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Entendendo a Cyberwar e Seus Impactos

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ETHICAL HACKER

E CYBERWAR
(COMUNICAÇÃO
DE DADOS)
Cyberwar
Juliane Adélia Soares

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

> Definir a origem histórica da cyberwar.


> Identificar os métodos de ataque mais utilizados em uma cyberwar.
> Ilustrar exemplos de ciberataques famosos.

Introdução
Com a introdução da tecnologia no nosso dia a dia e sua rápida evolução, pratica-
mente todas as áreas em uma sociedade começaram a depender de tecnologias,
sistemas e dispositivos tecnológicos para seu sucesso. Seja na área da saúde,
educação, industrial, governamental ou pessoal, tudo envolve tecnologia atual-
mente. Assim, computadores e redes de computadores também evoluíram e se
popularizam, e hoje tudo é realizado digitalmente. A partir disso, muitas outras
tecnologias, como IoT (Internet of Things, ou Internet das Coisas) e cloud computing
(computação em nuvem), foram surgindo e estão sendo cada vez mais adotadas.
Com todas essas evoluções, uma incontável quantidade de dados trafega pelo
ciberespaço e, infelizmente, em muitos casos, estão sem uma proteção adequada.
Como a tecnologia não avança apenas para fins benéficos, os atacantes apro-
veitam disso para aprimorar ainda mais seus ataques. É possível dizer que as
guerras também mudaram e se aprimoraram, popularizando a cyberwar (guerra
cibernética), o que significa que os ataques a outros estados podem ser realizados
por meio do ciberespaço.
Neste capítulo, você vai conhecer a cyberwar, sua origem e seu histórico. Tam-
bém vai ver os principais métodos utilizados por ciberatacantes para executar uma
guerra cibernética. Por fim, vai estudar alguns exemplos de ciberataques famosos.
2 Cyberwar

Definições e origens
Conflitos atuais fazem uso de meios não tradicionais para efetuar ataques.
Isso tem evoluído constantemente, pois há uma busca contínua pelo dis-
tanciamento de soldados do frente de batalha e da automatização mais
acentuada da guerra. Dessa forma, o ciberespaço vem se tornando o cenário
central dessa dinâmica dos estados, interna e externamente. Infraestruturas
críticas, sejam elas ligadas ao setor privado ou ao público, passaram a ser o
alvo principal dessa nova forma de violência, que causa danos efetivamente
sérios a sociedades e Estados, mesmo que não seja feita de forma direta
(PINTO; GRASSI, 2020).
Atualmente a nossa realidade está muito ligada ao mundo cibernético,
principalmente com o crescimento de redes sociais, e-commerce, internet
banking, etc. Hoje, praticamente tudo pode ser feito on-line. Vamos estudar
qual foi o caminho percorrido até chegar a esse ponto.
Antes da internet, como hoje é conhecida, a Arpa (Advanced Research
Projects Agency, ou Agência de Projetos de Pesquisa Avançada) dos Estados
Unidos, que hoje é conhecida como Darpa (Defense Advanced Research
Projects Agency, ou Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa),
desenvolveu em 1969 a Arpanet (Advanced Research Projects Agency Network,
ou Rede da Agência para Projetos de Pesquisa Avançada), uma rede de
computadores experimental, com o objetivo de conectar computadores em
instituições de pesquisas que eram financiadas pelo Pentágono. A Arpanet
foi desenvolvida com foco principal nas áreas acadêmicas, porém também
atendia à comunidade militar americana. A rede se expandiu rapidamente,
provando que a comunicação entre diferentes sistemas e plataformas era
possível. Dessa maneira, no auge da Guerra Fria, a Arpanet, além de inter-
ligar os departamentos de pesquisas de todo os Estados Unidos, surgiu
como solução para a transmissão de dados militares sigilosos. O primeiro
protocolo utilizado para essas conexões foi o NCP (Network Control Protocol,
ou Protocolo de Controle de Rede). Foi apenas em 1982 que começaram a
utilizar o TCP/IP (Transmission Control Protocol/Internet Protocol, ou Proto-
colo de Controle de Transmissão/Protocolo de Internet). Em 1991, a Arpanet
deixou de existir, surgindo a WWW (World Wide Web, ou Rede Mundial de
Computadores) (RYAN, 2010).
A partir de então, as conexões conseguiram alcançar um número ainda
maior de pessoas, consolidando o chamado ciberespaço. Kruger (2016) afirma
que a internet se tornou uma rede de redes operadas por diversas empresas
privadas e setores militares e governamentais.
Cyberwar 3

