Erosão do Solo e Áreas Ardidas em Portugal
Erosão do Solo e Áreas Ardidas em Portugal
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1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 1
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA .......................................................................................... 3
2.1 SOLO ...................................................................................................................................... 3
3 METODOLOGIA .................................................................................................................. 15
3.1 ÁREA DE ESTUDO E CONTESTUALIZAÇÃO DA METODOLOGIA .......................... 15
,
4.4 ESTIMATIVA DE PERDAS POTENCIAIS DE SOLO NAS ÁREAS ARDIDAS ............ 39
,,
LISTA DE FIGURAS
,,,
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 - Nº de ocorrências e área total ardida por classe de área, sublinhando o carácter
residual dos registros de áreas ardidas com menos de 0,1 hectares ............................................ 18
Gráfico 2 - Área total ardida e número de incêndios entre 1990 e 2015 ..................................... 29
Gráfico 3 ± Distribuição ao longo do ano das áreas ardidas ....................................................... 30
Gráfico 4 - Uso da terra anterior ao incêndio .............................................................................. 32
Gráfico 5 - Principais unidades de solo das regiões queimadas do NE Portugal ........................ 33
Gráfico 6 - Litologia do solo das áreas queimadas ..................................................................... 34
Gráfico 7 - Características dos solos em áreas incendiadas: A. Espessura do solo; B. Carência de
água no solo; C. Pedregosidade (% Elementos grosseiros); D. Declive dominante do terreno .. 35
Gráfico 8 - Classe de aptidão para o uso da terra em áreas ardidas no Nordeste de Portugal ..... 36
Gráfico 9 - Número de recorrência de um incendio e a área total reardida................................. 37
Gráfico 10 - Percentagem da área total reardida relativamente aos intervalos de recorrências .. 38
Gráfico 11 - Áreas máximas e médias reardidas em cada intervalo de recorrência .................... 38
Gráfico 12 - Percentagem de áreas queimadas por classe de classificação do valor de K e Keg 41
Gráfico 13 - Dispersão de RK por zonas climáticas e percentagem de área acumulada ............. 44
Gráfico 14 - Dispersão de RKS global pela percentagem de área acumulada das áreas ardidas
estudadas ..................................................................................................................................... 45
,9
LISTA DE TABELAS
9
1 INTRODUÇÃO
1
Após este capítulo introdutório, em que são apresentados os objetivos do estudo,
a proposta de dissertação desenvolve-se em quatro capítulos, iniciando por um
referencial bibliográfico abrangendo os tópicos degradação do solo e mudanças no uso
da terra. Em sequência apresentam-se a metodologia utilizada e, nesta fase, os
resultados e sua discussão, seguindo da conclusão, finalizando com a lista de referências
bibliográficas.
2
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 SOLO
3
Figura 1 - Horizontes do solo
Fonte: Adaptado de Lepsch (2010)
4
2.1.2 Qualidade e propriedades do solo
5
carbono de biomassa microbiana, nitrificação, entre outros. Contudo o que apresenta
maior influência é o teor de matéria orgânica, uma vez que se relaciona fortemente com
a perda de qualidade do solo, já que sua presença também atua nas qualidades físicas e
químicas do solo, sendo um elemento de grande influência na proteção a degradação do
solo (Wilson & Kordybach, 1997).
6
Figura 2 - Degradação do solo
Fonte: Alexandre (2015).
7
velocidade de escoamento (Panagos et al., 2015). A erosão causada pela chuva
processa-se de duas formas destintas: primeiro ocorre a destruição dos agregados do
solo quer pelo impacto das gotas da chuva, quer pela água de escoamento superficial, a
qual em seguida promove o transporte dessas partículas destacadas (Lepsch, 2010).
Segundo Morgan (2005) existem três tipos de erosão hídrica mais conhecidos,
que são:
Figura 3 - Erosão laminar (A). Erosão em sulco (B). Erosão em voçoroca ou ravina (C)
Fonte: Adaptado de Osman (2014).
