NUTRIÇÃO ESPORTIVA
AULA 2
Profª Gisele Farias
CONVERSA INICIAL
A liberação de energia armazenada na nossa “moeda energética”, o
trifosfato de adenosina (ATP) ocorre pelo rompimento de uma das três ligações
de fosfato da molécula através de uma reação de hidrólise, catalisada pela
enzima ATPase ou trifosfatase de adenosina, resultando na formação de
adenosina difosfato (ADP) e uma molécula de fosfato inorgânico. Se ocorrer
rompimento de uma das ligações de fosfato da molécula de ADP, também por
hidrólise, há liberação de uma molécula de monofosfato de adenosina (AMP) e
fosfato inorgânico. E, por fim, a hidrólise de AMP resulta na formação de uma
molécula de adenosina e fosfato inorgânico.
A quebra da molécula de ATP não requer oxigênio e gera energia de
forma rápida. No entanto, o corpo humano tem capacidade de armazenar entre
80 g e 100 g de ATP, o que fornece energia para aproximadamente 3 segundos
de contração muscular. Sendo assim, é necessário que as moléculas de ATP
sejam ressintetizadas dentro da célula durante as contrações musculares
provocadas pelo exercício físico na mesma proporção que são utilizadas.
Neste aula, discutiremos sobre as principais vias metabólicas para
produção de energia, via ressíntese de ATP e calor, utilizadas pelo músculo
esquelético para contração muscular:
1. metabolismo anaeróbio lático, incluindo fermentação e o ciclo de Cori;
2. metabolismo anaeróbio alático, considerando a via fosfagênica e a via da
mioquinase ou adenilato quinase; e
3. metabolismo aeróbio, onde estudaremos primeiramente o catabolismo
dos macronutrientes e então o ciclo do ácido cítrico e fosforilação
oxidativa.
As duas primeiras vias não utilizam oxigênio e são menos complexas, pois
possuem menor número de reações, o que as caracteriza como mais rápidas,
porém com menor quantidade de ATP reciclado. Por outro lado, o metabolismo
aeróbio ocorre com a presença de oxigênio e envolve várias reações, o que,
embora o torne mais lento para disponibilizar energia, ressintetiza ATP em maior
quantidade.
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TEMA 1 – METABOLISMO ANAERÓBIO
Conforme descrito anteriormente, o metabolismo anaeróbio compreende
as vias metabólicas que não precisam de oxigênio para liberar energia:
metabolismo anaeróbio lático e metabolismo anaeróbio alático, as quais serão
descritas a seguir.
1.1 Metabolismo anaeróbio lático
No item anterior, concluímos que a glicólise através de dez reações
sucessivas forma duas moléculas de piruvato. Por sua vez, a depender da
disponibilidade de oxigênio, o piruvato pode seguir dois destinos diferentes:
aeróbio ou anaeróbio. Neste tópico, abordaremos o destino anaeróbio do
piruvato.
Na ausência de oxigênio ou quando a demanda energética no músculo
esquelético está alta, como em exercícios físicos intensos, a molécula de NADH
resultante da oxidação de gliceraldeído-3-fosfato na reação 6 da glicólise não
pode ser reoxidada na cadeia transportadora de elétrons e, desta forma, para
que esta etapa, que é dependente do aceptor de elétrons NAD+, não seja
interrompida, a enzima lactato-desidrogenase capta o H+ do NADH. Isso resulta
na redução das duas moléculas de piruvato a duas moléculas de lactato,
regenerando a molécula de NAD+, processo também conhecido como
fermentação.
O piruvato pode ter destinos anabólicos, como no fornecimento do
esqueleto de carbono para síntese do aminoácido alanina ou síntese dos ácidos
graxos.
Uma observação importante é que a quebra do ATP gera como produtos
o fosfato inorgânico, ADP e H+. Este último, quando em excesso, pode reduzir o
pH e favorecer acidose local, que é um processo fisiológico que justifica a fadiga
muscular. No caso deste metabolismo anaeróbio lático, o lactato é transportado
da célula muscular para a corrente sanguínea pelo transportador
monocarboxilato e contransportado com H+, que auxilia na manutenção do pH
intramuscular.
O metabolismo anaeróbio lático é uma via metabólica importante durante
exercícios físicos intensos (acima de 80% da frequência cardíaca máxima ou
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consumo máximo de O2), uma vez que o músculo é capaz de produzir ATP com
uma velocidade superior à produzida pelo metabolismo aeróbio.
