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Erosão do Solo e Áreas Ardidas em Portugal

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Ana Sofia Nunes
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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 1
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA .......................................................................................... 3
2.1 SOLO ...................................................................................................................................... 3

2.1.1 Composição e perfil do solo ......................................................................................... 3


2.1.2 Qualidade e propriedades do solo ................................................................................ 5
2.2 DEGRADAÇÃO DO SOLO E SUSCETIBILIDADE DO TERRITÓRIO ............................ 6

2.3 EROSÃO E EROSÃO HÍDRICA DO SOLO: PROCESSOS E ESTIMATIVAS ................. 7

2.4 EROSÃO HÍDRICA DO SOLO EM ÁREAS ARDIDAS ..................................................... 9

2.5 PROTEÇÃO DO SOLO CONTRA A EROSÃO E TOLERÂNCIA DE PERDA DE SOLO


..................................................................................................................................................... 11

2.6 MUDANÇAS NO USO DA TERRA, ÁREAS ARDIDAS E DEGRADAÇÃO DO SOLO


NO NE DE PORTUGAL ............................................................................................................ 13

3 METODOLOGIA .................................................................................................................. 15
3.1 ÁREA DE ESTUDO E CONTESTUALIZAÇÃO DA METODOLOGIA .......................... 15

3.2 ÁREAS ARDIDAS ............................................................................................................... 16

3.2.1 Fonte e períodos de análise ........................................................................................ 16


3.2.2 Critérios de tratamento dos dados .............................................................................. 17
3.2.3 Análise estatística dos dados ...................................................................................... 18
3.3 ÁREAS REINCIDENTES A QUEIMADA.......................................................................... 19

3.4 RECURSO PEDOLÓGICOS DAS ÁREAS ARDIDAS ...................................................... 19

3.5 ESTIMATIVA DO RISCO DE EROSÃO PARA AS ÁREAS ARDIDAS ......................... 20

3.5.1 Fator erosividade, índice de aridez e zonas climáticas ............................................... 21


3.5.2 Fator Erodibilidade e unidades de solo dominante..................................................... 23
3.5.3 Fator topográfico ........................................................................................................ 27
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO ........................................................................................... 29
4.1 ÁREAS ARDIDAS ............................................................................................................... 29

4.1.1 Número de ocorrências e área total ardida ................................................................. 29


4.2 RECURSOS PEDOLÓGICOS NAS ÁREAS QUEIMADAS ............................................. 33

4.2.1 Unidades solo principais ............................................................................................ 33


4.2.2 Características dos solos nas áreas ardidas e aptidão da terra .................................... 34
4.3 RECORRÊNCIA DE INCÊNDIOS E ÁREA ARDIDA ...................................................... 36

,
4.4 ESTIMATIVA DE PERDAS POTENCIAIS DE SOLO NAS ÁREAS ARDIDAS ............ 39

4.4.1 Fator R ........................................................................................................................ 39


4.4.2 Fator K ....................................................................................................................... 40
4.4.3 Fator S ........................................................................................................................ 41
4.4.4 Produto RK e RKS ..................................................................................................... 42
5 CONCLUSÃO ........................................................................................................................ 47
REFERÊNCIAS ........................................................................................................................ 49

,,
LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Horizontes do solo ........................................................................................................ 4


Figura 2 - Degradação do solo ...................................................................................................... 7
Figura 3 - Erosão laminar (A). Erosão em sulco (B). Erosão em voçoroca ou ravina (C) ............ 8
Figura 4 - Distribuição da suscetibilidade à desertificação no NE Portugal (com base no Índice
de Aridez - IA, 2000 ± 2010) ....................................................................................... 13
Figura 5 - Área de estudo: O Distrito de Bragança, Nordeste de Portugal e seus municípios .... 15
Figura 6 - Áreas ardidas nos últimos 26 anos no Distrito de Bragança ...................................... 16
Figura 7 - Classificação Clima regional adotado ........................................................................ 22
Figura 8 - Classificação das unidades pedológicas classificadas com predominancia das áreas
atingidas ....................................................................................................................... 26

,,,
LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1 - Nº de ocorrências e área total ardida por classe de área, sublinhando o carácter
residual dos registros de áreas ardidas com menos de 0,1 hectares ............................................ 18
Gráfico 2 - Área total ardida e número de incêndios entre 1990 e 2015 ..................................... 29
Gráfico 3 ± Distribuição ao longo do ano das áreas ardidas ....................................................... 30
Gráfico 4 - Uso da terra anterior ao incêndio .............................................................................. 32
Gráfico 5 - Principais unidades de solo das regiões queimadas do NE Portugal ........................ 33
Gráfico 6 - Litologia do solo das áreas queimadas ..................................................................... 34
Gráfico 7 - Características dos solos em áreas incendiadas: A. Espessura do solo; B. Carência de
água no solo; C. Pedregosidade (% Elementos grosseiros); D. Declive dominante do terreno .. 35
Gráfico 8 - Classe de aptidão para o uso da terra em áreas ardidas no Nordeste de Portugal ..... 36
Gráfico 9 - Número de recorrência de um incendio e a área total reardida................................. 37
Gráfico 10 - Percentagem da área total reardida relativamente aos intervalos de recorrências .. 38
Gráfico 11 - Áreas máximas e médias reardidas em cada intervalo de recorrência .................... 38
Gráfico 12 - Percentagem de áreas queimadas por classe de classificação do valor de K e Keg 41
Gráfico 13 - Dispersão de RK por zonas climáticas e percentagem de área acumulada ............. 44
Gráfico 14 - Dispersão de RKS global pela percentagem de área acumulada das áreas ardidas
estudadas ..................................................................................................................................... 45

,9
LISTA DE TABELAS

Tabela 1- Fator de estimativa da erosividade de acordo com a classe de precipitação ............... 21


Tabela 2 - Classes de índice de aridez e zonas climáticas da carta de solos de NE Portuga ....... 23
Tabela 3 - Classificação do fator de erodibilidade (Fator K) ...................................................... 25
Tabela 4 - Principais unidades de solos dominantes nas áreas ardidas por classe de Índice de
Aridez .......................................................................................................................................... 26
Tabela 5 - Classe dominante e suas declividades ........................................................................ 27
Tabela 6 - Classe de declive das áreas estudadas ........................................................................ 28
Tabela 7 - Zona climática, precipitação e fator R de acordo com o índice de aridez .................. 39
Tabela 8 - Fator K na terra fina e corrigido com elementos grosseiros (EG) por classe de índice
de aridez e unidade de solo ......................................................................................................... 40
Tabela 9 - Fator S de acordo com o declive médio e índice de aridez ........................................ 42
Tabela 10 - Fator RK e RKS de acordo com o índice de aridez e unidade de solo dominante ... 43

9
1 INTRODUÇÃO

A erosão é uma das ameaças mais importantes ao recurso solo em Portugal,


colocando em risco de degradação áreas consideráveis, o que é muito evidente no NE
Transmontano, com extensas zonas de montanha particularmente sensíveis face às
condições topográficas favoráveis (Figueiredo et al., 2013) e aos solos geralmente
delgados e pedregosos, que espelham bem a ação persistente dos processos de erosão
hídrica (Alexandre, 2015).
Além dessas características, as mudanças no uso da terra crescentes no país
propiciam a restruturação da vegetação, que muitas vezes pode não executar sua função
apenas de uma forma positiva como a proteção eficaz do solo, mas servir como
combustível potenciador na ocorrência de incêndios florestais, devido ao acumulo de
biomassa juntamente com o clima seco e quente da região.
Os incêndios florestais ocasionam um agravamento nos processos erosivos do
solo, já que removem a cobertura vegetal protetora, além de ocasionar a perda de grande
parte da matéria orgânica presente. Esse processo acaba reduzindo a capacidade do solo
para armazenar água e nutrientes, acarretando uma redução da profundidade cultivável e
fertilidade do solo, prejudicando a resistência e resiliência do solo, resultando em
condições mais propensas à seca (Alexandre, 2015; Hudson, 1981; Morgan, 2005).
Outro fator de agravamento das condições potenciais de degradação do solo pós-fogo
diz respeito a algumas situações em que os resíduos gerados pela queima podem causar
repelência do solo à água acentuando ainda mais o escoamento e a erosão (Neary et al.,
2005).
Essa erosão pode ser estimada, utilizando Ălguns modelos de avaliação de perda
de solo. Um modelo bastante comum é o que foi desenvolvido por Wischmeier & Smith
(1978), denominado Universal Soil Loss Equation ± USLE, em que calcula a perda de
solo por unidade de área expressa de acordo com as características dos fatores
integrantes da equação, retratado pelo peso do solo por unidade de área do local.
Deste modo, o trabalho tem como objetivo analisar as áreas ardidas no Distrito
de Bragança, NE Portugal, durante o período de 1990 a 2015, avaliando a ocorrência e
magnitude dos incêndios florestais e suas recorrências, os recursos pedológicos e
aptidão da terra, além de estimar as perdas potenciais de solo e suas consequências para
a degradação do recurso solo na região.

1
Após este capítulo introdutório, em que são apresentados os objetivos do estudo,
a proposta de dissertação desenvolve-se em quatro capítulos, iniciando por um
referencial bibliográfico abrangendo os tópicos degradação do solo e mudanças no uso
da terra. Em sequência apresentam-se a metodologia utilizada e, nesta fase, os
resultados e sua discussão, seguindo da conclusão, finalizando com a lista de referências
bibliográficas.

