PESQUISA
E PRÁTICAS
PEDAGÓGICAS I
A formação humana
na educação da
contemporaneidade
Rosemary Trabold Nicacio
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
> Reconhecer a importância da educação contemporânea na formação
humana.
> Identificar a importância do desenvolvimento integral do sujeito na for-
mação humana.
> Definir a temática formação humana como fundamental na formação de
professores.
Introdução
A formação humana ao longo da história passou por diferentes tipos de edu-
cação. Nos primórdios, essa formação acontecia pela transmissão de conhe-
cimentos necessários à sobrevivência e ao trabalho dos mais velhos aos mais
novos. Com a complexidade da vida, essa relação comunitária na qual o ancião
transmitia a tradição a cada nova geração tornou-se insuficiente para a vida
em sociedade e passou a transformar-se.
Na Idade Média, a formação das pessoas passou a ser feita por precepto-
res, ou seja, pessoas com maior conhecimento, geralmente ligadas à Igreja,
que orientavam e iniciavam os jovens a uma vida com mais informação.
Era o surgimento da escola, ainda que diferente da que conhecemos hoje, mas
não disponível a todos. Criada no século XVIII e ligada ao contexto daquela
2 A formação humana na educação da contemporaneidade
época, a escola surgiu devido às demandas trazidas pela Revolução Industrial
na Europa — como a necessidade de formação de mão de obra em massa, o
que justificava a importância de uma instituição própria que pudesse educar
muitas pessoas.
Observa-se, então, que a educação, inicialmente feita pela família, passa,
pouco a pouco, a ser realizada em uma instituição específica. Assim, podemos
inferir que a formação humana está intrinsecamente ligada à educação e, cada
vez mais, à educação escolar.
Neste capítulo, você vai conhecer o quão importante é a escola para a
formação humana no século XXI, ou melhor, para a formação integral do ser
humano, e vai entender como essa temática é importante para a formação de
professores, principalmente quando se tem por objetivo o desenvolvimento
pleno das potencialidades de todas as crianças e jovens ao longo de sua vida
escolar.
A formação humana para o século XXI
Ao falarmos em formação humana, historicamente, teremos diferentes con-
ceitos sobre as finalidades dessa formação, pois havia diferentes modos de
se pensar o ser humano. Desde o final do século XX e início do século XXI,
o conceito de formação nos remete à compreensão de cada pessoa em sua
totalidade como um ser de múltiplas dimensões: física, emocional, social,
cognitiva, cultural e, até mesmo, espiritual.
Esse conceito de sujeito integral é, também, uma construção social e
histórica, pois trata-se do reconhecimento das demandas da contemporanei-
dade, que surgiram em meio ao desenvolvimento tecnológico e ao processo
de globalização da economia. Segundo Delors et al. (1998), essas mudanças
interferem nas relações humanas, econômicas, políticas e culturais, pois:
As novas tecnologias fizeram a humanidade entrar na era da comunicação uni-
versal; abolindo as distâncias, concorrem muitíssimo para moldar a sociedade do
futuro, que não corresponderá, por isso mesmo, a nenhum modelo do passado.
As informações mais rigorosas e mais atualizadas podem ser postas ao dispor de
quem quer que seja, em qualquer parte do mundo, muitas vezes, em tempo real,
e atingem as regiões mais recônditas. Em breve, a interatividade permitirá não só
emitir e receber informações, mas também dialogar, discutir e transmitir informações
e conhecimentos, sem limite de distância ou de tempo (DELORS et al., 1998, p. 39).
A formação humana na educação da contemporaneidade 3
Essas discussões do final do século XX anunciavam as mudanças na or-
ganização do mundo e, com isso, criavam demandas para a educação e a
formação das sociedades para o século XXI.
O relatório para a Organização das Nações Unidas para a Educação,
a Ciência e a Cultura (Unesco) intitulado “Educação: um tesouro a
descobrir” é a síntese de amplo estudo sobre a educação para o século XXI.
