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Formação Econômica da Amazônia: Análise Histórica

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A FORMAÇÃO ECONÔMICA DA AMAZÔNIA

THE ECONOMIC FORMATION OF THE AMAZON

Marcella Regina Gruppi Rodrigues1


Patrícia Kristiana Bagitz Cichovski2

RESUMO

Este artigo aborda e formação econômica da Região amazônica. Realiza uma revisão histórica
da geopolítica que resultou na formação dessa região ainda permeada de visões conflituosas e
antagônicas. A análise é realizada por meio de cortes temporais, que abrangem a fase de
formação territorial (da colonização até 1930), o planejamento regional (de 1930 a 1985) e a
incógnita de heartland (de 1985 aos dias atuais). Ao final o texto traz um apanhado sobre os
indicadores sociais da região, especialmente do estado do Pará, para demonstrar o resultado
negativo para a população desse território das ações governamentais realizadas na região em
dissonância com a realidade local.

Palavras-chave: Amazônia, formação econômica, geopolítica.

ABSTRACT

This article discusses and economic formation of the Amazon Region. Performs a historical review of
geopolitics which resulted in the formation of this region still permeated with conflicting and
opposing views. The analysis is performed by means of temporal sections covering the spatial phase
formation (the from colonization to 1930), the regional planning (1930-1985) and the unknown
Heartland (1985 to present). At the end of the text provides an overview on social indicators in the
region, especially the state of Pará, to demonstrate the negative result for the population of that
territory government actions undertaken in the region in dissonance with the local reality.

Keywords: Amazon, economic formation, geopolitics.

1
Mestranda e Bacharel pelo Cesupa. Advogada.
2
Mestre e Doutora pela PUC-SP. Professora do CESUPA
1. INTRODUÇÃO

A região amazônica é hoje palco de grandes interesses, seja por parte de sua
população, de grandes empresas, organizações não governamentais e até por nações
estrangeiras.

Esses interesses se devem especialmente ao seu imenso potencial como reserva de


recursos naturais, especialmente de água, e à sua biodiversidade, boa parte ainda por ser
descoberta.

Esse imenso território, que só no Brasil ocupa cinco milhões e meios de Km², é,
porém, cenário de diversos conflitos e de intensas desigualdades sociais.

Boa parte dos problemas vivenciados pela Amazônia foram decorrentes da elaboração
e execução de planos governamentais e políticas públicas permeadas de visões antagônicas e
em dissonância com a realidade local, tanto de sua gente quanto de seu território.

Desmistificar a região Amazônica, discuti-la e compreende-la é assunto de primeira


ordem para que se possa tirar proveito do momento de grande visibilidade vivenciado pela
região e para que se possam buscar alternativas de desenvolvimento que contribuam para a
melhoria de vida de seu povo e que respeitem as peculiaridades locais.

Esse é o objetivo deste artigo, ao tratar da formação econômica da Amazônia


pretende-se por meio de uma revisão histórica analisar como grande parte do que
correspondia tão somente a Floresta se consolidou como uma região povoada, cercada por
natureza, por gente e por problemas, pretende-se especialmente apontar os erros cometidos no
passado para que o futuro possa ser construído deforma diferente.

2. GEOPOLÍTICA NA AMAZÔNIA

É impossível hoje compreender o que se passa em um lugar e, consequentemente,


conceber e implementar políticas públicas adequadas, sem considerar os interesses e ações
conflituosas das diferentes escalas regionais envolvidas em seu espaço geográfico.

E a Amazônia é um espaço que se formou sobre os mais diversos conflitos, desde a


colonização, até os dias atuais seu imenso território sempre foi palco de interesses e projetos
antagônicos. Essa pluralidade de visões prejudica o modo de entender a região e a realização
de processos eficazes para o seu desenvolvimento.

De modo geral, podemos dizer que sempre existiram para a Amazônia dois grandes
grupos de projetos: um endógeno e outro exógeno. O primeiro envolve os diversos projetos
voltados para a adequação da Amazônia à satisfação de interesses externos. O endógeno, por
sua vez, comporta os projetos que buscam o desenvolvimento da Amazônia tendo por base os
interesses locais.

Outro fato relevante a ser destacado quanto ao modo de ver a Amazônia, permanente
desde a época da colonização, é a sua percepção como uma área de fronteira3, ou seja, uma
região com recursos infinitos a serem explorados. Hoje, essa é a visão preponderante sobre a
Amazônia a nível global. Internacionalmente a região é percebida como uma área de fronteira,
um espaço a ser preservado para a sobrevivência do planeta.

Coexistem nessa percepção interesses ambientalistas legítimos, e também, interesses


econômicos e geopolíticos expressos respectivamente no processo de mercantilização da
natureza4 e de apropriação do poder de decisão do Estado sobre o uso do território. Hoje a
exploração e apropriação de territórios por meio de apropriação de colônias e territórios já não
é mais tolerada, assim o grande meio para realizar a exploração dos territórios em um mundo
globalizado é ter o poder de influenciar nas decisões a serem tomadas em determinado local, o
que se consegue especialmente por meio do poder econômico.

Em nível nacional, onde igualmente coexistem interesses diversos, o interesse e a


percepção dominante ainda atribui à Amazônia a condição de fronteira de recursos, isto é,
área de expansão do povoamento e da economia nacional, que deve garantir a soberania do
Brasil sobre esse imenso território. Essa visão, porém, já não é capaz de exprimir a atual
configuração da região, como demonstraremos neste estudo, mas, contribui para a realização
de políticas públicas ineficazes para a região.

3
A visão da Amazônia como área de fronteira já se definiu de diversos modos, ora foi entendida como fronteira
de recursos naturais, ora como fronteira de território e atualmente há a visão de fronteira de capital, ou seja, a
floresta é vista como uma maneira de garantir a acumulação futura por meio de sua biodiversidade.
4
A mercantilização da natureza é a transformação de seus produtos, inclusive de modo fictício, como o ar em
produtos de mercado. O protocolo de Kyoto é um exemplo de transformação de um recurso natural inapropriado
a compra e venda (o ar) em um meio de reprodução de capital. Essa mercantilização fictícia já ocorrera outras
vezes, como, por exemplo, com a força de trabalho que foi transformada em mercadoria com o advento do
capitalismo.
Existem ainda, em nível regional e também internacional, interesses ambientalistas,
especialmente das comunidades locais e de diversas ONGs que buscam o desenvolvimento
sustentável e/ou a preservação da floresta e dos modos de vida tradicionais. Esses interesses
coexistem com os “desenvolvimentistas” para a sociedade regional.

Em nível regional/local, a incidência dessas duas grandes percepções e ações, somadas


às demandas sociais da população local, é expressa numa dinâmica territorial de grande
velocidade de transformação na realidade amazônica.

A existência de diversos projetos distintos e até mesmo antagônicos contribui ainda


para a falta de continuidade e de efetividade das políticas públicas realizadas na região, eis
que estas sempre são permeadas de conflitos, seja na sua elaboração, seja na sua
implementação.

3. MARCAS HISTÓRICAS DA FORMAÇÃO DA AMAZÔNIA

A grosso modo, distinguem-se três grandes períodos na formação da região. O


primeiro deles é a formação territorial (entre 1616 e 1930), que inclui a apropriação do
território, o delineamento da Amazônia e a definição de limites. O segundo período,
marcado pelo Planejamento regional (1930-1985), envolve diversos projetos do governo
nacional para o povoamento e desenvolvimento da Amazônia. Finalmente, a incógnita de
Heartland5 (1985 aos dias atuais), fase iniciada a partir da redemocratização do país sob a
perspectiva da globalização, inclui a percepção da Amazônia como fronteira socioambiental.

3.1. FORMAÇÃO TERRITORIAL DA AMAZÔNIA.

A região amazônica foi originalmente ocupada por aproximadamente mil nações


indígenas, concentrados principalmente nas várzeas e cuja população à época da descoberta
pelos europeus era estimada em torno de dois a três milhões de pessoas (Ribeiro, 1995).

Ao longo dos séculos, essa população indígena acumulou um conhecimento


detalhado da floresta tropical e desenvolveu um modo próprio para lidar com ela. Sua
integração harmônica com a floresta capacitava-os a explorá-la sem fins destrutivos.

