FERRAMENTAS IMPORTANTES
FLUXO E PADRONIZAÇÃO
DO TRABALHO
Com o mapeamento de fluxo de valor é possível “enxergar” como o
fluxo flui pelo processo. E normalmente este fluxo sofre de
interrupções, ou paradas, e contra fluxo, normalmente ligados a não
qualidade. Para melhorar o fluxo, tem-se duas ferramentas: Just-In-
Time – JIT e a Padronização do Trabalho.
A seguir serão apresentadas estas duas ferramentas que estão
ligadas à Mentalidade Enxuta. Para exemplificar o uso destas
ferramentas se buscará usar exemplos de serviços.
Fluxo
Fluxo é o segundo princípio da Mentalidade Enxuta. Já dizia
HIRANO e FURUYA (2006), “JIT is Flow”. A importância deste
aspecto é seu impacto no tempo de resposta ao cliente, ou seja, ele
impacta diretamente o lead time. O que normalmente está ligado à
satisfação do cliente – nenhum cliente gosta de esperar pelo serviço.
As linhas de montagem da Ford, nada mais eram que montagem em
fluxo, conforme figura a seguir. A melhor maneira de executar uma
produção de um produto ou serviço é em fluxo contínuo. Porém, as
empresas acabam por produzir em lotes. As empresas acham que a
produção em lotes aumenta a eficiência do processo e da logística.
Porém, isso é feito assim para resolver os problemas de ineficiência,
por exemplo, setups ou tempos de preparação demorados. Se estas
ineficiências fossem solucionadas, não seria necessário produzir em
lotes.
Linha de montagem da Ford
Fonte: <[Link]
Um exemplo da área de serviços é a cobrança da energia elétrica.
Antes, alguém fazia a leitura e depois alguém digitava. Uma gráfica
fazia impressão e os Correios entregavam. Agora o funcionário
como, o da Figura a seguir, faz a leitura, digita o valor, imprime a
conta e entrega. Numa única visita e alguns minutos.
Novo sistema de cobrança de energia
Então como se faz para produzir um produto ou serviço utilizando o
fluxo contínuo? O primeiro passo é estabilizar o processo. O
segundo passo é reduzir ao máximo o lote de execução do serviço,
se possível utilizar lote unitário. Este passo, além de reduzir o lead
time, melhora a qualidade do produto ou serviço. As etapas para se
ter um fluxo contínuo são (SWANK, 2003):
Fonte: <[Link]
Alinhar as etapas de processos consecutivas para que fiquem
próximas umas das outras.
Padronizar os procedimentos e atividade.
Eliminar contra fluxos ou loops.
Estabelecer um tempo takt ou pitch para a célula.
Estabilizar e nivelar a capacidade do processo, eliminando os
estoques intermediários.
Separe a complexidade. Não a coloque na célula.
Veja o exemplo de mesas desenhadas para o trabalho em célula na
Figura a seguir.
Células de produção no escritório
Fonte: <[Link]
JIT
Indo além, pode-se considerar um JIT como uma extensão do fluxo.
Sendo este último seu elemento fundamental. Segundo
Schonberger (1984), responsável pleo termo JIT, este veio da ideia
de “apenas a tempo”. Ou seja, apenas a tempo de entregar ao cliente
no prazo – por exemplo. Veja a próxima Figura; nela se apresenta o
modelo do Toyota Way, desenhado por Liker (2016). O JIT é um pilar
do modelo, e o fluxo contínuo, um elemento deste pilar.
Casa do sistema Toyota de produção
JIT significa produzir ou executar um serviço que é necessário,
quando necessário, na quantidade necessária. Isto resulta em um
lead time bem mais curto, normalmente com redução de custo. Além
disso, melhora a qualidade, pois o feedback dos problemas ocorre
muito mais rápido. O JIT baseia-se em três ideias:
Fonte: adaptada de LIKER, 2016.
Takt Time (Tempo Takt). Conhecer o ritmo da demanda do
cliente e produzir neste ritmo.
Produção Puxada. Fluxo unitário e contínuo de trabalho.
