0% acharam este documento útil (0 voto)
9 visualizações131 páginas

Kindle

Enviado por

mendesnicole216
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
9 visualizações131 páginas

Kindle

Enviado por

mendesnicole216
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Kindle

:
“Bem-vindos ao meu lado sombrio”
:
Neoni – Darkside

Miami, Flórida.

Cinco anos atrás.

Entre bons sonhos e uma cama confortável, meu sono estava


incrível. Mas isso foi bem antes de o idiota que eu chamo de irmão
pular em cima de mim como se ele não pesasse absolutamente
nada. Foram um susto e um impacto tão grande que meus olhos
se arregalaram.

— Acorda! — Raphael gritou, deitado sobre minhas costas.

Rangi os dentes e virei meu rosto o máximo que eu consegui para


olhá-lo.

— Sai de cima de mim, seu idiota! — Tentei me debater debaixo de


seu corpo pesado, mas apenas soltei um gritinho frustrado por
não conseguir — Você pesa uma tonelada!

Ele pareceu ignorar o que disse, já que envolveu meu quadril com
suas pernas e agarrou meus ombros. Seu cabelo levemente
comprido roçou a minha bochecha e eu revirei meus olhos.

— Você acordou muito mal-humorada, hermanita — debochou,


soltando o peso do seu corpo sobre mim.

Tornei a me debater debaixo dele, mas na real? Seria melhor


desistir de vez.

— Claro, até porque eu amo acordar com alguém pulando em


cima de mim! — grunhi. — Sai daqui, Raphael!

Meu irmão mordeu minha bochecha e eu fiz uma careta de dor,


:
sentindo-o se levantar. Foi como se o ar voltasse para os meus
pulmões, então rapidamente me sentei no colchão e me virei, o
vendo em pé ao lado da minha cama, sem camisa e com uma
calça de moletom caindo em seus quadris. Seu cabelo preto
estava bagunçado e o rosto evidenciava que ele tinha acabado de
acordar.

— Qual a droga do seu problema? — Passei as mãos por meu


cabelo, tirando do rosto alguns fios que escaparam da minha
longa trança.

— Não posso mais acordar a minha irmãzinha? — Ele pôs a mão


sobre o peito nu, fingindo estar magoado. Falso.

Me ajoelhei na cama, o lençol escorregando das minhas pernas.


Arqueei uma sobrancelha.

— Pulando em cima de mim?

Passando a língua pelo piercing no lado direito de seu lábio


inferior, Raphael sorriu.

— Eu sou bem original.

— Você é bem idiota, isso sim. — Fiz uma careta, sentindo minhas
costas doerem.

Raphael estreitou os olhos escuros na minha direção, cruzando os


braços.

— Sabe, você não deveria me respeitar? — ele perguntou,


caminhando na minha direção — Isso de irmão mais velho e blá-
blá-blá. Uma merda assim.

Sorri minimamente.
:
— Me poupe, Raphael — desdenhei — Ninguém te respeita.

Ele se debruçou sobre a cama e tentou me agarrar, mas me joguei


para trás e rastejei até minhas costas baterem na cabeceira da
cama. Dei risada.

— Você é uma peste. Da próxima vez eu deixo você perder a aula.

— Até parece, sou eu que sempre te acordo.

Meu irmão revirou os olhos, com um sorriso no rosto, e os mirou


em mim.

— Vá tomar banho — ordenou. — Kellan vem nos buscar em


quarenta minutos.

Um sorriso largo tomou conta do meu rosto e não consegui


esconder minha alegria ao escutar isso. Mais especificamente, o
nome dele.

— O Kellan? — perguntei, só para ter certeza.

— Uhum — meu irmão murmurou e me olhou desconfiado. — Que


sorrisinho idiota é esse?

Rapidamente desfiz minha expressão de felicidade, erguendo


minhas sobrancelhas e me fazendo de desentendida.

— Que sorrisinho?

— Não tente me fazer de palhaço, Ryen, eu não sou burro —


Rapha pôs as mãos na cintura.

— Não?

Ele deu um passo em minha direção e eu sorri, erguendo as mãos


:
para que ele ficasse onde estava.

— Brincadeira, brincadeira!

Rapha parou no lugar, mas sei que ele poderia muito bem ter
avançado se quisesse.

— Agora, vá tomar banho e se arrumar — ele mandou,


caminhando em direção à porta do meu quarto. — Você está
parecendo uma bruxa.

Abri a boca, em choque, e ergui um dos meus travesseiros, o


arremessando em sua cabeça. Rapha riu e girou a maçaneta,
correndo para fora do meu quarto.

Agora sozinha na enorme suíte, pulei da cama e, descalça, corri


para o banheiro. Tirei meu pijama e o joguei no chão, indo para
debaixo do chuveiro — embora tenha banheira.

Não quero me atrasar, mesmo eu não gostando de estudar no


meu colégio. Aquele é um lugar no qual eu nunca mais pisaria se
dependesse apenas de mim.

Após lavar meu cabelo e meu corpo, desliguei o chuveiro, me


enrolei no roupão branco pendurado perto da grande pia, saí do
banheiro e caminhei até meu closet. Retirei de dentro dele o
uniforme do colégio e coloquei sobre minha cama.

A vestimenta era composta por blazer preto, camisa social branca


e saia vermelha xadrez que ia até abaixo dos meus joelhos. Após
me vestir, desfiz minha trança e penteei meu cabelo, colocando
uma tiara vermelha, dentre as muitas em meu closet, para segurar
a franja. Então, fui procurar meus sapatos.

Após calçá-los, parei na frente do espelho. Sorri diante da minha


:
imagem e passei as mãos sobre a saia, satisfeita com o resultado.
Não que eu estivesse diferente de todos os dias, mas gosto de me
arrumar.

Saí do meu quarto e andei pelos corredores da casa, descendo as


escadas correndo. Passei pela sala de estar, entrei na de jantar e
encontrei meu irmão e minha mãe tomando café da manhã,
sentados à mesa, um de frente para o outro.

Por favor, eu esperava que pelo menos hoje eles não tivessem
começado o dia brigando.

— Bom dia! — eu disse, com um sorriso, atravessando a sala e me


sentando ao lado de Raphael.

— Bom dia, querida — Mamãe sorriu.

Rapha olhou para mim, a boca cheia de torrada com geleia.

— Fecha a boca, eu estou vendo o fundo da sua garganta —


impliquei.

— Então fecha os olhos — ele respondeu, assim que engoliu a


comida.

Revirei os olhos e estiquei o braço para pegar uma torrada e a


geleia de framboesa. Uma das funcionárias pôs uma jarra de suco
em minha frente; sorri em agradecimento.

— Que milagre você ter descido depois do Raphael — Mamãe me


olhou.

— Dessa vez ele que me acordou. De uma maneira bem carinhosa,


na verdade — debochei, olhando para ele.
:
Meu irmão piscou um de seus olhos claros para mim.

— Sempre que quiser, hermanita — ele sorriu de lado.

Mesmo que eu tenha revirado os olhos mais uma vez, não


consegui conter o sorriso que brotou em meus lábios. Idiota.

— Bom dia, família.

A tensão percorreu meu corpo rapidamente ao escutar a voz que


três meses atrás passou a ser mais do que habitual nesta
mansão. Callum Spencer — agora Callum Rodríguez — é o meu
padrasto. Marido da minha mãe há pouco mais de quatro meses,
ele a encantou com seus vinte e sete anos, seus olhos verdes e
seu cabelo loiro. Sim, ele é quinze anos mais novo que a minha
mãe e aparentemente era um escultor medíocre e sem talento —
como Rapha gostava de dizer.

Eu tinha pouca informação sobre Callum, mas sabia que antes de


conhecer nossa mãe, ele tentava vender as esculturas que fazia.
Não tinha ideia de qual era seu estilo, mas mamãe jurava que o
marido era imensamente talentoso.

— Bom dia, amor — ela sorriu, jogando a cabeça para trás para
ganhar um beijo.

Pelo canto do olho, vi Raphael revirar os olhos, voltando a comer e


fingindo que Callum não estava presente. Por um momento
troquei um olhar com meu padrasto, quando ele se sentou ao lado
da minha mãe, mas desviei os olhos rápido, focando em minha
torrada.

Estiquei minha mão para pegar a jarra de suco e coloquei um


pouco no copo.
:
— Recebi mais uma reclamação sua, Raphael — Mamãe disse; e
olhei para ela.

E lá vamos nós.

— Estranho seria se não recebesse — meu irmão murmurou, de


maneira despreocupada, pegando mais uma torrada.

— Você acha que pago o melhor colégio de Miami para você ficar
fazendo vandalismo dentro dele? — Rapha deu um suspiro de
irritação.

— Você fala como se eu tivesse jogado uma bomba naquela porra


ou algo assim. Não vamos exagerar.

Senti os olhos de Callum em mim, e não precisei nem olhar em


sua direção para saber que ele estava me encarando. Abaixei a
cabeça e coloquei a torrada em meu prato, fingindo estar
mexendo na saia do meu uniforme. Por favor, olhe para outro
lugar.

— Não fale palavrão, você sabe que eu odeio! — nossa mãe se


enfureceu.

— O que é que eu faço que você não odeia, não é mesmo? —


Rapha debochou dela, mas então mudou seu foco para o nosso
padrasto. — Callum, você sofre de algum problema de visão?

— Não, por quê? — Callum perguntou.

— Então por que está olhando para a mesma pessoa desde que se
sentou à porra dessa mesa? — Meu irmão perguntou, entre
dentes. — Quer uma foto da minha irmã?

Então não é coisa da minha cabeça.


:
— Estou achando sua irmã um pouco quieta hoje — Callum falou.
— Algum problema, Ryen?

Sem ter como escapar, ergui lentamente o meu olhar para o


marido da minha mãe, encontrando o dele cheio de um verde vivo.

— Não, estou apenas com um pouco de sono — respondi, minha


voz sendo apenas um sussurro.

— E por que não fica em casa e dorme mais? — ele sorriu. E eu


odiei.

— Não, de filho vagabundo já me basta um — Mamãe suspirou.

Não a responda, Rapha. Não a responda.

— Ouvi dizer que os filhos se inspiram nos pais — meu irmão


retrucou, pegando seu copo de suco. O vi arquear uma
sobrancelha em direção a ela. — Você não trabalhava enquanto
nosso pai era vivo. E também não tem diploma de nada.

Fechei meus olhos com força. Ah, não.

Minha mãe fez menção de se levantar da mesa, mas Callum


segurou seu braço, a trazendo de volta para a cadeira.

— Não, Victoria. Ele é apenas uma criança — ele disse, e então


sorriu. — Não sabe o que faz ou diz.

— E de criança ela entende, Callum — meu irmão o olhou, o


sorriso carregado de veneno. — Até se casou com você.

— Raphael — eu o chamei.

Não é que eu não concordasse com meu irmão. Mas o dia mal
começou, e eu não estava a fim de ver eles brigarem tão cedo.
:
Ainda mais por causa daquele homem.

— Eu estou mentindo, Ryen? — Rapha me olhou, e apontou para


Callum. — Como ela espera que eu veja nesse cara uma figura
paterna?

Nossa mãe, antes de casar com Callum, o namorou por dois anos.
E nesse ínterim meu irmão nunca escondeu que não gostava dele.
Eu me sentia da mesma maneira, mas nossa mãe estava sozinha
há tanto tempo que não vi por que em ir contra sua felicidade.
Mesmo que fosse ao lado desse… desse cara.

— Eu não quero roubar o lugar de seu pai — Callum respondeu.

— Nem… se… quisesse — meu irmão rebateu, pausadamente.

Minha mãe se levantou de sua cadeira de maneira brusca dessa


vez, pegando todos nós desprevenidos.

— Já basta, Raphael — ela disse, em tom irritado.

Rapha também se levantou, e ergueu o queixo para ela. Ele


apontou um dedo na direção de Callum mais uma vez.

— Não é o caso, mas mesmo que esse cara tivesse todo o sangue
mexicano do mundo nas veias, ele nunca, escute bem, nunca —
meu irmão manteve os olhos castanhos nela — vai ser um
Rodríguez e jamais vai ter nem a metade do caráter que nosso pai
teve.

Apertei a barra da minha saia, os nós dos meus dedos chegando a


ficar brancos por causa da força que fiz. Minha mãe e meu irmão
permaneceram se encarando, apenas a raiva faiscando nos olhos
dos dois, criando um clima de tensão e desconforto na sala.
:
Uma buzina soou do lado de fora e Raphael quebrou o olhar com
mamãe e o estabeleceu comigo.

— Kellan chegou, vamos — ele me chamou, saindo da frente de


sua cadeira e a contornando.

Procurei minha mochila aos meus pés e bati em minha testa


quando não a achei.

— Eu a esqueci no meu quarto — fiz uma careta.

— Suba e pegue, estou te esperando no carro do Kellan — meu


irmão disse, saindo da sala.

Ele nem se deu o trabalho de se despedir da nossa mãe. Sequer


olhou para ela, e talvez tenha sido melhor assim.

Me levantei da minha cadeira e contornei a mesa, indo em direção


a mamãe, que ainda estava em pé.

— Tchau, mamãe — beijei sua bochecha, a abraçando.

— Tchau, boa aula — ela sorriu.

Comecei a me preparar para subir até meu quarto, mas a voz de


meu padrasto me parou.

— Eu também não ganho um abraço, Ryen? — ele perguntou.

Respirei fundo e me virei para ele, o vendo se levantar. Ele abriu


os braços, e de maneira vacilante caminhei lentamente até ele,
minhas mãos apertadas em punhos.

No momento em que cheguei perto de Callum, seus braços me


envolveram e ele me puxou contra si. Uma de suas mãos foi para
o meu cabelo e ele o acariciou. Senti como se pudesse vomitar
:
todo o meu café da manhã apenas com esse simples gesto.

— Boa aula, Ryen — ele disse, a voz mansa.

Quando seu abraço se tornou insuportável para mim, me esquivei


com dificuldade e sorri forçadamente para a minha mãe antes de
correr para fora da sala de jantar. Atravessei os corredores e subi
as escadas depressa, sentindo a tensão em minhas costas aliviar.

Não consigo aceitá-lo. Não consigo aceitar Callum de jeito


nenhum. Meu pai morreu quando eu tinha cinco anos e Raphael
tinha acabado de fazer oito. Seu nome era Álvaro Rodríguez e ele
adorava participar de rachas de carro, foi assim que ele morreu.
Mesmo após virar pai, nunca deixou de correr. Ele e o pai de
Kellan, na verdade. Eles eram amigos de infância.

Me lembro pouco dele, mas tenho memórias o suficiente para


saber que era um bom pai. Ele era sócio do pai de Kellan, o melhor
amigo do meu irmão. Eram donos da maior empresa de café da
Flórida. E desde a sua morte foi mamãe que assumiu os negócios
da nossa família.

Quanto a Callum, mamãe o conheceu em um bar. Além de vender


estátuas, ele era garçom. Hoje em dia são casados, mas Rapha
diz que ele é apenas uma sanguessuga atrás de uma velha para
bancá-lo.

Peguei minha mochila no quarto e corri o mais rápido que pude


até as escadas. Enquanto descia escutei a buzina soar,
sinalizando a impaciência de Kellan e Raphael. Principalmente a
de Kellan.

Abri a enorme porta de entrada da mansão e corri até a BMW


vermelha de Kellan, vendo a porta de trás se abrir para mim.
:
Entrei no carro e coloquei minha mochila sobre minhas coxas,
sentindo minha respiração acelerada pela corrida. Arrumei minha
tiara e olhei timidamente na direção dele.

— Por que demorou tanto? — Kellan me olhou pelo retrovisor, a


voz grossa e rouca arrepiando os cabelos de minha nuca.

Ele tem o queixo marcado e incríveis olhos azuis que são tão
claros que parecem cinzas. O cabelo preto lhe dá um ar de bad
boy e, cá entre nós, ele tem todas as qualidades podres de um.
Ele tem exatamente 1 metro e 89 centímetros de altura, o que me
faz pequena perto dele, mesmo com os meus 1 metro e 65
centímetros —, mas sei que ainda vou crescer mais.

Tenho uma queda por ele desde que me conheço por gente. O
que começou com uma admiração, aos meus dez anos se tornou
uma paixão não correspondida. E agora que estou com quase
quinze e ele com dezenove, percebo que tudo não passa de um
sonho de consumo distante. Mas isso infelizmente não me faz
menos apaixonada.

— Ela esqueceu a mochila e teve que subir pra pegar — Raphael


piscou um olho para mim e sorriu. — Apenas se atrasou um
pouco.

— Quando é que ela não se atrasa… — Kellan murmurou, com


sarcasmo, dando partida no carro. Franzi a testa.

Enquanto ele nos levava para além dos portões de minha mansão,
deixei meu corpo se afundar no banco e cruzei meus braços,
olhando para fora com uma carranca no rosto.

Esqueci de mencionar que Kellan também é o maior babaca que


eu conheço.
:
“Então é isso que você realmente quer me dizer?

Você está brincando comigo, dizendo que me apoia, mas ainda


me abandona

Me chamando de coisas que não sou, criando uma imagem falsa”

Melanie Martinez – Fire Drill

Movi meus olhos para Kellan, escutando sua conversa com


Raphael.

— Pode abrir janela, por favor? — perguntei, os interrompendo.

Kellan me olhou pelo retrovisor e em seguida vi o vidro da BMW


descer. Aproximei meu rosto da janela e fechei os olhos ao sentir
o vento jogar meus cabelos para trás. Agradeci mentalmente por
estar usando tiara, do contrário minha franja estaria uma
completa bagunça.

— Obrigada — sorri, meus olhos fechados.

— Estou te dizendo, irmão. Aquele filho da puta falou na minha


cara que não ganho dele em uma racha — meu irmão disse, e
imediatamente abri meus olhos.

O que foi? Rachas ilegais me interessam.

— Como pode um merda daqueles dizer uma verdade dessa? —


Kellan provocou meu irmão e eu o olhei, um sorriso mínimo de
canto em seus lábios. Esse é o máximo dele.

Ele me observou pelo retrovisor, me flagrando com os olhos nele.


Rapidamente desviei meu olhar para Raphael, enquanto senti
minhas bochechas queimarem. Era sempre assim quando ele me
:
encarava, e eu me sentia uma boba por isso.

— Vai se foder, Kellan — Raphael socou seu braço. — Você sabe


que eu sou o melhor daquela pista.

Soltando uma risada sarcástica, Kellan atraiu meu olhar mais uma
vez.

— Um dos melhores, você quis dizer — ele sorriu para o meu


irmão. — Fica difícil te denominar o melhor quando eu estou em
ação.

Assim como nossos pais, Kellan e Raphael participam de corridas


de carro. Nunca vi nenhum dos dois correr porque sempre fiquei
sabendo dos rachas um dia depois que eles aconteciam. Mas
Kellan e meu irmão sempre ganhavam, não importava o oponente.

Porém, ouvi dizer que Kellan e Raphael já competiram um contra o


outro, mas deu empate. No fim, não tem como saber qual dos dois
é o melhor. Chamam o meu irmão de cachorro louco das pistas,
deve ser porque ele dirige que nem um maluco fugindo da polícia.

Raphael agitou a mão, dispensando o que ele disse.

— Claro, claro, se pensar assim faz você se sentir melhor, fazer o


quê — disse, com falso desprezo, e sorriu de lado, o piercing prata
brilhando em seu lábio inferior. — A questão aqui é que dia
dezesseis eu vou limpar o chão com o rabo do McKay.

Ergui minhas sobrancelhas, atenta à conversa.

— Posso ir também? — perguntei, sem pensar.

Nunca fui a um racha, mas morro de vontade. Não fazia a mínima


ideia se era igual na franquia de Velozes e Furiosos, mas alguma
:
semelhança deveria ter, não é? Queria ir apenas uma vez, e
escutar o motor dos carros de perto.

— Não — Kellan disse, a voz indiferente.

O ignorei e olhei para Raphael, sorrindo docemente mesmo que


ele não pudesse ver.

— Hermanito, posso ir? — Tentei deixar minha voz o mais fofa


possível.

Rapha virou a cabeça para me olhar e eu apoiei meu queixo nas


mãos, piscando meus cílios para ele, que sorriu.

— Não.

Fiz uma careta, o encarei e cruzei meus braços.

— Por que não? — interroguei, indignada. — Meu aniversário é dia


dezessete, você bem que poderia me dar esse presente
adiantado.

— Boa tentativa, mas não. Lá não é lugar para você — Ele manteve
o sorriso idiota no rosto.

— Como assim não é lugar pra mim?

— Hum… — Rapha esfregou o queixo. — Talvez por que só tenha


drogas, bebidas, prostitutas e um monte de gente fodendo pelos
cantos? E claro, porque você só tem catorze anos.

Soltei uma risada debochada.

— Mas você começou a participar de rachas com quinze anos, seu


hipócrita! — Apontei um dedo para seu rosto quando Kellan parou
o carro no estacionamento do colégio.
:
— Não nos compare, hermanita — Raphael segurou meu dedo e
me puxou para frente, apertando meu nariz. — Prefiro arrancar o
meu pau fora a deixar que você frequente essas merdas antes
dos dezoito. Você tem longos e lindos três anos até lá.

Dei um tapa em sua mão e me afastei, jogando minha mochila


sobre meu ombro sem um pingo da elegância que mamãe tanto
exigia.

— Adotado! — vociferei, saindo da BMW.

Raphael fez o mesmo e andou na minha direção, pouco se


preocupando em arrumar sua gravata frouxa. Mesmo que meu
irmão fosse um idiota, eu precisava admitir que o fato de ele ser
um completo desalinhado o deixava muito bonito.

— Você tem que aprender a xingar, Ryen — Ele passou o braço por
meus ombros de maneira relaxada. — Repete comigo: porra,
caralho, buceta, cuzão, arrombado, filho da puta… — Meu irmão
parou de falar quando me desvencilhei de seu corpo.

