a
influência positiva da motivação é neutralizada pela influência negativa dos
constrangimentos. Este modelo sugere também que essas relações tendem a ser
influenciadas pelos esforços para negociar: a uma maior motivação para participar
nas actividades de recreação na natureza é susceptível de encorajar o uso de
estratégias de negociação e de recursos para superar as limitações. A experiência
nos constrangimentos, no entanto, tem também um impacto indirecto positivo na
participação de desencadear ou activar os esforços de negociação: a eficácia na
negociação incentiva a motivação, diminui a percepção das limitações, e incentiva a
utilização dos esforços de negociação, tendo assim uma influência indirecta positiva
sobre a participação.
Baseado na ideia de que os constrangimentos para a recreação e lazer não
são distribuídos de igual forma na sociedade, alguns autores (Jackson & Henderson,
1995; Johnson, Bowker, & Cordell, 2001) demonstram que as características
sociodemográficas (factores de nível macro) desempenham um papel importante na
prevalência e no grau dos constrangimentos, e podem ter um peso superior em
pessoas que se inserem em grupos não dominantes (Henderson & Hickerson,
2007). Nesta linha de pensamento, alguns autores associam os constrangimentos
para a recreação e lazer para descrever os vários sistemas de desigualdade,
considerando a forma como múltiplas identidades, como o género, a raça, a classe
135
social e a residência, interagem e influenciam as preferências e os constrangimentos
de lazer (Johnson, Bowker, & Cordell, 2001; Virden & Walker, 1999).
De acordo com essa perspectiva, surge uma corrente teórica designada de
estratificação hierárquica múltipla, que é baseada na ideia de que cada pessoa tem
uma posição ou status na sociedade (Shores, Scott, & Floyd, 2007). Embora
conceptualmente ligada a outras teorias sociológicas, como a característica de
status e as teorias sociais estruturais, a estratificação hierárquica múltipla
desenvolveu-se como uma perspectiva teórica distinta (Shores, Scott, & Floyd,
2007). De acordo como Markides, Liang e Jackson (1990), esta perspectiva é
desenvolvida para entender como as múltiplas desvantagens de status
comprometem o acesso a uma série de serviços públicos, incluindo os recursos de
lazer. A teoria da estratificação hierarquia múltipla apresenta, de acordo com
Shores, Scott e Floyd (2007), um modelo que evidencia no extremo inferior da
hierarquia da estratificação, as mulheres mais velhas, que são pobres e membros de
um grupo minoritário, que apresentam o maior número de constrangimentos de
acesso ao serviço, enquanto no polo oposto, no nível superior da hierarquia, surgem
os jovens homens brancos e ricos, que encontram o menor número de
constrangimentos no acesso ao lazer.
Walker e Virden (2005) apresentaram um modelo que mostra que os factores
de nível micro (traços de personalidade, necessidades humanas, atitudes e crenças,
etc.) e de nível macro (raça, género, forças culturais, forças socioeconómicas, etc.),
conjugados com a motivação, têm um efeito cumulativo nas preferências de lazer.
Para além do mais, Walker e Virden (2005) apresentam uma classificação dos
constrangimentos específicos para o estudo da recreação na natureza, propondo
uma taxonomia dividida em quatro constrangimentos estruturais: 1)
constrangimentos estruturais do ambiente natural; 2) constrangimentos estruturais
do ambiente social; 3) constrangimentos estruturais territoriais; 4) constrangimentos
estruturais institucionais.
Tal como os resultados evidenciados nas investigações sobre as motivações,
os resultados dos constrangimentos para as práticas da recreação outdoor também
variaram significativamente, dependendo das características dos participantes tais
como a etnia, classe social, localização e actividade (USDA, 1999). Por exemplo, as
pessoas pobres dos centros urbanos consideraram a falta de dinheiro e de
transporte como os principais constrangimentos, e as pessoas com deficiências
136
físicas consideraram a saúde individual e a acessibilidade inadequada como os
maiores constrangimentos para a prática de actividades recreativas na natureza
(USDA, 1999).
O género aparece também como um factor determinante para a realização
destas actividades (Johnson, Bowker, & Cordell, 2001). A este respeito Rojek (1985)
refere que as mulheres experimentam um conjunto único de barreiras que não são
tão evidentes nos homens, e que se referem tanto à estrutura do papel sexual
imposta às mulheres como pelas preocupações que estas apresentam enquanto
objecto sexual, numa sociedade patriarcalista de domínio masculino. A vida da
mulher é estruturada para que esta preste mais atenção aos outros do que a si
própria (Henderson & Dialeschkia, 1991). O significado que é atribuído a ser esposa,
mãe, filha, mulher solteira, ou senhora mais velha, faz com que a mulher dê maior
prioridade ao garantir o tempo e as actividades de lazer da família (do marido e dos
filhos) do que ao seu próprio tempo de lazer, criando uma desigualdade natural no
lazer da mulher que não pode ser facilmente descartado (Johnson, Bowker, &
Cordell, 2001). A mulher tende a negar a oportunidade de se envolver em
actividades outdoor e noutros tipos de lazer (e durante o processo sentem que são
constrangidas), por causa das responsabilidades familiares, em particular pelo seu
papel enquanto cuidadora (Johnson, Bowker, & Cordell, 2001). Nesta perspectiva, as
mulheres são mais propensas do que os homens a pensar que não têm direito ao
lazer, e esta crença coloca uma forte limitação na sua construção do tempo para o
lazer e nas suas atitudes em relação ao lazer (Henderson & Dialeschkia, 1991).
Outra tendência importante na investigação sobre os constrangimentos nas
práticas das actividades recreativas na natureza é a prevalência de determinadas
barreiras que são comuns em todas as populações e actividades (Holland,
Pennington-Gray, & Thapa, 2001; Scott & Kim, 1998; Virden & Yoshioka, 1992): 1)
falta de tempo; 2) falta de dinheiro; 3) saúde pessoal; 4) não ter companhia. Na
mesma linha de pensamento, Walker e Virden (2005) referem que os
constrangimentos para a realização destas práticas são similares a outras esferas
do lazer (e da vida), mas algumas, como a falta de tempo, pode ter um impacto
maior no contexto da recreação na natureza por causa dos compromissos das
viagens, por vezes, necessárias para atingir áreas naturais afastadas da zona de
residência.
137
O modelo conceptual dos constrangimentos ao lazer recebeu, ao longo da
sua evolução, algumas críticas por diversos autores (Henderson, 1997; Samdahl,
2005; Samdahl, Hutchinson, & Jacobson, 1999; Samdahl & Jekubovich, 1997a;
Samdahl & Jekubovich, 1997b). Samdahl (2005) salienta a importância da
desconstrução da literatura sobre os constrangimentos ao lazer para revelar factores
chave que inicialmente pareciam banais, mas que exercem uma influência decisiva
no estudo desta temática. Quatro pontos chaves são salientados (Samdahl, 2005):
i) O modelo de constrangimentos ao lazer criou uma forma de pensamento
que inevitavelmente isola o lazer dos outros elementos da vida. Este modelo, ao
descontextualizar a participação no lazer de outras facetas da vida faz com que os
constrangimentos ao lazer sejam representados com simplistas e de uma forma
binária – as pessoas encontram constrangimentos ou são livres para participarem
nas actividades. Os constrangimentos e a negociação não podem ser entendidos
simplesmente em relação à participação; eles intervêm com outros factores e tem
sentido que se estendam para além da participação;
ii) Os constrangimentos são retratados como barreiras negativas e
restritivas, enquanto a participação como um aspecto positivo. No entanto, isto não é
sempre tão evidente na participação em actividades de lazer, já que muitas das
vezes a participação é desaconselhada e os constrangimentos são impostos para
regular a acção dos indivíduos para, presumivelmente, alcançar o bem-estar geral;
iii) A negociação é também usualmente conotada de uma forma positiva e
valorizada, e que leva necessariamente a resultados positivos. No entanto estas
premissas apresentam uma natureza restritiva já que muitas das vezes a
negociação é má ou desaconselhada, como por exemplo na maioria dos casos do
lazer desviante. É importante compreender que existem muitas respostas
alternativas aos constrangimentos e participar numa actividade que apresente
constrangimentos pode não ser a alternativa mais atractiva e mais recompensadora
para todos os participantes;
iv) A abordagem da negociação dos constrangimentos ao lazer é delineada
pela perspectiva da psicologia social, na medida em que a enfase é atribuída ao
indivíduo na identificação de soluções para os seus constrangimentos, e o
comportamento é explicado em termos de características pessoais ou respostas a
estímulos. Estas explicações ignoram a influência cultural que molda o
comportamento no lazer, colocando na responsabilidade dos indivíduos coisas que
138
ele não pode controlar. Quando estes factores são estudados apenas como
obstáculos ao lazer, o sistema hegemónico que os criou e perpetuou permanece
invisível e incólume.
Godbey, Crawford e Shen (2010), ao avaliarem o status do modelo
hierárquico de constrangimentos ao lazer, desenvolvido por Crawford e Godbey
(1987) e Crawford, Jackson e Godbey (1991), concluem que esse modelo apresenta
uma relevância transcultural, que pode examinar outras formas de comportamento
que não sejam o lazer. Salientam ainda que apesar dos estudos até aqui terem sido
em grande parte de confirmação, este modelo apresenta um grande potencial para
que a teoria seja expandido para que a investigação sobre os constrangimentos ao
lazer avence até ao nível seguinte.
139
ambiciona alcançar situações em que sentem que o que fazem é da sua própria
escolha e que têm controlo sobre si próprios. Similar à perspectiva do flow, Celsi
(1992) e Illundáin-Aguruzza (2007) estudaram a tomada voluntária do risco em
relação à compreensão Kantiana do sublime, argumentando que assumir risco no
desporto é uma forma particular de alcançar intensos desafios e elevadas
experiências.
A participação em determinadas actividades denominadas de risco é, muitas
vezes, entendida como o resultado das características pessoais. Um modelo que
permite estudar as diferentes predisposições para a participação neste tipo de
actividades é o trabalho de Zuckerman (1979), baseado na psicologia evolucionária.
A Sensation Seeking Scale (SSS) (Escala da Procura de Sensações) é constituída
por 40 itens com duas opções de escolha (sim ou não) em cada item, que
compreende uma medida global de procura de sensações, além de quatro
subcomponentes (Zuckerman, 1979): 1) procura de emoção e aventura; 2) procura
de experiências; 3) desinibição; 4) susceptibilidade à monotonia.
As investigações relacionadas com a participação em Desportos de Natureza
demonstram que os praticantes apresentam altos resultados no total da escala de
SSS (Bouter, Knipschild, Feij, & Volovics, 1988; Robinson, 1985; Trimpop, Kerr, &
Kirkaldy, 1998), e também os estudos que comparam pessoas que participam em
actividades soft, com os que participam em actividades hard, revelam valores
opostos na escala, facto que demonstra a importância da procura de sensações por
parte dos aventureiros (Jack & Ronan, 1998).
Vester (1987), por seu lado, identificou seis dimensões das actividades de
aventura e experiências: territorialidade, duração, transcendência, risco,
enfrentamento, e rotinização. Mortlock (1984) também apresentou quatro elementos
de experiência da aventura: i) risco; ii) responsabilidade; iii) incerteza; iv)
comprometimento. O trabalho de Mortlock (1984) é, aliás, um dos pontos de partida
para os trabalhos desenvolvidos sobre a experiência da aventura, providenciando
um modelo descritivo que apresenta quatro estádios da aventura, que não são
necessariamente sequenciais: estádio um – jogo; estádio dois – aventura; estádio
três – fronteira da aventura; estádio quatro – desventura.
Os trabalhos de Martin e Priest (1986), Priest (1990), e Priest e Gass (1997),
baseados nos trabalhos de Ellis (1973) sobre o jogo, de Csikszentmihalyi (1975)
sobre o flow, e o optimal arousal (excitação óptima), e nos quatro estádios de
140
Mortlock (1984), propuseram um modelo de experiência da aventura que
denominaram de Adventure Experience Paradigm (AEP) (Paradigma da Experiência
da Aventura). Este modelo é baseado em duas dimensões: as competências
pessoais no eixo horizontal, e o risco (desafio situacional) no eixo vertical. Estas
duas dimensões são reveladoras de uma interacção que permite a criação de
experiências psicológicas em cinco distintos estados de crescente grau de
excitação: i) exploração e experimentação; ii) aventura; iii) peak adventure (aventura
limite); iv) desventura; v) devastação e desastre. Este paradigma permite integrar
diferentes tipos de personalidade, explicando que embora o primeiro tipo possa lutar
para os puxar para além do estádio do jogo, o último pode puxar para a desventura
ou até mesmo para a morte devido a uma incompatibilidade muito grande entre a
competência dos praticantes e os riscos colocados pela situação (Martin & Priest,
1986).
Ewert e Hollenhorst (1989) propuserem um modelo de aventura baseado num
continuum entre três diferentes níveis de envolvimento nessas actividades, que inclui
uma fase de introdução (nível de iniciação), uma fase de desenvolvimento (segunda
fase) e uma fase de comprometimento (o nível mais elevado). Num trabalho
posterior (Ewert & Hollenhorst, 1994), o modelo é desenvolvido tendo em conta a
combinação de quatro atributos individuais e de quatro características do ambiente
que desempenham papéis importantes na experiência da aventura. Os atributos
individuais incluem a frequência de participação (baixo ou alto) o nível de
competência e experiência (baixo ou alto), locus de controlo (liderado ou individual).
As características do ambiente incluem o nível e o tipo de risco (baixo ou alto), os
equipamentos, a orientação social (programas/cursos ou acompanhado/sozinho), e
a orientação do ambiente (desenvolvido ou natural).
Entretanto, Robinson (1992) apresentou um modelo descritivo sobre o
envolvimento duradouro em risk recreation (recreação do risco) que permite
compreender a sua complexa natureza e os factores que influenciam esse
envolvimento duradouro. O modelo aborda os antecedentes psicossociais
subjacentes à atracção e enfrentamento, avaliação cognitiva, tomada de decisão,
experiência na performance e os processos subjacentes à avaliação pós-
performance. No entanto, McIntyre (1992), analisando três métodos de avaliação
dos níveis de envolvimento dos participantes, nomeadamente, nível de competência,
experiência auto reportada, e importância percebida da actividade ou envolvimento,
141
sugere que a importância que é atribuída à participação ou ao nível de envolvimento
pode fornecer uma base mais adequada para avaliar os níveis de envolvimento nas
futuras análises empíricas do modelo de aventura.
O modelo de Robinson (1992) sugere que os participantes se movem da
atracção inicial para um envolvimento duradouro. Também Priest (1992) e Ewert e
Hollenhorst (1994) acreditam que à medida que os participantes vão ganhando
experiência, a percepção do risco decresce e o grau de competência aumenta. A
experiência e a competência são importantes em situações em que é necessário
possuir um certo grau de habilidade, ou que essa habilidade deva ser adquirida para
participar com sucesso na actividade (Swarbrooke, Beard, Leckie, & Pomfret, 2003).
Iso-Ahola e Graefe (1988) ilustram bem esta ideia, detectando vínculos entre a
competência percebida dos praticantes, a auto-estima e a experiência. Os
praticantes (escaladores de rocha) demonstraram que os praticantes quando bem-
sucedidos apresentam uma maior auto-estima. No entanto, a auto-estima não
estava relacionada com o grau de experiência do escalador. O estudo salienta ainda
que quanto maior o nível de experiência maior o grau de competência geral
percebida.
Varley (2006) desenhou um continuum de comercialização das actividades de
aventura, que poderá ser adaptado aos Desportos de Natureza, e que permite
desenvolver a ideia de uma gama de tipos de experiência, que vão desde o domínio
da aventura pura, para o domínio do turismo (pós-aventura). Neste trabalho é
explorada a noção paradoxal entre a aventura pura ou original, e a aventura
comercializada (vista como uma experiência previsível e gerida por outros). A
aventura, apresentada nestes dois polos (opostos), é apresentada como estando
alocada na intersecção entre as formas de vida do controlado Apolíneo e do caótico
Dionísio. Estes esforços levam à noção de que a aventura pura ou original, no seu
tipo ideal, tem características claras de que a versão comercial não pode permitir. O
continuum de comercialização da aventura é desenhado para mostrar que os
produtos rotulados de aventura vão desde a gestão controlada, racionalizada da
experiência do risco, post-adventure (pós-aventura), na parte rasa, para as
experiências que permitem maiores níveis de comprometimento, risco e
responsabilidade, no final do continuum. Este modelo, em certa medida, antecipa as
críticas potenciais do trabalho para as suas posições essencialistas, ilustrando que a
extensão do confinamento dos elementos da aventura em produtos de aventura
142
varia consideravelmente. Alguns são somente experiências com sabor a aventura
produzidos simplesmente pela retórica do marketing, e talvez também por factores
situacionais como um ambiente físico incomum, enquanto outros produtos turísticos
têm uma maior conexão com a aventura original em termos das características de
definição desenvolvidas. A conclusão final é, porém, que apenas uma acomodação
preguiçosa do termo aventura possa aceitar que este fenómeno possa ser uma
experiência que pode ser embalada e fiavelmente oferecida a um cliente em troca de
dinheiro. Por conseguinte, é proposto que a experiência directa do definitivo caos de
Dionísio, no centro da aventura, é à prova de comercialização.
143
política/democrática, não necessita de negociar para decidir grandes medidas com
outros agentes. O movimento desportivo associativo age por delegação; os
parceiros sociais são muitas vezes inexistentes; os utilizadores/consumidores e
empresários privados têm um baixo impacto sobre a implementação das políticas
desportivas;
b) O modelo missionário é caracterizado pela presença dominante do
movimento desportivo associativo (apresenta uma grande autonomia para tomar
decisões) com poderes delegados pelas autoridades nacionais ou regionais
(incorpora seis estados: Áustria, Dinamarca, Alemanha, Itália, Luxemburgo, Suécia).
Os parceiros sociais têm pouca presença; a legitimidade pertence, geralmente, mais
aos gestores voluntários do que aos trabalhadores; os utilizadores raramente têm a
hipótese de adoptar a posição de consumidor, e os empreendedores privados agem
na margem do sistema dominante (com um papel variável);
c) O modelo empresarial é caracterizado pela regulação do sistema
decorrente da procura social ou económica pelo desporto. O papel das autoridades
públicas consiste essencialmente na criação de um quadro que permita que esta
lógica de mercado se possa expressar. O movimento desportivo associativo é levado
a adaptar-se a estas exigências, que correspondem às orientações de empresários
privados e, neste contexto, a tentar manter as suas posições (são exemplos deste
modelo a Irlanda e Reino Unido);
d) O modelo social (que incorpora apenas um estado: Holanda) é
caracterizado pela presença dos parceiros sociais dentro de um sistema
multifacetado. Baseia-se na participação da sociedade civil em geral e, portanto,
está sujeito à coabitação/colaboração entre os agentes públicos, associativos e
comerciais (sindicatos, associações e fornecedores do sector comercial).
Seguindo esta perspectiva de diversidade, pode-se perceber que existe um
conjunto variado de organizações que se apresentam directa ou indirectamente
ligadas ao campo desportivo, contribuindo também para uma divergência
conceptual. O conceito de organização desportiva utilizado no contexto dos
estudos da Sociologia e da Gestão Desportiva tem sido empregue em diferentes
situações, englobando diferentes tipologias de organizações consoante a escala
de abrangência utilizada. Para esclarecer esta questão interessa iniciar com
alguns conceitos e características das organizações (desportivas).
144
2.6.2. AS ORGANIZAÇÕES PROMOTORAS DOS DESPORTOS DE
NATUREZA
Uma organização pode ser definida como uma unidade ou sistema social,
constituído por grupos e indivíduos, coordenada conscientemente, e que funciona
numa base relativamente contínua para alcançar um objectivo ou um conjunto de
objectivos (Greenberg & Baron, 1995; Robbins, 2009). Subjacente a esta definição
está a ideia da organização como um sistema coordenador de comportamentos. Daft
(2010) refere que a definição de organização é assente em 4 características: (1) uma
entidade social que é (2) orientada para objectivos, (3) desenhada como um sistema
de actividades deliberadamente estruturado e coordenado, e (4) ligada ao ambiente
externo.
Desta forma, as organizações desportivas podem ser definidas como um
conjunto coerente de recursos, humanos, materiais e financeiros, colectivamente e
intencionalmente organizados pelas suas partes interessadas, motivados pelos
próprios interesses, e que prevêem regras para alcançar um objectivo comum que é
principalmente a produção de acções, de bens e serviços ligados às práticas
desportivas (Barget & Vailleau, 2008).
Nesta perspectiva, Slack (1997) refere cinco elementos chave que definem
uma organização desportiva:
i) Entidade social: todas as organizações desportivas são compostas por
pessoas ou grupos de pessoas que interagem entre elas para executar as funções
essenciais à organização;
ii) Envolvimento na indústria do desporto: o que diferencia as organizações
desportivas de outras organizações (bancos, farmacêuticas, etc.) é a forma e o
envolvimento directo num ou mais aspectos da indústria desportiva, por exemplo,
através da produção de produtos/serviços relacionados com o desporto. Enquanto
agências como bancos, e companhias farmacêuticas, e concessionárias de carros
podem e estão envolvidos no desporto (principalmente através dos patrocínios), não
estão directamente envolvidos no fenómeno desportivo;
iii) Foco em objectivos directos: todas as organizações desportivas existem
para um propósito, seja para obterem lucro, encorajar para a prática de um
determinado desporto, ou a obtenção de medalhas nos Jogos Olímpicos. Os
objectivos de uma organização desportiva não são, geralmente, tão facilmente
obtidos por um indivíduo, como são por membros que trabalham juntos. As
145
organizações desportivas podem ter mais que um objectivo, e os membros
individuais poderão ter diferentes objectivos dos das organizações;
iv) Sistema de actividade conscientemente estruturada: a interacção de
pessoas ou grupos de pessoas nas organizações desportivas não ocorre ao acaso.
Existe uma estruturação consciente de sistemas de actividade como o marketing,
desenvolvimento de produtos/serviços, gestão financeira, e desenvolvimento de
recursos humanos. As maiores funções das organizações desportivas são dividir em
pequenas tarefas ou grupos de tarefas; os mecanismos de coordenação usados
para coordenar e controlar essas tarefas ajudam a assegurar que os objectivos da
organização desportiva sejam alcançados;
v) Fronteiras identificadas: as organizações desportivas precisam de ter uma
fronteira identificada que distinga membros de não membros. Os membros de uma
organização desportiva têm, geralmente, um acordo explícito ou implícito, através do
qual recebem dinheiro, status ou algum outro benefício para o seu envolvimento.
Para algumas organizações desportivas, particularmente as do sector voluntário ou
sem fins lucrativos, as fronteiras podem não ser facilmente identificáveis como são
as das organizações desportivas que tenham fins lucrativos ou as do sector público.
Contudo, todas as organizações desportivas devem ter uma fronteira que as ajude a
distinguir membros de não membros, embora essas fronteiras não sejam fixas e
possam mudar ao longo do tempo.
A este respeito, Bayle (2007) apresentou uma classificação das organizações
no campo da gestão do desporto, que engloba quatro níveis. As organizações do
campo desportivo não constituem um conjunto homogéneo de formas jurídicas,
apresentando estatutos diferentes - associações, empresas comerciais, clubes
profissionais. A montante e a jusante do sector desportivo surgem as chamadas
actividades económicas relacionadas com o desporto. Este conjunto de actividades
a que os economistas se referem como a indústria ou ramo desportivo são
heterogéneos: actividades de construção, indústria, distribuição, administração
central ou local do desporto, educação, comunicação, saúde, acção social, etc. As
organizações públicas (Ministérios e secretarias de Educação, Desporto, Juventude,
etc.; serviços desportivos das autarquias e das colectividades locais, etc.) e privadas
(comerciais) cujo trabalho está relacionado com o desporto (empresas fabricantes e
distribuidoras de artigos desportivos, empresas de consultoria desportiva, meios de
comunicação desportiva, patrocinadores, etc.) obedecem a uma lógica de acção
146
(intenção, sistemas de legitimidade) diferente do movimento desportivo, que estão
presentes no sector do desporto. As organizações do movimento desportivo (nível 1)
pertencem a um sistema comum com uma lógica de estruturação histórica, social e
política própria, segundo um esquema proteccionista e regulador das federações
desportivas nacionais e confederações desportivas internacionais. O nível 2 é
composto por outras organizações do sector do desporto: pela maior parte das
empresas comerciais do sector desportivo – lazer desportivo e desporto turístico,
eventos desportivos e de lazer, etc. O nível 3 engloba as organizações relacionadas
com o desporto; já o nível 4, mais periférico, reúne as organizações que não têm
ligação com o desporto pelas suas actividades próprias, mas que o usam como
apoio à gestão, por exemplo, na sua comunicação de negócios, estratégia e
marketing (patrocínios e mecenato) e na sua gestão de recursos humanos
(seminários da empresa, coaching a partir do suporte de experiências desportivas)
e/ou pelas suas actividades sociais (desporto na empresa). Seguindo esta
classificação, apenas as organizações incluídas nos níveis 1 e 2 são organizações
pertencentes ao campo do desporto.
Tabela 7. Classificação das tipologias das organizações do campo desportivo.
Organizações centrais do sector desportivo (Organizações do movimento
Nível 1 desportivo)
Federações desportivas e associações filiadas às federações
Ligas e Clubes desportivos profissionais
Outras organizações do sector desportivo
Empresas de serviço desportivos (por vezes aprovadas por uma federação)
Nível 2
Organizadores de eventos desportivos (por vezes inscritos nos calendários
federativos)
Associações desportivas não afiliado a qualquer federação desportiva
Organizações relacionadas com o desporto
Ministérios e secretarias de estado (Educação, Desporto, Juventude, etc.)
Nível 3 Serviços desportivos das autarquias e das colectividades locais
Empresas fabricantes e distribuidoras de artigos desportivos, empresas de consultoria
desportiva, mass média desportiva, agências de comunicação especializadas em
desporto, etc.
Organizações (sem relação com o desporto) que utilizam o desporto como
suporte de gestão
Nível 4 Grandes empresas em particular e de forma mais ampla todas as organizações
publicas ou privadas, que utilizam o desporto como suporte de gestão
(patrocínio e mecenato, desporto na empresas, etc.)
147
De acordo com Bayle (2007), alguns autores consideram que apenas as
organizações exclusivas do movimento desportivo se inserem no conceito de
organização desportiva; por vezes é utilizada uma visão mais ampla do conceito
incluindo-se todas as organizações de serviços desportivos; ou ainda, de uma forma
mais genérica, são incluídas todas e quaisquer organizações que estejam, directa ou
indirectamente, ligadas à actividade física e ao desporto: associação desportiva,
fabricante de artigos desportivos, serviço de desportos municipais, etc. A diversidade
de organizações estudadas em termos de tamanho, estatuto legal (público ou
privado; empresa ou associação), e finalidade (comercial/não-comercial) levanta a
questão das especificidades (ou não) dos princípios e práticas de gestão que devem
ser aplicados (Bayle, 2007).
A actividade desportiva é uma actividade complexa, que exige uma
organização com tarefas ou funções especializadas, com características diversas, e
que assume uma feição sociocultural. O desporto, como qualquer outro produto,
para ser criado (produzido) exige uma actividade humana ou, pelo menos, a sua
orientação intencional. Neste sentido, o produto desportivo (como o caso dos
Desportos de Natureza) só se obtém caso a respectiva actividade produtiva seja
realizada. Qualquer actividade produtiva, para ser efectivamente exercida, supõe a
existência de produtores.
Os Estados actuais são interventores nas diversas relações socioculturais e
económicas, organizando normas jurídicas, ordenadas e vinculadas pela via
legislativa e administrativa. A actividade desportiva (Desportos de Natureza) não
foge a esta regra. O Estado tem a função de promover, dirigir, e organizar a
actividade desportiva, concedendo em exclusivo essa função (ou quase sempre) às
federações desportivas de utilidade pública desportiva. Em Portugal, as federações
desportivas são, nos termos da lei - Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto
(Lei n.º 5/2007 de 16 de Janeiro), pessoas colectivas constituídas sob a forma de
associação sem fins lucrativos que, englobando clubes ou sociedades desportivas,
associações de âmbito territorial, ligas profissionais se as houver, praticantes,
técnicos, juízes e árbitros, e demais entidades que promovam, pratiquem ou
contribuam para o desenvolvimento da respectiva modalidade, e que obtenham o
estatuto de pessoa colectiva de utilidade pública desportiva. Às federações
desportivas compete promover, regulamentar e dirigir, a nível nacional, a prática de
uma modalidade desportiva ou de um conjunto de modalidades afins ou associadas.
148
A promoção geral, direcção e organização da actividade desportiva é pois, e por
isso, uma função pública, no sentido de promoção da actividade em geral e não no
sentido de promoção em nome próprio. Neste sentido, os poderes que exercem são
poderes públicos, concedidos pelo Estado, e não atuam, por isso, para satisfação de
interesses próprios mas sim pelos interesses gerais ou públicos.
Mas existem outros sujeitos da actividade desportiva que são os sujeitos que
a promovem ou exercem, os praticantes e outros sujeitos, chamados de agentes
desportivos. Os agentes desportivos directos são aqueles que, através de
organizações desportivas, asseguram a prática organizada do desporto. São assim
agentes desportivos os dirigentes, os treinadores, médicos, paramédicos, etc.
Promotor, enquanto substantivo, significa fomentador, impulsionador;
enquanto adjectivo é qualidade daquele que promove. O promotor desportivo é,
assim, o sujeito de direito que exerce a actividade desportiva em nome próprio: a
associação (clube), a sociedade desportiva, ou a empresa titulada por uma
sociedade comercial ou pessoa singular que, nos termos da lei e regulamentos
aplicáveis, pode dedicar-se a essa actividade. Nesta acepção não entram as
federações desportivas, porque, em regra e salvo raras excepções, não exercem
essa actividade em nome próprio, pois como atrás referido, a sua função
promocional é geral e não própria.
Os Desportos de Natureza são um caso mais complexo da promoção
desportiva. Estas actividades são, como tal, enquadráveis no sector desportivo e,
em simultâneo, quando desenvolvidas em áreas protegidas, enquadráveis no sector
do ambiente, e ainda, enquanto actividades associadas ao lazer enquadráveis no
sector do turismo. Temos assim uma complexa rede conflituante e muitas das vezes
não complementar, com uma tripla perspectiva: ambiental, desportiva e turística
(Cunha L. M., 2007). Assim, segundo os termos da lei (portuguesa), as OPDN estão
incluídas no âmbito do desporto federado, do desporto não federado, e do turismo,
incluindo os clubes e as sociedades desportivas, e, ainda, outras pessoas colectivas,
nomeadamente sociedades comerciais, e até pessoas singulares (e.g. EAT). O
promotor dos Desportos de Natureza será, assim, sempre uma pessoa de direito
privado, cujo fim será sempre egoístico, podendo ser lucrativo quando o estatuto
pessoal da pessoa e a lei não o proíba.
No sector do desporto federado, os Desportos de Natureza são tutelados
pelas federações desportivas que organizam, de acordo com a Lei n.º 5/2007, de 16
149
de Janeiro o nº1 do artigo 16.º (direitos desportivos exclusivos), os quadros
competitivos da(s) respectiva(s) modalidade(s) com fins de atribuição de títulos
desportivos, de nível nacional ou regional. Os clubes desportivos são, de acordo,
artigo 26.º (clubes desportivos) da mesma lei, “pessoas colectivas de direito privado,
constituídas sob a forma de associação sem fins lucrativos, que tenham como
escopo o fomento e a prática directa de modalidades desportivas”. Neste sentido,
são os clubes desportivos que participam nas provas organizadas pelas federações
desportivas e que enquadram os seus atletas/praticantes, nas respectivas
competições das modalidades dos Desportos de Natureza.
De acordo com o Decreto-Lei n.º 272/97 de 8 de Outubro, os clubes de
praticantes são entidades de direito privado, sem fins lucrativos, constituídos nos
termos dos artigos 195.° e seguintes do Código Civil (Decreto-Lei n.º 47 344, de 25
de Novembro de 1966) como associações sem personalidade jurídica. Os clubes de
praticantes são enquadrados no sector do desporto não federado, mas podem
inscrever-se nas correspondentes organizações nacionais, para efeitos de
participação em competições desportivas, salvo se estas forem titulares do estatuto
de utilidade pública desportiva.
O Decreto-Lei nº 108/2009, de 15 de Maio estabelece as condições de acesso
e de exercício da actividade das EAT e dos Operadores Marítimo-Turísticos. Neste
decreto-lei, a empresa compreende o empresário em nome individual, o
estabelecimento individual de responsabilidade limitada, a cooperativa e a sociedade
comercial sob qualquer um dos seus tipos. Ainda de acordo com o nº 1 do Artigo 3.º
(actividades próprias e acessórias das empresas de animação turística) do Decreto-
Lei n.º 108/2009, de 15 de Maio, “são consideradas actividades próprias das
empresas de animação turística, a organização e a venda de actividades
recreativas, desportivas ou culturais, em meio natural ou em instalações fixas
destinadas ao efeito, de carácter lúdico e com interesse turístico para a região em
que se desenvolvam”. O artigo 5.º (exclusividade e limites para o exercício da
actividade) do mesmo decreto-lei também prevê que as actividades incluídas no
segmento de animação turística possam ser realizadas pelas agências de viagens e
empresas proprietárias ou exploradoras de empreendimentos turísticos, e por
organizações associativas (associações, fundações, misericórdias, mutualidades,
instituições privadas de solidariedade social, institutos públicos, clubes e
associações desportivas, associações ambientalistas, associações juvenis e
150
entidades análogas), desde que prevejam o desenvolvimento dessas actividades no
seu objecto social, que não tenham fins lucrativos, e desenvolvam estas actividades
única e exclusivamente aos seus membros ou associados e não ao público em
geral.
As empresas que operam no sector dos Desportos de Natureza podem ser
constituídas pelas diferentes formas jurídicas previstos no Código das Sociedades
Comerciais (Decreto-Lei n.º 201/86, de 2 de Setembro) e outra legislação específica
(Decreto-Lei n.º 248/86, de 25 de Agosto; Decreto-Lei n.º 257/96, de 31 de
Dezembro; Lei n.º 51/96 de 15 de Setembro). De acordo com a legislação em vigor
em Portugal, os negócios desenvolvidos por uma pessoa poderão ter a forma
jurídica de Empresário em Nome Individual, Estabelecimento Individual de
Responsabilidade Limitada ou Sociedade Unipessoal por Quotas, enquanto
os desenvolvidos por um conjunto de pessoas podem assumir-se como Sociedade
em Nome Colectivo, Sociedade por Quotas, Sociedade Anónima, Sociedade em
Comandita ou Cooperativa:
- As Empresa Individuais ou Empresários em Nome Individual são empresas
tituladas apenas por um só indivíduo ou uma pessoa singular, que afecta bens
próprios à exploração da sua actividade económica;
- Os Estabelecimentos Individuais de Responsabilidade Limitada têm
subjacente a constituição de um património autónomo ou de afectação especial ao
estabelecimento através do qual uma pessoa singular explora a sua empresa ou
actividade, mas ao qual não é reconhecida personalidade jurídica;
- As Sociedades Unipessoais por Quotas são constituídas por uma pessoa
singular ou colectiva, que é o titular da totalidade do capital social. Neste tipo de
sociedade a responsabilidade do sócio encontra-se limitada ao montante do capital
social (mínimo 5000 euros).
- As Sociedades em Nome Colectivo são sociedade de responsabilidade
ilimitada em que os sócios respondem de forma ilimitada e subsidiária perante a
sociedade e solidariamente entre si, perante os credores sociais;
- As Sociedades por Quotas são sociedade de responsabilidade limitada que
tem um capital social não inferior a 5 000 euros, sendo dividido em quotas cujo valor
nominal não pode ser inferior a 100 euros;
- As Sociedades Anónimas são sociedade de responsabilidade limitada,
subscrita por vários sócios (mínimo cinco), e cuja responsabilidade de cada sócio é
151
limitada ao valor das acções que subscreveu;
- As Sociedades em Comandita são sociedades de responsabilidade mista
que reúne sócios de responsabilidade limitada (comanditários), que contribuem com
capital, e sócios de responsabilidade ilimitada (comanditados), que contribuem com
bens ou serviços, e que assumem a gestão e a direcção efectiva da sociedade. Este
tipo de sociedade pode ser simples quando não há representação do capital por
acções; ou pode ser constituída por acções, onde só as participações dos sócios
comanditários são representadas por acções;
- As cooperativas são pessoas colectivas autónomas, de livre constituição, de
capital e composição variáveis. Com obediência aos princípios cooperativos visam,
sem fins lucrativos, a satisfação das necessidades e aspirações económicas, sociais
ou culturais dos seus membros. São regidas democraticamente e estão
permanentemente abertas à entrada de novos associados.
A indústria do lazer e da recreação constitui, de facto, uma parte importante
de muitos dos países industrializados do mundo (Byers & Slack, 2001; Martin &
Palakshappa, 2005). Desta análise salienta-se que 54 das 500 empresas que estão
no top mundial são organizações relacionadas com a indústria do lazer (Byers &
Slack, 2001). Neste sentido, a indústria da recreação outdoor é uma componente da
indústria mais ampla de lazer, mas que desempenha um papel significativo nas
economias dos países desenvolvidos (Martin & Palakshappa, 2005). Neste caso,
realça-se o facto de que a maioria das empresas que operam no sector do turismo
desportivo e dos Desportos de Natureza são pequenas ou microempresas (Betrán &
Betrán, 1999; Bouhaouala, 1999; Costa R. A., 2005; Martin & Palakshappa, 2005).
Nesta perspectiva, Martin e Palakshappa (2005) referem que estas pequenas
empresas desempenham um papel muito importante tanto a nível económico como
social. Estas empresas tornaram-se num dos grandes focos da indústria
multimilionária do turismo, pois estas têm proporcionado uma importante fonte de
receita externa e, em simultâneo, têm permitido uma forma legítima de realização
das aspirações de muitos indivíduos, através da geração do próprio emprego. Estas
empresas são, também, uma importante fonte de mudança e de inovação, através
da criação de novas formas de rendimento e de novas receitas fiscais.
A definição de pequena empresa difere de país para país. Na Nova Zelândia a
definição de pequena empresa refere-se a uma empresa que emprega menos de
cinco pessoas, no Reino Unido emprega, geralmente, até 250 pessoas, enquanto
152
nos EUA emprega menos de 200 pessoas (Martin & Palakshappa, 2005). É
importante a definição de pequena, média e microempresa porque o desafio que
enfrenta uma empresa que opera com 200 funcionários será diferente para aquelas
que empregam menos de 10 funcionários (Martin & Palakshappa, 2005).
De acordo com o Artigo 2.º (definição de PME) do Decreto-Lei n.º 372/2007
de 6 de Novembro, a definição de Pequena e Média Empresa (PME) corresponde
aos critérios previstos na Recomendação da Comissão Europeia, de 6 de Maio
(Recomendação n.º 2003/361/CE), que classifica as empresas da seguinte forma:
a) A PME é uma empresa autónoma, com menos de 250 trabalhadores e um
volume anual de negócio igual ou inferior a 50 milhões de euros, ou um balanço total
anual que não excede 43 milhões de euros;
b) A microempresa corresponde a uma empresa autónoma, com um volume
de negócio ou balanço total menor ou igual a 2 milhões de euros e menos de 10
trabalhadores;
c) A pequena empresa é uma empresa autónoma, com menos de 50
trabalhadores, e um volume anual de negócios ou balanço total anual igual ou
inferior a 10 milhões de Euros;
d) As médias empresas são todas as PME que não são micro ou pequenas
empresas.
Em Portugal podem-se considerar OPDN: os clubes desportivos devidamente
tutelados pelas federações que enquadram as modalidades dos Desportos de
Natureza; os clubes de praticantes das modalidades dos Desportos de Natureza;
outras associações (ambientalistas, recreativas, etc.) que prevejam no seu objecto
social a realização destas actividades; e as EAT registadas no RNAAT. Estas
organizações pertencem aos níveis 1 e 2 definidos por Bayle (2007), excluindo as
federações desportivas, tal como o argumentado.
153
As organizações desportivas podem ser analisadas sob diferentes
perspectivas, e em diferentes níveis - do macro ao micro (Slack, 1997). De forma
geral esta análise e as respectivas distinções são desenvolvidas a partir da teoria
organizacional e do comportamento organizacional. A teoria organizacional (macro
perspectiva) tem o seu foco na organização (ou nas suas unidades primárias) como
unidade de análise, onde se procura analisar a habilidade que as organizações têm
para alcançar os seus objectivos de forma efectiva; assim, é considerada a
estrutura, mas também a forma como a organização está situada num contexto
sociopolítico e económico mais amplo. Os teóricos organizacionais estudam,
usualmente, tópicos relacionados com a estrutura e design das organizações, o
impacto dos factores de contexto como a estratégia, o tamanho, e a tecnologia na
estrutura do design, enquanto outros analisam questões relacionadas com a gestão
dos processos, a tomada de decisão e a mudança. Por outro lado, o comportamento
organizacional (micro perspectiva) foca-se nos indivíduos ou pequenos grupos
dentro da organização, e nas características do ambiente em que trabalham. A
investigação nesta perspectiva está mais relacionada com as questões individuais
como a satisfação com o trabalho, estilo de liderança, comunicação, dinâmica de
grupo, e motivação. Neste sentido, a teoria organizacional deriva fortemente da
Sociologia, enquanto o comportamento organizacional deriva, predominantemente,
da Psicologia.
Desde os anos 1990s, que uma série de estudos afirma um campo de
associação da gestão com as organizações desportivas, através de um corpus
original de conhecimento que advém de diversas disciplinas como a História, a
Sociologia, a Economia, a Psicologia e outras disciplinas científicas, cujas
abordagens têm produzido conhecimento original sobre as organizações desportivas
no campo da ciência do desporto (Bayle, 2007). A gestão organizacional pode ser
definida como a gestão global da organização através de um conjunto de políticas
para a produção de bens ou serviços (comunicação, marketing, recursos humanos,
política de financiamento, controlo orçamental), que são coerentes entre elas e que
convergem na direcção do projecto estratégico e no resultado da cultura
organizacional (Bayle, 2007).
Wolfe et al (2005), através de uma revisão da literatura, referem que uma
série de fenómenos de interesse para os estudos da gestão e das organizações
foram investigados dentro do contexto do desporto, como por exemplo, as relações
154
de compensação-desempenho, compromisso de sucessão, sucessão de executivo,
e vantagem competitiva sustentável. Os trabalhos científicos desenvolvidos na área
das organizações desportivas e na gestão desportiva podem ser classificados em
cinco categorias (Bayle, 2007):
- Disciplinar: Estratégia, Marketing e Comunicações, Gestão de Recursos
Humanos, Finanças/Controlo, etc.;
- (Sub)sectorial: desporto profissional, associações desportivas, desporto
olímpico, indústria e distribuição de artigos desportivos, desportos e lazer na
natureza, colectividades locais;
- Temático: inovações tecnológicas, desempenho, empreendedorismo, ética
desportiva, etc.;
- Categorias de desportos: uma disciplina desportiva, uma família de
disciplinas (desportos de raquete, combate, etc. ...), desportos colectivos/desportos
individuais, desportos olímpicos/não-olímpicos;
- Nível de escala do estudo: local, intermunicipal, departamental, regional,
nacional, continental, internacional.
Os estudos sobre as OPDN, e sobre a respectiva oferta, têm vindo a ser
objecto de estudo em diversos países da Europa, nas últimas duas décadas (e.g.
Betrán & Betrán, 1999; Bouhaouala, 1999; Costa R. A., 2005; Cunha S. C., 2006;
Mota, 2006; Moutinho, 2008; Paget, 2007, Resende, 2006; Viñuelas, Betrán &
Plantalamor, 1995). No entanto, deve-se salientar que a generalidade dos estudos é
sustentada pela análise do mercado das empresas do turismo desportivo (na
natureza).
Em Espanha realça-se o trabalho realizado por Viñuelas, Betrán e
Plantalamor (1995) que apresenta uma análise da oferta empresarial das actividades
desportivas na natureza na Catalunha, e que inclui também a análise da procura e
da difusão social destas actividades. Estes autores aplicaram um questionário, via
postal, às 155 empresas deste sector na Catalunha, obtendo um total de 76
respostas (49%). As questões faziam referência à estrutura e às características das
empresas, às perspectivas de futuro do sector ou dos serviços, à tipologia dos seus
participantes, às suas motivações, etc. Deste estudo salientam-se os seguintes
resultados: a) existem dois tipos predominantes de empresas: as que apresentam
entre um a três trabalhadores (representam 46% do total de empresas), e as que
apresentam entre dez e doze trabalhadores (representam 12% das empresas); b) as
155
práticas mais oferecidas pelas empresas são o BTT (38,7%), os passeios e as
excursões a cavalo (34,2%), e o canyoning (27,7%); c) 51% das empresas
desenvolvem os seus serviços em forma de “combinação de actividades”, e as
restantes 49% oferecem actividades separadas; d) o número de participantes
predominantes por empresa (40,8%) situa-se entre os 500 e os 1000, enquanto
apenas 12% das empresas agrupam menos de 100 clientes por ano; e) o sexo dos
participantes é predominantemente masculino (62%); f) o intervalo de idade onde se
encontra o maior número de participantes é entre os 25-34 anos (25%), salientando-
se que o volume de utentes cresce progressivamente com a idade até aos 35 anos e
que depois desta idade, esta relação é inversa; g) os praticantes provêm
principalmente de Barcelona (53%), os demais vêm do resto da Catalunha (26,4%),
e em muito menor número do resto de Espanha (11,8%), enquanto 4,3% vêm de
França, e apenas 4,4% de outras origens;
Outro trabalho sob a mesma óptica, desenvolvido por Betrán e Betrán (1999),
igualmente na Catalunha, teve como objectivo realizar uma radiografia do sector dos
empresários, considerado como um eixo fundamental dentro do desenvolvimento
destas actividades. Este estudo pretendeu identificar as estratégias comerciais, as
políticas empresariais, os dados estatísticos que as empresas possuem sobre a
oferta e a procura, as diversas problemáticas das empresas, as opiniões que
apresentam sobre o enquadramento legislativo e normativo, assim como com as
perspectivas de futuro do sector. Os resultados deste estudo, repartidos por cinco
blocos, apontam para o seguinte:
- Perfil do praticante: homem, menor de 25 anos, de Barcelona ou das zonas
urbanas mais povoadas; apresentam um certo grau de experiência na prática das
actividades, procurando altos níveis de prazer e diversão;
- Perfil económico da empresa: pequenas empresas repartidas por toda a
zona geográfica da Catalunha, sediadas nas zonas urbanas e nos lugares de
prática; pertencem ao sector dos serviços com um quadro comercial importante de
merchandising; estabelecem uma publicidade simples exposta basicamente em
publicações especializadas e trípticos; antevêem um bom futuro baseado no
aumento progressivo da procura destas catividades, sem destacar significativamente
nenhum dos subsectores de actuação (terra, água e ar).
- Principais práticas das actividades desportivas na natureza: as actividades
mais oferecidas e procuradas estão situadas num grupo comum; rafting, BTT,
156
excursões a cavalo, pedestrianismo, canyoning, salto de pontes (ponting), parapente
e asa-delta;
- Actividade mais emblemática: o rafting é a actividade principal e mais
conhecida do conjunto dos Desportos de Natureza; é a mais oferecida e mais
procurada; a que gera mais satisfação entre os praticantes; a mais popular entre os
praticantes, assim como a que cria mais expectativas de prática; é também a que
mais benefícios económicos trás aos empresários.
- Regulação das actividades desportivas de natureza: existe pouca
preocupação empresarial pelo impacto ambiental; os empresários solicitam a criação
de normativas oficiais pertinentes para a regulação destas actividades; o nível de
acidentes é baixo e de pouca importância, segundo os empresários, motivados
fundamentalmente pela imprudência dos utentes e por imprevistos da natureza.
Em França salienta-se o estudo de Bouhaouala (1999) realizado com as
empresas de turismo desportivo na zona de Vercors. Partindo da análise e
identificação da micro-mentalidade específica e compartilhada pelo grupo restrito de
dirigentes de pequenas e microempresas, reconstruída a partir da combinação das
suas concepções e objectivos (metas), e da identificação das formas de gestão e de
orientação estratégica de cada grupo, Bouhaouala (1999) construiu uma tipologia de
dirigentes e de pequenas e microempresas que operam no território analisado.
A micro-mentalidade é um conceito sintético que reagrupa um conjunto não
sistematicamente coerente de valores, de concepções (de economia, da empresa,
do lucro, etc.), de motivos e de objectivos, que contribuem para a criação de uma
visão subjectiva do mundo do empreendedor (Bouhaouala, 2008). A procura pela
independência (Collins & Randolph, 1991), a auto-realização (Marchesnay, 1998), a
oportunidade de viver a sua paixão (Bouhaouala & Chifflet, 2001), e as relações com
a terra (Bouhaouala, 2000) são, em suma, as características sociológicas dos
dirigentes que constituem os factores explicativos de peso, e que são definidas
neste estudo pelo conceito de micro-mentalidades (Bouhaouala, 2008).
