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Estrutura e História da República

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República

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

A República (do latim res publica, "coisa pública") é uma estrutura


política de Estado ou forma de Governo em que, segundo Cícero, são
necessárias três condições fundamentais para caracterizá-la: um número
razoável de pessoas (multitude); uma comunidade de interesses e de
fins (communio); e um consenso do direito (consensus iuris). Nasce das
três forças reunidas: libertas do povo, auctoritas do senado e potestas
dos magistrados.[1] A República é vista, mais recentemente, como uma
forma de governo na qual o chefe do Estado é eleito pelo povo ou seus
representantes, tendo a sua chefia uma duração limitada.[2] A eleição do
chefe de Estado, por regra chamado presidente da república, é
normalmente realizada através do voto livre e secreto. Dependendo do
sistema de governo, o presidente da república pode ou não acumular o
poder executivo permanecendo por quatro anos.

A origem deste sistema político está na Roma antiga, onde primeiro


surgiram instituições como o senado. Nicolau Maquiavel descreveu o
governo e a fundação da república ideal na sua obra Discursos sobre a
primeira década de Tito Lívio (1512-17). Estes escritos, bem como os
de seus contemporâneos, como Leonardo Bruni, constituem a base da
ideologia que, em ciência política, se designa por republicanismo.[3][4]
O conceito de república não é isento de ambiguidades, confundindo-se
às vezes com democracia, às vezes com liberalismo, às vezes tomado
simplesmente no seu sentido etimológico de "bem comum". Hoje em Η Πολιτεία - De Republicade Platão,
dia, o termo república refere-se, regra geral, a um sistema de governo edição bilingue de 1713.
cujo poder emana do povo, ao invés de outra origem, como a
hereditariedade ou o direito divino. Ou seja, é a designação do regime que se opõe à monarquia.

No entanto, res publica, como sinónimo de administração do bem público ou dos interesses públicos,[5] foi
frequentemente utilizada pelos escritores romanos para se referir ao Estado e ao governo, mesmo durante o
período do Império Romano.[6] A palavra república foi, com o mesmo significado, também frequentemente
usada no Reino de Portugal. D. João II, por exemplo, numa carta ao rei de França, escreveu: "obrigação é do
bom Príncipe e prudente, não somente galardoar seus vassalos com honras, cargos e dignidades merecidas, mas
castigar com rigor, severidade e justiça aos que são prejudiciais em sua república, para que os bons com o
exemplo do prémio sejam melhores e os maus ou com castigo se emendem, ou com as maldades pereçam".[7]

Um novo conjunto de significados para o termo república veio, também, da palavra grega πολιτεία (politeía ou
politeia). Cícero, entre outros escritores latinos, traduziu politeia para res publica que, por sua vez, os
estudiosos do Renascimento passaram a república. Esta, sendo uma tradução precisa para res publica no seu
significado primitivo, já não o é no atual. Politeia é hoje geralmente traduzida por "forma de governo" ou
"regime". No entanto, um exemplo da persistência desta tradução original é o título do grande trabalho de
ciência política de Platão, A República, (Politeia, no original).[8] Antônio Houaiss regista a entrada da palavra
na língua portuguesa no século XV nas formas respublica, reepublica, ree publica, repruvica, rrepublica e
republica.[9] Na língua inglesa, a palavra republic foi usada pela primeira vez na era do Protetorado de Oliver
Cromwell, embora commonwealth, tradução mais fiel da latina res publica, seja o termo mais comum para
designar este regime sem monarca.[10] Na concepção moderna de República por Roque Antônio Carrazza:
"República é o tipo de Governo, fundamentado na igualdade formal das pessoas, em que os detentores do poder
político exercem-no em caráter eletivo, representativo (via de regra), transitório e com responsabilidade".[11]
Índice
1 História
1.1 Repúblicas clássicas
1.2 Outras repúblicas antigas
1.3 Repúblicas mercantis
1.4 Repúblicas protestantes
1.5 Repúblicas liberais
1.6 Repúblicas socialistas e comunistas
1.7 Repúblicas islâmicas
2 Chefe de Estado
2.1 Estrutura
2.2 Eleição
3 Regimes republicanos nos países lusófonos
3.1 Angola
3.2 Brasil
3.3 Cabo Verde
3.4 Moçambique
3.5 Portugal
4 Referências
5 Bibliografia
6 Ver também
7 Ligações externas

História
Repúblicas clássicas

Há vários estados da Antiguidade clássica que, pelos parâmetros atuais,


podemos considerar repúblicas, como é o caso das cidades-estados da
Grécia Antiga, como Atenas e Esparta,[12] bem como da própria República
Romana. No entanto, a estrutura e o modo de governo desses estados eram
consideravelmente diferentes dos que iríamos encontrar bem mais tarde, na
Idade Moderna.[13] Há, inclusive, uma controvérsia entre os estudiosos da
matéria sobre se há ou não um continuum histórico entre as repúblicas Senatus Populusque Romanus
clássica, medieval e moderna.[5] Por um lado, o historiador J.G.A. Pocock,
que tem desempenhado um papel central neste debate,[5]
argumenta que há uma tradição republicana própria que se
estende do mundo clássico até ao presente.[3] Paul Rahe,
pelo contrário, argumenta que as repúblicas clássicas
tinham uma forma de governo com poucas semelhanças
com a de qualquer república moderna.[12]

Seja como for, parece inegável que a filosofia política das


repúblicas clássicas teve uma influência central no
pensamento republicano ao longo dos séculos seguintes.
Uma série de escritores clássicos discutiram formas de
Senado romano reunido na Cúria Hostília.
governo alternativas à monarquia em obras que filósofos e
políticos posteriores — como Maquiavel, Montesquieu,
Adams e Madison — acabaram por considerar fundacionais sobre a natureza das repúblicas.
A Política de Aristóteles discutia várias formas de governo. Uma delas, a politeia, uma forma de governo
híbrida, foi considerada por Aristóteles como a forma ideal de governo. Políbio expandiu muitos desses
princípios, mais uma vez desenvolvendo a ideia de governo misto. A mais importante obra romana nesta
tradição é De re publica de Cícero.

Com o tempo, as repúblicas clássicas foram conquistadas por impérios ou tornaram-se, elas próprias, impérios.
A maioria das repúblicas gregas foi anexada ao Império Macedónio de Alexandre, o Grande. A república
romana expandiu-se, anexando sucessivamente outros estados do Mediterrâneo, alguns deles repúblicas, como
Cartago. A república romana acabou, ela própria, por se transformar no Império Romano.