Ergui a cabeça para encará-lo. Embora eu fosse alta, Raphael era


uns dez centímetros maior que eu, e uns cinco menor que Kellan.

— Você sabe que eu não falo palavrão, poupe seus esforços — eu


disse, arrumando a gravata dele.

Se a inspetora visse isso, lhe daria mais uma advertência. E


mamãe e ele terminariam a briga de hoje cedo assim que ele
colocasse os pés em casa.

— Na sua idade, eu também não falava — Kellan me provocou, me


fazendo franzir o cenho com seu tom.

É óbvio que ele estava mentindo; desde pequeno, Kellan tinha a


:
boca mais suja que um lixão.

— Por que você fala como se fosse muito mais velho que eu,
quando na verdade são apenas quatro anos de diferença? —
Estreitei meus olhos em sua direção e sorri, desdenhosa. — Devo
ceder meu assento para você, vovô?

Kellan arqueou uma sobrancelha.

— Para quem não fala palavrão você tem a língua muito afiada,
pirralha — rebateu, debochado.

— Eu não sou pirralha! — me defendi, apertando minhas mãos em


punhos.

Vi a sombra de um sorriso no rosto do Kellan, mas ele pareceu


afastá-la rapidamente.

— Claro, claro… — Dispensou-me com a mão, olhando para a


entrada do colégio ao me ignorar.

Como já devem ter percebido, eu gosto muito de Kellan Royal. E


por mais que isso fosse um fato incontestável, eu também o
odiava. Bom, às vezes. Mas o sentimento ruim ainda estava ali.
Odiava como ele me tratava feito uma criança e, principalmente,
como alguém não muito digna de sua atenção.

Segurei firme a alça da minha mochila e me virei, começando a ir


para longe deles.

— Idiota… — resmunguei.

— Eu ouvi isso! — Kellan respondeu e eu apertei o passo,


arregalando os olhos.
:
Tinha que controlar a minha língua.

— Essa saia está muito curta, Ryen! — Ouvi Rapha gritar, e por
cima do ombro o fuzilei com o olhar, vendo-o sorrir.

Virei o rosto e passei pelo enorme portão, adentrando o colégio


ao lado de outros alunos. Curvei meus ombros, um pouco
acanhada, como sempre acontecia quando eu colocava os pés
nesse lugar. Acho que não é novidade nenhuma o que vou dizer
agora, ainda mais para alguém da minha idade, mas eu odeio esse
colégio.

Olhei para trás, vendo meu irmão e Kellan a alguns metros de


distância, passando pelos portões.

“Pirralha”.

Às vezes eu me perguntava como podia gostar do Kellan mesmo


ele se mostrando tão indiferente a minha pessoa. Suas frases
eram sempre secas e curtas, embora ele fosse assim com todo
mundo. E durante o ocorrido de minutos atrás, ele apenas
reforçou o fato de que eu era uma criança para ele. Tudo bem que
catorze anos não era tanta coisa, mas eu detestava todo esse ar
de superioridade. Quem ele pensava que era para vir com essas
piadinhas? Meu irmão mais velho? Corta essa.

Sempre fiz o meu máximo para não demonstrar que gostava dele,
mas era completamente rendida por seu sorriso, mesmo que só o
visse algumas vezes. Na maioria das ocasiões, Kellan mantinha a
expressão de poucos amigos.

Parei na frente da minha sala e ergui a cabeça para enxergar a


placa “1ª série A”.
:
Respirei fundo e arrumei minha tiara, dando uma checada em meu
uniforme para ter certeza de que estava tudo no lugar. Entrei na
sala de cabeça baixa e as conversas cessaram, algumas
risadinhas me acompanhando enquanto me dirigi até minha
carteira. Quando me aproximei, parei imediatamente ao ver o que
estava escrito em meu assento.

“Esquisita”.

Olhei para o lado e vi Jenna Watson, a linda garota loira e


extremamente popular cujo passatempo favorito era fazer com
que eu repensasse se foi uma boa ideia ter nascido. Ela e seus
amigos infernizavam a minha vida desde que eu tinha nove anos.
Sim, ela era bastante esforçada.

Quando tinha essa idade, fiz xixi na sala de aula porque não
aguentei esperar até que a outra menina retornasse do banheiro.
Tinha bebido bastante refrigerante e me arrependo amargamente
disso.

Desde então, eles começaram a me chamar de mijona, como se


fizesse parte do meu sobrenome. E não parou por aí; na verdade
começou a ficar pior depois que completei treze anos de idade.

Tive que apresentar um trabalho sozinha porque ninguém quis


fazer grupo comigo, mas então travei e comecei a gaguejar. Corri
para banheiro, tentando me acalmar, mas quando voltei à sala de
aula, todos riram de mim. Desde então eu sofro bullying. Embora
o meu irmão seja popular e respeitado no colégio, isso não se
estende a mim.

Limpei o nome feito com giz e me sentei, pondo a mochila no


chão. Retirei o pó branco das minhas mãos e olhei para Jenna, a
vendo arquear uma sobrancelha clara como se perguntasse o que
:
estou olhando. Desviei meu olhar e o mantive para baixo,
cruzando minhas mãos sobre a mesa. Me amaldiçoei
internamente por ser tão medrosa e aceitar isso calada.

Eu deveria contar a alguém, mas quem iria acreditar? O bullying


que eu sofria era restrito apenas a sala de aula. Era eu contra
vinte alunos.

Olhei para o lado, vendo a prima de Kellan sentada não muito


longe de mim. Brianna. Ela ergueu o olhar superior em minha
direção, a sobrancelha arqueada.

— O que é? — ela perguntou, jogando o cabelo para o lado.

Brianna era linda. Pele negra, cabelo crespo e preto que chegava
até os ombros, lábios carnudos, olhos bonitos e brilhantes, e um
corpo magro com pernas longas e cintura fina. Ela era modelo e
uma das grandes promessas da moda, mesmo que tenha
praticamente a minha idade. Ah, e andava a cavalo como
ninguém.

Porém, mesmo com todas essas enormes qualidades exteriores,


devia acrescentar que ela era a enorme de uma vaca.

— Nada — devolvi seu olhar hostil.

— E por que está me encarando com essa cara de sonsa? — Me


olhou de cima a baixo antes de sorrir falsamente — Quer um
autógrafo?

— Não se sinta famosa só porque você tira algumas fotos — bati


meus cílios.

Ela arqueou uma sobrancelha bonita e bem desenhada, apoiando


o queixo nas mãos com unhas longas e pintadas de branco.
:
— Sonsa — ela atirou.

Revirei os olhos e me endireitei na carteira quando o professor de


Biologia entrou na sala.

Brianna e eu brigávamos desde que nos conhecemos por gente, e


sempre saíamos no tapa quando crianças. O motivo eu não sei,
mas me lembro que eu odiava a forma como ela dizia que suas
bonecas eram melhores do que as minhas.

Desde pequena, ela sempre posou pra marcas de roupa famosas;


na verdade, elas brigavam pela menina. E como não? O rosto de
Brianna parece ter sido esculpido à mão por Deus. Cada traço
dela me deixa morrendo de inveja porque é tudo o que eu
morreria para ter. E eu odeio ter que admitir isso.

A aula passou rápido e eu fechei o caderno quando o professor


saiu da sala. Estava organizando meu material, até o momento em
que minha tiara foi arrancada da minha cabeça. Ergui o rosto,
vendo o garoto ruivo e alto de cabelo cacheado entregá-la para
Jenna. Scott.

— Eca, que brega — Ela segurou minha tiara com a ponta dos
dedos, contorcendo o rosto em uma careta. — Mas bom, combina
com você. — Ela me olhou, sorrindo.

— Me devolva — mandei, me levantando.

Afastei minha franja para trás, já sentindo ela me incomodar.

— Não — Jenna respondeu, de maneira simples.

O resto da sala riu como se aquilo fosse a coisa mais engraçada


do mundo todo, e eu suspirei, caminhando até ela e esticando
minha mão para pegar minha tiara. Jenna a jogou para Scott e ele
:
a balançou, pendurada pelo indicador.

— Vem pegar, Ryen… — ele me chamou. — Não vou te morder, não


quero que você se mije pelo susto — Sua voz era maldosa e fez
todo mundo rir.

Apertei meus punhos e, pelo canto do olho, vi Brianna sair da sala.


Embora nós duas briguemos muito, ela nunca fez bullying comigo.
Mas também nunca me defendeu, apenas se manteve indiferente
a isso. O que me revoltava muito.

Olhei para Scott, que é apenas alguns centímetros maior que eu,
e tentei pegar minha tiara. Ele riu antes de segurar minha nuca e
beijar meus lábios em um selinho demorado.

Arregalei meus olhos e o empurrei para longe, limpando meus


lábios com as costas da mão. O encarei.

— Isso foi muito nojento! — esbravejei, o olhando com repulsa.

O sorriso de Scott se desfez por alguns segundos antes de um


mais cruel ainda tomar conta do seu rosto.

— Você deveria ser grata por alguém como eu te beijar, esquisita.


Você não é muito atraente — ele disse, e varreu os olhos por meu
corpo.

Ok, essa doeu. Mas decidi ignorar isso quando Scott jogou minha
tiara para outra pessoa.

— Me devolvam! — exigi.

— Vem pegar — um dos alunos chamou.

Nos momentos seguintes, comecei a ir de um lado para o outro,


:
vendo minha tiara pular de mão em mão como se fosse um
brinquedo. Quando ela caiu de volta nas mãos de Jenna, me irritei
e a empurrei um pouco para trás.

— Eu não estou brincando, Jenna!

Ela riu, incrédula, parecendo surpresa com minha atitude e com a


raiva na minha voz.

— Ficou maluca? — Ela se aproximou de mim e me empurrou de


volta. Com força suficiente para que eu caísse sentada em uma
cadeira.

Senti algo quente se acumular em minhas coxas e bunda, e me


levantei lentamente, temendo que eu tivesse molhado minha saia
com água.

— A Ryen menstruou! — Scott gritou, fazendo todo mundo rir.

Olhei para a minha bunda, esticando a saia para ver melhor.


Arregalei os olhos ao notar o tecido molhado e passei dois dedos
por ele, os observando ficarem vermelhos com o que parecia ser
ketchup. Não.

— Existe uma coisa chamada absorvente, você conhece, Ryen? —


Jenna perguntou, com falsa inocência.

Antes que eu pudesse responder, senti algo ser jogado na parte


de trás de minha cabeça e olhei para o chão, vendo um pacotinho
de absorvente. No instante seguinte, mais pacotinhos foram
jogados em mim, e as risadas apenas aumentaram.

Meu peito subiu e desceu em nervosismo, e me vi correndo para


fora da sala o mais rápido que pude. Eu só queria estudar em paz.
:
No corredor, os estudantes apontaram e cochicharam enquanto
passei correndo por eles. Sempre passei despercebida, nunca
riram de mim. O bullying que eu sofro é restrito a minha sala, pois
ninguém quer que outras pessoas fiquem sabendo. Ou melhor,
que meu irmão saiba.

Mas agora era diferente, e era horrível ter que lidar com toda essa
atenção.

Quando entrei em um corredor, trombei com algo duro e firme, e


dei alguns passos para trás.

— Desculpe — pedi, fazendo menção de voltar a correr.

Porém, antes que eu o fizesse, uma mão se fechou em torno do


meu braço, me mantendo no lugar. De cabeça baixa, franzi o
cenho e tentei sair do aperto da pessoa inconveniente.

— Para onde vai? — A voz grave e rouca atingiu meus ouvidos.

Rapidamente ergui o rosto, encontrando olhos azuis, mais frios do


que qualquer geleira. Kellan.

— Vestiário feminino… — murmurei, com a voz baixa, o evitando.


— Pode soltar meu braço, por favor? — perguntei, sentindo
olhares em nós.

Por que Kellan tinha que aparecer justo agora e logo nessas
circunstâncias?

— Por que está com tanta pressa? — Kellan perguntou.

— Por favor, solta o meu braço… — eu praticamente implorei,


tentando me desvencilhar, mas ele não cedeu.
:
Kellan desceu os olhos para o meu corpo no exato momento em
que senti um filete de ketchup escorrer pela minha coxa até a
lateral de meu joelho. Ele ergueu as sobrancelhas.

— Você acabou de…? — Ele deixou a pergunta morrer no ar.

Tive vontade de dizer que não. Que foi uma brincadeira de mau
gosto dos meus colegas de turma. Que eu sofro bullying todos os
dias e ninguém sabe. Mas se eu abrisse a boca, Kellan diria tudo a
Raphael, e meu irmão iria aterrorizar meus colegas. Ele bateria
nos garotos e talvez até tomasse uma expulsão.

Seu histórico escolar não é muito bonito de se ver, e ele já está no


vermelho. Fora que nossa mãe o mataria.

— Sim — menti, sentindo minhas bochechas corarem. Deus,


quero morrer.

Kellan assentiu com a cabeça e soltou meu braço.

— Amarra o blazer ao redor da cintura, vou te levar até o banheiro


— ele disse, dando um passo para trás.

Assenti e fiz menção de tirar meu blazer, foi quando vi os braços


de Kellan envolverem a minha cintura. Rapidamente prendi a
respiração enquanto ele amarrava seu próprio blazer ao redor de
meu quadril, cobrindo perfeitamente minha saia, chegando até
meus joelhos.

Me permiti respirar apenas quando Kellan se afastou de mim. Ele


nunca tinha chegado tão perto.

— Anda na minha frente, estou logo atrás — falou e eu assenti.

Com minhas pernas bambas, comecei a caminhar rápido, e vi os


:
alunos o olharem e abaixarem suas cabeças enquanto
passávamos por eles. Nenhuma risadinha, nenhum comentário
maldoso. É esse respeito que eu receberia se fosse tão confiante
quanto Kellan e o meu irmão?

— Continue andando, não abaixe a cabeça — disse, logo atrás de


mim.

Cravei minhas unhas nas palmas das minhas mãos e mordi meu
lábio, contendo a vontade de fazer o contrário do que ele indicou.
Por que isso tem que ser tão difícil?

Quando avistei o vestiário feminino, apressei meus passos e


lentamente me virei para Kellan. Ele estava com as mãos nos
bolsos e seu cabelo levemente bagunçado. Sua gravata estava
um pouco frouxa, ao contrário da minha, que estava impecável
até demais. Retirei seu blazer, notando a enorme mancha escura
que ficou.

— Me desculpa por ter sujado sua roupa, eu vou lavar — eu disse,


o olhando por baixo dos cílios.

— Não precisa — ele respondeu, tomando o blazer de minhas


mãos. — Tenho outro no meu armário.

— Ah, é claro… — Abaixei o rosto, pondo uma mecha do meu


cabelo preto atrás da orelha.

— Onde está sua tiara?

Olhei para ele. Pensa, Ryen, pensa.

— Na correria acabei deixando em cima da minha mesa —


respondi a primeira coisa que me veio à mente.
:
Kellan estreitou os olhos em minha direção, analisando meu rosto.

— Você está mentindo — ele acusou.

Sabendo que se ele pressionasse mais um pouco eu daria com a


língua nos dentes, abri a porta do vestiário feminino e me joguei
para dentro.

— Obrigada pela ajuda! — eu agradeci, antes de fechar a porta na


cara dele.

Suspirei aliviada e caminhei até meu armário, digitando minha


combinação. Se Kellan continuasse insistindo, eu contaria a ele
que pegaram minha tiara. Mas não vou dizer nada, não quero ser
pra sempre a garotinha que precisa ser protegida. Raphael
sempre batia nos meninos que implicavam comigo e assustava as
meninas que me irritavam. Não posso continuar dependendo
dele.

Peguei alguns lenços umedecidos e andei até a pia, jogando um


pouco de água em minhas pernas para lavar o ketchup. Me sequei
e, em seguida, passei mais alguns lenços umedecidos para não
ficar cheiro. Tirei uma saia reserva e uma calcinha extra que
estavam em meu armário, trocando a roupa suja pela nova e a
colocando em uma sacola.

Abri a porta do vestiário e saí, começando a andar pelos


corredores — agora vazios, e me senti aliviada por não ter
ninguém para olhar para mim. Quando fiz uma curva esbarrei em
alguém e olhei para frente, me perguntando se aquilo já estava
virando costume.

— Porra, olha por onde anda! — Brianna resmungou, me fazendo


dar um passo para trás.
:
— Você que esbarrou em mim — Coloquei as mãos na cintura. —
De onde está vindo?

Ela cruzou os braços, me olhando com indiferença e um ar de


superioridade que só ela tem. Metida.

— Vim checar se o professor de Artes vai liberar as notas das


provas nessa semana — Ela indicou a porta atrás dela onde havia
uma placa que dizia “Sala de Artes”.

Sorri.

— Veio subornar ele por uma nota? — debochei.

Brianna arqueou uma sobrancelha.

— Ridícula — murmurou ao passar por mim, esbarrando em meu


ombro.

Fiz uma careta de dor e a assisti esbarrar em Chistian Yun, um


dos alunos bolsistas asiáticos do nosso colégio.

— Merda, todo mundo é cego nessa escola? — Brianna perguntou,


entre dentes.

Christian tirou o cigarro dos lábios e a olhou de cima a baixo, sem


muito ânimo.

— Sinto muito, vossa alteza! — disse, com desdém, fazendo uma


reverência exagerada.

Ela o olhou com desprezo, parecendo pôr pra fora todo


sentimento ruim que tinha em relação ao garoto.

— Viciado de merda — disse, e logo após se virou e foi embora.


:
O vi colocar o cigarro na boca novamente e olhei para o início do
corredor, percebendo a inspetora aparecer.

— Melhor se livrar desse cigarro se não quiser se encrencar — eu


disse, e ele olhou para a mulher, parecendo se dar conta do que
eu estava falando.

Ele deu uma longa tragada antes de jogar o cigarro no chão do


colégio e pisar nele; em seguida o lançou pela janela mais
próxima.

— Valeu pelo conselho — ele disse, enquanto passava por mim.

Enruguei meu nariz com o cheiro de cigarro ainda persistente no


corredor. Eu, de fato, nunca entenderei o motivo de as pessoas
usarem essas coisas.

Abri a porta do meu quarto e a tranquei, jogando minha mochila


no chão. Tirei meu uniforme e meus sapatos, e apenas de sutiã e
calcinha andei até o meu banheiro, querendo tomar um banho
para relaxar.

Prendi meu cabelo em um coque e entrei debaixo do chuveiro,


deixando a água levar todas as frustrações deste dia ruim e
exaustivo. Desliguei o chuveiro e passei meu sabonete líquido de
morango pelo corpo, em seguida me enxaguei e me enrolei no
meu roupão. Ao sair do banheiro, vesti meu short rosa de pijama e
uma regata branca fresquinha, mantendo meu cabelo em um
coque.

Me joguei em minha cama após ligar o ar-condicionado e bocejei,


cansada.

Minha mente me levou para Kellan, e sorri ao lembrar de como ele


:
foi fofo me emprestando seu blazer, embora eu já tivesse o meu.
Ainda sinto seus braços em minha cintura, e mesmo que ele não
tenha me tocado diretamente, ele estava tão perto que pude
sentir o quanto ele é cheiroso.

Antes que eu pudesse me dar conta, adormeci, com um sorriso


nos lábios e meus pensamentos num garoto quatro anos mais
velho. Eu sou patética.

Acordei algum tempo depois quando senti uma mão em minha


coxa; imediatamente fiquei tensa. Não precisei me virar para
descobrir quem era. Eu sabia muito bem. Era ele.

A mão de Callum subiu para a minha bunda e eu mantive meus


olhos fechados, os apertando com força. Meu coração estava
batendo forte em meu peito e minha vontade era gritar para que
ele parasse. Mas nunca consigo, minha voz sempre some.

Seu toque deslizou para a parte interna de minhas coxas e eu


prendi a respiração quando senti seu hálito contra o meu pescoço
e, em seguida, um beijo molhado sendo depositado lá.

Um mês depois que Callum se casou com minha mãe, ele passou
a invadir meu quarto todas as noites. Na primeira vez que ele me
tocou enquanto eu dormia eu senti, mas pensei que estava
sonhando. Contudo, quando isso passou a se repetir eu percebi
que era mais do que real. Ainda assim não deixava de ser um
pesadelo.

Ele sempre me olhou com maldade, e mesmo que eu tenha


apenas catorze anos, percebia isso. Porém, nunca pensei que ele
chegaria a tanto. Mesmo que eu tranque a porta para que ele não
entre, ele dá um jeito de fazê-lo.
:
As pontas dos dedos de Callum tocaram a minha parte mais
íntima por cima do pijama e eu me desesperei. Ele nunca chegou
tão longe. Fingi um bocejo e puxei minhas pernas para meu peito,
impedindo que ele continuasse me tocando. Senti Callum afastar
sua mão e sei que ele sabia que eu estava acordada. Ele sempre
sabia. Mas não se importava.

Durante três meses ele mostrou que não dava a mínima.

Puxei meu edredom até meu pescoço e me mantive de costas


para ele, me forçando a manter a calma. Callum se levantou de
minha cama e, em seguida, ouvi a porta do meu quarto bater, me
fazendo, enfim, abrir os olhos. Me sentei na cama, meus olhos se
enchendo de lágrimas.

Quando eu era mais nova não acreditava em monstros, mas


agora, com catorze anos, comecei a acreditar neles,
principalmente quando um em especial passou a entrar pela porta
do meu quarto todas as noites.

