Memes na Web Social: as Imagens de Si e a Circulação de
Estereótipos no Google e no Facebook
Lafayette B. Melo1
1
Unidade Acadêmica de Informática – Instituto Federal da Paraíba (IFPB)
João Pessoa – PB – Brazil – CEP 58015-435
lafagoo@[Link]
Abstract. This article describes the working of memes in the Social Web that
build stereotypes and images that people make of themselves. The theoretical-
methodological approach of French Discourse Analysis is used. Memes are
collected in search results from Google, Google Images and Facebook to build
the research corpus. It is concluded that memes have discursive peculiarities
in the inner working of their structure and in their set for a social group, that
people can increasingly read messages that are not intended for them and that
the humor acts for the intense circulation of this communication format.
Resumo. Este artigo descreve o funcionamento de memes na Web Social que
constroem estereótipos e imagens que as pessoas fazem de si. É utilizada a
abordagem teórico-metodológica da Análise do Discurso de linha francesa.
São coletados memes nos resultados de busca do Google, Google Imagens e
Facebook para construir o corpus da pesquisa. Conclui-se que os memes têm
peculiaridades discursivas na sua estrutura interna e no conjunto deles para
um grupo social, que as pessoas podem cada vez mais ler mensagens que não
lhes são destinadas e que o humor atua para a circulação intensa deste
formato de comunicação.
1. Introdução e Motivações da Pesquisa
As pessoas utilizam a Web como extensão de suas vidas para trabalho ou diversão, para
se atualizarem ou para interagirem entre si. Disso decorre que as ações de cada um vão
deixando rastros que podem ser registrados nas redes sociais e nas ferramentas de busca
– conforme Macleod (2012) e Google (2014) –, influenciando outras pessoas que usam
a Web e realimentando novas ações. Além disso, vários modos de uso mostram o que as
pessoas pensam de si e dos outros, inclusive de forma explícita, como mostra a figura 1.
Figura 1. Meme sobre como o professor se vê e como é visto
Os modos como várias parcelas da sociedade veem o professor, inclusive ele
próprio, como no exemplo da figura 1, são comumente em tom de humor. Em uma
busca rápida na Web, podemos encontrar outros exemplos de memes com imagens que
os outros criam de certos grupos e com a imagem que um representante do grupo tem de
si. Entendendo que a Web Social envolve sites e programas projetados e desenvolvidos
para a interação social, mas que também abarca as relações sociais que ligam as pessoas
através da Web, de acordo com Porter (2008), os estudos desses tipos de meme se
revelam profícuos por várias razões. Em primeiro lugar, eles circulam intensamente em
redes sociais, mas também podem aparecer nos vários resultados de busca, o que indica
que estão à disposição em páginas Web e sujeitos a alta replicação para interação social.
Outro fator importante é que esses memes explicitam as expectativas ou as certezas
humanas sobre grupos sociais, indicando serem fonte do pensamento de cada grupo. Por
trás dos mecanismos linguísticos, e através dos rastros das ações deixadas nas redes
sociais e encontrados em resultados de ferramentas de busca, há um discurso que pode
revelar supostos preconceitos e estereótipos e os seus modos de circulação atual.
Portanto, o objetivo deste trabalho é investigar o funcionamento dos memes
(estrutura interna e circulação) com o seguinte formato: 1) “quando digo que sou X” ou
“quando digo que faço X”– onde X corresponde a uma profissão, prática ou valor de
determinado grupo; 2) textos do tipo “como Y me vê” ou “o que Y acha que eu faço” –
onde Y corresponde a um outro grupo e 3) imagens que complementam o item 2 com
uma visão estereotipada e o item 1 com uma identidade de grupo. A pesquisa é feita
segundo uma abordagem da Análise do Discurso de linha francesa, que contempla não
apenas estudos sobre estereótipos (MAINGUENEAU, 2010, 2008, 2015), como
também sobre como as pessoas constroem a imagem de si (AMOSSY, 2005), o papel do
humor no discurso (POSSENTI, 2010) e as novas abordagens para construção do corpus
de pesquisa em páginas Web e postagens de redes sociais (MAINGUENEAU, 2015).
