Macroamilasémia e Carcinoma do Esófago
Macroamilasémia e Carcinoma do Esófago
Edição:
Clínica Universitária de Cirurgia I (FMUL)
2016
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Prefácio
Paulo Costa
Prof. Catedrático de Cirurgia I
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Autores:
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Carcinoma do Esófago
1. Introdução
2. Anatomia
3. Patogénese
4. Sinais e Sintomas
5. Diagnóstico Diferencial
7. Tratamento
8. Prognóstico
11. Bibliografia
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1. Introdução
O carcinoma do esófago é o sexto cancro mais comum a nível mundial, ocorre entre a
5ª e a 7ª décadas de vida e é mais comum nos homens que nas mulheres. O carcinoma
pavimento-celular, sendo o mais prevalente, representa aproximadamente 55% dos casos,
sendo 15% no ⅓ superior e os outros 40% no ⅓ médio do esófago. É mais prevalente nos
EUA, Grã-Bretanha, África do Sul, China e Cazaquistão e é três vezes mais incidente na raça
negra que na caucasiana. O adenocarcinoma que ocorre no ⅓ inferior do esófago representa
perto de 45% dos casos, percentagem esta que tem vindo a aumentar nos países ocidentais,
sendo este mais incidente na raça caucasiana. Existem ainda outros tumores malignos do
esófago, muito menos frequentes tais como: carcinoma de células fusiformes (5%), carcinoma
das células pequenas (2%), linfoma (1%), sarcoma e carcinoma adenoide quístico (todos <1%).
As metástases no esófago, com origem em outros cancros, são raras e ocorrem normalmente
em casos avançados de melanoma, cancro da mama ou pulmão.
Em Portugal, o cancro do esófago corresponde a cerca de 5% dos tumores malignos
do tubo digestivo. Encontramos valores de incidência mais elevados nos distritos de Viana do
Castelo, Braga, Vila Real, Viseu e Porto. Aquando do diagnóstico 75% dos doentes já
apresentam metastização para os nódulos linfáticos.
É importante ter em conta que o esófago não tem camada serosa.
Figura 1 - Incidência Mundial do Carcinoma do Esófago, em ambos os sexos (2012) [adaptado de: Internacional Agency for
Research on Cancer - WHO]
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2. Anatomia do Esófago
O esófago é um tubo muscular que se divide em três segmentos, segundo a União
Internacional Contra o Cancro: esófago cervical (desde bordo inferior da cartilagem cricóide
à fúrcula esternal), esófago torácico (que se divide em três segmentos, desde a fúrcula esternal
até à junção gastro-esofágica) e o esófago abdominal.
O Esfíncter Esofágico Superior é formado por músculo estriado e, após isto, as fibras
de músculo liso são vão tornando mais abundantes no 1/3 superior. Os vasos linfáticos
localizados na submucosa são tão densos e interconectados que constituem um único plexo.
No ⅓ superior o fluxo linfático é maioritariamente cefálico, enquanto nos ⅔ inferiores é
caudal. Relativamente à fisiologia do esófago, destaca-se o facto de este ter uma tonicidade e
motilidade capazes de permitir a passagem dos alimentos até ao estômago, através do seu
peristaltismo. A deglutição que se inicia na zona faríngea, num acto reflexo de grande
complexidade será, pois, afectada quando existe patologia esofágica, o que se traduzirá no
sintoma mais importante, a disfagia.
a) b)
Figura 2 - a) Musculatura do Esófago e suas relações anatómicas com a Traqueia; b) camada muscular circular interna, camada
muscular longitudinal externa e plexo linfático. [Adaptado de Netter (2015) e Pinoti (1990) ]
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3. Patogénese
Relativamente ao carcinoma do pavimento celular, embora os factores de risco não
tenham sido ainda totalmente identificados sugere-se que, os aditivos alimentares tais como
nitrosaminas exógenas, as carnes fumadas, as deficiências minerais, a higiene oral deficiente e a
ingestão de líquidos ou alimentos quentes, podem estar implicados no processo oncogénico,
bem como o consumo de álcool e tabaco. Existem ainda doenças ligadas a esta patologia tais
como: a Acalásia, ingestão de cáusticos e Síndrome de Plummer-Vinson, Doença Celíaca e
Hiperqueratose Palmo-plantar. Por sua vez a Doença de Refluxo Gastro-Esofágico (DRGE) é
o principal factor associado ao adenocarcinoma, mas também o tabaco e a obesidade.
Figura 3 - Nos casos de adenocarcinoma, cada vez mais frequentes, aceita-se que esta possa ser a via oncogénica
[adaptado de website Google consultado em 2016]
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[Link] e Sintomas
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A disfagia pode ter origem em diferentes processos patológicos que alterem o normal
funcionamento dos esfíncteres esofágicos (EES ou EEI) ou a propulsão coordenada do bolo
alimentar (peristalse) através do corpo do esófago. As causas mais frequentes de disfagia são de
origem parietal e têm como substrato patologias da mucosa ou neuro-musculares.
Nas neoplasias da mucosa, a disfagia surge habitualmente por ocupação do lúmen.
Devido à boa capacidade propulsora do esófago a montante do tumor, apenas quando cerca de
1/3 da circunferência do órgão se encontra atingida é que a disfagia se torna mais evidente.
Geralmente começa por ser sentida para os sólidos mais difíceis de deglutir (pão, carne, bolos
secos), passando a ser referida seguidamente para alimentos pastosos, moles e posteriormente
para líquidos. O carácter progressivo, sem regressão, sem sintomas concomitantes de refluxo
gastro-esofágico e acompanhado de repercussão no estado geral, muitas vezes em doentes
grandes fumadores, com ingestão alcoólica abusiva e má higiene oral, são aspectos
francamente sugestivos de etiologia neoplásica.
A título exemplificativo, é apresentada de seguida uma tabela, apenas que classifica em
graus a disfagia consoante a dificuldade em deglutir.
Figura 5 - Graus de disfagia consoante a dificuldade em deglutir (classificação apenas exemplificativa) [Adaptado de:
Schwartz´s (2015)]
Ingurgitamento das parótidas e sialorreia - os doentes tentam deglutir saliva por forma a tentar
vencer o obstáculo que a estenose da lesão provoca à progressão dos alimentos, pelo que há
um aumento compensatório do volume das glândulas salivares.
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Dor torácica retrosternal - o local onde a dor é referida pelos doentes, bem como o ponto
(altura) em que a disfagia é referida, são bons indicadores da localização da lesão.
[Link]óstico Diferencial
A disfagia, enquanto sintoma-chave na patologia esofágica, pode ser causada por
diversas patologias esofágicas, quer de carácter benigno, quer maligno. É essencial, no âmbito
da avaliação global do doente, a realização de uma anamnese cuidada para obter informação
que permita caracterizar a disfagia quanto à sua localização, origem, gravidade e evolução.
Deste modo, obter-se-á informação relevante que possibilita perceber qual a patologia de base
responsável, assim como quais as implicações para a saúde do doente e respectivas
necessidades, no que diz respeito ao possível tratamento.
Assim, na avaliação do doente com disfagia torna-se fundamental perceber qual o
local onde sente dificuldade na deglutição, uma vez que habitualmente corresponde ao local
onde se encontra a lesão; distinguir para que tipo de alimentos e qual a evolução temporal da
sintomatologia; identificar se existem outros sinais e sintomas acompanhantes como a perda de
peso, a anorexia, a pirose ou a regurgitação, entre outros; igualmente relevante é perceber se
houve a ingestão de corpos estranhos, cáusticos e drogas ou se ocorreram lesões traumáticas;
explorar os hábitos alimentares, o consumo de tabaco e de álcool; e identificar quais as
consequências da disfagia.
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A patologia esofágica, benigna e maligna, é variada, pelo que se opta por destacar
apenas os exemplos mais relevantes para o diagnóstico diferencial.
Acalásia
Disfagia paradoxal - Na acalásia, a pressão (peso) dos sólidos actua sobre o esfíncter
hipertónico promovendo a sua abertura. Para que este efeito de pressão sobre o EEI actue,
aquando da ingestão de líquidos, é preciso uma coluna de líquido para a exercer e a altura desta
coluna será tanto maior quanto maior for a incoordenação motora do corpo e a hipertonia do
EEI. Assim, geralmente, na acalásia os doentes referem disfagia inicialmente para líquidos, que
se vai agravando progressivamente e só mais tarde aparece disfagia para sólidos.
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variedade de lesões, benignas e malignas, que
incluem a esofagite, a estenose, o esófago de
Barett e o adenocarcinorma. O excesso de refluxo
leva a inflamação e ulceração da mucosa esofágica
sendo responsável por erosões e necrose. Tal
acontece como resultado de um desequilíbrio
entre os factores agressivos e os mecanismos de
defesa, pautado por uma incompetência funcional
do esfíncter esofágico inferior. É importante a
realização de endoscopia com biópsia para avaliar
as eventuais lesões decorrentes do refluxo.
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Figura 8 - A figura da esquerda mostra uma esofagite erosiva, a figura da direita mostra uma estenose esofágica como
resultado e um processo crónico de esofagite erosiva - [Adaptado de Harrison 19ª Ed (2015)]
Outras Esofagites
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Trauma mecânico e as lesões iatrogénicas (como a perfuração do esófago) podem ainda ser
causas de patologia esofágica.
Figura 10 – TC do tórax, em diferentes incidências, que mostra pneumomediatisno e enfisema subcutâneo a nível cervical à
direita (setas vermelhas), após perfuração do esófago.
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Em síntese…
Classificação:
Anamnese: Localização:
Alta ou cervical
Local onde o doente sente dificuldade na
Torácica
deglutição;
Tipo de alimentos; Baixa ou Abdominal
Evolução temporal da sintomatologia; Origem:
Sintomas e sinais acompanhantes; Mucosa
Ingestão de corpos estranhos, cáusticos e drogas; Neuromuscular ou extrínseca
Hábitos alimentares, tabaco, álcool; Gravidade
Evolução:
Lesões traumáticas;
Consequência das disfagias. Progressiva
Paradoxal
Disfagia
Dificuldade na Deglutição
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6. Exames Complementares
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relacionadas com a técnica, como o risco hemorragia e perfuração gastrointestinal (entre
0,5 a 5%) e a utilização de medicação sedativa. Mais raramente podem existir complicações
infecciosas.
Figura 11 - Endoscopia Alta Digestiva que demonstra a presença de mucosa com alterações compatíveis com carcinoma do
esófago. [Adaptado de: website Medicitalia, consultado a 2016]
Figura 12 - Trânsito baritado que demonstra a presença de estenose por cancro esofágico - [Adaptado de website Nacional
Cancer Institute, consultado a 2016]
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Ecoendoscopia
Útil na avaliação da doença loco-regional e, assim, no estadiamento, permite avaliar o
grau de extensão e penetração da parede, a relação com as estruturas vizinhas e a detectar a
presença de adenopatias locais (mediastínicas e celíacas). É importante no acompanhamento da
evolução do tumor e permite a realização de biópsia.
Limitações: Tal como na endoscopia, na ecoendoscopia a avaliação da lesão está limitada
apenas ao que é visível a montante quando existe uma lesão ou estenose completa.
Figura 13 - Carcinoma do Esófago T2 que invade a muscularis propria (imagem esquerda). Carcinoma do Esófago T3 que se
extende através da muscularis propria para os tecidos e focalmente adjacente à aorta ([imagem direita) - [Adaptado de Harrison
19ª Ed (2015)]
TC/(RM) (cervico-toraco-abdomino-pélvico)
A TC é especialmente importante na avaliação da extensão loco regional da doença. Dá
informação sobre a dimensão do tumor e relação com as estruturas vizinhas, espessura da
parede esofágica, a eventual existência de adenopatias mediastínicas e celíacas, existência de
metástases pulmonares, hepáticas, sendo por isso tida em consideração na avaliação da
ressecabilidade do tumor. Os locais mais comuns de metastização do cancro do esófago são os
pulmões, fígado e o peritoneu, sendo a TC um bom método para avaliar os mesmos, e assim,
estadiar a doença.
Pode ainda ser útil, tal como a RM, na suspeita de metástases cerebrais, tal como a
cintigrafia óssea, na suspeita de metástases ósseas.
De seguida, apresenta-se uma série de figuras que demonstram a relação anatómicas de
várias estruturas em relação com o esófago (figura 14 a 18), em diferentes cortes. Por último, é
colocada uma figura (figura 19) exemplificativa de uma TC com carcinoma do esófago.
Adaptado de Pinotti (1990) e de [Link].
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Figura 14
Figura 15
Figura 16
19
Figura 17
Figura 18
Figura 19 20
PET
A utilização de PET permite uma avaliação semi-quantitativa do metabolismo tumoral,
com elevada sensibilidade. Útil no estadiamento e detecção de tumores primários ao permitir a
identificação de focos de hipercaptação de glicose, ou seja, massas metabolicamente activas
(provavelmente neoplásicas).