“Se eu estivesse morrendo de joelhos,

você seria o único a me salvar

E se você estivesse se afogando no mar,

eu te daria os meus pulmões, assim, você poderia respirar”

Kodaline – Brother

Vendo meu short de lycra subir um pouco mais, descansei meu


quadril no chão, forçando o espacate e sentindo meus músculos
totalmente flexíveis e relaxados. Com as pernas abertas, curvei
minhas costas para frente e apoiei meu queixo em meus
antebraços quando os cruzei no chão.
:
Dei uma checada na sala de dança vi a professora Carter ajudar
uma garota em seu alongamento. Estiquei meus braços e
encostei minha testa no chão, relaxando minha coluna.

Eu fazia dança contemporânea desde os meus oito anos. Mamãe


me colocou no balé quando eu tinha quatro, mas nunca gostei.
Toda aquela calma e os passos perfeitos e certinhos me deixavam
irritada. Certo dia eu estava passando pela sala de dança de outra
turma e vi os movimentos livres que outras garotas faziam. Como
pareciam felizes enquanto davam saltos e giros. Para mim, não se
parecia em nada com o balé.

Então, de tanto eu implorar, mamãe me matriculou na aula de


dança contemporânea. Foi um pouco fácil para mim porque eu já
era muito flexível, graças ao balé, mas tive que aprender a ganhar
força nos braços e nas pernas, e a fazer todo tipo de salto
também. Me arrisco a dizer que sei fazer tantas acrobacias
quanto uma ginasta.

Mas mesmo que às vezes eu me machucasse, a forma como me


sentia livre enquanto dançava compensava tudo. Era a maneira
que eu encontrava de pôr tudo que eu sentia para fora. Eu gritava
sem nem mesmo abrir a boca e usar a voz.

A professora Carter, que deveria ter uns quarenta anos, saiu de


perto da garota a qual estava ajudando e parou no centro da sala.

— Certo, meninas, chega de alongamento — ela falou, segurando


sua prancheta.

Endireitei minha coluna e fechei minhas pernas, me levantando.


Arrumei meu top preto de alças grossas e desci um pouco meu
short. Odeio o fato de ele ficar subindo, tudo porque minhas
coxas são excessivamente grossas.
:
— Vou pôr a música e quero ver o que cada uma consegue fazer
sem uma coreografia em mente — Professora Carter disse, e nós
caminhamos até a caixa de som. — Sejam criativas, deixem o
sentimento falar mais alto — completou, olhando para cada uma
de nós.

Quase ri. Se eu deixasse meu sentimento falar mais alto enquanto


danço, ficaríamos aqui por longas horas sem parar.

— Jenna, você primeiro — a mulher avisou, olhando para ela, que


estava atrás de mim.

Pelo canto do olho vi Jenna parar ao meu lado e amarrar o cabelo


claro e liso em um rabo de cavalo no topo de sua cabeça.

— Mantenha sua bunda gorda em mim, Ryen — ela disse, mas


permaneci com meus olhos na professora. — Assim, você
aprende como se dança bem — provocou, antes de ir até o centro
da enorme sala.

Minhas aulas de dança eram o meu refúgio, mas só até Jenna


Watson trocar de academia e vir parar justamente aqui. Faz mais
ou menos um ano que isso aconteceu.

Antes dela, todas as minhas colegas conversavam comigo


normalmente, mas depois que Jenna começou a espalhar os
boatos mais absurdos sobre mim, elas pararam de falar comigo.
Ela até inventou que eu já tinha a assediado no banheiro do nosso
colégio.

Nunca vou entender o motivo de ela me tratar assim, mas com


certeza ela deve passar por problemas familiares em casa. É a
única explicação lógica para isso.
:
A professora colocou uma música aleatória para tocar e Jenna
começou a dançar. Seus braços se moviam de maneira graciosa,
as pernas do mesmo jeito. O cabelo loiro balançava de acordo
com seus movimentos e ela pareceria um anjo se não gostasse
tanto de fazer da minha vida um verdadeiro inferno.

Ela estava muito mais perto de ser uma mensageira de satanás do


que uma figura divina.

— Ótimo! Parabéns, Jenna! — Professora Carter disse, olhando


para ela. — Mas tente se entregar mais, está tudo muito
automático — alertou, e Jenna arqueou a sobrancelha. — Agora
você, Ryen.

Jenna saiu do centro da sala e voltou ao seu lugar. Quando


passou por mim deu um pulo para o lado, como se eu fosse
contagiosa. As garotas riram e eu respirei fundo enquanto
caminhei até o centro da sala. A mesma música começou a tocar
e eu me desliguei do resto do mundo.

No instante seguinte, deixei meu corpo se envolver pelo som e era


como se o resto da sala tivesse sumido. A mobília, as pessoas e
até a música. Restavam apenas o turbilhão de sentimentos que
tenho guardado ao logo desses meses e os meus movimentos. Eu
era pura sintonia enquanto dava uma pirueta, então outra, e mais
outra.

O suor fez com que minhas roupas grudassem na minha pele e eu


senti meu coque ficar frouxo, mas não me importei. Queria
apenas colocar tudo pra fora, tudo o que não conseguia dizer com
palavras. Queria que minha mãe tirasse aquele homem da nossa
casa. Queria que o bullying na escola acabasse. Queria que
Raphael não se metesse em tanta confusão.
:
Parei de dançar quando a professora desligou a música, e eu
tentei recuperar o fôlego, meu peito subindo e descendo
acelerado. Ergui os olhos para as alunas, vendo Jenna e algumas
meninas cochicharem entre si. As ignorei e olhei na direção da
professora, foi quando escutei o som de palmas.

— Parabéns, Ryen, é disso que eu estou falando! — Ela sorriu para


mim e olhou para as outras garotas. — Vocês conseguem fazer
desse jeito? — perguntou.

Os próximos minutos se passaram com mais e mais


apresentações, seguidas por sermões e mais sermões. Quando a
aula acabou, reuni minhas coisas e vesti uma calça de moletom
cinza folgada, jogando minha mochila nas costas. Jenna passou
por mim e esbarrou em meu ombro, me fazendo dar alguns
passos falhos para o lado. Ela e as alunas riram e eu respirei
fundo. Estou cansada.

— Ryen, quero falar com você — A professora me fez parar de


andar.

Caminhei em sua direção.

— Algum problema? — perguntei, agarrando a alça da minha


mochila.

— Na verdade, não é bem um problema — ela disse, e sorriu para


mim. — Eu amei a sua dança, você está de parabéns.

Meu peito se encheu de felicidade e um sorriso se abriu em meus


lábios.

— Obri-…

— Você poderia perder alguns quilinhos?


:
O sorriso morreu em meu rosto e eu franzi o cenho com a
pergunta que me pegou desprevenida. E não acho que seja no
bom sentido. Na verdade, tenho certeza.

— Perder alguns quilos? Por quê? — perguntei, dando um passo


para trás.

— Embora sua técnica seja perfeita, seus quadris são um pouco


largos demais — ela falou, examinando meu corpo. — Suas pernas
são muito grossas e seu bumbum está ganhando muita forma,
sabe? — Seus olhos em meu corpo me fizeram querer cobri-lo.

Cerrei os punhos com força e mantive meus olhos nela. De fato,


meus quadris são um pouco mais largos do que os das outras
alunas, e minhas pernas são grossas e definidas. Minha cintura é
fina, mas nem tanto. E minha bunda tem um pouco de… volume?

Mas ainda assim não quero perder peso, gosto do meu corpo
assim.

Encarei a professora.

— Minhas coxas são grossas por causa da minha genética, e meu


bumbum é grande pelo mesmo motivo — respondi. — Quanto ao
meu quadril, sinto muito, mas não posso modificar minha
estrutura óssea.

— Não me leve a mal, Ryen. É apenas um conselho — Ela pôs a


mão em meu ombro. — Embora você seja minha aluna mais
talentosa, seus movimentos são um pouco pesados. Tente
emagrecer, talvez isso ajude.

Observei seu rosto com atenção, vendo algumas rugas nos


cantos de seus olhos. Perder alguns quilos? Realmente era
:
necessário?

Sem conseguir negar, me vi assentindo. Talvez isso deixasse


meus movimentos mais leves.

— Tudo bem.

A mulher sorriu de maneira animada e deu tapinhas no meu braço.

— Ótimo, eu sabia que você entenderia — ela disse. — Agora pode


ir, querida.

Lhe dei as costas e comecei a andar em direção a porta da sala,


pensando nas coisas que eu deixaria de comer para perder peso.
Era tudo pelo meu bem, e uns quilinhos a menos não matariam
ninguém. Não é?

Entrei pela enorme porta da minha mansão e encontrei mamãe


sentada no sofá. Ela estava lixando as unhas das mãos enquanto
suas pernas estavam cruzadas, vestindo uma saia preta colocada.
Seu cabelo escuro estava solto e jogado para trás, uma blusa fina
de alcinha agarrada a sua cintura.

Raphael e eu temos várias semelhanças com nossa mãe. Ela era


americana e possuía lindos olhos azuis. Entre meu irmão e eu,
Rapha era o que mais se parecia com ela, embora ele não tivesse
a cor de suas íris — e muito menos eu. Fora isso, ele era a cópia
fiel da nossa mãe.

Meu irmão tinha olhos castanhos e marcantes, e um cabelo


escuro como a noite, totalmente rebelde, que chegava um pouco
abaixo do queixo. Quando ele sorria, uma única covinha aparecia
em sua bochecha direita.

E eu? Bom, meu cabelo chegava até minha cintura e também era
:
preto feito a noite. Meus olhos eram um pouco mais claros que os
de Raphael, puxados para um tom avelã. E diferente dele, eu não
tinha covinha ao sorrir. Na verdade, não tinha nada que chamasse
a atenção.

Raphael apareceu no topo da escada vestindo uma calça de


moletom, sem camisa — como sempre — e com o cabelo
bagunçado. Porém, metade dos fios estavam amarrados para
trás.

— Me espera aqui, pirralha — ele mandou, voltando a


desaparecer.

Franzi o cenho e dei de ombros, andando até minha mãe e


atraindo seu olhar para mim. Joguei minha mochila em uma
poltrona e me sentei ao lado dela.

— Como foi a aula de dança, amor? — Mamãe sorriu para mim,


passando os dedos pelo meu coque.

— Foi boa — eu disse, não querendo entrar em detalhes.

O plano sobre como eu faria para perder peso ainda revirava


minha mente. E se eu ficasse sem comer e só fizesse uma
refeição por dia? Será que ajudaria?

— Está pensativa. Aconteceu algo? — Mamãe disse, e me tirou


dos meus devaneios.

Neguei com a cabeça e sorri.

— Não, apenas lembrei que tirei dez na prova de Matemática —


menti, mas não sobre a nota.

Minha mãe abriu um sorriso largo.


:
— Queria que seu irmão fosse como você — Ela revirou os olhos,
voltando sua atenção para as unhas.

Meu sorriso se desmanchou. Odeio quando ela faz isso.

— Mamãe, não seja tão má com o Rapha — Peguei sua mão, a


obrigando a parar o que estava fazendo. — Ele pode dar trabalho
no colégio, mas isso não o define.

Talvez meu irmão seja meio problemático mesmo, mas é a pessoa


que mais amo no mundo. Além de ser carinhoso, engraçado e
corajoso. E sei que ele é inteligente, apenas não se importa com
os estudos como deveria.

— Define sim — Mamãe afastou minha mão. — Ele está virando um


vagabundo, um rebelde. É até mesmo uma má influência para
você.

Arregalei os olhos diante da acidez de suas palavras. Ela fala do


meu irmão com tanto desprezo…

— Não se preocupe, mamãe. Vou garantir que a Ryen não se


transforme em um Raphael 2.0.

Escutei a voz do meu irmão e olhamos juntas em sua direção, o


vendo descer as escadas enquanto segurava uma caixa e
mantinha um cigarro nos lábios.

— O que eu já falei sobre fumar aqui dentro? — Nossa mãe se


levantou do sofá, olhando para Rapha de maneira séria.

— Sei lá, parei de escutar assim que você abriu a boca — meu
irmão debochou quando desceu o último degrau da escada.

Engasguei ao escutar isso e olhei para nossa mãe, vendo seus


:
dedos se apertarem ao redor da lixa de unha.

— Você está cada vez mais rebelde! — ela disse, irritada, o


encarando.

Meu irmão andou até uma poltrona e colocou a caixa sobre a


mesma. Foi então que notei cinco buraquinhos nela.

— O jeito vai ser me pôr em um colégio interno e esperar que eu


forme uma banda — Ele apertou o cigarro entre os dedos e soprou
a fumaça.

Segurei a risada que quis escapar de mim e cobri minha boca com
as duas mãos, tentando controlá-la. Não ri, não ri.

Nossa mãe soltou um gritinho de raiva e começou a andar rápido,


subindo as escadas praticamente correndo. A assisti sumir e
dirigi meu olhar para Rapha, o vendo passar os dedos pelo cabelo
castanho-escuro bagunçado.

Coloquei as mãos na cintura.

— Você adora provocar ela.

— É amor reprimido, hermanita — Ele piscou para mim, a fumaça


saindo por entre seus lábios.

Ergui uma sobrancelha.

— Posso provar?

Rapha me encarou, e ao ver meus olhos no cigarro, arqueou uma


sobrancelha, me olhando como se eu fosse louca.

— Se quiser que eu te jogue de uma ponte, sim — Ele deu de


ombros.
:
Cruzei os braços.

— Eu não tenho medo de altura, Rapha — Sorri de lado e também


arqueei uma sobrancelha. — E você, além de fumar cigarro, fuma
maconha e usa outras drogas. Meio que não tem muita moral.

Meu irmão sorriu em deboche, revelando a covinha direita, e


andou na minha direção, agarrando meu nariz entre os dedos
quando parou diante de mim.

— Escuta aqui, pirralha — Ele me olhou. — O dia em que eu te


deixar usar uma dessas merdas, vai ser o dia em que vou chupar o
pau do Callum e chamá-lo de “papai” — desdenhou.

— Hipócrita — bufei e apontei o dedo na cara dele.

— Eu sou eu, porra — ele disse, e me segurou pelos ombros de


maneira gentil. — Prometa para mim que mesmo que a sua vida
esteja a pior merda, você nunca vai pôr um cigarro na boca.

Ergui as sobrancelhas.

— E aspirar droga pelo nariz, pode?

Raphael soltou um grunhido e deu uma longa tragada em seu


cigarro.

— Você acredita mesmo que eu acho o cheiro dessa porra


agradável? — Ele soprou a fumaça em meu rosto e eu fiz uma
careta, começando a tossir. — Achou cheiroso?

Enruguei o nariz e dei um passo para trás.

— Nem um pouco, você cheira a frango queimado — neguei.

— Então promete pra mim — ele pediu, agarrando meus ombros


:
com mais firmeza, o piercing brilhando em seu lábio.

O cheiro do cigarro era tão ruim que cobri o nariz.

— Eu prometo — assenti várias vezes.

Ele me soltou e deu um passo para trás. Enfiou a mão esquerda no


bolso de sua calça de moletom e segurou o cigarro entre os dedos
da direita.

— Ótimo — ele disse, e indicou a enorme caixa com o queixo. —


Trouxe o seu presente de aniversário.

Franzi o cenho e andei até a caixa.

— Mas meu aniversário ainda é daqui a três dias.

— Não me responde, só abre — Rapha mandou.

Ignorando o cheiro forte, abri a caixa e arregalei os olhos. Um


gritinho de empolgação escapou dos meus lábios e olhei para
Raphael.

— Eu não acredito! — gritei, tirando um filhote de cachorro de


dentro da caixa.

Ele cutucou meu nariz com o pequeno focinho molhado e eu sorri.


Seu pelo curto era preto e suas orelhas grandes e caídas.

— Sabia que ia gostar — Raphael sorriu.

— Qual a raça dele ou dela? — perguntei, observando o filhote.

— É um doberman. Tem apenas dois meses de vida e é um macho.

Ri alto e, com cuidado por estar segurando o filhote, corri até meu
:
irmão. Envolvi seu pescoço com meu braço livre e o apertei forte.

— Merda, Ryen, você vai se queimar com o cigarro! — Rapha


disse, esticando o braço para longe.

— Obrigada, hermanito, eu amei! — Eu sorri, eufórica. — Melhor


presente do mundo todo!

Com seu braço livre, Raphael se enroscou em minha cintura e


devolveu o abraço.

— Prova isso fazendo minhas atividades do colégio — ele disse em


meu ouvido.

O belisquei bem em cima da tatuagem de aranha que ele tinha na


costela e me afastei, o vendo com uma expressão de dor.

— Palhaço — resmunguei e olhei para o filhote. — Como ele vai se


chamar?

— Sei lá, o cachorro é seu — Rapha deu de ombros.

Eu o fuzilei com o olhar.

— É sério, me ajude com o nome. Não consigo pensar em nada —


pedi, beijando a cabecinha do filhote.

Raphael encarou o cachorrinho e jogou o cigarro no chão, pisando


em cima. Mamãe vai matá-lo, mas estou feliz demais com meu
novo filho para pedir que ele apanhe.

— Hum… — Ele inclinou a cabeça para a esquerda. — Que tal


“Killer”?

Fiz uma careta.


:
— Assassino em inglês? — perguntei. — Não combina, ele é
fofinho.

— É um doberman, Ryen. Comprei ele para te proteger. Ele nasceu


pra isso, tem uma das mordidas mais fortes do mundo.

Arregalei os olhos.

— Caramba, então Killer combina muito com ele! — Sorri,


admirada.

Meu irmão sorriu e mexeu no bolso direito de sua calça de


moletom, tirando de lá o que parecia ser um canivete.

— Isso também faz parte do seu presente — Esticou o objeto na


minha direção.

Peguei o presente com a mão livre.

— Por que você está me dando um canivete? Está formando uma


gangue e quer que eu entre nela? — fiz cara de espanto, fingindo
estar assustada.

Rapha riu e revirou os olhos.

— Isso também é para proteção.

Encarei o canivete, vendo um pequeno “R” gravado na parte


vermelha.

— Isso é seu? — Olhei para meu irmão.

— Era — ele me respondeu, e sorriu antes de beliscar meu nariz. —


Agora é seu.

Sorri e dei um beijo em sua bochecha.


:
— Obrigada! Você arrasou nos presentes esse ano, eu amei!

— E tem que amar mesmo, gastei a porra da minha mesada inteira


nesse cachorro — resmungou. — Mas você merece algo legal, não
é todo dia que se faz quinze anos.

Ignorei a última parte e foquei na que mais me revoltou.

— Não fala assim do seu sobrinho — Apertei o cachorro contra


mim delicadamente.

Ele sorriu e olhou ao redor, como se quisesse se certificar de que


estávamos sozinhos. Então abaixou a cabeça, um fio castanho
caindo sobre seus olhos.

— Eu tenho que te apresentar a alguém.

— Uma garota ou um garoto? — Sorri maliciosamente.

Rapha piscou, surpreso.

— Como… Como você sabe? — ele perguntou, chocado.

Eu ri baixinho.

— Te vi beijando um garoto ano passado.

No início, fiquei surpresa. Pensava que Rapha gostava apenas de


garotas. Mas não achei estranho, só chocante. Ele nunca tinha
conversado comigo sobre isso, então preferi não dizer nada e
esperei que ele me contasse.

Rapha franziu o cenho.

— E tudo bem pra você?


:
— Por que não estaria? O que isso muda?

Sorrindo de lado, Rapha bagunçou meu cabelo, algo brilhava em


seus olhos. Meu palpite é que talvez aquilo fosse alívio por não
precisar mais se esconder de mim.

— Pelo visto, você está crescendo mesmo.

Afastei sua mão para preservar o que restava do meu coque.

— Só você e Kellan que não veem isso — Ergui as sobrancelhas. —


Mas então, você é bi?

— Não gosto de me rotular — ele respondeu, dando de ombros. —


Eu gosto de pessoas.

Assenti com a cabeça.

— Mas me diz, é cunhadinho ou cunhadinha? — perguntei —


Quem amarrou meu hermanito?

Raphael contorceu o rosto em uma careta, me deu as costas e


começou a subir as escadas com as mãos nos bolsos, claramente
se recusando a me responder. Suas costas se moveram com a
ação e eu desviei meu olhar para Killer, que tentava lamber minha
bochecha.

Sorri e peguei minha mochila, subindo para meu quarto com meus
presentes de aniversário.

Vesti uma calça de pijama repleta de corações, uma regata


branca, e trancei meu cabelo para que ele não embaraçasse
enquanto eu durmo. Saí da frente do espelho quando terminei e
olhei para Killer, deitado em um dos meus travesseiros,
descansando tranquilo. Brincamos até ele adormecer, e embora
:
eu já tenha providenciado uma caminha para ele, não quis colocá-
lo nela. Só hoje, vamos dormir juntos.

Andei até minha penteadeira na intenção de ver a hora em meu


celular e arregalei os olhos. Já era meia-noite! O tempo passou
como um foguete enquanto eu brincava com Killer. O pior é que
eu sabia que é sempre depois desse horário que ele invade meu
quarto. E mesmo que eu tranque a porta, sei que ele vai conseguir
entrar, é sempre assim. Mas hoje seria diferente.

Peguei a cama de Killer do chão e corri até ele, o segurando com


cuidado e o pondo sobre a mesma. Abri a porta do meu quarto
enquanto olhava para meu filhote e a fechei cuidadosamente.
Quando me virei, dei de cara com um peito largo, vestido com
uma regata preta. Meu sangue gelou e abaixei a cabeça,
apertando meus dedos ao redor da cama de Killer.

— Para onde está indo, Ryen? — Callum perguntou, a voz grossa


me dando arrepios. — Já está tarde.

Me forcei a dar um passo para trás, porém meus pés não se


moveram.

— Estou indo dormir com meu irmão — respondi, minha voz baixa.

Ele ia entrar no meu quarto. Tenho certeza disso.

— Quem te deu esse cachorro? — Callum perguntou.

— Meu irmão.

