Para minha mãe, que sempre me apoia em minhas jornadas.
Obrigado por estar comigo nessa.
Quando ela sai do mercado, percebe o quão tarde está. Coloca todas as
sacolas em uma mão para poder pegar o celular e checar o horário. Já são
quase 20 horas. A rua está pouco movimentada, e o clima está abafado.
Ela aperta o passo para chegar rápido em casa, o cabelo solto grudando em
sua pele. Duas quadras depois, entra no condomínio e dá boa noite para o
seu Jorge, na portaria. Passa pelo parquinho vazio e nota que o
estacionamento está relativamente vazio. Passa por dois prédios até chegar
no seu, abrindo a porta com certo esforço. Normalmente não pegaria o
elevador, mas as sacolas estão muito pesadas.
Assim que as portas se fecham, sente seu celular vibrando no bolso e
ignora. O leve enjoo que sempre sente nesse elevador revira seu estômago.
O elevador para com um tranco e as portas se abrem para o corredor escuro.
Ela fica paralisada onde está, o celular ainda vibrando. No final do corredor,
consegue ver uma figura humana em pé, a encarando com olhos brilhantes.
Solta as sacolas da mão direita no chão e aperta o botão para que as portas
se fechem, mas elas continuam abertas. Desvia o olhar para o painel do
elevador e percebe que apertou o botão errado. Olha para fora novamente e
não tem mais nada no corredor.
- Não posso estar com tanto sono assim.. . - sussurra após um breve
momento de pânico, se abaixando para pegar as sacolas.
Antes de sair do elevador, olha fixamente para o fim do corredor e vê
apenas a janela fechada.
Ao sair, as luzes se acendem com um leve "click". Chegando na frente da
porta, solta novamente as sacolas para pegar a chave. Ao levantar, sente
uma respiração próxima do seu ouvido, como se tivesse alguém atrás dela.
É uma respiração pesada, como se bufasse. Ela solta um grito abafado,
derrubando o restante das sacolas e se virando rapidamente. Não tem nada.
Se apoia contra a porta, olhando em volta.
- Mas que porra??
O celular volta a vibrar em seu bolso, dessa vez ela o pega. Aquelas merdas
de chamada de números desconhecidos. Mas tem uma chamada perdida do
seu cliente. Ela assente e guarda o celular no bolso.
Ao entrar no apartamento e colocar as sacolas na bancada da cozinha, corre
para o escritório enviar o e-mail com a proposta antes que perca mais um
cliente.
- Ser freelancer é divertido, eles disseram - diz ela, suspirando.
Ouve barulhos de chuva batendo contra a janela e abre um pouco as
persianas para ver como está lá fora.
- Por isso estava tão abafado.
Bloqueia o computador e levanta, se espreguiçando. Apaga a luz ao sair do
escritório, fechando a porta.
A imagem da silhueta no corredor lhe volta a mente, causando arrepios e
uma sensação estranha na boca do estômago.
Não era nada, pensa ela, tentando afastar a imagem da mente, em vão.
Liga a televisão para lhe fazer companhia enquanto guarda as compras e
prepara algo (miojo com maionese, de novo) para comer.
Ao sentar no sofá para comer, tira os tênis e abre os botões da calça,
relaxando. A chuva está ficando mais forte, batendo violentamente contra a
janela da sala, ao seu lado.
Quando termina de comer, se levanta para levar o prato na pia. Ao passar
pelo corredor, percebe a mesma silhueta, dessa vez na frente da porta do
seu quarto. Como agora está mais perto e mais claro, percebe mais detalhes
enquanto está paralisada com o prato inclinado entre as mãos, derrubando
caldo no carpete.
É uma sombra alta, com a cabeça praticamente encostando no teto. Olhos
brilhantes a encaram, com um sorriso enorme no rosto, dentes afiados como
os de um lobo. Parece estar se formando da escuridão, como uma fumaça
preta. Incapaz de compreender, ela apenas o olha fixamente. Ficam se
observando dessa forma por alguns segundos, até que ele desfaz o sorriso
lentamente e diz, sem mexer a boca:
- Ooooo - sua voz é rouca e grave, ecoando pelo corredor. Parece um
ronco, como se tivesse tentando falar algo mas não conseguisse. Ele se
aproxima lentamente, sem se mexer, como se flutuasse, até que o torpor do
momento se esvai.