A análise dos resultados coloca em evidência quatro tipos de
empreendedores (Bouhaouala, 2001): i) independente entusiasta; ii) empreendedor
independente; iii) gestor administrativo; iv) conservador patrimonial. Cada uma
destas tipologias é caracterizada por um modo de gestão, uma escolha
organizacional e uma orientação estratégica específica. Noutros termos, aos tipos de
157
dirigentes corresponde as lógicas de acção e os tipos de empresas, que a seguir se
apresentam:
i) A micro-firma do independente entusiasta: a) os Desportos de Natureza
são uma paixão para este dirigente; b) o território é um lugar de prática desportiva e
de qualidade de vida superior; c) o seu objectivo é viver da sua paixão (desportiva);
d) o dirigente é um trabalhador independente; e) o número de colaboradores é
mínimo (zero a um colaborador); f) a actividade principal é um serviço desportivo
único; g) o dirigente tem um papel orgânico na empresa; h) existe uma implicação da
família no funcionamento da empresa; i) tomada de decisão centrada no dirigente,
tomando em conta a opinião dos sócios (amigos); j) a estratégia da empresa está
centrada sobre a orientação pelo desporto, e o objectivo económico traduz-se pela
manutenção da actividade profissional; k) a sua lógica de acção é o hedonismo;
ii) A agência outdoor do empreendedor independente: a) os desportos de
natureza são um produto comercializável, e uma fonte de criação; b) o território é um
lugar de criação com potencialidades comerciais elevadas; c) o seu objectivo é auto-
realizar-se; d) a empresa é uma organização empresarial; e) o número de
colaboradores compreende 3 a 14 colaboradores; f) as actividades principais são os
serviços desportivos múltiplos e a organização de eventos; g) o dirigente tem um
papel de inovação do serviço, pesquisa de mercado e acompanhamento do trabalho
no terreno; h) existe uma implicação da família no capital da empresa; i) tomada de
decisão centrada no dirigente; j) a estratégia da empresa está centrada sobre o
produto e orientada pelo desejo de empreender (criar e inovar), enquanto o objectivo
económico é o sucesso das actividades, a rentabilidade e independência do
processo; k) segue a lógica de acção do empreendedor individual;
iii) A organização do gestor administrativo: a) os Desportos de Natureza são
um produto de apelo; b) o território é um trunfo comercial; c) o seu objectivo é
alcançar os objectivos socioeconómicos da organização; d) a empresa é um centro
de férias; e) o número de colaboradores compreende 3 a 5 colaboradores; f) a
actividade principal é o alojamento e o acolhimento no centro de férias; g) o dirigente
tem um papel na gestão e organização dos recursos internos da empresa, e a
relação com o ambiente socioeconómico local; h) apresenta uma implicação nos
projectos locais; i) a tomada de decisão é hierárquica (conselho de administração), e
a decisão do dirigente é limitada à gestão dos problemas correntes; j) a estratégia da
empresa está centrada sobre o mercado, e está orientada pelo projecto social e/ou
158
económico da organização, enquanto o objectivo económico visa o crescimento e o
desenvolvimento da organização (volume de negócios, estimulo da economia e dos
empregos locais; k) segue a lógica de acção socio-gestionária;
iv) A empresa familiar do conservador patrimonial: a) os Desportos de
Natureza são um produto secundário; b) o território é um prolongamento do
património familiar; c) o seu objectivo é a empresa no círculo familiar; d) a empresa é
um centro de alojamento; e) o número de colaboradores compreende 1 a 25
colaboradores; f) a actividade principal é a hotelaria e o acolhimento especializado
com actividades desportivas; g) o dirigente tem um papel de gestão e produção; h)
existe uma implicação da família no funcionamento e no capital da empresa; i)
tomada de decisão pelo chefe da família; j) a estratégia da empresa é orientada pela
preocupação com a conservação do património familiar, fundado no saber fazer
profissional (tradicional) e sobre a situação de rentabilidade; o objectivo económico
resume-se à procura de benefícios a curto e médio prazo, sem correr riscos
financeiros, sustentabilidade e independência; k) segue a lógica de acção do
conservador patrimonial.
Paget, Mounet e Guilhon (2007) desenvolveram um estudo para caracterizar
as pequenas empresas dos serviços desportivos e turísticos, identificando também
as estratégias dos seus gestores. Para o efeito aplicaram um inquérito por
questionário às 210 empresas de Rhône-Alpes que propunham serviços desportivos,
tendo obtido 71 respostas. O questionário era constituído por 44 itens, que
procuravam dar resposta às seguintes dimensões: trabalho, produtos, clientes,
formas de gestão, redes, perfil do dirigente, e perfil da empresa. Os resultados
mostram que as pequenas empresas de desporto e turismo apresentam um perfil
idêntico às pequenas empresas descritas pelas ciências de gestão.
Os resultados evidenciam o seguinte (Paget, Mounet, & Guilhon, 2007): a) a
grande parte das (83%) empresas foi criada como estabelecimento desportivo
produtor de actividades desportivas; b) uma boa parte (54%) dessas empresas tem
uma actividade ao longo de todo o ano; c) a clientela de base da maior parte dessas
empresas é uma clientela de lazer (93%); d) a gestão é, na maioria das empresas,
centralizada (o dirigente toma todas as decisões não rotineiras). Estas empresas,
apesar de apresentarem uma diferenciação de tarefas têm uma baixa
especialização, porque apenas um quarto tem uma descrição por escrito das
funções na empresa, e o líder (96%) e empregados (79%) permanecem versáteis; e)
159
a rede de parceiros é mais ou menos formalizada, apresentando maioritariamente
acordos escritos (72%), com uma diversidade de parceiros; f) os dirigentes das
empresas são maioritariamente do território em análise (66%), e criaram as
empresas por motivações associadas ao seu desenvolvimento pessoal (68%); os
objectivos dos dirigentes assentam na prioridade de sustentabilidade da empresa
(53%); g) 38% das empresas são constituídas como sociedades, 27% como
empresas individuais, e 35% como associações (sindicatos locais, etc.); 40% do total
das empresas têm mais de 10 anos.
Deste contexto surgem duas tipologias de empresas em função, por um lado
do trabalho, e por outro do desenvolvimento da sua estrutura (Paget, Mounet, &
Guilhon, 2007). A primeira tipologia (em função do trabalho das empresas) é
constituída por empresas principalmente desportivas (serviços desportivos e
produção desportiva) que apresentam maioritariamente uma clientela de lazer, e um
conjunto de empresas desportivas e turísticas (serviços desportivos e pacotes de
serviços, e produção desportiva pacotes turísticos e de negócios) que apresenta
uma clientela de lazer e de negócios. A segunda tipologia (em função do
desenvolvimento da sua estrutura) evidencia, por um lado, um grupo de empresas
pouco desenvolvidas (empresas individuais essencialmente, sem empregados
permanentes, e com actividades sazonais), e um outro grupo constituído por
empresas mais desenvolvidas (sociedades, com empregados permanentes, e com
actividade durante todo o ano). Estes resultados apontam para a inexistência de
uma correlação significativa entre, por um lado, as duas tipologias apresentadas e,
por outro, entre estas e as motivações para criar a empresa ou os propósitos do
dirigente. Isto significa que as motivações e os objectivos não são significativos em
qualquer um dos grupos (ou tipos). O cruzamento das duas tipologias mostra as
relações entre o trabalho e o desenvolvimento da estrutura da empresa. As
empresas desportivas e turísticas estão em atracção com as empresas com as
estruturas mais desenvolvidas, e em repulsa com as estruturas empresariais pouco
desenvolvidas. As modalidades das empresas principalmente desenvolvidas e as
empresas pouco desenvolvidas também se opõem. A análise sublinha duas
estratégias diferentes (sobrevivência ou crescimento) que são implementadas pelos
gestores dessas pequenas empresas, a fim de satisfazer os seus objectivos de
autodesenvolvimento e de perpetuação. Por um lado, uma estratégia de
sobrevivência, ou pelo menos prioridade de crescimento, adoptada essencialmente
160
pelas empresas principalmente desportivas, pouco estruturadas, sem empregados
fixos, e com um funcionamento sazonal associado às actividades e, por outro, a
adopção de uma estratégia de crescimento pelas empresas desportivas e turísticas,
maioritariamente constituídas como sociedades, com uma estrutura maior, que
empregam pessoal a tempo integral, e cuja actividade se estende ao ano inteiro.
Com base no trabalho anterior, Paget e Mounet (2008) seleccionaram e
analisaram o crescimento de uma empresa de turismo desportivo na natureza, a
partir da teoria de Churchill e Lewis (1983). O modelo teórico de Churchill e Lewis
(1983) é uma metáfora baseada na metamorfose biológica do ciclo de vida, aplicada
ao ciclo de vida dos produtos de uma empresa, mostrando que as empresas passam
por cinco etapas de desenvolvimento. Cada uma dessas etapas é caracterizada por
um determinado tamanho, e por cinco factores de gestão que são os modos de
gestão, a estrutura organizacional, a importância dos sistemas formais, os principais
objectivos estratégicos e a participação do dirigente-proprietário. O primeiro estádio
(ou etapa) de existência corresponde a uma estrutura simples onde o empreendedor
faz tudo. É seguida por uma etapa de sobrevivência (ou manutenção) que é
conseguida por empresas que tenham demonstrado produtividade na fase anterior.
Estas empresas podem crescer e passar para o estádio seguinte, manterem-se
nesta fase, serem vendidas se forem viáveis financeiramente, ou mesmo
desaparecer. O terceiro estádio corresponde à fase de sucesso, que oferece duas
hipóteses ao dirigente: estabilizar a empresa e permanecer no negócio, ou continuar
a explorar a empresa e perseguir o seu desenvolvimento. O estádio seguinte
(quarto) é o de desenvolvimento, que corresponde a uma estrutura
departamentalizada cujo objectivo é o crescimento. Diversas questões são possíveis
nesta fase: o empresário aproveita o êxito financeiro e de gestão que está associado
ao crescimento da empresa e esta torna-se numa grande empresa; no caso de
falhar nessa tarefa o empresário poderá decidir vender a empresa ou mantê-la num
estado de equilíbrio, a empresa poderá também ser forçada a voltar ao estádio
anterior, e no caso de os problemas serem muito significativos poderá ter que voltar
ao estádio de sobrevivência (segundo estádio), ou poderá até mesmo desaparecer.
Por fim, o quinto estádio corresponde ao estado de maturidade dos recursos
(exploração máxima dos recursos), apresentando uma gestão descentralizada e
com sistemas formais muito desenvolvidos.
161
Paget e Mounet (2008), depois de analisarem a empresa alvo de estudo,
referem que o crescimento aparece como o resultado de diversos indicadores
quantitativos e qualitativos que mostram um aumento da sua produção e dos seus
recursos humanos, financeiros e materiais, assim como um começo de estruturação
das suas funções de gestão. Argumentam que esse crescimento foi feito por uma
lenta maturação da sociedade ao longo de quatro fases, que correspondem às
diferentes mudanças veiculadas na empresa. A empresa analisada passou pelas
primeiras quatro fases de desenvolvimento descritas por Churchill e Lewis (1983),
não tendo atingido ainda o quinto estádio: fase de criação (fase 1); fase de arranque
(fase 2) onde fez a prova da sua produtividade; de seguida passou pela fase de
sucesso (fase 3) no qual o dirigente decidiu continuar o seu desenvolvimento e
avançar para uma estrutura divisionária. A empresa está actualmente (à data do
estudo) numa fase de desenvolvimento (fase 4) com o objectivo de crescimento.
Em Portugal foram desenvolvidas alguns estudos, em especial sobre as EAT.
R. A. Costa (2005) realizou um estudo com o objectivo de caracterizar a realidade
das PME que operam no sector do turismo, em especial as EAT, e avaliar o potencial
de crescimento e desenvolvimento dessas pequenas e microempresas. Para o efeito
foi aplicado um inquérito por questionário a todas (241) as EAT licenciadas na
Direcção Geral do Turismo, à data da realização do estudo, obtendo uma taxa de
resposta de 44,4% (107). O questionário foi constituído pelas seguintes secções: i)
caracterização geral das EAT; ii) caracterização do negócio e das principais
estratégias empresariais; iii) frequência, formas e razões de contacto com outras
entidades; iv) rede de contactos entre as organizações; v) financiamento; vi)
perspectiva de futuro do sector.
Os dados deste estudo evidenciam as seguintes conclusões (Costa R. A.,
2005): i) as EAT são na sua grande maioria micro empresas (90%); a maior parte
tem um período de actividade inferior a 4 anos, e para cerca de 30% dos
empresários estas empresas representam uma actividade em part-time; ii) as
empresas estão direccionadas, maioritariamente, para a prestação de serviços ao
consumidor final, embora as agências de viagens e os operadores turísticos sejam
parceiros importantes no negócio; o principal alvo das EAT é o mercado nacional,
embora para 30% das empresas o mercado internacional seja o mais importante; os
principais constrangimentos apontados por estas empresas são a falta de apoio das
entidades do turismo, o acesso a financiamento, e a regulamentação e legislação
162
(in)existentes; estas empresas têm como principais objectivos, crescer, consolidar o
seu negócio, inovar e aumentar a qualidade do serviço, tendo como principais
estratégias o reforço da imagem da empresa e o aumento das vendas; iii) contactam
preferencialmente os serviços de alojamento, as agências de viagem e os
operadores turísticos; têm vindo a associar-se a outras entidades do sector do
turismo; iv) cerca de 90% das empresas consideram bastante ou muito importante a
criação de uma rede de organizações na sua área de negócio; v) mais de 75% não
concorreram a incentivos financeiros do II Quadro Comunitário de Apoio (QCA) para
a criação da empresa (embora 50% destas empresas o pudessem ter feito); cerca
de 30% das empresas pensam ainda vir a concorrer ao III QCA; apenas 23% já
concorreram a incentivos financeiros, das quais, destas, mais de 70%, viram já os
seus projectos de investimento aprovados; vi) para 93% das empresas o turismo irá
crescer; a área em que o crescimento mais se poderá notar é ao nível do número de
turistas e excursionistas.
Moutinho (2008) realizou em estudo sobre a oferta e a procura da animação
turística que procurou caracterizar o perfil das entidades de animação, mostrar o
entendimento que os seus vários intervenientes fazem desta actividade, verificar de
que forma o papel dos responsáveis e as políticas adoptadas por estes são
potencialmente criadoras de valor para a Região de Turismo do Ribatejo (RTR) e se
traduzem na dinamização turística do território e na mobilização activa das
comunidades, e avaliar a participação dos turistas nas actividades e o seu
envolvimento com as entidades que oferecem o serviço. Este trabalho teve como
principal método de observação o inquérito por questionário: um dirigido aos
responsáveis pelas entidades promotoras de animação turística nos municípios da
RTR; e outro aos indivíduos que se dirigiam aos indivíduos que se dirigiram ao Posto
de Turismo da cidade de Santarém (concelho de Santarém) durante o ano de 2006.
Os resultados obtidos evidenciam as seguintes conclusões: i) a maior parte das
entidades de animação que operam na RTR iniciou a sua actividade turística a partir
de 1996, revelando, por isso, a juventude do subsector, e são no geral de pequena
dimensão; ii) desenvolvem uma estratégia comercial de especialização em função
do meio físico ou cultural; iii) apresentam uma tendência para a oferta de uma
actividade especializada ou âncora, onde sobressaem as actividades ligadas ao
golfe, cavalos e touros, à organização de eventos, às visitas técnicas, aos passeios
de barco e à canoagem; iv) a maior parte dos agentes inquiridos admite desenvolver
163
estratégias direccionadas para o segmento generalista e adaptar as suas ofertas às
solicitações imediatas da procura; v) na óptica de todos os intervenientes, é
incontornável o papel desempenhado pela animação turística na potenciação da
imagem da RTR, na qualidade e pluralidade da oferta, e na afirmação da
competitividade entre os mercados; vi) referem que continua a verificar-se
fragilidades nas estruturas locais, assimetrias na atribuição regional de meios
financeiros para os serviços turísticos, além da escassa qualificação específica dos
recursos humanos; vi) na sua opinião, será necessário criar novas dinâmicas que
potenciassem uma oferta que responda à nova procura turística e à mobilidade
acrescida dos fluxos.
Na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto foi conduzido um
conjunto de estudos, sob a orientação da professora Ana Luísa Pereira, sobre as
AFAN em determinadas regiões, nomeadamente em Rio Maior (Cunha S. C., 2006)
Espinho e Gaia (Resende, 2006) e Valimar (Mota, 2006). Alguns objectivos
determinados para estes trabalhos foram os seguintes: a) analisar como se
encontram estruturadas as organizações que promovem estas actividades; b)
identificar as diferenças entre as organizações públicas e privadas; c) descrever as
actividades que são promovidas; d) caracterizar os recursos humanos utilizados por
estas organizações; e) compreender e identificar se existem mais-valias na
organização destas actividades nos locais onde ocorrem; f) inferir sobre o
conhecimento dos responsáveis das organizações em relação ao desenvolvimento
sustentável e à Agenda 21 Local; g) analisar de que forma é que estas organizações
integram uma estratégia de desenvolvimento sustentável perspectivada pelos
municípios. A metodologia destes estudos consistiu na realização de entrevistas
semiestruturadas aos responsáveis das organizações, a responsáveis autárquicos, e
a monitores das actividades, e posterior análise de conteúdo. Os principais
resultados permitiram concluir o seguinte:
i) No concelho de Rio Maior (Cunha S. C., 2006), as entidades públicas e
privadas desenvolviam, à data, semelhante tipo de actividades mesmo sujeitas a
diferentes obrigações perante a lei; as actividades relacionadas com o montanhismo,
como o pedestrianismo, são as actividades que se destacam em todas as entidades;
os responsáveis e monitores demonstraram estar sensibilizados para a problemática
da conservação da natureza, parecendo colocar em prática determinadas formas e
meios para a respectiva preservação, mas sem existir conformidade quanto à sua
164
actuação; o índice de incidentes parece ser reduzido e sem gravidade; os monitores
responsáveis pelas actividades apresentam, de uma forma geral, formação superior
e técnica relacionada com a área, considerando que esta, de um modo geral, deva
ser da responsabilidade das federações e das universidades; Rio Maior parece
apresentar-se como um forte potencial destino turístico, pelas características
naturais, patrimoniais e culturais e, também, pela promoção desportiva de uma
forma geral, e pela promoção das AFAN, em particular; as leis que regulam estas
actividades parecem não ser adequadas nem servir os interesses das entidades;
ii) Nos concelhos de Espinho e Gaia (Resende, 2006) existem entidades,
públicas e privadas, com objectivos e formas de actuação diferentes; o
conhecimento dos responsáveis acerca do desenvolvimento sustentável e da
Agenda 21 Local é reduzido; parecem existir preocupações relativamente à
preservação ambiental, mas que se traduzem em poucas acções concretas; a
legislação do sector parece ter ainda lacunas;
iii) No concelho de Valimar (Mota, 2006) as actividades nas associações são
desenvolvidas por um pequeno número de sócios, e nas empresas são
desenvolvidas pelo sócio-gerente e por poucos funcionários a tempo inteiro e a
tempo parcial; as actividades mais promovidas são a caminhada, canoagem e
paintball, e as que menos se promovem são o canyoning, o rafting e o windsurf; a
legislação actual é um factor inibidor do crescimento do sector; em termos do
município, não existe nenhuma estratégia definida que integre estas organizações;
O PENT, no seu relatório sobre o mercado do Turismo de Natureza
(Resolução do Conselho de Ministros n.º 53/2007), salienta os seguintes problemas
associados ao sector e às empresas que operam no mesmo:
i) A pequena dimensão das empresas que operam no sector é um obstáculo
para a competitividade das empresas turísticas, nomeadamente para a
implementação de sistemas mais eficazes de produção, de inovação e de melhoria
de qualidade; para o acesso a tecnologia avançada; para a obtenção de informação
dos mercados; para o aumento da qualidade de recursos humanos; para a obtenção
de fórmulas de comercialização mais eficazes; para a obtenção de um maior poder
de negociação frente à procura e/ou intermediários, fornecedores, etc.;
ii) A tenra idade das empresas, que começaram a surgir partir dos ano
1990s (a grande maioria das empresas tem menos de 10 anos de existência), não
165
tem permitido a acumulação suficiente de experiência, tecnologia e know-how, em
especial para competir no mercado internacional;
iii) A falta de aplicação ou inadequação de regulamentação, em especial das
licenças para operar no sector, tem originado uma certa confusão e tem dificultado a
implementação de standards de qualidade na estruturação e prestação dos serviços;
iv) A limitação para a estruturação de produtos ou experiências integrais,
incluindo serviços como o alojamento, associada à falta de cooperação entre os
diversos operadores e prestadores de serviços (agências receptivas, alojamento,
restauração, etc.) é um obstáculo para a articulação e comercialização de ofertas
integradas;
v) A juventude e a reduzida dimensão das empresas que operam no sector
não têm permitido um vínculo laboral permanente na maioria das empresas,
impedindo ou dificultando assim a especialização dos recursos humanos.
Em relação à composição da procura do mercado do Turismo de Natureza, o
PENT (Resolução do Conselho de Ministros n.º 53/2007) salienta a escassa
presença de procura internacional (4% da procura total), que corresponde
maioritariamente a visitantes que viajaram para Portugal por outros motivos e que,
uma vez no país, foram atraídos para a prática de algumas destas actividades. Este
facto reflecte, por um lado o fraco posicionamento de Portugal como destino para
viagens de Turismo de Natureza no mercado internacional (como motivo principal) e,
por outro, a importância do conceito de procura secundária neste sector.
O PENT (Resolução do Conselho de Ministros n.º 53/2007) também realça a
percepção interna negativa em algumas dimensões do Turismo de Natureza
(Desportos de Natureza). Na perspectiva dos operadores portugueses existem
alguns obstáculos ou impedimentos para o desenvolvimento do sector,
nomeadamente a falta de promoção, a impossibilidade de venda de alojamento, a
legislação inadequada e a falta de apoio financeiro.
166
estrutura de trabalhos analíticos da sustentabilidade é tão ampla, abrangendo
problemas ambientais, económicos e socioculturais, utilizando a ética e plataformas
de igualdade intra e inter-geracional como instrumentos de debate, que têm criado,
de certa forma, diversos problemas para a sua definição (Cooper, Fletcher, Fyall,
Gylbert, & Wanhill, 2007). Este conceito é, aliás, o resultado de um processo
histórico de reflexão sobre a capacidade do planeta responder às condutas do
Homem pela procura do seu próprio desenvolvimento. É construído decorrente da
insatisfação de alguns segmentos sociais, dos quais se incluem os cientistas,
sobretudo das áreas do conhecimento social e humano, com os limites da
abordagem predominante. Essa insatisfação reflecte a consciencialização da
progressiva deterioração das condições objectivas de existência da maior parte da
população e da crescente pressão da degradação ambiental (Fidélis, 2001).
Importa iniciar esta revisão com a análise dos contornos que levaram à
criação do próprio conceito, inerente à necessidade de criar um novo paradigma de
desenvolvimento, em especial, que articule o desenvolvimento socioeconómico com
a protecção da qualidade ambiental (Fidélis, 2001). Uma apreciação dos principais
dados da história socioeconómica será útil para que a sociedade continue a seguir
as pegadas do passado ou seguir outros caminhos (Rao, 2000). Desde os filósofos
da Natureza Gregos e Romanos aos monges Beneditinos, dos economistas como
Malthus ou Ricardo aos conservadores na Europa e América, existiram sempre
pessoas que promoveram um sábio e moderado uso dos recursos naturais
(Vaillancourt, 1995). No entanto, os padrões de crescimento e de desenvolvimento
impostos a partir da Revolução Industrial, que têm como consequência o rápido
crescimento populacional, a crescente urbanização das cidades, o aumento dos
níveis de consumo e os consequentes impactos gerados, são apontados, de forma
generalizada, como os grandes responsáveis pelo agravamento, em especial, da
qualidade ambiental (Fidélis, 2001). De facto, Thomas Malthus (1766-1834) terá sido
o primeiro a alertar para a possibilidade da escassez de recursos (em espacial os
alimentos), se a população tender para o crescimento exponencial, embora as suas
previsões não se tenham concretizado nos últimos dois séculos (Rao, 2000). A era
industrial é marcada, também, por novas filosofias económicas e ambientais.
Algumas preocupações, a este respeito, são expressas por notáveis economistas
como John Stuart Mill (1806-1873), Karl Marx (1818-1883) e Alfred Marshall (1842-
1924), representantes das correntes dominantes da época: o liberalismo, o
167
marxismo e o neoliberalismo. O reconhecimento da importância dos limites dos
recursos naturais e da sua diminuição é expressa por cada um deles, através das
suas diferentes perspectivas (Rao, 2000).
No início do século XX era visível a oposição ideológica, relativamente aos
modelos de desenvolvimento a seguir, entre os defensores de um tipo de
desenvolvimento que não abordava as questões ambientais e os ambientalistas
defensores do crescimento zero que negligenciavam as necessidades de
desenvolvimento, em especial nos países de terceiro mundo (Vaillancourt, 1995).
Assim, na segunda metade do século XX foram realizadas diversas conferências e
seminários onde foi proposto incluir um tipo de desenvolvimento que permitisse o
respeito pelos recursos naturais, conciliando as ideias dos activistas ambientais com
os radicais pro-desenvolvimento. A conferência sobre o Meio Ambiente Humano,
realizada pelas Nações Unidas em Estocolmo, em 1972, foi um marco importante
para esta temática, resultando num plano de acção para o meio ambiente onde
emerge como prioridade fundamental, a criação de um tipo de desenvolvimento que
respeite o ambiente e a gestão dos recursos naturais, que inclua a preservação da
capacidade da Terra para produzir recursos renováveis vitais (Vaillancourt, 1995).
Na década de 1970 emerge o conceitos de ecodesenvolvimento, amplamente
defendido por Maurice Strong e Iganacy Sachs, em especial por este último, através
do livro Strategie de L’ecodevellopment (Estratégia do Ecodesenvolvimento) (Sachs,
1980, 1994), e o conceito de sociedade sustentável por Lester Brown (Brown L. ,
1981), que expressavam a necessidade de criação de uma nova ordem económica
sob a ideia de que o desenvolvimento socioeconómico e a protecção ambiental
deveriam ser harmonizados (Vaillancourt, 1995). Em 1980, a expressão
desenvolvimento sustentável é, talvez, referida pela primeira vez na Estratégia
Mundial para a Conservação, resultante da Conferência de Estocolmo (Vaillancourt,
1995), sob a ideia de se dever ter em conta os factores sociais e ecológicos, assim
como os factores económicos, e os recursos de base biótica e não biótica, de forma
a verificar as vantagens e inconvenientes das soluções alternativas de curto e longo
prazo (IUCN, UNEP, & WWF, 1980).
No seguimento do Relatório Brundtland – O Nosso Futuro Comum (WCED,
1987), as conferências das Nações Unidas sobre Ambiente e Desenvolvimento,
realizadas em 1992, no Rio de Janeiro; em 1995, em Copenhaga; e em 2002, em
Joanesburgo; permitiram o reconhecimento das necessidades de novas estratégias
168
locais e globais para enfrentar os problemas ambientais, colocando na agenda
política mundial o conceito de desenvolvimento sustentável. No âmbito destas
conferências, este conceito surge associado a três dimensões fundamentais: o
desenvolvimento económico, a coesão social e a protecção do ambiente (WCED,
1987), que de certa forma são interdependentes. A vertente económica está
associada à integração do ambiente e da economia em todos os níveis de decisão,
revendo objectivos e modelos de desenvolvimento, utilizando análises e distribuição
justa de benefícios e custos económicos e ambientais de desenvolvimento; à
evolução tecnológica e à alteração de processos produtivos, de consumo e redução
da produção de resíduos através do aumento da eficiência e da mudança dos estilos
de vida. A vertente social está associada à estabilização do crescimento
populacional, à generalização do bem-estar social, da educação, do acesso à
informação e da participação nos processos de decisão. Por sua vez, a vertente
ambiental está associada à conservação da natureza e à promoção dos valores e
recursos ambientais naturais, incluindo ar, água, solo e diversidade biológica,
reduzindo a escala de utilização e extinção dos ecossistemas e habitats.
Embora as diferentes abordagens teóricas identificadas sobre o conceito de
desenvolvimento sustentável possam estabelecer diferentes definições, Fidélis
(2001) refere que é possível apresentar algum nível de consenso relativamente ao
seu significado. Das diversas definições encontradas na literatura destacam-se as
seguintes:
- “Desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento que satisfaz as
necessidades do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações
satisfazerem as suas próprias necessidades” (WCED, 1987, p. 41);
- “(…) desenvolvimento sustentável não é um estado fixo de harmonia, mas
sim um processo de mudança cuja exploração dos recursos, a direcção dos
investimentos, a direcção do desenvolvimento tecnológico, e as mudanças
institucionais sejam consistentemente concretizadas com as necessidades do futuro
assim como com as do presente” (WCED, 1987, p. 17);
- “Para que o desenvolvimento seja sustentável deve-se ter em conta tanto os
factores sociais e ecológicos, como os económicos; dos recursos de base, vivos e
não vivos; e das vantagens e desvantagens das acções alternativas, a longo prazo,
assim como a curto prazo” (IUCN, UNEP, & WWF, 1980, p. 18);
- “O desenvolvimento sustentável é entendido como a forma das mudanças
169
da sociedade que, em adição aos objectivos de desenvolvimento tradicional, assim
como ao objectivo ou restrições da sustentabilidade ecológica” (Lélé, 1991, p. 610);
- “O desenvolvimento sustentável pode ser considerado como o conjunto de
programas de desenvolvimento que permitem a satisfação das necessidades
humanas sem violar as capacidades de longa prazo dos recursos naturais e as
normas da qualidade ambiental e da equidade social “ (Bartelmus, 1994, p. 73);
- “O desenvolvimento sustentável é um processo de mudança que tem em
conta a harmonização da exploração dos recursos, a orientação dos investimentos,
a aplicação de técnicas de desenvolvimento de instituições e empresas com a
finalidade de reforçar um potencial socioeconómico apto para resolver as
necessidades e aspirações da humanidade” (Lima & Careto, 2006, p. 48).
O conceito de desenvolvimento sustentável levanta, assim, uma série de
novos princípios assente em quatro grandes princípios (Bessy & Mouton, 2004;
Fidélis, 2001): i) uma nova relação com o tempo que requer uma solidariedade inter-
geracional, que articule o curto e longo prazo; ii) uma nova relação com mundo e
com o espaço, que requer um pensamento global, articulando o local e o global, num
abordagem transversal e sistémica; iii) uma nova relação de conhecimento, que
exige um dispositivo de alerta que requer medidas de precaução, avanços científicos
e tomada de medidas temporárias; iv) um novo modo de governação assente no
princípio de participação dos indivíduos, que conjugue as ideias dos diferentes
actores na decisão.
Sob esta perspectiva, o desenvolvimento sustentável representa 4 grandes
papéis (Hawkins & Buttel, 1991):
1) Como um movimento de ideologia ecologista;
2) Como um pivot simbólico de conflito sobre políticas de desenvolvimento;
3) Como um guia para as políticas e programas de desenvolvimento;
4) Como uma categoria teórica.
Por outro lado, o conceito de desenvolvimento sustentável apresenta também
algumas críticas, baseadas em três grandes questões: i) um conceito suave e
ambíguo; ii) um conceito enraizado nas velhas categorias de crescimento
(económico); iii) um conceito etnocêntrico.
- A primeira crítica refere-se ao facto do conceito ser mais ideológico do que
operacional (Giddings, Hopwood, & O'Brien, 2002), apresentando um significado
muito lato, flexível e ambíguo (Pesqueux, 2009), que não expõe metas bem
170
definidas, não permite a definição de um plano de acção concreto e abrangente, e
não contém um carácter vinculativo (Dontenwill, 2008).
- A segunda crítica refere-se ao facto do conceito assentar nas categorias
tradicionais (do crescimento económico) pois, embora reivindique uma mudança de
paradigma, o desenvolvimento sustentável continua a basear-se na racionalidade
económica e não na ecológica, centrando a sustentabilidade no crescimento e não
nos ecossistemas (Dontenwill, 2008; Hove, 2004).
- A terceira diz respeito ao facto do conceito de desenvolvimento sustentável
ser um conceito com uma matriz puramente ocidental (Dontenwill, 2008), de
construção puramente etnocêntrica, tecnocêntrica e antropocêntrico, (Adams, 1995;
Hove, 2004; Watts, 1995). A este respeito, Middleton, O’Keefe, e Moyo (1993)
referem que os países desenvolvidos (do Norte) ao avançarem com uma agenda
ambiental baseada nos seus próprios interesses encontraram no termo globalismo
uma forma de legitimar e perpetuar a sua supremacia em relação aos outros países
(do Sul). No mesmo sentido, Escobar (1995) refere que são os cientistas ocidentais
que continuam a ditar o que é bom e mau para o resto do mundo, geralmente sem
perguntar aos outros povos o que têm a dizer sobre isso.
Apesar do conceito de desenvolvimento se apresentar de difícil
implementação prática, possui características paradigmáticas e mesmo retóricas,
que permitem uma fácil aceitação pelos diversos grupos de interesse, estando
presente nos discursos dos principais agentes políticos, à escala global (Fidélis,
2001). Mais do que não seja, este conceito é uma noção fundamental que se
enquadra no sentido da história e nos obriga a interrogar-nos sobre o que fazemos
para o futuro do planeta (Bessy & Mouton, 2004).
171
A perspectiva substantiva questiona os actuais modelos de crescimento e de
desenvolvimento e está subdividida em três correntes (Fidélis, 2001) - a corrente
conservadora, a intermédia e a radical:
- A primeira é defendida principalmente pelos economistas (Barbier,
Markandya, & Pearce, 1990; Feitelson, 1992), que referem que a operacionalização
do conceito de desenvolvimento sustentável não requer um corte radical com os
modelos neoclássicos de desenvolvimento, em especial sobre a necessidade de
crescimento económico. Nesse sentido, as principais alterações que são
preconizadas por esta corrente referem-se à definição de objectivos, à alteração ou
à expansão dos critérios usados nos processos e nos instrumentos de apoio à
decisão, tais como a análise de custo benefício e a criação de sistemas de
compensação por danos ambientais;
- A corrente intermédia é reflectida, principalmente, através do relatório
Brundtland (WCED, 1987), e é defendida por uma grande diversidade de áreas do
conhecimento (Bergh & Nijkamp, 1991; Noogard, 1992). Esta corrente assume a
importância do crescimento económico, articulado com o ambiente, sugerindo que a
abordagem económica utilize o planeamento ambiental através de factores
ambientais e intergeracionais, para lidar com objectivos, processos e condicionantes
de sistemas económicos e ecológicos associados a políticas ou cenários
específicos. Esta corrente subdivide-se, de acordo com Fidélis (2001), em duas
vertentes, ambas baseadas na conservação dos recursos. As diferenças entre elas
baseiam-se no nível de crescimento e nas modificações ambientais: uma orientada
para o crescimento sustentado e a outra para o crescimento zero;
- A corrente radical é defendida sobretudo pelos ecologistas (Naess, 1973)
que se associam às correntes ecocêntricas (Schumacher, 1973). Esta corrente
defende uma ruptura radical com o modo de funcionamento das atuais sociedades
ocidentais, recusando qualquer tipo de crescimento económico, e tem vindo a
contribuindo para alargar o debate sobre as estratégias convencionais de
crescimento.
A perspectiva ética centra-se, de acordo com Fidélis (2001), na interpretação
do papel do homem perante o ecossistema Terra. Esta perspectiva está dividida em
duas correntes - a corrente naturalista e a antropocêntrica:
- A corrente naturalista está associada às atitudes radicalistas atribuídas ao
biocentrismo e à ecologia radical. Os defensores desta corrente referem que todos
172
os seres vivos têm igual importância, e que o bem-estar humano não é a questão
mais importante quando se debate ambiente e desenvolvimento. Defendem que o
Homem tem uma relação ética com o ambiente e com a natureza, considerando-os
uma extensão moral da comunidade humana;
- Contrariamente à corrente anterior, a corrente antropocêntrica centra-se no
Homem, enquanto objecto e objectivo de desenvolvimento. A importância do
desenvolvimento sustentável é justificado pela necessidade de articular os objectivos
de vida e as obrigações morais entre o Homem e o ambiente enquanto suporte da
actividade humana. O paradigma do desenvolvimento sustentável é, aliás,
actualmente dominado por esta corrente.
A perspectiva disciplinar é caracterizada por contribuições de quatro grandes
áreas disciplinares (Fidélis, 2001) - da ecologia, do planeamento, da economia e das
ciências sociais e políticas:
- A área disciplinar da ecologia considera que é fundamental a existência de
uma articulação entre ambiente e desenvolvimento, que envolva os sistemas
naturais e humanos, enquadrando fundamentalmente os critérios ambientais nos
processos de decisão. Esta área defende ainda a utilização de metodologias de
análise da capacidade de uso e capacidade de carga em larga escala, apesar de
reconhecerem limitações práticas que são relevante para a sua implementação;
- As correntes económicas dos mais diversos paradigmas (mais ortodoxas ou
inovadoras) perspectivam, de forma geral, o desenvolvimento sustentável através de
soluções resultantes do funcionamento do mercado, e do desenvolvimento e da
aplicação de instrumentos económicos como taxas, subsídios, incentivos, etc.;
- A perspectiva do planeamento encara a solução para o desenvolvimento
sustentável através da reformulação dos processos actuais, que incluam a
elaboração de políticas e a implementação de estratégias de desenvolvimento com
incidência territorial, que incluam de raiz uma matriz ambiental articulada com as
outras componentes (espacial, social, económico e sectorial);
- Por fim, as ciências sociais e políticas apresentam a solução para o
desenvolvimento sustentável através do recurso a processos de negociação entre os
diversos actores (grupos sociais e políticos). Defendem também a reformulação dos
processos políticos (elaboração e implementação de políticas), o desenvolvimento
de medidas de justiça e equidade social através do uso e da exploração de recursos
naturais. Neste sentido, existe a expectativa de que uma maior educação e uma
173
maior ética ambiental proporcionem novas iniciativas de base e novas estratégias de
articulação entre ambiente e desenvolvimento, e uma abertura na tomada de
decisão.
A discussão teórica sobre a problemática do desenvolvimento, a partir de uma
perspectiva espacial, pode ser resumida a dois grandes paradigmas que se opõem
na sua natureza e nos seus pressupostos: o funcionalista e o territorialista (Amaro,
1991; Rita & Mergulhão, 1997). O primeiro é também designado por modelo de
desenvolvimento exógeno enquanto o segundo por abordagem de desenvolvimento
endógeno (Lowe, Ray, Ward, Wood, & Woodward, 1997; Veiga, 2005).
O paradigma funcionalista assenta sobretudo no impulso exógeno de
natureza económico e tecnológico (Veiga, 2005) e pressupõe, por isso, o
desenvolvimento centralizado de cima para baixo (Amaro, 1991; Rita & Mergulhão,
1997). Este paradigma alicerça o desenvolvimento apenas em alguns sectores de
actividade económica e/ou em áreas geográficas específicas, que potencialmente se
tornam nos motores do desenvolvimento, e que posteriormente se difunde aos
restantes sectores de actividade e a outras áreas geográficas (Rita & Mergulhão,
1997). Nesta concepção o espaço é considerado como um mero suporte, sobre o
qual se confrontam forças e funções económicas, que definem as localizações e por
essa via a estrutura e hierarquização dos espaços económicos (Veiga, 2005). Este
modelo assenta numa perspectiva economicista cuja ideia central é a racionalização
e a maximização dos recursos tendo em vista a obtenção do maior lucro possível,
descurando de forma explícita várias das dimensões daquilo que deveria ser o
desenvolvimento, nomeadamente a questão social, cultural, ambiental e política
(Rita & Mergulhão, 1997). Além disso, é um desenvolvimento monolítico,
centralizado, que não tem em devida consideração aquilo a que poderemos chamar
de satisfação das necessidades básicas e que não procura estimular nem mobilizar
a participação (Rita & Mergulhão, 1997).
A insatisfação com os modelos anteriores, em especial perante a evidência de
que o crescimento económico não é necessariamente sinónimo de desenvolvimento
(Rita & Mergulhão, 1997), conduziu ao aparecimento nos anos 1980s de novas
abordagens, seguindo o pressuposto de que o desenvolvimento deve partir dos
recursos específicos de determinados territórios (humanos, naturais e culturais)
(Veiga, 2005). Este novo paradigma (territorialista) opõe-se ao anterior paradigma
funcionalista (Pecqueur & Silva, 1998), já que este é um processo de baixo para
174
cima (Amaro, 1991; Rita & Mergulhão, 1997), baseado essencialmente nas
capacidades endógenas dos territórios, e que tem em conta não só o presente, mas
também as gerações futuras e a capacidade de auto-regeneração dos recursos
próprios dos territórios (Rita & Mergulhão, 1997). A introdução de uma nova
representação do espaço-território (espaço local) e a articulação entre as várias
escalas espaciais (do local ao global), em alternativa à representação de uma escala
única (nacional), permitiu revelar fenómenos económicos, sociais, políticos e
culturais importantes, e que estariam anteriormente escondidos ou eram ignorados
(Veiga, 2005). Este paradigma propõe, assim, uma nova visão do desenvolvimento
fundamentada na mobilização plena do capital endógeno, despertando e
mobilizando as capacidades e os recursos das populações para que estas possam
satisfazer as suas necessidades básicas e a promoção da melhoria da sua
qualidade de vida de forma duradoura e continuada (Rita & Mergulhão, 1997).
Veiga (2005) refere que as novas abordagens do desenvolvimento contestam
as posições parcelares criadas à volta dos dualismos teóricos (exógeno/endógeno),
por estes favorecerem uma polaridade artificial, defendendo as análises que
privilegiam as relações entre os dois pólos. Reúnem-se assim as duas dimensões,
endógenas (territorial) definidas pelas características locais e exógenas (funcional)
na abertura ao exterior, na interacção entre relações sociais e escalas espaciais.
Neste sentido, são tão importantes as características endógenas como o tipo e a
qualidade das relações que são possíveis de estabelecer com o exterior e que são
representadas na capacidade de auto-organização e de arranjo institucional a nível
local. Em síntese, Veiga (2005) refere que as abordagens teóricas sobre o conceito,
modelos e práticas de desenvolvimento têm evoluído para visões mais integradas,
multidimensionais e pluridisciplinares, que contestam visões dicotómicas que
caracterizaram o debate inicial.
175
recursos exógenos de forma sustentável, com vista a atingir um desenvolvimento
integrado que melhore a qualidade de vida em todos os domínios (Carvalho, 2009).
Este modelo de desenvolvimento aponta por isso para uma estratégia participativa,
pressupondo a identificação, o reconhecimento e o reforço identitário, a partilha de
objectivos identificados como comuns, e o trabalho colectivo para a prossecução de
fins previamente definidos, traduzindo o sentimento de pertença e de autonomia
(Brito, 2004). Neste sentido, não poderia deixar de se centrar na comunidade,
partindo das necessidades básicas nelas existentes (Carvalho, 2009), através de um
processo de transformação e de mudança que pressupõe um trabalho de parceria e
cooperação (Amaro, 2003).
As acções participativas podem ser classificadas em função de três
modalidades distintas (Brito, 2004): i) a mobilização da população para a
prossecução de projectos socioeconómicos através do contributo prestado em força
física; ii) a participação efectivada pela descentralização e pela desconcentração do
poder político pelo Estado, que o transfere de níveis hierarquicamente superiores
para órgãos locais; iii) a delegação de poderes em grupos sociais, económicos e
políticos permitindo o empenho individual na tomada de decisões que afectam o
grupo no seu conjunto.
Carvalho (2009) refere ainda, a este propósito, que as experiências bem-
sucedidas de desenvolvimento local decorrem, quase sempre, de um ambiente
político e social favorável, expresso por uma mobilização e, principalmente, de uma
importante convergência dos actores sociais, do município ou comunidade, em torno
de determinadas prioridades e orientações básicas de desenvolvimento.
O conceito de local não tem apena uma conotação física, representa uma
transformação particular na base das relações económicas, sociais e culturais que
lhes confere características individuais, e que permite diferenciar um local do outro
(Silva, 2009). Neste sentido, o desenvolvimento local está associado, normalmente,
a iniciativas inovadoras e mobilizadoras da colectividade, geralmente assentes em
pequenas unidades territoriais (a nível local), não remetendo para o sinónimo de
pequeno, mas para um processo pensado, planeado e induzido (Carvalho, 2009).
Aydolat (1985) sintetizou as características comuns no desenvolvimento local
da seguinte forma: 1) um desenvolvimento territorial; 2) uma referência às
necessidades básicas; 3) um desenvolvimento comunitário; 4) a valorização dos
176
recursos locais; 5) um desenvolvimento integrado; 6) uma autarcia selectiva; 7) a
pequena escala e as inovações de carácter local.
O desenvolvimento local pode ser definido, assim, como o “processo de
mudança, centrado numa comunidade territorial, que parte da constatação de
necessidades não satisfeitas, às quais se procura responder prioritariamente a partir
das capacidades locais, o que pressupõe uma lógica e uma pedagogia de
participação, em articulação necessária e fertilizadora com recursos exógenos,
numa perspectiva integrada e integradora, o que implica uma dinâmica de trabalho
em parceria, com um impacto tendencial em toda a comunidade e com uma grande
diversidade de caminhos, protagonismos e soluções” (Amaro, 1999, p. 38).
O conceito de desenvolvimento local contém três grandes grupos que estão
interligados, e com características e papéis diferentes no processo do
desenvolvimento (Buarque, 1999):
a) A elevação da qualidade de vida e a equidade social constituem os
objectivos centrais do modelo de desenvolvimento, orientação e propósito final de
todo o esforço de desenvolvimento no curto, médio e longo prazo;
b) A eficiência e o crescimento económicos constituem pré-requisitos
fundamentais, sem os quais não é possível elevar a qualidade de vida com equidade
(de forma sustentável e continuada), representando uma condição necessária,
embora não suficiente, do desenvolvimento sustentável;
c) A conservação ambiental é uma condicionante decisiva da
sustentabilidade do desenvolvimento e da manutenção no longo prazo, sem a qual
não é possível assegurar qualidade de vida para as gerações futuras e equidade
social de forma sustentável e contínua no tempo e no espaço.
Amaro (1991) refere que as principais vantagens do desenvolvimento
participativo e local remetem para um conjunto de factores, tais como: i) requerem
proximidade em relação aos problemas sentidos, com directa identificação das
necessidades e dos meios adequados para a sua solução; ii) implicam a mobilização
das capacidades e das potencialidades diversificando iniciativas; iii) possibilitam uma
intervenção interdisciplinar complexa, de base sistémica e que envolve as
dimensões quantitativa e qualitativa, sem privilegiar uma relativamente à outra,
reforçam as parcerias entre actores com intervenção territorial diferenciada.
Contudo, o desenvolvimento participativo e local confronta-se com alguns
aspectos limitativos (Amaro, 1991), nomeadamente: a) a incapacidade de envolver a
177
totalidade das comunidades nas iniciativas promovidas; b) o excessivo protagonismo
de alguns elementos promotores com tendência para o localismo com fechamento e
isolamento comunitário; c) a inexistência dos recursos financeiros, naturais,
materiais e humanos considerados necessários com consequente criação de
dependências relativamente ao exterior; a inadequação de algumas das medidas
estratégicas defendidas e promovidas.
Um dos instrumentos que talvez possa ter uma melhor implicação prática na
operacionalização do conceito de desenvolvimento sustentável é a Agenda 21 Local
(Carvalho, 2009; Fidélis, 2001). Trata-se de um documento que propõe um programa
de acção, que sugere um novo padrão de desenvolvimento, conciliando métodos de
protecção ambiental, justiça social e eficiência económica, para o qual contribuíram
179 países num processo preparatório que durou dois anos e culminou com a
realização da Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente e Desenvolvimento,
em 1992, no Rio de Janeiro (Fidélis, 2001).
Os princípios da Agenda 21 Local, e a sua implementação, projectam-se
como um considerável instrumento de mudança centrado em duas categorias:
planeamento e democratização (Carvalho, 2009). Ao nível do planeamento porque
exige uma abordagem contextualizada do acto de planear, que é abrangente nas
variáveis a considerar, rigoroso na integração dos problemas, inovador nos modelos
prospectivos que propõe, permitindo contribuir para a resolução da tradicional
tensão entre ambiente e desenvolvimento. Ao nível da democratização porque
desafia a participação pública, que é aliás um elemento chave neste processo, não
só por permitir o exercício do direito de auscultação dos cidadãos nos processos de
decisão política, mas também porque aumenta a eficiência dessas decisões, e a
obtenção de consensos.
A Agenda 21 Local é por isso um programa de acção em permanente
redefinição e negociação, que enquadra os objectivos e os meios que permitem
conseguir um desenvolvimento local sustentável (Carvalho, 2009).
178
um dos maiores componentes do sector turístico (Hall & Page, 2006; Weiler & Hall,
1992). O turismo é reconhecido como uma das principais actividades económicas do
planeta, cujo crescimento tem vindo a acentuar-se nos últimos anos, e os Desportos
de Natureza têm vindo a acompanhado esta tendência, que têm conduzido a uma
enorme pressão nos destinos turísticos, originando diversos impactos nesses
territórios, resultante de um processo complexo de interacção entre os turistas e os
destinos de prática, incluindo as comunidades receptoras (Nyaupane & Thapa,
2004).
Esta constatação tem levado ao reconhecimento da necessidade deste sector
incorporar os princípios do desenvolvimento sustentável contidos na Agenda 21
Local (ICLEI, 2003), adoptando o termo turismo sustentável que se refere, segundo
a (UNEP & WTO, 2005, p. 12), ao "Tourism that takes full account of its current and
future economic, social and environmental impacts, addressing the needs of visitors,
the industry, the environment and host communities". Neste sentido, a indústria tem
levado a cabo diversas iniciativas para implementar estes princípios, como os casos,
a título de exemplo, do estabelecimento da Agenda 21 para a Indústria dos
Transportes e do Turismo (WTTC, WTO, & Earth Council, 1995), da criação de
directrizes para o desenvolvimento do turismo sustentável (WTO, 1993), e da criação
de guias para o desenvolvimento de indicadores de sustentabilidade para os
destinos turísticos (WTO, 2004).