2
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 SOLO

2.1.1 Composição e perfil do solo

O solo é composto por quantidades variáveis de partículas minerais, matéria


orgânica, ar e água. As combinações e quantidade desses elementos produzem uma
gama de propriedades físicas, químicas e biológicas. Contudo, essas propriedades não
são aleatoriamente distribuídas, mas ocorrem em um arranjo ordenado de camadas
horizontais, os horizontes, que formam o perfil do solo (Neary et al., 2005).
Um solo muito evoluído pode apresentar cinco tipos de horizonte. Esses são
representados pelas letras: O, A, E, B e C, nesta sequência, do mais superficial ao mais
profundo, como ilustrado na Figura 1. Caso o solo não apresente todos estes horizontes,
principalmente o horizonte B, é considerado ³SRXFRHYROXtGR´MiTXHTXHRKRUL]RQWH%
é de grande importância na evolução do solo (Lepsch, 2010).
O horizonte O representa os compostos orgânicos resultantes de acumulações de
resíduos vegetais, em graus variáveis de decomposição, depositados superficialmente.
Em áreas encharcadas essa camada é denominada horizonte H (Santos et al., 2013).
No horizonte A podemos encontrar a camada mineral mais próxima da
superfície, que consiste na acumulação de matéria orgânica parcialmente e totalmente
humificada. Esta camada apresenta aparência escura devido a quantidade de húmus,
elemento de grande importância para a formação de agregados que contribuem para a
estrutura do solo favorecendo a formação dos poros que facilitam a movimentação de ar
e água (Lepsch, 2010). A presença da matéria orgânica nessa camada também
desempenha um papel central no ciclo e disponibilidade de nutrientes essenciais para o
crescimento das plantas (Neary et al., 2005).

3

Figura 1 - Horizontes do solo
Fonte: Adaptado de Lepsch (2010)

O símbolo E representa a camada de solo mineral comumente subsuperficial, no


qual a ocorrência da translocação de material coloidal mineral e orgânico para o
horizonte B progrediu a tal ponto que a cor do horizonte é determinada principalmente
pela cor das partículas primárias de areia e limo (Santos et al., 2013; Singer & Munns,
1945).
Caso não tenha sido exposto pela erosão do solo, abaixo do horizonte A e E,
encontra-se o horizonte B. Conhecido por apresentar o máximo desenvolvimento de cor,
devido a retenção dos nutrientes iluviados dos horizontes superiores (Lepsch, 2010).
Em seguida, acima da Rocha não alterada, quando exista (simbolizada pela letra
R), podemos encontrar o horizonte C que corresponde ao material pouco modificado
pelos processos de formação do solo, com características mais próximas do material
litológico na origem da sua formação (Singer & Munns, 2002).

4

2.1.2 Qualidade e propriedades do solo

A qualidade do solo pode ser definida como o potencial do solo em sustentar a


produtividade biológica, promover a saúde das plantas e animais, além de manter ou
melhorar a qualidade do ar e da água dentro de um ecossistema, prevenindo a
degradação do solo (Gardi et al., 2002). A qualidade do solo pode ser avaliada usando
uma gama de parâmetros relacionados com as propriedades físicas, químicas e
biológicas, dependendo da escala e do objetivo da avaliação (Wilson & Kordybach,
1997). Algumas propriedades físicas são de grande relevância para a avaliação da
qualidade do solo. Uma delas é a textura, já que as dimensões das partículas fornecem
informações sobre as características do solo (Reinert & Reichert, 2006), de mais
argiloso, com partículas de menor dimensão e propriedades físico-químicas distintas do
arenoso, com partículas de maior dimensão (Lopes, 1978).
A estrutura e estabilidade dos agregados também são relevantes para a qualidade
do solo, já que estes parâmetros são responsáveis pela relação do agrupamento e
organização das partículas do solo em agregados, bem como com a resistência à
desagregação dessas partículas quando são submetidos a forças externas como as
práticas agrícolas e impactos ocasionados pelas gotas das chuvas ou forças internas
relacionadas com a compressão de ar, expansão/contração que tendem a desagrega-los
(Reinert & Reichert, 2006; Wilson & Kordybach, 1997).
Outro fator é a porosidade do solo onde se desenvolvem os mecanismos de
retenção e fluxo de água e ar. Dependendo a classe dos poros, a porosidade possui
grande importância no crescimento de raízes e movimento de ar, água e solutos no solo,
taxa de infiltração e condutividade hidráulica (Reinert & Reichert, 2006; Wilson &
Kordybach, 1997).
No que diz respeito aos atributos químicos úteis do solo, o pH, saturação de
bases, disponibilidade de nutrientes, condutividade elétrica, elementos ou compostos
potencialmente tóxicos são amplamente aceitos como importantes para avaliar a
qualidade do mesmo. Pois, alterações no pH do solo, na saturação da base e na
disponibilidade de nutrientes podem ocasionar a degradação do solo por acidificação e
perda de nutrientes (Wilson & Kordybach, 1997).
Vários atributos biológicos do solo são sugeridos como indicadores de
qualidade, como o quantidade e conteúdo de matéria orgânica, respiração do solo,

5

carbono de biomassa microbiana, nitrificação, entre outros. Contudo o que apresenta
maior influência é o teor de matéria orgânica, uma vez que se relaciona fortemente com
a perda de qualidade do solo, já que sua presença também atua nas qualidades físicas e
químicas do solo, sendo um elemento de grande influência na proteção a degradação do
solo (Wilson & Kordybach, 1997).

2.2 DEGRADAÇÃO DO SOLO E SUSCETIBILIDADE DO TERRITÓRIO

O solo é um recurso natural não renovável, que desempenha inúmeras funções


para as atividades humanas e a sobrevivência dos ecossistemas. O recurso solo é um
bem de interesse comum, que se não for protegido irá afetar a sustentabilidade a longo
prazo das comunidades humanas (COM, 2006), já que quando ocorre a degradação do
solo, a capacidade de sustentar a produção primária diminui, juntamente com a
resiliência e a resistência dos ecossistemas a eventos extremos (Alexandre, 2015).
De acordo com a proposta da Comissão Europeia ao Parlamento Europeu em
2006, nas últimas décadas verificou-se um aumento significativo nos processos de
degradação do solo. Isso torna-se bastante preocupante uma vez que a degradação do
solo pode ter implicações sobre todo o meio ambiente, como é o caso da contaminação
de recursos hídricos subterrâneos e superficiais e da eutrofização de rios, lagos e açudes
(Alexandre, 2015), além de efeitos sobre a saúde humana, sobre a proteção da natureza
e da biodiversidade e sobre a segurança alimentar (COM, 2006).
Os processos de degradação do solo são os mecanismos responsáveis pelo
declínio da sua qualidade (Blum, 1997), apesentando forte relação com a desertificação
(Figura 2) (Alexandre, 2015).
Como se pode observar na Figura 2, a perda de matéria orgânica e a erosão
tendem a reduzir a capacidade do solo para armazenar água e nutrientes, ocasionando
uma redução da profundidade cultivável e fertilidade do solo, prejudicando a resistência
e resiliência do solo, resultando em condições mais propensas à seca (Alexandre, 2015;
Hudson, 1981; Morgan, 2005).

6


Figura 2 - Degradação do solo
Fonte: Alexandre (2015).

2.3 EROSÃO E EROSÃO HÍDRICA DO SOLO: PROCESSOS E ESTIMATIVAS

A erosão do solo é uma das questões ambientais mais desafiadoras relacionadas


com a gestão da terra em todo o mundo. Trata-se de um processo natural que é
acelerado por atividades antropogénicas como o desmatamento, práticas agrícolas,
mineração de superfície, construção e urbanização (Diyabalanage et al., 2017), onde o
clima, o solo, a geomorfologia e a vegetação também apresentam grande relevância
sobre esse fenómeno (Xanthakis & Pavlopoulos, 2009). É conhecida por ser uma
ameaça ao recurso solo, pois quando ocorre a redução em sua profundidade, afeta o
armazenamento de nutrientes, da água e a produção de culturas (Blanco & Lal, 2008).
Segundo Zachar (1982) podemos classificar a erosão do solo em glaciar, eólica,
gravitacional, da neve, orgânica e hídrica. Dentre estas, a que apresenta maior
importância e influencia para a degradação do solo é a erosão hídrica (Laflen & Roose,
1997; Morgan, 2005).
A erosão hídrica engloba a destruição da superfície terrestre por gotas de chuva e
por águas fluviais e não fluviais, subterrâneas e pelas águas do mar (Zachar, 1982). A
topografia do terreno também influencia no grau de erosão devido a implicação na

7

velocidade de escoamento (Panagos et al., 2015). A erosão causada pela chuva
processa-se de duas formas destintas: primeiro ocorre a destruição dos agregados do
solo quer pelo impacto das gotas da chuva, quer pela água de escoamento superficial, a
qual em seguida promove o transporte dessas partículas destacadas (Lepsch, 2010).
Segundo Morgan (2005) existem três tipos de erosão hídrica mais conhecidos,
que são:

x Laminar: Conhecida por ser um arrastamento superficial desenvolvido


quando as partículas superficiais do solo, junto com os nutrientes e solutos,
começam a ser removidos pela ação da água. Esta forma de erosão é de grande
abrangência, porém de complicada visualização, devido ao fato de apenas ser
removida uma camada fina da superfície do solo (Figura 3 ± A) (Morgan, 2005;
Blanco & Lal, 2008)
x Sulcos: Esse tipo de erosão inicia-se principalmente por irregularidades
no terreno, como pequenos canais, que devido à concentração de chuvas, faz
com que a água se concentra nessas fissuras ocasionando o arraste de material
provocando a formação dos sulcos (Figura 3 ± B) (Osman, 2014; Morgan,
2005).
x Voçorocas (BR) ou Ravinas (PT): Já a erosão por voçorocas, representa
um estágio avançado da erosão em sulcos. Pois os canais apresentam-se
relativamente grandes e de difícil recuperação (Figura 3 ± C) (Blanco & Lal,
2008; Lepsch, 2010).


Figura 3 - Erosão laminar (A). Erosão em sulco (B). Erosão em voçoroca ou ravina (C)
Fonte: Adaptado de Osman (2014).

Existem Ălguns modelos de avaliação de perda de solo por erosão mais


desenvolvidos como Revised Universal Soil Loss Equation 2 - RUSLE2; Water Erosion
Prediction Project ± WEPP e o European Soil Erosion Model ± EUROSEM. Por serem
modelos detalhados, em parte de base física, permitindo estimativas de perda de solo

8

por chuvada, requerem uma grande gama de informações (Morgan, 2005). Em
contrapartida, um modelo empírico bastante utilizado, requerendo uma quantidade
menor de informações sobre a área estudada é a Universal Soil Loss Equation ± USLE,
que foi desenvolvida por Wischmeier & Smith (1978). Neste caso, a perda de solo é
estimada para condições médias de longo prazo, obtendo-se a quantidade de solo
erodido em média por ano. As estimativas de perda de solo são habitualmente expressas
em toneladas por hectare (massa de solo por unidade de área).

