Globalização das redes de comunicação: uma reflexão
sobre as implicações cognitivas e sociais
Lídia J. Oliveira Loureiro da Silva∗
Universidade de Aveiro
As redes são infra-estruturas de criação de 1 Internet e construção da
significados. subjectividade - das redes de
inter-subjectividade à
Resumo intersubjectividade na rede
O conceito de rede sempre esteve presente “No futuro, os novos aparelhos técnicos
enquanto elemento estruturante das relações serão talvez tão inseparáveis do homem
cognitivas e sociais, contudo na década de como a casca do caracol ou a teia da
90 assiste-se à hiperbolização do conceito aranha.”
de rede com a expansão das redes e serviços (Heisenberg)
telemáticos. Neste contexto e partindo da
ideia que as tecnologias prolongam e mo- A expansão da Internet e a sua incorpora-
delam as capacidades cognitivas e sociais, ção nos procedimentos do quotidiano trouxe
ter-se-á de perguntar que tipo de homem e a enfatização da comunicação em rede. Mas,
de sociedade as redes e serviço telemáticos se se fizer um esforço para ler a realidade co-
estão a suscitar. Existirá uma nova racio- municacional actual como se de um palimp-
nalidade reticular? Que consequências é sesto1 se tratasse, ou seja, tentando ver quais
que isso terá a nível da elaboração, difusão são os “textos” que estão por detrás do dis-
e consumo de conhecimento, de geração e curso actual sobre a Internet, encontrar-se-á
manutenção de comunidades? como conceitos fundamentais, os conceitos
de comunicação, comunidade e rede.
∗
Lic. Filosofia; Universidade de Coimbra; Mestre 1
“Palimpsesto (s. m.) pergaminho cujo manus-
Tecnologia Educativa, Universidade de Aveiro / As-
crito os copistas medievais raspavam para sobre ele
sistente do Departamento de Comunicação e Arte da
escreverem de novo, mas do qual se tem conseguido,
Universidade de Aveiro, aluna de doutoramento em
em parte, fazer reaparecer os caracteres primitivos;
Ciências e Tecnologias da Comunicação, E-mail: li-
em sentido metafórico, texto que existe sob outro
dia@[Link]. Este texto foi publicado em: ALVES, José
texto.” (Do gr. palímpsestos, “raspado de novo”, pelo
Augusto, CAMPOS, Pedro e BRITO, Pedro Quelhas
lat. palimpsestu-, “id.”)” in: Dicionário de Língua
(1999), O Futuro da Internet – Estado da Arte e Ten-
Portuguesa; Porto: Porto Editora.
dências de Evolução, 53-63, Lisboa: Centro Atlântico
2 Lídia Loureiro da Silva
Deste modo, será útil compreender que como específico dos finais do século XX
existe um processo dialéctico entre comuni- é o facto de as redes terem vindo a sofrer
cação e comunidade estruturado pelas redes um processo de dilatação e complexifica-
que se estabelecem entre os sujeitos. Quais- ção progressiva, que culmina na globaliza-
quer que sejam as modalidades, os níveis ou ção (Fortuna,1997; Featherstone,1996; Ro-
os meios de comunicação, o seu quadro es- bertson,1996). Este mecanismo de dilata-
sencial é sempre o da relação humana, ou ção das redes foi possível graças aos desen-
seja, a vida das pessoas e das instituições volvimentos tecnológicos que fizeram con-
depende da comunicação. “A comunicação vergir as tecnologias da informática e das
humana pode definir-se como interacção so- telecomunicações gerando as Redes e Ser-
cial através de mensagens ou como processo viços Telemáticos. Estas Redes e Servi-
pelo qual as relações humanas existem.” (Al- ços Telemáticos, de que Internet, enquanto
ves,s/d:1068). É no contexto comunicacio- rede de redes, é o melhor exemplo, criou a
nal que emerge a significação potenciadora possibilidade histórica de se passar das re-
da intercomunicação social, que se apresenta des inter-subjectivas à inter-subjectividade
como mecanismo de construção projectual na rede. Ou seja, a rede telemática passou a
do indivíduo e da sociedade, ou seja, o pro- ser suporte às interacções entre sujeitos que
cesso é eminentemente dialéctico. Assim, a passaram a ter a possibilidade alargada de
comunidade surge como realidade antropo- estabelecer redes inter-subjectivas indepen-
lógica propícia ao estabelecimento de valo- dentemente dos constrangimentos espacio-
res nos quais se vão legitimar as redes inter- temporais dos seus parceiros de interacção.
