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Grupo Topológico: Estruturas e Propriedades

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Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho

Instituto de Geociências e Ciências Exatas

Campus de Rio Claro

Grupo Topológico
Aline Cristina Bertoncelo Dutra

Dissertação apresentada ao Programa de


Pós-Graduação  Mestrado Prossional em
Matemática Universitária do Departamento
de Matemática como requisito parcial para a
obtenção do grau de Mestre

Orientadora

Profa. Dra. Elíris Cristina Rizziolli

2011
514.2 Dutra, Aline Cristina Bertoncelo
D978g Grupo Topológico/ Aline Cristina Bertoncelo Dutra- Rio Claro:
[s.n.], 2011.
88 f., il., gráfs., tab.

Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual Paulista, Insti-


tuto de Geociências e Ciências Exatas.
Orientadora: Elíris Cristina Rizziolli

1. Algebric Topology. 2. Espaço Topológico. 3. Grupo Quo-


ciente. 4. Aplicações Contínuas. 5. Espaço Quociente. I. Título

Ficha Catalográca elaborada pela STATI - Biblioteca da UNESP


Campus de Rio Claro/SP
TERMO DE APROVAÇÃO

Aline Cristina Bertoncelo Dutra


Grupo Topológico

Dissertação aprovada como requisito parcial para a obtenção do grau de

Mestre no Curso de Pós-Graduação Mestrado Prossional em Matemática

Universitária do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade

Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, pela seguinte banca examina-

dora:

Profa. Dra. Elíris Cristina Rizziolli

Orientadora

Prof. Dr. Edivaldo Lopes da Silva

DM/UFSCAR-São Carlos

Prof. Dr. João Peres Vieira

IGCE/UNESP-Rio Claro

Rio Claro, 10 de Novembro de 2011


Dedico esta dissertação aos meus pais, minha irmã, minha orientadora e meus

professores que me apoiaram durante minha vida acadêmica.


Agradecimentos

Primeiramente à Deus, meu criador, minha rocha forte, que tem me sustentado na

destra de Sua justiça.

Agradeço à minha família, meu pai, minha mãe e minha irmã, que com tanto carinho

motivaram meus estudos dando-me todo suporte para continuar.

Em especial, agradeço de todo coração à minha orientadora e amiga Elíris Cristina

Rizziolli, que abraçou a minha causa e orientou-me com toda paciência e sabedoria.

Nunca vou esquecer tudo o que fez por mim e seu exemplo de vida, amizade e pro-

ssionalismo.

Gostaria também de agradecer ao meu professor de Topologia por todo apoio e

incentivo.

Por m, agradeço ao corpo docente de Matemática Universitária do Mestrado

Prossional da UNESP-Rio Claro, pessoas altamente capacitadas que zeram crescer

ainda mais meu interesse por esta disciplina deslumbrante e fascinante.


O temor do Senhor é o princípio do conhecimento; os loucos desprezam a sabedoria e

a instrução. Pv 1.7
Resumo

Neste trabalho tratamos do objeto matemático Grupo Topológico. Para este de-

senvolvimento, abordamos elementos básicos de Grupo e Espaço Topológico.

Palavras-chave: Algebric Topology, Espaço Topológico, Grupo Quociente, Aplicações

Contínuas, Espaço Quociente.


Abstract

In this work we consider the mathematical object Topological Group. For this

development, we discuss the basic elements of the Group and Topological Space.

Keywords: Topologia Algébrica, Topological Space, Quotient Group, Continuous

Functions, Quotient Space.


Lista de Figuras

2.1 Polígono Inscrito . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27

3.1 Topologia discreta . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43

3.2 Conjuntos Y, A e C . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48

3.3 Conjuntos Y, A e U . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48

3.4 Esquema do Toro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67


Lista de Tabelas

2.1 Tabela G = {1, −1} . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25

2.2 Tabela D3 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28

2.3 Tabela Q. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31

2.4 Tabela V4 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32

2.5 Tabela Subgrupo Normal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39


Sumário

1 Introdução 10
2 Sobre a Estrutura Algébrica: Grupo 11
2.1 Grupo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

2.2 Subgrupo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32

2.3 Grupo Quociente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39

3 Elementos de Topologia Geral 42


3.1 Espaço Topológico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42

3.2 Aplicações Contínuas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57

3.3 Espaço Quociente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66

4 Grupo Topológico 70
4.1 Sobre Grupo Topológico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70

4.2 Propriedades em um Grupo Topológico . . . . . . . . . . . . . . . . . 77

5 Conclusão 86
Referências 88
1 Introdução

Historicamente, o conceito de grupo topológico teve como motivação o grupo das

funções contínuas sobre um determinado espaço topológico que possuía também estru-

tura de grupo. Espaços como este possuíam papel central na pesquisa matemática; um

exemplo clássico é o corpo dos números reais.

Ao tratar de funções contínuas no espaço euclidiano Rn observou-se propriedades

interessantes envolvendo as duas áreas Álgebra e Topologia, por exemplo, a estrutura

algébrica do fecho de um grupo, bem como a topologia sobre um grupo quociente.

Diante disto, destacamos a relevância deste trabalho pela conexão natural entre

Álgebra e Topologia ao explorar o objeto matemático grupo topológico. Para este

propósito adotamos [1] como principal referência bibliográca.

Como sua própria denominação sugere, para o desenvolvimento de resultados en-

volvendo grupo topológico, é preciso primeiramente tratar dos conceitos básicos de

grupo e espaço topológico. Esta é exatamente a nalidade dos dois primeiros capí-

tulos: iniciamos com elementos básicos de grupos, usando [2, 3] como referências, e

em seguida apresentamos resultados de espaços topológicos necessários para nossa -

nalidade, seguindo [4, 5]. Embora os dois capítulos sejam independentes, estes serão

conectados no capítulo reservado para abordar grupo topológico e suas propriedades.

Por m, observamos que para a compreensão deste material o leitor deve estar familiar-

izado com noções básicas de teoria dos conjuntos (por exemplo, Princípio da Indução

Finita, propriedades de interseções e reuniões de conjuntos, etc.), sugerimos a leitura

do primeiro capítulo de [5].

10
2 Sobre a Estrutura Algébrica: Grupo

Neste capítulo tratamos noções básicas sobre a estrutura algébrica grupo, através

da denição do mesmo, bem como exemplos e propriedades. Abordamos também

subgrupos, classes laterais e grupo quociente. Detalhes sobre este assunto e demais

considerações podem ser encontrados em [2, 3].

2.1 Grupo

Denição 2.1. Sejam G um conjunto não vazio e ∗ uma operação binária de G (isto
é, uma função de G × G em G) tal que (x, y) 7→ x ∗ y.
Dizemos que (G, ∗) é um grupo em relação a esta operação binária ou que ∗ de-
ne uma estrutura de grupo sobre o conjunto G se, e somente se, valem as seguintes
propriedades:
(a) Associativa: a ∗ (b ∗ c) = (a ∗ b) ∗ c, ∀ a, b, c ∈ G;
(b) Existência do elemento neutro: ∃ e ∈ G | a ∗ e = a = e ∗ a, ∀ a ∈ G;
(c) Existência de elemento oposto: ∀ a ∈ G, ∃ ā ∈ G | a ∗ ā = e = ā ∗ a.
Observação 2.1. Dizemos que um grupo é aditivo, ou multiplicativo, se as operações

binárias são: adição ou multiplicação, respectivamente. Adotamos para grupo aditivo

e =0 e ā = (−a) e chamados os elementos neutro e oposto, respectivamente. Para

um grupo multiplicativo usamos: e=1 e ā = a−1 , chamados elemento identidade e

inverso, respectivamente.

Proposição 2.1. Propriedades elementares de um grupo (G, ∗):


(i) O elemento neutro, cuja existência é assegurada por (b), é único.
(ii) Cada elemento do grupo possui um único elemento oposto.
(iii) Quaisquer que sejam x, y ∈ G, tem-se
• x̄¯ = x.
• x ∗ y = ȳ ∗ x̄.

11
Grupo 12

(iv) Se x1 , . . . , xn ∈ G, então
x1 ∗ . . . ∗ xn = x̄n ∗ . . . ∗ x̄1 .

(v) Quaisquer que sejam a, x, y ∈ G, temos que


a∗x=a∗y ⇒x=y

e
x∗a=y∗a⇒x=y

são as leis do cancelamento à esquerda e à direita, respectivamente.


Demonstração. (i) Seja e o elemento neutro de G, ou seja,

e ∗ a = a = a ∗ e, ∀ a ∈ G. (I)

Suponhamos agora que exista outro elemento e0 tal que, para qualquer a∈G:
0 0
e ∗a=a=a∗e. Em particular, para a=e temos:

e ∗ e0 = e.

Por outro lado, de (I), considerando a = e0 , segue que e ∗ e0 = e0 .


Consequentemente,

e0 = e ∗ e0 = e.
Portanto, e0 = e.

(ii) Se y e z são ambos elementos opostos de x em G temos

• x ∗ y = e = y ∗ x;
• x ∗ z = e = z ∗ x.

Deste modo,

z = e ∗ z = (y ∗ x) ∗ z = y ∗ (x ∗ z) = y ∗ e = y.
Portanto, y = z.

(iii) Se e é o elemento neutro de G, temos x̄¯ = x, pois x̄ ∗ x = e e x ∗ x̄ = e.


Provemos que x ∗ y = ȳ ∗ x̄. Como G é um grupo, dados x, y ∈ G, temos

x̄ ∗ x = e = x ∗ x̄
Grupo 13

ȳ ∗ y = e = y ∗ ȳ.

Deste fato e usando a propriedade associativa segue:

(x ∗ y) ∗ (ȳ ∗ x̄) = [(x ∗ y) ∗ ȳ] ∗ x̄ = [x ∗ (y ∗ ȳ)] ∗ x̄ = (x ∗ e) ∗ x̄ = x ∗ x̄ = e


e

(ȳ ∗ x̄) ∗ (x ∗ y) = [(ȳ ∗ x̄) ∗ x] ∗ y = [ȳ ∗ (x̄ ∗ x)] ∗ y = (ȳ ∗ e) ∗ y = ȳ ∗ y = e.

Consequentemente, ȳ ∗ x̄ é o elemento oposto de x ∗ y.

Portanto, x ∗ y = ȳ ∗ x̄.

(iv) Sejam x1 , . . . , xn ∈ G, provemos por meio do Princípio da Indução Finita que

x1 ∗ . . . ∗ xn = x̄n ∗ . . . ∗ x̄1 , ∀ n ∈ N. (I)

Obviamente a igualdade (I) é válida para n = 1.


Segue do item (iii), que (I) também é válida para n = 2.

Assumamos como hipótese de indução que a igualdade seja válida para n = k.


Ou seja,

x1 ∗ . . . ∗ xk = x̄k ∗ . . . ∗ x̄1 .

Mostremos agora que (I) é válida para n = k + 1. De fato:

x1 ∗ . . . ∗ xk+1 = (x1 ∗ . . . ∗ xk ) ∗ xk+1 = x̄k+1 ∗ x1 ∗ . . . ∗ xk =


x̄k+1 ∗ x̄k ∗ . . . ∗ x̄1 .

Portanto, nestas condições, segue do Princípio de Indução Finita que:

x1 ∗ . . . ∗ xn = x̄n ∗ . . . ∗ x̄1 , ∀ n ∈ N.

(v) Por hipótese temos a ∗ x = a ∗ y. Logo,

x = e ∗ x = (ā ∗ a) ∗ x = ā ∗ (a ∗ x) = ā ∗ (a ∗ y) = (ā ∗ a) ∗ y = e ∗ y = y.

Portanto, x = y.

Analogamente, se x ∗ a = y ∗ a, segue

x = x ∗ e = x ∗ (a ∗ ā) = (x ∗ a) ∗ ā = (y ∗ a) ∗ ā = y ∗ (a ∗ ā) = y ∗ e = y.
Grupo 14

Exemplo 2.1. Grupo Aditivo dos Reais. R munido da adição usual, (R, +) é um

grupo.

Exemplo 2.2. Grupo Aditivo dos Complexos.

Seja C = {x + iy; x, y ∈ R} o conjunto dos números complexos.

Denimos em C a seguinte operação:

+ : C × C −→ C

(α, β) 7−→ α + β := (a + c) + (b + d)i,

admitindo α = a + bi, β = c + di, a, b, c, d ∈ R.


Veja que α + β ∈ C, logo + é uma operação binária e ainda:

(a) Dados α = a + bi, β = c + di e γ = f + gi, elementos quaiquer em C temos, pela

propriedade associativa da adição usual em R que

α + (β + γ) = a + bi + ((c + f ) + (d + g)i) = (a + (c + f )) + (b + (d + g))i =

((a + c) + f ) + ((b + d) + g)i = ((a + c) + (b + d)i) + f + gi = (α + β) + γ.

Portanto, vale a propriedade associativa.

(b) Dado α = a + bi ∈ C qualquer, usando a propriedade do elemento neutro em R


temos que 0 = 0 + 0i ∈ C satisfaz

α + 0 = (a + 0) + (b + 0)i = a + bi = α,
e

0 + α = (0 + a) + (0 + b)i = a + bi = α,

ou seja, existe elemento neutro para (C, +).

α = a + bi ∈ C,
(c) Para cada pela propriedade de elemento neutro de R, o elemento

−α = −a − bi é tal que

α + (−α) = (a + bi) + (−a − bi) = (a + (−a)) + (b + (−b))i = 0 + 0i = 0, e

(−α) + α = ((−a) + a) + ((−b) + b)i = 0 + 0i = 0.

Portanto, segue dos itens (a), (b) e (c) que (C, +) é um grupo.

Exemplo 2.3. O Produto Direto.

Dados (G, 4) e (G0 , ♦) grupos quaisquer, o conjunto G × G0 , formado por todos


0 0 0
os pares (x, x ) com x ∈ G e x ∈ G é um grupo se munido da seguinte operação:

(x, x0 ) ∗ (y, y 0 ) := (x4y, x0 ♦y 0 ), ∀ (x, x0 ), (y, y 0 ) ∈ G × G0 . Com efeito,


Grupo 15

(a) Para quaisquer (x, x0 ), (y, y 0 ), (z, z 0 ) em G × G0 , temos pela propriedade associativa

de (G, 4) e (G0 , ♦):

(x, x0 ) ∗ [(y, y 0 ) ∗ (z, z 0 )] = (x, x0 ) ∗ (y4z, y 0 ♦z 0 ) =

(x4(y4z), x0 ♦(y 0 ♦z 0 )) = ((x4y)4z, (x0 ♦y 0 )♦z 0 ) =

(x4y, x0 ♦y 0 ) ∗ (z, z 0 ) = [(x, x0 ) ∗ (y, y 0 )] ∗ (z, z 0 ).

Portanto, vale a propriedade associativa.

(b) Seja (x, x0 ) ∈ G × G0 qualquer. Dena e = (eG , eG0 ), onde eG e eG0 são os elementos
0
identidade de G e G , respectivamente. Desta forma:

(x, x0 ) ∗ e = (x, x0 ) ∗ (eG , eG0 ) = (x4eG , x0 ♦eG0 ) = (x, x0 ) =

(eG 4x, eG0 ♦x0 ) = (eG , eG0 ) ∗ (x, x0 ) = e ∗ (x, x0 ).

Logo, (x, x0 ) ∗ e = (x, x0 ) = e ∗ (x, x0 ).


Portanto, e = (eG , eG0 ) é o elemento identidade de G × G0 .
(c) Para qualquer X = (x, x0 ) ∈ G × G0 , considere X := (x̄, x̄0 ), onde x̄ e x̄0 são os
0
elementos inversos de x e x , respectivamente. Observe que

X ∗ X = (x, x0 ) ∗ (x̄, x̄0 ) = (x4x̄, x0 ♦x̄0 ) = (eG , eG0 ) = e.


e

X ∗ X = (x̄, x̄0 ) ∗ (x, x0 ) = (x̄ 4 x, x̄0 ♦ x0 ) = (eG , eG0 ) = e.

Logo, X ∗ X = e = X ∗ X.
Portanto, X é o elemento inverso de X em G × G0 .

Exemplo 2.4. O Produto Direto de um número nito de Grupos.

n
Y
Dados (G1 , 41 ), · · · , (Gn , 4n ) grupos quaisquer, o conjunto Gi = G1 × · · · × Gn
i=1
é um grupo munido da operação ∗, denida da seguinte forma:
Yn
Para quaisquer X = (x1 , . . . , xn ), Y = (y1 , . . . , yn ) ∈ Gi , segue que
i=1

X ∗ Y := (x1 41 y1 , . . . , xn 4n yn ).
A demonstração segue usando o Princípio da Indução Finita e o exemplo anterior.
Grupo 16

Denição 2.2. Dizemos que um grupo (G, ∗) é abeliano ou comutativo se, e somente
se, a operação binária (x, y) 7→ x ∗ y é comutativa, isto é,

x ∗ y = y ∗ x, ∀ x, y ∈ G.

Exemplo 2.5. Grupo Aditivo dos Inteiros.

Por propriedades da adição usual em Z temos: ∀ a, b, c ∈ Z,

a + (b + c) = (a + b) + c,

a + 0 = a = 0 + a,

a + (−a) = 0 = (−a) + a,

a + b = b + a.
Logo (Z, +), Grupo Aditivo dos Inteiros, é um grupo abeliano.

Exemplo 2.6. Grupo Aditivo dos Racionais. O par (Q, +) , onde Q é o conjunto dos

racionais e + é a adição usual em Q, é um grupo abeliano.

Exemplo 2.7. Grupo Aditivo dos Reais. R munido da adição usual, (R, +) é um grupo
abeliano.

Exemplo 2.8. Nas condições do exemplo 2.3, se (G, 4) e (G0 , ♦) são grupos abelianos,
então (G × G0 , ∗) também o é. De fato,

∀ X = (x, x0 ), Y = (y, y 0 ) ∈ G × G0 :
X ∗ Y = (x, x0 ) ∗ (y, y 0 ) := (x4y, x0 ♦y 0 ) =
(y4x, y 0 ♦x0 ) := (y, y 0 ) ∗ (x, x0 ) = Y ∗ X
Portanto, X ∗ Y = Y ∗ X.
Por exemplo, Rn munido da operação + para n-uplas é um grupo abeliano.

Exemplo 2.9. Grupo Multiplicativo dos Racionais não nulos.

Sejam · a multiplicação usual em Q e Q∗ o conjunto dos números racionais não nulos.


∗ ∗
O par (Q , ·) é um grupo abeliano. Observe que Q é fechado para esta operação, pois
∗ ∗
para quaisquer a, b ∈ Q , temos ab 6= 0 e portanto ab ∈ Q . Ainda,

(a) Para quaisquer a, b, c ∈ Q∗

(ab)c = a(bc);
Grupo 17

(b) Temos que 1 é o elemento identidade de (Q∗ , ·), já que

a1 = a = 1a;
a b
(c) Cada elemento ∈ Q∗ tem como elemento inverso , pois
b a
ab ab ba ba
= =1= = ;
ba ba ab ab
(d) Para a, b ∈ Q∗ quaisquer, temos que ab = ba.

Exemplo 2.10. Grupo Multiplicativo dos Reais não nulos.

O par (R∗ , ·), onde R∗ é o conjunto dos reais não nulos e a operação · é a multipli-

cação usual, é outro exemplo canônico de grupo abeliano.

Exemplo 2.11. Grupo Multiplicativo dos Complexos não nulos.

Seja C∗ o conjunto dos números complexos não-nulos. Considere em C∗ a seguinte



operação: ∀ α = a + bi, β = c + di ∈ C

αβ = (a + bi)(c + di) := (ac − bd) + (ad + bc)i.


Veja que (C∗ , ·) é um grupo abeliano.

Com efeito:

(a) ∀ α = a + bi, β = c + di, γ = e + f i ∈ C∗ , α(βγ) = (αβ)γ , pois

α(βγ) = (a + bi)((ce − df ) + (cf + de)i) =

[a(ce − df ) − b(cf + de)] + [a(cf + de) + b(ce − df )]i =

[ace − adf − bcf − bde] + [acf + ade + bce − bdf ]i =

[(ac − bd)e − (ad + bc)f ] + [(ac − bd)f ) + (ad + bc)e]i =

[(ac − bd) + (ad + bc)i](e + f i) = (αβ)γ =

Portanto, α(βγ) = (αβ)γ.

(b) Seja α = a + bi ∈ C∗ , qualquer. Observe que 1 = 1 + 0i é tal que

α1 = (a1 − b0) + (a0 + b1)i = a + bi = (1a − 0b) + (0a + 1b)i = 1α.

Logo, α1 = α = 1α.

Portanto, 1 = 1 + 0i é o elemento identidade de (C∗ , ·).


Grupo 18

(c) Para cada α = a + bi ∈ C∗ , vejamos como determinar α−1 ∈ C∗ tal que

αα−1 = 1 = α−1 α.

Suponha α−1 = c + di. Veja que αα−1 = 1 equivale a (a + bi)(c + di) = 1 + 0i,
ou ainda, (ac − bd) + (ad + bc)i = 1 + 0i.

Consequentemente, as incógnitas c e d devem satisfazer o seguinte sistema linear:


(
ac − bd = 1
.
bc + ad = 0
1
Via regra de Cramer temos que a solução deste sistema é

a
c =
a2 + b2
.
b
d = − 2
a + b2
Note que a igualdade α−1 α = 1 gera o mesmo sistema linear. Portanto, para cada
a b
α = a + bi ∈ C∗ , o seu elemento inverso é dado por α−1 = − i,
a2 + b2 a2 + b2
conforme comprovamos a seguir.