2. Fundamentação Teórico-Metodológica
Para este trabalho, a primeira ressalva a ser feita é sobre como os estereótipos são e não
são tratados na Análise do Discurso. Amossy (2005) diferencia estereótipo de outros
conceitos que igualmente têm características de fórmulas fixas ou cristalizadas: os
lugares comuns, os clichês, as ideias comuns, as fórmulas etc. Estereó(tipo), como o
nome indica, vem do impresso – aquilo que fica – mas também é compreendido como
uso metafórico para referir-se a expressões fixas. Estereótipo é uma imagem coletiva
que circula em um determinado grupo, não é necessariamente um preconceito, mas pode
se tornar se começar a ter uma tendência de julgar desfavoravelmente algum grupo.
É importante neste ponto também diferenciar o estereótipo que fazemos de nós
mesmos da identidade social. Cada sujeito tem tantas identidades sociais relacionadas
diretamente aos grupos que pertence: classes sociais, profissionais, etnias, sexo, etc.; é
uma identificação de grupo. O estereótipo marca mais fortemente uma distinção entre
“nós” e “os outros”, o grupo adquire características fortes não por uma identificação,
mas pelo quanto se diferencia dos demais. Considerando que os estereótipos podem ter
semelhanças, mas não podem se confundir com outros conceitos anteriormente citados,
Amossy (2005) define que o analista do discurso deve empregar o conceito de
estereótipo como concepções cristalizadas ou crenças compartilhadas socialmente em
um grupo a respeito de indivíduos e outros grupos.
Maingueneau (2015) traz, para a Análise do Discurso, concepções produtivas
para as pesquisas e trata do ethos como vinculado ao exercício da palavra – é o deixar-se
conhecer por índices linguísticos materializados na textualidade – e é sempre
constitutivo da enunciação, do sujeito enunciativo que tem papel de fiador do discurso
com as seguintes características: um caráter (conjunto de traços psicológicos), uma
corporalidade (traços físicos e indumentários) e uma voz – há um tom no momento do
que é dito na enunciação. De todo modo, o ethos pode se apoiar em estereótipos já
valorizados ou desvalorizados na coletividade. Ou seja, no momento da enunciação, o
ethos pode ser construído também com o auxílio das imagens que as pessoas já têm a
priori.
Das características que se sobressaltam nos memes aqui estudados, o humor
parece guiar muito do modo como as imagens são produzidas. A Análise do Discurso
tem algumas considerações sobre este modo de discurso. Possenti (2010) considera que
o humor é um segmento do universo discursivo com a característica singular de
provocar o riso, tratando dos temas de maneira incongruente, surpreendente, exagerada,
com alívio emocional e até colocando um grupo como superior a outro grupo. Isso é
típico nas piadas sobre caipira, loira, gaúcho, português etc. Nota-se, assim, que o
próprio funcionamento do humor muitas vezes decorre do tratamento de visões
estereotipadas e consiste em pensar o real por meio de uma representação cultural
preexistente. Os estereótipos com tom de humor atuam no funcionamento dos memes
desta pesquisa com estruturas linguísticas relativamente fixas, breves, com determinado
ritmo e regularidade e alto poder de circulação. As análises adiante levarão estas
características em consideração, mas especialmente a circulação será tratada na seção a
seguir, por deixar à disposição muitos dados e estabelecer condições de produção
discursivas nos dias de hoje muito dependentes da tecnologia.
3. Método de Coleta de Dados
Um dos problemas dos dias atuais é a dispersão dos textos e o quanto mudam. Investigar
os memes aqui definidos não parte de algo dado como um artigo ou uma capa de revista.