Ele nasce em 1993, com a criação da Comissão Internacional sobre a Educação
para o século XXI, com financiamento da Unesco, coordenada por Jacques Delors
e composta por mais 14 especialistas de todas as regiões do mundo, atuantes
em diferentes campos culturais e profissionais, com a incumbência de "refletir
sobre a educação e a aprendizagem no século XXI".
Desse trabalho, foram propostos quatro pilares para a educação: saber
conhecer, saber fazer, saber conviver e saber ser. O pilar aprender a ser tem sua
importância para que o indivíduo possa se desenvolver e engloba dimensões
essenciais da pessoa, ou seja, deve levar em consideração todas as potencia-
lidades de cada um — mente, inteligência, sensibilidade, senso ético, estético
e responsabilidade individual. Os educadores devem criar propostas que tra-
balhem todas essas potencialidades, sem negligenciá-las (UNIVERSIDADE DE
BRASÍLIA, 2017).
No Brasil, já na Constituição Federal de 1988, definia-se como objetivo
“[...] construir uma sociedade livre, justa e solidária” (BRASIL, 1988, p. 1),
o que pressupunha um projeto educacional que pudesse garantir os direitos
de acesso e permanência a todos, com vistas ao desenvolvimento não só das
capacidades cognitivas, mas das capacidades afetivas, sociais, entre outras.
Essa constituição é popularmente conhecida como a constituição cidadã,
porque surge após um longo período de governo militar, no qual os direitos
sociais foram negados, principalmente a cidadania. Dessa forma, era priori-
dade construir uma sociedade livre que pudesse garantir a cidadania a cada
brasileiro. Instituindo-se um Estado democrático, buscava-se uma sociedade
de direitos plenos.
Assim, em 20 de dezembro de 1996 foi publicada a Lei de Diretrizes e Bases
da Educação Nacional (Lei n. 9.394), com o objetivo de disciplinar a educação
escolar no país. O artigo 29 afirma que desde a primeira etapa da educação
básica tem-se por finalidade “[...] o desenvolvimento integral da criança de
até 5 (cinco) anos, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social,
complementando a ação da família e da comunidade” (BRASIL, 1996, p. 27.835).
4 A formação humana na educação da contemporaneidade
A educação é, pois, um processo amplo que integra a formação na vida,
realizada pela família, e a formação escolar, a quem cabe a transmissão dos
conhecimentos produzidos cultural e cientificamente, além do desenvol-
vimento das capacidades de formação humana para a vida em sociedade.
A partir de então, o Ministério da Educação organizou o processo educa-
cional com a elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), em
1997, e os Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (RCNEIs),
em 1998, que foram documentos norteadores dos currículos de formação
nas escolas e apresentaram o conceito de formação para sujeitos integrais.
Em cumprimento ao que prevê “[...] o § 1º do Artigo 1º da Lei de Diretrizes e
Bases da Educação Nacional e está orientado pelos princípios éticos, políticos
e estéticos que visam à formação humana integral e à construção de uma
sociedade justa, democrática e inclusiva, como fundamentado nas Diretrizes
Curriculares Nacionais da Educação Básica (DCN)” (BRASIL, 1996, p. 27.833),
foi elaborada a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), publicada em 2017.
Este é o documento normativo que define as aprendizagens essenciais para
todos os alunos da educação básica e orienta os currículos escolares com
vistas ao desenvolvimento integral voltado para as demandas do século XXI,
conforme veremos mais adiante.