  
−1 a b
αα = a + bi 2 2
− 2 i =
a +b a + b2
         
a −b −b a
a −b + a i +b i=
a2 + b2 a2 + b2 a2 + b2 a2 + b2

a2 b2
   
ab ab
+ + − + 2 i=
a2 + b2 a2 + b 2 2
a +b 2 a + b2

a2 + b2
   
(−ab) + (ab)
+ i = 1 + 0i = 1.
a2 + b2 a2 + b2

Analogamente, α−1 α = 1 + 0i = 1.

(d) Para quaisquer α = a + bi, β = c + di,

αβ = βα.
De fato,

αβ = (ac − bd) + (ad + bc)i = (ca − db) + (da + cb)i = βα.


1
Para noções sobre sistema linear e regra de Cramer sugerimos consultar [6], páginas 29 e 77,
respectivamente.
Grupo 19

Portanto, (C∗ , ·), o Grupo Multiplicativo dos Complexos não nulos é um grupo

abeliano.

Exemplo 2.12. Grupo das Matrizes.

Seja (G, ∗) um grupo qualquer.


Dena Mm×n (G) como sendo o conjunto das matrizes de ordem m×n com coe-

cientes em G. Neste conjunto considere a seguinte operação:

Para quaisquer
   
a11 ··· a1n b11 ··· b1n
. .. . . .. .
A= . . ,B =  . .  ∈ Mm×n (G),
   
. . . . . .

am1 · · · amn bm1 · · · bmn


 
a11 ∗ b11 ··· a1n ∗ b1n
. .. .
A4B =  . . .
 
. . .

am1 ∗ bm1 · · · amn ∗ bmn


O par (Mm×n (G), 4) é um grupo. De fato:
      
a11 · · · a1n b11 ··· b1n c11 ··· c1n
 .. .. .
.
. .. . . .. .
(a) A4(B4C) :=  .  4  .. . 4 . .  =
      
. . . . . . .

am1 · · · amn bm1 · · · bmn cm1 · · · cmn


   
a11 ··· a1n b11 ∗ c11 ··· b1n ∗ c1n
. .. . . .. .
. . 4 . . =
   
 . . . . . .

am1 · · · amn bm1 ∗ cm1 · · · bmn ∗ cmn

 
a11 ∗ (b11 ∗ c11 ) ··· a1n ∗ (b1n ∗ c1n )
. .. .
. . =
 
 . . .

am1 ∗ (bm1 ∗ cm1 · · · amn ∗ (bmn ∗ cmn )

 
(a11 ∗ b11 ) ∗ c11 ··· (a1n ∗ b1n ) ∗ c1n
. .. .
. . =
 
 . . .

(am1 ∗ bm1 ) ∗ cm1 · · · (amn ∗ bmn ) ∗ cmn

   
a11 ∗ b11 ··· a1n ∗ b1n c11 ··· c1n
. .. . . .. .
. . 4 . .
   
 . . . . . . 
am1 ∗ bm1 · · · amn ∗ bmn cm1 · · · cmn

     
a11 ··· a1n b11 ··· b1n c11 ··· c1n
. .. . . .. . . .. .
. . 4 . .  4  . .  = [A4B] 4C.
     
 . . . . . . . . .

am1 · · · amn bm1 · · · bmn cm1 · · · cmn


Grupo 20

Portanto, 4 é associativa.

 
eG · · · eG
. .. .
(b) Sendo eG é o elemento neutro de G, então e :=  . . é o elemento
 
. . . 
eG · · · eG
neutro para Mm×n (G), de fato:

   
a11 ··· a1n eG · · · eG
. .. . . .. .
A4e= . . 4 . .
   
. . . . . . 
am1 · · · amn eG · · · eG
   
a11 ∗ eG ··· a1n ∗ eG a11 ··· a1n
. .. . . .. .
= . . = . .  = A.
   
. . . . . .

am1 ∗ eG · · · amn ∗ eG am1 · · · amn

Analogamente, e 4 A = A.

Logo, A 4 e = A = e 4 A.

Portanto, e é o elemento neutro de (Mm×n , 4).


   
a11 ··· a1n ā11 ··· ā1n
. .. . . .. .
(c) Para cada A= . .  em Mm×n (G), dena Ā =  . . ,
   
. . . . . .

am1 · · · amn ām1 · · · āmn


onde a¯ij é o elemento oposto de aij em G.
Desta forma,

   
a11 ··· a1n ā11 ··· ā1n
. .. . . .. .
A 4 Ā =  . . 4 . .  :=
   
. . . . . .

am1 · · · amn ām1 · · · āmn


   
a11 ∗ ā11 ··· a1n ∗ ā1n eG · · · eG
. .. . . .. .
. . = . .  = e.
   
 . . . . . .

am1 ∗ ām1 · · · amn ∗ āmn eG · · · eG

Analogamente, Ā 4 A = e.

Logo,

A 4 Ā = e = Ā 4 A.

Portanto Ā é o elemento oposto de A em Mm×n (G).


Grupo 21

Portanto, segue dos itens(i), (ii) e (iii) que (Mm×n (G), 4) é um grupo.
Observamos ainda que se (G, ∗) é um grupo abeliano, então (Mm×n (G), 4) também

o é, pois para quaisquer:

   
a11 ··· a1n b11 ··· b1n
. .. . . .. .
A= . . ,B =  . .  ∈ Mm×n (G),
   
. . . . . .

am1 · · · amn bm1 · · · bmn


   
a11 ··· a1n b11 · · · b1n
. .. .   .. .. .
A4B= . . 4 . .  :=
 
. . . . .

am1 · · · amn bm1 · · · bmn


   
a11 ∗ b11 ··· a1n ∗ b1n b11 ∗ a11 ··· b1n ∗ a1n
. .. . . .. .
. . = . .  :=
   
 . . . . . .

am1 ∗ bm1 · · · amn ∗ bmn bm1 ∗ am1 · · · bmn ∗ amn


   
b11 · · · b1n a11 · · · a1n
 .. .. .
.
  .. .. .
.
4 .  = B4A.

 . . . . .

bm1 · · · bmn am1 · · · amn


Como aplicação deste exemplo, podemos considerar os grupos aditivos (Z, +),
(Q, +), (R, +), (C, +). Nestes casos, temos os grupos aditivos das matrizes com coe-

cientes em Z, Q, R e C respectivamente.

Exemplo 2.13. Grupo Multiplicativo das Matrizes Invertíveis com Coecientes Reais.
SejaGL(n) = {A ∈ Mn (R) | det(A) 6= 0}, com Mn (R) o conjunto das matrizes
de ordem n sobre R. Considere A = (aij ), B = (bjk ) matrizes quaisquer em GL(n).

Denimos o produto de A por B , AB , como sendo a matriz C = (cik ), tal que

n
X
cik = aij bjk , ∀ i, k ∈ {1, · · · , n}.
j=1

Observe que este produto está bem denido em GL(n) no seguinte sentido: se

A, B ∈ GL(n), então AB ∈ GL(n).


De fato, uma vez que A, B ∈ GL(n) segue que detA 6= 0 e detB 6= 0.
Agora, pela propriedade de determinante, sabemos que

det AB = detA detB (I)


Como detA 6= 0 e detB 6= 0 segue que detA detB 6= 0. Consequentemente, por (I),
segue que det AB 6= 0.

Armação: (GL(n), ·) é um grupo.

Com efeito,
Grupo 22

(a) ∀ A = (aij ), B = (bjk ), C = (ckl ) ∈ GL(n), temos que


X n Xn Xn
A(BC) = aij ( bjk ckl ) = aij (bj1 c1l + bj2 c2l + . . . + bjn cnl ) =
j=1 k=1 j=1

ai1 (b11 c1l + b12 c2l + . . . + b1n cnl ) + ai2 (b21 c1l + b22 c2l + . . . + b2n cnl ) + . . . + ain (bn1 c1l +
bn2 c2l + . . . + bnn cnl ) =

(ai1 b11 )c1l +(ai1 b12 )c2l +. . .+(ai1 b1n )cnl +(ai2 b21 )c1l +(ai2 b22 )c2l +. . .+(ai2 b2n )cnl +
. . . + (ain bn1 )c1l + (ain bn2 )c2l + . . . + (ain bnn )cnl =

[(ai1 b11 )c1l + (ai2 b21 )c1l + . . . + (ain bn1 )c1l ] + . . . + [(ai1 b11 )cnl + (ai2 b21 )cnl + . . . +
(ain bn1 )cnl ] =

(ai1 b11 + ai2 b21 + . . . + ain bn1 )c1l + . . . + (ai1 b11 + ai2 b21 + . . . + ain bn1 )cnl =

n
X
(ai1 b1k + ai2 b2k + . . . + ain bnk )ckl =
k=1

n X
X n
( aij bjk )ckl = (AB)C.
k=1 j=1

Portanto, A(BC) = (AB)C , isto é, vale a propriedade associativa para (GL(n), ·).

(b) Para qualquer A = (aij ) ∈ GL(n), a matriz In = (δjk ), cujas entradas são dadas
por δjk = 1, se j = k , e δjk = 0, se k 6= j , é o elemento identidade de GL(n).

Pois, primeiro observe que In ∈ GL(n), já que det In = 1 6= 0.


n
X
Ainda, AIn = (cik ), onde cik = aij δjk = ai1 δ1k +. . .+aik δkk +. . .+ain δnk = aik .
j=1
Logo, AIn = (aik ) = A.
Analogamente, In A = A. Consequentemente, AIn = A = In A, ou seja, In é o

elemento neutro de (GL(n), ·).

(c) Seja A = (aij ) ∈ GL(n), qualquer. Denimos a matriz dos cofatores de A como
(i+j)
sendo a matriz Ā = (∆ij ), onde ∆ij = (−1) det(Aij ), com Aij a submatriz de
A obtida extraindo-se a i-ésima linha e a j -ésima coluna de A.
1
Armação: B= Āt é tal que AB = In = BA.
detA
Com efeito, primeiro observe que a matriz B está bem denida já que detA 6= 0.
Ainda,

 
1 1
AB = A[ At ] = [AĀt ].
detA detA
Grupo 23

Agora,

  t
a11 · · · a1i · · · a1n ∆11 · · · ∆1i · · · ∆1n
 . .. . .  . .. . . 
 .. . .
.
.
.
  .. . .
.
.
.

  
t
AĀ =  ai1 · · · aii · · · ain   ∆i1 · · · ∆ii · · · ∆in  =
  
 . . .
 . . .
.. ..

 .. .
. . .
.
  .. .
. . .
.

  
an1 · · · ani · · · ann ∆n1 · · · ∆ni · · · ∆nn
  
a11 · · · a1i · · · a1n ∆11 · · · ∆i1 · · · ∆n1
 . .. . .  . .. . . 
 .. . .
.
.
.
  .. . .
.
.
.

  
 ai1 · · · aii · · · ain   ∆1i · · · ∆ii · · · ∆ni  = (cij ),
  
 . . .
 . . .
.. ..

 .. .
. . .
.
  .. .
. . .
.

  
an1 · · · ani · · · ann ∆1n · · · ∆in · · · ∆nn

onde cii = detA e cij = 0, pois observe que escolhendo a i-ésima linha para
2
calcular o determinante de A segue que:

detA = ai1 ∆i1 + · · · + aii ∆ii + · · · + ain ∆in .

Mas, cii = ai1 ∆i1 + · · · + aii ∆ii + · · · + ain ∆in .


Portanto, cii = detA.
3
Por outro lado, usando o desenvolvimento de Laplace , é possível mostrar que

cij = ai1 ∆j1 + ai2 ∆j2 + . . . + ain ∆jn = 0.

Por exemplo, se n=3 temos a seguinte situação:

a12 a13 a11 a13 a11 a12


c12 = −a11 + a12 − a13 .
a32 a33 a31 a33 a31 a32
Assim,

c12 = −a11 (a12 a33 − a13 a32 ) + a12 (a11 a33 − a13 a31 ) − a13 (a11 a32 − a12 a31 ) = 0.
Logo,

AĀt = detA In .

Consequentemente,

1 1
AB = A Āt = detA In = In .
detA detA
2
Para detalhes sobre o algoritmo para encontrar o determinante via matriz dos cofatores vide [6]
p.64.
3
Este desenvolvimento é encontrado em [6], p. 73.
Grupo 24

Analogamente, podemos mostrar que BA = In .

Note ainda que, como B é tal que AB = In segue que

detAB = detIn 6= 0.

Logo, detA detB = detAB 6= 0 e deste modo temos detB 6= 0, isto é, B ∈ GL(n).
Portanto, B é o elemento inverso de A em (GL(n), ·).

Por m, pelos itens (a), (b) e (c), segue que (GL(n), ·) é um grupo.

Observamos
! que este grupo não
! é comutativo. Por exemplo, se n=2 e escolhendo

0 1 3 1
A= e B= temos
2 3 −1 0
! !
−1 0 2 6
AB = e BA =
3 2 0 −1
Portanto, AB 6= BA.

Exemplo 2.14. Grupos de Permutações.

SejaE um conjunto não vazio. Denotamos por S(E) o conjunto de todas as funções
f : E −→ E bijetoras.
Neste conjunto denimos a operação composição ◦, (f, g) 7−→ f ◦ g, ∀f, g ∈ S(E).
O par (S(E), ◦) é um Grupo denominando grupo das permutações sobre E . A

seguir mostramos que (S(E), ◦) satisfaz as condições de um grupo.

(a) A propriedade associativa é satisfeita, pois, para qualquer x ∈ E, segue da

denição de composição de funções que

((f ◦ g) ◦ h)(x) = (f ◦ g)(h(x)) = f (g(h(x))) = f ((g ◦ h)(x)) = (f ◦ (g ◦ h))(x).

Portanto, (f ◦ g) ◦ h = f ◦ (g ◦ h).

(b) Para qualquer f ∈ S(E) a função identidade id E : E → E é o elemento neutro

de (S(E), ◦). De fato, para qualquer x ∈ E, segue que

(f ◦ idE )(x) = f (idE (x)) = f (x) = idE (f (x)) = (idE ◦ f )(x).

Portanto, f ◦ idE = f = idE ◦ f.

(c) Para cada f ∈ S(E), como f é bijetora existe f −1 ∈ S(E) tal que

f ◦ f −1 = idE = f −1 ◦ f.

Portanto, pelos itens (a), (b) e (c) o par (S(E), ◦) é um grupo.


Grupo 25

Em particular, seE = {1, 2, · · · , n}, n ≥ 1, denotamos S(E) por Sn e o chamamos


de grupo simétrico de grau n. Através de análise combinatória sobre os elementos

de E podemos constatar que Sn é um grupo com n! elementos.

Ainda, um elemento f ∈ Sn é indicado por

!
1 2 ··· n
f= ,
i 1 i2 · · · in

onde ir = f (r), com r variando entre 1 e n.

Para efetuar a composição de dois elementos f, g ∈ Sn , digamos

! !
1 2 ··· n 1 2 ··· n
g= ,f = .
i1 i 2 · · · in j1 j2 · · · jn

Procedemos da seguinte maneira: (f ◦ g)(r) =


! ! !
1 ··· ir · · · n 1 ··· r ··· n ··· r ···
. = ,
j1 · · · ji r · · · jn i1 · · · ir · · · in ··· ji r · · ·

pois (f ◦ g)(r) = f (g(r)) = f (ir ) = jir , para todo r ∈ {1, . . . , n}.


! !
1 2 ··· n i1 i2 · · · in
Observe que, se f= , então f −1 = .
i1 i 2 · · · in 1 2 ··· n

De fato:
!
−1 1 2 ··· r ··· n
(f ◦ f )(r) = = idSn (r) = (f ◦ f −1 )(r).
1 2 ··· r ··· n

Denição 2.3. Dizemos que um grupo (G, ∗) é nito se o conjunto G é nito. O


número de elementos de G é chamado de ordem do grupo G e denotado por o(G).
Exemplo 2.15. ({1, −1}, ·), onde · denota a multiplicação usual dos números inteiros,
é um grupo nito de ordem 2 e sua tabela de operações é dada por:

· 1 −1
1 1 −1
−1 −1 1
Tabela 2.1: Tabela G = {1, −1}
Grupo 26

Podemos vericar que ({1, −1}, ·) é um grupo através dos seguintes cálculos

(a) A propriedade associativa é válida, pois

1 · (1 · 1) = 1 · 1 = (1 · 1) · 1.

(−1) · [(−1) · (−1)] = (−1) · 1 = (−1) = 1 · (−1) = [(−1) · (−1)] · (−1).

(−1) · (1 · 1) = (−1) · 1 = (−1) = 1 · (−1) = (1 · 1) · (−1).

1 · [(−1) · 1] = 1 · (−1) = (−1) = (−1) · 1 = [(−1) · 1] · 1.

1 · [1 · (−1)] = 1 · (−1) = (−1) = (1 · 1) · (−1).

1 · [(−1) · (−1)] = 1 · 1 = 1 = (−1) · (−1) = [(−1) · (−1)] · 1.

(−1) · [(−1) · 1] = (−1) · (−1) = 1 = (−1) · (−1) = [(−1) · (−1)] · 1.

(−1) · [1 · (−1)] = (−1) · (−1) = 1 = (−1) · (−1) = [(−1) · 1] · (−1).

(b) ∃ 1 ∈ G | (−1) · 1 = 1 · (−1) = −1. Ainda,

1 · 1 = 1 = 1 · 1.

Portanto, 1 é o elemento identidade.

(c) Para 1 ∈ G, ∃ 1 ∈ G | 1 · 1 = 1.
Para −1 ∈ G, ∃ − 1 ∈ G | (−1) · (−1) = 1. Portanto, todo elemento de G tem

inverso.

Logo ({1, −1}, ·) é um grupo. E ainda satisfaz,

(−1) · (−1) = 1 = (−1) · (−1).


1 · (−1) = −1 = (−1) · 1.
1 · 1 = 1 = 1 · 1.
(−1) · 1 = −1 = 1 · (−1).
Portanto, ({−1, 1}, ·) é um grupo comutativo.

Exemplo 2.16. Como exemplo de grupo nito com aplicação geométrica temos o

Grupo Diedral.

Seja Pn um polígono regular com n-lados, qualquer. Consideramos no plano do

polígono um sistema ortogonal de coordenadas cartesianas de maneira que sua origem

seja o centro de Pn e o eixo-x contenha um de seus vértices o qual indicamos pelo

símbolo 1. Os vértices consecutivos serão indicados por 2, 3, . . . , n, respectivamente,

no sentido anti-horário, como na gura a seguir:


Grupo 27

Figura 2.1: Polígono Inscrito

Considere Dn o conjunto formado pelos movimentos rígidos em um polígono regular


de n lados e ◦ a operação composição de movimentos. O par (Dn , ◦) é um grupo de
ordem 2n dado por,

Dn = {e, r, r2 , . . . , rn−1 , s, rs, r2 s, . . . , rn−1 s},

onde a operação r ◦ s é abreviada por rs e, os movimentos r, s ∈ Dn são tais que r é



uma rotação de em torno da origem (após n rotações com este ângulo o polígono
n
volta a sua posição inicial) e s é uma reexão em torno do eixo-x.
n 2 −1
Ainda, Dn é gerado pelo conjunto X = {r, s ∈ Dn : r = e, s = e, srs = r }, ou

seja,

{e, r, r2 , . . . , rn−1 , s, rs, r2 s, . . . , rn−1 s} = h{r, s ∈ Dn : rn = e, s2 = e, srs = r−1 }i

Para o caso n = 3, temos que D3 = {e, r, r2 , s, rs, r2 s} é o conjunto de movi-



mentos rígidos em um triângulo equilátero, com r uma rotação de em torno da
3
origem e s uma reexão em torno do eixo-x, então o par (D3 , ◦) é um grupo. De

fato: primeiramente, da associatividade da operação composição segue que vale a pro-

priedade associativa para (D3 , ◦), em particular, para a rotação temos que: ru rv = ru+v ,
t u v t u+v
consequentemente, r (r r ) = r (r ) = rt+(u+v) = r(t+u)+v = rt+u rv = (rt ru )rv . O
elemento identidade, e, desta operação é o movimento que deixa o polígono na sua
3 2
posição inicial, consequentemente e é tal que r = e e s = e. O elemento inverso de r ,

r−1 , é o movimento r2 já que rr2 = r2 r = r3 = e. Destas propriedades mencionadas


segue a tabela de operações entre os elementos de D3 :
Grupo 28

◦ e r r2 s rs r2s
e e r r2 s rs r2s
r r r2 e rs r2s s
r2 r2 e r r2s s rs
s s r2s rs e r2 r
rs rs s r2s r e r2
r2s r2s rs s r2 r e
Tabela 2.2: Tabela D3

Veja que a partir desta tabela podemos determinar o elemento inverso de cada

elemento de D3 , a saber:

e−1 = e, r−1 = r2 , (r2 )−1 = r, s−1 = s, (rs)−1 = rs, (r2 s)−1 = r2 s (∗)

A tabela foi determinada dos seguintes cálculos:

• Qualquer elemento operado com e é ele próprio.