O analista precisa construir o corpus e isso em uma disciplina interpretativa como a
Análise do Discurso requer alguns cuidados adicionais. Como bem afirma Courtine
(2014), a noção de corpus discursivo não deve ser considerada como um conjunto
fechado de dados que emergiram repentinamente. O analista deve atuar, interrogando os
dados discursivos, ao longo de todo o procedimento, o que significa que a constituição
do corpus não é finalizada até o último momento da pesquisa. Parte-se de um aparato
teórico-metodológico e consulta-se os dados, analisando-os para se saber quais são os
próximos dados a serem investigados, e mesmo que conceitos teóricos adicionais usar,
conforme a necessidade. O corpus nesta pesquisa é constituído por textos variados e está
disperso em páginas, ambientes e programas diferentes.
Maingueneau (2010) diz que hoje em dia o analista pode muito bem se apoiar
em uma unidade de análise não tópica e usar os próprios recursos disponíveis na Web. A
ideia de Maingueneau (2010) é que as análises sejam feitas a partir do conceito de
percurso, no qual os dados circulam intensamente e, ao mesmo tempo, podem ter suas
buscas otimizadas com o uso de ferramentas computacionais específicas, em diversas
ordens lexicais ou textuais não pré-formatadas. No caso desse estudo, definiu-se o
Google e o Google Images como ferramentas iniciais e a caixa de busca do Facebook foi
utilizada para verificação de resultados específicos na rede. A escolha do Google e do
Facebook deve-se a sua popularidade e às suas diversas possibilidades de pesquisa,
como comandos específicos e configurações próprias. Como a dispersão também ocorre
no tempo e as ferramentas podem produzir vieses para os dados, teve-se o cuidado de se
fazer a pesquisa em locais diferentes, com computadores e celulares diferentes e em dois
momentos – foram coletados dados nos anos de 2015 e 2018 para efeito de comparação
do quanto os memes circularam em um e outro tempo, o que também dirime os vieses
das ferramentas de busca.
Para este trabalho, partiu-se inicialmente da formulação (string) “quando digo
que sou”, da estrutura dos memes, mas os próprios resultados de busca forneceram
expressões adicionais associadas para memes da mesma natureza. Ou seja, além de o
analista utilizar expressões reformuladas para a pesquisa, também se utilizou de outras
expressões dos resultados de busca como sendo outras reformulações. Maingueneau
(2010) alerta, neste sentido, para que o pesquisador tenha domínio das ferramentas e
saiba dos seus limites bem como possa verificar diferentes fontes de ferramentas. Os
programas por si sós não têm como saber das necessidades do pesquisador e por isso o
analista precisa estudar os recursos e as funcionalidades que melhor o atendam nas
pesquisas – isso foi aperfeiçoado com estudos em Macleod (2012), Google (2014) e
Russel (2014), para tratar desde estratégias de busca (por exemplo, quando usar artigos e
preposições nas pesquisas e quais palavras-chave usar adequadamente) até uso de
técnicas e comandos avançados para filtragem dos dados, configuração dos resultados,
pesquisas com o Google em sites específicos, eliminação de resultados desnecessários
etc. Deve-se ter cuidado sobre como fazer uma análise interpretativa dos resultados de
busca com base em certas expressões chave e não se deixar levar por todo tipo de
resultado – “como eu me vejo” remete a muitos tipos de dados, inclusive estruturas que
não são memes. Desse modo, a filtragem com base na análise interpretativa do
pesquisador é fundamental; o analista deve se comportar como um “interpretante
razoável”, ou seja, não deve ser tomado pelo resultado de qualquer expressão nem deve
também ficar estritamente preso a uma expressão fixa (as reformulações são feitas com
o cuidado de continuar a busca pelo mesmo tipo de estrutura dos memes).
Inicialmente, vejam-se as sugestões do Google em dois momentos diferentes. A
figura 2 mostra resultados para a formulação de busca mais simples “quando eu digo”.
À esquerda, mostra resultados de busca do ano de 2018 e, à direita, do ano de 2015.