1.1.1 Ciclo de Cori
Este ciclo também é conhecido como ciclo da glicose-lactato. O lactato
produzido pelo metabolismo anaeróbio lático é transportado ao fígado, e na
presença de oxigênio este lactato é oxidado a piruvato e será convertido em
glicose via gliconeogênese. A depender da demanda metabólica, esta glicose
que foi ressintetizada poderá seguir dois destinos: utilizada pelo músculo ou
estocada como glicogênio.
1.2 Metabolismo anaeróbio alático
Existem duas vias metabólicas que não dependem de oxigênio para
acontecer e que formam ATP com apenas uma reação: fosfagênica e da
mioquinase ou adenilato quinase.
A via fosfagênica ou também conhecida como sistema ATP-CP trata-se
de uma via metabólica predominante dos exercícios físicos de curta duração
(entre 1 e 15 segundos) e de alta intensidade (acima de 90% da frequência
cardíaca máxima ou consumo máximo de O2) que utiliza a fosfocreatina
armazenada no músculo esquelético. É uma via que disponibiliza energia para
contração muscular de forma muito rápida, uma vez que, além de não precisar
de oxigênio, o substrato, que neste caso é a fosfocreatina, já está no músculo
esquelético, o que facilita a formação de ATP, já que esta molécula possui fosfato
na sua composição.
Porém, a baixa reserva de fosfocreatina é um fator limitante desta via,
visto que a fonte energética se esgota rapidamente, não sendo eficiente para
exercícios de longa duração.
Esta rota metabólica é catalisada pela enzima creatina quinase e possui
característica reversível, ou seja, durante a realização do exercício físico é
direcionada para formação do ATP e durante o repouso é direcionada para
ressíntese de fosfocreatina de forma diretamente proporcional ao tempo de
pausa. A seguir está a fórmula desta via metabólica e uma observação é que
devido ao consumo de próton, esta via metabólica tampona o meio
intramuscular, postergando a fadiga:
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ADP + PCr + H+ → ATP + Cr
A reação da via da mioquinase ou adenilato quinase utiliza duas
moléculas de ADP para formar ATP. Durante exercícios físicos de alta
intensidade e curta duração, há aumento de ADP e ativação da mioquinase, a
qual catalisa a transferência de fosfato entre as moléculas de ADP, o que gera
como produto 1 molécula de ATP e 1 molécula de AMP. Esta última segue a via
das purinas, onde é transformada em adenosina ou inosina monofosfato e,
posteriormente, em hipoxantina. A hipoxantina é transportada ao fígado onde é
convertida em ácido úrico.
TEMA 2 – BIOQUÍMICA DOS MICRONUTRIENTES E SUA IMPORTÂNCIA NO
EXERCÍCIO
Conforme descrito no capítulo anterior, os micronutrientes, que
compreendem as vitaminas e os minerais, são assim denominados por serem
constituídos por estruturas pequenas e serem necessários em pequenas
quantidades pelo organismo humano. Mas, mesmo em pequenas quantidades
são imprescindíveis na regulação de inúmeros processos bioquímicos
envolvidos com a fisiologia do exercício, conforme estudaremos na sequência.
As vitaminas são categorizadas de acordo com a sua solubilidade. Sendo
assim, as vitaminas solúveis em água fazem parte das vitaminas hidrossolúveis
e as vitaminas solúveis em gordura e armazenadas do tecido adiposo
compreendem as vitaminas lipossolúveis.
As vitaminas do complexo B (tiamina (vitamina B1), riboflavina (vitamina
B2), nicotinamida (vitamina B3), ácido pantotênico (vitamina B5), piridoxina
(vitamina B6), biotina (vitamina B7), ácido fólico (vitamina B9) e cobalamina
(vitamina B12) e vitamina C são as vitaminas hidrossolúveis e as vitaminas A, D,
E e K são as vitaminas lipossolúveis.
Os minerais são classificados de acordo com a necessidade do
organismo, ou seja, os necessários em quantidades superiores a 100 mg ao dia
são os macrominerais ou minerais principais (cálcio, cloreto, enxofre, fósforo,
magnésio, potássio e sódio) e aqueles que a necessidade é menor do que 100
mg ao dia são os microminerais ou oligoelementos (cobre, cromo, ferro, flúor,
iodo, selênio e zinco).
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Para servirem como fontes de energia, os macronutrientes precisam ser
metabolizados por reações bioquímicas, as quais serão descritas futuramente.
Estas reações dependem de micronutrientes para que aconteçam de forma
adequada.