2.4 EROSÃO HÍDRICA DO SOLO EM ÁREAS ARDIDAS

Nas zonas mediterrâneas existem dois fatores naturais que intensificam os


incêndios, o clima e a vegetação. O clima nesses ambientes apresenta discordância
sazonal e uma grande variabilidade entre os anos. A precipitação concentra-se
principalmente no outono, muitas vezes em alguns episódios muito erosivos, e também
na primavera. O verão é bastante seco deixando o clima, solo e vegetação com baixa
humidade, tornando as áreas verdes altamente inflamáveis, intensificando a
problemática dos incêndios florestais (Molina & Sanroque, 1996).
Os efeitos do fogo sobre os solos só podem ser avaliados quando se possui o
entendimento da importância da matéria orgânica no funcionamento e sustentabilidade
dos ecossistemas. Embora a matéria orgânica se concentre na superfície do solo, sua
presença possui grande importância para o bom funcionamento das propriedades físicas,
químicas e biológicas do meio (Cerda & Robichaud, 2009). Segundo Cerda &
Robichaud (2009), ecologicamente a matéria orgânica desempenha três papéis
principais:
x Nas funções físicas onde atua na criação e estabilização de agregados do solo.
Auxiliando na obtenção de um solo poroso e bem estruturado, essencial para o
movimento de água, ar e nutrientes através dos solos.
x Quimicamente, em que regula o ciclo biogeoquímico de nutrientes, fornecendo
um meio ativo para sustentar numerosas transformações químicas e biológicas.
Desempenhando um papel fundamental na produtividade das plantas.
x Nas questões biológicas, no qual apresenta grande importância ao fornecer a
principal fonte de energia para os microrganismos do solo.
9

Os microrganismos estão envolvidos em quase todos os processos responsáveis
pela ciclagem e disponibilidade de nutrientes, tais como formas, mineralização e
fixação de nitrogênio, ou azoto (N).
A transferência de calor no solo durante um incêndio acarreta o aumento da
temperatura do solo afetando as propriedades físicas, químicas e biológicas do meio. A
característica mais afetada em um incêndio é a possível destruição de componente da
matéria orgânica (Moreira et. al., 2010).
O efeito do fogo na matéria orgânica dos solos tem consequências diferenciadas,
mas resultados similares para os processos erosivos, de acordo com a textura do solo.
Para os solos argilosos a perda de estrutura aumenta a densidade do solo e reduz a sua
porosidade devido ao impacto direto das gotas de chuva, tornam-se duros, dificultando a
penetração da água, resultando em escoamento e erosão pós-fogo muito maiores
(Moreira et. al., 2010; Neary et al., 2005; Schumacher et. al, 2005). Já os solos arenosos
se tornam extremamente quebradiços, perdendo o poder de retenção de água, o que os
torna facilmente erodíveis pela água das chuvas (Schumacher et al., 2005).
Embora o calor seja transferido no solo por vários mecanismos, o seu
movimento por vaporização e condensação é o mais importante. Quando as substâncias
orgânicas são movidas para baixo no solo por vaporização e condensação podem causar
uma condição de solo repelente à água que acentua ainda mais o escoamento e a erosão
pós-fogo. A repelência à água acelera o escoamento pós-fogo, podendo criar extensas
redes de erosão superficial (Neary et. al., 2005).
Além disso Neary et al.(2005) acrescentam que quando a matéria orgânica é
queimada, os nutrientes armazenados são volatilizados ou se transformam em elementos
mais simples que podem ser facilmente absorvidos por organismos microbianos e
vegetação. Além disso, os nutrientes disponíveis não imobilizados são facilmente
perdidos por lixiviação ou escoamento superficial, ocasionando o empobrecimento do
solo.

10

2.5 PROTEÇÃO DO SOLO CONTRA A EROSÃO E TOLERÂNCIA DE PERDA DE
SOLO

O uso indevido do solo pode agravar intensamente o nível de degradação do solo


por erosão e por este motivo Lepsch (2010) refere a importância da utilização de
práticas conservacionistas do solo a fim de manter um equilíbrio entre as atividades
humanas e o meio ambiente.
De acordo com Osman (2014) o controle da erosão hídrica baseia-se em alguns
princípios:
x Redução do impacto das gotas de chuva: Conseguido através da cobertura do
solo, com o dossel denso das florestas, a presença de serapilheira nos solos
desencapados, pode fornecer a proteção necessária de encontro ao impacto da
gota de chuva.
x Estabilização de agregados de solos: que seriam os solos supridos com matéria
orgânica suficiente. A agregação desses componentes melhora a porosidade e a
infiltração, reduzindo o escoamento.
x Redução da velocidade de escoamento: Essa velocidade pode ser reduzida
modificando o grau e o comprimento da inclinação através de terraços e valados.
Pois quando a velocidade de escoamento é reduzida, a taxa de infiltração
aumenta.
x Perturbação mínima do solo: O preparo do solo o deixa mais erodível. Desta
forma, os sistemas de preparo conservacionistas, incluindo plantio direto,
preparo mínimo são práticos eficientes de conservação.
x Prevenção da concentração de água de escoamento nos canais: Nivelamentos de
cotas previamente desenvolvidas, manutenção de resíduos de culturas no campo
impedem a concentração de água de escoamento.
x Manutenção regular das medidas de controlo da erosão. As práticas de controlo
da erosão precisam ser mantidas regularmente para assegurar a sua
funcionalidade e eficácia. 
A tolerância à perda de solo é um conceito operacional central na proteção do
Solo contra a erosão. Essa tolerância busca definir o limite até qual taxa de perda de

11

solo é aceitável, afim de manter a produtividade, sustentabilidade e impacto ambiental
mínimo (Figueiredo & Fonseca, 2009).
Teoricamente, a erosão do solo deve ser mantida a uma taxa igual ou inferior à
taxa natural em que o novo solo se forma (Morgan, 2005), a fim de garantir que o
equilíbrio das partículas nunca seja negativo em um certo tempo. Reconhece a
dificuldade de estimar as taxas de formação do solo visto que o tempo do processo é
geralmente lento. O valor de tolerância é dependente de fatores como a profundidade, a
textura, o uso e cobertura que determinam a taxa de solo removido por erosão
(Figueiredo & Fonseca, 2009; Morgan, 2005).
Entre tanto, estima-se que a taxas de formação do solo variam de 0,01 a 7,7 mm
de profundidade equivalente do solo por ano (Figueiredo & Fonseca, 2009; Morgan,
2005). Segundo Figueiredo & Fonseca (2009) um valor médio de formação do solo que
pode ser assumido é 0.1 mm.y-1, em que isso corresponde aproximadamente a [Link]-
1
.y-1.
Na prática, a taxa máxima de perda de solo admissível que mantém a
produtividade do solo no médio a longo prazo também depende da possibilidade de
aumentar a profundidade do solo e manter a produtividade do solo em níveis aceitáveis
através de práticas agrícolas (Figueiredo & Fonseca, 2009). Deste modo, é recomendado
por Arnoldus (1977) e Morgan (2005) conceber como valores aceitáveis de perda de solo
de 2 [Link]-1.y-1 e de 10 [Link]-1.y-1 como valores críticos para solos com substrato não
renovável e renovável, respetivamente.
Os dois limiares mencionados são utilizados para definir classes de risco de
erosão real. Desta forma, considera-se que abaixo de 2 [Link]-1.y-1, todos os solos, tanto
os mais delgados ou profundos, estão perdendo solo a uma taxa aceitável, o que
significa que o risco de erosão é baixo. Contudo acima de 10 [Link]-1.y-1, mesmo os
solos mais profundos estão perdendo material a uma taxa superior ao aceitável,
classificando o ambiente a um risco severo de erosão. Porém, entre os dois limites, o
risco de erosão pode ser considerado moderado, pois para solos mais delgados o risco é
alto, mas para os mais profundos é considerado baixo (Figueiredo & Fonseca, 2009).


12

2.6 MUDANÇAS NO USO DA TERRA, ÁREAS ARDIDAS E DEGRADAÇÃO DO
SOLO NO NE DE PORTUGAL

Para a maioria dos solos, a principal consequência in loco da escorrência e


erosão do solo é a degradação geral da terra, em que esse risco se potencializa de acordo
com o clima, as características do solo e as mudanças profundas no uso da terra e as más
práticas de manejo de terras ocorridas no passado recente (Boardman & Poesen, 2006).
O Distrito de Bragança, na Região Norte de Portugal, é a divisão administrativa
de maior representação de áreas suscetíveis à desertificação no Norte do país (Figura 4),
situação esta que é exacerbada genericamente por mudanças no uso da terra, já que esta
atividade acentua a ocorrência de incêndios florestais, devido ao crescimento de matos
ocasionando a acumulação de biomassa (Boardman & Poesen, 2006), neste caso
especificamente permitindo a progressão da degradação do solo por erosão, processo
caracterizado como a principal ameaça ao recurso solo nesta região (Figueiredo et al.,
2014).


Figura 4 - Distribuição da suscetibilidade à desertificação no NE Portugal (com base no Índice de
Aridez - IA, 2000 ± 2010)
Fonte: Figueiredo, Fonseca & Nunes (2015b).