O prato cai no carpete, balançando algumas vezes em meio ao caldo
amarelado. Ela se vira e corre até a porta do apartamento, saindo
rapidamente e trancando a porta, deixando a chave na fechadura. Recua
alguns passos, sem tirar os olhos da porta.
Um grito se forma em sua garganta mas ela o segura, fechando os botões da
calça e procurando pelo celular nos bolsos, não o encontrando. Tá no sofá ,
pensa, aterrorizada.
Ainda olhando para a porta, pensa no que fazer. Chamar o porteiro? A
polícia? E dizer o que? Tem alguém na minha casa? Absorta em
pensamentos ansiosos, duas fortes batidas na porta a despertam. Mais duas.
A porta estremece. O trinco se mexe para cima e para baixo.
Ele está tentando sair. Mais batidas. Um trovão. Com os olhos arregalados,
recua da porta sem tirar os olhos dela, em direção ao elevador.
Outro trovão, ainda mais alto. Sente o chão tremer. As luzes falham por um
momento.
- CARALHO - ouve algum vizinho gritar, frustrado.
Parada no meio do corredor, pensa no que deveria fazer. O trinco está
parado e não dá pra ouvir nada além do barulho da chuva. Em passos lentos
e receosos, decide voltar para o apartamento para pelo menos pegar o
celular.
Destranca a porta e gira a maçaneta devagar, empurrando a porta.
Entra lentamente, deixando a porta aberta. Olhando ao redor, nem sinal da
sombra ou da silhueta. Respira fundo, tentando controlar os batimentos
acelerados que martelam seu peito. As têmporas doem e sente seus olhos
lacrimejarem. Suas pernas estão tremendo e sua respiração está pesada e
rápida. O medo está a invadindo e sente que está perdendo o controle.
As portas do lado de dentro continuam fechadas, mas a janela ao lado do
sofá está quebrada bem no centro, com pedaços de vidro pendurado nas
beiradas e vários cacos pelo chão e pelo sofá. As cortinas voam com a força
do vento, batendo nas paredes e na estante. Uma enorme poça está se
formando no carpete em frente a janela conforme a chuva entra em rajadas
fortes.
Como que despertada do seu estado de torpor, ela olha para os estragos que
a chuva está fazendo e corre até a lavanderia, pegando dois sacos de lixo
grandes e os colando na moldura da janela com alguns pedaços de fita. Os
sacos inflam com o vento e a chuva, mas resistem. O sofá e a estante estão
úmidos com respingos de água, mas aparentemente nada foi danificado
além do vidro.
Pega o celular do braço do sofá, são 20:48hrs. Percebe que ainda está
tremendo. Muito.
Voltando a pensar no que viu, vasculha o apartamento de cômodo em
cômodo. Nada.
Pensando que seria impossível a chuva quebrar a janela do oitavo andar
daquela maneira, conclui que só pode ter sido aquilo que fez isso. Mas
porque? Estaria com raiva? Frustrado? Ou teria se assustado com algo?
Um trovão faz tudo tremer enquanto ela pensa no que deve fazer.
Sente seu celular vibrando em sua mão. É Thayná. Chamada de vídeo.
Atende ainda no primeiro toque e sua amiga começa a falar rápido, se
atropelando, empolgada como sempre. Está deitada na cama, mal
aparecendo na tela escura.
- Amiga, você não vai acreditar!!! Ela me chamou pra… Amiga? - sua
expressão muda, o sorriso largo dando lugar a uma cara de preocupada - Tá
tudo bem? Você tá meio…
- Tá, claro. Tá tudo bem sim. Eu só… - sua voz falha por um momento -
Eu só me assustei com um trovão. Parece que balançou o prédio todo.
- Você e seu medo de chuvas - a amiga ri - Você mora em prédio, não tem
nada com que se preocupar com isso. Enfim, tu acredita que ela finalmente
me chamou pra sair?
Encarando os sacos de lixo inflando com os ventos, demora a absorver a
última parte.
- Sério!? - faz o melhor para parecer interessada ao invés de aterrorizada. -
O que deu nela?
- Eu não sei! E o melhor, é pra gente ir naquele café incrível que eu fui com
você mês passado, lembra? Puts, já tava com saudade daquele lugar.