Os sistemas conectados à internet ganham mais força a cada dia, pois


a sociedade tornou-se dependente deles. Com isso, o espaço cibernético
tornou-se um ponto vital mundialmente e um ponto de interesse para que
crimes digitais fossem cometidos. Assim, o ciberespaço virou o cenário para
as novas guerras, sem que haja um embate direto em campos de batalhas.
Entretanto, ele não é menos efetivo em termos de destruição.
O ciberespaço, de acordo com Singer e Friedman (2014), é considerado o
reino das redes de computadores, e os usuários que se encontram por trás
dele têm as informações armazenadas e compartilhadas. Isso significa que o
espaço cibernético é um ambiente de informação composto por dados criados,
armazenados e compartilhados. Ele não é um local físico, mas também não
pode ser considerado totalmente virtual, já que compreende computadores
responsáveis por armazenar os sistemas, além de infraestrutura responsável
por permitir seu fluxo. O ciberespaço inclui internet de computadores em rede,
intranets fechadas, tecnologias móveis, cabos de fibra óptica e comunicação
baseada em espaço (SINGER; FRIEDMAN, 2014).
Singer e Friedman (2014) declaram que o ciberespaço é global. No en-
tanto, não é um bem comum global. Ou seja, assim como o globo é dividido
artificialmente em territórios (chamados de nações), o mesmo acontece com
o ciberespaço. Por depender de infraestrutura física e usuários vinculados
à geografia, o ciberespaço está sujeito a noções humanas, como soberania,
nacionalidade e propriedade. Porém, ele é muito mais mutável do que os
demais ambientes, podendo ser alterado desde seu tamanho e sua escala
até as regras técnicas e políticas pelais quais é orientado.
Agora que sabemos o que é o ciberespaço, podemos definir a cyberwar.
Shakarian, Shakarian e Ruef (2013, p. 2) definem a guerra cibernética como
“[...] extensão da política por ações tomadas no espaço cibernético por atores
estatais ou não estatais que constituem uma séria ameaça à segurança de
uma nação ou são conduzidas em resposta a uma ameaça percebida contra
a segurança de uma nação”.
A grande questão é se uma guerra cibernética pode realmente representar
sérias ameaças à segurança nacional. Singer e Friedman (2014) afirmam que
sim. Eles apontam que mesmo no ciberespaço uma guerra tem semelhanças
com guerras em outros domínios, como terrestres, marítimas ou aéreas.
Qualquer tipo de guerra tem um objetivo e um modo político, além de incluir
elementos de violência. Ou seja, mesmo que a guerra ocorra no espaço ci-
bernético, seu objetivo é causar danos físicos ou destruição.
Um dos objetivos primordiais de uma guerra cibernética é o ataque às in-
fraestruturas críticas de uma nação, levando à paralisação ou à destruição de
4 Cyberwar

seus sistemas. Estrategicamente, a cyberwar busca atacar sistemas relacionados


a infraestruturas nacionais de energia ou sistemas financeiros e sociais, a fim
de dificultar que os estados consigam manter capacidade de defesa e reação.
Taticamente, os principais alvos dos ataques são sistemas de comunicação, de
controle e de apoio à decisão, diminuindo a capacidade operacional e as logísticas
das forças armadas do país atacado. Por fim, operacionalmente, o foco é atingir
sistemas de controle e comunicação operacional, o que pode comprometer a
coordenação e as manobras de grupos das forças armadas (PINTO; GRASSI, 2020).
Além disso, operações cibernéticas podem ser grandes aliadas em outras
operações militares, como coletar informações de seus oponentes ou a guerra
de informações, o que pode potencializar conflitos convencionais. Como
exemplos de guerras cibernéticas que apresentaram ameaças significativas
à segurança, Shakarian, Shakarian e Ruef (2013) citam as seguintes.