13

O NE Portugal apresentou no período de 1987 a 2007 um decréscimo de 16%
nas áreas de uso agrícola e um acréscimo de 14% nas zonas de matos e 2% nas de
floresta, mostrando que as tendências verificadas são positivas por via da redução
significativa das áreas que apresentam um maior risco de degradação (Figueiredo et al.,
2015a). Contudo, segundo os mesmos autores, esta região apresenta quase metade da
sua área agrícola em sobre-exploração e cerca de 15% em sobre-exploração severa,
assente em solos sem aptidão para esse tipo de uso. Além disso, a redução das áreas de
uso agrícola representa um acréscimo expressivo das áreas de matos, o que possibilita
outras perspetivas na interpretação dos resultados, já que a acumulação de biomassa
pode ampliar os riscos de incêndio (Figueiredo et al., 2015a).
De acordo com (Nunes et al., 2013), os incêndios florestais fazem parte do
ecossistema florestal mediterrâneo, mas também representam um dos principais fatores
de degradação, já que a camada superficial do solo é frequentemente afetada por esse
tipo de ocorrência. Nave & Lourenço (2007) afirmam que grande parte dos incêndios
em Portugal, são agravados devido ao abandono de propriedades, onde muitas famílias
migraram das zonas rurais para as urbanas, deixando as áreas florestais sobe o controlo
de uma população escassa e idosa. Desta forma, os campos agrícolas foram
progressivamente ocupados por matos e florestas, sem o controle humano aumentando a
biomassa dos locais. Essa biomassa acumulada serve de combustível para os incêndios,
principalmente em climas de verões secos e quentes, possibilitando ainda mais esse tipo
de acidente (Cerdà & Lasanta, 2005). As épocas de queimadas geralmente são seguidas
de chuvas torrenciais, intensificando o processo de erosão aumentando o risco de
desertificação do solo (Campo et al., 2006). Além disso, muitas das áreas ardidas
recuperadas podem voltar a arder, favorecendo uma degradação progressiva do
ecossistema, com modificações das condições estruturais e hidrológicas do solo (Campo
et al., 2006; Fonseca & Figueiredo, 2013).

14

3 METODOLOGIA

3.1 ÁREA DE ESTUDO E CONTESTUALIZAÇÃO DA METODOLOGIA

A área de estudo corresponde ao distrito de Bragança, localizado no NE


Portugal, com extensão de aproximadamente 6600 km². O distrito de Bragança
subdivide-se em 12 concelhos, sendo eles: Vinhais, Bragança, Vimioso, Miranda do
Douro, Macedo de Cavaleiro, Mirandela, Alfandega da Fé, Mogadouro, Vila Flor,
Carrazeda de Ansiães, Torre de Moncorvo e Freixo de Espada Cinta (Figura 5).


Figura 5 - Área de estudo: O Distrito de Bragança, NE Portugal e seus municípios

A metodologia se organizou em avalizar primeiro as áreas ardidas e as áreas que


voltaram a queimar, a partir dos dados adiquiridos pela plataforma online do Instituto da
Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), realizando uma análise estatística dos
dados afim de obter uma perceção global da problemática dos incêndios na região. Em
seguida, para melhor conceção da problemática sobre a erosão, avançou-se as
estatísticas para os recursos pedológicos das áreas atingidas, com os dados já obtidos e
os demais retirados da Carta dos Solos do Nordeste de Portugal (Agroconsultores e
15

Coba, 1991)͘ Por fim, realizou-se a estimativa do risco de erosão para as áreas ardidas,
utilizando parte da Universal Soil Loss Equation - USLE.

3.2 ÁREAS ARDIDAS

3.2.1 Fonte e períodos de análise

A pesquisa a respeito das áreas ardidas no NE Português, baseia-se em dados


disponibilizados pela plataforma online do Instituto da Conservação da Natureza e das
Florestas (ICNF). O período de análise corresponde aos anos de 1990 a 2015, no qual as
áreas atingidas estendem-se por 1555 km², ou seja, 23,56% da área total do Distrito já
ardeu como apresentado na Figura 6.


Figura 6 - Áreas ardidas nos últimos 26 anos no Distrito de Bragança
Fonte: Adaptado de Portal online ICNF (2017).

16

As informações tomadas são apresentadas em planilhas no Microsoft Excel.
Onde foram gerados todos os gráficos e tabelas.

3.2.2 Critérios de tratamento dos dados

Os dados tomados para este estudo continham informações correspondentes a


todo o território nacional, com isso filtrou-se somente os dados relativos à área de
estudo.

As informações referentes aos anos de 1990 a 2000 apresentaram-se com um


menor nível de detalhe em relação aos anos superiores a 2001. Com isso primeiramente,
avaliou-se os dados do ano mais atual disponibilizado, que corresponde a 2015, a fim de
verificar o nível de importância dos valores de áreas ardidas inferiores a 0,1 hectares de
extensão.
Com esse fim, os valores foram segregados em classes FRUUHVSRQGHQWHV D ³ D
KD´³DKD´H³!RX KD´VHQGRFODVVLILFDGRV YDORUHVWDQWRSDUDR
número de ocorrências de incêndios, como para total de áreas ardidas.
Avaliando os valores do número de ocorrência de incêndios e as áreas totais
ardidas em hectares no ano de 2015 para as três classes, nota-se que mais de 70% das
ocorrências de incêndios apresentaram-se na classe de > ou = a 0,1 hectares. No Gráfico
1 pode-se comparar os resultados para cada classe.
2 Q~PHUR GH RFRUUrQFLDV GD FODVVH ³ D ´ UHSUHVHQWD DSUR[LPDGDPHQWH
20% do total de ocorrências e o total de área ardida não ultrapassa 1%, por esse motivo,
WRGRVDVDQDOLVHVVHJXLQWHVIRUDPUHDOL]DGDVSDUDDFODVVHGH³!RX ´LJXDODQGRDV
informações com os dados obtidos para o período de 1990 a 2000.

17

uso da terra no local ardido. Desta forma, separam-se DVFODVVHVGHXVRHP³)ORUHVWD´
³0DWRV´ H ³Agrícola´ HP VHJXLGD UHDOL]RX D FRQWDJHP GR Q~PHUR GH RFRUUrQFLDs de
acordo com a presença de área ardida.

3.3 ÁREAS REINCIDENTES A QUEIMADA

A pesquisa a respeito das áreas reincidentes a queimada no NE Português,


baseiam-se nas informações geográficas disponibilizadas pela plataforma online do
Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). O período de análise
corresponde aos anos de 1990 a 2015. Os shapefile referente as áreas queimadas do
Distrito de Bragança, foram tratadas no software QGIS 2.14.8 e as informações geradas
foram extraídas para o Microsoft Excel a fim de gerar gráficos para melhor
interpretação dos dados.
O tratamento dos dados cartográficos seguindo o critério de estudo para as áreas
ardidas, em que as manchas de áreas queimadas inferiores a 0,1 hectare não foram
analisadas.
Para a sobreposição das camadas vetoriais afim de selecionar as zonas que
voltaram a queimar ao longo dos anos, utilizou-se a ferramenta intersecção do software
QGIS. As intersecções foram feitas de ano em ano, iniciando por 1990 e 1991. Quando
a intersecção da camada vetorial apresentava manchas sobrepostas, as mesmas eram
classificadas sendo arquivadas apenas as informações das áreas superiores a 0,1 hectare.
Desta forma adquiriu-se tabelas de atributos com as informações das áreas que
voltaram a queimar e seu intervalo de recorrência, sendo avaliado o número de
recorrência e área total reardida, além da percentagem de recorrência ao longo do tempo.

3.4 RECURSO PEDOLÓGICOS DAS ÁREAS ARDIDAS

Para as análises da tipologia do solo, fatores de formação e aptidão do uso da


terra das áreas queimadas, utilizou-se o software ArcGis para realizar a sobreposição da
camada vetorial das áreas queimadas com a Carta dos Solos, Carta do Uso Actual da

19

Terra e Carta de Aptidão da Terra do Nordeste de Portugal (Agroconsultores e Coba,
1991) a fim de obter informações pedológicas dessas zonas. Para realizar o tratamento
dos dados estes foram extraídos para o Microsoft Excel.

3.5 ESTIMATIVA DO RISCO DE EROSÃO PARA AS ÁREAS ARDIDAS

A fim de avaliar a perda média de solo por erosão e a potencialidade de perda de


solo em ambientes de ocorrência de incêndios ao longo dos anos, teve como base o
modelo de estimativa da erosão definido como Equação Universal de Perda de Solo ±
USLE. Para obter resultados mais prováveis em um local particular os elementos
caracterizadores das condições potenciais de erosão (clima, solo e topografia) deverão
ser considerados (Lima, 2016).
A Equação Universal de Perda de Solo segundo Wischmeier & Smith (1978)
está apresentado na Equação (1):

‫ ܣ‬ൌ ܴ‫ܲܥܵܮܭ‬ሺͳሻ

Em que segundo os autores:

A - Perda de solo calculada por unidade de área, expressa de acordo com as


características dos fatores integrantes da equação, retratado pelo peso do solo por área
do local.
R - Fator precipitação e escoamento, é o número de unidades de índice de erosão de
chuvas, mais um fator de escoamento.
K - Fator de erodibilidade do solo, é a taxa de perda de solo por unidade de índice de
erosão para um solo especificado.
L - Fator de comprimento de inclinação, é a relação entre a perda de solo do
comprimento de inclinação do ambiente avaliado.
S - Fator de declividade, é a relação entre a perda de solo do gradiente de inclinação do
terreno e a as condições de referência.
C - Fator de cobertura e manejo, é a relação entre a perda de solo nas condições locais
de coberto vegetal e sua gestão ao longo do tempo e a da condição de referência.

20

P - Fator de prática conservacionista, é a relação de perda de solo com uma prática de
conservação do solo, como terraceamento e curva de nível.
Para a estimativa de perdas potenciais de solo de áreas ardidas as variáveis R, K
e S são as que representem melhor essa condição, já que nessa altura as áreas atingidas
pelo fogo apresentam-se de solo exposto e sem a aplicação de práticas
conservacionistas.
No caso do Fator L, devido à grande diversidade no comprimento de inclinação
nas áreas ardidas e não tendo um critério de escolha para a obtenção de um único valor
de comprimento de declive para ser utilizado, este foi considerado igual a 1.

3.5.1 Fator erosividade, índice de aridez e zonas climáticas

A estimativa da influência das precipitações na erosão do solo aplicável para o


NE de Portugal, leva em consideração à escala da Zona climática na região, adotando-se
um fator de estimativa variável de acordo com a classe de precipitação (Tabela 1), com
forme a Equação (2) (Figueiredo, 2015):

ܴ ൌ ܲǤ ݂ሺʹሻ

Onde:

R- Fator erosividade; (MJ ha-1 mm h-1);


P ± Precipitação (mm, valores médios anuais para a área em questão);
f ± Fator de estimativa da Erosividade.