E é nesse contexto de um mundo globalizado, tecnológico e de relações
complexas que se compreendeu não ser mais possível oferecer uma educação
voltada, unicamente, ao desenvolvimento das capacidades cognitivas, por
meio da transmissão das informações acumuladas, pois estas já estão dispo-
níveis e acessíveis. Tornava-se fundamental o desenvolvimento das demais
dimensões do ser humano. Como ressaltava Jacques Delors no relatório da
Unesco, nesse novo contexto global não basta o acúmulo de informações, é
preciso preparar a sociedade para aproveitar e explorar todas as ocasiões de
modo a adaptar-se a esse mundo em mudança. Ele destaca que:
[...] a educação deve organizar-se em torno de quatro aprendizagens fundamentais
que, ao longo de toda a vida, serão de algum modo para cada indivíduo, os pilares
do conhecimento: aprender a conhecer, isto é adquirir os instrumentos da com-
preensão; aprender a fazer, para poder agir sobre o meio envolvente; aprender a
viver juntos, a fim de participar e cooperar com os outros em todas as atividades
humanas; finalmente aprender a ser, via essencial que integra as três precedentes.
É claro que estas quatro vias do saber constituem apenas uma, dado que existem
entre elas múltiplos pontos de contato, de relacionamento e de permuta (DELORS
et al., 1998, p. 89).
A formação humana na educação da contemporaneidade 5
Essa perspectiva provocou reflexões e discussões acerca da relação da
escola com a formação humana integral, pois a complexidade do mundo
precisa ser compreendida frente aos conhecimentos científicos, incluindo-se
formas de interação com os problemas desse novo contexto. Como descrito na
Constituição Federal, também é preciso preparar as pessoas para a construção
de uma sociedade mais justa e solidária, o que pressupõe saber conviver com
o outro e, de forma ética, reconhecer a diversidade e atuar democraticamente.
A escola, dessa forma, passa a desempenhar importante papel na formação
humana e desenvolver as capacidades de todos para que estejam aptos a viver
em um mundo em constante transformação. Esse é um desafio que ainda está
sendo enfrentado, pois em um país com dimensões continentais, coexistem
diferentes tipos de escola, com práticas conservadoras e que consideram o
ser humano apenas na dimensão cognitiva. Há, ainda, escolas democráticas
que desenvolvem práticas pedagógicas com o objetivo de desenvolver pessoas
responsáveis por si e pelos outros, consumidoras e produtoras de cultura e
ética e solidárias, curiosas e livres para a criação de novos conhecimentos,
com domínio da tecnologia e dos meios de comunicação. Como disse Paulo
Freire (2011, p. 38) “[...] minha presença no mundo não é a de quem a ele se
adapta, mas a de quem nele se insere. É a posição de quem luta para não ser
apenas objeto, mas sujeito também da história”.
Para Freire (2011), a educação é fundamental para que cada pessoa possa
inserir-se no mundo como sujeito ativo e construtor da sua própria história,
aliás, uma história assentada nos princípios democráticos e na ética. Diante
de todas essas reflexões, podemos concluir que a educação é de extrema
importância para a formação humana na contemporaneidade.
Como observamos até aqui, a educação é o meio pelo qual as pessoas se
desenvolvem, aprendem a cultura e a vida em sociedade. Também foi possível
identificar que em cada momento da história havia um modelo de homem a
ser formado para atender às demandas sociais e econômicas, o que acabou
por impulsionar as mudanças na educação escolar. Por fim, reconhecemos
a importância da educação atual na formação humana. A seguir, vamos dis-
cutir de forma mais ampla a importância da formação integral do sujeito na
formação humana.
6 A formação humana na educação da contemporaneidade
A importância do desenvolvimento Integral
na formação humana
Os seres humanos, desde o nascimento até a morte, passam por um processo
de desenvolvimento e de aprendizagem, pois como seres sociais interagem com
as pessoas que estão no seu entorno, com os conhecimentos que adquirem e
com as experiências pelas quais passam. É um ciclo contínuo que só termina
com o fim da própria vida.
