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Lúcifer e o Tédio no Inferno

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Extremamente entediado. Era assim que o soberano se sentia.

Ja se fazia muito tempo desde sua queda, não se fez muita coisa desde então. Governando
o submundo, algumas visitas a terra, torturando algumas almas por diversão, era sua nova
vida. Mas o jovem soberano estava cansado da monotonia, viver na mesmisse.

Sentado sobre seu trono em uma pose desleixada, o soberano encarava de maneira
entediada seus servos que tentavam a todo custo animarem seu senhor.

- Majesssstade! O que vossssa excelência acha de sssairmos para caçar? - O demônio com
características semelhantes a uma cobra pergunta a seu superior.

- Ssssim! Esssplêndida ideia. Fiquei ssabendo que há novos sseres no inferno, carne
excepcionalmente nova! Deve estar fressquinha. - O outro ser cobra concordou
prontamente com o amigo, passando sua grande língua bifurcada pelos lábios finos.
Salivando ao imaginar.

Olhando totalmente desgostoso para as duas cobras, se perguntando por que nao ter
arrancado a cabeça dos dois ainda.

- Quem são vocês mesmo? - Perguntava desinteressado, passando a destra pelos fios de
cabelo que estavam levemente bagunçados. - Querem saber? Nao importa. Por acaso eu
pareço com alguém que sai para caçar seres inferiores? Tenho assuntos mais importantes
para resolver do que sair para caçar com duas minhocas mutantes. - Sem esperar que eles
abrissem a boca para respondê-lo, Lúcifer se levanta de seu trono, ajeitando sua roupa
extremamente chamativa. - Se me derem licença senhores, tenho assuntos realmente
importantes para resolver. - Se dirigia até a saida da sala do trono, sem ter algo
verdadeiramente importante para ser feito, apenas queria sair da presença dos dois seres
insuportáveis.

Caminhava majestosamente pelos corredores de seu castelo, todos os servos que


passavam por si se curvaram respeitosamente diante seu soberano. Ele assumia, amava
ser respeitado, adorado e ainda mais, temido por todos. Sabiam que em um estalar de
dedos tudo e todos se tornariam cinzas.

Poderia ate nao ter criado o inferno, mas o aprimorou e se tornou parte dele. Ele era o rei,
ele era o próprio inferno, era Lúcifer, Satanás, Belzebu, o cara la de baixo, tormenta e
outros nomes que amava receber.

Com o sorriso orgulhoso no rosto, foi em direção ao estábulo, passando pela cozinha.
Observava seus demônios parando absolutamente tudo que fazia apenas para curvarem-se
para si.

- Vossa majestade! Que ótima visita, o senhor deseja algo? - A demônio morcego,
responsável pela cozinha e os pratos chamativos e grandiosos, perguntou ao soberano que
parou ao lado da entrada da cozinha.
- Por enquanto nada, apenas estava indo para o estábulo ver Zelnadar. - Sua postura
continuava majestosa e imponente, mas não deixava de ser respeitoso com alguns de seus
serviçais.

- Certamente senhor, se vossa majestade precisar de algo estaremos ao seu dispor. - A


senhora voltava a sua postura ereta, voltando a ordenar que os demais retornassem aos
seus afazeres.

Sem dar muita importância, Lúcifer caminhava graciosamente ate a outra ponta da cozinha.
Que o levava ate a parte exterior do castelo, e onde ficava os estábulos que abrigava seus
dragões e cavalos.

Não demorou muito para chegar ao lugar, pisando com cautela para nao sujar seus sapatos
limpos no chão do estábulo.

- Esse lugar fica cada vez mais sujo, estou pensando seriamente em parar de vir visitá-lo. -
Falava alto e audível, mesmo sabendo que o dragão ouviria o menor dos ruídos.

- Não seria de todo ruim, assim quem sabe eu teria mais tempo para pensar do que ouvir
suas lamúrias reais. - O outro falava baixo, mas o timbre grave ecoava pelo estábulo inteiro,
chegando aos ouvidos do rei do inferno, que chegava cada vez mais perto do dragão.

- Pare de ser tão chato Luci, ou irei parar de limpar esse lugar horrendo que chama de
quarto. - Dizia bem humorado enquanto se aproximava dele.

- Oh por favor que coisa horrível! O temido Lúcifer vai parar de limpar o coco dos cavalos
dele. - O dragão dizia irônico, se levantando para alongar o enorme pescoço cheio de
escamas.

O dragão vermelho era extremamente chamativo, no momento possuía seus 5 metros de


altura, mesmo os dois sabendo que poderia ficar maior que o estábulo. Era jovem, apenas
900 anos, e esteve com Lúcifer desde sua queda.