• Operando r com os demais elementos temos:


2
rr = r .
rr2 = r3 = e.
rrs = r2 s.
rr2 s = r3 s = es = s.
• Operando r2 com os demais elementos temos

r2 r = r3 = e.
r2 r2 = rrr2 = rr3 = re = r.
r2 rs = r3 s = es = s.
r2 r2 s = rrr2 s = rr3 s = res = rs.
• Operando o elemento s com os demais elementos temos:

Analisemos primeiro o produto sr. Temos que srs = r−1 . Aplicando s−1 de ambos

os lados temos:
(∗) (∗)
srss−1 = r−1 s−1 ⇒ srss−1 = r−1 s ⇒ sre = r−1 s ⇒ sr = r−1 s ⇒ sr = r2 s.
Portanto,

sr = r2 s (∗∗).
Agora,
(∗∗) (∗∗)
sr2 = srr = r2 sr = r2 r2 s = r3 rs = ers = rs. Portanto,

sr2 = rs (∗ ∗ ∗).
Grupo 29

Ainda, como srsr = e segue que

srs = r−1 (I).


Logo,

srs = r2 .
E,
(∗∗∗)
sr2 s = rss = rs2 = re = r.
• Operando o elemento rs com os demais elementos temos:
(∗∗)
rsr = rr2 s = es = s.
(∗∗∗)
rsr2 = rrs = r2 s.
rss = rs2 = re = r.
(I)
rsrs = rr−1 = e.
(∗∗∗)
rsr2 s = rrss = r2 s2 = r2 e = r2 .
• Operando o elemento r2 s com os demais elementos temos:
(∗∗)
r2 sr = r2 r2 s = rs.
(∗∗∗)
r2 sr2 = r2 rs = es = s.
r2 ss = r2 s2 = r2 e = r2 .
r2 srs = r2 r−1 = re = r.
(∗∗∗)
r2 sr2 s = r2 rss = es2 = e.
(D3 , ◦) valem as propriedades: associativa, elemento identidade
Portanto, para o par

e elemento inverso, ou seja, (D3 , ◦) é um grupo.


2 2
Note que D3 = {e, r, r , s, rs, r s} pois, qualquer outra combinação de movimento

nos leva a um destes elementos novamente, por exemplo: se k > 3, temos então que

k = 3q + p, 0 < p < 3 e assim, rk = r3q+p = (r3 )q rp = rp .


Sobretudo, veja que todos os cálculos feitos na construção da tabela foram derivados

essencialmente das propriedades: r3 = e, s2 = e, srs = r−1 ; desta forma podemos


3 2 −1
concluir que D3 é gerado por seu subconjunto {r, s ∈ D3 : r = e, s = e, srs = r }.

Por m temos, de acordo com a tabela, os seguintes conjuntos gerados por cada

elemento:

hei = {e}.
hri = {r, r2 , e}.
hsi = {s, e}.
hrsi = {rs, e}.
hr2 si = {r2 s, e}.
Assim, o grupo D3 não é cíclico, pois nenhum dos elementos de D3 gera D3 .
Grupo 30

De modo indutivo, segue que

{e, r, r2 , . . . , rn−1 , s, rs, . . . , rn−1 s} = Dn = h{r, s : rn = e, s2 = e, srs = r−1 }i.

Para isto basta observarmos que os elementos do Grupo Diedral Dn podem ser

obtidos da mesma forma como usada para D3 , levando em consideração que rn = e,


s2 = e, srs = rn−1 = r−1 . Veja que cada elemento do grupo tem a forma ra ou ra s
a b k a b k
onde 0 ≤ a ≤ n − 1 uma vez que r r = r e r (r s) = r s, com k = a +n b, e ainda,

(ra s)rb = rl s e (ra s)(rb s) = rl , com l = a +n (n − b), onde +n é a notação para a soma
4
módulo n.

Exemplo 2.17. Grupo das Simetrias do Quadrado Q.


Seja Q um quadrado pertencente a um plano R2 com centro na origem e lados

paralelos aos eixos OX e OY . O quadrado Q retorna a sua posição inicial a partir dos

seguintes movimentos rígidos:

• R0 : R0 (x, y) := (x, y), ∀ (x, y) ∈ R2 . Função identidade.


! !
0 −1 x
• R1 : R1 (x, y) := = (−y, x). Rotação no sentido anti-horário
1 0 y
π
de graus radianos em torno da origem.
2
! !
−1 0 x
• R2 : R2 (x, y) := = (−x, −y). Rotação no sentido anti-
0 −1 y
horário de π graus radianos em torno da origem.
! !
0 1 x
• R3 : R3 (x, y) := = (y, −x).Rotação no sentido anti-horário de
−1 0 y

graus radianos em torno da origem.
2
• X : X(x, y) := (x, −y). Simetria em relação ao eixo OX .

• Y : Y (x, y) := (−x, y). Simetria em relação ao eixo OY .

• D1 : D1 (x, y) := (y, x), Simetria em relação à reta D1 que contém a bissetriz do

primeiro quadrante.

• D2 : D2 (x, y) := (−y, −x). Simetria em relação à reta D2 que contém a bissetriz

do segundo quadrante.

Assim obtemos o grupo (G, ◦),


G = {R0 , R1 , R2 , R3 , X, Y, D1 , D2 } e “ ◦ ” a
onde

composição de quaisquer dois elementos de G que resultará em um elemento de G como

vemos:
4
Seja n > 1 um inteiro e indiquemos por Zn = {0, 1, 2, . . . , n − 1} o sistema completo de restos
mínimos positivos, módulo n. Se x, y ∈ Zn , entendemos por soma módulo n de x com y , +n o resto
da divisão euclidiana de x + y por n.
Grupo 31

(i) A operação de qualquer elemento com a identidade R0 resultará no próprio ele-

mento.

(ii) Operando R1 com os demais elementos:

• R1 ◦ R1 (x, y) = R1 (−y, x) = (−x, −y) = R2 (x, y);

• R1 ◦ R2 (x, y) = R1 (−x, −y) = (y, −x) = R3 (x, y);

• R1 ◦ R3 (x, y) = R1 (y, −x) = (x, y) = R0 (x, y);

• R1 ◦ X(x, y) = R1 (x, −y) = (y, x) = D1 (x, y);

• R1 ◦ Y (x, y) = R1 (−x, y) = (−y, −x) = D2 (x, y);

• R1 ◦ D1 (x, y) = R1 (y, x) = (−x, y) = Y (x, y);

• R1 ◦ D2 (x, y) = R1 (−y, −x) = (x, −y) = X(x, y);

(iii) Procedendo com os demais cálculos obtemos a tabela 2.5.

◦ R0 R1 R2 R3 X Y D1 D2
R0 R0 R1 R2 R3 X Y D1 D2
R1 R1 R2 R3 R0 D1 D2 Y X
R2 R2 R3 R0 R1 Y X D2 D1
R3 R3 R0 R1 R2 D2 D1 X Y
X X D2 Y D1 R0 R2 R3 R1
Y Y D1 X D2 R2 R0 R1 R3
D1 D1 X D2 Y R1 R3 R0 R2
D2 D2 Y D1 X R3 R1 R2 R0
Tabela 2.3: Tabela Q

Como os elementos de G são permutações no plano R2 temos que a operação com-

posição “◦” R0 é o elemento neutro


é associativa. Pela tabela podemos vericar que

e que todo elemento de G possui elemento inverso, a saber: R0 é o elemento inverso

de R0 , R3 é o elemento inverso de R1 , R2 é o elemento inverso de R2 , X é o elemento

inverso de X , Y é o elemento inverso de Y , D1 é o elemento inverso de D1 e D2 é o

elemento inverso de D2 .

Observação 2.2. De forma análoga podemos fazer as seguintes considerações sobre

um retângulo.

1. x e y são eixos de reexão.


Subgrupo 32

2. Para as diagonais a simetria se dá através da meia volta em torno da origem.

3. σh (x, y) = (x, −y), reexão horizontal.

4. σv (x, y) = (−x, y), reexão vertical.

5. σo (x, y) = (−x, −y), antípoda.

6. id (x, y) = (x, y).

Estas quatro isometrias constituem o Grupo (V4 , ◦), onde V4 = {σh , σv , σo , id }.


Através deste obtemos a seguinte tabela:

◦ i σh σv σo
i i σh σv σo
σh σh i σo σv
σv σv σo i σh
σo σo σv σh i
Tabela 2.4: Tabela V4

Observe pela tabela que o par (V4 , ◦) tem a estrutura de grupo abeliano.

2.2 Subgrupo

Denição 2.4. Seja (G, ∗) um grupo. Dizemos que um subconjunto não vazio H ⊂ G
é um subgrupo de G se, e somente se,

(i) ∀ a, b ∈ H ⇒ a ∗ b ∈ H ;
(ii) (H, ∗) tem estrutura de grupo.

Teorema 2.1. Para que um subconjunto não vazio H ⊂ G seja subgrupo de um grupo
(G, ∗), é necessário e suciente que

∀ a, b ∈ H =⇒ a ∗ b̄ ∈ H,
onde b̄ é o elemento inverso de b.

Demonstração.
Subgrupo 33

(=⇒) Por hipótese, temos que H é um subgrupo de G, isto é, para quaisquer a, b ∈ H


temos que a ∗ b ∈ H, e também que (H, ∗) tem estrutura de grupo.

Queremos mostrar que para quaisquer a, b ∈ H , temos que a ∗ b̄ ∈ H .


Primeiramente, mostramos que eH = eG , onde eH é o elemento identidade de H

e eG é o elemento identidade de G. De fato, como eH é o elemento identidade de H

temos que eH ∗ eH = eH , por outro lado, como eH ∈ H ⊂ G, segue que eH ∗ eG = eH .

Logo,

eH ∗ eH = eH = eH ∗ eG .
Assim, pela lei do cancelamento em G,

eH = eG .

Denotamos eH = eG := e.
Também pela lei do cancelamento segue que, para cada a ∈ H temos āH = ā, onde
āH é o elemento inverso de a em H e ā é o elemento inverso de a em G. Com efeito,

a ∗ āH = eH = eG = a ∗ ā.
Logo, āH = ā.
Consequentemente, para quaisquer a, b ∈ H, temos que

a ∗ b̄ = a ∗ b̄H ∈ H.
(⇐=) Temos por hipótese que para todo a, b ∈ H, a ∗ b̄ ∈ H . Então, e ∈ H, já que

e = a ∗ ā ∈ H, ∀ a ∈ H .
Como e ∗ a = a = a ∗ e, para qualquer a ∈ H ⊂ G, segue que e é o elemento

identidade para (H, ∗).

Também, para cada b ∈ H , b̄ ∈ H , pois

b̄ = e ∗ b̄ ∈ H.
E para cada b ∈ H ⊂ G,

b ∗ b̄ = e = b̄ ∗ b.

∴ b̄ é o elemento inverso de b em (H, ∗).


Em particular, dados a, b ∈ H , como b̄ ∈ H , segue por hipótese que

a ∗ b = a ∗ ¯b̄ ∈ H.
Finalmente, a propriedade associativa para H é válida uma vez que G é um grupo

e H ⊂ G.
Subgrupo 34

Observação 2.3. Todo grupo G admite pelo menos dois subgrupos a saber, G e {e},
chamados de subgrupos triviais de G.

Observação 2.4. Lembramos que, para um determinado elemento b, a notação de seu


−1
oposto b̄ será b , para grupos multiplicativos e −b, para grupos aditivos.

Exemplo 2.18. Para o Grupo Multiplicativo dos Reais não nulos (R∗ , ·), tomemos

H = {x ∈ R | x > 0}.
1
Sejam a, b ∈ H . Como b > 0, então b̄ = b−1 = >0 e igualmente ab−1 > 0. Assim
b
−1
ab ∈H e, portanto, H é subgrupo.

Exemplo 2.19. Seja agora o Grupo Aditivo dos Reais (R, +) e tomemos o subconjunto
Z dos inteiros. Então,

∀a, b ∈ Z =⇒ a + (−b) = a − b ∈ Z.
Portanto, (Z, +) é subgrupo.

Exemplo 2.20. Seja (Rn , +) Grupo Aditivo de vetores de n coordenadas reais. O

subconjunto A consistindo de todos os vetores que tem 0 como a primeira coordenada


n
é subgrupo de R .
Sejam a = (0, x2 , . . . , xn ), b = (0, y2 , . . . , yn ) ∈ A então −b = (0, −y2 , . . . , −yn ) e

assim

a − b = (0, x2 , . . . , xn ) + (0, −y2 , . . . , −yn ) = (0, x2 − y2 , . . . , xn − yn ) ∈ A.

Exemplo [Link] cada z = x + yi ∈ C denimos como a norma de z o número real


positivo x2 + y 2 . O conjunto S 1 = {z ∈ C : |z|C = 1} um subgrupo de (C∗ , .).
|z|C =
1 0 1
De fato, temos que 1 ∈ S e para quaisquer z = x1 + y1 i, z = x2 + y2 i em S , temos

ainda

zz 0 = (x1 x2 − y1 y2 ) + (x1 y2 + y1 x2 )i ⇒ |zz 0 |2C = (x1 x2 − y1 y2 )2 + (x1 y2 + y1 x2 )2 =


(x1 x2 )2 − 2x1 x2 y1 y2 + (y1 y2 )2 + (x1 y2 )2 + 2x1 y2 y1 x2 + (y1 x2 )2 =
x21 (x22 + y22 ) + y12 (x22 + y22 ) = (x21 + y12 )(x22 + y22 ) = |z|2C |z 0 |2C = 1 · 1 = 1.
Portanto, zz 0 ∈ S 1 .
x y z̄
Além disso, como z −1 = − 2 = , onde z̄ = x1 − y1 i, e |z̄|C =
x2 +y 2 x +y 2 |z|2C
|z|C = 1, temos

|z̄|C 1 1
|z −1 |C = = = = 1.
|z|2C C |z|C2
1

Portanto, z −1 ∈ S 1 .
Subgrupo 35

No próximo capítulo trataremos mais profudamente propriedades da norma ||C .


A partir de agora, no intuito de simplicar a notação, admitimos que G é um grupo
multiplicativo.

Denição 2.5. Seja H um subgrupo de um grupo G. Então, o subgrupo de G


aH = {ax| x ∈ H}, é chamado classe lateral à esquerda módulo H.
Analogamente, Ha = {xa| x ∈ H}, é a classe lateral à direita módulo H .
Exemplo 2.22. Sejam o grupo G = ({1, i, −1, −i}, ·) e seu subgrupo H = {1, −1}.
Para encontrar as classes laterais à esquerda basta fazermos os seguintes cálculos:

1 · H = {1 · 1, 1 · (−1)} = {1, −1} = H 1 = H.


(−1)H = {(−1) · 1, (−1) · (−1)} = {−1, 1} = H (−1) = H.
i.H = {i · 1, i · (−1)} = {i, −i}.
(−i)H = {(−i) · 1, (−i) · (−1)} = {−i, i} = iH.
Portanto, as classes laterais à esquerda módulo H são: H e {−i, i}.

No que segue exploramos propriedades de classes laterais que, embora sejam enunci-

adas usando classes laterais à esquerda, todas são válidas para classes laterais à direita

(as demonstrações são análogas).

Proposição 2.2. A união de todas as classes laterais módulo H é igual a G.


Demonstração. Queremos mostrar que

[
aH = G.
a∈G

Façamos isto.

[
(i) aH ⊆ G.
a∈G
[
Seja x∈ aH , qualquer, então x ∈ a0 H , para algum a0 ∈ G. Consequente-
a∈G
mente, existe
[ h∈H tal que x = a0 h. Mas, a0 h ∈ G, logo x = a0 h ∈ G. Portanto,

aH ⊆ G.
a∈G
[
(ii) G⊆ aH .
a∈G
Sejaa0 ∈ G, qualquer. Observe que, como G é um grupo, temos que a0 = a0 e,
onde e denota o elemento neutro de G. Mas e pertence a H , já que H é subgrupo

de G. Assim,

a0 = a0 e ∈ a0 H.
Subgrupo 36

Por sua vez,

[
a0 H ⊂ aH.
a∈G
[
Logo, a0 ∈ aH.
a∈G
[
Portanto, G⊆ aH.
a∈G

Consequentemente, por (i) e (ii) segue que

[
G= aH.
a∈G

Proposição 2.3. Seja G um grupo. Para quaisquer a, b ∈ G:

aH = bH ⇔ a−1 b ∈ H.

Demonstração. (=⇒) Suponha que aH = bH . Sabemos pela proposição 2.2 que a


pertence a aH , mas aH = bH , logo a ∈ bH . Disto segue que

a = bh, para algum h ∈ H.

Mas,

a = bh ⇒⇒ a−1 b = h−1 ∈ H.

Portanto, a−1 b ∈ H.

(⇐=) Suponha a−1 b ∈ H , então existe h∈H tal que a−1 b = h.


Logo,

a = bh−1 e b = ah. (I)

Mostremos agora que aH = bH .

(i) aH ⊂ bH . Se y ∈ aH , qualquer, então

I
y = ah1 = (bh−1 )h1 = b(h−1 h1 ) ∈ bH,

já que h−1 h1 ∈ H , pois H é subgrupo de G.


Portanto, aH ⊂ bH.
Subgrupo 37

(ii) bH ⊂ aH . Se y ∈ bH , qualquer, então

y = bh2 , para algum h2 ∈ H.

Assim,

I
y = bh2 = (ah)h2 = a(hh2 ) ∈ aH,

pois hh2 ∈ H uma vez que H é subgrupo de G.


Portanto, bH ⊂ aH.

Assim, por (i) e (ii), segue que

aH = bH.

Proposição 2.4. Se aH e bH são duas classes laterais à esquerda módulo H , então

aH ∩ bH = ∅ ou aH = bH.

Demonstração. Suponha que aH ∩ bH 6= ∅, logo existe x ∈ aH ∩ bH , ou seja

x ∈ aH e x ∈ bH.
Disto segue que existem h1 , h2 ∈ H tais que

ah1 = x = bh2 .
Mas,

ah1 = bh2 ⇒ a−1 b = h1 h−1


2 ,

com h1 h−1
2 ∈ H, pois H é subgrupo de G. Isto é, a−1 b ∈ H .
Com isto, pela proposição 2.3, segue que

aH = bH.
Portanto, por dicotomia da igualdade,

aH ∩ bH = ∅ ou aH = bH.
Subgrupo 38

Observação 2.5. Pelas proposições 2.2, 2.4, 2.3 segue que o conjunto das classes
5
laterais à esquerda módulo H forma uma partição em G.

Denição 2.6. Dizemos que um subgrupo N de um grupo G é um subgrupo normal


quando satisfaz a seguinte propriedade

xN = N x, ∀x ∈ G,

Notação: H C G.
Proposição 2.5. Um subgrupo N de um grupo G é normal se, e somente se,
∀ n ∈ N, a ∈ G temos a−1 na ∈ N .

Demonstração. (=⇒)Supondo N C G, temos que: aN = N a, ∀ a ∈ G.


Agora, se n∈N é qualquer, então:

na ∈ N a = aN ⇒ na = an0 , para algum n0 ∈ N ⇒

a−1 na = a−1 an0 ⇒ a−1 na = n0 ∈ N ⇒ a−1 na ∈ N.


(⇐=)

(i) aN ⊆ N a.
Sejax ∈ aN , qualquer. Então x = an, para algum n ∈ N . Temos por hipótese
−1
que xa = ana−1 ∈ N . Assim, como xa−1 ∈ N , temos que xa−1 = n0 para
0 −1 −1 0
algum n ∈ N e isto implica em x = xe = x(a a) = (xa )a = n a ∈ N a.

Portanto, x ∈ N a.

(ii) N a ⊆ aN .
Sex ∈ N a é qualquer, então x = na, para algum n ∈ N . Por hipótese temos que
a x = a−1 na ∈ N . Desde que a−1 x ∈ N , temos a−1 x = n0 para algum n0 ∈ N .
−1

−1 0
Logo, x = aa x = an ∈ aN .

Exemplo 2.23. G = {1, i, −1, −i} e H = {1, −1} como no exemplo 2.22,
Sejam

denimos a operação xH ∗ yH = xyH, ∀ x, y ∈ G. Então temos a seguinte tabela

Portanto, H é um subgrupo normal de G .

5
Seja E um conjunto não vazio. Diz-se que uma coleção F de subconjuntos não vazios de E é uma
partição de E se, e somente se:
(a) Dois membros quaisquer de F ou são iguais ou são disjuntos.
(b) A união dos membros de F é igual a E .
Grupo Quociente 39

∗ H iH
H H iH
iH iH H
Tabela 2.5: Tabela Subgrupo Normal

Lema 2.1. Se o grupo G é abeliano, então todo subgrupo de G é normal.


Demonstração. N um subgrupo de G, qualquer.
Seja

Para quaisquer a ∈ G e n ∈ N temos por hipótese que na = an. Assim, temos

a na = a−1 (na) = a−1 (an) = (a−1 a)n = en = n ∈ N e, portanto, a−1 na ∈ N.


−1

−1
Desta maneira, a na ∈ N , para todo a ∈ G. Logo, pela proposição anterior,

N C G.

2.3 Grupo Quociente

Denição 2.7. Sejam (G, ·) um grupo e N C G. Denimos o grupo quociente, G/N ,


como o seguinte conjunto:

G/N := {aN, a ∈ G},


munido da operação:
∗ : G/N × G/N −→ G/N
(aN, bN ) 7−→ (aN ) ∗ (bN ) := (ab)N.

Uma vez que G é um grupo segue que ab ∈ G, logo (ab)N ∈ G/N , isto é, a operação
acima é binária e é bem denida, conforme vemos a seguir

Sejam (aN, bN ), (a0 N, b0 N ) ∈ G/N × G/N , tais que

(aN, bN ) = (a0 N, b0 N ).
Temos,

(aN ) ∗ (bN ) := (ab)N.


e

(a0 N ) ∗ (b0 N ) := (a0 b0 )N.


Grupo Quociente 40

Queremos mostrar que (ab)N = (a0 b0 )N , o que é equivalente a (ab)−1 a0 b0 ∈ N .