2.1 Importância dos micronutrientes no exercício físico: vias metabólicas
As vitaminas hidrossolúveis atuam como coenzimas nas vias anabólicas,
como síntese de glicogênio e proteínas (vitaminas B3 e B6) e de ácidos graxos
(vitaminas B3 e B7), assim como nas vias catabólicas, como a via glicolítica
(vitaminas B1, B2, B3, B6 e B12), glicogenólise (vitamina B6), do catabolismo
dos aminoácidos (vitaminas B1 e B7), da beta oxidação (vitamina B7), da reação
de oxidação do piruvato e alfa-cetoglutarato no ciclo do ácido cítrico (vitaminas
B1, B2, B3 e B12), da gliconeogênese (vitamina B7) e do transporte de elétrons
na mitocôndria (vitaminas B2, B3 e B12).
As vitaminas B9 e B12 atuam na síntese de ácido desoxirribonucleico
(DNA) e na manutenção dos glóbulos vermelhos.
Adicionalmente, alguns minerais também atuam no metabolismo
energético, como o cromo; o ferro, que faz parte da formação da hemoglobina,
mioglobina, citocromos e enzimas que participam do transporte de elétrons na
mitocôndria; e o cobre, uma vez que é componente de enzimas que participam
do metabolismo do ferro e o magnésio que é cofator de diversas reações da via
glicolítica, e participa também do ciclo do ácido cítrico e da síntese proteica.
Além disso, o fósforo, a vitamina B5 e o enxofre fazem parte da estrutura
da molécula central do metabolismo energético, a acetil-coenzima A (acetil-
CoA).
2.2 Importância dos micronutrientes no exercício físico: contração
muscular, estresse oxidativo, imunidade e saúde óssea
O cálcio é um importante sinalizador celular que atua na regulação das
reações contráteis da actina e miosina e também é importante para transmissão
de impulsos nervosos musculares, assim como o sódio. Estes dois minerais,
juntamente com o potássio, o magnésio e a vitamina D, são os micronutrientes
que atuam na contração muscular. Além disso, a vitamina D influencia na
hipertrofia muscular, uma vez que influencia positivamente na secreção de
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testosterona e no recrutamento e tamanho das fibras musculares tipo II por inibir
a ação da miostatina.
Em virtude de exercícios físico intensos e prolongados favorecerem a
produção de espécies reativas de oxigênio e, em consequência, o estresse
oxidativo, deve-se atentar para um adequado suporte antioxidante ao atleta
estimulando as três principais enzimas antioxidantes: superóxido dismutase
(SOD), glutationa peroxidase (GPX) e catalase (CAT). O selênio e vitamina E
são importantes para ação da enzima glutationa peroxidase, e o zinco participa
da formação da enzima superóxido dismutase e as vitaminas A, C e E possuem
efeito protetor contra o estresse oxidativo.
Além de favorecer o estresse oxidativo, exercícios físicos em alto volume
podem comprometer o sistema imune e, neste sentido, deve-se priorizar a
adequação nutricional dos micronutrientes evolvidos com a função imune:
vitaminas A, C, D e E e zinco.
Com relação à saúde óssea os seguintes micronutrientes merecem
destaque: flúor por atuar na manutenção da estrutura óssea, vitamina C por
participar das reações de síntese de colágeno e a vitamina K por atuar no
metabolismo ósseo.
Vale ressaltar que a regulação do equilíbrio acidobásico pelo fósforo,
potássio, enxofre e sódio, bem como do balanço hídrico corporal pelo potássio e
sódio, são outras importantes funções dos micronutrientes no contexto do
exercício físico.
TEMA 3 – METABOLISMO AERÓBIO: CICLO DO ÁCIDO CÍTRICO E
FOSFORILAÇÃO OXIDATIVA
Até o momento, nós estudamos as vias catabólicas dos macronutrientes
até a formação de piruvato, no caso da via glicolítica, e acetil-CoA, no caso dos
aminoácidos e ácidos graxos.
Ao fim da via glicolítica, quando há disponibilidade de oxigênio, as duas
moléculas de piruvato são transportadas à mitocôndria, onde são oxidadas pela
piruvato desidrogenase, que possui como cofator os nutrientes: niacina, tiamina,
riboflavina, ácido lipoico e ácido pantotênico, e com a perda do seu grupo
carboxil na forma de CO2, forma uma molécula de NADH e uma molécula acetil-
CoA; ou são transformadas em oxaloacetato pela piruvato carboxilase.