subjectivas que sempre existiram como pro- Surge a questão: - Em que medida a glo-
dutos e produtoras da humanidade enquanto balização reticular da comunicação afecta as
teia de comunicação e de comunidades, ou representações que os sujeitos concebem da
seja, teias ou redes de partilha, participação, realidade e, também, as estruturas de soci-
associação, identidades - “uma comunidade abilidade gerando novos laços (o laço social
forma um todo que se rege por normas, cons- torna-se metafórico) e redesenhando os laços
titui um sistema relacional cujo equilíbrio se até aqui típicos?
encontra dependente de uma correcta axiolo- A globalização fruto da diluição dos
gia.” (Leitão,s/d:1072). constrangimentos espacio-temporais revela-
Esta pequena incursão nos conceito de se como motor do processo de transformação
comunicação e comunidade conduz à ideia da ecologia humana social2 . Globalizam-
de redes de inter-subjectividade, ou seja, os 2
“Para Mac Kenzie a ecologia humana estuda a
processos comunicacionais que estiveram e interdependência e o agrupamento dos homens no es-
estão na base do desenvolvimento filoge- paço, - “A ecologia social é o estudo das relações de
nético e ontogenético sempre se sustenta- grupos humanos com o meio ou, mais precisamente,
ram numa estrutura reticular. Isto é, desde das interdependências das instituições e dos modos de
agrupamento dos homens no espaço.” (Mac Kenzie,
sempre os procedimentos comunicacionais
The City, 1925) Para Moreno, a ecologia social é o es-
se estruturaram em rede privilegiando nú- tudo das relações de grupos humanos com o meio ou,
cleos que interagem entre si formando uma mais precisamente, das interdependências das insti-
teia. Contudo, o fenómeno que se afirma tuições e dos modos de agrupamento dos homens no
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Globalização das redes de comunicação 3
se as economias, globalizam-se as políticas global, em que o eu se manifesta como ele-
(ecológicas e outras), globalizam-se as bases mento do colectivo global e o colectivo glo-
de informação, globalizam-se os processos bal como motor de promoção do eu.
de comunicação. Neste processo de globa-
lização encontramos duas faces, a face tec- “A tecnologia catalisa alterações não só
nológica onde facilmente se encontram os naquilo que fazemos, mas também na
computadores e as telecomunicações (tele- forma como pensamos. Modifica a per-
mática) como elementos promotores do pro- cepção que as pessoas têm de si mes-
cesso e que se promovem e desenvolvem im- mas, umas das outras, e da sua relação
pulsionadas pelo próprio processo, por ou- com o mundo. (. . . ) Em que espécie
tro lado, existe a necessidade de olhar para de pessoas estamos a transformar-nos?”
a face humana, ou seja, que tipo de sujeito a (Turkle,1989:14-15)
globalização está a desenhar.
Que metamorfoses individuais e colecti- A Rede é um instrumento que promove
vas estará o homem a sofrer com a progres- a alteração, reorganização e construção da
siva afirmação da globalização da comuni- subjectividade. Neste momento, enquanto
cação? Estar-se-á a assistir ao surgimento escrevo estas palavras, milhares de pessoas
de um novo espaço antropológico?3 Espaço em Portugal e milhões no mundo estão a uti-
esse que se caracterizará como espaço do sa- lizar serviços em rede, o que significa que
ber e da inteligência colectiva (Lévy,1997), estão a contribuir para a inteligência colec-
onde o homem será o elemento determinante tiva conectiva (Lévy,1997; Kerkhove,1997;
promovendo um uso social das tecnologias Kerkhove,1998), ou macro subjectividade,
da comunicação. processo no qual são produtores e produtos
A globalização revelar-se-á como meca- do processo, isto porque cada vez mais o
nismo gerador da renovação do laço social, utilizador da Rede é um prosumidor (Tof-
que se caracterizará por uma nova relação fler,1991), ou seja, um produtor e um con-
com o saber promovida pela sinergia de sumidor de representações cognitivas, afec-
competências, de imaginação e de inteligên- tivas e relacionais.
cia colectiva. O facto de através dos serviços telemáti-
Estar no mundo implica a elaboração de cos disponíveis na Internet se poder aceder
um projecto existencial que será cada vez aos mais variados tipos de informação sede-
mais tecido pela relação interactiva com o ada em computadores em qualquer parte do
mundo, se poder conversar (em tempo real)
espaço.”, in: BIROU, Alain (1982), Dicionário de Ci- e corresponder com pessoas espalhadas pelo
ências Sociais, Lisboa: Pub. D. Quixote, p.127-128.