Observa-se que, em 2015, já havia expressões com referência a práticas ou tipos de
trabalho (professora, psicólogo, pesca) passíveis de serem representados em memes
estereotipados, mas, em 2018, houve necessidade de acrescentar mais termos e aplicar
mais filtros para otimizar a coleta de dados.
Figura 2. Resultados de busca para 2018 e 2015
De todo modo, para uma nova pequena reformulação em 2018 com “quando
digo que sou” e “quando eu digo que sou”, já surgem indícios de serem mostradas
práticas ou tipos de trabalho estereotipados, conforme a figura 3. Aparecem muitas
referências a signos do horóscopo, a cristão, enfermeira, “do interior”, professora e,
mais especificamente, professora de educação infantil. Isso indica que a circulação
desses enunciados não desaparece, mas torna-se mais específica.
Figura 3. Resultados de busca para 2018 com duas pequenas reformulações
Prosseguindo a coleta, foram obtidos resultados com o Google a partir de mais
variações com reformulações textuais nas buscas. No caso, “quando digo que sou” teve
as reformulações “quando eu digo que sou”, “quando digo que faço”, “quando digo que
estou”, “quando digo que faço o curso”, “quando digo que trabalho com” etc. Os
resultados também apareciam com novas reformulações, que foram reaplicadas nas
buscas, como em “como se veem” – nesta situação, pode-se entender, por exemplo,
como se veem certos profissionais, mas, partindo de um ponto de vista do próprio
profissional – não seria um ethos mostrado explicitamente e pode ou não ser
estereotipado. O enunciado aqui está relacionado a uma identidade social e não a um
estereótipo necessariamente, traz dois sentidos e pode ser modificada e atribuída a
grupos diferentes no tempo histórico.
O processo de filtragem foi feito em muitos sites de música, de modo a os retirar
do corpus, pois havia apenas trechos das letras das músicas, que continham, por
exemplo, “quando eu digo que sou”, mas não uma continuidade referente a trabalhos ou
práticas estereotipadas e sim declarações sobre ser apaixonado e outros fatores
semelhantes. Muitos falavam sobre ser católico, evangélico ou outra religião, mas
também não descreviam práticas, e sim o quanto são devotos ou filhos de Deus. A
eliminação nas buscas teve que ser, portanto, dos sites específicos e não apenas de
termos, pois os termos em si poderiam estar contidos também em visões estereotipadas
de religiosos, que existiam inclusive com memes. Além disso, eliminaram-se sites que
tratavam de “quando digo que sou X” – sendo X o nome de alguém especificamente.
Um exemplo de aplicação de filtragem foi o seguinte:
"quando eu digo que sou" -site:[Link] -site:[Link] -site:[Link] -
site:[Link] -site:[Link]
sou-pagao_t_4297526 -site:[Link] -site:[Link] -site: [Link]
-site: [Link] -site: [Link] -site:
[Link] -
site:[Link]/5-atitudes-para-ser-criativo/
Pôde-se notar que houve em 2018 uma circulação mais significativa de
resultados referentes a campos profissionais e atividades religiosas, incluídos nos
primeiros itens do resultado de busca na interface e dispersos nos cem primeiros
resultados configurados, o que ocorreu também em 2015. A análise, com alguns
resultados, tomando a unidade de percurso, conforme Maingueneau (2010), é feita na
próxima seção.
4. Resultados e Análise
Para dirimir os vieses, o mesmo procedimento de reformulações, configuração e
filtragem das buscas, descrito na seção anterior, foi feito no Google Imagens e a situação
foi semelhante, como pode ser observado nas figuras 4 e 5. Pôde-se ver que há grande
incidência de resultados com grupos de memes referindo-se a determinadas práticas
e certas crenças. Tais foram representadas em várias situações, como nas atividades de
informática, professores, psicólogos, jornalistas, fotógrafos, vegetarianos e artistas (de
rua, cantor, ator). Em relação a crenças, há referências a signos do horóscopo, times de
futebol e, especialmente no campo religioso, aparecem subgrupos como evangélicos e
católicos com uma alta incidência. Porém, havia alguns memes únicos ou com pouca
ocorrência ligados às profissões como de blogueiro ou policial, mas com estruturas
idênticas às encontradas nos grupos. Isso faz com que possamos analisar os memes de
modo geral, em relação ao conjunto de memes para um mesmo grupo, ou de forma
mais específica, em relação a sua estrutura e linguagem internas.
