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Hipertensão e Obesidade na Adolescência

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Minieditorial

Hipertensão na Adolescência, uma Relação Direta com Obesidade e


Resistência à Insulina
Hypertension in Adolescence, a Direct Relationship to Obesity and Insulin Resistance

Mario Fritsch Neves1


Universidade do Estado do Rio de Janeiro - Clínica Médica,1 Rio de Janeiro, RJ – Brasil
Minieditorial referente ao artigo: Hipertensão Arterial e Parâmetros Lipídicos, Glicídicos e de Adiposidade Associados em Adolescentes Escolares
do Distrito Federal

A hipertensão arterial é o principal fator de risco modificável No estudo realizado por Lima et al.,6 publicado nesta
para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares e sua edição dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, os autores
ocorrência em idades mais precoces favorece o envelhecimento procuraram determinar a prevalência de hipertensão e a sua
vascular acelerado nos anos seguintes.1 O aumento da pressão associação com o perfil lipídico, glicídico e de adiposidade. A
arterial na adolescência geralmente não ocorre de forma originalidade deste projeto é que foi realizado numa população
isolada e está associada a outros fatores de risco como ingestão de 1200 adolescentes, de 12 a 17 anos, do Distrito Federal que
excessiva de sal, atividade física reduzida e, principalmente, foram participantes do Estudo de Riscos Cardiovasculares em
sobrepeso/obesidade. 2,3 Considerando que um elevado Adolescentes (ERICA).7 A prevalência de 8% de hipertensão
percentual de gordura na infância e na adolescência tem encontrada entre os adolescentes do DF foi semelhante a outras
efeitos adversos precoces sobre a pressão arterial, medidas regiões geográficas do país avaliadas no mesmo estudo ERICA,
adequadas da gordura corporal podem determinar marcadores exceto a região sul com prevalência de 12,5%, bem acima do
mais precisos de maior adiposidade e preditores da incidência estudo atual e das demais regiões. Os adolescentes hipertensos
de hipertensão nos indivíduos mais jovens. apresentaram parâmetros mais elevados de adiposidade e
Grandes avanços da tecnologia estão presentes na vida maior ocorrência de hiperinsulinemia, mas a alteração mais
diária dos adolescentes e geralmente favorecem a inatividade encontrada foram os baixos níveis de HDL-colesterol. A maioria
física e o ganho de peso que apresenta relação direta com das variáveis se correlacionou com os níveis de pressão arterial
os níveis de pressão arterial. Além do sedentarismo estar sistólica e diastólica e, mesmo após ajustes, o índice de massa
fortemente associado à hipertensão na adolescência, o corporal (IMC) e o modelo de avaliação da homeostase da
exercício físico exerce um papel protetor, reduzindo a pressão resistência à insulina (HOMA-IR) foram os parâmetros com
arterial por vários mecanismos. Estudo transversal realizado maior força de associação.
com crianças e adolescentes de 11 a 17 anos demonstrou Avaliação de resistência à insulina em adolescentes
a associação do sexo masculino e obesidade central com é um grande desafio. Nesta faixa etária, os níveis de
hipertensão nesses escolares. Por outro lado, o mesmo estudo insulina costumam ser mais elevados e associados a outras
apontou a prática de atividades físicas moderadas e vigorosas alterações hormonais relacionadas com modificações
como forma eficaz de prevenir a elevação da pressão arterial corporais. Entretanto, essa não parece ser a justificativa
diastólica nos jovens desta idade.4 para hiperinsulinemia relatada no presente estudo, pois
O desequilíbrio autonômico parece ser um dos mecanismos os autores indicam que os adolescentes, na sua grande
iniciais para a elevação da pressão arterial em adolescentes. maioria, já estavam no final da puberdade. Além disso, os
Neste grupo de indivíduos jovens, o desequilíbrio autonômico adolescentes não hipertensos apresentaram níveis de insulina
é representado principalmente pela hiperatividade simpática, substancialmente menores do que a aqueles com hipertensão,
que por sua vez, também está associada com obesidade, sugerindo uma relação mais direta. Neste caso, a resistência
alterações do padrão do sono e, consequentemente, maior à insulina pode ser a confirmação bioquímica da síndrome
risco de eventos cardiovasculares. Um estudo recente metabólica, condição que vem aumentando de frequência
demonstrou que adolescentes, mesmo na faixa de pré- na infância e na adolescência, determinando maior risco de
hipertensão, já apresentam disfunção autonômica avaliada aparecimento de doenças crônicas na vida adulta.8
pela variabilidade da frequência cardíaca.5 A maioria dos estudos clínicos com hipertensão é com
participantes adultos e/ou idosos. No Brasil e no mundo, há
poucas publicações referentes à hipertensão em adolescentes.
Palavras-chave Isso reforça a importância desse estudo, pois precisamos de
dados nacionais que servirão de base para nossas futuras
Adolescente; Hipertensão; Obesidade; Fatores de Risco;
diretrizes nessa área. Certamente o Distrito Federal não
Resistência à Insulina; Sedentarismo; Epidemiologia.
representa a realidade de todo nosso país, o que limita
Correspondência: Mario Fritsch Neves • a validade externa e com isso, não podemos extrapolar
Universidade do Estado do Rio de Janeiro - Clínica Médica - Av. 28 de
Setembro, 77. CEP 20551-030, Rio de Janeiro, RJ – Brasil
os resultados atuais. Por outro lado, os achados indicam
E-mail: mariofneves@[Link] importantes informações que se juntam aos outros estudos no
Brasil e, dessa forma, podemos construir um painel nacional
DOI: [Link] mais confiável.

