0% acharam este documento útil (0 voto)
55 visualizações10 páginas

Habeas Corpus e Prisão Temporária

STF em seu recurso

Enviado por

eduardopmg27
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
55 visualizações10 páginas

Habeas Corpus e Prisão Temporária

STF em seu recurso

Enviado por

eduardopmg27
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Superior Tribunal de Justiça

RECURSO EM HABEAS CORPUS Nº 91.792 - DF (2017/0295532-2)

RELATOR : MINISTRO ANTONIO SALDANHA PALHEIRO


RECORRENTE : M S B (PRESO)
ADVOGADO : JOSÉ LINEU DE FREITAS E OUTRO(S) - DF005582
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO DISTRITO FEDERAL E
TERRITÓRIOS

DECISÃO

Trata-se de recurso ordinário em habeas corpus interposto por M S


B contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos
Territórios.

Consta dos autos ter sido o recorrente preso temporariamente pela


suposta prática dos crimes previstos no art. 241-B da Lei n. 8.069/1990 e nos arts.
147, 213 e 158, esse último na forma tentada, todos do Código Penal, porque, "[...]
se valendo de aplicativos de redes sociais, em especial, 'Snapchat 'e 'Tinder',
convencia as vítimas a enviarem [...] videos íntimos e, de posse de tais videos, [...]
coagia ou a lhe mandarem dinheiro ou a praticarem atos sexuais" (e-STJ fl. 16).

Impetrado, pela defesa, habeas corpus no Tribunal de origem


objetivando a liberdade do ora recorrente, a ordem foi denegada nos termos da
seguinte ementa (e-STJ fls. 95/96):

HABEAS CORPUS. ARTIGO 241-B, DA LEI 8.069/90, ARTIGOS


147, 213 E 158, ESTE C/C ARTIGO 14, INCISO II, TODOS DO
CÓDIGO PENAL. PRISÃO TEMPORÁRIA. LEI 7.960/1989.
INDÍCIOS DE AUTORIA E MATERIALIDADE. DILIGÊNCIAS
IMPRESCINDÍVEIS PARA AS INVESTIGAÇÕES. POSSIBILIDADE.
ORDEM DENEGADA.
1. Havendo indícios probatórios e provas materiais que denotam
pertinência acusatória acerca da prática, em tese, de pornografia
infantil, ameaça, estupro virtual e tentativa de extorsão contra
vítimas no Distrito Federal, cabível a custódia temporária do
paciente, mormente diante da pendência de diligências policiais
imprescindíveis.
2. Não se vislumbrando, até o momento, a disseminação de
pornografia infantil além das fronteiras nacionais, afasta-se a
competência da Justiça Federal.
3. Havendo indícios de autoria e materialidade dos crimes de
ameaça, estupro virtual e tentativa de extorsão contra vítimas no

Documento: 81493491 - Despacho / Decisão - Site certificado - DJe: 22/03/2018 Página 1 de 10


Superior Tribunal de Justiça
Distrito Federal, não há falar em incompetência do Magistrado deste
egrégio TJDFT para processamento do feito, tampouco em
ilegalidade da decisão que decretou a prisão temporária.
4. Parecer da Procuradoria de Justiça acolhido.
5. Ordem denegada.

Neste recurso, aventa o recorrente, em preliminar, que a


competência para processar e julgar o feito seria da justiça federal – porquanto "o
fato se espraia além das lindes do território brasileiro" –, ou da justiça do Estado do
Rio Grande do Norte – "cujo local foram cometidas as supostas infrações, pois o
contato era dirigida pelas supostas vítimas àquele estado ao computador do
acusado" (e-STJ fls. 114 e 121, respectivamente).

Sustenta a defesa a inexistência de motivação idônea para a


segregação antecipada. Aduz que as investigações já foram concluídas, e que "no
caso em liça há a presença do 'periculum in mora' e do fumus boni iuris, ou seja, o
perigo a que está submetido o paciente a sofrer danos irreparáveis em seu jus
libertantis antes da pena e a possibilidade ou plausibilidade do deferimento do 'writ',
o qual se tornaria ineficaz sem a concessão da medida" (e-STJ fl. 127).