Outras repúblicas antigas

Geralmente considera-se que as repúblicas pré-modernas foram fenómenos exclusivamente europeus, no


entanto houve estados noutras partes do mundo com formas de governos similares.[5] São exemplos disso
algumas cidades do Próximo Oriente antigo. Arwad, na atual Síria, tem sido citada como um dos primeiros
exemplos de uma república, em que são as pessoas que são descritas como soberanas e não um monarca.[14] A
Confederação Israelita, da era anterior ao Reino de Israel, também tem sido considerada uma espécie de
república.[5][15] Durante a Idade Média, várias cidades-estados italianas tinham uma forma de governo de tipo
comunal, chamada signoria. Escritores coevos, como Giovanni Villani, teorizaram sobre a natureza destes
estados e as diferenças em relação às monarquias da época, usando termos como libertas populi para designar o
regime destes estados. O renovado interesse pelas obras da Grécia e da Roma Antigas levou os escritores no
século XV a preferirem uma terminologia mais clássica. Para descrever os estados não-monárquicos, os
escritores quatrocentistas, principalmente Leonardo Bruni, passaram a adotar a expressão latina res publica.[16]
Na primeira das suas obras, Nicolau Maquiavel dividia os governos em três tipos: monarquia, aristocracia e
democracia. Mas como, segundo o próprio Maquiavel, é difícil destrinçar entre uma aristocracia governada por
uma determinada elite e uma democracia governada por um conselho nomeado pelo povo, no momento em que
começou a trabalhar em O Príncipe, Maquiavel já tinha optado por usar a palavra república para se referir tanto
a aristocracias como a democracias.[15]

Outra zona do globo onde se tem vindo a dar atenção ao fenómeno das repúblicas antigas é a Índia. No início
do século XX, uma série de estudiosos indianos, principalmente K.P. Jayaswal, começou a defender que vários
estados da Índia Antiga tinham formas republicanas de governo.[17] Como não há constituições ou obras de
filosofia política desse tempo que tenham sobrevivido até aos nossos dias, as formas de governo têm de ser
deduzidas, a maioria das vezes, dos testemunhos dos textos religiosos. Estes textos referem que determinados
estados eram Gana sangha, ou seja, baseados em conselhos, em oposição aos governos monárquicos.

Outra fonte que atesta esta forma de governo são os relatos gregos da Índia, durante o período de contacto que
se seguiu às conquistas de Alexandre. Escritores gregos como Megástenes e Arriano escreveram que diversos
estados indianos tinham governos republicanos semelhantes aos da Grécia.[18] A partir de 700 a.C.,
aproximadamente, as repúblicas foram-se desenvolvendo numa faixa que ia do Vale do Indo, a noroeste, até à
Planície do Ganges, a nordeste. Eram, principalmente, estados de pequeno porte, embora algumas
confederações de repúblicas parece terem-se formado, cobrindo vastas áreas, como Vajji, por volta de 600 a.C.,
que tinha Vaishali como capital.[19]

Tal como na Grécia, a era republicana chegou ao fim pelo século IV a.C., com a ascensão de um império
monárquico — o Império Máuria — que conquistou quase todo o subcontinente, pondo fim à autonomia das
repúblicas. Algumas continuaram sendo repúblicas, sob a suserania máuria, ou regressaram ao sistema
republicano mais tarde, após a queda do império. Madra, por exemplo, sobreviveu como república até ao século
IV d.C. O fim das repúblicas na Índia acabou por vir, no entanto, com a ascensão da Dinastia Gupta e a
propagação da filosofia da natureza divina da monarquia, que lhe esteve associada.

Repúblicas mercantis
As repúblicas reapareceram na Europa no final da Idade
Média, quando uma série de pequenos estados adotaram
sistemas republicanos de governo. Apesar de geralmente
pequenas, eram repúblicas comerciais ricas em que a classe
mercantil adquiriu proeminência social e política. O
historiador dinamarquês Knud Haakonssen refere que, no
Renascimento, a Europa estava dividida entre os estados
controlados pela elite terratenente — as monarquias — e os
controlados pela elite comercial — as repúblicas.[4]

Ao longo da Idade Média, um pouco por todas as cidades


da Europa foi crescendo uma abastada classe de
comerciantes que, apesar da sua grande riqueza, não
Palácio dos Doges e coluna do leão, Praça de São
detinha qualquer poder, totalmente concentrado nas mãos
Marcos, na Sereníssima República de Veneza.
da nobreza feudal. Por toda a Europa os burgueses
começaram também a reivindicar privilégios e poder,
levando os monarcas a conceder regalias pontuais a certas localidades, expressas em documentos que tomaram
o nome de royal charters na Inglaterra; fueros em Castela; cartas de foral em Portugal; etc.

Nos territórios menos centralizados, como no Sacro Império Romano-Germânico, 51 das maiores cidades
tornaram-se cidades livres. Ainda que sob o domínio mais ou menos simbólico do imperador, muitas destas
urbes adotaram formas republicanas de governo local.[20] O mesmo se passou com as cidades comerciais mais
importantes da Suíça que, graças à geografia alpina, tinham ficado de fora do controlo central. Ao contrário do
que ocorreu em Itália e na Alemanha, na Suíça grande parte das zonas rurais nunca chegou a ser controlada por
senhores feudais, mas sim por agricultores independentes que também utilizaram formas comunais de governo.
Quando, no final do século XIII, os Habsburgos tentaram retomar o controlo da região, tanto os agricultores
rurais como os comerciantes urbanos rebelaram-se, proclamando a Confederação Helvética. A Suíça mantém a
forma republicana de governo até ao presente.[15]

Durante a Idade Média, a Itália era a zona mais densamente povoada da Europa e também a que tinha o
governo central mais fraco. Muitas das cidades, por isso, declararam-se independentes e adotaram formas
comunais de governo. Completamente livres do poder feudal, as cidades-estado italianas expandiram-se,
passando a controlar também o interior rural.[21] As mais poderosas destas repúblicas marítimas foram a
República de Veneza e a República de Génova que rivalizavam entre si. Ambas eram grandes potências
comerciais marítimas que se foram expandindo pelo Mediterrâneo. Foi também em Itália que primeiro se
desenvolveu uma ideologia advogando a forma republicana de governo. Escritores como Bartolomeu de Lucca,
Brunetto Latini, Marsílio de Pádua e Leonardo Bruni viram as cidades-estado medievais como verdadeiras
continuadoras do legado da Grécia e da Roma Antiga.