Os impactos do turismo são considerados, do ponto de vista conceptual,
como as consequências directas, indirectas ou induzidas pelas actividades turísticas,
e podem expressar-se de forma positiva ou negativa (Mathieson & Wall, 1996). Os
impactos que ocorrem da acção destas práticas correspondem às modificações
provocadas nos destinos (Ruschmann, 2008), como consequência do processo de
desenvolvimento da indústria do turismo (Hall, 2008).
Estas práticas actuam como um agente de mudança, trazendo inúmeros
impactos às condições económicas regionais, às instituições sociais e à qualidade
ambiental (Mings & Chulikpongse, 1994). Nesta óptica, o resultado dos impactos do
turismo depende da natureza das sociedades onde ocorrem (Ruschmann, 2008) e
resultam, de forma geral, das diferenças sociais, económicas e culturais entre a
população residente e os turistas (WTO, 1993). A extensão destes impactos
depende, assim, não só da quantidade mas também do tipo de turistas que se
desloca a esse destino (Mathieson & Wall, 1996).
179
De acordo com Brito (2004, p. 122), “a relação entre as três dimensões é
conseguida, através da garantia de preservação ambiental, atribuindo autonomia às
comunidades locais, respeitando a cultura e os valores de origem, reforçando a
identidade comunitária, salvaguardando o desenvolvimento económico mediante a
gestão dos recursos disponíveis, assegurando a sua utilização pelas gerações
futuras”.
O desenvolvimento turístico sustentável é, assim, um processo com tripla
acção (Brito, 2004; UNEP & WTO, 2005; WTO, 1993):
a) Sustentabilidade ambiental – permitir uma adequada utilização dos
recursos ambientais e a manutenção dos processos ecológicos, de forma a garantir
um equilíbrio entre o desenvolvimento e a preservação e conservação do património
natural e da biodiversidade;
b) Sustentabilidade económica – assegurar operações económicas viáveis e
de longo termo que provoquem benefícios socioeconómicos bem distribuídos entre
todos os stakeholders, incluindo empregos estáveis e oportunidades de geração de
rendimentos e oportunidades de serviços sociais às comunidades anfitriãs,
contribuindo para a redução da pobreza, e para a eficiência económica sem
ameaçar o crescimento futuro;
c) Sustentabilidade sociocultural – garantir que o controle e a gestão dos
recursos disponíveis sejam efectivados localmente pelas populações autóctones,
respeitando a sua autenticidade sociocultural, de forma a conservar o seu património
cultural vivo e edificado, e os seus valores tradicionais, e a contribuir para a
compreensão intercultural e a tolerância.
Desta forma apresenta-se na Tabela 8 uma síntese dos potenciais impactos
dos Desportos de Natureza, enquanto elemento dinamizador da oferta turística, nas
dimensões ambiental, económica e sociocultural.
180
Tabela 8. Impactos do turismo e dos Desportos de Natureza nos destinos e na
sustentabilidade do desenvolvimento local.
Dimensões Positivos Negativos
- Poluição sonora e visual
- Erosão do solo
- Criação de planos e programas de
- Sobrelotação e congestionamento
preservação de áreas naturais
- Excessivo consumo de água
- Investimento em medidas de
Ambiental protecção da natureza - Poluição da água e do ar
- Promoção do contacto directo com - Destruição da paisagem natural
a natureza - Destruição da fauna e da flora
- Degradação de monumentos e da
paisagem de sítios históricos
Fonte: adaptado de Hall e Page (2006) Holloway (1998), Ignara (2003), Mathieson e Wall
(1996) e Ruschmann (2008).
181
A questão económica é bem evidente nos Desportos de Natureza, pois os
actores económicos foram os primeiros a perceber o interesse do desenvolvimento
destas práticas, por razões evidentes de lucro. Na interface do desporto, do lazer e
do turismo, os Desportos de Natureza correspondem ao segmento de mercado que
mais cresce em termos económicos, já que não se reservam só à procura local para
o lazer desportivo, mas também aos numerosos turistas consumidores de serviços
desportivos e de prestação de serviços conexos, associado à crescente procura em
matéria dos desportos de natureza nas últimas décadas (Bessy & Mouton, 2004).
Parece evidente que o volume de negócios gerado pelo consumo do lazer e do
turismo desportivo na natureza e actividades acessórias tem tido um crescimento
líquido, cuja tendência tem sido no sentido da progressão do mercado dos
equipamentos desportivos de natureza, do crescimento das instalações indutoras de
práticas pagantes (vias ferrata, parques desportivos de natureza, espaços lúdicos,
eventos, bacias de águas vivas), da progressão do aluguer de material (canoagem,
material de canyoning e de via ferrata, etc.) e do crescimento da oferta de produtos
propostos por prestadores de serviços (Corneloup & Bourdeau, 2004), gerando
empregos directos neste sector da actividade através das organizações públicas
(ligas, comités, clubes, associações), e organizações comerciais (empresas de
serviços de enquadramento, de formação, etc.). Ainda se salienta, sem dúvida, que
estas práticas, associadas ao turismo, geram benefícios indirectos nas indústrias
hoteleiras e na restauração, no decorrer de estadias curtas ou longas.
A nível sociocultural, os Desportos de Natureza desempenham um papel no
equilíbrio das comunidades, pois são mobilizadores dos diferentes actores a fim de
promoverem uma prestação de serviços de qualidade (financeiros, produtores,
distribuidores, promotores, serviços conexos), criando uma dinâmica de parceria
social em torno de um ramo de actividade; são unificadores das diferenças sociais
(género, idade, grupo social), incluindo pessoas de diferentes origens, através de um
duplo efeito: do processo de diversificação da oferta e da mudança dos modos de
sociabilidade; são integradores de públicos específicos (populações especiais,
handicaps, jovens em inserção); participam na construção de processos da
identidade local (população local), e de grupos sociais particulares (e.g. jovens)
(Bessy & Mouton, 2004).
Os territórios são, em geral, cada vez mais moldados pelas práticas
desportivas, pois a frequentação desportiva dos espaços naturais tornou-se, hoje em
182
dia, um fenómeno social. A natureza está em grande parte a ser investida por uma
população em busca de autenticidade, de relaxamento e de aventura, que coloca o
problema da regulação dos fluxos para evitar a degradação dos espaços. Esta
constatação exige aos diferentes actores a tomada de consciência do papel dos
desportos de natureza. Bessy e Mouton (2004) colocam a tónica do contributo dos
desportos de natureza na vertente ambiental e territorial assente na questão da
protecção ambiental, na valorização do património natural, na estruturação do
território, e na construção de uma imagem turística forte:
i) Protecção ambiental: as diversas instalações criadas (trilhos, pistas, rotas,
áreas de descolagem e aterragem, bóias de amarração, caminhos submersos, lojas,
estacionamento, etc.) contribuíram para delimitar os espaços de prática, os
alojamentos e os estacionamentos, evitando, assim, o uso anárquico do ambiente
natural, permitindo que os praticantes possam desfrutar da natureza sem a
prejudicar. Os Desportos de Natureza favorecem num primeiro passo uma
descoberta activa e sensível do património e, num segundo passo, uma apropriação
e defesa deste último, pois os praticantes que imergem na natureza estão cientes da
beleza e da riqueza desses lugares. Os Desportos de Natureza aparecem, assim,
como um estímulo à construção de uma ecocidadania;
ii) Promoção do património natural: a integração bem-sucedida das
diferentes instalações no ambiente natural, através do uso de materiais naturais e de
uma arquitectura adequada, tem contribuído par a qualidade ambiental dos locais. O
património cultural local (arquitectura, gastronomia, folclore) é cada vez mais
associado a estas práticas, que são organizadas por hibridação com a dimensão
cultural. Assim, o desenvolvimento dos Desportos de Natureza permite valorizar as
zonas naturais, quer através de trilhos interpretativos, mas também de actividades
que permitem a descoberta de uma região ou local, tais como o BTT, caminhadas,
cavalgadas, esqui, canoagem, canyoning, mergulho, e parapente;
iii) Estruturação do território: o território português é marcado pelos
desequilíbrios regionais entre as zonas urbanas e as zonas rurais, em especial entre
o litoral e o interior. Os lazeres e o turismo desportivo de natureza desempenham um
papel significativo no reequilíbrio das zonas rurais que apresentam um enorme
potencial natural mas que são negligenciados e menos eficientes no plano da
economia turística tradicional. Eles podem, de facto, através das várias instalações
necessárias para a prática (e.g. trilhos, estações de esqui, de BTT, de vela, de surf,
183
portos, centros de lazer, centros equestres, áreas de descolagem, vias de escalada,
lojas, etc.) modificar o fluxo de utilizadoras e revitalizar essas áreas, criando um
ramo de actividade económica, incluindo vários prestadores de serviços (e.g.
enquadramento, entretenimento e aluguer desportivo, alojamento, restauração, lojas
de artesanato, etc.);
iv) Construção de uma imagem turística forte: os territórios são, por
excelência, lugares emblemáticos, na medida em que simbolizam a imagem de uma
região. Os Desportos de Natureza e, mais precisamente, a sensação imaginária que
transmitem está directamente envolvida na construção da imagem de várias regiões,
com alto potencial natural (e.g. serra do Gerês associado às caminhadas, serra da
Estrela associada ao montanhismo, serra da Lousã associada ao BTT, Peniche
associado ao surf). É possível, assim, através da originalidade e do imaginário das
suas actividades emblemáticas, efectuar uma comunicação global colocando em
evidência a identidade do território.
No entanto, é necessário ter em atenção este tipo de retórica porque o facto
de estas práticas se assumirem como salvaguarda da natureza e dos territórios
associados, não quer dizer que na realidade não sejam provocados impactos
negativos sobre estes. Não se pode negar que são gerados impactos, sendo o seu
maior ou menor grau de intensidade, decorrente de determinados factores, como as
características das actividades, do número de participantes, da consciencialização e
das condutas adoptadas na realização das práticas, da fragilidade do ecossistema, e
dos meios técnicos e mecânicos utilizados, etc. (Betrán & Betrán, 1995a).
A este respeito, Bessy & Mouton (2004) referem alguns dos limites da
contribuição dos Desportos de Natureza para a sustentabilidade do desenvolvimento
local, que devem ser considerados nas diversas dimensões:
a) Limites ambientais e territoriais: a popularidade dos Desportos de Natureza
tem provocado a superlotação de alguns lugares que parecem ter atingido a sua
capacidade de carga máxima, acelerando perigosamente a degradação ambiental.
Da mesma forma, a banalização do ambiente por muitos profissionais é um limite
real em termos de protecção ambiental. A valorização do património e a estruturação
do território não podem ser exclusivos dos Desportos de Natureza pela existência de
outros parâmetros relevantes (políticas gerais de desenvolvimento, natureza das
infra-estruturas rodoviárias e imobiliárias, dinamismo económico de outros
prestadores, pressão das actividades agrícolas e industriais, etc.). A construção de
184
uma identidade regional é um processo complexo que não pode ser confinado
apenas ao vector desportivo;
b) Limites económicos: o peso da carga fiscal, as actividades paralelas
geradoras de concorrência desleal, a dificuldade de obter apoio financeiro para o
início da actividade, assim como a fragilidade das estruturas (um só empregado,
margens de lucro baixas, etc.) têm consequências negativas em matéria de
contratação de colaboradores. A falta de profissionalismo de muitas empresas na
concepção, organização e comunicação da oferta provoca um desfasamento com a
procura e induz deficiências significativas em termos financeiros;
c) Limites socioculturais: estes limites cristalizam-se principalmente através de
dois tipos de conflito. Primeiro, os conflitos de interesse que são identificados entre
várias pessoas: entre os diferentes actores estruturantes da oferta (actores
desportivos, actores políticos e agentes económicos) que não perseguem os
mesmos objectivos, cujas tensões são palpáveis no desenvolvimento de certas
actividades (e.g. canyoning, escalada, parapente), assim como na exploração dos
territórios; entre a população que vive do turismo e a que não tem qualquer
benefício, ficando fora do desenvolvimento; as relações, por vezes difíceis, entre
turistas e moradores locais que se sentem que estão a ser invadidos e despojados
da sua cultura tradicional. Em segundo lugar, os conflitos de utilização dos espaços,
existentes entre os praticantes nos territórios procurados: este é o caso do surf, mas
também entre os seguidores de hipismo, caminhadas e BTT, ou entre diferentes
clientes das estâncias de esqui. A diversidade de práticas e de lugares pede
prudência para evitar relações por vezes demasiado simplistas ou ilusórias entre
uma sociedade em mudança e os Desportos da Natureza vistos como redentores;
d) Limites desportivos: mais recentes e sobretudo menos dotados em licenças
que os desportos tradicionais, os Desportos de Natureza estão a lutar para serem
reconhecidos no campo desportivo. Isso reflecte a história destas actividades, que
permaneceram por muito tempo fora do quadro competitivo (e.g. escalada, surf,
etc.), faltando, ainda hoje, um quadro competitivo para algumas delas (e.g.
caminhadas, canyoning, mergulho, etc.). Os Desportos de Natureza apresentam,
portanto, uma imagem muito mais associada ao lazer do que ao desporto, situação
que não favorece o desenvolvimento de ligas e de comissões, que na maioria das
situações não têm os meios humanos e financeiros necessários para as suas
ambições;
185
e) Limites políticos: a timidez das autoridades locais no desenvolvimento dos
desportos de natureza é visível na ausência, muitas vezes observada, de uma
política de turismo desportivo. A ausência de uma cultura em matéria de desportos
de natureza, entre muitos políticos eleitos, está associada às falsas representações
e crenças que possuem sobre estes desportos, relacionadas com o
desconhecimento do perfil sociológico dos praticantes, e com o peso do imaginário
do risco e insegurança associado a estes desportos.
186
III. A PROBLEMÁTICA E OS
OBJECTIVOS DO ESTUDO
3.1. NOTA INTRODUTÓRIA
Os Desportos de Natureza e o desenvolvimento local sustentável
apresentam-se como a problemática central desta tese. A selecção do tema dos
Desportos de Natureza como principal objecto de análise deste estudo advém do
facto destes serem actualmente um dos fenómenos sociais com maior relevância
nos sectores do desporto, do turismo e do lazer. O seu crescimento pode ser
evidenciado por diversos indicadores, entre os quais a produção de legislação
sectorial própria, o marketing associado à venda de produtos e de equipamentos, o
aumento do número de actividade e de eventos, mas também o reconhecimento da
imagem que estas actividades têm criado associada à atractividade dos territórios
dos destinos turísticos, quer seja como produto principal ou complementar.
Apesar do sector dos Desportos de Natureza estar em franca expansão, os
estudos neste domínio são ainda pouco numerosos, o que torna pertinente o
desenvolvimento de abordagens que permitam interpretar as suas diversas
componentes. Após a análise da literatura onde se procuraram informações
sistematizadas sobre estas práticas, confirmou-se que este é um vasto e complexo
campo que permite o desenvolvimento da investigação nos vários domínios das
Ciências Sociais. Este facto, se por um lado alarga o potencial da investigação neste
domínio, induz por outro alguns problemas na delimitação do objecto de estudo, na
definição da problemática e dos objectivos, assim como da metodologia a
empreender. Procura-se assim neste capítulo enquadrar este estudo, definindo o
problema, e os objectivos que delimitam as conclusões finais do trabalho.
189
evidenciando-se todavia um maior interesse pela análise da oferta e da procura. É
neste sentido que surge a necessidade conceptual e empírica de caracterizar os
dois principais actores a actuar neste campo, os praticantes dos Desportos de
Natureza e as organizações que promovem estas actividades.
Ao desenvolver um trabalho de investigação orientada para a análise da
oferta e da procura, procura-se concretizar um conjunto de problematizações
conceptuais de natureza social que respondem à insuficiência de informação
empírica pormenorizada e actualizada sobre as práticas dos Desportos de Natureza.
Embora nas últimas décadas se tenham realizado alguns trabalhos próximos desta
temática, poucos têm sido os trabalhos que em Portugal se têm dedicado ao
escrutínio sistemático destas duas componentes dos Desportos de Natureza, e tão
pouco ainda quanto ao seu grau de adequação.
Pelo lado da procura importa identificar e compreender a diversidade de
praticantes dos Desportos de Natureza. A caracterização dos praticantes, tendo por
base o seu perfil sociodemográfico, permitirá evidenciar algumas assimetrias na
participação que previsivelmente se farão sentir, tal como noutros estudos da
participação desportiva em geral (European Commission, 2010), assim como em
particular nos Desportos de Natureza, noutros países (Betrán & Betrán, 1998;
Pociello, 1981). É importante também como elemento da caracterização dos
praticantes identificar o seu estilo de vida, em especial relacionado com as práticas
de lazer e uso dos tempos livres, mas também em relação ao seu perfil de prática,
para que seja possível a definição de estratégias de marketing pelas diferentes
organizações, consoante o perfil do seu grupo alvo, e uma adequação da oferta de
Desportos de Natureza, tal como sugere Chazaud (2004). A identificação das
actividades dos Desportos de Natureza que os indivíduos praticam ou que gostariam
de praticar é também importante para perceber as actividades que apresentam o
maior potencial de desenvolvimento em Portugal, mas também para recolher dados
sobre a satisfação na procura, assim como descortinar as práticas que poderão
representar a maior procura (satisfeita e potencial), permitindo assim estabelecer
uma política de desenvolvimento desportivo.
Do lado da oferta importa obter informação estruturada sobre as organizações
que promovem os Desportos de Natureza em Portugal. Torna-se Importante
identificar e compreender os diversos tipos de organizações que promovem os
Desportos de Natureza em Portugal e estabelecer o perfil de cada tipologia de
190
organização. A análise e a caracterização das actividades realizadas pelas
diferentes organizações permitem indicar o seu potencial de desenvolvimento em
cada uma das diferentes áreas (comercial, federado competitivo, lúdico associativo),
tal como Pociello (1989) evidencia. A composição da oferta em relação ao âmbito
organizacional, competências e formação dos técnicos, e estratégias de marketing é
igualmente importante para compreender as formas de gestão de cada tipo de
organização, para que se possam evidenciar as melhores práticas de gestão. A
perspectiva dos dirigentes das organizações para o sector dos Desportos de
Natureza é também importante para compreender a tendência de crescimento e de
desenvolvimento do sector em geral, e de alguns segmentos em particular. Para
compreender a procura dos Desportos de Natureza no contexto organizacional é
também importante traçar o perfil geral dos praticantes dos Desportos de Natureza
neste contexto. Os dados da oferta e da procura a nível organizacional permitem
apresentar várias propostas para ajudar a melhorar a gestão das organizações e as
políticas de desenvolvimento dos Desportos de Natureza.
O crescimento deste sector também tem criado uma pressão acrescida nos
locais de destino das práticas dos Desportos de Natureza, pressupondo a ocorrência
de um conjunto de impactos positivos e/ou negativos. A mediatização destas
práticas, e dos seus impactos, tem levantado diversas questões relativas ao
desenvolvimento sustentável, em especial ao desenvolvimento local. Esta tem sido
aliás uma problemática central na temática dos Desportos de Natureza, quer no
domínio público quer nos meios académicos e científicos. Neste contexto tem-se
assistindo a uma polarização das posições entre aqueles que apresentam uma
retórica desenvolvimentista, em especial do domínio político, que associa estas
práticas a importantes benefícios para as comunidades locais, em especial
económicos e, por outro, os ambientalistas mais radicais que tendem a evidenciar
apenas os impactos ambientais negativos que potencialmente advêm da realização
destas práticas, em especial nas áreas protegidas. No entanto estas posições são
na sua generalidade marcadas apenas por orientações ideológicas, e não baseadas
em evidências científicas pela própria ausência de estudos sobre a matéria. É neste
sentido que surge a necessidade social e o interesse conceptual de identificar os
impactos (ambientais, socioculturais e económicos) dos Desportos de Natureza no
desenvolvimento local das comunidades de destino. A análise dos comportamentos
destes actores nos locais de destino, nas três dimensões do desenvolvimento
191
sustentável (ambiental, económico e sociocultural), conjugados com as suas
percepções sobre os impactos permitem identificar e entender os possíveis
benefícios dos Desportos de Natureza, e as suas potencialidades para estruturar o
território e promover o desenvolvimento local, fornecendo informações estruturadas
para o processo de tomada de decisões pelas diversas partes interessadas.
192
apontadas pelos praticantes? Quais os constrangimentos associados às
diferentes actividades?
1.6. Quais são os segmentos actuais da prática dos Desportos de Natureza
em Portugal? Quais são as principais razões para cada grupo praticar
Desportos de Natureza? Qual é o perfil de cada segmento?
1.7. Que similaridades são encontradas na literatura entre os segmentos de
praticantes dos Desportos de Natureza em Portugal e noutros países?
Terão eles perfis comuns?
2. Caracterizar as organizações que promovem Desportos de Natureza, em
Portugal continental, identificando o perfil geral da organização, as características da
oferta das actividades, as características da procura das actividades dos Desportos
de Natureza, e o perfil do seu dirigente.
2.1. Que OPDN operam em Portugal? Qual é o perfil geral de cada tipo de
OPDN?
2.2. Como é composta a oferta das OPDN? Quais são as diferenças na
oferta entre os diferentes tipos de OPDN?
2.3. Como é composta a procura dos Desportos de Natureza nas OPDN?
Existem diferenças na procura entre cada tipo de OPDN?
2.4. Quais são as principais perspectivas de crescimento do sector? Quais
são as actividades que apresentam um maior potencial de crescimento?
Que actividades apresentam maior potencial para serem desenvolvidas
em cada um dos âmbitos?
3. Identificar os impactos (ambientais, económicos e socioculturais) que
decorrem na sustentabilidade do desenvolvimento local, partindo da percepção dos
agentes promotores e dos praticantes dos Desportos de Natureza.
3.1. Qual é a percepção dos praticantes e dos dirigentes das OPDN sobre os
impactos ambientais, económicos e socioculturais dos Desportos de
Natureza? Quais as diferenças entre a percepção dos praticantes e dos
dirigentes das OPDN?
3.2. Qual é a percepção dos praticantes e dos dirigentes das OPDN sobre a
repercussão dos impactos ambientais, económicos e socioculturais dos
Desportos de Natureza no desenvolvimento local? Quais as diferenças
entre a percepção dos praticantes e dos dirigentes das OPDN?
193
3.3. Quais os comportamentos dos praticantes e dos dirigentes das OPDN
nos locais de destino das práticas dos Desportos de Natureza, nas
dimensões ambiental, económica e sociocultural?
3.4. Qual é o perfil de consumo relacionado com a actividade turística
apresentado pelos praticantes dos Desportos de Natureza?
194
IV. METODOLOGIA
4.1. NOTA INTRODUTÓRIA
Este capítulo procura apresentar e justificar a abordagem metodológica
utilizada neste estudo. A opção por determinados objectos de estudo, em conjunto
com a definição do problema da investigação, são determinantes para a escolha da
metodologia utilizada. Assim, para dar expressão ao propósito desta tese, e face aos
objectivos estabelecidos, optou-se pela realização de dois estudos empíricos,
utilizando-se uma metodologia extensiva, através da aplicação de inquéritos por
questionário aos praticantes e aos promotores dos Desportos de Natureza. A
delimitação geográfica dos estudos foi restringida ao território de Portugal
continental, com o intuito de recolher dados num espectro territorial mais alargado,
para conseguir estabelecer um panorama geral sobre estes agentes que actuam no
campo dos Desportos de Natureza.
O inquérito por questionário, como todos os instrumentos de recolha de
dados, apresenta um conjunto de vantagens e de limitações (Hill & Hill, 2008;
Moreira J. M., 2009). Apesar de toda a carga imposta pelas limitações teóricas e
metodológicas, particularmente em relação às condições sociais em que os
discursos são produzidos, os questionários permitem um estudo extensivo e
sistemático das formas e dos conteúdos (Gomes R. A., 2005c) das práticas dos
Desportos de Natureza, dos seus praticantes, e dos agentes que as organizam. O
questionário ao permitir a recolha de informação em grande quantidade (Veal, 2006)
perfila-se como o método mais adequado para um estudo desta natureza. Para além
do mais, os inquéritos por questionário contribuem para uma rápida recolha de
informação, com um menor custo, para uma maior facilidade de análise, e também
para uma maior comparabilidade dos dados (Gomes R. A., 2005c).
Neste capítulo são apresentados os procedimentos metodológicos utilizados
para a selecção das actividades dos Desportos de Natureza que foram alvo de
análise especifica neste trabalho, através da determinação de critérios que
permitiram a inclusão e/ou exclusão de actividades. As populações do estudo (os
praticantes e as organizações que promovem as actividades dos Desportos de
Natureza) são apresentadas na terceira secção. Para o efeito apresenta-se também,
no caso concreto das OPDN, as entidades que foram consultadas para a recolha
dos dados gerais das organizações (número, nome e contactos). Nesta secção são
também determinados os critérios para a selecção da amostra das duas populações.
Na quinta secção descrevem-se os procedimentos utilizados para a recolha dos
197
dados, e por fim, na última secção apresentam-se os métodos e as técnicas
utilizadas no tratamento dos dados recolhidos através dos questionários.
198
2) Praticantes não formais: constituídos por praticantes em clubes
desportivos e associações, quer estejam, ou não, filiados em federações
desportivas, mas que não participem em competições desportivas federadas, e os
praticantes em clubes de praticantes e em EAT;
3) Praticantes informais: constituídos por praticantes que realizam as suas
práticas de forma autónoma (auto-organizada), quer seja de forma individual ou com
companhia (família, amigos, etc.)
Considerando que não foi possível determinar o universo dos praticantes de
Desportos de Natureza em Portugal continental, procurou-se aplicar o questionário a
uma amostra intencional com preocupações de equilíbrio, tendo em conta os
seguintes critérios:
a) por prática de actividade, de acordo com as 23 actividades seleccionadas;
b) por tipologia de praticante (formais, não formais e informais);
c) por idade, sexo e região (18 distritos de Portugal continental).
199
3) Associações (ambientalistas, culturais, recreativas e afins): foram
consultadas as Federações Desportivas ou APD que tutelam actividades dos
Desportos de Natureza, obtendo-se os dados das associações inseridas no CAE
93192 (outras actividades desportivas, n.e), 93294 (outras actividades de diversão e
recreativas, n.e.), 94991 (associações culturais e recreativas), 94992 (associações
de defesa do ambiente), 94995 (outras actividades associativas, n.e.), entre outras,
que tenham promovido, pelo menos, uma das 23 actividades dos Desportos de
Natureza definidas no âmbito deste estudo;
4) Clubes de praticantes: foi consultado o Registo Nacional de Clubes e
Federações Desportivas (RNCFD), obtendo-se os dados dos clubes de praticantes
inseridos no CAE 93120 (actividades dos clubes desportivos). Posteriormente foram
seleccionados aquelas que previam no seu objecto social o desenvolvimento de uma
das 23 actividades dos Desportos de Natureza definidas no âmbito deste estudo.
De acordo com os dados obtidos através da consulta às referidas entidades
que tutelam as actividades dos Desportos de Natureza, foram identificadas 1479
organizações que promoveram estas actividades, em Portugal continental, no ano
de 2010. Dessas, 1024 (69,2%) são clubes desportivos e associações que se
encontram inscritos nas diversas federações desportivas, 115 (7,8%) são clubes de
praticantes inscritos no RNCFD, e 340 (23%) são EAT inscritas no RNAAT, tal como
se mostra no Gráfico 1.
200
Uma apresentação mais detalhada das OPDN que operam em Portugal
continental é efectuada no capítulo seguinte (apresentação e discussão dos
resultados).
A amostra das OPDN, para efeitos deste estudo, foi definida tendo em conta
os seguintes critérios:
- Representatividade por tipologia de OPDN, considerando-se as quatro
tipologias definidas;
- Representatividade por actividade, de acordo com as 23 actividades
seleccionadas;
- Representatividade regional das OPDN, ao nível dos 18 distritos de Portugal
continental.
201
6) Planear as secções do questionário.
- Depois de elaborada a primeira versão dos questionários (v.1) decorreram
reuniões com um conjunto (5) de peritos das diversas áreas das Ciências Sociais e
das Ciências do Desporto. As reuniões foram efectuadas individualmente, tendo sido
discutidas as variáveis e as perguntas do questionário, e recolhidas sugestões para
a sua melhoria, de acordo com os princípios definidos por Hill e Hill (2008, pp. 89-
104):
a) As perguntas estão bem escritas e solicitam o tipo de informação que se
pretende?
b) As perguntas pedem respostas a factos sensíveis, a detalhes
desconhecidos ou levam os respondentes a gastar muito tempo na
recolha da informação?
c) As perguntas são possíveis de ser analisadas?
d) As perguntas são claras e a sua extensão é adequada?
e) O questionário é de fácil preenchimento, não existindo perguntas
múltiplas e neutras, e possibilita respostas alternativas?
f) A terminologia utilizada é simples e acessível à população do estudo?
- Após as reuniões com os peritos foram efectuadas alterações, tendo em
conta as sugestões apresentas. Objectivando a verificação da adequação das
questões anteriormente formuladas foi aplicada a nova versão (v.2) dos
questionários a uma amostra (n=20) de praticantes, e a uma amostra (n=5) de
dirigentes, semelhantes aos da nossa população-alvo. Estes questionários foram
aplicados in situ, através de uma versão do questionário elaborada em papel. Depois
do preenchimento do questionário, por parte dos indivíduos (praticantes e
dirigentes), estes foram convidados a falarem sobre qualquer problema encontrado
no preenchimento do questionário, em especial sobre as principais dificuldades
sentidas aquando do seu preenchimento. Numa fase posterior foram analisadas as
respostas de forma a verificar quais as questões que obtiveram poucas respostas,
no sentido de se perceber se estas eram ambíguas, sensíveis por solicitarem
informação demasiado pessoal ou solicitarem informação desconhecida. Foi
igualmente examinada a distribuição das respostas de cada uma das questões, com
o intuito de confirmar a existência de alguma questão que convidasse a uma
resposta socialmente correta, de alguma questão para a qual a opção de resposta
era muito restrita e limitada e de alguma questão em que a resposta alternativa era
202
inadequada (Hill & Hill, 2008). Estes procedimentos levaram à reformulação e
mesmo à eliminação de algumas questões. Foi também registado o tempo médio de
preenchimento dos (dois) questionários, considerados de bastante longo: 45 minutos
em cada questionário;
- Após a etapa anterior foi elaborada uma nova versão (v.3) dos (dois)
questionários, alterando os itens que mereceram reparo. Esta nova versão foi
aplicada novamente a uma amostra relativamente numerosa de praticantes (n=90) e
dirigentes (n=5) da nossa população-alvo (Moreira J. M., 2009), de forma a verificar
a adequação das perguntas, e das escalas de resposta do questionário (Hill & Hill,
2008). Foi novamente registado o tempo médio de preenchimento dos (dois)
questionários (30 minutos). Salienta-se que esta versão (v.3) dos dois questionários
já correspondeu à aplicação na plataforma online;
- Depois de analisados os dados da aplicação da versão anterior do
questionário, e tendo em conta o facto de os (dois) questionários continuarem a ser
muito extensos, procederam-se às devidas alterações. Para o efeito, estas versões
foram submetidas ao exame de novos peritos (2), de forma a reduzir o número de
variáveis e de questões. Depois de efectuadas as alterações, os novos questionários
(v.f.) foram aplicados a uma amostra relativamente reduzida (n=5 para o caso do
inquérito aos praticantes e n=2 no caso dos dirigentes das organizações), de forma a
testar a sua duração (20 minutos cada).
203
grau de frequência (1 – Nunca; 2 – Raramente; 3 - Às Vezes; Muitas Vezes; 5 -
Sempre), de importância (1 – Nada importante; 2 – Pouco Importante; 3 –
Importante; 4 – Muito importante; 5 – Totalmente importante), de associação (1 –
Não Associo Nada; 2 – Associo Pouco; 3 – Associo Moderadamente; 4 – Associo
Muito; 5 - Associo Totalmente), classificação (1 - Muito Negativo; 2 – Negativo; 3 –
Neutro; 4 – Positivo; 5 - Muito Positivo), e relevância (1- Irrelevante; 2 – Pouco
Relevante; 3 – Relevante; 4 – Muito Relevante; 5 – Totalmente Relevante).
Tabela 9. Objectivos e variáveis do questionário dirigido aos praticantes dos
Desportos de Natureza.
Objectivos Variáveis
204
sociodemográfica dos respondentes (questões 49 a 56). A Tabela 10 apresenta os
objectivos e das variáveis utilizadas no inquérito por questionário aplicado às OPDN
(anexo 2).
O questionário foi constituído maioritariamente por questões de resposta
fechada, utilizando-se para o efeito escalas nominais, ordinais e contínuas. No
último caso optou-se sempre por escalas de cinco ponto, respondidas segundo o
grau de importância (1 - Nada importante; 2 - Pouco Importante; 3 - Importante; 4 -
Muito importante; 5 - Totalmente importante), classificação (1 - Muito Negativo; 2 -
Negativo; 3 - Neutro; 4 - Positivo; 5 - Muito Positivo), e relevância (1- Irrelevante; 2 -
Pouco Relevante; 3 - Relevante; 4 - Muito Relevante; 5 - Totalmente Relevante).
Tabela 10. Objectivos e variáveis do questionário dirigido às Organizações
Promotoras dos Desportos de Natureza.
Objectivos Variáveis
Perfil geral da Sede Social; Âmbito territorial de intervenção; Idade; Fundação;
organização Tipologia; Objecto Social; Forma jurídica; Dimensão; Missão
Oferta de actividades dos Desportos de Natureza; Actividades
complementares aos Desportos de Natureza; Espaços de prática;
Caracterização da oferta Âmbito de organização das actividades; Critérios de segmentação das
actividades/serviços; Equipamentos e infra-estruturas; Estratégias de
promoção e comercialização.
205
praticantes e EAT), facebook, blogspots e sites das federações, das OPDN e de
praticantes.
O inquérito por questionário, designado por Questionário aos Praticantes dos
Desportos de Natureza - 2011 (QPDN2011), foi inserido numa plataforma informática
online ([Link] durante os meses de
Setembro e Dezembro de 2011, e as respostas foram todas obtidas através dessa
aplicação. Responderam ao questionário um total de 2174 praticantes, dos quais
apenas 1126 válidos (concluídos) e, portanto, alvo da nossa análise.
206
O inquérito por questionário, designado por Questionário às Organizações
Promotoras dos Desportos de Natureza - 2011 (QOPDN2011), foi inserido numa
plataforma informática online ([Link]
durante os meses de Setembro e Dezembro de 2011, e as respostas foram todas
obtidas através dessa aplicação. Foram enviados 292 questionários (convites com
códigos para preenchimento do questionário online) a dirigentes das OPDN.
Obtiveram-se um total de 221 respostas, 55 das quais não completas e portanto não
validadas. Assim, foram obtidos 166 inquéritos válidos, o que corresponde a uma
amostra de 11% do total das OPDN consideradas.
207
apresentados em tabelas de frequências, gráficos de barras ou gráficos circulares,
como descrito por Marôco (2010, pp. 32-48).
- As variáveis quantitativas, medidas em escalas de razão (e.g. idade),
seguiram um tratamento estatístico usando-se as medidas de tendência central
(moda e média), tendência não central (quartis), e de dispersão (desvio padrão),
como indicado em Marôco e Bispo (2003, pp. 21-42).
- Algumas variáveis medidas em escalas de razão (e.g. idade), foram
convertidas posteriormente em escalas ordinais, através do agrupamento dos
valores (e.g. grupos de idade), realizando-se, depois, o mesmo tratamento que o
descrito para as escalas ordinais. Os resultados foram descritos e apresentados em
tabelas de frequências e gráficos de barras, como descrito por Marôco (2010, pp.
32-48).
Depois de caracterizadas as variáveis, foi efectuada uma comparação de
contagens e proporções entre as variáveis independentes (sexo, grupo de idade,
estado civil, condição e situação perante o trabalho, grupo profissional, nível de
instrução e rendimentos) e as variáveis dependentes (e.g. práticas de lazer e uso
dos tempos livres, passado desportivo, etc.). Foram verificadas, também, as
relações entre as variáveis: i) práticas de lazer e uso dos tempos livres; ii) passado
desportivo; iii) modalidades preferidas; iv) modalidades praticadas com maior
frequência; v) razões param a prática dos Desportos de Natureza; vi)
representações dos Desportos de Natureza; vii) classificação dos impactos dos
Desportos de Natureza, e entre estas e as restantes variáveis. Como as variáveis
são qualitativas, com escalas de medida nominais ou ordinais, e as amostras são
independentes, utilizou-se um teste não paramétrico, o teste do Qui-quadrado (א2)
de independência implementado no software de análise estatística SPSS (v.21;
SPSS Inc, Chicago, IL), como descrito em Marôco (2010, pp. 113-120). O teste do
Qui-quadrado testa se duas ou mais populações (ou grupos) independentes diferem
relativamente a uma determinada característica, e utiliza-se para testar se duas
variáveis são ou não independentes (Marôco, 2010; Marôco & Bispo, 2003). Para a
aplicação deste teste foi necessário verificar as condições para a sua realização,
nomeadamente (Marôco, 2010):
i) Exclusivamente para variáveis nominais e ordinais;
ii) Observações independentes;
iii) Preferencialmente para amostras superiores a 20;
208
iv) Pelo menos 80% das observações sejam superiores a 5;
v) Não pode haver frequências inferiores a 1;
Nos dois últimos casos, quando existiram incidências desta ordem, tentaram-se
agrupar os dados segundo um critério específico, de forma a garantir essas
condições, tal como descrito em Marôco (2010, p. 117). Nos casos em que não foi
possível reunir as condições de realização do teste (inclusive o agrupamento dos
dados), aplicou-se o teste do Qui-quadrado por simulação de Monte Carlo, “(…) que é
um método estatístico que procura determinar a probabilidade de ocorrência de uma
determinada situação experimental, através de um conjunto elevado de simulações,
baseado na geração aleatória de amostras a partir do conhecimento empírico da
população em estudo” (Marôco, 2010, p. 117).
Nos ensaios de hipóteses existem quatro resultados possíveis (Pestana &
Gageiro, 2003, p. 134):
a) Duas decisões corretas: aceitar a H0 quando ela é verdadeira, ou rejeitar a
H0 quando ela é falsa;
b) Dois tipos de erro: o erro tipo I, α, ou nível de significância, e o erro do tipo
II ou β.
O erro tipo I é a probabilidade de rejeitar erradamente a H0, enquanto o erro
tipo II é a probabilidade de aceitar incorrectamente a H0. Se o valor do erro tipo I
escolhido (p-value) foi menor ou igual ao erro tipo I associado ao teste (sig), rejeitou-
se a hipótese nula e aceitou-se a hipótese alternativa, e se o valor de p-value foi
maior que sig não se rejeitou a hipótese nula, e no caso em que o valor observado
do teste se considere significativo (Marôco, 2010, p. 134). Os valores escolhidos
para o erro tipo I (p-value) foram 0,01 e 0,05.
As hipóteses a testar no teste de independência foram as seguintes:
H0: as variáveis x e y são independentes
H1: as variáveis x e y não são independentes
Quando existiu uma relação de dependência entre duas variáveis (rejeição da
H0) avaliou-se o grau de associação existente, recorrendo a medidas de associação
(Marôco, 2010, p. 133). Neste caso, como as variáveis são nominais e em alguns
casos ordinais, a relação entre as variáveis foi abordada através da análise das
tabelas de contingência de referência cruzada, com as células compostas pelos
valores observados e esperados, pressupondo a independência das variáveis e os
resíduos ajustados estandardizados (RAE). As medidas de associação basearam-se
209
no Qui-quadrado, estimando-se o grau de associação entre as variáveis através do
Coeficiente de Contingência e do V de Cramer quando, pelo menos, uma das
variáveis era nominal, e o Ró de Spearman para a relação entre duas variáveis
ordinais, tal como descrito por Marôco (2010).
As medidas de associação variam normalmente entre 0 e 1, isto é, desde a
ausência de relação (valor 0) até à relação perfeita entre as variáveis (valor 1). Os
valores baixos indicam uma pequena associação entre as variáveis enquanto os
valores elevados indicam uma grande associação entre as variáveis (Pestana &
Gageiro, 2003, p. 151). Para Cohen (1988), valores entre 0,10 e 0,29 podem ser
considerados baixos (associação fraca); valores entre 0,30 e 0,49 podem ser
interpretados como médios (associação moderada); valores entre 0,50 e 1 podem
ser considerados como altos (associação forte);
Os resíduos ajustados, na forma estandardizada, foram utilizados para
identificar as células da tabela de contingência com comportamentos
significativamente diferentes do comportamento esperado entre variáveis
independentes. Estes informam sobre as células que mais se afastam da hipótese
de independência entre as variáveis. O numerador deste resíduo é dado pela
diferença entre os valores observados e os valores esperados, enquanto o
denominador é uma estimativa do seu erro amostral. Deste modo, estes resíduos
serão positivos quando o valor observado for maior que o valor esperado e
negativos quando o valor observado for menor que o valor esperado. As categorias
das variáveis que mais contribuem para explicar a relação existente apresentam
resíduos inferiores a -1,96 ou superiores a 1,96 (Pestana & Gageiro, 2003, p. 140).
210
V. APRESENTAÇÃO E
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
5.1. NOTA INTRODUTÓRIA
Neste capítulo são apresentados os resultados dos (dois) questionários
aplicados aos praticantes e aos dirigentes das organizações que promovem os
Desportos de Natureza. A apresentação é dividida em cinco partes distintas,
incluindo esta. De seguida apresenta-se a caracterização dos praticantes, em
relação às características sociodemográficas, ao estilo de vida relacionado com o
lazer, e ao perfil da prática. Segue-se a apresentação das características das OPDN,
no que se refere ao seu perfil, à sua oferta e procura, e à caracterização dos
dirigentes que responderam ao questionário. A caracterização da percepção dos
impactos dos Desportos de Natureza na sustentabilidade do desenvolvimento local e
dos comportamentos nos locais de destino é apresentada na quarta secção deste
capítulo. Por fim, na quinta secção apresentam-se os resultados do perfil dos
segmentos dos praticantes dos Desportos de Natureza. Salienta-se ainda que em
cada uma das secções, para além da apresentação dos resultados, faz-se também a
sua discussão com base nos resultados retirados da literatura. No final de cada uma
das secções apresenta-se uma síntese que expõe as principais conclusões obtidas.
213
desportivas) de 48%, e com a maior taxa de indivíduos que responde que não
participa em nenhuma actividade física (36%) (European Commission, 2010).
Destes dados destaca-se ainda o facto de a maioria (48%) dos indivíduos que
praticam alguma actividade física ou desporto na UE, a realizar em parques ou em
espaços naturais. Em Portugal, são 39% que indicam que realizam actividade física
nestes espaços (European Commission, 2010).
Em relação à filiação em clubes, os dados da média dos 27 países da UE
indicam que 12% da população pratica actividade física ou desporto num clube
desportivo, 9% num clube de fitness, 4% num clube sociocultural (de trabalhadores,
jovens, etc.), e 67% não são membros de nenhum clube. Portugal apresenta
resultados ligeiramente diferentes pois, a generalidade (82%) dos praticantes não
está afiliada a nenhum clube, e apenas 8% praticam num clube desportivo, 7% num
clube de fitness, 3% num clube sociocultural (de trabalhadores, jovens etc.)
(European Commission, 2010).
Os dados do Euro barómetro evidenciam, também, algumas diferenças
quando comparada a participação segundo o perfil sociodemográfico, em especial
no que se refere ao sexo, idade, nível de escolaridade, e capital económico
(European Commission, 2010):
- Os homens praticam mais que as mulheres: 43% dos homens afirmam
praticar desporto pelo menos uma vez por semana, enquanto apenas 37% das
mulheres o fazem; 49% dos homens afirmam que não praticam desporto, nem pelo
menos uma vez por semana, comparado com 57% das mulheres.
- A quantidade de pessoas que pratica desporto diminui progressivamente
com a idade: a maioria (61%) dos indivíduos dos 15-24 anos pratica desporto pelo
menos uma vez por semana; este valor decai para 44% no grupo etário dos 25-39;
40% para o grupo dos 40-54 anos de idade; 33% para o grupo dos 55-69; 22% na
faixa etária de 70 ou mais anos de idade.
- Existe uma forte ligação entre educação e a frequência da prática
desportiva: 64% das pessoas que deixaram o sistema educativo aos 15 anos de
idade dizem que nunca praticam desporto; este valor cai para os 39% no grupo que
deixou o ensino aos 16-19; e para 24% no grupo que deixou aos 20 ou mais anos de
idade. Como os maiores níveis de educação estão associados a melhor nível de
vida, os dados sugerem que os cidadãos da UE com maior grau de educação
equiparam condição física com qualidade de vida;
214
- As pessoas com problemas financeiros são muito mais propensas a ignorar
o desporto do que aquelas que estão em melhor situação financeira: 56% dos que
lutam para pagar as suas contas não praticam desporto, enquanto apenas 35% das
pessoas que quase nunca têm dificuldades para cumprir as suas obrigações
financeiras referem que nunca praticam.
Resumindo, Portugal apresenta índices de participação em actividades físicas
(desportivas e não desportivas) abaixo da média dos países da UE. Além disso,
enquadra-se nos padrões da UE no que diz respeito às diferenças de prática
desportiva entre sexos, idade, nível de escolaridade e rendimentos.
Sob esta perspectiva, denota-se a necessidade de caracterizar os praticantes
dos Desportos de Natureza, sabendo-se de antemão que a estrutura da procura das
experiências do Turismo de Natureza em Portugal é quase exclusivamente
doméstica (96%) (Turismo de Portugal, 2006a). Num breve resumo, o objectivo
desta secção é fornecer informações estruturadas sobre a caracterização dos
praticantes, as práticas de lazer e o uso dos seus tempos livres, as actividades dos
Desportos de Natureza que são realizadas por estes, e sobre o seu perfil de prática,
abordando as seguintes questões-chave:
1) Qual é a estrutura sociodemográfica dos praticantes dos Desportos de
Natureza em Portugal? Que assimetrias são evidenciadas pelo perfil
sociodemográfico dos praticantes?
2) Como é caracterizado o estilo de vida dos praticantes dos Desportos de
Natureza, tendo em conta as suas práticas de lazer e uso dos tempos livres? Que
diferenças existem na frequência de participação nas práticas de lazer e uso dos
tempos livres, tendo em conta as características sociodemográficas dos praticantes?
3) Quais são as actividades dos Desportos de Natureza que apresentam
uma maior procura? Quais as diferenças na procura dos Desportos de Natureza no
que diz respeito a sexo e idade?
4) Qual é o perfil da prática dos Desportos de Natureza em Portugal? Quais
as diferenças entre o perfil da prática nas diferentes actividades? Quais os factores
que influenciam o perfil da prática?
5) Quais as principais razões e constrangimentos apontados pelos
praticantes à prática dos Desportos de Natureza? Qual a influência das
características sociodemográficas nas razões e constrangimentos apontadas pelos
praticantes? Quais os constrangimentos associados às diferentes actividades?
215
5.2.2. PERFIL SOCIODEMOGRÁFICO DOS INQUIRIDOS
Neste estudo foram aplicados inquéritos válidos a 1126 indivíduos praticantes
dos Desportos de Natureza, com mais de 18 anos de idade, residentes em Portugal
continental. Os dados da distribuição dos indivíduos por sexo indicam que 66,4%
dos praticantes inquiridos são do sexo masculino, e 33,6% do sexo feminino, como
se pode observar no Gráfico 2. Estes resultados enquadram-se com os resultados
obtidos noutros estudos, como por exemplo, o estudo sobre as AFAN, realizado na
Catalunha (Espanha), em que 61% dos praticantes são do sexo masculino e 39% do
feminino (Betrán & Betrán, 1998). Esta evidência é também salientada na
participação em actividades físicas desportivas da UE (European Commission,
2010), que indica que os homens apresentam um índice de participação superior ao
das mulheres, em especial nos países do Sul da Europa.
216
Ao cruzarmos as variáveis sexo e idade (grupo etário), verifica-se que a maior
taxa de respondentes se encontra no grupo masculino entre os 31-43 anos de idade
(27,1%), seguido do grupo masculino entre os 18-30 anos (24,5%), e do grupo
feminino entre os 18-30 anos (18,6%), tal como se pode observar na Tabela 11.
Tabela 11. Distribuição dos praticantes inquiridos por sexo e grupo etário.
Grupo etário (anos)
Sexo Total
18-30 31-43 44-56 57-69 >69
N 209 126 34 9 0 378
Feminino % Feminino 55,3 33,3 9,0 2,4 0,0 100,0
% Total 18,6 11,2 3,0 0,8 0,0 33,6
N 276 305 125 38 4 748
Masculino % Masculino 36,9 40,8 16,7 5,1 0,5 100,0
% Total 24,5 27,1 11,1 3,4 0,4 66,4
N 485 431 159 47 4 1126
Total
% Total 43,1 38,3 14,1 4,2 0,4 100
Verifica-se ainda que a maior parte das respondentes do sexo feminino está
incluída no grupo de idades mais baixa, dos 18-30 anos de idade (55,3% do total
feminino), seguido do grupo dos 31-43 anos (33,3% do total feminino), tal como se
observa no Gráfico 4. É de salientar, também, a ausência de inquiridos do sexo
feminino com mais de 69 anos. No que se refere ao sexo masculino, os dados
evidenciam uma diferença em relação ao sexo feminino e em relação aos dados
totais: a maior taxa de resposta está incluída no grupo dos 31-43 anos de idade
(40,8% do total masculino), seguido do grupo dos 18-30 anos (36,9% do total
masculino).
217
Os resultados do questionário revelam que a maior parte dos praticantes
inquiridos é solteira (51,3%), e uma grande parte é casada ou vive em união de facto
(41,8%), como se observa no Gráfico 5.
218
Tabela 13. Grupos de idade por estado civil.