Arq Bras Cardiol. 2022; 118(4):727-728 727


Neves
Hipertensão na Adolescência

Minieditorial

Referências
1. Khoury M, Urbina EM. Hypertension in adolescents: diagnosis, treatment, alta em adolescentes. Arq Bras Cardiol 2021;117(4):648-54. doi: 10.36660/
and implications. Lancet Child Adolesc Health. 2021 May;5(5):357-66. doi: abc.20200093
10.1016/S2352-4642(20)30344-8.
6. Lima LR, Okamura AB, Carvalho KMB de, Dutra ES, Gonçalves VSS.
2. Desai AN. High Blood Pressure. JAMA. 2020;324(12):1254-5. doi: Hypertension and Associated Lipid, Glucose, and Adiposity Parameters in
10.1001/jama.2020.11289 School-Aged Adolescents in the Federal District, Brazil. Arq Bras Cardiol.
3. Seravalle G, Grassi G. Obesity and hypertension. Pharmacol Res. 2022; 118(4):719-726. doi: 10.36660/abc.20201240.
2017;122:1-7. doi: 10.1016/[Link].2017.05.013 7. Bloch KV, Klein CH, Szklo M, Kuschnir MCC, de Azevedo Abreu G, Barufaldi
4. Tozo TA, Pereira BO, Junior FJ de M, Montenegro CM, Moreira CMM, LA, et al. ERICA: prevalences of hypertension and obesity in Brazilian
Leite N. Medidas hipertensivas em escolares: risco da obesidade central adolescents. Rev Saude Publica.2016;50(Suppl 1):12s DOI: 10.1590/
e efeito protetor da atividade física moderada-vigorosa. Arq Bras S1518-8787.2016050006115
Cardiol.2020;115(1)42-9. doi: 10.36660/abc.20180391
8. Deboer MD. Assessing and Managing the Metabolic Syndrome in Children
5. Macêdo SRD, Silva-Filho AC, Vieira ASM, Soares Junior N de J, Dias CJ, Filho and Adolescents. Nutrients. 2019 Aug 2;11(8):1788. doi: 10.3390/
CAAD, et al. Modulação autonômica cardíaca é fator chave para pressão nu11081788

Este é um artigo de acesso aberto distribuído sob os termos da licença de atribuição pelo Creative Commons

728 Arq Bras Cardiol. 2022; 118(4):727-728

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