No entanto, estas repúblicas estavam longe de se poder comparar às democracias de hoje em dia. Por regra, o
governo das repúblicas medievais assentava num conselho, constituído por uma elite de patrícios. Em muitos
estados nunca foram realizadas eleições diretas, sendo os lugares no conselho hereditários ou nomeados pelos
membros já existentes. Nas repúblicas onde foram realizadas eleições, o direito de votar e de ser eleito estava
grandemente condicionado à riqueza da pessoa em questão e à sua filiação em corporações de ofícios, mesteres
ou guildas. Isto deixou a grande maioria da população sem poder político, pelo que eram comuns os motins e as
revoltas das classes mais baixas. O final da Idade Média viu mais de duzentos levantamentos nas cidades do
Sacro Império Romano-Germânico.[22] Revoltas semelhantes ocorreram um pouco por toda a Europa, como em
Florença com a Revolta dos Ciompi.

Repúblicas protestantes

Enquanto que, para as repúblicas italianas, os escritores clássicos haviam sido a principal fonte ideológica, no
Norte da Europa, a Reforma Protestante seria utilizada como a grande justificação para o estabelecimento de
novas repúblicas.[23] A mais importante foi a teologia calvinista, que se desenvolveu na Confederação Suíça,
uma das maiores e mais poderosas repúblicas medievais. João Calvino não pediu a abolição da monarquia, mas
defendeu o direito dos fiéis a derrubar os monarcas contrários à religião.[24] O calvinismo também defendia um
rigoroso igualitarismo e uma oposição à hierarquia. A defesa da república apareceu nos escritos dos huguenotes
durante as guerras religiosas em França.[25]

O Calvinismo desempenhou um importante papel nas revoltas republicanas na Grã-Bretanha e na Holanda. Tal
como as cidades-estados de Itália e da Liga Hanseática, também a Grã-Bretanha e a Holanda eram importantes
centros de comércio, com uma grande classe de comerciantes prosperando com o comércio com o Novo
Mundo. Grande parte da população destes dois países também abraçou o calvinismo. A Revolta Holandesa,
começando em 1568, viu a República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos rejeitar o domínio da
Espanha dos Habsburgos num conflito que durou até 1648 — a Guerra dos Oitenta Anos.

Em 1641, estalou a guerra civil inglesa. Liderada pelos puritanos e financiada pelos mercadores de Londres, a
revolta triunfou e o rei Carlos I acabou por ser decapitado. Na Inglaterra, James Harrington, Algernon Sidney e
John Milton foram dos primeiros autores a defender a rejeição da monarquia e a adoção de uma forma
republicana de governo. A República Inglesa teve vida curta e a monarquia foi restaurada onze anos depois. A
República Holandesa continuou oficialmente até 1795 mas, a partir de 1747, o Stadthouder torna-se um
monarca de facto. Os calvinistas foram também dos primeiros colonizadores das colónias holandesas e
britânicas da América do Norte, influenciando decisivamente a evolução política desses territórios.

Repúblicas liberais

No início da idade moderna, assistiu-se, na Europa, a duas evoluções


antagónicas. Por um lado, a monarquia absolutista substituiu a
monarquia descentralizada que havia existido na maior parte da idade
média. Por outro, foi-se desenvolvendo uma forte reação contra o poder
absoluto dos monarcas, levando à criação de uma nova ideologia
conhecida como liberalismo.

No entanto, a maioria destes novos pensadores iluministas estava mais


interessada na implantação da monarquia constitucional do que da
Alegoria à república, emParis
república. O regime de Cromwell tinha desacreditado o republicanismo
e a maioria dos pensadores entendia que as repúblicas conduziam à
anarquia ou à tirania.[26] Assim, filósofos como Voltaire, por exemplo,
opunham-se ao absolutismo ao mesmo tempo que eram fortemente pró-
monárquicos.

Rousseau e Montesquieu elogiaram as repúblicas e encararam as


cidades-estado da Grécia antiga como modelos. Rousseau descreveu a
sua estrutura política ideal de pequenas comunas autogeridas.
Montesquieu escreveu que uma cidade-estado idealmente deveria ser
uma república, mas defendeu que uma monarquia com poderes
limitados seria mais adequada para uma grande nação. Ambos
concordavam que não seria possível governar um grande estado-nação
como a França, com vinte milhões de pessoas, como uma república.

A revolução americana começou apenas como uma rejeição da


autoridade do parlamento britânico sobre as colónias. O fracasso do
monarca britânico em proteger as colónias do que consideravam uma We, the People (Nós, o Povo): primeira
página da constituição dos Estados
violação do seu direito a um governo representativo, a sumária
Unidos
condenação como traidores dos que defendiam os seus direitos,
agravado pelo envio do exército como demonstração de autoridade
resultou na percepção generalizada da monarquia britânica como tirânica. Com a declaração da independência,
os líderes da revolta rejeitaram firmemente a monarquia e, como tal, abraçaram o republicanismo. Os líderes da
revolução eram bem conhecedores dos escritos dos pensadores liberais franceses e também da história das
repúblicas clássicas. John Adams tinha até escrito um livro sobre as
repúblicas ao longo da história. Além disso, a ampla distribuição da
obra Common Sense, de Thomas Paine, de forma sucinta e eloquente
propagou junto do grande público os ideais republicanos e a
independência. A Constituição dos Estados Unidos, ratificada em 1789,
criou uma república federal relativamente forte, em substituição de uma
confederação relativamente fraca, primeira proposta para um governo
nacional através dos Artigos da Confederação, ratificados em 1783. As
primeiras dez emendas à constituição, chamadas Bill of rights,
consagraram certos direitos naturais fundamentais para os ideais
republicanos, que justificaram a revolução. Ilustração alusiva à proclamação da
república portuguesa
Tal como a americana, também a revolução francesa não era
republicana no seu início. Somente após a fuga de Varennes ter retirado
o que restava da pouca simpatia de que o rei gozava, é que foi declarada
a república e Luís XVI enviado para a guilhotina. O sucesso estrondoso
da França nas guerras revolucionárias francesas viu as repúblicas
espalharem-se pela força das armas um pouco por toda a Europa, à
medida que uma série de repúblicas clientes foram criadas em todo o
continente. A ascensão de Napoleão marcou o final da primeira
república francesa e a sua posterior derrota permitiu às monarquias
vitoriosas porem fim a muitas das mais antigas repúblicas do
continente, incluindo Veneza, Génova e a Holanda.