8
por chuvada, requerem uma grande gama de informações (Morgan, 2005). Em
contrapartida, um modelo empírico bastante utilizado, requerendo uma quantidade
menor de informações sobre a área estudada é a Universal Soil Loss Equation ± USLE,
que foi desenvolvida por Wischmeier & Smith (1978). Neste caso, a perda de solo é
estimada para condições médias de longo prazo, obtendo-se a quantidade de solo
erodido em média por ano. As estimativas de perda de solo são habitualmente expressas
em toneladas por hectare (massa de solo por unidade de área).
10
2.5 PROTEÇÃO DO SOLO CONTRA A EROSÃO E TOLERÂNCIA DE PERDA DE
SOLO
11
solo é aceitável, afim de manter a produtividade, sustentabilidade e impacto ambiental
mínimo (Figueiredo & Fonseca, 2009).
Teoricamente, a erosão do solo deve ser mantida a uma taxa igual ou inferior à
taxa natural em que o novo solo se forma (Morgan, 2005), a fim de garantir que o
equilíbrio das partículas nunca seja negativo em um certo tempo. Reconhece a
dificuldade de estimar as taxas de formação do solo visto que o tempo do processo é
geralmente lento. O valor de tolerância é dependente de fatores como a profundidade, a
textura, o uso e cobertura que determinam a taxa de solo removido por erosão
(Figueiredo & Fonseca, 2009; Morgan, 2005).
Entre tanto, estima-se que a taxas de formação do solo variam de 0,01 a 7,7 mm
de profundidade equivalente do solo por ano (Figueiredo & Fonseca, 2009; Morgan,
2005). Segundo Figueiredo & Fonseca (2009) um valor médio de formação do solo que
pode ser assumido é 0.1 mm.y-1, em que isso corresponde aproximadamente a [Link]-
1
.y-1.
Na prática, a taxa máxima de perda de solo admissível que mantém a
produtividade do solo no médio a longo prazo também depende da possibilidade de
aumentar a profundidade do solo e manter a produtividade do solo em níveis aceitáveis
através de práticas agrícolas (Figueiredo & Fonseca, 2009). Deste modo, é recomendado
por Arnoldus (1977) e Morgan (2005) conceber como valores aceitáveis de perda de solo
de 2 [Link]-1.y-1 e de 10 [Link]-1.y-1 como valores críticos para solos com substrato não
renovável e renovável, respetivamente.
Os dois limiares mencionados são utilizados para definir classes de risco de
erosão real. Desta forma, considera-se que abaixo de 2 [Link]-1.y-1, todos os solos, tanto
os mais delgados ou profundos, estão perdendo solo a uma taxa aceitável, o que
significa que o risco de erosão é baixo. Contudo acima de 10 [Link]-1.y-1, mesmo os
solos mais profundos estão perdendo material a uma taxa superior ao aceitável,
classificando o ambiente a um risco severo de erosão. Porém, entre os dois limites, o
risco de erosão pode ser considerado moderado, pois para solos mais delgados o risco é
alto, mas para os mais profundos é considerado baixo (Figueiredo & Fonseca, 2009).
12
2.6 MUDANÇAS NO USO DA TERRA, ÁREAS ARDIDAS E DEGRADAÇÃO DO
SOLO NO NE DE PORTUGAL
Figura 4 - Distribuição da suscetibilidade à desertificação no NE Portugal (com base no Índice de
Aridez - IA, 2000 ± 2010)
Fonte: Figueiredo, Fonseca & Nunes (2015b).
13
O NE Portugal apresentou no período de 1987 a 2007 um decréscimo de 16%
nas áreas de uso agrícola e um acréscimo de 14% nas zonas de matos e 2% nas de
floresta, mostrando que as tendências verificadas são positivas por via da redução
significativa das áreas que apresentam um maior risco de degradação (Figueiredo et al.,
2015a). Contudo, segundo os mesmos autores, esta região apresenta quase metade da
sua área agrícola em sobre-exploração e cerca de 15% em sobre-exploração severa,
assente em solos sem aptidão para esse tipo de uso. Além disso, a redução das áreas de
uso agrícola representa um acréscimo expressivo das áreas de matos, o que possibilita
outras perspetivas na interpretação dos resultados, já que a acumulação de biomassa
pode ampliar os riscos de incêndio (Figueiredo et al., 2015a).