Grupos de idade (anos)
Estado civil Total
18-30 31-43 44-56 57-69 >69
N 419 143 15 1 0 578
Solteiro(a)
% Grupo idade 86,4 33,2 9,4 2,1 0,0 51,3
Casado(a) / União de N 64 255 116 33 3 471
facto % Grupo idade 13,2 59,2 73,0 70,2 75,0 41,8
Divorciado(a) / N 2 31 26 8 1 68
Separado % Grupo idade 0,4 7,2 16,4 17,0 25,0 6,0
N 0 2 2 5 0 9
Viúvo
% Grupo idade 0,0 0,5 1,3 10,6 0,0 0,8
N 485 431 159 47 4 1126
Total
% Grupo idade 100 100 100 100 100 100
Fonte: elaboração própria com base no QPDN2011.
Por outro lado, a Tabela 14 mostra que apenas uma pequena parte (14,6%)
dos praticantes inquiridos refere que vive sozinho. A maioria vive com outra pessoa
(30,4%) ou com mais duas pessoas (29%).
Tabela 14. Número de pessoas que vive com os inquiridos.
Nº de pessoas N %
Sozinho 164 14,6
Com outra pessoa 342 30,4
Com mais 2 pessoas 326 29,0
Com mais 3 pessoas 232 20,6
Com 4 ou mais pessoas 62 5,5
Total 1127 100
Fonte: elaboração própria com base no QPDN2011.
219
O estado civil dos inquiridos, maioritariamente solteiros, e o número de
pessoas com quem vivem, em especial o reduzido número de indivíduos que refere
que vive/tem filhos e/ou jovens a seu cargo (26%), evidencia que os praticantes dos
Desportos de Natureza inquiridos apresentem poucos constrangimentos familiares, o
que lhes poderá permitir uma maior independência no desenvolvimento das suas
práticas.
Os dados evidenciam também um elevado número de indivíduos que não tem
filhos e/ou jovens a seu cargo (74%), denotando-se que esta é uma característica
ainda mais acentuada nas mulheres (82,3%). Estes dados sugerem que a tradicional
divisão de papéis no contexto doméstico, dominada pelo patriarcalismo, continua a
limitar as actividades de lazer das mulheres. Com efeito, são as mulheres solteiras e
sem filhos que praticam Desportos de Natureza. Tal como os dados de outros
estudos evidenciam (European Commission, 2010), depois de assumirem
compromissos conjugais e de terem filhos a seu cargo, as mulheres apresentam
menores índices de participação em actividades físicas desportivas.
Os indivíduos que responderam ao questionário apresentam maioritariamente
uma condição activa perante o trabalho (67,4%), sendo que 57% são trabalhadores
por conta de outrem, como se pode observar na Tabela 16
Tabela 16. Distribuição dos praticantes inquiridos por condição e situação
perante o trabalho.
% %
Condição e situação perante o trabalho N
Total Subgrupo
Trabalhador(a) por conta de outrem 642 57,0 84,6
Trabalhador(a) por conta própria ou isolado 85 7,6 11,2
Patrão/empregador(a) com, até, 6 empregados 23 2,0 3,0
Patrão/empregador(a) com mais de 6 empregados 9 0,8 1,2
Total de indivíduos activos 759 67,4 100
Total de Estudante 255 22,6 100
Pensionista ou pessoa que aufere rendimentos de capital 34 3,0 30,4
Desempregado(a) 47 4,2 42,0
Doméstico(a) 2 0,2 1,8
Outra situação 29 2,6 25,9
Total de outros inactivos 112 9,9 100
220
Dos indivíduos inquiridos que não apresentam uma condição activa perante o
trabalho (32,6%), a maioria (22,6%) é estudante (ver Gráfico 6.).
221
Gráfico 7. Condição e situação perante o trabalho do elemento activo do agregado familiar.
Fonte: elaboração própria com base no QPDN2011.
222
A maioria dos inquiridos afirma ter habilitações académicas ao nível do ensino
superior (61,3%): 41% dos inquiridos afirmam ter concluído um bacharelato/
licenciatura, 16,8% concluíram um mestrado, e 3,5% um doutoramento. Ao nível do
ensino secundário apresentam-se 33,6% dos inquiridos (sendo que 41,5% destes
são ainda estudantes). Apenas 5,2% possuem um nível de instrução até ao 9º ano, e
não existem respondentes sem instrução formal, tal como se mostra na Tabela 18.
223
No que se refere ao capital económico (ver Tabela 19), em termos de
rendimentos líquidos mensais dos próprios, tomando por referência o rendimento
médio mensal líquido da população portuguesa empregada por conta de outrem,
que se cifra em 809 euros, segundo os dados referentes ao 4º trimestre de 2011
(Instituto Nacional de Estatística, 2013), verifica-se que 43,3% dos respondentes se
incluem nos escalões de rendimentos acima do valor médio apresentado, e 16,3%
integram o escalão do valor médio. De salientar ainda que 35,1% dos inquiridos
estão incluídos nos escalões de rendimento abaixo da média nacional, incluindo
18,3% que referem que não têm rendimentos (embora 89,8% dos que não têm
rendimentos sejam estudantes, e portanto não activos no trabalho). Os resultados
mostram, assim, que os indivíduos da amostra têm um capital económico elevado,
muito acima da média nacional.
Em relação aos rendimentos do agregado familiar (ver também Tabela 19), os
dados do questionário indicam que 50,1% dos inquiridos apresentam rendimentos
acima dos 2000 euros, 30,6% apresentam rendimentos entre 1001 e 2000 euros,
21,4% apresentam rendimentos máximos de 1000 euros, 7,9% referem que o
agregado familiar não tem rendimentos, e 12,3% não sabe ou não responde.
Tabela 19. Rendimentos mensais líquidos do próprio e do agregado familiar.
Próprio Agregado familiar
Rendimentos mensais líquidos
N % N %
Não tem rendimentos 206 18,3 89 7,9
Menor ou igual a 500 euros 68 6,0 34 3,0
Entre 501 e 750 euros 121 10,8 90 8,0
Entre 751 e 1000 euros 184 16,3 117 10,4
Entre 1001 e 1500 euros 248 22,0 159 14,1
Entre 1501 e 2000 euros 134 11,9 186 16,5
Entre 2001 e 3000 euros 66 5,9 172 15,3
Entre 3001 e 5000 euros 30 2,7 109 9,7
Mais de 5000 euros 9 0,8 32 2,8
NS/NR 60 5,3 138 12,3
224
quatro distritos, mais de 50% dos indivíduos da amostra (55,3%). Este facto pode
ser explicado pelas assimetrias da população residente, que é bastante inferior nos
distritos do interior (Instituto Nacional de Estatística, 2011a), com consequências nas
assimetrias evidenciadas na disseminação das actividades desportivas pelo país
(Instituto do Desporto de Portugal, 2011).
225
5.2.3. PRÁTICAS DE LAZER E ESTILOS DE VIDA DOS PRATICANTES
DOS DESPORTOS DE NATUREZA
A análise das práticas de lazer e uso dos tempos livres dos indivíduos
inquiridos (praticantes dos Desportos de Natureza) foi organizada em função dos
objectivos específicos deste estudo, de forma a permitir uma fácil operacionalização
dos conceitos. Para o efeito foi utilizada uma grelha de análise que teve em conta as
categorias e as classificações sugeridas por diversos autores (D’Épinay, 1983;
Gomes R. A., 2005c; Lopes J. T., 2000; Pais, 1987; Pinto, 1994), de forma a ser
possível manter o princípio de cumulatividade do conhecimento científico (Lopes J.
T., 2000). Não foram excluídos, no entanto, novos critérios de agrupamento das
práticas de lazer (modificando o conteúdo das categorias), algumas alterações
conceptuais, e mesmo introduzindo novas categorias, para que estas se
adequassem ao propósito deste estudo. A escolha das categorias e respectivas
práticas foi definida em função de critérios que se adaptaram dos autores referidos,
salientando-se os seguintes:
i) O primeiro critério organiza os espaços de lazer a partir da hierarquização
em função da distinção entre o caracter público ou privado das práticas, tal como o
sugerido por D’Épinay (1983), acrescentando uma tipologia de espaço sugerida por
J. T. Lopes (2000), o espaço semipúblico. Assim, esta proposta assenta na
classificação dos espaços de lazer em 3 tipologias de espaços: a) o espaço
doméstico ou privado; b) o espaço público; c) o espaço semipúblico;
ii) O segundo critério permite determinar as características do envolvimento
do sujeito, distinguindo os lazeres activos dos lazeres passivos, onde se pretende
destacar a posição de receptor ou de emissor do sujeito, retomando uma velha
distinção entre lazeres de abandono e lazeres produtivos, tal como o proposto por
D’Épinay (1983);
iii) Por fim, o critério actividade que permite discriminar diferentes procuras
de lazer activo ou passivo, em função das referências à sociabilidade, à expressão e
à informação, tal como o proposto por D’Épinay (1983), que possibilita distinguir os
níveis de interacção entre os sujeitos consumidores de lazer.
A definição destes critérios permitiu organizar uma grelha analítica (ver Tabela
20) que possibilitou obter as categorias das práticas de lazer e uso dos tempos
livres, e as práticas nelas inseridas, bem como identificar as diferentes procuras dos
consumidores, e a determinação dos seus estilos de vida. Assim, a adaptação das
226
classificações e categorização dos autores referidos resultou numa proposta de
classificação das práticas de lazer e uso dos tempos livres, divididas em 11
categorias (3 no espaço doméstico, 3 no espaço semipúblico e 5 no espaço público).
Tabela 20. Categorias de práticas de lazer e uso dos tempos livres.
Tipologia
Categorias Práticas de lazer e uso dos tempos livres
de Espaço
1. Práticas domésticas Realizar actividades domésticas (ver TV, ler,
informativas, receptivas e/ou ouvir música, navegar na internet, bricolage ou Doméstico
expressivas jardinagem, pintar ou desenhar)
2. Práticas de sociabilidade
Receber e/ou ir a casa de amigos ou familiares Doméstico
doméstica
3. Práticas domésticas de
Não fazer nada, descansar e/ou dormir a sesta Doméstico
abandono
4. Práticas de sociabilidade Sair para ir ao café, bar, discoteca, almoçar
Semipúblico
urbana e local e/ou jantar fora
Participar em actividades de expressão cultural
5. Práticas de expressão cultural
(tocar ou cantar num grupo musical, dançar, Semipúblico
e/ou artística
fazer teatro amador, fotografia, pintura)
6. Práticas de expressão ao ar Passear com a família e/ou amigos (passeios
Público
livre ao ar livre, praia; campismo; piquenique)
7. Práticas de participação Ir ver espectáculos (desportivos e outros) ou
Público
expressiva eventos culturais (teatro, museus, exposições)
8. Práticas receptivas, Ir ao centro comercial (passear, ir às compras,
Público
expressivas e de rotina ir ao cinema)
9. Práticas de sociabilidade Ir a associações recreativas ou a colectividades
Semipúblico
associativa local locais (jogar cartas, xadrez, bilhar)
10. Práticas de expressão
Fazer desporto Público
desportiva
11. Práticas de expressão
Realizar viagens de lazer Público
turística
227
H0 – A frequência na categoria (1 a 11) das práticas de lazer e uso dos
tempos livres é independente das características dos grupos (por sexo, grupo de
idade, estado civil, condição e situação perante o trabalho, grupo profissional, nível
de instrução, e rendimentos do agregado familiar);
H1 – A frequência na categoria (1 a 11) das práticas de lazer e uso dos
tempos livres não é independente das características dos grupos (por sexo, grupo
de idade, estado civil, condição e situação perante o trabalho, grupo profissional,
nível de instrução, e rendimentos do agregado familiar).
Nas situações em que não se verificou independência entre as variáveis (p-
value <0,050 ou p-value <0,100) foram analisados os resíduos ajustados
estandardizados para verificar as diferenças significativas nas associações entre os
grupos na frequência de participação nas diferentes categorias das práticas de lazer
e uso dos tempos livres. Analisou-se também as frequências das observação nas
células da tabela de contingências, e as percentagens das colunas e das linhas para
verificar essas diferenças. A média foi também utilizada para posicionar os
diferentes indivíduos em referência aos grupos homólogos, através do índice de
frequência (utilização da média das respostas) de forma a melhor visualizar as
diferenças.
Para além do tipo de espaço de realização das diversas práticas (doméstico,
público e semipúblico), estas categorias foram agrupadas em distintas famílias
categóricas por tipologia de prática:
a) Práticas de sociabilidade: Práticas de sociabilidade doméstica (categoria
2); Práticas de sociabilidade urbana e local (categoria 4); Práticas de sociabilidade
associativa local (categoria 9);
b) Práticas expressivas: Práticas de expressão cultural e/ou artística
(categoria 5); Práticas de expressão ao ar livre (categoria 6); Práticas de
participação expressiva (categoria 7); Práticas de expressão desportiva (categoria
10); Práticas de expressão turísticas (categoria 11);
c) Práticas de rotina: Práticas domésticas informativas, receptivas e/ou
expressivas (categoria 1); Práticas receptivas e/ou expressivas de rotina (categoria
8);
d) Práticas de abandono: Práticas domésticas de abandono (categoria 3).
Estes agrupamentos, pela tipologia de espaços de realização e pela tipologia
das práticas, permitiram aferir o índice de frequência das práticas de lazer e uso dos
228
tempos livres em grandes grupos de práticas, através das médias dos índices de
frequência das práticas incluídas em cada um dos agrupamentos.
Uma primeira análise aos resultados do teste da independência pelo Qui-
quadrado (ver Tabela 21) permite verificar as situações (variáveis
sociodemográficas) em que existem diferenças estatisticamente significativas.
Tabela 21. Resultados dos testes da independência pelo Qui-quadrado das
11 categorias das práticas de lazer e uso dos tempos livres em função das
características sociodemográficas.
Condição/ Rendimentos
Grupos Estado Grupo Nível
Categorias Sexo situação agregado
idade civil profissional instrução
trabalho familiar
1 ,000* ,372 ,073* ,348 ,610 ,869 ,030*
2 ,000* ,001* ,024* ,009* ,769 ,039* ,462
3 ,000* ,000* ,000* ,000* ,323 ,008* ,322
4 ,067** ,000* ,000* ,000* ,148 ,552 ,495
5 ,000* ,119 ,028* ,019* ,191 ,244 ,162
6 ,063** ,370 ,023* ,052** ,002* ,010* ,183
7 ,067** ,063** ,191 ,512 ,453 ,285 ,430
8 ,000* ,000* ,008* ,000* ,365 ,082** ,000*
9 ,018* ,000* ,001* ,000* ,001* ,000* ,002*
10 ,000* ,010* ,100** ,029* ,033* ,148 ,178
11 ,068** ,001* ,105 ,001* ,011* ,068** ,000*
229
A análise da Tabela 22 permite efectuar uma leitura geral às práticas de lazer
e uso dos tempos livres dos praticantes dos Desportos de Natureza inquiridos. Por
outro lado, a análise das tabelas de contingências permitiu efectuar uma primeira
comparação das características sociodemográficas dos indivíduos nas diferentes
categorias.
As práticas domésticas informativas, receptivas e/ou expressivas (ver TV, ler,
ouvir música, navegar na internet, bricolage ou jardinagem, pintar ou desenhar),
categoria 1, apresentam-se como as práticas mais frequentes para os indivíduos
inquiridos (média de 4). O elevado índice de frequência nesta categoria vai ao
encontro de outros estudos que indicam que as práticas domésticas, em especial o
ver TV, representam as principais actividades de lazer dos portugueses (Gaspar,
1987; Lopes J. T., 2000; Pais, 1994). A este resultado não é alheia por um lado a
difusão massiva de equipamentos (tecnológicos, livros, bricolage, etc.), e por outro
um crescente carácter interactivo e individualizado das práticas, em especial as
audiovisuais (Lopes J. T., 2000), assentes em imperativos de auto-realização e numa
nova personalidade modelo que alguns designam como performing self (Gomes R.
A., 2004). A análise segundo as variáveis sociodemográficas revela que são as
mulheres e os indivíduos que auferem rendimentos (do agregado familiar) entre os
501-1000 euros que apresentam diferenças estatisticamente significativas em
relação aos respectivos grupos, apresentando maiores índices de frequência nestas
práticas. Por outro lado, são os homens e os indivíduos com rendimentos (do
agregado familiar) abaixo dos 500 euros que apresentam os menores índices de
frequência nesta categoria.
As práticas de sociabilidade doméstica (receber e/ou ir a casa de amigos ou
familiares), categoria 2, apresentam-se como uma prática frequente para os
indivíduos inquiridos (média de 3,3). A análise entre os diversos grupos revela
diferenças entre os sexos, já que são as mulheres que apresentam um índice
superior de frequência, assim como os indivíduos mais jovens (entre os 18-30 anos),
solteiros, e estudantes. Nesta categoria são os homens, os indivíduos
desempregados, e com o nível mais baixo de instrução (até ao 3º ciclo), que
apresentam os menores índices de frequência. As restantes variáveis não
apresentam diferenças estatisticamente significativas para esta categoria.
230
Tabela 22. Participação dos praticantes de Desportos de Natureza em práticas de lazer e uso dos tempos livres
Medidas de tendência
Respostas
central
Variáveis
3.Às [Link] [Link] Desvio
[Link] [Link] Média Moda
vezes vezes Padrão
231
Ainda em relação às práticas domésticas, as práticas domésticas de
abandono (não fazer nada, descansar e/ou dormir a sesta), categoria 3, são
apontadas pelos inquiridos como uma prática pouco frequente (média de 2,3). Ao
analisar a relação entre estas práticas segundo a idade verifica-se que são os mais
jovens (entre os 18-30 anos), associados de forma geral à condição de solteiro, e
estudante, e portanto sem grandes constrangimentos familiares, quem adere mais a
estas (não) práticas. Neste estudo, à semelhança de outros (Lopes J. T., 2000), o
índice de frequência nas práticas domésticas de abandono vai descendo com o
evoluir da idade. É nesta perspectiva que J. T. Lopes (2000) se questiona pela
própria circunstância da idade ser mais avançada, estes indivíduos acumularam
experiências e reforçaram predisposições inculcadas, resistindo, por isso, a
movimentos de anomia cultural. A análise pelo sexo também revela algumas
diferenças, sendo as mulheres a apresentar um índice de frequência bastante
superior nesta categoria, pressupondo por isso que estas (praticantes dos Desportos
de Natureza) apresentem uma maior emancipação face às demais da população
portuguesa. Por outro lado, os dados revelam que os homens, os indivíduos
divorciados/separados ou viúvos, os patrões, os indivíduos com menor nível de
instrução (até ao 3º ciclo), e os indivíduos com maiores rendimentos (mais de 2000
euros), apresentam os mais baixos índices de frequência nesta categoria.
As práticas de sociabilidade urbana e local (sair para ir ao café, bar,
discoteca, almoçar e/ou jantar fora), categoria 4, são práticas frequentes para os
inquiridos (média de 3). Ao analisar os resultados verifica-se que são os indivíduos
mais jovens (entre os 18-30 anos), solteiros, e estudantes, que apresentam os
maiores índices de frequência nesta categoria. Estes dados remetem para uma ideia
já apontada por J. T. Lopes (2000), no que se refere à crescente centralidade das
funções de consumo que a cidade desempenha, pois não se pode esquecer que ao
menor valor da idade está associada uma condição estudantil, e portanto uma
residência habitual no espaço urbano, e também a uma condição de liberdade
matrimonial e familiar, que permite desenvolver uma cultura de saídas, que fomenta
uma série de espaços socializadores que tendem a escapar à lógica e ao controle
domiciliar e familiar. Esta teoria é ainda mais relevante quando se evidencia que os
dois grupos de idades mais avançadas, os indivíduos casados ou a viverem em
união de facto, apresentarem os menores índices de frequência. Outro dado em
evidência é o facto de ser a mulher a apresentar o maior índice de frequência nestas
232
práticas, em parte explicado pela maioria das respondentes ser jovem (55,3% até
aos 30 anos) e estudante (33,1%).
As práticas de expressão cultural e/ou artística (tocar ou cantar num grupo
musical, dançar, fazer teatro amador, fotografia, pintura), categoria 5, têm pouca
expressão na vida quotidiana dos inquiridos (média de 2,1). Ainda assim, são as
mulheres e os indivíduos mais jovens (entre os 18-30 anos), solteiros, estudantes,
que apresentam os maiores índices de frequência. Por outro lado, são os homens,
os indivíduos casados, e os patrões, que apresentam os menores índices de
frequência nesta categoria.
As práticas de expressão ao ar livre (passear com a família e/ou amigos -
passeios ao ar livre, praia; campismo; piquenique), categoria 6, são actividades
realizadas com frequência na vida quotidiana dos inquiridos (média 3,3). A análise
segundo as variáveis sociodemográficas revela que são as mulheres, os indivíduos
divorciados/separados ou viúvos, os indivíduos pensionistas ou domésticas/os (e os
indivíduos que apresentam outras situações), que apresentam os maiores índices de
frequência. Por outro lado, são os homens, os indivíduos solteiros, os patrões, os
trabalhadores não qualificados e os membros das forças armadas, e os indivíduos
com maior nível de instrução (ensino superior) que apresentam os índices de
frequência mais baixos nesta categoria.
As práticas de participação expressiva (ver espectáculos - desportivos e
outros - ou eventos culturais - teatro, museus, exposições), categoria 7, são
apontadas como frequentes (média de 2,9). A análise segundo as variáveis
sociodemográficas revela que são as mulheres e os indivíduos com idade mais
avançada (57 anos ou mais) que apresentam os maiores índices de frequência.
Contudo é nesta categoria que se evidencia as menores diferenças entres as
características sociodemográficas, por não se verificarem diferenças significativas
em relação ao estado civil, à condição e situação no trabalho, ao grupo profissional,
ao nível de instrução e aos rendimentos do agregado familiar.
As práticas receptivas e/ou expressivas de rotina (ir ao centro comercial -
passear, ir às compras, ir ao cinema), categoria 8, são também vistas como práticas
frequentes pelos inquiridos (média de 2,8). Os indivíduos mais jovens (entre os 18-
30 anos), logo seguido do grupo de indivíduos com mais idade (57 anos ou mais),
são os que apresentam os maiores índices de frequência nestas práticas. Os
rendimentos (do agregado familiar) também parecem ter um peso significativo na
233
frequência destas práticas, já que são os indivíduos com rendimentos (do agregado
familiar) entre os 1001-2000 euros, seguido dos indivíduos entre os 501-1000 euros,
que apresentam os maiores índices de frequência. A necessidade de uma certa
disponibilidade financeira, em especial para as idas ao cinema poderá ser um
condicionalismo a uma maior frequência por parte dos grupos com menor capital
económico. A análise entre os sexos também evidencia um maior índice de
frequência das mulheres, que em parte poderá ser explicada pela inclusão das
compras nesta categoria, que ainda é, segundo J. T. Lopes (2000), uma prática
predominante feminina. Por outro lado, são os homens, os indivíduos entre os 44-56
anos, os divorciados/separados ou viúvos, os patrões, e os indivíduos com menor
nível de instrução, que apresentam os menores índices de frequência nesta
categoria.
As actividades associativas expressivas (ir a associações recreativas ou a
colectividades locais - jogar cartas, xadrez, bilhar), categoria 9, são as práticas que
denotam a menor expressão no contexto da vida quotidiana dos inquiridos (média de
1,7). Este afastamento massivo por parte de todos os grupos poderá explicar-se por
uma tendência que se verifica em múltiplos estudos, que revelam um acentuado
desinteresse pela acção colectiva organizada, com tudo o que ela representa de
regulação institucional, de estabelecimento de prioridades e objectivos, de
equacionamento de meios e recursos, e de diagnóstico de fins a atingir (Lopes J. T.,
2000). Ainda assim, os homens, indivíduos mais jovens (entre os 18-30 anos),
solteiros, estudantes, e com os mais baixos rendimentos (do agregado familiar)
apresentam os maiores índices de frequência. A mulher apresenta, aliás, um elevado
afastamento nas práticas associativas, facto também comprovado noutros estudos
(Lopes J. T., 2000). O capital cultural, social e económico elevado parecem também
ser decisivos para a não inclusão destas práticas nas escolhas principais do lazer.
As práticas de expressão desportiva (fazer desporto), categoria 10,
apresentam-se como a segunda opção de lazer na vida dos inquiridos (média de
3,9), se o lazer for considerado como uma questão de opção. Ao elevado valor do
índice de frequência nesta categoria não é alheio o facto da amostra deste estudo
ser constituída por indivíduos praticantes de desporto (de Natureza). A análise
segundo as variáveis sociodemográficas revelam que são os homens, os indivíduos
mais velhos (57 ou mais anos), com o nível de escolaridade mais baixo (até ao 3º
ciclo), com rendimentos (do agregado familiar) menores do que 501 euros ou sem
234
rendimentos, que apresentam os maiores índices de frequência (apesar de nestas
duas últimas categorias não se denotarem diferenças significativas entre os grupos).
Se por um lado as diferenças entre os sexos são notadas, tanto nos estudos das
práticas de lazer (Gomes R. T., 2001; Instituto Nacional de Estatística, 2001), como
nos estudos da participação desportiva (European Commission, 2010), já em relação
à idade, ao índice de escolaridade, e aos rendimentos, estes resultados são
paradoxais em relação aos estudos da participação desportiva, tanto na UE, como
em Portugal, já que os estudos referidos evidenciam uma relação inversa entre
estas características e a participação desportiva. Estes dados podem ser explicados
pelo efeito da selecção da amostra que é constituída por indivíduos bastante activos,
comparativamente com a população em geral.
As práticas de expressão turística (realizar viagens de lazer), categoria 11,
são apontadas pelos inquiridos como uma prática frequente (média de 3). A análise
segundo as variáveis sociodemográficas revela que são os homens, indivíduos mais
velhos (57 ou mais anos), patrões, com os mais elevados nível de escolaridade
(ensino superior), e com os rendimentos (do agregado familiar) mais elevados (mais
de 2000 euros) que apresentam os maiores índices de frequência nas práticas
turísticas. Nesta categoria, ao contrário da anterior parece evidente que o volume de
capital adquirido, quer cultural, quer social e económico, tem um grande contributo
para o aumento do índice de frequência das viagens de lazer.
A análise da média da frequência nas práticas de lazer e uso dos tempos
livres permitiu hierarquizar a participação em cada uma das categorias, e incluir
cada uma delas em três níveis de frequência:
a) Práticas muito frequentes (média de 3,5 a 5): as práticas domésticas
informativas, receptivas e/ou expressivas (categoria 1) são as práticas mais
frequentes, com um índice de frequência de 4 (numa escala de 1 a 5); seguindo-se
as práticas de expressão desportiva - realização de actividades desportivas
(categoria 10), com um índice de frequência de 3,9;
b) Práticas frequentes (média de 2,5 a 3,4): as práticas de sociabilidade
doméstica (categoria 2), e as práticas de expressão ao ar livre (categoria 6) que
apresentam ambas um índice de frequência de 3,3; as práticas de sociabilidade
urbana e local (categoria 4), e as viagens de lazer (categoria 11) apresentam ambas
um índice de frequência de 3; as práticas participativas públicas (categoria 7) têm
235
um índice de frequência de 2,9; enquanto as práticas receptivas, expressivas e de
rotina (categoria 8) surgem com um índice de frequência de 2,8;
c) Práticas pouco frequentes (média de 1 a 2,4): as actividades associativas
expressivas são as práticas menos frequentes (categoria 9) com um índice de
frequência de 1,7; seguida das actividades de expressão cultural (categoria 5) com
um índice de frequência de 2,1; e as práticas domésticas de abandono (categoria 3)
com um índice de frequência de 2,3.
Para melhor entender o índice do estilo de vida relacionado com o lazer (mais
ou menos activo) classificou-se cada uma das categorias de prática em função do
seu agrupamento em cada uma das quatro tipologias de prática (sociabilidade,
expressividade, rotina e abandono), atribuindo-se uma ponderação a cada uma
delas em função da consideração do seu (maior ou menor) peso para um estilo de
vida activo: às actividades de abandono (categoria 3) foi atribuído o menor peso (1);
às actividades de rotina (categorias 1 e 8) foi atribuído um peso de 2; às actividades
de sociabilidade (categorias 2, 4 e 9) foi atribuído um peso de 3; e às actividades de
expressividade (categorias 5, 6, 7, 10 e 11) foi atribuído um peso de 4. Os valores da
frequência atribuídos por cada indivíduo, em cada categoria, foram multiplicados
pelo respectivo peso, consoante a tipologia de actividade em que se integram, e
somados os valores totais, atribuindo-se, assim, um valor global referente ao grau do
estilo de vida relacionado com o lazer. Esse valor global foi posteriormente
convertido num índice de estilo de vida, numa escala de 1 a 5, em que o índice 1
corresponde a um estilo de vida nada activo (entre 34 e 59 pontos dos valores
globais), o índice 2 a um estilo de vida pouco activo (entre 60 e 87 pontos dos
valores globais), o índice 3 a um estilo de vida activo (entre 88 e 115 pontos dos
valores globais), o índice 4 a um estilo de vida muito activo (entre 116 e 143 pontos
dos valores globais), e o índice 5 a um estilo de vida totalmente activo (entre 144 e
170 pontos dos valores globais).
Considerando-se esta classificação, obteve-se um valor médio de 100 pontos
(±14,6), o que sugere que de forma geral os praticantes apresentam um estilo de
vida activo. Os resultados indicam assim, que 65,1% dos praticantes dos Desportos
de Natureza inquiridos apresentam um estilo de vida activo (índice 3), 20,7%
apresentam um estilo de vida pouco activo (índice 2), e 13,6% um estilo de vida
muito activo (índice 4), tal como se pode observar na Tabela 23.
236
Tabela 23. Índice do Estilo de Vida relacionado com o Lazer.
Índices N %
Índice 1 (nada activo) 2 0,2
Índice 2 (pouco activo) 233 20,7
Índice 3 (activo) 733 65,1
Índice 4 (muito activo) 153 13,6
Índice 5 (totalmente activo) 5 0,4
237
frequente na rotina dos inquiridos. A sociabilidade é também um factor determinante
nas escolhas do lazer já que, quer as práticas de sociabilidade doméstica (categoria
2), quer as actividades de sociabilidade urbana e local (categoria 4), representarem
uma opção frequente dos uso dos tempos livres, apesar das práticas de
sociabilidade associativa local (categoria 9) representarem uma prática pouco
frequente na vida quotidiana dos inquiridos.
Este último dado remete a discussão para outro nível de análise que se centra
no tipo de espaços onde se realizam estas práticas. Ao se analisar o Gráfico 11,
pode-se compreender a frequência das práticas agrupadas pelos espaços onde
estas ocorrem. A representação gráfica mostra que as práticas que decorrem no
espaço semipúblico são as que apresentam um índice de frequência muito abaixo
das que decorrem nos restantes espaços (doméstico e publico). As práticas de
sociabilidade associativa local (categoria 9) são as que apresentam o menor índice
de frequência, logo seguidas pelas práticas de expressão cultural e/ou artística
(categoria 5), contribuindo para que as práticas deste domínio (do espaço
semipúblico) estejam muito abaixo das outras em termos de índice de frequência.
Este índice não é mais baixo pelo peso que as actividades de sociabilidade urbana e
local (categoria 4) têm neste agrupamento, que se apresentam como práticas
frequentes.
Ao contrário de outros estudos (Lopes J. T., 2000) onde se evidencia uma
predominância do espaço doméstico ou privado, em relação aos restantes, aqui
demonstra-se que o lazer dos inquiridos é distribuído invariavelmente pelo espaço
público e pelo doméstico (índices de frequência iguais). No entanto deve-se salientar
que as práticas que se inserem no domínio doméstico apresentam uma maior
variabilidade (Desvio Padrão = ±0,9), causada por uma maior diferença entre os
índices de frequência das categorias que integram este agrupamento. Uma análise
mais precisa deste agrupamento permite destacar as práticas de sociabilidade
doméstica (categoria 1) com o maior índice de frequência, e por outro lado as
práticas de abandono (categoria 3), com um índice de frequência muito baixo. Das
práticas que se desenrolam no espaço do domínio público destacam-se as práticas
desportivas (categoria 10) com um índice de prática muito frequente, e no polo
oposto deste agrupamento as práticas de expressão cultural e/ou artística (categoria
5), como pouco frequentes, como já se salientou.
238
Gráfico 11. Índice de participação dos praticantes dos Desportos de Natureza
em práticas de lazer e uso dos tempos livres por tipologia de espaços.
Fonte: elaboração própria com base no QPDN2011.
240
A actividade dos Desportos de Natureza que os indivíduos inquiridos mais
gostam de praticar é o BTT (16,9%), seguida do pedestrianismo (11,4%), da
canoagem (8%) e do montanhismo (8%). Referido por menos indivíduos surge o
rafting (0,3%), o skimboard (0,5%), e o tiro com arco e/ou besta (0,5%).
Quando se analisam os resultados referentes às respostas de quais as
actividades que os inquiridos praticam com maior frequência verifica-se que o BTT
(22,7%) é a actividade praticada com maior frequência por mais indivíduos, seguido
do pedestrianismo (17,6%), e da canoagem (7,8%). Por outro lado, o rafting (0,2%),
o skimboard (0,5%) e o snowboard (0,5%) são as actividades que menos inquiridos
indicaram como as praticadas com maior frequência.
Ao analisar as três actividades que os inquiridos gostariam de praticar com
mais frequência, verifica-se que o BTT (36,3%) surge com a maior percentagem total
na soma das 3 respostas (1º, 2ª e 3º opção), seguida pelo montanhismo (27,9%), e a
canoagem (24,3%). Com a menor incidência das 3 opções de preferência surge o
skimboard (1,2%), o remo (2,7%) e a espeleologia (4,3%).
Através da análise dos resultados das actividades praticadas com maior
frequência e as modalidades que os inquiridos mais gostam de praticar (1ª opção),
pela aplicação do teste do Qui-quadrado por simulação de Monte Carlo, verificou-se
uma correlação positiva forte (p-value <0,050 e V de Cramer = 0,690). Assim, pode-
se afirmar que os praticantes inquiridos apresentam, na generalidade, uma procura
satisfeita no que se refere às actividades dos Desportos de Natureza.
A análise das actividades dos Desportos de Natureza que foram praticadas
com maior frequência no ano de 2010 pelos inquiridos com a prática da actividade
que desejam realizar com mais frequência (1º opção), através do teste do Qui-
quadrado por simulação de Monte Carlo, aponta para uma correlação positiva forte
(p-value <0,050 e V de Cramer = 0,516). Na generalidade, os RAE indicam que a
actividade dos Desportos de Natureza que é referida como a praticada com maior
frequência por um inquirido corresponde à que este deseja praticar mais
frequentemente, verificando-se correlações significativamente positivas entre estas.
Estes dados demonstram que para além de existir uma procura satisfeita, como se
verificou na análise anterior, os indivíduos gostariam de realizar essa actividade com
mais frequência o que poderá pressupor a existência de constrangimentos que os
impede de praticarem essa actividade mais frequentemente.
241
Para determinar o potencial da procura dos Desportos de Natureza recorreu-
se à análise das diferenças entre as 3 actividades que os indivíduos gostariam de
praticar com maior frequência e a actividade praticada com maior frequência,
subtraindo-se as respectivas percentagens obtidas. Assim, verifica-se que o
montanhismo é a actividade que apresenta uma maior procura potencial (21,5%), já
que 27,9% gostaria de a realizar mais vezes, enquanto para apenas 6,4% esta é a
que se realiza com maior frequência (subtracção entre 27,9% e 6,4%); seguindo-se
o mergulho e a canoagem com uma procura potencial de 19,1% e 16,5%
respectivamente.
Através da análise dos resultados obtidos quanto às actividades praticadas
com maior frequência por sexo verificou-se, pela aplicação do teste do Qui-quadrado
por simulação de Monte Carlo, uma correlação positiva moderada (p-value <0,050 e
V de Cramer = 0,391). Salienta-se que o pedestrianismo (33,1%) é a actividade
praticada com maior frequência pelo maior número de mulheres, seguindo-se o BTT
(11,8%) e a canoagem (9,2%), enquanto em relação aos homens o BTT (31,1%), o
pedestrianismo (11,6%) e a canoagem (8%) são as actividades praticadas com
maior frequência pelo maior número de indivíduos inquiridos deste sexo. Por outro
lado, a análise dos RAE permitiu verificar a maior tendência que existe para a prática
das actividades por sexo. Os resultados mostram que as actividades equestres
(RAE = 3,0), o esqui (RAE = 3,0), o pedestrianismo (RAE = 8,5), o skimboard (RAE =
2,6) e as multiactividades (RAE = 2,0) são as práticas dos Desportos de Natureza
em que se evidencia uma maior predisposição para a prática por parte das
mulheres, enquanto o bodyboard (RAE = 3,0), o BTT (RAE = 6,6), o voo livre (RAE =
2,8), e o windsurf (RAE = 2,3) são as actividades onde os homens apresentam uma
maior predisposição para a sua prática. Nas restantes actividades não se
evidenciaram diferenças estatisticamente significativas.
Os resultados deste trabalho demonstram também que o desporto é um
espaço ímpar de reprodução da cultura tradicional masculina, e que evidencia uma
participação diferenciada pelo sexo masculino/feminino. Segundo a cultura
tradicional, ao homem corresponde a prática de desportos vigorosos, energéticos e
assentes na tomada de risco, que permitem enfatizar o seu poder, a sua dominação
e a sua masculinidade. Por outro lado, as mulheres apresentam uma menor
participação em actividades de carácter vigoroso, e uma maior concentração em
242
actividades informacionais e contemplativas, em especial do pedestrianismo, que
incorporam uma maior identificação com a condição feminina.
Em relação à análise por idade, os resultados evidenciam, através do teste do
Qui-quadrado por simulação de Monte Carlo, uma correlação positiva fraca (p-value
<0,050 e V de Cramer = 0,234). Ao analisar a tendência da participação relativa
(expressa pela percentagem do número de respondentes em cada grupo de idade)
nas actividades praticadas com maior frequência, que obtiveram acima das 35
respostas (bodyboard, BTT, canoagem, escalada, montanhismo, mergulho,
orientação, pedestrianismo e surf), verificaram-se dados relevantes na medida em
que os comportamentos são díspares com o avançar da idade (ver Gráfico 12).
50%
Bodyboard
BTT
40%
Canoagem
30% Escalada
Mergulho
20% Montanhismo
Orientação
10%
Pedestrianismo
Surf
0%
18-30 anos 31-43 anos 44-56 anos > 56 anos
243
anos), o pedestrianismo (47,8%) mantêm-se como a actividade praticada com maior
frequência (e com uma tendência de crescimento relativo face ao grupo anterior),
seguida da orientação (15,2%), do BTT (6,5%) e do montanhismo (6,5%).
Destes resultados denota-se que a orientação oscila nos três primeiros
grupos, e tem um crescimento relativo no último grupo, onde se evidencia uma
predisposição positiva (RAE = 2,3) para a realização desta actividade. O
pedestrianismo apresenta um crescimento relativo com o avançar da idade,
apresentando uma tendência negativa (RAE = -2,9) no grupo de idades mais baixa,
e uma predisposição positiva (RAE > a 1,9) para a realização desta actividade nos
dois grupos de idade mais avançada, em especial no grupo com mais de 56 anos
(RAE = 5,6). Pelo contrário, a canoagem apresenta um decréscimo relativo como o
avançar da idade, denotando-se uma maior predisposição (RAE = 2,6) para a sua
prática no grupo de idade entre os 18-31 anos, e uma menor tendência (RAE = -2,1)
no grupo de idades mais avançada. O bodyboard segue o mesmo padrão que a
canoagem. O número de praticantes no surf também decresce com a idade. A
escalada apresenta apenas respostas nos dois primeiros grupos de idade, em
especial no primeiro, onde se verifica uma tendência positiva (RAE = 3,3) para a
prática desta actividade neste grupo. No BTT a maior percentagem relativa de
participação encontra-se no grupo dos 31-43 anos, decrescendo depois com o
avançar da idade, atingindo no último grupo uma tendência negativa (RAE = -2,9)
para a sua realização. O montanhismo apresenta uma tendência negativa (RAE = -
2,9) no grupo entre os 18-30 anos e tem um crescimento relativo até ao grupo 44-56
anos, que evidencia uma predisposição positiva (RAE = 2,9) para esta prática,
decrescendo depois desse grupo para o último grupo (mais de 56 anos). O mergulho
segue o mesmo padrão que o montanhismo nos primeiros três grupos de idade mas,
no entanto, não apresenta praticantes no grupo de idade mais avançada.
A evidente diminuição da prática de actividades com maior exigência técnica,
física e energética nas idades mais avançadas revela uma alteração do perfil dos
praticantes com a idade, progredindo para actividades de natureza mais
informacional e contemplativa. Assim, como sugerido anteriormente por Neto (1997),
estes dados sugerem que a prática de actividades mais exigentes é um fenómeno
próprio da fase de idade mais jovem, do seu desenvolvimento físico, emocional e
psicossocial, e que evidencia uma procura de excitação, de prazer, de aventura
corporal, de sensações novas ou diferentes e mais centradas nos limites da
244
exploração do seu próprio corpo em confronto com o espaço físico natural. Com o
avançar da idade, e com o decréscimo do vigor físico inerente ao desenrolar do ciclo
de vida humano, é evidenciada uma tendência de diminuição da participação nas
actividades mais energéticas, e uma transferência da participação para actividades
que apresentam um menor vigor, uma menor exigência física e um menor risco
corporal, e que se centram na contemplação do ambiente e das paisagens,
acomodando por isso um maior investimento cultural, estético e turístico das
actividades (Pociello, 1995).
Os praticantes foram também inquiridos sobre as actividades complementares
que realizam no âmbito das práticas dos Desportos de Natureza (Tabela 25). Os
resultados demonstram que a fotografia (52,8%) e a observação da fauna e da flora
(43,3%) são as práticas realizadas frequentemente por mais indivíduos. Menos
relevantes são os estudos e as pesquisas na natureza (7,7%).
Tabela 25. Actividades complementares realizadas pelos praticantes
dos Desportos de Natureza.
Respostas N %
Não costuma praticar actividades complementares 173 15,4%
Fotografia e Vídeo na Natureza 595 52,8%
Observação da Fauna e da Flora 486 43,2%
Banhos 425 37,7%
Estudos/Pesquisas 87 7,7%
Piqueniques 465 41,3%
Outras actividades 58 5,2%
Fonte: elaboração própria com base no QPDN2011.
245
Tabela 26. Passado desportivo dos praticantes dos Desportos de Natureza.
Feminino Masculino Total
Respostas
N % N % N %
Sempre manteve uma actividade física desportiva regular
(pelo menos 1 vez por semana), para além da prática dos 137 36,2 339 45,3 476 42,3
Desportos de Natureza
Tem praticado outras actividades físicas desportivas ao
longo da vida, para além da prática dos Desportos de 149 39,4 269 36,0 418 37,1
Natureza, embora com interrupções
Apenas praticou actividade física desportiva enquanto jovem
e retomou recentemente a prática de outras actividades
34 9,0 48 6,4 82 7,3
físicas desportivas (menos de 5 anos), para além da prática
dos Desportos de Natureza
Apenas praticou actividade física desportiva enquanto jovem
e retomou recentemente a prática de actividade física
44 11,6 48 6,4 92 8,2
desportiva (menos de 5 anos), com a prática dos Desportos
de Natureza
Nunca praticou outras actividades físicas desportivas, para
14 3,7 44 5,9 58 5,2
além da prática dos Desportos de Natureza
Total 378 100 748 100 1126 100
246
Tabela 28. Nível de proficiência técnica dos praticantes dos Desportos de
Natureza.
Feminino Masculino Total
Respostas
N % N % N %
Iniciado 157 41,5 132 25,7 289 25,7
Intermédio 184 48,7 417 53,4 601 53,4
Avançado 37 9,8 199 21 236 21,0
Total 378 100 748 100 1126 100
Gráfico 13. Média de idade de início da prática da actividade que foi realizada
com maior frequência por grupo de idade.
Fonte: Elaboração própria (QPDN2011).
247
Estes dados sugerem que a prática dos Desportos de Natureza é um
fenómeno recente da prática desportiva em Portugal. Evidencia-se também um
grande potencial de crescimento, verificando-se um início da prática cada vez mais
precoce, com o maior número de praticantes situado no grupo de idade mais baixo.
A maior parte (53,6%) dos inquiridos teve influência do seu grupo de
sociabilidade (amigos, colegas, vizinhos ou familiares) para iniciar a actividade dos
Desportos de Natureza que realiza com maior frequência, enquanto 33,6% iniciou
por livre iniciativa, tal como mostra a Tabela 29. Das diferenças por sexo salienta-se
uma maior tendência dos homens para o início da prática por livre iniciativa (RAE =
2,3) e pelos Média (RAE = 2,1), enquanto as mulheres apresentam uma maior
tendência do que os homens para a influência no âmbito escolar (RAE = 4,2).
Tabela 29. Influência para iniciar a prática dos Desportos de Natureza.
Feminino Masculino Total
Respostas
N % N % N %
Livre iniciativa 110 29,1 270 36,1 380 33,7
Média (TV, Jornais, Revistas, Rádio, etc,) 1 0,3 13 1,7 14 1,2
Publicidade de Organizações do Sector 2 0,5 7 0,9 9 0,8
Escola 40 10,6 31 4,1 71 6,3
Grupo de Amigos, Colegas, Vizinhos ou Familiares 207 54,8 396 52,9 603 53,6
Outros 18 4,8 31 4,1 49 4,4
Total 378 100 748 100 1126 100
248
currículo dos programas de educação física (1º, 2º e 3º ciclos e secundário), como o
caso da orientação e da escalada, tem vindo a ser crucial para incentivar a prática
destas actividades desportivas. Os dados sugerem que uma política integradora que
ofereça uma gama mais generalizada de outras actividades dos Desportos de
Natureza possa ter uma influência na eliminação das assimetrias evidenciadas na
participação (por sexo, idade, e capital cultural, social, e económico), e uma
influência positiva para o aumento do número de praticantes dos Desportos de
Natureza, e para o aumento do índice da prática desportiva, de forma geral, em
Portugal.
A maior parte (47,3%) dos inquiridos refere que iniciou a actividade que
pratica com maior frequência de forma informal com o seu grupo de sociabilidade
(amigos, colegas, vizinhos ou familiares), com um carácter de lazer, tal como se
mostra na Tabela 30. Os resultados mostram que existe uma correlação positiva
moderada (p-value <0,050 e V de Cramer = 0,466) entre o âmbito socio-
organizacional de início e o actual, o que evidencia apenas uma ligeira permuta
entre o âmbito inicial e o actual. De forma geral o que se denota é um aumento da
prática no âmbito associativo (clubes desportivos, clubes de praticantes e
associações) e no contexto informal do grupo de sociabilidade, e uma redução da
prática no contexto empresarial e de forma isolada.
Tabela 30. Âmbito socio-organizacional da prática dos Desportos de Natureza.
Início Actualmente
Respostas
N % N %
Clube Desportivo 153 13,6 160 14,2
Clube de Praticantes 78 6,9 79 7,0
Associação (Ambientalista, Cultural, Desportiva, Recreativa, etc.) 119 10,6 127 11,3
Empresa de Animação Turística (EAT) 41 3,6 32 2,8
Grupo informal de amigos, colegas, vizinhos ou familiares, com um
533 47,3 577 51,2
carácter de lazer
Sozinho 136 12,1 119 10,6
Outro 66 5,9 32 2,8
Total 1126 100 1126 100
Fonte: elaboração própria com base no QPDN2011.
249
desportivo, 13,9% (33 praticantes) num clube de praticantes, 13,1% (31 praticantes)
através de uma empresa de animação turística, e 6,3% (15 praticantes) noutros
contextos organizacionais (ver Tabela 31).
Tabela 31. Âmbito organizado da prática dos Desportos de Natureza.
Respostas N %
Não 301 56,0
Sim 237 44,0
Clube Desportivo 65 27,4
Clube de Praticantes 33 13,9
Associação (Ambientalista, Cultural, Desportiva, Recreativa e afins) 93 39,2
Empresa de Animação Turística (EAT) 31 13,1
Outro 15 6,3
Total 538 100
Fonte: elaboração própria com base no QPDN2011.
Gráfico 14. Participação nas actividades dos Desportos de Natureza por âmbito socio-
organizacional.
Notas: CD - Clube Desportivo; CP - Clube de Praticantes; ASSOC - Associação; EAT -
Empresas de Animação Turística;
Fonte: elaboração própria com base no QPDN2011.
A análise dos RAE permitiu verificar a tendência de cada actividade por cada
âmbito socio-organizacional da prática. Assim:
250
- A canoagem (RAE = 5,1), a orientação (RAE = 14,5), o remo (RAE = 6,8), o
tiro com arco (RAE = 3,2), e o voo livre (RAE = 5,0) são as actividades dos
Desportos de Natureza que apresentam uma predisposição superior às restantes
para serem desenvolvidos no âmbito dos clubes desportivos, enquanto o bodyboard
(RAE = -2,3), o BTT (RAE = -4,1), o mergulho (RAE = -2,2), o pedestrianismo (RAE
= -4,4), e o windsurf (RAE = -2,1), são as que apresentam a menor tendência de
desenvolvimento neste contexto;
- No contexto dos clubes de praticantes, o mergulho (RAE = 4,4) apresenta
um potencial positivo, e o BTT apresenta um potencial negativo (RAE = -2,8);
- A espeleologia (RAE = 4,8) e o pedestrianismo (RAE = 4,8) são as
actividades que apresentam o maior potencial de desenvolvimento no contexto das
associações, enquanto o BTT (RAE = -2,8) e o surf (RAE = -2,2) são as que
apresentam menor potencial neste contexto;
- A canoagem (RAE = 5,6), o mergulho (RAE = 5,6), e o surf (RAE = 2,0) são
as actividades que apresentam o maior potencial de desenvolvimento no âmbito
empresarial, enquanto o BTT (RAE = -2,7), e o pedestrianismo (RAE = -2,2) são as
actividades que evidenciam o menor potencial;
- No âmbito do grupo informal, o BTT (RAE = 6,4), o esqui (RAE = 2,3), o
montanhismo (RAE = 2,0), o snowboard (RAE = 2,3), e o surf (RAE = 2,0) são as
actividades que apresentam maior potencial, enquanto as actividades equestres
(RAE = -2,9), a canoagem (RAE = -4,0), a espeleologia (-2,7), a orientação (-7,5), o
remo (-3,1), o tiro com arco (RAE = -2,8), e o voo livre (RAE = -4,1) são as
actividades que apresentam menor potencial de desenvolvimento informal;
- As actividades equestres (RAE = 3,3) evidenciam-se como uma prática
individual.