Tabela 1- Fator de estimativa da erosividade de acordo com a classe de precipitação


Classe de Precipitação Média Anual (P, mm) Fator de Estimativa (f)
< 600 1,22
600-800 1,16
800-1000 1,11
1000-1200 1,08
1200-1400 1,05
> 1400 1,03
Fonte: Figueiredo (2015) em Lima (2016).

Como o índice de aridez é considerado um indicador de suscetibilidade à


desertificação podendo ser associada também à degradação dos solos por via do impacto

21

dos incêndios, tomou-se este índice para efeitos da definição das condições climáticas
para a estimativa de perdas potenciais de solo nas áreas atingidas pelo fogo.
Figueiredo et. al. (2015b) considerou três categorias para representar as
condições climáticas típicas encontradas na Região NE de Portugal: Semiárido;
Subhúmido Seco; Subhúmido Chuvoso e Húmido (Figura 4). Para tais condições
climáticas foram feitas a correspondência com a classificação em zonas climáticas
regionais adotadas pela Carta dos Solos do Nordeste de Portugal (Agroconsultores e
Coba, 1991), baseada na temperatura e precipitação média anual Figura 7.


Figura 7 - Classificação Clima regional adotado
Fonte: Agroconsultores e Coba (1991) em Lima (2016).

A correspondência entre classes de índice de aridez e zonas climáticas da carta


de solos do NE de Portugal para o Distrito de Bragança e o total das áreas ardidas no
período estudado para cada zona pode ser verificada na Tabela 2.

22

Tabela 2 - Classes de índice de aridez e zonas climáticas da carta de solos de NE Portugal
Classe de índice de Área total ardida 1990- Associações de Zonas climáticas de
Aridez 2015 (ha) solos (ZC)

Q5, Q4 Q5, Q4 Q5 (Q3), Q4 Q5 T5,


Semiárido 49626,32
Q5 Q4 T4, Q5 T5, T5 Q5
F4, F4 F3, F4 F5, Q4, Q4 Q3, Q4 T4,
T2 T3 Q2, T2 T3 T4, T3, T3 F3, T3 T2
Subúmido Seco 120002,94 Q2, T3 T4, T3 T4 Q4, T4, T4 F3, T4
Q4, T4 T5, T4 T5 Q3, T4 T5 Q4, T4
T5 T3, T5

Subhúmido chuvoso e F1, F2, F2 F1 F3, F2 F3, F3, F3 F2, F3


69598,57
Húmido T3, M1, M1 A1

3.5.2 Fator Erodibilidade e unidades de solo dominante

Neste trabalho o risco de erosão do solo foi aproximado pelo cálculo de


erodibilidade do solo da equação Universal de perda do solo (URLS). Esse cálculo foi
estimado de acordo com o procedimento original (Wischmeier & Smith, 1978), sendo
considerados fração de matéria orgânica, o código de estrutura e permeabilidade do
solo, de acordo com a Equações (3) e (4) (unidades originais; escala granulométrica
USDA):

‫ ܭ‬ൌ ʹǡͳǤͳͲ̰ሺെ͸ሻǤ ሺ‫ͳ̰ܯ‬ǡͳͶሻǤ ሺͳʹ െ ܽሻ  ൅ ͲǡͲ͵ʹͷǤ ሺܾ െ ʹሻ  ൅ ͲǡͲʹͷǤ ሺܿ െ ͵ሻǤ Ͳǡͳ͵ͳ͹ሺ͵ሻ

‫ ܯ‬ൌ  ሺΨ‫ ݋݉݅ܮ‬൅ ‫ܽ݊݅ܨ݋ݐ݅ݑܯܽ݅݁ݎܣ‬ሻሺͳͲͲ െ Ψ‫݈ܽ݅݃ݎܣ‬ሻሺͶሻ

Em que:

K ± Fator de Erodibilidade [[Link]-1(MJ ha-1 mm h-1)];


a - % Matéria Orgânica, adotando-se como valor máximo de 4% para teores
superiores;
b ± Código da Estrutura;
c - Código de Permeabilidade.

O código da estrutura segue a seguinte classificação Figueiredo (1989)


adaptando o original de Wischmeier & Smith (1978):

1- Agregações granulosa e grumosa muito fina;


2- Agregações granulosa e grumosa fina;

23

3- Agregações granulosa e grumosa média e granulosa grosseira;
4- Agregações Laminoforme, prismoforme, anisoforme e granulosa muito
grosseira.

Também de acordo com Wischmeier & Smith (1978), as codificações das


classes de permeabilidade seguiram:

1- Rápida e muito rápida;


2- Moderadamente rápida;
3- Moderada;
4- Moderadamente Lenta;
5- Lenta;
6- Muito Lenta.

Devido a presença de elementos grosseiros no solo, fez-se necessário a correção


nos valores do fator Erodibilidade (K) encontrados. Com isso, aplicou-se as Equação (5)
de acordo com Wischmeier & Smith (1978) e Equação (6) melhorada por Figueiredo,
(2001):

‫ ݃݁ܭ‬ൌ ‫݂ݐܭ‬Ǥ ݁ሺെͲǡͲ͵ͷΨǤ ܴ‫ܥ‬ሻሺͷሻ

Ψܴ‫ ܥ‬ൌ ʹǡͷͳǤ Ψ‫ ܩܧ‬െ ͳͶǡͶ͸ሺ͸ሻ

Em que:

Keg ± Valor de K corrigido pela presença dos elementos grosseiros à superfície;


Ktf ± Fator K (estimado apenas para a terra fina);
%EG ± Percentagem de cobertura superficial do solo por elementos grosseiros.
%RC - Cobertura pedregosa (% área)

Foram utilizados os dados analíticos pertinentes da camada superficial dos perfis


de unidade de solo da Região conforme Agroconsultores e Coba (1991). Calculado o
Fator K para todos os perfis disponíveis, foram assumidos como perfis representativos
das unidades de solo nas áreas ardidas os correspondentes aos com valor mais próximo
da média do Fator K obtida para o conjunto de cada unidade de solo.
A análise de erodibilidade do solo, seguiu-se a classificação do Fator K proposta
por Figueiredo (1989), em que considera erodibilidade em baixo, medio e elevado.
Conforme a (Tabela 3).

24

Tabela 3 - Classificação do fator de erodibilidade (Fator K)
Fator K
Classe Intervalo de valores
Designação
1 <0,017
2 0,017 - 0,021
Baixo
3 0,021 - 0,024
4 0,024 - 0,029
5 0,029 - 0,035
6 0,035 - 0,040
Médio
7 0,040 - 0,046
8 0,046 - 0,053
9 0,053 - 0,061
10 0,061 - 0,069
Elevado
11 0,069 - 0,078
12 •
Fonte: Adaptado de Figueiredo (1989).

Para o cálculo do Fator K nas unidades solos dominante na unidade cartográfica,


apresentava solos compostos como o Idox Idbx, deste modo a proporção equivalente é
de 60% e 40% respetivamente. Já quando obtivermos três unidades dominantes a
proporção corresponde a 50, 30 e 20% nomeadamente.
Para cada categoria de condições climáticas definidas de acordo com a classe de
índice de aridez, identificou-se as unidades cartográficas dos solos, representado pelas
unidades solo dominantes, definidas na Carta dos Solos do Nordeste de Portugal
(Agroconsultores e Coba, 1991). Selecionaram-se as unidades solo dominantes para a
estimativa de perdas potenciais de solo nas áreas ardidas, calculando a área ocupada por
cada uma delas, tendo em conta a sua proporção nas unidades cartográficas e utilizando
a base de dados SIG da Carta de Solos do NE de Portugal (Figueiredo et al., 2001). Foi
selecionado as unidades de solo que estivessem representadas com áreas superiores a
5% do total em cada classe de indicie aridez, afim de que as três categorias climáticas
obtivessem mais de 50% de suas áreas avaliadas. Os solos classificados estão
representados no Tabela 4.
As unidades de solo que apresentaram maiores extensões nas áreas ardidas
durante o período estudado podem ser observadas individualmente na Figura 8. Contudo
as unidades apresentaram-se em sua maioria compostas.

25

Bdog Cambissolos dístricos órticos de granitos e rochas afins.
Cambissolos dístricos crómicos de depósitos de vertente em áreas de xistos
Bdxx2
e rochas afins, frequentemente com filões de rochas quartzíticas.
Boug Cambissolos úmbricos órticos de granitos e rochas afins.
Buoq Cambissolos úmbricos órticos de depósito de vertente em áreas de rochas.
Idbx Leptossolo dítrico câmbicos de xisto e rochas afins.
Idog Leptossolos dístricos órticos de granito e rochas afins.
Idox Leptossolos dístricos órticos de xisto e rochas afins.
Ieob Leptossolos êutricos órticos de rochas básicas.
Ieog Leptossolos êutricos órticos de granito e rochas afins.
Ieou Leptossolos êutricos órticos de rochas ultrabásicas.
Ieox Leptossolos êutricos órticos de xisto e rochas afins.
Isg Leptossolos líticos de granito e rochas afins.
Isx Leptossolos líticos de xisto e rochas afins.
Iub Leptossolos Úmbricos de rochas básicas.
Iug Leptossolos Úmbricos de granito e rochas afins.
Iux Leptossolos Úmbricos de xisto e rochas afins.
Figura 8 - Classificação das unidades pedológicas classificadas com predominancia das áreas
atingidas

Tabela 4 - Principais unidades solos dominantes nas áreas ardidas por classe de Índice de Aridez
Unidade Solo
Classe de índice de Unidade Dominante na Área Área na
Perfil
Aridez cartográfica unidade Ardida (ha) Classe IA (%)
cartográfica
464 Q Idox 2.3 Idox, Isx 46709,1 9,4
464 Q Ieox 1.3 Ieox 72075,0 28,2
Semiárido 443 F Ieox 2.1 Ieox, Isx 139974,3 34,4
152 Q Isg 1.1 Isg, Iug 170575,3 14,5
- - * 66929,48 13,49
344 Q Idog 4.5 Idog, Iug 72068,8 27,4
464 Q Idox 1.6 Idox 79136,2 16,0
464 Q Idox 12.1 Idox, Bdxx2, Iug 103829,9 8,7
Subúmido Seco 464 Q Idox 4.2 Idox, Idbx 121085,4 10,1
464 Q Idox 2.2 Idox, Isx 192005,0 6,0
138 E Iug 8.2 Iug, Idog 328930,5 6,6
- - * 302973,70 25,25
100C Buxx2 4.1 Buxx2, Buoq2, Iuq 35020,4 5,1
464 Q Idox 1.1 Idox 35567,9 8,7
464 Q Idox 4.1 Idox, Idbx 60665,4 13,8
Subhúmido
138 E Iug 2.1 Iug, Isg 96369,5 17,1
chuvoso e Húmido
53 Q Iux 8.2 Iux, Buxx2 96503,9 5,0
53 Q Iux 2.1 Iux, Isx 118792,0 13,9
- - * 253066,56 36,36
* Restantes solos com extensão de área menor que 5% da área total.

