4.
1FINALIDADE DAS NORMAS DO DIREITO PENAL
Direito penal é a porção do sistema jurídico global que é formada pelas normas que dispõem
sobre crimes e contravenções. A fonte formal natural das normas penais é a lei. Não é por
outra razão que o inciso XXXIX do art. 5º da Constituição afirma que: “não há crime sem lei
anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal”. O inciso XL do art. 5º afirma
que: “a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu”. O art. 2º do Código Penal dispõe
que: “Ninguém pode ser punido por fato que lei posterior deixa de considerar crime, cessando
em virtude dela a execução e os efeitos penais da sentença condenatória”. Em seguida, o
parágrafo único dispõe que: “A lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, aplica-
se aos fatos anteriores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em
julgado”. Somente a União, por intermédio do Congresso Nacional, tem poderes para legislar
sobre matéria criminal. É proibida a utilização de medida provisória em matéria criminal, em
razão do disposto na alínea b do parágrafo 1º do art. 62 da Constituição Federal. As normas
penais visam proteger bens jurídicos, e estatuem penalidades para infrações de natureza grave
estipuladas em lei, ou seja, no Código Penal e em outras leis federais. As penalidades em
decorrência da violação de normas de direito criminal são as privativas de liberdade, as de
natureza pecuniária e as restritivas de direito.
14.1.1ELEMENTOS DA NORMA PENAL OU DO CRIME
Para que uma norma de direito penal seja aplicada, é necessária prova da ocorrência do fato
típico nela previsto. A tipificação visa prover segurança jurídica e afastar o arbítrio do aplicador
da norma (o Ministério Público, o juiz, o Tribunal) em prol da sociedade. O legislador tem certa
liberdade de escolher condutas que serão reprimidas; todavia, ele não pode pretender punir
resultados de condutas que ofendam bens jurídicos; logo, lhe é proibido, por exemplo, punir a
feiura. Crime é definido como sendo toda a ação ou omissão típica, antijurídica e culpável.
Vejamos uma ilustração na Figura 14.1.
Figura 14.1 Elementos fundamentais do crime.
Esses elementos (tipicidade, antijuridicidade e culpabilidade) são indissociáveis do conceito de
crime; logo, só são considerados como tais os fatos que estejam previstos abstratamente na lei
penal e que possam ser imputados a alguém (o responsável penal ou agente) que tenha agido
com culpa e se não houver a incidência de norma excludente da antijuridicidade, como é, por
exemplo, a legítima defesa.
14.1.2FATO PUNÍVEL E ILICITUDE
Fatos puníveis são unicamente aqueles que foram cogitados abstratamente nas normas e que
sejam capazes de produzir resultados que possam ser caracterizados como: (a) crime tentado
ou consumado; (b) contravenção; e (c) atos infracionais. São puníveis apenas os fatos que
sejam considerados ilícitos segundo normas vigentes – os denominados “fatos típicos” –, de
modo que não é admissível a interpretação por analogia ou qualquer forma de interpretação
ampliativa, salvo em caso de lei mais benéfica. Interessam para o direito penal apenas os fatos
ou acontecimentos que derivam de ação ou omissão que possam ser imputados (atribuídos) a
alguém; assim, não há repercussão penal da morte de alguém em virtude de um raio que cai
num campo aberto. Por outro lado, se um cão raivoso causa lesões corporais em uma pessoa,
o dono pode responder pelo crime, porquanto tinha o dever de mantê-lo sob sua guarda.
Ilícito é todo fato contrário ao direito; a ilicitude é a consequência da violação de um dever
jurídico de agir de uma determinada maneira, isto é, quando alguém deixa de fazer o que deve
ser feito – o que é obrigatório –, ou quando alguém faz o que não pode ser feito, o que é
proibido, e disto resulta dano ou atentado a direitos individuais e coletivos ou difusos.