No que diz respeito à frequência da prática, a maioria (43,9%) dos praticantes
inquiridos tem uma prática regular (pelo menos uma vez por semana), enquanto
25% o faz de forma esporádica (sem frequência regular). No entanto, verificam-se
diferenças estatisticamente significativas (p-value <0,050) na frequência da prática
entre as várias actividades. Tal como se mostra no Gráfico 15, o surf (68,4%), o
bodyboard (66,7%), e o BTT (62,1%) são as actividades que evidenciam as maiores
frequências da prática, geralmente mais do que uma vez por semana. Por outro
lado, as actividades que apresentam uma menor regularidade na prática, e que são
maioritariamente realizadas durante as férias e fins-de-semana prolongados ou
251
esporadicamente sem frequência regular são o montanhismo (58,3%), o
pedestrianismo (56,6%), e o mergulho (48,8%).
Existem também diferenças estatisticamente significativas (p-value <0,050)
entre as diversas actividades dos Desportos de Natureza e o período do ano
preferencial para a sua realização. A análise das nove actividades que obtiveram
mais respostas (ver Gráfico 16) mostra que a canoagem (RAE = 6,0) e o mergulho
(RAE = 3,9) são praticados maioritariamente durante o Verão, enquanto as restantes
são maioritariamente realizadas durante todo o ano, de forma indiferenciada, com
maior evidência para a orientação (RAE = 3,3) e o BTT (2,0). O bodyboard
apresenta uma maior tendência do que as restantes para ser realizado no Outono
(RAE = 2,4) e no Inverno (RAE = 2,9). O montanhismo também apresenta uma
maior predisposição para ser realizado apenas no Inverno (RAE = 2,3).
A maioria dos praticantes (56,4%) desenvolve a sua actividade durante o fim-
de-semana, enquanto 33,9% praticam durante toda a semana de forma
indiferenciada (ver Gráfico 17). Salientam-se no entanto diferenças estatisticamente
significativas (p-value <0,050) entre a prática das diferentes actividades dos
Desportos de Natureza, onde se evidencia uma maior tendência para a prática
durante toda a semana de forma indiferenciada do bodyboard (RAE = 4,3) e do surf
(RAE = 3,5). Por outro lado, o mergulho (RAE = 2,8), o montanhismo (RAE = 3,3), a
orientação (RAE = 3), e o pedestrianismo (RAE = 3,5) são realizados quase em
exclusivo durante o fim-de-semana.
Os praticantes, de forma geral (43,3%), não têm um período do dia
preferencial para a prática dos Desportos de Natureza, enquanto 34,3% a realizam
preferencialmente de manhã (ver Gráfico 18). No entanto denotam-se diferenças
estatisticamente significativas (p-value <0,050) entre a prática das diferentes
actividades dos Desportos de Natureza. O BTT (RAE = 4,1) e o mergulho (RAE =
2,3) são realizados preferencialmente de manhã, enquanto a escalada apresenta
uma predisposição negativa para ser realizada durante a manhã (RAE = 2,5). O
mergulho nunca é realizado ao final da tarde ou durante a noite.
A duração da prática é normalmente de 2 a 4 horas (valor indicado por 46,5%
dos inquiridos), seguida de menos de 2 horas (referido por 23,4%) (ver Gráfico 19).
No entanto, denotam-se diferenças estatisticamente significativas entre a prática das
diferentes actividades dos Desportos de Natureza (p-value <0,050). Tal como se
mostra no Gráfico 19, a orientação é a actividade que apresenta geralmente uma
252
menor duração – menos de 2 horas (58,3%). Por outro lado, o montanhismo é
actividade que normalmente apresenta uma maior duração, já que para 29,2% dos
seus praticantes esta actividade desenvolve-se durante mais de um dia.
A maioria (74%) dos inquiridos refere que não têm um local fixo para a prática,
enquanto apenas 26% referem que praticam sempre no mesmo espaço de prática
(ver Gráfico 20), salientando-se todavia diferenças estatisticamente significativas (p-
value <0,050) entre a prática das diferentes actividades. Salienta-se a canoagem
(58%) que é preferencialmente realizada sempre no mesmo espaço.
Uma parte (35,7%) dos inquiridos refere que realiza preferencialmente a sua
prática dos Desportos de Natureza no seu concelho de residência, enquanto 19%
realiza a sua prática fora do concelho de residência, embora no mesmo distrito, e
ainda 19,7% a realiza fora do seu distrito de residência (ver Gráfico 21). As principais
diferenças (p-value <0,050) denotam-se no BTT que apresenta uma maior tendência
para ser realizado no concelho de residência (RAE = 6,0), enquanto o mergulho
(RAE = 2,2), e o montanhismo (RAE = 6,0), apresentam uma maior predisposição do
que as restantes para serem realizadas fora do país. O montanhismo apresenta
também uma maior tendência para ser realizado fora do distrito (RAE = 3,0).
A maioria (58,1%) refere que de forma geral, não pede autorização, formal
e/ou informal, para utilizar os espaços de prática, e não paga nenhuma taxa pela
utilização dos mesmos (ver Gráfico 22), denotando-se todavia diferenças
estatisticamente significativas nas diversas actividades dos Desportos de Natureza
(p-value <0,050). Considerando as nove actividades onde se obtiveram mais
respostas, verifica-se que na canoagem (RAE = 6,0) e no mergulho (RAE = 3,2)
existe uma maior tendência do que nas restantes para os praticantes pedirem
autorização para utilizarem dos espaços de prática e para pagarem para o utilizar.
Na escalada (RAE = 3,8) e na orientação (RAE = 2,6) verifica-se uma maior
tendência do que nas restantes actividades para pedirem autorização, sem no
entanto pagarem para utilizar o espaço. Por outro lado, no bodyboard (RAE = 3,9),
no BTT (RAE = 7,7), no montanhismo (RAE = 2,8), e no surf (RAE = 3,0), a
tendência é para se usufruir dos espaços de prática, sem pedir autorização nem
pagar para o efeito. Esta tendência pode estar relacionada com o tipo de espaço que
se utiliza já que estas últimas actividades são realizadas em espaços públicos, como
o mar e os trilhos de montanha, que não carecem de autorização para a sua
utilização, em Portugal.
253
Gráfico 15. Frequência da participação nas actividades dos Desportos de Natureza.
Notas: FDS prol. - Fim-de-semana prolongado; ESFR - Esporadicamente, sem
frequência regular.
Fonte: elaboração própria com base no QPDN2011.
Gráfico 16. Período do ano preferencial para a práticas das actividades dos Desportos
de Natureza.
Fonte: elaboração própria com base no QPDN2011.
Gráfico 17. Período da semana preferencial para a práticas das actividades dos
Desportos de Natureza.
Fonte: elaboração própria com base no QPDN2011.
254
Gráfico 18. Período do dia preferencial para a práticas das actividades dos Desportos
de Natureza.
Fonte: elaboração própria com base no QPDN2011.
255
Gráfico 21. Área geográfica de realização das actividades dos Desportos de Natureza.
Fonte: elaboração própria com base no QPDN2011.
Gráfico 22. Apropriação dos espaços pelos praticantes das diferentes actividades dos
Desportos de Natureza.
Fonte: elaboração própria com base no QPDN2011.
256
deslocação para a sua realização (para fora do distrito ou do país, como indicado
pelos praticantes). É também por isso que é realizada durante um dia inteiro ou
mais, e preferencialmente durante o fim-de-semana. Em função da sua vertente
eminentemente contemplativa, os seus praticantes procuram diferentes espaços
para a sua realização, de forma a visitar permanentemente outros lugares.
O mergulho é outra actividade com fortes condicionamentos espaciais e com
uma grande especificidade associada à sua prática. É uma actividade que requer um
espaço aquático-marítimo, adequado, para a sua realização, normalmente com boas
condições de estabilidade da água (por isso realizado preferencialmente no Verão),
e de visibilidade (portanto não é realizada normalmente ao final de tarde/noite).
Como estas condições específicas existem apenas em determinados locais, surge a
necessidade de deslocação para fora do distrito de residência ou do país, em busca
dos melhores locais, o que pode explicar uma frequência mais irregular do que a
maioria das actividades dos Desportos de Natureza.
A escalada é também uma actividade que, do ponto de vista dos espaços
utilizados, apresenta algumas particularidades. A escalada (desportiva) é geralmente
realizada em falésias, com paredes rochosas, que apresentam níveis de dificuldade
variados. É também uma das actividades dos Desportos de Natureza que requer um
grande conhecimento e competência técnica, ao nível dos procedimentos de
segurança. Esta actividade é realizada geralmente em grupo, de pelo menos duas
pessoas (um indivíduo escala e outro dá segurança), de forma a garantir a
segurança na prática. Os dados revelam efectivamente que esta actividade é
praticada maioritariamente com um grupo informal (amigos, colegas, vizinhos,
familiares) com um carácter de lazer, entre 1 a 3 dias por semana, ou
esporadicamente sem frequência regular, ao longo de todo o ano, ou
preferencialmente no Verão. É praticada preferencialmente durante o fim-de-
semana, ao longo do dia de forma indiferenciada, entre 2 horas a 1 dia inteiro.
Normalmente procuram-se diferentes espaços de prática, para realizar diferentes
vias, com diferentes níveis de dificuldade, como evidenciam os resultados. Portugal
apresenta excelentes condições para a realização desta actividade, em quase todo o
território, já que os praticantes não necessitam de sair do seu concelho ou distrito de
residência para realizar esta actividade.
Portugal apresenta também excelentes condições para a prática das
actividades marítimas de ondas, como o bodyboard e o surf, como tem sido
257
evidenciado pelo crescente número de eventos que têm decorrido, com especial
destaque para o campeonato do mundo de surf, em Peniche, e para a criação da
reserva mundial de surf na Ericeira, a primeira na Europa. As zonas de prática
destas actividades estão localizadas na zona litoral do país, onde se concentra
também a maioria da população residente em Portugal. Estas são portanto práticas
de proximidade, como evidenciam os resultados deste trabalho (realizadas
preferencialmente no concelho ou no distrito de residência), e por isso realizadas
com uma grande frequência (geralmente mais do que uma vez por semana). As
condições do mar (ondulação) exigidas para a prática destas actividades levam a
que os praticantes se desloquem à procura do melhor spot para a prática, o que os
leva a não praticarem num local fixo. São também realizadas ao longo de todo o dia,
de forma indiferenciada, porque as condições de ondulação vão variando com as
marés. Estas actividades também são realizadas com grande frequência, ao longo
de toda a semana, de forma indiferenciada. Uma justificação para estes resultados
pode ser porque são praticadas principalmente pelo grupo de idade mais jovem (18-
30 anos), com uma condição maioritariamente estudantil, solteiros, e sem filhos ou
jovens a seu cargo, o que pressupõe uma maior liberdade, e uma maior
possibilidade de gestão do seu tempo.
Este último dado mostra que o perfil dos praticantes pode ser também um
factor determinante para o perfil da prática. Um dos melhores exemplos é dado pela
prática do BTT. Estas actividades não exigem um espaço com condições tão
específicas como as anteriores, e por isso são realizadas no concelho ou no distrito
de residência, sem local fixo, ao longo de todo o ano, e com frequência elevada. No
entanto, esta actividade é realizada maioritariamente por indivíduos activos perante
o trabalho, grande parte deles casados ou a viverem em união de facto, e com filhos
ou jovens a seu cargo, o que nestas circunstâncias potencia um maior
constrangimento temporal, o que pode justificar ser realizada preferencialmente ao
fim-de-semana, durante a manhã.
O perfil da prática também parece ser influenciado pelo âmbito socio-
organizacional. Um exemplo desta influência é fornecido pela canoagem. Esta
actividade é praticada tanto num clube desportivo, como num grupo informal
(amigos, colegas, vizinhos, familiares) com um carácter de lazer, apresentando
todavia uma maior tendência do que as outras práticas para ser realizada no âmbito
das EAT (RAE = 5,6). Os que praticam nos clubes desportivos, fazem-no de uma
258
forma regular e muito mais frequente, maioritariamente mais do que uma vez por
semana, ao longo de toda a semana, e de forma indiferenciada ao longo do ano,
enquanto os que praticam num âmbito informal, apresentam uma maior tendência
para a realizam esporadicamente, sem frequência regular, ao fim-de-semana, e
principalmente no Verão.
A orientação é também uma actividade que apresenta um perfil diferenciado
em função do âmbito socio-organizacional onde se pratica. Esta actividade é
praticada maioritariamente num clube desportivo, pelo menos uma vez por mês, ou
entre 1 a 3 vezes por semana, ao longo de todo o ano. É realizada
preferencialmente durante o fim-de-semana, o que se pode depreender que durante
a semana é efectuado um treino com uma maior componente física do que técnica
(leitura do mapa, etc.), e que a prática da actividade é reservada para os dias das
competições, que decorrem principalmente durante os dias do fim-de-semana,
geralmente durante duas horas no máximo. Devido à sua vertente eminentemente
competitiva, esta actividade é realizada em vários pontos do país, sem local fixo
para a sua prática.
Por outro lado, o pedestrianismo é uma prática informal, realizada
maioritariamente num grupo de sociabilidade (amigos, colegas, vizinhos, familiares)
com um carácter de lazer. É uma actividade realizada pontualmente, normalmente
sem frequência regular ou pelo menos uma vez por mês, e geralmente ao longo de
todo o ano. Pertence ao grupo das actividades designadas como contemplativas,
onde os praticantes procuram diferentes espaços para a sua realização, como
mostram os dados, exigindo para isso alguma mobilidade, tanto no concelho, como
no distrito ou fora do distrito de residência. É uma actividade realizada
preferencialmente durante o fim-de-semana, ao longo do dia de forma
indiferenciada, ou preferencialmente durante o período da manhã, entre 2 a 6 horas.
Em relação às razões para a prática dos Desportos de Natureza, os
praticantes inquiridos indicam as questões ambientais (estar em contacto com a
natureza; para apreciar a natureza e a paisagem; para defender o ambiente) como
as mais importantes, com uma média de 4,1 (numa escala de 1 a 5), seguida da
aventura (para ter novas experiências/ sensações de aventura; para desafiar as
capacidades; para pôr-se à prova), com uma média de 3,9, como as mais
importantes para a prática dos Desportos de Natureza. O envolvimento na
259
competição desportiva é a razão que aparece com menor importância entre as 6
apontadas, com uma média de 2,2.
Tabela 32. Razões para a prática dos Desportos de Natureza.
1 2 3 4 5
Razões para a prática dos Desportos de
Nada Pouco Muito Totalmente Média
Natureza importante importante
Importante
importante importante
260
ambientais são as mais importantes, seguida da aventura, embora para os
praticantes de bodyboard e de surf estas duas razões sejam consideradas iguais
(média de 4,2 em ambas as razões e ambas as actividades). A sociabilidade (para
ocupar o tempo livre; para interagir com outras pessoas/contacto social; pelo
convívio que proporciona) é mais importante para os praticantes de canoagem
(média de 4,0), enquanto as questões de saúde (higiénicas) são mais relevantes
para os praticantes de BTT (média de 3,6) e de pedestrianismo (média de 3,5). Os
praticantes de orientação, por praticarem maioritariamente num clube desportivo,
são os que apresentam a maior média na razão competitiva (média de 3,1). As
razões associadas ao turismo (para visitar outros locais/ destinos; para conhecer
outras tradições e outras culturas; para visitar e defender o património) são mais
importantes para os praticantes de montanhismo (média de 4,0) e de pedestrianismo
(média de 3,9).
Gráfico 23. Valores médios da importância das razões apontadas pelos praticantes,
para a prática nas nove actividades dos Desportos de Natureza onde se obtiveram
mais respostas, numa escala de 1 a 5, em que 1 corresponde a nada importante e 5 a
totalmente importante.
Fonte: elaboração própria com base no QPDN2011.
261
Tabela 33. Constrangimentos à prática dos Desportos de Natureza.
1 2 3 4 5
Constrangimentos à prática dos
Nada Pouco Muito Totalmente Média
Desportos de Natureza Importante
importante importante importante importante
262
A falta de tempo é também, em todos os grupos de idade, o principal limitador
de uma prática mais regular em todos os grupos, embora menos relevante para o
grupo de mais de 56 anos (média de 2,6). Os dados evidenciam também que os
indivíduos mais jovens (18-30 anos) apresentam (percepcionam) um nível de
constrangimentos superiores em todos os itens, em relação aos restantes grupos, à
excepção da falta de tempo, que é mais evidenciada pelo grupo dos 31-43 anos.
Relevante é também considerar as diferenças pelo estado civil e pela
condição e situação perante o trabalho. Denota-se que o factor tempo não é um
constrangimento tão importante para os indivíduos casados/separados ou viúvos
(média de 3,3), e é mais importante para os casados/a viverem em união de facto
(média de 3,7) do que para os solteiros (média de 3,5). Em contrapartida o factor
financeiro é um constrangimento mais importante para os indivíduos solteiros (média
de 2,9), e menos importante para os indivíduos casados/separados ou viúvos (média
de 2,5). Em relação à condição e situação perante o trabalho, verifica-se que os
trabalhadores apresentam maiores constrangimentos temporais e menores
constrangimentos temporais do que os restantes.
Considerando as nove actividades dos Desportos de Natureza onde se
obtiveram mais respostas (ver Gráfico 24) verifica-se que a falta de tempo é a
principal condicionante apontada, pelos praticantes de todas as actividades. Para os
praticantes de mergulho a falta de dinheiro é tão importante como a falta de tempo
(média de 3,7 em ambos), provavelmente pelos elevados custos que estão
associados a esta prática. O efeito da sazonalidade verifica-se mais nas actividades
de canoagem e de mergulho (média de 2,5 em ambos), embora esta razão não seja
importante. O facto dos espaços de prática serem afastados do local de residência
representa um maior constrangimento para os praticantes de escalada e de
mergulho (média de 2,7 em ambos), enquanto os motivos de saúde são mais
importantes para os praticantes de orientação (média de 2,5). A falta de companhia
é para os praticantes de escalada a segunda principal condicionante, o que pode ser
explicado pelo facto de esta actividade necessitar de pelo menos duas pessoas para
ser praticada, pelas questões de segurança necessárias. A motivação também é
mais importante para os praticantes de escalada (média de 2,4). As más condições
dos espaços são mais importantes para o mergulho e para o surf (média de 2,5 em
ambos), a falta de equipamento é mais importante para a canoagem e para a
263
escalada (média de 2,5 em ambos), enquanto a falta de conhecimentos é mais
importante para a escalada e para o surf (média de 2,3 em ambos).
Estes resultados vão ao encontro de outros estudos que mostram que
prevalecem um conjunto de barreiras à participação que são comuns todas as
populações e actividades (Holland, Pennington-Gray, & Thapa, 2001; Scott & Kim,
1998; Virden & Yoshioka, 1992), como a falta de tempo, a falta de dinheiro; a saúde
pessoal, e a falta de companhia. Neste caso, como só foram considerados os que
são praticantes dos Desportos de Natureza, e portanto indivíduos activos, a saúde
pessoal não é um factor tão importante.
264
Tabela 34. Características associadas aos Desportos de Natureza.
1 2 3 4 5
Grau de
Nada Pouco Muito Totalmente Média
Associação Importante
importante importante importante importante
265
Gráfico 25. Grau de associação à prática dos Desportos de Natureza apontado pelos
praticantes das nove actividades onde se obtiveram mais respostas.
Fonte: elaboração própria com base no QPDN2011.
266
Os resultados da associação por sexo mostram que os homens apresentam
valores (médias) superiores às mulheres em todos os itens. Em relação à idade
verifica-se o grupo mais jovem (18-30 anos) apresenta valores mais altos nos itens
esforço (média de 3,6), deslizamento (média de 2,6), competição (média de 2,6),
desafio (média de 4,0), risco (média de 3,3), desporto (média de 4,1), espectáculo
(média de 3,0), aventura (média de 3,7), e turismo (média de 3,5), e o menor valor
na recreação (média de 3,4). O grupo mais velho (mais de 56 anos) apresenta os
valores mais elevados na recreação (média de 3,9) e na educação (média de 3,7), e
os valores mais baixos no risco (média de 2,6), espectáculo (média de 2,3), aventura
(média de 3,6), turismo (média de 3,6) e lazer (média de 3,8). Com o avançar da
idade denota-se uma menor associação com a competição, a aventura, o risco, o
desafio, a emoção, e o espectáculo, e um aumento progressivo da associação com
a recreação e a educação.
Tal como discutido anteriormente em relação à preferência (realização) de
actividades mais energética e com maior risco corporal (bodyboard, BTT, surf), pelo
grupo mais jovem, também estes dados apontam para a mesma tendência. As
sensações que os jovens procuram na prática dos Desportos de Natureza (aventura,
risco, desafio, espectáculo, esforço, competição) são as mais associadas às
actividades que realizam. Características com a educação e recreação são
tendencialmente mais importantes para os praticantes do grupo de idade mais
avançada (mais de 56 anos), o que também reflecte a sua preferência por
actividades mais contemplativas e informacionais.
267
um correspondente nível de rendimentos superior à média nacional, o que evidencia
assimetrias na participação quanto ao capital cultural, social e económico. Os
resultados evidenciam também uma maior taxa de respostas nos principais distritos
do litoral do país, possivelmente relacionada com as assimetrias demográficas
regionais de Portugal, e com as diferenças na difusão das actividades desportivas
no território. O perfil geral dos praticantes dos Desportos de Natureza corresponde,
assim, ao indivíduo do sexo masculino, jovem, solteiro, com um nível de
escolaridade elevado (ao nível do ensino superior), trabalhador por conta de outrem,
pertencente a um grupo profissional altamente qualificado, com um capital
económico acima da média nacional, e residente no litoral do país. Os resultados
deste trabalho, quanto à estrutura social de recrutamento dos Desportos de
Natureza vão ao encontro dos enunciados por Pociello (1981) sobre aquilo que
designou como ecologização das práticas desportivas, um fenómeno de recurso do
aproveitamento das fontes de energia naturais através de máquinas ecológicas
(bicicleta, prancha de surf, asa-delta, etc.), característico dos indivíduos detentores
de um volume global de capital elevado, em especial de capital cultural.
Os praticantes inquiridos apresentam maioritariamente um estilo de vida
activo. Uma análise global aos índices de frequência permite confirmar que os
indivíduos inquiridos apresentam um estilo de vida muito centrado nas práticas
expressivas, em especial na prática desportiva e na expressão ao ar livre, apesar
das actividades de rotina, em especial no espaço doméstico, representarem a sua
principal ocupação de tempo livre. Outro dado relevante para a determinação de um
estilo activo dos inquiridos é o facto das práticas de abandono revelarem ser uma
prática pouco frequente na sua rotina. A sociabilidade é também um factor
determinante nas escolhas do lazer já que, quer as práticas de sociabilidade
doméstica, quer as actividades de sociabilidade urbana e local, representarem uma
opção frequente do uso dos seus tempos livres. Os dados revelam também que o
lazer e o uso dos tempos livres dos praticantes inquiridos são distribuídos
invariavelmente entre o espaço público e o doméstico (índices de frequência iguais),
contrariando o resultado de outros estudos (Lopes J. T., 2000) que revelam uma
predominância do espaço doméstico ou privado. Os resultados do estilo de vida
também revelam diferenças estatisticamente significativas entre as características
sociodemográficas dos praticantes inquiridos. Quando se afere os índices de
frequência das práticas de lazer e dos usos dos tempos livres analisados segundo o
268
sexo, verifica-se que são as mulheres que apresentam um índice de frequência
superior aos homens nas primeiras 8 categorias (práticas domésticas informativas,
receptivas e/ou expressivas; práticas de sociabilidade doméstica; práticas
domésticas de abandono; práticas de sociabilidade urbana e local; práticas de
expressão cultural e/ou artística; práticas de expressão ao ar livre; práticas de
participação expressiva; e práticas receptivas, expressivas e de rotina), enquanto os
homens apresentam índices superiores nas (3) últimas (práticas de sociabilidade
associativa local; práticas de expressão turística; práticas de expressão desportiva).
Uma nota deve ser efectuada, quando comparamos estes resultados com os
resultados dos estudos nacionais sobre as práticas de lazer (Gomes R. T., 2001;
Instituto Nacional de Estatística, 2001), que evidenciam uma taxa de realização
superior para os homens, face às mulheres, em todas as categorias das práticas de
lazer analisadas. As mulheres inquiridas, talvez por terem conquistado os vários
níveis de ensino, incluindo o ensino superior, assim como segmentos qualificados do
mercado de trabalho, acabaram por conquistar o espaço público. Por outro lado, a
análise do estatuto da mulher inquirida neste estudo, eminentemente jovem, solteira
e sem filhos a seu cargo, sugere que estas talvez apresentem um menor número de
constrangimentos do que a mulher que tem encargos familiares e, assim, um maior
tempo disponível para as actividades de lazer. Verifica-se que a idade é também um
factor importante na frequência das diferentes práticas de lazer e usos dos tempos
livres. Nos estudos sobre as práticas de lazer da população portuguesa (Gomes R.
T., 2001; Instituto Nacional de Estatística, 2001), o avançar da idade corresponde
globalmente, e em alguns casos de modo pronunciado, à diminuição das práticas
realizadas. No entanto, neste subgrupo da população portuguesa (praticantes dos
Desportos de Natureza) os resultados não evidenciam esta relação, já que em
muitos dos casos, o grupo de idade mais velho apresenta os índices de frequência
mais elevados. Estaremos na presença daquilo que J. T. Lopes (2000) designa de
um grupo de activistas culturais que, pela própria circunstância da sua idade ser
mais avançada, acumularam experiências e reforçaram predisposições inculcadas,
resistindo, por isso, a movimentos de anomia cultural? J. T. Lopes (2000) refere que
seria razoável prever que, com o avançar da idade, crescesse a propensão para
uma certa desvitalização das práticas culturais e de lazer, e um envelhecimento
cultural extremamente precoce, intimamente ligado à entrada estável na vida activa.
Mas de facto os praticantes dos Desportos de Natureza (inquiridos) parecem
269
evidenciar um determinado padrão distinto, apresentando um estilo de vida muito
mais activo do que a população em geral.
Os dados apontam também para uma procura satisfeita pelos indivíduos
inquiridos, no que diz respeito à prática dos Desportos de Natureza, apesar de a
relação entre a satisfação e a frequência fique aquém do desejado, já que a maioria
dos praticantes gostaria de realizar a actividade favorita mais vezes, pressupondo-se
por isso alguns tipos de constrangimentos que condicionam a frequência das
respectivas práticas. Dos dados da procura salienta-se que o BTT é,
simultaneamente: a actividade que foi realizada por mais indivíduos (pelo menos
uma vez); a actividade praticada com maior frequência pelo maior número de
indivíduos; e a actividade que os indivíduos gostariam de praticar com maior
frequência. Por outro lado, o montanhismo, o mergulho e a canoagem são as
actividades que apresentam um maior potencial de procura. A análise discriminada
por sexo aponta para uma maior tendência das mulheres para a prática do
pedestrianismo, enquanto os homens apresentam uma maior predisposição para a
prática do BTT. Por outro lado, a análise pelos diferentes grupos de idade revela que
o BTT se apresenta nos dois primeiros grupos como a actividade praticada com
maior frequência, enquanto o pedestrianismo surge como prática mais frequência
nos restantes grupos.
O perfil da prática dos Desportos de Natureza também demonstra alguns
padrões comuns, apesar de se evidenciarem diferenças em função do tipo de
actividade. De forma geral, o perfil da prática dos Desportos de Natureza pode ser
sintetizado da seguinte forma: as actividades são realizadas geralmente de forma
informal com o grupo de sociabilidade (amigos, colegas, vizinhos, familiares), com
um carácter de lazer, e é principalmente por influência desse grupo que foi iniciada a
prática. As actividades são de forma geral realizadas ao longo de todo o ano, pelo
menos uma vez por semana, durante o fim-de-semana, e normalmente durante o
período da manhã. São praticadas maioritariamente por indivíduos com um nível de
proficiência técnica intermédia, que percorrem vários espaços de prática (sem local
fixo para a prática), realizadas normalmente no concelho de residência, sem pedirem
autorização para a utilização desses espaços de prática. Por norma fazem fotografia
como actividade complementar à prática dos Desportos de Natureza. Os dados
apontam para que as condições específicas para a realização de cada actividade
(geográficas, meteorológicas, etc.), o perfil dos praticantes, e o âmbito socio-
270
organizacional tenham influência no perfil da prática (regularidade, frequência e
duração) de cada uma das actividades dos Desportos de Natureza. Denota-se que
as actividades que necessitam de espaços com características específicas (por
exemplo montanhismo e mergulho), e que são realizadas afastado dos locais de
residência, apresentam a maior tendência para serem desenvolvidas fora do distrito
ou mesmo do país, e por isso praticadas com menor regularidade e frequência. Para
a prática de montanhismo, por exemplo, Portugal não tem oferta de alta montanha, e
a média montanha localiza-se principalmente no interior do país, exigindo
deslocações e justificando práticas de maior duração (mais do que um dia) e ao fim
de semana ou nas férias. No caso do mergulho, apesar da dimensão da nossa
costa, ainda estão pouco exploradas as condições para a sua prática, e por isso os
praticantes tendencialmente procuram os melhores locais, exigindo também maiores
deslocações. Em contraste, como Portugal tem excelentes condições para a
realização de actividades marítimas de ondas (bodyboard e surf), e estes espaços
estão localizados nas principais zonas de residência, não são necessárias grandes
deslocações, e portanto a prática é mais frequente. No que diz respeito ao perfil dos
praticantes, os que são activos perante o trabalho e os que têm encargos familiares
apresentam uma prática maioritariamente ao fim de semana. Já os mais jovens, e
estudantes, têm uma prática mais indiferenciada ao longo da semana. Assim, por
exemplo o BTT, que é praticado principalmente por indivíduos trabalhadores,
apresenta uma frequência regular ao fim de semana. O perfil da prática também
parece ser influenciado pelo âmbito socio-organizacional, evidenciando-se uma
maior frequência nos praticantes que realizam estas actividades no contexto dos
clubes desportivos. Os praticantes de orientação, por exemplo, apresentam valores
de frequência maiores do que os das restantes actividades pois são estes que
maioritariamente praticam no âmbito dos clubes desportivos.
As principais razões apontadas para a realização da prática dos Desportos de
Natureza são ambientais (e.g. para estar em contacto com a natureza) e de aventura
(e.g. para ter novas experiências e sensações de aventura). Por outro lado, as
razões menos apontadas pelos praticantes são as associadas à competição,
manifestando o carácter lúdico da prática dos Desportos de Natureza. Contudo, as
actividades desenvolvidas no âmbito dos clubes desportivos (desporto formal)
apresentam maior motivação competitiva. No que diz respeito aos constrangimentos
apontados para a prática dos Desportos de Natureza, os praticantes referem que a
271
falta de tempo é o principal factor, seguida da limitação financeira. Por outro lado,
referem que os factores menos importantes são a falta de transportes e a falta de
conhecimentos técnicos. As mulheres dão mais importância aos constrangimentos
do que os homens, apresentando índices superiores em todos os itens propostos.
Isto reflecte a sua percepção de que não tem direito ao lazer, facto que deriva da
estrutura do papel sexual imposta às mulheres, numa sociedade patriarcalista de
domínio masculino. Neste sentido, a mulher tende a negar a oportunidade de se
envolver neste tipo de actividades (e noutros tipos de lazer), por causa das
responsabilidades familiares, em particular pelo seu papel de cuidadoras. A falta de
tempo é o constrangimento mais valorizado pelos praticantes trabalhadores activos,
e casados. Já os mais jovens, e estudantes, indicam constrangimentos
principalmente financeiros, e não de tempo. Estes dados apontam para uma elevada
importância das variáveis tempo e dinheiro para a prática dos Desportos de
Natureza, que assume diferencial relevância dependendo das características
sociodemográficas dos praticantes. Da mesma forma, os constrangimentos
dependem da actividade em questão. Por exemplo, o mergulho, que é uma prática
mais dispendiosa, é associado de igual forma aos constrangimentos financeiro e de
tempo. No entanto, a frequência da prática das outras actividades é constrangida
principalmente pelo tempo disponível.
272
Gráfico 26. Número de Organizações Promotoras de Desportos de
Natureza, em Portugal continental, por tipologia de organização.
EAT: Empresas de Animação Turística.
Fonte: dados obtidos através da consulta às Federações que tutelam as 23
actividades dos Desportos de Natureza, ao RNAAT, e ao IDP.
273
Mapa 2. Distribuição geográfica das Organizações Promotoras dos Desportos
de Natureza por distrito de Portugal continental.
Fonte: dados obtidos através da consulta às Federações que tutelam as 23
actividades dos Desportos de Natureza, ao RNAAT, e ao IDP.
274
Tabela 35. Tipologias de Organizações Promotoras dos Desportos de Natureza por
distrito.
Tipologia de Organização
Empresas de Clubes desportivos Total
Clubes de
Distritos Animação e associações
praticantes
Turística federadas
N % N % N % N %
Aveiro 13 3,8 69 6,7 11 9,6 93 6,3
Beja 14 4,1 19 1,9 4 3,5 37 2,5
Braga 23 6,8 56 5,5 2 1,7 81 5,5
Bragança 9 2,6 12 1,2 2 1,7 23 1,6
Castelo Branco 14 4,1 22 2,1 5 4,3 41 2,8
Coimbra 19 5,6 55 5,4 5 4,3 79 5,3
Évora 12 3,5 12 1,2 3 2,6 27 1,8
Faro 43 12,6 86 8,4 7 6,1 136 9,2
Guarda 18 5,3 7 0,7 1 0,9 26 1,8
Leiria 22 6,5 68 6,6 16 13,9 106 7,2
Lisboa 41 12,1 259 25,3 24 20,9 324 21,9
Portalegre 2 0,6 6 0,6 3 2,6 11 0,7
Porto 24 7,1 153 14,9 13 11,3 190 12,8
Santarém 22 6,5 38 3,7 9 7,8 69 4,7
Setúbal 20 5,9 94 9,2 6 5,2 120 8,1
Viana do Castelo 23 6,8 32 3,1 3 2,6 58 3,9
Vila Real 11 3,2 21 2,1 0 0,0 32 2,2
Viseu 10 2,9 15 1,5 1 0,9 26 1,8
Total 340 100 1024 100 115 100 1479 100
Fonte: dados obtidos através da consulta às Federações que tutelam as 23 actividades dos
Desportos de Natureza, ao Registo Nacional de Agentes de Animação Turística, e ao
Instituto de Desporto de Portugal.
275
estudo (Tabela 36). Dessas federações, uma (7%) foi criada antes de 1910; três
(21%) foram criadas entre 1911 e 1940; duas (14%) foram criadas entre 1941 e
1970; cinco (36%) foram criadas entre 1971 e 1990; e três (21%) foram criadas após
1991.
Em relação à sede dessas catorze federações, doze estão sediadas em
Lisboa (86%), uma está sediada no Porto (7%) e outra em Castelo Branco (7%). As
modalidades tuteladas por estas federações têm uma difusão distinta pelo território
português. Se não contarmos com a Federação Equestre Portuguesa cujos clubes
não foram considerados para este estudo, das restantes treze federações, três
(23%) têm uma implantação em 1 a 6 distritos, cinco (38,5%) têm uma implantação
em 7 a 12 distritos, e cinco (38,5%) têm uma implantação em 13 a 18 distritos de
Portugal continental. Segundo os dados do Instituto do Desporto de Portugal (2011),
o número total de clubes desportivos revela uma tendência de estabilização (cerca
de 12000) nos últimos anos em análise (1996 a 2009), embora com uma grande
concentração nos distritos de Lisboa, Porto, Aveiro e Setúbal.
Os dados indicam (Tabela 35) que, do total de 1024 clubes e das associações
federadas que promovem Desportos de Natureza, a grande maioria destas
organizações está sediada nos distritos de Lisboa (25,3%) e Porto (14,9%), com
40,2% do total. Com menor número salienta-se os distritos de Portalegre (0,6%) e
Guarda (0,7%), distritos abaixo de 1% do total de clubes desportivos e associações.
Em relação aos clubes de praticantes, este tipo de organização é o que tem
menor expressão no conjunto total das organizações, correspondendo a 7,8% do
total das organizações, como já foi referido. A distribuição geográfica indica uma
maior concentração desta tipologia de clubes em Lisboa (20,9%), seguida de Leiria
(13,9%), Porto (11,3%), Aveiro (9,6%), Santarém (7,8%), e Faro (6,1%). Pelo lado
dos distritos que apresentam menor número destes clubes, destaca-se Vila Real que
não apresenta nenhum destes clubes.
Em relação às actividades dos clubes de praticantes (Tabela 37), o BTT é a
que tem uma maior expressão, pois 33% do total destes clubes são clubes de
praticantes desta modalidade, seguido das actividades de escalada/montanhismo,
que constituem 12,2%, do total destas organizações e 9,6% que correspondem a
clubes de praticantes de corridas de aventura. Salientam-se ainda 22,6% de clubes
que têm a designação natureza no seu nome.
276
Tabela 36. Caracterização das Federações que tutelam as 23 actividades dos
Desportos de Natureza.
Difusão
Nº de Nº de
Modalidades Ano de pelo
Nome da Federação Sede clubes praticantes
tuteladas fundação território
(2010) 1 (2009)2
(distrito)
Canyoning,
Federação de Campismo e Escalada,
1944 Lisboa 18 197 40.492
Montanhismo de Portugal Montanhismo,
Pedestrianismo
Federação de Desportos de Esqui, Castelo
1992 -2008 5 10 236
Inverno de Portugal Snowboard Branco
Federação Equestre Actividades
1927 Lisboa * * *
Portuguesa Equestres
Federação Portuguesa de
Mergulho 1965 Lisboa 12 102 1.353
Actividades Subaquáticas
Federação Portuguesa de Canoagem,
1979 Porto 17 106 2.346
Canoagem Rafting
Federação Portuguesa de
BTT 1899 Lisboa 16 125 7.654
Ciclismo (UVP)
Federação Portuguesa de
Espeleologia 1986 Lisboa 8 24 #
Espeleologia
Federação Portuguesa de
Kitesurf 2002 Lisboa 3 4 #
Kitesurf - APD
Orientação,
Federação Portuguesa de Corridas de
1990 Lisboa 17 69 2.346
Orientação Aventura (multi-
actividades)
Federação Portuguesa de
Remo 1920 Lisboa 13 59 1.666
Remo
Federação Portuguesa de Bodyboard,
1989 Lisboa 10 233 1.971
Surf Surf, Skimboard
Federação de Arqueiros e Tiro com arco
1981 Lisboa 9 23 196
Besteiros de Portugal e/ou besta
Federação Portuguesa de
Vela, Windsurf 1927 Lisboa 8 62 2.868
Vela
Federação Portuguesa de
Voo livre 1995 Lisboa 6 10 692
Voo Livre
Lisboa
(12)
Média de
Actividades Castelo Clubes Praticantes
Federações (14) distritos
tuteladas (23) Branco (1024) (61820)
(11)
(1)
Porto (1)
Notas:
1
dados obtidos nas respectivas Federações;
2
dados obtidos através do Instituto do Desporto de Portugal (2011);
* dados não considerados;
# dados não referenciados no Instituto do Desporto de Portugal (2011).
Fonte: elaboração própria com base no Instituto do Desporto de Portugal (2011).
277
Tabela 37. Número de clubes de praticantes por actividade.
Actividades N %
Actividades Equestres 2 1,7
Bodyboard 0 0,0
BTT 38 33,0
Canoagem 7 6,1
Canyoning 0 0,0
Escalada/Montanhismo 14 12,2
Espeleologia 0 0,0
Esqui 0 0,0
Kitesurf 1 0,9
Mergulho 1 0,9
Orientação 1 0,9
Pedestrianismo 0 0,0
Rafting 1 0,9
Remo 1 0,9
Skimboard 0 0,0
Snowboard 0 0,0
Surf 3 2,6
Tiro c/arco e Besta 2 1,7
Vela 6 5,2
Voo livre 1 0,9
Windsurf 0 0,0
Natureza 26 22,6
Corridas de Aventura 11 9,6
Total 115 100
278
4) Quais são as principais perspectivas de crescimento do sector? Quais são
as actividades que apresentam um maior potencial de crescimento? Que actividades
apresentam maior potencial para serem desenvolvidas em cada um dos âmbitos?
Tabela 38. Idade dos dirigentes das Organizações Promotoras dos Desportos de
Natureza.
Tipologia de OPDN
Clubes Clubes de Total
Empresas Associações
Desportivos Praticante
M DP (±) M DP (±) M DP (±) M DP (±) M DP (±)
Idade 38,7 7,8 43,3 11,4 44,5 8,1 38,6 10,5 39,6 9,6
279
Gráfico 28. Nível de escolaridade dos dirigentes das Organizações
Promotoras dos Desportos de Natureza.
Fonte: elaboração própria com base no QOPDN2011.
280
Tabela 40. Número de horas de dedicação dos dirigentes às Organizações
Promotoras dos Desportos de Natureza.
Tipologia de OPDN
Dedicação à Clubes Clubes de Total
Empresas Associações
organização Desportivos Praticante
M DP (±) M DP (±) M DP (±) M DP (±) M DP (±)
Nº de Horas 43,2 26,6 21,0 24,7 4,8 6,2 15 11,8 28,3 25,5
Notas: M – Média; DP – Desvio Padrão.
Fonte: elaboração própria com base no QOPDN2011.
281
Tabela 42. Principal função dos dirigentes nas Organizações Promotoras dos
Desportos de Natureza.
Tipologia de OPDN
Principal função na Clubes Clubes de Total
Empresas Associações
OPDN Desportivos Praticante
N % N % N % N % N %
Funções técnicas 20 27,0 9 32,1 0 0,0 12 20,0 41 24,7
Funções comerciais 5 6,8 0 0,0 0 0,0 0 0,0 5 3,0
Funções financeiras 1 1,4 0 0,0 0 0,0 0 0,0 1 0,6
Funções administrativas 0 0,0 1 3,6 0 0,0 4 6,7 5 3,0
Funções dirigentes 41 55,4 16 57,1 4 100 41 68,3 102 61,4
Outras 7 9,5 2 7,1 0 0,0 3 5,0 12 7,2
Total 74 100 28 100 4 100 60 100 166 100
282
Tabela 43. Número de Organizações Promotoras dos Desportos de Natureza
por tipologia.
Tipologia de OPDN N %
Empresas 74 44,6
283
A maioria das OPDN inquiridas está sediada nos distritos do litoral do país,
particularmente em Lisboa (15,7%), Setúbal (10,7%), Porto (10,2%), e Faro (9,0%),
representando cerca de metade (45,4%) das organizações inquiridas. Em relação
aos distritos com menor número de organizações sediadas, salienta-se o distrito de
Portalegre, onde não se conseguiu inquirir nenhuma organização, Bragança (1,2%),
Viseu (1,2%) e Guarda (1,8%), todos abaixo dos 2% do total das organizações
inquiridas, tal como se mostra na Tabela 45.
Tabela 45. Distribuição geográfica da sede social das Organizações Promotoras
dos Desportos de Natureza.
Tipologia de OPDN
Clubes Clubes de Total
Distritos Empresas Associações
Desportivos Praticante
N % N % N % N % N %
284
Tabela 46. Âmbito territorial de referência das Organizações Promotoras dos
Desportos de Natureza para o desenvolvimento das suas actividades.
Tipologia de OPDN
Clubes Clubes de Total
Âmbito territorial Empresas Associações
Desportivos Praticante
N % N % N % N % N %
286
Tabela 48. Fundação das Organizações Promotoras dos Desportos de Natureza.
Tipologia de OPDN
Clubes Clubes de Total
Empresas Associações
Fundação Desportivos Praticante
N % N % N % N % N %
Uma pessoa, sozinha 25 33,8 0 0,0 0 0,0 3 5,0 3 16,9
Um grupo de pessoas da
17 23,0 1 3,6 0 0,0 1 1,7 2 11,4
mesma família
Um grupo de amigos 23 31,1 15 53,6 4 100 41 68,3 83 50,0
Um grupo de pessoas
7 9,5 11 39,3 0 0,0 13 21,7 31 18,7
conhecidas
Outros 2 2,7 1 3,6 0 0,0 2 3,3 5 3,0
Total 74 100 28 100 4 100 60 100 166 100
287
Salienta-se, no entanto, que a maioria das organizações (54,8%) não tem
qualquer trabalhador remunerado a tempo inteiro. As empresas são as OPDN que
têm a maior média de empregados a tempo inteiro (2,9 ± 5,4), e a tempo parcial (3,9
± 7,2). A maioria das empresas tem apenas um (33,8%) ou dois empregados
(20,3%) a tempo inteiro, e apenas 5,3% tem 11 ou mais empregados a tempo inteiro.
Nota-se ainda que 18,9% das empresas não tem empregados a tempo inteiro. Os
dados mostram também que as empresas são maioritariamente microempresas, já
que 94,5% tem menos do que 10 empregados a tempo inteiro. Deve-se ainda
evidenciar que a maioria (83,7%) das OPDN do movimento associativo (clubes e
associações) não tem empregados a tempo inteiro.
288
As empresas são as OPDN que apresentam a oferta do maior número de
actividades dos Desportos de Natureza, com uma média de 4,6 (±3,9) actividades
por empresa. Apenas 21,6% desenvolve só uma actividade, e 8,3% desenvolvem 10
ou mais actividades (máximo 17). As associações (média de 3,4 ±2,2) situam-se
entre os clubes desportivos e as empresas no que diz respeito à oferta de Desportos
de Natureza. Denota-se que 40% das associações apresenta uma oferta com base
em apenas uma ou duas actividades, e nenhuma das associações apresenta mais
do que 10 actividades dos Desportos de Natureza. Os clubes desportivos são as
OPDN que apresentam uma maior tendência para desenvolver um número menor
de Desportos de Natureza (média de 2,5 ±1,8), já que mais de metade (64,3%)
desenvolve apenas uma ou duas actividades. Todos os clubes de praticantes
desenvolvem apenas uma actividade devido ao seu estatuto jurídico.
Em relação às actividades que constituem a oferta OPDN (ver Tabela 51),
salienta-se o BTT (44%) como a actividade oferecida pelo maior número de
organizações, seguida do pedestrianismo (37,3%), das multiactividades (33,7%), da
orientação (32,5%), e da canoagem (32,5%). Quando analisada a oferta por tipologia
de OPDN denota-se que a canoagem (40,5%) foi, em 2010, a actividade que
integrou a base da oferta do maior número de empresas, seguida das
multiactividades (41,9%), e do pedestrianismo (39,2%). Em relação aos clubes
desportivos, destaca-se a vela (32,1%) como a actividade dos Desportos de
Natureza mais oferecida, seguida do BTT, da orientação, e das multiactividades
(oferecidas por 28,6% dos clubes desportivos). Todos os clubes de praticantes são
clubes de BTT. O BTT (51,7%) foi também a actividade dos Desportos de Natureza
oferecida por mais associações, seguida do pedestrianismo (46,7%).
Considerando-se as três actividades dos Desportos de Natureza
desenvolvidas com maior frequência pelo global das OPDN em 2010 (ver Tabela 51),
a canoagem (26,5%) foi a actividade mais desenvolvida pelo maior número de
organizações, seguido pelo BTT (24,7%), e pelo pedestrianismo (24,7%). A análise
às empresas mostra que o surf (33,8%) e a canoagem (32,9%) foram as actividades
dos Desportos de Natureza promovidas com maior frequência pelo maior número de
empresas. O surf (51,1%) foi também a actividade mais desenvolvida pelas
empresas que apresentam maioritariamente um mercado internacional, seguido da
canoagem (36,4%). O BTT (39,3%), seguido da vela (25%), e das multiactividades
(25%), foram as actividades desenvolvidas com maior frequência pelo maior número
289
de clubes desportivos, enquanto o BTT (38,3%) e o pedestrianismo (38,3%) foram
as actividades promovidas com maior frequência pelo maior número de associações.
Tabela 51. Actividades dos Desportos de Natureza mais oferecidas e mais
desenvolvidas pelas Organizações Promotoras dos Desportos de Natureza.