Figura 4. Resultados de busca para 2015 no Google Imagens
Figura 5. Resultados de busca para 2018 no Google Imagens
A coleta na Web Social com o Facebook é feita com reformulações semelhantes
à do Google e do Google Imagens e os mesmos cuidados indicados por Macleod (2012),
Google (2014) e Russel (2014). Na figura 6, à esquerda, há o resultado de uma busca
para 2018 e, à direita, para 2015. Em um primeiro momento, não há logo nos primeiros
resultados grande quantidade de memes com as visões estereotipadas, mas em 2018 há
mais resultados juntando texto e imagens, o que indica ao menos novos formatos
circulando mais intensamente. Assim, em um segundo momento, para dar continuidade
à coleta, foram feitas buscas na rede com resultados mais específicos e com referência
às práticas que mais incidiram no Google Imagens, que junta texto com imagens e
mostra estereotipias.
Figura 6. Busca com reformulações no Facebook em 2018 e 2015
Como parte do segundo momento da busca de dados no Facebook, foram
investigadas postagens, no sentido do que é atribuído por Maingueneau (2015). Deu-se
procedimento à verificação de postagens e seus comentários no Facebook com os
memes anteriormente encontrados. De todo modo, o próprio Facebook mostrou novos
memes, acrescentando memes aos grupos de memes já observados, o que enriquece a
diversidade de estruturas para a análise dos grupos. Como já dissemos, foi observado
que há a possibilidade de se analisar os memes de forma geral, relacionada aos grupos,
ou de maneira mais específica, imiscuindo a sua estrutura e linguagem internas. Isso
será feito adiante, usando um exemplo do fotógrafo, para investigação de seu
funcionamento interno, mas também como postagem no Facebook. Mais adiante, será
analisado um conjunto de memes relacionados às práticas das pessoas da área de
informática. O artigo se restringirá a esses exemplos devido ao limite de páginas, mas
pontuando características fundamentais e comuns a todos os demais casos observados,
como uma tomada de decisão no percurso da análise.
4.1 Os Memes de Forma mais Específica em Relação a sua Estrutura e Linguagem
Internas e como Postagem no Facebook
Inicialmente, vamos verificar quais são as peculiaridades discursivas dos
comentários da postagem na rede e o funcionamento das imagens nos vários casos,
tomando o meme sobre o fotógrafo da figura 7 como exemplo para comprovaçã[Link],
é importante observar que, à esquerda da figura 7, que é um resultado de busca em 2018,
temos uma postagem que foi compartilhada ou replicada do ano de 2016, mas que teve
comentários em outros momentos. À direita, está o mesmo meme, mas obtido nesta
pesquisa no ano de 2015, e que é replicação ou compartilhamento de postagem de 2012.
A verificação com outras profissões específicas ocorreu de forma idêntica, ou seja,
sempre há repetição de memes, às vezes ligeiramente modificados ao longo do tempo, o
que faz com que a circulação da estrutura perdure e o modo de ver a categoria
profissional também perdure. O uso estereotipado do meme acompanha as interações na
Web Social no seu tempo e consegue manter resultados assim como vimos nas
pesquisas com o Google.
As peculiaridades discursivas dos comentários da postagem são:
• expressões de humor ou riso – no caso da figura 7, há “kkkkkkkkkkk” e
“huahuahuahua.
• expressões com pedidos de confirmação, para quem é da área, sobre se os
estereótipos são verdadeiros – referências a nomes de pessoas que estão hachurados
para não identificação.