Por hipótese,

( (
aN = a0 N a−1 a0 ∈ N ⇒ a−1 a0 = n1 , n1 ∈ N
⇒ (I).
bN = b0 N b−1 b0 ∈ N ⇒ b−1 b0 = n2 , n2 ∈ N

Agora,

(ab)−1 a0 b0 = (b−1 a−1 )a0 b0 = b−1 (a−1 a0 )b0 = b−1 n1 b0 (II).

Como N é normal, segue que b0 N = N b0 , consequentemente, como temos que

n1 b ∈ N b = b0 N , segue
0 0
que existe n3 ∈ N tal que:

n1 b0 = b0 n3 (III).

Substituindo (III) em (II) e usando (I) segue que

(ab)−1 a0 b0 = b−1 (n1 b0 ) = b−1 (b0 n3 ) = (b−1 b0 )n3 = n2 n3 ∈ N.


Portanto, (ab)−1 a0 b0 ∈ N.

Lema 2.2. (G/N, ∗) é um grupo.


Demonstração. Já sabemos que a operação · está bem denida.

Veriquemos a associatividade e a existência dos elementos identidade e inverso.

(i) Se a, b, c ∈ G, então (aN ) ∗ [(bN ) ∗ (cN )] = (aN ) ∗ ((bc)N ) = (a(bc))N =


((ab)c)N = ((ab)N ) ∗ (cN ) = [(aN ) ∗ (bN )] ∗ (cN ).

(ii) Assumindo e elemento identidade de G, então temos como elemento identidade

de G/N a classe eN , pois para qualquer a∈G temos

(aN ) ∗ (eN ) = (ae)N = aN = (ea)N = (eN ) ∗ (aN ).

(iii) Dado b ∈ G, qualquer, o elemento inverso da classe bN é o elemento (b−1 N ):

(bN ) ∗ (b−1 N ) = (bb−1 )N = eN = (b−1 b)N = (b−1 N ) ∗ (bN ).

Observação 2.6. (i) Dados G um grupo e N um subgrupo normal de G, existe

uma função sobrejetora de G em G/N , a saber,


Grupo Quociente 41

p : G → G/N .
a 7→ aN

Note que de fato p é uma função sobrejetora, pois cada classe K em G/N é da

forma xN para algum x ∈ G, logo, tomando x em G, temos p(x) = K .

(ii) Veja que pela observação 2.5 o grupo quociente G/N é uma partição para o grupo

G.

Após esta abordagem sobre conceitos algébricos envolvendo grupos, temos no pró-

ximo capítulo os conceitos topológicos e alguns tópicos sobre funções contínuas que

servirão como prerrequisitos para o estudo de grupos topológicos.


3 Elementos de Topologia Geral

3.1 Espaço Topológico

Neste capítulo abordamos noções básicas sobre topologia geral. Denimos espaço

topológico e topologias, bem como as topologias trivial, discreta, padrão e produto.

Através da denição de base (e subbase) construímos a topologia gerada para uma

base (ou subbase) em um determinado conjunto. Denimos subespaço topológico e

espaço de Hausdor e trabalhamos propriedades referentes a estes.

Também há uma seção abordando aplicações contínuas com vários exemplos e pro-

priedades. Seguem também denição e exemplo de espaço quociente.

Detalhes sobre este assunto e demais considerações podem ser encontrados em [5, 4].

Denição 3.1. Se X é um conjunto e τ uma coleção de subconjuntos de X satis-


fazendo:

(a) ∅, X ∈ τ ;
(b) União arbitrária de elementos de τ pertence a τ ;
(c) Intersecção nita de elementos de τ pertence a τ .

Então, o par (X, τ ) é chamado espaço topológico e τ é uma topologia para X .


Exemplo 3.1. Se X é um conjunto não vazio e τ = {∅, X}, então (X, τ ) é um espaço

topológico, pois τ satisfaz todas as condições da denição acima. Esta topologia é

chamada topologia indiscreta ou trivial.

Exemplo 3.2. Seja X ℘(X) o conjunto das


um conjunto não vazio e denotemos por

partes de X , ou seja, o conjunto formado por todos os subconjuntos de X . O par (X, τ ),

onde τ = ℘(X) é um espaço topológico. A topologia τ é denominada topologia discreta.

Por exemplo, se X = {a, b, c}, então

τ = {∅, X, {a}, {b}, {c}, {a, b}, {a, c}, {b, c}},
é a topologia discreta para X. Se X = Z, então τ = ℘(Z).

42
Espaço Topológico 43

Figura 3.1: Topologia discreta

Denição 3.2. Se (X, τ ) é um espaço topológico, dizemos que um subconjunto U de


X é um conjunto aberto de X, se U pertence a coleção τ .

Denição 3.3. Se (X, τ ) é um espaço topológico, dizemos que um subconjunto F de


X é um conjunto fechado de X, se o complementar de F , {F , é um conjunto aberto
para a topologia τ .
Observação 3.1. Veja que, devido as leis de De Morgan 1 e as denições de topologia e
de conjunto fechado, segue que interseção arbitrária e união nita de conjuntos fechados

são conjuntos fechados em X. Também, segue que ∅, X são conjuntos fechados em X.

Denição 3.4. Sejam (X, τ ) um espaço topológico, x ∈ X um elemento de X e U um


subconjunto de X . Dizemos que U é uma vizinhança de x se U é um conjunto aberto
em X e x ∈ U .
Denição 3.5. Uma base B para uma topologia τ de X é uma subcoleção B de τ ,
B ⊂ τ , onde

(a) Para todo x ∈ X , existe B ∈ B tal que x ∈ B .


(b) Se x ∈ B1 ∩ B2 , com B1 , B2 ∈ B, então existe B3 ∈ B tal que x ∈ B3 ⊂ B1 ∩ B2 .
1
Se {Ai }i∈I é uma família de conjuntos (de um mesmo conjunto universo), então:
(1) {( {Ai ;
\ [
Ai ) =
i∈I i∈I

(2) {( {Ai .
[ \
Ai ) =
i∈I i∈I
Espaço Topológico 44

Os elementos de B são chamados elementos básicos de X .


Exemplo 3.3. Se X é um conjunto não vazio qualquer, então a coleção de todos os

subconjuntos unitários de elementos de X , {{x}, x ∈ X}, é uma base para a topologia

discreta de X.

Lema 3.1. Se B é uma base para uma topologia τ de (X, τ ) e τB é a coleção constituída
pelo conjunto vazio e pelos subconjuntos U de X tais que para cada x ∈ U existe um
elemento básico B com B ∈ B tal que x ∈ B ⊂ U , então, τB é uma topologia para X ,
a qual denominamos topologia gerada por B.
Demonstração. Mostremos que τB é de fato uma topologia para X.

(a) ∅ e X pertencem a τB . De fato:

Se U = ∅, o resultado segue pela denição de τβ . Para U = X , dado qualquer


x ∈ X , temos que existe algum elemento básico B ∈ B contendo x e contido em
X , uma vez que X ∈ τ e B é uma base para τ .

(b) Se {U[
α }α∈J é uma família de subconjuntos pertencentes a τβ , então temos que

U= Uα ∈ τB . Com efeito, dado x∈U temos que x ∈ Uα para algum α ∈ J.


α∈J
Uma vez que Uα pertence a τβ e B é uma base para
[ τB , segue que existe um
elemento básico B ∈ B tal que x ∈ B ⊂ Uα ⊂ Uα = U , isto é, x ∈ B e
α∈J
B ⊂ U. Logo, U ∈ τB .
n
\
(c) Se U1 , U2 . . . , Un são subconjuntos pertencentes a τB , então U = Ui ∈ τB .
i=1
Mostraremos esta implicação apenas para o caso n = 2, já que o resultado segue

pelo Princípio da Indução Finita.

Seja x ∈ U = U1 ∩ U2 , qualquer. Como x pertence a interseção, temos que


x ∈ U1 e x ∈ U2 . Todavia, U1 e U2 pertencem a τB , consequentemente existem
B1 , B2 ∈ B tais que x ∈ B1 ⊂ U1 e x ∈ B2 ⊂ U2 , respectivamente. Assim, temos
que x ∈ B1 ∩ B2 e B1 ∩ B2 ⊂ U1 ∩ U2 .

(b) da denição 3.5, temos que existe B3 ⊂ B tal que


Nestas condições, do item

x ∈ B3 ⊂ B1 ∩ B2 ⊂ U1 ∩ U2 = U . Portanto, existe B3 ∈ B tal que x ∈ B3 ⊂ U ,


ou seja, U ∈ τB .

Observação 3.2. É possível mostrar que se (X, τ ) é um espaço topológico e B é uma

base para a topologia τ então, τ é igual a coleção de todas as uniões de elementos de

B (vide Lema 13.1, página 80 de [5]).


Espaço Topológico 45

Exemplo 3.4. Dado um conjunto simplesmente ordenado é possível denir, por meio

de sua relação de ordem, uma topologia para este. Esta topologia é denominada

topologia da ordem. A saber, se (X, <) é um conjunto simplesmente ordenado 2 de-


nimos os seguintes subconjuntos de X , chamados de intervalo aberto, intervalo semi-

aberto à direita, intervalo semi-aberto à esquerda e intervalo fechado, respectivamente:

(a, b) = {x ∈ X | a < x < b},

[a, b) = {x ∈ X | a ≤ x < b},

(a, b] = {x ∈ X | a < x ≤ b},

[a, b] = {x ∈ X | a ≤ x ≤ b},
onde o símbolo ≤ signica que a≤b se, e somente se, a<b ou a = b.
Os seguintes subconjuntos formam uma base para (X, <):

(1) Todos os intervalos abertos (a, b) em X;

(2) Todos os intervalos da forma [a0 , b), onde a0 é o menor elemento de X , se houver;

(3) Todos os intervalos da forma (a, b0 ], onde b0 é o maior elemento de X, se houver.

De fato:

(a) Para todo x∈X existe B∈B x ∈ B , pois o menor elemento (se houver)
tal que

pertence a todos os conjuntos do tipo (2), o maior elemento (se houver) pertence

a todos os conjuntos do tipo (3); além disso, qualquer elemento pertence a algum

conjunto do tipo (1) já que neste caso (x não sendo nem o maior nem o menor

elemento) sempre existem a, b ∈ X tais que a < x < b e então x ∈ (a, b).

(b) Suponha que x ∈ B1 ∩ B2 , com B1 , B2 ∈ B . Veja que a interseção entre quaisquer


dois subconjuntos dos tipos (1), (2) e (3) ainda é um conjunto de um destes tipos

ou o conjunto vazio. Desta maneira basta considerar o elemento básico B3 como

sendo a própria interseção B1 ∩ B2 para obtermos B3 ⊂ B1 ∩ B2 .

2
Um conjunto X qualquer é dito simplesmente ordenado se existe uma relação <, denominada
relação de ordem, que satisfaz:
(1) Para quaisquer x, y ∈ X com x 6= y temos x < y ou y < x;
(2) Para nenhum x ∈ X a relação x < x é válida;
(3) Para quaisquer x, y, z ∈ X , se x < y e y < z então x < z .
Espaço Topológico 46

Observe que se X não tem menor elemento, então não existem subconjuntos do

tipo (2) X não tem maior elemento não existem


e se subconjuntos do tipo (3). Em

particular, se X = R, então B = {(a, b), a, b ∈ R} é uma base para a topologia da

ordem τB , para R, conhecida como topologia padrão.

A partir de agora denotamos um espaço topológico (X, τ ) apenas por X, ou seja,

a topologia está subentendida sempre que possível.

Denição 3.6. Uma subbase S para uma topologia em um espaço topológico X é uma
coleção de subconjuntos de X cuja união é igual a X .
Lema 3.2. A coleção τ de todas as uniões de interseções nitas de elementos de uma
subbase S para um espaço topológico (X, τ ) é uma topologia. Esta topologia é denomi-
nada topologia gerada pela subbase S .
Demonstração. Pela observação 3.2, para mostrar que τ é uma topologia é suciente

mostrar que a coleção B de todas as interseções nitas de elementos de S é uma base

para τ. Observe que S ⊂ B.


Veriquemos as duas condições para ser base.

(a) Para todo x ∈ X, como X é a união de elementos de S, segue que x pertence a

algum elemento de S. Mas, S ⊂ B , assim temos que x pertence a algum elemento


de B.

(b) Suponha que x ∈ B1 ∩ B2 , com B1 , B2 ∈ B . Mostremos que existe B3 ∈ B tal que


x ∈ B3 ⊂ B1 ∩ B2 . De fato, de B1 , B2 ∈ B segue que B1 = S1 ∩ S2 ∩ . . . ∩ Sm , com
Si ∈ S e i = 1 . . . m e também B2 = Q1 ∩ Q2 ∩ . . . ∩ Qr , com Qj ∈ S e j = 1 . . . r.
Desta forma B1 ∩ B2 = S1 ∩ . . . ∩ Sm ∩ Q1 ∩ . . . ∩ Qr , ou seja, B1 ∩ B2 é uma
interseção nita de elementos de S , logo B1 ∩ B2 ∈ B . Deste modo, tomando

B3 = B1 ∩ B2 , segue o resutado.

Denição 3.7. Sejam X, Y espaços topológicos. A topologia produto sobre X × Y é a


topologia tendo como base a coleção B de todos os conjuntos da forma U × V , onde U
é um subconjunto aberto de X e V um subconjunto aberto de Y .
Denição 3.8. Dados X e Y , conjuntos quaisquer, as funções
π1 : X × Y −→ X π2 : X × Y −→ Y
.
(x, y) 7−→ x (x, y) 7−→ y

são denominadas projeções em X e Y , respectivamente.


Espaço Topológico 47

Lema 3.3. Sejam X, Y espaços topológicos. A coleção

S = {π1a (U ) | U é aberto em X} ∪ {π2a (V ) | V é aberto em Y },


é uma subbase para a topologia produto sobre X × Y .
Demonstração. Considere τ a topologia produto sobre X ×Y e τ0 a topologia gerada

por S. Mostremos que τ = τ 0.

(i) τ 0 ⊂ τ . De fato, observe que cada elemento A ∈ S é tal que A = π1a (U ), com
U aberto em X , ou A = π2a (V ), com V aberto em Y . Mas, π1a (U ) = U × Y e
π2a (V ) = X × V , ambos abertos em X × Y , ou seja, cada elemento de S pertence
a topologia τ . Consequentemente, uniões arbitrárias de interseções nitas de
0
elementos de S também, logo τ ⊂ τ .

(ii) τ ⊂ τ 0. Com efeito, todo elemento básico U ×V para a topologia τ se escreve

como

U × V = π1a (U ) ∩ π2a (V ),

ou seja, cada elemento U ×V é interseção nita de elementos de S. Consequente-


0 0
mente, U ×V ∈τ . Portanto, τ ⊂τ .

Por (i) e (ii) segue que τ = τ 0.

Denição 3.9. Se (X, τ ) é um espaço topológico e Y um subconjunto de X , então a


coleção
τY = {Y ∩ U | U ∈ τ }

é uma topologia em Y e com esta topologia, (Y, τY ) é chamado subespaço de X .


Proposição 3.1. Dado Y um subespaço de espaço topológico X , temos que um con-
junto A é um conjunto fechado em Y se, e somente se, este é igual a interseção de um
conjunto fechado de X com Y .
Demonstração. (=⇒) Suponha que A = C ∩ Y , onde C é um conjunto fechado em X.
Então, X −C é um conjunto aberto em X (X −C)∩Y é aberto em
e, consequentemente,

Y , pela denição de subespaço. Mas, como Y ⊂ X , (X −C)∩Y = Y −(C ∩Y ) = Y −A.


Logo, Y − A é um conjunto aberto em Y e portanto A é um conjunto fechado em Y .

Como vemos na gura 3.2.


Espaço Topológico 48

Figura 3.2: Conjuntos Y, A e C

(⇐=) Suponha que A seja um conjunto fechado em Y , então Y − A é um aberto


em Y . Logo, pela denição de abertos no subespaço Y , Y − A = U ∩ Y , para algum

subconjunto aberto U de X . Portanto, A = Y ∩ (X − U ) com X − U um subconjunto

fechado em X . Como na gura 3.3.

Figura 3.3: Conjuntos Y, A e U

Observação 3.3. Observamos que se Y é um subconjunto fechado em X e A é um

subconjunto fechado no subespaço Y, então A é fechado em X.

Denição 3.10. Se A é um subconjunto de um espaço topológico X , então


(a) A união de todos os conjuntos abertos contidos em A é denominada interior de
A e denotada por IntA;

(b) A interseção de todos os conjuntos fechados contendo A é chamada o fecho de A


e denotada por Ā.
Observação 3.4. Veja que da denição acima segue que IntA ⊂ A ⊂ Ā e ainda, A é

aberto quando A = IntA e fechado quando A = Ā.

Proposição 3.2. Se Y é um subespaço de X e A é um subconjunto de Y , então


Ȳ = Ā ∩ Y .
Espaço Topológico 49

Demonstração. Seja B o fecho de A em Y. Mostremos que B = Ā ∩ Y .

(i) B ⊂ Ā ∩ Y . Como Ā X , segue pela proposição 3.1 que Ā ∩ Y é um


é fecho em

subconjunto fechado em Y . Mas Ā ∩ Y contém A e temos por denição de B

que este é igual a interseção de todos os suconjuntos fechados de Y contendo A.

Consequentemente, B ⊂ Ā ∩ Y .

(ii) Ā ∩ Y ⊂ B . Sabemos que B é fechado em Y logo, pela proposição 3.1, segue que
B = C∩Y para algum conjunto fechado C em X . Então, C é um conjunto fechado
de X contendo A. Uma vez que Ā é a interseção de todos os subconjuntos fechados

de X contendo A, segue que Ā ⊂ C . Consequentemente, Ā ∩ Y ⊂ C ∩ Y = B .

Proposição 3.3. Se A é um subconjunto de um espaço topológico X . Então x ∈ Ā


se, e somente se, toda vizinhança U de x (onde U é um conjunto aberto contendo x)
intercepta A.
Demonstração. Devemos mostrar que x ∈ Ā se, e somente se, toda vizinhança Ux
intercepta A. Mas, pela contrapositiva desta bicondicional provar isto é o mesmo que

mostrar que x ∈
/ Ā se, e somente se, existe uma vizinhança Ux que não intercepta A.
De fato,

(=⇒) Se x∈
/ Ā, então U = X − Ā é uma vizinhança de x que não intercepta A.

(⇐=) Se existe uma vizinhança U de x que não intercepta A, então X − U é um


subconjunto fechado contendo A. Pela denição do fecho Ā, o conjunto X − U

necessariamente contém Ā, portanto x∈


/ Ā.

Denição 3.11. Sejam A um subconjunto de um espaço topológico X e x ∈ X . Dize-


mos que x é um ponto de acumulação de A se toda vizinhança de x intercepta A em
algum ponto diferente de x. Denotamos o conjunto formado por todos os pontos de
acumulação de A por A0 .
Observação 3.5. Segue da proposição 3.2 que, nas condições da denição acima, x é

um ponto de acumulação de A se este pertence ao fecho do conjunto A − {x}.

Proposição 3.4. Se A é um subconjunto de um espaço topológico X , então Ā = A∪A0 .


Demonstração. Mostremos que Ā = A ∪ A0 .

(i) A ∪ A0 ⊂ Ā. x ∈ A0 toda vizinhança de x intercepta A. Portanto, pela


Se
0 0
proposição 3.3 segue que x ∈ Ā, consequentemente A ⊂ Ā. Portanto, A∪A ⊂ Ā.
Espaço Topológico 50

(ii) Ā ⊂ A∪A0 . Seja x ∈ Ā qualquer. Mostremos que x ∈ A∪A0 . Se x ∈ A segue que


x ∈ A∪A0 . Suponha que x ∈ / A, logo como x ∈ Ā temos que dado uma vizinhança
U de x que intercepta A, como x ∈/ A este tal conjunto necessariamente intercepta
A em um ponto diferente de x, ou seja, x ∈ A0 . Portanto, x ∈ A ∪ A0 .

Denição 3.12. Dizemos que um espaço topológico X é um espaço de Hausdor se,


para quaisquer pontos distintos x1 e x2 de X , existirem vizinhanças U1 e U2 de x1 e
x2 , respectivamente, que são disjuntas (isto é, U1 ∩ U2 = ∅).

Proposição 3.5. Todo conjunto nito num espaço de Hausdor X é fechado.


Demonstração. Uma vez que a união nita de conjuntos fechados é um conjunto

fechado, para mostrar que um conjunto nito, num espaço de Hausdor, é fechado é

suciente mostrar que cada conjunto unitário {x0 } é fechado. Para tanto, mostraremos
que, num espaço de Hausdor, o fecho de {x0 } é {x0 }. Veja que, se x é um ponto de

X diferente de x0 , então x e x0 tem vizinhanças disjuntas U e V respectivamente, pois


X é um espaço de Hausdor. Como U não intercepta {x0 } o ponto x não pertence
ao fecho do conjunto {x0 }. Como resultado temos que o fecho do conjunto {x0 } é o

próprio {x0 }, logo este é fechado.

Proposição 3.6. São válidas as seguintes propriedades:


(i) Todo conjunto simplesmente ordenado é um espaço de Hausdor na topologia da
ordem.
(ii) O produto de dois espaços de Hausdor é um espaço de Hausdor.
(iii) Todo subespaço de um espaço de Hausdor é um espaço de Hausdor.
Demonstração. (i) • Seja X um conjunto simplesmente ordenado e nito, digamos

X = {x1 , x2 , . . . , xn }, com x1 < . . . < xn .