26

3.5.3 Fator topográfico

O processo erosivo influenciado pelo declive pode ser estimado pela Equação (7) de
McCool et al., (1987):

ܵ ൌ ͳ͸ǡͺ‫ߠ݊݁ݏ‬Ȃ ͲǡͷͲሺ͹ሻ

Onde:

S ± fator declive,
ș± Ângulo de inclinação da encosta (graus).

A Carta dos Solos do NE de Portugal (Agroconsultores e Coba, 1991) apresenta


uma definição de classes de declive associada as unidades cartográficas, em que
representam as condições topográficas dominantes nessas unidades. Na Tabela 5 está a
classificação da declividade apresentando as classes dominantes e seus respectivos
intervalos de declive. Já as classes de declividade por unidades de solo estão indicadas na
Tabela 6.

Tabela 5 - Classe dominante e suas declividades


Classe dominante Declive (%)
1 Declive < 12-15%
2 12-15 a 25-30%
3 25-30 a 45-50%
4 Declive > 45-50%
Fonte: Adaptado de Agroconsultores e Coba, (1991).

27

Tabela 6 - Classe de declive das áreas estudadas
Unidade de solo
Classe de índice de Área na Classe IA Classe de Declive
Dominante na
Aridez (%) declividade médio %
unidade cartográfica
Idox, Isx 9,4 4 57.5
Ieox 28,2 2 20.5
Semiárido Ieox, Isx 34,4 3 37.5
Isg, Iug 14,5 4 57.5
* 13,5 - -
Idog, Iug 27,4 3 37.5
Idox 16,0 2 20.5
Idox, Bdxx2, Iug 8,7 3 37.5
Subúmido Seco Idox, Idbx 10,1 1 6.75
Idox, Isx 6,0 4 57.5
Iug, Idog 6,6 2 20.5
* 25,3 - -
Buxx2, Buoq2, Iuq 5,1 2 20.5
Idox 8,7 2 20.5
Idox, Idbx 13,8 1 6.75
Subhúmido chuvoso e
Iug, Isg 17,1 2 20.5
Húmido
Iux, Buxx2 5,0 2 20.5
Iux, Isx 13,9 3 37.5
* 36,4 - -
* Restantes solos com extensão de área menor que 5% da área total.

28

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.1 ÁREAS ARDIDAS

4.1.1 Número de ocorrências e área total ardida

De acordo com Coelho & Valente (2015), apesar do fogo ser um elemento
crucial para o funcionamento dos ecossistemas Mediterrâneos, os incêndios vêm
assumindo dimensões catastróficas nos últimos 30/40 anos. O Gráfico 2 apresenta o
número de ocorrências e a extensão total de área ardida durante o período de 1990 a
2015, no Distrito de Bragança.

Área total ardida Número de ocorrências Área total ardida [ha] Nº de ocorrências
[ha]
30000 1800

1600
25000
1400

20000 1200

1000
15000
800

10000 600

400
5000
200

0 0
1990
1991
1992
1993
1994
1995
1996
1997
1998
1999
2000
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2009
2010
2011
2012
2013
2014
2015

Período de análise 
Gráfico 2 - Área total ardida e número de incêndios entre 1990 e 2015

De acordo com os dados, o ano que apresentou maior número de ocorrências de


incêndios no Distrito de Bragança, foi o ano 2000 com aproximadamente 1600 casos,
no entanto, o ano que teve maior extensão de área ardida corresponde a 2013. Segundo
o Relatório Final de incêndios Florestais realizado pelo Instituto da Conservação da
Natureza e das Florestas ± ICNF (2013) um único incêndio resultou em 61% da área
ardida no Distrito, onde consumiu cerca de 14136 hectares no período de 8 a 12 julho.

29

Mas essa catástrofe pode ser considerada uma eventualidade, já que o ano de maior
extensão de área ardida, inferior à verificada no ano de 2013, é o ano de 2003 com área
total ardida de aproximadamente 16000 hectares.
O gráfico também mostra uma redução da área ardida entre 2005 e 2010 quando
comparado com os anos imediatamente anteriores, porém, após 2010 esse cenário
inverte significativamente. Segundo Coelho & Valente (2015), para Portugal
continental, esse aumento das áreas ardidas esteve associado a períodos de temperaturas
muito elevadas e também à alta disponibilidade de biomassa, relacionada com o
abandono da gestão do espaço florestal.
Em 2014 as áreas totais ardidas voltam a diminuir, seguindo-se um aumento em
2015. Desta forma, reforça-se a importância da implementação de medidas mitigadoras
e a resolução deste problema a partir de medidas isoladas de prevenção ou de combate
aos incêndios, adotando estratégias integradas pela comunidade (Coelho & Valente,
2015).

4.1.2 Distribuição ao longo do ano

No Gráfico 3 pode-se verificar a representação da distribuição ao longo do ano


das áreas totais ardidas no período estudado.

Contagem Percentil 50 Percentil 75 Percentil 90 Percentil 95 Percentil 99


20
18
16
14
12
10
8
6
4
2
0
jun jul ago set out nov dez
Meses

Gráfico 3 ± Distribuição ao longo do ano das áreas ardidas

30

De acordo com a análise realizada, entre os anos de 1990 e 2015, 50% das áreas
ardidas ocorreu maioritariamente em agosto, já que este mês apresentou esse resultado
em 19 anos dos 26 estudados. Todavia em 4 anos dos 26 estudados, 50% da área
queimada ocorreu no mês de julho, registando-se também em 3 anos que esse limiar foi
atingido em setembro ou outubro.
A quase totalidade da área ardida em cada ano (99%) registou-se em setembro
(15 anos dos 26 estudados), atingindo em outubro frequências mais baixas (9 anos dos
26 estudados) e em novembro e dezembro ainda menores (4 anos dos 26 estudados). O
limiar do 75% de área ardida, em cada ano, apresenta uma distribuição temporal com
uma frequência mais elevada também no mês de agosto como se pode ver no Gráfico 3.
A grande concentração das ocorrências de incêndio e da extensão das áreas
ardidas corresponde aos meses de verão. No entanto, não se pode deixar de considerar o
outono e o início do inverno, na medida em que o fogo também pode se manifestar
nestas estações. Bernardino et al., (2013) afirma que as condições meteorológicas não
são as únicas causas dos incêndios, os quais também dependem dos fatores
topográficos, combustível, fonte de ignição, ou seja, dependem da vulnerabilidade
associada a cada ambiente.
Com base nestes resultados, os cuidados devem ser superiores nos meses de
agosto, setembro e outubro, mas não podem ser descartados no restante do ano, pois
segundo estudo realizado por Nogueira et al., (2015), até mesmo quando a severidade
do fogo é baixa já acarreta alterações nas propriedades do solo.

4.1.3 Uso da terra anterior ao incêndio

A comparação anual entre as áreas de uso agrícola, floresta e matos afetadas por
incêndios é apresentada no Gráfico 4.

31

Percentagem de Floresta Matos Agricultura
Uso
100%

90%

80%

70%

60%

50%

40%

30%

20%

10%

0%
2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015
Período de Análise
Gráfico 4 - Uso da terra anterior ao incêndio

É visível a incidência de incêndios em ambientes com vegetação de matos no


NE Portugal, correspondendo a cerca de 70% da extensão ardida ao longo dos últimos
anos. Esse fato pode ser explicado pelo grande armazenamento de biomassa,
conjuntamente com as características ambientais que possibilitam a ignição e facilitam a
propagação dos incêndios. A área florestal ardida representa cerca de 20% e em
ambientes agrícolas essa percentagem atinge um valor de aproximadamente 10%.
As extensas áreas de matos no Distrito de Bragança tem representação inferior a
70% indicando que essas áreas estão menos sujeitas a restrições quanto a ignição e
propagação do fogo. Para além da massa combustível acumulada e sua continuidade,
podem concorrer para explicar a elevada proporção de áreas de matos ardidas, a sua
localização mais remota relativamente aos núcleos populacionais onde o controlo social
tem condições mais limitadas de realização, tanto mais quanto se associa a baixa
densidade da população rural.
Essas alterações no uso da terra podem resultar num desequilíbrio na adequação
do uso à aptidão da terra como evidenciado por Figueiredo et al. (2015b) no NE
Portugal. As tendências na evolução recente do uso da terra podem contribuir para um
aumento do potencial de degradação do recurso solo, ainda mais pela distribuição
preferencial dos matos em áreas marginais declivosas (Figueiredo et al., 2015b).


32

50%

45%

40%

35%

30%

25%

20%

15%

10%

5%

0%
Granitos Xistos Rochas Básicas Rochas quartzíticas outras
e xistos

Gráfico 6 - Litologia do solo das áreas ardidas

As rochas graníticas também estão bastante presentes, correspondendo a 33%


das áreas atingidas pelos incêndios, em solos com horizonte A franco-arenoso ou
arenoso-franco, em geral saibrento ou cascalhento (Agroconsultores e Coba, 1991).
Estas rochas são bastante características de solos como Leptossolos e
Cambissolos (Agroconsultores e Coba, 1991), estando todavia representadas também
litologias básicas e quartzíticas.