Figura 20 – PET mostra tumor do cárdia tipo I, com duas adenopatias mediastínicas e adenopatias na região celíaca e
mesentérica
Broncoscopia
Quando se trata de lesões presentes acima da bifurcação traqueal ou quando existe
eventual distorção de brônquio, permite avaliar o crescimento tumoral, contribuindo para o
estadiamento do mesmo. Permite a realização de biópsia.
Ecografia abdominal
Útil no estadiamento como avaliação complementar do fígado. Pode dar informação
sobre a existência de metástases hepáticas e ascite.
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Figura 21 - Metástases hepáticas de tamanho variável [Adaptado de medscape]
Análises laboratoriais
As análises laboratoriais, hematológicas e bioquímicas, permitem o estudo das funções
hepáticas, renal, pulmonar, apesar de não contribuírem de forma directa para o diagnóstico do
cancro esofágico, não só para a avaliação global do doente (fit for surgery), mas também podem
contribuir para o estadiamento da situação e avaliação do risco operatório.
- Hemograma com contagem diferencial de leucócitos e de plaquetas
- Glicémia e Ionograma (Na, K, Cl, e Ca)
- Ferritina, ferro sérico e CTFF
- PCR
- Ureia e creatinina séricas
- Estudo do sedimento urinário
- Função hepática: bilirrubina total, proteínas totais e albumina
- Estudo da coagulação: tempo de protrombina e APTT
- Função tiroideia
- Urina tipo II
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[Link]
O tratamento do cancro do esófago depende da idade, estado geral e estadio da doença.
Devem ser tomadas decisões terapêuticas em equipa multidisciplinar, tendo em conta a sua
experiência e disponibilidade, assim como das unidades de suporte de vida. A invasão da
parede esofágica e o compromisso ganglionar são determinantes no estadiamento e no
prognóstico da doença. A avaliação pré-operatória do tumor é importante para escolher a
terapêutica a instituir, baseando-se nos elementos recolhidos no pré-operatório, na informação
histológica e no estadiamento pré-operatório pTNM. A terapêutica cirúrgica dos tumores
malignos é determinada pelo conhecimento da sua fisiopatologia e dos seus modos de
propagação, considerando a extensão local directa em profundidade ou intra-esofágica em
altura, a disseminação linfática e as metástases à distância. As relações anatómicas entre o
esófago e as várias estruturas expõem-nas à invasão por continuidade, o que é facilitado pela
inexistência de serosa. Nos casos em que é possível a ressecção do esófago esta continua a ser
a base de tratamento, isoladamente ou em combinação com outras terapêuticas, quer no
adenocarcinoma, quer no carcinoma pavimento-celular.
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Figura 23 - Ressecção transtorácica. Aspecto do mediastino superior - [Adaptado de Costa P, et al (2014)]
● Suporte Nutricional e Psicológico - tanto para o doente como para a sua família é vital
nesta condição. O suporte nutricional é o factor mais preditivo de complicações, sendo que
doentes com perda de peso acentuada e hipoalbuminémia apresentam um maior risco de
complicações e mortalidade.
8. Prognóstico
O cancro do esófago constitui umas das patologias do tubo digestivo com pior
prognóstico. Apresenta uma agressividade biológica e oncológica que se traduz em resultados
menos favoráveis quanto ao prognóstico e sobrevivência, particularmente no que diz respeito à
sobrevida, metástases à distância e às recidivas locais. Ainda assim, nas últimas décadas
verificou-se um aumento da ressecabilidade dos tumores, bem como uma diminuição da
morbi-mortalidade.
Dados do Nacional Cancer Institute, destacam que o número de novos casos de
cancro do esófago é de 4.3 por 100.000 habitantes (ambos os sexos), por ano. O número de
mortes é de 4.1 por 100.000 habitantes (ambos os sexos), por ano, sendo que estes valores são
baseados no número de casos e mortes entre o período de 2009-2013. A sobrevivência a 5
25
anos é de 18,4%, tal como se encontra demonstrado na figura a seguir, adaptada de informação
do Nacional Cancer Institute.
Figura 24 - Os ícones a cinzento representam os que morreram com cancro do esófago e verde os que sobreviveram 5 ou
mais anos (dados de 2006-2012) - – [Adaptado do Nacional Cancer Institute]
Apenas 20% dos cancros encontram-se localizados na altura do diagnóstico, sendo que
neste caso a percentagem de sobrevivência a 5 anos é de 41,3%. A sobrevivência a 5 anos
diminui significativamente quando o diagnóstico é realizado já com disseminação linfática
regional (22,8%) e metastização à distância (4,5%).
Figura 25 - Percentagem de casos e sobrevivência a 5 anos por estadio aquando do diagnóstico (para ambos os sexos, 2006-
2012) – [Adaptado do Nacional Cancer Institute]
A realidade acima referida reporta-se a dados dos Estados Unidos da América, pelo
importa referir a realidade portuguesa, mais especificamente o contexto do serviço de cirurgia,
do Hospital Santa Maria, responsável pelo acompanhamento dos casos de cancro esofágico.
De acordo com os dados de Costa P. et al (2014), a morbilidade e a mortalidade, em
doentes com cancro do esófago, melhorou muito nas últimas décadas, mas ainda assim como
valores não desprezáveis, sendo que surgiram complicações significativas em 37% dos casos,
26
com mortalidade às quatro semanas de 6%, mas mortalidade hospitalar de 14%, tal como a
figura abaixo indica, com a curva a amarelo relativa à mortalidade hospitalar e a vermelho
referente à percentagem de doentes vivos.
27
Figura 27 - Sobrevivência global - Curvas de sobrevivência global (Kaplan-Meier) – [Adaptado de: Costa P. et al (2014)]
28
9. Casos Clínicos [Em construção]
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10. Links Úteis
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12. Anexos
Informação adicional sobre estadiamento do cancro do esófago:
31
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Adenocarcinoma Gástrico
1. Introdução
2. Epidemiologia
4. Fisiopatologia
5. Sinais e Sintomas
6. Diagnóstico Diferencial
8. Estadiamento e Tratamento
9. Prognóstico
11. Anexos
13. Bibliografia
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Introdução
O carcinoma gástrico é o 5º tumor maligno mais frequente em Portugal, tendo-se
assistido, nos últimos anos, a um decréscimo na sua incidência e mortalidade. O diagnóstico
precoce e a evolução do tratamento dos doentes parecem ter contribuído largamente para esta
melhoria na mortalidade. Não só pela sua prevalência, como também pela sua clínica
inespecífica, é de enorme importância conhecê-la aprofundadamente, de forma a poder
reconhecê-la e consequentemente conduzir uma investigação diagnóstica eficiente, com a
realização dos exames complementares de diagnóstico certos, para que se possa diagnosticar esta
patologia e tratar o doente atempadamente.
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Quando à sua conformação interior podemos considerar que a parede gástrica apresenta
4 camadas: a serosa peritoneal, a camada muscular (plano superficial longitudinal, plano médio
circular, plano profundo oblíquo), a submucosa e a mucosa, com pregas gástricas com diversas
direcções.
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Figura 4 - Suprimento arterial do estômago [retirado de Brunicardi, Andersen, Billiar,
Dunn, Hunter, Matthews, Pollock, “Schwartz's Principles of Surgery”, 9ª ed., McGraw-
Hill;]
A drenagem linfática do estômago faz-se para uma rede mucosa, sub-mucosa e sub-
peritoneal. A drenagem varia consoante a localização anatómica.
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⅔ internos da porção vertical: cadeia coronária
estomáquica
⅔ externos da porção vertical: gânglios da cadeia
esplénica e da cadeia mesentérica superior
Zona superior do antro: gânglios pilóricos, retro-
pilóricos, cadeia da artéria hepática
Zona inferior do antro: gânglios pancreáticos-duodenais,
retro-pilóricos, gastro-epiplóicos direitos e mesentéricos
superiores.
Figura 7 - Representação esquemática dos grupos de drenagem linfática [retirado de Brunicardi, Andersen, Billiar, Dunn, Hunter,
Matthews, Pollock, “Schwartz's Principles of Surgery”, 9ª ed., McGraw-Hill]
Epidemiologia
O carcinoma gástrico é um dos tumores gastrointestinais mais frequentes, apesar de nas
últimas décadas se ter verificado um decréscimo na sua incidência e mortalidade.
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A sua incidência geográfica é muito variável, verificou -se uma maior prevalência no
Japão, China, Chile e Irlanda. Em Portugal, no ano de 2010, verifica-se uma taxa de incidência
padronizada (1000000 habitantes) na ordem dos 18,9 [1]. Os estudos das populações migrantes
verificam que o número de carcinomas gástricos decresce em populações que viajam de regiões
de elevada incidência para regiões onde a incidência é mais baixa, o que leva a supor que existe
uma grande influência de factores ambientais.
Verifica-se também uma maior prevalência no sexo masculino (2:1), com incidência
máxima aos 60/70 anos.
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Infecção por H pylori Gastrite atrófica
Dieta rica em nitratos (alimentos Pólipos adenomatosos
defumados, pickles) Classe Social baixa
Tabagismo
Dieta salgada
Dieta baixa em vitamina C (parece contribuir para
a diminuição da absorção de nitratos)
História Familiar de parentes em 1º grau
Fisiopatologia
O adenocarcinoma gástrico é um dos poucos processos neoplásicos para os quais se
reconhece o papel de um agente infeccioso como preponderante no processo etiológico.
Nos tumores do tipo intestinal, as células tumorais aderem umas às outras adquirindo
arranjos de forma tubular ou glandular, que são semelhantes aos adenocarcinomas das restantes
porções do tubo digestivo (daí esta nomenclatura). Existe evidência clínica da influência de
factores ambientais como infeção por [Link], elevado consumo de sal, tabagismo, consumo de
álcool e refluxo biliogástrico na carcinogénese, caracterizando um modelo de lesões pré-
cancerosas que se progride desde a gastrite não-atrófica, evoluindo para gastrite atrófica
39
Figura 8 - Representação esquemática da carcinogénese dos adenocarcinomas gástricos intestinais
Estas três formas de carcinoma gástrico têm capacidade de disseminação por via directa,
por via linfática, hematogénica e transcelómica.
Sinais e Sintomas
A clínica do carcinoma gástrico é habitualmente muito inexpecífica e de aparecimento
tardio, o que leva a um atraso no diagnóstico e aumento da taxa de mortalidade. Deste modo
40
destacamos a importância de conhecer de que forma os sinais e sintomas desta patologia se
manifestam, de maneira a que os doentes possam ser tratados atempadamente, o que melhora
francamente o seu prognóstico.
Sinais e sintomas:
Formas de expressão dos doentes – dor de estômago; azia; dor de fome; cólica;
Fisiopatologia
A dor epigástrica das doenças pépticas, nomeadamente das úlceras gástricas e duodenais,
tem um substrato orgânico e fisiopatológico provavelmente diferente das epigastralgias de
origem neoplásica.
41
Nos doentes com cancro gástrico, a dor epigástrica pode apresentar-se sob diversos
padrões:
As lesões neoplásicas de menores dimensões, que não perturbem o normal trânsito dos
alimentos, podem manifestar-se, inicialmente, por dor abdominal tipo moinha, difusamente
localizada nos quadrantes superiores ou epigastro descrita como de sensação de “indigestão”,
acompanhada de enfartamento ou flatulência com necessidade de eructação. A dor pode
manifestar-se com um padrão relacionado com a ingestão alimentar, com ritmos de desconforto-
alívio, em tudo semelhante às epigastralgias das úlceras pépticas, mas inversas, pois os alimentos
geralmente agravam mais a dor.
Para lesões neoplásicas mais avançadas, que atingem dimensões suficientes para
perturbar mecanicamente a passagem de alimentos, as manifestações variam consoante a
localização. Neoplasias localizadas mais distalmente, costumam mais frequentemente perturbar a
passagem de alimentos pelo piloro, levando ao aparecimento de sensação de enfartamento e
vómitos alimentares e/ou de estase. No caso de a neoplasia se localizar mais proximalmente
torna-se mais provável a obstrução ao nível do cardia, com aparecimento de disfagia.
Refluxo gastroesofágico
Caracteriza-se pela sensação de subida de conteúdo gástrico pelo esófago até a um nível
variável, podendo chegar à boca. Não é necessário esforço para o induzir (contrariamente ao que
se verifica nos vómitos) e é frequentemente acompanhado de pirose (descrito adiante).
Formas de expressão dos doentes: azia, queimadura atrás do peito, “vem-me a comida
(ou o ácido) à boca.
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pressão negativa da cavidade torácica, onde o esófago se encontra. O EEI é assim uma barreira
funcional
Enfartamento pós-prandial
Fisiopatologia
O enfartamento pós-prandial continuado associa-se a disfunção motora ou a lesão
obstrutiva gástrica ou duodenal (neoplasia ou úlcera).
As lesões neoplásicas ou ulcerosas que cursam com enfartamento têm mais
comummente localização justa-pilórica. Ao impedir o normal esvaziamento gástrico
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desencadeiam quadros de estase com distensão gástrica, que motiva as queixas sintomatológicas
do doente.
