DITADURA MILITAR NO BRASIL
Os governos militares do Brasil ocorreram entre 1964 e 1985, no período conhecido como Ditadura Civil-
Militar. Cinco militares governaram o Brasil durante a Ditadura Militar. Todos por eleição indireta, isto é,
sem o aval da população.
Os governos militares foram o período de vigência da Ditadura Militar no Brasil. Por mais de 20 anos,
somente membros das Forças Armadas, eleitos de forma indireta, presidiram o Brasil.
Antecedentes históricos dos governos militares
No início da década de 1960, o Brasil enfrentava uma crise política que se agravou em 25 de agosto de
1961, quando o presidente da República, Jânio Quadros, renunciou ao cargo pouco mais de sete meses
após sua posse. João Goulart, ex-ministro de Getúlio Vargas, assumiu a presidência, gerando
descontentamento em diversos setores da sociedade, entre eles os militares, grandes latifundiários,
industriais, banqueiros e setores conservadores da Igreja Católica. Vale lembrar que o mundo vivia o
auge da Guerra Fria, e João Goulart era considerado alinhado à União Soviética por esses grupos. Houve
grande pressão para que João Goulart não assumisse o governo, e um acordo foi estabelecido no
Legislativo, o qual implementou o parlamentarismo no Brasil. Entre 8 de setembro de 1961 e 24 de janeiro
de 1963 o Brasil foi uma República Parlamentarista, e o presidente dividiu o poder com o primeiro-
ministro. Após um plebiscito, a República Presidencialista foi reestabelecida, mas a crise política se
aprofundou.
Em 13 de março de 1964 João Goulart realizou na Central do Brasil seu discurso das reformas de base,
em que defendeu a reforma agrária, reforma urbana, reforma educacional, fiscal e eleitoral. Em resposta
ao comício na Central dos Brasil e às reformas de base, foi realizada a Marcha da Família com Deus pela
Liberdade, que mobilizou os grupos conservadores que acusavam Jango de tentar implementar o
comunismo no Brasil. Os comícios contra o presidente duraram por todo o mês de março.
No dia 25 de março, cerca de 2 mil marinheiros da Marinha participaram da celebração do aniversário da
Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil, que ocorreu no Sindicato dos Metalúrgicos do
Rio de Janeiro. Os comandantes das Forças Armadas foram contrários ao evento, e o ministro da
Marinha ordenou que ele fosse suspenso. Dezenas de marinheiros se recusaram a sair do prédio.
Em 31 de março de 1964, o general Olímpio Mourão Filho tomou a frente e iniciou o golpe de Estado que
era planejado há tempos pela cúpula das Forças Armadas. Ele enviou para o Rio de Janeiro cerca de 4
mil soldados com a missão de prender João Goulart, que se refugiou no Rio Grande do Sul.
Na madruga de 1º para 2 de abril ocorreu uma sessão conjunta do Senado e da Câmara dos Deputados
em que João Goulart foi deposto, e o presidente da Câmara, Ranieri Mazilli, assumiu interinamente o
cargo de presidente da República. Em 9 de abril o autoproclamado “Comando Supremo da Revolução”,
composto pelos comandantes das três forças, assinou o Ato Institucional 1, que deu poderes ao
Executivo, limitou o poder do Judiciário e retirou direitos individuais. Em 1964 o mandato de 41 deputados
federais contrários ao golpe de 64 foram cassados pelos militares.
Em 11 de abril de 1964, Humberto Castelo Branco, um dos mentores do Golpe de 1964, foi eleito
indiretamente para o cargo de presidente da República, iniciando assim o primeiro dos governos militares.
Características dos governos militares
A primeira característica dos governos militares foi o autoritarismo, com concentração de poderes
no Executivo. Durante toda a Ditadura grupos opositores foram perseguidos pelo Estado. A situação se
agravou nos chamados Anos de Chumbo (1968-1974), período no qual a chamada linha dura das Forças
Armadas governou o país.
O ufanismo também foi outra característica dos governos militares. Todos os presidentes militares
usaram o ufanismo para fortalecer o sentimento nacionalista e legitimar a Ditadura. Nos discursos e nas
propagandas do Estado, o Brasil era apontando como um gigante em crescimento, fadado a ser um dos
maiores países do mundo.