Fora da Europa, um outro grupo de repúblicas foi sendo criado à


medida que as Guerras Napoleónicas permitiram que os estados de
América latina ascendessem à independência. A ideologia liberal teve
apenas um impacto limitado nestas novas repúblicas. O impulso
principal foi da população crioula, descendente dos europeus, em
conflitos com os governadores peninsulares enviados d'além-mar. A
maioria da população na América latina era de ascendência ameríndia
ou africana com a qual a elite crioula tinha pouco interesse em partilhar
o poder através de uma soberania popular alargada. Simón Bolívar, o Anúncio da Proclamação da República
principal instigador das revoltas e também um de seus teóricos mais Irlandesa
importantes, simpatizava com os ideais liberais, mas entendia que à
América Latina faltava-lhe a coesão social para que esse sistema
funcionasse e defendeu a autocracia, sempre que necessária.

No México, esta autocracia tomou, por pouco tempo, a forma de uma monarquia no Primeiro Império
Mexicano. Devido à guerra peninsular, a família real portuguesa transferiu-se para o Rio de Janeiro em 1808. O
Brasil atingiu a independência como uma monarquia em 7 de setembro de 1822, tendo o império do Brasil
durado até 1889. Nos demais estados, diferentes formas de república autocrática existiram até sua liberalização
no final do século XX. [27]

A segunda república francesa foi criada em 1848 e a terceira república francesa em 1871. A Espanha inaugurou
a sua primeira república, apenas para ver regressar a monarquia poucos anos depois. No início do século XX, a
França e a Suíça mantinham-se como as únicas repúblicas na Europa. Antes da primeira guerra mundial, a
república portuguesa, implantada através da revolução de 5 de outubro de 1910, foi a primeira do novo século.
Isto estimularia o aparecimento de mais repúblicas no rescaldo da guerra, quando vários dos maiores impérios
europeus entraram em colapso. O império alemão, o império austro-húngaro, o império russo e o império
otomano foram substituídos por várias repúblicas. Novos estados tornaram-se independentes e muitos destes,
como a Irlanda, a Polónia, a Finlândia e a Checoslováquia escolheram formas republicanas de governo. Em
1931, a segunda república espanhola terminou numa guerra civil que seria o prelúdio da segunda guerra
mundial.
As ideias republicanas foram se espalhando, especialmente na Ásia. A partir do final do século XIX os Estados
Unidos começaram a ter uma influência crescente na Ásia, com os missionários protestantes a desempenharem
um papel central. Os escritores liberais e republicanos ocidentais também exerceram influência. Isto combinado
com o Confucionismo inspirou a filosofia política que há muito argumentava que a população tinha o direito de
rejeitar um governo injusto que tivesse perdido o mandato do céu.

Duas repúblicas de vida breve foram proclamadas no extremo oriente: a república de Formosa e a primeira
república filipina. Na China, um forte sentimento contra a dinastia Qing e uma série de movimentos de protesto
levaram à criação de uma monarquia constitucional. O líder mais importante deste movimento foi Sun Yat-sen,
cujos três princípios do povo combinavam ideias americanas, europeias e chineses. A república da China
acabou por ser proclamada em 1 de janeiro de 1912.

Repúblicas socialistas e comunistas

Entre a década de 1920 e o início da de 90, numerosos estados


adotaram designações como "república democrática", "república
popular" ou "república socialista": República Popular da Mongólia
(1924-1992), República Popular Federal da Jugoslávia (1946–1963),
República Popular de Angola (1975–1992), República Popular
Democrática do Iémen (1967–1970), República Democrática Alemã
(1949–1990), República Socialista do Vietname (1976-atualidade), etc.
Tratava-se, por regra, de repúblicas com formas de governo
caraterizadas pela adoção da ideologia comunista como princípio
orientador da ação do estado. Estas repúblicas podiam ter vários
Edital da Comuna de Paris.
partidos políticos legais, mas ao Partido Comunista era concedido um
papel privilegiado ou dominante no governo,[28] princípio muitas vezes
definido na própria Constituição, ao ponto de se confundirem as instituições do estado com as do partido.

A grande fonte de inspiração para as repúblicas socialistas do século XX veio da Comuna de Paris de 1871,
quando as classes sociais mais desfavorecidas tomaram o controle da capital de França. Karl Marx descreveu a
Comuna como o protótipo do governo revolucionário do futuro "a forma política, finalmente descoberta, com a
qual se realiza a emancipação económica do trabalho."[29]

Friedrich Engels observou como um dos grandes ensinamentos a recolher da Comuna, a forma como se
remunerou a todos os funcionários "grandes e pequenos, apenas o salário que outros operários recebiam. (...)
Assim se fechou a porta, eficazmente, à caça aos cargos e à ganância da promoção".[30] Nas palavras de Engels,
a "classe operária, para não perder de novo a sua própria dominação, acabada de conquistar, tinha, por um lado,
de eliminar a velha maquinaria de opressão até aí utilizada contra si própria, mas, por outro lado, de precaver-se
contra os seus próprios deputados e funcionários, ao declarar estes, sem qualquer excepção, revogáveis a todo o
momento."[30] Engels defendeu, no entanto, que tal estado seria temporário, apenas "até que uma geração
crescida em novas, livres condições sociais, se torne capaz de se desfazer de todo o lixo do Estado".[30]

Essas ideias foram adotadas por Vladimir Lenine, em 1917 pouco antes da Revolução de Outubro na Rússia e
publicadas em O Estado e a Revolução, um texto fundamental para muitos marxistas. Com o fracasso da
revolução mundial prevista por Lenine e Trotsky, a Guerra Civil Russa, e, finalmente, a morte de Lenine, as
medidas de guerra que eram considerados temporárias, como a requisição forçada de alimentos e a falta de
controlo democrático, tornaram-se permanente e uma ferramenta de reforço do poder de Estaline.