„ 2006: um grupo armado denominado Hezbollah sequestrou diversos


endereços de IP para contornar Israel, usando isso para fechar sua
página da web durante a guerra entre Líbano e Israel.
„ 2007: o Departamento de Energia dos EUA realizou um experimento, e
um gerador de energia foi destruído apenas por ataques cibernéticos.
„ 2008: ataques cibernéticos executados pelos russos contra a Geórgia
conseguiram impedir que a mídia georgiana tivesse alcance mundial
quando os russos invadiram a nação do Cáucaso.
„ 2009: especialistas em segurança descobriram que sistemas compu-
tacionais do governo do Tibete no exílio sofreram invasões e estavam
sendo monitorados por 2 anos.
„ 2010–2011: hacktivistas do grupo Anonymous conduziram ataques
DDoS (distributed denial of service, ou negação de serviço distribuída)
contra computadores do governo de diversos países do Oriente Médio.

Diversas questões tornam a guerra cibernética um assunto complicado,


em razão da dificuldade em determinar alguns fatores. Veja a seguir algumas
dessas questões, segundo Shakarian, Shakarian e Ruef (2013).

„ De onde o software veio (considerando o IP de origem)? Determinar


a origem do ataque é uma das maiores dificuldades encontradas em
ataques cibernéticos. Afinal, mesmo que o analista de segurança con-
siga realizar uma engenharia reversa do software, o endereço de IP de
onde partiu o ataque pode ser falsificado e redirecionado de diversos
locais físicos. Além disso, o endereço de IP de origem de um malware,
Cyberwar 5

por exemplo, pode ser o próprio equipamento que fora comprometido.


Dessa forma, é difícil saber se o endereço encontrado pelo analista de
segurança realmente foi o responsável pelo ato malicioso.
„ Qual é a estrutura do software utilizado para ataque (como, quando e
por quem foi construído)? Assim como na questão da origem, a estrutura
também pode ser enganosa, pois o software pode ter sido projetado
para enganar os analistas. Ou seja, as técnicas gerais de investigação,
como determinação de quando o software foi compilado, qual idioma o
computador em que o software foi desenvolvido estava usando, entre
outras, são informações que podem ser facilmente forjadas.
„ Para qual propósito o software foi projetado? O propósito poderia ser
desvendado mais facilmente, já que cada malware é projetado para
um objetivo específico. No entanto, isso também pode ser realizado
de forma enganosa, pois muitas vezes as atividades criminosas podem
ocultar o principal motivo pelo qual o malware foi concebido.

Além de todas as questões citadas, outra grande dificuldade encontrada


em uma cyberwar é a definição das leis que podem ser aplicadas para esse
tipo de guerra. Como o ciberespaço está sempre em mudança, o que leva a
constantes mudanças nos tipos de ataque, é muito difícil determinar como
devem ser punidos os atacantes. Assim, as leis que regem ataques militares
clássicos podem ser aplicadas em guerras cibernéticas, porém os efeitos
causados por essas guerras devem ser avaliados para definir onde elas se
encaixam dentro das leis existentes. Contudo, muitos esforços estão sendo
feitos para a determinação de leis específicas para as cyberwars, considerando
sua capacidade de mutação.