3
“Qu’est-ce qu’un espace anthropologique? C’est
mundo, se poder ter o seu espaço próprio de
un système de proximité (espace) propre au monde publicação faz com que se aprenda a ver e
humain (anthropologique) et donc dépendant des te- a sentir o mundo de modo diferente porque
chniques, des significations, du langague, de la cul- se gera uma nova forma de conceber o es-
ture, des conventions, des représentations et des paço, o tempo, as relações, a representação
émotions humaines.”, in: LÉVY, Pierre (1995),
L’Intelligence Colective - pour une antropologie du das identidades, os conhecimentos, o poder,
cyberspace, Paris: Ed. La Découverte, p.21. as fronteiras, a legitimidade, a cidadania, a
[Link]
4 Lídia Loureiro da Silva
pesquisa, enfim, a realidade social, política, rede o sujeito fica suspenso entre o seu en-
económica e cultural. raizamento local e a sua pertença global. Daí
Este novo meio de comunicação que gera poder-se-á falar de glocalização porque o su-
novas modalidades de interacção com o co- jeito apropria o global a partir da sua repre-
nhecimento e com os outros, através da al- sentação local.4
teração das noções de espaço, tempo e rea- Na rede o sujeito é um eu individual mas
lidade vem também dar um novo espaço ao simultaneamente passa a fazer parte de uma
imaginário na medida em que os serviços dinâmica colectiva a que Pierre Lévy chama
que permitem o anonimato e a adopção de Hypercortéx5 ou mente colectiva, oscilação
pseudónimos permitem que cada um tenha entre eu individual e colectivo. O sujeito vive
a possibilidade de adoptar a personalidade também a oscilação entre o eu real e o eu
ou personalidades que na realidade não lhe virtual (tão real como o real) que ele cons-
seria possível. Contudo, este cenário, sus- trói à medida dos seus desejos e das suas in-
tentado pela possibilidade de anonimato, faz teracções, oscilação entre a corporeidade e
com que se alterem as noções de intimidade, virtualidade imaginária do corpo. O sujeito
privacidade, sinceridade, confiança, sexuali- vive a dimensão de híbrido quer pela possibi-
dade, etc., tendo implicações na organização lidade de incorporar tecnologia no seu corpo,
das subjectividades, especialmente dos jo- quer pela fusão da identidade com a dinâ-
vens e das pessoas com mais tendência a per- mica da interacção tecnológica telemática,
turbações da personalidade (Turkle,1997). daí passar-se-á a falar de homem simbiótico
4
“Quanto mais noção temos da globalidade, mais
2 Internet um lugar de ficamos conscientes das identidades locais, e mais as
protegemos: é esse o paradoxo da aldeia global. O hi-
hibridismo e de nomadismo perlocal é o complemento inevitável do hiperglobal.”
(Kerckhove, 1997:243)
“Com o advento da Internet temos o pri- 5
“Les connaissances vivants, les savoir-faire et
meiro meio que é oral e escrito, privado e compétences des êtres humains sont en passe d’être
público, individual e colectivo ao mesmo reconnus comme la source de toutes les autres riches-
tempo. A ligação entre a mente pública ses. Dès lors, quelle finalité assigner aux nouveaux
e a mente privada é feita através das outils de communication? Leur usage socialment le
plus utile serait sans doute de fournir aux groupes hu-
redes abertas e conectadas do planeta.“ mains des instruments pour mettre en commun leurs
(Kerckhove,1997:249) forces mentales afin de constituer des intellectuels ou
des imaginants collectifs. L’informatique communi-
A ambiência comunicacional promovida cante se présenterait alors como l’infratruture techni-
pelas redes e serviços telemáticos tem na sua que du cerveau collectif ou de l’hypercortex des com-
essência a dimensão de híbrido, o que lhe dá munautés vivantes. Le rôle de l’informatique et des
techniques de communication à support numérique ne
uma natureza inovadora. Esta dimensão de serait pas de “remplacer l’homme” ni de s’approcher
hibridismo tem várias facetas que têm em co- d’une hypothétique “intelligence artificielle”, mais de
mum a experiência da oscilação. favoriser la constrution des collectifs intelligents où
Uma das dimensões em que o fenómeno les potentialités sociales et cognitives de chacun pou-
é mais patente é na questão do local e do ront se développer et s’amplifier mutuellement.” P.