Alega que "a prisão temporária foi feita com abuso de poder,
quando o acusado foi levado à delegacia de Natal sem se atender aos ditames
legais. Se como afirma o V. Acórdão já existia prova suficiente no Inquérito, a prisão
era e é desnecessária, e, no caso, para complementação, se necessário, o mais
razoável seria apenas a busca e apreensão sem estardalhaço, invasão à residência
à noite e abuso de poder, como se estivéssemos em um estado policialesco, onde o
império da lei é o abuso e o constrangimento para obter confissão a ferro e fogo, de
uma pessoa humilde, insegura, acordada de supetão, no recinto do lar, como se
criminoso perigoso fosse" (e-STJ fl. 124).

Assevera a defesa, ainda, que milita em favor do recorrente


condições pessoais favoráveis, tais como primariedade, bons antecedentes, além
de ser estudante universitário (e-STJ fl. 127).

Busca seja revogada a custódia cautelar do recorrente, ainda que

Documento: 81493491 - Despacho / Decisão - Site certificado - DJe: 22/03/2018 Página 2 de 10


Superior Tribunal de Justiça
mediante a fixação de medidas diversas do cárcere, e que seja "reconhecida a
competência da Justiça Federal do Rio Grande do Norte ou a Justiça Estadual para
processar o feito" (e-STJ fl. 128).

Pedido liminar indeferido (e-STJ fls. 151/153), assim como os


pedidos de reconsideração (e-STJ fls. 164/167; 282/288).

Informações acostadas às fls. 169/242.

Ao se manifestar, o Ministério Público Federal opinou pelo


desprovimento do recurso, em parecer cuja ementa transcrevo a seguir (e-STJ fl.
293):

RECURSO EM HABEAS CORPUS. ARTIGO 241-B, DA LEI


8.069/90, ARTIGOS 147, 213 E 158, ESTE C/C ARTIGO 14, INCISO
II, TODOS DO CÓDIGO PENAL. PRISÃO TEMPORÁRIA.
CONVERSÃO EM PREVENTIVA. MUDANÇA DE TÍTULO.
PREJUDICADO QUANTO AO PONTO. COMPETÊNCIA DA
JUSTIÇA DO TJDFT. FIXAÇÃO DE ACORDO COM A
JURISPRUDÊNCIA RESPECTIVA. DESPROVIMENTO.
1. Consta, das informações prestadas (e-STJ fl. 232), que a prisão
temporária foi convertida em preventiva, conforme requerido pela
representação da autoridade policial. Desse modo, quanto ao ponto,
resta esvaziado o objeto do presente recurso, diante da
superveniência de novo título, que traz fundamentos diversos para a
segregação.
2. Quanto à fixação de competência, não há ilegalidade alguma a ser
sanada, já que, conforme assentado pelo eg. Tribunal de origem,
não destoa da jurisprudência firmada a respeito.
3. Parecer pelo desprovimento do recurso.

É o relatório.

Quanto ao pedido de revogação da prisão temporária, o presente


recurso está prejudicado, ante a ulterior decretação da prisão preventiva (e-STJ fls.
229/232). Colhe-se das informações acostadas:

Compulsando os autos, observo que a materialidade do delito se


encontra fartamente demonstrada, por meio das Ocorrências
Policiais, Imagens capturadas das telas dos aparelhos celulares das
vítimas, do comprovante de depósito dos valores exigidos pelo
Representado, dos Vídeos e Imagens captados a partir do disco
rígido apreendido na residência do Representado, do Laudo de
Exame de Informática, dentre outros.

Documento: 81493491 - Despacho / Decisão - Site certificado - DJe: 22/03/2018 Página 3 de 10