De acordo com (Nunes et al., 2013), os incêndios florestais fazem parte do
ecossistema florestal mediterrâneo, mas também representam um dos principais fatores
de degradação, já que a camada superficial do solo é frequentemente afetada por esse
tipo de ocorrência. Nave & Lourenço (2007) afirmam que grande parte dos incêndios
em Portugal, são agravados devido ao abandono de propriedades, onde muitas famílias
migraram das zonas rurais para as urbanas, deixando as áreas florestais sobe o controlo
de uma população escassa e idosa. Desta forma, os campos agrícolas foram
progressivamente ocupados por matos e florestas, sem o controle humano aumentando a
biomassa dos locais. Essa biomassa acumulada serve de combustível para os incêndios,
principalmente em climas de verões secos e quentes, possibilitando ainda mais esse tipo
de acidente (Cerdà & Lasanta, 2005). As épocas de queimadas geralmente são seguidas
de chuvas torrenciais, intensificando o processo de erosão aumentando o risco de
desertificação do solo (Campo et al., 2006). Além disso, muitas das áreas ardidas
recuperadas podem voltar a arder, favorecendo uma degradação progressiva do
ecossistema, com modificações das condições estruturais e hidrológicas do solo (Campo
et al., 2006; Fonseca & Figueiredo, 2013).
14
3 METODOLOGIA
Figura 5 - Área de estudo: O Distrito de Bragança, NE Portugal e seus municípios
Figura 6 - Áreas ardidas nos últimos 26 anos no Distrito de Bragança
Fonte: Adaptado de Portal online ICNF (2017).
16
As informações tomadas são apresentadas em planilhas no Microsoft Excel.
Onde foram gerados todos os gráficos e tabelas.
17
uso da terra no local ardido. Desta forma, separam-se DVFODVVHVGHXVRHP³)ORUHVWD´
³0DWRV´ H ³Agrícola´ HP VHJXLGD UHDOL]RX D FRQWDJHP GR Q~PHUR GH RFRUUrQFLDs de
acordo com a presença de área ardida.
19
Terra e Carta de Aptidão da Terra do Nordeste de Portugal (Agroconsultores e Coba,
1991) a fim de obter informações pedológicas dessas zonas. Para realizar o tratamento
dos dados estes foram extraídos para o Microsoft Excel.
ܣൌ ܴܲܥܵܮܭሺͳሻ
20
P - Fator de prática conservacionista, é a relação de perda de solo com uma prática de
conservação do solo, como terraceamento e curva de nível.
Para a estimativa de perdas potenciais de solo de áreas ardidas as variáveis R, K
e S são as que representem melhor essa condição, já que nessa altura as áreas atingidas
pelo fogo apresentam-se de solo exposto e sem a aplicação de práticas
conservacionistas.
No caso do Fator L, devido à grande diversidade no comprimento de inclinação
nas áreas ardidas e não tendo um critério de escolha para a obtenção de um único valor
de comprimento de declive para ser utilizado, este foi considerado igual a 1.
ܴ ൌ ܲǤ ݂ሺʹሻ
Onde:
21
dos incêndios, tomou-se este índice para efeitos da definição das condições climáticas
para a estimativa de perdas potenciais de solo nas áreas atingidas pelo fogo.
Figueiredo et. al. (2015b) considerou três categorias para representar as
condições climáticas típicas encontradas na Região NE de Portugal: Semiárido;
Subhúmido Seco; Subhúmido Chuvoso e Húmido (Figura 4). Para tais condições
climáticas foram feitas a correspondência com a classificação em zonas climáticas
regionais adotadas pela Carta dos Solos do Nordeste de Portugal (Agroconsultores e
Coba, 1991), baseada na temperatura e precipitação média anual Figura 7.
Figura 7 - Classificação Clima regional adotado
Fonte: Agroconsultores e Coba (1991) em Lima (2016).