Dados quaisquer xi , xj , supondo xi < xj , i, j ∈


/ {1, n}, temos que as vizinhanças
Ii = (xi−1 , xi+1 ) e Ij = (xj−1 , xj+1 ) de xi e xj respectivamente, são tais que
Ii ∩ Ij = ∅.
Para os casos, em que xi ou xj são os extremos, basta considerar:

Ii = [x1 , x2 ) e Ij = (xj−1 , xj+1 ), quando xi = x1 e xj 6= xn .

Ii = (xi−1 , xi+1 ) e Ij = (xn−1 , xn ], quando xi 6= x1 e xj = xn .


Espaço Topológico 51

Ii = [x1 , x2 ) e Ij = (xn−1 , xn ], quando x i = x1 e xj = xn .

• Seja agora X um conjunto simplesmente ordenado e innito (discreto ou não).

Dados xi , xj ∈ X , comxi < xj , se ambos não forem nem o elemento mínimo,


nem o elemento máximo de X , basta considerarmos as seguintes vizinhanças Ii

e Ij de xi e xj , respectivamente:

Ii = (ai , c) e Ij = (c, bj ), com ai , c, bj ∈ X,

onde ai < xi < c < xj < bj .


Veja que ai , bj sempre existem já que xi e xj não são extremos de X . Agora,
pode ocorrer de não existir c, tal que xi < c < xj , neste caso basta considerar as
vizinhanças:

Ii = (ai , xj ) e Ij = (xi , bj ).

de xi e xj respectivamente. Se xi for o menor elemento de X e xj não for o maior

elemento de X, então denimos

Ii = [xi , c) e Ij = (c, bj ), com bj , c ∈ X,

onde xi < c < xj < bj . Caso não exista c tal que x i < c < xj (veja que a

existência de bj é garantida pelo fato de xj não ser o maior elemento de X ),


consideramos:

Ii = [xi , xj ) e Ij = (xi , bj ), onde xi < xj < bj .

Se xj for o maior elemento e xi não for o menor elemento de X, então denimos:

Ii = (ai , c) e Ij = (c, xj ], onde ai , c ∈ X,

com ai < xi < c < xj . Caso não exista c tal que xi < c < xj (veja que a
existência de ai é garantida pelo fato de que xi não é o menor elemento de X ),

consideramos:

Ii = (ai , xj ) e Ij = (xi , xj ] , com ai < xi < xj .

Se xi e xj são os elementos menor e maior de X respectivamente, consideramos

as vizinhanças:
Espaço Topológico 52

Ii = [xi , c) e Ij = (c, xj ], onde c ∈ X,

com xi < c < xj . Note que se não existisse c em X, este seria um conjunto com

apenas dois elementos.

(ii) O produto de dois espaços de Hausdor, X


Y , é um espaço de Hausdor. De
e

fato, sejam (x1 , y1 ), (x2 , y2 ) ∈ X × Y . Como x1 , x2 ∈ X e X é um espaço de

Hausdor, temos que existem vizinhanças disjuntas U1 e U2 de x1 e x2 , respec-

tivamente; também como y1 , y2 ∈ Y e Y é um espaço de Hausdor, temos que

existem vizinhanças disjuntas V1 e V2 de y1 e y2 , respectivamente.

Deste modo, segue que os conjuntos abertos U1 × V1 e U2 × V2 são vizinhanças


de (x1 , y1 ) e (x2 , y2 ), respectivamente, e ainda (U1 × V1 ) ∩ (U2 × V2 ) = ∅.

(iii) Suponha que Y seja um subespaço de um espaço de Hausdor X.


Sejam y1 , y2 ∈ Y ⊂ X , quaisquer. Como y1 , y2 ∈ X e X é um espaço de

Hausdor, segue que existem vizinhanças disjuntas de U1 e U2 ,em X , de y1 e y2 ,


respectivamente.

Desta maneira, as interseções V1 = U1 ∩ Y e V2 = U2 ∩ Y são ambas conjuntos

abertos de Y contendo y1 e y2 , respectivamente; e mais, são vizinhanças disjuntas,


uma vez que:

V1 ∩ V2 = (U1 ∩ Y ) ∩ (U2 ∩ Y ) = (U1 ∩ U2 ) ∩ Y = ∅.

Denição 3.13. Seja X um conjunto não vazio. Dizemos que a função d : X ×X → R


é uma métrica sobre X se, para quaisquer x, y, z ∈ X , as propriedades são válidas:
(a) d(x, y) ≥ 0 e d(x, y) = 0 ⇔ x = y;
(b) d(x, y) = d(y, x);
(c) d(x, z) ≤ d(x, y) + d(y, z).
Neste caso, o par (X, d) é denominado um espaço métrico. Ainda, o número real
não negativo d(x, y) é chamado de distância entre os pontos x e y.
Denição 3.14. Sejam (X, d) um espaço métrico e ε > 0. O conjunto

Bd (x, ε) = {y ∈ X / d(y, x) < ε},


é chamado ε-bola segundo a métrica d.
Espaço Topológico 53

Lema 3.4. Em um espaço métrico (X, d) o conjunto formado por todas as ε-bolas
forma uma base para uma topologia τ em X .
Esta topologia τ é chamada topologia métrica induzida por d.
Demonstração. Dado (X, d) um espaço métrico, mostraremos que a coleção

B = {Bd (x, ε), ε > 0},


forma uma base para a topologia τ em X. Para tanto, precisamos mostrar que:

• Para todo x ∈ X , existe B ∈ B tal que x ∈ B ;


• Se x ∈ B1 ∩ B2 , com B1 , B2 ∈ B , então existe B3 tal que x ∈ B3 ⊂ B1 ∩ B2 .
Observe que a primeira condição segue do fato de que para todo ε > 0 a ε-bola,
Bd (x, ε), contém x e Bd (x, ε) ∈ B . Logo, basta tomar B = Bd (x, ε), ∀ ε > 0.
Agora, para provar a segunda condição, suponha que x ∈ B1 ∩ B2 , com B1 , B2 ∈ B .

Como B1 , B2 ∈ B , segue que:

B1 = Bd (y1 , ε1 ) e B2 = Bd (y2 , ε2 ), para alguns y1 , y2 ∈ X, ε1 , ε2 > 0.


Observe que existem δ1 , δ2 > 0 tais que

Bd (x, δ1 ) ⊂ Bd (y1 , ε1 ) e Bd (x, δ2 ) ⊂ Bd (y2 , ε2 ),


a saber, tome δi = εi − d(yi , x), pois, desta maneira:

z ∈ Bd (x, δi ) ⇒ d(x, z) < δi = εi − d(yi , x),


isto é,

d(x, z) < εi − d(yi , x) ⇒ d(yi , x) + d(x, z) < εi .


Logo, pela desigualdade triangular segue:

d(yi , z) ≤ d(yi , x) + d(x, z) < εi ⇒ z ∈ Bd (yi , εi ).


Portanto, Bd (x, δi ) ⊂ Bd (yi , εi ).
Agora, se tomarmos δ como mínimo entre δ1 e δ2 , segue que:

Bd (x, δ) ⊂ Bd (x, δ1 ) ⊂ Bd (y1 , ε1 ) = B1 .


e

Bd (x, δ) ⊂ Bd (x, δ2 ) ⊂ Bd (y2 , ε2 ) = B2 .


Ou seja, B3 := Bd (x, δ) é tal que x ∈ B3 ⊂ B1 ∩ B2 .

Observação 3.6. Do lema anterior segue, em particular, que toda ε-bola é um conjunto
aberto para X.
Espaço Topológico 54

Exemplo 3.5. R por | | onde, dado x ∈ R, o módulo de x,


Denotamos o módulo em

|x|, é denido da seguinte maneira: se x ≥ 0, então |x| = x, e se x < 0 então |x| = −x.
Seja agora || || : E → R uma função norma no espaço E , a saber, a função que cumpre,

para quaisquer x, y ∈ E e λ ∈ R, as seguintes propriedades:

(a) ||x|| = 0 se, e somente se, x = 0;

(b) ||λx|| = |λ| ||x||;

(c) ||x + y|| ≤ ||x|| + ||y||.

Um espaço E munido de uma norma é denominado um espaço normado.

A função dE : E × E → R dE (x, y) := ||x − y|| é uma métrica para


denida por

E , chamada de métrica induzida pela norma || ||. Com efeito, as condições (a) e (c)
para métrica seguem de modo natural pelos itens (a) e (c) da denição de norma. A

condição (b) para métrica também é satisfeita, pois, pelo item (b) acima,

(b)
dE (x, y) = ||x − y|| = ||(−1)(y − x)|| = | − 1| ||y − x|| = ||y − x|| = dE (y, x).
q
Exemplo 3.6. (Rn , || ||), onde || || é tal que ||x|| = x21 + . . . + xnn , é um espaço
normado.

Exemplo 3.7. Seja C∗ o conjunto dos números complexos não nulos. A aplicação,

| |C : C → R ,
p
z = x + yi 7→ |z|C = x2 + y 2

é uma norma para C .

De fato, para qualquer z = x + yi ∈ C ,

p
|z|C = 0 ⇔ x2 + y 2 = 0 ⇔ x2 + y 2 = 0 ⇔ x = 0 = y.
Também, para quaisquer z = x + yi ∈ C e λ ∈ R, temos:
p p p
|λz|C = |λx + λyi| = (λx)2 + (λy)2 = λ2 (x2 + y 2 ) = |λ| x2 + y 2 = |λ||z|C .
E, nalmente, para quaisquer z1 = x1 + y1 i, z2 = x2 + y2 i ∈ C, temos:

|z1 + z2 |C ≤ |z1 |C + |z2 |C .


Com efeito,

|z1 + z2 |2C = |(x1 + y1 i) + (x2 + y2 i)|2C = |(x1 + x2 ) + (y1 + y2 )i|2C =


(x1 + x2 )2 + (y1 + y2 )2 = (x1 + x2 + y1 i + y2 i)(x1 + x2 − y1 i − y2 i) =
((x1 + y1 i) + (x2 + y2 i))((x1 − y1 i) + (x2 − y2 i)) =
(x1 + y1 i)(x1 − y1 i) + (x2 + y2 i)(x2 − y2 i) + (x1 + y1 i)(x2 − y2 i) + (x2 + y2 i)(x1 − y1 i) =
(x21 + y12 ) + (x22 + y22 ) + x1 x2 − x1 y2 i + y1 x2 i + y1 y2 + x2 x1 + y2 x1 i − x2 y1 i + y1 y2 =
(∗)
|z1 |2C + |z2 |2C + 2(x1 x2 + y1 y2 ) ≤ |z1 |2C + |z2 |2C + 2|x1 x2 + y1 y2 | ≤
Espaço Topológico 55

|z1 |2C + |z2 |2C + 2|(x1 + y1 i)(x2 − y2 i)|C = |z1 |2C + |z2 |2C + 2|x1 + y1 i|C |x2 + y2 i|C =
|z1 |2C + |z2 |2C + 2|z1 ||z2 | = (|z1 |C + |z2 |C )2 .
p
∗|x| ≤ x2 + q , onde q é um número real positivo.
Na passagem (*) usamos o fato de que, se |z1 + z2 |2C ≤ (|z1 |C + |z2 |C )2 então |z1 +
z2 |C ≤ |z1 | + |z2 |.
Portanto, (C, | |C ) é um espaço normado e, consequentemente, um espaço topológico.

Exemplo 3.8. O par (GL(n), || ||) é um espaço normado onde a norma || || é dada

por:

|| || : GL(n) → R
n
X .
A = (aij ) 7→ ||A|| = max |aij |
1≤i≤n
j=1

Note que as propriedades de norma são satisfeitas: primeiramente, ||A|| = 0 se,


Xn
e somente se, max |aij | = 0. Mas esta última igualdade ocorre se, e somente se,
1≤i≤n
j=1
|aij | = 0, aij = 0. Logo, ||A|| = 0 se, e somente se, A é uma matriz
ou seja, nula.

Agora, ||A + B|| ≤ ||A|| + ||B|| é uma consequência da desigualdade triangular

do módulo de números reais e de propriedades de Máximo e Somatória. Enquanto

||λA|| = |λ|||A||, para qualquer λ ∈ R, uma vez que |λ aij | = |λ||aij |.

Exemplo 3.9. Se (E, || ||) e (E 0 , || ||0 ) são espaços normados então E × E0 também o
0
é, para isto basta denir a seguinte norma para E×E :

||(x, b)||E×E 0 := ||x||E + ||b||E 0 , ∀ (x, b) ∈ E × E 0 .


E consequentemente, é possível denir uma métrica para E × E 0, induzida por esta

norma.

Denição 3.15. Seja (X, τ ) um espaço topológico, então dizemos que X é metrizável
se existe uma métrica d em X que induz a topologia τ em X .
Exemplo 3.10. Se X é um conjunto qualquer e τ0
(X, τ0 ) a topologia discreta, então

é um espaço metrizável. Basta considerarmos a métrica tal qual d(x, y) = 1 para x, y

quaisquer tais que x 6= y e d(x, y) = 0 para x = y . O elemento básico B(x, 1), por

exemplo, consiste somente do ponto x. Por exemplo, X = Z é um espaço topológico

metrizável.

Lema 3.5. A topologia padrão para R é induzida pela métrica d : R × R → R denida


por:
(x, y) 7−→ d(x, y) := |x − y|.
Espaço Topológico 56

Demonstração. Primeiramente note que d de fato é uma métrica para R, com efeito:

• d(x, y) = |x − y| ≥ 0, ainda d(x, y) = |x − y| = 0 se, e somente se, x = y . Pois, se


x = y obviamente |x − y| = 0, por outro lado, se 0 = d(x, y) = |x − y| então (x − y) = 0
(se x − y > 0) ou −(x − y) = 0 (se x − y < 0), em ambos os casos segue que x = y .

• d(x, y) = |x − y| = |y − x| = d(y, x);


• d(x, y) + d(y, z) = |x − y| + |y − z| = |x − y + y − z| = |x − z| = d(x, z).
A topologia padrão é induzida por esta métrica, pois basta observar que cada ele-

mento básico (a, b) para a topologia da ordem é também um elemento básico para a

topologia métrica induzida por d da seguinte forma:


 
a+b b−a
(a, b) = B , ,
2 2

pois(a, b) = {x ∈ R | a < x < b} e


     
a+b b−a (a + b) b−a
B = x ∈ R | d x, < = x∈R | x− < =
2 2 2 2
 
−(b − a) (a + b) b−a
x∈R| <x− < =
2 2 2
 
−(b − a) a + b b−a a+b
x∈R| + <x< + =
2 2 2 2
 
−b + a + a + b b−a+a+b
x∈R| <x< = {x ∈ R | a < x < b}.
2 2

b−a
Observe que > 0 uma vez que a b e, reciprocamente, cada
é menor que
2
elemento básico para a topologia métrica induzida por d, B(x, ε), é um elemento básico

para a topologia da ordem. Uma vez que

B(x, ε) = {y ∈ R| |y − x| < ε} = {y ∈ R| − ε < y − x < ε} =


{y ∈ R| x − ε < y < x + ε} = (x − ε, x + ε).

Denição 3.16. Um subconjunto A de um espaço métrico M é um conjunto aberto


quando todo ponto de A é centro de uma bola aberta inteiramente contida em A.
Proposição 3.7. Uma bola aberta B(a; r) em um espaço métrico é um conjunto aberto.
Demonstração. Para mostrarmos que B(a; r) é um conjunto aberto, basta mostrarmos
que contém uma bola centrada em x.
Se x ∈ B(a; r) então d(a, x) < r. Assim, sendo s = r − d(a, x) um número positivo,
teremos B(x, s) ⊂ B(a; r).

De fato, seja y ∈ B(x; s) então d(x, y) < s. Queremos d(a, y) < r , mas isto ocorre,

pois
Aplicações Contínuas 57

d(a, y) ≤ d(a, x) + d(x, y) ≤ d(a, x) + s = r.


E, portanto, y ∈ B(a; r).

3.2 Aplicações Contínuas

Denição 3.17. Sejam X, Y espaços topológicos e f : X → Y uma função.


(a) Dizemos que f é contínua em um ponto x ∈ X quando para cada aberto V de Y
contendo f (x) existe aberto U de X contendo x tal que f (U ) ⊂ V .
(b) Dizemos que f é contínua se para todo aberto V de Y o conjunto f a (V ) é um
subconjunto aberto de X .
(c) Dizemos que f é aberta se para todo aberto U de X o conjunto f (U ) é um
subconjunto aberto de Y .
Denição 3.18. Sejam X, Y espaços topológicos e f : X → Y uma bijeção. Dizemos
que f é um homeomorsmo quando f e sua inversa f −1 são funções contínuas.
Exemplo 3.11. A função F : R → R dada por F (x) = kx, k ∈ R∗ , é um homeo-
−1
morsmo. De fato, para qualquer y ∈ R a função F (y) = k −1 y é a função inversa
−1
de f , pois F ◦ F (y) = F (F −1 (y)) = F (k −1 y) = kk −1 y = y e ainda F −1 ◦ F (x) =
F −1 (F (x)) = F −1 (kx) = k −1 kx = x. Como F possui inversa segue que F é uma
−1
bijeção. Ainda, F e F são contínuas, pelo exemplo 3.14. Logo, como F é bijeção tal
−1
que F e F são contínuas, segue que F é um homeomorsmo.

Exemplo 3.12. A aplicação f : [0, 2π) → S 1 , f (t) = (cos t, sen t), é uma
denida por
−1
bijeção contínua, mas não é um homeomorsmo. Sua inversa f : S 1 → [0, 2π) é
−1 1
descontínua. Mais precisamente, f é descontínua no ponto a = (1, 0) = f (0) ∈ S .

Com efeito, todo aberto em [0, 2π) contendo 0 é da forma [0, b), com b ∈ (0, 2π) e
−1 a
temos que (f ) ([0, b)) não é um conjunto aberto em S 1 . Pois, todos os subconjuntos
1 a
abertos B de S são tais que f (B) é da forma (c, 2π), com c ∈ (0, 2π), isto é c 6= 0.

Proposição 3.8. A seguir apresentamos propriedades importantes envolvendo con-


tinuidade entre espaços topológicos.
Sejam X , Y e Z espaços topológicos. São válidas as armações:

(I) Função inclusão e constante são contínuas. Ou seja,


(i) Se A é um subespaço de X , então a função inclusão,
Aplicações Contínuas 58

j:A→X

a 7→ a,

é contínua. Em particular, a função identidade id : X → X , id (a) = a, é


continua.
(ii) Se f : X → Y tal que f (x) = y0 , para todo x em X , então a função f é
contínua.
(II) Composição de funções contínuas é uma função contínua. A saber,
Se f : X → Y e g : Y → Z são contínuas então g ◦ f é contínua.
(III) Se f : X → Y é uma função contínua e A é um subespaço de X , então a restrição
f |A : A → Y é uma função contínua.

Demonstração. (I) (i) Seja V um subconjunto aberto de X, devemos mostrar


a
que j (U ) é um subconjunto aberto em A. Observe que, pela denição da função
a
j , j (U ) = U ∩ A e este conjunto, pela topologia do subespaço de A, é um

conjunto aberto em A.

(ii) Seja V um subconjunto aberto de Y. f a (V ) é um


Queremos mostrar que
a
subconjunto aberto de X . Para isto, observe que se y0 ∈ V , então f (V ) = X

e, portanto, um conjunto aberto em X ; caso contrário, isto é, se y0 ∈


/ V , então
a a
f (V ) = ∅ que também é um conjunto aberto em X . Portanto f (V ) um conjunto
aberto em X .

(II) Seja W um subconjunto aberto de Z. Queremos mostrar que (g ◦ f )a (W ) é um

conjunto aberto em X.
Primeiramente, observe que, como g é uma função contínua e W é um sub-
a
conjunto aberto de Z , temos que g (W ) é um suconjunto aberto em Y . Por
a
outro lado, como f também é uma função contínua e g (W ) é um subcon-
a a
junto aberto em Y , segue que f (g (W )) é um subconjunto aberto de X . Mas,

f a (g a (W )) = (g ◦ f )a (W ), consequentemente (g ◦ f )a (W ) é um conjunto aberto


em X .

(III) Este resultado segue do item anterior. Basta observar que a restrição de f para

o subespaço A, f |A , nada mais é do que a composição da função f com a função


inclusão j de A em X , ou seja, f |A = f ◦j com ambas funções contínuas. Portanto,

a função f |A é contínua.
Aplicações Contínuas 59

Proposição 3.9. Se f : A → X1 × X2 é tal que f (a) = (f1 (a), f2 (a)), sendo que
fi : A 7→ Xi , i = 1, 2, então, f é contínua se, e somente se, as funções coordenadas f1
e f2 são contínuas.
Demonstração. Primeiramente consideramos as seguintes composições:

(=⇒)
f 1 π
A −→ X ×Y −→ X
,
7−→ (f1 (a), f2 (a)) 7−→ f1 (a)
e

f 2 π
A −→ X ×Y −→ Y
,
7−→ (f1 (a), f2 (a)) 7−→ f2 (a)

onde π1 é a projeção natural de X ×Y em X e π2 é a projeção natural de X ×Y


em Y.
Temos, por hipótese, que f é contínua e observe que podemos escrever as funções

coordenadas como as seguintes composições:

f1 = π 1 ◦ f e f2 = π2 ◦ f.

Observe ainda que π1 e π2 , X × Y , são funções contínuas. De fato,


projeções de
a
se U é um subconjunto aberto de X , então π1 (U ) = U × Y é um subconjunto

aberto de X × Y . Analogamente, se V é um subconjunto aberto de Y temos

π2a (V ) = X × V como subconjunto aberto de X × Y . Portanto, segue do item II


da proposição 3.8, que f1 e f2 são funções contínuas.