14.1.3CONDUTA E RESULTADO
Conduta é toda ação ou omissão de um ser humano. Para fins penais, somente são relevantes
as condutas que ofendam bens jurídicos tutelados, isto é, que lhes causem danos ou os
exponham a perigo. Enfim, a conduta relevante para configuração do crime é sempre uma
ação ou omissão que produz um resultado proibido segundo os preceitos e condições da lei. O
parágrafo 2º do art. 13 do Código Penal afirma que a omissão é penalmente relevante quando
o agente devia e podia agir para evitar o resultado. Resultado, em termos simplórios, é o fato
punível provado acima de dúvida razoável. Há crimes em que há corpo de delito, e, em outros,
não há algo visível; por isso, há crime de dano e há crime de perigo. É considerado crime de
dano aquele em que a hipótese normativa (o tipo penal abstratamente considerado) prevê a
ocorrência de um evento que cause prejuízo efetivo ao bem jurídico tutelado pela norma. Um
exemplo é o crime de furto, em que a norma penal só incide (e, por isso, deve ser aplicada) se
houver o desfalque do patrimônio.
14.1.4DOLO E CULPA
Não há crime sem culpa atribuída a alguém. Da noção de culpabilidade derivam os conceitos
normativos de crime doloso e crime culposo. Há crime doloso, de acordo com o texto do inciso
I do art. 18 do Código Penal, “quando o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-
lo”. Por outro lado, há crime culposo quando o agente deu causa ao resultado por
imprudência, negligência ou imperícia (inciso II). Na prática do crime doloso, o agente
compreende perfeitamente o caráter ilícito de sua conduta e age com propósito deliberado de
causar o resultado proibido e socialmente reprovável; há dolo, também, quando o agente não
quer praticar o fato delituoso, mas assume o risco de praticá-lo (dolo eventual). No crime
culposo, o resultado decorre da falta de cuidado sem que se cogite de intenção de perpetrar o
fato punível. Nem sempre a norma penal prevê punição para os crimes culposos; assim, à lei
cabe estabelecer se há ou não punição em crimes dessa natureza. Se a lei não prevê a punição
dos crimes culposos, é porque ela pretende atingir apenas os fatos perpetrados com dolo; é o
que diz o texto do parágrafo único do art. 18 do Código Penal, que tem a seguinte redação:
“Salvo os casos expressos em lei, ninguém pode ser punido por fato previsto como crime,
senão quando o pratica dolosamente”.
14.1.5RESPONSABILIDADE PENAL
Para configuração de um crime, é imprescindível que o resultado do ilícito seja imputado a
alguém – o agente. Logo, é necessário haver um nexo causal ou uma ligação entre uma
conduta e um resultado, de modo que daquela (conduta) decorra este (o resultado). A
existência ou inexistência desse liame ou nexo causal é matéria de prova que deve ser
produzida por quem acusa o agente.A determinação da autoria nos crimes cometidos no
âmbito de uma sociedade simples ou empresária é envolta em inegáveis dificuldades,
porquanto pelo menos três grupos de pessoas exteriorizam a vontade da pessoa jurídica (a
sociedade personalizada), a saber: (a) os dirigentes ou administradores; (b) os prepostos, que
incluem os gerentes e os contabilistas, na forma dos arts. 1.169 a 1.178 do Código Civil; e (c) os
representantes. Os administradores são, em princípio, os responsáveis por gerir o negócio, de
modo que são os executores do contrato ou estatuto social. Nas sociedades por ações, de
acordo com o caput do art. 138 da Lei n. 6.404/76, é considerado administrador tanto o diretor
quanto o membro do conselho de administração. Os diretores são os executivos e designados
por assembleia ou em cláusula contratual e podem ou não ser sócios ou acionistas. Eles são,
em tese, os responsáveis pela eventual prática de crimes se e quando agem de modo
deliberado para cometê-los ou determinam que outras pessoas (empregados ou terceiros) os
cometam. O administrador pode ser uma pessoa que não é designada em nenhum documento
societário, mas pratica atos de gestão ou administração; são os diretores de fato ou, ainda, os
“testas de ferro” ou “laranjas”. O STJ, quando do julgamento do Habeas Corpus 185.599,
ocorrido em 17 de março de 2011, negou o pedido do autor para trancar a ação penal, diante
de evidências de que o autor, na qualidade de empregado, “atuava como sócio fictício em
empresa de fachada, agindo como ‘testa de ferro’, recebendo remuneração para isso, além de
prestar auxílio ao patrão e corréu cumprindo ordens e alertando-o contra fiscalizações”.
