Hermenêutica Jurídica
Classificação Dogmática dos Métodos
e Efeitos da Interpretação Jurídica
Métodos Hermenêuticos:
Gramatical, Lógico, Sistemático,
Histórico, Sociológico, Teleológico e
Axiológico
Métodos de Interpretação Jurídica
• Métodos (ou processos) de interpretação são os
recursos de que se vale o hermeneuta para descobrir o
sentido e o alcance das expressões do Direito.
• A interpretação incide sobre a lei e as demais
expressões do Direito, e não sobre o próprio Direito.
• Alei é a forma, o Direito é o conteúdo: a interpretação
recai sobre a forma, buscando o conteúdo.
• Já a aplicação é do Direito: ante o fato concreto a tarefa
do aplicador, revelado o conteúdo da lei, sua substância,
é fazer prevalecer esse conteúdo. (HERKENHOFF,
2010, p. 12)
Métodos de Interpretação Jurídica
• “Os chamados métodos de interpretação são, na
verdade, regras técnicas que visam à obtenção de um
resultado. Com elas procuram-se orientações para os
problemas de decidibilidade dos conflitos.” (Tércio
Sampaio Ferraz)
• Os métodos não são excludentes; para que uma
interpretação seja bem feita, é necessário que eles
sejam sincretizados para se poder delimitar o sentido e
o alcance das normas jurídicas.
Métodos de Interpretação Jurídica
I – Método Gramatical : A lei é uma realidade
morfológica e sintática que deve ser, por conseguinte,
estudada do ponto de vista gramatical.
• Esse método consiste na busca do sentido literal ou
textual da norma. Esse procedimento na hermenêutica
jurídica atual deve ser apenas o ponto de partida no
momento da interpretação de uma norma, porque
muitas vezes interpretando ao pé da letra, podemos
chegar a soluções hermenêuticas injustas.
• Além de buscar fixar o sentido de cada uma das
palavras que compõe a norma jurídica, busca-se
verificar também a sintaxe da norma jurídica,
observando assim, a pontuação, colocação e escolha
dos vocábulos dentre outros aspectos.
Métodos de Interpretação Jurídica
• Método Gramatical ou Literal
• Procedimento que na hermenêutica jurídica atual deve
ser apenas o ponto de partida no momento da
interpretação de uma norma, porque muitas vezes
interpretando ao pé da letra, podemos chegar a
soluções hermenêuticas injustas. (dura lex, sed lex)
Métodos de Interpretação Jurídica
• II - Método Lógico ou Racional: Consoante o sistema
básico hermenêutico, este método deve ser sempre
observado imediatamente após a interpretação literal,
independente da aparente solução definitiva que a
interpretação gramatical possa sugerir ao intérprete.
• Exemplo: Se um dispositivo proíbe expressamente o
louco de testemunhar e silencia sobre as outras
pessoas, pelo argumento a contrario sensu conclui-se
(por exclusão) que qualquer um que não seja louco
pode vir, em princípio, a ser testemunha.
Métodos de Interpretação Jurídica
• O método lógico busca desvendar o sentido e o alcance
das normas jurídicas, estudando-a através de
raciocínios lógicos.
• Constitui um instrumento técnico, colocado à disposição
da identificação de inconsistências.
• Parte do pressuposto de que a expressão normativa
com as demais do contexto é importante para a
obtenção do significado correto.
Métodos de Interpretação Jurídica
• II - Método Lógico ou Racional:
• CPB/ Art. 150 - Entrar ou permanecer, clandestina ou
astuciosamente, ou contra a vontade expressa ou tácita de quem de
direito, em casa alheia ou em suas dependências:
• § 4º - A expressão "casa" compreende:
• I - qualquer compartimento habitado;
• II - aposento ocupado de habitação coletiva;
• III - compartimento não aberto ao público, onde alguém exerce
profissão ou atividade.
• § 5º - Não se compreendem na expressão "casa":
• I - hospedaria, estalagem ou qualquer outra habitação coletiva,
enquanto aberta, salvo a restrição do n.º II do parágrafo anterior;
• II - taverna, casa de jogo e outras do mesmo gênero.
Métodos de Interpretação Jurídica
• III - Método Sistemático: Parte do pressuposto da
unidade do sistema jurídico do ordenamento.
• No entendimento de Glauco Barreira Magalhães Filho, a
interpretação sistemática é a interpretação da norma à
luz das outras normas e do espírito (principiologia) do
ordenamento jurídico, o qual não é a soma de suas
partes, mas uma síntese (espírito) delas.
• A interpretação sistemática procura compatibilizar a
partes entre si e as partes com o todo – é a
interpretação do todo pelas partes e das partes pelo
todo.
Métodos de Interpretação Jurídica
• IV - Método Histórico: Este método permite que o intérprete possa
empreender a pesquisa genética da norma, pois através deste
método o intérprete irá buscar os antecedentes da norma.
