Hermenêutica Jurídica
Profª Ediliane Figueiredo
Hermenêutica Jurídica
E
e Concepções de Linguagem
O Abismo do Conhecimento entre
Essencialismo e Convencionalismo
• Na atualidade, não se nega mais a existência do Direito
como Ciência.
• Poucos autores contestem sua validade ou mesmo a
busca da verdade através de estudos científicos que
venham reconhecer a natureza lógica conceitual da
ciência.
• Para quaisquer estudos sobre a ciência do Direito,
temos que primeiro procurar um conceito, uma
explicação lógica, para daí ter início ao desenvolvimento
dos estudos, criticando e evoluindo até final conclusão.
Alguns Conceitos:
“Corresponde a uma certa atitude, uma forma de pensar, uma
maneira de referir-se às instituições humanas em termos
ideais. Trata-se de uma exigência do senso comum,
profundamente arraigada, no sentido de que aquelas
instituições de governo dos homens e de suas relações
simbolizem um sonho , uma projeção ideal, dentro de cujos
limites funcionam certos princípios, com independência dos
indivíduos”
(Denominação comum de Direito, conforme Arnold, 1971, p. 47)
Alguns Conceitos:
• “ Aos olhos do homem comum o Direito é lei e ordem,
isto é, um conjunto de regras obrigatórias que garantem
a convivência social, graças ao estabelecimento de
limites à ação de cada um dos seus membros. Assim
sendo, quem age de conformidade com essas regras
comporta-se direito; quem não o faz, age torto. (Miguel
Reale, Lições Preliminares de Direito, 2011, p.1)
• Segundo Reale, o Direito corresponde à exigência
essencial e indeclinável de uma convivência ordenada,
pois nenhuma sociedade poderia subsistir sem um
mínimo de ordem, de direção e solidariedade.
Essencialismo X Convencionalismo
• Os juristas sempre cuidam de compreender o direito
como um fenômeno universal.
• Nesse sentido, são inúmeras as definições que
postulam esse alcance.
• Os textos que ensejam esse objetivo formam uma série
inacabada, não só de juristas, mas também filósofos e
cientistas sociais mostram preocupações semelhantes.
• Não existe um consenso sobre o que é o direito, pelo
contrário, as definições do termo Direito são inúmeras.
• Duas correntes abordam a teoria da linguagem, através
delas se busca entender o problema da conceituação
do Direito, a saber: Essencialista e Convencionalista
Teoria Essencialista
• Para a corrente Essencialista a língua é um instrumento
que designa a realidade, donde a possibilidade de os
conceitos linguísticos refletirem uma presumida
essência das coisas. Nesse sentido, as palavras são
veículos desses conceitos.
• Essa concepção sustenta, em geral, que deve haver, em
princípio, uma só definição válida para cada palavra. De
um ponto de vista filosófico, o essencialismo remete
para a crença na existência das coisas em si mesmas,
não exigindo qualquer atenção ao contexto em que
existem.
Teoria Essencialista
• O que se observa, em geral, é que grande parte das definições do
fenômeno jurídico em sua “essência”, ou são demasiado genéricas
e abstratas e, embora aparentemente universais, imprestáveis para
traçar-lhe os limites, ou são muito circunstanciadas o que faz com
que percam sua pretendida universalidade.
• Exemplos: O direito é a intenção firme e constante de dar a cada
um o que é seu, não lesar os outros, realizar a justiça.
• Direito é um conjunto de regras dotadas de coatividade e
emanadas do poder constituído.
• Os Essencialistas defendem a existência de uma essência do
direito e o papel do filósofo é, justamente, descobrir qual é esta
essência. Tal essência além de ser um conteúdo imutável, único e
permanente, seria também universal, transcendendo tempo e
espaço.
Teoria Convencionalista
• Para a corrente Convencionalista a língua é vista como
um sistema de signos, cuja relação com a realidade é
estabelecida arbitrariamente pelos homens.
• Deve ser levado em conta o uso (social ou técnico) dos
conceitos que podem variar de comunidade para
comunidade.