Amiga?
Leva um susto, distraída.
- É, eu… Eu tô ouvindo - tenta disfarçar com uma risada - É só que eu tô
bem cansada, desculpa - sente uma pequena onda de ânimo por conversar
com a amiga, pelo menos não tá tão sozinha assim - A Amanda é tão o que?
Você tá caidinha por ela né?
- Idiota - protesta, rindo - É, eu tô sim. Que ódio.
- Eu, eu… - gaguejou, sentindo as mãos tremendo - Mas você tem certeza
que é uma boa ideia já sair com outra pessoa? Teu ex te fez tão que...
- É, eu achei que fosse ficar um tempo quieta depois de tudo que passei
com ele. Mas eu acho que com ela eu estou segura, sabe?
- Você merece estar na companhia de alguém que te faz bem, e se a
Amanda é essa pessoa, você precisa tentar, sabe? Vai te fazer bem.
- Você não acha que tá cedo demais, então?
- Acho, mas... - a chuva está diminuindo rapidamente, e o vento para de
forçar os sacos de lixo - Acho que vai te ajudar a superar ele de vez.
- Se você diz… - ela diz, em meio a um bocejo - Você é a melhor, sabia?
Eu precisava contar isso pra alguém se não ia explodir, você me conhece.
Mas eu tenho que ir dormir agora, trabalhei demais hoje e tô exausta.
- Tudo bem amiga, vai lá, depois a gente se fala - responde, alheia.
Ao desligar, vai até a cozinha e pega uma garrafinha de água da geladeira.
Ao tomar, ainda tremendo, derruba um pouco de água na camisa. Coloca a
garrafa na bancada e estica os dedos, em seguida fechando em um punho
apertado. Sente as unhas pressionando a palma da mão. Um pouco de
sangue escorre por entre seus dedos conforme ela aperta ainda mais. De
olhos fechados, no meio da cozinha, sente sua respiração se acalmando e
seus batimentos diminuindo o ritmo. Abre os olhos lentamente e vai até o
banheiro lavar o rosto.
Entra, acendendo a luz e se olhando no espelho, apoiada na pia. Está com
marcas de lágrimas em suas bochechas, a pele está pálida e as pupilas
dilatadas, os olhos marejados.
Olha para suas mãos, com marcas das unhas nas palmas, com leves cortes.
Lava com um pouco de sabão líquido, o que arde. Enche as mãos de água e
lava o rosto lentamente e vai até o quarto, se deitando na cama, em cima das
cobertas.
Encara o teto por alguns minutos, até que acaba pegando no sono, sem
perceber.
Algumas horas depois, ela acorda com a bexiga cheia, e se levanta
cambaleando em direção ao banheiro. A porta do quarto ficou aberta e
apenas a luz da sala está acesa.
Mas, ao sair do quarto, consegue perceber que um canto do corredor está
escuro e ao se aproximar, vê que os olhos vermelhos estão ali, a encarando.
Ela recua aturdida e dá com as costas na parede, pisando no próprio pé. A
sombra aumenta e a escuridão começa a se espalhar lentamente em sua
direção. Já não consegue ver a luz da sala mais, apenas a sombra.
A lâmpada do corredor estoura, soltando algumas faíscas no chão.
Dessa vez o grito que se forma em sua garganta consegue sair, a assustando
ainda mais.
Gritar faz parecer mais real. Paralisada contra a parede, conforme os olhos
vão se acostumando com a escuridão consegue ver a forma ficando maior,
atingindo o teto. Os olhos estão cada vez mais brilhantes, com uma
expressão furiosa. Consegue ouvir aquilo… Ele… fazendo sons graves e
baixos, como um rosnado. Ele não se mexe, mas parece cada vez mais
perto.
Sente suas pernas falhando e o coração acelera cada vez mais em seu peito,
parecendo que vai explodir. Consegue sentir o suor escorrendo em sua testa
e suas mãos úmidas pressionadas na parede. Sua visão começa a ficar turva
e embaçada, com os olhos lacrimejando. Ela está se encolhendo para longe
dele, mas não tem para onde ir. Sente o estômago se revirando e um forte
enjoo, lhe causando ânsia de vômito. As pernas tremem violentamente, mal
a sustentando.