• expressões que valorizam ou reforçam que as características expressas nos memes
realmente são verdadeiras ou, bem menos, as refutando (“show!”, “é isso mesmo”, “é
assim que acontece”, “desse jeito”, “bem assim”, etc.). No caso da figura 7, há “bem
nessa”, “eu vejo X...” (dizendo o nome de alguém que é fotógrafo), e “eu não uso
essas, “DESSE JEITO” e “essa é pra” (diz o nome de alguém em seguida).
Em outras palavras, discursos de estereotipia são atravessados mutuamente por
comentários com tons de humor e podem envolver interlocutores que não tem nada a ver
com a atividade profissional. Tudo isso é autorizado também porque, como vimos em
Possenti (2010), o próprio funcionamento do humor pode decorrer de estereotipias para
pensar o real por meio de representações culturais que amenizam uma possível agressão,
embate ou confronto.
O funcionamento estereotípico da imagem é recorrente com as seguintes
características:
1) uma identidade ou tentativa de produção de uma identidade social que não é
efetivamente produzida para os outros e seria supostamente mais realista para os
enunciadores, podendo ser estereótipo – em geral na primeira pessoa (“como me
vejo”, “como me sinto”, “o que realmente faço” etc.). No caso do meme do fotógrafo, o
“como me vejo” mostra uma figura mais simples e objetiva do que as outras, de alguém
concentrado no seu trabalho, utilizando a máquina diretamente sem maiores adendos.
2) estereótipos produzidos pelas pessoas mais próximas com uma visão distorcida
do que o enunciador pensa (“meus pais”, “minha mãe”, “meus amigos”, “meus
colegas”, “meus irmãos”, “meu chefe” etc.). No caso do fotógrafo, “meus amigos”
associa a atividade à presença do profissional sempre ocorrendo em festas de aniversário
de criança, subestimando os diversos lugares onde o fotógrafo pudesse atuar. “Meus
pais” associa o profissional com uma vida de pobreza, ignorando o desenvolvimento
que pode ocorrer na vida do profissional.
3) estereótipo produzido por pessoas não muito próximas, com outra visão
distorcida da realidade (“os outros”, “a maioria das pessoas”, “quem não é da área”,
etc.). No caso do fotógrafo, há a figura de alguém munido de vários equipamentos, com
indícios de que está preparado para seguir em viagens devido à roupagem e o fundo com
a natureza.
Figura 7. Comentários no Facebook em 2018 e 2015 no meme do fotógrafo
4.2 O Conjunto de Memes para um Mesmo Grupo
Passou-se a verificação do conjunto de memes vinculado a um mesmo campo
profissional, no caso relacionado com a informática devido sua alta circulação,
conforme a figura 8. Há com formatos recorrentes para várias outras áreas profissionais,.
Figura 8. Grupos de memes com estereótipos relacionados à informática
Em primeiro lugar, observa-se o funcionamento interno das estruturas com
referências a pessoa que é efetivamente da área, pessoas mais próximas e outros, às
vezes com outras formas de representação e restrições a certas pessoas ou ênfases a
certos grupos. Há “meus amigos”, “como acho”, “como é na realidade”, “como meus
pais”, “como seus amigos imaginam”, “como as pessoas pensam”, “como eu penso” e
“como é na verdade”. Nota-se que a pessoa da área (o “eu”) nem sempre tem uma visão
que corresponde a do “outro” e pode ter alguma visão estereotipada devido a
expectativas frustradas, que podem ser de estudo ou profissionais. Tanto é assim que,
normalmente, quando o “eu” é estereotipado, vem acompanhado do “como é na
verdade” – supostamente o mais próximo da realidade cotidiana para o enunciador.