22
Tabela 2 - Classes de índice de aridez e zonas climáticas da carta de solos de NE Portugal
Classe de índice de Área total ardida 1990- Associações de Zonas climáticas de
Aridez 2015 (ha) solos (ZC)
ܭൌ ʹǡͳǤͳͲ̰ሺെሻǤ ሺͳ̰ܯǡͳͶሻǤ ሺͳʹ െ ܽሻ ͲǡͲ͵ʹͷǤ ሺܾ െ ʹሻ ͲǡͲʹͷǤ ሺܿ െ ͵ሻǤ Ͳǡͳ͵ͳሺ͵ሻ
Em que:
23
3- Agregações granulosa e grumosa média e granulosa grosseira;
4- Agregações Laminoforme, prismoforme, anisoforme e granulosa muito
grosseira.
Em que:
24
Tabela 3 - Classificação do fator de erodibilidade (Fator K)
Fator K
Classe Intervalo de valores
Designação
1 <0,017
2 0,017 - 0,021
Baixo
3 0,021 - 0,024
4 0,024 - 0,029
5 0,029 - 0,035
6 0,035 - 0,040
Médio
7 0,040 - 0,046
8 0,046 - 0,053
9 0,053 - 0,061
10 0,061 - 0,069
Elevado
11 0,069 - 0,078
12
Fonte: Adaptado de Figueiredo (1989).
25
Bdog Cambissolos dístricos órticos de granitos e rochas afins.
Cambissolos dístricos crómicos de depósitos de vertente em áreas de xistos
Bdxx2
e rochas afins, frequentemente com filões de rochas quartzíticas.
Boug Cambissolos úmbricos órticos de granitos e rochas afins.
Buoq Cambissolos úmbricos órticos de depósito de vertente em áreas de rochas.
Idbx Leptossolo dítrico câmbicos de xisto e rochas afins.
Idog Leptossolos dístricos órticos de granito e rochas afins.
Idox Leptossolos dístricos órticos de xisto e rochas afins.
Ieob Leptossolos êutricos órticos de rochas básicas.
Ieog Leptossolos êutricos órticos de granito e rochas afins.
Ieou Leptossolos êutricos órticos de rochas ultrabásicas.
Ieox Leptossolos êutricos órticos de xisto e rochas afins.
Isg Leptossolos líticos de granito e rochas afins.
Isx Leptossolos líticos de xisto e rochas afins.
Iub Leptossolos Úmbricos de rochas básicas.
Iug Leptossolos Úmbricos de granito e rochas afins.
Iux Leptossolos Úmbricos de xisto e rochas afins.
Figura 8 - Classificação das unidades pedológicas classificadas com predominancia das áreas
atingidas
Tabela 4 - Principais unidades solos dominantes nas áreas ardidas por classe de Índice de Aridez
Unidade Solo
Classe de índice de Unidade Dominante na Área Área na
Perfil
Aridez cartográfica unidade Ardida (ha) Classe IA (%)
cartográfica
464 Q Idox 2.3 Idox, Isx 46709,1 9,4
464 Q Ieox 1.3 Ieox 72075,0 28,2
Semiárido 443 F Ieox 2.1 Ieox, Isx 139974,3 34,4
152 Q Isg 1.1 Isg, Iug 170575,3 14,5
- - * 66929,48 13,49
344 Q Idog 4.5 Idog, Iug 72068,8 27,4
464 Q Idox 1.6 Idox 79136,2 16,0
464 Q Idox 12.1 Idox, Bdxx2, Iug 103829,9 8,7
Subúmido Seco 464 Q Idox 4.2 Idox, Idbx 121085,4 10,1
464 Q Idox 2.2 Idox, Isx 192005,0 6,0
138 E Iug 8.2 Iug, Idog 328930,5 6,6
- - * 302973,70 25,25
100C Buxx2 4.1 Buxx2, Buoq2, Iuq 35020,4 5,1
464 Q Idox 1.1 Idox 35567,9 8,7
464 Q Idox 4.1 Idox, Idbx 60665,4 13,8
Subhúmido
138 E Iug 2.1 Iug, Isg 96369,5 17,1
chuvoso e Húmido
53 Q Iux 8.2 Iux, Buxx2 96503,9 5,0
53 Q Iux 2.1 Iux, Isx 118792,0 13,9
- - * 253066,56 36,36
* Restantes solos com extensão de área menor que 5% da área total.