(⇐=) Considere um elemento básico U ×V em X ×Y, com U um subconjunto aberto

de X e V um subconjunto aberto de Y. Veja que,

f a (U × V ) = f1a (U ) ∩ f2a (V ) é um subconjunto aberto de A, (∗)

pois

a ∈ f a (U × V ) ⇔ f (a) ∈ U × V ⇔ f1 (a) ∈ U e f2 (a) ∈ V ⇔ a ∈ f1a (U ),

a ∈ f2a (V ) ⇔ a ∈ f1a (U ) ∩ f2a (V ).

Por outro lado, como U é um subconjunto aberto de X e f1 é uma função con-


a
tínua, segue que f1 (U ) é um subconjunto aberto de A e também, como V é um
Aplicações Contínuas 60

subconjunto aberto de Y e f2 é uma função contínua, segue que f2a (U ) é um


a
subconjunto aberto em A. f (U × V ) =
Logo, f1a (U ) ∩ f2a (V ) é um subconjunto

aberto em A e, consequentemente, f é uma função contínua.

Corolário 3.1. Se f : A → X1 ×X2 ×. . .×Xn é tal que f (a) = (f1 (a), f2 (a), . . . , fn (a)),
onde fi : A → Xi , i = 1, . . . , n, então, f é contínua se, e somente se, as funções
coordenadas f1 , f2 , . . . , fn são contínuas.
Demonstração. Segue da proposição anterior utilizando o Princípio de Indução Finita.

Observação 3.7. Veja que para espaços topológicos metrizáveis X e Y , via métricas d
0
e d respectivamente, podemos escrever a denição de continuidade da seguinte maneira:

Sejam X e Y f : X −→ Y uma função. Dizemos que


espaços topológicos metrizáveis e

f é contínua em x0 ∈ X , quando para toda ε-bola, ε > 0 arbitrário, existe δ > 0 tal
que f (Bd (x0 , δ)) ⊂ Bd0 (f (x0 ), ε). Em outras palavras, f é contínua em x0 ∈ X quando

para todo ε > 0 existe δ > 0 tais que

d(y, x0 ) < δ ⇒ d(f (y), f (x0 )) < ε.

Em particular, para (R, | |) temos que uma função f : R → R é contínua em x0 ∈ R


se, e somente se,

∀ ε > 0, ∃ δ > 0 | |y − x0 | < δ ⇒ |f (y) − f (x0 )| < ε.


E para (Rn , || ||) uma função f : Rn 7→ R é contínua em x 0 ∈ Rn se, e somente se

∀ ε > 0, ∃ δ > 0 | ||y − x0 || < δ ⇒ |f (y) − f (x0 )| < ε.

Lema 3.6. Sejam M, N espaços topológicos metrizáveis. Se M é discreto, ou seja,


todo ponto a ∈ M é ponto isolado, então, a função f : M → N é contínua no ponto a.
Demonstração. Aqui usamos a versão de continuidade para espaços topológicos metriza-

veis, conforme observação 3.7. Mostremos que f é contínua: dado ε > 0, basta tomar

δ>0 tal que B(a, δ) = {a}. Desta maneira,

d(x, a) < δ ⇒ x = a ⇒ d(f (x), f (a)) = 0 < ε.

Proposição 3.10. Seja f : M → N uma função entre espaços topológicos metrizáveis


M e N.
Aplicações Contínuas 61

(i) Se existir uma constante c > 0 tal que, dN (f (x), f (y)) ≤ c dM (x, y), ∀ x, y ∈ M ,
então f é contínua. Uma função f com esta propriedade é chamada lipschitziana
e a constante c é chamada de constante de Lipschitz.
(ii) Se dN (f (x), f (y)) ≤ dM (x, y), ∀x, y ∈ M , então f é contínua. Uma função f
com esta propriedade é denominada uma contração fraca.
(iii) Se cada ponto a ∈ M é centro de uma bola aberta B = B(a, r), r > 0 tal que
f |B é lipschitziana, então f é contínua. Dizemos que uma função f com esta
propriedade é localmente lipschitziana
ε ε
Demonstração. (i) Para qualquer ε > 0, se tomamos δ = , a condição dM (x, y) <
c c
implica em

ε
dN (f (x), f (y)) ≤ c dM (x, y) < c δ = c =ε
c

∴ ∀ ε > 0, ∃ δ > 0| dM (x, y) < δ ⇒ dN (f (x), f (y)) < ε

Portanto, f é contínua.

(ii) De fato, sejam a∈M e ε > 0, quaisquer. Basta tomar δ=ε para obter:

dM (x, a) < δ ⇒ dN (f (x), f (a)) ≤ dM (x, a) < ε.

Observe que (ii) também pode ser vista como um caso particular de (i), con-

siderando c = 1.

a ∈ M , qualquer. Por hipótese, existe r > 0


(iii) Seja tal que f |B é lipschitziana,

onde B = B(a, r), isto é, existe c > 0 tal que:

dN (f (x), f (y)) ≤ c d(x, y), ∀ x, y ∈ B.

Em particular, para x = a, temos:

dN (f (a), f (y)) ≤ c d(a, y), ∀ y ∈ B (∗).


n ε ro
Agora, para qualquer ε > 0 dena δ = min , . Veja que, se d(a, y) < δ ,
2c 2
r
então d(a, y) < < r, isto é, y ∈ B . Logo, por (∗) segue que:
2
(∗) ε ε
dN (f (a), f (y)) ≤ c d(a, y) < c δ ≤ c = < ε.
2c 2
Portanto,
Aplicações Contínuas 62

∀ ε > 0, ∃ δ > 0| dM (x, y) < δ ⇒ dN (f (x), f (y)) < ε.


isto é, f é contínua em a, para qualquer a ∈ M. Ou seja, f é contínua.

Observação 3.8. Se M e N são espaços normados com normas || ||M e || ||N , respec-

tivamente, e considerando as métricas induzidas por estas normas, então a funçao f é

lipschitziana se, e somente se,

||f (x) − f (y)||N ≤ c||x − y||M .


1
Exemplo 3.13. Considere R∗ = R − {0}. A função r : R∗ → R denida por r(x) =
x
é contínua em R − {0}.
De fato, primeiro observe que, para cada k > 0, r é lipschitziana no conjunto:

Xk = {x ∈ R | |x| ≥ k}.
Pois, dados x, y de modo que |x| ≥ k e |y| ≥ k , e considerando R com a métrica

induzida por || temos:

1 1 |x − y| |x − y| 1
|r(x) − r(y)| = − = = ≤ c|x − y|, onde c = 2 .
x y |x y| |x||y| k
Veja ainda que todo ponto a pertencente a R∗ também pertence a algum conjunto
3
Xk , pois como R é arquimediano e |a| > 0, existe k > 0 tal que|a| ≥ k . Note
também que, sempre existe um intervalo de centro a, digamos Ia = (a − la , a + la ),
la ∈ R∗+ , contido em Xk . Assim, como a função r é lipschitziana em Xk , segue que r

é lipschitziana em Ia . Ou seja, r:R →R é localmente lipschitziana (pois, para todo

a∈R , existe Ia tal que r |Ia é lipschitziana) logo, pelo item (iii) da proposição 3.10,

segue que r é contínua.

Proposição 3.11. Se (E, || ||) é um espaço normado, então as seguintes funções são
contínuas:

(i) s : E × E → E .
(x, y) 7→ s(x, y) := x + y

(ii) m : R × E → E .
(λ, x) 7→ m(λ, x) := λ x
Demonstração. (i) Primeiro observe que a função dada por

||(x, y)||E×E 0 := ||x||E + ||y||E ,


3
Para mais informações consulte as páginas 59 e 60, [7].
Aplicações Contínuas 63

é uma norma para E × E, onde || ||E


E , consequentemente E × E
é a norma de

é um espaço normado. Agora, veja que s : E × E → E é uma contração fraca

(utilizando a métrica d induzida pela norma de E × E ), isto é,

||s(x, y) − s(x0 , y 0 )||E ≤ ||(x, y) − (x0 , y 0 )||E×E 0 .

Pois,

||s(x, y) − s(x0 , y 0 )||E = ||(x + y) − (x0 + y 0 )||E =


||(x − x0 ) + (y − y 0 )||E ≤ ||x − x0 ||E + ||y − y 0 ||E := ||(x − x0 , y − y 0 )||E×E 0 =
||(x, y) − (x0 , y 0 )||.
Portanto, ||s(x, y) − s(x0 , y 0 )||E ||(x, y) − (x0 , y 0 )||E×E 0 .
Logo, como s é uma contração fraca, segue da proposição 3.10, que s é contínua.

(ii) Observemos que é possível mostrar que, se uma função é contínua em uma parte

limitada do seu domínio, então esta é contínua para todo o domínio. Então para

mostrarmos que m é uma função contínua, basta mostrarmos que m é contínua

para cada parte limitada do domínio R × E. Mas para isto é suciente mostrar

que m é uma função lipschitziana em cada parte limitada de R × E . Façamos


isto. Suponha que (λ, x) e(µ, y) pertencem a uma parte limitada de R × E , logo

podemos dizer que existe a > 0 tal que

| λ| ≤ a, | µ| ≤ a, || x||E ≤ a e ||y||E ≤ x.

Com isto, segue:

||m(λ, x) − m(µ, y)||E = ||λx − µy||E = ||λx − µx + µx − µy||E =


||(λ − µ)x + µ(x − y)||E ≤ ||(λ − µ)x + µ(x − y)||E ≤
||(λ)x||E + ||µ(x − y)||E ≤ | λ − µ| ||x||E + | µ| ||x − y||E ≤
|λ − µ| a + a ||x − y||E = a(|λ − µ| + ||x − y||E ) =
a(|λ − µ| + ||x − y||E ) = a ||(λ − µ, x − y)||R×E =
a ||(λ, x) − (µ, y)||R×E .
Portanto, tomando c := a, segue que

||m(λ, x) − m(µ, y)||E ≤ c ||(λ, x) − (µ, y)||R×E .

Logo, m é contínua pela proposição 3.10.


Aplicações Contínuas 64

Proposição 3.12. Sejam (M, dM ) um espaço métrico, (E, || ||E ) um espaço vetorial
normado. Se as funções f, g : M → E e α, β : M → R, β 6= 0 são funções contínuas,
α
então são contínuas as aplicações f + g : M → E , αf : M → E e : M → R,
β
denidas por:

(i)

f +g : M → E .
x 7→ (f + g)(x) := f (x) + g(x)

(ii)

αf: M → E .
x 7→ (α f )(x) := α(x) f (x)

(iii)
α
: M → R
β   .
α α(x)
x 7→ (x) :=
β β(x)

Demonstração. (i) Considere a função h denida por

h: M → E×E
.
x 7→ (f (x), g(x))

Pela proposição 3.9 esta função é contínua, já que f e g o são.

Agora, pelo item (i) da proposição 3.11, a função

s: E×E → E
(a, b) 7→ a + b

é contínua.

Observe que f + g = s ◦ h, ou seja,


h s
f + g : M −→ E×E −→ E
.
x 7−→ (f (x), g(x)) 7−→ f (x) + g(x) = (f + g)(x)
Como provado na proposição 3.8 composição de funções contínuas é uma função

contínua, logo temos f +g uma função contínua.


Aplicações Contínuas 65

(ii) Considere a função n denida por

n: M → R×E
.
x 7→ (α(x), f (x))
Veja que a função n é contínua, pela proposição 3.9, pois α e f o são.

Agora, pelo item (ii) da proposição 3.11, a função

m: R×E → E
(λ, y) 7→ λy
também é contínua.

Note ainda que αf = m ◦ n, isto é,


n m
αf : M −→ R×E −→ E
.
x 7−→ (α(x), f (x)) 7−→ α(x)f (x) = αf (x)
Logo, αf é uma composição de funções contínuas e, pela proposição 3.8, contínua.

(iii) Considere p a seguinte função

p: M → R × R∗
.
x 7→ (α(x), β(x))
Temos que a função p é contínua, pois suas funções coordenadas o são. Além

disso, pelo exemplo 3.13 a função r

r : R∗ → R
1
x 7→ r(x) =
x
é contínua, e pelo item (i) da proposição 3.8 a função identidade id : R → R,
id (a) = a, também é contínua.

Consequentemente a função t denida por

t : R × R∗ → R×R  
1
(y, z) 7→ (id (y), r(z)) = y,
z
também é contínua, pela proposição 3.9.
α α
Observe que é a composição = m ◦ t ◦ p, já que,
β β
α p t m
: M −→ R × R∗ −→ R×R −→ R
β 
1

α(x) α .
x 7−→ (α(x), β(x)) 7−→ α(x), 7→ = (x)
β(x) β(x) β
α
Logo, é uma composição de funções contínuas e, portanto, pela proposição 3.8,
β
contínua.
Espaço Quociente 66

Exemplo 3.14. (ii) do resultado anterior, segue que a função F : R → R


Pelo item

denida por F (x) = kx, k ∈ R , é uma função contínua.

Já que, considerando α : R → R como a função constante α(x) = k e I : R → R a

aplicação identidade, temos F (x) = kx = α(x)I(x).

3.3 Espaço Quociente

Denição 3.19. Sejam X e Y espaços topológicos e p : X → Y uma função sobreje-


tora. Dizemos que p é uma aplicação quociente se p satisfaz a seguinte propriedade:

U é um subcojunto aberto de Y ⇐⇒ pa (U ) é um subconjunto aberto de X.

Observação 3.9. Das denições 3.17 e 3.19 vemos que toda função sobrejetora, aberta
(ou fechada) e contínua, entre espaços topológicos, é uma aplicação quociente. Ressalta-

mos porém que nem toda aplicação quociente é aberta (por exemplo, a aplicação quo-

ciente do exercício 3, p.145, [5]).

Denição 3.20. Sejam X um espaço topológico, A um conjunto e p : X → A uma


função sobrejetora. Então, existe uma única topologia τ em A sob a qual p é uma
aplicação quociente, a saber:

τ = {U ⊂ A | pa (U ) é um subconjunto aberto de X}.


Esta topologia é denominada topologia quociente induzida por p.
Observação 3.10. Note que, de fato, a coleção τ da denição anterior é uma topologia:

(a) ∅ e A pertencem a τ, pois:

pa (∅) = ∅ e pa (A) = X,

com ambos abertos de X (já que a função p é sobrejetora).

[
(b) Dada uma família {Uα }α∈J de abertos de A, temos que Uα pertence a τ, já
α∈J
que

[ [
pa ( Uα ) = pa (Uα ),
α∈J α∈J

é um aberto em X.
Espaço Quociente 67

n
\
(c) Dado um conjunto nito de abertos de A, {U1 , . . . , Un }, temos que Ui pertence
i=1
a τ uma vez que:

n
\ n
\
a
p ( Ui ) = pa (Ui ),
i=1 i=1

é um conjunto aberto em X.

Denição 3.21. Seja X um espaço topológico e X ∗ uma partição de X . Considere


também p : X → X ∗ uma função sobrejetora que aplica cada elemento x ∈ X ao
elemento de X ∗ que o contém. Com a topologia quociente induzida por p, dizemos que
X ∗ é um espaço quociente de X .

Observação 3.11. A função p apresentada em 3.21 está bem denida uma vez que,

sendo X uma partição para X, existe um único elemento de X∗ que contém aquele

elemento x.

Exemplo 3.15. X um quadrado dado por [0, 1] × [0, 1]. Denimos a partição
Seja

X ∗ = {X1 , X2 , X3 , X4 } de X , onde X1 = {(x, y) : 0 < x < 1 e 0 < y < 1},


X2 = {(x, 0), (x, 1) : 0 < x < 1}, X3 = {(0, y), (1, y) : 0 < y < 1} e X4 =
{(0, 0), (1, 0), (0, 1), (1, 1)}. Os respectivos conjuntos abertos em X são denotados pelas
regiões sombreadas na gura que segue. Veja que a imagem de cada um desses con-

juntos sob p é um conjunto aberto de X ∗, como indicado na gura. Esta descrição de



X descreve o toro via a identicação das arestas de X pela aplicação p.

Figura 3.4: Esquema do Toro


Espaço Quociente 68

Observação 3.12. Dados X espaço topológico e ∼ uma relação de equivalência


4
X
sobre X, é possível de se mostrar que o conjunto quociente := {[x] : x ∈ X}, onde

[x] := {y ∈ X : x ∼ y} é uma classe de equivalência, forma uma partição para X
(para mais detalhes, consulte [2], página 26.). E ainda, observe que a aplicação natural
X
p:X → denida por p(x) = [x] é uma aplicação sobrejetora. Portanto, podemos

X
munir o conjunto com a topologia quociente induzida por p via X.

Por exemplo, a relação de equivalência sobre Rn+1 \ {0} dada por: v ∼ w se, e
Rn+1 \ {0}
somente se, existe λ ∈ R \ {0} tal que v = λw dene o espaço quociente ,
n

chamado espaço projetivo n-dimensional e denotado por P .

No contexto acima, enunciamos o seguinte resultado:

Proposição 3.13. Sejam X e Y espaços topológicos, f : X → Y uma função contínua


X
e ∼ uma relação de equivalência em X. Então existe uma função contínua g : → Y

satisfazendo f = g ◦ p se, e somente se, x ∼ y implica f (x) = f (y).
Demonstração. Note que da existência de g temos que x ∼ y implica [x] = [y], e

consequentemente, temos:

f (x) = g(p(x)) = g([x]) = g([y]) = g(p(y)) = f (y).


Ou seja, x∼y implica f (x) = f (y).
X
Por um outro lado, se x∼y implica f (x) = f (y), g : → Y dada
a aplicação

por g([x]) = f (x) está bem denida. Note ainda que, da denição de g segue, de modo

natural, que se x ∈ X então (g ◦ p)(x) = g([x]) = f (x). Logo, g é tal que f = g ◦ p.


a
Também, g é contínua, pois se A é aberto em Y então f (A) é aberto em X , pois
X
f é contínua. Mas pela denição da topologia quociente, g a (A) é aberto em se, e

a a a a
somente se, p (g (A)) = f (A) é aberto em X . Portanto, g (A) é aberto e segue a

continuidade de g .

A proposição acima é particularmente útil para reconhecer espaços quocientes home-

omorfos a espaços topológicos familiares, como veremos nos próximos exemplos.

Exemplo 3.16. Dena a seguinte relação de equivalência sobre R: dois números reais

x e y são equivalentes quando estes diferem-se por um número inteiro, isto é, x∼y
4
Uma relação de equivalência é uma relação binária de X que cumpre as seguintes propriedades:

1. (Reexiva) ∀x ∈ X , x ∼ x;
2. (Simétrica) ∀x, y ∈ X , se x ∼ y , então y ∼ x ;
3. (Transitiva) ∀x, y, z ∈ X , se x ∼ y e y ∼ z , então x ∼ z .
Espaço Quociente 69

R
se, e somente se, x − y ∈ Z. Se consideramos R com a topologia usual então é

homeomorfo ao círculo S 1 = {(x, y) ∈ R2 : x2 + y 2 = 1}.
1
Com efeito, a função f : R → S denida por f (t) := (cos(2πt), sen(2πt)) é sobre-
R
jetora. Com isto, pela proposição 3.13 temos a existência de uma função g : → S1

−1
tal que f = g ◦ p. É possível de se demonstrar que g é uma bijeção com inversa g
R 1
também contínua. Ou seja, g é um homeomorsmo entre e S .

Exemplo 3.17. Se 0 < a < c, podemos denir um toro T2 como o conjuntos de pontos
(x, y, z) ∈ R3 tais que

p
(c − x 2 + y 2 ) 2 + z 2 = a2 .
Do ponto de vista métrico há vários toros (variando as constantes a e c). Mas do

ponto de vista topológico só há um toro no seguinte sentido: todos estes toros são

homeomorfos. Assim, sem perda de generalidade, podemos supor c=1 e 0 < a < 1.
2
Vamos visualizar o toro, T , como um espaço quociente. Para isto, dena a seguinte
relação de equivalência em R2 : dados v, w ∈ R2 , v ∼ w se, e somente se, v − w ∈ Z2 .
2
R
O conjunto quociente é homeomorfo a T2 .

De fato, observe que a função f : R2 → T2 dada por

f (u, v) = ((1 + a cos(2πv)) cos(2πu), (1 + a cos(2πv)) sen(2πu), a sen(2πv))

é sobrejetora, então pela proposição 3.13 segue que existe uma aplicação contínua
R2
g: → T2 tal que f = g ◦ p. Pode-se mostrar que a aplicação g é bijetora e ainda

R2
com inversa contínua, ou seja, g é um homeomorsmo entre e T2 .

X
Observação 3.13. SejamX um conjunto e H ⊂ X . Se o conjunto quociente é

denido a partir da relação ∼ dada por: x ∼ y se, e somente se, x − y ∈ H , denotamos
X X 1
por . Deste forma, pelos exemplos anteriores podemos dizer que S é homeomorfa
∼ H
R 2 R2 n n+1
a e T é homeomorfo a . De modo geral, é possível se demonstrar que T ⊂ R
Z Z 2
Rn
é homeomorfo a .
Zn
Encerrado este capítulo partimos nalmente para a conexão entre a álgebra e a

topologia, até então desvinculadas.


4 Grupo Topológico

Neste capítulo nalmente ocorre a conexão dos capítulos anteriores explorando o

objeto grupo topológico, sua denição e propriedades, bem como a abordagem de todos

os conceitos anteriores permeadas neste novo contexto.