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Na sequência, entenderemos as próximas etapas do metabolismo aeróbio
após catabolismo dos macronutrientes em acetil-CoA.
3.1 Ciclo do ácido cítrico
Esta via metabólica da matriz mitocondrial tem por objetivo final produzir
CO2 a partir das moléculas de acetil-CoA resultantes da glicólise ou catabolismo
dos aminoácidos ou beta oxidação, utilizando como recurso os transportadores
de elétrons NAD+ e ubiquinona.
É composta por oito reações conforme descrito a seguir.
• Reação 1: a enzima citrato sintase condensa a molécula de 2 carbonos,
a acetil-CoA com uma molécula de 4 carbonos, o oxalacetato, formando
o citrato ou ácido cítrico, que contém 6 carbonos.
• Reação 2: a enzima aconitase altera a posição da hidroxila de uma
molécula de água do citrato, formando o isocitrato.
• Reação 3: esta reação envolve duas etapas. Primeiro, há formação da
molécula oxalossuccinato pela oxidação do grupo hidroxil do isocitrato,
catalisada pela isocitrato desidrogenase. E, posteriormente, após
descarboxilação desta molécula intermediária que é estabilizada pelo
manganês, há formação do alfa-cetoglutarato e uma molécula de NADH.
• Reação 4: há formação de succinil-CoA e uma molécula de NADH pela
descarboxilação oxidativa catalisada pela alfacetoglutarato
desidrogenase, que tem como cofatores a tiamina, o ácido lipoico e o
NAD+.
• Reação 5: o succinil-CoA é convertido em succinato pela enzima succinil-
CoA sintetase. Nesta reação, há liberação de uma molécula de guanosina
trifosfato (GTP).
• Reação 6: o FAD+ capta duas moléculas de H+, reação chamada de
desidrogenação catalisada pela succinato desidrogenase, formando o
fumarato e liberando FADH2.
• Reação 7: a enzima fumarase adiciona um grupo hidroxila no fumarato
formando a molécula malato.
• Reação 8: a enzima malato desidrogenase utilizando NAD+ como cofator,
converte malato a oxalacetato e forma uma molécula de NADH. E então
o ciclo recomeça.
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Cada volta deste ciclo, ou seja, cada molécula de acetil-CoA oxidada, gera
como produto duas moléculas de CO2, três moléculas de NADH, uma molécula
de FADH2 e uma molécula de GTP. O CO2 segue para a corrente sanguínea por
difusão simples, onde será transportado para os pulmões pela hemoglobina e
então eliminado.
Embora este ciclo tenha característica catabólica, ele fornece precursores
para reações anabólicas, como o alfa-cetoglutarato e oxalacetato, que são
precursores dos aminoácidos glutamato e aspartato, respectivamente; o citrato
que pode participar da síntese de ácidos graxos e esteróis e a succinil-CoA pode
ser precursora da síntese do anel porfirínico dos grupos heme.
Além da ressíntese de ATP, há liberação de energia na forma de próton
por coenzimas transportadoras de elétrons: NAD+ e FAD+.
3.2 Fosforilação oxidativa
Na membrana interna da mitocôndria ocorre a transferência dos elétrons
transportados por NADH ou FADH2 em determinada sequência onde quando o
componente recebe um elétron do complexo anterior é oxidado, e assim que
transfere o elétron para o próximo complexo, é reduzido, de acordo com o
descrito a seguir:
NADH → Ubiquinona → Citocromo b → Citocromo c1 → Citocromo c →
Citocromo a → Citocromo a3 → O2
Após a transferência de elétrons por todo o complexo, quando o oxigênio
recebe o par de elétrons é reduzido à água e então, a energia que é liberada é
direcionada para formação do ATP, via fosforilação do ADP. Quando a coenzima
aceptora de elétrons é o NAD serão ressintetizadas 2,5 moléculas de ATP e
quando é o FAD serão ressintetizadas 1,5 moléculas de ATP.
TEMA 4 – AVALIAÇÃO CLÍNICA NUTRICIONAL: ANAMNESE
A revisão que realizamos até o momento dos conceitos dos substratos
energéticos, bem de como estes se transformam em energia para o movimento
durante o exercício físico, foram fundamentais para nos direcionar em itens
importantes na prescrição nutricional do praticante de atividade física ou atleta.
Mas, antes disso, precisamos entender quais são as etapas da avaliação do
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estado nutricional deste público que fornecerão subsídios para determinação do
requerimento energético e planejamento dietoterápico mais assertivo.