A apropriação do território da Amazônia pela Coroa portuguesa teve início entre


os anos de 1616 e 1777, de forma lenta e gradativa, estendendo-se, porém, para muito além do
5
Expressão utilizada por Betha Bercker ( 2007) para definir o período de formação econômica da Amazônia a
partir do ano de 1985, marcado pela redemocratização do país.
que antes era delimitado a Portugal pelo Tratado de Tordesilhas6. A base econômica de então
era a exploração das drogas do sertão7 realizada pelos portugueses por meio da exploração da
mão de obra indígena. Assim, o início da ocupação se deu nos moldes de colônia de
exploração, voltada aos interesses externos, especialmente da metrópole.

A colonização portuguesa levou a uma intensa diminuição da população indígena


devido a vários fatores como doenças introduzidas pelo homem branco, escravidão para coleta
das drogas do sertão, para a realização dos mais diversos trabalhos e das lutas empreendidas
entre índios e colonos.

Paralelamente a esse processo um novo grupo social estava sendo gerado na


Amazônia. De acordo com Ribeiro (1995), a população neobrasileira da Amazônia era
formada pela miscigenação de homens brancos e mulheres indígenas através de um processo
secular, fazendo surgir um tipo étnico mais índio do que branco, conhecido como caboclo.
Esses caboclos, herdeiros do conhecimento indígena de como lidar com a floresta nativa,
ocuparam a área deixada pela população indígena. Assim, como os índios, os caboclos foram
ignorados pelo governo brasileiro desde o período colonial.

O delineamento do território que hoje constitui a Amazônia, porém, só se


concretizou entre os anos de 1850 e 1899 a partir da preocupação imperial com a navegação
do grande rio8 e o primeiro ciclo da borracha. Finalmente, completou-se a formação territorial
com a definição dos limites da região entre os anos de 1899 e 1930, o que se realizou por
meio da diplomacia nas relações internacionais e da atuação do exército no que tange ao
controle interno do território, eis que a coroa Portuguesa não tinha contingente populacional e

6
A ocupação da Amazônia para além dos limites do Tratado de Tordesilhas foi possível graças a União dos
Reinos de Portugal e Espanha, a união Ibérica que perdurou de 1580 a 1640.
7
Drogas do sertão é um termo que se refere a determinadas especiarias extraídas do chamado sertão brasileiro na
época da colonização brasileira, das entradas e das bandeiras.
O sertão brasileiro era, segundo pesquisa do Museu Paraense Emílio Goeldi, o modo como era conhecida
a floresta no Brasil.
As "drogas" eram produtos nativos do Brasil, que não existiam na Europa e, por isso, atraíam o interesse
dos europeus que as consideravam como novas especiarias.

8
No início do séc. XVII sabia-se que a foz do rio Amazonas dava acesso a uma imensa bacia hidrográfica e que
de algum modo, era possível, por meio dela, atingir o Peru e suas riquezas minerais. O controle da Foz do grande
rio revestia-se de importância fundamental para a política colonial das coroas europeias, particularmente para
Espanha e Portugal. Comerciantes ingleses , franceses e Holandeses, como anteriormente visto ameaçavam a
ocupação da colônia Ibérica na região (WEHLING,1999).
nem militar suficiente para exercer a soberania por meio da força ou da efetiva ocupação,
optando, pois, por exercer o seu domínio a partir da geopolítica e de fortificações militares
apenas em pontos estratégicos como a foz do rio amazonas e de seus principais afluentes.

Como se depreende, a formação da Amazônia, desde sua ocupação, se deu no


modelo de periferia do capitalismo internacional, de área de exploração. Sua ocupação estava
voltada ao atendimento dos interesses de expansão marítima das grandes empresas europeias.
Desde o começo a Amazônia foi entendida como uma área de fronteira “em que o progresso é
entendido como crescimento econômico e prosperidade infinita, baseado na exploração dos
recursos naturais, percebidos como igualmente infinitos” (Boulding, 1996; Becker, 1997). A
ocupação acompanhou os surtos de valorização de seus produtos no mercado internacional,
como o ciclo da borracha, da mesma forma, enfrentou períodos de abandono e estagnação
quando tais produtos perdiam proeminência junto ao mercado internacional.

Como dito, todo esse período inicial de ocupação da Amazônia de iniciativa


externa foi realizado sem grande aporte econômico ou mesmo populacional. A soberania do
território foi garantida não pela forte colonização e desenvolvimento local, mas, sobretudo,
por estratégias geopolíticas, primeiro da Coroa e depois do próprio governo brasileiro, que
manteve o controle da região por meio de intervenção em locais estratégicos, como a
ocupação da embocadura dos rios e seus principais afluentes, além da posse gradual da terra
por meio das uti-possidetis9 e pela criação de unidades administrativas diretamente vinculadas
ao governo central.

Esse período inicial conviveu com dois modelos conflituosos de ocupação, um


exógeno, que contribuiu para afirmação da soberania pelas relações estabelecidas com a
metrópole, especialmente no período áureo da era do Marquês de Pombal10 * e o outro

9
Utti Possidetis ou uti possidetis iuris é um princípio de direito internacional segundo o qual os que de fato
ocupam um território possuem direito sobre este. A expressão advém da frase uti possidetis, ita possideatis, que
significa "como possuís, assim possuais".
10
A política pombalina pretendia transformar o índio em colono. O projeto visava realizar a emancipação
indígena da tutela das ordens missionárias, integrando-o à população branca, por meio da instituição de
transformações sociais e estruturais nos processos de relacionamento entre a população amazônica e o povo
colonizador.

O Diretório propunha, em linhas gerais, tornar o índio um personagem semelhante aos portugueses, por meio de
diversas estratégias: 1 – as aldeias seriam transformadas em vilas e povoados, batizados com nomes portugueses;
2 – adoção da língua portuguesa em detrimento das línguas maternas de cada nação indígena; 3 – os casamentos
entre brancos e índias seriam incentivados, com a finalidade de aumentar a população da região; 4 – os índios
seriam incentivados ao trabalho agrícola, ao comércio, à vida civilizada.
projeto, que privilegiou o crescimento endógeno da região, que foi estabelecido pelo projeto
missionário11 (este conseguiu, ao contrário do projeto da metrópole, alcançar uma base
econômica organizada, fruto do contato dos missionários com os habitantes locais).

O projeto exógeno, exercido pela Coroa, de aproveitamento dos produtos locais


com surtos de valorização no mercado internacional foi desagregador para o Vale do
Amazonas, eis que concebido sob forte exploração e acumulação de capital por poucos, mas,
foi fundamental para a unidade política da Amazônia.

O projeto endógeno, que teve início com as missões e tornou-se muito menos
expressivo com a expulsão dos jesuítas12, remanescendo apenas em alguns projetos de
colonização, especialmente pelos povos indígenas, seringueiros e ribeirinhos, que tentam hoje
fortalecê-lo.

O primeiro surto migratório para a Amazônia ocorreu como reflexo da política


exógena, voltada para os interesses internacionais de extração de borracha na floresta
amazônica.

Assim é que no final do sé[Link] centenas de milhares de nordestinos se dirigiram


à Amazônia, incentivados pelos seringalistas, na busca da exploração do látex. Ocorre que os

11
As missões foram extremamente importantes para a ocupação territorial da Amazônia. Contribuíram para
fixar marcos de penetração ao longo da extensa rede fluvial amazônica e foram utilizadas sistematicamente pela
coroa para a realização de uma política expansionista, seja na aculturação dos gentios americanos, seja na
implantação de um modelo cristão e católico a serviço do governo português. Os missionários iniciaram sua
fixação na região desde a fundação de Belém em 1616. A orientação das ordens religiosas era de que aldeassem
os nativos, que se encontravam geralmente dispersos em amplos territórios, para melhor evangelizá-los e para
evitar a influencia de outras confissões religiosas, como os protestantes. Esses aldeamentos deram origem a
muitas cidades amazônicas.
12
Diversos conflitos ocorreram ao longo da colonização entre colonos jesuítas e leigos, eis que ambos tinham
projetos distintos para os gentios, enquanto os primeiro tinham por principal objetivo a catequese, os outros
buscavam sobretudo a escravização. Os Jesuítas, principais missionários na Amazônia acabaram expulsos no
reinado de D. José I, em 1759, sob a orientação do seu primeiro-ministro futuro Marquês de Pombal, que foi o
primeiro país europeu a expulsar os jesuítas

“Declaro os sobreditos regulares [os Jesuítas] (…) rebeldes, traidores,


adversários e agressores que estão contra a minha real pessoa e Estados,
contra a paz pública dos meus reinos e domínios, e contra o bem comum dos
meus fiéis vassalos (…) mandando que efetivamente sejam expulsos de todos os
meus reinos e domínios.” Decreto de expulsão dos Jesuítas, 1759
ameríndios13 haviam de longa data descoberto o uso do látex extraído de várias espécies
madeireiras encontradas de forma dispersa ao longo de toda a bacia amazônica. Em 1839 a
empresa Goodyear descobriu como processar o látex natural mantendo sua consistência
apesar da mudança de temperatura imprimida em seu processamento. Logo a borracha
transformou-se em mercadoria valiosa no mercado internacional, passando a ser utilizada
primeiramente em bicicletas e posteriormente em carros e em diversos acessórios.