Prendi a respiração quando a enorme mão de Callum acariciou


minha cabeça e ergui o rosto para ele, o vendo sorrir para mim.
Seu olhar esverdeado desceu para meus seios e me arrependi
amargamente de não ter vestido um sutiã. Há três meses eu perdi
:
a liberdade de dormir do jeito que eu quero, mesmo que eu
tranque a porta do meu quarto.

Tornei a abaixar a cabeça e apertei a caminha de Killer na altura


de meus seios, os cobrindo.

— Por que não me disse que queria um cachorro? — Callum


acariciou minha orelha e eu me contorci, desconfortável, me
sentindo enjoada. — Eu teria comprado para você.

Com o dinheiro da minha mãe.

— Não precisa, muito obrigada — Dei um passo para trás,


finalmente conseguindo me afastar de seu toque.

Ele nunca tinha encostado em mim enquanto estou acordada.

— É melhor você dormir no seu quarto — A voz de Callum saiu


como um comando e eu engoli em seco.

Não. Você vai esperar que eu durma, e então vai invadir meu
quarto. Vai tocar em lugares que nem mesmo eu já toquei.
Naquele dia sua mão ia para a região entre minhas pernas, e eu
não sou burra, sei muito bem o que você iria fazer lá.

— Não quero — sussurrei, com a voz falha, trêmula.

Ele deu um passo em minha direção, é tão assustador.

— Eu disse que é melhor…

Desviei de Callum e corri para o quarto do meu irmão, apertando


Killer contra meu corpo. Meu coração bateu rápido dentro do
peito e me recusei a olhar para trás. Consigo muito bem sentir os
olhos dele em mim enquanto corro.
:
Abri a porta do quarto de Rapha e a fechei, apoiando minhas
costas sobre ela. Respirei fundo para me acalmar e olhei para
Killer, ainda dormindo sereno, nada mais do que uma bolinha
preta na almofada amarela.

— Ryen…? — A voz grogue de Raphael atingiu meus ouvidos e eu


olhei para ele.

O cabelo do meu irmão estava bagunçado e seu rosto tinha


marcas de sono. Ele estava sem camisa e a corrente de prata
pendurada em seu pescoço reluzia na pouca luz do quarto.

— Posso dormir com você? — perguntei, caminhando até o pé de


sua enorme cama.

Raphael franziu o cenho.

— Por quê?

— Vi uma aranha no meu quarto — respondi a primeira coisa que


me veio à mente.

Eu tenho fobia de aranhas, morro de medo, não importa o


tamanho delas. Então sabia que meu irmão não iria me questionar.

— Vem, pirralha — ele me chamou, bocejando e batendo a mão no


espaço vazio ao seu lado.

Coloquei Killer no chão e andei até a cama, tirando minhas


pantufas rosas e subindo no colchão. Virei de costas para Rapha e
senti ele me abraçar por trás e me puxar contra seu corpo,
enfiando o rosto no meu cabelo.

— Que fedor — ele murmurou.


:
Lhe dei uma cotovelada.

— Cala a boca, idiota.

Ele riu e me apertou ainda mais, o que me deu uma sensação de


proteção. Olhei para a porta, pensando se Callum teria a coragem
de passar por ali também. Se seria capaz de me tocar mesmo com
o meu irmão logo atrás de mim. Me encolhi.

— Raphael? — o chamei.

— Hum…? — ele murmurou, de maneira arrastada.

Umedeci meus lábios ressecados.

— Tenho uma amiga que, bom, ela vem sendo importunada pelo
tio “daquele jeito”, sabe? E dentro da casa dela — comecei,
nervosa. — O que ela deveria fazer?

— Matar ele.

— Ele tem o dobro do tamanho dela.

— Então ela tem que mandar matar ele — Raphael respondeu.

Engoli em seco.

— Nem sempre a morte resolve tudo — eu disse.

— Nesse caso, resolve sim. — Sua voz agora era fria. — Pedófilos
e abusadores merecem a morte, Ryen.

Mordi meu lábio com força, lutando para manter a pergunta


apenas para mim. Mas não consegui me conter.

— O que você faria se isso estivesse acontecendo comigo? —


:
perguntei lentamente, minha voz baixa.

— Eu mataria o filho da puta.

Tornei a morder meu lábio, dessa vez com mais força.

— Você seria preso.

Sinto Rapha colar seu queixo na parte de trás da minha cabeça.

— Eu iria para a prisão contente, Ryen. A satisfação de saber que


o desgraçado que te fez mal está morto me faria ver a cadeia
como um retiro de férias.

Procurei sua mão, que estava na lateral do meu corpo, e a apertei.

— Você acabaria com sua vida se fizesse isso — sussurrei.

Rapha riu, mas era uma risada sem humor.

— Você é a pessoa que mais amo no mundo, Ryen. O pontinho de


luz da minha vida, a única parte boa e pura que consegui
preservar — Rapha me apertou contra si. — Se você estivesse se
afogando no mar, eu te daria meus pulmões, assim você poderia
respirar — ele completou, e beijou meus cabelos.

Me senti angustiada e uma lágrima grossa desceu por minha


bochecha.

— Eu também te amo muito, Rapha — Mantive minha voz firme,


contendo um soluço.

Não posso contar nada a Raphael, ele mataria Callum. Destruiria


sua vida e perderia sua adolescência na prisão, tudo por minha
culpa.
:
— Você é a razão pela qual eu ainda moro nessa porra de mansão
— Rapha continuou. — Mas quando eu fizer vinte e um anos e
receber minha parte da herança que o papai deixou para nós, vou
te tirar daqui e vamos morar juntos.

Me esforcei para conter as lágrimas e assenti com a cabeça, me


espremendo contra ele. Alguns minutos depois, senti sua
respiração ficar pesada e calma, sinalizando que ele dormiu.

Raphael disse que só mora na nossa casa por minha causa, mas
tudo que eu mais quero é que ele me tire daqui.

“A favorita do professor

Se eu sou tão especial, por que eu sou um segredo?

É, que porra é essa?”

Melanie Martinez – Teacher’s Pet

Desci as escadas correndo, minha mochila chacoalhando de um


lado para o outro. Na metade do caminho para a sala de jantar,
puxei minha meia branca para cima quando ela escorregou, e
segui meu trajeto pulando em um pé só.

Quando adentrei a sala de jantar, encontrei Kellan e meu irmão


tomando café da manhã. Ambos me encararam, franzindo o
cenho ao verem como eu estava ofegante. Para piorar a situação,
minha tiara escorregou da cabeça, forçando a franja a tapar
minha visão.

— Que merda é essa? — Rapha perguntou primeiro.

Arranquei minha tiara e soprei minha franja, a fazendo voar. Então


a joguei para trás, o que permitiu que eu visse que os dois já
:
estavam quase terminando a refeição.

— Eu não queria me atrasar de novo — falei, devolvendo minha


tiara para o lugar.

Desviei meu olhar para Kellan, que levou o copo de suco aos seus
lábios, os olhos fixos em seu celular. Para mim já era normal tomar
café da manhã com ele. E graças à proximidade de nossas
famílias, ele vive aqui em casa, e vice-versa. Eu só queria que
esse fato fosse suficiente para nos tornarmos próximos. Pelo
menos um pouco.

— E por isso corre que nem uma doida? — Rapha fez uma careta,
o piercing em seu nariz chamando a atenção.

— Não quero levar outro sermão — respondi, olhando para Kellan.

Como alguém consegue ficar tão bonito com o uniforme escolar?

— Kellan não vai te dar um sermão — Rapha disse, e olhou para o


melhor amigo. — Não é?

Kellan ergueu os olhos do celular e os mirou em mim; eles eram


tão intensos e misteriosos que senti os pelos do meu corpo se
arrepiarem. Em seguida, ele encarou meu irmão e voltou a
atenção para o telefone.

— Não responda por mim — É tudo que ele disse.

Idiota. Babaca.

— Estou apenas apontando um fato — Meu irmão sorriu, jogando


uma uva na boca. — Você não vai dar um sermão nela por causa
de um atraso de dois minutos.
:
Debochado, Kellan deu uma risada e deixou o celular cair sobre a
mesa.

— Dois minutos? — Ele ergueu as sobrancelhas e revirou os olhos.


— Semana passada a sua irmã me fez esperar por meia hora.

Estreitei meus olhos na direção dele.

— Eu tenho um nome! — exclamei, atraindo sua atenção para mim.

Ele ergueu uma sobrancelha escura, os cantos de sua boca se


erguendo em um sorriso maldoso.

— Ah, é? Qual, pirralha? — Kellan questionou, com falsa inocência.

O fuzilei com o olhar, tentando controlar as borboletas que


brotavam em meu estômago toda vez que ele me encarava.

— Deixa ela em paz, hijo de puta — Meu irmão jogou uma uva na
testa dele, que o olhou feio. — Cadê o Killer? — ele perguntou, se
virando para mim.

— Dormindo no meu quarto — Eu sorri largamente.

— Quem é Killer? — Kellan perguntou, me encarando.

— Meu cachorrinho! — Apertei as alças de minha mochila.

— Quem te deu um cachorro? — Ele arqueou a sobrancelha.

— Eu — meu irmão respondeu, mordendo uma torrada.

Desviei meus olhos para Kellan.

— Você quer ver ele? — perguntei, animada. — Quer? Que bom!

Antes que Kellan pudesse abrir a boca e negar, tirei meu celular
:
de um dos bolsos da mochila e o desbloqueei, entrando na minha
galeria. Passei pelas mais de cem fotos que tirei de Killer e
quando achei minha favorita andei rapidamente até Kellan,
parando ao seu lado.

— Olha como ele é fofo! — Mostrei a foto de Killer a Kellan, quase


esfregando o celular em sua cara.

Ele analisou bem a imagem e mudou seu olhar para meu irmão.

— Você deu um doberman a Ryen? — ele questionou.

Tentei ignorar o arrepio que subiu pelo meu corpo ao ouvir meu
nome sair dos lábios de Kellan e mordi o interior de minha
bochecha. É raro ele pronunciar meu nome, mas sempre que o
faz, fico boba.

— Sim — Rapha respondeu, de maneira simples. — Mandei bem,


não foi? — Ele sorriu, brincando com o piercing em seu lábio.

Kellan gargalhou, sarcástico.

— Pra caralho — ele debochou. — Agora entendo o porquê do


nome “Killer”.

— Mas Killer não é bravo, ele é fofo — assenti várias vezes com a
cabeça. — Quer ver um vídeo dele brincando com o meu ursinho
de pelúcia? — perguntei, arregalando levemente os meus olhos
em expectativa.

Ao notar o que disse, contive a vontade enorme de bater em


minha própria cara. Ursinho de pelúcia, Ryen? Sério?

Ele analisou meu rosto por alguns segundos e eu senti minhas


bochechas se aquecerem, torcendo para que ele não notasse. A
:
última coisa que eu precisava agora é que Kellan descobrisse que
a irmã do seu melhor amigo é perdidamente apaixonada por ele.
Era só o que me faltava.

— Mostra — ele disse, me surpreendendo.

Não consegui conter o sorriso mínimo que surgiu em meu rosto e


virei a tela para ele, mostrando um vídeo de Killer tentando
morder meu ursinho. Kellan se inclinou em minha direção para ver
melhor e eu senti meus nervos ficarem à flor da pele.

Acalme-se, Ryen. É só o melhor amigo do seu irmão.

— Deixe a mão quieta, você está tremendo demais — A mão de


Kellan envolveu meu pulso direito, o mantendo firme. — Desse
jeito eu não consigo ver.

Engoli em seco.

— Talvez seja mal de Parkinson — Soltei uma risadinha nervosa.

Vi os lábios de Kellan se curvarem indicando um sorriso, enquanto


ele mantinha seus olhos em meu celular e sua mão em meu pulso.
Ok, acho que estou ficando louca.

O toque de sua mão sob a minha pele era quente e eu senti o local
formigar de um jeito bom. Acabando com minha alegria, vi outra
mão arrancar a de Kellan do meu pulso e se meter entre nós.

— Mierda, se afastem um do outro, caralho! — Raphael mandou, o


rosto contorcido em fúria.

— Qual a porra do seu problema, idiota? — Kellan é quem


perguntou por mim, ficando em pé. — Sua irmã só estava me
mostrando um vídeo.
:
E lá estava esse título estúpido de novo. Não tinha nada de
anormal no jeito que Kellan se referia a mim para o meu irmão, era
sempre “ela”, “pirralha”, ou o meu preferido, “sua irmã”.

— É — concordei, a contragosto. — Nada demais.

— Foda-se, não gostei da aproximação repentina — Rapha


resmungou, cruzando os braços.

Encarei meu irmão, com raiva, e respirei fundo para não surtar.
Não posso dar tanto na cara.

— Vamos logo, não quero me atrasar — chamei, guardando meu


celular na mochila.

— Mas você ainda não tomou café — Rapha uniu as sobrancelhas.

— Não estou com fome — respondi, passando por ele com a


intenção de sair da sala de jantar.

Senti alguém me puxar para trás pela mochila e olhei para ver
quem era, avistando Raphael.

— O que é isso? — perguntei, tentando me soltar.

— Por que não quer comer? — ele me ignorou.

Eu ia manter a boca calada, mas senti os olhos de Kellan em mim


e olhei rapidamente para ele. Ele me encarou com a sobrancelha
arqueada, parecendo esperar uma resposta minha tanto quanto
meu irmão.

Por fim, eu suspirei.

— Quero perder peso.


:
Rapha me olhou como se eu fosse louca, e me aproveitei de sua
distração para me livrar de seu agarre.

— Perder peso? Que porra é essa? — Ele cruzou os braços. —


Quem te disse que você precisa perder peso?

Mordi o interior da minha bochecha, pensando se eu conseguiria


fugir da sala de jantar e não responder a essa pergunta.

— Ninguém. Eu que penso assim — Dei de ombros.

Meu irmão segurou o nó de sua gravata, a afrouxando de maneira


brusca. Kellan apenas manteve seu olhar em mim, sem dizer
nada.

— Você só pensa merda, não é? Senta essa bunda na cadeira e


come. Agora — ele ordenou, a voz séria.

Arqueei uma sobrancelha e ri, com incredulidade.

— Você não manda em mim.

Dando seu típico sorriso de lado, Rapha veio lentamente em


minha direção, me circulando, como se fosse me atacar. Seu rosto
demonstrava o quanto ele queria pular no meu pescoço.

— Ah, eu mando — ele afirmou, curvando o corpo para ficar da


minha altura. — E nesse exato momento você vai sentar-se à
mesa e comer o suficiente para uma semana.

Apertei minhas mãos em punhos, repentinamente irritada.

— Você não enxerga que tenho que emagrecer?! — perguntei,


nervosa, erguendo o rosto para ele. — Minhas coxas grossas e
meu quadril largo estão deixando meus movimentos de dança
:
pesados!

Raphael me olhou com descrença.

— O que uma coisa tem a ver com a outra? — ele debochou, se


afastando alguns passos de mim. — Seu corpo está ótimo… não
olha, porra! — ele esbravejou, se direcionando para alguém atrás
de mim.

Sigo seu olhar em tempo de conseguir um vislumbre de Kellan


encarando minhas pernas.

— Eu não estava olhando — Ele deu de ombros e agitou a mão


como se nos dispensasse.

Sinto minhas bochechas se aquecerem.

— Ah, claro que não — Rapha ironizou. — Merda, ela nunca vai
chegar perto de homem nenhum!

Franzi o cenho e coloquei as mãos na cintura.

— Um dia eu vou ter um namorado e você vai ter que encarar isso.

A parte de trás da minha nuca queimou e eu engoli em seco,


sentindo a região formigar. É como se estivessem me
assassinando com os olhos.

— É, Raphael, uma hora ou outra ela vai ter que namorar — Ouvi
Kellan se pronunciar, a voz calma.

Fiz menção de me virar, mas prendi a respiração ao perceber que


ele estava logo atrás de mim. O que ele está fazendo?

Raphael o fuzilou com o olhar.


:
— Sai de perto da minha irmã, hijo de puta. Ou eu juro… — Ele se
calou quando viu Kellan me segurar pelos ombros.

E nesse exato momento, eu não estava mais segurando a


respiração, eu apenas não sabia mais como respirar. Meu cérebro
estava dando um curto-circuito.

— Você o quê? Vai me bater, Raphael? Estou apenas dizendo a


verdade — Kellan provocou, suas mãos em meus ombros, firmes.
— A pequena Ryen está crescendo, cara. Ela não é mais uma
criança, você sabe disso.

A expressão de Rapha se contorceu em pura raiva e Kellan se


inclinou em minha direção, seu rosto ficando ao lado do meu.
Consegui sentir o cheiro do seu perfume e tudo o que eu mais
queria era me aproximar ainda mais dele.

— Eu vou matar você — Meu irmão falou. Não, ele prometeu.

Senti Kellan deslizar as pontas dos dedos por meus braços e


engoli em seco. Eu estava amando tudo aquilo. Ele nunca tinha
ficado tão perto de mim, e mesmo que eu soubesse que era para
provocar meu irmão, não conseguia conter a excitação.

— Com essas mãozinhas de princesa? Duvido muito — Vi Kellan


sorrir.

— Eu vou acabar com esse seu rostinho e seu cabelo


perfeitamente arrumados — Rapha literalmente rosnou.

— Estou te excitando, estou? — Kellan questionou, irônico, um


sorriso malicioso brincando em seus lábios.

— Porra, pra caralho — Rapha sorriu, cruel, uma veia saltando em


sua testa e a covinha do lado direito aparecendo.
:
— Que pena, porque tem uma pessoa que está ganhando minha
atenção no momento, e não é você — A voz de Kellan ficou mais
grave, seus dedos não ultrapassando mais do que meus braços.

Estou para morrer.

— Você está fodido na minha mão — meu irmão avisou.

Kellan riu, uma risada grave e profunda, arrepiando todos os pelos


do meu corpo.

— Não se preocupe, cara. Não me excito por crianças — ele


pronunciou, tirando as mãos de mim.

Ao mesmo tempo que quis gritar por ele ter se afastado, desejei
bater nele por me chamar de criança. Isso acaba de me dar um
baque e tanto.

— Isso — Raphael disse, andando até nós. — Agora sai de perto


dela.

Eu que deveria mandar Kellan se afastar de mim. Mas não queria


isso.

— Porém… — Kellan disse, voltando a agarrar meus ombros. — Ela


não é mais uma criança, é?

Foi tudo muito rápido, e só tive tempo de sentir os lábios de Kellan


em minha bochecha esquerda. Meu corpo travou e meus olhos se
arregalaram, desacreditados. Ele me beijou.

Kellan Royal…

Me…

Beijou!
:
Ok, não foi um beijo “de verdade”; mas ainda assim, ele me beijou.

— Eu vou matar você, filho da puta! — Rapha gritou, avançando


em nossa direção.

Rindo alto, Kellan me soltou e começou a correr para longe. Levei


minha mão até a bochecha e sorri minimamente. Não acredito,
não acredito!

— Ryen? — meu irmão chamou, e eu olhei para ele, o vendo


parado na entrada da sala de jantar. — Faça um sanduíche e
venha.

Em seguida, ele se virou e voltou a correr atrás de Kellan. Deus, eu


sou patética.

Quando entrei na sala, Jenna parou de conversar com suas


amigas, e, com os olhos, me acompanhou até que eu me sentasse
em minha cadeira. Contudo, antes de fazer isso conferi se o
assento não estava sujo de ketchup ou algo assim.

Olhei para Jenna, notando em sua cabeça o que parecia ser a


minha tiara, enfeitando seu cabelo liso e loiro. Ela sorriu para mim
com desdém, e eu desviei o olhar antes que vomitasse nela. Não
foi ela quem disse que minha tiara era brega?

Me virei para o lado e encontrei Brianna sentada próxima a mim. O


cabelo preto amarrado para cima e uma maquiagem leve em seu
rosto, não é como se ela precisasse de muita. Argolas douradas
enfeitavam suas orelhas e um bracelete de ouro envolvia seu
pulso direito. Ela estava perfeitamente arrumada, assim como eu.
Porém, Brianna parecia deslumbrante de uma forma que eu nunca
seria. Seu rosto estava totalmente pensativo e seus olhos vagos,
observando o nada. O que estaria se passando em sua cabeça?
:
Confesso que eu estava morrendo de curiosidade.

— Rapha!

— Ele é tão lindo!

— Oi, Rapha!

Ao escutar o nome do meu irmão ser pronunciado pelas garotas


da minha turma, desviei meus olhos de Brianna e encarei a porta
da sala; Raphael estava parado lá, me olhando. Franzi o cenho.

— Vim aqui convidar todos vocês para o aniversário da Ryen,


minha irmã — Rapha anunciou, olhando para meus colegas. — Ela
fará quinze anos em dois dias.

Não, não. Cale a boca, Raphael!

— Nossa, nós vamos amar ir! — Jenna disse, olhando para meu
irmão, com um largo sorriso estampado no rosto.

Aquilo era totalmente diferente do sorriso que ela sempre me


dava. Falsa nojenta.

— Por que a Ryen mesma não nos convidou? — Scott perguntou,


um sorriso falso surgindo em seus lábios.

Porque não quero vocês lá.

— Caramba, tinha até me esquecido da minha festa de


aniversário.

— A Ryen é tímida — Rapha piscou um olho na minha direção.

Me encolhi na cadeira, desejando que meu irmão apenas calasse


a boca e fosse embora, cancelando o convite.
:
— Sendo assim, nós aceitamos! — Jenna bateu palminhas. —
Somos muito amigos da Ryen.

A olhei com incredulidade. Ela só podia estar de brincadeira.

Ao meu lado, escutei uma risada debochada, e sabia que tinha


vindo de Brianna, como se nem ela mesma pudesse acreditar na
cara de pau de Jenna.

— Tá, espero vocês lá — Rapha disse, e em seguida se virou, indo


embora.