A avaliação nutricional deve considerar a interconexão entre todos os
sistemas corporais, bem como as suas interações com aspectos bioquímicos,
fisiológicos, emocionais e cognitivos.
Vale lembrar que o corpo humano é composto por aproximadamente 100
trilhões de células e, destas, 50 bilhões de renovam diariamente, a depender da
adequação de nutrientes e compostos bioativos. Tendo isso, e resgatando os
conceitos de bioquímica e fisiologia do exercício, devem ser investigados fatores
que interferem no metabolismo energético, no estresse oxidativo, na regulação
hormonal, na digestão e absorção de nutrientes, no sistema imunológico, no
suporte à destoxificação e biotransformação hepática, no processo inflamatório
e no equilíbrio psicológico e espiritual do indivíduo.
Com o objetivo de facilitar o fechamento do diagnóstico nutricional, é
importante que o nutricionista organize as informações que devem ser obtidas
durante a entrevista realizada na consulta na forma de um roteiro com itens que
são mais importantes para o público que está acompanhando. Este roteiro é
chamado de anamnese, que é um termo grego, anamnesis, que significa
recordar. Além disso, este instrumento é o primeiro elo de aproximação
profissional-paciente que pode contribuir com a construção de relação de
confiança.
A anamnese nutricional deve ser iniciada com dados pessoais, incluindo:
nome, data de nascimento, idade, escolaridade, profissão e dados para contato
como endereço, telefone e e-mail.
Na sequência, é importante designar uma parte deste roteiro para
inclusão de dados gerais: data da consulta; indicação; entendimento do motivo
que traz o paciente à consulta, o que inclui a queixa principal e seus objetivos;
modalidade esportiva e informações sobre o treino; e atividades diárias de rotina.
Vale ressaltar que, embora na maior parte das vezes um praticante de
atividade física ou atleta tenha como principal objetivo melhora do rendimento
esportivo, ele é um indivíduo que pode apresentar diferentes desequilíbrios
orgânicos, que indiretamente podem comprometer o seu desempenho físico.
Sendo assim, a terceira etapa da anamnese nutricional compreende a obtenção
dos dados clínicos, a qual considera a descrição detalhada da história mórbida
atual e pregressa, considerando, quando aplicado, a trajetória como atleta;
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história familiar; uso de medicamentos e suplementos; cirurgias prévias; bem
como informações referentes ao estilo de vida como etilismo, tabagismo e
qualidade do sono.
Também fazem parte da anamnese nutricional os tópicos que serão
abordados futuramente, como: exame físico, sinais e sintomas e avaliação do
consumo alimentar e bioquímica, que serão abordados ainda nesta aula; e
avaliação da composição corporal, diagnóstico nutricional e prescrição
nutricional que conversaremos em outra ocasião.
Após o levantamento das informações, para aqueles que não apresentam
nenhum desequilíbrio orgânico, o foco da conduta nutricional está no ajuste de
fatores de risco que o indivíduo esteja exposto para prevenção de possíveis
alterações orgânicas futuras.
TEMA 5 – AVALIAÇÃO CLÍNICA NUTRICIONAL: EXAME FÍSICO
A identificação de sinais que podem sugerir desequilíbrios positivos e/ou
negativos do consumo alimentar é realizada por meio do exame físico pelo
nutricionista. Além do relato do paciente, para este exame podem ser utilizadas
as técnicas de inspeção, palpação, percussão e ausculta. É indicado que esta
avaliação seja realizada em uma sequência progressiva que inicia pela
observação da aparência geral, incluindo avaliação do ânimo, de aspectos
depressivos, fraqueza, tipo físico, discursos e movimentos corporais e estado de
hidratação do indivíduo; e então observação da cabeça até os membros
inferiores e sistemas, conforme sugerido a seguir:
• COONG (cabeça, olhos, ouvidos, nariz e garganta/boca);
• membros;
• pele; e
• sistemas – cardiopulmonar, digestório, neurológico, neuromuscular e, em
mulheres, ginecológico.