• Uma posição convencionalista exige que se considerem
os diferentes ângulos de uma análise linguística. Em
outras palavras, a descrição da realidade varia conforme
os usos conceituais.
Teoria Convencionalista
• O termo direito, em seu uso comum, é sintaticamente
impreciso, pois pode ser usado como substantivo (o
direito brasileiro prevê), como advérbio (fulano não agiu
direito), como adjetivo (não se trata de um homem
direito).
• Os Convencionalistas pensam o Direito como uma
construção. Sua concepção tem caráter particular, pois
rejeita toda forma de universalismo, o direito estaria
sempre situado em um contexto histórico, social e
cultural.
• Abandonam a ideia de verdade e se aproximam da ideia
de experiência.
O Problema da Linguagem no Direito
• As linguagens, de um modo geral, são historicamente
construídas de maneira espontânea e surgiram inicialmente
na forma oral.
• Linguagem:
“ A faculdade que tem o homem de exprimir seus estados mentais por meio
de um sistema se sons vocais chamado língua, que os organiza numa
representação compreensiva em face do mundo exterior objetivo e do mundo
subjetivo interior”.
( CÂMARA JÚNIOR, Joaquim Mattoso. Dicionário de linguística e Gramática, 2007)
• O que é transmitido pela linguagem, em qualquer das suas
modalidades (oral ou escrita), em regra não possui um grau
absoluto de precisão.
O Problema da Linguagem
• Nenhuma língua possui palavras suficientes para indicar
com uma palavra específica cada fenômeno.
• Uma mesma palavra pode se referir a diversas coisas e
não há como ser de outra forma numa língua
historicamente construída.
• Em regra, o contexto tende a afastar as dúvidas sobre
qual dos sentidos está sendo utilizado numa
determinada frase.
• No caso da legislação, o contexto se apresenta não
apenas do ponto e vista semântico, mas também da
análise global da lei em que se encontra a palavra,
expressão ou frase em questão.
O Problema da Linguagem
• Há situações em que mesmo conhecendo o
contexto em que a expressão foi utilizada, ainda
pode persistir a dúvida sobre qual sentido está
sendo empregada. Temos, nestes casos, a
ambiguidade.
• Ambiguidade: ocorre quando é possível dar mais
uma interpretação a uma comunicação linguística.
O Problema da Linguagem
• Exemplo: “É inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações
telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último
caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer
para fins de investigação criminal ou instrução processual penal.” (grifos
nossos) (art. 5º, XII, da CF/88)
• Devido à ambiguidade da redação (uso do plural/singular, da pontuação e
da expressão “último caso”, conforme pode ser observado nos grifos
acima), esse inciso da Carta Constitucional de 1988 pode ser interpretado,
pelo menos, de três formas.
• (I ) a expressão “no último caso” se refere somente ao último caso
citado, ou seja, às “comunicações telefônicas”;
• (II ) de forma mais extensiva, a expressão “no último caso” se refere a
todos os casos, exceto correspondência, pois o termo correspondência
antecede a primeira conjunção coordenativa aditiva “e” e está no singular
enquanto os demais itens do rol estão no plural (i.e., comunicações
telegráficas, dados e comunicações telefônicas);
• (III) a expressão “no último caso” significa “não havendo outros meios de
prova em face do caso concreto”.
O Problema da Linguagem
• Vagueza: ao contrário da ambiguidade, sabemos o sentido em que
a palavra está sendo utilizada na frase, no entanto por apresentar
um sentido muito generalista, muito amplo que pode dificultar a
interpretação.
• Ex: “Ocorrendo motivo grave para que não se efetue o pagamento
no lugar determinado, poderá o devedor fazê-lo em outro, sem
prejuízo para o credor” (grifos nossos) ( Código Civil, art. 309)
• “Perderá o mandato o Deputado ou Senador:
• I--------
• II cujo procedimento for declarado incompatível com o decoro
parlamentar. (grifos nossos) (Art. 55, inciso II, da CF/88)
• Qual o teor semântico do signo decoro parlamentar?
• Onde estaria a definição desta expressão?