Poucos sabiam desse lado do soberano, esses poucos se referia apenas a seu dragão,
Lucifron Zelnadar. Mas o soberano tinha um enorme carinho pelo dragão de fogo.
Conseguia ser carinhoso e cuidadoso com o dragão e o dragão consigo.

- Irei relevar isso, esta de mau humor hoje. Algo que queira me contar? - Se sentava na
pedra enorme que estava ao lado do dragão. - Como isso veio parar aqui?

- Não a nada com o que se preocupar senhor, mas gostaria de saber o que faz aqui tão
cedo. - Se virava na direção do jovem soberano, deitando a cabeça entre as patas
dianteiras, ignorando a última pergunta.

- Esta mudando de assunto novamente, nao ache que irei deixar isso passar. - Escorava as
costas na parede de madeira, encarando o dragão que também lhe olhava serio. - Mas
respondendo sua pergunta, estou apenas entediado. As vezes costuma ser cansativo ser
soberano, eu amo o poder, ser temido e adorado. Todos ao meu dispor fazendo
absolutamente tudo sem questionarem. Mas... Sinto falta da emoção, o desafio. O inferno
está tão calmo, isso não costuma ser comum. - Suspirou cansado, criando uma pequena
bola de fogo com os dedos, logo brincando com ela.

Zelnadar absorvia tudo que seu soberano falava, mantendo suas opiniões sobre guardadas
apenas para si. No fundo, Lucifron sabia que o jovem a sua frente era apenas uma criança
extremamente mimada que foi forçada a crescer rápido demais e governar um mundo
inteiro sozinho. Se pudesse, tomaria toda a responsabilidade de sua criança e lidaria com
tudo, mas era apenas um velho dragão inferior, inferiorizado até pela própria espécie.

- Nao deveria estar feliz por isso? O inferno esta em paz, não a guerras, todos te respeitam.
Não há do que reclamar. - Questionava curioso, tentava descobrir a onde seu senhor queria
chegar.

- Eu sei, Zelnadar. Mas venho pensando a um tempo, estou bem sabendo que meu inferno
esta em paz, que meu povo esta bem e me servindo. Mas meu tédio não esta ligado
diretamente ao inferno. Só estou entediado da mesmisse, servos vazios me bajulando
apenas pelo meu posto, as vezes eu me sinto... - Nao conseguia concluir. Apenas deixou a
voz morrer, deixando seu dragão confuso e curioso sobre o assunto.

A verdade é que nem ele mesmo sabia o que sentir, era confuso, algo totalmente novo para
ele. Mas tentou manter a confiança no olhar e esconder o máximo possível esse sentimento
estranho. Colocando novamente a carranca soberba e superior.

- Na verdade eu acho que ... - Respirou fundo. - E-eu... - Por mil demonios, estava
envergonhado de si mesmo. Não sabia do porque esta agindo daquela forma, mas teria que
mascara-la o mais rápido possível. - Quero um criado pessoal, é! Isso.

Franzino o cenho, Lucifron questionou.- Pensei que vossa majestade ja tivesse um serviçal
para si.

- E-eu não o quero, ele é... Um incompetente! Muito lento, muito submisso. Eu só, nao o
quero. - Cruzou os braços, fazendo um bico como uma criança mimada.

- Ok, você esta mais estranho que o habitual senhor. Voltaremos nesse assunto mais tarde,
mas como vai seu novo projeto? Aquele que você estava criando um novo exército para
guerras futuras_ - Zelnadar foi interrompido pelo grito exasperado de Lúcifer.

-Ai está Lucifron! Irei criar meu próprio servo pessoal! Ao meu gosto, as minhas escolhas. -
Se levantou rápido para se jogar ao rosto do dragão.- Obrigado Luci, você é o melhor! Nao
sei o que seria de mim sem você, dragãozinho. - Disse rapidamente, abraçando o rosto do
dragão que estava surpreso. Poucas vezes foi abraçado pelo soberano.

Tossindo um pouco, soltou uma lufada de ar quente para afastar Lúcifer.

- Ao seu dispor senhor, mas não sei se isso_ - Novamente interrompido pelo jovem, que
saiu correndo do estábulo para colocar seu plano em prática gritando.
- Você ira me ajudar nisso Luci, amanhã volto para lhe contar com mais detalhes.

Balançando a cabeça em negação, deitou a cabeça novamente, pensando no quanto a


ideia do jovem soberano era péssima, e que lhe custaria caro.

Os dias seguintes foram seguidos do jovem rei do inferno totalmente elétrico pelos
corredores do palácio. Sempre que tinha a oportunidade ia ate o estábulo ou ao jardim do
palácio com Zelnadar para tagarelar sobre os pequenos avanço que havia feito. Ate uma
lista de exigências de como o futuro servo deveria ser fez.

