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Hiponímia e Acarretamento em Linguística

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2.

Hiponímia e Acarretamento

Para entendermos a noção de acarretamento, que é uma relação


entre sentenças, vejamos antes a noção de hiponímia, que é uma
relação similar, mas que se dá entre palavras. A hiponímia pode ser
definida como uma relação estabelecida entre palavras, quando o
sentido de uma está incluído no sentido de outra:

(1) a. pastor alemão cachorro animal

b. rosa fior vegetal

c. fusca carro

d. maçă fruta vegetal

Peios exemplos, podemos perceber que a hiponímia é uma relação


lingüística que estrutura o léxico das linguas em classes, ou seja,
pastor alemão pertence á classe dos cachorros, que, por sua vez,
pertencem à classe dos animais, rosas são fiores que, por sua vez,
são vegetais, etc. Vamos estabelecer que cada exemplo acima forma
uma cadeia. O item lexical mais específico, que contém todas as
outras propriedades da cadeia, é chamado de hipónimo; o item lexical
que está contido nos outros itens lexicais, mas não contém nenhuma
das outras propriedades da cadeia, o termo mais geral, é chamado de
hiperônimo. Por exemplo, em (1a), pastor alemão é o hipônimo da
cadeia apresentada, e animal, o hiperonimo. A relação de hiponímia é
assimétrica, ou seja, o hipônimo contém o seu hiperónimo, mas o
hiperônimo não contém o seu hipônimo: todo cachorro é um animal,
mas nem todo animal é um cachorro. O sentido da palavra animal
está contido na palavra cachorro, mas o inverso não é verdadeiro. Se
pensarmos em uma decomposição lexical em termos de propriedades
semânticas que compõem o sentido da palavra cachorro, teríamos o
seguinte:

(2) cachorro
animal quadrúpede mamífero

O exemplo em (2) evidencia o fato de que o sentido de animal está


contido no sentido de cachorro. Experimente fazer a decomposição
lexical em propriedades semânticas para os outros exemplos em (1).

Estendendo a noção de hiponímia para as sentenças, chegamos à


noção de acar- retamento, que pode ser entendida como a relação
existente entre sentenças, quando o sentido de uma sentença está
incluido no sentido de outra. Essa relação é mais complexa. Tomemos
um exemplo:

(3) a isto é uma cadeira e é de madeira.

b. Isto é uma cadeira de madeira.

Qualquer falante do português sabe que a informação contida em


(3b) está incluida em (3a) e que, portanto, podemos concluir que (3a)
acarreta (3b). Veja que, se a sentença em (3a) for verdadeira,
conseqüentemente a sentença em (3b) também será verdadeira;
seria contraditório afirmar a primeira sentença e negar a segunda:

(4) a. Isto é uma cadeira e é de madeira.

b. Mas isto não é uma cadeira de madeira.

Esse conhecimento é parte do conhecimento sobre o que essas


sentenças signi- ficam: não precisamos saber nada sobre o objeto
mostrado, a não ser o fato de que é o mesmo objeto nas duas
afirmações. Agora vejamos as sentenças em (5):

(5) a. João é alto e é um jogador de basquete


b. João é um jogador de basquete alto.

Você diria que (5a) acarreta (5b)? Se você respondeu não, acertou,
pois o problema agora é outro. Imaginemos que estamos apontando
para os jogadores de basquete, que, em realidade, são altos. Estamos
certos em afirmar (5a). Mas imaginemos que, entre os jogadores de
basquete, você não julgue João como sendo um dos mais altos, ao
contrário, ele é o jogador mais baixo em comparação aos outros.
Nesse caso, seria perfeitamente razoável negar (5b):

6) a. João é alto e é um jogador de basquete. (

b. Mas João não é um jogador de basquete alto; na verdade, ele é o


mais baixo

do time.

Portanto, a sentença (5a) não acarreta a sentença (5b), pois, se a


sentença em (5a) for verdadeira, a sentença em (5b) não tem que ser
necessariamente verdadeira; ou seja, podemos negar a sentença
(5b), que ela não ficará contraditória à sentença (5a);

ou mesmo podemos perceber que a informação da sentença (5b) não


está contida na informação da sentença (5a). Baseando-nos nesses
argumentos, chegamos às seguintes definições para a noção de
acarretamento:

(7) Duas sentenças estabelecem uma relação de acarretamento se

-a sentença (a) for verdadeira, a sentença (b) também é verdadeira;

a informação da sentença (b) está contida na informação da sentença


(a):
- a sentença (a) e a negação da sentença (b) são sentenças
contraditórias."