5.1 COONG: cabeça, olhos, ouvidos, nariz e garganta
Em condições normais, os cabelos devem estar firmes no couro cabeludo
e apresentar brilho. No entanto, a deficiência e/ou excesso de determinados
nutrientes podem favorecer a manifestação de alguns sinais, conforme descrito
no quadro a seguir:
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Quadro 1 – Sinais de má nutrição e nutrientes envolvidos com a saúde dos
cabelos
Sinais de má nutrição Nutrientes envolvidos
Alopecia Deficiência:
Biotina, zinco
Excesso:
Selênio
Branco precocemente Deficiência:
Vitaminas: B5, B12
Crescimento lento Deficiência:
Manganês, ômega-6
Facilmente arrancável e sem dor Deficiência:
Biotina, cálcio, proteína, selênio, vitamina B5, zinco
Queda Deficiência:
Biotina, cálcio, cobre, zinco, vitaminas: B5, D
Excesso:
Selênio
Secos e quebradiços Deficiência:
Ácido linoleico, cobre, iodo, proteína, zinco, vitaminas: A, C
É importante salientar que causas não nutricionais podem prejudicar a
saúde capilar como: desordens endócrinas, excesso de arsênio e cádmio,
quimioterapia, radioterapia e tratamentos capilares excessivos.
A aparência normal dos olhos considera que as membranas devem estar
róseas e umedecidas, o que confere um aspecto brilhante, além de não
apresentar feridas nos epicantos, nem vasos proeminentes ou acúmulo de tecido
esclerótico. Dentre as causas não nutricionais relacionadas às manifestações de
sinais nos olhos, incluem-se a ingestão de álcool, alergias, anemias não
nutricionais, falta de sono, fumo, exposição ao tempo e rinite. No quadro a seguir,
estão descritos os principais sinais associados ao desequilíbrio nutricional:
Quadro 2 – Sinais de má nutrição e nutrientes envolvidos com a saúde dos olhos
Sinais de má nutrição Nutrientes envolvidos
Queimação, irritação, coceira Deficiência:
Biotina, vitaminas: B2, B6
Secos Deficiência:
Ômega 3, vitamina A
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Visão turva, fotofobia, areia Deficiência:
nos olhos, lacrimejamento, Vitamina B2
vermelhidão e aumento de
vasos nos olhos
Deficiência de visão noturna Deficiência:
Molibdênio, zinco, vitaminas: A, B2, C
Palidez na conjuntiva Deficiência:
Ferro
Nos ouvidos, a dificuldade de audição pode ocorrer por deficiência de
manganês, assim como o zumbido ininterrupto pode ocorrer em consequência à
deficiência de magnésio e/ou por resistência insulínica.
Na boca, o déficit de nutrientes pode comprometer o paladar (vitamina A
e zinco), predispor à halitose (vitamina B3), ao aparecimento de aftas (vitamina
B9), estomatite angular (biotina, ferro e vitaminas B2, B3 e B6), e/ou inflamação
e dor (vitamina C) e sangramento da gengiva (vitaminas C e K). Adicionalmente,
a aparência da língua também pode sugerir deficiência nutricional, como: pálida
e lisa com sintomas de ardência (biotina e vitamina B2); vermelha, lisa e dolorida
(ferro e vitaminas B2, B3, B6, B9 e B12), e esbranquiçada e com rachadura (ferro
e vitaminas A e B2). Além disso, a fragilidade dos dentes pode não ser
exclusivamente por falta de hábitos higiênicos ou doença periodontal, mas
também por deficiência de cálcio e vitamina C.
5.2 Membros
Seguindo a ordem sequencial do exame físico, chegamos nos sinais de
má nutrição que podem ser observados nos membros superiores e membros
inferiores.
A fraqueza ao fechar as mãos pode ser devido à deficiência de vitamina
B6.
As unhas devem ser fortes e róseas e o quadro a seguir descreve os sinais
físicos relacionados às alterações nutricionais nas unhas:
Quadro 3 – Sinais de má nutrição e nutrientes envolvidos com a saúde das unhas
Sinais de má nutrição Nutrientes envolvidos
Frágeis e quebradiças Deficiência:
Ácido linoleico, cálcio, complexo B, ferro, zinco
Excesso:
Selênio
Coiloníquia Deficiência:
Ferro
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Manchas brancas Deficiência:
Ferro, proteína, selênio, zinco
Linhas de Beau Deficiência:
Ferro, zinco
Com relação aos membros inferiores, o inchaço pode ser em
consequência do excesso de sódio, mas também por deficiência de magnésio,
potássio e vitamina B1. E, na presença de dor nas pernas, deve-se investigar o
status nutricional dos minerais cromo, ferro, zinco e das vitaminas A, B1, B3, B6,
B9 e B12.