Como já dissemos anteriormente, esse processo pode ocorrer na família
e na sociedade, que se caracteriza pelo conjunto de experiências e valores
culturais com os quais a pessoa constrói sua visão de mundo de maneira
informal. Esse processo pode ocorrer, também, na escola, de maneira for-
mal, planejada e organizada para atingir um determinado objetivo. Segundo
Mahoney (1999, p. 11):
A escola, ao se organizar, deve ser a expressão concreta dessa unidade indissolúvel
adulto-criança-sociedade, encontrando o ponto de equilíbrio entre o atendimento
das necessidades do desenvolvimento da criança e o atendimento das necessidades
de desenvolvimento da sociedade, sem perder de vista que sua maior solidariedade
é com a criança. A criança traz para a escola as características de seu ser biopsi-
cológico e as consequências das condições materiais e sociais da sua existência
impostas pela sociedade em que vive.
Assim, podemos afirmar que ambas, aprendizagem formal e informal, pro-
movem o desenvolvimento humano e sua formação constante, impulsionando
à evolução da sociedade como um todo. A educação objetiva, assim, por meio
da aprendizagem, que as pessoas possam transformar-se e transformar o
mundo em que vivem.
Quanto ao desenvolvimento e à formação humana, é importante ressaltar
que, tanto do ponto de vista físico quanto do psicológico, há um movimento
dinâmico e contínuo, de modo a afirmar-se que um processo de mudança leva
a outras mudanças, tanto pessoais quanto do meio (ZANELLA, 1999).
Apesar de o ser humano classificar-se pela superioridade entre os seres
vivos, pois é dotado de inteligência e linguagem, ao nascer apresenta-se
totalmente dependente de outro ser humano para que possa se desenvolver.
Para Zanella (1999, p. 22):
A formação humana na educação da contemporaneidade 7
Sua infância é longa, sua adolescência é conturbada e existem pela vida afora
necessidades de evoluir sempre mais; move-se a vida toda em função de experi-
ências e novas atitudes. Para ele [ser humano], cada nova situação é um desafio
que lhe permitirá aprender e evoluir. Assim, o homem é o ser que possui o maior
número de reações adquiridas. A complexidade de suas experiências, acrescidas
das aprendizagens que realiza contribuem para sua humanização.
Nesse longo processo de humanização, podemos destacar a aprendizagem
escolar como importante período no qual o ser humano desenvolve conhe-
cimentos, habilidades e comportamentos que lhe conduzem pela vida, no
convívio social e na própria evolução da espécie.
No que se refere ao desenvolvimento humano, considerando o homem
um ser integral, temos que considerar suas múltiplas dimensões: física, psi-
cológica, social e cultural. Para efeitos didáticos, vamos refletir sobre cada
uma das dimensões, ainda que não se possa separá-las, uma vez que os seres
humanos são seres integrais, ou, parafraseando Morin (2015), um todo é mais
do que a soma das partes que o constituem.
A dimensão física
A dimensão física nos remete ao desenvolvimento das condições orgânicas
e biológicas e pode tanto definir as etapas do crescimento que vemos do
nascimento até a velhice como nos remeter à maturação, que, tanto física
quanto psicológica, refere-se às condições que permitem a realização de
determinadas ações e/ou aprendizagens.
Há, no desenvolvimento biológico, um processo genético, responsável
por muitas características dos seres humanos. No entanto, como destaca
Moreira (2011a, p. 113) “[...] desde o momento da concepção, o ambiente pode
perturbar a ordenação, qualidade e quantidade do fenômeno: o crescimento
depende, na verdade, da integração organismo/ambiente”.
Essa relação entre o meio externo e o meio interno (biológico) foi a base
da epistemologia genética de Jean Piaget, em suas palavras:
O indivíduo age apenas ao experimentar uma necessidade, ou seja, se o equilíbrio
entre o meio e o organismo é rompido momentaneamente; neste caso, a ação
tende a restabelecer o equilíbrio, isto é, precisamente a readaptar o organismo
(Claparède). Uma “conduta” é, portanto, um caso particular de intercâmbio entre
o mundo exterior e o sujeito [...] (PIAGET, 2013, p. 26).
8 A formação humana na educação da contemporaneidade
A inteligência, para Piaget, é uma forma superior de organização das
estruturas cognitivas — e estas são vivas e atuantes, o que nos faz refletir
sobre essa constante relação entre o desenvolvimento físico (estruturas) e
as experiências no meio.