Como consequência dessa imensa procura no mercado externo tornou-se


necessário o recrutamento de um maior número de pessoas para a extração do látex. Assim, é
que os seringalistas buscaram a mão de obra nordestina para suprir essa demanda. A vinda
dessa população para a Amazônia se deu ainda por outro fator: a devastadora seca que se
abateu sobre o Nordeste entre os anos de 1877 e 1900. 14

Essa mão de obra recrutada para a extração do látex normalmente migrava sem
suas famílias e eram proibidos por seus patrões de exercer qualquer atividade de subsistência,
eis que deviam concentrar suas atenções na extração da borracha. As relações sociais que daí
se desdobraram se estabeleceram por meio do sistema de aviamento, um sistema de
fornecimento de crédito e controle de mão de obra que se desenvolvia sem grande circulação
de capital, conforme demonstra Schmink:

“Relações sociais sob o sistema de aviamento estavam fundamentadas na


imobilização por débito e dependiam de formas personalistas de relações patrão-
cliente e, em alguns casos de coerção violenta. Salários eram completamente
desconhecidos nessa economia dominada pela troca, na qual dinheiro em si tinha
pouca importância. Até meados do século XVII, não se usava moeda em metal no
Pará. Mesmo depois da declaração da República em 1889, a sucessão de diversas
moedas, algumas delas fraudulentas, reforçou a tradicional falta de confiança em
dinheiro na Amazônia”. (Schmink, 2012, p.85)

No sistema de aviamento, a segurança das relações não se dava pela quantidade


dos ganhos, mas pela continuidade do relacionamento, baseada em débitos e obrigações, que
asseguravam a sobrevivência e o contato apenas indireto com a economia mundial
monetarizada.

A exploração era a tônica dessa relação, os seringueiros extraíam o látex e o


defumavam, depois os tocavam nos barracões- que geralmente pertenciam aos seringalistas,

13
O termo ameríndio é usado para designar os nativos do continente americano, em substituição às palavras
"índios", "indígenas" e outras consideradas preconceituosas.
14
Essa seca sofrida pelo nordeste pôs fim à agricultura do algodão que sustentava a região desde a
década de 1820, deixando milhares de pessoas sem a possibilidade de sustento ou subsistência.
os proprietários das terras- por itens de necessidade básica a preços inflacionados. Muitos
seringueiros resitiam a essa forma de dominação, inclusive por meio da deserção .

A exploração da borracha não exigiu grandes investimentos em infraestrutura: os


seringueiros necessitavam de poucos instrumentos para realizar á coleta e o escoamento da
produção ocorria por meio do transporte fluvial.

Em 1910, a borracha amazônica atingiu seu ápice seguido de queda, da qual nunca
se recuperou completamente. O declínio do ciclo da borracha foi ocasionado pela produção
em larga escala do látex na Ásia, que rapidamente alcançou menores custos de produção e
consequentemente menores preços do produto final no mercado internacional.

Ocorre, que a região não estava preparada para a brusca mudança na base de sua
economia, como destaca Santos: “A moeda estrangeira trazida pelo comércio da borracha
ajudou a subsidiar os custos da industrialização do sul do Brasil, mas o mesmo não aconteceu
na Amazônia” (R. santos, 1980,p. 260). A maioria dos bens acumulados consistiu em dívidas
não retomadas ou bens imóveis, que antes inflacionados, perderam rapidamente o valor.

Em decorrência da nova conjuntura, os estrangeiros que controlavam a exportação


deixaram o país, os aviadores reduziram drasticamente suas operações comerciais e a maioria
dos nordestinos retornou a suas terras, a tal ponto que a população do Pará sofreu um
decréscimo após o declínio da borracha.

Grande parte da Doutrina descreve, que o período que daí decorreu compreendeu
uma completa estagnação da região amazônica. É certo que a região entrou em crise e que
inclusive o seu aporte populacional diminuiu provisoriamente, mas, significativas mudanças
também sucederam nesse período: a Amazônia passará a viver o período de planejamento
regional.

3.2. O PLANEJAMENTO REGIONAL (1930-1984).

A partir do período conhecido como Estado novo, com a formação do moderno


aparelho do Estado e sua crescente intervenção na economia o governo de Getúlio Vargas
passou a realizar um planejamento para a Amazônia.
A Constituição Federal de 1946 trouxe um Programa de Desenvolvimento para
15
Amazônia , o qual originou anos mais tarde a criação da Superintendência de valorização
Econômica da Amazônia (SPVEA)16, tais iniciativas, porém, demonstraram muito mais uma
preocupação regional do que ações correspondentes.

Esse período também foi marcado pela industrialização da região sul do país, com
crescentes necessidades de matérias primas. Essa demanda foi logo atendida pela população
cabocla, que passou ao extrativismo de produtos necessários aos polos industrializados,
enquanto continuava a cultivar, caçar e pescar. Dentre os mercados que tiveram expansão,
podemos destacar o de pele de animais, inclusive de capivara, onça e iguana e o de exportação
de catanha-do-pará.

As ações governamentais efetivas sobre a Amazônia apenas aceleram-se no governo


JK, que na busca de alcançar 50 anos de desenvolvimento em 5 avançou na integração da
Amazônia ao cenário nacional. O Plano de Metas visava estimular a diversificação e o
crescimento da economia brasileira, era baseado na expansão industrial e na integração dos
povos de todas as regiões do Brasil por meio da construção da nova capital localizada no
centro do território brasileiro e de diversas rodovias.

A estratégia do Plano de Metas era corrigir os "pontos de estrangulamento" da


economia brasileira, em termos atuais "reduzir o custo Brasil", que poderiam estancar o
crescimento econômico brasileiro (por falta de estradas e energia elétrica) e reduzir a
dependência das importações, no processo chamado de "substituição de importações", já que
o Brasil padecia de uma crônica falta de divisas externas (dólares).

Na busca dos objetivos governamentais de integração e desenvolvimento a Amazônia


tinha o seu lugar e para isso o governo construiu diversas rodovias interligando a região aos

15
A Constituição Federal de 1946 retoma o interesse estatal pela Amazônia, assim estabelecia em seu artigo 199:
“no plano de valorização econômica da Amazônia, a União aplicará durante, pelo menos, vinte anos
consecutivos, quantia não inferior a três por cento da sua receita tributária”.

16
A Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA) foi criada em 1948 dentro
das medidas resultantes do Plano Salte na administração do presidente Eurico Gaspar Dutra, com a finalidade de
promover o desenvolvimento da produção agropecuária e a integração da Região à economia [Link]-
se que a SPVEA falhou porque se voltou muito ao extrativismo, abrindo linhas de crédito bancário direcionado
quase sempre para a borracha, excluindo outras atividades, como o cultivo da juta e da pimenta-do-reino e não
investiu na infra-estrutura social e viária da região.
demais polos nacionais, cortando a floresta com diversas estradas (como a Belém-Brasília e a
Cuiabá-Porto Velho) que facilitariam o escoamento da produção que se visava realizar na
região. O plano governamental baseado em “energia e transporte” também construiu usinas
hidrelétricas na Amazônia para dar suporte às indústrias e aos projetos que buscava atrair.

3.2.2 . A DITADURA MILITAR.