Tipologia de OPDN
Total
Actividades Clubes Clubes de
Empresas Associações
Desportivos Praticante
A B A B A B A B A B
Actividades Equestres 13,5 5,4 0,0 0,0 0,0 0,0 3,3 1,7 7,2 3,0
Bodyboard 27,0 21,6 10,7 10,7 0,0 0,0 6,7 5,0 16,3 16,3
BTT 40,5 9,5 28,6 39,3 100 100 51,7 38,3 44,0 24,7
Canoagem 40,5 31,1 25,0 17,9 0,0 0,0 28,3 26,7 32,5 26,5
Canyoning 17,6 5,4 0,0 0,0 0,0 0,0 13,3 8,3 12,7 5,4
Escalada 32,4 8,1 7,1 0,0 0,0 0,0 30,0 18,3 26,5 10,2
Espeleologia 4,1 2,7 0,0 0,0 0,0 0,0 10,0 10,0 5,4 4,8
Esqui 5,4 1,4 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 2,4 0,6
Kitesurf 6,8 2,7 7,1 7,1 0,0 0,0 3,3 1,7 3,6 3,0
Mergulho 23,0 17,6 7,1 10,7 0,0 0,0 6,7 3,3 13,9 9,6
Montanhismo 28,4 8,1 0,0 0,0 0,0 0,0 36,7 26,7 24,1 13,3
Orientação 33,8 2,7 28,6 21,4 0,0 0,0 36,7 20,0 33,1 12,0
Pedestrianismo 39,2 18,9 17,9 14,3 0,0 0,0 46,7 38,3 37,3 24,7
Rafting 12,2 5,4 0,0 0,0 0,0 0,0 10,0 1,7 9,0 3,0
Remo 2,7 2,7 10,7 14,3 0,0 0,0 3,3 3,3 3,6 4,8
Skimboard 2,7 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 1,7 3,3 1,8 1,2
Snowboard 6,8 0,0 3,6 0,0 0,0 0,0 1,7 1,7 4,2 0,6
Surf 36,5 33,8 14,3 7,1 0,0 0,0 3,3 3,3 19,9 17,5
Tiro com Arco e
29,7 2,7 7,1 3,6 0,0 0,0 10,0 3,3 18,1 3,0
Besta
Vela 8,1 6,8 32,1 25,0 0,0 0,0 3,3 3,3 10,2 8,4
Voo livre 5,4 10,8 0,0 0,0 0,0 0,0 5,0 11,7 4,2 9,0
Windsurf 5,4 2,7 10,7 10,7 0,0 0,0 1,7 1,7 4,8 3,6
Multiactividades 41,9 23,0 28,6 25,0 0,0 0,0 28,3 18,3 33,7 21,1
Notas: A - Percentagem das actividades dos Desportos de Natureza oferecidas pelas
Organizações Promotoras dos Desportos de Natureza; B - Percentagem das actividades
dos Desportos de Natureza referidas como uma das três mais desenvolvidas pelas
Organizações Promotoras dos Desportos de Natureza.
Fonte: elaboração própria com base no QOPDN2011.
290
correspondem às actividades com a maior perspectiva de integração da oferta dos
clubes desportivos, enquanto o pedestrianismo (25%), o BTT (16,7%) e o
montanhismo (16,7%) são as novas actividades que se perspectivam ser
desenvolvidas no âmbito das associações. Denota-se no entanto que 50,6% das
OPDN não pretende incluir mais nenhuma actividade dos Desportos de Natureza na
sua oferta.
Tabela 52. Actividades que as Organizações Promotoras dos Desportos de
Natureza prevêem que constitua uma nova oferta.
Tipologia de OPDN
Clubes Clubes de Total
Actividades Empresas Associações
Desportivos Praticante
N % N % N % N % N %
Nenhuma 41 55,4 12 42,9 4 100 27 45,0 84 50,6
Actividades Equestres 2 2,7 0 0,0 0 0,0 1 1,7 3 1,8
Bodyboard 4 5,4 2 7,1 0 0,0 0 0,0 6 3,6
BTT 6 8,1 4 14,3 0 0,0 10 16,7 20 12,0
Canoagem 5 6,8 4 14,3 0 0,0 5 8,3 14 8,4
Canyoning 2 2,7 0 0,0 0 0,0 4 6,7 6 3,6
Escalada 1 1,4 2 7,1 0 0,0 7 11,7 10 6,0
Espeleologia 0 0,0 0 0,0 0 0,0 3 5,0 3 1,8
Esqui 1 1,4 0 0,0 0 0,0 1 1,7 2 1,2
Kitesurf 1 1,4 0 0,0 0 0,0 1 1,7 2 1,2
Mergulho 1 1,4 1 3,6 0 0,0 1 1,7 3 1,8
Montanhismo 2 2,7 2 7,1 0 0,0 10 16,7 14 8,4
Orientação 3 4,1 4 14,3 0 0,0 8 13,3 15 9,0
Pedestrianismo 3 4,1 2 7,1 0 0,0 15 25,0 20 12,0
Rafting 1 1,4 0 0,0 0 0,0 5 8,3 6 3,6
Remo 0 0,0 0 0,0 0 0,0 1 1,7 1 0,6
Skimboard 1 1,4 0 0,0 0 0,0 0 0,0 1 0,6
Snowboard 0 0,0 1 3,6 0 0,0 1 1,7 2 1,2
Surf 9 12,2 3 10,7 0 0,0 1 1,7 13 7,8
Tiro com Arco e Besta 2 2,7 1 3,6 0 0,0 1 1,7 4 2,4
Vela 1 1,4 3 10,7 0 0,0 0 0,0 4 2,4
Voo livre 3 4,1 0 0,0 0 0,0 0 0,0 3 1,8
Windsurf 1 1,4 4 14,3 0 0,0 0 0,0 5 3,0
Multiactividades 6 8,1 3 10,7 0 0,0 12 20,0 21 12,7
Outras 12 16,2 3 10,7 0 0,0 10 16,7 25 15,1
291
Em relação ao cancelamento de actividades (ver Tabela 53), 94,6% das
organizações inquiridas refere que não prevê cancelar nenhuma das actividades já
anteriormente promovidas.
Tabela 53. Número de actividades que as Organizações Promotoras dos
Desportos de Natureza prevêem cancelar.
Tipologia de OPDN
Actividades Clubes Clubes de Total
Empresas Associações
Desportivos Praticante
N % N % N % N % N %
Prevê cancelar 3 4,1 3 10,7 0 0,0 3 5,0 9 5,4
Não prevê cancelar 71 95,9 25 89,3 4 100 57 95,0 157 94,6
Total 74 100 28 100 4 100 60 100 166 100
Fonte: elaboração própria com base no QOPDN2011.
292
Os dados mostram que o principal âmbito que as empresas utilizam para
organizar as actividades dos Desportos de Natureza (ver Tabela 55) é através da
organização de actividades enquadradas por técnicos (guias ou monitores) (41,9%),
e através de actividades (ou cursos) de formação (33,8%). Por outro lado, a maioria
dos clubes desportivos recorre à organização das actividades mediante o treino e
competição (50%), e à organização de provas e eventos (32,1%), de acordo com o
âmbito tradicional (modelo competitivo) deste tipo de organizações. A maioria das
associações desenvolve as suas actividades através da organização de provas e
eventos (31,7%) e de actividades enquadradas por técnicos (guias ou monitores)
(23,3%).
Tabela 55. Âmbito de organização das actividades dos Desportos de Natureza.
Tipologia de OPDN
Âmbito Clubes Clubes de Total
organizacional Empresas Associações
Desportivos Praticante
N % N % N % N % N %
Cursos / Acções de
25 33,8 2 7,1 1 25,0 8 13,3 36 21,7
formação de praticantes
Enquadramento por técnicos
31 41,9 2 7,1 0 0,0 14 23,3 47 28,3
(guias/monitores, etc.)
Treino e competição 2 2,7 14 50,0 0 0,0 11 18,3 27 16,3
Organização de Provas e
11 14,9 9 32,1 2 50,0 19 31,7 41 24,7
Eventos
Aluguer / empréstimo do
equipamento sem
4 5,4 1 3,6 0 0,0 0 0,0 5 3,0
organização formal das
actividades.
Outro 1 1,4 0 0,0 1 25,0 8 13,3 10 6,0
Total 74 100 28 100 4 100 60 100 166 100
293
externa credenciada. De salientar a resposta de 15,1% das organizações que
indicam não fornecer nenhum tipo de formação aos seus técnicos.
Tabela 56. Formação dos técnicos das Organizações Promotoras dos Desportos
de Natureza.
Tipologia de OPDN
Formação dos Clubes Clubes de Total
Empresas Associações
técnicos Desportivos Praticante
N % N % N % N % N %
294
De forma geral, as organizações pedem autorização, formal e/ou informal,
para utilizar os espaços de prática (66,8%). No entanto, 32,5% dessas organizações
pagam uma taxa pela utilização desses espaços, enquanto 34,3% não pagam
nenhuma taxa pela utilização dos espaços de prática. As empresas (52,7%) são as
OPDN que, em maior valor percentual, referem que normalmente pedem
autorização e pagam uma taxa pela utilização dos espaços que utilizam, enquanto
os clubes desportivos (42,9%) e as associações (50%) normalmente pedem
autorização para a utilização dos espaços de prática sem, contudo, pagarem
qualquer taxa.
Tabela 58. Pedido de autorização dos espaços de prática dos Desportos de
Natureza.
Tipologia de OPDN
Autorização para
utilização dos Clubes Clubes de Total
Empresas Associações
Desportivos Praticante
espaços de prática
N % N % N % N % N %
Pede autorização e paga uma
taxa pela utilização dos 39 52,7 7 25,0 1 25,0 7 11,7 54 32,5
mesmos
Pede autorização sem pagar
14 18,9 12 42,9 1 25,0 30 50,0 57 34,3
nenhuma taxa
Não pede autorização e não
paga nenhuma taxa pela 10 13,5 6 21,4 2 50,0 20 33,3 38 22,9
utilização dos mesmos
Desenvolve as actividades
num espaço privado
9 12,2 0 0,0 0 0,0 2 3,3 11 6,6
pertencente à organização
(“Parques aventura”, etc.).
Total 74 100 28 100 4 100 60 100 166 100
295
Tabela 59. Equipamentos das Organizações Promotoras dos Desportos de
Natureza.
Tipologia de OPDN
Clubes Clubes de Total
Equipamentos Empresas Associações
Desportivos Praticante
N % N % N % N % N %
Não possui equipamento e
recorre ao aluguer e/ou
empréstimo de todo o 2 2,7 3 10,7 2 50,0 2 3,3 9 5,4
equipamento para promover
as suas actividades
Possui algum equipamento
mas, essencialmente, recorre
3 4,1 5 17,9 0 0,0 9 15,0 17 10,2
ao aluguer e/ou empréstimo
da maioria do equipamento
Possui quase todo o
equipamento e recorre,
apenas em situações
25 33,8 13 46,4 2 50,0 33 55,0 73 44,0
pontuais, ao aluguer e/ou
empréstimo de algum
equipamento
Possui todos os
equipamentos indispensáveis
44 59,5 7 25,0 0 0,0 16 26,7 67 40,4
e nunca recorre ao aluguer
de qualquer equipamento
Total 74 100 28 100 4 100 60 100 166 100
296
como estratégias de comercialização, enquanto as políticas de preços mais baixos
que a concorrência é pouco utilizada (21,6%).
Tabela 60. Critérios de segmentação utilizados pelas Organizações Promotoras
dos Desportos de Natureza.
Tipologia de OPDN
Critérios de Clubes Clubes de Total
segmentação Empresas Associações
Desportivos Praticante
N % N % N % N % N %
Actividades dirigidas a
diferentes públicos, c/ 46 62,2 8 28,6 2 50,0 23 38,3 79 46
segmentação
Actividades dirigidas a um
público de massas (s/ critério 13 17,6 2 7,1 2 50,0 8 13,3 25 13
de segmentação)
Actividades dirigidas a um
5 6,8 4 14,3 0 0,0 10 16,7 19 5
público especializado
Actividades dirigidos a um
7 9,5 8 28,6 0 0,0 13 21,7 28 7
público iniciante
Actividades dirigidas a um
público que se quer 1 1,4 5 17,9 0 0,0 4 6,7 10 1
aperfeiçoar na actividade
NS/NR 2 2,7 1 3,6 0 0,0 2 3,3 5 3,0
Total 74 100 28 100 4 100 60 100 166 100
297
Tabela 62. Principais canais de distribuição de distribuição utilizados pelas
Organizações Promotoras dos Desportos de Natureza.
Tipologia de OPDN
Canais de Clubes Clubes de Total
Empresas Associações
distribuição Desportivos Praticante
N % N % N % N % N %
298
(50%) dos clubes desportivos tem um máximo de 100 praticantes, e 21,4% entre
101-250. A maioria (53,3%) das associações tem um máximo de 100 praticantes. As
empresas são assim as OPDN que apresentam o maior número de praticantes.
A maioria (57,2%) das organizações indicam que o número de praticantes
estagnou, tal como o evidenciado na Tabela 65. Salienta-se ainda que o crescimento
do número de praticantes ocorreu apenas em 9% das OPDN.
Tabela 64. Número de praticantes das Organizações Promotoras dos Desportos
de Natureza.
Tipologia de OPDN
Número de Clubes Clubes de Total
praticantes Empresas Associações
Desportivos Praticante
N % N % N % N % N %
Menos de 50 7 9,5 9 32,1 2 50,0 17 28,3 35 21,1
Entre 50 e 100 9 12,2 5 17,9 0 0,0 15 25,0 29 17,5
Entre 101 e 250 11 14,9 6 21,4 2 50,0 5 8,3 24 14,5
Entre 251 e 500 8 10,8 4 14,3 0 0,0 10 16,7 22 13,3
Entre 501 e 1000 17 23,0 3 10,7 0 0,0 7 11,7 27 16,3
Entre 1001 e 2000 5 6,8 1 3,6 0 0,0 1 1,7 7 4,2
Total 74 100 28 100 4 100 60 100 166 100
300
As OPDN afirmam que os praticantes que procuram pela primeira vez os
serviços da organização são de nível iniciados (51,8%) ou apresentam um nível
intermédio (22,9%), não se denotando diferenças estatisticamente significativas
entre os diferentes tipos de OPDN.
Tabela 68. Nível de experiência dos praticantes das Organizações Promotoras
dos Desportos de Natureza.
Tipologia de OPDN
Nível de Clubes Clubes de Total
experiência Empresas Associações
Desportivos Praticante
N % N % N % N % N %
Iniciado 44 59,5 13 46,4 0 0,0 29 48,3 86 51,8
Intermédio 12 16,2 5 17,9 3 75,0 18 30,0 38 22,9
Avançado 1 1,4 2 7,1 0 0,0 3 5,0 6 3,6
Níveis variados 17 23,0 8 28,6 1 25,0 10 16,7 36 21,7
Total 74 100 28 100 4 100 60 100 166 100
301
Os praticantes das OPDN pertencem maioritariamente (60,8%) ao grupo dos
18-35 anos, tal como demonstra a Tabela 70. O grupo com mais de 65 anos não
constitui a principal procura de nenhuma das organizações inquiridas. Observa-se
um crescimento do número de praticantes até ao grupo entre os 18-35 anos (atinge
o ponto mais elevado de praticantes), face ao grupo anterior (menos de 18 anos) e
depois um decréscimo progressivo com o aumento da idade. Estes dados também já
foram apontados em trabalhos semelhantes (Betrán & Betrán, 1999; Viñuelas,
Betrán, & Plantalamor, 1995). Nos clubes desportivos esta relação não é tão
evidente porque estes têm um considerável número de indivíduos com menos de 18
anos (35,7%), quase igual ao do grupo dos 18-35 anos (39,3%), evidenciando assim
a sua vocação na formação de jovens praticantes para a competição através do
desporto formal federado.
Tabela 70. Idade dos praticantes nas Organizações Promotoras dos Desportos de
Natureza.
Tipologia de OPDN
Clubes Clubes de Total
Idade Empresas Associações
Desportivos Praticante
N % N % N % N % N %
<18 anos 6 8,1 10 13,5 0 0,0 8 13,3 24 14,5
18-35 anos 50 67,6 11 14,9 1 25,0 39 65,0 101 60,8
36-50 anos 18 24,3 7 9,5 3 75,0 10 16,7 38 22,9
51-65 anos 0 0,0 0 0,0 0 0,0 3 5,0 3 1,8
>65 anos 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0
Total 74 100 28 100 4 100 60 100 166 100
Fonte: elaboração própria com base no QOPDN2011.
302
Tabela 71. Base territorial de recrutamento dos praticantes das Organizações
Promotoras dos Desportos de Natureza.
Tipologia de OPDN
Base de Clubes Clubes de Total
recrutamento Empresas Associações
Desportivos Praticante
N % N % N % N % N %
Local 4 5,4 7 25,0 1 25,0 17 28,3 29 17,5
Regional 24 32,4 14 50,0 3 75,0 28 46,7 69 41,6
Nacional 28 37,8 7 25,0 0 0,0 15 25,0 50 30,1
Internacional 18 24,3 0 0,0 0 0,0 0 0,0 18 10,8
Local 4 5,4 7 25,0 1 25,0 17 28,3 29 17,5
Total 74 100 28 100 4 100 60 100 166 100
303
Tabela 72. Constrangimentos apontados pelos dirigentes das Organizações
Promotoras dos Desportos de Natureza para a prática dos Desportos de Natureza.
Tipologia de OPDN
Constrangimentos para a prática Clubes Clubes de Média
Empresas Associações
dos Desportos de Natureza Desportivos Praticante Total
Média Média Média Média
Porque não quer 2,6 2,7 1,8 2,6 2,6
Por falta de tempo (obrigações
3,3 3,4 2,8 3,4 3,3
familiares e/ou profissionais)
Por falta de dinheiro (ser muito caro) 3,3 3,3 2,8 3,3 3,3
Por ser uma actividade sazonal 2,6 2,5 1,5 2,1 2,4
Por ser afastado da zona de
2,8 2,8 1,5 2,5 2,7
residência
Por falta de transportes 2,4 2,5 1,8 2,4 2,4
Por motivos de saúde 2,6 2,9 2,0 2,9 2,7
Por falta de companhia 2,7 2,5 1,8 2,5 2,5
Por falta de motivação 3,0 2,9 2,8 3,0 2,9
Pelas más condições dos espaços de
2,5 2,4 1,8 2,4 2,4
prática
Por falta de equipamento 2,4 2,6 2,0 2,6 2,5
Por não ter conhecimentos suficientes 2,7 2,5 2,0 2,6 2,6
Tabela 73. Razões apontadas pelos dirigentes das Organizações Promotoras dos
Desportos de Natureza para a prática dos Desportos de Natureza.
Tipologia de OPDN
Razões para a prática dos Clubes Clubes de Média
Empresas Associações
Desportos de Natureza Desportivos Praticante Total
Média Média Média Média
Estar em contacto com a Natureza;
para apreciar a Natureza e a 3,8 3,8 4,8 4,2 4,0
Paisagem; para defender o Ambiente
Ter novas experiências/ sensações de
Aventura; para desafiar as 3,9 3,9 4,5 3,9 3,9
capacidades; para pôr-se à prova
Ocupar o tempo livre; para interagir
com outras pessoas/ contacto social; 3,7 3,6 4,5 4,0 3,8
pelo convívio que proporciona
Recomendação médica/ questões de
saúde; para manter e/ ou melhor a
Condição Física; para relaxar/ quebrar 3,0 3,2 4,3 3,4 3,2
com a rotina do dia-a-dia
Estar envolvido numa competição
desportiva 2,3 3,5 2,5 2,8 2,7
Visitar outros locais/ destinos; para
conhecer outras tradições e outras
3,5 3,2 4,3 3,9 3,6
culturas; para visitar e defender o
património
Fonte: elaboração própria com base no QOPDN2011.
304
Os desportos de montanha (BTT, montanhismo, escalada, etc.) é o grupo de
actividades que apresenta a maior perspectiva de crescimento, segundo os
respondentes das OPDN (63,9% indicam que irá crescer), enquanto os desportos
aéreos (parapente, asa delta, etc.) são os que apresentam a menor perspectiva de
crescimento, tal como se mostra na Tabela 74. A maioria (63,9%) das OPDN refere
ainda que o sector dos Desportos de Natureza em geral irá crescer nos próximos 10
anos (ver Tabela 75).
Tabela 74. Perspectivas de crescimento das actividades dos Desportos de
Natureza
Tipologia de OPDN
Total
Clubes Clubes de
Empresas Associações
Desportivos Praticante
Perspectivas de crescimento N % N % N % N % N %
305
Tabela 75. Perspectivas de futuro do sector dos Desportos de Natureza.
Tipologia de OPDN
Perspectivas de Clubes Clubes de Total
futuro Empresas Associações
Desportivos Praticante
N % N % N % N % N %
Declínio 6 8,1 3 10,7 0 0,0 1 1,7 10 6,0
Estagnação 13 17,6 7 25,0 1 25,0 12 20.0 33 19,9
Crescimento 47 63,5 14 50,0 3 75,0 42 70,0 106 63,9
Oscilação 8 10,8 4 14,3 0 0,0 5 8,3 17 10,2
Total 74 100 28 100 4 100 60 100 166 100
Fonte: elaboração própria com base no QOPDN2011.
306
potenciando-se o consumo e, consequentemente, a economia local, onde as
actividades dos Desportos de Natureza são desenvolvidas.
Os clubes desportivos são as OPDN mais antigas. São todos constituídos
como associações sem fins-lucrativas, e são as organizações mais especializadas
em relação à oferta de actividades dos Desportos de Natureza, já que a maioria
desenvolve apenas uma ou duas actividades. Devido à sua tradicional vocação
baseada no desporto formal e competitivo, os clubes desportivos desenvolvem as
actividades dos Desportos de Natureza principalmente mediante o treino e a
competição, e a organização de provas e eventos. Como consequência, estes
apresentam uma menor sazonalidade do que os outros tipos de OPDN, e uma
participação mais frequente por parte dos seus praticantes. Desta forma, os clubes
desportivos posicionam-se no modelo organizacional asceta e competitivo
apresentado por Pociello (1989).
As associações são mais jovens do que os clubes desportivos e mais antigas
do que as empresas. São quase todas associações sem fins-lucrativos, com
excepção de duas que são cooperativas. As actividades das associações são
apresentadas por técnicos (guias/monitores) tal como nas empresas, e por
organizações de provas e eventos, como nos clubes desportivos. Estes dados
indicam que as associações têm um padrão organizacional que apresenta um
espectro organizacional muito mais amplo e, assim, uma oferta mais alargada do
que os clubes desportivos, permitindo que os seus membros tenham uma prática
mais ecléctica de Desportos de Natureza, que vai desde o âmbito formal ao não-
formal. As associações, percebendo a falta de adaptação dos clubes desportivos à
crescente procura de práticas não-formais e não-competitivas, apresentam uma
diferente oferta de actividades dos Desportos de Natureza, evidenciando a evolução
que ocorreu no movimento associativo desportivo, relacionada com uma forma
higienista, hedonista e aventureira de praticar desporto (Leblanc, 2001).
A maioria dos dirigentes dos clubes desportivos e das associações não
desenvolve a sua ocupação profissional principal nas OPDN, realizando geralmente
trabalho voluntário, apesar do seu enorme empenho nas organizações. Quase todos
os dirigentes do movimento associativo são jovens do sexo masculino, com alto
nível de educação e profissões qualificadas.
A crescente comercialização das actividades desportivas, e dos Desportos de
Natureza em particular, acontece porque os clubes desportivos voltados
307
principalmente para os valores de esforço, competição e aprendizagem técnica,
deixaram de atender às expectativas resultantes do campo do lazer desportivo
(Paget, Mounet, & Guilhon, 2007). Este fenómeno está também intimamente
associada com o crescimento das indústrias do lazer e do turismo, especialmente
dos novos segmentos turísticos que surgem associados à crescente procura por
férias activas (Gibson, 1998a). Assim, várias estruturas desportivas comerciais foram
surgindo para satisfazer as necessidades expressas, comercializando os seus
produtos com ênfase em práticas desportivas lúdicas, acessíveis e sem restrições
(Leblanc, 2001; Paget, Mounet, & Guilhon, 2007; Pigeassou & Garrabos, 1997). O
processo de criação de empresas seguiu uma lógica que começou com a
descoberta das actividades desportivas, reforçada mais tarde pelo surgimento de um
mercado cada vez mais dinâmico (Bouhaouala, 2004). Este processo surgiu no final
da década de 1980 até meados da década de 1990, devido às condições
socioeconómicas favoráveis para o desenvolvimento do Turismo de Natureza
(Bouhaouala, 2004; Viñuelas, Betrán, & Plantalamor, 1995), ao empenho dos órgãos
governamentais locais e regionais pelo desenvolvimento socioeconómico (criação de
emprego, a manutenção da população local, etc.), e pelo aumento da procura por
novas formas de turismo (Bouhaouala, 2004).
As empresas que operam no sector dos Desportos de Natureza em Portugal
são na sua maioria constituídas como sociedades por quotas, e empresários em
nome individual. São principalmente microempresas, com uma fundação recente e
familiar, como já apontado noutros trabalhos (Betrán & Betrán, 1999; Bouhaouala,
1999; Costa R. A., 2005; Martin & Palakshappa, 2005; Paget, Mounet, & Guilhon,
2007). As empresas apresentam uma grande sazonalidade na procura, uma oferta
com um elevado número de actividades dos Desportos de Natureza e
consequentemente pouca especializada, que pode ser explicada pela tentativa de
combater a sazonalidade. A maioria das empresas apresenta também uma oferta de
actividades complementares, centrada principalmente no alojamento e na fotografia.
As empresas parecem ser as organizações que estão melhor adaptadas à
evolução da procura dos Desportos de Natureza. Embora a educação não fosse
inicialmente um alvo para os empresários (Leblanc, 2001), isso parece estar a
mudar, como se infere pelo aumento da oferta de cursos/acções de formação de
praticantes por parte das empresas. Isso é tão óbvio que a maioria das empresas
308
que apresenta o surf como a principal actividade desenvolvida tem cumulativamente
uma escola de surf inscrito na respectiva federação.
Quase todos os dirigentes das empresas são jovens do sexo masculino,
desenvolvem o seu principal trabalho nas empresas, e apresentam um alto
compromisso para com as organizações, dedicando-lhes mais de 40 horas por
semana.
A formação dos técnicos dos Desportos de Natureza é diferente, dependendo
do tipo de OPDN. Apesar disso, todas as OPDN têm poucos técnicos com formação
ao nível do ensino superior em ciências do desporto (geral) ou mais especificamente
em Desportos de Natureza. A formação de recursos humanos e as suas
competências técnicas e humanas são, neste sector, um ponto crítico para o
sucesso das OPDN, como evidenciado por Martin e Palakshappa (2005). Desta
forma, a definição (regulamentação) de competências mínimas para os técnicos dos
Desportos de Natureza, como sugerido por Melo e Mendes (2011), poderia aumentar
a qualidade desses agentes e contribuir para a melhoria da segurança e da
qualidade dos serviços dos Desportos de Natureza.
Os principais canais de divulgação e distribuição utilizados pelas OPDN são
baseados na internet. Estes dados demonstram que todos os tipos de OPDN estão a
adaptar as suas formas de gestão e de comercialização às novas tecnologias, e
assim, aos novos hábitos de consumo e ao perfil da procura.
A procura das actividades dos Desportos de Natureza nas organizações é
composta por indivíduos com um perfil muito marcado. Em quase todos as OPDN
são indivíduos jovens (18-35 anos), do sexo masculino, e maioritariamente do
território de Portugal continental. Em geral, existe uma tendência para o aumento do
número de praticantes até ao grupo entre os 18-35 anos (atingindo-se o maior
número de praticantes) comparativamente com o grupo anterior (com menos de 18
anos) e, em seguida, uma diminuição progressiva com o aumento da idade.
Resultados semelhantes foram também obtidos em estudos semelhantes realizados
em Espanha (Betrán & Betrán, 1999; Viñuelas, Betrán, & Plantalamor, 1995). Os
resultados evidenciam assim assimetrias de participação de acordo com o sexo e
idade. Nos clubes desportivos a diferença na idade não é tão óbvio, porque estes
apresentam um número considerável de indivíduos com menos de 18 anos (35,7%),
quase igual ao do grupo de 18-35 anos (39,3%), evidenciando a sua vocação para a
formação de jovens praticantes para a competição no desporto federado.
309
A maioria dos praticantes é de nível iniciado quando procura pela primeira vez
as actividades dos Desportos de Natureza nas organizações, e os dirigentes das
OPDN apontam o contacto com a natureza, e a aventura, como os principais
factores que motivam à participação nos Desportos de Natureza, enquanto a falta de
tempo e de dinheiro são os principais limitadores a uma maior participação.
O número de praticantes que participa nas diferentes OPDN também é
diversificado: as empresas apresentam o maior número de procura de praticantes,
mas com menor frequência, enquanto os clubes desportivos têm o menor número de
praticantes, mas com a maior frequência de prática. A origem geográfica dos
praticantes dos clubes desportivos e associações restringe-se basicamente ao
território regional, em contraste com a origem nacional e regional dos praticantes
nas empresas. Os resultados reflectem a tendência hedonista da sociedade,
associada a uma maior procura de organizações com uma oferta de actividades de
livre compromisso (sem preparação prévia e just do it), em contraste com uma
menor procura de actividades que exigem um maior compromisso (mais tempo de
dedicação para treinar e para participar nas provas e eventos) imposto pelos clubes
desportivos.
Os dirigentes das OPDN consideram os desportos de montanha
(montanhismo, escalada, BTT, etc.) como o segmento que apresenta maior potencial
de crescimento, enquanto os desportos aéreos (asa delta, parapente, etc.) são
considerados como aqueles com menor perspectiva de crescimento do sector. A
maioria dos dirigentes das organizações também considera que o sector dos
Desportos de Natureza apresenta um potencial de crescimento nos próximos 10
anos.
A análise da oferta por tipo de OPDN, também permite compreender o
potencial das actividades dos Desportos de Natureza em Portugal. O BTT e o
pedestrianismo são as actividades dos Desportos de Natureza oferecidas por mais
OPDN. Pelo contrário, o skimboard e o esqui correspondem às actividades dos
Desportos de Natureza oferecidas por menos OPDN, representando, assim, as
actividades com menor potencial global de desenvolvimento organizado em
Portugal. A canoagem é a actividade oferecida por mais empresas, enquanto a vela
é por mais clubes desportivos, e o BTT por mais associações. Todos os clubes de
praticantes inquiridos são clubes de BTT. Na direcção oposta, o remo e skimboard
são as actividades dos Desportos de Natureza com menor potencial comercial,
310
enquanto o canyoning, a espeleologia, o esqui, o montanhismo, o rafting, o
skimboard, e o voo livre apresentam o menor potencial competitivo, e o esqui e o
windsurf o menor potencial associativo. A canoagem é também a actividade dos
Desportos de Natureza desenvolvida com maior frequência pelo maior número de
OPDN, enquanto o surf é por mais empresas, o BTT, a vela e as multiactividades por
mais clubes desportivos, e o BTT e o pedestrianismo pela maioria das associações,
representando assim o maior potencial em cada âmbito da prática: comercial,
competitiva e associativo, respectivamente. O surf é também a principal actividade
dos Desportos de Natureza procurada pelo mercado internacional.
Portugal apresenta um grande potencial para desenvolver Desportos de
Natureza e Turismo de Natureza, considerando a sua dimensão geomorfológica e
características climáticas que permitem o desenvolvimento de uma ampla gama de
actividades, em condições ideais, ao longo de todo o ano. Não é fácil encontrar uma
tal variedade e densidade de locais específicos para o desenvolvimento de
actividades de Desportos de Natureza numa área tão pequena. Portugal tem
extensas áreas rurais e espaços naturais, com ou sem protecção especial (áreas
protegidas), como a praia e o mar, vários rios e outros espaços aquáticos,
montanhas e falésias, etc. Este cenário tem sido reconhecido, e foi premiado pela
revista russa National Geographic Travel, com o prémio Travel Awards 2011, na
categoria de melhor destino para a realização de Turismo Activo e Aventura.
No entanto, os resultados apresentados mostram alguns problemas já
detectados no sector (Turismo de Portugal, 2006a). Apesar de não existirem dúvidas
sobre a importância das pequenas empresas no sector de lazer, e do papel que eles
desempenham na economia (Byers & Slack, 2001), especialmente em Portugal, o
pequeno tamanho das empresas pode representar uma dificuldade, por exemplo: na
implementação de sistemas mais eficazes de produção, inovação e melhoria da
qualidade; no acesso a tecnologia avançada; na qualidade dos recursos humanos;
nas fórmulas de marketing eficazes; no fraco poder de negociação em relação à
procura, intermediários, fornecedores, etc. Além disso, a recente criação da maioria
das empresas não permite que estas acumulem experiência suficiente, tecnologia e
know-how, para competir no mercado internacional, como se depreende pelo
pequeno número de empresas que apresentam como procura principal para o
mercado internacional, e o tamanho da procura internacional por Turismo de
Natureza (4%) em Portugal (Turismo de Portugal, 2006a). Todos esses factores
311
afectam negativamente a competitividade de cada empresa, e finalmente Portugal
como um destino de Desportos de Natureza e de Turismo de Natureza. Os dados
mostram que a especialização parece ser um factor crítico de sucesso para fornecer
Desportos de Natureza para o mercado internacional. A maioria das empresas que
têm, principalmente, uma procura internacional oferece um número reduzido de
actividades dos Desportos de Natureza, já que 50% deles têm uma oferta máxima
de duas actividades. De acordo com estes dados, para competir no mercado
internacional, é importante apresentar uma oferta especializada. Além disso, os
planos estratégicos de Turismo de Portugal sugerem que essa oferta deve
apresentar-se no formato de um pacote de turismo integrado que inclua alojamento,
alimentação e outros serviços complementares (Turismo de Portugal, 2006a;
Turismo de Portugal, 2006b).
Em relação à gestão das OPDN, Chazaud (2004) refere que uma boa
estratégia de comercialização deve conter: o desenvolvimento de produtos
adaptados à especificidade do mercado; preços fixados em função dos objectivos de
lucro e dos preços da concorrência; um desenvolvimento da distribuição
desenvolvida através de um conjunto específico de operadores turísticos (agências
de viagens, operadores turísticos, centrais de reserva, e postos de turismo); uma
promoção de produtos estabelecida através de diferentes métodos de comunicação,
sobre a organização, sobre os eventos e sobre as actividades. Para além do mais,
refere que a oferta deve ser constantemente renovada e inovada com conteúdos
criativos. O cenário ideal, em Portugal, seria quando a gestão das OPDN cumprisse
com todos estes critérios.
312
centrado nesta temática específica, embora se tenha vindo a reconhecer a sua
importância. Compreender e avaliar os impactos dos Desportos de Natureza,
através da percepção dos praticantes e dos gestores das OPDN, pode ser
importante em diversos aspectos: a) é relevante para a gestão dos Desportos de
Natureza, pois a percepção dos impactos pode afectar a experiência e a preferência
na participação nas actividades e em determinados espaços de prática (Dorwart,
Mooreb, & Leungb, 2009); b) a avaliação da percepção dos impactos pode ser
usada para alertar os dirigentes para os problemas dos impactos sem recorrer, numa
primeira fase, a outro tipo de monitorização (Farrell, Hall, & White, 2001); c) guiar os
dirigentes na escolha de indicadores e standards para a avaliação dos impactos,
como parte dos processos de planeamento (Farrell, Hall, & White, 2001).
Pigram (2003) refere que a percepção é a base para a compreensão do
comportamento do lazer e para a tomada de decisão recreativa, e a razão pela qual
as pessoas escolhem determinadas configurações e actividades específicas. A este
respeito, Kaplan e Kaplan (1982) referem que, para compreender a percepção, a
pessoa precisa de considerar o seu próprio ambiente porque esses espaços
fornecem o contexto para as coisas que são vistas nos espaços naturais. Ndubisi
(2002) refere-se à percepção como o acto de apreender um objecto através dos
sentidos. Este é o processo pelo qual as pessoas interpretam e organizam
sensações para produzir uma experiência significativa do mundo (Lindsay &
Norman, 1977). Por sua vez, Tuan (1974) descreve a percepção como a resposta
dos sentidos a estímulos externos e a actividades intencionais em que certos
fenómenos são claramente registados, enquanto outros são bloqueados.
Um princípio-chave na investigação da percepção dos impactos é que a
percepção é uma interacção entre seres humanos e um ambiente dinâmico, está
intrinsecamente ligada ao factor psicológico do observador, e imersa no ambiente
que é experimentado (Ittelson, 1973; Taylor, Czarnowski, Sexton, & Flick, 1995). Esta
convicção é também a base do paradigma da percepção da paisagem (Zube, Sell, &
Taylor, 1982), que forneceu orientações importantes para os estudos voltados para
as avaliações das pessoas, conceituações, e as relações com o ambiente natural,
especialmente as que dizem respeito a percepção e preferência em termos de
experiências de natureza, paisagem e meio ambiente (Dorwart, Mooreb, & Leungb,
2009). Os diversos estudos realizados sobre esta temática apontam para a
complexidade da percepção dos impactos. Neste sentido, tem-se notado que os
313
impactos são avaliados de acordo com as características dos diferentes grupos, tal
como: i) o tipo de actividade que realizam (Atauri, Bravo, & Ruiz, 2000); ii) pelas
características sociodemográficas (sexo, idade, nível de educação) (Priskin, 2003).
Esta secção está dividida em quatro partes, incluindo esta. A segunda parte
apresenta os resultados do inquérito por questionário aplicado aos praticantes dos
Desportos de Natureza, que está estruturada com base na análise das percepções
dos inquiridos sobre os impactos dos Desportos de Natureza nos locais das práticas;
na terceira parte apresentam-se os resultados do inquérito por questionário aplicado
às OPDN; na síntese conclusiva faz-se uma comparação entre os resultados das
percepções dos impactos dos praticantes e dos dirigentes das OPDN. Neste sentido,
o principal propósito desta secção é compreender a contribuição dos Desportos de
Natureza para a sustentabilidade do desenvolvimento local. Assim, colocaram-se as
seguintes questões-chave:
1) Qual é a percepção dos praticantes e dos dirigentes das OPDN sobre os
impactos ambientais, económicos e socioculturais dos Desportos de Natureza?
Quais as diferenças entre a percepção dos praticantes e dos dirigentes das OPDN?
2) Qual é a percepção dos praticantes e dos dirigentes das OPDN sobre a
repercussão dos impactos ambientais, económicos e socioculturais dos Desportos
de Natureza no desenvolvimento local? Quais as diferenças entre a percepção dos
praticantes e dos dirigentes das OPDN?
3) Quais os comportamentos dos praticantes e dos dirigentes das OPDN nos
locais de destino das práticas dos Desportos de Natureza, nas dimensões ambiental,
económica e sociocultural?
4) Qual é o perfil de consumo relacionado com a actividade turística
apresentado pelos praticantes dos Desportos de Natureza?
314
Na dimensão ambiental, os impactos são geralmente percebidos como
neutros (43,1%), ou como positivos (46%) - sendo que 29,8% classificam o impacto
como positivo, e 15,7% como muito positivo -, como se pode observar no Gráfico 29.
315
No que diz respeito à repercussão que os impactos da prática dos Desportos
de Natureza têm tido na sustentabilidade dos locais de destino de prática, em
Portugal continental, os dados revelam que a maioria dos praticantes inquiridos
classifica os impactos positivos como significativos (relevantes, muito relevantes ou
totalmente relevantes) e os impactos negativos como pouco significativos (pouco
relevantes ou irrelevantes).
316
Na dimensão ambiental (ver Gráfico 33), 90,2% dos indivíduos classificam os
Desportos de Natureza como tendo um contributo importante para a promoção da
protecção das áreas naturais, dos quais 16,7% referem que esse contributo tem sido
totalmente relevante, 37,3% consideram o contributo como muito relevante, e 36,2%
como relevante. Apenas 2,2% consideram o contributo dos Desportos de Natureza
neste impacto como pouco relevante, e 7,6% como irrelevante. Por outro lado, a
maioria dos indivíduos (63,2%) refere que os Desportos de Natureza têm tido um
contributo pouco significativo para a poluição e degradação das áreas naturais, já
que 26,4% consideram o seu contributo como irrelevante, e 36,8% como pouco
relevante. A maioria dos praticantes também considera que os destinos de prática
dos Desportos de Natureza não têm atingido um congestionamento acentuado, já
que 25,9% consideram a repercussão deste impacto como irrelevante, 40% como
pouco relevante, e apenas 24,7% o consideram como relevante.
No que diz respeito aos impactos económicos (ver Gráfico 34), a maioria dos
indivíduos inquiridos refere que os Desportos de Natureza têm um contributo
relevante (39,1%), ou muito relevante (23,5%), no que diz respeito ao aumento do
rendimento dos habitantes locais através da criação de empregos. Em relação aos
317
impactos negativos, a maioria refere que os Desportos de Natureza têm tido um
contributo pouco relevante (39,8%) ou irrelevante (29%) relativamente ao aumento
do custo de vida dos habitantes locais. Ainda na dimensão económica (positiva), a
maioria dos inquiridos consideram que os Desportos de Natureza têm tido um
contributo relevante (39,3%), muito relevante (30,8), ou totalmente relevante (12,3%)
para o desenvolvimento de infra-estruturas de lazer e serviços que promovem a
atractividade do território.
Quanto aos impactos socioculturais (ver Gráfico 35), 33,1% dos inquiridos
classificam os Desportos de Natureza como tendo um contributo relevante para o
desenvolvimento de infra-estruturas básicas e melhoramento das estradas e vias de
acesso, enquanto 18,2% classificam a repercussão deste impacto como muito
relevante. No mesmo sentido é classificado o contributo que as práticas dos
Desportos de Natureza têm tido para a revitalização da cultura local nos destinos de
prática, já que a repercussão deste impacto é classificada maioritariamente como
relevante (36,9%) ou como muito relevante (21,1%). Pelo contrário, a maioria dos
indivíduos inquiridos consideram que os Desportos de Natureza têm apresentado
318
um contributo irrelevante (39%) ou pouco relevante (37,7%) para a
descaracterização do artesanato e vulgarização da cultura local. A maioria também
considera irrelevante (43,3%), ou pouco relevante (38,1%), a possibilidade dos
Desportos de Natureza provocarem acidentes e terem promovido uma imagem
negativa do território. A maioria aponta ainda que os Desportos de Natureza não têm
trazido efeitos negativos nos comportamentos desviantes (crime, actos de
vandalismo, etc.), já que 54,5% apontam este impacto como irrelevante, e 27,4%
como pouco relevante.
320
A criação de um índice dos comportamentos sustentáveis nos locais de
destino das práticas permite comparar os diversos praticantes. O índice é efectuado
através da soma das respostas nos comportamentos. A cada resposta afirmativa foi
atribuído um ponto, e às respostas negativas foi atribuído o valor zero. A soma de
todos os comportamentos atribuiu um valor de 0 a 15 pontos (número total de
comportamentos). Esse valor final foi multiplicado por 100, e o resultado dessa
multiplicação dividida por 15 (número total de comportamentos). O valor proveniente
dessa operação resultou num índice de comportamentos sustentáveis numa escala
de 0 a 100 pontos. Assim, o índice médio dos indivíduos inquiridos é de 71 pontos.
Ao se comparar o índice de comportamentos sustentáveis pelos praticantes
das diversas actividades praticadas (com maior frequência) verifica-se que os
praticantes de voo livre (80) e de rafting (80) são os grupos de praticantes que
apresentam os maiores índices de comportamento sustentável. Ainda acima da
média situam-se os praticantes de canyoning (78,5), mergulho (76,7), montanhismo
(76,1), espeleologia (75,7), canoagem (73,4), escalada (71,6), tiro com arco e/ou
besta (71,4), e BTT (71,3). Os grupos que obtiveram piores índices foram os
praticantes de skimboard (54,4) e snowboard (54,4). Todas as outras práticas
obtiveram também um índice abaixo da média, como se pode ver na Tabela 77.
Tabela 77. Índice de comportamentos sustentáveis.
Actividades
Actividades Bodyboard BTT Canoagem Canyoning Escalada
Equestres
Índice de
comportamentos 66,7 68,8 71,3 73,4 78,5 71,6
sustentáveis
Actividades Espeleologia Esqui Kitesurf Mergulho Montanhismo Orientação
Índice de
comportamentos 75,7 68,3 70,8 76,7 76,1 70,3
sustentáveis
Actividades Pedestrianismo Rafting Remo Skimboard Snowboard Surf
Índice de
comportamentos 70,9 80 62,1 54,4 54,4 67,7
sustentáveis
Tiro com Arco Voo
Actividades Vela Windsurf Multiactividades Outras
e/ou Besta livre
Índice de
comportamentos 71,4 75,6 80 64,5 63 68,8
sustentáveis
Média do índice de comportamentos sustentáveis 71
321
Destes dados deve-se salientar, no entanto, que algumas actividades
apresentam poucas respostas e portanto não podem ser consideradas como
relevantes. Nesse sentido, o Gráfico 36 apresenta o índice das 9 actividades onde
se obtiveram mais respostas (como actividade mais frequente). O índice faz reflectir
as características de cada uma das actividades, mas também o perfil dos praticantes
de cada actividade.
322
A relação entre os Desportos de Natureza e o turismo é evidente, e os
impactos económicos gerados por estas actividades são perceptíveis para os
praticantes, tal como demonstram os resultados. Denota-se que para realizar os
Desportos de Natureza é efectuada uma viagem, muitas das vezes para locais fora
da área de residência (longe dos centros urbanos), especialmente tendo como
destino espaços naturais e zonas rurais. A esta deslocação está normalmente
associado um consumo turístico (alojamento, alimentação, compra de serviços e
equipamentos, etc.). A este respeito, a maioria (76,1%) dos inquiridos referem que
se desloca, por norma, em viatura própria ou de amigos para os locais de prática, tal
como se pode observar no Gráfico 38.
323
Em relação às refeições (ver Gráfico 39), 48,7% referem que geralmente leva
os alimentos de casa e faz um piquenique, o que indica que os praticantes não
consideram a alimentação, em especial a restauração, como uma componente
importante no desenvolvimento das práticas dos Desportos de Natureza.
324
de alojamento mais baratas. Daí resultará uma pequena contribuição para o
desenvolvimento económico local.
325
Gráfico 42. Rubrica de despesas efectuadas pelos praticantes para realizar Desportos de
Natureza.
Fonte: elaboração própria com base no QPDN2011.
Gráfico 43. Rubrica de despesas efectuadas pelos praticantes para realizar Desportos de
Natureza nos locais de prática.
Fonte: elaboração própria com base no QPDN2011.
326
Tendo por base a hierarquização das três principais rubricas de despesas
consideradas pelos praticantes, pretendeu-se estabelecer uma hierarquia das
rubricas de despesa com as práticas dos Desportos de Natureza (ver Tabela 78).
Para estabelecer essa hierarquia recorreu-se à fórmula [(R1*3)+(R2*2)+(R3*1)]/6,
em que: R1 = % de resposta na principal rubrica de despesa, R2 = % de resposta na
segunda principal rubrica de despesa, e R3 = % de resposta na terceira principal
rubrica de despesa; 3, 2, 1 correspondem às ponderações atribuídas
respectivamente à primeira, segunda e terceira rubrica com maior dispêndio, e 6 à
soma das ponderações. Obtiveram-se os seguintes resultados:
- A aquisição de materiais/equipamentos desportivos apresenta o maior índice
(0,29) do total das rubricas de despesas consideradas, inferindo-se desta forma que
seja a principal rubrica de despesa, sendo que se apresenta como a primeira rubrica
de despesas para 48,5% dos praticantes inquiridos, a segunda principal rubrica para
9,3%, e a terceira principal rubrica para 7,7%, constituindo-se, assim, uma das 3
principais rubricas para 65,5% dos inquiridos.
- Os custos com deslocações apresentam o segundo maior índice de despesa
(0,26), situando-se como primeira rubrica para 24,2% dos inquiridos, como segunda
principal rubrica para 36,1%, e como terceira principal rubrica para 12,1%,
constituindo assim uma das 3 principais rubricas para 72,4% dos inquiridos.
- A alimentação/restauração apresenta o terceiro maior índice de despesa
(0,13), situando-se como primeira rubrica para 3,8% dos inquiridos, como segunda
principal rubrica para 19,4%, e como terceira principal rubrica para 28,9%,
constituindo assim uma das 3 principais rubricas para 52,1% dos inquiridos.
- O alojamento apresenta o quarto maior índice de despesa (0,12), situando-
se como primeira rubrica para 11% dos inquiridos, como segunda principal rubrica
para 14,1%, e como terceira principal rubrica para 12,8%, constituindo assim uma
das 3 principais rubricas para 37,9% dos inquiridos.
Destes resultados salienta-se que as principais rubricas de despesas são
associadas às questões básicas para o desenvolvimento das actividades: em
primeiro lugar a necessidade de possuir equipamento para a prática; em segundo
lugar a necessidade de realizar uma deslocação para os locais de prática; e em
terceiro lugar a alimentação (que é uma das mais básicas necessidades do
Homem). Como na maioria das vezes não existe a pernoita, o alojamento aparece
apenas em quarto lugar.
327
Os dados sugerem também que a maioria dos praticantes dos Desportos de
Natureza inquiridos sejam bastante autónomos, não necessitando de uma grande
mediação, a julgar pelo baixo número de praticantes filiados em clubes/associações
(pagamento de quotas), que recorrem a serviços das empresas (de animação
turística, entre outras), e a agências de viagem. Outro dado que comprova esta
autonomia é a posse/compra de equipamento próprio, que possibilita essa
independência da prática. A autonomia é de resto uma das tendências da sociedade
pós-moderna, que se reflecte nas práticas desportivas de lazer e turísticas de forma
geral, e em particular nos Desportos de Natureza. Não é alheio a este fenómeno o
surgimento de um mercado de comércio de equipamentos cada vez maior, e com
uma progressão regular de 15% a 20% ao ano (Bessy & Naria, 2005). Neste sentido,
e como já Corneloup (2005) tinha afirmado, verifica-se que os principais
beneficiários deste mercado (dos Desportos de Natureza) são os fabricantes e os
vendedores de equipamentos e de materiais.
Tabela 78. Hierarquização das principais rubricas de despesas dos
praticantes com os Desportos de Natureza
1º 2º 3º Total
Rubricas de despesa N % N % N % N % Índice
Aquisição de materiais/
546 48,5% 101 9,3% 82 7,7% 729 65,5% 0,29
equipamentos desportivos
Deslocações (combustível,
bilhetes para transportes 272 24,2% 393 36,1% 129 12,1% 794 72,4% 0,26
públicos, etc.)