O Problema da Linguagem
• O grau de vagueza semântica pode gerar conceitos imprecisos,
indeterminados. Sobre os limites dos conceitos jurídicos
indeterminados Adriano Soares da Costa assim se posiciona:
“A existência de termos jurídicos indeterminados e a porosidade da
linguagem das normas jurídicas criam um sério problema para a
sua aplicação, porque deixam para o intérprete, no mais da vez, a
possibilidade de escolher entre opções hermeneuticamente
possíveis e aceitáveis (discricionariedade).
• É preciso gizar que a existência de polissemia e vagueza não é
uma opção que possa ser descartada por inteiro pelo legislador ao
elaborar um texto legal: são características da linguagem que não
podem ser totalmente eliminadas. Todavia não raro opta o legislador
por utilizar palavras de classe ou cláusulas gerais, cuja função é
justamente dar às normas jurídicas uma maior elastério semântico,
alcançando o maior número possível de casos (...)”
O Problema da Linguagem
• Há um número considerável de casos flagrantes de indeterminação
no texto da Constituição de 1988. Entre os termos encontrados,
estão adjetivos com elevado teor de subjetividade, como
“negligente”, “abusivo”, “adequada”, e “notório”, além de advérbios
igualmente dotados de alta vagueza, como “temporariamente” e
“periodicamente”. Os artigos 37, 49, 50, 52, 55 e 73 são alguns
exemplos.
• Art. 37, § 3º: A lei disciplinará as formas de participação do usuário
na administração pública direta e indireta, regulando especialmente:
• III - a disciplina da representação contra o exercício negligente ou
abusivo de cargo, emprego ou função na administração pública.
O Problema da Linguagem
• Art. 49: É da competência exclusiva do Congresso Nacional:
• I - resolver definitivamente sobre tratados, acordos ou atos
internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos
ao patrimônio nacional;
• VI - mudar temporariamente sua sede;
• Art. 50. A Câmara dos Deputados e o Senado Federal, ou qualquer
de suas Comissões, poderão convocar Ministro de Estado ou
quaisquer titulares de órgãos diretamente subordinados à
Presidência da República para prestarem, pessoalmente,
informações sobre assunto previamente determinado, importando
crime de responsabilidade a ausência sem justificação adequada.
O Problema da Linguagem
• Art. 52. Compete privativamente ao Senado Federal:
• XV - avaliar periodicamente a funcionalidade do Sistema Tributário
Nacional, em sua estrutura e seus componentes, e o desempenho
das administrações tributárias da União, dos Estados e do Distrito
Federal e dos Municípios.
• Art. 73. O Tribunal de Contas da União, integrado por nove
Ministros, tem sede no Distrito Federal, quadro próprio de pessoal e
jurisdição em todo o território nacional, exercendo, no que couber,
as atribuições previstas no art. 96.
• § 1º - Os Ministros do Tribunal de Contas da União serão nomeados
dentre brasileiros que satisfaçam os seguintes requisitos:
• II - idoneidade moral e reputação ilibada;
• III - notórios conhecimentos jurídicos, contábeis, econômicos e
financeiros ou de administração pública;
O Problema da Linguagem
• Segundo Rafael Pinna Sousa (2008), por coincidência
ou não – provavelmente não - praticamente todos os
casos mais flagrantes de indeterminação de sentido
estão presentes em artigos que instituem regras de
limitações específicas para governantes e legisladores.
• Essa percepção por si só, já pode ser considerada um
forte indicio de que parte das vaguezas e das
ambiguidades presentes nos textos legais de fato seja
fruto de uma estratégia dos legisladores para permitir
um maior negociação política ou até mesmo o não
cumprimento de algumas regras.
• ( Rafael Pinna Sousa - O dizer, o não dizer e o dito: ambiguidades e vaguezas na Constituição Federal de
1988 - Dissertação de Mestrado – PUC - Rio de Janeiro. 2008.)
O Problema da Linguagem
• Porosidade – A ordem é flexível, dotada de mobilidade.
Todos devem ser intérpretes da Constituição porque a
norma jurídica se destina aos indivíduos que integram
uma coletividade, por isso deve se saber interpretá-la.