Está com os olhos arregalados e as pupilas dilatadas por causa da escuridão,
sem piscar. Uma onda de adrenalina a faz ter vontade de correr dali o mais
rápido possível. Mas o pânico que sente é tão grande que sequer consegue
se mover. Mal respira.
Sente seus sentidos começaram a ficar confusos, a visão embaçada e uma
tontura fazendo tudo ficar turvo a sua volta. Ela desmaia, escorregando na
parede até o chão.
Agora ela está no box do banheiro, sentada contra a parede. O chuveiro está
ligado e suas roupas estão grudadas no corpo, encharcadas. Os pés
pressionados contra o vidro do box, que está entreaberto. A luz do banheiro
está apagada, mas como a porta está aberta, uma luz fraca e amarelada
ilumina suavemente o banheiro em meio ao vapor.
Se levanta lentamente, está com uma sensação horrível como se o ambiente
estivesse se fechando ao seu redor, esmagando-a. Seu corpo está pesado e é
difícil se equilibrar no piso escorregadio enquanto tenta sair do box sem
sequer desligar o chuveiro.
Em contraste com seu corpo, sua mente está área, distraída. Ao sair do box
andando devagar para não escorregar, ouve uma batida leve no espelho ao
seu lado e se vira para olhar.
No espelho, embranquecido pelo vapor, está a marca da palma de uma mão,
com gotas de água escorrendo sobre ela.
Atrás de si, sente uma presença e uma respiração em seu ouvido, arrepiando
a pele e a paralisando. A presença se move e ela consegue ver “ele” pela
visão periférica, encoberto em sombras e fumaça negra, mal conseguindo
distinguir sua forma.
A sensação esmagadora fica ainda mais forte e fica difícil respirar. O peso
em seu corpo aumenta e pode jurar que está sendo esmagada.
- Eeeeee - diz uma voz densa e grave, que parece arranhar a garganta ao
sair.
Em meio a água em sua pele, consegue sentir lágrimas escorrendo e a visão
ficando turva.
O coração acelera e ela começa a sufocar, sentindo um aperto em sua
garganta.
- Eeeeee - ele repete .
O aperto em sua garganta aumenta ainda mais e ela já não consegue
respirar. Sente os pulmões arfando por ar enquanto o coração parece querer
sair do peito e as veias em todo o seu corpo pulsam desesperadas. Tudo fica
escuro.
Acorda com um sobressalto, deitada na cama. Todas as luzes estão acesas.
Ela está encharcada, e a cama também. O edredom está pesado em cima
dela, molhado.
Uma dor pulsante em seu pescoço a alerta de que estava sonhando, mas que
o sonho foi real de alguma forma. Fecha os olhos com força e cobre o rosto
com as mãos abertas.
- Não - sussurra - Não, não, não, não...
Ao abrir os olhos, tudo está normal. Ela se levanta devagar, aturdida, e vai
até o banheiro. Ao entrar, repara no espelho mas não vê nada além de seu
próprio reflexo, pálido e descabelado, com profundas olheiras.
Lava o rosto rapidamente, na tentativa de se livrar das imagens do sonho.
Ao levantar a cabeça, o espelho está embaçado de vapor e a marca da mão
está ali, como um lembrete.
Alarmada, lava o rosto mais uma vez, esfregando com mais força. Não tem
mais nada no espelho quando termina.
Em passos lentos, caminha até a cozinha enquanto massageia a têmpora. O
sol está nascendo e a luz alaranjada invade o ambiente pela janela. Preciso
de um café , pensa. Deve ser tudo coisa da minha cabeça. Foi só um sonho.
Assim que coloca a xícara na máquina e aperta o botão de ligar, uma
pontada no cérebro quase a derruba. Sente o cômodo girar ao seu redor
enquanto o barulho da máquina trabalhando a mantém ancorada. Depois de
alguns segundos, a dor passa e ela se recompõe, pegando a xícara de café e
indo se sentar no sofá.
Toma um gole da bebida, que arranha sua garganta ao descer de tão quente.
O que está acontecendo comigo? pensa, derrotada.
Arruma as coisas para tomar um banho e organizar os pensamentos.
Sempre funciona. Né?
Durante o banho quente, sente o cansaço pesar seus olhos. Pensa que
deveria dormir de novo, tentar descansar durante o dia.