26
3.5.3 Fator topográfico
O processo erosivo influenciado pelo declive pode ser estimado pela Equação (7) de
McCool et al., (1987):
ܵ ൌ ͳǡͺߠ݊݁ݏȂ ͲǡͷͲሺሻ
Onde:
S ± fator declive,
ș± Ângulo de inclinação da encosta (graus).
27
Tabela 6 - Classe de declive das áreas estudadas
Unidade de solo
Classe de índice de Área na Classe IA Classe de Declive
Dominante na
Aridez (%) declividade médio %
unidade cartográfica
Idox, Isx 9,4 4 57.5
Ieox 28,2 2 20.5
Semiárido Ieox, Isx 34,4 3 37.5
Isg, Iug 14,5 4 57.5
* 13,5 - -
Idog, Iug 27,4 3 37.5
Idox 16,0 2 20.5
Idox, Bdxx2, Iug 8,7 3 37.5
Subúmido Seco Idox, Idbx 10,1 1 6.75
Idox, Isx 6,0 4 57.5
Iug, Idog 6,6 2 20.5
* 25,3 - -
Buxx2, Buoq2, Iuq 5,1 2 20.5
Idox 8,7 2 20.5
Idox, Idbx 13,8 1 6.75
Subhúmido chuvoso e
Iug, Isg 17,1 2 20.5
Húmido
Iux, Buxx2 5,0 2 20.5
Iux, Isx 13,9 3 37.5
* 36,4 - -
* Restantes solos com extensão de área menor que 5% da área total.
28
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
De acordo com Coelho & Valente (2015), apesar do fogo ser um elemento
crucial para o funcionamento dos ecossistemas Mediterrâneos, os incêndios vêm
assumindo dimensões catastróficas nos últimos 30/40 anos. O Gráfico 2 apresenta o
número de ocorrências e a extensão total de área ardida durante o período de 1990 a
2015, no Distrito de Bragança.
Área total ardida Número de ocorrências Área total ardida [ha] Nº de ocorrências
[ha]
30000 1800
1600
25000
1400
20000 1200
1000
15000
800
10000 600
400
5000
200
0 0
1990
1991
1992
1993
1994
1995
1996
1997
1998
1999
2000
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2009
2010
2011
2012
2013
2014
2015
Período de análise
Gráfico 2 - Área total ardida e número de incêndios entre 1990 e 2015
29
Mas essa catástrofe pode ser considerada uma eventualidade, já que o ano de maior
extensão de área ardida, inferior à verificada no ano de 2013, é o ano de 2003 com área
total ardida de aproximadamente 16000 hectares.
O gráfico também mostra uma redução da área ardida entre 2005 e 2010 quando
comparado com os anos imediatamente anteriores, porém, após 2010 esse cenário
inverte significativamente. Segundo Coelho & Valente (2015), para Portugal
continental, esse aumento das áreas ardidas esteve associado a períodos de temperaturas
muito elevadas e também à alta disponibilidade de biomassa, relacionada com o
abandono da gestão do espaço florestal.
Em 2014 as áreas totais ardidas voltam a diminuir, seguindo-se um aumento em
2015. Desta forma, reforça-se a importância da implementação de medidas mitigadoras
e a resolução deste problema a partir de medidas isoladas de prevenção ou de combate
aos incêndios, adotando estratégias integradas pela comunidade (Coelho & Valente,
2015).
30
De acordo com a análise realizada, entre os anos de 1990 e 2015, 50% das áreas
ardidas ocorreu maioritariamente em agosto, já que este mês apresentou esse resultado
em 19 anos dos 26 estudados. Todavia em 4 anos dos 26 estudados, 50% da área
queimada ocorreu no mês de julho, registando-se também em 3 anos que esse limiar foi
atingido em setembro ou outubro.