Náuseas e Vómitos
Fisiopatologia
O acto de vomitar é composto por três fases: náusea, ânsia e emese.
As náuseas habitualmente acompanham ou precedem o vómito. Nesta fase o estômago
fica flácido enquanto o duodeno e o intestino se encontram num estado de hipermotilidade
promovendo o refluxo do conteúdo para o estômago, antiperistaltese, que vai desta forma
dilatando passivamente com o contéudo acumulado.
Com o agravamento da sensação de náusea surge um período de ânsia para vomitar, que
se caracteriza por um conjunto de alterações do padrão respiratório com o intuito de facilitar a
expulsão do conteúdo (emese), nomeadamente inspirações mais profundas e amplas,
verificando-se em simultâneo um esforço inspiratório dos músculos torácicos e do diafragma
com oposição de contrações expiratórias da musculatura abdominal.
A emese resulta da contracção intensa e mantida dos músculos abdominais e da descida
do diafragma. O cárdia abre e o piloro contrai, mantendo-se o corpo e fundo flácidos e
distendidos, pelo que o grande aumento da pressão abdominal projecta o conteúdo do estômago
para o esófago. O palato mole sobe reflexamente para proteger a nasofaringe, a glote encerra-se e
o conteúdo gástrico é expulso violentamente pela boca.
44
O reflexo do vómito é um mecanismo neurofisiológico muito complexo, multifactorial,
que é coordenado e integrado por dois núcleos bulbares: o centro do vómito e a zona
quimiossensível desencadeante. Na figura seguinte temos uma representação esquemática deste
mecanismo.
45
o cancro gástrico (em qualquer localização, mas com maior significado nas localizações distais,
por interferir com o esvaziamento causando distensão, um dos estímulos para o vómito).
Existem ainda outras causas de náuseas e vómitos como ingestão de irritantes, fármacos,
infeções agudas, abdómen agudo, doenças sistémicas, alterações metabólicas, doenças
intracranianas, psicológicas e gravidez, que estão melhor desenvolvidas no documento Anamnese
do Aparelho Digestivo Proximal.
Disfagia
Fisiopatologia:
As hematemeses resultam da existência de lesão hemorrágica a montante do duodeno. O
sangue vomitado pode apresentar uma variação de cor do vermelho vivo para negro, dependente
do tempo de contacto e mistura com o ácido clorídrico, por formação de hematina, que fornece
o pigmento escuro das hematemeses e melenas.
As melenas e hematemeses habitualmente manifestam-se em conjunto, podendo estar
associadas a sintomas sistémicas, tais como falência circulatória e anemia aguda, dependendo da
gravidade da hemorragia (<500ml tem repercussão hemodinâmica) e estado prévio do doente. A
presença de sangue no tubo digestivo acelera o trânsito. Pode ser acompanhada de febre (38ºC) e
elevação da urémia por degradação proteíca.
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Considera-se como principais causas de hematemeses e melenas o cancro gástricoo, a
existência de úlceras pépticas (mais frequentemente duodenais), gastrite hemorrágica e rotura de
varizes esofágicas. Estas podem ter outras etiologias, que devem ser adequadamente exploradas e
excluídas, considerando-se o exame complementar de diagóstico de eleição a endoscopia
digestiva alta com eventual associação a manobras hemostáticas.
Anorexia
Fisiopatologia:
Este sintoma pode ter inúmeras etiologias, podendo ou não estar associado a patologia
digestiva. De forma grosseira considera-se que as suas causas são sobreponíveis às que causam
Naúseas. A sua fisiopatologia ainda não está totalmente esclarecida, sendo desconhecido de que
forma as diferentes patologias interferem com o núcleo hipotalâmico ventro-medial, favorecendo
a saciedade. Pela diminuição do aporte calórico, a anorexia conduz frequentemente à perda de
peso.
É um sintoma que não deve ser desprezado, visto que pode estar associado a patologias
graves, nomeadamente neoplasias, patologia hepática ou doenças extra-digestivas.
Referido frequentemente pelo doente como estando “sem apetite”, deve ser
cuidadosamente explorado de forma a distinguir anorexia de enfartamento ou intolerância
alimentar.
Perda Ponderal
Apresenta-se como um sinal bastante inespecífico, podendo esta ser ou não voluntária. A
perda de peso rápida e involuntária deve ser sempre investigada, de forma a conhecer a sua
etiologia. No contexto da neoplasia gástrica encontra-se frequentemente ligada a sintomas como
anorexia e caquexia, que resulta de um processo multifatorial que pode ser considerado parte de
manifestação da síndrome paraneoplásica.
47
Fisiopatologia:
Resulta de um conjunto de alterações metabólicas induzidas pela interação tumor-
hospedeiro. Considera-se também que é induzida uma situação de hipermetabolismo, devido ao
aumento da produção de citocinas inflamatórias nomeadamente ao nível da IL-1, IL-6 e TNF
alpha. Por outro lado, as próprias células tumores produzem aminoácidos que mimetizam a
acção de determinadas hormonas, conduzindo a anorexia e consequente diminuição do aporte
calórico.
Deve também ter-se em atenção que no caso do carcinoma gástrico, assim como noutros
tumores gastrointestinais e nos tumores da cabeça e pescoço, os sintomas acompanhantes e
possíveis alterações digestivas podem condicionar alterações na capacidade de alimentação e
absorção do doente, contribuindo assim para a diminuição do seu aporte calórico.
Fadiga
Fisiopatologia:
A fisiopatologia da fadiga no doente com carcinoma gástrico não é linear, devendo-se
considerar uma série de factores que contribuem para a instalação progressiva deste sintoma.
Entre os quais cito as alterações metabólicas pela interacção tumor-hospedeiro e a a elevada
prevalência de anemia nestes doentes, que desenvolvem um quadro de fadiga por diminuição da
disponibilidade de substratos metabólicos, pela deficiência nutricional e baixa oxigenação dos
tecidos.
Também a perda oculta e continuada de sangue pelas fezes contribuí para a fadiga.
Febre
Febre é a elevação da temperatura corporal acima dos valores considerados normais (>
37,2ºC por medição oral matinal ou medição nocturna > 37,7°C ).
48
Fisiopatologia:
A regulação da temperatura é realizada pelo hipotálamo anterior, servindo como um
mecanismo adaptativo de resposta à infecção. Ocorre como resposta a substâncias secretadas
pelos macrófagos com actividade pirogénica (destacando-se a IL-1 e IL-6), que por sua vez
aumentam a secreção de prostaglandinas que vão actuar ao nível do hipotálamo, interferindo
com os mecanismos de termoregulação.
Adenopatias
Sinais Laboratoriais:
Anemia Ferropénica
Considera-se que 66% dos pacientes com tumores gástricos apresentam anemia
ferropénica, sendo este um parâmetro facilmente avaliado e que deve alertar para a possível
existência de hemorragia gastrointestinal. Nas mulheres em idade fértil considera-se que a
primeira causa de anemia ferropénica são as menorragias, enquanto que nos indivíduos do sexo
masculino a perda hemática com origem no aparelho gastrointestinal é mais comum.
Não se deve tratar anemia sem estudo endoscópico.
49
Sangue Oculto nas Fezes
50
Nódulo de Sister Mary Joseph
Lesão metastática envolvendo o umbigo. Sinal de metastização peritoneal de neoplasias
intrabdominais (mais frequente em neoplasias do tubo digestivo e do ovário)
Outros sinais
Massa Epigástrica
Hepatomegália e Ascite
Icterícia
Diagnóstico Diferencial
Como expresso anteriormente a sintomatologia do carcinoma gástrico é bastante
inespecífica, sendo assim de enorme importância conhecer os diagnósticos diferenciais a
considerar, de forma a que a investigação diagnóstica e os exames complementares de
diagnóstico pedidos sejam direcionados por um “caminho” eficaz e rápido. Destaca-se mais uma
vez a importância da colheita de uma boa história clínica, devendo a discussão diagnóstica ser
adaptada a cada doente.
Trata-se de uma doença crônica, que frequentemente recidiva. Afecta 2x mais os homens
que as mulheres e ocorre sobretudo no idoso, localizando-se mais frequentemente na região da
pequena curvatura.
Apresenta-se através de um quadro assintomático ou
através de dor epigástrica, relacionada com as refeições e
aliviada pela toma de antiácidos, saciedade precoce, náuseas e
vômitos, que são habitualmente acompanhados de perda
ponderal. O quadro clínico por vezes é bem suportado pelo
doente, razão pela qual nem sempre procura ajuda médica.
51
Figura 13 - Endoscopia Digestiva Alta num
doente com úlcera péptica
Destaca-se mais uma vez a inespecificidade dos sintomas, que muitas vezes só permitem a
distinção com um tumor gástrico pela realização de exames complementares de diagnóstico.
Dispepsia funcional
Corresponde à existência de dispepsia, sem que tenha sido encontrada qualquer alteração
na Endoscopia Digestiva Alta, excluindo-se assim a existência de úlcera ou neoplasia. Os doentes
descrevem sintomas de dor epigástrica, distensão abdominal, enfartamento pós-prandial, dor
retroesternal e refluxo. Quando existe infecção por HP, a sua erradicação pode ser benéfica no
alívio da sintomatologia, assim como a psicoterapia e a toma de inibidores da bomba de protões
(podendo obter-se alívio com outros fármacos, apesar de evidência ser menor).
52
Exames Complementares de Diagnóstico
Sintomas e Suspeita de
neoplasia
sinais gástrica
Análises laboratoriais
EDA com
Diagnóstico biópsia
Estadiamento Laparoscopia
Citologia do
lavado
exploratória
Se cT3/4 e/ou cN+ peritoneal
Análises Laboratoriais
53
Endoscopia Digestiva Alta (EDA) com biópsia
Ecoendoscopia
55
Tomografia computorizada (TC) e/ou Ressonância Magnética (RM)
torácica, abdominal e pélvica
Estadiamento e Tratamento
56
Em relação T a classificação reflecte a dimensão do tumor primário e a sua invasão na
parede gástrica.
Caracteriza-se da seguinte
forma:
TX - não é possível avaliar as
dimensões do tumor primário;
T1a - tumor localizado na
camada mucosa do estômago;
T1b - tumor atinge a camada
submucosa;
T2 - tumor invade a camada
muscularis propria do estômago;
T3 - tumor invade a camada
serosa do estômago sem disseminação
para estruturas adjacentes. Figura 18 - Classificação T para adenocarcinoma gástrico
T4 - tumor atravessa a camada
serosa do estomago com invasão dos orgãos adjacentes (fígado, duodeno, parede abdominal).
57
Nx - Não é possível avaliar o número de gânglios linfáticos invadidos.
N0 - Sem invasão ganglionar;
N1 - 1 a 2 gânglios linfáticos perto do estômago com metástases;
N2 - 3 a 6 gânglios linfáticos com metástases;
N3a - 7 a 15 gânglios com metástases;
N3b - Mais de 16 gânglios com metástases.
Quanto ao M, a classificação
reflecte a presença ou ausência de
metástases noutros órgãos que não o do
tumor primário. Avalia-se em:
Mx - Não é possível avaliar
metastização à distância;
M0 - sem invasão metastática à
distância;
M1 - presença de metástases à
distância. Figura 21 - Metástase hepática de tumor gástrico
Tratamento
58
O carcinoma gástrico tem uma abordagem terapêutica conforme o estadiamento do
tumor e as condições de reserva biológica e comorbilidades do doente: endoscópica, cirúrgica e
quimioterapia.
Terapêutica endoscópica
Utilizada com intuito curativo ou com intuito paliativo.
No caso de tumores gástricos iniciais (“early gastric cancer”) ou tumores superficiais que
estejam confinados à mucosa gástrica, sem evidência de metástases ganglionares ou à distância
esta abordagem tem um intuito curativo.
Por outro lado, em caso de tumores obstrutivos do trânsito intestinal através de técnicas
endoscópicas várias (laser Nd: YAG, fotodinâmica, injeção de citotóxicos, entre outros) é
possível ter um efeito de redução da massa tumoral para alívio sintomático do doente, numa
perspetiva paliativa
Terapêutica cirúrgica
O tipo de cirurgia a realizar depende da localização do tumor primário, da sua dimensão
e extensão para gânglios linfáticos e outros órgãos à distância.
O prognóstico após terapêutica cirúrgica depende do estadio de apresentação inicial do
tumor. Os tumores confinados à parede gástrica (sem infiltração linfática ou metastização à
distância) apresentam geralmente uma progressão mais favorável com sobrevidas mais longas.
59
Figura 32 - Variação da sobrevivência global em carcinoma gástrico operado consoante a metastização
(CHLN)
60
A gastrectomia associa-se sempre a uma linfadenectomia (remoção de gânglios
linfáticos). A linfadenectomia pode ser limitada aos nódulos perigástricos (N1 e N2, da Figura
20) ou ser mais extensa (como apresentado na Figura 24), ou em determinadas circunstâncias
ainda mais extensa (Figura 25).