Lévy (1995).
global. Quando se utilizam os serviços em
[Link]
Globalização das redes de comunicação 5
(Rosnay,1995)6 fruto da interiorização e in- território geográfico nem o das institui-
teracção com as redes planetárias. ções ou dos Estados, mas um espaço in-
A rede e serviços telemáticos são em si visível dos conhecimentos, dos saberes,
mesmos híbridos enquanto linguagem por- das forças de pensamento no seio da qual
que acolhem simultaneamente escrita, ima- se manifestam e se alteram as qualidades
gem, som, vídeo unidos pela estrutura do do ser, os modos de fazer sociedade. Não
laço (link) e da interactividade, que faz com os organismos do poder, nem as frontei-
que se designe como hipermedia. Estes no- ras disciplinares, nem as estatísticas dos
vos media apresentam uma estrutura triádica mercados, mas sim o espaço qualitativo,
(Nunes, 1996a), ou seja, estética, tecnoló- dinâmico, vivo, da humanidade que se in-
gica e social. A vida social é um construto venta ao mesmo tempo que produz o seu
que tem a sua génese e metamorfose nas tec- mundo.” (Lévy,1997:17)
nologias da informação e da comunicação,
são essas tecnologias que geram novas di- Está-se assim a assistir a um processo de
nâmicas fazendo surgir o que usualmente se nomadismo antropológico assente na dester-
designa de tecnocultura que gera uma nova ritorialização, mas em que começam a emer-
ecologia cognitiva marcada pelo hibridismo gir um novo espaço heterogéneo, no qual
e pela globalização. existem lugares (sites, news groups, IRC Ro-
É neste ambiente comunicacional em que oms, etc.) mais visitados, alguns tornam-se
as fronteiras se diluem que se desenha uma em lugares de culto, ou seja, são de visita
nova geografia que deixa de ter como ele- obrigatória dentro de um determinado domí-
mentos estruturantes o espaço e o tempo e nio do saber. São assim novos lugares de cul-
passa a ter como estrutura os nós de conhe- tos por onde os novos nómadas asseguram
cimento e de aglutinação motivacional como a sua passagem. Um lugar tem tanto mais
ímanes de atracção dos habitantes deste novo possibilidade de se tornar um lugar de culto,
espaço, o ciberespaço. Uma das particulari- quanto melhor for a qualidade do saber que
dade dos sujeitos que utilizam o ciberespaço possui e partilha, bem como a qualidade da
enquanto espaço de vivência é o nomadismo interacção e da vinculação que propõe aos
(Makimoto,1997), na medida em que a au- visitantes. Desenham-se deste modo novos
sência de atrito espacio-temporal convida à mapas cognitivos e sociais através da actua-
mobilidade, mobilidade essa que é dirigida ção do eu expandido na rede, enquanto ela
pelas necessidades de informação, de saber própria é um ambiente pancognitivo e pan-
e de pertença. Geram-se deste modo novos social, mais do que tecnológico.
mapas cognitivos e novos laços sociais. Poder-se-á perguntar: - O que é que pro-
curam os novos nómadas? É certo que pro-
“O espaço do novo nomadismo não é o curam informação, mas procuram também a
6
relação, a afirmação e a pertença a grupos
“Un êtrede chair et de sentiments, associé dans
une étroite symbiose à un organisme planétaire. Un (Cardoso,1997; 1998). As tecnologias da in-
macro-organisme constitué par les hommes et leurs teligência (Lévy,1994) promovem uma nova
machines, les nations et leurs grands réseaux de com- relação com o conhecimento, com os outros
munications.” (Rosnay; 1995:10) e com o território, esta nova relação é susten-
[Link]
6 Lídia Loureiro da Silva
tada pela partilha7 , baseada no paradigma do paradigma da partilha e do imaterial e con-
imaterial, ou seja, é o disponibilizar e o ace- duzindo a uma acentralidade benéfica para
der à informação que dá realidade aos exis- quem agora se encontra(va) na periferia.