Quais foram os governos militares?
Governo Castelo Branco (1964-1967): considerado um militar da ala moderada das Forças
Armadas, Castelo Branco assinou a Lei de Greve de 1964, que, de fato, tornou ilegais as greves
em todo o território nacional. Durante o seu governo ainda foram promulgados os Atos Institucionais
2, 3 e 4, que estabeleceram o bipartidarismo, tornaram indiretas as eleições para governador e
promulgaram uma nova Constituição para o país.
Governo Costa e Silva (1967-1969): marechal do Exército brasileiro, Costa e Silva assumiu o
governo no dia 15 de março e iniciou seu plano de desenvolvimento econômico focando em cinco
pontos: reduzir a inflação, reduzir o desiquilíbrio entre os diferentes setores da economia, aumentar
investimentos estrangeiros, aumentar o crescimento e gerar empregos. Foi durante o seu governo
que se iniciou o Milagre Econômico, momento no qual a economia brasileira obteve grande
crescimento. O período também foi marcado pelo aumento da desigualdade social, de
concentração de renda, arrocho salarial e aumento do custo de vida. Foi no governo Costa e Silva
que entrou em vigor o AI-5, considerado o mais autoritário dos Atos Institucionais. O AI-5 permitia
ao presidente fechar o Congresso, cassar mandatos, suspender membros do Judiciário, legislar por
decretos e suspender habeas corpus. Em 1969, Costa e Silva sofreu um acidente vascular cerebral
e se afastou do poder.
Governo Médici (1969-1974): Emílio Garrastazu Médici assumiu o governo e obteve sucesso em
extinguir os grupos guerrilheiros que lutavam contra a Ditadura. Durante seu governo foram
assassinados os dois principais líderes guerrilheiros do país: o ex-capitão do Exército Carlos
Lamarca e o ex-deputado federal Carlos Marighella. Durante o seu governo o Milagre Econômico
chegou ao auge, e a construção de diversas obras estatais foram iniciadas, como a
Transamazônica, a Hidrelétrica de Itaipu e a Usina Nuclear de Angra I. Em 1973, em boicote ao
apoio norte-americano e europeu a Israel na Guerra do Yom Kippur, a Opep aumentou
drasticamente o preço do barril do petróleo, iniciando a Crise do Petróleo, que impactou as
economias de todo o globo. A crise acertou em cheio a economia norte-americana, que reduziu os
investimentos no Brasil, encerrando o Milagre Econômico e iniciando uma crise econômica que
duraria até o fim da Ditadura Civil-Militar.
Governo Geisel (1974-1979): Geisel foi o presidente que iniciou a redemocratização do Brasil,
que, nas suas próprias palavras durante a posse, foi uma “abertura lenta, gradual e segura”. Geisel
foi o primeiro presidente a admitir que torturas e assassinatos eram praticados no Brasil por
agentes do Estado. Ele também revogou o AI-5 e, em agosto de 1979, assinou a Lei de Anistia, que
tornou ilegal a punição de todos os crimes políticos praticados antes da lei, o que permitiu que
muitos exilados retornassem ao país.
Governo Figueiredo (1979-1985): o presidente João Figueiredo deu continuidade ao processo de
abertura política iniciada por Geisel. Em dezembro de 1979 o pluripartidarismo foi novamente
permitido e, nas eleições legislativas de 1982, a oposição à Ditadura conseguiu eleger a maioria
dos congressistas. Nas eleições indiretas de 1985 foi eleito Tancredo Neves, da oposição, com
72,73% dos votos do colégio eleitoral, vencendo o candidato da Ditadura, Paulo Salim Maluf.
Tancredo Neves faleceu dias antes da sua posse, e José Sarney, seu vice, assumiu a presidência
em 15 de março de 1985, encerrando assim os governos militares.
Principais acontecimentos dos governos militares
Golpe de 31 de março de 1964: marcou a derrubada de João Goulart e a ascensão dos militares ao
poder. O golpe e a ditadura que se seguiu contaram com o apoio de diversos setores da sociedade
civil, por isso o período dos governos militares é chamado de Ditadura Civil-Militar. Parte do
Congresso Nacional apoiou o Golpe de 1964, assim como grande parte da mídia nacional.