Assim como a hiponímia, o acarretamento também é uma relação


assimétrica, ou seja, uma sentença contém outra, mas não
necessariamente essa segunda contém a primeira. Quando temos
uma relação simétrica, ou seja, a sentença (a) acarreta a sentença (b)
e a sentença (b) também acarreta a sentença (a), temos a relação de
parafrase, que veremos mais à frente.

O que fazemos ao estabelecer os acarretamentos de uma sentença é


tirar-lhe todas as informações que acrescentamos, a partir das nossas
experiências, do nosso conhecimento de mundo, e deixar somente o
que está explícito nas relações expressas pelos itens lexicais dessa
sentença, ou seja, o sentido exclusivamente literal. Em outras
palavras, o acarretamento é uma propriedade que nos mostra
exatamente o que está sendo veiculado por determinada sentença,
nada alén. Essa é a dificuldade, pois estamos habituados a entender
sentenças com todas as outras informações extralingüísticas que
possam também estar associadas a essa sentença, a quem profere a
sentença e a quern escuta a sentença. Ao estabelecer os
acarretamentos de uma sentença, estamos fazendo uma espécie de
triagem do que está além daquele objeto, para poder analisar
somente o próprio objeto. Antes de você exercitar-se um pouco,
analisemos alguns exemplos. Aplicaremos as definições dadas acima,
para estabelecer se há a relação de acarretamento entre as
sentenças a seguir. É importante ressaltar que, se usarmos somente a
nossa intuição, muitas vezes não conseguiremos perceber qual é
realmente o significado de determinada sentença. Por isso, como um
bom procedimento metodológico, vamos sempre aplicar as definições
(uma das três) nos exercícios propostos.

Vejamos, pois, se a sentença (8ª) acarreta a sentença (8b):

(8) a. Hoje o soi está brilhando.

b. Hoje está quente.


A sentença (a) não acarreta a sentença (b), porque, se é verdade que
hoje o sol está brilhando, não é necessariamente verdade que hoje
está quente, ou seja, se (a) é verdade, (b) não é verdade
necessariamente. Também podemos perceber que a informação de
que hoje está quente não está contida na informação de que hoje o
sol está brilhando, ou seja,a informação da sentença (b) não está
conticia na informação da sentença (a). Ou ainda, se negarmos a
sentença (b), ela não ficará contraditória à sentença (a): hoje o sol
está brilhando, mas hoje não está quente; é perfeitamente possível
que essas duas sentenças estejam narrando fatos que ocorram
simultaneamente no mundo.

Vejamos um segundo exemplo.

(9) a. Jane comeu uma fruta no café da manhã.

b. Jane comeu uma fruta.

Se é verdade que Jane comeu uma fruta no café da manhã, é


necessariamente verdade que Jane comeu uma fruta. Portanto,
podemos afirmar que a sentença (a) acarreta a sentença (b), porque
a informação de (b) está contida em (a); ou porque se (a) é verdade,
(b) também é verdade; ou ainda, a negação da sentença (b) é
contraditória à sentença (a), pois é contraditório afirmar que Jane
comeu uma fruta no café da manhã, mas Jane não comeu uma fruta.

Como terceiro exemplo, temos:

(10) a. Jane tomou café esta manhã.

b. Jane tomou algo quente esta manhã.

A sentença (a) não acarreta a sentença (b), porque se (a) é verdade,


(b) não é verdade necessariamente: se é verdade que Jane tomou
café esta manhã, não é necessariamente verdade que Jane tomou
algo quente esta manhã, pois o café estava frio, por exemplo. Tente
aplicar as outras definições, como exercício.

No exemplo (11), temos:

(11) a. João não sabe que Maria está grávida.

b. Maria está grávida.

A informação de que Maria está grávida está contida na informação


de que João não sabe que Maria está grávida. Portanto, a sentença (a)
acarreta a sentença (b), pois a informação de (b) está contida em (a).
Novamente, tente as outras definições.

Como último exemplo:

(12) a. João pensa que Maria está grávida.

b. Maria está grávida.

A sentença (a) não acarreta a sentença (b), pois a negação da


sentença (b) não é contraditória à sentença (a): é perfeitamente
possível dizer que João pensa que Maria está grávida, mas Maria não
está grávida.

De posse das informações dadas, tente você fazer os exercícios


propostos.

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