Palangana (2015) destaca que, apesar de Piaget não ter enfatizado o papel
da linguagem na estruturação do pensamento, esta é fundamental para o
desenvolvimento cognitivo, pois a criança justifica suas ações pela linguagem.
Além disso, “[...] é por meio dela que se podem verificar a existência ou não
de reciprocidade entre ação e pensamento e, consequentemente, o estágio
do desenvolvimento cognitivo da criança” (PALANGANA, 2015, p. 16).
Para Vygotsky, a relação biológica da espécie humana reafirma sua exis-
tência material e, dessa forma, define as possibilidades e os limites ao seu
desenvolvimento (OLIVEIRA, 1997). O cérebro é um sistema aberto de grande
plasticidade e, por isso, deve ser moldado ao longo da vida humana — e a
escola é o lugar privilegiado para esse desenvolvimento.
Nessa perspectiva, quando observamos a proposta de formação trazida
pela BNCC, compreendemos como a educação escolar promove o desenvol-
vimento, pois:
[...] a progressão do conhecimento ocorre pela consolidação das aprendizagens
anteriores e pela ampliação das práticas de linguagem e da experiência estética e
intercultural das crianças, considerando tanto seus interesses e suas expectativas
quanto o que ainda precisam aprender (BRASIL, 2018, p. 59).
É na interação com o mundo e nas manifestações culturais em diferentes
linguagens que ocorre o desenvolvimento cognitivo e físico, pois a linguagem
corporal também está presente. As práticas escolares devem promover a
constante interação do sujeito com o meio, quer por suas múltiplas linguagens,
quer pelas ações que põem em movimento um corpo que, como sabemos, não
pode ser visto em separado da mente. Contudo, também nos cabe destacar que,
a depender da forma como a educação é desenvolvida na escola, pode haver
um comprometimento da dimensão física, como destaca Zanella (1999, p. 26):
Condições de funcionamento do organismo em geral são bastante importantes nos
episódios de aprendizagem, tendo em vista que condições disfuncionais podem
influir negativamente ou até mesmo bloquear as aprendizagens, incluindo-se aqui
fatores como doenças, estresse, más condições físicas e até mesmo o uso de subs-
tâncias químicas que alteram o nível de consciência, percepção ou pensamentos.
É para inibir ações disfuncionais que se fazem tão importantes as práticas
cooperativas e a interação entre os alunos nas atividades escolares.
A formação humana na educação da contemporaneidade 9
A dimensão psicológica
Na dimensão psicológica da aprendizagem são observadas as formas com as
quais o indivíduo é mobilizado a aprender; podemos dizer que algo o afeta e
o impulsiona. Como destaca Piaget (2011), muitas são as discussões sobre a
intrínseca relação entre afetividade e a cognição:
A vida afetiva e a vida cognitiva são, portanto, inseparáveis, embora distintas.
Elas são inseparáveis porque qualquer intercâmbio com o meio supõe, ao mesmo
tempo, uma estruturação e valorização, sem deixarem de ser menos distintas
[...] seria impossível raciocinar [...] sem experimentar determinados sentimentos
e, inversamente, não existem afeições sem um grau mínimo de compreensão ou
discriminação; portanto, um ato de inteligência supõe, por sua vez, uma regulação
energética interna (interesse, esforço, facilidade, etc.) e externa (valor das soluções
procuradas sobre os quais incide a pesquisa). (PIAGET, 2013, p.27)
Não é apenas Piaget que valoriza a afetividade para a aprendizagem;
Wallon (GRATIOT-ALFANDÉRY, 2010) cita a afetividade como um dos processos
centrais do desenvolvimento. Para esse autor, há três manifestações diferentes
para a afetividade: a emoção, o sentimento e a paixão. A emoção recebe uma
ativação orgânica, é controlada pela razão e é fundamental à sobrevivência
humana, já que surge nos momentos em que temos que decidir entre reagir ou
fugir de uma dada situação. Já o sentimento é a forma como representamos
as sensações que nos afetam e, por isso, tem um caráter mais cognitivo.