As mudanças na Amazônia foram drasticamente aceleradas no período


desenvolvimentista. Em apenas 20 anos de intensas transformações na organização espacial,
as ações públicas reordenaram o território, tanto em sua infraestrutura, quanto em sua
organização socioeconômica.

O projeto militar de modernização, permeado pela doutrina de Segurança nacional,


visava atrair investimentos estrangeiros e estimular o acúmulo de capital no setor industrial do
país para torná-lo equiparável aos países desenvolvidos. Nesse sentido vários projetos foram
realizados, desde reformas institucionais, como a criação do Banco Central, até o estímulo à
economia, ao povoamento e à integração da região amazônica.

Os governos desse período julgavam fundamental ter um completo controle sobre


o Estado, considerado como o único instrumento capaz de acelerar o processo de
modernização almejado. O planejamento assim tornou-se fundamental, este era concebido
como uma técnica racional e neutra capaz de aumentar o grau de eficiência das políticas
econômicas. Cabe lembrar que, em cenário político de um federalismo nominal, a
Constituição Federal de 1967 continha a previsão de intervenção federal nos Estados que
executassem planos econômicos ou financeiros contrários às diretrizes estabelecidas pela
União (art. 10, V,c).

Assim, a participação do Estado na Amazônia intensificou-se, essa região, assim


como o nordeste eram consideradas regiões problemáticas e consequentemente receberam
atenção especial; quanto à Amazônia, o lema era “integrar para não entregar”.

Temia-se tanto a possibilidade de guerrilhas em todo o seu “espaço vazio” quanto


à apropriação por vizinhos amazônicos. Ao mesmo tempo, o imenso território ainda
praticamente inexplorado se apresentava como uma maneira rápida de enfrentar vários
problemas, sociais, econômicos e geopolíticos.
As modificações no padrão de transporte, já iniciadas no passado, se intensificaram e
foram seguidas por grandes projetos econômicos, eis que o governo toma para si a
responsabilidade de realizar uma ocupação efetiva e “planejada” para a Amazônia.

A Amazônia era mais uma vez vista como região de fronteira e ganha relevância
perante o governo federal, pois, como dito, é vista como a solução de muitos de seus
problemas: primeiro o imenso território amazônico é apontado como a solução perfeita para
os conflitos sociais vivenciados em vários pontos do país, como o conflito pela terra. Assim,
os pequenos produtores expulsos do nordeste e sudeste pela modernização da agricultura são
incentivados a migrar para a região amazônica, onde obteriam a posse da terra.

Além disso, em nível continental havia duas grandes preocupações: a migração


nos países vizinhos de suas respectivas Amazônias e a construção da Carretera Bolivaria na
marginal de La selva, possibilitando a captura da Amazônia continental para a órbita do
Caribe e do Pacífico, reduzindo a influência do Brasil no coração do continente. E não menos
importante, havia a proposta do Instituto Hudson de transformar a Amazônia em um grande
lago para facilitar a circulação e exploração de recursos 17, o que não interessava ao projeto
internacional (Becker, 1982, 1990).

Ocorre, que apesar da crença no progresso pelo planejamento, os militares


propunham e executaram duas políticas antagônicas para a região: de um lado a colonização
das terras por pequenos agricultores nordestinos para diminuir a pobreza e , de outro o
incentivo à grande acumulação, à propriedade privada e a mudança tecnológica.

Assim é que os projetos governamentais, que viam região como uma fronteira de
desenvolvimento, buscaram por meio da “Operação Amazônia” (1966) atrair o grande capital
para a região. Os incentivos fiscais ficaram a cargo do Basa 18 e a SPEVEA foi substituída
pela Sudam, que ficou responsável pela execução dos programas do governo federal19.

Nos quinze anos que se seguiram, mais de um bilhão de dólares em investimentos


foram aprovados para a agropecuária na Amazônia, setor que recebeu a maior parte dos
17
O instituto Hudson é uma Instituição americana sem fins lucrativos fundada em 1960 com o objetivo de
garantir a segurança global. Propôs na década de 60 a construção de sete barragens para criar cinco lagos
gigantescos na Bacia Amazônica, com o objetivo de estimular o intercâmbio econômico entre os países da
América do Sul, e o investimento estrangeiro em pesca, mineração e petróleo em toda a região.
18
Banco da Amazônia.
19
Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia.
investimentos. Outro setor beneficiário do programa foi o madeireiro, especialmente o voltado
à exportação. As duas atividades se expandiram rapidamente no sul do Pará, em contrapartida,
o crédito para as atividades tradicionais, que sempre asseguraram o funcionamento da
economia regional, como a extração de borracha, foi posto em segundo plano. A mudança
enfraqueceu ainda mais o sistema de aviamento, o que encorajou as elites locais a venderem
suas terras ou a diversificarem suas atividades.

Novas rodovias foram implementadas visando complementar a apropriação física e


controlar o território. Surgiam redes de circulação rodoviárias, de telecomunicações, urbanas
etc. Nesse contexto o governo financiou a construção da Cuiabá-santarém, da Perimetral
Norte, além da transamazônica- uma estrada não pavimentada que se estendia por cerca de
5.000 km, partindo do Maranhão e Pará no leste, cruzando a bacia amazônica e chegando até
o estado do Acre, no extremo oeste, fronteira com a Bolívia.

Criaram-se enclaves como a zona franca de Manaus (1967), um moderno parque


industrial em meio à economia extrativista e o projeto Jarí (1967)20 voltado à produção de
celulose as margens do rio de mesmo nome.

A base do esforço de modernização dirigida da Amazônia era o plano de


integração nacional21que, como dito, também preconizou a colonização por pequenos
produtores, estes foram dirigidos a lotes de cem hectares, em ambos os lados da rodovia
transamazônica. O projeto de assentamento visava criar uma próspera classe de pequenos
produtores ao distribuir terras agrícolas gratuitamente, em territórios esparsamente povoados e
ao mesmo tempo reduzir as pressões em favor da reforma agrária. O governo federal

20
O projeto Jarí foi criado em 1967 pelo norte-americano Daniel Ludwig para produção de celulose, caulim e
agropecuária na Amazônia. O projeto entrou em decadência com a crise do petróleo e a queda dos preços e do
consumo do papel ao redor do mundo na década de 1970. Endividado o projeto que acabou sendo entregue ao
Banco do Brasil e foi, posteriormente, vendido ao Grupo CAEI e depois ao Grupo ORSA. O projeto atraiu
milhares de pessoas para o seu entrono em busca de empregos, mas, diante da crise do mesmo, muitos dos
imigrantes acabaram formando favelas em torno do Projeto, como as favelas do Beiradão e do Beiradinho nas
margens do rio Jarí. No entanto, o projeto contou com uma boa infra-estrutura, com a fábrica da JACEL – Jarí
Celulose S/A, a company town Monte Dourado.
21
Programa de Integração Nacional foi um programa de cunho geopolítico criado pelo governo militar brasileiro
por meio do Decreto-Lei Nº1106, de 16 de julho de 1970, assinado pelo Presidente Médici. A proposta era
baseada na utilização de mão de obra nordestina liberada pelas grandes secas de 1969 e 1970 e a noção de vazios
demográficos amazônicos são cunhados os lemas "integrar para não entregar" e "terra sem gente pra gente sem
terra".
acreditava que as pequenas propriedades poderiam produzir um excedente de produtos
agrícolas, tais como arroz e feijão.

Ademais, o estímulo à migração por políticas públicas buscava criar um mercado


de trabalho regional. Somente no estado do Pará, ao longo da rodovia Transamazônica, o
governo Federal, intermediado pelo Incra, implantou três projetos integrados de colonização
mediante a concepção urbanística de base rural.

Os colonos atraídos para as marginais da transamazônica eram principalmente


trabalhadores empobrecidos do nordeste, assim, de acordo com o slogan da época a
transamazônica “conectaria os homens sem terras as terras sem homens”.

Isto realmente ocasionou uma migração massiva para a Amazônia e uma rápida
urbanização ao longo das rodovias, atraídos tanto pelas promessas governamentais quanto
pelos polos de exploração mineral e madeireira milhões colonos se dirigiram à Amazônia.
Novos núcleos urbanos surgiram, seja como expressão planejada dos grandes projetos, as
company towns, as agrovilas, agrópoles e rurópolis, seja como fruto do povoamento
espontâneo e das contradições das políticas de desenvolvimento implementadas.