Meus colegas começaram a sussurrar entre si, parecendo


animados com minha festa. Embora nem todos da classe
fizessem bullying comigo, todos davam risada das piadinhas e
brincadeiras sem graça. Não queria nenhum deles em meu
aniversário, mas se eu dissesse isso a Rapha, ele questionaria o
porquê, e então me pressionaria até que eu dissesse a verdade.

Preferia não criar problemas.

— Estou magoado com você, Ryen. — Scott disse, chamando


minha atenção para si. Ele fez beicinho. — Não ia nos convidar
para sua festa?

Maldita hora que me recusei a ficar com o Scott no nono ano.


Desde então, ele vivia me irritando.

— Pensei que uma das herdeiras da Café Emporium seria mais


educada — Jenna jogou seu veneno, um sorriso cruel em seus
lábios cobertos com gloss rosa.

De soslaio, vi Brianna olhar para seu celular e, em seguida, se


levantar de sua cadeira de madeira brusca, saindo da sala
depressa.
:
— Ah, dá um tempo, Jen — Scott falou. — O irmão disse que ela é
tímida.

— Eu também seria se tivesse mijado nas calças — Jenna pôs a


mão sobre o peito, me olhando com falsa empatia. Os outros
alunos riram.

Apertei os dedos no tecido de minha saia, estava cansada disso


tudo. Sem pensar muito, ergui o rosto para Jenna.

— Deja de hacerme enojar y métete en tus propios asuntos,


perra.

Assim que terminei de falar, arregalei meus olhos, sem acreditar


em minhas próprias palavras. Quase ri, surpresa comigo mesma.

— Que porra você disse, hein? — Jenna se levantou de sua cadeira


de modo abrupto, um sorriso incrédulo brotando em seus lábios.
— Você me xingou em mexicano?

— Em espanhol — corrigi.

Cala a boca, Ryen. Cala a boca.

— E ainda teve a coragem de te corrigir, Jenna — Scott riu,


parando ao lado dela. — A mijona decidiu pôr as garras pra fora.

— Eu vou acabar com você — a loira disse, vindo em minha


direção.

Arregalei os olhos, pensando em como me safaria dessa. Não era


exatamente boa de briga, na verdade nem tinha como eu saber,
se nunca briguei. Porém a maneira como Jenna estava vindo até
mim agora era assustadora.
:
— Sentem-se, a aula já vai começar — Escutei a voz do professor
e olhei para ele.

Jenna parou no lugar e me encarou, com puro ódio. Engoli em


seco.

— Professor, posso ir ao banheiro? — Ergui a mão.

Ele me encarou como se pensasse no pedido, e então assentiu.


Corri para fora da sala em tempo de sentir os olhos de Jenna em
minhas costas, me fuzilando. Ela não ia deixar isso barato. Tenho
certeza de que ela ia querer retribuir a afronta. Jenna não entende
espanhol, mas sabe que a xinguei, tenho certeza disso. Ainda
assim, não posso negar que estou feliz por confrontá-la pela
primeira vez, mesmo que em outro idioma. Nunca agradeci tanto
por ser mexicana.

Naquela manhã, quando pisei no colégio, tinha decidido que nada


iria estragar meu dia; tudo graças ao beijinho na bochecha que
Kellan me deu. Pode parecer pouco, mas para mim, foi tudo. Ele
nunca tinha chegado tão perto. Ainda podia sentir o lugar que ele
beijou, formigar, me fazendo ter certeza de que aquilo realmente
aconteceu.

Quando passei pela porta da sala de Artes, parei, lembrando que


tinha que pegar livros novos. Jenna molhou os meus na semana
passada e eu estava sem desde então. Dei meia-volta, sem muita
vontade, e estava prestes a botar a mão na maçaneta quando a vi
entreaberta. Ergui meus olhos e, pela brecha, consegui ver… não.
Simplesmente, não.

Me recusei a acreditar no que meus olhos estavam vendo. Brianna


estava sentada sobre a mesa do professor, o próprio entre suas
pernas. As mãos dele descansavam em suas coxas, as
:
acariciando, enquanto a prima de Kellan sorria de maneira doce.

— Você ia mesmo terminar comigo? — Brianna perguntou,


circulando o pescoço do nosso professor de Artes, Henry.

Tentando escutar e ver melhor, eu me aproximei. Sim, eu sou


curiosa.

— Tente entender, linda. Minha vida está uma bagunça — ele


disse, a puxando para mais perto.

Oh, meu Deus.

— Ainda assim, isso não é motivo para você tentar terminar


comigo por mensagem — Brianna o olhou, com raiva, o segurando
pela gravata azul.

— Estamos juntos agora, não estamos? — O professor sorriu, se


inclinando para beijar a prima de Kellan.

De jeito nenhum isso estava acontecendo.

— Matei aula só para te ver — A garota sorriu, mordendo o queixo


dele.

Vi as mãos do professor subirem para a bunda de Brianna e a


apertarem; aquilo me causou enjoos.

— Você está sendo tão levada, Bree… — Ele sorriu, mordiscando o


lábio inferior dela.

Chocada, continuei assistindo à cena.

— E você ama isso em mim — Ela sorriu antes de encará-lo por


baixo dos cílios espessos. — Vamos sair para tomar um sorvete.
:
— Você sabe que não podemos — Henry negou com a cabeça. —
A minha mulher…

— A sua mulher pode descobrir. É, eu sei — Ela revirou os olhos. —


Também me lembro de você dizendo que iria se divorciar dela
meses atrás.

— Não é tão simples assim, Brianna — O professor afastou as


mãos dela. — Isso requer tempo.

— É sempre a mesma conversa, mas você ainda mora com ela —


Brianna disse, o empurrando para longe. Ela pulou da mesa.

Não conseguia acreditar que Brianna, que tem quinze anos,


estava tendo um caso com um homem de vinte seis anos e
casado.

Vi o professor se afastar dela e passar as mãos pelo cabelo loiro


escuro, parecendo frustrado.

— Eu sempre soube que essa merda não ia dar certo, você é muito
infantil — ele esbravejou. — Você só olha o seu lado.

Onde Brianna tinha se metido?

— Sei que sou nova, mas minha mentalidade vai além dos meus
anos de vida — Ela o olhou, com raiva. — Não me limite a isso!

O professor riu.

— Que merda, está se achando madura de repente? — debochou.


— Eu sabia que isso não ia durar — ele murmurou, se virando para
vir em direção à porta.

Arregalei meus olhos, dando um passo para trás.


:
— Vá se foder, não me deixe aqui! — Escutei Brianna gritar antes
que eu corresse para longe.

Me escondi atrás de uma enorme pilastra e discretamente avistei


o professor saindo da sala, um sorriso em seu rosto enquanto
Brianna chamava seu nome com a voz chorosa. Ele parecia
contente.

No instante seguinte, Brianna saiu da sala e, a passos raivosos,


começou a vir na minha direção, parecendo furiosa. Quando ela
passou por mim sem me notar, agarrei seu braço, a assustando.
Mas quando ela percebeu que era eu, franziu o cenho.

— O que foi? — perguntou, grosseira. — Me larga!

— Quanto tempo faz que você se envolveu com nosso professor


de Artes? — perguntei, sem rodeios.

Vi a cor sumir do rosto de Brianna.

— Não sei do que você está falando — Ela deu de ombros.

— Eu escutei a conversa de vocês. Eu vi tudo — eu disse. — Ele é


casado e tem um filho de dois anos. Você sabe disso?

Brianna engoliu em seco, parecendo nervosa. Ainda assim,


ergueu o queixo para mim.

— E desde quando a minha vida é da sua conta? — ela perguntou,


puxando seu braço do meu aperto.

— Quão longe você foi com ele? — perguntei, com medo da


resposta.

Ela não precisou me dizer nada. A expressão em seu rosto me


:
entregou tudo, cada pedacinho de informação.

— Meu Deus… — Cobri minha boca com as mãos, espantada. — O


que você tem na cabeça?

A garota deu um passo para trás.

— Ele gosta de mim e eu dele.

— Isso é errado, você tem consciência disso, não é? — perguntei,


mas não tive resposta. — Vou contar para o Kellan.

O rosto de Brianna se contorceu em ódio e ela avançou na minha


direção.

— Se você abrir o bico, eu acabo com você — ela ameaçou, a


centímetros de mim.

— Você está tendo um caso com um homem casado que é nove


anos mais velho que você! — eu disse, me recusando a recuar. —
Você é menor de idade!

Brianna riu, em deboche.

— Ah, por favor — Ela sorriu, cruel, — Não aja como se não
quisesse dar para o meu primo mesmo aos quatorze anos — Sua
voz saiu carregada de veneno.

Era a minha vez de olhá-la, furiosa.

— Não compare quatro anos de diferença com nove — Cruzei


meus braços — Além disso, eu nunca tive tais pensamentos em
relação a Kellan.

Ela revirou os olhos.


:
— Você só está com inveja porque sou mais importante para
Henry do que você jamais foi ou será para o Kellan.

A verdade de suas palavras me atingiu em cheio, e me contive


para não me afastar. Ela estava certa, e eu sabia disso.

No entanto, eu apenas a encarei.

— Se você é tão especial, por que é um segredo?

Vi a expressão de fúria de Brianna cair por alguns segundos,


como se eu tivesse conseguido atingi-la.

— Se você disser isso para alguém, eu vou fazer pior do que a


Jenna — ela prometeu.

Brianna passou por mim, esbarrando em meu ombro com força


suficiente para que eu desse alguns passos para trás. Quando
olhei para ela, a encontrei de frente para Christian Yun.

— Quanto você ouviu? — Ela ergueu o queixo para ele, agarrando


sua gravata. — Acho bom fingir que não escutou nada.

Christian agarrou o pulso dela e o afastou, a encarando de cima,


uma sobrancelha arqueada.

— Vá se foder — ele mandou, com desdém, soltando o braço dela.


— Tenho coisas melhores para pensar do que nas suas merdas,
princesinha Royal.

Brianna o encarou de cima a baixo com um ar superior, e então


riu, como se os tênis surrados de Yun fossem motivo de piada. Ela
deu a volta por ele e, em seguida, começou a andar.

— Viciado do caralho — A ouvi dizer antes de se afastar


:
completamente.

Como se estivesse irritado, Christian puxou sua gravata,


afrouxando o nó. Ele passou por mim tirando um maço de cigarro
e um isqueiro do bolso de sua calça, andando para longe.

Christian Yun era alto e pálido, o corpo magro tendo poucos


músculos, o normal para um garoto da sua idade. Seu cabelo
preto chegava até um pouco abaixo do queixo, e diferente de
Rapha, ele não se importava em prendê-lo. Consegui notar
algumas tatuagens por baixo das mangas de seu uniforme.

Há um rumor no colégio de que Christian Yun vende drogas, mas


não sei se é verdade. O garoto asiático tem toda uma aura
misteriosa que não deixa muito a murmurar sobre ele.
Curiosamente, ele sempre está por perto quando discuto com
Brianna.

Chocada com tudo que acabei de ver, passei as mãos pelo meu
rosto, frustrada por não saber o que fazer.

Mas talvez eu soubesse, sim.

“O inferno está vazio, e todos os demônios estão aqui”

Shakespeare

Quando o horário do intervalo, pelo qual eu tanto esperei, surgiu


na tela do meu celular e o sinal repercutiu por todo o colégio, me
levantei depressa de minha cadeira e corri pra fora da sala antes
que todo mundo fizesse o mesmo, inclusive, Brianna. Tinha que
achar o Kellan, e isso seria um desafio.

Eu ainda não acreditava que a prima dele estava tendo um caso


com o professor de Artes, nunca pensei que ela seria capaz disso.
:
Ainda mais por se tratar de um homem casado e pai de uma
criança. Sei que o professor não é tão velho assim, mas não deixa
de ser errado. Ele tem quase a mesma idade que o meu padrasto.
Isso é tão nojento.

Sei que deveria ignorar o que vi, sei que não é da minha conta,
mas não consigo. Algo em como a situação da Brianna me lembra
a minha me faz querer ajudá-la. Sei que não é a mesma coisa, e
que ela está saindo com o professor por livre e espontânea
vontade, mas isso é errado de tantas formas…

— Cuidado por onde anda, viadinho surdo.

Escutei uma voz e olhei na direção dela, notando três alunos


andando para longe de um garoto. Seus livros estavam no chão e
ele se abaixou rapidamente para recolhê-los, suspirando.
Decidindo entre ir atrás de Kellan ou ajudar o garoto, me vi
fazendo a segunda opção.

Peguei um caderno de capa amarela e me abaixei ao seu lado,


estendendo o mesmo para ele. Ao me ver, seus olhos se
arregalaram e suas bochechas ficaram vermelhas. Seu cabelo era
liso e castanho-escuro, e os olhos tinham a mesma cor. Eles
estavam contornados por um lápis de olho preto, e em suas
orelhas tinha algo que não consegui identificar.

— Aqui — Eu sorri, estendendo o caderno para ele.

— Obrigado — Ele desviou o olhar, pegando o objeto da minha


mão.

Então, ele reuniu suas coisas e as colocou dentro de sua mochila,


e continuou não olhando para mim.
:
— Você está bem? — perguntei, mordendo o interior de minha
bochecha.

Ele não disse nada e o desconforto foi enorme. Até que ele ergueu
o rosto e arregalou os olhos, levando as mãos às orelhas.

— Sinto muito, não ouço muito bem — respondeu, acanhado. E


mais uma vez, baixou o olhar.

Aparelhos auditivos, então era isso. Eu assenti, sorrindo


minimamente.

— Como é o seu nome?

Ele voltou a me encarar.

— Eric — o garoto respondeu, olhando para os lados. — Eric


Simmons.

Ele não conseguia manter contato visual comigo, e isso chegava a


ser estranho. Será que ele era tímido?

Quando abri a boca pra falar com ele, o garoto ergueu as


sobrancelhas e deu um passo para trás.

— Até mais! — ele disse, antes de correr para longe de mim.

Sem reação, o vi sumir entre os outros alunos, não deixando


nenhum vestígio para trás. Ainda assim, me dei conta de que seu
rosto estava muito vermelho, como se estivesse com vergonha de
falar comigo.

Confusa, cocei minha cabeça e voltei a procurar Kellan pelos


corredores, não encontrando nada. É provável que ele estivesse
fumando atrás do colégio com meu irmão, é lá que os alunos vão
:
para fazer isso sem serem pegos.

Comecei a passar os olhos pelo jardim do colégio na esperança


de ver Kellan, e quando não o encontrei, fui para a parte de trás do
colégio. Brianna com certeza iria me matar quando eu dissesse o
que sei ao primo dela, mas minha consciência estava falando mais
alto. Eu queria fazer por alguém o que eu não conseguia fazer por
mim mesma.

Engoli em seco quando avistei meu irmão e Kellan escorados no


muro do colégio, ambos com cigarros na boca e uniformes
desleixados. Senti meu coração errar uma batida quando ouvi
Kellan rir de algo que meu irmão disse. Foco, Ryen. Foco!

Andei lentamente até os dois e esfreguei minhas mãos suadas em


minha saia.

— Ke-… — Limpei a garganta. — Kellan…

Como eu vou falar que a prima dele está dormindo com um


professor mais velho e casado? E pior, por vontade própria.

Raphael e Kellan viraram rapidamente a cabeça na minha direção.

— Ryen? — Meu irmão franziu o cenho antes de questionar. — O


que você está fazendo aqui?

— Vim falar com Kellan — respondi.

Kellan jogou o cigarro no chão e pisou nele, o apagando.

— O que quer falar comigo? — Me encarou com os olhos intensos,


enfiando as mãos nos bolsos de sua calça.

— É, o que você quer falar com ele? — Meu irmão cruzou os


:
braços, a expressão virando uma carranca desconfiada.

Passei as mãos pelo meu rosto pensando na melhor forma de


contar o que descobri sobre a Brianna. Sou uma fofoqueira,
mesmo. Talvez seja por isso que não tenho amigos.

Mas bom, se não tenho amigos, não devo fidelidade a ninguém,


não é mesmo?

— Podemos conversar a sós? — Olhei para Kellan por debaixo dos


cílios.

— Não? — Foi o meu irmão quem respondeu, antes que o melhor


amigo o fizesse.

— Deixa de ser idiota, Raphael! — Revirei os olhos. — É uma coisa


importante e não posso dizer na sua frente.

Meu irmão soltou uma risada debochada.

— E por que não? — Ele arqueou uma sobrancelha, dando uma


tragada no cigarro. — Você vai se declarar pra ele ou uma merda
assim, por acaso?

Arregalei meus olhos e os mirei em Kellan, que me encarava com


a cabeça inclinada para a esquerda, parecendo curioso.

— E-, eu não! — neguei rapidamente com a cabeça. — Nada a ver


o que você disse, eu nunca gostaria de alguém como ele.

Meu Deus, Ryen. Cala a boca!

— Agora que já entendemos sua enorme aversão a mim, Ryen… —


Ouvi Kellan dizer e olhei para ele, o encontrando com um sorriso
sarcástico. — É melhor falar o que veio me dizer. E pode fazer isso
:
na frente do idiota do seu irmão, ele não vai deixar a gente sair
daqui.

Aversão é a última coisa que eu sentia por ele.

Olhei para meu irmão, que ergueu as sobrancelhas, esperando


que eu falasse logo. Bufei alto e arrumei minha tiara.

— Eu estava indo pegar uns livros na sala de Artes quando vi… —


Parei de falar e umedeci meus lábios.

— Quando viu o quê? — Kellan pressionou.

Engoli em seco.

— Quando vi a Brianna e o professor de Artes… Bom… — Cocei


meu pescoço antes de soltar tudo de uma vez. — Vi eles se
beijando. Eles estão tendo um caso.

Esperei uma reação explosiva de Kellan, mas tudo que recebi foi
uma risada grave e rouca.

— Você está de sacanagem com a minha cara? — Ele arqueou uma


sobrancelha, me encarando.

— Ryen, não se brinca com essas coisas — Raphael disse, pisando


em seu cigarro enquanto um sorriso brincava em seus lábios.

Os encarei perplexa, minhas mãos apertadas em punhos.

— Olha aqui, eu posso ser muitas coisas, — disse, mantendo


minha voz firme — mas mentirosa e piadista não são algumas
delas! — cruzei meus braços.

Kellan passou a mão direita por seu cabelo perfeitamente


penteado, o desarrumando.
:
— Você tem noção do que está me dizendo? — ele perguntou. — É
impossível que a Brianna esteja fazendo isso.

Era minha vez de rir.

— Ah, então eu estou mentindo?

— Eu não disse isso.

— Mas está pensando! — acusei, e apontei para meu irmão. —


Você e esse idiota!

— Ryen, você e a Bree vivem brigando — Rapha deu um passo à


frente. — Não está inventando isso porque está com raiva?

O encarei, incrédula.

— E por causa disso eu vou inventar uma coisa desse tamanho? —


Coloquei as mãos na cintura. — Eu vi, tá legal? Com os meus
próprios olhos. Brianna e ele estavam brigando porque ele ainda
não se divorciou da esposa. Aí ele se irritou e foi embora. Eu vi os
dois se beijarem, caramba! Eu também a perguntei e ela disse
que… que… ela foi muito além com ele.

Kellan olhou para o meu irmão e os dois se encaram por alguns


instantes antes de o primo de Brianna assentir com a cabeça e a
dupla passar por mim de maneira tão rápida que eu apenas
pisquei. Me virei para olhá-los.

— Onde vocês estão indo? — perguntei, meus olhos arregalados.

— Não se mete, Ryen — Rapha disse, sem olhar para trás. —


Vamos dar uma lição naquele filho da puta.

Desesperada, comecei a dar alguns pulinhos no chão enquanto


:
chacoalhava minhas mãos.

Meu Deus, meu Deus. Eu não queria que isso acontecesse. Eu


pensei que Kellan ia contar ao pai de Brianna, e não lidar com isso
com as próprias mãos. Eu devia ter ficado quieta, eu só envolvi
todo mundo em problemas.

Não demorou muito até que Kellan e meu irmão viessem com o
professor de Artes, desorientado e levemente assustado. Eles
passaram por mim e foram para uma área mais isolada do colégio.
Preocupada, os segui.

O professor olhou ao redor, a confusão por ter sido arrastado até


aqui estampada em seu rosto. Ele foi o primeiro a falar.

— Vocês podem me dizer o porquê de me chama-… — Ele parou


de falar quando Kellan o socou no estômago, fazendo-o se curvar
e cair de joelhos na terra.

Dei um passo à frente por puro reflexo, mas meu irmão me barrou
com o braço.

— Tem certeza de que não sabe o porquê de estar aqui? — Kellan


perguntou, se aproximando do homem.

— Você vai ser expulso desse colégio, senhor Royal! — O


professor o encarou, fazendo menção de se levantar.

Kellan deu uma forte joelhada em seu rosto, fazendo a cabeça do


homem ser jogada para trás e ele cair sobre seus próprios
cotovelos. Arregalei os olhos e meu irmão foi até eles.

— Alguém vai ser expulso desse colégio, e não vai ser Kellan —
Rapha sorriu, enfiando as mãos nos bolsos de sua calça.
:
Um filete de sangue escorreu pelo nariz do professor de Artes e
ele se sentou no chão.

— Eu exijo uma explicação sobre o que está acontecendo aqui! —


ele disse, se levantando de maneira cambaleante.

Rindo e bagunçando o cabelo do professor, Kellan fez alguns fios


lhe caírem sobre a testa.

— Você sabe quem é a minha prima, professor?

Vi o homem engolir em seco e dar um passo para trás, suas


costas batendo contra o peito do meu irmão.

— Se não me falha a memória é a… — Ele finge estar pensativo — a


Brianna Royal, não é? — Ele sorriu, seu nariz sangrando.

Cínico. Fingido.