- Não poderá ser mais alto que eu, mas também nao quero um anão. Olhar para baixo
sempre fara mal ao meu pescoço. Será inteligente, mas nao inteligente demais, estava
pensando em colocar minha essência nele. - Estavam deitados na grama do jardim do
palácio real, o único lugar no inferno inteiro que o gramado crescia verde e bonito.

- Espere meu senhor, colocar sua essência em um servi real? Não acha que esta indo longe
demais? - Lucifron perguntou, temeroso do que poderia acontecer caso seu senhor fizesse
o que estava falando. Ele sentia que não seria uma coisa boa.

- É Luci, não pode dar errado, eu continuarei sendo sendo o rei do inferno, o soberano
superior de todos aqui, irei cria-lo e ensina-lo que sempre devera me respeitar, mas não
totalmente submisso. - Continuava falando sobre enquanto Zelnadar apenas revira os olhos
um pouco cansado da falação do jovem senhor.

E aquele cenário continuava a se repetir, quando Lúcifer não estava com o dragão, estava
no laboratório improvisado fazendo sua bela criação.

Totalmente semelhante a sua imagem, meio irônico não?

Passou meses fazendo, secretamente animado para a chegada do novo servo real,
pensando nas coisas que lhe ensinaria, o jeito que o mesmo seria.

Ate parecia que iria criar um filho. Sempre ria internamente quando se pegava pensando
nisso.

Faltava pouco para a "chegada" do novo ser, neste momento o jovem rei estava sentado
nas costas do grande dragão vermelho, enquanto sobrevoavam o céu vermelho de seu
vasto inferno.
As orelhas do dragão estavam doendo de tanto que seu senhor vinha falando sobre o novo
criado. Dizendo ironicamente que superaria seu pai em questão de criação.

- Criar do barro, que coisa ridícula! Barros não falam! Se jogar água neles derretem,
patético! - Ria escandaloso, fazendo Zelnadar reprimir um riso curto. Estava parecendo uma
criança.

Se aproximavam do castelo, quando ouviram gritos e protestos vindo do local.

- O que esta acontecendo? - Lúcifer questionou, enquanto o dragão voava diretamente para
o castelo.

Ao finalmente pousarem, foram correndo em direção a entrada da moradia, podendo ver


alguns criados do lado de fora segurando alguns objetos de vidro.

- Eu exijo que me expliquem o que todos fazem aqui fora. - Se aproximou de seus criados,
que lhe observavam com medo estampado nos olhos.

- S-senhor, e que t-tem uma c-coisa em seus aposentos. T-tentamos entrar e tira-lo de lá,
mas a coisa gritava alto, o chão do castelo tremeu, as coisas caíram, voavam coisas na
nossa direção_ - Foi interrompido pela risada alta de Lúcifer.

- INCOMPETENTES! Estão com medo de uma criaturinha? Façam me o favor! Venha


Zelnadar, pelo visto EU tenho que fazer tudo por aqui. Bando de inúteis. - Sua voz
engrossava enquanto caminhava para dentro do castelo, sua pele avermelhava, garras e
seus majestosos chifres apareciam.

Zelnadar respirou fundo, diminuindo de tamanho para poder entrar no castelo e seguir seu
senhor, que andava enfurecido ate seus aposentos.

Em frente a porta do quarto, o soberano levou a mão a maçaneta da porta a fim de abri-la.
Mas estava tao quente ao ponto de quase derrete-la e queimar a mão de qualquer um que
ousasse tentar abrir.

Revirou as orbes e com a paciência esgotada, chutou a porta que facilmente cedeu e foi ao
chão. Revelando o seu quarto, que agora estava um caos.

Seus quadros quebrados jogados no chão, a cama quebrada, alguns vasos quebrados.

E em cima da sua cama estava o causador de toda a confusão.

Ou melhor, a causadora.

- O que caralhos seria isso? - Andou lentamente ate a criatura que estava sentada sobre a
cama quebrada, olhando tudo ao redor.

Aos poucos foi tomando sua forma humana original, se aproximando mais da pequena
destruidora.
- Se me permite dizer senhor, acho que esta criatura é sua. - Zelnadar dizia irônico,
segurando toda a vontade de rir de seu senhor.

- Oras! Como assim minha? Eu não_ - Interrompeu a si mesmo ao lembrar de sua criação.
Pegou a criatura nos braços a erguendo para ficar a sua frente, afastada de si. - Não, não,
não,nao NÃO! Não é possível! Por que deste tamanho? Por que tão feia? E por que uma
menina? Era para ser um macho, um homem já formado, viril e.... Não isso! E pequeno,
frágil e muito feia! - A pequena criatura se agitou em seus braços, batendo palmas sorrindo
diretamente para o jovem.