Métodos de ataques
Categorizar ataques cibernéticos tem se tornado uma difícil tarefa, principalmente
de acordo com os autores envolvidos. Os invasores estão aprimorando seus
ataques cada vez mais, melhorando constantemente suas capacidades de se
ocultar, não sendo possível identificá-los imediatamente. Entretanto, estabelecer
a intenção de um ataque é muito importante conceitualmente, pois nem todos
têm origem militar ou fazem parte das guerras cibernéticas (CAVELTY, 2010).
A Figura 1 apresenta uma ciberescada com os tipos de conflitos cibernéti-
cos. O que difere o degrau em que cada conflito se encontra é o dano causado
por um incidente. Quanto mais alto na escada estiver a natureza do ataque,
maior será o dano potencial causado por ele (CAVELTY, 2010).
6 Cyberwar

Figura 1. Tipos de conflitos cibernéticos.

A seguir, vamos estudar esses ataques e suas relações com a cyberwar.

Vandalismo cibernético
O cibervandalismo ou ciberhacktivismo envolve modificação virtual ou des-
truição de conteúdo, como desativar um servidor com sobrecarga de dados
(DDoS) ou hackear sites. Esses ataques são executados por hacktivistas, que
veem infraestruturas críticas como um alvo atraente.
Em relação à cyberwar, esse tipo de ataque pode ter diferentes motiva-
ções e ser conduzido pelo interesse em uma ideologia. O ataque pode ser de
caráter conjuntural, influenciando apenas o ciberespaço, ou até de grupos
como o Anonymous, que podem promover manifestações que envolvem o
virtual e o físico. O vandalismo cibernético é uma das formas mais difundi-
das de ciberconflitos. Entretanto, seus efeitos são limitados no tempo e até
inofensivos (CAVELTY, 2010).

Crimes de internet
Os crimes cibernéticos são tipos de ataques que ocorrem diariamente, in-
dependentemente da existência de conflitos. Eles são atividades criminosas
que, na maioria dos casos, estão buscando ganhos financeiros.
Cyberwar 7

Por exemplo, um criminoso invade um servidor do governo e sequestra os


dados, criptografando-os e exigindo uma compensação financeira para sua
devolução. Alguns outros exemplos de crime podem ser roubo de informações
pessoais para fraude de identidade, roubo de dados financeiros, entre outros.

Espionagem cibernética
A espionagem, de acordo com Oakley (2019, p. 49), é “[...] a prática de espionar
ou usar espiões para obter informações sobre os planos e atividades, espe-
cialmente de um governo estrangeiro ou uma empresa concorrente”. Singer
e Friedman (2014) afirmam que a espionagem cibernética direciona computa-
dores para obter segredos de algum tipo, utilizando meios clandestinos. Esse
tipo de ataque ocorre, pelo menos, desde 1982, quando espiões soviéticos
da KGB roubaram o software de uma empresa do Canadá.
Em guerras cibernéticas, os espiões roubam informações sobre movi-
mentos de tropas, pontos fortes e fracos de sistemas militares ou qualquer
outra informação que possa garantir vantagem para quem está espionando.
A espionagem é o roubo de informações estratégias e táticas. As principais
táticas de espionagem cibernética incluem, de acordo com Gillis (2021):

„ explorar as vulnerabilidades existentes em sites e navegadores;


„ e-mails de phishing projetados para que os privilégios de rede do
invasor sejam aumentados;
„ malwares, trojans e worms;
„ infecção por meio de atualizações de softwares de terceiros comumente
utilizados.

Os espiões cibernéticos buscam dados e atividades referentes a pes-


quisa e desenvolvimento, estratégias políticas, afiliações e comunicações,
informações confidenciais sobre finanças e inteligência militar, por exemplo.

Sabotagem cibernética
As sabotagens cibernéticas são ataques que podem causar muitos estragos
em uma rede de uma nação, principalmente àquelas nações que dependem
quase que totalmente da rede para seu funcionamento. Computadores e
satélites responsáveis por coordenar outras atividades são componentes
vulneráveis de um sistema que, ao sofrer um ataque, podem causar a inter-
rupção do equipamento (NIOS, c2012).
8 Cyberwar