A quase totalidade da área ardida em cada ano (99%) registou-se em setembro
(15 anos dos 26 estudados), atingindo em outubro frequências mais baixas (9 anos dos
26 estudados) e em novembro e dezembro ainda menores (4 anos dos 26 estudados). O
limiar do 75% de área ardida, em cada ano, apresenta uma distribuição temporal com
uma frequência mais elevada também no mês de agosto como se pode ver no Gráfico 3.
A grande concentração das ocorrências de incêndio e da extensão das áreas
ardidas corresponde aos meses de verão. No entanto, não se pode deixar de considerar o
outono e o início do inverno, na medida em que o fogo também pode se manifestar
nestas estações. Bernardino et al., (2013) afirma que as condições meteorológicas não
são as únicas causas dos incêndios, os quais também dependem dos fatores
topográficos, combustível, fonte de ignição, ou seja, dependem da vulnerabilidade
associada a cada ambiente.
Com base nestes resultados, os cuidados devem ser superiores nos meses de
agosto, setembro e outubro, mas não podem ser descartados no restante do ano, pois
segundo estudo realizado por Nogueira et al., (2015), até mesmo quando a severidade
do fogo é baixa já acarreta alterações nas propriedades do solo.
A comparação anual entre as áreas de uso agrícola, floresta e matos afetadas por
incêndios é apresentada no Gráfico 4.
31
Percentagem de Floresta Matos Agricultura
Uso
100%
90%
80%
70%
60%
50%
40%
30%
20%
10%
0%
2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015
Período de Análise
Gráfico 4 - Uso da terra anterior ao incêndio
32
50%
45%
40%
35%
30%
25%
20%
15%
10%
5%
0%
Granitos Xistos Rochas Básicas Rochas quartzíticas outras
e xistos
34
Gráfico 7 - Características dos solos nas áreas ardidas: A. Espessura do solo; B. Carência de água
no solo; C. Pedregosidade (% Elementos grosseiros); D. Declive dominante do terreno
35
O declive também é uma característica importante a ter em consideração na
instalação de culturas e execução das respetivas práticas culturais, além de exercer
grande influência na erosão do solo. Figueiredo (2013) refere, que segundo as boas
práticas agrícolas, as áreas com declive acima de 12 ± 15% não são favoráveis à
execução de operações mecanizadas, o que neste caso correspondem a 75% das áreas
atingidas.
Desta forma não impressiona que a aptidão da terra para os três usos seja na sua
maioria nula, como mostra o Gráfico 8. Faz-se notar que nas áreas atingidas, cerca de
14% dos solos apresentam aptidão elevada para o uso florestal.
Agrícola
Pastagem
Florestal
36
Os intervalos que obtiveram as máximas extensões ardidas foram os de 6 e 8
anos com aproximadamente 1100 e 1040 hectares, respetivamente. Ao comparar estes
valores com a média das áreas reardidas por intervalo de recorrência, a que apresenta
maior média é o intervalo de 19 anos (80,3 hectares), o que pode ser explicado pela
grande extensão reardida, aproximadamente 3500 hectares, por um baixo número de
recorrências (menos de 50 casos), podendo ser visualizado no Gráfico 9.
Maioritariamente, as médias apresentadas tendem a permanecer por volta de 30 hectares
em cada intervalo de recorrência.
4.4.1 Fator R
Tabela 7 - Zona climática (ZC), precipitação (P) e fator R de acordo com o índice de aridez
Classe de Unidade Solo P Fator de R
ZC
índice de Dominante na unidade Média Estimativa da ([Link]-1.