5.3 Pele
A pele saudável deve estar sem erupções, edemas ou manchas. Vale
ressaltar que alterações na pele podem ser consequência de causas não
nutricionais, como: diabete melito e/ou dermatite não nutritiva e/ou erupção
cutânea, maus cuidados com a pele, efeitos colaterais de medicamentos,
alterações hormonais e envelhecimento. No quadro a seguir, estão listados os
principais sintomas na pele relacionados com distúrbios nutricionais:
Quadro 4 – Sinais de má nutrição e nutrientes envolvidos com a saúde da pele
Sinais de má nutrição Nutrientes envolvidos
Dermatite/urticária Deficiência:
Ácido graxos essenciais, cromo, manganês, vitamina B3, zinco
Excesso:
Cromo, selênio, vitamina A
Oleosidade Deficiência:
Biotina, vitaminas: A, B6
Acne Deficiência:
Selênio, zinco, vitaminas: A, C
Manchas roxas Deficiência:
Vitamina: C, K
Dificuldade de cicatrização Deficiência:
Ácido linoleico, proteína, zinco, vitaminas: B6, C, K
Descamação Deficiência:
Ácidos graxos essenciais, zinco, vitaminas: B2, B3
Excesso:
Vitamina A
Hiperqueratose folicular Deficiência:
Vitamina C
Petéquias Deficiência:
Vitamina B3
Xantomas Hiperlipidemia
Redução do tugor cutâneo Ingestão insuficiente de líquidos
Erupção cutânea Deficiência:
Vitaminas: B3, B6
Dermatite geral Deficiência:
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Complexo B
Aparência de papel celofane Deficiência:
Proteína
5.4 Sistemas: cardiopulmonar, digestório, neurológico e neuromuscular
Os praticantes de atividade física e/ou atletas podem apresentar diversos
sinais e sintomas relacionados com os sistemas cardiopulmonar, digestório,
neurológico e neuromuscular que podem ser consequência de distúrbios
nutricionais. Como já citado nos tópicos anteriores, deve-se excluir as causas
não nutricionais dos sintomas. O quadro a seguir resume os principais sintomas
decorrentes de desequilíbrios nutricionais nestes sistemas, bem como as
possíveis causas não nutricionais relacionadas:
Quadro 5 – Sinais de má nutrição, nutrientes envolvidos e causas não
nutricionais relacionadas com os sistemas: cardiopulmonar, digestório,
neurológico e neuromuscular
Sinais de má nutrição Nutrientes envolvidos Causas não nutricionais
Sistema Taquicardia Deficiência:
Cardiopulmonar Cálcio, ferro, magnésio,
molibdênio, potássio,
vitamina B1
Sistema Acloridria/Hipocloridria Deficiência:
Digestório Ferro, zinco
Diarreia Deficiência:
Vitaminas: B1, B3, B6,
B12, C
Excesso:
Cobre, ferro, magnésio,
zinco, vitamina C
Digestão lenta Deficiência:
Vitamina B12
Anorexia Deficiência: Excesso de alumínio,
Biotina, cobre, ferro, cádmio e chumbo
fósforo, magnésio,
molibdênio, proteína,
zinco, vitaminas: A, B1,
B3, B5, B6, B9, B12, C, D
Excesso:
Cálcio, sódio, vitaminas:
A, D
Náusea/enjoo Deficiência: Excesso de cádmio
Biotina, ferro, fósforo,
magnésio, manganês,
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molibdênio, vitaminas:
B3, B5, B12
Excesso:
Cálcio, cobre, magnésio,
zinco, vitaminas: A, D
Pica Deficiência:
Cobre, ferro, proteína,
zinco
Sistema Irritabilidade Deficiência: Excesso de chumbo e
Neurológico Cálcio, ferro, fósforo, cobre
magnésio, zinco,
vitaminas: B1, B3, B5,
B6, B12, C, D
Excesso:
Selênio, sódio, vanádio,
Vitamina A
Ansiedade/ Apreensão Deficiência: Excesso de chumbo e
Cromo, fósforo, leucina, vanádio
magnésio, triptofano,
vitaminas: B1, B3, D
Agitação/ Hiperatividade Deficiência:
Cálcio, carotenoides,
magnésio, zinco,
vitaminas: B1, B3, B6, C,
D
Excesso:
Sódio e vanádio
Suor noturno Deficiência: Calor
Vitamina B1 Alterações tireoide
Menopausa
Tonturas/Vertigens/Zonzeira Deficiência: Resistência à insulina
Ferro, magnésio, Hipotensão postural
vitaminas: B1, B2, B3,
B6, B12, E
Dor de cabeça sem Deficiência: Alergia alimentar
explicação Ferro, molibdênio, Desidratação
vitaminas: B1, B3, B5, Excesso de chumbo e
B6, B9, B12 cobre
Excesso:
Vitamina A
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Cansaço e fadiga Deficiência: Excesso de cádmio e