E, por fim, a paixão é um ato cuja característica é o autocontrole, pois podemos
dominar as sensações quando desejamos.
Entre as dez competências para a educação básica apontadas pela BNCC
está “Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional,
compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções
e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas” (BRASIL,
2018, p. 10), pois já se reconhece a importância da afetividade no desenvol-
vimento humano.
Desde a Educação Infantil, busca-se promover as relações afetivas, como
destacado na BNCC:
A interação durante o brincar caracteriza o cotidiano da infância, trazendo consigo
muitas aprendizagens e potenciais para o desenvolvimento integral das crianças.
Ao observar as interações e a brincadeira entre as crianças e delas com os adultos,
é possível identificar, por exemplo, a expressão dos afetos, a mediação das frus-
trações, a resolução de conflitos e a regulação das emoções (BRASIL, 2018, p. 37).
10 A formação humana na educação da contemporaneidade
Diante disso, vemos que a educação, além de promover a formação humana,
também promove uma sociedade mais justa e solidária, como proposto na
Constituição Federal de 1988.
A dimensão social e cultural
Ao analisarmos as dimensões cultural e social, vamos nos apoiar na teoria
histórico-cultural, na qual essas dimensões, apesar de distintas, interagem
de forma intensa.
Oliveira (1997), ao analisar os pilares básicos do pensamento de Vygotsky,
apresenta-nos três ideias centrais:
[...] as funções psicológicas têm um suporte biológico, pois são produtos da ati-
vidade cerebral;
o funcionamento psicológico fundamenta-se nas relações sociais entre o indivíduo
e o mundo exterior, as quais se desenvolvem num processo histórico;
a relação homem/mundo é uma relação mediada por sistemas simbólicos (OLI-
VEIRA, 1997, p. 24).
A dimensão social, portanto, é fundamental ao desenvolvimento humano,
pois, como ser social, é na interação com o outro que interage com o mundo
em que vive, ou seja, com a sua cultura.
Os processos interativos entre as pessoas têm um importante papel no
desenvolvimento humano, pois é nessa relação que o sujeito vai interiorizar a
cultura, fornecendo as condições ao desenvolvimento psicológico do indivíduo.
Para Oliveira (1997, p. 39):
A cultura, entretanto, não é pensada por Vygotsky como algo pronto, um sistema
estático ao qual o indivíduo se submete, mas como uma espécie de “palco de ne-
gociações”, em que seus membros estão num constante movimento de recriação
e reinterpretação de informações, conceitos e significados. A vida social é um
processo dinâmico, no qual cada sujeito é ativo e em que acontece a interação
entre o mundo cultural e o mundo subjetivo de cada um.
Para uma sociedade mais justa e solidária, é preciso que todos comparti-
lhem das culturas e as reconheçam como válidas, o que promove o respeito
e a riqueza na formação humana. Na BNCC, propõe-se a criação de:
A formação humana na educação da contemporaneidade 11
[...] oportunidades para que as crianças entrem em contato com outros grupos
sociais e culturais, outros modos de vida, diferentes atitudes, técnicas e rituais
de cuidados pessoais e do grupo, costumes, celebrações e narrativas. Nessas
experiências, elas podem ampliar o modo de perceber a si mesmas e ao outro,
valorizar sua identidade, respeitar os outros e reconhecer as diferenças que nos
constituem como seres humanos (BRASIL, 2018, p. 40).