61
Segundo a Edição actual da AJCC, o número mínimo de gânglios ressecados, necessário
para poder estadiar um doente é 15 (quando o número de gânglios é <15 designamos a ressecção
como D0). Consideramos que numa ressecção regional (D1+) o número de gânglios ressecado é
compreendido entre 15 e 24. Consideramos que a ressecção foi extensa (D2) quando é ressecado
um número de gânglios >25. “In the Western world, most patients with gastric cancer present with advanced
stages of disease, leading to a low 5-year survival of around 25% “ (Dikken et al, in CRITICS, 2011).
As dissecções extensas (realizadas por rotina nos Países orientais) não são geralmente
praticadas no Ocidente, pela dificuldade técnica e pela morbi-mortalidade elevadas (em centros
com baixa casuística). Por esse motivo, numa tentativa de melhorar a sobrevivência têm sido
optimizados protocolos de tratamento oncológico complementar da cirurgia. No CHLN os
doentes têm sido incluídos, sobretudo, em esquemas MAGIC-like.
Temos, em simultâneo, feito um grande desenvolvimento das dissecções D2, que são
actualmente tão seguras como as outras. A selecção dos doentes para esta dissecção deve ser
criteriosa, tendo em conta a idade dos doentes, a sua reserva funcional e as co-morbilidades. No
primeiro gráfico, figura 27, apresentamos as curvas de sobrevida dos doentes do CHLN em
relação ao estadio T, e no segundo gráfico, figura 28, em relação ao Estadio N.
62
63
Quimioterapia
A quimioterapia pode realizar-se em regime adjuvante ou neoadjuvante. Para mais
informações consultar as guidelines do NCCN, disponibilizadas nas Ligações para consulta [2].
64
Prognóstico
As taxas de sobrevivência baseiam-se na análise de outcomes de uma amostra alargada de
pessoas que tiveram a mesma patologia mas não são capazes de prever com fidedignidade o que
acontecerá em cada caso particular. Existem muitos factores que condicionam o prognóstico
para cada pessoa, nomeadamente, como a saúde geral, a localização do tumor, o tratamento
recebido e a capacidade de resposta do tumor ao tratamento instaurado.
As taxas de sobrevivência aos 5 anos, por estadio de cancro do estômago tratados com
cirurgia são as seguintes:
Estadio IA - 71%
Estadio IB - 57%
Estadio IIA - 46%
Estadio IIB - 33%
Estadio IIIA - 20%
Estadio IIIB - 14%
Estadio IIIC - 9%
Estadio IV - 4%
Podemos assim inferir que quanto mais avançado se encontrar o tumor no momento de
estadiamento, pior o prognóstico.
65
nossos resultados são bastante encorajadores (vide figuras 27, 28, 29) e superiores aos reportados
por outros.
MAGIC
66
Anexos
Consoante a classificação TNM que reflecte a a profundidade de invasão do tumor (T), o
grau de invasão linfática (N) e a existência de metástases à distância é possível classificar os
tumores com um nível de estadiamento que varia desde o estadio 0 ao IV A tabela abaixo
apresenta as combinações de TNM que representam cada nível de estadiamento.
67
Ligações para consulta
1. [Link] “Portugal - doenças oncológicas em número 2015”
2. NCCN guidelines: [Link]
[Link]
3. [Link]
4. [Link]
5. [Link]
6. [Link]
A3C1-49E5-B6A0-C19DE1F94871&GDL_Disease_ID=DB2F8EAC-4421-41DD-B04E-
684AFEF2AD94
7. [Link]
stages-of-stomach-cancer
8. [Link]
Bibliografia
LONGMORE, WILKINSON, BALDWIN, WALLIN, “Oxford Handbook of Clinical
Medicine”, 9th ed., 2014, Oxford University Press
PEREIRA, “Cirurgia – Patologia e Clínica”, 2ª ed., 2006, McGraw-Hill;
BRAUNWALD, KASPER, FAUCI, “Harrison’s Principles of Internal Medicine”, 19th ed.,
2004, McGraw-Hill;
DUCLA SOARES, “Semiologia Médica: Princípios, Métodos e Interpretação”, 1ªed., 2007,
Lidel;
BRUNICARDI, ANDERSEN, BILLIAR, DUNN, HUNTER, MATTHEWS, POLLOCK,
“Schwartz's Principles of Surgery”, 9ª ed., McGraw-Hill;
COSTA, ESTEVES, LAJES, FERREIRA; “Transposição cervical de tubo gástrico na
reconstrução digestiva após esofagectomia por cancro do esófago – detalhes técnicos”, série
II nº 25, Junho de 2013, Revista Portuguesa de Cirurgia;
NETTER; “Atlas of human anatomy”; 5º ed.; Elsevier.
68
Colecistite Aguda
A B
Figura 1 – Anatomia da vesícula biliar. A - Aspeto anterior da anatomia biliar - a) ducto hepático direito; b) ducto
hepático esquerdo; c) ducto hepático comum; d) veia porta; e) artéria hepática; f) artéria gastro-duodenal; g) artéria
gástrica esquerda; h) ducto biliar comum/colédoco; i) fundo da vesícula biliar; j) corpo da vesícula biliar; k) infundíbulo; l)
ducto cístico; m) artéria cística ; n) artéria pancreático-duodenal superior. B – detalhe de parte das vias biliares.
As vias biliares extra-hepáticas consistem nos ductos hepáticos direito e esquerdo,
no ducto hepático comum, junto à sua emergência hepática; no ducto cístico, e no ducto
biliar comum ou colédoco (figura 1A). Este insere-se na 2ª porção do duodeno (D2),
juntamente com o ducto pancreático, através de uma estrutura muscular – o esfíncter de
Oddi – na ampola de Vater (figura 1B).
O mesmo folheto peritoneal que reveste o fígado, cobre o fundo e a superfície
inferior da vesícula, sendo que, apenas ocasionalmente, o peritoneu se estende à restante
vesícula.
Histologicamente, a vesícula é constituída por um epitélio colunar simples,
altamente pregueado, suportado por uma lâmina própria, à qual se segue uma camada
muscular, com fibras longitudinais e oblíquas (sem organização definida em camadas). A
sub-serosa peri-muscular contém tecido conjuntivo, nervos, vasos, linfáticos e adipócitos;
e é recoberta pela serosa, que se continua com a serosa de revestimento do fígado. O
muco secretado para o seu interior tem origem nas glândulas túbulo-alveolares, presentes
na mucosa do colo e infundíbulo, e ausentes nas restantes porções do órgão. A vesícula, ao
contrário do restante aparelho gastro-intestinal, não contém muscularis mucosa nem
submucosa na sua constituição (figura 2).
A sua vascularização depende da artéria cística, a qual, em mais de 90% das vezes,
deriva da artéria hepática direita, que se divide num ramo anterior e posterior quando
alcança o colo da vesícula. A drenagem venosa é habitualmente realizada por pequenas
veias que penetram diretamente o fígado, e a drenagem linfática decorre para nódulos no
colo da vesícula. A inervação é efectuada pelo vago, e por ramos simpáticos que atravessam
o plexo celíaco.
Figura 2 – Histologia da
vesícula biliar. M- mucosa,
pregueada; TF – túnica fibro-
muscular, que na sua porção
externa pode conter células
adiposas (CAd); VL – vaso
linfático.
Hematoxilina-Eosina
71
2. Introdução à colecistite aguda
74
Relutância ao movimento (o processo inflamatório afecta o peritoneu parietal)
Sinal de Murphy vesicular (característico desta patologia e ausente na cólica biliar, já
que esta não se associa a um processo inflamatório)
Palpação da vesícula e do omento pode ser possível, embora a defesa que o doente
apresenta o possa impedir
Ligeira icterícia – tendo em conta que o ducto biliar comum não está obstruído, é
raro um quadro de icterícia marcada no contexto de CA, devendo, nesse caso,
levantar-se a suspeita de colangite ou de síndrome de Mirizzi (obstrução dos ductos
biliares por inflamação pericolecística secundária a impactação de um cálculo no
infundíbulo)
NOTA:
Para detectar icterícia nas escleróticas são necessários níveis de bilirrubina sérica > 2,5
mg/dL, e na pele > 5 mg/dL
Febre + dor no quadrante superior direito + icterícia = tríade de Charcot, associada a
colangite. Caso se adicionem hipotensão e alteração do estado de consciência, ambas
alterações sistémicas, denomina-se de pentade de Reynolds.
75
5. Diagnóstico
A B
Figura 6 – Ultrassonografia de um doente com colecistite aguda. A – as setas indicam espessamento parietal;
B – a seta aponta para a parede espessada da vesícula, e para o líquido pericolecístico.
77
Na maioria dos casos, os aspectos supracitados são suficientes para delinear o
diagnóstico de CA. No entanto, temos ainda à disposição os seguintes ECD’s:
78
4. Biliary Radionucleotide Scanning/Hepatic Iminodiacetic Acid Scan (HIDA Scan)
– consiste numa cintigrafia, não-invasiva, ao fígado, vesícula biliar, ductos biliares e
duodeno, fornecendo informação anatómica e funcional. Os derivados do dimethyl
iminodiacetic acid (HIDA) são marcados com Tecnésio (99mTc) e injetados ev. São captados
pelas células de Kupffer hepáticas e excretados na bílis. O uptake pelo fígado decorre após 10
minutos, e a vesícula biliar, ductos biliares e duodeno são visíveis após cerca de 60 minutos.
Desta forma, caso a vesícula não esteja preenchida ao fim de 4 horas após a injeção do
contraste, com preenchimento concomitante do ducto biliar comum e duodeno, existe
obstrução do ducto cístico, e, mediante quadro clínico sugestivo, confirma-se, com elevado
grau de sensibilidade e especificidade (cerca de 95%), o diagnóstico de CA (figura 10).
Estão descritos falsos positivos em doentes com estase vesicular, nomeadamente os
doentes sujeitos a alimentação parentérica, doentes críticos, ou em jejum prolongado.
Apesar de não possuir um elevado detalhe anatómico, e de não identificar cálculos, permite
avaliar a fisiologia da secreção da bílis. É raramente utilizada na prática diagnóstica diária,
embora possa ser útil em casos atípicos, para confirmar o diagnóstico.
79
80
6. Diagnóstico diferencial
7. Tratamento
82
Figura 11 – Etapas da colecistectomia laparoscópica
83
8. Complicações
84
intervenção urgente. A colecistostomia percutânea constitui o método de eleição, já que
estes doentes, muitas vezes, não conseguem suportar uma cirurgia, e permite a melhoria do
quadro clínico em 90% dos casos. Caso não se verifique qualquer melhoria, devem ser
adoptadas outras opções, nomeadamente a colecistostomia aberta ou a colecistectomia.
85
[Link]
A B
Figura 15 – Colecistectomia laparoscópica. A - Visualiza-se a veia porta e o infundíbulo da vesícula biliar (G), sem tração
infero-lateral do último. O infundíbulo está localizado imediatamente adjacente ao ducto biliar comum (CBD). B – o
mesmo caso, agora com tração infero-lateral. Note-se a alteração angular do ducto cístico (CD), comparativamente ao
CBD. O utensílio metálico indica a localização da artéria hepática direita. A artéria cística está também identificada (CA).
11. Links úteis
Vídeos:
o Colecistectomia laparoscópica
[Link]
o Colecistectomia aberta
[Link]
o Ambas
[Link]
Recomendações bibliográficas:
o Schwartz – capítulo 32 (página 1309)
o Netter’s Surgical anatomy and approaches – capítulo 12 (página 127)
o Lawrence – capítulo 16 (página 327)
o Sabiston – capítulo 55 (página 1476)
[Link]
Brunicardi FC et al. Schwartz’s Principles of Surgery. McGraw Hill, 2010, 10th edition;
Conor P. Delaney et al. Netter’s Surgical Anatomy and Approaches. Elsevier, Saunders,
2014, 1st edition;
Townsend, Beauchamp, Evers and Mattox. Sabiston Textbook of Surgery, The biological
Basis of Modern Surgical Practice. Elsevier, Saunders, 2012, 19th edition;
Lawrence PF. Essentials of General Surgery. Wolters Kluwer health, Lippincott, Williams
& Wilkins, 2013, 5th edition;
Costa P. e Costa CS. (2012) Dor abdominal aguda não traumática in Ponce P. Manual de
urgências e emergências. Lidel, 2012, 2ª edição, capítulo 30, 150-156;
Gonçalves C e Bairos V. Histologia, texto e imagens. Histologia, histogénese e
organogénese. Imprensa da Universidade de Coimbra, 2ª edição (2007);
Yojoe et al (2012) New diagnostic criteria and severity assessment of acute cholecystitis in
revised Tokyo guidelines. J Hepatobiliary Pancreat Sci; 19:578–585;
Indar AA and Beckingham IJ (2002) Acute Cholecystitis. BMJ; 325: 639-647;
Kimura et al (2007) Definitions, pathophysiology, and epidemiology of acute cholangitis
and cholecystitis: Tokyo Guidelines. J Hepatobiliary Pancreat Surg 14:15-26.