Produção em fluxo. Fluxo de uma peça por vez.
O Takt e o fluxo contínuo reduzem o lead time e garantem a sincronia
em todos os processos. Já a produção puxada controlada com
cartões kanbans controlam o excesso de produção e garantem que
a informação chegue rapidamente ao processo. Um exemplo de
utilização de cartão kanban é no restaurante.
O garçom anota na comanda o pedido e leva a comanda para a
cozinha, colocando em uma ordem de chegada. Isto nada mais é
que um kanban. O cozinheiro vai pegando as comandas da fila na
ordem de chegada. O que está no “cartão kanban” comanda é o que
o chefe deve produzir. Outro exemplo é apresentado na Figura a
seguir.
Modelo Benihana de serviço
Fonte: Lobo, Y 2019
O caso apresentado na figura anterior mostra como o restaurante
Benihana, que tem dezenas de unidades ao redor do mundo, inovou
ao criar um sistema de atendimento em fluxo. E como é esperado,
ao estabelecer um fluxo contínuo de operação, fez crescer a
satisfação do cliente, reduziu manuseio e mão de obra e criou um
sistema único de atendimento. A figura a seguir mostra uma mesa
de jantar típica do Benihana.
Mesa de serviço no Benihana
O tempo Takt é fundamental na Mentalidade Enxuta, já que este
tempo sintetiza e caracteriza o pensamento Lean. O takt é o ritmo
da demanda, ou seja, é o ritmo que o cliente demanda o produto ou
serviço.
Fonte: <[Link]>.
Todo o restante é consequência deste ritmo. Até a parte financeira
da empresa deve ser fundamentada e estruturada com base no Takt
Time. Por fim, o Takt Time impacta a relação com os fornecedores
da empresa. É preciso uma visão sistêmica do negócio e esta visão
deverá ir do fornecedor ao cliente, ou seja, abranger toda a cadeia
de valor.
Logo, os fornecedores devem operar no mesmo ritmo do seu cliente
e aplicar conceitos de JIT na logística, para evitar a formação de
estoques. No Benihana, exemplificado na Figura anterior, o
cozinheiro consegue ditar o ritmo do serviço, adequando-se ao
tempo Takt, sem impactar a satisfação do cliente. Quando as mesas
de serviço estão vazias e a área de espera também, o cozinheiro
toma mais tempo durante o preparo das refeições. Ele faz alguns
malabarismos e truques com fogo. E assim a refeição se estende um
pouco mais. Já quando as mesas estão cheias e a área de espera
também, o cozinheiro corta os malabarismos e truques, e assim a
refeição demora menos. Ele consegue assim aumentar ou reduzir os
tempos de ciclo das refeições, adequando-as ao takt.
O mapeamento de fluxo de valor, como exemplificado no caso
Benihana, é uma boa ferramenta para a análise do lead time, e
consequentemente da jornada do cliente. E como se observa na
Figura anterior, embora simplificado, as diferenças no mapa de fluxo
de valor para a área de serviço comparado ao mapa de uma indústria
são grandes. A principal delas é a simplificação do fluxo de
informação, que inexiste ou é muito simplificado.
Padronização do trabalho
A padronização do trabalho é outra ferramenta importante para
aplicação da Mentalidade Enxuta, ou seja, para utilização dos
princípios Lean. Mas o que é trabalho padronizado? É o
estabelecimento de procedimentos precisos e detalhados para o
trabalho de cada atividade do processo. Esta padronização deve
estar baseada em três elementos:
Takt Time. Este é o ritmo do cliente, logo cada atividade do
processo deve acontecer neste ritmo.
Sequência exata de trabalho em cada atividade.
Estoque padrão exigido para manter o processo operando
suavemente.
E não menos importante, a padronização deve permitir a quem
desempenha a atividade, auferir a qualidade do trabalho
executado. Está correto ou não?
A regra 1 do DNA da Toyota reforça isso
Fonte: adaptada de Spear e Bowen (1999).