Para responder pelas consequências dos fatos puníveis, é imprescindível que o autor seja
considerado imputável. Imputável, no contexto do Código Penal, é qualquer pessoa maior de
18 anos que tenha praticado a conduta criminosa. Os menores de 18 anos são penalmente
inimputáveis, ficando sujeitos às normas estabelecidas na legislação especial (art. 27),
constantes do Estatuto da Criança e do Adolescente. O referido estatuto reafirma a regra do
Código Penal, quando estabelece que: “são penalmente inimputáveis os menores de 18 anos,
sujeitos às medidas previstas nesta lei” (art. 104), e as pessoas com doenças mentais de
qualquer espécie podem ou não ser responsáveis.
14.1.6APLICAÇÃO DA PENA
A aplicação da pena, em qualquer circunstância, deve ser feita pela autoridade competente, de
acordo com os parâmetros da lei, e desde que sejam observadas as regras e princípios do
devido processo legal. Na fixação em abstrato das penas, o legislador é obrigado a observar,
dentre outras, as regras do inciso XLVII do art. 5º da Constituição, que proíbe a imposição de
penas: (a) de morte, salvo em caso de guerra declarada, nos termos do art. 84, XIX; (b) de
caráter perpétuo; (c) de trabalhos forçados; (d) de banimento; e (e) cruéis. Na aplicação em
concreto da pena, o juiz da causa percorre um processo de três etapas. Em primeiro lugar, há a
fixação da pena-base, de acordo com as regras do art. 59 do Código Penal. Em seguida,
identificará e valorizará os fatos justificativos de circunstâncias atenuantes ou agravantes.
Depois disso, considerará as causas legais de diminuição e de aumento de pena. Esse é o
processo básico da dosimetria da pena. O processo de aplicação das penalidades criminais é
ilustrado na Figura 14.2.
Figura 14.2 Aplicação de penalidade.
A Constituição Federal, no inciso XLV do art. 5º, determina que “nenhuma pena passará da
pessoa do condenado”. Esse mandamento tem o claro propósito de evitar que as penas
aplicadas a uma pessoa sejam transferidas a outrem por sucessão; assim sendo, os crimes
cometidos por um pai que morre não são imputados aos herdeiros ou à meeira.
14.1.7EXCLUSÃO DA ILICITUDE
Tal como ocorre no direito civil, em situações excepcionais previstas em lei, a prática de
infrações não determina a incidência automática da norma sancionatória respectiva (a que
prevê a punição para a infração ou resultado ilícito); assim, há casos em que bens jurídicos
possam vir a sofrer danos ou ser expostos a perigo sem que ninguém seja responsabilizado ou
punido. De acordo com o art. 23 do Código Penal, não há crime quando o agente pratica o
fato: (a) em estado de necessidade (inciso I); (b) em legítima defesa (inciso II); (c) em estrito
cumprimento de dever legal (inciso III, primeira parte); e (d) no exercício regular de direito
(inciso III, parte final). Em qualquer desses casos, o agente responderá pelo excesso doloso ou
culposo (parágrafo único). A norma que dispõe sobre a exclusão da ilicitude impede a
aplicação da norma penal, de modo que o campo normativo desta é recortado pelas condutas
abstratamente típicas, mas não puníveis. Em certas circunstâncias, a lei penal pode deixar de
ser aplicada, em razão do “princípio da insignificância”. Por esse princípio, há a exclusão da
ilicitude se a lesão ao bem jurídico for mínima e se parca a periculosidade social agente.
Todavia, não há um direito subjetivo de praticar pequenos delitos de modo reiterado,
consoante disse o STF, ao julgar o Habeas Corpus 102.088, em 21 de maio de 2010:
O princípio da insignificância não foi estruturado para resguardar e legitimar constantes
condutas desvirtuadas, mas para impedir que desvios de condutas ínfimos, isolados, sejam
sancionados pelo direito penal, fazendo-se justiça no caso concreto. Comportamentos
contrários à lei penal, mesmo que insignificantes, quando constantes, devido a sua
reprovabilidade, perdem a característica de bagatela e devem se submeter ao direito penal.