Alimentação/restauração 43 3,8% 211 19,4% 308 28,9% 562 52,1% 0,13
Alojamento 124 11,0% 154 14,1% 136 12,8% 414 37,9% 0,12
Compras diversas 13 1,2% 43 3,9% 103 9,7% 159 14,8% 0,04
Aluguer de materiais/
42 3,7% 47 4,3% 42 3,9% 131 12,0% 0,04
equipamentos desportivos
Formação 15 1,3% 26 2,4% 49 4,6% 90 8,3% 0,02
Aquisição de serviços de
19 1,7% 19 1,7% 18 1,7% 56 5,1% 0,02
empresas
Quotas de
13 1,2% 33 3,0% 50 4,7% 96 8,9% 0,02
clubes/associações
Seguros 5 0,4% 28 2,6% 61 5,7% 94 8,7% 0,02
Agências de viagem 15 1,3% 14 1,3% 16 1,5% 45 4,1% 0,01
Licenças desportivas 6 0,5% 14 1,3% 32 3,0% 52 4,8% 0,01
Outras 12 1,1% 7 0,6% 39 3,7% 58 5,4% 0,01
328
Um grande número de indivíduos inquiridos (34,5%) refere que gastou entre
100 a 500 euros com a prática dos Desportos de Natureza, no ano de 2010, e 19,5%
refere que gastou entre 501 a 1000 euros, tal como se mostra no Gráfico 44.
Gráfico 45. Percentagem dos gastos despendidos com os Desportos de Natureza nos
locais das práticas.
Fonte: elaboração própria com base no QPDN2011.
329
nada (RAE = -4,6 e RAE = -20, respectivamente) e para gastar menos de 100 euros
(RAE = -2,8 e RAE = -3,7, respectivamente), notando-se inclusivamente uma
predisposição positiva no grupo dos 31-43 anos para despender mais de 2000 euros
(RAE = 2,1). Também ao nível da percentagem das despesas locais, o grupo dos
31-43 anos apresenta uma maior predisposição do que os restantes grupos para
despender uma maior percentagem nos locais das práticas (acima de 50%) (RAE =
2,0), enquanto os praticantes jovens que apresentam gastos com os Desportos de
Natureza (18-31 anos), apresentam uma menor predisposição para o dispêndio nos
locais das práticas (RAE = -2,5), e uma maior predisposição para não ter
consumo/dispêndio local (RAE = 2,4).
A análise comparativa por sexo revela que os homens apresentam uma maior
predisposição do que as mulheres para terem dispêndios superiores, o que em parte
pode ser explicado pelo facto da amostra feminina ser mais jovem e estudante, e por
isso com menor capacidade financeira. Em relação à percentagem das despesas
nos locais de prática, não se evidenciam diferenças estatisticamente significativas.
A análise do valor das despesas por actividade dos Desportos de Natureza
mostra também diferenças estatisticamente significativas (p-value <0,050). Salienta-
se a actividade de pedestrianismo, cujos praticantes apresentam uma maior
predisposição para um dispêndio inferior a 100 euros (RAE = 3,9), e menor para um
dispêndio superior a 2000 euros (RAE = -3,4). Por outro lado, os praticantes de
mergulho apresentam uma maior predisposição do que os restantes para um
dispêndio acima dos 2000 euros (RAE = 5,4).
Recorrendo às estatísticas do turismo (Turismo de Portugal, 2010), verifica-se
que os turistas portugueses gastaram em média, no ano de 2010, €40,12 por dia em
viagens, cujo motivo foi lazer, recreio e férias, com uma duração média de 5,4 dias,
o que perfaz um valor médio de €216,65/pessoa por ano. Comparando esses
valores com os gastos dos praticantes inquiridos com a prática dos Desportos de
Natureza, 43,9% indicou que o seu agregado familiar gastou mais do que esse valor
(mais de 500 euros), e 34,5% indica gastos nesse intervalo de valores (100 a 500
euros). Apesar destes valores incluírem gastos com outros membros do agregado
familiar, a maioria dos inquiridos são solteiros e sem encargos familiares, pelo que
se infere que os gastos apresentados possam representar os gastos individuais. De
acordo, as actividades dos Desportos de Natureza representam um valor
significativo de consumo no lazer turístico.
330
Se tivermos em consideração os valores despendidos e as correspondentes
percentagens gastas nos locais das práticas, verificamos que aproximadamente
metade dos praticantes indica gastar menos de metade do total das despesas nos
locais. Estes resultados sugerem que o contributo para o desenvolvimento local está
aquém do possível. Isto prende-se por exemplo com o facto de as práticas serem
geralmente de proximidade, exigindo deslocações curtas, e não exigirem a pernoita.
Também ao nível da alimentação, por norma, os praticantes levam os alimentos de
casa e fazem um piquenique, não tendo um grande consumo nesta rubrica.
331
2,4% como irrelevante. Por outro lado, a maioria dos indivíduos (79,5%) refere que
os Desportos de Natureza não têm um contributo significativo para a poluição e
degradação das áreas naturais, sendo que 45,8% o consideram irrelevante, e 33,7%
como pouco relevante. A maioria dos dirigentes das OPDN também considera
irrelevante (41,0%) ou pouco relevante (34,3%) o contributo dos Desportos de
Natureza para o congestionamento dos locais de prática.
332
Tabela 79. Classificação da repercussão dos impactos ambientais
percepcionados pelos dirigentes das diferentes Organizações Promotoras dos
Desportos de Natureza.
Tipologia de OPDN
Dimensão Clubes Clubes de Total
Empresas Associações
ambiental Desportivos Praticante
M DP M DP M DP M DP M DP
Impacto ambiental geral 3,7 1 3,5 1 3,3 1,3 3,5 0,9 3,6 1
Tipos de Impactos
Têm contribuído para a
promoção e a
3,7 1,0 3,8 1,1 3,3 0,5 3,4 0,9 3,6 1,0
preservação de áreas
naturais
Têm provocado poluição
(sonora, visual, da água,
do ar e do solo),
degradação dos espaços
de prática (solo, fauna e
1,9 0,9 1,7 0,8 1,8 1,0 1,9 1,1 1,8 1,0
flora) e destruição/
degradação da paisagem
(natural e da área agro-
pastoril ou de sítios
históricos)
Têm provocado
congestionamento nos 2,1 1,0 1,7 0,8 1,8 1,0 1,8 0,9 1,9 0,9
locais de prática
333
Analisando os diferentes impactos económicos (ver Gráfico 49), verifica-se
que 36,8% dos dirigentes referem que os Desportos de Natureza têm tido um
contributo relevante no que diz respeito ao aumento do rendimento dos habitantes
locais (através da criação de empregos, etc.), 22,9% referem que o seu contributo
tem sido muito relevante, e 3,6% referem que esse contributo tem sido totalmente
relevante. Relativamente ao aumento do custo de vida dos habitantes locais, a
maioria (50,6%) dos inquiridos referem que é irrelevante o contributo que os
Desportos de Natureza têm tido neste impacto. Em relação ao desenvolvimento de
infra-estruturas de lazer e serviços que promovem a atractividade do território, 36,1%
dos inquiridos consideram que os Desportos de Natureza têm tido um contributo
relevante neste impacto, 33,1% dos inquiridos classificam-no como muito relevante,
e 14,5% como totalmente relevante.
334
dimensão (económica) do que as restantes tipologias de organizações, tal como
mostra na Tabela 80. Em relação aos três tipos de impactos, as empresas
apresentam uma percepção superior às restantes organizações, quer nos impactos
positivos quer nos negativos.
Tabela 80. Classificação da repercussão dos impactos económicos
percepcionados pelos dirigentes das diferentes Organizações Promotoras dos
Desportos de Natureza.
Tipologia de OPDN
Dimensão Clubes Clubes de Total
Empresas Associações
económica Desportivos Praticante
M DP M DP M DP M DP M DP
Impacto económico geral 4,3 0,7 4,0 0,9 3,8 0,5 4,1 0,5 4,2 0,7
Tipos de Impactos
Têm contribuído para o
aumento do rendimento
dos habitantes locais 3,1 1,1 2,3 0,9 1,5 0,6 2,8 0,9 2,8 1,0
através da criação de
empregos
Têm provocado o
aumento do custo de vida
1,8 0,8 1,5 0,7 1,3 0,5 1,7 0,8 1,7 0,8
e o aumento dos preços
dos produtos em geral
Têm ajudado a promover
o desenvolvimento de
infra-estruturas e serviços 3,6 1,1 3,2 1,1 2,0 0,8 3,4 0,8 3,4 1,0
de lazer aumentando a
atracção do território
335
Na dimensão sociocultural (Gráfico 51), 30,1% dos dirigentes inquiridos referem
que o contributo dos Desportos de Natureza para o desenvolvimento de infra-
estruturas básicas e melhoramento das estradas e vias de acesso tem sido
irrelevante, enquanto 28,3% classificam a repercussão deste impacto como pouco
relevante. O contributo que as práticas dos Desportos de Natureza têm tido para a
revitalização da cultura local nos destinos de prática é classificado maioritariamente
como relevante (34,9%) ou como muito relevante (20,5%). Pelo contrário, a maioria
dos indivíduos inquiridos consideram que os Desportos de natureza têm
apresentado um contributo irrelevante (53%) ou pouco relevante (26,5%) para a
descaracterização do artesanato e vulgarização da cultura local. A maioria também
considera que é irrelevante (69,3%) ou pouco relevante (23,5%) a contribuição dos
Desportos de Natureza para os acidentes e para a promoção de uma imagem
negativa no território. A maioria aponta ainda que os Desportos de Natureza não têm
trazido efeitos negativos nos comportamentos desviantes (crime, actos de
vandalismo, etc.), já 76,5% apontam este impacto como irrelevante, e 12,7% como
pouco relevante.
Impacto sociocultural geral 4,2 0,7 4,3 0,7 4,0 0,8 4,2 0,6 4,2 0,7
Tipos de Impactos
Têm contribuído para a
construção de infra-
estruturas básicas (rede
de água pública,
saneamento básico, rede 2,3 1,0 2,0 1,0 1,3 0,5 2,4 1,1 2,3 1,1
eléctrica) e
melhoramento das vias e
da rede de acesso
(estradas, transportes)
Têm contribuído para a
revitalização dos
costumes locais e da
herança cultural
(artesanato, folclore,
2,7 1,1 2,3 1,0 1,5 0,6 3,0 1,0 2,7 1,1
festivais, gastronomia) e
a preservação e
reabilitação de
monumentos, edifícios e
lugares históricos
Têm contribuído para a
descaracterização do
artesanato e a 1,6 0,8 1,5 0,7 1,3 0,5 2,0 1,1 1,7 0,9
vulgarização das
manifestações culturais
Têm provocado acidentes
desportivos que têm tido
1,4 0,6 1,3 0,4 1,3 0,5 1,5 0,9 1,4 0,7
repercussões negativas
na imagem do local
Têm provocado efeitos
negativos nos
comportamentos 1,3 0,7 1,2 0,6 1,0 0 1,5 0,9 1,4 0,8
desviantes (crime, actos
de vandalismo
337
A análise das respostas sobre os comportamentos das OPDN nos locais das
práticas indica que na generalidade estas apresentam um comportamento positivo
em relação aos itens apresentados, tal como se mostra na Tabela 82. Na dimensão
ambiental, a maioria dos inquiridos refere que a OPDN que dirige incentiva as
populações locais para a preservação dos espaços de prática dos Desportos de
Natureza (91,6%); recolhe o lixo produzido durante as actividades (97,6%); recolhe o
lixo abandonado nos locais de prática (89,8%); sensibiliza as boas práticas
ambientais dos praticantes (99,4%); cumpre as normas de conduta para a
preservação da fauna e da flora (98,2%); e denuncia práticas incorrectas ou
atentados contra a natureza (88,6%). Por outro lado, uma pequena parte refere que
contribui financeiramente para a protecção ambiental local (33,1%). Os dados dos
comportamentos na dimensão económica revelam que a maioria das OPDN
promove os espaços de comércio locais (restaurantes, lojas, etc.) (84,9%); promove
os estabelecimentos hoteleiros locais (80,1%), recruta habitantes dos locais de
destino das práticas e/ou da sede da organização para trabalharem na organização
(71,1%). Já na dimensão sociocultural, os dados mostram que a grande maioria das
OPDN desenvolve programas que levem os praticantes a participar em actividades
culturais nos locais de prática (77,7%), desenvolve programas que contemplem a
utilização das instalações e dos espaços de lazer das comunidades locais (teatro,
cinema, bibliotecas, piscinas) (56,0%), e incentiva os habitantes locais para a prática
dos Desportos de Natureza (91,1%).
A criação de um índice dos comportamentos sustentáveis nos locais de
destino das práticas permite comparar os comportamentos das diversas OPDN. O
índice é efectuado através da soma das respostas nos comportamentos. A cada
resposta afirmativa foi atribuído um ponto, e às respostas negativas foi atribuído o
valor zero. A soma de todos os comportamentos atribuiu um valor de 0 a 13 pontos
(número total de comportamentos). Esse valor final foi multiplicado por 100, e o
resultado dessa multiplicação dividida por 13 (número total de comportamentos). O
valor proveniente dessa operação resultou num índice de comportamentos
sustentáveis numa escala de 0 a 100. Assim, o índice médio dos comportamentos
das OPDN é de 81 pontos. Ao compararmos o índice de comportamentos
sustentáveis pelas diferentes tipologias de OPDN verifica-se que as empresas (84)
apresentam um índice superior às restantes, como se pode observar na Tabela 83.
338
Tabela 82. Comportamentos das Organizações Promotoras dos Desportos de
Natureza nos locais de prática.
Sim Não
Comportamentos
N % N %
Desenvolve programas que levem os praticantes a participar em
actividades culturais nos locais de prática 129 77,7 37 22,3
Desenvolve programas que contemplem a utilização das
instalações e dos espaços de lazer das comunidades locais
(teatro, cinema, bibliotecas, piscinas) 93 56,0 73 44,0
Incentiva os habitantes locais para a prática dos Desportos de
Natureza 151 91,0 15 9,0
Incentiva as populações locais para a preservação dos espaços
de prática dos Desportos de Natureza 152 91,6 14 8,4
Recolhe o lixo produzido durante as actividades 162 97,6 4 2,4
Recolhe o lixo abandonado nos locais de prática 149 89,8 17 10,2
Sensibiliza as boas práticas ambientais dos praticantes 165 99,4 1 0,6
Cumpre as normas de conduta para a preservação da fauna e da
flora 163 98,2 3 1,8
Contribui financeiramente para a protecção ambiental local 52 31,3 114 68,7
Denuncia práticas incorrectas ou atentados contra a natureza 147 88,6 19 11,4
Promove os espaços de comércio locais (restaurantes, lojas,
etc.) 141 84,9 25 15,1
Promove os estabelecimentos hoteleiros locais 133 80,1 33 19,9
Recruta habitantes dos locais de destino das práticas e/ou da
sede da organização para trabalharem na Organização 118 71,1 48 28,9
Fonte: elaboração própria com base no QOPDN2011.
A maioria (89%) dos dirigentes afirma ainda que a sua organização tem um
plano de boas práticas e/ou código de conduta (ver Gráfico 52). Comparativamente
por tipo de OPDN, verifica-se que as empresas (91,9%) são o tipo de organizações
que mais apresentam um plano de boas práticas ou código de conduta, seguidas
pelas das associações (88,3%), pelos clubes desportivos (82,1%), e por fim pelos
clubes de praticantes (75%).
339
Gráfico 52. Plano de boas práticas e/ou código de
conduta.
Fonte: elaboração própria com base no QOPDN2011.
340
da cultura local, são percepcionados como irrelevantes pela maioria dos praticantes
e dirigentes das OPDN.
Quando analisadas as percepções dos impactos pelos diferentes tipos de
OPDN (empresas, clubes desportivos, clubes de praticantes e associações), verifica-
se que as empresas têm em geral uma percepção mais acentuada da relevância dos
impactos positivos e negativos, nas dimensões ambiental e económica. No âmbito
sociocultural, são as associações que têm uma percepção mais acentuada da
repercussão dos diferentes tipos de impactos, quer positivos quer negativos.
No que diz respeito aos comportamentos, foi criado um índice de
comportamentos sustentáveis, através de uma escala de índice 100 (entre 0 e 100
pontos), para poder comparar directamente os comportamentos dos praticantes das
diferentes actividades dos Desportos de Natureza. Verifica-se que o índice médio é
de 71 pontos, reflectindo que, no geral, os praticantes têm comportamentos
sustentáveis em relação aos habitantes e aos locais das práticas. Considerando as
nove actividades de Desportos de Natureza onde se obtiveram mais respostas,
verifica-se que os praticantes de mergulho e de montanhismo são os que têm
melhor índice de comportamentos sustentáveis, enquanto os de surf e bodyboard
são os que apresentam o índice mais baixo. A análise do índice de comportamentos
sustentáveis por sexo indica que os homens apresentam um índice superior às
mulheres, enquanto na análise por idade, os resultados indicam que com o avançar
da idade existe uma tendência para o aumento do índice, reflectindo uma crescente
consciencialização dos impactos.
Os comportamentos que mais praticantes referem ter são a recolha do próprio
lixo, o cumprimento das normas de conduta para a preservação da fauna e da flora e
a saudação dos habitantes locais. Por outro lado, poucos contribuem
financeiramente para a protecção ambiental local.
No que diz respeito às OPDN, foi também criado um índice que seguiu a
mesma metodologia do índice criado para os praticantes, embora o número e tipo de
indicadores comportamentais sejam distintos, o que não permite uma comparação
directa entre estes dois grupos. Os resultados indicam que as OPDN apresentam
um índice médio de comportamentos sustentáveis de 81 pontos. De entre os quatro
tipos de organizações, são as empresas que apresentam um índice superior de
comportamentos sustentáveis, enquanto os clubes desportivos são os que
apresentam o menor índice. Avaliando o conjunto das OPDN, os comportamentos
341
indicados por mais dirigentes como prática comum são a sensibilização para as
boas práticas ambientais dos praticantes, o cumprimento das normas de conduta
para a preservação da fauna e da flora e a recolha do lixo produzido durante as
actividades.
O perfil de consumo dos praticantes dos Desportos de Natureza está
relacionado principalmente com a aquisição de materiais e equipamentos, seguido
das deslocações, da alimentação e do alojamento. Denota-se que os praticantes têm
elevada autonomia para a prática, recorrendo pouco frequentemente a serviços
turísticos (EAT e Agências de Viagens). Os valores despendidos com as práticas são
significativos, quando comparados com os valores médios gastos com as
actividades de lazer turístico em Portugal, o que mostra que os Desportos de
Natureza são um componente importante de lazer e do turismo para os praticantes.
Os resultados indicam que menos de metade dos gastos são despendidos nos
locais das práticas, reflectindo por isso a grande margem que os Desportos de
Natureza podem ter para promover o desenvolvimento económico local.
342
alguns dos segmentos (Weinstein, 1994). Vários métodos de segmentação do
mercado têm vindo a ser usados com finalidades específicas (Palacio & McCool,
1997). A este respeito, Frochot e Morrison (2001) referem que apenas se pode
seleccionar a técnica mais apropriada se a estratégia for bem definida, sendo a
escolha da variável, ou variáveis, de segmentação um passo crucial e difícil no
processo de segmentação do mercado. Neste trabalho optou-se por utilizar a
variável: razões (benefícios esperados) para praticar actividades dos Desportos de
Natureza. A escolha desta variável, e o conhecimento sobre os benefícios
esperados, é importante por várias razões (Palacio & McCool, 1997): a) em primeiro
lugar pode ajudar na eficaz elaboração de campanhas de promoção, através da
selecção de mensagens temáticas apropriadas. Por exemplo, se os praticantes dos
Desportos de Natureza estiverem interessados em ter novas experiências ou
sensações de aventura, as campanhas promocionais podem enfatizar essa
característica; b) em segundo lugar, compreender os benefícios esperados pode
ajudar os gestores das OPDN e dos agentes (públicos e privados) dos territórios das
práticas a fornecer actividades, programas, eventos, e/ou instalações adequadas e
atractivas aos praticantes dos Desportos de Natureza. Por exemplo, se os
praticantes dos Desportos de Natureza são motivados pelo desejo de aprender
sobre a natureza, o fornecimento de instalações de interpretação apropriados
poderia aumentar as suas experiências; c) em terceiro lugar, a informação sobre os
benefícios esperados, pode ajudar a avaliar que tipo de clientes é adequado a
determinado destino de prática, dadas as limitações físicas e culturais desses
territórios; d) finalmente, uma avaliação dos benefícios esperados ajudará os
gestores e as comunidades locais a entender os diferentes segmentos de mercado,
os seus tamanhos, preferências e padrões de consumo. Esta informação leva a uma
melhor compreensão das consequências económicas e políticas das várias
estratégias de desenvolvimento turístico (relacionado com o investimento nos
Desportos de Natureza) pelas quais se poderão optar.
A segmentação baseada nos benefícios esperados foi inicialmente
desenvolvida por Russel Haley (Haley, 1968), ancorada na ideia de que os
benefícios que as pessoas procuram ao consumir um produto são as razões básicas
para a heterogeneidade na sua escolha de comportamento e, assim, para a
existência de verdadeiros segmentos de mercado. A segmentação baseada nos
benefícios esperados é vista como tendo uma maior variedade de aplicações do que
343
os tradicionais métodos e técnicas, já que fornece uma visão geral dos
consumidores a partir do seu perfil de motivações para o seu comportamento, ou
características sociodemográficas, que poderão ser úteis numa estratégia de
posicionamento ou de promoção dos produtos (Palacio & McCool, 1997). Mais
especificamente, Palacio e McCool (1997) referem que as vantagens da
segmentação baseada nos benefícios esperados estão na sua capacidade, não
apenas para classificar os clientes pelos benefícios esperados, mas também por
determinar o perfil de cada segmento usando variáveis descritivas (geográficas,
demográficas, entre outras).
Esta secção procurou segmentar e caracterizar os praticantes dos Desportos
de Natureza residentes em Portugal continental, tratando-se de um instrumento
importante para identificar os mercados-alvo, e um primeiro passo para a
estruturação da oferta dos Desportos de Natureza. Este trabalho poderá permitir a
criação de estratégias de desenvolvimento de serviços que também poderão ser
oferecidos para o mercado internacional (Marques, Reis, & Menezes, 2010). Assim,
o objectivo principal é fornecer informações estruturadas sobre a caracterização dos
praticantes dos Desportos de Natureza residentes em Portugal continental
considerando as seguintes questões de investigação:
1) Quais são os segmentos actuais da prática dos Desportos de Natureza
em Portugal? Quais são as principais razões para cada grupo praticar Desportos de
Natureza? Qual é o perfil de cada segmento?
2) Que similaridades são encontradas na literatura entre os segmentos de
praticantes dos Desportos de Natureza em Portugal e noutros países? Terão eles
perfis comuns?
344
prova); 3) Sociabilidade (para ocupar o tempo livre; para interagir com outras
pessoas/contacto social; pelo convívio que proporciona); 4) Higienismo (por
recomendação médica/questões de saúde; para manter e/ou melhor a condição
física; para relaxar/quebrar com a rotina do dia-a-dia); 5) Competição (para estar
envolvido numa competição desportiva); 6) Turismo (para visitar outros locais/
destinos; para conhecer outras tradições e outras culturas; para visitar e defender o
património). A análise de clusters permite identificar grupos de elementos da
amostra homogéneos no que diz respeito às variáveis em análise. A definição dos
clusters passa pelo cálculo das distâncias entre os vários elementos da amostra, no
que diz respeito às diferenças com que encaram os factores em análise e pela
consequente aglomeração desses elementos da amostra em grupos o mais
homogéneos possível (Marôco, 2010). Relativamente à escolha do método de
análise, existem vários que permitem medir as diferenças entre os elementos em
causa. Foram testados diferentes métodos de análise, tendo-se escolhido aquele
que produziu uma aglomeração adequada, o que melhor se adaptou ao conjunto de
dados em análise e o que melhor evidencia as diferenças entre clusters.
Demonstrou-se ser mais adequado o Ward’s Method (Método de Ward), que
originou agrupamentos em três a seis clusters, todos com dimensões significativas.
No que diz respeito à forma como são medidas as distâncias entre elementos da
amostra, existem também vários métodos, utilizando-se neste caso a Squared
Euclidian Distance (Distância Euclidiana ao Quadrado).
A análise factorial de componentes principais (Principal Component Analysis
[PCA]) foi também usada para a redução de dados das variáveis: constrangimentos
para a prática (Q29), associação aos Desportos de Natureza (Q.30); estilo de vida
(Q.12); percepção da repercussão dos impactos dos Desportos de Natureza no
desenvolvimento local (Q.40); e comportamentos nos locais de prática (Q39.). Este
método de análise factorial analisa um conjunto de variáveis com o objectivo de
verificar se é possível agrupar as respostas que são interpretadas de forma idêntica
pelos elementos da amostra, determinando o seu posicionamento nesse conjunto de
variáveis. Se assim for, os factores resultantes da análise estarão associados a um
conjunto de variáveis. A análise factorial permite proceder à transformação das
variáveis que integram uma escala num menor número de factores: os componentes
principais. Para definir qual o número de componentes a reter, é necessária uma
análise preliminar, aplicando a análise factorial e interpretando os resultados obtidos.
345
A amostra deve ser constituída por observações que sejam pelo menos o quíntuplo
das variáveis em análise, o que se verifica para todas as análises realizadas.
Os segmentos foram depois caracterizados de acordo com os
constrangimentos para a prática (Q29), estilo de vida relacionado com o lazer
(Q.12), percepção da repercussão dos impactos dos Desportos de Natureza no
desenvolvimento local (Q.40), comportamentos nos locais de prática (Q39.),
classificação dos impactos dos Desportos de Natureza (Q31.), actividade realizada
com maior frequência (Q.14.4), actividades complementares (Q15.), perfil da prática
[âmbito socio-organizacional (Q18.2), frequência da prática (Q.20), anos de prática
(Q.16), proficiência técnica (Q25.), nível de especialização (Q14.2), e âmbito
territorial da prática (Q27.)], comportamento de consumo turístico [deslocamento
local de prática (Q32.), refeições no local de prática (Q33.), pernoita (Q34.), tipo de
alojamento (Q35.), gastos com Desportos de Natureza (Q37.), percentagem de
gastos nos locais de destino (Q38.)], e características sociodemográficas [sexo
(Q1.), idade (Q2.), estado civil (Q3.), com quem vive (Q5.), distrito de residência
(Q7.), ocupação (Q8.), grupo profissional (Q10.), nível de escolaridade (Q10.), e
rendimentos (Q11.1)].
346
Gráfico 53. Distribuição da média das razões apontadas pelos membros de cada grupo
para a prática dos Desportos de Natureza por cada segmento.
Fonte: elaboração própria com base no QPDN2011.
347
- O primeiro segmento [194 praticantes (17,2% do total)] foi designado como
aventureiros ambientalistas porque os seus membros dão mais importância aos
factores aventura (para ter novas experiências/sensações de aventura, para desafiar
as capacidades, para pôr-se à prova) e ambiente (para estar em contacto com a
Natureza; para apreciar a natureza e a paisagem; para defender o ambiente) e
menos importância ao factor competição (para estar envolvido numa competição
desportiva). A sua prática dos Desportos de Natureza associa-se ao lazer de paixão
ou de projecto (Natureza, Emoção, Diversão, Desafio, Prazer, e Aventura), e menos
ao lazer educativo e de animação (Turismo, Lazer, Educação) e ao lazer energético
(Esforço, Actividade Física, e Desporto).
- Os membros do segmento dois [206 praticantes (18,3% do total)] dão
importância intermédia semelhante a todas as razões, embora ligeiramente inferior
aos factores competição e higienismo. Este segmento foi designado de aventureiros
sociabilizadores porque a aventura e a sociabilidade foram as principais razões
apontadas. O lazer de risco espectacular (Competição, Risco, e Espectáculo) é o
factor mais associado à prática dos Desportos de Natureza neste grupo, enquanto o
lazer de paixão ou de projecto (Natureza, Emoção, Diversão, Desafio, Prazer, e
Aventura) é o factor menos importante. O lazer educativo e de animação (Turismo,
Lazer, Educação) é também associado, pelos membros deste grupo, à prática dos
Desportos de Natureza.
- Os membros do terceiro segmento [o maior segmento de todos com 361
praticantes (32,1% do total)] apresentam como principal razão para a prática dos
Desportos de Natureza o factor ambiente (para estar em contacto com a Natureza,
para apreciar a natureza e a paisagem, e para defender o ambiente), apesar de
todas as outras razões também serem muito importantes, à excepção da
competição. Associam a sua prática ao lazer de paixão ou de projecto (Natureza,
Emoção, Diversão, Desafio, Prazer, e Aventura), e ao lazer educativo e de animação
(Turismo, Lazer, Educação). O lazer energético (Esforço, Actividade Física, e
Desporto) não é importante para os membros deste grupo. Neste sentido este
segmento foi designado de ambientalistas ecléticos.
- O quarto segmento [162 praticantes (14,4% do total)] foi designado de
aventureiros competitivos porque é o segmento que mais valoriza o factor
competição (para estar envolvido numa competição desportiva). Os seus membros
atribuem também muita importância a todas as outras razões para a prática. Os
348
membros deste grupo associam todos os factores à prática dos Desportos de
Natureza especialmente, e mais do que os restantes grupos, ao lazer de risco
espectacular (Competição, Risco, e Espectáculo), ao lazer energético (Esforço,
Actividade Física, e Desporto), e à recreação (Recreação e Deslizamento).
- O segmento cinco [139 praticantes (12,3% do total)] foi designado de
higienistas ambientalistas, porque os seus membros dão mais importância aos
factores higienismo (por recomendação médica/questões de saúde; para manter
e/ou melhor a condição física; para relaxar/quebrar com a rotina do dia-a-dia), e
ambiente (para estar em contacto com a Natureza; para apreciar a natureza e a
paisagem; para defender o ambiente) e, e menos ao factor competição (para estar
envolvido numa competição desportiva).
- Os membros do sexto segmento [é o menor dos segmentos com apenas
64 praticantes (5,7% do total)] dão mais importância aos factores ambiente e ao
turismo, e são os que atribuem menor importância ao factor competição. Associam a
sua prática ao lazer educativo e de animação (Turismo, Lazer, Educação), enquanto
os restantes factores não são importantes, em especial o lazer de risco espectacular
(Competição, Risco, Espectáculo) e a recreação (recreação e deslizamento). Este
segmento foi designado de turistas ambientalistas.
Tabela 84. Tamanho dos segmentos dos
praticantes dos Desportos de Natureza.
Segmentos N %
1 194 17,2
2 206 18,3
3 361 32,1
4 162 14,4
5 139 12,3
6 64 5,7
Total 1126 100,0
349
apresentam maioritariamente escolaridade ao nível do ensino superior (62,4%). As
práticas domésticas e de sociabilidade (e.g. receber e/ou ir a casa de amigos ou
familiares, por exemplo) são as práticas de lazer mais importantes para os membros
deste segmento, enquanto as práticas espectaculares e expressivas (e.g. fazer
desporto e realizar viagens de lazer) são as menos importantes. Estre grupo
desenvolve as suas actividades dos Desportos de Natureza maioritariamente de
forma informal (55,0%), ocasionalmente (47,5%), e preferencialmente ao fim-de-
semana (64,4% e RAE = 2,5). Apresentam maioritariamente um nível de proficiência
intermédio (49,5%). Praticam principalmente BTT (23,7%), têm uma maior tendência
para a prática de windsurf (4,1% e RAE = 2,0), e menor para a prática de
pedestrianismo (8,2% e RAE = -3,8). As principais actividades complementares
realizadas no âmbito dos Desportos de Natureza são, para este grupo, a fotografia e
vídeo na natureza (44,8%) e a observação da fauna e da flora (40,2%). A falta de
tempo é a principal razão apontada por este grupo para não praticar com mais
frequência, enquanto os restantes factores não são importantes. Os
comportamentos de civilidade (e.g. cumprir as normas de conduta para a
preservação da fauna e da flora) é o factor comportamental mais importante nos
locais de prática para os membros deste grupo, enquanto os restantes factores
comportamentais não são tão importantes. Os membros deste grupo apresentam
uma maior tendência para não realizarem refeições nos locais de prática (36,8% e
RAE = 2,2) e para nunca pernoitarem quando vão realizar as suas práticas (35,6%
RAE = 2,0). Em relação às despesas, para 42,3% estão acima dos 500 euros, sendo
que 21,6% são acima dos 1000 euros. São no entanto os que em maior número
(28,9%) referem que despendem a maior percentagem dos gastos com Desportos
de Natureza (acima dos 50%) nos locais de prática. Os membros deste segmento
classificam os impactos ambientais que decorrem da prática dos Desportos de
Natureza maioritariamente como neutros (49,5% e RAE = 2,0), e positivos (30,4%),
enquanto os impactos económicos e os socioculturais são classificados
principalmente como positivos (54,6% e 62,9% respectivamente).
Os membros do segundo segmento, os aventureiros sociabilizadores, são os
segundos mais novos com uma média de idade de 32,6 anos (±11,6). São os que
apresentam a maior taxa de indivíduos solteiros (57,3%), e vivem principalmente
com a família sem filhos (61,7% e RAE = 2,4) em Lisboa (20,4%), Porto (20,4%),
Faro (7,8%) e Setúbal (7,8%). São maioritariamente trabalhadores (61,2%), e com
350
escolaridade ao nível do ensino superior (61,2%). São os que apresentam a maior
taxa de indivíduos sem rendimentos próprios (23,8%), pois é o grupo que apresenta
o maior número de estudantes (28,2% e RAE = 2,1). As práticas de expressão
artística (e.g. tocar ou cantar num grupo musical) são as práticas de lazer mais
importantes para este grupo, seguidas das práticas de abandono e de expressão
pública (e.g. ir ao centro comercial), e das práticas espectaculares e expressivas
(e.g. passear com a família e/ou amigos), enquanto as práticas domésticas e de
sociabilidade (e.g. sair para ir ao café), e as práticas associativas expressivas (e.g. ir
a associações recreativas ou a colectividades locais) são as menos importantes.
Este grupo pratica maioritariamente de forma informal (50,8%), mas com uma maior
tendência para praticar no âmbito dos clubes desportivos (RAE = 4,1). Têm uma
prática regular de uma ou mais vezes por semana (67,9%), preferencialmente ao
fim-de-semana (54,9%). Apresentam maioritariamente um nível de proficiência
intermédio (55,8%). O BTT é a actividades mais praticada (24,8%), sendo que o
remo (3,4% e RAE = 3,3) e o surf (0,5% e RAE = - 3,5) apresentam respectivamente
a maior e menor tendência para serem mais realizadas pelos membros deste grupo.
Os membros deste segmento apresentam uma maior tendência para não realizarem
actividades complementares (19,9% e RAE = 2,2) quando realizam as suas práticas
dos Desportos de Natureza. A falta de tempo é o factor menos importante para que
os membros deste segmento pratiquem com maior frequência. Todos os outros
factores são importantes, em especial os condicionamentos pessoais (e.g. por falta
de motivação). Os membros pertencentes a este segmento não valorizam nenhum
dos factores comportamentais e por isso apresentam um índice de comportamentos
sustentáveis nos locais de prática abaixo da média (índice de 68,2). São os que
apresentam a menor tendência para se deslocarem em viatura própria ou de amigos
(RAE = -2,2). Maioritariamente levam os alimentos de casa e fazem um piquenique
(48,1%), e apresentam uma maior tendência para nunca pernoitarem quando vão
realizar as suas práticas (35,4% e RAE = 2,2). Em relação às despesas, 50,5%
estão acima dos 500 euros, sendo que 27,7% são acima dos 1000 euros. São
também os que referem despender a menor percentagem (apenas 19,9% dos
praticantes despende mais de 50% dos gastos) nos locais de prática. A classificação
dos impactos (ambientais, económicos e socioculturais) segue o mesmo padrão que
a classificação efectuada pelos membros do segmento anterior: os impactos
351
ambientais são neutros ou positivos, e os económicos e os socioculturais são
positivos.
Os membros do terceiro segmento, os ambientalistas eclécticos, apresentam
uma maior tendência para a inclusão de indivíduos do sexo feminino (37,7% e RAE
= 2,0). Têm uma média de idade de 33,1 anos (±10,2), maioritariamente solteiros
(53,5%), a viverem com a família sem filhos (48,8%), e uma maior tendência para
viverem sozinhos (18% e RAE = 2,2). Vivem principalmente em Lisboa (21,1%),
Porto (17,7%), Braga (9,4%), e Coimbra (8%). São maioritariamente trabalhadores
(71,5%), e com especial tendência para as profissões técnicas ou profissionais de
nível intermédio (30,7% e RAE = 2,4). Apresentam escolaridade ao nível do ensino
superior (62,3%), e com rendimentos entre os 750-1500 euros (42,7%). Todas as
práticas de lazer são importantes para este segmento à excepção das práticas de
expressão artística (e.g. fazer teatro amador). A maioria dos indivíduos pertencentes
a este grupo praticam Desportos de Natureza de forma informal (56,3%), e com uma
menor tendência para praticar no âmbito dos clubes desportivos (9,1% e RAE = -
3,6). Têm uma prática regular de uma ou mais vezes por semana (60,7%),
preferencialmente ao fim-de-semana (53,5%), e apresentam um nível de proficiência
intermédio (56,0%). Apresentam uma maior tendência para a prática de
pedestrianismo (21,1% e RAE = 2,1), de surf (5% RAE = 2,1), e de kitesurf (3,3%
RAE =2,5), e uma menor tendência para a prática de orientação (RAE = - 2,1). Os
membros deste segmento realizam com frequência actividades complementares aos
Desportos de Natureza, como a fotografia e vídeo na natureza (60,7%) e observação
da fauna e da flora (48,2%). Exceptuando os condicionamentos pessoais (por falta
de motivação), todos os outros factores são importantes para que os membros deste
segmento não pratiquem Desportos de Natureza com maior frequência, em especial
a falta de tempo. Em relação aos comportamentos nos locais de destino das práticas
dos Desportos de Natureza, os membros deste segmento valorizam mais a
sociabilidade local (e.g. falam com os habitantes sobre a cultura local) e o consumo
de produtos e serviços locais (e.g. procuram serviços que incluam o trabalho de
habitantes locais). Apresentam uma menor tendência para não realizarem refeições
nos locais de prática (RAE = - 2,5), e para levarem os alimentos de casa e fazer um
piquenique (RAE = 3,6), e uma menor tendência para ir a um restaurante (RAE = -
2,6). Pernoitam poucas vezes (42% pernoita entre 1 a 25%, e 17,5% pernoita entre
26% a 50% das vezes que sai para praticar) (RAE = 2,2 em ambos), e quando
352
pernoitam utilizam preferencialmente o parque de campismo (30,7% e RAE = 3,7).
Em relação às despesas com Desportos de Natureza, 45,4% dos membros deste
segmento indicam que estas estão acima dos 500 euros, sendo que para 26,3% são
acima dos 1000 euros. Por outro lado, apenas 22,7% gastam mais de 50% do valor
total das despesas com Desportos de Natureza nos locais de prática. Os membros
deste segmento classificam o impacto ambiental causado pelos Desportos de
Natureza principalmente como neutro (38,5%) ou positivo (29,9%), e com uma maior
tendência para o classificarem como muito positivo (26,9% e RAE = 2,9). Os
impactos económicos são principalmente classificados como positivos (49,9%) e
com uma maior tendência para serem classificados como muito positivos (26% e
RAE =2,9), enquanto os impactos socioculturais são principalmente classificados
como positivos (50,1%) e muito positivos (33% e RAE = 2,2).
Os membros do quarto segmento, os aventureiros competitivos, pertencem
maioritariamente ao sexo masculino (72,2%), são os mais novos (31,9 anos ±11,1), e
o segmento que apresenta uma maior taxa (49,4%) de indivíduos mais jovens (18-30
anos). São maioritariamente solteiros (52,5%), e os que vivem em maior número
com a família sem filhos (64,8%), e com menor tendência a viverem sozinhos (RAE
= -2,8). São os que menos vivem nos distritos de Lisboa (8,6% e RAE = -3,9) e Porto
(14,2%). Vivem em Braga (13%) (RAE = 2,1), Coimbra (13%), Faro (9,9%), e
Setúbal (9,3%). São maioritariamente trabalhadores (62,3%). São os que
apresentam a menor tendência de apresentarem estudos ao nível do ensino superior
(48,1% e RAE = -3,7), e os que apresentam os níveis de rendimento mais baixos
(49,4% têm rendimentos próprios abaixo de 750 euros – abaixo da média nacional).
São os que apresentam o estilo de vida mais activo (média de 106 pontos), e os que
mais valorizam as práticas espectaculares e expressivas (e.g. fazer desporto e
realizar viagens de lazer), as práticas de expressão artística (tocar ou cantar num
grupo musical, por exemplo), e as práticas domésticas e de sociabilidade (e.g.
receber e/ou ir a casa de amigos ou familiares), enquanto as restantes não são
importantes. São os que menos praticam de forma informal (39,9% e RAE = -3,5), e
os que apresentam a maior tendência para praticar nos clubes desportivos (31% e
RAE = 6,3). São os que praticam de forma mais regular e frequente (61,1% praticam
uma ou mais vezes por semana, dos quais 18,5% praticam mais de 3 vezes por
semana), e com a maior tendência para uma prática indiferenciada ao longo da
semana (43,8% e RAE = 2,9), apesar de a maioria praticar preferencialmente ao fim-
353
de-semana (50%). São os que apresentam a maior tendência para terem um nível
de proficiência técnica avançada (34,6% e RAE = 4,6), e a menor tendência para o
nível iniciado (11,7% e RAE = -4,4). O BTT (25,3%) é a principal actividade praticada
por este grupo, seguida da orientação (14,8% e RAE = 4,7) que apresenta a maior
tendência para ser praticada neste grupo do que nos restantes. Os membros deste
segmento também realizam actividades complementares aos Desportos de Natureza
com frequência, em especial a fotografia e vídeo na natureza (54,3%) e observação
da fauna e da flora (42,6%). As razões instrumentais e de sociabilidade (e.g. por falta
de companhia) são as principais razões apontadas pelos membros deste grupo para
não terem uma prática mais frequente, enquanto a falta de tempo é um factor menos
importante. São os que apresentam o índice mais elevado de comportamentos
sustentáveis (índice de 79,6). São os que dão mais importância à sociabilidade local
(e.g. incentivo os habitantes locais para a prática dos Desportos de Natureza) e à
responsabilidade ambiental (recolho o lixo abandonado nos locais de prática),
embora os restantes comportamentos também sejam importantes, à excepção da
civilidade. São os que apresentam a maior tendência para se deslocarem na viatura
do clube/associação onde praticam (RAE = 2,4). A maioria leva os alimentos de casa
e faz um piquenique (45,1%). A seguir aos turistas são os que mais pernoitam em
termos percentuais (77,8%), e são os que mais utilizam os estabelecimentos
hoteleiros (20,4%) e outros empreendimentos turísticos (13,6%). Em relação às
despesas, 40,7% gastam acima dos 500 euros, sendo que 22,7% são acima dos
1000 euros. Apenas 22,7% gastam mais de 50% dos valores despendidos nos locais
de prática. Os membros deste segmento são os que classificam mais positivamente
os impactos (ambiental, económico e sociocultural) que decorrem nos locais das
práticas, causados pelos Desportos de Natureza. Os impactos ambientais são
classificados principalmente como positivos (29,0%) e muito positivos (29,0%), e
com uma tendência negativa para a classificação neutro (35,2% e RAE = -2,2). Os
impactos económicos são principalmente classificados como positivos (47,5%) e
com uma maior tendência para serem classificados como muito positivos (33,3% e
RAE = 4,2), e os impactos socioculturais são principalmente classificados como
muito positivos (48,1% e RAE = 5,9).
Os membros do quinto segmento, higienistas ambientalistas, pertencem
maioritariamente ao sexo masculino (59%), no entanto apresentam uma maior
tendência para a inclusão de indivíduos do sexo feminino (RAE = 2,0). São os
354
segundos mais velhos (37,5 anos ±11,9), e com uma predisposição positiva para
incluir os indivíduos entre os 44-56 anos (RAE = 3,5). São maioritariamente casados
ou a viverem em união de facto (51,1%) e os que apresentam uma menor tendência
no estado civil solteiro (RAE = - 2,4), e vivem maioritariamente com a família sem
filhos (54%). Vivem principalmente em Lisboa (22,3%), Porto (15,1%), Faro (11,5%),
Braga (9,4%), e Coimbra (8%). São maioritariamente trabalhadores (73,4%), e em
profissões intelectuais e científicas (32,4% e RAE = 2,6). São os que apresentam a
maior taxa de escolaridade ao nível do ensino superior (69,1% e RAE = 2,0), e os
que apresentam um maior rendimento (32,4% entre os 1000-2000 euros e 16,5%
acima dos 2000 euros). São os que apresentam o estilo de vida menos activo
(média de 94 pontos), e os que menos valorizam as práticas espectaculares e
expressivas (e.g. fazer desporto e realizar viagens de lazer). Praticam
maioritariamente de forma informal (55,1%), e são os que apresentam a menor
tendência para praticar nos clubes desportivos (5,1% e RAE = - 3,4), e maior
tendência para praticar sozinhos (20,3 e RAE = 3,8). Têm uma prática regular de
uma ou mais vezes por semana (51,1%), e os que apresentam a maior tendência
para praticar durante a semana (14,4% e RAE = 2,0), apesar de a maioria praticar
preferencialmente ao fim-de-semana (56,1%). São os que apresentam a maior
tendência para terem um nível de proficiência técnica iniciada (36,7% e RAE = 3,2),
e a menor tendência para o nível avançado (12,9% e RAE = -2,5). Praticam
principalmente BTT (25,9%), mas com uma maior tendência para a prática de
pedestrianismo (23,7% e RAE =2,0), e de skimboard (2,9% e RAE = 4,1), e
apresentam uma menor tendência para a prática de canoagem (2,9% e RAE = -2,3)
do que os restantes grupos. Os membros deste segmento são os que apresentam
uma maior tendência para não realizarem actividades complementares (25,9% e
RAE = 3,9) quando realizam as suas práticas dos Desportos de Natureza. Os
condicionamentos pessoais (e.g. por motivos de saúde) são as principais razões
apontadas pelos membros deste grupo para não terem uma prática mais frequente,
enquanto as razões instrumentais e de sociabilidade (por falta de companhia) não
são tão importantes. São os que apresentam o mais baixo índice de
comportamentos sustentáveis nos locais de prática (índice de 63,9), sendo o grupo
que menos importância atribui à sociabilidade local (e.g. falo com os habitantes
sobre a cultura local), e à responsabilidade ambiental (e.g. recolho o lixo
abandonado nos locais de prática). Os restantes comportamentos nos locais de
355
prática e para com os habitantes locais também não são importantes. São os que
apresentam a maior tendência para não realizarem refeições nos locais de prática
(41,3% e RAE = 3,0), uma maior tendência para nunca pernoitarem quando vão
realizar as suas práticas (38,1% RAE = 2,5), e uma menor tendência para
pernoitarem em parques de campismo (RAE = -2,4). São os que apresentam a maior
tendência para gastar menos dinheiro com Desportos de Natureza, apresentando
uma maior tendência para gastar menos de 100 euros (23% RAE = 2,6) e os que
menos gastam cima dos 1000 euros (18%). Os membros deste segmento são os
que classificam os impactos (ambiental, económico e sociocultural) que decorrem
nos locais das práticas, causados pelos Desportos de Natureza, com valores mais
baixos. Os impactos ambientais apresentam uma maior tendência para serem
classificados como neutros (53,2% e RAE = 2,6), os impactos económicos são
principalmente classificados como positivos (55,4%), mas apresentam uma menor
tendência para serem classificados como muito positivos (13,7% e RAE = -2,2),
enquanto os impactos socioculturais são também maioritariamente classificados
como positivos (57,6%), e com uma menor tendência para serem classificados como
muito positivos (18% e RAE = -3,0).
Os membros do sexto segmento, os turistas ambientalistas, são os mais
velhos (37,6 anos ±11,9), maioritariamente entre os 31-43 anos (42,2%), sendo o
segmento que apresenta uma maior taxa de indivíduos acima dos 56 anos (9,4%).