Ao longo do século XX, a maioria das repúblicas socialistas e comunistas adotaram economias planificadas. No
entanto, houve algumas exceções: a União Soviética durante a década de 1920 e a Jugoslávia após a Segunda
Guerra Mundial permitiram um mercado limitado e um grau de autogestão dos trabalhadores; enquanto a
China, o Vietname e o Laos introduziram profundas reformas económicas após a década de 1980.
No início da década de 1990, a grande maioria destes países fizeram acompanhar o processo de abertura
económica e política dos seus regimes do abandono destes qualificativos, passando simplesmente a
designarem-se por "repúblicas". Há, no entanto, estados na atualidade que, não sendo propriamente marxistas-
leninistas, usam termos como "democrática", "popular" e "socialista" nos títulos oficiais dos países. São
exemplos disto a Argélia (República Argelina Democrática e Popular); o Bangladesh (República Popular do
Bangladesh); a Líbia (Grande República Socialista Popular Árabe da Líbia); São Tomé e Príncipe (República
Democrática de São Tomé e Príncipe) e Timor-Leste (República Democrática de Timor-Leste).

Repúblicas islâmicas

Muitas repúblicas de população maioritariamente muçulmana quiseram juntar a palavra "islâmica" à sua
designação oficial. O Paquistão, por exemplo, adotou o título através da Constituição de 1956; a Mauritânia
adotou-o em 28 de novembro de 1958; o Irão após a Revolução Iraniana de 1979 que derrubou a dinastia
Pahlavi; o Afeganistão após o derrube dos talibãs em 2001.

A filosofia política islâmica tem uma longa tradição de oposição à monarquia absolutista, expressa,
nomeadamente, na obra do filósofo muçulmano Al-Farabi. A Xariá, lei islâmica, tinha precedência sobre a
vontade do governante que deveria ser escolhido através de um conselho, a Ash-Shura. Apesar dos primeiros
califados terem mantido os princípios da eleição do governante, mais tarde os estados tornaram-se ditaduras
hereditárias ou militares, embora muitos mantivessem uma, pouco mais do que simbólica, ash-shura
consultiva.

No entanto, nenhum desses estados é geralmente referido como sendo uma república. O termo árabe atual
‫( ﺟﻤﻬﻮرﻳﺔ‬jumhūrīyyat), surgiu no final do século XIX,[31] decalcando o conceito ocidental de república. No
século XX o republicanismo tornou-se um movimento importante em grande parte do Médio Oriente, à medida
que as monarquias foram caindo em muitos estados da região. Alguns, como o Iraque e a Turquia, tornaram-se
repúblicas seculares. Outras nações, como a Indonésia e o Azerbaijão, começaram também como seculares,
mas seguiram outros caminhos. No Irão, a revolução de 1979 derrubou a monarquia e criou um república
islâmica baseada nas ideias de democracia islâmica.

O termo república islâmica, no entanto, pode ter significados diferentes, às vezes até antagónicos. A república
islâmica do Irão, por exemplo, está em contraste com o estado semissecular da República Islâmica do
Paquistão. Num caso, trata-se de uma república com um governo teocrático, no qual o código penal do estado
obedece às leis da Xariá. No outro, a designação "islâmica" parece mais uma alusão à identidade cultural do
país.

O Paquistão foi o primeiro país a adotar o adjetivo "islâmico" para qualificar o seu estatuto republicano através
da sua constituição de 1956 que, no restante, era bastante secular. Apesar desta definição, o país não teve uma
religião de estado até 1973, quando uma nova constituição, mais democrática mas menos secular, foi aprovada.
O Paquistão só usa o nome "República Islâmica" nos seus passaportes e vistos. Em todos os documentos
oficiais a designação utilizada é simplesmente "Governo do Paquistão". Apesar disso a atual Constituição do
Paquistão, parte IX, artigo 227 diz expressamente: "Todas as leis existentes devem ser postas em conformidade
com os preceitos do Islão tal como expressos no Alcorão e na Suna".[32]

Chefe de Estado
Estrutura

Nas repúblicas contemporâneas, o chefe de Estado é geralmente designado por presidente da república ou
simplesmente presidente. O termo deriva do latim præ sidere ("sentar à frente"), significando liderar, dirigir,
presidir, aplicável à direção de uma cerimónia, de uma reunião ou de uma organização. Usado na Grã-Bretanha
nessa aceção, o título presidente foi aplicado em 1608 ao líder da Virgínia e depois estendido a outras das Treze
Colónias inglesas na América do Norte, com a designação de "Presidente do Conselho".[33] Os Estados Unidos
foi a primeira república a usar este título, mantendo o significado inicial da palavra: "Presidente do Congresso
Continental", o líder do primeiro
parlamento. Quando a nova Constituição
foi escrita o título de "Presidente dos
Estados Unidos" foi atribuído ao
responsável pelo poder executivo.

Designa-se por presidencialismo o sistema


de governo no qual o chefe de Estado é
também chefe de governo. Num sistema
presidencial completo, o presidente
desempenha o papel político central e
detém uma autoridade considerável. Os Repúblicas presidencialistas Repúblicas
Estados Unidos foram o primeiro exemplo Poder executivo partilhado entre presidenteparlamentares
de um tal sistema que serviu de base ao Repúblicas de
e parlamento
modelo adotado noutros países, como na partido único
Repúblicas semipresidencialistas
França e no Brasil.

Noutros estados, a legislatura domina e o


papel do presidente é pouco mais do que cerimonial e apolítico, como na Alemanha e na Índia. Esses estados
são repúblicas parlamentaristas e funcionam de forma semelhante às monarquias constitucionais com sistemas
parlamentaristas, onde o poder do monarca é também extremamente circunscrito. Nos sistemas parlamentares,
o chefe de governo, na maioria das vezes intitulado primeiro-ministro, exerce o maior poder político real.

Nos sistemas semipresidencialistas o chefe de governo e o chefe de Estado compartilham em alguma medida o
poder executivo, participando, ambos, do quotidiano da administração do Estado. Difere do parlamentarismo
por apresentar um chefe de Estado com prerrogativas que o tornam muito mais do que uma simples figura
protocolar ou mediador político; difere, também, do presidencialismo por ter um chefe de governo com alguma
medida de responsabilidade perante o legislativo. Em França, o presidente define a política externa, em
Portugal, o presidente tem menos poder, tendo poder de vetar leis e dissolver a Assembleia.

As regras para a nomeação do presidente e do líder do governo, em algumas repúblicas permitem a nomeação
de um presidente e de um primeiro-ministro com convicções políticas opostas: na França, quando os membros
do governo e o presidente vêm de fações políticas opostas, esta situação chama-se coabitação. Em alguns
países, como na Suíça e em San Marino, o chefe de Estado não é uma única pessoa, mas sim um conselho. A
República Romana tinha dois cônsules, nomeados por um ano.