14.1.8EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE
Há extinção da punibilidade (ou, como diz a doutrina, da pretensão punitiva) quando o Estado
deixa de ter direito de processar e julgar alguém acusado da prática de um crime. Esse efeito
jurídico difere da pretensão executória, que é a perda do direito de levar a efeito as
consequências da condenação. De acordo com o art. 107 do Código Penal, extingue-se a
punibilidade: (a) pela morte do agente; (b) pela anistia, graça ou indulto; (c) pela
retroatividade de lei que não mais considera o fato como criminoso; (d) pela prescrição,
decadência ou perempção; (e) pela renúncia do direito de queixa ou pelo perdão aceito, nos
crimes de ação privada; (f) pela retratação do agente, nos casos em que a lei a admite; e (g)
pelo perdão judicial, nos casos previstos em lei. Outras hipóteses estão previstas em normas
que não constam do Código Penal, como é o caso da lei que trata dos crimes contra a ordem
tributária e prevê a extinção da pretensão punitiva pelo pagamento do tributo reclamado.
O inciso IX do art. 107 do Código Penal afirma que a punibilidade é extinta “pelo perdão
judicial, nos casos previstos em lei”. Essa figura aparece no texto do parágrafo 5º do art. 121
do Código Penal brasileiro, que afirma: “Na hipótese de homicídio culposo, o juiz poderá deixar
de aplicar a pena, se as consequências da infração atingirem o próprio agente de forma tão
grave que a sanção penal se torne desnecessária”. Esse último preceito outorga ao juiz o dever
de conceder perdão judicial ao infrator nos casos em que as circunstâncias fáticas
demonstrarem que o fato a ele imputado lhe trouxe consequências indesejáveis a ponto de
converter em cruel ou excessiva a pena pelo homicídio culposo.
14.1.9EFEITOS CIVIS DA CONDENAÇÃO POR CRIME
Em certas circunstâncias, aquele que pratica crime pode sofrer consequências civis, como é a
obrigação de reparar danos materiais ou morais. O inciso I do art. 91 do Código Penal dispõe
que um dos efeitos jurídicos da condenação é “tornar certa a obrigação de indenizar o dano
causado pelo crime”. Em tese, é possível que os efeitos civis existam mesmo nos casos de
eventual absolvição, em razão do disposto no art. 66 do Código de Processo Penal, segundo o
qual: “Não obstante a sentença absolutória no juízo criminal, a ação civil poderá ser proposta
quando não tiver sido, categoricamente, reconhecida a inexistência material do fato”. Por fim,
o inciso IV do art. 387 do Código de Processo Penal afirma que o juiz, ao proferir sentença
condenatória, “fixará valor mínimo para reparação dos danos causados pela infração,
considerando os prejuízos sofridos pelo ofendido”. A norma não faz distinção entre danos
morais e materiais, de modo que o juiz pode decidir sobre a fixação de indenização para
qualquer uma das modalidades de dano ou de ambas.
14.2REPRESSÃO AOS CRIMES ECONÔMICOS
O ordenamento jurídico brasileiro contém diversas leis para reprimir os delitos econômicos
praticados por empresas – os conhecidos crimes do “colarinho branco”. As diversas normas
devem ser aplicadas em consonância com as normas constitucionais que limitam o poder
punitivo atribuído ao Estado e com as regras básicas do Código Penal.
