Era uma tempestade chuvosa, e eu corria pelas ruas daquele reino que tão
bem conhecia, desesperadamente, sabendo que estava sendo perseguida.
Algo me fazia querer correr para a igreja, mas eu não fazia ideia do porquê. Só
o que conseguia pensar era que deveria me salvar, então corri na direção da
catedral. No caminho, meu estômago deu um salto ao notar corpos no chão:
Andrew, Peter, Rilary, Sarah, Luke, Tom, todos eles, caídos sem respirar na
porta daquela catedral. Eu entrei e me escondi, esperando pelo momento em
que aquele monstro passasse correndo e não me visse. Porém, era bem pior
do que eu desejava, pois ao fim do corredor ouvi uma voz, uma voz conhecida
que dizia:
– Onde está você? Cadê o amor da minha vida toda? Eu preciso de você aqui!
Quero ver seu rosto, seus cabelos – à medida que falava, aquela pessoa se
aproximava – e principalmente, quero os seus olhos! – Kai me encarava
sorrindo, maleficamente, como o vi fazer. Um de seus olhos era apenas um
buraco. Ele partiu para cima de mim, e no momento em que ia me atingir com
sua espada, eu abri meus olhos. Num grito desesperado, me agarrei ao item
mais próximo, um travesseiro, e, sem controle, chorei de desespero. Estava
assustada, não conseguindo tirar as mãos do rosto. Aquilo havia sido apenas
um pesadelo. Desde que todo o incidente acabou, um ano atrás, toda noite eu
sonho com Kai... Sarah e Rilary entraram pela porta do meu quarto. Rilary
segurou minhas mãos enquanto dizia:
– Fica calma! O que houve? O que aconteceu? – Ainda morávamos juntas...
por precaução. – Meredith, outro sonho? – Sarah perguntava de modo
carinhoso. – Era ele...?
Sarah era cuidadosa e gentil, havíamos ficado bem próximas nos últimos
meses. Aos poucos, as duas conseguiram me acalmar.
– Eu estava na igreja e... estavam todos mortos... os guardas, Luke, Tom...
todos eles – eu falava, conseguindo recuperar o fôlego, enquanto as duas me
olhavam com preocupação.
– Meredith, esses sonhos não são reais! Não mais... olha, está quase
amanhecendo, por que não volta a dormir e, quando acordar, vamos dar uma
volta?
Aquelas palavras entravam em meus ouvidos como um gatilho. Não saí de
casa desde que nos mudamos, mas, aparentemente, isso estava me fazendo
mal. Depois de horas tentando, as duas me convenceram a sair, ir ao menos
ao centro da vila para comer algo. Pela primeira vez, consegui notar o quanto
aquela vila era bonita e o quanto eu não conhecia nada dela, o quanto era
inexplorada, o quanto eu poderia aproveitar e quantas pessoas tão gentis ali
habitavam!
Em meio a feiras, lojas, casas e crianças, vi uma multidão, e pensei em, junto
das outras, me aproximar. Ao conseguir chegar mais perto, pude ver o que a
multidão tão grande e curiosa observava. Havia dois homens no meio de um
círculo, e mais dois caídos no chão. Os homens em pé portavam espadas de
madeira em suas mãos, e os rostos suados demonstravam glória. Eu os
observava com cautela enquanto diziam:
– Vamos lá! Quem são os próximos a nos desafiar? – Falava o mais alto. Tinha
uma aparência bonita, olhos escuros e cabelo preto. A pele era bem pálida e
seu sorriso reluzia ao sol. Tinha uma aparência saudável.
– Ah, ninguém? Que tristeza! – Debochava o mais baixo. Cabelos enrolados e
bonitos, um sorriso de quem sabia se divertir, a pele bronzeada e olhos
escuros.
Eles se despediram do círculo e cruzaram os olhos pela plateia. Os olhos do
mais alto bateram nos meus, me fazendo gelar, pois agora ele cutucava seu
amigo e os dois vinham em nossa direção.
– Será que meus olhos me enganam? Vejo um anjo aqui? – Dizia o mais alto,
sorrindo.
– Além de nós dois? – Falava o mais baixo, os dois pareciam convencidos. –
Qual seu nome, senhorita?
Rilary e Sarah pareciam encantadas, elas pareciam saber quem eram. Eu
apenas disse meu nome e os cumprimentei.
– E vocês, quem são? – Perguntei, curiosa.
Por alguns segundos, houve silêncio, até que o mais alto disse:
– Não é brincadeira? Não sabem quem somos?
Rilary interveio:
– É que ela não sai muito – dizia encantada.
– Se é o caso, permita-me – o mais baixo puxa sua espada e a põe junto ao
peito. – Sou Gabriel, membro do quarteto de anjos, chamado de anjo da
espada. – Ele se curva a mim. – Às suas ordens.
O mais velho faz o mesmo gesto.
– Sou Azrael, membro do quarteto de anjos, chamado anjo da guerra. Às suas
ordens.
Eu fiquei igualmente encantada com as ações deles. Iria puxar assunto, mas
não deu tempo. Um homem alto e muito forte vinha acompanhado de alguém
que caminhava de forma mais lenta do que devia, parecia querer ser notado.
– Os dois estão fazendo o quê aqui? Temos treino hoje! – Dizia o maior.
– Pra mim, quem perde tempo brigando com plebeus não merecia nem estar
no grupo – disse o outro, que parecia mais frio com o grupo.
– Não enche, Lucatiel, estamos nos divertindo – disse Azrael, nervoso.
– Não me interessa o que estão fazendo, vamos! – Disse o mais alto de todos.
– Tá... como quiser, Samuel... – Disse Gabriel.
E eles partiram sem mais nem menos. Eu e as meninas conversamos um
pouco sobre como isso havia sido diferente. Tomamos café na praça e
voltamos para casa. O dia foi curto, mas foi bom conhecer a cidade. Podia
prever que algo bom poderia vir a acontecer em pouco tempo.