Ocorre que a euforia inicial logo se dissipou frente às dificuldades ignoradas pelo
projeto, assim como afirma Schmink (2012):

“Colonos assentados pelo Instituto Nacional de colonização e reforma agrária


(INCRA) em Marabá, Altamira e Itaituba enfrentaram numerosos problemas,
especialmente no escoamento da produção para o mercado. Os projetos de
colonização, no entanto continuaram a atrair migrantes de toda as partes do Brasil,
que chegavam ao Pará em números que excediam em muito a capacidade do Incra
em absorvê-los nas comunidades planejadas. Com poucas alternativas disponíveis,
os trabalhadores rurais apropriaram-se de quaisquer terras a que tivessem acesso,
lavrando-as sob a suposição de que as terras do Estado que não estivessem sendo já
ocupadas e cultivadas estavam à sua disposição”. (Schmink, 2012, p.36).

Ademais, a migração maciça acarretou diversos conflitos entre a população que


chegava, que também colidia entre si, e a população nativa, que se via ameaçada na posse de
suas terras e em seu modo de vida.

Grandes investidores também vieram atraídos pelos incentivos fiscais e pelos


financiamentos oferecidos pela Sudan transformando, rapidamente, imensas porções de terras
em pastagens ou mesmo adquirindo terras tão somente para imobilizá-las apostando na
especulação quanto a uma futura inflação, o que de fato se concretizava. Um exemplo no que
tange ao aumento de preços das propriedades é dado pela cidade de Parauapebas (PA), que
teve suas propriedades rurais valorizadas em torno de 3.000% em um curto período (Serra,
1997). Assim, o modelo agrícola latifundiário logo se sobrepôs ao dos pequenos agricultores
que acabaram expulsos da terra.

O aporte populacional foi tão intenso que como destaca Becker (2007), a população da
região saltou de 1 para 5 milhões em apenas 10 anos, ente 1950 e 1960. Ocorre que não havia
qualquer estrutura para receber todo esse contingente populacional, não havia escolas, redes
sanitárias, de saúde e muito menos emprego para toda essa gente.

Para agravar ainda mais a situação, até meados dos anos 70, muitos posseiros (aqueles
agricultores vindos principalmente do nordeste que haviam informalmente se apropriado de
terras devolutas) foram impelidos a deixar os lotes que já haviam começado a desmatar, eis
que a propriedade de suas Terras não era comprovada. Muitos seguiram em frente na estrada,
outros foram mata a dentro e muitos migraram para as cidades.

Nesse cenário, assevera Becker:

“em pouco menos de dois ou três anos, locais onde antes moravam apenas um
punhado de gente repentinamente explodiam centros de quinze a vinte mil
habitantes. A maioria desses centros urbanos carecia de serviços médicos,
educacionais e de saneamento, não oferecia aos agricultores despossuídos e aos
novos migrantes nem empregos regulares nem meio para se sustentar” (Becker,
1985, p. 357).

De fato, as áreas urbanas, desde as capitais estaduais, como São Luis e Belém, até as
pequenas cidades localizadas ao longo do corredor de Carajás, tiveram um crescimento
populacional impressionante. Por exemplo, a população de Parauapebas cresceu a taxa anual
média de 18,07% a.a. entre 1980 a 1991; Marabá, neste mesmo período, cresceu a uma taxa
média de 8,34% a.a .

Sem contar que dezenas de novos núcleos urbanos se formaram em um curtíssimo


espaço de tempo, sem que houvesse tempo ou recursos para sua estruturação. Em 1970,
existiam em torno de 83 municípios no Estado do Pará. Até 1996, haviam sido criados cerca
de 60 novos municípios, totalizando hoje 143 unidades político-administrativas.

Em consequência desses intensos fluxos migratórios, as cidades amazônicas


apresentaram de um modo geral, problemas nos setores de educação, saúde, além de uma
inadequada infraestrutura urbana, posto que os sistemas de tratamento de água, esgoto e lixo
atendiam – e ainda atendem- apenas uma pequena parcela da população. Os impactos deste
processo também são sentidos na saúde pública, diretamente relacionados à falta de
infraestrutura urbana básica. Esses problemas estão referidos na piora dos indicadores
sociais, como a mortalidade infantil que analisaremos na seção seguinte.

A rápida urbanização também estimulou a periferização das cidades existentes na


região, especialmente as maiores como Belém e Manaus.

Nesse contexto a cidade de Belém teve crescimento anual de 3,69 entre 1970 e
1991 (dobro da média nacional para o mesmo período, como atesta Browder, 1997). Como a
maior capital do estado na região, Belém tornou-se o centro de provisão e serviços, inclusive
para a população de estados vizinhos, estimulando altos níveis de migração de populações
carentes em direção a capital.

Enquanto as cidades inflavam, no campo os problemas não eram menores. A


disputa pela terra era a tônica e os personagens envolvidos eram os mais diversos. Havia
conflitos pela terra entre fazendeiros, investidores (atraídos pelos incentivos fiscais e
programas de créditos oferecidos pela SUDAN) e posseiros (muitos já expropriados do
nordeste e sudeste), seringueiros, índios e caboclos (estes três buscavam manter seu modo de
vida, ameaçados pela vinda pelos imigrantes e pelos projetos do Estado).

A partir da década 80 novos personagens migraram para a Amazônia: os


garimpeiros. A descoberta do ouro no sul do Pará trouxe consigo uma nova onda intensa de
migração para a região, mais uma vez acompanhada dos velhos problemas de falta de
estrutura e de conflitos. Nesse paradigma milhares de trabalhadores sem terra voltaram-se
para a corrida pelo ouro como meio de ganhar a vida, investidores forneciam comida e
equipamentos aos garimpeiros e obtinham lucros exorbitantes, os quais não eram investidos
na região. A prospecção e venda de ouro logo se tornou a atividade principal da época em
diversas cidades do sul do Pará.

Novos conflitos também sobrevieram dessa nova onda migratória, desta vez entre
índios kayapós e garimpeiros. Quando o ouro acabou, mais uma vez o fluxo migratório
voltou-se para as cidades que já não haviam sido capazes de absorver dignamente os fluxos
migratórios anteriores.

Nesse contexto houve ainda a intensa modificação territorial, com a superposição


de áreas nacionais sobre as estaduais para facilitar a distribuição e controle da terra em esfera
federal e a execução de seus projetos. Assim, decretou-se que a cada lado das rodovias, por
100 km não pertenceriam mais aos Estados, mas, à União, nesse contexto o Estado do Pará foi
o mais prejudicado, perdendo- como dito- cerca de 66% do seu território.

É relevante notar que todo esse processo de reordenamento espacial do território


resultou em uma nova configuração da Amazônia. A magnitude e a intensidade da
intervenção federal transformou a estrutura produtiva e a dinâmica espacial. Alterou-se a base
material-geográfica anterior, os circuitos de produção e a acumulação tradicional,
desestruturando os atores sociais preexistentes e seu poder político. O território se
reestruturou na medida em que foram introduzidas novas atividades, novos padrões
demográficos, com o surgimento de novas cidades, transformando o padrão de hierarquização
do sistema espacial e da rede urbana regional.

Em outro plano, as formas capitalistas de divisão técnica do trabalho que se


implantaram junto com a chegada dos fluxos migratórios (de caráter heterogêneo do ponto de
vista de sua composição social e econômica) trouxeram como consequência a reestruturação
do sistema de classes sociais e a complexificação da sociedade civil. Essas modificações
econômicas e sociopolíticas levaram ao declínio as formas de dominação política construídas
historicamente e seus arranjos espaciais. A necessidade de construção de novos pactos sociais
e do estabelecimento de laços entre os participes daquela realidade em formação demandou a
construção de novas identidades territoriais.

Em geral, as políticas públicas desenhadas na região amazônica, especificamente


em relação à esfera econômica, não conseguiram promover uma ocupação especial eficiente e
bem organizada. Os grandes investimentos em infraestrutura contribuíram para a redução do
isolamento entre as distantes regiões no Brasil e para o surgimento de novas alternativas de
investimentos e, consequentemente, de ganhos financeiros. Os grandes investimentos também
aceleraram o processo de ocupação espacial, resultando em uma exploração predatória dos
recursos naturais e no agravamento das disparidades sociais.