Superior Tribunal de Justiça
Há, ainda, indícios suficientes de autoria em relação ao
Representado, pelo que se observa de sua confissão extrajudicial,
do depoimento das vítimas, bem como da conclusão do Laudo de
Exame de Informática (fls. 131), no sentido de que o disco rígido
examinado era utilizado pelo Representado, que, por meio de
aplicativo de relacionamento nele instalado, atraía mulheres para
troca de conteúdo pornográfico, passando-se por mulher e ocultando
seus dados pessoais, como nome, telefone e endereço de e-mail, e,
em seguida, demandava o envio de valores e/ou de novos vídeos e
imagens pornográficas, sob ameaça de divulgação na internet do
material que já lhe havia sido enviado.
Assim sendo, tenho que, para a decretação da prisão preventiva,
estão completamente delineados os seus requisitos legais,
sobretudo o "fumus comissi delicti" e o "periculum libertatis",
considerando-se, em especial, as peculiaridades do caso e as
circunstâncias que norteiem as condições pessoais do
Representado, haja vista que solto poderá novamente praticar
infrações penais.
Infere-se tal possibilidade da análise de tudo o que foi produzido no
bojo do Inquérito Policial em referência, sobretudo o que bem
consignou a autoridade policial representante, no sentido de que o
Representado estaria praticando tais crimes desde 2012, valendo-se
de emulação do aplicativo Android e de outros softwares, em
esquema de sofisticação tal que o permitiu se manter no anonimato
durante cinco anos.
Agregado a isso, tem-se o fato de MATHEUS BENEVIDES ter sido
flagrado na posse de mais de 9.000 (nove mil) arquivos de mulheres
ou meninas nuas ou praticando atos sexuais (entre vídeos e fotos),
sendo que o Laudo de Exame de Informática indicou como data do
último acesso ao equipamento examinado o dia 05/09/2017,
exatamente o dia da prisão temporária do Representado, o que
demonstra a reiteração delitiva.
Por tal razão, a segregação cautelar do Representado se revela
como necessária e, concomitantemente, única medida adequada à
gravidade dos crimes a ele atribuídos, às circunstâncias dos fatos e
às suas condições pessoais, como forma de garantia da ordem
pública.
Condutas tão audazes exigem do Poder Judiciário uma resposta
firme, pois patente o descrédito dos Representados para com as
instituições de segurança pública e mesmo para com o Poder
Judiciário, não se mostrando, ao que parece, interessados em se
portar de acordo com a lei.
É de se ressaltar que tal medida não viola o princípio da
homogeneidade das prisões cautelares, mesmo porque, nesse
momento, não pode este Juízo antecipar o mérito da causa para
inferir o regime inicial a que ficará submetido o Representado caso
venha a ser condenado, haja vista que não é apenas o "quantum" da
pena que deve ser tomado em consideração para a análise de tal

Documento: 81493491 - Despacho / Decisão - Site certificado - DJe: 22/03/2018 Página 4 de 10


Superior Tribunal de Justiça
regime.
Ante o exposto, verificada a materialidade delitiva e indícios
suficientes de autoria, bem como a necessidade de salvaguardar a
ordem pública, ACOLHO a representação da autoridade policial e a
manifestação do Ministério Público para DECRETAR A PRISÃO
PREVENTIVA de MATHEUS SOBREIRA BENEVIDES, brasileiro,
nascido em Fortaleza/CE, no dia 30/11/1993, filho de Antônio Jaime
Benevides Neto e Araceli Sobreira Benevides, RG n° 2.334.588 -
SSP/RN e CPF n° 098.583.684-96, o que faço com amparo nos
artigos 282, incisos I e II, e § 6°; 312 e 313, todos do Código de
Processo Penal.

Fica, portanto, sem objeto o pedido de revogação contido neste


recurso, em que a defesa se insurgia contra a prisão temporária decretada.

Nesse sentido:

PROCESSUAL PENAL. RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS


CORPUS. HOMICÍDIO DUPLAMENTE QUALIFICADO POR DUAS
VEZES E TENTATIVA DE HOMICÍDIO QUALIFICADO.
IRREGULARIDADES NA PRISÃO TEMPORÁRIA.
SUPERVENIÊNCIA DE PRISÃO PREVENTIVA. TESE SUPERADA
NEGATIVA DE AUTORIA. VIA INADEQUADA. PRISÃO
PREVENTIVA. ELEMENTOS CONCRETOS A JUSTIFICAR A
MEDIDA PREVENTIVA. FUNDAMENTAÇÃO. GARANTIA DA
ORDEM PÚBLICA. PERICULOSIDADE CONCRETA E
REITERAÇÃO DELITIVA. CONVENIÊNCIA DA INSTRUÇÃO
CRIMINAL. FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA. AUSÊNCIA DE
FLAGRANTE ILEGALIDADE.
1. Não há falar em irregularidade da prisão temporária,
porquanto encontra-se superada com a superveniência do
decreto de prisão preventiva, que é o novo título judicial
ensejador da custódia cautelar.
[...]
4. Recurso a que se nega provimento.
(RHC 68.970/MG, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS
MOURA, SEXTA TURMA, julgado em 19/04/2016, DJe 29/04/2016,
grifei)

HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO ORDINÁRIO.