tentes, que vêm deste modo a sua afirmação As Redes e Serviços Telemáticos
estar dependente de um cosmos virtualizado apresentam-se como veículos potencia-
pelos processos de comunicação reticular. dores de internacionalização e interdisci-
plinaridade gerando comunidades globais
“É partilha de informação e de conheci- mediadas pelos serviços tecnológicos. As
mento que hoje constitui qualquer comu- tecnologias em rede vêm propiciar a existên-
nidade – seja ela social ou política, cultu- cia de ambientes intermediários entre o eu e
ral ou científica – determinando não só os outros que permitem fundar comunidades
a sua forma como os seus objectivos.” reais, no sentido da existência da interactivi-
(Carrilho e Caraça,1995:84) dade dos sujeitos, mas virtuais, no sentido
da não presença corpórea e, por vezes, do
3 Internet comunidade e não conhecimento físico (Markham,1998).
Poder-se-á definir comunidade:
conhecimento
“As pessoas na net não são apenas • Como grupo de pessoas que vê a sua
solitários de informação, são também seres proximidade ser constituída pelo facto
sociais.” de usufruírem e partilharem um mesmo
(Lee Sproull e Samer Faraj) espaço físico, mais ou menos dilatado.
E, pelo facto, de partilharem o mesmo
As redes são o motor de diluição das pe- nomos8 , ou seja, o mesmo cujo de nor-
riferias e geração de cooperação, na medida mas de organização e, por vezes, tam-
em que promovem a erosão das coordenadas bém o mesmo legado histórico e cultu-
espacio-temporais, gerando um processo pa- ral.
radoxal de simultânea concentração e de des-
• Como grupo de pessoas com um con-
localização, ou seja, um movimento para o
junto de interesses comuns, sejam es-
centro, mas contudo o centro deixei de ser
ses de ordem profissional, social, religi-
topológico, tornando-se em algo volátil, vir-
oso, lúdico ou outro. Não sendo o crité-
tual - concentrando-se onde as pessoas e a
rio geográfico o factor aglutinador, mas
informação promovem processos de interac-
sim a dinâmica dos projectos em co-
ção geradores de conhecimento, baseado no
mum movidos por motivos/razões par-
7 tilhadas.
“O papel determinante da partilha na emergên-
cia e na configuração do paradigma do imaterial.
. . . definimos a partilha como um dispositivo formal As comunidades mediadas pelas redes
de circulação de conhecimentos (no sentido mais lato telemáticas ou comunidades virtuais (Wat-
do termo) entre todos e quaisquer sujeitos - individu-
8
ais ou institucionais - que para o efeito sejam compe- Nomos: costume, convenção, lei constitucional
tentes e se encontrem disponíveis e/ou interessados. ou arbitrária (ver Termos Filosóficos Gregos – um lé-
A partilha é o dispositivo que possibilita e organiza a xico histórico, Lisboa: Fundação Calouste Gulben-
comunicação. (. . . )” (Carrilho e Caraça, 1995) kian, p.159-160.)
[Link]
Globalização das redes de comunicação 7
son,1998; McLaughlin,1998) são comunida- midor de conhecimentos à escala global, en-
des que se geram por mecanismo de aglu- tre a nacionalidade e o cosmopolitismo, etc.
tinação motivacional e não geográfica dado Os procedimentos de produção de conhe-
que existem para além dos constrangimentos cimento científico, social e cultural estão
espaciais e temporais. sendo modificados pela racionalidade reticu-
Os utilizadores da Internet não são me- lar promovida pela Redes e Serviços Tele-
ros consumidores e produtores de informa- máticos. Este novo modo de produção de
ção mas seres eminentemente sociais que conhecimento associado à inteligência co-
como tal procuram também, através do uso lectiva conectiva caracteriza-se pela hetero-
dos serviços telemáticos, pertencer a um geneidade, transdisciplinaridade e reflexibi-
grupo, afirmar as suas convicções políticas, lidade, estas características são estruturantes
culturais, religiosas, etc., bem como, apoio de uma mudança do papel do conhecimento
para as suas dificuldades pessoais ou gru- nas relações sociais (Gibbons,1997).