4.2.2 Características dos solos nas áreas ardidas e aptidão da terra

O conhecimento dos solos num território é de grande importância para a


identificação das potencialidades, limitações e riscos que podem estar associados ao uso
da terra. No Gráfico 7 pode-se visualizar algumas características dos solos das áreas
queimadas no NE Portugal.

34


Gráfico 7 - Características dos solos nas áreas ardidas: A. Espessura do solo; B. Carência de água
no solo; C. Pedregosidade (% Elementos grosseiros); D. Declive dominante do terreno

A espessura do solo é de grande importância para o desenvolvimento das


plantas, já que a condições de enraizamento são determinadas pela espessura útil do solo
e pela facilidade de penetração radicular (Agroconsultores e Coba, 1991). Nas áreas
queimadas no NE Portugal apenas 5% dos solos apresentam espessura superior a 100
cm, ou seja, uma pequena fração dos solos atingidos apresentam condições favoráveis
para o uso agrícola. A maioria das áreas atingidas está representada por solos com
espessura entre 10 e 50 cm, considerados solos pouco desenvolvidos e de textura
grosseira.
Em relação à água no solo, as áreas apresentam condições de carência severa e
muito severa em 90% dos casos, a significar que existe baixo teor de água disponível
para as plantas nestes locais. A capacidade de água disponível integra vários fatores,
como a precipitação e sua distribuição ao longo do ano, a evapotranspiração, a
quantidade de água que se infiltra no terreno, entre outros (Agroconsultores e Coba,
1991).
Em 41% das áreas estudadas, estima-se que os solos apresentam mais de 30% de
elementos grosseiros em volume, sendo solos pedregosos que ao possuírem essa
característica dificulta a realização de práticas agrícolas convencionais nestes
ambientes.

35

O declive também é uma característica importante a ter em consideração na
instalação de culturas e execução das respetivas práticas culturais, além de exercer
grande influência na erosão do solo. Figueiredo (2013) refere, que segundo as boas
práticas agrícolas, as áreas com declive acima de 12 ± 15% não são favoráveis à
execução de operações mecanizadas, o que neste caso correspondem a 75% das áreas
atingidas.
Desta forma não impressiona que a aptidão da terra para os três usos seja na sua
maioria nula, como mostra o Gráfico 8. Faz-se notar que nas áreas atingidas, cerca de
14% dos solos apresentam aptidão elevada para o uso florestal.

Elevada Moderada Marginal Condicionada Nula


APTIDÃO PARA O USO DA TERRA

Agrícola

Pastagem

Florestal

0% 20% 40% 60% 80% 100%


DISTRIBUIÇÃO PERCENTUAL DA ÁREA ACUMULADA 
Gráfico 8 - Classe de aptidão para o uso da terra em áreas ardidas no Nordeste de Portugal

4.3 RECORRÊNCIA DE INCÊNDIOS E ÁREA ARDIDA

De acordo com o Gráfico 9 o maior número de recorrências de incêndios ocorreu


em intervalos de 4 anos com aproximadamente 270 ocorrências. Nos intervalos 7 e 9
anos os números de ocorrências também são elevados registando-se 230 casos,
aproximadamente.

36

Os intervalos que obtiveram as máximas extensões ardidas foram os de 6 e 8
anos com aproximadamente 1100 e 1040 hectares, respetivamente. Ao comparar estes
valores com a média das áreas reardidas por intervalo de recorrência, a que apresenta
maior média é o intervalo de 19 anos (80,3 hectares), o que pode ser explicado pela
grande extensão reardida, aproximadamente 3500 hectares, por um baixo número de
recorrências (menos de 50 casos), podendo ser visualizado no Gráfico 9.
Maioritariamente, as médias apresentadas tendem a permanecer por volta de 30 hectares
em cada intervalo de recorrência.

4.4 ESTIMATIVA DE PERDAS POTENCIAIS DE SOLO NAS ÁREAS ARDIDAS

4.4.1 Fator R

Foram obtidos os valores de R (fator erosividade) para todas as unidades solo


avaliadas, os valores resultam da precipitação média anual considerada para cada zona
climática dessas categorias. O Fator erosividade varia de 671 a 1493,5 [Link]-1. mm.h-1
como observado na Tabela 7.

Tabela 7 - Zona climática (ZC), precipitação (P) e fator R de acordo com o índice de aridez
Classe de Unidade Solo P Fator de R
ZC
índice de Dominante na unidade Média Estimativa da ([Link]-1.
Representativa
Aridez cartográfica (mm) erosividade mm.h-1)
Idox, Isx Q4 Q5 T5 600 1,16 696
Ieox Q5 550 1,22 671
Semiárido Ieox, Isx Q5 550 1,22 671
Isg, Iug Q4 Q5 (Q3) 715 1,16 829,4
* - - - -
Idog, Iug T4 T5 Q4 650 1,16 754
Idox T4 T5 Q4 650 1,16 754
Idox, Bdxx2, Iug T4 F3 800 1,11 888
Subúmido
Idox, Idbx F4 700 1,16 812
Seco
Idox, Isx T4 T5 Q3 715 1,16 829,4
Iug, Idog T3 T2 Q2 1150 1,08 1242
* - - - -
Buxx2, Buoq2, Iuq F3 T3 900 1,11 999
Idox F2 F3 1000 1,08 1080
Subhúmido Idox, Idbx F2 F3 1000 1,08 1080
chuvoso e Iug, Isg M1 A1 1450 1,03 1493,5
Húmido Iux, Buxx2 F3 F2 1000 1,08 1080
Iux, Isx F2 1100 1,08 1188
* - - - -
* Restantes solos com extensão de área menor que 5% da área total.

39

4.4.2 Fator K

Através das características das unidades solo, o maior valor calculado para o
Fator K (fator erodibilidade) na terra fina foi o da unidade solo Ieox, com um fator
erodibilidade de 0,071 [Link]-1.R. Já o menor valor para as unidades solo foi o Isg e Iug
com 0,034 [Link]-1.R. Contudo, após a correção devido à presença dos elementos
grosseiros no solo (Keg), o maior valor calculado para a erodibilidade foi o dos solos
Iug e Idog com 0,033 [Link]-1.R e o conjunto de solos Buxx2, Buoq2, Iuq apresentaram
a menor susceptibilidade à erosão, com 0,007 [Link]-1.R (Tabela 8).

Tabela 8 - Fator K na terra fina e corrigido para os elementos grosseiros (EG) por classe de índice
de aridez (IA) e unidade de solo
Classe de índice Unidade de solo K Keg
%EG Pedregosidade
de Aridez Dominante ([Link]-1.R) ([Link]-1.R)
Idox Isx 20.7 Moderado (15 - 30%) 0.056 0.013
Ieox 18.2 Moderado (15 - 30%) 0.071 0.024
Semiárido Ieox Isx 18.2 Moderado (15 - 30%) 0.062 0.017
Isg Iug 14.9 Baixa (5 - 15%) 0.034 0.024
* - - - -
Idog Iug 12.6 Moderado (15 - 30%) 0.040 0.029
Idox 20.7 Moderado (15 - 30%) 0.061 0.016
Idox Bdxx2 Iug 20.7 Moderado (15 - 30%) 0.061 0.019
Subúmido Seco Idox Idbx 20.7 Moderado (15 - 30%) 0.054 0.013
Idox Isx 20.7 Moderado (15 - 30%) 0.056 0.013
Iug Idog 12.6 Moderado (15 - 30%) 0.040 0.033
* - - - -
Buxx2 Buoq2 Iuq 27.9 Elevado (30 - 50%) 0.055 0.007
Idox 20.7 Moderado (15 - 30%) 0.061 0.016
Subhúmido Idox Idbx 20.7 Moderado (15 - 30%) 0.054 0.013
chuvoso e Iug Isg 12.6 Moderado (15 - 30%) 0.036 0.030
Húmido Iux Buxx2 24.1 Moderado (15 - 30%) 0.052 0.009
Iux Isx 24.1 Moderado (15 - 30%) 0.051 0.009
* - - - -
* Restantes solos com extensão de área menor que 5% da área total.

Após os cálculos da erodibilidade do solo, foi possível classificar as áreas


afetadas por incêndios em baixa, média e elevada susceptibilidade à erosão (Gráfico
12).
Cerca de 46% dos solos apresentam susceptibilidade à erosão elevada quando se
considera o Fator K (sem correção devido a pedregosidade presente no terreno), nesta
mesma avaliação pode-se verificar que 29% das áreas apresentam erodibilidade média.

40

Fator K Fator Keg (corrigido)
70

60
Percentagem de área (%)

50

40

30

20

10

0
Baixa Média Elevada Não calculada

Gráfico 12 - Percentagem de áreas ardidas por classe de classificação do valor de K e Keg

Com a correção para os elementos grosseiros (Keg), a suscetibilidade à erosão


baixou, e cerca de 78% das áreas atingidas possuem baixa erodibilidade, o que pode ser
explicado com base na presença de elementos grosseiros no solo, especialmente à
superfície. Os elementos grosseiros têm um papel importante na proteção do solo contra
o impacto da água da chuva, e reduzem a velocidade do escoamento superficial criando
zonas de deposição de sedimentos (Figueiredo, 1989). Ainda alguns solos apresentaram-
se com classe média de erodibilidade somando cerca de 7% das áreas atingidas pelos
incêndios.

4.4.3 Fator S

Quanto ao fator S, o valor mais alto foi obtido para as unidades solo Idox, Isx e
Isg, Iug que estão incluídas na classe 4 de declividade, obtendo-se um valor S igual a
7,87, nos ambientes Semiárido e Subhúmido Seco. Contudo, a classe de declive 2 é a
mais frequente nas unidades solo consideradas, com um declive médio de 20,5% e Fator
S igual a 2,87 (Tabela 9).