DESCABIMENTO. CRIME CONTRA A INCOLUMIDADE PÚBLICA.
INCÊNDIO A ÔNIBUS. ALEGAÇÃO DE CONSTRANGIMENTO
ILEGAL. PRETENSÃO DE QUE SE RECONHEÇA NULIDADE NA
PRISÃO EM FLAGRANTE. SUPERVENIÊNCIA DA CONVERSÃO
EM PREVENTIVA. PREJUDICIALIDADE. PLEITO PELA

Documento: 81493491 - Despacho / Decisão - Site certificado - DJe: 22/03/2018 Página 5 de 10


Superior Tribunal de Justiça
REVOGAÇÃO DA PRISÃO PREVENTIVA. CIRCUNSTÂNCIAS
AUTORIZADORAS PRESENTES. CONDIÇÕES PESSOAIS
FAVORÁVEIS. IRRELEVÂNCIA. PEDIDO PARA SUBSTITUIR A
PRISÃO CAUTELAR POR MEDIDA DIVERSA. INADEQUAÇÃO /
INSUFICIÊNCIA. PRECEDENTES.
1. Os Tribunais Superiores restringiram o uso do habeas corpus e
não mais o admitem como substitutivo de recursos e nem sequer
para as revisões criminais.
2. Há de ser julgado prejudicado o pedido, cujo objeto está
relacionado à nulidade da prisão temporária, quando,
posteriormente, o Juízo de primeiro grau a converteu em prisão
preventiva.
[...]
5. Habeas corpus não conhecido, por ser substitutivo do recurso
cabível.
(HC 272.893/SP, Rel. Ministro MOURA RIBEIRO, QUINTA TURMA,
julgado em 05/09/2013, DJe 10/09/2013, grifei)

Quanto ao argumento de que faleceria competência à justiça do


Distrito Federal para processar e julgar o feito, razão não assiste ao recorrente.

Consta da decisão que decretou a prisão temporária do recorrente


(e-STJ fls. 16/18):

Noticia a ilustre Delegada que foi instaurado o inquérito policial em


epígrafe para apurar as comunicações feitas, inicialmente, por três
vítimas, que noticiaram, nas ocorrências policiais acima que pessoa
desconhecida, se valendo de aplicativos de redes sociais, em
especial, Snapchat e Tinder, convencia as" vítimas a enviarem a ela
videos íntimos e, de posse de tais videos, as coagia ou. a lhe
mandarem dinheiro ou a praticarem atos sexuais.
Esclarece que as investigações apontam, à primeira vista, que o
responsável pelo perfil de usuário GABRIELLE (username
gabsgabs599) do aplicativo Snapchat, pelo perfil de usuário
GABRIELLE do aplicativo Tinder e pelo perfil de usuário (jujanoculm
do aplicativo Inslagram seria o autor das condutas [...]
Informa que quando da realização das diligências de busca e
apreensão autorizadas por este Juízo, o autor do fato foi identificado
[...]. Colhidas as duas declarações (em anexo), [...] informou, em
resumo, que tem se passado por mulher nas redes sociais desde
2012, a fim de conseguir imagens íntimas de mulheres.
Falou que, após adquirir a confiança dessas mulheres, elas se
despiam em frente às câmeras e praticavam atos sexuais, os quais
ele capturava de sua webcam. Em 2014, disse que usando os

Documento: 81493491 - Despacho / Decisão - Site certificado - DJe: 22/03/2018 Página 6 de 10