Em sistemas militares, as cibersabotagens podem levar à interceptação


ou até substituição maliciosa de sistemas de comando e controle. Dessa
forma, infraestruturas de energia, comunicações, água, transporte e com-
bustível estão propícias a sofrer interrupções durante um ataque. Além
disso, redes de energia elétrica, trens e bolsas de valores também podem
ser considerados alvos para prejudicar o funcionamento de um estado
(NIOS, c2012).
Nios (c2012) também afirma que atores estatais e não estatais podem
desempenhar um papel de igual importância no espaço de uma cyberwar,
podendo levar a perigosas consequências, até mesmo desastrosas. Ou seja,
quando parte de uma campanha militar ou política mais ampla, o impacto
que a sabotagem digital causa pode levar à interrupção de serviços públicos
e infraestruturas e, em casos mais graves, à morte.

Terrorismo cibernético
O ciberterrorismo une terrorismo e cibernética. O terrorismo é definido como
os atos de violência promovidos pelas motivações políticas e destinados a não
combatentes. O ciberespaço é definido como computadores, redes e sistemas
usados para transmissão de informações. Assim, o ciberterrorismo pode ser
considerado o ataque premeditado com motivações políticas destinado a
sistemas, programas de computadores e dados, resultando em violência.
Tal violência é causada por grupos nacionais ou agentes clandestinos contra
alvos que não são combatentes (CARVALHO, 2019).
O ciberespaço é utilizado pelo terrorismo cibernético, pois por meio dele
é possível expandir os atos de violência com maior facilidade, atingindo um
número muito maior de vítimas em apenas um ataque.

Em consequência de falta de definição conceitual, anonimato, mo-


tivações e ligações criminosas, o processamento de atribuição e
penalidade é muito complexo. Por isso, mesmo que as leis estejam adequadas
e acompanhando o mundo globalizado e tecnológico, ainda é muito difícil
conseguir aplicar a responsabilidade aos ciberataques qualificados.

Todos os métodos de ataques citados estão em constante evolução, pois


a tecnologia está sempre mudando e o ciberespaço muda muito rapida-
mente. Assim, tudo dependerá das formas de segurança impostas ao espaço
cibernético em cada nação. Em razão da facilidade de mudanças, pode ser
Cyberwar 9

muito difícil prever atos maliciosos e proteger as redes e as informações


confidenciais. No entanto, assim como as ameaças evoluem, as estruturas
também são beneficiadas pelo avanço tecnológico.

Exemplos de ciberataques
Apesar da cyberwar ser um conceito relativamente novo, já que o conceito
de cibernético é referente às redes e conexões modernas, o primeiro ataque
na internet em grande escala ocorreu em 1988, por meio de um malware
chamado de Morris Worm, projetado com códigos específicos. Ele objetivava
a destruição de dados e a sobrecarga dos sistemas. O Morris Worm obteve
sucesso e travou aproximadamente 10% da internet na época.
Além desse, muitos outros ciberataques ocorreram ao longo dos anos.
Alguns dos ataques cibernéticos mais famosos serão citados a seguir, de
acordo com Arthur (2018).

NotPetya
O NotPetya foi um malware implementado para um ataque cibernético em 2017,
afetando gravemente a Ucrânia. O ransomware foi implantado nas máquinas
por meio da atualização de um software ucraniano de contabilidade fiscal, que
era utilizado por cerca de 90% das empresas do país. Dessa forma, o banco
nacional, o centro de transportes públicos e os supermercados foram afetados.
O NotPetya se espalhou pelas redes internas em empresas internacionais,
ou seja, as empresas que tinham filiais na Ucrânia também foram atingidas.
Apesar de não ser possível determinar quem efetuou o ataque, todos os
indicativos apontam que o NotPetya foi um ataque de um estado-nação. A
Rússia era a suspeita, pois era o único país na época que estava disputando
as fronteiras da Ucrânia.
Os estragos só não foram catastróficos porque o país não tinha grande
conectividade. Mesmo assim, os custos desse ataque foram altos. Conside-
rando apenas as empresas que declararam suas perdas, os custos totais
em receita perdida foram de US$ 1,2 bilhão ao final de 2017 (ARTHUR, 2018).