Saí do banheiro enrolada na toalha com os cabelos em uma toalha de rosto.
Enquanto seca o cabelo com o secador em temperatura média, sente o
estômago roncar.
Assim que termina o cabelo, veste uma das confortáveis roupas de ficar em
casa, mas fica descalça, e prepara ovos mexidos para comer com um copo
de suco. Decide comer no escritório e aproveitar para pelo menos tentar
organizar sua agenda. Pelos próximos dois dias não tem que entregar nada,
então fica um pouco mais tranquila. Come o café da manhã olhando para o
céu cinza através da janela e pensa em ligar para o síndico para se informar
sobre os reparos na janela da sala. Mais essa agora, como se eu estivesse
nadando em dinheiro.
Termina o café e lava a louça que estava na pia. Coloca uma música pra
tocar na caixa de som da mesinha de cabeceira e se deita novamente, se
enrolando no edredom.
Quando está quase pegando no sono, o celular toca. É Thayná.
- Oi amiga, desculpa te pedir isso tão do nada, mas acha que consegue ficar
com a Agatha pra mim por uns dias? Eu levo ela aí com tudo que precisa.
Eu vou precisar fazer uma viagem pro Norte pela empresa pra ajudar em
uns eventos e minha mãe tá trabalhando, não pode ficar com ela e ela já tá
acostumada a ficar contigo. Por favooor?
Thayná sendo Thayná, falando rápido e direto, quase se atropelando nas
palavras.
- Claro, adoro a Agatha. Vou gostar da companhia.
- Você é foda! Posso te levar ela daqui uma meia hora?
- Claro, te espero.
- Puts, valeu! Até mais.
- Até… - ela já tinha desligado, acelerada como sempre.
Continua deitada na cama, olhando pro teto e distraída pela música.
Pensa no vaso que a Agatha quebrou da última vez que cuidou dela e no
susto que ambas levaram. Sorrindo com a lembrança, se levanta.
Assim que Thayná chega com a gata nos braços e a mochila cheia nas
costas, arrumam juntas o cantinho para a gata no quarto. A manta no chão
entre a cama e a parede, seus brinquedos espalhados pelo chão, as tigelas de
comida e água na cozinha e o tapete higiênico na lavanderia. A gata mia
para elas do sofá, aparentemente satisfeita com as acomodações.
O tempo todo Thayná falava sobre como seria incrível a viagem e em todas
as horas extras que ia receber.
- Quando você vai?
- Meu voo é amanhã de manhã, tenho que organizar algumas coisas e fazer
a mala ainda hoje.
- Que massa, aproveite a classe econômica por mim hein?
- Pode deixar - elas se abraçam e Thayná se despede de Agatha com
beijos, apertos e reclamações da gata - Tchau gente, se divirtam! - diz ao
sair.
- Somos só nós duas então, hein?
A gata mia em resposta e se espreguiça no sofá.
- Eu vou dormir, você vai ficar por aí?
Como a gata a ignora, volta para o quarto e se deita de novo. Pega no sono
depressa. Um sono tranquilo e sem sonhos dessa vez.
Acorda com um pulo quando a gata toca em seu rosto com a pata, soltando
um miado fraco.
- Oi? - diz para a gata, sonolenta.
A gata mia em protesto e pula da cama, indo em direção a lavanderia.
- Que droga - murmura, se levantando para seguir a gata.
Na lavanderia, a gata estava sentada pacientemente do lado do seu pote de
ração, a encarando com olhos questionadores.
- Desculpe - diz, ao perceber o pote quase vazio com alguns grãos de ração
nas bordas da tigela - mas você podia ter terminado de comer antes de me
acordar hein?
Ao buscar o pacote de ração, sente seu próprio estômago roncar. Ao encher
o pote da gata e receber um carinho no tornozelo em resposta, volta para o
quarto para buscar o celular. São 22:40 e tem uma notificação da Thayná,
uma foto dela no quarto de hotel escrito “saudades das minhas garotas”.
Deixando para responder depois, vai até a cozinha pegar algo pra comer.
Se senta na mesa da cozinha com uma tigela de sucrilhos e olha para a gata
comendo devagar.