Milagre Econômico: ocorreu entre 1968 e 1973. Nesse período a economia brasileira cresceu em
média 8% ao ano, graças a investimentos estatais na economia, a parceria com empresas privadas e
os investimentos internacionais, sobretudo dos Estados Unidos, o principal aliado do governo militar.
Com a Crise do Petróleo em 1973, o Milagre Econômico cessou e, como consequência, uma crise
econômica se iniciou no Brasil.
Conquista da Copa do Mundo de 1970: no México, o Brasil se tornou o primeiro tricampeão de
futebol, conquistando em definitivo a taça Jules Rimet. A conquista do tricampeonato mundial foi
largamente utilizada politicamente pelo governo Médici. Em dezembro de 1983 a taça Jules Rimet foi
roubada da sede da CBF e nunca mais foi encontrada.
Lei de Anistia de 1979: assinada pelo presidente militar João Figueiredo, a lei 6.683/1979 concedeu
anistia a todos os crimes políticos cometidos entre 1961 e a promulgação da lei, em 1979. A lei, ainda
em vigor, impossibilita que os agentes do Estado que cometeram crimes durante a Ditadura sejam
punidos.
Movimentos de resistência nos governos militares
Os governos militares do Brasil foram marcados por forte repressão aos opositores.
Os governos militares enfrentaram diversos movimentos de resistência dos mais variados tipos. Um dos
primeiros movimentos a se opor à Ditadura foi político: a Frente Ampla, em que antigos aliados
políticos se uniram para enfrentar o autoritarismo da Ditadura Civil-Militar. Em 1966, Carlos Lacerda, um
dos apoiadores do Golpe de 1964, foi até Portugal e estabeleceu uma aliança política com Juscelino
Kubitscheck. No mesmo ano Lacerda e João Goulart também estabeleceram um acordo político, no
Uruguai, nascendo assim a Frente Ampla. Inicialmente o movimento divulgou cartas e manifestos na
mídia, criticando os rumos do governo Castelo Branco. A partir de 1967 passou a organizar comícios em
algumas cidades do Brasil.
O Movimento Estudantil também foi importante na luta contra a Ditadura, principalmente nos anos
iniciais. Em 1968 o movimento organizou a Passeata dos 100 Mil, que ocorreu em 26 de junho de 1968
no Rio de Janeiro. A passeata, além de estudantes, contou com a presença de artistas, políticos e
intelectuais.
Desde o Golpe de 1964 o movimento operário foi um dos mais perseguidos pela Ditadura, com a
proibição de greves, perseguição aos líderes sindicais e com a fundação de sindicatos fantasmas que
contavam com lideranças simpáticas aos militares. Apesar da proibição, em 1968, grandes greves
ocorreram na cidade de Osasco e na cidade de Contagem, mobilizando milhares de trabalhadores que
lutavam contra o arrocho salarial e as perseguições sofridas.
Todos esses movimentos inquietaram a cúpula das Forças Armadas e, em dezembro de 1968, foi
decretado o AI-5, iniciando assim os chamados Anos de Chumbo. Com o AI-5 a Frente Ampla se tornou
ilegal e o movimento enfraqueceu, o mesmo ocorreu com o Movimento Estudantil e Operário. Muitos
membros desses movimentos optaram então pela luta armada como estratégia para enfrentar a Ditadura.
Entre 1968 e 1972 diversas guerrilhas foram organizadas no Brasil, como a de Carlos Lamarca no
Vale do Ribeira, a guerrilha urbana idealizada por Carlos Marighella e a Guerrilha do Araguaia,
organizada por membros do então extinto Partido Comunista do Brasil. No início da década de 1970 todos
esses movimentos foram derrotados pela Ditadura.
De forma mais sutil, diversos artistas e jornalistas lutaram contra a Ditadura, divulgando peças teatrais,
músicas, charges e notícias que teciam críticas ao governo, muitas vezes de forma subliminar.