14.2.1LAVAGEM DE CAPITAIS
A Lei n. 9.613/98, modificada pela Lei n. 12.683/2012, dispõe sobre os crimes de “lavagem” ou
ocultação de bens, direitos e valores. De acordo com o art. 1º, constitui crime a ação de
ocultar ou dissimular a natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou
propriedade de bens, direitos ou valores provenientes, direta ou indiretamente, de infração
penal. O fato punível, de um modo geral, envolve a prática de falsidade ideológica e a criação
de “empresas de fachada”, nacionais e estrangeiras, em nome de pessoas interpostas,
usualmente denominadas “testas de ferro” e “laranjas” (pessoas que emprestam o nome para
a realização de operações) das atividades desenvolvidas, bem como a adoção de manobras
contratuais e contábeis, com a finalidade de obscurecer ou “maquiar” o patrimônio dos
efetivos sócios das empresas. A prática do crime de lavagem de capitais ocorre, normalmente,
em três etapas: colocação, ocultação e integração. A colocação ocorre com o ingresso dos
recursos ilícitos no sistema econômico formal, mediante operações de depósitos em contas
correntes bancárias; compra de produtos e serviços financeiros, como são os títulos de
capitalização, de previdência privada e de seguros; e, ainda, de aplicações em depósito a
prazo, poupança, fundos de investimento; compra de bens, como imóveis, ouro, automóveis,
pedras preciosas, obras de arte etc. Por outro lado, a ocultação ocorre quando os criminosos
agem com o objetivo de suprimir ou mascarar as evidências sobre a origem do dinheiro para
dificultar o rastreamento dos recursos ilícitos. Nessa etapa, são feitas transferências de
recursos entre contas correntes bancárias ou entre empresas que se utilizam de “contas-
fantasma” (conta em nome de pessoas que não existem) e de “laranjas”; transferência de
recursos para paraísos fiscais etc. A derradeira etapa consiste na integração ou incorporação
formal dos recursos no sistema econômico, sob a forma de investimentos ou compra de ativos,
com a documentação legal. A integração envolve, por isso, a realização de investimentos em
negócios lícitos.
14.2.2CRIMES FISCAIS
A lei prevê certas hipóteses de ocorrência de crime contra a ordem tributária, crimes contra a
Previdência Social e crime de descaminho, consoante previsto nas Leis n. 8.137/90 e n.
9.983/2000, e no art. 334 do Código Penal. Em quaisquer casos, as normas citadas não
cominam pena para as condutas culposas; logo, as condutas puníveis são apenas aquelas que
sejam praticadas com dolo, em razão do disposto no parágrafo único do art. 18 do Código
Penal, segundo o qual: “salvo os casos expressos em lei, ninguém pode ser punido por fato
previsto como crime, senão quando o pratica dolosamente”. A lei penal, nesses casos,
pretende punir a fraude ou a sonegação fiscal; no primeiro caso, o sujeito (ou alguém que o faz
agir, como os diretores das sociedades) pratica atos que visem a desnaturar ou adulterar os
fatos tributáveis, enquanto no segundo caso, o agente se omite dolosamente e esconde fatos
tributáveis. O dolo é elemento nuclear nos tipos penais de crimes contra a ordem tributária, de
modo que a lei deve ser interpretada com esse componente significativo. Logo, parece claro
que a lei não pune a simples falta de recolhimento de tributo; pune, sim, a falta que decorre da
adoção de meios fraudulentos (definidos em lei) para supressão ou redução de tributo devido.
A responsabilidade penal é pessoal, e, portanto, não é transferível a terceiros, como ocorre
nos casos dos tributos devidos e respectivas multas porventura aplicadas. Respondem por
crimes fiscais os contribuintes e todas as pessoas que oferecem meios para facilitar a
sonegação de tributos ou para embaraçar as fiscalizações.
14.2.3CRIMES CONTRA OS CONSUMIDORES
O Código de Defesa do Consumidor (CDC) contém diversas regras sobre crimes contra as
relações de consumo, dentre as quais, destacamos três. Em primeiro lugar, há preceito do art.
66, que considera crime fazer afirmação falsa ou enganosa, ou omitir informação relevante
sobre a natureza, característica, qualidade, quantidade, segurança, desempenho, durabilidade,
preço ou garantia de produtos ou serviços; em seguida, o art. 67 diz que comete crime o
fornecedor que vier a fazer ou promover publicidade que sabe ou deveria saber ser enganosa
ou abusiva. Esses dois preceitos não exigem, para que haja a configuração de crime, que o
consumidor seja lesado ou sofra algum dano material ou moral. Para a incidência das normas,
basta haver divulgação de informação falsa, enganosa ou incompleta, ou, ainda, a divulgação
de publicidade notoriamente enganosa ou abusiva. Há também a regra do art. 71, que
considera haver crime se o fornecedor vier a utilizar, na cobrança de dívidas, ameaça, coação,
constrangimento físico ou moral, afirmações falsas incorretas ou enganosas ou qualquer outro
procedimento que exponha o consumidor, injustificadamente, ao ridículo ou interfira em seu
trabalho, descanso ou lazer. Nesse caso, a lei exige a prova do tratamento vexatório ou da
indevida perturbação na vida do consumidor, mesmo que ele seja um inadimplente contumaz.