Sente um arrepio lhe percorrer as costas e olha rapidamente para trás, não
vendo nada além dos armários da cozinha. Começa a sentir muito frio e
esfrega os braços, percebendo o vapor saindo de sua boca. A gata anda
lentamente em sua direção, olhando para a porta.
Ela se vira em direção a porta, mas não vê nada na sala.
Ouve passos pesados e apressados no corredor, em direção ao quarto.
Levanta rapidamente da cadeira, assustando a gata que mia em protesto.
Corre até a gaveta e pega uma faca, que deixa em sua mão direita enquanto
avança até a porta.
Antes de sair da cozinha, pega o celular e liga a câmera, gravando um
vídeo, sem saber muito bem o motivo. Com passos lentos, vai até o corredor
com a gata logo atrás.
Ele está lá. No seu quarto, do lado da cama, parecendo encarar as cobertas
bagunçadas.
Olha fixamente para a tela do celular, garantindo que esteja filmando isso.
Ele não está aparecendo no vídeo. É claro que não. Olhando novamente
para o quarto, percebe que agora ele a está encarando com seus olhos
brilhantes.
Sente um embrulho no estômago e o coração se acelerando. Levanta a faca
e diz, com a voz falhando:
- O… o que você quer de… de mim?
Ele vira a cabeça para o lado lentamente e parece a olhar de cima a baixo.
- S… sai da minha casa! - ordena, com a voz um pouco mais firme, ainda
parada no mesmo lugar.
Ele sequer se move, e continua encarando. A gata dá alguns passos à frente,
com os pelos eriçados e emitindo um leve barulho de algo arranhando, com
o rabo erguido.
Ele acompanha a gata com o olhar enquanto ela caminha lentamente em
direção ao quarto.
De repente, a gata para e vira para olhar pra trás. Olhando novamente para a
frente, avança em direção a ele, que rapidamente se desfaz em uma nuvem
de sombras. As luzes todas piscam algumas vezes, e a gata é jogada
violentamente contra a parede, emitindo um miado de dor, alto e forte.
Ela larga a faca e o celular no chão e corre até o quarto, recolhendo a gata
em seus braços.
- Você tá bem? - pergunta, baixinho, assustada.
A gata a encara nos olhos em resposta e começa a ronronar baixinho,
lambendo e mordiscando os dedos que acariciam suavemente seu rosto.
Tremendo, ela se levanta, ainda com a gata no colo e caminha até a sala,
recolhendo o celular no caminho. Ao se sentar no sofá, a gata sai de seus
braços e se enrola em seu colo. Que filho da puta , pensa.
Aperta o botão para encerrar o vídeo e imediatamente começa a assistir a
gravação.
Nela, ele realmente não aparece, porém tem um leve tremeluzir na imagem
no lugar onde ele estava. Quando ele desaparece com o avanço da gata, um
chiado alto e grave é emitido. Assim que a gata é arremessada e o celular
cai, o chiado fica ainda mais alto e depois mais baixo até sumir. Como se
ele tivesse passado andando pelo celular caído.
- Eu vou acabar com esse filho da puta - diz, determinada, preenchida por
uma raiva impulsiva.
A gata parece miar em concordância, baixinho. Acariciando a gata, diz
baixinho:
- Obrigada por me defender, você é minha heroína.
Ronronando em resposta, a gata se enrola ainda mais em seu colo.
Não devia ter dormido tanto, ficar acordada agora a noite vai ser foda.
Ouve um barulho vindo do banheiro, como se algo tivesse batido contra a
parede do box.
No susto, derruba o celular no chão e olha fixamente para a porta do
banheiro, que está fechada. A gata sai lentamente de seu colo e dá algumas
voltas no sofá, indiferente.
Se abaixa para pegar o celular e ouve duas outras pancadas, dessa vez
contra a porta do banheiro. Em passos lentos, segue até a porta em
movimentos praticamente involuntários, como se estivesse atraída até lá.
No meio do caminho, para e olha ao redor, não vendo nada. Percebe que
está apertando demais o celular na palma da mão e os cortes em sua palma
ardem um pouco, a trazendo de volta a realidade.
Mesmo estando suando frio e terrivelmente aterrorizada, seu coração está
calmo e não tem nenhum sinal do pânico que esteve anteriormente. Sequer
está tremendo. Estranho.
Continua indo até a porta, decidida. Eu tenho que enfrentar isso, se não ele
não vai parar.