Conservar a ordem jurídica atualizada – aberta aos
tempos.
• Quando se reporta a palavras como “liberdade”,
“dignidade humana”, não necessariamente se tem um
único significado, pois pode ter várias abrangências. Se
tem na CF/88 uma multiplicidade de sentidos, para estar
aberta aos tempos, para que se possa trabalhar com
muitos sentidos e de forma atualizada.
O Problema da Linguagem
• Vejamos:
• CF/1988
• Art. 1º. A República Federativa do Brasil, formada pela união
indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal,
constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como
fundamentos:
(...)
• III – a dignidade da pessoa humana; (...)
• Art. 5º. (caput) Todos são iguais perante a lei, sem distinção de
qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros
residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à
igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
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e o Controle de Significados
• Na Hermenêutica Jurídica existem, basicamente, dois tipos de
sentido: o semasiológico e o onomasiológico.
• Semasiológico - é o sentido técnico dos termos.
• Onomasiológico - é o sentido comum (vulgar) das palavras.
• O Direito possui uma grande quantidade de termos próprios à
sua ciência. Ao lado da linguagem comum, encontramos
também termos que são específicos da Ciência do Direito.
A Hermenêutica Jurídica
e o Controle de Significados
• Alguns termos ou expressos são totalmente incompreensíveis para
os desconhecedores dos jargões jurídicos:
• Exemplos:
• Petição - É o que o advogado escreve pedindo e manda para o
julgador. Todo escrito do advogado para o julgador é uma petição,
onde ele esta pedindo algo para o julgador. Alguma petições tem
nome especial, como agravo, apelação, inicial, outras não, mas
todas são petições
• Acórdão - Chama-se de Acórdão a decisão de um colegiado (mais
de um julgador) sobre alguma coisa no processo. É como se fosse
uma sentença, só que a sentença é a decisão de um julgador único
de primeira instância, já o acórdão é de um conjunto de julgadores
em instâncias superiores, de regra julgando recursos.
• Desaforamento - É o deslocamento de um processo de
competência do Tribunal do Júri, já iniciado, de um foro para outro,
transferindo-se para este a competência para dele conhecer e julgá-
lo.
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e o Controle de Significados
• Outros formulados de linguagem tiradas da linguagem
comum, mas remodelados para sentidos novos em
relação aos que são comumente usados.
• Exemplos:
• Apelação - É o recurso que se entra para tentar
modificar a sentença.
• Caducar- Perder a validade ou a força de um direito,
em decorrência do tempo; superado o prazo legal, o
titular do direito não mais poderá exercê-lo.
• Contestação - É a resposta do réu a ação, é a petição
através do qual o processado apresenta a sua defesa.
• Improcedente - Quando o julgamento da causa é
desfavorável ao autor
A Hermenêutica Jurídica
e o Controle de Significados
• O referencial linguístico é indispensável para o
desenvolvimento dos processos decisórios.
• Dentre os sentidos possíveis do texto jurídico, o
intérprete haverá de eleger a significação normativa
mais adequada para as peculiaridades fáticas e
valorativas de uma dada situação social.
• É importante que a linguagem utilizada na legislação,
apesar da necessidade do uso dos termos técnicos, seja
dotada de uma compreensão para o público em geral,
fornecendo aos não estudiosos do direito um acesso a
este mundo jurídico, que os permita seguir no ambiente
social.
Bibliografia:
• Costa, Adriano Soares da. Teoria da incidência da
norma jurídica – crítica ao realismo linguístico de Paulo
de Barros Carvalho - 2ª ed. São Paulo: Malheiros, 2009.
• FERRZAZ, Tercio Sampaio Júnior. Introdução ao
Estudo do Direito – Técnica, Decisão, Dominação – 6ª
ed. Atlas. 2012.
• SOARES, Ricardo Maurício Freire. Hermenêutica e
Interpretação. 1ª ed. São Paulo. Ed. Saraiva, 2010.
O juiz não é nomeado para fazer favores com a justiça,
mas para julgar segundo as leis.
(Platão)