• O intérprete irá considerar os motivos que levaram à elaboração da
norma jurídica, quais os interesses dominantes que esta norma
jurídica buscava resguardar.
• Este método vê o Direito como sendo um produto histórico, oriundo
da vida social e, desta forma, capaz de adaptar-se as novas
condições e realidades sociais.
• “É preciso ver as condições específicas do tempo em que a norma
incide, mas não podemos desconhecer as condições em que
ocorreu a sua gênese.” (TSFJr.)
Métodos de Interpretação Jurídica
• V – Método Sociológico: O método sociológico apresenta três
objetivos distintos. São eles:
• Objetivo eficacial: Tem o propósito de conferir aplicabilidade à
norma jurídica diante dos fatos sociais por ela previsto, dando-lhe
eficácia.
• Objetivo atualizador: está diretamente relacionado como o método
histórico. É uma espécie de interpretação histórico-evolutiva que
possibilita uma elasticidade maior da norma jurídica, permitindo que
ela venha a abranger situações novas antes não contempladas, que
não foram previstas pelo Legislador.
• Objetivo transformador: confere ao método sociológico um caráter
reformador que busca satisfazer os anseios pela justiça, ao
atendimento das exigências do bem comum, conforme previsto no
artigo 5º da Lei de Introdução ao Código Civil, que dispõe: “Na
aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige
e às exigências do bem comum.”
Métodos de Interpretação Jurídica
• VI – Método Teleológico (finalidade) e Axiológico (valor):
• Esses métodos têm como objetivo a interpretação da norma
jurídica a partir do fim social que ela almeja.
• “As normas devem ser aplicadas atendendo, fundamentalmente, ao
seu espírito e à sua finalidade. (...) procura revelar o fim da norma,
o valor ou bem jurídico visado pelo ordenamento com a edição de
dado preceito.” (Luís Roberto Barroso)
• O pressuposto do método teleológico (finalidade) é que sempre é
possível atribuir um propósito às normas. Ex.: art. 5º, da Lei de
Introdução ao Código Civil, contém uma exigência teleológica.
• A interpretação teleológica e axiológica ativa a participação do
interprete na configuração do sentido.
Importante:
• DA INAPLICABILIDADE DO BROCARDO “IN CLARIS CESSAT
INTERPRETATIO”
• "In claris cessat interpretatio", por esse princípio
quando a norma for redigida de forma clara e objetiva
não será necessário interpretá-la.
• A doutrina é unânime quanto a não aplicabilidade da
máxima, haja vista que tanto as leis reputadas claras
quanto as dúbias comportam interpretação.
Importante:
• Partilha desse entendimento Carlos Maximiliano ao
demonstrar que o objetivo da Hermenêutica é “descobrir
o conteúdo da norma, o sentido e o alcance das
expressões do direito.
• Obscuras ou claras, deficientes ou perfeitas, ambíguas
ou isentas de controvérsias, todas as frases jurídicas
aparecem aos modernos como susceptíveis de
interpretação” (MAXIMILIANO, P. 55).
• Portanto convém-nos afirmar que no concerne à clareza,
o brocado in claris cessat interpretatio revela-se
insustentável como método interpretativo prático.
Classificação Dogmática dos Efeitos da
Interpretação Jurídica
• Para cada interpretação realizada, teremos por
consequência efeitos diferenciados com relação ao
alcance da norma jurídica, ou seja, a interpretação,
finalmente, pode ser encarada sob a ótica do resultado.
• São três os efeitos da interpretação jurídica: Extensivo,
Restritivo e Especificador
Classificação Dogmática dos Efeitos da
Interpretação Jurídica
• Extensivo: Quando o intérprete conclui que o alcance da
norma é mais amplo do que indicam os seus termos.
• Nesse caso, diz-se que o legislador escreveu menos do que
queria dizer e o intérprete alarga o campo de incidência da
norma para aplicá-la a determinadas situações não previstas
expressamente em sua letra, mas que nela se encontram,
virtualmente, incluídas.
• Eu suma: O intérprete amplia o sentido e o alcance
apresentado pelo que dispõe literalmente o texto da norma
jurídica.
Interpretação com efeito extensivo
• Extensivo:
• Essa interpretação ocorre quando existe uma norma
legal, porém que não esclarece todas as situações que
estão abrangidas na tipificação.
• Exemplo: proibição legal da bigamia, prevista no artigo
235 do Código Penal. Naquela ocasião, a lei também
quis, de maneira implícita, proibir a poligamia.
• Art. 235. Contrair alguém, sendo casado, novo
casamento:
• Pena - reclusão, de dois a seis anos.
Classificação Dogmática dos Efeitos da
Interpretação Jurídica
• Restritivo: Quando o intérprete restringe o sentido da
norma ou limita sua incidência, concluindo que o
legislador escreveu mais do que realmente pretendia
dizer.