WannaCry
O ransomware denominado WannaCry ficou ativo por menos de um dia, pois
um pesquisador de segurança britânico, Marcus Hutchins, identificou uma
chave de bloqueio que foi deixada no software acidentalmente. O código
10 Cyberwar

descobriu a presença on-line de um nome de domínio aleatório. Assim, Mar-


cus registrou o domínio em um horário em que a maioria dos EUA ainda não
tinha ligado equipamentos, evitando que o ataque se espalhasse e tomasse
proporções ainda maiores.
No entanto, no pouco tempo em que o ransomware ficou ativo, ele conse-
guiu infectar mais de 230.000 máquinas em mais de 150 países. Pesquisado-
res de segurança rastrearam sua presença por meio de relatórios de worm
embutido, que estava tentando espalhar a infecção, a partir de firewalls
em diversos países. Um dos mais atingidos foi o Hospital Southport, que
teve de cancelar todas as cirurgias de urgência e seus raios X não puderam
ser acessados. Foram seis dias até que os sistemas retornassem ao seu
funcionamento normal. O Hospital Bart’s, em Londres, também foi afetado.
Ao primeiro relato de infecção, a equipe desligou os equipamentos. Mesmo
assim, mais de 2.000 dos 12.110 computadores foram infectados, além de
dois dos 790 servidores.
Esse malware se espalhou por meio da exploração de uma falha no Win-
dows, chamada de EternalBlue, que explorou uma falha presente no protocolo
SMB (Server Message Block). Quase 200 servidores utilizavam os Windows
2003 e 2000, e muitos sistemas de diagnóstico utilizavam o Windows XP. Por
isso, um dos principais problemas foi que a Microsoft já tinha parado de
fornecer patches de segurança e suporte a esses sistemas, que se tornaram
alvos fáceis para os atacantes.
No entanto, 98% das máquinas atingidas tinham o Windows 7. Os grandes
culpados por não prevenir o ataque foram as organizações afetadas, pois, por
meio desse ataque, foi possível perceber o quanto as empresas não levam a
sério a instalação de patches de segurança (ARTHUR, 2018).

Stuxnet/Duqu 2.0
O Stuxnet foi um worm criado para infectar sistemas responsáveis por con-
trolar equipamentos industriais. Ele foi descoberto em junho de 2010, sendo
a arma cibernética militar mais simbólica. O objetivo desse worm era a des-
truição física do equipamento contaminado. Na época, ele foi considerado
um dos softwares mais sofisticados e incomuns criados, o que leva a crer que
ele exigiu um alto custo de investimento para o seu desenvolvimento, dando
como certo o envolvimento de um estado, que na época era desconhecido.
Porém, mais tarde, descobriu-se que os responsáveis foram os EUA e Israel,
com o objetivo de atingir centrífugas nucleares que eram controladas por
computadores do Irã.
Cyberwar 11

O Stuxnet agia aumentando a rotação das centrífugas nucleares, alter-


nando a frequência das correntes elétricas que as alimentavam. Isso gerava
alternância de velocidade, o que prejudicava as máquinas por não serem
programadas para essas diferenças. Essa variação sabotava as operações
da usina, sendo responsável pela criação de deficiência em todo o processo
executado de enriquecimento de urânio.
Apesar do Stuxnet ter atingido em torno de 100.000 computadores no
mundo todo, ele só entrou em atividade naquela usina nuclear, Natanzs, o que
leva a crer que ele foi projetado para atuar especificamente naquela usina.
Sete anos depois, surgiu uma variação do Stuxnet: o Duqu 2.0. Esse worm
atingiu bancos e outras organizações mundiais, sendo detectado em mais de
40 países, incluindo seis casos registrados no Brasil. Esse malware invadia
instituições financeiras e retirava dinheiro das contas bancárias. Apesar de
ser uma variação do worm anterior, ele não precisava de arquivo algum para
que fosse realizada a invasão. Por isso, sua detecção nos sistemas era mais
complexa, principalmente porque cada vez que o equipamento infectado
era reinicializado, o worm alterava seu nome para se manter camuflado
(ARTHUR, 2018).