— Qual é, cara? — Rapha riu, dando tapinhas no ombro do


professor. — Não precisa fazer tanto esforço para fingir que não a
conhece muito bem.

O homem soltou uma risada um tanto quanto nervosa e enxugou


o nariz com o dorso da mão.

— Eu realmente não a conheço muito bem — ele mentiu. — Nunca


prestei muita atenção no rosto da sua prima.

Kellan sorriu e abaixou a cabeça, fazendo um sinal de negação.

— Você nunca prestou atenção no rosto porque esteve muito


ocupado no que estava debaixo da saia dela, não é? — Ele se
aproximou, lentamente.

O rosto do professor perdeu a cor, mas ele rapidamente retomou


:
sua expressão de confuso e inocente. Tão parecido com ele…

— Eu não sei do que vocês dois estão falando — ele explicou. — E


vou agora mesmo à diretoria exigir que vocês sejam expulsos.

Apertei meus punhos, sentindo a raiva me consumir aos


pouquinhos.

— Ah, você não vai fazer isso… — Kellan afirmou, o rosto tranquilo.

— E por que não? — O professor ergueu o queixo, um ar de


deboche em seu rosto. — Acha que tenho medo de vocês só por
serem de uma família rica?

Raphael soltou uma risada grave.

— É, Kellan… — ele disse, e olhou para o melhor amigo. — E por


que ele não exigiria nossa expulsão?

Um sorriso se esticou nos lábios de Kellan e ele inclinou a cabeça


para a esquerda.

— Porque ele anda fodendo uma adolescente de quinze anos. E


porque, para o azar dele, ela é a minha prima.

Arregalei os olhos com a escolha crua de palavras de Kellan. A


expressão decidida do professor caiu, e ele abriu e fechou a boca
várias vezes, parecendo não saber o que dizer.

— Você está louco, vou agora mesmo à diretoria — Ele novamente


fez menção de ir embora.

Kellan o empurrou para trás com força, o fazendo ir de encontro a


Rapha, que o agarrou pelos braços com facilidade. O professor se
debateu de um lado para o outro.
:
— Me soltem, eu sou o professor de vo-… — O professor de Artes
parou de falar quando Kellan lhe acertou um forte soco no nariz,
jogando sua cabeça para trás.

— Eu não sabia que os professores comiam seus alunos — Rapha


disse, logo atrás dele. — Foderam muito sua bunda no ensino
médio, professor? — Ele riu, o som carregado de veneno.

Quando o homem voltou a olhar para nós, seu nariz estava


espirrando sangue.

— Eu já disse que não sei sobre o que vocês estão falan-… —


Kellan socou seu estômago.

— Foi legal foder minha prima, professor? — ele perguntou


quando Rapha jogou o homem no chão. Kellan sorriu, com
desdém. — Você se excita por garotinhas menores de idade?

O professor gemeu no chão, virando seu corpo pra cima.

— A sua mulher não está dando conta do recado? — Meu irmão


sorriu, se abaixando para ficar da altura dele. — E outra, isso é
exemplo que se dê ao seu filho, Henry? — Ele estalou a língua,
negando com a cabeça.

Vi o sangue do nariz do homem deitado no chão escorrer para sua


boca, manchando seus lábios.

— Eu não fiz nada… — ele falou, com dificuldade.

Mentiroso.

— Não foi isso que nossas fontes nos disseram — Rapha inclinou a
cabeça para o lado, os antebraços apoiados nos joelhos.
:
Kellan chutou a barriga do homem e o mesmo curvou o corpo,
urrando de dor.

— Vai negar que está se aproveitando da minha prima, filho da


puta? — Ele pressionou o pé calçado com um all star preto no
estômago de Henry.

Raphael apenas assistiu a cena, com um sorriso nos lábios e o


queixo apoiado no punho direito, parecendo mais do que
familiarizado com esse tipo de situação. Meu Deus, eles devem se
meter em tanta confusão.

— A pessoa que te disse isso mentiu, eu juro! — o professor


exclamou, soando desesperado. — Ela está mentindo, eu nunca
tive nada com a Brianna!

Meu irmão e Kellan se encararam, conversando pelo olhar. Eles


estão… acreditando nesse homem?

— Mentiroso!

Antes que eu pudesse controlar minha língua, a acusação saiu. Os


rostos dos três homens se viraram na minha direção na mesma
hora e eu me aproximei.

— Eu vi tudo — continuei. — Você e Brianna estavam na sala de


Artes e se beijaram. Mas aí ela cobrou o seu divórcio, o divórcio
que você prometeu a ela. E então você ficou com raiva e foi
embora!

Eu não conseguia ficar quieta. A necessidade de falar mais e mais,


crescia a cada momento.

— Ryen? Então foi você? — o professor Henry perguntou,


parecendo chocado e um pouco furioso. — Sua pequena puta
:
mentirosa!

Ergui as sobrancelhas com o xingamento e meus olhos quase


saltaram da órbita quando Kellan chutou o estômago de Henry no
mesmo instante em que meu irmão chutou seu rosto, sangue
jorrava por toda parte.

— Esqueceu de quem ela é irmã, porra? — Rapha o olhou,


possesso. — Você quer perder um olho? — ele perguntou,
pressionando o pé na bochecha do homem.

— Ela está mentindo! — Henry conseguiu dizer.

Olhei para ele, furiosa.

— Eu não sou mentirosa! — me defendi. — Sei muito bem o que é


um beijo quando vejo um.

Kellan olhou para o homem, forçando o pé em sua barriga.

— Ouviu, professor? Ela não é mentirosa. Sendo assim, o que nos


resta… — Sorriu de lado.

O homem gemeu de dor quando Kellan chutou sua costela.

— Ryen, volte pra sua sala — Rapha mandou, atraindo minha


atenção para ele.

— O quê?

— Volte pra sua sala, as coisas não vão ficar legais por aqui — ele
falou, agora me encarando.

Neguei com a cabeça.

— Eu aguento ver — eu disse, tentando não me encolher com sons


:
de pancadas e gemidos de dor.

Rapha riu, com deboche.

— Claro que aguenta — Ele foi sarcástico, mas seu olhar, sério. —
Mova sua bunda de volta para sua sala. Agora!

Abri e fechei a boca várias vezes, pensando em protestar. Porém


o olhar que ele me deu me fez bufar alto e suspirar, sabendo que
ele não iria voltar atrás.

— Idiota mandón… — resmunguei, me virando para ir embora.

Contudo, paralisei ao ver Christian Yun parado alguns metros à


frente, o rosto inexpressivo enquanto assistia à cena.

Desesperada, olhei para Kellan e Raphael.

— O que você está fazendo aqui? — Kellan é quem perguntou,


parando de bater no professor.

— Talvez usufruindo do meu direito como aluno de andar pelo


colégio por onde eu quiser? — ele ironizou, a voz calma e ao
mesmo tempo defensiva. — Mas em outras palavras, não te
interessa.

Porém, quando ele colocou um pacotinho com pó branco e uma


nota de dinheiro no bolso de sua calça, já tínhamos nossa
resposta. Ele estava vendendo drogas e os boatos eram reais.

— Acho bom ficar calado sobre o que viu aqui — Raphael olhou
para ele, um sorriso cruel em seus lábios.

Parecendo inabalável, Christian riu.

— Como se eu não soubesse que contando para alguém ou não


:
vocês vão sair ilesos dessa merda — ele falou, olhando o
professor cuspir sangue. Sorriu desdenhoso. — E você sabe por
quê? Porque vocês são uns fodidos, filhinhos de papai.

Kellan olhou para Raphael e sorriu de lado, dando de ombros.

— Ele tem um ponto.

Christian revirou os olhos e se virou para ir embora, chutando


uma pequena pedra que estava em seu caminho.

— Merda, por que eu sempre me meto nos problemas dos


outros… — O ouvi resmungar antes de caminhar para longe de
nós.

Desviei meus olhos dele e os mirei em Kellan e meu irmão, que


tinham voltado a bater no professor de Artes. Eu deveria mandar
eles pararem, eu sei que sim, mas por alguma razão, eu não
conseguia. Tampouco conseguia deixar de imaginar Callum no
lugar do professor Henry. No fundo, bem lá no fundo, eu queria
que ele estivesse sendo espancado.

No fim das contas, não é isso que os pedófilos merecem?

Fechei a porta do meu quarto usando meu quadril e andei até as


vasilhas de Killer, pondo um pouco de leite que peguei na
geladeira dentro de uma delas. Ao ver isso, ele pulou de sua
caminha e correu até o comedouro, tomando o líquido. Sorri.

— Eu não quero que você cresça, Killer — Acariciei suas costas


com os nós dos meus dedos

Enquanto ele está pequeno, posso pegá-lo no colo. E depois?

— Kellan beijou a minha bochecha hoje — Sorri. — Eu sei que não


:
foi exatamente um beijo, mas já é alguma coisa, não é?

Assisti sua língua deslizar no leite, o recolhendo.

— Ele nunca tinha chegado tão perto de mim… — Me sentei no


chão. — Sei que ele fez isso só pra irritar o meu irmão, mas talvez
ele sinta algo depois disso.

Killer parou de tomar seu leite e me olhou.

— Ah, qual é… —bufei. — Eu sei que ele me vê como uma criança e


que tem dezenove anos. Mas sou bastante madura para minha
idade, não acha?

Quando me dou conta do que disse, me dou um tapa para voltar a


mim. Ah, não. Soei como a Brianna agora. Qual o seu problema,
Ryen?

Me levantei do chão e fui até minha cama, pegando meu celular


para conferir a hora. Quando vi que faltava pouco para onze,
joguei o aparelho no colchão, e peguei Killer e o coloquei em sua
caminha. Em seguida a peguei e andei em direção à porta do meu
quarto.

Já estava quase na hora de Callum entrar em meu quarto. Desde


que ele veio morar aqui, nunca mais tive uma boa noite de sono. A
única exceção foi quando dormi com Raphael. Me senti muito
protegida, porque sei que Callum nunca invadiria o quarto do meu
irmão. E eu não queria voltar a passar noites em claro após sentir
suas mãos sujas em mim.

Com um pouco de dificuldade, abri a porta do meu quarto e me


virei para fechá-la. Agarrando Killer, girei o corpo para frente
novamente, minha respiração ficando presa em minha garganta.
:
Não, não… parecia que ele adivinhava. Que me vigiava.

Paralisei no lugar e apertei meus dedos ao redor da caminha de


Killer. Dessa vez eu me certifiquei de pôr um sutiã e uma blusa de
pijama de mangas longas e gola alta, além de calças largas de
moletom.

— Vai dormir no quarto do seu irmão novamente, Ryen? — Callum


perguntou, o peito largo e nu a centímetros do meu rosto.

Ele estava usando apenas um short largo, e mesmo o odiando,


precisava admitir que Callum tinha um corpo bonito. Seus ombros
eram fortes e seu abdômen bem trabalhado, mas nem isso podia
dar fim a repulsa que eu sentia por ele.

— Sim… — respondi, com a minha voz sussurrada, olhando para


baixo.

— Por quê? — ele perguntou, e o senti me analisar dos pés à


cabeça.

Estou fortemente coberta, mas por que me sinto tão nua?

— Não gosto de dormir sozinha — eu disse, trazendo Killer para


mais perto.

Como se isso fosse possível.

— Tem medo? — Callum questionou, dando um passo à frente.

De você.

Assenti com a cabeça. Eu não tenho medo de monstros criados


por lendas ou filmes. Eu tenho medo do único monstro que invade
o meu quarto e me toca sem a minha permissão.
:
— Por que não disse antes, Ryen? — Sua voz se tornou carinhosa.
— Eu poderia dormir com você. É isso que os pais fazem, não é?

Rapidamente eu ergui meu rosto para ele, encontrando seus


olhos verdes e seu cabelo loiro.

— Você não é meu pai — atirei. — Você nunca será um pai para
mim.

Callum sorriu e ergueu sua mão direita na minha direção.

— Ah, Ryen. Assim você me magoa — Ele acariciou meu rosto e eu


me encolhi perante seu toque. — Está com medo de mim? Não
precisa, Ryen. Somos uma família agora.

Família? Isso me dá vontade de vomitar.

Quando fiz menção de ir para longe do toque de Callum, sua mão


foi arrancada do meu rosto e olhei para o lado, arregalando meus
olhos em desespero.

— Tire as mãos da minha irmã, hijo de puta.

O rosto de Raphael era puro ódio, e é como se ele estivesse


prestes a voar no pescoço do nosso padrasto. Olhei para baixo, o
vendo segurar um canivete ao lado do corpo. Ele o apertou com
tanta força que seus dedos ficaram brancos.

— Não entendo o porquê da agressividade comigo, Raphael —


Callum puxou seu braço do aperto de Rapha. — Eu estou apenas
conversando com sua irmã.

Callum era pelo menos uns dez centímetros maior que Raphael,
mas nem isso parecia intimidar meu irmão.
:
— Ryen, vai pro meu quarto — Rapha mandou, encarando nosso
padrasto.

Sem pensar duas vezes, fiz o que meu irmão ordenou e corri para
o quarto dele, colocando Killer no chão e voltando para a porta.

— Eu tenho a Ryen como uma filha — Callum disse, desviando seu


olhar para mim.

Rapha entrou no seu campo de visão, impedindo que ele me visse

— Você sempre quis comer a sua própria filha, Callum. É tipo um


fetiche? — Rapha perguntou e sorriu, de modo cru, girando o
canivete entre os dedos.

Callum sorriu de lado, e aquilo me dava arrepios.

— Sua imaginação vai longe, não é mesmo?

Meu irmão se aproximou dele e apontou o canivete para seu


pescoço.

— Vai se foder, seu golpista do caralho — ele rosnou. — Volte a


tocar na minha irmã e eu juro que mato você. Prometo que algum
dia esse canivete ainda vai estar cravado em sua garganta.

Raphael começou a andar na minha direção, e o único vislumbre


que tive antes dele me empurrar para dentro do quarto foi de
Callum sorrindo para mim.

Meu irmão fechou a porta e o vi andar de um lado para o outro


após jogar seu canivete na cama. Ele passou as mãos no cabelo e
me olhou, andando até mim.

Rapha me agarrou pelos ombros e me obrigou a olhar para ele.


:
— Me responde uma coisa, Ryen — ele mandou, me encarando. —
Esse filho da puta já te fez alguma coisa?

— Não.

Eu mesma me surpreendi com a facilidade com que a mentira


veio. Parabéns, Ryen.

— Você tem certeza? — ele insistiu.

Assenti com a cabeça. Eu podia ser uma mentirosa, mas o suspiro


de alívio que meu irmão soltou naquele momento compensou
tudo. Cada mentira.

Olhei para ele.

— Você não ia usar esse canivete em Callum, ia? — perguntei.

Raphael riu.

— Ah, eu ia — Ele me olhou. — E seria a melhor coisa que eu iria


fazer.

Suspirei.

— Você acabaria com a sua vida se fizesse isso.

— Sim, mas eu acabaria com a dele primeiro — meu irmão disse,


andando de um lado para outro.

Analisei a calça de pijama xadrez caindo em seus quadris e


abaixei meu olhar.

— Eu… eu valho tanto assim, Raphael? — perguntei, abraçando


meu próprio corpo. — Vale a pena matar alguém por mim?
:
Meu irmão veio na minha direção e puxou minhas mãos, as
segurando. Ergui o rosto para encará-lo, seus olhos
demonstrando uma determinação desconhecida por mim.

— Eu andaria pelo fogo para salvar sua vida, Ryen — ele disse. —
Não tem nada que eu não faria por você. Prometa para mim.

Com meu coração afundando, ergui minhas sobrancelhas.

— O quê?

— Me prometa que você também vai andar pelo fogo para salvar
sua própria vida — ele pediu, beijando as costas das minhas
mãos. — Que não existe nada que você não faria para se colocar
em primeiro lugar.

Uma vontade avassaladora de chorar queimou a minha garganta,


e me vi assentindo devagar, encarando os olhos escuros de
Rapha.

— Eu prometo — Minha voz saiu embargada.

Rapha soltou minhas mãos e segurou meu rosto entre as dele.

— O inferno está vazio e todos os demônios estão aqui — ele


recitou Shakespeare, lembrando-me do quanto ele gostava
daquele autor. — O que Callum é, Ryen? — questionou.

— Um demônio — respondi, sem pestanejar.

— E o que nós fazemos com os demônios? — indagou, contra os


meus cabelos.

Engoli em seco, recordando o que ele sempre me ensinou, desde


criança. Cada palavra nunca saiu da minha cabeça.
:
— Nós os mandamos de volta para o inferno.

Ele assentiu, me encarando com os olhos negros.

— Seja a força que eles não conseguem ir contra — disse.

Concordei com a cabeça e fechei meus olhos antes que eu


começasse a chorar ali mesmo. Abracei a cintura de Rapha e
enterrei meu rosto em seu peito nu, sentindo a corrente em seu
pescoço grudar em minha testa.

— Você disse que não existe nada que você não faria por mim —
comecei, erguendo o rosto para ele quando senti seus braços me
rodeando. — Então me ensina a andar de carro?

Rapha fez uma careta e bufou.

— Ah, merda… — Ele negou com a cabeça.

Eu ri de sua cara e voltei a abraçá-lo fortemente. Mesmo que eu


não admitisse em voz alta, Raphael era o meu porto seguro, e não
havia nada nem ninguém capaz de mudar isso.

“Todo mundo pensa que somos perfeitos

Por favor, não deixe eles olharem através das cortinas”

Melanie Martinez – Dollhouse

Amarrei meu cabelo em um rabo de cavalo no alto da minha


cabeça e vesti uma calça cinza de moletom por cima do short de
lycra que estava usando. Por fim, coloquei meu top preto de alças
grossas.

Andei até Killer, que estava em sua cama, e o peguei em meus


braços, depositando um beijo no topo de sua cabeça.
:
— Quer ir lá fora um pouco? — O ergui no ar, o deixando na frente
do meu rosto.

Killer lambeu meu nariz e eu sorri, beijando seu pescocinho.

— Vamos — falei, o aconchegando em meus braços.

Andei até minha cama e peguei minha mochila, a jogando por


cima do ombro. Porém antes de passar pela porta, coloquei
apenas a cabeça para fora e verifiquei se Callum estava por perto.
As duas noites anteriores me fizeram ter a certeza de que ele
percebeu que estou indo dormir com Raphael para evitá-lo.

E ele parece empenhado em fazer isso parar de acontecer, já que


sempre aparece no instante em que estou prestes a ir para o
quarto do meu irmão. Mas eu não pretendo parar.

Quando vi que o caminho estava livre, suspirei aliviada e saí do


quarto com Killer, lhe fazendo um carinho atrás da orelha
esquerda. Desci calmamente as escadas da sala de estar e fui em
direção à sala de jantar; senti o cheiro de café e bacon.

Estou morrendo de vontade de comer ovos com bacon, mas não


posso fazer isso, pois tenho que perder peso o mais rápido
possível. Dizem que sou perfeccionista, e é verdade. Gosto de
tudo perfeito, e se meu peso me afeta na dança, eu vou fazer
qualquer coisa para que isso mude. Então terei que me contentar
apenas com os ovos, e nada de bacon ou outras coisas
gordurosas.

Quando entrei na sala de jantar, ergui as sobrancelhas ao ver


Kellan sentado em uma das cadeiras, de frente para Rapha, que
estava de costas para mim.
:
— O que você está fazendo aqui tão cedo? — perguntei, de cenho
franzido. Era só dez para às oito da manhã de sábado. Ele deveria
estar dormindo. E Raphael também.

— Bom dia para você também, muito bom saber que adora minha
presença — Kellan soou sarcástico, os olhos fixos em seu celular.

Me sentei na cadeira que fica de frente para todos e coloquei


minha mochila no chão, pondo Killer em minhas coxas. Olhei para
meu irmão.

— Rapha, vocês vão sair? — Acariciei as enormes orelhas de Killer.

Raphael, que estava mastigando o resto de seu croissant,


assentiu com a cabeça.

— Vamos resolver pendências sobre o racha de hoje à noite — ele


disse, de boca cheia.

Fiz uma careta, analisando seu cabelo escuro preso em um coque


estilo samurai, com alguns fios livres emoldurando seu rosto.

— Tão cedo? — questionei.

Meu irmão fechou os olhos e respirou fundo.

— Sei que Shakespeare falou que a paciência é a mais nobre e


gentil das virtudes, mas só por um minuto… — Abriu um dos olhos
escuros e me encarou. — Pare de fazer tantas perguntas a esta
hora da manhã e coma.

Uni as sobrancelhas.

— Mas eu só fiz duas.

Sorriu de lado.
:
— E elas valem por dez.

Encolhi meus ombros, e meu rosto se tornou uma carranca


enquanto eu encarava Killer em meu colo. Tentei segurar minha
língua, mas falar sobre os rachas sempre me deixava animada.

Eu faria de tudo para ir em um, ao menos uma vez.

— Me leva com você, Rapha! — pedi, sorrindo inocentemente. —


Por favor, eu juro que me comporto!

Rapha se engasgou com seu suco.

— Até parece — ele debochou. — Nem fodendo que vou te levar


pra lá.

— Por favor, hermanito! — implorei, batendo meus cílios para ele.


— Prometo não causar problemas, você nem vai perceber que
estou lá.

Próximo a mim e do meu lado esquerdo, ouvi Kellan rir de maneira


debochada. Desviei minha atenção para ele e estreitei meus olhos
em sua direção.

— O que é tão engraçado? — perguntei, ainda sem receber um


olhar seu.

Eu sempre soube que Kellan era indiferente a minha presença,


mas ter consciência disso não fazia com que doesse menos. E
não falo isso apenas por ele estar focado em seu celular nesse
momento, mas também pelo fato de ele ser assim desde que me
entendo por gente.