Ácido linoleico, chumbo
coenzima Q10, cobre,
cromo, complexo B,
enxofre, ferro, iodo,
potássio, vitamina C,
zinco
Excesso:
Selênio e vitamina A
Mialgia Deficiência: Excesso de cádmio,
Cálcio, complexo B, chumbo
fósforo, magnésio,
potássio, selênio,
vitamina C
Excesso:
Manganês
Formigamentos Deficiência:
Ácido linoleico, cálcio,
fósforo, magnésio,
ômega 3, potássio,
vitaminas: B1, B3, B5,
B6, B12
Contrações contínuas Deficiência:
Cálcio, magnésio
Tremores Deficiência:
Magnésio, sódio,
vitamina B3
Sistema Dor muscular sem Deficiência: Injúria
Neuromuscular explicação Vitamina D Desordens
Fraqueza sem explicação Deficiência: neuromusculares
Fósforo, magnésio, Excesso de chumbo
potássio, proteína, Treino
vitaminas: B1, B2, B5,
B6, B12, C, D
Dor indevida com pressão Deficiência:
esternal ou tibial Vitamina D
Câimbras musculares Deficiência: Excesso de chumbo
(tetania) Cálcio, ferro, magnésio,
potássio, vitaminas: B1,
B5, B6
Excesso:
Sódio
Miopatia Deficiência: Doença ou relacionado à
Vitamina E idade
Excesso: Aumento de cálcio sérico
Cálcio Medicamentos
Neuropatia periférica Deficiência: Toxicidade por alumínio
Cromo, vitaminas: B1,
B2, B6, B9, B12, E
Excesso:
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Vitamina B6
Ainda, em mulheres, deve-se dar atenção às características do ciclo
menstrual, uma vez que o sangramento excessivo fora do ciclo menstrual pode
ser devido à deficiência de vitamina K e manifestações exacerbadas da tensão
pré-menstrual podem ocorrer por deficiência de vitamina B6.
NA PRÁTICA
De forma prática, é mais coerente classificar o exercício como de baixa
ou de alta intensidade ao invés de aeróbico ou anaeróbico, uma vez que o
exercício físico utiliza cada via metabólica em menor ou maior quantidade a
depender do esforço e tempo de exercício realizado. Nesse sentido, em exercício
físico de alta intensidade (acima 90% de frequência cardíaca máxima e/ou
consumo de oxigênio máximo) e de duração máxima de vinte segundos, a
energia será predominantemente proveniente das reservas intramusculares de
ATP e fosfocreatina. E, após a utilização deste recurso energético inicial e
quando o exercício se prolonga por até três minutos, o metabolismo anaeróbio
lático é ativado, enquanto ocorre o reajuste no consumo de oxigênio. E passado
este tempo e, após o reestabelecimento dos níveis de oxigênio, e em exercícios
de longa duração e menor intensidade, o metabolismo aeróbio será o
predominante. Sendo assim, o metabolismo energético é um processo dinâmico,
onde todas as vias metabólicas agem simultaneamente, e o que muda é a
parcela de contribuição de cada uma delas, dependendo da intensidade da
duração do exercício físico.
FINALIZANDO
De forma fisiológica, para o organismo produzir a energia necessária para
realização das diversas funções metabólicas, é necessário a síntese de ATP, do
qual os macronutrientes são o substrato.
Em condições aeróbicas, para formação de ATP pela oxidação dos
macronutrientes são necessárias três etapas: na primeira cada macronutriente é
degradado à acetil-CoA. Na segunda etapa, as moléculas de acetil-CoA entram
no ciclo do ácido cítrico, onde, além da produção de dióxido de carbono, as
coenzimas NAD+ e FAD+ são reduzidas a NADH e FADH2 respectivamente e
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transportam íons H+ para a fosforilação oxidativa e, então, ocorre a ressíntese
de ATP.
Para formação de energia proveniente da oxidação de glicose em
condições anaeróbicas são necessárias duas etapas: na primeira a glicose é
degradada a piruvato pela glicólise. Na sequência, as duas moléculas de piruvato
são fermentadas a lactato.
E, por fim, a formação de ATP pode ser realizada com apenas 1 etapa por
duas vias metabólicas que não dependem de oxigênio para acontecer via
fosfagênica e da mioquinase ou adenilato quinase.
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