As vantagens da aplicação do trabalho padronizado incluem, dentre
outras:
Baixo investimento.
Redução do estoque.
Diminuição da carga de trabalho.
Ganho de produtividade.
Satisfação dos indivíduos.
Diminuição do risco de acidentes.
O documento do trabalho padrão é composto de três documentos
básicos:
Quadro de capacidade de processo. Este quadro é usado para
calcular a capacidade de cada etapa do processo. Isto é
importante para identificar os gargalos.
Quadro de balanceamento da capacidade das etapas do
processo. Esta tabela mostra a interação entre indivíduos permite
o balanceamento dos tempos de ciclo de acordo com o Takt Time.
Diagrama de Trabalho Padronizado.
Além disso, existe a folha de instrução do trabalho. Esta define todas
as etapas do processo com os requisitos que este produto ou serviço
deve seguir para garantir a qualidade. Ela detalha a atividade, lista
todas as etapas do processo, detalhando as habilidades especiais
exigidas para realização do trabalho com segurança, qualidade e
eficiência. A adaptação desta documentação, que nasceu na fábrica,
para o serviço não é simples. Alguns problemas comuns são:
Os tempos de ciclo das atividades podem variar muito em
atividades mais complexas e longas,
As atividades costumam envolver análise e decisão. Assim a
instrução de trabalho merece maior atenção que os demais
documentos.
Pode ser difícil auferir a qualidade do resultado da atividade
imediatamente ao final desta.
A seguir serão mostrados alguns exemplos – Figuras Análise de
capacidade A - Análise de capacidade B e Folha de instrução do
trabalho - desta documentação aplicados ao setor de serviços. Pode-
se observar as simplificações realizadas nestes documentos quando
comparados com suas versões para fábricas.
Análise de capacidade A
Fonte: Lobo, Y 2019
Análise de capacidade B
Fonte: Lobo, Y 2019
Folha de instrução do trabalho
Fonte: Lobo, Y 2019
FIT Elemento – Folha de instrução do trabalho
Fonte: Lobo, Y 2019
Exemplo de FIT – Checklist
Fonte: Lobo, Y 2019
O trabalho padrão deve ser preparado por cada indivíduo que
desempenha a atividade. E depois padronizado para toda a equipe,
garantindo que todos realizem as atividades do mesmo modo.
Evidentemente existem requisitos técnicos envolvidos nas
atividades que não devem ser alterados ao se preparar o trabalho
padrão. A área de qualidade deve garantir isso. Tudo mais é passível
de mudança. Além disso, a gestão da empresa deve tentar eliminar
progressivamente todo trabalho não padronizado. Deve-se buscar
um plano visual para cada funcionário, onde ele possa enxergar
quando e o que fazer. Outro documento que pode ajudar na
padronização do trabalho na prática são os checklists
exemplificados na Figura Exemplo de FIT – Checklist.
Como exemplificado nas Figuras Análise de capacidade e FIT
Mestre – Folha de instrução do trabalho, a padronização do trabalho
deve estar pautada no ritmo da demanda. Por isso, aqui também o
Tempo Takt é essencial. Esse ritmo protege o processo de
sobrecarga, que é um desperdício – MURI, e também da variação
da cadência, MURA. Com isso se evita a superprodução – MUDA.
Assim, o trabalho padronizado auxilia no dimensionamento da mão
de obra ou gráfico de balanceamento de operação. O trabalho
padrão e as FITs – Folhas de Instrução do Trabalho não foram feitas
para a área de serviços. Por isso, é importante adaptá-las para este
ambiente. A simples aplicação direta pode levar ao detalhamento de
pontos desnecessários.
Por outro lado, as atividades em serviços são, normalmente, muito
pouco estudadas e projetadas. Assim, o ganho que se pode obter ao
se aplicar o trabalho padronizado é grande. As ferramentas de fluxo
– JIT e a padronização do trabalho trazem estabilidade para as
operações e colaboram para atingir o objetivo da Mentalidade
Enxuta. Este objetivo é a redução de custo pela eliminação de
desperdício, gerando mais valor para o cliente.