pais (exemplo, Comunidade Virtual Well) A rede promove a possibilidade de gera-
(Rheingold,1996, Schuler, 1996) ção de um Fórum Híbrido que exerce a fun-
É a aglutinação motivacional que faz com ção de ponto de encontro de diversos acto-
que os vários pontos se transformem em res. Esse “espaço” ou nova Ágora é frequen-
rede. temente um espaço de controvérsia e tem-se
As Redes e Serviços Telemáticos são uma vindo a revelar como novo espaço de trans-
tecnologia social na medida em que através ferência de conhecimento porque o conhe-
das Redes e Serviços Telemáticos os utili- cimento tende cada vez mais a ser conheci-
zadores não procuram apenas informação, mento migratório, que atravessa fácil e rapi-
mas sim interacção social, relações inter- damente as fronteiras das organizações ge-
subjectivas geradoras de sentimento de per- rando um crescimento da densidade comuni-
tença e de afirmação pessoal. Daí que as Re- cacional entre os actores da comunidade ci-
des e Serviços Telemáticos estejam na ori- entífica e entre ciência e sociedade.
gem de novas formas de sociabilidade, no- A produção do conhecimento em e na
vas formas de trabalho e de aprendizagem rede promove a heterogeneidade fazendo
em rede. convergir uma multiplicidade de competên-
A cadeia de criação ♦ manipulação ♦ cias e de experiências para a resolução de
transmissão de conhecimento está a sofrer um problema envolvendo ligações (linkages)
mutações devido ao seu novo mediador – as a múltiplos lugares (sites) de produção de
Redes e Serviços Telemáticos – potenciando conhecimento diferenciado, o que faz com
uma cultura acêntrica, baseada num estilo de que os conhecimentos não fiquem residen-
vida “compósito”, pontuado pela descentra- tes/aprisionados no seu contexto de produ-
lização e pelo sincretismo. O sujeito vive a ção, o que gera a transdisciplinaridade. Con-
possibilidade da ambivalência entre o local e tudo a reflexibidade será o elo de coerência
o global, entre o eu e o anonimato, entre o eu aglutinadora porque apesar de no processo
e o outro do pseudónimo, entre a pertença e o de elaboração de conhecimento intervirem
desenraizamento, entre ser produtor e consu- sujeitos individuais estes devem adequar os
seus procedimentos ao ponto de vista de to-
[Link]
8 Lídia Loureiro da Silva
dos os actores envolvidos, o que faz deles apropriação transformadora, da plasticidade
uma comunidade, e aos valores subjacentes modular e do diálogo com o seu criador.
aos projectos e aspirações humanas. A re- Os utilizadores das Redes e Serviços Tele-
flexibilidade gera o salto qualitativo do so- máticos são seres sociais e é de acordo com o
matório de inteligências para a inteligência seu enraizamento pessoal a nível local e a ní-
colectiva. vel ciberespacial que vão procurar, produzir
Há então que questionar e reflectir sobre e transformar a informação. Neste processo
as consequências das Redes e Serviços Te- procuram encontrar seres com interesses co-
lemáticos a nível: dos hábitos de utilização muns geradores de consenso ou provocar se-
actuais e futuros, das expectativas, das repre- res com interesses antagónicos ou díspares,
sentações, socializações, identidades, socia- para gerar o debate e até alguma conflituosi-
bilidades, resistências, etc. dade. Os utilizadores são actores sociais que
Que mutações as expansão das Redes e encontram nas Redes e Serviços Telemáticos
Serviços Telemáticos têm no modus vivendi, um ponto de encontro, um meio de promover
no modo de trabalhar e de produzir conheci- e usufruir da “inteligência colectiva”.
mento? As Redes e Serviços Telemáticos são re-
Que mutações a nível do desenvolvimento des de encontros, onde a socialização e a
e gestão da subjectividade? sociabilidade se fazem “através da conversa,
Que mutações a nível da identidade e per- do debate, da discussão e das confidências”
tença a um grupo (distribuído e mediado)? (Cardoso,1998:25), ou seja, quando um local
Estas questões colocam-se a respeito dos corresponde às expectativas do sujeito, este
media de segunda geração (Poster,1995), apropria-o como espaço usual de interacção
que se caracterizam por ser sistemas de co- social e cognitiva.