Eleição

Nas democracias constitucionais os presidentes ou são eleitos


diretamente pelo povo ou, indiretamente, por um parlamento ou
conselho.

Nos sistemas presidencialistas e semipresidencialistas o presidente


tanto pode ser eleito diretamente como indiretamente, caso dos
Estados Unidos. Neste país o presidente é oficialmente eleito por um
colégio eleitoral, escolhido pelos estados através de sufrágio direto
dos eleitores. Apesar de, na opinião de alguns, a eleição direta conferir
maior legitimidade ao presidente e dar ao cargo muito do seu poder
político,[34] a Constituição dos Estados Unidos estabelece que a Campanha eleitoral do candidato derrotado
legitimidade do presidente advém da ratificação da Constituição por John McCain, durante as eleições
nove estados. [35] A ideia de que a eleição direta é necessária para a presidenciais americanas de 2008.
legitimidade também contradiz o espírito do Grande Compromisso de
1787, cujo resultado real foi manifestado na cláusula[36] que garante aos eleitores dos estados menores uma
representação ligeiramente maior do que os grandes estados na escolha presidencial.
Nos países com um sistema tipicamente parlamentar o presidente é normalmente eleito pelo parlamento. Estas
eleições indiretas subordinam o presidente ao parlamento, conferindo-lhe, também, uma legitimidade limitada,
transformando a maioria dos poderes presidenciais em poderes de reserva que só podem ser exercidos em
circunstâncias excecionais, como acontece na República da Irlanda.

Regimes republicanos nos países lusófonos


Angola

Angola foi a última das províncias ultramarinas portuguesas a proclamar a independência. E, ao contrário das
outras, três forças tinham lutado pela independência: o MPLA, Movimento Popular de Libertação de Angola,
com ligações a Cuba e à União Soviética; a FNLA, Frente Nacional de Libertação de Angola, com ligações ao
Zaire (hoje República Democrática do Congo) e aos Estados Unidos; a UNITA, União Nacional para a
Independência Total de Angola, apoiada pelos Estados Unidos, pelo regime de apartheid da África do Sul e por
outros países africanos.

Culminando o processo negocial para a independência de Angola


conduzido entre Portugal e os três movimentos, foi firmado o Acordo
do Alvor, em 15 de janeiro de 1975, no qual se fixou o dia da
independência em 11 de novembro, estabeleceu os parâmetros da
partilha do poder e a data das primeiras eleições em Angola. Entretanto,
a profunda rivalidade entre os três movimentos degenerou em guerra
civil, sendo as forças portuguesas incapazes de manter a ordem no
território, provocando o êxodo de mais de meio milhão de colonos
brancos para Portugal.

Chegado o dia 11 de novembro de 1975, a independência de Angola foi


proclamada em simultâneo em Luanda, pelo MPLA, e no Huambo, pela
UNITA. A "República Popular de Angola", do MPLA — regida pela
Lei Constitucional de 12 de novembro de 1975, de cariz marxista-
leninista[37] —, acabou por ser reconhecida internacionalmente e,
graças ao forte apoio militar de Cuba, foi relegando a UNITA para as
zonas menos povoadas do sudeste do país. A este período designa-se
por Primeira República (1975-1991) que teve, como presidentes,
Agostinho Neto (1975-1979) e José Eduardo dos Santos (desde
1979).[38]

Em 1991, MPLA e UNITA estabeleceram a paz através dos Acordos de José Eduardo dos Santos: presidente de
Bicesse, agendando-se eleições gerais multipartidárias para a escolha do Angola há 31 anos (desde 1979).
presidente da República e dos deputados do futuro parlamento.
Simultaneamente, a Assembleia do Povo (parlamento) aprovou duas
revisões à Lei Constitucional consagrando a democracia multipartidária, as garantias dos direitos e liberdades
fundamentais dos cidadãos e o sistema económico de mercado. Reafirmou, também, o sistema político
semipresidencialista, com o presidente da República eleito por sufrágio universal.[39] O MPLA saiu vitorioso,
tanto das eleições legislativas como das presidenciais, apesar do seu candidato — o líder e presidente em
exercício, José Eduardo dos Santos — não ter logrado maioria absoluta, o que exigia uma segunda volta. No
entanto, Jonas Savimbi, segundo classificado e líder da UNITA, não aceitou os resultados eleitorais, reatando-
se a guerra civil. Apesar de tudo, o ato eleitoral marca o início da Segunda República (1992-2010).[38]

A guerra civil só terminou com a morte de Jonas Savimbi em 22 de fevereiro de 2002. A UNITA iniciou
negociações com o governo de Angola, depondo as armas e assumindo-se como um partido político. As
eleições legislativas de 2008 foram realizadas em 5 e 6 de setembro, tendo o MPLA assegurado 191 dos 223
assentos da Assembleia Nacional de Angola. A 27 de janeiro de 2010 a Assembleia Nacional aprovou a
primeira Constituição, propriamente dita, de Angola que preconiza um regime presidencialista, mas
dispensando as eleições presidenciais, sendo presidente o líder de lista do partido que vencer as legislativas. A
figura do primeiro-ministro foi extinta, dando lugar a um vice-presidente.[40] Com a Constituição de 2010 tem
início a Terceira República.[41][42] José Eduardo dos Santos continua como presidente desde 1979. As próximas
eleições legislativas estão agendadas para 2012.

Brasil

O primeiro país lusófono a adotar um regime republicano de governo foi o Brasil. A proclamação da República
ocorreu no Rio de Janeiro, então capital do país, em 15 de novembro de 1889 quando um grupo de militares,
liderado pelo marechal Deodoro da Fonseca, depôs o imperador D. Pedro II através de um golpe de estado.

A Primeira República Brasileira, conhecida como República Velha (1889-1930), pode ser dividida em dois
períodos: a República da Espada (1889-1894), uma ditadura militar dos marechais Deodoro da Fonseca e
Floriano Peixoto; e a República Oligárquica (1895-1930), na qual predominou a chamada "Política do café com
leite" que favorecia os interesses do setor agrário dos estados de São Paulo — o mais poderoso
economicamente, principalmente devido à produção de café — e de Minas Gerais — o mais populoso na época
e produtor de leite. A Constituição de 1891, fortemente inspirada na Constituição dos Estados Unidos,
preconizou, desde logo, um regime de governo presidencialista e adotou a designação oficial de "Estados
Unidos do Brasil".