Yamashita et al (2013) TG13 surgical management of acute cholecystitis. J Hepatobiliary
Pancreat Surg 20(1): 89-96;
Slides do Professor Nuno Carvalho, intitulados “Pancreatite aguda, colecistite aguda e
perfuração de úlcera”
Programa Harvard Medical School Portugal. Litíase biliar. Recuperado a partir de
[Link]
88
Por sub-capítulos:
89
Pancreatite Aguda
Lanyu Sun e Nuno Carvalho
1. Introdução
2. Etiologia
3. Fisiopatologia
4. Quadro clínico
5. Diagnóstico
6. Diagnóstico diferencial
9. Evolução
10. Complicações
11. Terapêutica
12. Anexos
13. Bibliografia
90
1. Introdução
A Pancreatite aguda (PAg) é uma das patologias mais comuns do sistema
gastrointestinal. A incidência da PAg no mundo varia entre 4,9 a 73,4 casos por cada
100.000 habitantes, por ano, tendo aumentado nas últimas décadas. (Tenner, 2013)
A PAg corresponde a um processo inflamatório agudo da glândula pancreática,
com eventuais repercussões, locais ou sistémicos. A maioria dos casos de PAg apresenta-se
com quadro clínico ligeiro, com normalização clinica e laboratorial no decurso de 3-4 dias.
Por vezes apresenta-se sob a forma de quadros clínicos graves ou muito graves,
caracterizada por necrose pancreática, hemorragia, extensa agressão locorregional e falência
multiorgânica, com elevada taxa de mortalidade.
2. Etiologia
Existem numerosas etiologias, no entanto as causas mais comuns de PAg são a
litíase vesicular (40-70%) e consumo de álcool (25-35%). (Tenner, 2013) A idade média do
início da doença e a diferença entre os géneros varia de acordo com a etiologia. A PAg
alcoólica atinge tipicamente homens entre 3ª e 4ª décadas de vida enquanto a pancreatite
litiásica ocorre mais frequentemente na 6ª década de vida, com uma incidência
sobreponível em homens e mulheres (embora a litíase vesicular ocorra mais frequente nas
mulheres). (Pereira, 2006; Brunicardi, 2015). Outras causas de PAg estão apresentadas no
quadro 1.
Quadro 1 - Etiologia da Pancreatite aguda
[adaptado de Longo, 2013, 18ª edição]
Causas comuns Causas incomuns Causas raras
Cálculos biliares (incluindo microlitíase) Causas vasculares e vasculite Infecções
Álcool (alcoolismo agudo e crónico) Doenças do tecido conjuntivo Doença auto-
Hipertrigliceridemia Púrpura trombocitopénica imune
CPRE trombótica (PTT)
Traumatismo abdominal Carcinoma do pâncreas
Pós-operatório Hipercalcémia
Fármacos Divertículo periampular
Disfunção do esfíncter de Oddi Pâncreas divisum
Pancreatite hereditária
Fibrose quística
Insuficiência renal
91
3. Fisiopatologia
Os mecanismos fisiopatológicos da PAg ainda não foram totalmente
compreendidos. A pancreatite pode ser descrita com uma evolução em 3 fases:
Fase III: Caracteriza-se por uma reacção inflamatória sistémica, devido aos
efeitos da activação das enzimas proteolíticas e citocinas, libertados pelo pâncreas
inflamado, em órgãos à distância. As enzimas activadas e as citocinas digerem as
membranas celulares e causam proteólise, edema, hemorragia intersticial, lesão
vascular e necrose. Como resultado da cascata de inflamação local e sistémica pode
surgir a síndrome de resposta inflamatória sistémica, síndrome de dificuldade
respiratória aguda e falência multiorgânica.
92
Figura 1 - Representação esquemática dos
eventos fisiopatológicos ocorridos na PAg.
[adaptado de Brunicardi, 2015, 10ª edição]
Quando as células acinares são estimuladas de
forma patológica, os seus conteúdos, proteases
lisossómicas (L) e grânulos de zimogénio (Z)
co-localizam, com consequente activação do
tripsinogénio em tripsina, pela catepsina B. O
aumento de cálcio no citosol é necessário para a
co-localização. Assim que tripsina permeabiliza
as moléculas para o citosol, a catepsina B e
outras moléculas são libertadas. No citosol, a
catepsina B activa a apoptose das células
acinares. A activação de PKC leva a activação
do NF-KB que conduz à libertação de citocinas
que atraem células inflamatórias, o que medeia a
cascata de inflamação local e sistémica.
93
4. Quadro clínico
padrão típico de irradiação em cinturão, presente em metade dos casos. A dor é de início
súbito, tipo moinha, “surda”, constante e com intensidade crescente. A dor é geralmente
mais intensa em decúbito, é agravada pelo movimento e alivia na posição de “prece
maometana”.
As náuseas e os vómitos surgem pela hipomotilidade gástrica e intestinal. Os
vómitos são geralmente persistentes.
O exame objectivo pode revelar múltiplas alterações, como febre (geralmente
<38ºC), palidez, taquicardia e taquipneia. A icterícia raramente ocorre, quando surge é
devido ao edema da cabeça do pâncreas com compressão da porção intrapancreática do
colédoco. Nas situações de maior gravidade, podem surgir sinais de desidratação e
hipovolémia, com hipotensão e oligúria.
Na observação do abdómen, a evidente gravidade da situação não parece ter uma
equivalência demonstrável no exame objectivo, pelo facto da causa do processo e a
extensão da lesão, pelo menos no início, terem uma localização retroperitoneal. Este
contraste deve aumentar a suspeita de PAg.
Inspecção: abdómen tendencialmente imóvel e doloroso com os movimentos
respiratórios, que se vai distendendo com a evolução do íleus;
Auscultação: diminuição/ausência de ruídos hidroaéreos;
Palpação: dolorosa, principalmente nos quadrantes superiores, geralmente com
aumento ligeiro do tónus muscular, mas sem dor marcada à descompressão. Não é
habitual encontrar-se defesa abdominal;
Percussão: geralmente timpanizado.
94
A existência dos seguintes sinais pode orientar no estabelecimento da gravidade da
situação:
- Diminuição do murmúrio vesicular na base esquerda, sugestivo de derrame
pleural.
- Diminuição ou abolição dos ruídos hidroaéreos, sugestivo de íleus.
- Hipertermia, taquicardia e hipotensão, sugestivo de sépsis.
- Sinal de Cullen e sinal de Grey-Turner, que são equimoses presentes na região
peri-umbilical e nos flancos, respectivamente, encontrados nas pancreatites necrosantes
devido à hemorragia retro-peritoneal.
Para além das equimoses, outros sinais cutâneos podem ser encontrados,
nomeadamente nódulos cutâneos e eritema (paniculite pancreática) devido à lipólise da
gordura cutânea pela lipase pancreática.
5. Diagnóstico
O diagnóstico da PAg faz-se pela presença de, pelo menos dois, dos seguintes três
critérios:
Dor abdominal típica, consistente com a patologia;
Amilase e/ou lipase sérica elevadas três vezes o limites superior da normalidade;
Achados imagiológicos compatíveis com PAg.
6. Diagnóstico diferencial
O diagnóstico diferencial da PAg deve incluir as seguintes entidades: perfuração de
úlcera péptica, colecistite aguda e cólica biliar, obstrução intestinal, isquémia intestinal,
cólica renal, enfarte agudo do miocárdio, aneurisma dissecante da aorta ou pneumonia.
95
7. Exames complementares de diagnóstico
96
7.3 Ecografia abdominal
A ecografia abdominal é um exame extremamente útil na detecção da litíase biliar
mas pode ser difícil a avaliação do pâncreas, especialmente nas primeiras 48h devido à
distensão gasosa intestinal. Algumas características que podem ser encontradas na ecografia
na presença de PAg são o edema do órgão e a presença de líquido peri-pancreático.
97
8. Estratificação do risco/classificação da gravidade
A estratificação de risco na abordagem da PAg é essencial para o prognóstico. Por
isso, foram desenvolvidos vários índices de gravidade com intuito de identificar os doentes
com quadro de PAg grave que necessitem de tratamento precoce de uma forma mais
agressiva.
Nos Critérios de Ranson (Quadro 3), são avaliados 10 parâmetros, 5 dos quais na
admissão e os restantes às 48 horas. Cada parâmetro vale 1 ponto, com um máximo de 10
pontos. Os Critérios de Glasgow são semelhantes aos critérios de Ranson, sendo a
pontuação e a classificação também idêntica.
Outro dos critérios, Apache II, é multifactorial e é obtido pela soma de três
índices, baseado em variáveis fisiológicas, na idade e em condições crónicas.
Comparativamente aos critérios de Ranson, tem a vantagem de permitir a monitorização da
evolução da doença, uma vez que os critérios de Ranson são apenas determinados
inicialmente e às 48 horas.
No entanto, os critérios anteriormente referidos não têm sido clinicamente úteis
visto serem trabalhosos, exigem colheita de muitos dados clínicos e laboratoriais e não
apresentam valor preditivo positivo e negativo aceitável para a PAg grave.
Desta forma, mais recentemente foi desenvolvido um sistema de pontuação
simplificado, designado por Bedside Index of Severity in Acute Pancreatitis (BISAP),
que incorpora 5 parâmetros clínicos e laboratoriais obtidosna admissão na urgência. A
presença de 3 ou mais factores está associada a um aumento substancial do risco de
mortalidade hospitalar.
Critérios BISAP:
98
clínica. Esta escala avalia o grau de inflamação do pâncreas (A-E, segundo os critérios de
Baltazar), a presença de necrose e de complicações.
A gravidade da pancreatite é determinada pelos critérios de Atlanta de acordo com a
presença de falência orgânica e/ou de complicações locais e sistémicos. Estes critérios
foram definidos pela reunião de vários peritos a nível mundial criado em 1993 e revisto em
2012, que definiu a PAg em três níveis de gravidade. Este sistema de classificação facilita a
identificação dos doentes em risco e as subsequentes decisões clínicas, no que diz respeito à
necessidade de cuidados intensivos, suporte nutricional e possível intervenção cirúrgica.
Pancreatite aguda ligeira: corresponde à grande maioria dos casos, em que não
existe falência de órgãos nem complicações locais ou sistémicas. Cerca de 48H após
a admissão, estes doentes apresentam uma melhoria clínica muito significativa.
Pancreatite aguda moderada (ou moderadamente grave): Existem
complicações locais ou sistémicas e/ou disfunção de pelo menos um órgão de
forma transitória/recuperável, inferior a 48h.
Pancreatite aguda grave: Associa a disfunção de órgão que persiste além das 48h.
Ocorre em cerca de 15-20% dos doentes.
9. Evolução
A evolução da PAg é descrita em 2 fases:
Fase I/inicial:
As alterações sistémicas resultam essencialmente da resposta do hospedeiro à lesão
pancreática. Esta fase geralmente termina na 1ª semana mas pode estender-se até à 2ª
semana. O determinante da gravidade da PAg durante esta fase é a presença e a duração de
falência orgânica. O desenvolvimento de disfunção orgânica parece estar relacionado com
o desenvolvimento persistente de síndrome de resposta inflamatória sistémica (SIRS).
Embora possam existir complicações locais, estas não são determinantes na gravidade da
doença.
99
Fase II/tardia:
Esta fase caracteriza-se pela persistência de sinais sistémicos de inflamação ou pela
presença de complicações locais, pelo que ocorre só em doentes com pancreatite
moderadamente grave a grave. É importante distinguir as diferentes características
morfológicas das complicações locais por exame de imagem uma vez que estas podem ter
implicações directas na terapêutica. No entanto, a persistência de disfunção orgânica
permanece como a principal determinante da gravidade, por isso a caracterização da PAg
nesta fase requere tanto critérios clínicos como morfológicos.
Segundo critérios morfológicos, classificadas por TC com administração de
contraste, podemos distinguir duas formas de PAg:
Pancreatite aguda edematosa ou intersticial: corresponde à grande maioria dos
casos, com edema geralmente difuso do pâncreas e sem evidência de necrose
tecidular. Em TC observa-se captação relativamente homogénea de contraste. Os
sintomas clínicos geralmente resolvem-se dentro da primeira semana.
Pancreatite aguda necrosante: Cerca de 5-10% dos doentes desenvolvem
A necrose do parênquima pancreático, do B
tecido peri-pancreático ou ambos (mais
comum). A necrose pancreática é definida como áreas inviáveis do parênquima
pancreático com dimensão superior a 3 cm ou envolvendo mais que 30% da área
pancreática. A necrose desenvolve-se geralmente após alguns dias da evolução da
doença. Nas áreas de necrose, como não existe perfusão, observa-se ausência de
captação de contraste. A evolução é variável. Quando existe infecção, esta ocorre
geralmente após a 1ª semana.