RansomExx
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) sofreu um ataque em novembro de
2020. Seus servidores foram invadidos por cibercriminosos que cripto-
grafaram todos os seus dados e solicitaram o pagamento de um resgate
para a devolução das informações. O ataque foi do tipo ramsonware, por
meio do malware RansomExx. O site do STJ ficou fora do ar no mesmo
dia. Como os backups não foram danificados, foi possível restaurar os
arquivos posteriormente, sem a necessidade de pagamento do resgate
aos invasores (PETRY, 2020).
Neste capítulo, estudamos as principais definições de ciberespaço e guerra
cibernética, os principais métodos de ataque utilizados em uma cyberwar
e alguns exemplos de ciberataques famosos. Foi possível notar o quanto a
tecnologia e a dependência digital mudaram o mundo, inclusive em relação
ao modo de cometer crimes. Os cibercriminosos aproveitam o avanço tecno-
lógico para se reinventar, aprimorando suas técnicas criminosas. Tudo isso
atinge diretamente as formas de guerra, que antes só podiam ser realizadas
de forma física e com combatentes. Hoje, por meio do ciberespaço, qualquer
país pode ser afetado pela ação de um único ataque virtual, causando uma
guerra virtual.
12 Cyberwar

Referências
ARTHUR, C. Cyber wars: hacks that shocked the business world. London: Kogan Page,
2018.
CARVALHO, A. C. Securitização do ciberterrorismo e o posicionamento estratégico de
defesa cibernética dos Estados Unidos da América. 2019. 101 f. Dissertação (Mestrado
em Ciências Militares) — Escola de Comando e Estado Maior do Exército, Rio de Janeiro,
2019. Disponível em: [Link]
6068%20-%20Alessandra%20Cordeiro%[Link]. Acesso em: 17 set. 2021.
CAVELTY, M. D. Cyberwar: concept, status quo, and limitations. CSS Analysis in Security
Policy, n. 71, p. 1-3, Apr. 2010. Disponível em: [Link]
special-interest/gess/cis/center-for-securities-studies/pdfs/[Link].
Acesso em: 17 set. 2021.
GILLIS, A. S. Cyber espionage. TechTarget, 2021. Disponível em: [Link]
[Link]/definition/cyber-espionage. Acesso em: 17 set. 2021.
KRUGER, L. G. Internet governance and the domain name system: issues for congress.
Congressional Research Service, nov. 2016. Disponível em: [Link]
misc/[Link]. Acesso em: 17 set. 2021.
NATIONAL INSTITUTE OF OPEN SCHOOLING (NIOS). Cyber warfare. In: NATIONAL INSTITUTE
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em: [Link]
pdf. Acesso em: 17 set. 2021.
OAKLEY, J. G. Waging cyber war: technical challenges and operational constraints.
New York: Apress, 2019.
PETRY, G. STJ é vítima de ransomware e tem seus dados e os backups criptografados.
The Hack, 2020. Disponível em: [Link]
-e-tem-seus-dados-e-os-backups-criptografados/. Acesso em: 17 set. 2021.
PINTO, D. J. A.; GRASSI, J. M. Guerra cibernética, ameaças às Infraestruturas críticas
e a defesa cibernética do Brasil. RBED — Revista Brasileira de Estudos de Defesa, v.
7, n. 2, p. 103-131, 2020. Disponível em: [Link]
load/75178/42133. Acesso em: 17 set. 2021.
RYAN, J. A history of Internet and the digital future. London: Reaktion Books, 2010.
SHAKARIAN, P.; SHAKARIAN, J.; RUEF, A. Introduction to cyber-warfare: a multidisciplinary
approach. Massachusetts: Elsevier, 2013.
SINGER, P. W.; FRIEDMAN, A. Cybersecurity and cyberwar: what everyone needs to know.
New York: Oxford University Press, 2014.

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