— Você dizendo que não vai se meter em problemas — ele


respondeu.
:
Ao analisá-lo, vejo como o babaquinha está bonito. Está usando
uma regata preta por dentro de uma jaqueta jeans de cor clara.
Sua calça é da mesma cor que a blusa, e seu cabelo está
levemente bagunçado, de um jeito bonito. As mãos de Kellan
estão com alguns anéis, combinando com a corrente de prata em
seu pescoço.

— Eu não vou me meter em problemas — me defendi, começando


a ficar irritada.

— Você é o problema em pessoa — Kellan finalmente me olhou, as


íris azuis tão intensas que me tiraram o fôlego.

Encolhi meus ombros diante de sua escolha de palavras e desviei


os olhos enquanto ergui Killer até a altura do meu pescoço.

Eu gosto de Kellan, gosto de verdade, mas gostar dele se torna


quase um desafio quando ele tem um comportamento tão babaca
e arrogante.

— Você que é o problema em pessoa, seu fodido — Rapha disse,


entre dentes, jogando uma azeitona em Kellan, que desviou a
tempo.

Meu irmão, por sua vez, estava usando uma de suas camisas
pretas da banda AC/DC, uma calça jeans rasgada nos joelhos e
uma jaqueta preta com a seguinte frase estampada nas costas:
“O inferno está vazio, e todos os demônios estão aqui”. É
impressionante o quanto ele ama essa frase, não é? Bom, mas
não para mim.

Cresci ouvindo meu irmão recitar Shakespeare pelos cantos, ele é


completamente viciado em filósofos. Seu quarto está cheio
desses livros.
:
E, a propósito, ainda vou roubar essa jaqueta.

— Eu não falei nenhuma mentira, a sua irmã é um ímã para


problemas — Kellan revirou os olhos.

Rangi meus dentes e o fuzilei com o olhar. Ele mal abre a boca, e
quando abre é para falar bosta.

— Eu tenho um nome! E é Ryen Rodríguez! — quase gritei; Killer


latiu.

Parecendo ignorar o que eu disse, Kellan desviou os olhos para o


meu cachorro e ergueu uma sobrancelha.

— Esse que é o tal Killer? — ele perguntou, se levantando de sua


cadeira.

Abracei meu filho e virei o rosto.

— Não interessa, ele também atrai problemas — resmunguei,


escutando a risada de Rapha.

Antes que eu me desse conta, Killer foi tirado de minhas mãos, e


eu arregalei meus olhos, virando o rosto para surpreender Kellan
segurando meu cachorro.

— Ei! — chamei, também me levantando.

— Realmente é um doberman — Kellan me ignorou, erguendo meu


filho no ar.

Raphael franziu as sobrancelhas.

— É lógico que é, idiota — ele desdenhou. — Acha que não sei


como é um filhote de doberman?
:
Kellan mostrou o dedo do meio para ele e olhou para Killer.

— Ele é um pouco pequeno pra um filhote de doberman, não


acha? — ele perguntou, enquanto Killer lambia sua mão.

— Ele tem apenas dois meses, quer que ele seja de que tamanho?
— Raphael debochou.

— Eu estou dizendo que mesmo com dois meses de idade ele


deveria ser maior, seu filho da puta — Kellan rosnou.

Rapha enfiou uma azeitona na boca e o piercing em seu lábio


brilhou enquanto ele a mastigava. Desviei meus olhos dele e os
foquei em Kellan.

— Me devolve o Killer, você não pode tirar ele de mim só porque te


deu vontade — Estiquei minhas mãos para pegar meu cachorro.

Kellan o ergueu mais alto, o colocando longe do meu alcance.

— Não — ele disse, de maneira simples, a sombra de um sorriso


brincando em seus lábios.

Abri a boca, chocada.

— O quê? — perguntei, incrédula. — Como assim “não”? Me


devolve, ele está com fome!

Pode-se dizer que Kellan era um poste. Eu não sou baixa, mas ele
fazia eu me sentir como se fosse.

— Ele que te disse isso? — Kellan ergueu os cantos dos lábios em


um sorriso debochado.

Abri e fechei a boca várias vezes, sem saber o que dizer. Kellan
me desconcertava até quando estava implicando comigo.
:
— Me devolve o Killer… — pedi, me acalmando. — Por favor… —
Sem pensar, agarrei a barra de sua jaqueta.

Kellan olhou para baixo, encontrando minhas mãos fechadas em


punhos ao redor de sua jaqueta, e em seguida ergueu os olhos
azuis-claros para mim. Prendi minha respiração e, de maneira
inconsciente, reforcei meu aperto no tecido.

Ele olhou bem no fundo dos meus olhos, fazendo com que eu me
sentisse tímida. Mas diferente de como me sentia com Callum,
agora eu não estava enjoada ou desconfortável.

— Ah, pelo amor de Deus— Ouvi Rapha dizer, e Kellan se afastou


de mim de maneira brusca, fazendo com que eu soltasse sua
roupa. — O que foi que eu te disse ontem, Ryen? Não peça,
arranque dele.

Seja a força que eles não conseguem ir contra.

Olhei para Kellan e ele arqueou uma sobrancelha, segurando Killer


em seus braços. Respirando fundo, ergui meu pé direito e o
enterrei na canela de Kellan com toda a força que eu tinha. Seus
olhos se arregalaram e ele grunhiu de dor, abaixando Killer.

Me aproveitei disso para pegar meu filho e o abraçar contra mim,


o mantendo longe de Kellan. Ouvi a risada estrangulada de Rapha.

— Porra! — Kellan pulou em um pé só até sua cadeira.

Meu irmão bateu palmas, rindo.

— Agora chuta a outra! — ele incentivou, um sorriso largo


surgindo em seu rosto.

Kellan se jogou em sua cadeira.


:
— Foda-se, porra! — ele disse, entre dentes.

O olhei com preocupação, o rosto bonito de Kellan contorcido em


uma careta de dor enquanto ele pressionava seu punho esquerdo
na mesa.

— Me desculpa, Kellan — Dou um passo à frente, envergonhada.


— Você não queria me dar o Killer, e então eu… sinto muito!

— Não, você não sente — ele acusou, rindo sarcasticamente.

E eu realmente não sentia.

Raphael bateu na mesa, rindo descontroladamente. Eu encolhi


meus ombros e voltei para a minha cadeira, pondo Killer em meu
colo. Kellan se curvou para acariciar sua canela, ficando próximo
da minha mochila.

— Assistir a isso foi melhor do que bater no professor de Artes —


Rapha enxugou uma lágrima que escorreu pelo canto de sua
bochecha.

Fiquei em alerta ao ouvir isso.

— O que aconteceu com ele?

— Foi demitido do colégio — Kellan respondeu quando finalmente


voltou para cima. — Meu pai falou pro meu tio pôr o professor na
cadeia por pedofilia, mas ele não quis. Não quer que fiquem
sabendo disso e que tudo vire um escândalo.

O pai de Brianna está louco?

— Então não adiantou de nada? — perguntei, chocada.

— Pelo menos batemos nele — Rapha deu de ombros.


:
— E meu pai se assegurou de que aquele merda não consiga
trabalhar em mais nenhum lugar — Kellan falou, passando os
dedos por seu cabelo.

— Fez mais do que o pai de Brianna — Meu irmão riu.

Neguei com a cabeça. Ele tem razão.

— E sua prima? Como ela está? — perguntei.

Kellan me encarou.

— Se trancou no quarto e não quer falar com ninguém.

— E sobre vocês baterem no professor? Não deu em nada?

— Eu disse uma merda sobre defender a honra da minha prima, —


Kellan riu — e meu pai e sua mãe limparam a nossa barra — ele
completou.

Assenti com a cabeça. Genial.

No entanto, era com Brianna que eu estava mais preocupada. Não


queria, mas via um pouco de mim nela. E isso doía, porque meu
problema ainda estava morando comigo.

— Ryen, come o meu sanduíche de pasta de amendoim — Rapha


empurrou seu prato na minha direção e fiz uma careta. — Você
ainda não comeu nada.

— Ela não gosta de pasta de amendoim, idiota — Kellan falou por


mim.

Como ele sabia disso? Foi Rapha quem contou? Nem todo mundo
sabia que não gosto de amendoim.
:
— Quase esqueci — Meu irmão coçou a sobrancelha. — Então
come uma torrada. Você só sai daqui quando comer algo.

Fechei a cara e resmunguei algo que nem mesmo eu entendi.


Mandão.

Rapha sorriu, travesso, e viu a alegria sumir de seu rosto com a


mesma rapidez com a qual apareceu. Seus olhos se fixaram em
algo atrás de mim, e me virei para ver o que era, me arrependendo
logo em seguida. Meu corpo ficou tenso ao ver Callum vindo em
direção à mesa do café da manhã, sem camisa e usando apenas
uma calça branca de moletom. Odeio como ele se sente
confortável na minha casa.

Retornei o corpo para frente e apertei Killer contra mim, o


sentindo lamber meus dedos.

— Bom dia, família — ele falou, de maneira cínica. — Bom dia,


Kellan — ele disse, e se sentou ao lado dele.

Kellan lhe deu um rápido olhar e pegou seu celular em cima da


mesa.

— Bom dia — devolveu, de forma seca.

Olhei para Killer em meu colo e o vi apoiar o focinho em minha


barriga nua, fazendo com que eu me arrependesse do traje que
escolhi esta manhã. Eu deveria ter vestido um moletom por cima
do top. Tenho que colocar o máximo de roupa possível quando
esse homem estiver por perto.

— Vai para a aula de dança, Ryen? — Callum perguntou.

Eu apenas assenti, focada em brincar com o nariz do meu


cachorro.
:
— Qualquer dia desses eu vou te ver dançar — ele falou, e eu ergui
meu rosto para ele, o vendo morder uma torrada.

— Quero saber quem foi que te chamou, porra — Raphael rosnou,


o encarando.

Rapha.

— Eu realmente não entendo sua agressividade comigo, Raphael


— Callum revirou os olhos. — Eu apenas quero ver a Ryen dançar.
Sua mãe falou que ela dança muito bem.

— Ryen parece um anjo dançando.

A voz da minha mãe atingiu meus ouvidos e todos olhamos na


direção da porta, a vendo parada lá, coberta com um robe preto.
Seu sorriso era largo, e ela andou na direção do marido para beijar
seus lábios.

— Bom dia — Ela olhou para nós.

Ouvi Kellan devolver o cumprimento, e Rapha apenas a ignorou.


Coloquei um sorriso falso em meu rosto.

— Bom dia, mamãe.

Ela me fitou enquanto se sentava ao lado do marido.

— Então o Raphael realmente te deu um cachorro? — Ela suspirou.


— E você o trouxe para a mesa, Ryen? Sério?

Mordi meu lábio e encolhi meus ombros.

— Só quis tirar ele do quarto um pouco — expliquei. — E ele é


limpinho, mamãe. Dei banho nele hoje mais cedo.
:
Minha mãe suspirou e massageou as têmporas.

— Ainda assim. Tire ele daqui, por favor. Estamos comendo — ela
ordenou.

Envergonhada, mordi o interior da minha bochecha com força e


olhei para Killer em meu colo; ele parecia ocupado demais
tentando morder meus dedos.

— Ok, mamãe — respondi, me levantando da cadeira de cabeça


baixa.

Me recusei a olhar para cima para evitar que todos vissem meu
rosto vermelho de vergonha.

— Ela disse que a porra do cachorro é limpo — A voz do meu irmão


cortou a sala.

Fiquei tensa vendo seu olhar raivoso sendo lançado na direção de


nossa mãe.

— Rapha… — eu o chamei.

Espera… Ele chamou o meu cachorro de “porra”?

— Não sei o porquê da raiva, Raphael — Mamãe apoiou o queixo


nas mãos delicadas. — Apenas pedi para ela tirar o cachorro da
mesa. Além de ser falta de educação, Callum tem alergia — ela
completou.

Callum. Sempre Callum.

O mais surpreendente é que nunca o vi latir ao ficar perto do meu


cachorro.

Meu irmão riu.


:
— Claro, agora tudo faz sentido — Ele a encarou, negando com a
cabeça.

Mamãe rangeu os dentes.

— Não estou a fim de lidar com suas rebeldias tão cedo, Raphael
— ela falou, e eu aproveitei para pegar minha mochila.

Quando meu irmão abriu a boca para refutá-la, fui até ele e toquei
em seu braço.

— Rapha, estou atrasada pra aula de dança — eu disse a primeira


coisa que me veio à mente. — Você me leva?

Raphael deu um último olhar para minha mãe e para nosso


padrasto, que mesmo com a discussão mantinha uma expressão
despreocupada no rosto. Meu irmão encarou alguém atrás de
mim e acenou em direção à porta da sala, se levantando. Olhei
para trás e vi Kellan. Eu nem notei que ele tinha se levantado de
sua cadeira.

— Vamos — Rapha chamou, pondo a mão em minhas costas e me


guiando para fora da sala de jantar, com Kellan do meu lado
direito.

Após subir e deixar Killer em meu quarto, pude finalmente soltar a


respiração que nem me toquei que estava prendendo. Eu só
queria que mamãe e Rapha se dessem bem.

E eu queria, ao menos uma vez, ter a certeza de que ela nos


preferia ao marido.

Após a professora desligar a música, coloquei as mãos em minha


cintura e respirei fundo, puxando o ar profundamente. Nunca
entendi como a dança podia me deixar tão cansada e ao mesmo
:
tempo tão viva. É algo que vem de dentro de mim, e não tem nada
no mundo que me deixe tão feliz. Com a dança eu consigo
expressar tudo o que sinto. Não existe nada melhor do que isso.

— Bom, meninas. Encerramos por hoje — a professora anunciou.

A mulher veio em minha direção.

— Você foi maravilhosa, Ryen. Continue assim — Ela sorriu


enquanto passava por mim. Sorri de volta.

Eu estava feliz, Jenna Watson faltou a aula de hoje.

Sentindo o suor escorrer por meu corpo e entre as minhas coxas,


andei em direção à minha mochila, o short de lycra se agarrando
às minhas coxas. Sequei meu pescoço e meu rosto com uma
toalhinha branca e a joguei de volta no banco, abrindo minha
mochila para pegar minha calça moletom.

A puxei para fora e, querendo ver a hora, procurei meu celular em


um dos muitos bolsinhos. Franzi o cenho quando vi uma barrinha
de cereal; a peguei. Aquilo não estava ali antes.

Sorri ao perceber que deve ter sido Raphael que a colocou ali, e
abri a embalagem, mordendo a barrinha com vontade. O gosto
doce explodiu em meu paladar e quase gemi ao sentir o gosto de
banana com chocolate. Olhei ao redor para conferir se a
professora não tinha visto nada porque sabia que ela voltaria a
falar sobre a perda de peso. Enquanto meus olhos rastreavam a
sala, quase me engasguei ao ver uma pessoa parada perto da
enorme janela de vidro.

Kellan estava me observando comer, os braços cruzados em


frente a seu peito em uma postura intimidadora. Ele estava lá há
:
muito tempo? Caramba, tenho certeza de que ele me viu dançar.

Enfiei toda a barrinha de cereal na boca e rapidamente vesti


minha calça. Arrumei meu cabelo em um coque apertado e peguei
minha mochila, correndo para fora da sala e indo em direção a
Kellan.

Mas minha animação sumiu logo que vi uma garota mais velha do
que eu se aproximar de Kellan e lançar seus braços ao redor do
pescoço dele, o abraçando. Ele segurou sua cintura e fechou os
olhos quando ela se inclinou para beijar sua boca.

Desviei meu olhar para não ver a cena que embrulhou meu
estomago. Eu não precisava olhar mais uma vez para ter certeza
de que a garota era Candence, a namorada de Kellan que, por
pura coincidência, fazia aula de dança comigo.

Ela deve ter uns dezoito anos e estuda na mesma sala que Kellan.
Ele deveria ter se formado no ano passado, mas por algum
motivo, reprovou. E bom, não há nada comprovando se ela é ou
não namorada dele, mas pela forma que estavam se beijando
naquele momento, sei que eram muito mais do que amigos.

Ouvi os dois se despedindo e olhei para ele, vendo seu rosto


inexpressivo, como sempre. A linda loira de cabelo chanel e
pernas longas lhe deu mais um beijo antes de ir embora e eu ergui
meu queixo, indo em direção a Kellan.

Passei por ele como se não o conhecesse, afinal ele com certeza
só tinha vindo à escola de dança para vê-la.

— Para onde vai, pirralha? — Ouvi ele perguntar.

Parei no lugar e olhei para trás, fingindo procurar a origem da voz.


:
— Ah, Kellan. Eu não te vi aí — Sorri inocentemente, me virando
para ele.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Você pode ser boa em muitas coisas, mas mentir não é uma
delas — atirou.

Meu sorriso quase vacilou, mas o mantive firme em meu rosto e


continuei de queixo erguido.

— O que você está fazendo aqui? Onde está o Rapha? —


perguntei.

Kellan descruzou os braços e enfiou as mãos nos bolsos de sua


calça jeans.

— Ficou resolvendo algumas coisas e me pediu pra vir te buscar —


ele falou, me encarando.

Assenti com a cabeça e apertei a alça da minha mochila. Ele veio


me buscar, tudo bem. Mas ainda assim isso poderia ser só uma
desculpa pra ver a namorada.

— Vamos. — Kellan chamou, passando por mim.

Não consegui conter o sorriso que brotou em meus lábios, e


mesmo sem Kellan ver, assenti várias vezes com a cabeça. Sou
uma boba.

Apressei meus passos para acompanhá-lo, admirando suas


costas largas e o modo como elas se moviam à medida que ele
andava. Kellan era alto e forte, E não tinha músculos exagerados.
Na verdade, era mais magro do que musculoso, mas ainda assim
eu nunca tinha visto alguém tão bonito quanto ele.
:
Kellan parou subitamente e trombei com tudo contra seu corpo,
meu nariz batendo em suas costas.

— Ai… — resmunguei e dei um passo pra trás, massageando meu


nariz.

Ia perguntar o porquê de ele ter parado justamente na porta da


saída da academia de dança, mas o local para onde ele estava
olhando me deu arrepios.

Tinha. Uma. Aranha. Na. Dobradiça.

Meus olhos se arregalaram e eu fiz a primeira coisa que me veio à


cabeça, e a última que eu deveria ter pensado em fazer: pulei nas
costas de Kellan, envolvendo seu pescoço com meus braços e
sua cintura com minhas pernas. Ele xingou e deu alguns passos
para trás, recuperando o equilíbrio.

— Mas que… — ele resmungou, girando o pescoço pra olhar pra


mim.

— Mata, por favor! — eu implorei, fechando meus olhos. — Por


favor! — Enterrei meu rosto no pescoço de Kellan.

Odeio aranhas. Minha fobia delas vai além da compreensão. Só de


vê-las eu já sentia uma coceira estranha; as detestava com todo o
meu coração.

— Porra… — Kellan pareceu irritado.

Apertei ainda mais meus membros ao redor de seu torso e senti o


meu corpo começar a deslizar para baixo, evidenciando que eu
poderia cair a qualquer momento. Uma mão foi para debaixo do
meu joelho direito e me ergueu para cima. De repente, eu não
sabia mais respirar.
:
— Pode me soltar agora, Ryen — Ouvi Kellan dizer. — Já afastei a
aranha — ele disse, sua mão ainda nos meus joelhos.

Lentamente, ergui meu rosto de seu pescoço — que a propósito


estava muito cheiroso — e olhei na direção da aranha, não a
encontrando mais. Envergonhada, afastei minhas pernas e braços
do corpo de Kellan e firmei meus pés no chão. Ele se virou para
mim, seu rosto sério e o maxilar travado. Ele estava com raiva de
mim?

— Me desculpa… — o olhei por debaixo dos cílios, apertando as


alças de minha mochila.

Não queria ter feito isso, mas não penso com clareza quando
estou com medo.

— Vamos — Foi tudo o que Kellan disse, me dando as costas e


indo embora.

Suspirei e o segui, sentindo meu rosto vermelho de vergonha. Ele


deve pensar que sou doida, ou então dramática. Contudo, eu
tenho aversão a esses animais desde que um garoto da minha
escola colocou uma aranha morta dentro do meu sanduíche. Eu
tinha só oito anos na época, porém nunca vou me esquecer disso.
Eu quase a comi.

Kellan apertou um botão e destravou as portas de sua BMW. Ele


esperou que eu entrasse e colocasse minha mochila em meu colo
para depois entrar também. Tentei conter a vontade de sorrir, mas
era quase insuportável.

Eu estava dentro de um carro com o garoto que eu gosto.


Estávamos sozinhos. Ele veio me pegar na aula de dança e vai me
deixar em casa. Não surta, Ryen. Não surta. Ele está apenas
:
fazendo um favor ao seu irmão.

Tento me convencer disso, mas como posso não ter esperanças


se é com ele que quero me casar algum dia?

Me assustei quando algo foi posto sobre minha mochila, então


olhei para baixo, encontrando um pacote marrom daqueles que as
pessoas usam para guardar e transportar lanches. Confusa,
encarei Kellan.

Ele foi mais rápido.

— Já almoçou? — perguntou, dando partida na BMW. Eu neguei


com a cabeça. — Então sem perguntas, só come — ele ordenou.

Abri o pacote e vi que era um sanduíche. O puxei para fora e


espiei dentro.

— Não tem pasta de amendoim — Ouvi Kellan dizer e olhei em sua


direção. — Pode comer tranquila.

Ele lembrou. De novo.

— Não precisava fazer isso — Sorri. — Obrigada!

Kellan deu de ombros.

— Seu irmão que me mandou fazer isso — ele falou, me fazendo


murchar em meu assento. — Algo sobre você não estar comendo.
Uma coisa assim.

Meus ombros caíram e eu assenti. Claro que foi Rapha, Kellan não
se daria o trabalho de fazer isso.