• Ex: Na Constituição Federal de 1967, o constituinte
disse que o casamento era indissolúvel.
• Mesmo antes do divórcio, o casamento não era
indissolúvel; a morte e a anulação eram casos de
dissolução.
• Em suma: intérprete elimina a amplitude das palavras,
restringe o sentido e o alcance apresentado pela
expressão literal da norma jurídica.
Classificação Dogmática dos Efeitos da
Interpretação Jurídica
• Restritivo:
• Normalmente, submete-se à interpretação restritiva as
normas que estabeleçam privilégio, sanção, renúncia,
fiança e aval.
• Nesse sentido, o art. 819, do código, que vai estabelecer
a necessidade de interpretação restritiva da fiança:
• CC. Art. 819. A fiança dar-se-á por escrito, e não
admite interpretação extensiva.
Classificação Dogmática dos Efeitos da
Interpretação Jurídica
• Da Interpretação Restritiva:
• TJ-RJ - APELAÇÃO APL 00075855020098190207 RIO DE
JANEIRO ILHA DO GOVERNADOR REGIONAL 2 VARA CIVEL
(TJ-RJ)
• Data de publicação: 15/12/2015
• Ementa: Ação de Cobrança de Aluguéis c/c Indenização por Dano
Moral - Composição amigável celebrada entre autor e locatários -
Homologação - Feito que prossegue em face de suposta fiadora.
Segundo dispõe o artigo 819 do Código Civil a fiança dar-se-á por
escrito, não se admitindo interpretação extensiva - Inexistência
de contrato escrito para comprovar a fiança. Impossibilidade de
inovação nas razões recursais - Sentença que merece ser
prestigiada, inclusive, no que concerne a aplicação da multa
prevista no parágrafo único do artigo 14 do Diploma Processual -
Desprovimento da Apelação.
Classificação Dogmática dos Efeitos da
Interpretação Jurídica
• Especificador ou Declarativo: Também chamado de
declarativa. É aquela em que o intérprete se limita a
declarar o sentido da norma jurídica interpretada, sem
ampliá-la nem restringi-la.
• Em suma: o intérprete chega à constatação de que as
palavras expressam, com medida exata, o espírito da lei,
cabendo-lhe apenas constatar esta coincidência.
Classificação Dogmática dos Efeitos da
Interpretação Jurídica
• STJ - RECURSO ESPECIAL REsp 888021 RJ 2006/0200259-2
(STJ)
• Data de publicação: 04/04/2011
• Ementa: RECURSO ESPECIAL - ALCANCE DO ARTIGO 10º DO
DECRETO-LEI 2.291 /86 - INTERPRETAÇÃO DECLARATIVA -
IMPOSSIBILIDADE DE TRANSFERÊNCIA DOS BENEFICIÁRIOS
DA PREVHAB À OUTRA ENTIDADE DE PREVIDÊNCIA PRIVADA,
QUE NÃO A FUNCEF - RECURSO IMPROVIDO. 1. Na
interpretação declarativa, o alcance atribuído ao texto condiz com
os termos existentes na própria lei. 2. A Caixa Econômica Federal,
como patrocinadora e mantenedora da PREVHAB, nos termos o
artigo 10º do Decreto-Lei n. 2.291 /86, está autorizada a absorve-la
ou transferir os seus beneficiários à FUNCEF, excluída qualquer
outra entidade de previdência privada. 3. Recurso improvido.
Referências:
BARROSO, Luís Roberto, Interpretação e Aplicação da Constituição, 4ªed.,
São Paulo: Saraiva, 2002.
FRANÇA, R. Limongi. Hermenêutica jurídica. 11ª ed. São Paulo: Revista
dos Tribunais, 2011.
FRIEDE, Reis. Ciência do Direito, Norma, Interpretação e Hermenêutica
Jurídica. 8ª ed. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2011.
HERKENHOFF, João Baptista. Como aplicar o direito: à luz de uma
perspectiva axiológica, fenomenológica e sociológica-política. Rio de
Janeiro: Forense, 2010
MAGALHÃES FILHO, Glauco Barreira. Hermenêutica Jurídica Clássica. Belo
Horizonte: Mandamentos, 2002.
FERRZAZ, Tercio Sampaio Júnior. Introdução ao Estudo do Direito –
Técnica, Decisão, Dominação – 6ª ed. Atlas. 2012.
SANTOS, Carlos Maximiliano Pereira dos. Hermenêutica e Aplicação do
Direito. Rio de Janeiro, RJ: Livraria Editora Freitas Barros, 1940.
“ Interpretar uma expressão de Direito não é
simplesmente tornar claro o respectivo dizer,
abstratamente falando; é, sobretudo, revelar o
sentido apropriado para a vida real, e conduzente a
uma decisão reta.”
(Carlos Maximiliano)