4. O ESGOTAMENTO DO PROJETO INTERVENCIONISTA E A


INCÓGNITA DE HEARTLAND.

A incógnita de Heartland se caracteriza por dois processos distintos para a


Amazônia: primeiro o esgotamento do projeto nacional desenvolvimentista inaugurado na era
Vargas com a intervenção do Estado na economia e que perdurou até a redemocratização do
Estado; segundo, o fortalecimento da resistência social na Amazônia.
O modelo desenvolvimentista entrou em crise e se esgotou com o primeiro e segundo
choque do petróleo e a súbita elevação das taxas de juros no mercado internacional. Houve o
aumento da dívida externa e a impossibilidade de seu prosseguimento pelo governo, que
deixou como herança além das intensas tensões sociais o baixo desenvolvimento econômico e
social, além dos graves impactos ambientais. .

A crítica ao modelo de desenvolvimento empreendido na Amazônia logo se fez


presente tanto internamente (o que foi possibilitado pela abertura política e o afrouxamento da
censura), como internacionalmente.

Os anos 80 a 2000 marcaram um período de intensa pressão pela preservação da


Amazônia. Os impactos negativos causados nas populações locais e no meio ambiente,
aliados a vários eventos importantes ocorridos na Amazônia geraram pesadas críticas no
Brasil e no exterior e ajudaram a tornar a região amazônica palco de publicidade
internacional.

O fato é que na Amazônia, a abertura política coincidiu com a crescente mobilização


dos pequenos agricultores, garimpeiros, seringueiros e indígenas, todos herdeiros da dura
realidade transformada pelos governos militares.

Dentre os eventos ocorridos no período e que captaram atenção aos problemas


ocasionados pela política governamental podemos destacar: 1.A constatação dos impactos
sociais negativos em termos sociais e ambientais do programa POLONOROESE22 que
levaram à interrupção dos empréstimos concedidos em 1985 pelo Banco mundial; 2. O
assassinato do líder seringueiro Chico Mendes; 3. Os protestos das populações indígenas
contra a construção de duas represas no rio Xingu, mostrando o descontentamento da
população com as tomadas de decisão unilateral nos programas de desenvolvimento; 4. Os
vários conflitos entres ONG`s e o governo federal sobre políticas governamentais para a

22
Polonoroeste: Programa Integrado de Desenvolvimento do Noroeste do Brasil, executado durante os anos
1980, com recursos do Governo brasileiro e do Banco Mundial. Abrangeu a área de influência da rodovia BR-
364, entre Cuiabá (MT) e Porto Velho (RO), e teve como objetivos principais: [Link] para a maior
integração nacional; [Link] a adequada ocupação demográfica da região noroeste do Brasil, absorvendo
populações economicamente marginalizadas de outras regiões; [Link] a produção da região e a renda de sua
população; [Link] as disparidades de desenvolvimento intra e inter-regionais; [Link] o crescimento da
produção em harmonia com as preocupações de preservação do sistema ecológico e de proteção às comunidades
indí[Link] que a imprensa nacional e internacional divulgou que o Estado brasileiro não cumpriu com o
compromisso de defesa das terras e da sobrevivência indígena assumido no contrato junto ao Banco Mundial.
Este, por sua vez foi criticado por apoiar financeiramente projetos predadores do meio ambiente e cultura
indígena.
região amazônica e 5. Uma série de manifestações na sede do Banco Mundial e Washington
pela preservação da floresta.

A população esgotada pelas consequências negativas da colonização e do processo


econômico mal sucedido começa a se organizar, ganhando atenção internacional graças à
globalização23 e à abertura política do país. Nesse contexto tem início a criação do conselho
Nacional dos seringueiros, seguido, como apontado, por diversos outros movimentos sociais.

A Amazônia que já era palco de diversos conflitos e pressões sociais agora


também recebe uma forte pressão ambientalista nacional e internacional. Assim, de 1986 a
1996 a Amazônia se configura mais uma vez como fronteira, desta vez, socioambiental. No
plano normativo, a Constituição brasileira de 1988, influenciada pelos princípios da
Declaração de Estocolmo de 1972, dedicou capítulo exclusivo à tutela do meio ambiente,
consagrando-o como direito social fundamental, cuja proteção constitui princípio da ordem
econômica e legitima as reivindicações ambientalistas.

Nesse paradigma expandiram-se na região diversos projetos ambientais e sociais.


Implanta-se na Amazônia uma malha socioambiental constituída por projetos alternativos,
áreas piloto para gestão ambiental integrada nos estados (PGAI), além de unidades de
conservação e da demarcação de terras indígenas.

Pela primeira vez, desde os tempos das missões, a Amazônia reproduz por meio da
fronteira socioambiental um modelo de desenvolvimento endógeno, eis que como afirma
Becker:

“voltado para uma visão interna da região e para os habitantes locais, introduzindo
uma nova e fundamental potencialidade para a Amazônia E a sua importância
transcende as populações envolvidas- os experimentos em curso são formas locais

23
Giddes define a globalização como: “a intensificação das relações sociais mundiais que unem localidades
distantes de tal modo que os acontecimentos locais são condicionados por eventos que acontecem a muitas
milhas de distancia e vice-versa”.

Tilly distingue 4 ondas de globalização: nos sécs. XIII, XVI, XIX e final do séc. XX (95). Apesar da tradição
histórica, o impacto atual na regulação do estado parece ser um fenômeno qualitativamente novo por 2 razões.
Em primeiro lugar é um fenômeno muito amplo e cobre um campo muito grande de intervenção estatal e que
requer mudanças drásticas no padrão de intervençã[Link] Tilly a diferença da atual globalização para a do séc.
XIX é que a anterior fortaleceu as nações hegemônicas e a atual enfraquece os poderes do Estado. A pressão
sobre os Estado é agora relativamente monolítica- o Consenso de Whashington- e este dita que o modelo de
desenvolvimento voltado ao mercado é o único compatível com o regime global de acumulação, sendo por isso
necessário impor ajustes estruturais em escala mundial.
de solução de um problema global: a proteção da biodiversidade “ (Becker, 2008,p.
28).

Essa mudança de concepção sobre a Amazônia se realizou sobre uma realidade nova,
construída a partir da política desenvolvimentista do Estado.

A estrutura realizada pelos governos anteriores com as tentativas de integração


somadas às possibilidades de comunicação oriundas da globalização, às pressões sociais,
ambientais e aos grandes projetos indústrias que se dirigiram à região produziram uma nova
Amazônia.

Assim, nos finais do século XX já não podemos falar da Amazônia como uma região
propriamente isolada, ao contrário, a conectividade permite que a região se comunique
internamente com o país e, externamente, de forma direta com instituições e associações não
governamentais.

A economia antes apenas extrativa se transformara com a industrialização a ponto de


ocupar na atualidade o segundo lugar no país na exploração mineral e o terceiro da produção
de bens de consumo duráveis. De acordo com o IBGE, 2004, a Amazônia Legal representa
7,9 do PIB brasileiro.

A urbanização também se configurou, de tal forma que 70% (segundo IBGE 2013) da
população da região vive em cidades ou núcleos urbanos.

3.1 A incógnita de Heartland e a conjuntura ambiental diante do paradigma neoliberal.

Enquanto a pressão interna e externa exigiam alternativas verdes de preservação da


floresta, cobrava-se do Estado a sua retirada da economia e a menor intervenção como agente
propulsor e organizador da economia e sociedade.

Assim, mais uma vez como resultado dos conflitos entre distintos projetos para a
região (desta vez desenvolvimentista e preservacionista) a meta de desenvolvimento para a
Amazônia se altera, desta vez em busca do desenvolvimento sustentável.

Esse paradigma, porém, apesar de buscar alternativas verdes e de desenvolvimento


social acabou alcançando tão somente avanços incipientes e esparsos, não obtendo o
desenvolvimento econômico e social há tanto almejado.

Nesse contexto, houve uma retração nos investimentos produtivos oriundos do capital
internacional, eis que os bancos e agências orientavam a uma política preservacionista. Ao
mesmo tempo, o país enfrentava uma crise fiscal e financeira, que logo se expandiu gerando
uma crise também no padrão de financiamento do desenvolvimento regional.