Na década de 1920 o país foi assolado por diversas rebeliões,[43][44] o


que enfraqueceu o regime e permitiu a ascensão de Getúlio Vargas à
presidência, através de um golpe,[45] dando início à chamada Era
Vargas (1930-1945). Getúlio Vargas começou por fechar o Congresso
Nacional, abolir a Constituição e governar com poderes de
emergência.[46][47] A pretexto de proteger o país da intentona
comunista, reforçou ainda mais os seus poderes, instaurando uma
ditadura a que chamou Estado Novo,[48][49] regida pela Constituição de
1937 que concentra os poderes executivo e legislativo nas mãos do
presidente da República. A vitória dos Aliados na Segunda Guerra
Mundial — ao lado dos quais o Brasil se tinha colocado[50][51] — e o
consequente fim dos regimes nazifascistas na Europa, precipitou a
queda de Vargas.[52]

O restabelecimento da democracia e a eleição do general Eurico Gaspar


Dutra para presidente, em 1946,[53] inaugurou um período conhecido
como República Nova ou Populista. Vargas voltou ao poder em 1951,
desta vez, democraticamente eleito, mas, devido aos ataques da
Getúlio Vargas: presidente do Brasil
imprensa e pela pressão contra a sua política nacionalista de governo,
durante 18 anos (1930-45 e 1951-54).
acabou suicidando-se em 1954.[54][55] Vários governos provisórios se
sucederam nos anos subsequentes,[56] até à eleição de Juscelino
Kubitschek, em 1956. Este assumiu uma postura conciliadora em relação à oposição, o que lhe permitiu
governar com certa estabilidade.[57] A economia, em particular o setor industrial, cresceu
consideravelmente,[58] inaugurando-se, em 1960, uma nova capital, Brasília.[59] Para permitir a posse do vice-
presidente, João Goulart, em setembro de 1961 foi instaurado o parlamentarismo no Brasil. Foi, no entanto,
uma curta experiência que terminaria a 6 de janeiro de 1963, num plebiscito nacional no qual 80% dos votantes
optaram pelo regresso ao presidencialismo. No ano seguinte, novo golpe de estado pôs termo à presidência de
Goulart, resultando num regime militar de cariz ditatorial,[60] também conhecido como Quinta República. Após
as presidências de Castelo Branco, Costa e Silva e Médici, o general Ernesto Geisel, que assumiu a presidência
em 1974, começou um lento processo de redemocratização,[61][62] só concluído pelo seu sucessor, o general
João Figueiredo.[63] Com a Constituição de 1967, o país adota a designação oficial de "República Federativa do
Brasil" que perdura até hoje.

Os civis voltaram ao poder em 1985, quando José Sarney assumiu a presidência,[64] inaugurando a Nova
Os civis voltaram ao poder em 1985, quando José Sarney assumiu a presidência,[64] inaugurando a Nova
República ou Sexta República. Sob o seu governo foi promulgada a Constituição de 1988, que institui um
Estado de direito e uma república presidencialista. A crise económica e a incontrolável inflação[65] permitiram
a eleição, em 1989, do quase desconhecido Fernando Collor, que renunciou após um pedido de impeachment
em 1992. Sucedeu-lhe Itamar Franco e, a este, Fernando Henrique Cardoso, autor do bem sucedido Plano Real,
que trouxe estabilidade monetária à economia brasileira.[66] A transição pacífica de poder para Luís Inácio Lula
da Silva, eleito em 2002 e reeleito em 2006, reforçou a estabilidade política do Brasil e o seu prestígio
internacional.[67]

Cabo Verde

Cabo Verde alcançou a independência em 5 de julho de 1975 sob a égide do PAIGC — Partido Africano para a
Independência da Guiné e Cabo Verde. Este partido, fundado por Amílcar Cabral em 1959, invocando as
ligações históricas e consanguíneas existentes entre guineenses e cabo-verdianos, defendia a união política dos
dois estados.[68]

Eleita uma assembleia constituinte, inteiramente constituída por deputados afetos ao PAIGC, foi redigida a Lei
sobre a Organização Política do Estado[69] até à aprovação da Constituição da República de Cabo Verde, a 5 de
Setembro de 1980. À semelhança das constituições das restantes ex-colónias portuguesas de África, também
esta apresentava um elevado conteúdo ideológico,[70] subordinando o Estado ao Partido.[71] O inesperado golpe
de estado de 14 de novembro de 1980, na Guiné-Bissau, no entanto, provocou o abandono do projeto de união
dos dois países e a criação do PAICV - Partido Africano da Independência de Cabo Verde.[72]

Dez anos mais tarde, iniciou-se o processo de abertura do regime. A 28 de setembro de 1990, a Assembleia
Nacional Popular revogou o artigo 4.º da Constituição de 1980 que consagrava o PAICV como força dirigente
do Estado e da Sociedade.[73] Estava, assim, prestes a terminar a "Primeira República" (1975-1991),
caracterizada pelo domínio do partido único, que teve como único presidente Aristides Pereira.

Em 1991, realizaram-se as primeiras eleições pluralistas em Cabo Verde, em que se confrontaram duas forças
políticas: o PAICV, no poder desde 1975 e o recém-criado MpD — Movimento para a Democracia. O MpD
venceu, em janeiro, as eleições legislativas; em fevereiro, as presidenciais (com Mascarenhas Monteiro); e, em
dezembro, as autárquicas.[74] Em 1992, o MpD submeteu ao parlamento uma nova Constituição, consagrando o
estado de direito democrático. Fez, ainda, aprovar a alteração dos símbolos nacionais (bandeira, brasão e hino),
tidos como demasiado ligados ao PAICV e ao antigo projeto de união Guiné-Cabo Verde.[75] Começa, assim, a
"Segunda República" (desde 1992) que, para além de Mascarenhas Monteiro (1991-2001), conta ainda com
Pedro Pires (desde 2001) como presidente da República.

Moçambique

Com a proclamação da independência da "República Popular de Moçambique" em 25 de junho de 1975 entrou


também em vigor a primeira Constituição do país. Pela Constituição de 1975 foi instalado um regime político
socialista de partido único — a Frente de Libertação de Moçambique, Frelimo, que tinha travado a guerra da
independência. Opondo-se à Frelimo, em 1976 foi criada a Resistência Nacional Moçambicana, Renamo, que
desencadeou a Guerra Civil Moçambicana que durou 16 anos. Este período é geralmente referido como a
"Primeira República" (1975-1990)[76] e teve como presidentes Samora Machel (1975-1986) e Joaquim
Chissano (1986-2005).