As relações humanas são, portanto, fundamentais à própria humanização,
que, por sua vez, acontece em meio às múltiplas culturas existentes em uma
sociedade plural como a brasileira. Referimo-nos a culturas, no plural, pois,
como consta na BNCC, prioriza-se a elaboração de currículos que se apoiem
na diversidade cultural e que promovam uma ampliação do repertório, como
podemos constatar:
Sem aderir a um raciocínio classificatório reducionista, que desconsidera as hibri-
dizações, apropriações e mesclas, é importante contemplar o cânone, o marginal,
o culto, o popular, a cultura de massa, a cultura das mídias, a cultura digital, as
culturas infantis e juvenis, de forma a garantir uma ampliação de repertório e uma
interação e trato com o diferente (BRASIL, 2018, p. 70).
Diante dessas dimensões, que, cabe reforçar, são indissociáveis e compõem
o ser humano em sua integralidade, pudemos identificar a importância do
desenvolvimento integral para a formação humana, pois, ao priorizarmos
uma dimensão em detrimento a outra, não oportunizamos o desenvolvimento
integral, mas distorções na formação. A escola, como vimos anteriormente,
é o palco principal desse processo, haja vista que se constitui em um espaço
em que as interações sociais e culturais estão presentes.
As reflexões aqui propostas nos ajudaram a identificar a importância do
desenvolvimento integral do sujeito na formação humana, com destaque
às múltiplas dimensões que nos tornam únicos — pois as experiências são
diversas —, mas ao mesmo tempo nos aproximam da humanidade, um aspecto
coletivo da formação humana. Tão importante é essa discussão que se faz
urgente trazê-la para a formação de professores, como veremos a seguir.
A formação de professores
Ao discutirmos sobre a formação humana na contemporaneidade, buscamos
por novas alternativas, de modo a rompermos com os processos tradicionais
das práticas pedagógicas e, para isso, também é preciso ampliar nossa reflexão
sobre a formação profissional docente para que esta esteja na mesma direção.
12 A formação humana na educação da contemporaneidade
Segundo Moreira (2011b, p. 42):
Julgamos indispensável que, durante seu preparo, o futuro professor se capacite
para, em sua prática docente, compreender o universo cultural do aluno, a fim de
que, juntos, a partir do que conhecem, venham a se debruçar sobre os desafios
que o mundo lhes apresenta, procurando respondê-los e, sem esforço, produzam
novos saberes.
Tendo em vista os estudos contemporâneos, as práticas pedagógicas
precisam considerar aspectos que promovam as aprendizagens por meio de
desafios constantes; no entanto, esses desafios devem considerar como ponto
de partida a realidade conhecida, ou seja, a cultura dos alunos. Esse ponto de
partida precisará ser ampliado, mas é fundamental que os professores saibam
olhar para os processos de construção de conhecimento de seus alunos por
outra perspectiva que não a sua de adulto, pois, por dominar os temas e já ter
desenvolvido as capacidades inerentes ao desafio, não conseguirá enxergar
como seus alunos enxergam as questões que lhes são apresentadas.
A consciência da pluralidade cultural e o confronto constante do pensamento com
os variados universos que se renovam ao longo da história podem ajudar o futuro
professor a superar preconceitos, a acreditar na capacidade de aprender do aluno
e a considerar com mais seriedade as condições de vida, crenças, esperanças,
anseios, experiências e lutas [...] (MOREIRA, 2011b, p. 43).
Dito de outra forma, faz-se necessário olhar para o aluno em sua inte-
gralidade, pois no seu ambiente de vida há uma ação formativa que lhe dá a
condição de ser o que é. No entanto, o processo de desenvolvimento humano
é construído ao longo de sua história, por novas situações, experiências e
possibilidades de constante renovação do conhecimento. A formação humana
integral é uma construção que se apoia na cultura global e local de forma
dialética e dinâmica, bem como na criação das condições pedagógicas que
promovam o desenvolvimento de suas dimensões física, intelectual, afetiva,
cultural e social. Sem essa clareza, a prática docente torna-se mera ação de
reprodução e conformismo, impossibilitando a realização do processo de
humanização.