Superior Tribunal de Justiça
nomes de GABRIELLE, GABRIELE, GABRIELA ou JULIA conseguiu
que várias mulheres lhe enviassem videos e imagens pornográficas.
Entretanto, a partir de 2016, passou a fazer exigências a essas
mulheres, sobretudo daquelas que lhes encaminhavam as imagens
de seus rostos. Estas exigências seriam videos pornográficos,
conforme sua orientação, inclusive exigindo a introdução de objetos
no ânus e na cavidade vaginal. Posteriormente, [...] passou também
a exigir dinheiro, tudo sob a ameaça de divulgar os videos a amigos
e familiares de suas vítimas. [...] acrescentou que exigia valores
entre R$ 300,00 (trezentos reais) e 1.500,00 (mil e quinhentos reais),
mas que só conseguiu receber dinheiro de três delas agora no ano
de 2017. Ademais, [...] confirmou que manteve contato com algumas
vitimas menores de idade e que, mesmo ciente da idade dessas
meninas, mantinha seu modo de agir, não se importando com a
menoridade delas.
Acrescenta que no mesmo local também foi encontrado o
computador de [...] contendo mais de 4.000 (quatro mil) arquivos de
conteúdo pornográfico feminino, com identificação de algumas
vitimas do Distrito Federal, inclusive com imagens de estupro virtual,
conforme relatório pericial em anexo.
Com isso, vislumbra a autoridade representante que os fatos são
graves e de grande complexidade, haja vista que demandam uma
análise detida de todos os arquivos já mencionados, assim como a
identificação de quais deles pertencem às vítimas identificadas no
Distrito Federal, sobretudo aquelas menores de idade. De igual
maneira, a elucidação dos delitos citados anteriormente demandará
o máximo de tempo de inquirição do autor e realização de
reconhecimento das imagens por parte das vitimas já citadas, até
mesmo para identificação de outras tantas.
Por todo o exposto, entende ser a custódia cautelar temporária do
Representado medida de extrema necessidade ante a complexidade
da investigação em curso, da análise mais detida das apreensões
realizadas, assim como da imprescindibilidade de se verificar a
extensão da atividade criminosa gerida pelo Representado.

Pelo que se depreende dos motivos que ensejaram a prisão


temporária do recorrente, verifica-se – ictu oculi, porquanto ainda em fase
inquisitorial – que não há falar em indicativo de internacionalidade da conduta, visto
que as supostas vítimas se despiam em frente às câmeras, e, ao praticar atos
sexuais, a imagem era então captada pelo recorrente, de sua webcam, e, de posse
dos vídeos e imagens, ele passaria a exigir vantagens indevidas das vítimas.

Há indicativo, portanto, da narrativa acima, que "o panorama fático


envolve apenas a comunicação eletrônica havida entre particulares em canal de
comunicação fechado, tal como ocorre na troca de e-mails ou conversas privadas

Documento: 81493491 - Despacho / Decisão - Site certificado - DJe: 22/03/2018 Página 7 de 10


Superior Tribunal de Justiça
entre pessoas situadas no Brasil", razão pela qual não se aplicaria, ao caso
vertente, e por ora, a tese firmada por ocasião do julgamento do RE 628.624/SP,
obtido em sede de repercussão geral, consoante item 8 do referido aresto, in verbis :

RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL


RECONHECIDA. PENAL. PROCESSO PENAL. CRIME PREVISTO
NO ARTIGO 241-A DA LEI 8.069/90 (ESTATUTO DA CRIANÇA E
DO ADOLESCENTE). COMPETÊNCIA. DIVULGAÇÃO E
PUBLICAÇÃO DE IMAGENS COM CONTEÚDO PORNOGRÁFICO
ENVOLVENDO CRIANÇA OU ADOLESCENTE. CONVENÇÃO
SOBRE DIREITOS DA CRIANÇA. DELITO COMETIDO POR MEIO
DA REDE MUNDIAL DE COMPUTADORES (INTERNET).
INTERNACIONALIDADE. ARTIGO 109, V, DA CONSTITUIÇÃO
FEDERAL. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL
RECONHECIDA. RECURSO DESPROVIDO.
1. À luz do preconizado no art. 109, V, da CF, a competência para
processamento e julgamento de crime será da Justiça Federal
quando preenchidos 03 (três) requisitos essenciais e cumulativos,
quais sejam, que:
a) o fato esteja previsto como crime no Brasil e no estrangeiro; b) o
Brasil seja signatário de convenção ou tratado internacional por meio
do qual assume o compromisso de reprimir criminalmente aquela
espécie delitiva; e c) a conduta tenha ao menos se iniciado no Brasil
e o resultado tenha ocorrido, ou devesse ter ocorrido no exterior, ou
reciprocamente.
2. O Brasil pune a prática de divulgação e publicação de conteúdo
pedófilo-pornográfico, conforme art. 241-A do Estatuto da Criança e
do Adolescente.
3. Além de signatário da Convenção sobre Direitos da Criança, o
Estado Brasileiro ratificou o respectivo Protocolo Facultativo. Em tais
acordos internacionais se assentou a proteção à infância e se
estabeleceu o compromisso de tipificação penal das condutas
relacionadas à pornografia infantil.
4. Para fins de preenchimento do terceiro requisito, é necessário
que, do exame entre a conduta praticada e o resultado produzido, ou
que deveria ser produzido, se extraia o atributo de internacionalidade
dessa relação.
5. Quando a publicação de material contendo pornografia
infanto-juvenil ocorre na ambiência virtual de sítios de amplo e fácil
acesso a qualquer sujeito, em qualquer parte do planeta, que esteja
conectado à internet, a constatação da internacionalidade se infere
não apenas do fato de que a postagem se opera em cenário propício
ao livre acesso, como também que, ao fazê-lo, o agente comete o
delito justamente com o objetivo de atingir o maior número possível
de pessoas, inclusive assumindo o risco de que indivíduos
localizados no estrangeiro sejam, igualmente, destinatários do