municação em rede, descentralizados, ba- As Redes e Serviços Telemáticos são, por-
seados na lógica da interactividade que tanto, tecnologias sociais e cognitivas.
promove a fusão dos papeis de emissor-
receptor, produtor-consumidor, governante- “Uma tecnologia combina artefactos e
governado, etc.. procedimentos de forma a potenciar o sa-
Deste modo, a subjectividade e a inter- ber para a obtenção de fins práticos. Uma
subjectividade desenvolvem-se num novo tecnologia social utiliza os mesmos mé-
contexto, em que se afirma a dinâmica da in- todos de forma a permitir que indivíduos
teractividade em e na rede, que sempre es- com interesses similares se encontrem,
teve presente no desenvolvimento do ser hu- falem, ouçam ou construam um leque de
mano, mas que agora é ampliado. Como tal sociabilidades com algum grau de dura-
a ambiência gerada pelas Redes e Serviços bilidade.” (Cardoso,1998:25)
Telemáticos globais, o ciberespaço, não deve
ser encarado como mero repositório de infor- Existe uma tendência para quando se
mação, mas como lugar propiciador da di- aborda a questão das Redes e Serviços Tele-
nâmica social, em que a própria informação máticos colocar a tónica na informação, sin-
perde o seu carácter estático e adquire uma toma disso é a expressão Sociedade da Infor-
dinâmica da alteração, do crescimento, da
[Link]
Globalização das redes de comunicação 9
mação (Webster,1997) se ter generalizado9 . motivos ideológicos, embora muitas vezes
Contudo, o ser humano tem tanta necessi- sejam estes que são apresentados. Contudo,
dade de informação como de sociabilidade, a maioria dos seus membros já assimilou os
poder-se-á mesmo afirmar que a informa- serviços em rede para o seu contexto comu-
ção é um instrumento ou componente para nicacional.
a promoção da socialização e da sociabili- Estudar as implicações cognitivas e so-
dade, que é o objectivo primordial. Através ciais das Redes e Serviços Telemáticos na
dos grupos sustentados pelas Redes e Servi- Comunidade Científica Universitária Portu-
ços Telemáticos o sujeito tem uma ambiência guesa10 apresenta-se deste modo como um
mista em que se funde a sociabilidade com a desafio. Neste momento são mais as ques-
informação, com a vantagem da informação tões do que as respostas acerca do que é que
ser mais credível pelo facto de ter origem no a rede, e especificamente a rede das redes, a
círculo de sociabilidades do sujeito. Internet, está a fazer com a Comunidade Ci-
entífica Universitária Portuguesa. Quais as
4 Internet, conhecimento e implicações das Redes e Serviços Telemá-
ticos como instrumentos ao serviço da co-
comunidade científica construção interactiva do mundo e do conhe-
universitária portuguesa cimento.
Que implicações as Redes e Serviços Tele-
A expansão do fenómeno Internet também
máticos estão tendo na Comunidade Cientí-
chegou a Portugal e passou a modelar o quo-
fica Universitária Portuguesa a nível das me-
tidiano de alguns portugueses. Poder-se-
todologias de investigação, de pesquisa de
á perguntar pelas diferenças entre um Por-
informação, de edição de informação e resul-
tugal off-line e um Portugal on-line. De
tados de pesquisa, de discussão de problemas
facto, as Redes e Serviços Telemáticos ainda
de investigação, de flexibilização e interna-
não se instalaram no quotidiano de todos
cionalização das relações de trabalho, da ge-
os Portugueses, contudo, há sectores onde
ração de comunidades distribuídas de traba-
essa presença é mais notória e onde a inter-
lho, de coordenação das equipas de trabalho,
subjectividade na rede passou a fazer parte
etc.?