A B
Figura A - TC com contraste realizada à admissão de um doente com PAg. O realce anormal do parênquima
pancreático (seta), sugere pancreatite intersticial. [adaptado de Longo, 2013, 18ª edição]
Figura B - TC com contraste de um doente que mostra PAg intersticial, com captação de contraste e uma área
confluente de necrose do corpo pancreático. [adaptado de Brunicardi, 2015, 10ª edição]
100
10. Complicações
C D
Figura C - TC com contraste de um doente com PAg intersticial e colecção aguda peripancreática no espaço
pararenal anterior esquerda (setas mostram as paredes da coleção). O pâncreas contrasta completamente e tem
uma aparência heterogénea devido ao edema. [adaptado de Banks, 2013]
Figura D - TC com contraste de um doente com dois pseudoquistos, 6 semanas após o desenvolvimento de
PAg intersticial. (setas mostram as paredes do pseudoquisto, estrelas mostram o pâncreas contrastado
normalmente). [adaptado de Banks, 2013]
101
Coleção aguda necrótica: Coleção de líquido e tecido necrótico, intra e ou/
extrapancreática, associada exclusivamente à pancreatite necrosante. É uma coleção
heterogénea, com densidades não líquidas, não delimitada.
Walled-off pancreatic necrosis: Coleção de necrose pancreática e/ou
peripancreática encapsulada, com uma parede inflamatória bem delimitada, que
ocorre em mais de 4 semanas após o início da pancreatite necrosante, resultando da
evolução da colecção necrótica aguda.
E F
Figura E - TC com contraste de um doente com pancreatite aguda necrosante e coleção aguda necrótica,
envolvendo apenas o parênquima pancreático. (setas mostram uma colecção heterogénea recentemente
desenvolvida, sem extensão para os tecidos peripancreáticos). [adaptado de Banks, 2013]
Figura F - TC com contraste de um doente com desenvolvimento de walled-off necrosis após um episódio de
PAg necrosante. (setas brancas mostram uma parede fina, bem delimitada e com captação de contraste; setas pretas
mostram um componente não-líquido da coleção com elevada atenuação. [adaptado de Banks, 2013]
A infecção pode ocorrer nas áreas de necrose, especialmente a partir da 2-3ª semana
na evolução da doença, sendo particularmente importante quando a área de necrose é
superior a 30%. Deve-se suspeitar de necrose pancreática infectada na presença de
agravamento da dor abdominal, febre e leucocitose. Para confirmação da infecção, os
doentes devem ser submetidos a aspiração percutânea guiada por TC com exame
bacteriológico directo e cultural.
103
11. Terapêutica
Na fase inicial do tratamento da PAg pretende-se identificar e corrigir o factor
desencadeante e limitar a lesão pancreática, a nível locorregional e sistémica. Os doentes
com PAg grave devem ser admitidos numa unidade de cuidados intensivos.
A hidratação agressiva precoce (nas primeiras 24-48h), definida como 250-500
ml/hora de solução cristaloide isotónica é fortemente recomendada – excepto em doentes
com patologia cardíaca, renal ou outras comorbilidades que impeçam ressuscitação
agressiva. O lactato de Ringer pode ser preferido à solução cristalóide isotónica. A base da
hidratação endovenosa agressiva provém da presença frequente de hipovolémia nestes
doentes, provocada por múltiplos factores como vómitos, diminuição de aporte hídrico
oral, perdas para o terceiro espaço, aumento da frequência respiratória e diaforese. A
hidratação promove um suporte micro e macrocirculatório que previne complicações
graves como a necrose pancreática. Simultaneamente devem ser corrigidas as alterações
iónicas.
Na PAg leve, a alimentação oral pode iniciar-se de forma imediata desde que não
exista náuseas, vómitos ou íleus paralítico e a dor tiver sido resolvida. A alimentação com
dieta sólida hipolipídica é tão segura como a dieta líquida.
Na PAg grave, recomenda-se alimentação entérica precoce para prevenir
complicações infecciosas. A via entérica é preferível à parentérica, ao manter-se a
integridade do enterócito, preserva-se a barreira que impede a translocação bacteriana
intestinal, que se supõe ser responsável pela infecção das zonas de necrose pancreática e
peri-pancreática. A alimentação entérica administrada por sonda nasogástrica é equivalente
em eficácia e em segurança à administrada por sonda nasojejunal.
O controlo da dor é fundamental, quer pelo conforto do doente, quer pela
diminuição da secreção gástrica e pancreática (a dor aumenta o efeito colinérgico). Podem
ser utilizados opiáceos.
O uso por rotina de antibioterapia profilática não está recomendado em doentes
com PAg grave ou em doentes com necrose estéril para prevenção de infecção.
O diagnóstico de necrose infectada deve ser considerado em doentes com necrose
pancreática ou extrapancreática com deterioração ou persistência de mau estado clínico
após 7-10 dias de internamento. Nestes doentes, pode-se iniciar-se antibioterapia empírica
após os exames culturais adequados. Deve optar-se pelo uso de antibióticos com boa
penetração pancreática – como os carbapenemes, as quinolonas e o metronidazol.
104
A terapêutica cirúrgica está indicada no tratamento do factor desencadeante (ex.
litíase vesicular), em casos de PAg grave com necrose infectada, síndrome compartimental
abdominal ou hemorragia incontrolável e tratamento de complicações.
A presença de pseudoquisto ou necrose pancreática e/ou extrapancreática
assintomático não necessita de qualquer intervenção, independentemente do tamanho,
localização e/ou extensão. Em caso de necessidade de drenagem, esta pode ser feita de
forma percutânea, endoscópica ou cirúrgica.
Em doentes estáveis com necrose infectada, a drenagem deve ser adiada até
preferencialmente mais de 4 semanas para permitir a liquefacção do conteúdo e o
desenvolvimento de cápsula de fibrose (walled-off necrosis). Em doentes com necrose
infectada sintomáticos, a necrosectomia por métodos minimamente invasivos são
preferíveis à necrosectomia por cirurgia aberta.
As vias de abordagem minimamente invasivas para a necrosectomia pancreática,
inclui a cirurgia laparoscópica (abordagem peritoneal ou retroperitoneal), drenagem ou
desbridamento percutâneo guiados radiologicamente, desbridamento retroperitoneal video-
assistida e a drenagem transgástrica ou transduodenal por endoscopia.
A B
105
Em doentes com PAg litiásica, para prevenir a recorrência recomenda-se
colecistectomia, preferencialmente por via laparoscópica. Caso não tenha existido avaliação
pré-operatória da existência de coledocolitíase por CPRM, deve ser realizado colangiografia
intra-operatória. Em caso de coledocolitíase, é necessário a remoção dos cálculos através de
coledocotomia laparoscópica. Se não houver sucesso na remoção do cálculo, deve-se
considerar a conversão para cirurgia aberta ou em último caso, papilotomia endoscópica
por CPRE no pós-operatório.
Em doentes com PAg litiásica leve, a colecistectomia deve ser efectuada no mesmo
internamento, assim que o doente fique assintomático (em cerca de 3-7 dias). Nos doentes
com PAg litiásica grave, a colecistectomia deve ser adiada até à resolução das complicações.
Em doentes com PAg necrosante, para prevenir a ocorrência de infecção, a colecistectomia
deve ser realizada em tempo diferido, após a remissão da inflamação e a estabilização ou
resolução das colecções/exsudados peri-pancreáticos.
106
12. Anexos
107
Quadro 5 - Critérios Modificados de Marshall
[Adaptado de Banks, 2013]
Pontuação
Sistema de órgãos 0 1 2 3 4
Respiratório
(PaO2/FiO2) >400 301-400 201-300 101-200 ≤101
Renal*
Creatinina sérica:
(μmol/L) ≤134 134-169 170-310 311-439 >439
(mg/dL) <1.4 1.4-1.8 1.9-3.6 3.6-4.9 >4.9
108
13. Bibliografia
Banks P.A. et al. (2013). Classification of acute pancreatitis – 2012: revision of the Atlanta
classification and definitions by international consensos. Gut. 62(1): 102-111.
Brunicardi F.C. et al. (2015). Schwartz’s Principles of Surgery. 10ª edição. McGraw-Hill.
Costa P., Lages P. (2012) “Pancreatite aguda” in Pedro Ponce, Manual de Urgências e
Emergências, Lisboa: Lidel, Cap. 31: 157-162.
Costa P., Lages P. (2015) “Tratamento da pancreatite aguda metalitiásica” in Pedro Ponce,
Manual de Medicina Intensiva, Lisboa: Lidel, Cap. 36: 387-393.
Longo D.L. et al. (2013). Harrison’s Principles of Internal Medicine. 18ª edição. McGraw-
Hill.
Pereira A., Henrique J. (2006). Cirurgia – Patologia e Clínica. 2ª edição. McGraw-Hill.
Tenner S. et al. (2013). American College of Gastroenterology Guideline: Management of
acute pancreatitis. Am J Gastroenterol. 108(9): 1400-1415.
109
Patologia da Mama
1. Mastalgia
2. Fibroadenoma
3. Quisto mamário
4. Tumor Filóide
5. Corrimento mamilar
6. Mastite
II – Cancro da Mama
IV - Casos Clínicos
V - Bibliografia
110
Patologia benigna da Mama
1. Mastalgia
2. Fibroadenoma
1
A frequência de carcinoma em fibroadenoma é de 0,1-0,3%.
111
Vídeo de microbiópsia: [Link]
Tratamento:
Fibroadenoma de tamanho inferior a 3 cm não se faz excisão em mulheres jovens;
em cerca de 50% dos casos involuem em 5 anos (Lawrence, 2012). Fibroadenomas
estáveis devem ser acompanhados. A estimulação hormonal na gravidez pode provocar
o seu rápido crescimento e necessidade de excisão; pelo contrário na menopausa têm
tendência a involuir.
Fibroadenomas grandes (> 3cm) são tumores raros em jovens adolescentes e devem
ser excisados. É necessária microbiópsia para diagnóstico diferencial com tumor
filóide, mas, mesmo assim o diagnóstico diferencial pode ser difícil.
112
Figura 3 - Fibroadenomas: observam-se massas ovóides bem definidas na Ecografia e na Mamografia. O diagnóstico
definitivo é definido por microbiópsia guiada se necessário por Ecografia. Imagem retirada de
[Link]
3. Quisto mamário
A maioria das massas mamárias detectadas em mulheres com 40-50 anos são quistos.
Podem ser simples (podem desaparecer com aspiração) ou múltiplos (podem requerer
excisão). Apresentam-se como massas firmes, móveis, com bordos menos definidos
comparativamente aos fibroadenomas, cuja consistência e tamanho variam com o ciclo
menstrual.
113
Figura 5 -Aspecto ecográfico de quistos mamários: A – quisto simples: imagem anecogénica com reforço acústico posterior; B –
Quisto complexo: no inteior do quisto observa-se imagem nodular sólida (seta). Imagem retirada de
[Link]
4. Tumor Filóide
São tumores da mama raros2 constituídos por 2 tipos de tecido mamário: estromal
(tecido conjuntivo) e glandular (lobular e ductal), tal como os fibroadenomas. São mais
frequentes em mulheres entre 30-40 anos.
Diagnóstico: massa frequentemente indolor (mas pode ser
doloroso), móvel e lobular que cresce rapidamente e provoca
estiramento da pele. São difíceis de distinguir dos fibroadenomas quer
imagiologicamente quer por biópsia.
Dependendo da morfologia das células ao microscópio os
tumores filóides podem classificar-se em: tumores benignos (80%
casos), tumores malignos, tumores borderline.
Tratamento: Os tumores filóides podem recidivar no mesmo
local se a excisão do primeiro tumor não for realizada
correctamente. Por esta razão a ressecção deve ter pelo menos 1 Figura 6 - Tumor filóide – mamografia.
Imagem retirada de
[Link]
Habitualmente os tumores filóides não são cancerígenos: 1/3 são classificados como
malignos à microscopia, raramente metastizam para os gânglios ou sistemicamente.
Figura 8 - A, Core needle biopsy specimen of a Figura 9: A, Core needle biopsy specimen of a
fibroepithelial lesion with cellular stroma with
fibroepithelial lesion with cellular stroma with
moderately increased stromal cellularity (H&E, x40).
moderately increased stromal cellularity (H&E, x40). B: The corresponding excision specimen
demonstrated a phyllodes tumor (benign) (H&E,
B, The corresponding excision specimen
x20). – [Link]
demonstrates a fibroadenoma
(cellular) (H&E, x20).
115
5. Corrimento mamilar
6. Mastite
Os sintomas de mama edemaciada, eritematosa e de temperatura aumentada
requerem o diagnóstico diferencial de processo infeccioso (ex: abcesso mamário) e carcinoma
inflamatório da mama. A colheita de uma boa história clínica é essencial.
A mastite é mais frequentemente associada à lactação.