Vivem principalmente em Lisboa (23,4%), Porto (17,2%), Faro (9,4%) e Santarém
(9,4%). São casados ou vivem em união de facto (53,1%), e apresentam uma maior
tendência para incluir indivíduos divorciados, separados ou viúvos (RAE = 2,1), e os
que mais vivem com a família e filhos a seu cargo (32,8%). São os que mais se
apresentam com uma condição activa (trabalhadores) (75%), e em menor número
como estudantes (12,5% e RAE = -2,0). Apresentam uma maior tendência para
profissões intelectuais e científicas (RAE = 2,4), o segundo maior índice de
escolaridade (68,8% têm escolaridade ao nível do ensino superior), e o segundo
maior nível de rendimentos (37,5% entre os 1000-2000 euros e 10,9% acima dos
2000 euros). Os membros deste grupo são os que mais valorizam as práticas
associativas expressivas (e.g. ir a associações recreativas ou a colectividades
locais), e os que menos valorizam as práticas de expressão artística e as práticas de
abandono e de expressão pública (e.g. ir ao centro comercial). As restantes práticas
de lazer também não são valorizadas pelos membros deste segmento. São os que
356
praticam mais Desportos de Natureza no âmbito das associações (25,0%), os que
mais praticam de forma informal com o grupo de sociabilidade (60,0%), e os que
menos praticam nos clubes desportivos (5% e RAE = -2,2). A sua prática é a mais
irregular e menos frequente (54,7%) de todos os grupos, e é desenvolvida
preferencialmente ao fim-de-semana (70,3% e RAE = 2,3). Apresentam
maioritariamente um nível de proficiência intermédio (49,5%), sendo os que praticam
há mais tempo (34,4% praticam à mais de 15 anos). São também os que mais
praticam sem local fixo (90,6% e RAE = 3,1), apresentando as maiores tendências
para praticar fora do distrito (33,1% e RAE = 2,3) e fora do país (10,9% e RAE =
2,3). O pedestrianismo (39,1% e RAE = 4,6) o montanhismo (12,5% e RAE = 2,1), e
a espeleologia (9,4% e RAE = 6,0) são as actividades com a maior tendência para
serem realizadas pelos membros deste segmento, enquanto o BTT apresenta uma
tendência negativa (10,9% e RAE = -2,3) para ser desenvolvido pelos membros
deste grupo. É o grupo que mais desenvolve outras actividades quando pratica
Desportos de Natureza, em especial fotografia e vídeo na natureza (73,4%), e
observação da fauna e da flora (70,3%). A falta de tempo é a principal razão
apontada por este grupo para não praticar com mais frequência, enquanto os
condicionamentos pessoais (e.g. porque não quer), são as menos importantes. É o
grupo que mais importância dá ao consumo de produtos e serviços locais (e.g.
adquire produtos tradicionais da região) e à civilidade (e.g. cumpre as normas de
conduta para a preservação da fauna e da flora). Em relação aos comportamentos
de consumo turístico, são os que recorrem mais ao automóvel (89,1%), os que
geralmente fazem mais refeições nos locais das práticas (85,9%), e os que mais
recorrem ao restaurante (12,5%), apesar de a maioria levar alimentos de casa e
fazer um piquenique (56,3%). São os que mais pernoitam quando vão praticar
Desportos de Natureza (29,6% pernoitam mais de 50% das vezes que vão praticar
Desportos de Natureza e RAE = 2,3), e os que mais utilizam os parques de
campismo (34,4%) ou outras formas de alojamento (e.g. carro, acantonamento, etc.)
(31,3%). São também os que apresentam a maior tendência de gastos com os
Desportos de Natureza, gastando acima dos 1000 euros (31,3%), sendo que 23,3%
despende mais de 50% do valor dos gastos com Desportos de Natureza nos locais
de prática. Contrariamente aos restantes grupos, a principal rubrica de despesa para
estes praticantes é com os deslocamentos, seguida da aquisição de materiais e
equipamentos. Os membros deste grupo classificam os impactos ambientais
357
resultantes da prática dos Desportos de Natureza geralmente como neutros (31,3%)
ou positivos (34,4%), embora com uma predisposição para a sua classificação como
negativo (21,9% e RAE = -3,3). Os impactos económicos são principalmente
classificados como positivos (65,6% e RAE = 2,0), enquanto os impactos
socioculturais são também maioritariamente classificados como positivos (51,6%) e
muito positivos (34,6%).
358
Depois de atribuída a designação a cada um dos segmentos, estes foram
caracterizados com base nas características sociodemográficas, estilo de vida
relacionado com o lazer, perfil da prática dos Desportos de Natureza,
constrangimentos para a prática, comportamentos nos locais de prática e consumo
turístico, e na classificação dos impactos e respectiva repercussão nos locais de
destino das práticas dos Desportos de Natureza. Apesar de em todos os segmentos
o praticante masculino ser predominante, no terceiro (ambientalistas eclécticos) e no
quinto segmento (higienistas ambientalistas) evidencia-se uma maior tendência para
a prática feminina. Também em relação à idade se evidenciam diferenças, em
especial entre os competidores e os turistas, já que os primeiros são os mais novos
e os segundos os mais velhos. Em relação ao estado civil, o maior número de
indivíduos solteiros sobressaem nos quatro primeiros segmentos (aventureiros
ambientalistas, aventureiros sociabilizadores, ambientalistas eclécticos e
aventureiros competitivos), enquanto os dois últimos (higienistas ambientalistas e
turistas ambientalistas) são predominantemente casados. Em todos os segmentos
prevalecem indivíduos que vivem com a família sem filhos, salientando-se os
aventureiros sociabilizadores e os aventureiros competitivos que apresentam uma
maior tendência do que os restantes para viverem neste perfil de agregado,
enquanto os eclécticos apresentam uma menor tendência, e apresentarem um maior
tendência para viverem sozinhos. Prevalecem também, em todos os segmentos, os
indivíduos trabalhadores, apesar dos aventureiros sociabilizadores apresentarem
uma maior tendência para incluírem indivíduos estudantes, enquanto os turistas
ambientalistas têm uma menor predisposição para incluírem os estudantes. Os
aventureiros ambientalistas, os higienistas ambientalistas e os turistas
ambientalistas pertencem maioritariamente às profissões intelectuais e científicas,
enquanto os restantes pertencem ao grupo das profissões técnicas ou profissionais
de nível intermédio, apesar dos aventureiros competitivos apresentarem uma maior
tendência para incluir indivíduos operários, artificies ou profissões similares, sendo
estes portanto os que apresentam profissões menos qualificadas. A qualificação
académica ao nível do ensino superior é também predominante em todos os grupos,
apesar dos competidores apresentarem uma maior tendência do que os restantes
grupos para incluírem indivíduos apenas com o 9º e o 12º ano de escolaridade.
Em todos os segmentos prevalecem indivíduos com um estilo de vida activo,
embora a importância atribuída a cada tipologia de prática seja distinto. Em todo o
359
caso, os aventureiros competitivos são os que apresentam o índice do estilo de vida
mais elevado, enquanto os higienistas ambientalistas apresentam o índice mais
baixo.
O perfil da prática dos distintos segmentos também apresenta algumas
diferenças. Os membros de todos os segmentos desenvolvem principalmente a sua
prática dos Desportos de Natureza no âmbito de um grupo informal, com um
carácter de lazer, à excepção dos aventureiros competitivos que praticam
maioritariamente no âmbito dos clubes desportivos. Também são os aventureiros
competitivos que apresentam uma maior frequência na prática, maioritariamente
entre 1 a 3 dias, e com uma maior predisposição para pratica mais de 3 vezes por
semana. Os aventureiros ambientalistas, os aventureiros sociabilizadores e os
ambientalistas eclécticos apresentam também uma prática frequente,
maioritariamente entre 1 a 3 dias por semana. Por outro lado, são os higienistas
ambientalistas, e em especial os turistas ambientalistas, que têm uma prática menos
frequente. São também os turistas ambientalistas que mais procuram diferentes
espaços de prática, e com a maior tendência para praticar fora do distrito e fora do
país. Esta maior predisposição para praticar em diferentes locais pode ser explicada
em parte porque são estes últimos que mais praticam actividades que têm um perfil
de maior itinerância e maior carácter informacional, como o pedestrianismo, o
montanhismo e a espeleologia. Por outro lado, os aventureiros competitivos praticam
maioritariamente actividades que têm um carácter competitivo como o BTT, e a
orientação. O BTT é também para os aventureiros ambientalistas, os aventureiros
sociabilizadores, e os higienistas ambientalistas a principal actividade praticada,
embora este último apresente uma maior tendência para a prática de
pedestrianismo. O pedestrianismo é também para os eclécticos a principal
actividade praticada.
O carro é em todos os segmentos o preferencial meio de transporte utilizado
para a deslocação para os locais de prática. Os higienistas ambientalistas e os
aventureiros ambientalistas são os que apresentam maiores tendências para não
realizarem refeições nos locais de prática, enquanto os turistas ambientalistas são
os que os que mais fazem refeições nos locais de prática. A maioria dos praticantes,
em todos os segmentos, leva os alimentos de casa e faz um piquenique quando
fazem refeições nos locais de prática. Em relação à pernoita, os aventureiros
ambientalistas e os higienistas ambientalistas são os que têm mais tendência para
360
nunca pernoitar, enquanto os turistas ambientalistas são os que mais pernoitam
quando vão praticar Desportos de Natureza e os que mais utilizam os parques de
campismo e outras formas de alojamento (e.g. carro, acantonamento, etc.). A seguir
aos turistas ambientalistas são os aventureiros competitivos que mais pernoitam, e
os que mais utilizam os estabelecimentos hoteleiros e outros empreendimentos
turísticos. Os ambientalistas eclécticos pernoitam poucas vezes, e quando pernoitam
utilizam preferencialmente o parque de campismo. Os turistas ambientalistas são os
que despendem os mais elevados valores com a aquisição de produtos/serviços
relacionados com a prática dos Desportos de Natureza, enquanto os higienistas
ambientalistas são os que menos despendem com a prática dos Desportos de
Natureza. Por outro lado, são os aventureiros ambientalistas e os higienistas
ambientalistas que em termos percentuais mais gasta com produtos/serviços nos
locais de prática, enquanto os aventureiros sociabilizadores são os que menos
gastam nos locais de prática em termos percentuais. A principal rubrica de despesas
dos turistas ambientalistas é com o deslocamento para os locais de prática, seguida
da aquisição de materiais e equipamentos, enquanto para os restantes segmentos a
aquisição de materiais e equipamentos é a principal, seguida das despesas com
transporte.
De forma geral os membros de todos os segmentos classificam os impactos
ambientais que decorrem da prática dos Desportos de Natureza maioritariamente
como neutros ou positivos, enquanto os impactos económicos e os socioculturais
são classificados principalmente como positivos. Salientam-se os aventureiros
competitivos que classificam as três dimensões dos impactos de uma forma mais
positiva que os restantes, enquanto os higienistas ambientalistas são os que os
classificam com os mais baixos valores.
Ao comparar os resultados alcançados pela segmentação dos praticantes dos
Desportos de Natureza, com outros trabalhos encontrados na literatura, não se deve
deixar de fazer notar que este estudo apresenta uma maior especificidade em
relação a outros que são mais abrangentes e que direccionam o seu foco de estudo
para um fenómeno mais global, como o Turismo de Natureza (Marques, Reis, &
Menezes, 2010), ou ao Ecoturismo (Bricker & Kerstetter, 2002; Kerstetter, Hou, &
Lin, 2004; Palacio & McCool, 1997; Weaver, 2002; Weaver & Lawton, 2002). Por
outro lado, este estudo é, ao mesmo tempo, mais abrangente do que outros
trabalhos encontrados na literatura que se focam apenas numa das actividades dos
361
Desportos de Natureza, como a canoagem (Pociello, 1995), ou pedestrianismo
(Bichis-Lupas & Moisey, 2001), ou num segmento de actividades, como o caso dos
desportos de montanha (Lefèvre, 2004). Ainda se devem salientar outras
especificidades na comparação com estes estudos, pelas diferenças substanciais
entre as região onde foram aplicados, nos métodos de recolha de dados, pelas
diferentes variáveis usadas, pelos diferentes métodos estatísticos aplicados, etc.
Apesar de todas estas diferenças foram encontradas algumas similaridades com
outros segmentos encontrados na literatura.
Pociello (1995), através da análise dos praticantes de canoagem, identificou
três tipos de praticantes - os competidores, os puristas, e os turistas -, que
apresentam características similares a dois segmentos apresentados neste trabalho,
os aventureiros competitivos e os turistas ambientalistas. Pociello (1995) identifica
os competidores, como os praticantes mais novos e os que apresentam o mais
elevado nível técnico, através de um importante investimento em tempo, energia, e
sacrifício, tanto na actividade como na instituição, tal como os aventureiros
competitivos identificados neste trabalho; enquanto os turistas são, tal como os
turistas ambientalistas, os praticantes mais velhos e com o maior volume de capital,
apresentando um maior investimento cultural, estético e turístico da actividade; o
terceiro tipo de praticante identificado por Pociello (1995), os puristas, não encontra
correspondência com nenhum dos segmentos expostos neste trabalho, porque
foram utilizadas variáveis muito distintas, não permitindo a comparação com as
características básicas deste segmento.
O estudo de Bichis-Lupas e Moisey (2001) procurou dividir os utilizadores do
rail-trail em segmentos de mercado de acordo com os benefícios esperados,
identificando quatro segmentos, entre os quais os fitness seekers (procuradores de
condição física), que encontra correspondência no segmento dos higienistas
ambientalistas. Em ambos os casos a principal motivação é para com as questões
da saúde e a manutenção ou melhoria da condição física.
Os segmentos apresentados no estudo de Lefèvre (2004) não apresentam
correspondência com as tipologias identificadas neste estudo. Também os
segmentos identificados no estudo do Turismo de Natureza (Marques, Reis, &
Menezes, 2010) e nos estudos do Ecoturismo (Bricker & Kerstetter, 2002; Kerstetter,
Hou, & Lin, 2004; Palacio & McCool, 1997; Weaver, 2002; Weaver & Lawton, 2002),
não apresentam similaridades com os segmentos representados neste estudo. Isto
362
pode ser explicado pelo facto de nestes trabalhos (Turismo de Natureza e
Ecoturismo), exceptuando o estudo de Kerstetter, Hou e Lin (2004), não ter sido
identidado nenhum segmento com características que destaquem a experiência da
aventura como principal factor para a visitar as áreas naturais (protegidas), e por
isso não se posicionarem no Ecoturismo hard - onde estão incluídas a maioria das
actividades dos Desportos de Natureza, e respectivamente os seus praticantes.
Apesar da segmentação dos praticantes representar apenas uma primeira
tentativa de identificar as diferentes tipologias de praticantes dos Desportos de
Natureza, pode ter, no entanto, algumas implicações para o desenvolvimento de
políticas no sector.
363
364
VI. CONSIDERAÇÕES FINAIS
6.1. NOTA INTRODUTÓRIA
Esta tese seguiu um trajecto de natureza científica, inserida no âmbito da
investigação em Ciências Sociais. O percurso foi dividido por etapas, assinalando-se
aqui a última, onde se apresenta o balanço final do trabalho desenvolvido. Este
capítulo é apresentado em quatro partes, incluindo esta nota introdutória. Na
segunda parte apresentam-se as conclusões gerais onde são explanados os
resultados mais relevantes, recorrendo ao cruzamento dos dados obtidos através
dos questionários aplicados aos praticantes e aos dirigentes das OPDN, e a
literatura revista, tendo em consideração os objectivos estabelecidos. Na terceira
parte são apresentadas as limitações que caracterizam este estudo, e que
delimitaram as conclusões finais. Na última parte (perspectivas futuras) serão
apresentadas algumas pistas para futuras investigações sobre esta temática.
367
percebendo-se, portanto, a ligação entre estas actividades e os sectores do turismo
e do lazer. O contributo dos Desportos de Natureza para a sustentabilidade do
desenvolvimento local, nas comunidades de destino, também tem vindo a ser
amplamente reconhecido. No entanto, apesar de todos os contornos que levaram a
sugerir esta ideia, poucos foram os estudos desenvolvidos sobre a temática da
sustentabilidade no âmbito destas práticas. Por outro lado, também não existiam
estudos, em Portugal, que caracterizassem em profundidade os praticantes e as
organizações que promovem as actividades dos Desportos de Natureza. Este
trabalho permitiu assim: i) caracterizar os praticantes dos Desportos de Natureza,
maiores de 18 anos, residentes em Portugal continental, identificando as suas
características sociodemográficas, as práticas de lazer e o uso dos seus tempos
livres, e o perfil de prática dos Desportos de Natureza; ii) caracterizar as OPDN, a
operar em Portugal continental, identificando o seu perfil geral, as características da
sua oferta e da sua procura, e o perfil dos seus dirigentes; iii) identificar os impactos
(ambientais, económicos e socioculturais) gerados pelos Desportos de Natureza, e o
seu contributo para a sustentabilidade do desenvolvimento local, partindo da
percepção dos praticantes e dos agentes promotores destas actividades, e dos seus
comportamentos nos locais das práticas. Os dados foram recolhidos através da
aplicação de dois questionários durante os meses de Setembro a Dezembro de
2011, a uma amostra de praticantes (n=1126), e a uma amostra de dirigentes das
OPDN (n=166).
Este trabalho permitiu realizar um estudo extensivo sobre os praticantes dos
Desportos de Natureza em Portugal continental, não se conhecendo estudos que
tenham efectuado esta caracterização a este nível (escala nacional), exceptuando
os estudos realizados nos EUA sobre a participação anual em actividades de
recreação outdoor (The Outdoor Foundation, 2013). Alguns estudos foram
desenvolvidos sob uma escala territorial mais reduzida, como na região da
Catalunha (Espanha) por exemplo (Betrán & Betrán, 1998).
Em Portugal não se conhecem os dados relativos ao número de praticantes
dos Desportos de Natureza, em especial dos praticantes informais. Contudo é
possível perceber que esse número é baixo tendo em conta os dados disponíveis
sobre a prática desportiva (em geral) dos portugueses - apenas 31% indicam que
praticam uma modalidade desportiva pelo menos uma vez por semana (European
Commission, 2010), em especial quando comparado com outras realidades, como a
368
francesa, onde um em cada três franceses entre os 15-75 anos esteve envolvido
numa actividade desportiva na natureza (Mignon & Truchot, 2002). Também nos
EUA a participação em actividade de recreação outdoor é elevada já que 50% da
população participou em algum tipo destas actividades em 2012 (The Outdoor
Foundation, 2013), embora este conceito inclua outras actividades que não apenas
os Desportos de Natureza (e.g. caça, pesca, campismo, etc.).
Apesar desta evidência, existem alguns indicadores que permitem evidenciar
o crescimento do sector e o aumento do número de praticantes em Portugal.
Destacam-se os seguintes: a) uma elevada participação de praticantes informais,
que indicia uma crescente independência dos praticantes em relação à necessidade
de mediação desportiva, e consequentemente uma maior autonomia na
participação; b) uma maior participação de jovens que inicia a prática destas
actividades cada vez mais cedo, talvez influenciados pela integração destas
actividades nos programas curriculares do ensino básico e secundário; c) a
crescente participação feminina, em especial nos grupos de idade mais jovens; d) a
diversidade da oferta que permite oferecer projectos desportivos distintos, em função
das motivações pessoais, que vão das actividades mais formais segundo o modelo
federado (como os clubes desportivos de canoagem orientados para a competição),
às estruturas mais informais (como os clubes de praticantes de BTT orientados para
a prática recreativa); e) o aumento da oferta especializada, direccionada para o
ensino/formação de praticantes, como o caso da maioria dos clubes de surf; f) o
aumento do número de eventos desportivos formais, como as provas federadas de
orientação, mas também não formais como as provas de BTT organizadas por
clubes de praticantes e/ou associações; g) a criação de novos espaços para a
prática, como as redes de percursos pedestres, os centros náuticos, os centros de
alto rendimento de surf, etc.; h) a criação de uma imagem positiva nos territórios,
associada a eventos desportivos mediáticos, como o caso de Peniche a partir do
campeonato do mundo de surf, ou da Nazaré a partir da maior onda surfada (por
Garrett McNamara); i) o crescimento do sector dos Desportos de Natureza, apontado
pelos dirigentes das OPDN, para os próximos 10 anos.
No entanto, os dados dos questionários patenteiam ainda algumas
assimetrias na participação em actividades dos Desportos de Natureza, apesar da
evidente difusão das práticas dos Desportos de Natureza em Portugal. Destaca-se
uma maior participação masculina, e de jovens, com o número de respondentes a
369
decrescer com o avançar da idade, pressupondo assim um decréscimo da
participação com a idade, assinalando-se por isso assimetrias relativas ao sexo e
idade. Também ao nível do capital cultural, social e económico são patentes algumas
assimetrias, a julgar pelo elevado nível de escolaridade dos indivíduos da amostra
(principalmente ao nível do ensino superior), pelo número de indivíduos
pertencentes a grupos profissionais altamente qualificados, e pelos rendimentos
auferidos, maioritariamente acima da média nacional. Os resultados do questionário
aplicado aos dirigentes das OPDN mostram um perfil dos praticantes, em relação ao
sexo e idade, idêntico ao perfil evidenciado pelo questionário aplicado aos
praticantes dos Desportos de Natureza, o que indica um perfil comum entre os
praticantes informais e os que realizam estas actividades no âmbito organizacional.
Assim, no que diz respeito à estrutura social de recrutamento dos Desportos de
Natureza, os resultados deste trabalho vão ao encontro dos enunciados por Pociello
(1981) sobre aquilo que designou como ecologização das práticas desportivas, um
fenómeno de recurso do aproveitamento das fontes de energia naturais através de
máquinas ecológicas (bicicleta, prancha de surf, asa-delta, etc.), característico dos
indivíduos detentores de um volume global de capital elevado, em especial de
capital cultural.
Os dados apontam também para uma procura satisfeita pelos indivíduos
inquiridos, no que diz respeito à prática dos Desportos de Natureza. No entanto, é
demonstrado que a relação entre a satisfação e a frequência fique aquém do
desejado, já que a maioria dos praticantes gostaria de realizar a actividade favorita
mais vezes, pressupondo-se por isso alguns tipos de constrangimentos que
condicionam a frequência das respectivas práticas. A este respeito, a análise dos
constrangimentos demonstra que a falta de tempo disponível é o principal limitador
da frequência da prática, seguida da falta de dinheiro. Contrapondo os
constrangimentos, os praticantes apontam a questão ambiental (e.g. para estar em
contacto com a natureza) com a principal razão para a prática dos Desportos de
Natureza, seguida da aventura (e.g. para ter novas experiências e sensações de
aventura).
Os dados dos inquéritos aplicados aos praticantes sugerem que o BTT,
seguido do pedestrianismo e da canoagem, são as actividades de Desportos de
Natureza mais praticadas em Portugal. Salienta-se ainda que o BTT é,
simultaneamente, a actividade que foi praticada por mais indivíduos (pelo menos
370
uma vez), a actividade praticada com maior frequência pelo maior número de
indivíduos, e a actividade que os indivíduos gostariam de praticar com maior
frequência. Por outro lado, os dados das organizações mostram que a canoagem é
a actividade dos Desportos de Natureza desenvolvida com maior frequência pelo
maior número de OPDN, denotando-se todavia diferenças entre a oferta nos
diferentes tipos de OPDN, verificando-se que: o surf é a actividade desenvolvida por
mais empresas; o BTT, a vela e as multiactividades por mais clubes desportivos; e o
BTT e o pedestrianismo pela maioria das associações. O surf é também a principal
actividade dos Desportos de Natureza procurada pelo mercado internacional.
As actividades dos Desportos de Natureza são de forma geral realizadas ao
longo de todo o ano, pelo menos uma vez por semana, durante o fim-de-semana e,
normalmente, durante o período da manhã. São praticadas maioritariamente por
indivíduos com um nível de proficiência técnica intermédia, embora os dirigentes das
OPDN refiram que, no âmbito das suas organizações, os praticantes que procuram
os seus serviços pela primeira vez são maioritariamente iniciados. Os praticantes
percorrem vários espaços de prática (sem local fixo para a prática), realizando as
suas actividades normalmente no concelho de residência. Por norma fazem
fotografia como actividade complementar à prática dos Desportos de Natureza, que
é de resto também uma das actividades complementares mais oferecidas pelas
OPDN. No entanto, o perfil da prática é distinto em função das condições específicas
para a realização de cada actividade (geográficas, meteorológicas, etc.), do perfil
dos praticantes e do âmbito socio-organizacional da prática. Denota-se que as
actividades que necessitam de espaços com características específicas, como por
exemplo o montanhismo ou o mergulho, apresentam a maior tendência para serem
desenvolvidas fora do distrito ou mesmo do país, e por isso praticadas com menor
regularidade e frequência. No que diz respeito ao perfil dos praticantes, os que são
activos perante o trabalho e os que têm encargos familiares apresentam uma prática
maioritariamente ao fim de semana. Já os mais jovens, e estudantes, têm uma
prática mais indiferenciada ao longo da semana. A maioria dos praticantes dos
Desportos de Natureza inquiridos desenvolve as actividades no âmbito informal,
apresentando uma maior tendência do que os que praticam noutros contextos para
uma prática irregular e menos frequente.
Os Desportos de Natureza são também mobilizadores de um estilo de vida
activo. A este respeito, verifica-se que os praticantes inquiridos apresentam
371
maioritariamente um estilo de vida centrado nas práticas de expressão desportiva e
nas práticas ao ar livre, não obstante as actividades de rotina, em especial no
espaço doméstico, representarem a sua principal ocupação de tempo livre.
Para aferir a existência de diferenças estatisticamente significativas, colocou-
se a seguinte hipótese que é comum às 11 categorias das práticas de lazer e uso
dos tempos livres, em função dos diferentes grupos (sexo, grupo de idade, estado
civil, condição e situação perante o trabalho, grupo profissional, nível de instrução, e
rendimentos do agregado familiar):
H0 – A frequência na categoria (1 a 11) das práticas de lazer e uso dos
tempos livres é independente das características dos grupos (por sexo, grupo de
idade, estado civil, condição e situação perante o trabalho, grupo profissional, nível
de instrução, e rendimentos);
H1 – A frequência na categoria (1 a 11) das práticas de lazer e uso dos
tempos livres não é independente das características dos grupos (por sexo, grupo
de idade, estado civil, condição e situação perante o trabalho, grupo profissional,
nível de instrução, e rendimentos).
O teste das hipóteses, realizado através do teste do Qui-quadrado de
independência por simulação de Monta Carlo, mostra diferenças estatisticamente
significativas em todas as (11) categorias, em relação à variável sexo. Destes
resultados salienta-se que são as mulheres que apresentam um índice de frequência
superior aos homens nas primeiras 8 categorias (práticas domésticas informativas,
receptivas e/ou expressivas; práticas de sociabilidade doméstica; práticas
domésticas de abandono; práticas de sociabilidade urbana e local; práticas de
expressão cultural e/ou artística; práticas de expressão ao ar livre; práticas de
participação expressiva; e práticas receptivas, expressivas e de rotina), enquanto os
homens apresentam índices superiores nas (3) últimas (práticas de sociabilidade
associativa local; práticas de expressão turística; práticas de expressão desportiva).
Comparando estes resultados com os resultados dos estudos efectuadas a nível
nacional (Gomes R. T., 2001; Instituto Nacional de Estatística, 2001) sobre as
práticas de lazer, observam-se diferenças já que os estudos nacionais indicam que
os homens apresentam taxas superiores de realização em relação às mulheres em
todas as categorias. As mulheres inquiridas, talvez por terem conquistado os vários
níveis de ensino, incluindo o ensino superior, assim como segmentos qualificados do
mercado de trabalho, acabaram por conquistar o espaço público. Por outro lado, a
372
análise do estatuto da mulher inquirida neste estudo, eminentemente jovem, solteira
e sem filhos a seu cargo, sugere que estas talvez apresentem um menor número de
constrangimentos do que a mulher que tem encargos familiares e, assim, um maior
tempo disponível para as actividades de lazer.
A idade é também um factor importante na frequência das diferentes práticas
de lazer e usos dos tempos livres, verificando-se também diferenças
estatisticamente significativas em 8 das 11 categorias das práticas de lazer e uso
dos tempos livres em relação à idade (exceptuam-se as práticas domésticas
informativas, receptivas e/ou expressivas; as práticas de expressão cultural e/ou
artística; e as práticas de expressão ao ar livre). Nos estudos sobre as práticas de
lazer e do uso dos tempos livres da população portuguesa (Gomes R. T., 2001;
Instituto Nacional de Estatística, 2001), o avançar da idade corresponde
globalmente, e em alguns casos de modo pronunciado, à diminuição das práticas
realizadas. No entanto, neste subgrupo da população portuguesa (praticantes dos
Desportos de Natureza) os resultados não evidenciam esta relação, já que em
muitas das categorias, o grupo de idade mais velho apresenta os índices de
frequência mais elevados. Estes resultados demonstram um padrão distinto entre
praticantes dos Desportos de Natureza (inquiridos), em relação à população em
geral, pois estes apresentam um estilo de vida muito mais activo.
O estado civil também se revela importante na frequência das práticas de
lazer e usos dos tempos livres. Neste grupo, não se verificaram diferenças
estatisticamente significativas em apenas 2 categorias (práticas domésticas
informativas, receptivas e/ou expressivas; e práticas de participação expressiva). Os
indivíduos solteiros, e os divorciados ou viúvos, são os que apresentam os mais
elevados índices de frequência na maioria das categorias em que se apresentam
diferenças estatisticamente significativas. Os indivíduos casados ou a viverem em
união de facto, talvez por terem alguns constrangimentos familiares, apresentam em
quase todas as categorias índices de frequência abaixo da média, à excepção das
práticas de expressão turística (categoria 11), e das práticas de expressão ao ar livre
(categoria 6), talvez porque estas sejam práticas realizadas em família, ou pelo
menos conotadas a essa realidade.
Na variável condição e situação perante o trabalho apenas não se verificaram
diferenças estatisticamente significativas na categoria 1 (práticas domésticas
informativas, receptivas e/ou expressivas) e 7 (Práticas de participação expressiva).
373
Os estudantes apresentam maiores frequências em quase todas as categorias, à
excepção da categoria 10 (práticas de expressão desportiva) e categoria 11 (práticas
de expressão turística), categorias onde o grupo dos patrões apresenta maiores
níveis de frequência, e na categoria 5 (práticas de expressão ao ar livre) onde o
grupo de outros (pensionistas, domésticos, etc.) apresenta os maiores índices de
frequência.
Na variável grupo profissional apenas se verificaram diferenças
estatisticamente significativas nas categorias 6 (Práticas de expressão ao ar livre), 9
(Práticas de sociabilidade associativa local), 10 (Práticas de expressão desportiva) e
11 (Práticas de expressão turística).
Relativamente à variável nível de instrução não se verificaram diferenças
estatisticamente significativas nas categorias 1 (Práticas domésticas informativas,
receptivas e/ou expressivas), 4 (Práticas de sociabilidade urbana e local), 5 Práticas
de expressão cultural e/ou artística), 7 (Práticas de participação expressiva), e 10
(Práticas de expressão desportiva).
Na variável rendimentos do agregado familiar apenas se verificaram
diferenças estatisticamente significativas nas categorias 1 (Práticas domésticas
informativas, receptivas e/ou expressivas), 8 (Práticas receptivas, expressivas e de
rotina) e 11 (Práticas de expressão turística).
Os vários estudos conhecidos sobre as organizações que promovem os
Desportos de Natureza, quer em Portugal (Costa R. A., 2005; Cunha S. C., 2006;
Mota, 2006; Moutinho, 2008; Resende, 2006), quer a nível internacional (Betrán &
Betrán, 1999; Bouhaouala, 1999; Paget, 2007, Viñuelas, Betrán e Plantalamor,
1995), focaram-se maioritariamente na questão empresarial, e em territórios
específicas (não alargados à escala nacional). Assim, este estudo permitiu realizar
um estudo extensivo sobre as OPDN em Portugal continental, englobando tanto as
organizações empresariais como as organizações do movimento associativo.
Os dados sobre as OPDN apontam para uma oferta diversificada em função
da tipologia de organização que promove os Desportos de Natureza. Neste estudo
foram identificados quatro tipologias de OPDN que apresentam uma oferta pública
de actividades dos Desportos de Natureza: as empresas (turismo, desporto, etc.); os
clubes desportivos; os clubes de praticantes; e as associações (ambientalistas,
culturais, desportivas, recreativas, etc.). Estas organizações, e a sua oferta, cobrem
um espectro alargado de projectos organizacionais distintos em função da vocação
374
de cada organização, dos mais formais aos mais informais, adequada a uma procura
também ela distinta, que permite a participação em cada um dos âmbitos
organizacionais em função dos objectivos individuais dos praticantes.
Os clubes desportivos são as OPDN mais antigas, e representam a tradicional
vocação para o desporto formal e competitivo. As associações situam a sua vocação
entre os clubes desportivos e as empresas, permitindo que os seus membros
tenham uma prática mais ecléctica (dos Desportos de Natureza), que vai desde o
âmbito formal ao não-formal. A evolução desta oferta resulta da percepção das
associações sobre a falta de adaptação dos clubes desportivos à crescente procura
de práticas não-formais e não-competitivas. Esta evolução do movimento associativo
desportivo representa uma forma higienista, hedonista e aventureira de praticar
desporto (Leblanc, 2001). As empresas parecem ser as organizações que estão
melhor adaptadas à evolução da procura dos Desportos de Natureza, pois são as
organizações mais recentes e que apresentam o maior número de praticantes,
embora com menor frequência, adaptando-se assim à tendência hedonista da
sociedade.
A relação entre os Desportos de Natureza e o turismo é também visível
quando se analisam os impactos gerados por estas actividades, e que são
observáveis em todos os âmbitos da prática (associativa, empresarial e livre ou
autónoma), porque uma parte significante das actividades dos Desportos de
Natureza são desenvolvidos em áreas afastadas da zona de residência (longe dos
centros urbanos), especialmente em áreas naturais e zonas rurais, que requerem a
viagem e o consumo turístico (alojamento, alimentação, aquisição e aluguer de
equipamentos, etc.). A caracterização da percepção dos impactos dos Desportos de
Natureza foi feita pela primeira vez em Portugal. A nível internacional não são
conhecidos estudos que o tenham feito a partir da perspectiva dos praticantes e das
organizações promotoras, e a um nível que integre as três tipologias dos impactos
(ambientais, económicas e socioculturais). Os estudos sobre a percepção dos
impactos das actividades dos Desportos de Natureza são baseados,
maioritariamente, na percepção dos residentes (Brida, Osti, & Faccioli, 2011;
Nyaupane & Thapa, 2004), ou sobre a percepção dos praticantes sobre uma das
tipologias dos impactos, em especial os ambientais ou os sociais (Kalisch &
Klaphake, 2007). A este respeito salientam-se os estudos sobre a percepção dos
impactos ambientais (Lucas, 1979; Priskin, 2003), em especial sobre o seu efeito na
375
experiência recreativa (Dorwart, Mooreb, & Leungb, 2009; Lynn & Brown, 2003). Por
outro lado, os estudos sobre a percepção dos impactos sociais são, de forma geral,
desenvolvidos para medir a percepção do crowding (congestionamento nos locais
das práticas) (Manning, 1999; Needham, Rollins, & Wood, 2004), em especial sobre
os conflitos de uso recreativo nos espaços naturais (Marcouiller, Scott, & Prey,
2008).
De forma geral, os impactos (especialmente os ambientais) são gerados por
um conjunto de factores, como as características intrínsecas das actividades, o meio
natural onde se realizam, as formas em que são realizadas as actividades, e em
especial, o perfil dos praticantes (Torbidoni & Sallent, 2009). Diversos estudos
mostram também que a experiência recreativa é condicionada pela percepção dos
impactos ambientais (Dorwart, Mooreb, & Leungb, 2009; Lynn & Brown, 2003). Os
dados deste trabalho indicam que tanto os praticantes como os dirigentes das
organizações têm uma percepção positiva sobre os impactos que decorrem da
prática dos Desportos de Natureza sobre a sustentabilidade do desenvolvimento
local. Ambos os grupos (praticantes e organizações), percebendo que os espaços de
prática são o recurso mais importante para o desenvolvimento das suas práticas,
apresentam também comportamentos sustentáveis nos locais de prática e junto das
comunidades receptoras.
Os dados deste trabalho levam a sugerir que em Portugal os espaços de
prática apresentam, globalmente, boas condições para ao desenvolvimento das
diversas actividades dos Desportos de Natureza, a julgar pelo baixo valor atribuído à
importância das más condições dos espaços de prática como factor inibidor
(constrangimento) da participação. Os dados apontam também para que os espaços
de prática não tenham ainda excedido a sua capacidade de carga, devido aos
baixos valores atribuídos (percepcionados) em relação ao congestionamento dos
locais de prática. Estas evidências levam também a sugerir que os conflitos no uso
dos espaços são relativamente baixos. Estes resultados podem ser explicados pelo
facto do número de praticantes de Desportos de Natureza em Portugal ser ainda
baixo.
O consumo dos praticantes com os Desportos de Natureza está relacionado
principalmente com a aquisição de materiais e equipamentos. Seguem-se as
deslocações, a alimentação e o alojamento. Neste sentido, denota-se que os
praticantes têm uma elevada autonomia para a prática, sendo poucos os que
376
recorrem a serviços turísticos (empresas de animação turística e agências de
viagens), sugerindo-se portanto que os principais beneficiários são a indústria e o
comércio de materiais e equipamentos. Os valores despendidos com as práticas são
relevantes, quando comparados com os valores médios gastos com as actividades
de lazer turístico em Portugal, o que mostra que os Desportos de Natureza são um
componente importante de lazer e do turismo para os praticantes. Os resultados
indicam que menos de metade dos gastos são despendidos nos locais das práticas,
reflectindo também por isso a grande margem que os Desportos de Natureza podem
ter para promover o desenvolvimento económico local.
A segmentação dos praticantes, baseada nas razões (benefícios esperados)
para a prática dos Desportos de Natureza, resultou em seis grupos de praticantes:
os aventureiros ambientalistas, os aventureiros sociabilizadores, os ambientalistas
eclécticos, os aventureiros competitivos, os higienistas ambientalistas, e os turistas
ambientalistas. Estes seis segmentos foram caracterizados em função das
características dos praticantes que os compõem. Na literatura foram encontrados
alguns estudos que apresentam alguns segmentos com as mesmas características
identificadas neste trabalho, não se demonstrando contudo uma correspondência
total entre os segmentos porque cada um dos trabalhos apresenta uma abordagem
distinta, uns mais específicos que cobrem apenas uma actividade dos Desportos de
Natureza (Bichis-Lupas & Moisey, 2001; Pociello, 1995) ou um segmento de
actividades (Lefèvre, 2004), e outros mais abrangentes que cobrem um espectro
maior de actividades como o Turismo de Natureza (Marques, Reis, & Menezes,
2010), ou o Ecoturismo (Bricker & Kerstetter, 2002; Kerstetter, Hou, & Lin, 2004;
Palacio & McCool, 1997; Weaver, 2002; Weaver & Lawton, 2002). Esta segmentação
poderá ter algumas implicações na gestão dos Desportos de Natureza, em especial
na promoção de programas direccionadas a segmentos específicos, na oferta de
programas ou infra-estruturas adequadas ao perfil dos segmentos, e na definição de
políticas territoriais com base no perfil dos segmentos alvo.
Os resultados deste estudo reflectem as mudanças sociais e culturais que se
operaram nas últimas décadas, que tiveram repercussões no ambiente económico,
tecnológico e mediático, e que desencadearam uma transformação profunda no seio
do sistema das práticas desportivas. Neste sentido, os Desportos de Natureza
apresentam um conjunto de características específicas que foram sendo salientadas
ao longo deste trabalho, e que aqui se sintetizam:
377
- Natureza (nature based): o espaço natural constitui o espaço de base para a
prática das actividades dos Desportos de Natureza, mesmo que para facilitar o seu
desenvolvimento esses espaços sofram modificações, através da colocação de
equipamentos, da construção de infra-estruturas ou instalações de apoio à
realização das actividades. O contacto com a natureza é apontado, aliás, como a
principal razão para a prática, como uma forma de evasão e de escape a uma vida
quotidiana demasiado rotineira e controlada, proporcionando novas sensações,
emoções e outros estados de consciência, e possibilitando experiências que os
indivíduos não têm acesso, em especial nos meios urbanos;
- Aventura/risco: a procura da aventura, de novas experiências e sensações
de aventura, e o desafio às capacidades, associados ao factor risco (real ou
percebido), são, para além das questões ambientais, as razões mais acentuadas
pelos praticantes para a realização dos Desportos de Natureza. A procura do risco
surge como uma forma de compensação ou de adaptação aos imperativos da
sociedade (pós)moderna (Breivik, 2010; Langseth, 2011) e, neste sentido, as
actividades dos Desportos de Natureza surgem como uma forma ideal de respeitar
estas imposições. Contudo, a aventura e o risco são apresentados no domínio da
prática dos Desportos de Natureza de uma forma paradoxal: por um lado tem-se
assistido ao desafio de todos os limites corporais (e.g. nas ultramaratonas, onde se
percorrem mais de 200 km, durante mais de 24 horas consecutivas), e à tentativa de
alcançar novas proezas e novos recordes (e.g. ascensão mais rápida às montanhas
mais altas), praticada por aventureiros experientes, onde o risco real está bem
patente; e por outro o surgimento de um conjunto de actividades comercializadas,
que patenteiam um elevado nível de risco (percebido), embora o risco real seja
quase nulo, produzidas pelo marketing que promove estas actividades para
indivíduos inexperientes, que vêm nessas actividades um grande desafio às suas
capacidades;
- Tecnologização: o crescimento dos Desportos de Natureza surge também
ligado à evolução tecnológica, que tem permitido um maior desenvolvimento,
diferenciação e especialização das práticas. Os materiais e os equipamentos são, na
maioria dos casos, indispensáveis para a sua realização, como elementos
mediadores entre o indivíduo e o meio, permitindo transformar em acções motrizes o
aproveitamento das energias do meio como a velocidade do vento (parapente), a
força das ondas (prancha de surf), a altura ou a inclinação do terreno (prancha de
378
snowboard). Os materiais e os equipamentos surgem ainda como elementos de
segurança (cordas na escalada) e/ou de protecção dos agentes meteorológicos
(vestuário para a chuva ou neve). Ao analisar o desenvolvimento tecnológico,
observa-se uma tendência para o desenvolvimento dos materiais e equipamentos
com uma crescente adaptabilidade individual, permitindo uma maior facilidade de
auto transporte, e uma maior personalização/individualização das práticas;
- Autonomia: estes desportos simbolizam também um sentimento de
autonomia (espacial, temporal e institucional). A autonomia espacial refere-se à
liberdade para procurar e praticar as respectivas actividades em diferentes locais de
prática, e à conquista de novos espaços de prática. Os espaços correspondem na
maioria das circunstâncias a espaços aparentemente banais, como o mar, o ar, o rio
ou a montanha, e não delimitados (de forma normalizada e regularizada) pela acção
humana. Os limites espaciais são impostos normalmente por acidentes geográficos
(e.g. confluência entre o mar e a areia da praia, ou entre o céu e a terra), pela
capacidade física (e.g. para atingir o pico de uma alta montanha ou para percorrer
um percurso de BTT) ou técnica dos praticantes (e.g. para escalar uma via mais
difícil ou surfar uma onda maior ou mais perigosa). É um fenómeno a que Pociello
(1981) já designou de desterritorialização das práticas. Já a autonomia temporal
remete para a possibilidade de uma prática em função do interesse próprio do
indivíduo, independentemente dos demais, durante o seu tempo livre, ao fim de
semana ou durante a semana, de manhã ou de tarde. No entanto, apesar desta
autonomia, o factor tempo é, na sociedade contemporânea, um dos factores mais
críticos, e é também apontado como o principal constrangimento para a prática dos
Desportos de Natureza. Por outro lado, a autonomia institucional está relacionada
com a grande possibilidade de auto-organização destas práticas, que não requerem
um grande nível de organização, como demonstram os resultados deste estudo, que
indicam a prática informal, com o grupo de sociabilidade, como a mais frequente. A
autonomia institucional remete também para a possibilidade de escolha entre
diferentes projectos desportivos, mediante a opção entre distintos âmbitos socio-
organizacionais, dos mais formais aos mais informais;
- Hedonismo: os Desportos de Natureza pertencem à cultura do corpo
informacional, emissor e receptor de informação, frente ao corpo eminentemente
energético das actividades físicas da modernidade, como o desporto das actividades
higiénico-estéticas. Estas actividades são reveladoras de uma procura de outros
379
tipos de sociabilidades desportivas, mais amigáveis, mais calorosas, e mais
conviviais (Pociello, 1999). Os resultados deste trabalho reflectem a tendência
hedonista da sociedade, associada a uma maior procura de actividades
independentes e informais, e da procura de organizações com uma oferta de
actividades de livre compromisso, em contraste com uma menor procura de
actividades que exigem um maior compromisso imposto pelos clubes desportivos;
- (Des)desportivização das práticas: a criação de algumas actividades dos
Desportos de Natureza tem decorrido mediante um processo cíclico de des-
desportivização e de desportivização das práticas. Este fenómeno tem decorrido
através da transferência e adaptação de modalidades desportivas formais (e.g.
corrida de atletismo) para os grandes espaços naturais (e.g. corridas de montanha),
decorrendo inicialmente sob um formato lúdico e recreativo, mediante o processo de
des-desportivização. Estas são posteriormente desportivizadas, adquirindo um
carácter competitivo e mais formal (e.g. trail running ou ultra-trail), embora os dois
modelos de prática possam coexistir. Esta característica salienta a constante
renovação e inovação dos Desportos de Natureza e das suas práticas;
- Combinação, hibridação e diversificação das práticas: existe também uma
tendência crescente para a combinação e hibridação de actividades, como os
programas multiactividades, as corridas de aventura, ou os triatlos aventura, etc.; e
uma tendência para a realização de diferentes tipos de actividades ao longo do ano,
como o surf, o snowboard, a escalada e o montanhismo. Estas tendências
sublinham as mutações sazonais das práticas, mas também a crescente
versatilidade dos praticantes, e a constante necessidade de obter novas e diferentes
experiências, reflectindo também a produção de novas formas de prática;
Para além das características evidenciadas, os resultados também mostram
que os Desportos de Natureza, e a sua prática, apresentam alguns valores sociais,
dos quais se destacam:
- Sociabilidade: um dos mais importantes valores que se retêm da prática dos
Desportos de Natureza é a sociabilidade, facto evidenciado pelo número de
respostas que se obtiveram sobre o âmbito socio-organizacional das práticas, que
remete para uma prática quase generalizada através do grupo de sociabilidade
(amigos, familiares, vizinhos, colegas de trabalho, etc.). Por outro lado, o alto índice
apontado ao factor sociabilidade, como razão para a prática, é outro dos indicadores
380
que leva a sugerir este como um valor social importante para a prática dos
Desportos de Natureza;
- Maior igualdade entre género: apesar de se evidenciar uma maior
participação masculina, e de existir uma diferenciação na participação em algumas
actividades dos Desportos de Natureza, salienta-se uma participação comum,
observando-se o homem a escalar com uma mulher, ou ambos a realizarem um
percurso pedestre, ao contrário do desportos tradicionais ou imbuídos pelo espírito
competitivo onde existe uma clara separação entre a participação masculina e
feminina, onde o homem joga contra outro homem, e mulher contra outra mulher;
- Comportamentos sustentáveis: os Desportos de Natureza correspondem
também ao conjunto de produtos/serviços que representam uma relação de
complementaridade com a natureza, associando-se a sua prática à nova tendência
pelo consumo ecológico. Estas práticas desportivas tendem a assumir-se mais
sustentáveis, suaves e discretas, factores evidenciados pela percepção positiva que
os praticantes têm sobre os impactos dos Desportos de Natureza no
desenvolvimento local, e pelo índice de comportamentos sustentáveis que
apresentam;
Considerando a análise efectuada, os Desportos de Natureza correspondem
ao segmento de actividades desportivas realizadas em espaços naturais, que
incluem a aventura e o risco como componentes principais, apresentando um
conjunto distinto e complementar de projectos desportivos, dos mais formais aos
mais informais, que possibilitam a concretização de diferentes objectivos, quer eles
sejam o contacto com a natureza, a competição, a sociabilidade, a aventura, a
melhoria da condição física ou o lazer-turístico, e uma participação mais igualitária.
Associados às migrações de lazer-turístico apresentam um importante impacto
(maioritariamente positivo) no desenvolvimento dos locais de destino e entre as
comunidades receptoras.
381
na representatividade da amostra. O tamanho da amostra dos praticantes, em
especial o reduzido número de respostas em algumas actividades (praticadas com
maior frequência), inviabilizou uma análise mais aprofundada dos praticantes dessas
actividades, apresentando-se também como uma limitação deste estudo. Apesar
destas limitações, a similaridade dos resultados gerais, comparativamente com
outros estudos sobre os praticantes dos Desportos de Natureza (Betrán & Betrán,
1998; Pociello, 1981), permite extrapolar algumas evidências, em especial nas
assimetrias de participação resultantes das características sociodemográficas (em
relação ao sexo, idade, capital económico e cultural), mas também na evidente
irregularidade e frequência de participação em determinadas actividades dos
Desportos de Natureza. Outra limitação está associada ao facto de não terem sido
questionados praticantes com menos de 18 anos, não permitindo caracterizar os
praticantes menores que esta idade. O estudo das organizações também apresenta
algumas limitações, em especial porque não contemplou todos os possíveis âmbitos
da prática (e.g. educativo, militar, etc.), e porque apresentou um baixo número de
resposta em relação aos clubes de praticantes, não permitindo por isso realizar
inferências sobre estas organizações.
382
complementares ao usado neste estudo, nomeadamente através da aplicação de
entrevistas, ou da observação participante, escolhendo-se também outras variáveis,
que permitam complementar a informação recolhida neste estudo.
As organizações também poderão ser estudadas com maior profundidade,
nas diversas dimensões de análise, como a estrutura organizacional, os modelos de
gestão, ou as lógicas de acção dos seus dirigentes, por exemplo. Poderão também
ser realizados estudos comparativos, transnacionais, para tentar compreender este
fenómeno numa escala mais alargada.
Em relação à caracterização dos impactos dos Desportos de Natureza, será
importante analisar a percepção de outras partes interessadas, como os habitantes
das comunidades locais de destino, agentes locais, e ambientalistas, para entender
a visão de todas as partes envolvidas neste fenómeno. Será também relevante
avaliar os diferentes impactos através de outros dispositivos (e.g. econometria,
instrumentos de impacto ambiental, etc.) que permitam obter uma medida real dos
impactos de Desportos da Natureza no desenvolvimento local. Estes estudos
poderão ser importantes para identificar e entender os possíveis benefícios destas
actividades, e as suas potencialidades para estruturar o território e para promover o
desenvolvimento local, fornecendo informações estruturadas para o processo de
tomada de decisões pelas partes interessadas.
383
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408
ANEXOS
ANEXO 1: INQUÉRITO POR QUESTIONÁRIO APLICADO AOS PRATICANTES
DOS DESPORTOS DE NATUREZA.
410
411
412
413
414
415
ANEXO 2: INQUÉRITO POR QUESTIONÁRIO APLICADO ÀS ORGANIZAÇÕES
PROMOTORAS DOS DESPORTOS DE NATUREZA.
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420
421