Muitos investimentos internacionais na Amazônia modificaram seus objetivos para


uma perspectiva mais preservacionista, como ocorreu com Programa Piloto para Proteção das
florestas tropicais brasileiras (PPG-7) que iniciou suas atividades com objetivos
conservacionistas e modificou sua atuação em busca de projetos de desenvolvimento
sustentável.

No entanto, é importante notar que as iniciativas (inter)nacionais de proteção das


floresta tropicais da Amazônia, por mais que tenham sido importantes em seu apoio a
programas de pesquisa e na implementação de projetos demonstrativos, pouco contribuíram
par reverter o cenário de destruição sócio-ecológica, isto por uma razão muito simples: de
modo geral identificavam, insumos que deveriam orientar as políticas de desenvolvimento
sustentável, porém não assumiam responsabilidade alguma para transformar tais políticas em
práticas generalizadas. Reservaram esse desafio aos agentes públicos do Brasil, que nos anos
90 ainda estavam enfrentando as consequências da dívida externa e que diante das vigentes
condições de sua inserção no sistema global, impostas pelo consenso de Whashington24, não
tinham como transformar a proteção da floresta em um assunto prioritário de suas ações.

Assim, de um lado o país enfrentava pressões para preservação e desenvolvimento


sustentável da Amazônia em suas dimensões continentais, de outro era pressionado a realizar
políticas de contenção de gastos públicos, ajustes fiscais e retirada da economia. Como era
impossível realizar as duas demandas ao mesmo tempo o governo acabou por optar pelas
políticas econômicas, que pareciam mais urgentes, como o controle da dívida e da inflação.

4.2. PERSPECTIVAS PARA A REGIÃO AMAZÔNICA

24
Consenso de Washington é um conjunto de medidas - que se compõe de dez regras básicas - formulado em
novembro de 1989 por economistas de instituições financeiras situadas em Washington D.C., como o FMI,
o Banco Mundial e o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, fundamentadas num texto do
economista John Williamson, do International Institute for Economy, e que se tornou a política oficial do Fundo
Monetário Internacional em 1990, quando passou a ser "receitado" para promover o "ajustamento
macroeconômico" dos países em desenvolvimento que passavam por dificuldades. O ajustamento à suas
recomendações era condição sine qua non para o recebimento de empréstimos e financiamento do grande
capital. As 3 principais inovações institucionais do consenso são: restrições drásticas à regulação da economia
pelo estado. Novos direitos de propriedade internacional para investidores estrangeiros, inventores de inovações
suscetíveis a serem objetos de propriedade intelectual. Subordinação dos Estados a agências multilaterais como o
Banco Mundial, o FMI e a OMC.
Apesar de todos os problemas vivenciados pela Amazônia, tanto de ordem econômica
quanto social, seja em relação à caótica infraestrutura de sua malha urbana, a região
amazônica tem grandes trunfos na busca de seu desenvolvimento.

Assim é que a Amazônia vivencia um momento de grande valorização, isto porque


apesar de os recursos econômicos estarem do lado de fora, especialmente nos países
desenvolvidos, os recursos naturais e reservas, sejam de produtos com potencial de
aproveitamento pela ciência, seja de biodiversidades, seja da própria água, hoje tida como
ouro azul (face ao seu caráter finito e aumento crescente da demanda mundial), se localizam
em grande parte neste território.

Nesse contexto, investimentos de capital internacional em busca do aproveitamento


sustentável da floresta são dominantes, ainda que incipientes frente ao potencial apresentado
pela região.

Nos últimos anos a tendência é a viabilização da realização do capital natural através


de um processo crescente de mercantilização da natureza. O que se observa é a transformação
de elementos naturais em mercadorias fictícias, como por exemplo o uso do ar, em medidas
como as do protocolo de Kyoto 25

4.2. O ESGOTAMENTO DA AMAZÔNIA COMO FRONTEIRA MÓVEL E O


RECONHECIMENTO DA AMAZÔNIA COMO UMA REGIÃO CONSOLIDADA.

As rápidas mudanças operadas na Amazônia nas últimas cinco décadas


desconfiguraram muitas de suas características iniciais. Uma delas foi a mudança do padrão
de circulação fluvial pela proeminência da malha rodoviária. Como dito, as rodovias
possibilitaram não só um novo meio de transporte como também atraíram a população, seja
interna da Amazônia, seja vinda em grande número de outras áreas do país. Rapidamente
abriram-se clareiras na floresta e a Amazônia se urbanizou, especialmente seguindo os
caminhos da malha rodoviária.

25
O Protocolo de Kyoto constitui um tratado complementar à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre
Mudança do Clima. Criado em 1997, definiu metas de redução de emissões para os países desenvolvidos,
responsáveis históricos pela mudança atual do clima. O Protocolo prevê três mecanismos de flexibilização, com
a intenção de ajudar os países com maiores taxas de emissão de carbono a alcançarem as meta de redução de
emissões: Comércio de Emissões, Implementação Conjunta e Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL).
Como dito, hoje 70% da população amazônica vive em núcleos urbanos, ocorre que
tais núcleos se formaram de forma muito rápida sem que pudessem se estruturar para receber
tamanha população, sem contar que tais regiões também não obtiveram dinamismo
econômico suficiente para acomodar e gerar atividades produtivas ou empregos para toda essa
população, gerando muito mais miséria do que progresso e oportunidades para o povo que ali
veio residir.

A dinâmica demográfica atual demonstra que a Amazônia já não pode ser considerada
uma fronteira móvel, mas uma região com povoamento consolidado e com estrutura e
problemas específicos que merecem ser considerados na realização de políticas públicas para
a região.

Atualmente os fluxos migratórios na Amazônia não são mais inter-


regionais, mas internos, especialmente de natureza rural –urbano. As perdas de população
rural foram sentidas em todos os estados amazônicos no período de 1996 a 2000. Os
municípios que apresentaram maiores perdas de população rural estão localizados no Pará,
Maranhão e Tocantins.

O processo de urbanização se acentuou novamente a partir de 1991 e


em apenas dez anos, o número de habitantes na zona urbana aumentou em 5 milhões.

A Amazônia foi a região brasileira que apresentou maiores taxas de


crescimento urbano na segunda metade do século XX: Em 1970 3,5 % da população vivia em
núcleos urbanos, em 2000 os habitantes das cidades já era 69,07% , hoje perfazem 70% do
total (IBGE).

Com respeito aos níveis de centralidade das capitais e subsistemas urbanos, verifica-se
que o conjunto das cidades da Amazônia legal é caracterizado pela presença de poucos
centros com centralidade26 expressiva e um grande número de cidades com fraca ou muito
fraca centralidade.

Três cidades capitais, hoje se situam na categoria de metrópole, se destacando com


centralidade muito forte: Manaus (1.294.724 habitantes), Belém (1.724.099 habitantes) e São
Luís (853.325 habitantes). As demais regiões têm centralidade mais reduzida e subordinada a
essas capitais ou capitais de outras regiões do país.

26
A centralidade referida é a influencia exercida por cidades em áreas além de seu território.
Em boa medida, as mudanças no padrão de distribuição da população urbana refletem
as transformações processadas na economia (hoje diversificada e não mais
predominantemente extrativa) e o efeito das políticas públicas aqui realizadas. Nesse
contexto, os centros de comando regionais promovem a incorporação do tecido produtivo,
apoiado nos respectivos núcleos urbanos.

A Amazônia não pode, assim, mais ser considerada uma área de fronteira móvel, ao
contrário, como afirma Becker (2009), a Amazônia é uma floresta urbanizada, formada por
diversos núcleos urbanos e cidades, possui atividades econômicas já implantadas, que incluem
desde extrativismo, até atividades industriais expressivas, como ocorre na zona franca de
Manaus.

A região ainda é servida por uma certa infraestrutura, composta especialmente por
estradas e usinas hidrelétricas. Possui uma imensidão de rios aptos a navegação, o que pode
ser melhor explorado para o deslocamento da população e da produção realizada na região.
Esses atributos fazem com que a Amazônia constitua-se hoje não em uma área de expansão
móvel, mas sim em uma região consolidada.

