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Análise de Direitos Reais em Contratos

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UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE

FACULDADE DE DIREITO

EXAME NORMAL DE DIREITOS REAIS

1. Carlos, proprietário do imóvel X, vendeu-o a Daniel, reservando para si a propriedade do


mesmo até que este efectuasse o pagamento integral do preço. A reserva da propriedade foi
registada. O imóvel foi entregue imediatamente após a celebração do contrato.

a) Antes de efectuado o pagamento integral do preço, Carlos vendeu o mesmo imóvel a


Francisco. Este, após comprar, exigiu de imediato a Daniel a entrega do dito imóvel. Quid
Juris? 2.5
No caso levanta-se o problema da constituição de direitos sobre o mesmo objecto, caso em que
se aplica o princípio da preferência dos direitos reais, segundo o qual prevalece o direito real
constituído em primeiro lugar. No caso em apreço, tendo a primeira venda sido efectuada com
reserva de propriedade, significa que não operou o princípio da consensualidade, isto é, o
direito não se transferiu imediatamente para o comprador, sendo Daniel mero titular dum direito
obrigacional. Assim, a venda a Francisco é válida e opera a transferência do direito de
propriedade de Carlos a Francisco, sendo este direito real o primeiro a ser constituído antes do
de Daniel, pelo este deve entrevar o imóvel. Com efeito, o direito real prevalece sobre o direito
obrigacional.

b) Depois de efectuado o pagamento integral do preço, entre Daniel e Francisco, qual dos
dois seria o proprietário do imóvel? 2.5

Mesmo depois de efectuado o pagamento integral do preço, a prevalência do primeiro direito a


ser constituído contínua a favor de Francisco. Logo, este continuará proprietário do imóvel

2. Em 1996, A vendeu um Talhão sito no Bairro do Triunfo, por 50 mil dólares, tendo-lhe passado
uma procuração forense irrevogável e com plenos poderes sobre a referida parcela. B apenas
pagou 30% do valor, ficando o restante dependente da regularização do título de DUAT em
seu nome. A condicionou a entrega efectiva da parcela ao pagamento integral do preço. Em
2003, A vendeu o Talhão em causa a C que pagou a totalidade do preço de 75 mil dólares e
implantou um muro de vedação no valor de 10 mil dólares, desconhecendo que A o vendera
anteriormente a B. Na impossibilidade de tomar o terreno, B intentou uma acção para proteger
a sua situação jurídica, porém o Tribunal recusou-se a conhecer o pedido, alegando que a
venda da terra é nula e de efeito algum. Quid Juris? 5 valores

Na situação em apreço, a venda da terra configura um contrato nulo devendo as partes, em


princípio, restituir as prestações efectuadas em virtude do contrato nulo, o que quer dizer
que A recebe o terreno de volta e restitui os valores recebidos tanto de B como C. Logo, o
terreno nunca saiu da esfera jurídica de A. Neste sentido, embora tenha havido um contrato
nulo, acontece que C construiu de boa-fé no terreno de A, tendo implantado um bem de
valor superior no valor de 10 mil USD. Consequentemente, embora o tribunal tenha razão
quanto à questão da nulidade, há que ter em conta que C constitui uma acessão industrial
imobiliária sobre o terreno, nos termos conjugados dos artigos 1325.º e 1340.º, ambos do
CC. Consequentemente, C deverá adquirir o direito sobre o terreno, devendo indemnizar A
pelo valor do terreno, valor esse já efectivamente pago no contrato nulo, ou seja, A não
deverá restituir o valor do terreno a C.

3. De acordo com o Decreto-Lei n.º 5/76, de 6 de Fevereiro (Nacionalizações), os imóveis não


ocupados pelos proprietários são objecto de nacionalização. Acontece que Joana, enfermeira,
tendo sido transferida para Niassa em 1978, deixou a sua moradia sob os cuidados do irmão,
Dinis, o qual foi abordado pelas autoridades sob a possível nacionalização do imóvel, por não
estar em poder da proprietária. Para evitar tal eventualidade, Joana e Dinis decidiram arranjar
uma forma de contornar o regime em causa através duma suposta doação do imóvel para
Dinis. Para o efeito, conforme era exigível na altura, requererem ao Ministro de Construção e
Águas a autorização para a doação, pedido que foi aceite por despacho de Janeiro de 1980.
Ambos foram notificados do despacho de autorização, porém nunca mais celebraram a
escritura de doação. Em 2010, depois de reformar, Joana abordou o irmão para lhe restituir o
imóvel, mas este recusou-se, alegando que a irmã lhe doou o imóvel. Numa mediação, Dinis
acabou condicionado a entrega do imóvel ao pagamento das benfeitorias feitas desde que
ficou em poder do mesmo, bem como pelo tempo perdido a guarnecer o imóvel da irmã.
Entretanto, Dinis contratou, posteriormente, um advogado que lhe aconselhou a não devolver
o imóvel pelo facto de os contornos do caso indicarem que Dinis é proprietário do bem em
disputa. Quid Juris? 6 valores

Nesta situação, havendo simulação, significa que Dinis não pode reivindicar a posse do imóvel
em virtude da intenção de doação. Logo, desde que tomou o imóvel até ao direito que se opôs à
irmã, ele era um simples detentor (artº 1251 do CC). Todavia, no dia em que se opôs à irmã,
negando a entrega do imóvel, inverteu o título da posse (art.º 1265.º do CC). A partir daqui Dinis
tornou-se possuidor, porém, quando admite devolver o imóvel sob condição de ser
compensado, interrompe o decurso de tempo para a prescrição aquisitiva do direito de
propriedade do imóvel, por ter reconhecido implicitamente o direito da irmã (art. 325.º do CC).
Em conclusão, Dinis não pode ser proprietário do imóvel, pelo que deve entregar o imóvel à
irmã.

4. Suponha que o Decreto n.º 3/2011, de 15 de Março (Regime Aduaneiro aplicável aos Mineiros)
determina que as viaturas importadas por mineiros e isentas de direitos aduaneiros só podem
ser conduzidas pelo proprietário (mineiro) ou a sua esposa, sendo igualmente proibida a sua
transmissão a terceiros. Analise esta norma sob o ponto de vista de Direitos Reais. 4 Valores

A questão em apreço remete-nos para o conteúdo do direito de propriedade, previsto no artigo


1305.º do CC, segundo o qual o proprietário goza de modo pleno e exclusivo o direito de usar,
fruir e dispor, dentro das limitações e restrições da Lei. Neste sentido, poder-se-ia dizer que o
Decreto n.º 3/2011, de 15 de Março, constitui uma limitação ao conteúdo do direito de
propriedade do automóvel do mineiro desalfandegado à luz do regime em referência, o que
seria admissível à luz do princípio da tipicidade previsto no artigo 1306.º do CC. Contudo, o
conteúdo do artigo 1305.º do CC, tendo sido fixado por Decreto-Lei, não pode ser limitado por
um instrumento hierarquicamente inferior. Deste modo, conclui-se que o regime estabelecido
no referido decreto é ilegal.

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