Representativa
Aridez cartográfica (mm) erosividade mm.h-1)
Idox, Isx Q4 Q5 T5 600 1,16 696
Ieox Q5 550 1,22 671
Semiárido Ieox, Isx Q5 550 1,22 671
Isg, Iug Q4 Q5 (Q3) 715 1,16 829,4
* - - - -
Idog, Iug T4 T5 Q4 650 1,16 754
Idox T4 T5 Q4 650 1,16 754
Idox, Bdxx2, Iug T4 F3 800 1,11 888
Subúmido
Idox, Idbx F4 700 1,16 812
Seco
Idox, Isx T4 T5 Q3 715 1,16 829,4
Iug, Idog T3 T2 Q2 1150 1,08 1242
* - - - -
Buxx2, Buoq2, Iuq F3 T3 900 1,11 999
Idox F2 F3 1000 1,08 1080
Subhúmido Idox, Idbx F2 F3 1000 1,08 1080
chuvoso e Iug, Isg M1 A1 1450 1,03 1493,5
Húmido Iux, Buxx2 F3 F2 1000 1,08 1080
Iux, Isx F2 1100 1,08 1188
* - - - -
* Restantes solos com extensão de área menor que 5% da área total.
39
4.4.2 Fator K
Através das características das unidades solo, o maior valor calculado para o
Fator K (fator erodibilidade) na terra fina foi o da unidade solo Ieox, com um fator
erodibilidade de 0,071 [Link]-1.R. Já o menor valor para as unidades solo foi o Isg e Iug
com 0,034 [Link]-1.R. Contudo, após a correção devido à presença dos elementos
grosseiros no solo (Keg), o maior valor calculado para a erodibilidade foi o dos solos
Iug e Idog com 0,033 [Link]-1.R e o conjunto de solos Buxx2, Buoq2, Iuq apresentaram
a menor susceptibilidade à erosão, com 0,007 [Link]-1.R (Tabela 8).
Tabela 8 - Fator K na terra fina e corrigido para os elementos grosseiros (EG) por classe de índice
de aridez (IA) e unidade de solo
Classe de índice Unidade de solo K Keg
%EG Pedregosidade
de Aridez Dominante ([Link]-1.R) ([Link]-1.R)
Idox Isx 20.7 Moderado (15 - 30%) 0.056 0.013
Ieox 18.2 Moderado (15 - 30%) 0.071 0.024
Semiárido Ieox Isx 18.2 Moderado (15 - 30%) 0.062 0.017
Isg Iug 14.9 Baixa (5 - 15%) 0.034 0.024
* - - - -
Idog Iug 12.6 Moderado (15 - 30%) 0.040 0.029
Idox 20.7 Moderado (15 - 30%) 0.061 0.016
Idox Bdxx2 Iug 20.7 Moderado (15 - 30%) 0.061 0.019
Subúmido Seco Idox Idbx 20.7 Moderado (15 - 30%) 0.054 0.013
Idox Isx 20.7 Moderado (15 - 30%) 0.056 0.013
Iug Idog 12.6 Moderado (15 - 30%) 0.040 0.033
* - - - -
Buxx2 Buoq2 Iuq 27.9 Elevado (30 - 50%) 0.055 0.007
Idox 20.7 Moderado (15 - 30%) 0.061 0.016
Subhúmido Idox Idbx 20.7 Moderado (15 - 30%) 0.054 0.013
chuvoso e Iug Isg 12.6 Moderado (15 - 30%) 0.036 0.030
Húmido Iux Buxx2 24.1 Moderado (15 - 30%) 0.052 0.009
Iux Isx 24.1 Moderado (15 - 30%) 0.051 0.009
* - - - -
* Restantes solos com extensão de área menor que 5% da área total.
40
Fator K Fator Keg (corrigido)
70
60
Percentagem de área (%)
50
40
30
20
10
0
Baixa Média Elevada Não calculada
Gráfico 12 - Percentagem de áreas ardidas por classe de classificação do valor de K e Keg
4.4.3 Fator S
Quanto ao fator S, o valor mais alto foi obtido para as unidades solo Idox, Isx e
Isg, Iug que estão incluídas na classe 4 de declividade, obtendo-se um valor S igual a
7,87, nos ambientes Semiárido e Subhúmido Seco. Contudo, a classe de declive 2 é a
mais frequente nas unidades solo consideradas, com um declive médio de 20,5% e Fator
S igual a 2,87 (Tabela 9).