Fim dos governos militares
A Crise de Petróleo de 1973 atingiu em cheio a economia dos Estados Unidos, e os investimentos para
o Brasil foram reduzidos, iniciando uma crise em nossa economia. A crise foi responsável pelo fim do
Milagre Econômico e fez com que a Ditadura perdesse apoio popular.
Em 1975, Vladimir Herzog, jornalista da TV Cultura de São Paulo, foi assassinado durante tortura
praticada por agentes da Ditadura no prédio do DOI-Codi. Os torturadores afirmaram que Herzog havia
cometido suicídio na sua cela. Em janeiro de 1976 o operário Manoel Fiel Filho foi capturado por agentes
do Estado em seu local de trabalho e levado para o DOI-Codi, onde também foi morto durante sessão de
tortura. As notícias vazaram na mídia, o que levou o presidente Geisel a admitir que houve assassinato
nas duas situações.
Em 1977, após sofrer sucessivas derrotas no Congresso, o governo decretou o chamado Pacote
de Abril, um conjunto de leis que criou o cargo de senador biônico. Dois senadores por unidade da
federação seriam eleitos pelo voto e um terceiro seria eleito pelo governo. O pacote ainda aumentou o
mandato de presidente para seis anos e estabeleceu eleições diretas para todos os cargos do Executivo,
exceto presidente. O Pacote de Abril foi considerado um retrocesso no processo de abertura.
Em 13 de outubro de 1978, através da emenda constitucional número 11, Geisel revogou o AI-5 e os
outros atos adicionais que eram contrários à Constituição. Em agosto de 1979 foi aprovada a Lei de
Anistia, que tornou extintos todos os crimes políticos cometidos durante a Ditadura Militar por grupos de
oposição e agentes do Estado. A lei tornou, na prática, impossível a punição das pessoas que cometeram
crimes na Ditadura, estando ainda em vigor. Após a Lei de Anistia muitas pessoas que estavam exiladas
em outros países retornaram para o Brasil.
Em dezembro 1979 o pluripartidarismo voltou a ser permitido no Brasil, e foram criados diversos
partidos, entre eles o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), o Partido dos Trabalhadores (PT), Partido
Democrático Trabalhista (PDT) e o Partido Popular (PP).
Em 1983, o deputado Dante de Oliveira protocolou um projeto de emenda à Constituição chamado
de Emenda Dante de Oliveira, que estabelecia a eleição direta para presidente nas eleições de
1985. A partir desse momento um grande movimento exigindo eleições diretas surgiu no Brasil, o
movimento Diretas Já. Participaram desse movimento intelectuais, sindicalistas, igrejas, atletas, artistas e
grande parte da população brasileira descontente com a Ditadura e com a crise econômica.
Nas eleições legislativas de 1982 os militares perderam em grande parte dos estados, e a oposição
passou a ter maioria no colégio eleitoral. Em janeiro de 1985, Tancredo Neves venceu a eleição no
colégio e se tornou o primeiro presidente não militar eleito depois do Golpe de 1964. Na véspera de
assumir o cargo, Tancredo Neves foi internado, falecendo dias depois. Seu vice-presidente, José Sarney,
assumiu o governo em seu lugar. A posse de Sarney em 15 de março de 1985 é o marco final dos
governos militares no Brasil.
Consequências dos governos militares
A primeira consequência dos governos militares foi o assassinato de centenas de pessoas e a prática
de torturas, prisões arbitrárias, exílios e outras perseguições realizadas a milhares de outras pessoas.
Durante a Ditadura o poder de compra do salário mínimo caiu mais de 50%, e a concentração de
renda aumentou, piorando a desigualdade social em nosso país, assim como a miséria e a fome. O
Milagre Econômico só foi possível graças à redução dos salários dos trabalhadores e aos investimentos
estatais feitos na economia. A maior parte desse dinheiro vinha de empréstimos internacionais. A dívida
externa brasileira cresceu cerca de 30 vezes durante a Ditadura.
Outra consequência dos governos militares foi a grave crise econômica que se abateu sobre o país.
Iniciada nos anos finais da Ditadura, perdurou por toda a década de 1980 e início da década de 1990. A
crise só foi superada em 1994, com a criação do Plano Real.