Surgem novas representações, trabalhando de forma mais criativa a relação entre as
pessoas, com outros formatos. É o que ocorre nas duas últimas imagens da figura 8. O
gráfico mostra enunciados em que “Legal! Ele pode consertar TODOS os problemas do
meu computador” e “Neeeeeeerd!” podem se referir a outros e “Ah! Então ele escreve
programas de computador!” seria a visão mais real, que coincidiria com a do “eu”.
Nesse caso, pessoas mais próximas seriam restringidas ou não seriam enfatizadas. Na
última imagem, com o personagem do filme “Piratas do Caribe”, há um grupo de
pessoas correndo atrás do pirata ao se saber que ele é alguém de informática – cada um
tem um enunciado típico associado, relacionado a pedidos de conserto de impressora e
fotocopiadoras, aviso de que está com vírus no equipamento, que o celular tem
problemas, que não está sabendo compartilhar foto no Face e que tem problemas no
monitor. Todos esses pedidos resumem a visão estereotipada de que uma pessoa de
informática pode resolver todo e cada um dos problemas da área e, portanto, o desespero
do personagem correndo, sem saber lidar com a situação.
Os resultados indicam que não apenas os enunciados estereotipados circulam,
mas que também progridem, mudam, indicando e especificando mais as práticas e
atividades profissionais. Novas reformulações encontradas nos próprios resultados de
busca e no Facebook, que foram reaplicadas nas buscas, como em “como se veem”
comprovam este fato e dão novos contornos aos enunciados estereotipados. No caso do
“como se vêem”, foram encontrados “como torcedores se vêem”, “como músicos se
vêem”, “como se vêem os boleiros”, especialmente no Google Imagens. As situações do
“como se vêem” exerce a função de “como o profissional se vê” ou “como eu me vejo”,
indicando que podem ser versões das visões do “eu”, em geral o enunciador.
Outro fator crucial são as sinonímias ou usos de termos para certas práticas
dentro de um mesmo campo semântico. A situação do profissional de informática retrata
o que ocorre desse modo para vários outros grupos de memes estereotipados. Em um
mesmo grupo, há referência a analistas de sistemas, técnicos de informática,
programador, ser profissional de TI ou de Engenharia da Computação, Ciência da
Computação, entre outros cursos ou profissões, cada um com sua peculiaridade. Pode-se
depreender que o próprio conjunto dos memes revela a circulação de outra estereotipia:
o fato de as pessoas resumirem em um só rótulo ou grupo (de informática) atividades
que não são necessariamente atribuídas a um profissional específico da área.
O aparato conceitual teórico possibilita verificar o trânsito de certo ethos na
enunciação, mas fundamentalmente circulação de estereótipos com formatos diferentes
e buscas por marcar mais fortemente uma identidade social ao lado de expressões como
em “como realmente sou” ou “o que realmente faço”, preponderantemente na primeira
pessoa. Eventualmente há simulacros, de acordo com Possenti (2010) – uma tradução
depreciativa do outro como um oponente – mas com pouquíssima incidência, já que
mesmo visões opostas às da identidade do profissional não pesam como posições de
rebaixamento ou deterioração do profissional em relação aos outros. Pode-se ver, em
relação às categorias profissionais dos memes (a exemplo da informática) que as visões
são mais relacionadas à trabalho leve, gratificante, intenso ou cansativo, ganhar ou não
ganhar muito dinheiro, efetuar uma ação que lhe é ou não atribuída realmente para seu
campo profissional, necessidade ou não de muito conhecimento, trabalho exaustivo ou
tranquilo, uso ou não de certos equipamentos, lugar de trabalho; enfim, nada que
deprecie tanto a ponto de destacar simulacros. Isso tudo pode ser atenuado pelo fato de
os enunciados estereotipados serem produzidos em tom de humor e até serem recebidos
com tom de humor, como pode ser comprovado na verificação de comentários das
postagens. Uma das características mais usadas nos memes como recurso humorístico é
o exagero para para expressar a visão de um grupo em tom irônico, seja nas imagens ou
nas expressões linguísticas. Contudo, muito do que é representado em tom exagerado é
explicado como surgido de exemplos reais, que os comentários de postagem também
confirmam.