41
Tabela 9 - Fator S de acordo com o declive médio e índice de aridez
Unidade Solo Dominante Declive médio ș
Classe de índice de Aridez S
na unidade cartográfica % (graus)
Idox, Isx 57,5 26,56 7,87
Ieox 20,5 11,59 2,87
Semiárido Ieox, Isx 37,5 20,56 5,4
Isg, Iug 57,5 26,56 7,87
* - - -
Idog, Iug 37,5 20,56 5,4
Idox 20,5 11,59 2,87
Idox, Bdxx2, Iug 37,5 20,56 5,4
Subúmido Seco Idox, Idbx 6,75 3,86 0,63
Idox, Isx 57,5 26,56 7,87
Iug, Idog 20,5 11,59 2,87
* - - -
Buxx2, Buoq2, Iuq 20,5 11,59 2,87
Idox 20,5 11,59 2,87
Idox, Idbx 6,75 3,86 0,63
Subhúmido chuvoso e
Iug, Isg 20,5 11,59 2,87
Húmido
Iux, Buxx2 20,5 11,59 2,87
Iux, Isx 37,5 20,56 5,4
* - - -
* Restantes solos com extensão de área menor que 5% da área total.
42
Tabela 10 - Fator RK e RKS de acordo com o índice de aridez e unidade solo dominante
Unidade Solo Área na
Classe de índice de KR ([Link]-1. RKS ([Link]-
Dominante na Classe IA
Aridez ano-1) 1
. ano-1)
unidade cartográfica (%)
Idox, Isx 9,4 8,76 68,94
Ieox, Isx 28,2 11,38 61,46
Semiárido Ieox 34,4 15,90 45,64
Isg, Iug 14,5 20,02 157,56
* 13,5 - -
Idox, Isx 27,4 10,44 82,16
Idox, Idbx 16,0 10,59 6,67
Idox 8,6 12,37 35,49
Subúmido Seco Idox, Bdxx2, Iug 10,1 16,43 88,71
Idog, Iug 6,0 21,96 118,56
Iug, Idog 6,6 40,84 117,20
* 25,25 - -
Buxx2, Buoq2, Iuq 5,1 7,12 20,44
Iux, Buxx2 8,7 9,94 28,52
Iux, Isx 13,8 10,67 57,62
Subhúmido chuvoso e Idox, Idbx 17,1 14,08 8,87
Húmido
Idox 5,0 17,71 50,83
Iug, Isg 13,9 44,15 126,70
* 36,36 -
43
100
90
80
Percentagem de área acumulada (%)
70
60
50
40
30
20
10
0
5.00 10.00 15.00 20.00 25.00 30.00 35.00 40.00 45.00
KR ([Link]-1)
Gráfico 13 - Dispersão de RK por zonas climáticas e percentagem de área acumulada
44
100
90
80
Percentagem de área acumulada
70
60
50
40
30
20
10
0
0.0 20.0 40.0 60.0 80.0 100.0 120.0 140.0 160.0
RSK ([Link]-1)
Gráfico 14 - Dispersão de RKS global pela percentagem de área acumulada das áreas ardidas
estudadas
45
5 CONCLUSÃO
47
de perda de solo por erosão hídrica da Europa (JRC), a fim de propor melhorias e
levantar interesse sobre possíveis subestimações de valores de perda de solo nos
ambientes de áreas ardidas.
Com isso, o trabalho apresentou uma contribuição para a investigação
pedológica e agronómica nas áreas ardidas, permitindo um conhecimento mais amplo
sobre este território do Distrito de Bragança no NE Portugal, no que respeita à
ocorrência, magnitude e distribuição de processos de erosão hídrica, a partir da análise
das estatísticas dos incêndios ocorridos no Distrito entre 1990 e 2015. Ao estimar as
perdas potenciais de solo nas áreas ardidas e suas consequências para a degradação do
recurso solo na região, contribuiu para recomendar que as atividades a serem realizadas
devem ser as mais adequadas de acordo com suas características, buscando o não
comprometimento do valioso recurso solo.
48
REFERÊNCIAS
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