O art. 76 do CDC considera que constituem circunstâncias agravantes dos crimes, dentre
outras, o fato de eles terem sido cometidos: (a) por servidor público, ou por pessoa cuja
condição econômico-social seja manifestamente superior à da vítima; e (b) em detrimento de
operário ou rurícola; de menor de 18 ou maior de 60 anos ou de pessoas portadoras de
deficiência mental. Essa norma, que prevê aumento de pena para os infratores, visa dar
efetividade ao princípio da proteção ao hipossuficiente. Em razão do disposto no art. 75 do
CDC, responderá por crimes todo aquele que, de qualquer forma, concorrer para prática
destes na medida de sua culpabilidade, bem como o diretor, administrador ou gerente da
pessoa jurídica que vier a promover, permitir, ou por qualquer modo aprovar, o fornecimento,
oferta, exposição à venda ou manutenção em depósito de produtos, ou a oferta e prestação
de serviços nas condições por ele proibidas.
14.2.4CRIMES CONTRA O MEIO AMBIENTE
Em linhas gerais, tipos penais contra o meio ambiente estão definidos nos arts. 29 a 36 da Lei
n. 9.605/98, que trata de diversos aspectos da proteção jurídica do meio ambiente, como a
fauna, a flora, o ordenamento urbano, o patrimônio cultural, e, ainda, dos crimes contra a
administração ambiental. O art. 2º da Lei n. 9.605/98 afirma que comete crime aquele que, de
qualquer forma, concorre para a prática dos crimes ambientais. O acusado é sujeito às penas
legalmente estabelecidas e responderá na medida da sua culpabilidade, e assim também
ocorrerá com o diretor, o administrador, o membro de conselho e de órgão técnico, o auditor,
o gerente, o preposto ou mandatário de pessoa jurídica, que, sabendo da conduta criminosa
de outrem, deixar de impedir sua prática, quando podia agir para evitá-la. De acordo com
preceito do art. 3º, as pessoas jurídicas serão responsabilizadas na esfera administrativa, civil e
penal, nos casos em que a infração seja cometida por decisão de seu representante legal ou
contratual, ou de seu órgão colegiado, no interesse ou benefício da sua entidade. A
responsabilidade das pessoas jurídicas não exclui a das pessoas físicas, autoras, coautoras ou
partícipes do mesmo fato. Poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua
personalidade for obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados à qualidade do meio
ambiente (art. 4º).
14.2.5CRIMES NO DIREITO DO TRABALHO
Os crimes contra as relações trabalhistas estão catalogados nos arts. 197 a 207 do Código
Penal, sem prejuízo da aplicação de outras normas que regem, por exemplo, o meio ambiente.
De acordo com o Código Penal, é crime a prática de: (a) atentado contra a liberdade de
trabalho (art. 197); (b) atentado contra a liberdade de contrato de trabalho e boicotagem
violenta (art. 198); (c) atentado contra a liberdade de associação (art. 199); (d) paralisação de
trabalho, seguida de violência ou perturbação da ordem (art. 200); (e) paralisação de trabalho
de interesse coletivo (art. 201); (f) sabotagem ou invasão de estabelecimento industrial,
comercial ou agrícola (art. 202); (g) frustração de direito assegurado por lei trabalhista (art.
203); (h) frustração de lei sobre a nacionalização do trabalho (art. 204); (i) exercício de
atividade com infração de decisão administrativa (art. 205); (j) aliciamento para o fim de
emigração (art. 206); (k) aliciamento de trabalhadores de um local para outro do território
nacional (art. 207). O art. 149 do Código Penal trata do crime de redução de alguém a condição
análoga à de escravo.