Para ao girar a maçaneta e respira fundo antes de abrir rapidamente a porta
e apertar o interruptor para acender a luz. Não tem nada de diferente, mas o
ambiente está mais frio que o resto da casa. Bem mais frio. Ao respirar,
vapor sai de sua boca. Hesitante, dá dois passos para dentro do banheiro,
parando em frente ao espelho.
Um barulho dentro do box fechado a assusta novamente, e ela se vira
rapidamente para olhar.
O shampoo está caído no chão, com a tampa quebrada, vazando o líquido
viscoso lentamente. Merda. Abre o box devagar e entra, levantando o
shampoo e o deixando apoiado na parede, removendo a tampa quebrada. Ao
se virar para sair do box, a porta do banheiro se fecha violentamente com
um estrondo. Recua assustada e escorrega com os pés descalços no
shampoo derrubado, caindo no chão e batendo a cabeça com força na
parede.
Enquanto leva a mão à cabeça para acariciar o local da batida, lacrimejando
pela dor, a luz pisca algumas vezes, rapidamente. Mais vapor saindo de sua
boca à medida que sua respiração acelera.
Não vê nada no banheiro, mas de alguma forma sabe que ele está ali, sente
que não está sozinha. Apoia as mãos no chão para se levantar, mas sente um
aperto terrivelmente forte em sua garganta, a sufocando. Tenta emitir um
grito e alcançar o celular, mas ao chegar perto dele, o aparelho é atirado
pelo banheiro, atingindo a parede com força e caindo com a tela quebrada
virada para cima.
Passa rapidamente os braços ao redor, mas não tem nada ali. Tenta se
levantar, mas está sendo empurrada em direção ao chão como se alguém
muito forte estivesse em cima de seu corpo, a pressionando com força,
embora não sinta nada além do aperto em seu pescoço, como se mãos
grandes a estivessem enforcando. Sente seus batimentos aceleraram
rapidamente e a visão fica turva pelas lágrimas. Desesperada, olha ao redor
em busca de algo, mas não tem nada além do shampoo ao seu lado. A
pressão em seu pescoço começa a ficar mais fraca, até que para. Lutando
para respirar, tenta novamente se levantar para correr. Ainda não
consegue, então tenta gritar, mas nada sai de sua garganta ferida além de um
grito baixo e quase inaudível.
Sente a pressão das mãos agora em seus ombros e é jogada com violência
contra a parede, repetidas vezes. Sente cada pancada em seu crânio com
uma onda de dor, a deixando tonta e sem ação. Quando está quase perdendo
a consciência, os empurrões param. A luz fica oscilando, deixando o
banheiro cada vez mais escuro. Como se a quilômetros de distância,
consegue ouvir a gata arranhando a porta, mas não sente nada. Nem medo,
nem pavor. Só a dor lancinante na cabeça e na garganta.
Sentada como se jogada no chão do banheiro, com as costas e a cabeça
praticamente inerte apoiada na parede e os braços estendidos ao seu lado.
As pernas estão praticamente fora do box, com os pés saindo pela porta
aberta. Conforme o banheiro vai ficando mais escuro, consegue ver em sua
frente uma sombra se formando, como se feita de fumaça, vinda de lugar
nenhum. Primeiro um tronco grande e largo, depois o pescoço, os braços e
as pernas. Os braços são longos e passam da metade das pernas, com o que
parecem ser unhas muito compridas nas mãos. As pernas terminam logo
abaixo de onde estariam o joelho, a fumaça negra se esvaindo aos poucos
até não restar mais nada. A cabeça começa a se formar rapidamente, com os
olhos vermelhos e brilhantes a encarando. Na fraca luz que agora restou,
consegue perceber que a forma quase humana em sua frente, formada por
essa névoa negra parece estar avançando em sua direção de maneira irreal.
Não como se estivesse andando, mas simplesmente flutuando em sua
direção, com o corpo totalmente imóvel.
Um sorriso com dentes brancos e pontiagudos se forma no rosto dele,
conforme se abaixa rapidamente, ficando com o rosto a alguns centímetros
do seu. A boca dele começa a abrir lentamente, desfazendo o sorriso. Os
dentes parecem sumir a medida que o buraco negro formado por sua boca
se torna a única coisa que ela consegue ver. Entorpecida pela dor, sente sua
boca se abrindo como se forçada para baixo, sentindo uma pressão em seu
queixo.