O ano de 1990 trouxe profundas alterações em praticamente todos os campos da vida de Moçambique, sendo
aprovada uma nova Constituição que introduziu um sistema multipartidário e a economia de mercado.[77] O
Acordo Geral de Paz entre a Frelimo e a Renamo foi assinado em 1992, realizando-se, em 1994, as primeiras
eleições legislativas com sufrágio direto e voto secreto. No parlamento que, de "Assembleia Nacional Popular",
passou a designar-se Assembleia da República, a Renamo passou a ocupar 117 lugares e a Frelimo 133.[76] As
eleições presidenciais do mesmo ano deram a vitória ao presidente Joaquim Chissano, que foi reconduzido no
cargo. Vencendo, de novo, nas eleições de 1999. A designação oficial do país foi, entretanto, também alterada
de República Popular de Moçambique para, simplesmente, República de Moçambique.

Nova Constituição,[78] aprovada no dia 16 de novembro de 2004, veio reforçar o estado de direito instituído em
1990, através do aprofundamentos de disposições já existentes, da criação de novas figuras, princípios e
direitos e da elevação de outros já existentes na legislação ordinária à categoria constitucional. Uma diferença
relevante desta constituição em relação às anteriores foi o consenso na sua aprovação, uma vez que ela surgiu
no âmbito de uma assembleia representada por diferentes partidos políticos.[79]

Em 2 de fevereiro de 2005, Armando Guebuza tornou-se o terceiro presidente da República de Moçambique.


Em 28 de outubro de 2009, foi reeleito para um novo mandato, obtendo 75% dos votos.

Passados vinte anos de "Segunda República", na qual se consagrou o sistema multipartidário, e depois de três
eleições presidenciais e legislativas, continua a governar o partido no poder desde a conquista da
independência, a Frelimo, cujos candidatos presidenciais têm também vencido todas as eleições maioritárias.
Apenas nas autarquias locais tem havido casos de alternância no poder político.[80]

Portugal

Portugal foi o segundo país lusófono a implantar um regime republicano, como resultado de um golpe de
estado que destituiu o rei D. Manuel II no dia 5 de outubro de 1910.

Imediatamente tomou posse um governo provisório que introduziu uma série de reformas de fundo e organizou
eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, que elaborou a Constituição de 1911. Começava assim a
Primeira República que pode ser dividida em três períodos: a "República Velha", na qual foram presidentes
Manuel de Arriaga, Teófilo Braga e Bernardino Machado; a "República Nova", com Sidónio Pais como
presidente; e a chamada "Nova República Velha", com os presidentes Canto e Castro, António José de
Almeida, Manuel Teixeira Gomes e, de novo, Bernardino Machado.

Pela Constituição de 1911 o poder legislativo era assegurado pelo


Congresso da República, formado pela Câmara dos Deputados, à qual
competia a iniciativa dos atos de maior significado político, e pelo
Senado, que representava os distritos e as províncias ultramarinas;
ambas eram eleitas por sufrágio direto. O presidente da República era
eleito pelo Congresso e tinha funções meramente honoríficas. Entre
abril e dezembro de 1918, na sequência do triunfo do golpe de Sidónio
Pais, foi instituído um regime presidencialista, acentuadamente
autocrático. O assassinato de Sidónio Pais, no entanto, repôs a ordem
constitucional anterior. Esta I República era um sistema
parlamentarista. Em 16 anos teve 48 governos, um dos quais não
chegou a tomar posse.

A Constituição de 1911 vigorou em Portugal até a Revolução de 28 de


Maio de 1926 instituir a Ditadura Nacional que iria durar até 1933.
Durante este período foram presidentes Mendes Cabeçadas, Gomes da
Óscar Carmona: presidente da República
Costa e Óscar Carmona que abriu caminho ao Estado Novo, também, Portuguesa durante quase 25 anos (1926-
por vezes, referido como "Segunda República". 1951).

A Constituição de 1933 foi o documento fundador do Estado Novo


(1933-1974), um regime autoritário, conservador, nacionalista e corporativista. Tinha um cariz presidencialista,
competindo ao chefe de Estado a nomeação, exoneração e mesmo o acompanhamento da atividade do governo,
respondendo os ministros politicamente perante o presidente do Conselho de Ministros, o chefe do governo, e
este perante o presidente da República. Na prática, no entanto, assistiu-se a um progressivo reforço do poder
nas mãos do presidente do Conselho, Oliveira Salazar. A Assembleia Nacional era eleita por sufrágio direto,
existindo, no entanto, um único partido político, a União Nacional. Existia ainda uma Câmara Corporativa,
órgão consultivo representando interesses locais e socioeconómicos.

Para além de Óscar Carmona, foram presidentes da República durante o Estado Novo Craveiro Lopes e
Américo Tomás. O presidente era eleito por sufrágio direto mas, na sequência da inesperada adesão de todos os
setores da oposição à candidatura do general Humberto Delgado, em 1958, Salazar propôs uma revisão
constitucional, passando a escolha do presidente a ser feita por um colégio eleitoral.

A Revolução dos Cravos de 25 de abril de 1974 deu início à Terceira República, restabelecendo os direitos,
liberdades e garantias, o pluralismo político e concedendo independência às colónias. A Constituição de 1976
foi redigida pela Assembleia Constituinte eleita na sequência das primeiras eleições gerais livres no país e
encontra-se em vigor até à atualidade. Recebeu já sete revisões constitucionais. António de Spínola e Costa
Gomes foram presidentes nomeados, seguindo-se, eleitos por sufrágio direto universal, Ramalho Eanes (1976-
1986), Mário Soares (1986-1996), Jorge Sampaio (1996-2006), Cavaco Silva (2006-2016) e Marcelo Rebelo de
Sousa (desde 2016). Por o presidente ser eleito pelo povo, mas sem poder executivo, tem poder de veto e de
dissolução da Assembleia o que leva à queda automática do governo, diz-se que é um sistema
semipresidencialista.

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Bibliografia
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2008. RIBEIRO, República. São Paulo: Publifolha.

Ver também
Res publica
Proclamação da República Brasileira
Proclamação da República Estadunidense
Proclamação da República Francesa
Proclamação da República Portuguesa

Ligações externas
" Anotações para um Sistema de Controle Republicano"

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