Documento: 81493491 - Despacho / Decisão - Site certificado - DJe: 22/03/2018 Página 8 de 10


Superior Tribunal de Justiça
material. A potencialidade do dano não se extrai somente do
resultado efetivamente produzido, mas também daquele que poderia
ocorrer, conforme própria previsão constitucional.
6. Basta à configuração da competência da Justiça Federal que o
material pornográfico envolvendo crianças ou adolescentes tenha
estado acessível por alguém no estrangeiro, ainda que não haja
evidências de que esse acesso realmente ocorreu.
7. A extração da potencial internacionalidade do resultado advém do
nível de abrangência próprio de sítios virtuais de amplo acesso, bem
como da reconhecida dispersão mundial preconizada no art. 2º, I, da
Lei 12.965/14, que instituiu o Marco Civil da Internet no Brasil.
8. Não se constata o caráter de internacionalidade, ainda que
potencial, quando o panorama fático envolve apenas a
comunicação eletrônica havida entre particulares em canal de
comunicação fechado, tal como ocorre na troca de e-mails ou
conversas privadas entre pessoas situadas no Brasil.
Evidenciado que o conteúdo permaneceu enclausurado entre os
participantes da conversa virtual, bem como que os envolvidos
se conectaram por meio de computadores instalados em
território nacional, não há que se cogitar na internacionalidade
do resultado.
9. Tese fixada: “Compete à Justiça Federal processar e julgar os
crimes consistentes em disponibilizar ou adquirir material
pornográfico envolvendo criança ou adolescente (arts. 241, 241-A e
241-B da Lei nº 8.069/1990) quando praticados por meio da rede
mundial de computadores”.
10. Recurso extraordinário desprovido (RE 628.624/SP, Relator Min.
Marco Aurélio, Relator p/ Acórdão: Min. Edson Fachin, Tribunal
Pleno, julgado em 29/10/2015, DJe de 06/04/2016, grifei)

Outrossim, não há falar em competência da justiça potiguar, pois, na


linha da jurisprudência desta Corte, "o crime de extorsão é formal e consuma-se no
momento e no local em que ocorre o constrangimento para se faça ou se deixe de
fazer alguma coisa. Súmula nº 96 do Superior Tribunal de Justiça" (CC 115.006/RJ,
Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, TERCEIRA SEÇÃO, julgado
em 14/03/2011, DJe 21/03/2011).

Nesse sentido foi o acórdão vergastado, ao consignar que (e-STJ fl.


103):

Quanto à alegada competência da Justiça Estadual do Rio Grande


do Norte, ainda que paire questionamentos acerca do delito de
pornografia infantil, há indícios de autoria e materialidade dos
crimes de ameaça, estupro virtual e tentativa de extorsão contra

Documento: 81493491 - Despacho / Decisão - Site certificado - DJe: 22/03/2018 Página 9 de 10


Superior Tribunal de Justiça
vítimas residentes no Distrito Federal.
Nos termos da Súmula n° 96 do STJ, o crime de extorsão consuma-
se independentemente da obtenção da vantagem indevida. Assim,
considera-se praticado o fato no local onde ocorre o constrangimento
da vitima, isto é, no lugar em que ela estava quando da prática
delituosa (grifei).

Tal o contexto, conheço parcialmente do recurso, porquanto


prejudicado, e, naquela extensão, nego-lhe provimento.

Publique-se. Intimem-se.

Brasília, 19 de março de 2018.

Ministro ANTONIO SALDANHA PALHEIRO


Relator

Documento: 81493491 - Despacho / Decisão - Site certificado - DJe: 22/03/2018 Página 1 0 de 10

Você também pode gostar