- Oh meu senhor, o que pode ter dado errado? - Lucifron colocava a pata em frente ao
rosto, tentando disfarçar o riso que queria sair de sua boca. Ele sabia que nao daria certo.

- Eu não faço a mínima ideia! Inacreditável. - Segurava a pequena criatura pelo pé, a
deixando de cabeça para baixo. Ela apenas ria contente sem imaginar o odio que o jovem
rei estava sentindo. - Eu quero trocar! - Exclamou em protesto, quase rosnando para a
criatura que nao parava quieta, sempre rindo e se remexendo.

- Senhor, nao da para trocar assim, eu ja vi algo parecido na terra, eles chamam de criança.
Acho que o senhor se lembra disso.

- Sim eu me lembro e sei bem o que é uma criança, mas nao era para essa coisa ser assim!
- A colocou de qualquer jeito na sua cama novamente. - Eu exijo saber o que pode ter dado
errado! - Colocou as mãos na cintura, indignado. Olhou a criança em sua cama, que estava
alheia ao que acontecia, olhando novamente ao redor rindo alegremente de nada. Batia
palminhas, balbuciando palavras desconexas. - Essa coisa nem deve pensar por si mesma!
Como poderá ser minha serva assim? Me recuso a cuidar dessa... Dessa... miniatura! -
Começou a andar pelo quarto com as mãos na cabeça, se perguntando o que faria agora
com essa coisa no castelo. Poderia jogar as bestas infernais? Os leões a comeriam? Ou
deixar na porta de algum ser qualquer e deixa-lo fazer o que quisesse com a criaturinha.

-Meu senhor acho bom ver isso. - Zelnadar, interrompeu seus pensamentos. Revirou os
olhos e olhou para a cama, nao encontrando a pequena criatura lá.

Franziu o cenho confuso. - Mas, cade essa peste? - Olhou em volta procurando a criança,
logo a encontrando em cima de seu lustre no teto, se balançando animadamente. - SEU
PEQUENO DEMÔNIO TRAVESSO! DESÇA DO MEU LUSTRE! Meu lindo lustre de
diamantes, IRA QUEBRA-LO! - Brandou furioso, mas a pequena ao menos lhe deu ouvidos.
- Zelnadar como essa peste foi parar lá? Me ajude a tira-la do meu lindo lustre. - O dragão
apenas revirou os olhos e bateu a cauda sobre a pequena, que se desequilibrou e caiu
estrategicamente em cima do soberano. - Sua demoniazinha, se tivesse estragado meu
lustre pagaria com a sua vida! - Disse segurando a criança, que o olhava nos olhos sem
entender o que ele dizia.

Por um tempo, o grande soberano ficou analisando a pequena criatura em seu colo. Para si
era a coisinha mais feia que existia, tinha a pele escura quase cinza completamente lisa
sem nenhuma imperfeição, o rosto gordinho e as bochechas fartas coradas. Os olhos eram
totalmente negros, iguais aos seus, o cabelo grande batia nos ombros, ruivos enrolados
como se fossem raminhos de flores. As presinhas presentes em seu sorriso infantil.

A pequena nao entendia o que estava acontecendo, mas havia gostado do ser grande a sua
frente, o achou engraçado e muito lindo. Distraidamente, colocou as mãozinhas gordas
sobre os cabelo sedosos que caiam sobre o rosto do ser a sua frente. Tirando as mãos de
la, colocou sobre seu rosto marcado, sobre os olhos, boca, sombrancelha, nariz. Achava
engraçado as caretas que ele fazia, rindo animadamente, colocou as mãozinhas sobre a
blusa do mesmo. A pequena estava bastante animada, mal entendia o porque.

- Você é bem intrigante coisinha pequena. Irritante mas intrigante. - Ainda olhando o
pequeno rosto rechonchudo. Mal sentiu a quentura a cima de seu peitoral, se o dragão nao
tivesse o alertado.

- Senhor! A sua blusa.

Olhou para baixo depois de ter saido do seu transe, vendo que as mãos da pequena criança
estavam pegando fogo e sua camisa também.

Olhou espantado para a criança, e por pouco nao a jogou pela janela. - Sua demoniazinha!
Essa e minha camisa favorita. - A afastou de perto do seu corpo, novamente a colocando
sobre a cama. - Fica ai! Se subir no meu lustre caro novamente irei lhe jogar de comida
para os leões! - Dizia removendo a blusa, que agora estava com dois furos e marcas de
queimado.

Esse era apenas o começo da sua grande tormenta.

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