Como referência base para tanto utilizamos [1].

4.1 Sobre Grupo Topológico

Denição 4.1. Um grupo topológico G é uma terna (G, ·, τG ), tal que:


G1 . (G, ·) é um Grupo;

G2 . (G, τG ) é um Espaço Topológico com a Topologia τG ;

G3 . Todo subconjunto nito de pontos é fechado na topologia τG ;

G4 . As funções

g : G × G −→ G q : G −→ G
(x, y) 7−→ xy x 7−→ x−1

são contínuas.
Observação 4.1. A propriedade G3 , isto é, todo subconjunto nito de pontos é fechado
para a topologia τG , é conhecida como axioma T1 , o qual é uma condição um pouco

mais fraca do que o espaço topológico ser um espaço de Hausdor.

Proposição 4.1. Seja (G, ·, τ ) uma terna tal que (G, ·) é um grupo e (G, τ ) é um
espaço topológico satisfazendo o axioma T1 . Então:
(G, ·, τ ) é um grupo topológico se, e somente se, a função f de G × G em G denida
por (x, y) 7−→ xy−1 é contínua.
Demonstração. (=⇒) Se (G, ·, τ ) é Grupo Topológico sabemos que a função f está bem

denida já que ∀ x, y ∈ G : xy −1 ∈ G.
A continuidade da função f segue do fato de que as funções g e q são contínuas,

pois por hipótese G é um grupo topológico e f = g ◦ q

70
Sobre Grupo Topológico 71

a=(id, q) g
G×G −→ G × G −→ G
.
(x, y) 7−→ (x, y −1 ) 7−→ xy −1
E como já vimos composição de funções contínuas é uma função contínua.

(⇐=) Sabemos que a função f de G × G em G dada por f (x, y) := xy −1 é contínua.

Logo, sua restrição

h = f |{e}×G : {e} × G −→ G
,
(e, x) 7−→ ex−1 = x−1

onde e elemento neutro de G, também é contínua.

Consequentemente, a composição h ◦ H, abaixo, também é contínua

H=(e,id) h
G −→ {e} × G −→ G
.
y 7−→ (e, y) 7−→ y −1

Mas esta função resulta exatamente na função q, isto é, q é contínua.

Também, a função g é contínua, pois:

K=(id, q) f
G×G −→ G × G −→ G
−1 −1 −1
(x, y) 7−→ (x, y ) 7−→ x(y ) = xy
e

g = f ◦ K.

Observação 4.2. Para testar o axioma T1 basta vericar se todo conjunto unitário {a}
é fechado sob a topologia do espaço interessado já que todo conjunto nito X é reunião
n
[
nita de conjuntos unitários, isto é, se X = {a1 , . . . , an }, temos que X= {ai }.
i=1

Denição 4.2. Se A e B são subconjuntos de G, denotemos AB o conjunto dos pontos


ab para a ∈ A e b ∈ B . Denotemos, também, A−1 o conjunto de todos os pontos a−1 ,
para a ∈ A.
Proposição 4.2. Seja (G, ·, τ ) uma terna tal que (G, ·) é um grupo e (G, τ ) é um
espaço topológico satisfazendo o axioma T1 . Então (G, ·, τ ) é um grupo topológico se,
e somente se, as duas condições a seguir são satisfeitas:

1. Sejam x e y elementos quaisquer de G. Então para toda vizinhança Wxy de xy


existem vizinhaças Ux e Vy de x e y, respectivamente, tais que Ux Vy ⊂ Wxy .
2. Seja a ∈ G, qualquer. Então para toda vizinhança Va−1 de a−1 existe uma vizi-
nhança Ua de a tal que Ua −1 ⊂ Va−1 .
Sobre Grupo Topológico 72

Demonstração. (=⇒) Seja (G, ·, τ ) um grupo topológico. Denotamos por Vx um aberto


de um determinado espaço que contém o elemento x, ora denominado por vizinhança

de x.

1. Da continuidade de m em G × G, m(x, y) = xy , segue que para todo subconjunto


Wxy de G a imagem inversa ma (Wxy ) é um subconjunto aberto de G × G. Como
ma (Wxy ) é um aberto de G × G contendo (x, y) temos que existem vizinhanças
Ux , Vy de x e y , respectivamente, tais que Ux × Vy ⊂ ma (Wxy ).

Armação. Ux Vy ⊂ Wxy .

De fato, seja z ∈ Ux Vy , qualquer, então z = uv, u ∈ Ux , v ∈ Vy . Desta forma,

(u, v) ∈ Ux × Vy = ma (Wxy ) ⇒ (u, v) ∈ ma (Wxy ) ⇒ m(u, v) ∈ Wxy .


Logo, z = uv = m(u, v) ∈ Wxy .

2. Segue da continuidade de r, r(x) = x−1 , que para todo subconjunto Va−1 de G a


a
imagem inversa r (Va−1 ) é um subconjunto aberto de G. Desta fato, segue que
a
existe uma vizinhança de a, Ua em G, tal que Ua ⊂ r (Va−1 ).

Armação. Ua −1 ⊂ Va−1 .

Com efeito, seja z ∈ Ua −1 , qualquer, então z = u−1 , com u ∈ Ua . Logo,

u ∈ Ua ⊂ ra (Va−1 ) ⇒ u ∈ ra (Va−1 ) ⇒ r(u) ∈ Va−1 .

E portanto temos que z = u−1 = r(u) ∈ Va−1 .

(⇐=) Assumindo as condições como hipóteses provemos a continuidade das funções


m e r.
Para mostrar que a função m (x, y) ∈ G × G temos
é contínua em qualquer ponto
a
que provar que para toda vizinhança, Wxy , de m(x, y) = xy a imagem inversa m (Wxy )
a
é um subconjunto aberto de G × G, isto é, que todo z = (z1 , z2 ) ∈ m (Wxy ) ⊂ G × G
a
é um ponto interior de m (Wxy ) . Para tanto é suciente que exista uma vizinhança
a
de z = (z1 , z2 ) inteiramente contida em m (Wxy ).
a
Uma vez que z = (z1 , z2 ) ∈ m (Wxy ) ⊂ G × G segue que m(z) = z1 z2 ∈ Wxy ,

consequentemente Wxy é uma vizinhança de m(z) em G. Nestas condições segue,

pela hipótese [item(1)], que existem Uz1 e Vz2 vizinhanças de z1 e z2 , respectivamente,

tais que Uz1 Vz2 ⊂ Wxy . Agora observe que Uz1 × Vz2 é um aberto de G × G tal que

Uz1 × Vz2 ⊂ ma (Wxy ), já que para todo (a, b) ∈ Uz1 × Vz2 temos m(a, b) = ab ∈
Uz1 Vz2 ⊂ Wxy . Portanto, existe uma vizinhança de z = (z1 , z2 ) inteiramente contida
a
em m (Wxy ), a saber, Uz1 × Vz2 .

Para mostrar que a função r é contínua em qualquer ponto a ∈ G temos que provar
−1 a
que para toda vizinhança, Wa−1 , de r(a) = a a imagem inversa r (Wa−1 ) é um
a
subconjunto aberto de G, isto é, que todo z0 ∈ r (Wa−1 ) ⊂ G é um ponto interior de
Sobre Grupo Topológico 73

ra (Wa−1 ). Para tanto é suciente que exista uma vizinhança de z0 inteiramente contida
a
em r (Wa−1 ).
a −1
Uma vez que z0 ∈ r (Wa−1 ) ⊂ G segue que r(z0 ) = z0 ∈ Wa−1 , consequentemente
Wa−1 é uma vizinhança de r(z0 ) em G. Nestas condições segue, pela hipótese [item(2)],
−1
que existe Uz0 vizinhança de z0 tal que Uz0 ⊂ Wa−1 . Agora observe que Uz0 é
a
um aberto de G tal que Uz0 ⊂ r (Wa−1 ), já que para todo b ∈ Uz0 temos r(b) =

b−1 ∈ Uz0 −1 ⊂ Wa−1 . Portanto, existe uma vizinhança de z0 inteiramente contida em


ra (Wa−1 ), a saber, Uz0 .

Proposição 4.3. Seja (G, ·, τ ) uma terna tal que (G, ·) é um grupo e (G, τ ) é um
espaço topológico satisfazendo o axioma T1 . Então (G, ·, τ ) é um grupo topológico se,
e somente se a seguinte condição é satisfeita: Sejam x e y elementos quaisquer de
G. Então para toda vizinhança W de xy −1 existem vizinhanças U e V de x e y ,
respectivamente, tais que U V −1 ⊂ W .
Demonstração. (=⇒) Sendo G grupo topológico, pela continuidade de f , f (x, y) =
−1 a
xy , para todo subconjunto Wxy −1 de G temos que f (Wxy−1 ) é um subconjunto

aberto de G × G.
Deste fato, segue que existem vizinhanças Ux e Vy tais que Ux × Vy ⊂ f a (Wxy−1 ).
Armação. Ux Vy −1 ⊂ Wxy−1 .
De fato: seja w ∈ Ux Vy −1 , qualquer. Então w = xy −1 , com x ∈ Ux , y ∈ Vy . Desta
a
maneira, (x, y) ∈ Ux × Vy ⊂ f (Wxy −1 ). Consequentemente, f (x, y) ∈ Wxy −1 .
−1
Portanto, w = xy = f (x, y) ∈ Wxy−1 .
(⇐=) Para mostrar que f é contínua em qualquer ponto (x, y) ∈ G × G temos que
−1 a
provar que para toda vizinhança, Wxy −1 , de f (x, y) = xy a imagem inversa f (Wxy −1 )
a
é um subconjunto aberto de G × G, isto é, que todo z = (z1 , z2 ) ∈ f (Wxy −1 ) ⊂ G × G
a
é um ponto interior de f (Wxy −1 ) . Para tanto é suciente que exista uma vizinhança
a
de z = (z1 , z2 ) inteiramente contida em f (Wxy −1 ).
a −1
Uma vez que z = (z1 , z2 ) ∈ f (Wxy −1 ) ⊂ G × G segue que f (z) = z1 z2 ∈ Wxy ,
consequentemente Wxy −1 é uma vizinhança de f (z) em G. Nestas condições segue,

pela hipótese, que existem Uz1 e Vz2 vizinhanças de z1 e z2 , respectivamente, tais que

Uz1 Vz−1
2
⊂ Wxy−1 . Agora observe que Uz1 ×Vz−1 2
é um aberto de G×G tal que Uz1 ×Vz2 ⊂

f (Wxy−1 ), já que para todo (a, b) ∈ Uz1 ×Vz2 temos f (a, b) = ab−1 ∈ Uz1 Vz−1
a −1
2
⊂ Wxy−1 .
a
Portanto, existe uma vizinhança de z = (z1 , z2 ) inteiramente contida em f (Wxy −1 ), a

saber, Uz1 × Vz2 .

Corolário 4.1. O fato da terna (G, ., τ ) ser um grupo topológico independe da topologia
escolhida para G, desde que esta cumpra pelo menos o axioma T1 .
Sobre Grupo Topológico 74

Demonstração. Imediato das proposições 4.2 e 4.3 já que com estas mostramos que

uma terna (G, ·, τ ) é um grupo topológico via condições especícas sobre vizinhanças

caracterizadas por topologias que cumpram o axioma T1 .

Exemplo 4.1. Sejam a1 , . . . , an uma coleção nita de elementos de um grupo topológico


G, a1 r1 , . . . , an rn = c o produto de potências de a, onde as potências podem ser positivas
ou negativas, e seja W uma vizinhança arbitrária do elemento c. Então, existem vizin-
r1 rn
hanças U1 , . . . , Un dos elementos a1 , . . . , an tais que U1 . . . Un ⊂ W , onde denimos
Ui igual a Uj se ai = aj
Exemplo 4.2. (Z, +, τ ) é um grupo topológico, onde + é a adição usual e τ é a

topologia discreta. Pela denição 4.1 para mostrar isto temos que vericar as condições:

G1 , G2 , G3 e G4 . Façamos isso:

G1 . Observamos no exemplo 2.5 que (Z, +) é grupo.

G2 . Temos também, que (Z, τ ) é um espaço topológico. Basta tomarmos τ como

sendo a topologia discreta, como citado no exemplo 3.2.

G3 . O axioma T1 é satisfeito já que o complementar de todo subconjunto nito de Z


ainda é um subconjunto de Z e, portanto, pela topologia discreta, um conjunto

aberto. Deste modo, todo subconjunto nito de Z é um conjunto fechado.

G4 . Veja que a função:

f : Z × Z −→ Z
,
(x, y) 7−→ x − y

é contínua.

Com efeito, temos que Z×Z é discreto, pois todo ponto de


Z é isolado e cada

par (a, b) em Z × Z é isolado (por exemplo, B((a, b), 1/4) = {(a, b)}). Ainda Z×Z é

metrizável. Assim, pelo lema 3.6 da seção 3.2, a função f é contínua.

Exemplo 4.3. (R, +, τ ) é um grupo topológico, onde + é a adição usual e τ é a

topologia padrão. De fato,

G1 . Observamos no exemplo 2.7 que (R, +) é um grupo.

G2 . (R, τ ) é um espaço topológico, com a topologia padrão apresentada no lema 3.5.

G3 . O axioma T1 é satisfeito, pois {a} ⊂ R é um conjunto fechado em R, já que R−{a}


é um conjunto aberto pois este pode ser escrito como a reunião de intervalos

abertos em R (digamos a > 0, então R − {a} = (−∞, 0) ∪ (0, a) ∪ (a, +∞) ).


[n
Assim, se X = {a1 , . . . , an }, temos que X = {ai }, logo X é um conjunto
i=1
fechado, ou seja, todo conjunto nito de pontos é um conjunto fechado.
Sobre Grupo Topológico 75

G4 . A continuidade das funções

g : R × R −→ R
,
(x, y) 7−→ x + y

q : R −→ R
y 7−→ −y

foi vericada na seção 3.2, através da proposição 3.11.

Exemplo 4.4. (R∗ , ·, τ ), onde · é a multiplicação usual em R e τ é a topologia padrão,

é um grupo topológico.

G1 . (R∗ , ·) é um grupo, como visto no exemplo 2.10.

G2 . (R∗ , τ ) é um espaço topológico, com a topologia padrão conforme visto no lema

3.5.

G3 . O axioma T1 é satisfeito, pelo mesmo argumento do exemplo anterior.

G4 . As funções g e q

g : R∗ × R∗ −→ R∗ q : R∗ −→ R∗
,
(x, y) 7−→ xy y 7−→ y −1

são contínuas

De fato, primeiramente sejam

π1 : R∗ × R∗ −→ R∗ π2 : R∗ × R∗ −→ R∗
e .
(x, y) 7−→ x (x, y) 7−→ y

ε
Temos que a função π1 é contínua, pois existe δ= >0 tal que, para qualquer
2
ε > 0, ||(x, y) − (x̄, ȳ)|| < δ implica em

(∗) ε
|π1 (x, y) − π1 (x̄, ȳ)| ≤ ||(x, y) − (x̄, ȳ)|| < δ = < ε,
2
√ p
onde (∗) refere-se a propriedade |a| = a2 ≤ a2 + q, sendo q um número real

positivo.

Logo, π1 é contínua e a continuidade de π2 segue de forma analoga.

Agora, observe que g = π1 π 2 ,


Sobre Grupo Topológico 76

g : R∗ × R∗ −→ R∗
.
(x, y) 7−→ g(x, y) := (π1 · π2 )(x, y) = π1 (x, y) · π2 (x, y) = xy

Nestas condições, pelo item (ii) da proposição 3.12, segue que g é uma função

contínua.

Ainda, podemos escrever a função q como o quociente da função constante igual



a 1 pela função identidade de R , isto é

q : R∗ −→ R∗
1 1 ,
y 7−→ q(y) := =
y IdR∗ (y)

onde,

IdR∗ : R∗ −→ R∗
.
y 7−→ y

Deste modo, segue do item (iii) da proposição 3.12 que a função q é contínua.

Exemplo 4.5. (C∗ , ·, τ ), onde (C∗ , ·) é um grupo com a operação vista no exemplo 2.11
e τ é a topologia induzida pela norma vista no exemplo 3.7, é um grupo topológico.

Com efeito,

G1 . Vericamos no exemplo 2.11 que (C∗ , ·) é um grupo.

G2 . (C∗ , τ ) é um espaço topológico, com a topologia induzida pela norma conforme

visto no exemplo 3.7.

G3 . O axioma T1 {z1 , . . . , zn } ⊂ C∗ é fechado. Para


é satisfeito, isto é, o subconjunto

tanto basta observar que, pela denição 3.16, o conjunto A = C − {z1 , . . . , zn } é

aberto já que para todo ponto z ∈ A, tomando r = min{|z − zi |, i ∈ {1, . . . , n}},

temos B(z, r) ⊂ A.

G4 . A função

f : C∗ × C∗ −→ C∗
,
(z1 , z2 ) 7−→ z1 z2−1

é contínua. Pois

   
(x2 − y2 i) x1 x2 + y 1 y 2 y 2 x1 − y 1 x2
z1 z2−1 = (x1 + y1 i) 2 = + i.
x + y2 x2 + y 2 x2 + y 2
Propriedades em um Grupo Topológico 77

1
e sabemos, via Análise Complexa , que a função f é contínua se, e somente se,

as respectivas partes real e imaginária são funções reais contínuas.

Como neste caso, as partes real e imaginária de f apenas envolvem as funções

soma, multiplicação, subtração e quociente de números reais, que tem continuidade

garantida pela proposição 3.12, segue a continuidade de f.

Exemplo 4.6. A terna (GL(n), ·, τ ), onde · é a operação de multiplicação de matrizes


e τ é uma topologia induzida pela norma dada no exemplo 3.8, é um grupo topológico.

G1 . Provamos no exemplo 2.13 que (GL(n), ·) é um grupo.

G2 . (GL(n), τ ), é um espaço topológico induzido pela norma vista no exemplo 3.8.

G3 . Segue pelo fato de que GL(n) é um espaço normado.

G4 . Usando Análise de Várias Variáveis (especicamente, Teoria de Lie) é possível

mostrar que a função f

f : GL(n) × GL(n) −→ GL(n)


,
(A, B) 7−→ AB −1

é diferenciável e como consequência segue sua continuidade. Para não perder o

foco do nosso trabalho não abordamos diferenciabilidade porém para mais deta-

lhes veja [9].

4.2 Propriedades em um Grupo Topológico

Proposição 4.4. Sejam (G, ·, τ ) um grupo topológico e H subespaço de G. Se H é


subgrupo de G então H e H̄ são grupos topológicos.
Demonstração. (H, ·|H , τ |H ) é um grupo topológico onde ·|H é a operação de G restrita
a H e τ |H é a topologia para H induzida por τ. De fato:

Esta terna claramente cumpre G1 e G2 .

Cada conjunto nito de pontos em H ⊂ G é fechado em G, pois G é grupo

topológico, desta maneira, segue que este conjunto também será fechado em H, já

que sua interseção com H resulta o próprio conjunto.

Temos também as funções

gH : H × H −→ H
(x, y) 7−→ x.|H y = xy
1
Vide [8].
Propriedades em um Grupo Topológico 78

qH : H −→ H
,
x 7−→ x−1

contínuas, pois são restrições de contínuas: gH = g|H×H e qH = q|H , onde g e q são as

funções contínuas

g : G × G −→ G q : G −→ G
.
(x, y) 7−→ xy x 7−→ x−1
Observe que ambos contradomínios são iguais a H , já que H é subgrupo e conse-

quentemente gH (H × H) = g(H × H) ⊂ H e qH (H) = q(H) ⊂ H .


Portanto, a terna (H, ·|H , τ |H ) é um grupo topológico.

Para mostrar que H̄ é um grupo topológico é suciente mostrar que H̄ é um sub-

grupo de G. Lembremos que um elemento c pertence a H̄ se, e somente se, para toda

vizinhança W de c existir c0 ∈ H tal que c0 ∈ W , isto é, H ∩ W 6= ∅.

Façamos isto. Primeiro observe que, como H ⊂ H̄ (veja observação 3.4) e eG ∈ H ,

pois H é subgrupo de G, segue que eG ∈ H ⊂ H̄ , ou seja, H̄ contém o elemento neutro.


−1
Agora, sejam a, b ∈ H̄ ⊂ G, quaisquer. Mostremos que ab ∈ H̄ , onde · é a
−1
operação induzida por G e b é o elemento oposto a b em G.
−1
De fato, seja W uma vizinhança do elemento ab ∈ G, qualquer. Então, como G
é um grupo topológico, segue pela proposição 4.3, que existem vizinhanças U e V dos
−1
elementos a e b, em G, tais que U V ⊂ W . Mas, a, b ∈ H̄ , logo existem elementos
x, y ∈ H tais que x ∈ U e y ∈ V , consequentemente xy −1 ∈ U V −1 ⊂ W .
−1
Por outro lado, como H é subgrupo, segue que xy ∈ H . Ou seja, xy −1 ∈ H e
xy −1 ∈ W .
−1 −1
Uma vez que W é uma vizinhança qualquer de ab e W ∩H 6= ∅, pois xy ∈ W ∩H ,
−1
segue que ab ∈ H̄ .

Exemplo 4.7. O conjunto S1 é um grupo topológico via proposição anterior, pois é

um subgrupo do grupo topológico C∗ .