Em mulheres que não estão a amamentar, especialmente as fumadoras podem surgir
abcessos retromamários recorrentes com inflamação crónica e formação de fístula
entre o ducto e a pele.
Em mulheres pós-menopausa a probabilidade de neoplasia é maior.
O cancro da mama inflamatório pode ocorrer numa mama difusamente inflamada sem massa
palpável.
Os sinais de malignidade são: padrão linfangítico de eritema da aréola até á axila, espessamento
cutâneo com acentuação dos poros (peau d’orange), linfadenopatia, aumento global do
volume e peso da mama, massa que pode ser flutuante; a dor é rara (pelo contrário os abcessos
dão dor), o mamilo pode ser deformado (o que também pode acontecer nos abcessos
retroaerolares).
O diagnóstico requer mamografia e ecografia, caso nenhuma massa seja detectada recorre-se à
ressonância magnética. A microbiópsia pode fazer o diagnóstico de malignidade e através do
estudo imunohistoquímico, permite o planeamento da terapêutica sistémica.
117
Figura 13 - (imagem da esquerda) Legenda: Peau d’orange or edema of the skin. This finding may be
caused by dependency of the breast, lymphatic blockage (from surgery or radiation) or mastitis. The
most feared cause is inflammatory carcinoma, in which malignant cells plug the dermal lymphatics – the
pathologic hallmark of the disease. Imagem retirada de Text book of Surgery 19th edition, Sabinston – pág.
829 Fig 36-5.
Figura 14 - (imagem da direita) – Cancro da mama inflamatório –clinicamente observa-se uma área
eitematosa. Na mamografia observa-se espessura aumentada da pele (seta) e da densidade mamária.
Imagem retirada de:
[Link]
920&ti=401765&searchkey=
A biópsia da pele pode mostrar canais linfáticos dilatados contendo células malignas, contudo o
diagnóstico de carcinoma inflamatório é clínico.
118
Mastite em mulheres a amamentar é habitualmente causada por bactérias do género Streptococcus
spp. e Staphylococcus spp. Antibióticos (Clindamicina e Dicloxacilina) provocam alívio imediato
da sintomatologia. A mama afectada deve ser bombeada para evitar congestão; a amamentação
pode ser continuada na mama não afectada.
Quadro 1 - Resumo
Pode associar-se à amamentação.
Abcesso e mastite infecciosa Frequentemente causada por Streptococcus spp. e Staphylococcus
spp
Muito comuns nas adolescentes e mulheres jovens
Caracteriza-se por ser uma massa arredondada, móvel, firme, de
Fibroadenomas consistência elástica, indolor.
Tem dependência hormonal
Tratamento: vigilância ou excisão se preencher critérios.
Massas discretas, aumentam no período pré-menstrual.
Quistos Podem ser:
Simples – podem desaparecer com aspiração
Complexos – podem requerer excisão
119
Condição não neoplásica caracterizada por múltiplos ductos
Ectasia Ductal dilatados no espaço subareolar. Principal causa de corrimento
mamilar.
São a causa mais frequente de corrimento mamilar hemático
Não são lesões pré-malignas mas a excisão é frequentemente
Papiloma Intraductal recomendada.
A galactografia é fundamental e obrigatória para a localização.
Tumor raro móvel, lobulado e indolor. Benigno em 80% dos
Tumor Filóide casos. Apresentam crescimento rápido e grande volume.
Assemelham-se a fibroadenomas.
Devido à alta taxa de recidiva, a excisão é recomendada.
120
II - Cancro da Mama
O cancro da mama pode ter origem nas células dos ductos, lóbulos ou do tecido
conjuntivo mamário.
Aproximadamente 1 em cada 8 mulheres vai ter cancro da mama ao longo da sua vida.
É o tumor não cutâneo mais frequente nas mulheres e a segunda causa de morte por cancro
nas mulheres (a seguir ao cancro de pulmão).
122
Quadro 3 – Classificação histológica de Cancros de Mama primários.
(Beauchamp, Evers, & Townsend Jr., 2012)
I-Epidemiologia
II-Sinais e Sintomas
III- Diagnóstico
Doentes com LCIS têm 7 a 11 vezes maior probabilidade de ter cancro da mama
invasivo.4 Aproximadamente 25-35% das mulheres com LCIS desenvolvem doença invasiva na
mesma ou na outra mama após o diagnóstico inicial.
Figura 19 - Evolução de
carcinoma ductal in situ a
carcinoma invasivo (Lawrence,
2012).
I - Epidemiologia
II - Sinais e Sintomas
III-Diagnóstico
Figura 21 - Graduação do Elston & Ellis – retirado dos slides da aula teórica
sólido
cribiforme
micropapilar
não comedocarcinoma
VI- Terapêutica
VII- Prognóstico
9 Brunicardi, F. C. (2015). Schwartz's Principles of Surgery. New York: McGraw Hill Education.
127
3. Cancro da Mama invasivo
A classificação histológica dos carcinomas invasivos usada atualmente faz uma divisão
grosseira entre carcinoma lobular invasivo ou infiltrativo (10%) e carcinoma ductal
invasivo ou infiltrativo (90%).
O carcinoma ductal invasivo, por sua vez, pode ser dividido (Quadro 4) em
NTE/NOS/NST10 (50 a 70%) ou, em diferentes tipos específicos quando apresenta alguma
característica diferenciadora em mais de 90% do tumor.
10NST- of no special type; NOS – not otherwise specified, sendo que os carcinomas ductais invasivos NST são apenas chamados “carcinomas
invasivos NST”, perdendo a alusão a uma morfologia de tipo ductal.
11Como é tão prevalente, inclui uma enorme variedade de combinações de diferentes fatores (biomarcadores, estadiamento,…) pelo que o
prognóstico é bastante variável.
128
● Secreta mucina em grandes quantidades
● Células parecem flutuar na mucina
● Triplo negativo
● Bom prognóstico (melhor que NST ou
lobular)
Esta classificação histológica, ainda que interessante do ponto de vista académico, tem
vindo a perder alguma relevância do ponto de vista clínico, uma vez que existem outros fatores
intrínsecos ao tumor que são mais determinantes no prognóstico do que propriamente o tipo
histológico, nomeadamente: o tamanho e o grau histológico, a existência de recetores
hormonais positivos (estrogénio e progesterona), a existência de recetores HER-2 positivos,
o índice proliferativo (Ki67), a existência de gânglios positivos (N), etc. No fundo, o
estadiamento e os biomarcadores.
129
Biomarcadores e Estadiamento
Recetores hormonais:
130
Índice proliferativo:
Terapêutica
Uma vez feito o diagnóstico, o tipo de terapêutica oferecida ao doente varia conforme o
estádio, o subtipo biológico e o estado geral da doente. Os exames laboratoriais e imagiológicos
a realizar também dependem do estádio da doença.
Quadro 5 - Exames a realizar tendo em conta o estadiamento clínico do tumor.
Adapted from Carlson RW, et al: Breast cancer, in NCCN Practice Guidelines in Oncology. Fort Washington, PA:
National Comprehensive Cancer Network, 2006.
Num outro estudo, com follow-up de 15 anos, a mortalidade diminuiu 5,1% em doentes
com gânglios negativos e 7,1% em doentes com gânglios positivos. Contudo, em mulheres mais
velhas (> 70 anos) a radioterapia parece não ter efeito na mortalidade por todas as causas, em
tumores T1N0 e RE+.
131
Contudo, existem também algumas contraindicações para a realização de
radioterapia:
No que diz respeito aos gânglios linfáticos, com base em estudos realizados,
demonstrou-se que não existe diferença na sobrevida em doentes com 1 ou 2 gânglios sentinela
positivos entre os que fazem linfadenectomia axilar e os que não a fazem. Contudo, se o doente
apresentar linfadenopatia axilar que se confirma ser doença metastática, a biópsia do gânglio
sentinela não é necessária e o doente prossegue para linfadenectomia axilar ou quimioterapia
neoadjuvante.
No que diz respeito à quimioterapia adjuvante, esta deve ser realizada em doentes
com gânglios positivos, doentes com tumores> 1cm e doentes com gânglios negativos> 0.5cm
quando estão presentes fatores de mau pronóstico, nomeadamente, invasão vascular ou
linfática, elevado grau nuclear, elevado grau histológico, sobreexpressão HER-2/neu e recetores
hormonais negativos.
132
Quadro 6 - Terapêutica médica em diferentes estádios de cancro da mama.
(Beauchamp, Evers, & Townsend Jr., 2012)
No que diz respeito à cirurgia, a cirurgia conservadora pode efectuar-se se tiver havido
“downstaging” do tumor incluindo biópsia do gânglio sentinela se os gânglios forem negativos
previamente à Quimioterapia ou mastectomia radical modificada seguida de radioterapia e
quimioterapia adjuvantes, com intuito de fazer controlo loco-regional e sobrevida livre de
doença, bem como sobrevida livre de doença à distância, respetivamente.
133
Figura 23 – Abordagem ao doente no estádio IIIA e IIIB.
(Brunicardi, 2015)
O tratamento para este estádio da doença não é curativo mas pode prolongar
qualidade de vida e sobrevida, havendo preferência pela hormonoterapia (face a
quimioterapia) quando os recetores hormonais são positivos.
A cirurgia também pode ser considerada, embora essa seja uma questão que deve ser
deixada ao critério do doente e do seu médico, contudo alguns estudos demonstraram um
melhor prognóstico nas situações em que é feita resseção cirúrgica do tumor primário, mesmo
com margens negativas, em comparação com os doentes que não foram operados.
134
Recidiva loco-regional
Por outro lado, se realizou cirurgia conservadora e houve recidiva, deve fazer então
mastectomia com posterior reconstrução, sendo considerada ainda a realização de
quimioterapia e hormonoterapia (se aplicável).
Prognóstico
Tumor Filóide
135
Angiossarcoma
Pode ocorrer de novo na mama (primários) ou na derme após radioterapia para cancro
da mama (secundários); também pode desenvolver-se em mulheres com linfedema pós
mastectomia total.
In [Link]
In [Link] 136
IV - Casos Clínicos (retirados da aula teórica)12
Caso Clínico 1
12
Aula lecionada pela Mestre Isidra Cantante.
137
Com carcinoma, tumor filóide (tumores primários raros, grandes e que surgem
habitualmente em mulheres com mais de 40 ano; são dificilmente distinguidos dos
fibroadenomas na mamografia; habitualmente são tumores benignos mas podem malignizar),
linfoma e metástase de outro tumor. Estas duas últimas entidades são ainda mais raras.
Caso Clínico 2
Neste caso não se faz biópsia porque as lesões são muito pequenas, na região
retromamilar, difíceis de biopsar.
138
Na ausência de evidência clínico-radiológica de malignidade a excisão ductal por incisão
circumareolar permite o diagnóstico histológico definitivo, resolve o sintoma e é esteticamente
aceitável.
Caso Clínico 3
Caso Clínico 4
141
4.2) O que fazer a seguir? Microbiópsia por estereotaxia (biópsia minimamente invasiva). A
análise anátomo-patológica revelou: Carcinoma Ductal Invasivo Grau 1 de malignidade
histológica com RE e RP positivos e fortes, Ki67 baixo, p53 positivo, C-erB2 negativo.
V - Bibliografia
Beauchamp, R. D., Evers, B., & Townsend Jr., C. M. (2012). Sabiston Textbook of Surgery: The
Molecular Basis of Modern Surgical Practice -19th. Elsevier.
Brunicardi, F. C. (2015). Schwartz's Principles of Surgery. New York: McGraw Hill Education.
Lawrence, P. F. (2012). Essentials of General Surgery - Fifth Edition. Baltimore: Wolters Kluver:
Lippincott William & Wilkins.
142
Tumores Retroperitoneais
Beatriz Gil, João Pedro Nóbrega e Patrícia Lages
Anatomia - Retroperitoneu
Classificação
· Indefinidos (19,4%).
144
Os tumores malignos retroperitoneais mais comuns são os sarcomas, um grupo
heterogéneo de tumores com origem nos tecidos mesenquimatosos. A origem das células
mesenquimatosas estaminais é desconhecida, e por vezes é até posta em causa se o tumor deriva
primariamente destas.
Existem mais de 50 subtipos histológicos, sendo designados segundo o tecido de
origem. Os mais comuns são: lipossarcoma , leiomiossarcoma e sarcoma pleomórfico (Fig.x e
X)
Secundários
· Linfomas;
145
Figura x: Nomenclatura dos tumores malignos e benignos
consoante a sua origem.
Sinais e sintomas
Massa assintomática
A manifestação inicial é, regra geral, uma massa palpável, muitas vezes assintomática.
Quando estes tumores não são detectados como massas, são geralmente achados incidentais
num exame complementar solicitado por outra patologia ou por outros sinais e/ou sintomas.
146
Massa sintomática
- Anorexia
- Febre, normalmente pouco elevada. Associada a tumores de alto grau com expansão
rápida e necrose tumoral. A febre tende a desaparecer com a excisão do tumor.