5. DOS INDICADORES SOCIAIS DA AMAZÔNIA

Já sabemos que a Amazônia é hoje uma REGIÃO não só povoada como urbanizada, já
apontamos os graves efeitos da sua formação econômica desorganizada e dessa urbanização
acelerada na vida de sua população, falta-nos agora comprovar as condições em que vivem os
povos da Amazônia por meio da demonstração de seus indicadores sociais. Analisaremos
nessa sessão em especial resultados do estado do Pará, segundo maior Estado da região, com a
maior população da Amazônia e objeto principal de nosso estudo.

Iniciaremos nossa análise pelo IDH, índice de Desenvolvimento humano, índice que
mede o grau de desenvolvimento econômico e qualidade de vida de uma população,
divulgado anualmente pela UNU.

O Cômputo do IDH inclui educação (anos médios de estudo), longevidade


(expectativa de vida da população) e produto interno bruto per capita. O índice tem início no
marco 0 (zero), que significa nenhum desenvolvimento e vai até 1 (um), maior nível de
desenvolvimento a ser alcançado por determinada população.
No que tange à região amazônica, nenhum de seus municípios alcançou o nível de
desenvolvimento considerado muito alto (acima de 0,800 pts) na pesquisa de ONU de 2013.

O Estado do Pará obteve uma média de 0,644 pontos de desenvolvimento humano


segundo dados do Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento (2013). De seus 142
municípios, nenhum alcançou nível de desenvolvimento muito alto, acima de 0,800. Oito
municípios apresentaram nível de desenvolvimento muito baixo. 86 apresentaram taxa de
desenvolvimento baixo. 43 apresentaram desenvolvimento médio e apenas 3 apresentaram
taxas de desenvolvimento alto.

O índice demonstra tão somente a ponta do iceberg, pois se considerarmos outros


índices, como o de saneamento básico, a situação torna-se ainda mais preocupante, pois
mesmo os municípios com melhores níveis de IDH apresentam outros indicadores negativos,
como o de saneamento básico.

A oferta de saneamento básico é fundamental em termos de qualidade de vida, pois


sua ausência acarreta poluição dos recursos hídricos, trazendo prejuízo à saúde da população,
principalmente o aumento da mortalidade infantil. Ainda assim, dos domicílios urbanos do
Estado, apenas 19% da população têm acesso a sistema de saneamento básico adequado. Esse
índice se diferencia nos domicílios urbanos e rurais, dos urbanos 25,7% têm acesso a
saneamento adequado e dos rurais apenas 2, 5%. Entre as crianças de 0 a 5 anos do Estado,
29% não tem acesso a saneamento adequado (IBGE 2010).

Ainda no que tange aos serviços de saneamento básico, o Trata Brasil27 divulgou em
2013 uma lista com a análise do saneamento básico das 100 maiores cidades brasileiras.
Dentre os cinco piores municípios segundo a classificação do índice três estão no Estado do
Pará ( Santarém, Ananindeua e Baixo Amazonas).

Outro dado alarmante refere-se ao sistema de abastecimento de água, eis que o


PNSB28- 2008 aponta que 45,3% da população da região norte não possui sistema de
abastecimento de água. Por outro lado, o Trata Brasil 2008 identificou que 76,3% da
população de Belém têm acesso à água tratada, mas apenas 8,1% têm a coleta de esgotos. O

27
Trata Brasil: estudo realizado pelo Instituto Trata Brasil e intitulado "Esgotamento Sanitário Inadequado e
Impactos na Saúde da População 2008-2011", que avalia a situação do saneamento básico nos 100 municípios
mais populosos do país (o chamado G100)
28
PNSB: Pesquisa Nacional de Saneamento básico.
volume de esgotos tratados é um privilégio de apenas 1,6% dos habitantes, enquanto a média
de perdas financeiras com a água produzida na cidade é de 46,1%. O município de
Ananindeua segundo maior município do Pará tem o pior saneamento dentre as 100 cidades
pesquisadas.

No que tange à renda per capita, os números também são baixos e bastantes distintos
entre campo e cidade. Assim, segundo IBGE 2010 , esse rendimento mensal médio é de R$
383,00 nos núcleos urbanos e de R$ 196,00 no meio rural.

Outro dado a ser destacado é quanto ao alto número de pessoas vivendo em


aglomerados subnormais29. No estado do Pará são 1.267.259, segundo o IBGE.
No que diz respeito à educação, o IDEB30 mede as taxas de qualidade da educação
básica em todo o País. Segundo a pesquisa mais recente, de 2013, Pará atingiu a marca de
apenas 4,2 (de um total de 10 pts.) em 2012.

E relação à educação há de destacar-se ainda que 16,8% da população dos municípios


do Estado do Pará com mais de 15 anos de idade ainda é considerada analfabeta. 55.244
crianças de 0 a 14 anos estão fora de escolas ou creches (IBGE 2010).

O trabalho infantil apresenta números alarmantes na Amazônia. A região norte possui,


segundo PNAD 2012, 4.460.421 crianças de 5 a 19 anos trabalhando. No Estado do Pará,
segundo a mesma pesquisa, 2.089.287 crianças trabalham nessa faixa etária, e, na cidade de
Belém, cerca de 474.601 crianças trabalham, ainda segundo o PAD 2012. Quanto aos
números do trabalho infantil há de se ressalvar que se supõe que os números sejam ainda
maiores frente à dificuldade de fiscalização do mesmo.

Quanto a pessoas vivendo em condições de pobreza, o IBGE (2003) atesta que 47,67%
da população dos municípios paraenses vive abaixo da linha da pobreza e 43,14% vivem em
condições de pobreza.

29
Aglomerado subnormal é um termo utilizado pelo IBGE para designar um conjunto constituído por no mínimo
51 unidades habitacionais (barracos, casas, etc.), ocupando ou tendo ocupado até período recente, terreno de
propriedade alheia (pública ou particular), dispostas, em geral, de forma desordenada e densa; carentes, em sua
maioria, de serviços públicos e essenciais.
30
Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, criado em 2007, pelo Instituto Nacional de Estudos e
Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), formulado para medir a qualidade do aprendizado nacional e
estabelecer metas para a melhoria do ensino.
6. CONCLUSÃO.

A formação econômica da Amazônia, somada à implementação de planos


governamentais e políticas públicas voltadas à formação e desenvolvimento da região
permeadas de visões contraditórias e conflituosas, acabaram por gerar uma região marcada de
desigualdades sociais, conflitos e pobreza.

Entender a formação desse imenso Território e compreender suas peculiaridades,


porém, é fundamental na formulação de suas políticas públicas.

Formulações genéricas de políticas públicas e projetos governamentais desorganizados


não são capazes de solucionar a questão na região, ei que a mesma é permeada de relações
sociais, questões econômicas e meios de vida que lhe são específicas, devendo ser bem
compreendidas para que possam ser enfrentadas.

Medidas realizadas no passado permeadas pela falta de um planejamento coerente e


que não consideraram as especificidades locais não podem ser repetidas.

São necessárias ações públicas organizadas, planejadas e coerentes para que se alcance
sucesso em sua implementação na região.

Nesse contexto, apesar dos diversos problemas vividos pelo estado do Pará e pela
região Amazônica, devemos ressaltar- como já destacamos- que a Amazônia vive um
momento de intensa valorização, por conta de sua biodiversidade e por sua posse de grande
parte da água e de outros recursos naturais escassos no resto do planeta.

Ademais, as requisições e necessidades de suas populações são hoje ouvidas e


valorizadas internacionalmente, o que lhes traz um grande poder de pressão sobre os governos
local,estadual e federal.

Esse contexto é extremamente favorável à região e propenso a realização de mudanças


positivas. Tal conjuntura deve ser aproveitada pelo governo no intuito de promover a
distribuição de serviços públicos de qualidade à população, ao mesmo tempo deve tomar
partido da valorização da floresta para realizar parcerias com a iniciativa privada que sejam
proveitosas à população local e assim promover a dinamização da economia local, também
essencial a melhoria de vida da população.
Essa dinamização da economia deve ter sempre em conta as atividades e modos de
vida desenvolvidos na Amazônia e deve aproveitar a infraestrutura já constituída na região,
como a malha rodoviária, além de promover formas de circulação não degradantes na região,
como o transporte fluvial nos grandes rios.

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