14.2.6CRIMES CONTRA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
A violação de regras e princípios de direito administrativo pode acarretar a incidência de
normas penais sobre crimes contra a administração pública (peculato, concussão,
prevaricação, corrupção etc.), previstos nos arts. 312 a 326 do Código Penal e nos arts. 89 a 98
da Lei n. 8.666/93. Neste último caso, é necessário cumprir o preceito do art. 83 da referida lei,
segundo o qual: “Os crimes definidos nesta lei, ainda que simplesmente tentados, sujeitam os
seus autores, quando servidores públicos, além das sanções penais, à perda do cargo,
emprego, função ou mandato eletivo”. Desses crimes, os mais comuns são: (a) corrupção; e
(b) concussão. Em razão do disposto no art. 317 do Código Penal, corrupção passiva é
caracterizada pelo ato de solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente,
ainda que fora da função ou mesmo antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem
indevida, ou aceitar promessa de tal vantagem. Corrupção ativa, na forma do art. 333 do
Código Penal, consiste em oferecer ou prometer vantagem indevida a funcionário público,
para determiná-lo a praticar, omitir ou retardar ato de ofício. Na forma do art. 316 do Código
Penal, crime de concussão é o praticado por funcionário público que exige, para si ou para
outrem, vantagem indevida, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou mesmo
antes de vir a assumi-la, mas em razão dela. Uma modalidade de concussão é o excesso de
exação, que ocorre quando o funcionário exige tributo ou contribuição social que sabe ou
deveria saber indevido, ou, quando devido, emprega meio vexatório ou gravoso de cobrança,
que a lei não autoriza.
14.2.7CRIMES CONTRA O SISTEMA FINANCEIRO E MERCADO DE CAPITAIS
A Lei n. 7.492/86 contém um catálogo de condutas – ações ou omissões – que caracterizam
crime contra o sistema financeiro nacional. Assim, por exemplo, os arts. 6º e 7º da referida lei
preveem pena de reclusão para aquele que vier a: (a) induzir ou manter em erro sócio,
investidor ou repartição pública competente, relativamente a operação ou situação financeira,
sonegando-lhe informação ou prestando-a falsamente; e (b) emitir, oferecer ou negociar, de
qualquer modo, títulos ou valores mobiliários que sejam: (i) falsos ou falsificados; (ii) sem
registro prévio de emissão junto à autoridade competente, em condições divergentes das
constantes do registro ou irregularmente registrados; (iii) sem lastro ou garantia suficientes; e
(iv) sem autorização prévia da autoridade competente, quando legalmente exigida. O art. 9º,
por outro lado, considera crime o ato de fraudar a fiscalização ou o investidor, inserindo ou
fazendo inserir, em documento comprobatório de investimento em títulos ou valores
mobiliários, declaração falsa ou diversa da que dele deveria constar. Essas normas, e outras
constantes da referida lei, tutelam o funcionamento do sistema financeiro nacional e
protegem o direito de investidores e demais pessoas que firmam relações com instituições
financeiras.
As normas criminais para tutela do mercado de capitais constam da Lei n. 6.385/76. Essa lei
considera crime, por exemplo:
a)realizar operações simuladas ou executar outras manobras fraudulentas destinadas a elevar,
manter ou baixar a cotação, o preço ou o volume negociado de um valor mobiliário, com o fim
de obter vantagem indevida ou lucro, para si ou para outrem, ou causar dano a terceiros (art.
27-C);
b)utilizar informação relevante de que tenha conhecimento, ainda não divulgada ao mercado,
que seja capaz de propiciar, para si ou para outrem, vantagem indevida, mediante negociação,
em nome próprio ou de terceiros, de valores mobiliários, ou, ainda, o ato de repassar
informação sigilosa relativa a fato relevante a que tenha tido acesso em razão de cargo ou
posição que ocupe em emissor de valores mobiliários ou em razão de relação comercial,
profissional ou de confiança com o emissor (art. 27-D); e
c)exercer, ainda que a título gratuito, no mercado de valores mobiliários, a atividade de
administrador de carteira, agente autônomo de investimento, auditor independente, analista
de valores mobiliários, agente fiduciário ou qualquer outro cargo, profissão, atividade ou
função, sem estar, para esse fim, autorizado ou registrado na autoridade administrativa
competente, quando exigido por lei ou regulamento (art. 27-E).
Essas normas e outras que constam da Lei n. 6.385/76 visam tutelar os direitos dos
investidores que negociam títulos emitidos por sociedades de capital aberto, bem como
manter a confiabilidade no mercado em que há captação de poupança popular.
Resumo esquemático