Em relação especificamente às funções das postagens, no sentido que atribui
Maingueneau (2015), e seu papel na interface, não apenas podemos comprovar que cada
vez mais somos ouvintes ou leitores de mensagens que não nos são destinadas, mas que,
quando essas mensagens são estereotipadas em formato de meme, há uma aceitação e
possibilidade de conhecimento de outras áreas e discussão com outras pessoas com
outros trabalhos e crenças de uma forma muito ampla. Se antes certos grupos faziam
circular o modo de ver sua identidade, seus incômodos e piadas sobre estereótipos em
recintos restritos, agora, mesmo que haja grupos específicos no Whatsapp ou Facebook,
sempre fica aberta a possibilidade de replicação das mensagens para lugares públicos ou
menos restritos na Internet, com a facilidade de um clique de mouse.
5. Conclusão
Este trabalho mostrou o funcionamento de memes com estereótipos, a partir das
definições da Análise do discurso de linha francesa, enfatizando que outros fatores
concorrem simultaneamente para a circulação dos enunciados: assimilação de
estereótipos, estruturas linguísticas e função humorística. Isso coletado em dois anos
diferentes, 2015 e 2018, o que dá uma maior segurança sobre lugares e tempos em que
as circulações discursivas são realizadas na Web Social. Pôde-se constatar que discursos
estereotipados na Internet ganham espaço pelo suporte, tom de humor e a necessária
relação de desconhecimento do que o outro faz, é, exerce ou crê.
Para averiguar tal funcionamento, estratégias e técnicas de uso do Google e de
outras ferramentas se mostram cruciais, pois adequam o corpus da pesquisa com as
novas necessidades e modus operandi do analista do discurso, dentro da unidade do
percurso linguístico, e conforme a execução de certas tarefas, que podem e devem ser
adequadas para outras pesquisas linguísticas. Trabalhos futuros envolverão pesquisar
também os modos de circulação dos estereótipos com uma maior investigação da
expressão de preconceitos e simulacros em memes que reproduzam o machismo ou o
racismo, utilizando-se ou não de recursos humorísticos.
Vale salientar que a área da interação humano-computador pode se beneficiar
dos resultados deste trabalho no tocante à compreensão da Web Social em seus aspectos
linguístico-discursivos. A análise da estrutura dos memes e de sua circulação auxilia em
compreender aspectos da interação em seu momento histórico, mas há limites para
aprofundar o entendimento de outros aspectos como a construção dos componentes da
interface e seu papel na propagação dos memes, o que pode ser feito em outra pesquisa
de cunho mais interdisciplinar.
Referências
AMOSSY, Ruty. (Org.). Imagens de si no discurso: a construção do ethos. São Paulo:
Contexto, 2005.
COURTINE, J. J. Análise do discurso político: o discurso comunista endereçado aos
cristãos. São Carlos, SP: EDUFSCar, 2014.
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<[Link] Acesso em: 4 jun. 2018.
MACLEOD, D. How to Find Out Anything: From Extreme Google Searches to
Scouring Government Documents, a Guide to Uncovering Anything About Everyone
and Everything. New York: Prentice Hall, 2012.
MAINGUENEAU, D. Discurso e análise do discurso. São Paulo: Parábola, 2015.
MAINGUENEAU, D. Doze conceitos em análise do discurso. São Paulo; Parábola,
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MAINGUENEAU, D. Problemas de ethos. In: POSSENTI, S.; SOUZA-E-SILVA, M.
C. P (Orgs.). Cenas da enunciação. São Paulo: Parábola, 2008. p. 55-73.
PORTER, J. (2008). Designing for the Social Web. Berkley, CA: New Riders.
POSSENTI, S. Humor, língua e discurso. São Paulo: Contexto, 2010.
RUSSEL, D. M. Google Inside Search. Disponível em:
<[Link] Acesso em: 30 de mar. 2014.