Aos poucos, sente como se toda sua energia estivesse sendo sugada de si,
ficando cada vez mais fraca e exausta. A dor simplesmente desaparece, à
medida que tudo vai sumindo. Suas memórias, seus sentimentos, seus
sentidos. Sente como se sua vida estivesse sendo sugada por ele. Sua alma.
No final, um sentimento de paz a invade, como se estivesse flutuando
lentamente. Então tudo deixa de existir.
A luz volta ao normal, iluminando seu corpo já morto jogado no chão do
box. Sua cabeça está apoiada na parede, e suas costas estão tortas, mal
encostando na parede. Sua boca está aberta ao ponto de praticamente
quebrar o maxilar, e filetes de sangue escorrem pelos cantos dos lábios. Os
olhos arregalados olham para frente, vermelhos de sangue e com as pupilas
completamente dilatadas. Atrás de seu corpo, a parede está manchada de
sangue onde sua cabeça bateu, escorrendo em linhas grossas até formar uma
pequena poça no chão.
Após dois dias com todas as ligações para a amiga caindo na caixa postal, e
todas as suas mensagens sequer terem sido recebidas, Thayná acaba ficando
preocupada e volta mais cedo da sua viagem, direto para o apartamento da
amiga. No uber, se assegura pela milésima vez que ainda tem as chaves do
apartamento em seu chaveiro.
Na portaria, explica que precisa entrar para ver sua amiga, que está
preocupada pois faz dias que ela não responde ninguém. Como ele já a
conhece, o porteiro permite sua entrada.
Apressada, ela parece correr até o prédio. Ao descer do elevador no oitavo
andar, anda até a porta do apartamento e aperta a campainha algumas vezes,
sem resposta. Lutando um pouco contra as chaves, com as mãos tremendo,
sequer sabe porque está tão nervosa, mas sente que algo está errado.
Abre a porta com um empurrão, e assim que entra sente um cheiro forte e
estranho, sem saber explicar o que é. As luzes estão acesas, mas
aparentemente não tem ninguém em casa.
- Amiga? Sou eu… - nada - Agatha?
Ouve um miado fraco e a gata anda lentamente em sua direção, parecendo
cansada. Se abaixa para acariciar a cabeça da gata enquanto ela se enrosca
entre suas pernas, miando baixinho.
- Amiga? Você tá aí? - pergunta novamente, se levantando e indo em
direção ao corredor, com a gata indo atrás. Sem resposta.
Percebe que a porta do banheiro está aberta e a luz acesa. Chama
novamente, ainda sem resposta. Receosa, anda lentamente em direção a
porta. Ao entrar, vê a coisa mais assustadora que já viu em sua vida, e dá
um grito alto e aterrorizado, correndo em direção ao corpo dentro do box,
com a gata miando em protesto.
Ao perceber que ela está morta e sem saber o que fazer, tira rapidamente o
celular do bolso e liga para a emergência, com as mãos tremendo e a
respiração acelerada. A gata mia um pouco mais alto.
Confusa e assustada, pensa que a gata deve estar com fome, enquanto a
música de espera toca em seu ouvido.
AGRADECIMENTOS
Nunca sei o que escrever aqui (falando assim parece que tem 3000 histórias
publicadas, mas enfim). Agradecer sempre foi meio difícil pra mim, mas
vamos lá:
Gabriel, obrigado por ser um revisor petulante e por toda ajuda nos rumos
do conto.
Aos meus amigos, obrigado por sempre surtarem junto comigo.
Agradeço também as vozes da minha cabeça, que inventam essa e outras
tantas histórias.
E obrigado leitor, pelo seu tempo e atenção.
Edição e revisão: Gabriel Benitez
Capa: @caprikun no Instagram
Está é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos
descritos são produtos da imaginação do autor. Qualquer semelhança com
nomes, datas, e acontecimentos reais são mera coincidência.
São proibidos o armazenamento e/ou a reprodução de qualquer parte dessa
obra através de quaisquer meios sem o consentimento do autor.
Registrado sobre o ASIN através do Kindle Direct Publishing - Amazon
em 27/09/2021.
Ele - Alexander Almeida
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