Na perspectiva de Vygotsky, o desenvolvimento humano tem origem no
social, ou seja, na história do homem há uma formação biológica e cultural
em processo de constante evolução, possível pela mediação. O conceito
de mediação surge porque, para Vygotsky, a relação entre o sujeito e o co-
nhecimento não ocorre de forma direta, mas mediada. Essa mediação se
processa por meio do outro, seja instrumento ou signo. Os instrumentos
A formação humana na educação da contemporaneidade 13
tornam possível ao homem mudar o meio; os signos, por sua vez, mudam a
forma como pensamos o meio, e é nessa perspectiva que a ação docente se
torna fundamental para o desenvolvimento dos alunos na sua integralidade.
Reconhecer as fases do desenvolvimento físico e biológico é tão importante
quanto compreender os aspectos emocionais e conhecer o universo socio-
cultural de nossos alunos. São muitas as abordagens e correntes de estudo
sobre o desenvolvimento humano, cada qual com suas especificidades, que
nos conduzem a olhar para as crianças e jovens com as quais convivemos
no espaço escolar de modo mais humanizado. É, por isso, que também os
futuros professores precisam apropriar-se de três pontos fundamentais:
conhecer os objetos de formação, o ambiente sociocultural em que atuará e
os sujeitos nele envolvidos.
Os objetos de formação referem-se aos conhecimentos próprios da ação
docente, ou seja, os conteúdos específicos, a forma como devem ser apre-
sentados aos alunos. Não se admite mais o professor como mero transmissor
de informações, pois na contemporaneidade essa função torna-se frágil, haja
vista a enorme gama de informações existente. Não é tempo para informar;
é tempo de ensinar as crianças a buscarem a informação e a questioná-la,
testá-la e comprová-la pelos mais diversos instrumentos do conhecimento
e da investigação. O professor, como profissional da linguagem, ensina seus
alunos a se comunicarem pelas diversas linguagens do seu tempo — e isso
é um conteúdo específico que precisa de constante aperfeiçoamento, pois
o mundo diversifica os modos de comunicação de maneira muito rápida.
Quanto ao ambiente sociocultural e os sujeitos nele envolvidos, temos a
escola, sua função social e os direitos de aprender dos alunos, assim como
o direito de trabalhar e ter formação contínua dos professores. E estas são
questões que passam tanto pelas concepções desses sujeitos, quanto pela
legislação educacional. Afinal, a LDB, no artigo 2º, diz:
A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e
nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento
do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o
trabalho (BRASIL, 1996, p. 27.833, grifo nosso)
Esse desenvolvimento pleno é base da função social da escola; formamos
o sujeito para que tenha todas as suas potencialidades desenvolvidas em
todas as dimensões que lhe constituem, além de prepará-lo para exercer
seus direitos — pela cidadania — e qualificá-lo ao trabalho, garantindo que
continuará pleno ao longo da vida.
14 A formação humana na educação da contemporaneidade
Por fim, ao conhecer seus alunos como sujeitos integrais e reconhecê-los
em sua humanidade, o professor conhece a si mesmo como profissional que
promove o desenvolvimento da humanidade enquanto humaniza aqueles com
quem trabalha. Ser professor é ser um promotor da humanidade.
Neste capítulo, vimos o sentido e a importância da escola para a formação
integral do ser humano, considerando que a humanização é um processo his-
tórico, social e cultural que se promove por meio da educação. Vimos, ainda,
como a formação humana é ampla e composta por dimensões indissociáveis;
por fim e tão importante, refletimos sobre essa temática na formação dos
futuros professores.
Referências
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Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 122, n. 191-A, p. 1-32, 5 out. 1988.
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BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases
da educação nacional. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 134, n. 248,
p. 27.833-27.841, 23 dez. 1996.
DELORS, J. et al. Educação um tesouro a descobrir: relatório para a UNESCO da Comissão
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Leituras recomendadas
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nacionais. Brasília: MEC/SEB, 1997. (E-book).
BRASIL. Referenciais curriculares nacionais para a educação infantil. Brasília: MEC/
SEB, 1998. (E-book).
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