- Vómitos
- História do doente
- Exame objectivo
- Meios complementares de diagnóstico
- Classificar como tumor visceral ou não visceral/primitivo ou secundário
147
Figura x: Surgical Decision Making, 5th edition, 2004
Diagnóstico Diferencial
Uma vez identificada uma massa no retroperitoneu, a sua etiologia deve ser
determinada. O diagnóstico diferencial inclui uma neoplasia primária resultante de uma
estrutura retroperitoneal visceral (ex: pâncreas, glândulas supra-renais, rins e duodeno), um
sarcoma retroperitoneal, um linfoma ou uma lesão metastática. Para fazermos diagnóstico
diferencial com estas entidades contamos com a história clínica detalhada, o exame objectivo e
ainda ECDs. Como exemplos:
- o exame objectivo dos testículos, a ecografia testicular e a beta-hCG estão indicadas
numa suspeita de seminoma;
- pacientes com linfadenopatias podem ser sujeitos a biópsia excisional de um gânglio
aumentado, em caso de suspeita de linfoma.
Sarcomas Retroperitoneais
Os sarcomas de tecidos moles constituem 0,7% dos cancros nos adultos e constituem o
tumor primitivo retroperitoneal mais frequente, representando no entando uma entidade
rara no contexto de todos os tumores malignos. Só 10-15% dos sarcomas são retroperitoneais, a
maioria localiza-se nos membros (53%).
148
Surgem habitualmente mais cedo que os restantes tumores malignos, sendo na sua
maioria diagnosticados entre a 5º e a 6ª décadas de vida. Existem casos descritos noutras
décadas de vida. Não existe maior incidência numa raça específica e, quanto ao género, alguns
autores consideram que é ligeiramente mais frequentemente no sexo masculino (1,2: 1). Porém,
alguns subtipos têm características particulares. A incidência é estável e não existe variação
geográfica.
A maioria estes tumores é assintomática ou tem sintomas muito frustres. Por isto, em
71% dos casos, os tumores são diagnosticados quando atingem grandes dimensões (mais de 10
cm de diâmetro).
Subtipos Histológicos
· Leiomiossarcomas
- Sarcoma pleomórfico
149
Invasão e recidiva
São tumores muito agressivos localmente, pois fazem invasão de estruturas ou órgãos
vizinhos. Cerca de 60% recidiva localmente, muitas vezes, tardiamente (5-10 anos depois).
Disseminação e metastização
Exame Objectivo
151
É importante ainda a palpação dos testículos, para pesquisar tumores das células
germinativas.
Avaliação Laboratorial
É importante para excluir alguns diagnósticos, pois não existem marcadores específicos para
os sarcomas. Deve pedir-se:
- Hemograma
Avaliação Imagiológica
152
Figura x : As imagens A e B mostram uma TC de um tumor retroperitoneal (*) que causa
obstrução duodenal e distensão gástrica.
153
Lipossarcoma
Leiomiossarcoma
- Angio-TAC
- Urografia
- Colonoscopia …
154
Actualmente, pode-se recorrer à TC Helicoidal ou Espiral que permite uma análise mais
pormenorizada das estruturas adjacentes sendo também importante na planificação pré-
operatória.
Não há nenhum estudo que demonstre qual destes exames é melhor, provavelmente devemos considerá-
los como complementares.
Nos tumores dos membros, é preferível usar a RMN. Mas, no abdómen e particularmente no espaço
retroperitoneal, usa-se mais a TAC Abdomino-pélvica (Imagem x), pois permite avaliar: o tamanho, a
localização e relação com estruturas adjacentes, o estadiamento (metastização hepática e peritoneal) e a
planificação cirúrgica.
Possibilita a obtenção de um conjunto importante de informações conducentes à formulação do
diagnóstico, à previsão das dificuldades operatórias e à avaliação prévia da ressacabilidade. Também
identifica a composição sólida dos tumores, a eventual presença de necrose, a localização retro-peritoneal,
a extensão da doença: loco - regional e à distância (metástases hepáticas), a existência de planos de
clivagem e as relações com os restantes orgãos e com as estruturas vasculares (ex: aorta e veia cava
inferior). É igualmente valiosa na distinção da maioria dos sarcomas de outras doenças malignas retro-
peritoneais, dada a existência de características tomodensitométricas sugestivas do diagnóstico (os
sarcomas são frequentemente heterogéneos e com áreas de necrose no seu interior, o que facilita o seu
diagnóstico diferencial com os linfomas, que podem expressar-se sob uma forma multinodular).
Usualmente, torna também possível a distinção entre lipossarcomas bem diferenciados de lipossarcomas
desdiferenciados. A TC torácica identifica ainda metástases pulmonares.
A RMN tem maior especificidade e sensibilidade para caracterizar os tecidos moles, sejam grupos
musculares, as estruturas vasculares (a sua permeabilidade), a natureza da neoplasia e a sua relação com
órgãos sólidos (fígado, rim e baço). Em algumas situações, revela-se vantajosa na avaliação da
ressecabilidade do tumor.
A TAC e a RMN são exames complementares, não se excluindo mutuamente. Poderá ser necessário
RMN com ponderação T1 para avaliar a invasão das estruturas vasculares, mas esta função pode ser
substituída pela Angio-TAC.
155
Figura x: Sarcoma retroperitoneal em contacto com o rim direito e com uma ansa intestinal.
Biópsia
T – Tamanho.
156
Dentro do T1 e T2, existe o grupo A (tumor superficial) e grupo B (tumor
profundo), sendo que os sarcomas retroperitoneais pertencem todos ao grupo B, porque
são tumores profundos.
Cirúrgico
Tumor primário
157
Estas equipas são formadas por Anatomopatologistas, Oncologistas, Radioterapeutas,
Cirurgiões, Imagiologistas, entre outros. No Hospital de Santa Maria existe uma reunião mensal
onde são avaliados individualmente todos os casos de sarcomas (independentemente da
localização).
A cirurgia é a única opção potencialmente curativa. O tipo de cirurgia que se pretende é uma
ressecção completa com margens negativas, ou seja, uma ressecção R0 (quer as margens
macroscópicas, quer microscópicas estão livres). Se as margens não estiverem livres (R1/R2), a
sobrevida do doente será necessariamente inferior. A proximidade de algumas estruturas
vasculares e da coluna vertebral dificulta a obtenção de margens de ressecção seguras o que
poderá explicar a elevada taxa de recidiva associada a estes tumores.
158
Figura X: Abordagem terapêutica de massa retroperitoneal potencialmente ressecável.
159
Figura x e x: Imagens de RMN de lipossarcoma de baixo grau, irressecável.
o Recidivas
Se a recidiva for ressecável, deve ter como primeira opção a cirurgia. Mesmo com ressecções
anteriores R0, estes tumores mantêm a capacidade de induzir recidivas a longo prazo (mais de
70%, 5-10 anos). Os pacientes com sarcomas retroperitoneais têm maoir probabilidade de
recidivar do que os sarcomas dos membros.
160
Recidivas Taxa de sucesso da ressecção
1ª 57%
2ª 20%
3ª < 10%
Figura x: Taxa de sucesso da ressecção após recidivas sucessivas.
Numa série publicada em 1998 1, que incluiu 500 doentes operados no Memorial Sloan-
Kettering Cancer, verificou-se uma taxa de ressecção completa em 80% dos doentes (bastante
elevada quando comparada com outros estudos). Em 59% dos casos, documentou-se
recorrência até aos 5 anos.
Metástases
161
doentes. A ressecção completa das metástases pulmonares está associada a taxas de
sobrevivência que rondam os 25-39% aos 5 anos.
Apesar de terem sido feitos vários estudos, os resultados mostram que estes tumores
são muito pouco susceptíveis à quimioterapia e à radioterapia, mesmo em tumores
metastizados.
162
Quimioterapia
Prognóstico
Para além da ressecção R0, nenhum outro factor provou ainda ser adequado no
prognóstico. O tamanho do tumor não é considerado como factor, pois quase todos os
sarcomas são > 5cm. O grau de diferenciação foi considerado como factor preditivo de
período livre de doença e mortalidade total em tumores de elevado grau de diferenciação
(Figura x).
Em suma, depende de:
- Grau histológico,
- Cirurgia efectuada (em termos de ressecabilidade e margens cirúrgicas)
163
- Estadio do doente.
«
Follow-up
1. Pacientes com sarcoma de baixo grau (a cada 3-6 meses durante os primeiros 2 a 3
anos; após este período, recomenda follow-up anual).
164
2. Pacientes com sarcoma de alto grau (a cada 3-4 meses durante os primeiros 3 anos;
depois a cada 6 meses durante 2 anos; após este período, recomenda follow-up anual).
Vídeos
[Link]
(ressecção de sarcoma)
[Link]
(histologia do lipossarcoma retroperitoneal)
165
166
Mammography is pivotal in detecting early breast cancer signs, such as irregular masses, increased skin thickness, or microcalcifications adjacent to lesions . These findings prompt biopsies for definitive histopathological evaluation . Specific indications of malignancy include irregular, dense masses and dermal lymphatic obstruction, seen in inflammatory breast cancer as peau d’orange, correlating with the presence of recalcitrant edema and skin irritation . Regular screening facilitates early intervention and improved prognostic outcomes .
Endoscopy is the primary diagnostic method for evaluating dysphagia, as it allows for direct visualization of the esophagus to locate lesions and assess their extent . It permits biopsy collection for histopathological confirmation. Additional imaging such as a barium swallow, CT, or MRI may assist in evaluating the lesion's extent and detecting other masses or metastatic spread . Limitations include the potential inability to progress if there is an obstructive lesion .
Early surgical intervention, ideally within 2 to 3 days or up to one week from onset, is preferred in acute cholecystitis to reduce morbidity, mortality, and hospitalization time . Delayed intervention can increase complication risks, such as gangrene or perforation, necessitating more extensive surgery . Percutaneous cholecystostomy is an alternative for patients who cannot undergo surgery, offering symptom relief by draining vesicular contents . This procedure requires ultrasound guidance and has specific indications, such as patient stability and contraindications to surgery .
Fibroadenomas under 3 cm in size in young women are usually monitored, as they may involute spontaneously over five years . Larger fibroadenomas, especially those over 3 cm, require surgical excision, particularly if there is rapid growth due to hormonal influences during pregnancy or diagnostic uncertainty distinguishing them from phyllodes tumors . Histological examination through biopsy is essential for diagnosis and distinguishing between benign and potentially malignant lesions .
Mastalgia, or breast pain, is usually benign but must be evaluated for serious conditions. Differential diagnoses include musculoskeletal pain or angina . Persistent, unilateral pain warrants clinical assessment due to its rarity in cancer but significance if present . Evaluation involves mammography and ultrasound to rule out other causes, and exploring hormonal influences, such as in premenopausal women or those on hormone replacement therapy, is crucial . Clinical follow-up ensures proper monitoring and adjustment of treatments .
Dysphagia, or difficulty swallowing, is a late symptom in esophageal cancer progression because the absence of a serous layer allows greater dilation. It typically begins with difficulty in swallowing solids and progresses to liquids as more than 60% of the esophageal lumen becomes obstructed . The location of dysphagia correlates with the tumor site, and it can be cervical, thoracic, or abdominal . Initially, it may occur with specific foods and only progress with solid food until it becomes consistent with all food types .
Endoscopy is critical in diagnosing esophageal dysphagia, allowing visualization of the esophageal mucosa to identify tumors, strictures, or lesions location . It also facilitates biopsies, crucial for histopathological analysis and potential pre-cancerous or cancer confirmation . In management, it allows assessment for obstructive relief, strategic planning regarding surgical intervention, and guides adjunctive treatments . Its main limitation is progression blockage due to severe stenosis or tumors, highlighting the importance of complementary imaging techniques .
Complications of acute cholecystitis include gangrenous or emphysematous forms, pancreatitis, and cholangitis, which require urgent intervention . Surgical strategies such as laparoscopic cholecystectomy or percutaneous drainage in those unsuitable for surgery address these complications . Diagnostic imaging and blood tests guide therapeutic interventions, and timely surgeries mitigate severe outcomes, emphasizing the need for early management .
Carcinoma of the esophagus initially invades the mucosa and progresses to the submucosa and muscular layers. Anatomically, it can invade nearby structures like the trachea, aorta, and the recurrent nerve, which can lead to severe complications such as respiratory issues or vocal changes due to nerve involvement . The invasion of these structures and subsequent metastasis to lymph nodes, liver, and lungs complicates the disease further, making treatment and prognosis challenging .
Non-invasive breast cancers include ductal carcinoma in situ (DCIS) and lobular carcinoma in situ (LCIS), detected primarily through mammography showing microcalcifications and confirmed by biopsy . Their diagnosis is crucial as they increase the risk for invasive cancer, particularly LCIS, which lacks symptoms and often coincidentally diagnosed in biopsies for other reasons . Racial and genetic predispositions, such as more prevalence in Caucasian women and mutations like BRCA, influence their prevalence . Management includes surveillance or surgery based on risk assessments .