Afastando esses pensamentos, mordi meu sanduíche e quase


gemi ao sentir o gosto do presunto. Fazia quase três dias que eu
:
vinha me recusando a comer essas coisas, mas era tão gostoso.

Nesse instante um pensamento me veio à mente; olhei para Kellan


e engoli a comida.

— Como sabe que não gosto de amendoim? — perguntei, olhando


para ele enquanto mordia meu sanduíche novamente.

Kellan ficou em silêncio por alguns segundos, e até pensei que ele
iria me ignorar, afinal ele só estava aqui pra me levar pra casa.
Além disso, não seria a primeira vez que ele me ignoraria quando
falo com ele.

— Seu irmão que vive dizendo, não sei como ele se esqueceu
disso hoje mais cedo —ele me respondeu, para a minha surpresa.

Engoli minha comida e tomei uma respiração profunda. Claro.


Sempre o Rapha. Não é como se Kellan prestasse atenção em
mim para saber disso, de qualquer maneira.

Decidi que não queria me decepcionar mais, então comi meu


sanduíche em silêncio enquanto olhava para fora do carro, vendo
as pessoas andarem pelas calçadas de Miami.

— Posso pôr uma música? — perguntei, guardando a embalagem


do sanduíche em minha mochila para jogá-la em uma lixeira mais
tarde.

— Não.

Não me deixei abalar.

— Por favor, eu ponho em um volume baixo — Juntei minhas mãos


abaixo do meu queixo.
:
Ele riu, com sarcasmo.

— Eu já fui à sua casa e posso garantir que, pela música alta vinda
do seu quarto, você definitivamente não escuta nada em um
volume baixo — Kellan debochou. — Como não está surda de
tanto ouvir Shake It Off em um volume daqueles?

Abri a boca, indignada.

— Só estou tentando compartilhar músicas boas! — me defendi e


passei a mão pelo meu cabelo. — E Taylor Swift tem que ser
apreciada assim.

Dessa vez, Kellan riu minimamente.

— Você adora compartilhar o quanto canta mal, também — Ele


negou com a cabeça.

Agora eu estava chocada.

— Eu não canto tão mal assim!

— Você, como cantora, é uma ótima dançarina — ele continuou


me provocando.

Isso me chamou a atenção e eu sorri, tímida.

— Acha que sou uma ótima dançarina? — perguntei, sentindo meu


coração palpitar. Nunca trocamos tantas palavras assim.

Por um momento pude jurar que vi a expressão fria de Kellan cair,


mas foi apenas um devaneio da minha cabeça.

— Eu realmente não posso pôr uma música? — perguntei.

— Não, não pode.


:
Mordi meu lábio.

— Você pode ser mais legal comigo, sabia? — eu comecei,


brincando com meus dedos. — Nós crescemos juntos, você tem o
Rapha como um irmão…

Kellan tirou sua atenção da estrada para me olhar, e então ele riu,
de maneira debochada.

— Você e Rapha não são a mesma coisa.

Franzi o cenho enquanto a BMW parava em frente ao portão da


minha casa.

— Por que não? — perguntei. — Você considera o Rapha um irmão,


o que cus-…

— Você não é minha irmã. E nunca vai ser.

Imediatamente parei de falar, e algo doeu dentro do meu peito


como nunca havia doído antes. Engoli em seco e senti meu lábio
tremer.

— Eu não entendo o porquê de você não gostar de mim e ter essa


necessidade de ser grosso comigo… — admiti, em voz baixa,
enquanto passávamos pelos portões.

Kellan ergueu minimamente as sobrancelhas, e quando


estacionou o carro, me encarou.

— Eu nunca disse — comentou.

— O quê?

— Que não gosto de você.


:
Ergui as sobrancelhas.

— Então por que você não me trata da mesma forma como faz
com o Rapha? — questionei, cravando minhas unhas nas palmas
das minhas mãos.

Ele me encarou por alguns segundos, o rosto inexpressivo.

— Porque você nunca vai ser o seu irmão.

Ai.

Senti meus olhos se encherem de lágrimas e agarrei minha


mochila. Doeu. Doeu pra caramba. E ele nem pensou duas vezes
ao dizer isso. Parece que foi tão fácil pra ele.

Com os olhos marejados, encarei Kellan.

— Você é um idiota! — esbravejei, odiosa. — Vá para o raio que o


parta, você e essa sua cara feia de quem odeia o mundo! — falei,
antes de sair do carro e correr para longe.

Não olhei para checar se Kellan me observava. Não quis que ele
soubesse que eu estava chorando. Ele deixou claro que eu não era
nada para ele, e tudo bem, ele não era obrigado a gostar de mim,
mas a rispidez em suas respostas sempre me pegava de
surpresa.

Depois que subi para meu quarto — um pouco mais tranquila pois
não tinha visto Callum na sala nem nos corredores — tomei um
banho e passei o resto da tarde fazendo meu dever de casa e
estudando para um teste importante que aconteceria daqui a
algumas semanas.

Sabia que ainda tinha tempo, mas qual era o sentido de estudar
:
em cima da hora? Preferia ir absorvendo o assunto a longo prazo.

Fechei meu caderno quando as palavras de Kellan voltaram à


minha mente, então levantei da cadeira, indo em direção ao meu
enorme espelho.

Analisei meu cabelo longo e escuro, preso em uma trança, e


escondi alguns fios rebeldes atrás das minhas orelhas. Encarei
meus olhos grandes cor de avelã, e desci o olhar para meus lábios
cheios. Segurei minhas bochechas gordinhas e cheguei à
conclusão de que talvez eu fosse mais bonita se emagrecesse,
como minha professora de dança falou.

Pelo grande espelho, analisei meu corpo. Coxas grossas, bunda


grande, cintura fina, porém, a barriga nada plana. Meus seios
tinham tamanho médio, e uma vez me disseram que eles iriam
crescer até meus dezesseis anos. Bom, eu estava contando com
isso.

Não me considero feia, mas o que eu tinha de especial ou


diferente para atrair a atenção de Callum ou o bullying dos meus
colegas?

Suspirei e me afastei do espelho, indo em direção a minha TV.


Coloquei 10 coisas que eu odeio em você e sorri ao abraçar o
travesseiro e perceber que não importa o quanto eu assista esse
filme, nunca me canso. Encarei Killer dormindo ao meu lado, e
quase morri com tamanha fofura.

Às sete e quinze da noite, decidi descer pra conferir se o jantar já


estava pronto. Com sorte, o cardápio de hoje não seria nada muito
gorduroso ou calórico.

— Já vai em um daquelas rachas idiotas? — Ouvi a voz da minha


:
mãe quando parei perto da escada.

Estão brigando de novo?

— Sim — Escutei Rapha confirmar, e do topo da escada, olhei para


ele.

Meu irmão estava com uma corrente pendurada em sua calça


jeans preta, e usava uma regata branca simples. Por cima, estava
sua jaqueta de mais cedo, aquela com a frase de Shakespeare. O
cabelo estava preso, e mesmo de longe era possível ver o piercing
brilhar em seu lábio inferior.

Diante do silêncio de Raphael, que estava arrumando o relógio em


seu pulso, mamãe continuou.

— Você não deveria frequentar esses lugares, você é herdeiro de


um grande patrimônio — ela falou, os braços cruzados sobre o
vestido vermelho que estava usando.

— Eu já ouvi esse discurso antes, não precisa repeti-lo toda vez


que saio. E não, eu não vou deixar de frequentar rachas — Ele se
abaixou para amarrar os cadarços de seus coturnos.

— Você não vê que isso é ilegal? — mamãe perguntou. — Isso


pode acabar com a nossa reputação, rachas não são algo da
nossa classe.

Mas o papai amava…

— Não sei se você se lembra, Victoria, mas o seu marido amava


rachas — meu irmão rebateu, com desdém, se erguendo.

Mamãe franziu as sobrancelhas.


:
— Não fale besteira. Callum nem mesmo chega perto desses
lugares imundos.

Sério, mamãe?

Rapha riu, seco.

— Não esse escultor sem talento que você pegou pra criar,
mamãe — ele disse, sarcástico, rindo venenosamente. — Me
referia ao marido que morreu. O dono da fortuna que seu novo
amante aproveita.

Do alto da escada, vi o rosto de nossa mãe se contorcer em pura


raiva.

— Quando é que você vai parar de implicar com o Callum? — ela


perguntou, pondo as mãos na cintura. — Ele sempre te tratou
bem, e tem você e a Ryen como filhos.

Ah, mamãe…

Meu irmão riu mais uma vez, negando com a cabeça várias vezes.

— Não tem nada de paterno na forma que o seu marido olha para
a minha irmã.

Ao ouvir a menção a mim, sentei no topo da escada, me


escondendo para que eles não me notassem.

— O que você quer dizer com isso? — mamãe se aproximou dele.

— Sério que você não nota o jeito que aquele filho da puta olha
para a Ryen? — meu irmão questionou, sorrindo cruelmente. —
Ele pode ver a Ryen de muitas formas, mas como filha ele com
certeza não a vê.
:
Ergui as sobrancelhas e senti um aperto no peito.

— Você está insinuando que o Callum vê a Ryen com maldade? —


mamãe pareceu incrédula. — Você ficou louco?

Rapha colocou as mãos nos bolsos de sua jaqueta.

— Só você não vê que o seu maridinho sente mais atração pela


sua filha do que por você — ele cuspiu as palavras, se virando
para ir embora.

Contudo nossa mãe não o deixou partir assim; ela agarrou seu
braço, o virando para si.

— Não é porque você não gosta do Callum, que precisa inventar


mentiras como essa! — mamãe aumentou o tom de voz, já estava
gritando.

Acredite nele, mamãe. Por favor.

Rapha puxou bruscamente seu braço do aperto dela.

— Foda-se se você não acredita em mim. A Ryen é a mais


prejudicada nessa história — Ele a olhou dos pés à cabeça. — Se
queria dar essa boceta velha, que o fizesse, mas não ponha um
homem dentro de casa quando a minha irmã ainda mora aqui! —
ele gritou.

Meus olhos se arregalaram e o som do tapa que minha mãe deu


em Raphael repercutiu por toda a sala.

Cobri minha boca com as mãos, vendo Raphael rir, uma risada tão
quebrada que partiu meu coração. Ele virou o rosto na direção de
nossa mãe, que tinha os olhos arregalados, assim como os meus.
:
— Sabe o que é engraçado? Todo mundo acha que somos
perfeitos, a família bem-sucedida e próspera de Miami — ele
disse, sua bochecha começando a ficar vermelha. Ele sorriu. —
Mas eles não podem olhar através das cortinas, não é?

Dessa vez, minha mãe não o impediu de ir embora quando ele lhe
deu as costas e caminhou em direção a enorme porta da sala.
Desesperada, fiquei de pé e comecei a descer as escadas.

— Raphael! — eu o chamei, minha voz embargada. — Rapha!

Quando finalmente cheguei à porta, meu irmão já estava indo


embora em sua Lamborghini verde, dirigindo em alta velocidade e
me deixando para trás. Uma lágrima escorreu pela minha
bochecha e eu fechei a porta.

Me virei para nossa mãe, a encontrando com uma expressão


indiferente. Como se não tivesse acabado de bater no rosto do
próprio filho.

— Rebelde de merda… — A ouvi resmungar, massageando sua


própria mão. A mesma mão que usou para bater em Raphael.

Andei lentamente até ela.

— Por que bateu nele, mamãe?

— Ele mereceu — Foi tudo que ela disse.

Sei que ele não deveria ter dito aquilo. Mas ainda assim…

— Por que não acreditou nele? — engoli em seco quando


perguntei.

Ela ergueu as sobrancelhas.


:
— Como?

Respirei fundo.

— Por que não acreditou no que ele disse sobre o Callum? —


perguntei, minha voz falhando.

— Porque isso não tem pé nem cabeça — ela disse e se afastou de


mim, me dando as costas.

Abaixei o rosto e arrumei uma mecha do meu cabelo atrás da


orelha. Em seguida, olhei para ela.

— E se o que ele disse for verdade? — eu comecei. — E se o seu


marido realmente me olhar com maldade?

Mamãe negou com a cabeça. Andei até ela e segurei suas mãos, a
fazendo olhar em meus olhos. Eu tinha que dizer a ela. Isso já
estava insuportável. Era como um peso sobre meus ombros.

— Ryen… — mamãe tentou, mas eu a cortei.

— Eu não queria falar porque estava com medo, mas o Rapha


disse a verdade, mamãe… — Lágrimas deslizaram por minha
bochecha. — Callum não é uma boa pessoa.

Ela puxou suas mãos do meu aperto.

— Pare com isso — ela mandou.

Mas eu não parei.

— Rapha também não sabe, mas ele falou a verdade — eu disse. —


Callum entra no meu quarto todas as noites e me toca enquanto
estou dormindo, mamãe. Ele abusa de mim sempre que você e o
Rapha estão dormin-…
:
Isso não podia estar acontecendo.

De todas as reações que minha mãe poderia ter, essa foi a que eu
nunca esperei. A dor do tapa pinicou em minha bochecha, e o
golpe foi forte o suficiente para virar minha cabeça para o lado.
Minha mãe me bateu.

Arregalei meus olhos e coloquei a mão sobre o meu rosto.

— Mamãe? — Olhei para ela.

Ela me agarrou pelos ombros.

— Não faça isso, Ryen! — ela ordenou, me chacoalhando. — Não


entre na onda do seu irmão, não seja como ele! Não minta assim!
— Seu aperto em meus ombros ficou mais forte.

— Mas eu não estou mentindo, mamãe! — solucei.

Mamãe me trouxe para mais perto.

— Você não vai contar nada disso ao seu irmão, me ouviu? Não
preciso dele usando a sua mentira para acabar com o meu
casamento!

Um soluço mais alto escapou dos meus lábios.

— Mamãe… — Foi tudo o que consegui murmurar.

— Faça isso e eu perdoo você, ouviu bem? — ela sugeriu e eu


assenti, sentindo meu coração despedaçar. Ela me soltou. —
Ótimo, agora suba para o seu quarto. Estou muito decepcionada
com você.

Depois disso, corri escada acima, minha visão embaçada pelas


lágrimas que escorriam pelo meu rosto sem dar trégua. Bati a
:
porta do meu quarto e a tranquei, pegando Killer de sua caminha
e me jogando com ele em cima da minha.

Minha própria mãe não acreditava em mim. Ela preferiu acreditar


no marido a mim, que sou sua filha. Ela disse que estava
decepcionada comigo, mas por que eu sinto que sou a única que
precisa ser consolada?

Eu deveria ter ficado calada. O abuso de Callum não duraria para


sempre, um dia eu vou fazer dezoito anos e vou embora daqui
com o Rapha. Essa foi a pior coisa que eu poderia ter feito, e nem
posso contar nada a meu irmão. Ele faria algo que comprometeria
sua liberdade de ir e vir, e eu não quero ficar sozinha com Callum
e minha mãe.

Eu estava tão magoada.

Killer enterrou o focinho na curva de meu ombro e me permiti


sorrir minimamente, acariciando suas costas pequenas. Não
desci para jantar e minha mãe não me chamou para comer.
Quando olhei a hora em meu celular — após dormir um pouco — já
eram cinco para as dez da noite.

Rapha não estava aqui para que eu dormisse com ele, e eu estava
disposta a esperar que Callum invadisse meu quarto mais uma
vez.

Foi pensando nisso que entrei no perfil do meu irmão no


Instagram e consegui descobrir a hora e o local do racha de hoje.
Eu não ia ficar esperando que Callum entrasse no meu quarto e
me tocasse sem minha permissão. Estava cansada de me sentir
suja e correr para o banheiro tomar um banho sempre que ele
abusava de mim.
:
Decidi que iria para o racha, e que só sairia de lá com o Raphael.

“Eu não me identifico com você

Eu não me identifico com você, não

Porque eu jamais me trataria assim, você me fez odiar essa


cidade”

Billie Eilish – Happier Than Ever

O táxi parou em um local repleto de carros e totalmente


desconhecido por mim. Analisei bem o lugar, vendo as pessoas
que passavam por mim. As garotas usavam roupas minúsculas, e
alguns homens estavam com o peito nu — a maioria usava
camisa, mas deixavam os botões totalmente abertos, revelando
seus abdomens bem trabalhados.

Pela janela, vi uma garota se abaixar para pegar algo no chão, e à


medida que ela empinou a bunda para o ar, fez meu rosto se
aquecer de vergonha. Aquilo podia ser considerado uma
calcinha? Ela realmente estava usando uma?

Céus, onde foi que eu vim parar?

Paguei o motorista do Uber, e antes de descer do carro conferi se


o canivete que Rapha me deu estava no bolso do moletom;
suspirei aliviada ao constatar que sim. O táxi foi embora e eu
engoli em seco antes de começar a caminhar entre as pessoas, a
música extremamente alta.

Subi o capuz do meu moletom ao ver alguns alunos do meu


colégio e enfiei as mãos nos bolsos. Não queria ser vista naquele
lugar, e agora entendia por que Rapha não queria me deixar ir até
lá. Só havia peito, bunda e abdômen pra todo lado.
:
Envolvi meus dedos em torno do meu canivete quando notei
alguns garotos me olhando intrigados enquanto cheiravam algo.
Abaixei o rosto e encolhi os ombros, continuando meu caminho.

Isso me fez questionar se a roupa que vesti para ir ao racha foi


uma escolha errada. Estava usando um moletom cinza e um short
jeans. Por baixo havia apenas uma regata branca de alças
grossas. Meu moletom era tão grande que chegava até um pouco
acima da minha bunda, deixando minhas pernas de fora. Em meus
pés calcei um all star vermelho e meu cabelo estava preso com
apenas uma trança, da qual minha franja escapava.

Parei de andar quando vi Kellan um pouco a frente, encostado em


sua Ferrari vermelha e rodeado de gente. Meu estômago
embrulhou quando reparei na loira bonita agarrada a ele, a mão de
Kellan em sua bunda coberta por uma minissaia. Candence.

Ela se inclinou e beijou seu pescoço, ele apertou sua bunda.

Alguma espécie de raiva subiu por meu peito, e eu lhe dei as


costas antes que sucumbisse à vontade de jogar uma pedra
enorme na cabeça dele. Eu ainda estava magoada pelo que
aconteceu mais cedo. Ele não precisava ter sido tão duro comigo.

Percebendo que Rapha não estava perto de Kellan, passei os


olhos pela multidão, o procurando.

— Caralho, Raphael está na frente!

Ergui as sobrancelhas quando escutei aquele nome, então olhei


na direção da voz e vi algumas pessoas olhando para um enorme
telão. Nele, vi a Lamborghini verde de Rapha. Tive a certeza de
que realmente era meu irmão quando ele pôs a cabeça pra fora e
mostrou o dedo do meio para o carro que estava logo atrás.
:
— Vai, cachorro louco! — um cara ao meu lado berrou, puxando
uma série de gritos das outras pessoas.

Eu não consigo levar esse apelido a sério.

Em algum momento, a Ferrari preta que estava competindo com


Rapha conseguiu ficar ao lado dele. No entanto meu irmão lançou
sua Lamborghini contra o carro rival, o fazendo ir para o lado. Meu
coração quase saltou da boca e eu dei pulo pra trás quando
Rapha ficou à beira de perder o controle.

Eu só não esperava que o meu susto fosse me fazer esbarrar em


alguém.

— Caralho! — uma voz masculina xingou e eu olhei para trás.

— Me desculpa! — eu pedi, minha cabeça baixa em uma tentativa


de esconder meu rosto.

— Presta mais atenção, seu merdinha — o cara falou, dando um


passo na minha direção.

— Acho que é uma garota, McKay — outro cara disse, me fazendo


engolir em seco.

Espera… McKay? Não era contra ele que meu irmão correria hoje?

Quando fiz menção de me virar para ir embora, alguém jogou meu


capuz para trás com tanta força que até a longa trança que eu
tinha colocado dentro do moletom, saltou pra fora, deslizando até
a altura do meu umbigo.

— Porra, e não é que é uma garota mesmo — o tal do McKay disse,


um sorrisinho brotando em seus lábios. — Perdida, gatinha?
:
Mesmo que seu sorriso tenha me dado arrepios, não pude deixar
de notar seu lindo cabelo loiro com cachos pequenos e
bagunçados, e seus olhos castanhos. Ele era alto; não tão alto
como Kellan, mas ainda assim fez eu me sentir pequena.

— Você tem quantos anos? — McKay perguntou, curvando seu


corpo para ficar da minha altura. Ele sorriu. — Acho que você não
deveria estar aqui, gatinha.

Coloquei as mãos nos bolsos do moletom e segurei meu canivete


com força.

— Com licença… — eu pedi, me virando para ir embora o mais


rápido possível.

No entanto uma mão agarrou meu cotovelo e me puxou para trás,


me fazendo colidir com o peito forte de alguém.

— Pra onde vai com tanta pressa? — Ouvi McKay perguntar em


meu ouvido. — Aposto que acabou de chegar.

Fiz um esforço para soltar meu cotovelo de seu aperto e dei


alguns passos para trás.

— Qual foi, McKay… — Um dos garotos riu. — Essa garota não


parece ter mais de dezesseis.

McKay inclinou a cabeça para o lado e me encarou, de cima para


baixo, com malícia evidente.

— Ela definitivamente não parece uma criança — Ele sorriu de


lado, dando um passo em minha direção.

Engoli em seco.
:
— Não se aproxime! — Consegui dizer, pronta pra sacar meu
canivete.

Ele riu como se eu tivesse dito a coisa mais engraçada do mundo.

— Ela fala — debochou, antes de passar o braço pela minha


cintura e me puxar contra seu corpo.

Foi tudo tão rápido que só me dei conta quando vi sua boca vindo
na direção da minha.

— Me solta! — gritei, me debatendo.


:

Você também pode gostar