41

Tabela 9 - Fator S de acordo com o declive médio e índice de aridez
Unidade Solo Dominante Declive médio ș
Classe de índice de Aridez S
na unidade cartográfica % (graus)
Idox, Isx 57,5 26,56 7,87
Ieox 20,5 11,59 2,87
Semiárido Ieox, Isx 37,5 20,56 5,4
Isg, Iug 57,5 26,56 7,87
* - - -
Idog, Iug 37,5 20,56 5,4
Idox 20,5 11,59 2,87
Idox, Bdxx2, Iug 37,5 20,56 5,4
Subúmido Seco Idox, Idbx 6,75 3,86 0,63
Idox, Isx 57,5 26,56 7,87
Iug, Idog 20,5 11,59 2,87
* - - -
Buxx2, Buoq2, Iuq 20,5 11,59 2,87
Idox 20,5 11,59 2,87
Idox, Idbx 6,75 3,86 0,63
Subhúmido chuvoso e
Iug, Isg 20,5 11,59 2,87
Húmido
Iux, Buxx2 20,5 11,59 2,87
Iux, Isx 37,5 20,56 5,4
* - - -
* Restantes solos com extensão de área menor que 5% da área total.

Os valores de S seguem um padrão que reflete a classe de declive, pois o cálculo


do Fator S é realizado em função do grau de inclinação da encosta, assim, quanto maior
o grau de declive do terreno, maior será esse fator.

4.4.4 Produto RK e RKS

O produto RK representa o potencial de perda de solo de uma área, determinado


apenas pelos fatores de erosão básicos como clima e solo, sem interferências da
topografia local e intervenções humanas.
Quando se analisa o produto entre os fatores R e K, é possível observar que os
valores superiores pertencem às unidades solo Iug, Isg e Iug, Idog, para os índices de
aridez Subhúmido Chuvoso e Húmido e Subhúmido seco, com valores de 44,15 e 40,84
[Link]-1, respetivamente. Os menores valores verificam-se nas unidades solo
Buxx2, Buoq2, Iuq e Idox, Isx, para os índices de aridez Subhúmido Chuvoso e Húmido
e Semiárido, com valores de 7,12 e 8,76 [Link]-1, respetivamente (Tabela 10).

42

Tabela 10 - Fator RK e RKS de acordo com o índice de aridez e unidade solo dominante
Unidade Solo Área na
Classe de índice de KR ([Link]-1. RKS ([Link]-
Dominante na Classe IA
Aridez ano-1) 1
. ano-1)
unidade cartográfica (%)
Idox, Isx 9,4 8,76 68,94
Ieox, Isx 28,2 11,38 61,46
Semiárido Ieox 34,4 15,90 45,64
Isg, Iug 14,5 20,02 157,56
* 13,5 - -
Idox, Isx 27,4 10,44 82,16
Idox, Idbx 16,0 10,59 6,67
Idox 8,6 12,37 35,49
Subúmido Seco Idox, Bdxx2, Iug 10,1 16,43 88,71
Idog, Iug 6,0 21,96 118,56
Iug, Idog 6,6 40,84 117,20
* 25,25 - -
Buxx2, Buoq2, Iuq 5,1 7,12 20,44
Iux, Buxx2 8,7 9,94 28,52
Iux, Isx 13,8 10,67 57,62
Subhúmido chuvoso e Idox, Idbx 17,1 14,08 8,87
Húmido
Idox 5,0 17,71 50,83
Iug, Isg 13,9 44,15 126,70
* 36,36 - 

* Restantes solos com extensão de área menor que 5% da área total.


Em geral, 75% das áreas ardidas foram estudadas. Os restantes 25% não foram
avaliados devido à baixa representatividade dos solos em alguns ambientes, por esse
motivo apenas as que apresentassem 5% ou mais de extensão ardida em relação ao total
ardido foram considerados.
O produto das variáveis RKS representa as condições potenciais de erosão na
região considerando também o efeito da topografia, ou seja, valores de RKS apresenta
diferentes valores de acordo com o declive, unidade solo e índice de aridez.
Visualizando o resultado do produto dos fatores R, K e S, pode-se verificar que a
maior potencialidade de perda de solo encontra-se no Semiárido e Subhúmido Chuvoso
e Húmido para as unidades solo Isg, Iug (157,56 [Link]-1) e Iug, Isg (126,7 [Link]-
1
.ano-1). Esses ambientes apresentam alta declividade o que contribui para a perda de
solo. As unidades solo com menor potencial de perda de solo são Idox, Idbx, localizadas
nas zonas climáticas Subhúmido Seco e Subhúmido Chuvoso e Húmido, com
potencialidade de perda de solo de 6,67 e 8,87 ([Link]-1), respetivamente.
A partir dos gráficos 13 e 14, que representam a dispersão do RK e RKS, pode-
se obter uma visão global das áreas estudadas.

43

100

90

80
Percentagem de área acumulada (%)

70

60

50

40

30

20

10

0
5.00 10.00 15.00 20.00 25.00 30.00 35.00 40.00 45.00
KR ([Link]-1)
Gráfico 13 - Dispersão de RK por zonas climáticas e percentagem de área acumulada

O Gráfico 13 mostra que cerca de 90% das áreas avaliadas possuem um


potencial de perda de solo abaixo das 25 [Link]-1. As percentagens acumuladas de
área entre 10% e 25% não variaram muito, apresentando uma perda de solo para as
zonas climáticas em torno de 10 [Link]-1. Além disso, 75% das áreas ardidas nos
três ambientes climáticos obtiveram uma perda de solo de aproximadamente 18 [Link]-1.
Morgan (2005) refere que acima de 10 [Link]-1 o risco de erosão é severo, mesmo
nos solos mais profundos ocorre perda de material a uma taxa superior ao tolerável, pelo
que as áreas ardidas são classificadas como tendo um risco severo de erosão.
Quando se considera a topografia do terreno, a erosão do solo tende a aumentar
com o declive, devido à grande influência que exerce no escoamento. No Gráfico 14 se
pode visualizar esse aumento na perda de solo comparativamente ao Gráfico 13. Porém
na Tabela 10 é possível visualizar que no caso do solo Idox, Idbx a perda de solo
diminuiu de 10,59 para 6,67 [Link]-1 em clima Subhúmido seco e de 14,08 para
8,87 [Link]-1 em ambiente subhúmido chuvoso e húmido, já que a inclinação do
terreno é baixa.

44

100

90

80
Percentagem de área acumulada

70

60

50
40

30

20
10

0
0.0 20.0 40.0 60.0 80.0 100.0 120.0 140.0 160.0
RSK ([Link]-1)

Gráfico 14 - Dispersão de RKS global pela percentagem de área acumulada das áreas ardidas
estudadas

Em média 50% das áreas estudadas apresentaram perda de solo abaixo de 65


[Link]-1. Menos de 10% das áreas estudadas se encontram abaixo de 10 [Link]-1,
logo, os demais ambientes apresentam risco severo de erosão do solo.
Tendo em consideração que os Leptossolos são solos incipientes e delgados,
agrava a preocupação com essas áreas, pois esses solos são jovens e pouco
desenvolvidos o que acaba propiciando ainda mais o processo de desertificação.

45


5 CONCLUSÃO

Com este trabalho pode-se constatar a existência de uma elevada ocorrência de


incêndios na região NE Portugal, já que o número médio por ano de ocorrências
corresponde a cerca de 715 e as áreas atingidas estendem-se por 1555 km² do território.
Os incêndios em ambientes de matos correspondem a 70% do total das áreas
queimadas, sendo que ambientes de floresta correspondem a 20% e agrícola a 10%. A
muito expressiva importância dos matos enquanto áreas afetadas por incêndios sugere
causas relacionadas com o combustível acumulado em extensões tendencialmente
maiores, face à rarefação da população rural e ao abandono da terra e, por outro lado,
sugere ainda que à baixa densidade populacional estará associado menor controlo social
sobre essas áreas, deste modo, sendo menos vigiadas e fiscalizadas.
A grande maioria das áreas ardidas correspondem a solos sem aptidão para os
usos agrícola, pastagem e floresta. A recorrência dos incêndios geralmente ocorre em
períodos de 4 anos e em períodos de 7 e 9 anos, sendo que a maior extensão reardida
ocorreu em um intervalo de 6 anos, em que 1100 hectares voltaram a queimar.
Na estimativa de perdas potenciais de solo das áreas ardidas, realizou-se a
avaliação de 75% das áreas queimadas. Estas apresentaram Fator erosividade entre 671
a 1493,5 [Link]-1 e Fator erosividade após a correção devido à presença de elementos
grosseiros baixo (78%). O Fator declividade apresentou valor de 0,63 para declives mais
baixos e 7,87 para a classe mais alta de declividade.
A partir do produto RK verifica-se que a perda de solo foi mais elevada para as
unidades solo Iug, Isg em ambiente Subhumido Chuvoso, com valores superiores a 44
[Link]-1. Já para os resultados do produto entre os fatores R, K e S, pode-se
verificar que a maior perda de solo (157,56 [Link]-1) encontra-se no ambiente
Semiárido nas unidades solo Isg, Iug.
A grande maioria dos resultados tanto para os RK como para os RKS foram
superiores a 10 [Link]-1, ou seja, estes ambientes apresentam-se com risco de
erosão severa, sem contar que esses solos são classificados como Leptossos, deste modo
são solos incipientes, delgados, ou seja, solos jovens de pouca profundidade, agravando
ainda mais o nível da degradação.
Os resultados encontrados possibilitam efetuar trabalhos posteriores,
comparando os valores estimados para perda de solo das áreas queimadas com a Carta

47

de perda de solo por erosão hídrica da Europa (JRC), a fim de propor melhorias e
levantar interesse sobre possíveis subestimações de valores de perda de solo nos
ambientes de áreas ardidas.
Com isso, o trabalho apresentou uma contribuição para a investigação
pedológica e agronómica nas áreas ardidas, permitindo um conhecimento mais amplo
sobre este território do Distrito de Bragança no NE Portugal, no que respeita à
ocorrência, magnitude e distribuição de processos de erosão hídrica, a partir da análise
das estatísticas dos incêndios ocorridos no Distrito entre 1990 e 2015. Ao estimar as
perdas potenciais de solo nas áreas ardidas e suas consequências para a degradação do
recurso solo na região, contribuiu para recomendar que as atividades a serem realizadas
devem ser as mais adequadas de acordo com suas características, buscando o não
comprometimento do valioso recurso solo.

48

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