integrante dos procedimentos comunicacio-
Em maior ou menor escala a ciência sem-
nais quotidianos. Uma dessas comunidades
pre se realizou através da actuação de um
é a Comunidade Científica Universitária (Pa-
conjunto de actores que interagem entre si,
lácios,1997; Jesuíno,1995), certamente que
estabelecem redes. Aliás, toda a geração de
também aí existem sujeitos resistentes à ex-
conhecimento está submetida a esta lógica,
pansão do seu eu em rede, mais pela ilite-
que é ela própria constitutiva do ser humano,
racia tecnológica (Gilster,1997) do que por
10
9 Este é o meu projecto de investigação de douto-
Esta tónica manifesta-se no lançamento de ini-
ramento que está em curso na área das Ciências e Tec-
ciativas tais como a criação, em Portugal, da Mis-
nologias da Comunicação, no Departamento de Co-
são para a Sociedade da Informação, donde resul-
municação e Arte da Universidade de Aveiro, sob a
tou recentemente o lançamento do Livro Verde para
orientação do Prof. Doutor Armando Oliveira e do
a Sociedade da Informação em Portugal (1997),
Prof. Doutor A. Manuel de Oliveira Duarte.
(http:[Link]).
[Link]
10 Lídia Loureiro da Silva
dado que o próprio cérebro funciona na base usos e das implicações no trabalho de con-
de redes neuronais. Redes tangíveis e intan- sumo, produção, difusão de conhecimentos
gíveis metamorfoseiam as relações sociais e e coordenação e cooperação de equipas de
a estrutura do conhecimento (Melody,1994). investigação.
Contudo, para compreender as implica- Como é que a própria Comunidade Cien-
ções das Redes e Serviços Telemáticos na tífica Universitária Portuguesa encara a rede
Comunidade Científica Universitária Portu- com instrumento que potencialmente recria e
guesa a nível local e da internacionalização amplifica a relação entre ciência, tecnologia
(contexto de actividade e legitimação), da e sociedade, que dilui as diferenças regionais
cooperação (geração de comunidades distri- no acesso e difusão de informação, renova os
buídas), da pesquisa, elaboração e partilha hábitos de trabalho cooperativo alterando o
do conhecimento (metodologias de investi- próprio conceito de grupo que se torna glo-
gação), da (não) diluição da semi-periferia balmente distribuído, etc.. Enfim, que tipo
desta comunidade, etc. é necessário proce- de representação, de consciência a Comuni-
der à análise dessas tecnologias pancogniti- dade Científica Universitária Portuguesa tem
vas e pansociais na sua tripla dimensão: ma- da rede, da Internet, enquanto instrumento
terial (recursos mobilizados para a realização pancognitivo e pansocial e não como fer-
das tarefas ou que constituem o contexto da ramenta técnica, ou seja, que representação
sua realização), social (organização e inte- tem das implicações da inter-subjectividade
racção, nomeadamente espacio-temporal en- na rede no ciclo de vida da produção de
tre os actores e estes e os objectos ou se- conhecimento (apropriação, processamento,
res não-humanos) e representacional (modo geração, difusão e discussão) e nas estruturas
como competências e recursos são transfor- sociais de organização do trabalho científico.
mados em objectos de conhecimento parti-
lháveis e transportáveis) (Nunes,1996b:258).
5 ... em suma
Deste modo, compreender a alteração que
as Redes e Serviços Telemáticos estão a As Redes e Serviços Telemáticos estão alte-
provocar na ecologia cognitiva11 da Comu- rando o nosso ecossistema cognitivo e social
nidade Científica Universitária Portuguesa o que faz com que o sujeito tenha de proce-
passa pela elaboração de uma tipologia de der a um processo de adaptação e reestrutu-
usos e do estudo da representação social que ração da sua teia relacional e cognitiva. Este
esta comunidade tem da rede (Internet), dos processo tem consequências no modo como
11 concebemos a realidade e nos concebemos a
ECOLOGIA COGNITIVA: “é o estudo das di-
mensões técnicas e colectivas da cognição. O meio nós próprios porque as tecnologias prologam
ecológico no qual se propagam as representações é e modelam as capacidades cognitivas e soci-
composto por dois grandes conjuntos de elementos: ais.
os espíritos humanos e as redes técnicas de registo, A compreensão das modificações antropo-
de transformação e de transmissão das representa-
lógicas que estão em curso é um desafio que
ções.(p.176) (. . . ) Uma alteração técnica é ipso facto
uma modificação do colectivo cognitivo, implica no- urge enfrentar através do lançamento de es-
vas analogias e classificações, novos mundos práticos, tudos de caso integrados numa visão holís-
sociais e cognitivos. (p.185)” (Lévy,1994) tica da problemática.
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Globalização das redes de comunicação 11
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