Denição 4.3. Dizemos que um espaço topológico G é um espaço homogêneo se para


todo par x, y de pontos de G, existe um homeomorsmo de G nele mesmo que leva x
em y.
Lema 4.1. Se G é um grupo topológico e α ∈ G, então as funções fα , gα : G → G
denidas por

fα = α x e gα = x α,
são homeomorsmos de G.
Propriedades em um Grupo Topológico 79

Demonstração. Veja que fα e gα são ambas bijeções com inversas (fα )−1 (x) = α−1 x e
−1 −1
(gα ) = xα , respectivamente.

A continuidade de fα e gα , bem como de suas funções inversas, segue da con-

tinuidade da função multiplicação m. Por exemplo, fα é contínua pois se escreve como


a composição fα = m |{α}×G ◦j , com m |{α}×G e j = (cte, id ) contínuas.
j m|{α}×G
G −→ {α} × G −→ G
,
x 7−→ (α, x) 7−→ αx

e gα = m|G×{α} ◦ k , com m|G×{α} e k = (id, cte) contínuas,

k m|G×{α}
G −→ G × {α} −→ G
.
x 7−→ (x, α) 7−→ xα

Proposição 4.5. Todo grupo topológico é um espaço homogêneo.


Demonstração. G um grupo topológico e x, y ∈ G, quaisquer. Pelo lema anterior
Sejam
−1
a aplicação fα onde α = yx ∈ G é um homeomorsmo, tal que fα (x) = αx =
−1 −1
(yx )x = y(x x) = y .
Ou seja, existe um homeomorsmo de G em G que aplica x em y .

Portanto, G é um espaço homogêneo.

Lema 4.2. Sejam U e H subconjuntos de G. Se U é um conjunto aberto de G então


U H também o é.

Demonstração.
[
Observe que UH = U {h} e U {h} é aberto em G, pois U {h} é
h∈H
aberto em G, uma vez que U {h} = fha−1 (U ), com U aberto de G e fh−1 o homeomorsmo
−1
que aplica cada elemento x em xh visto no lema 4.1 e como sabemos do item (b) da

denição 3.17, imagem inversa de um conjunto aberto por uma função contínua é um

conjunto aberto.

Lema 4.3. Sejam G um grupo topológico, H um subgrupo normal de G e B uma


base para o espaço topológico G. Para cada elemento U ∈ B denimos o conjunto U ∗
de todas as classes laterais da forma xH , com x ∈ U . Nestas condições, o conjunto
B ∗ = {U ∗ : U ⊂ B} é uma base para G/H .

Demonstração. Primeiro note que U ∗ é um aberto em G/H na topologia quociente,


pois U ∗ ⊂ G/H é tal que pa (U ∗ ) = U é um aberto de G, onde p é a função sobrejetora
de G em G/H vista na denição 3.20.

Ainda, veja que dado qualquer elemento G/H existe U0∗ de B ∗ tal que k ∈ U0∗ .
k de

Com efeito, como k ∈ G/H , temos que existe x ∈ G tal que k = xH . Mas, B é

uma base para G, desta forma existe U0 ∈ B tal que x ∈ U0 .


Propriedades em um Grupo Topológico 80

Consequentemente, k ∈ U0∗ ,
k = xH, com x ∈ U0 .
pois

Portanto, B cumpre a condição (a) da denição 3.5 de base.
∗ ∗ ∗
Também, B satisfaz a condiçaõ (b) da denição 3.5, ou seja, se k ∈ U1 ∩ U2 , com

Ui∗ = {xi H, xi ∈ Ui } em B ∗ , então existe W ∗ ∈ B ∗ tal que k ∈ W ∗ ⊂ U1∗ ∩ U2∗ .


∗ ∗ ∗
Observe que como k ∈ U1 ∩ U2 e Ui é o conjunto de todas as classes laterais yH ,

com y ∈ Ui , segue que existem x1 ∈ U1 e x2 ∈ U2 tais que k = x1 H e k = x2 H .

Armação. Se a ∈ k então U1 H e U2 H são conjuntos abertos em G tais que a ∈

U1 H ∩ U2 H .
De fato, primeiro veja que do lema 4.2 U1 H e U2 H são conjuntos abertos.

Além disso, a ∈ U1 H ∩ U2 H , pois sendo a ∈ k , k = x1 H e k = x2 H , segue que

a = x1 h ∈ U1 H e a = x2 h̄ ∈ U2 H , com h, h̄ ∈ H .
Além disto, são abertos pelo lema 4.2.

Desta armação e pela condição (b) da denição 3.5, para B segue que existe W ∈ B
com a ∈ W ⊂ U1 H ∩ U2 H .

Consequentemente W = {zH, z ∈ W }, é tal que

W ∗ ⊂ U1∗ ∩ U2∗ .
De fato, dado qualquer zH ∈ W ∗ , temos que z ∈ W ⊂ U1 H ∩ U2 H . Logo, z ∈ U1 H
e z ∈ U2 H , isto é, z = u1 h e z = u2 h̄, com u1 ∈ U1 , u2 ∈ U2 , h, h̄ ∈ H .
Assim,

zH = u1 hH = u1 H, u1 ∈ U1

zH = u2 h̄H = u2 H, u2 ∈ U2 .

Logo, zH ∈ U1∗ ∩ U2∗ , ou seja, W ∗ ⊂ U1∗ ∩ U2∗ .

Observação 4.3. Embora denimos U∗ em G/H apenas quando U é um elemento de

uma base de G, podemos estender de modo natural esta denição para qualquer aberto
A em G. A saber, se A é um conjunto aberto qualquer de G e B é uma base de G
n
[ n
[

tais que A = Ui , Ui ∈ B , denimos A := Ui∗ , Ui∗ ∈ B ∗ . Uma vez que é possível
i=0 i=0
mostrar que (Ui ∪ Uj )∗ = Ui∗ ∪ Uj∗ e união de conjuntos abertos é ainda um conjunto

aberto podemos também denir a A∗ apenas como sendo o conjunto {aH, a ∈ A}.

Proposição 4.6. Seja G um grupo topológico e H em subgrupo de G. Considere o


espaço topológico (G/H, τ ), onde τ é topologia quociente

(i) O espaço topológico G/H é um espaço homogenêo;


Propriedades em um Grupo Topológico 81

(ii) Se H é um conjunto fechado na topologia de G, então conjuntos unitários são


fechados em G/H ;
(iii) A função quociente p : G −→ G/H é aberta;
(iv) Se H é fechado na topologia de G e é um subgrupo normal de G, então G/H é
um grupo topológico.

Demonstração. (i) Para mostrar que G/H é um espaço homogêneo devemos mostrar

que para quaisquer a, b ∈ G/H existe um homeomorsmo de G/H em G/H que


aplica a em b. Veja que, como a e b pertencem a G/H segue que existem x, y ∈ G

tais que a = xH e b = yH . Dena a seguinte função:

Fα : G/H −→ G/H
,
xH 7−→ Fα (xH) := fα (x)H = (αx)H

onde, fα é o homeomorsmo visto no lema 4.1.

Note que, como fα é um homeomorsmo, segue que Fα também o é.

Primeiro observe que Fα é uma bijeção pois

F̄ : G/H −→ G/H
,
xH 7−→ F̄ (xH) := fα−1 (x)H = (α−1 x)H

é a função inversa de Fα . De fato,

(Fα ◦ F̄ )(xH) = Fα (fα−1 (x)H) = Fα ((α−1 x)H) =

α(α−1 x)H = (αα−1 )xH = xH

(F̄ ◦ Fα )(xH) = F̄ (Fα (xH)) = F̄ ((αx)H) = α−1 (αx)H = xH.


Portanto, F̄ é a inversa, Fα−1 , de Fα .
Ainda, a continuidade de Fα e de sua inversa seguem da continuidade de fα e de

sua inversa, como veremos a seguir.

Sejam k ∈ G/H qualquer e A um subconjunto aberto de G/H contendo Fα .


Como todo conjunto aberto pode ser escrito como a união de elementos de uma

base (conforme a observação 4.3), podemos supor sem perda de generalidade que

A = V ∗, para algum aberto V ⊂ G.


Queremos mostrar que existe um aberto W∗ de G/H contendo k e tal que

Fα (W ∗ ) ⊂ V ∗ .
Propriedades em um Grupo Topológico 82

Observe que como k ∈ G/H temos que k = aH , para algum a ∈ G.


Também, Fα (k) ∈ V ∗ = {xH, x ∈ V ⊂ G}, logo Fα (k) = x̄H , para algum x̄ ∈ V .
Assim, fα (a)H = Fα (aH) = Fα (k) = x̄H, x̄ ∈ V .
Desta forma, temos que

fα (a) ∈ V H ⊂ G,

onde VH é um aberto de G pelo lema 4.2.

Agora, pela continuidade de fα , segue pelo item (a) da denição 3.17, que existe

W ⊂G aberto com a∈W tal que

fα (W ) ⊂ VH .

Armação. W∗ é um aberto de G/H contendo k e tal que Fα (W ∗ ) ⊂ V ∗ .


De fato, pela denição de W∗ temos que este é aberto em G/H e ainda contém

k, pois k = aH e a ∈ W.
Agora, seja b ∈ Fα (W ∗ ) qualquer. Mostremos que b ∈ V ∗. Como b ∈ Fα (W∗ )
temos que b = Fα (k̄) para algum k̄ ∈ W ∗ .
Como k̄ ∈ W ∗ , segue que existe l∈W tal que k = lH , assim:

b = Fα (k̄) = Fα (lH) = fα (l)H,

com fα (l) ∈ fα (W ) ⊂ VH .
Supondo fα (l) = vh0 , v ∈ V e h0 ∈ H temos

b = fα (l)H = vh0 H = vH, v ∈ V.

Como fα (a)H = x̄H , segue que (x̄−1 fα (a)) ∈ H , logo existe h ∈ H, tal que

x̄−1 fα (a) = h ⇒ fα (a) = x̄h ∈ V H.

Ou seja, b ∈ V ∗.
A continuidade da inversa segue de forma análoga.

(ii) Seja F = {x0 H} um conjunto unitário em G/H .


Armação: G/H − F é um aberto em G/H .
De fato, observe que
Propriedades em um Grupo Topológico 83

G/H − F = {aH, a ∈ G − {x0 }},

mas A = G − {x0 } é aberto já que {x0 } é fechado em G (axioma -T1 ).

Portanto, G/H − F = A∗ , com A um aberto de G. Logo, G/H − F é aberto em

G/H e consequentemente F é fechado em G/H .

(iii) Seja A um aberto qualquer de G. Mostremos que p(A) é um aberto de G/H .


[
Suponha B uma base para G e que A= Ui , Ui ∈ B .
Em decorrência da observação 4.3 e da propriedade que imagem da união é a

união das imagens por uma função, segue que

p(A) = p(∪Ui ) = ∪p(Ui ) = ∪{p(u), u ∈ Ui } = ∪{uH, u ∈ Ui } = ∪Ui ∗ = A∗ .

Como A∗ é um aberto de G/H , segue que p(A) é aberto.

Portanto, p é uma aplicação aberta.

(iv) G/H é um grupo topológico.

G1 . Sabemos pelo lema 2.3 que, sendo H subgrupo normal de G, (G/H, ∗) é um


grupo, onde a operação ∗ é dada por

∗ : G/H × G/H −→ G/H


.
(aH, bH) 7−→ (aH) ∗ (bH) := (ab)H
G2 . (G/H, τ ) é um espaço topológico, onde τ é a topologia quociente induzida

pela aplicação p do item anterior (a sobrejetividade de p segue da observação


3.9) A saber:

τ = {A ⊂ G/H : p−1 (A) é um aberto em G}.

Note que a coleção B∗ apresentada no lema 4.3 é uma base para esta topolo-

gia já que todo subconjunto aberto A de G/H , via τ, é formado por classes

laterais.

G3 . Pelo item (ii) desta proposição, a terna (G/H, ∗, τ ) cumpre o axioma - T1 .


G4 . Mostremos que a função

f¯ : G/H × G/H −→ G/H


(aH, bH) ¯
7−→ f (aH, bH) := (aH) ∗ (bH)−1 = ab−1 H
Propriedades em um Grupo Topológico 84

é contínua.

Seja V ∗ um aberto qualquer de G/H , queremos mostrar que existe um

aberto U1 × U2 em G/H × G/H tal que f¯(U1 × U2 ) ⊂ V .


Observe que do fato de V ser um subconjunto aberto de G e da aplicação f


de G×G em G, dada por

f : G × G −→ G
(a, b) 7−→ f (a, b) := ab−1 ,

ser contínua (pois G é um grupo topológico), segue que existe um aberto

U1 × U2 de G × G, com U1 , U2 , subconjuntos abertos de G, tal que f (U1 ×


U2 ) ⊂ V .
Armação: U1∗ × U2∗ é um aberto de G/H × G/H , tal que f¯(U1∗ × U2∗ ) ⊂ V ∗ .
De fato, obviamente U2∗ são ambos abertos de G/H , consequentemente
U1∗ e

U1∗ × U2∗ é um aberto de G/H × G/H .


Agora, dado l ∈ f¯(U × U ), temos que l = f¯(k), para algum k ∈ U × U .
∗ ∗ ∗ ∗
1 2 1 2

Como k∈ U1∗ × ∗
U2 , segue que k = (u1 H, u2 H), com u1 ∈ U1 e u2 ∈ U2 .
Assim,

l = f¯(k) = f¯(u1 H, u2 H) = u1 u−1


2 H = f (u1 , u2 )H,

com f (u1 , u2 ) ∈ f (U1 × U2 ) ⊂ V .


Logo, denotando f (u1 , u2 ) por q, temos

l = qH, com q ∈ V.

Ou seja, l ∈V∗ e, portanto f¯(U1∗ × U2∗ ) ⊂ V ∗ .

Exemplo 4.8. Temos que Z2 é um subgrupo normal do grupo aditivo abeliano (R2 , +)
e ainda a terna (R2 , +, τ ), onde τ é a topologia induzida pela norma euclidiana, é um
2
R
grupo topológico. Pelo resultado anterior segue que é um grupo topológico. Por
Z2
conseguinte, segue que o toro, T2 , é um grupo topológico, já que no exemplo 3.17 vimos
2 R2
que T é homeomorfo a .
Z2
Denição 4.4. Uma vizinhança V do elemento neutro e é dita simétrica se V = V −1 .
Lema 4.4. Sejam G grupo topológico e e o elemento neutro de G. Se U é uma vizi-
nhança de e, então existe uma vizinhança simetrica V de e tal que V V ⊂ U
Propriedades em um Grupo Topológico 85

Demonstração. Pela proposição 4.3, sendo U uma vizinhança de e = ee−1 sabemos


que existem vizinhanças V e W de e e e−1 , respectivamente tais que V W ⊂ U . Mas
−1
e = e , deste modo temos que V = V −1 . Ainda, pelo item 2 da proposição 4.2 e
−1
novamente do fato que e=e podemos admitir W como sendo V. Portanto, existe

uma vizinhança simétrica de e tal que V V ⊂ U.

Teorema 4.1. Todo grupo topológico é Hausdor, ou seja, para cada x, y ∈ G tais que
x 6= y , existe uma vizinhança V de e tal que V x e V y são disjuntas.

Demonstração. Temos pelo lema 4.4 que existe uma vizinhança V de e tal que V · V ⊂
U, onde U é uma vizinhança dee.
Desta forma, V x = {vx, v ∈ V } e V y = {vy, v ∈ V } são vizinhanças de x e y,
respectivamente e ainda são disjuntas já que x 6= y .

Denição 4.5. Sejam espaço topológico X e x ∈ X , dizemos que X é regular se para


toda vizinhança V de x existe uma vizinhança U de x tal que Ū ⊂ V.
Teorema 4.2. Todo grupo topológico satisfaz o axioma da regularidade, qual seja, dado
um conjunto fechado A e um ponto x que não pertença a A, existem conjuntos abertos
disjuntos contendo A e x, respectivamente.
Demonstração. Sendo A ∩ {x} = ∅ temos que x 6= y , para todo y ∈ A. Desta forma,
pelo teorema 4.1 para todo y ∈ A existe uma vizinhança V de e tal que V x e V y são

disjuntos. Já sabemos também pelo lema 4.4 que, como V é um aberto, segue que V A

também o é.

Consequentemente, Vx e VA são conjuntos abertos disjuntos contendo x e A, re-

spectivamente.

Corolário 4.2. Se G é um grupo topológico e H um subgrupo normal de G fechado na


topologia de G, então G/H satisfaz o axioma da regularidade.
Demonstração. Segue do teorema 4.2, já que nestas condições G/H é um grupo topológico.
5 Conclusão

Nesta dissertação de mestrado apresentamos as denições necessárias para estab-

elecer grupo topológico que ainda hoje serve como o condutor em linhas de pesquisa.

Neste sentido zemos um levantamento bibliográco simbólico para identicar mais

precisamente a atuação deste objeto matemático ao longo do tempo.

A interligação do objeto algébrico grupo com as ciências exatas está presente em

diversos temas, por exemplo na topologia algébrica, onde grupos são usados para descr-

ever invariantes de espaços topológicos; dentre estes podemos destacar o grupo funda-

mental, o grupo de homologia e o grupo de cohomologia. Em Física, o interesse maior

está na representação de grupos de Lie, que podem descrever as simetrias que as leis

físicas devem obedecer em certos sistemas. Em Química, grupos são utilizados para

classicar estruturas cristalinas e as simetrias das moléculas. Sendo que em ambas os

grupos estão intimamente relacionados com a teoria de representação.

Historicamente, segundo Ioan Mackenzie James em History of topology, o primeiro

matemático a descrever precisamente os fundamentos da teoria moderna de grupos

topológicos foi Schreier, o qual destacou-se pelo seu trabalho em subgrupos de grupos

livres, fornecendo uma abordagem mais algébrica em 1927.

Pouco antes, 1924, Herman Weyl já havia, de modo informal, introduzido conside-

rações topológicas na teoria de estruturas e representações de grupos de Lie semisimples

e relativamente fechados segundo o teorema de Schreier. Foram então os teoremas e

o trabalho realizado por Weyl que motivaram o desenvolvimento global de aspectos

topológicos na teoria matemática relacionada com grupos contínuos. Do desenvolvi-

mento das noções topológicas em conexão com a continuidade ramicam-se três áreas:

a topologia de grupos de Lie; o desenvolvimento geral de grupos topológicos em con-

junto com o quinto problema de Hilbert e o desenvolvimento da Análise harmônica em

grupos.

A maior concentração de trabalhos relacionados aos grupos topológicos ocorreu na

década de 40 como, por exemplo, o trabalho realizado por Sze-Tsen Hu (1946) sobre

propriedades homotópicas peculiares de um grupo topológico, mediante as operações

de grupos; também Kenkichi Iwasawa (1948) mostra que grupos localmente compactos

podem ser aproximados por grupos de Lie e ainda Jean Dieudonné (1947) o qual teve

o objetivo de sistematizar e estender resultados de topologias em grupos homeomorfos

86
87

publicados na época.

Posteriormente surgiram questões básicas da existência de uma única topologia e um

grupo topológico abeliano livre ou mesmo o estudo de um anel topológico e trabalhos

voltados à estas questões. Há também trabalhos pautados no Teorema de Birkho-

Kakutani que relaciona grupos topológicos metrizáveis com espaços de Hausdor.

Recentemente as aplicações são diversas como a interação entre grupo topológico e

lógica fuzzy vista em artigos como "On the Fuzzy Sheaf of the Groups Formed by Fuzzy

Topological Groups"( Serkan Gümü¸ Cemil Yildi) publicado em 2008, ou mesmo os

inúmeros trabalhos realizados por Sergey A. Antonyan em 2009 que mostram diversos

resultados e propriedades de grupos topológicos envolvendo paracompacidade e nor-

malidade em "Proper actions on topological groups: Applications to quotient spaces",

além de apresentar uma representação contínua de um grupo topológico abeliano em

um espaço de Banach.

Feita esta suscinta localização histórico-cientíca do grupo topológico em ciências

exatas nalizamos este trabalho e esperamos que este seja uma fonte segura e detal-

hada sobre as noções básicas sobre grupo topológico e seus prerrequisitos para que, um

iniciante desta linha de pesquisa possa percorrer outros temas que envolvam este objeto

matemático. Além disso, destacamos que este material traz a tona uma conexão inter-

essante envolvendo as grandes áreas Álgebra e Topologia e este tipo de articulação está

presente nos objetivos deste programa de pós-graduação em Matemática Universitária,

comprovando sua pertinência neste.


Referências

[1] PONTRJAGIN, L. S. Topological Groups. 1. ed. Princenton: Princenton University

Press, 1958.

[2] DOMINGUES, H. Álgebra Moderna. 4. ed. São Paulo: Atual, 2003.

[3] FRALEIGH, J. B. A First Course in Abstract Algebra. 5. ed. New York: Addison-

Wesley Publishing Company, 1994.

[4] LIMA, E. L. Elementos de Topologia Geral. 5. ed. Rio de Janeiro: SBM-Textos

Universitários, 2009.

[5] MUNKRES, J. R. Topology. 2. ed. New Jersey: Prentice Hall, 2000.

[6] BOLDRINI, J. L. Álgebra Linear. 3. ed. São Paulo: Harbra, 1980.

[7] LIMA, E. L. Curso de Análise. 8. ed. Rio de Janeiro: IMPA-Instituto de Matemática

Pura e Aplicada, 1995.

[8] ÁVILA, G. Variáveis Complexas e Aplicações. 3. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2008.

[9] HALL, B. C. Lie Groups, Lie Algebras, and Representations: An Elementary In-
troduction. Graduate texts in mathematics 222, 1. New York: Springer, 2003.

[10] SMANIA, D. Espaços Quocientes-Notas de aula. São Carlos: ICMC-USP, 2010.

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