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Filosofia Africana: Críticas e Debates

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Escola Secundária Heróis Moçambicanos

Filosofia 12ª Classe III Trimestre 2024


UNIDADE III: A Filosofia africana
A Filosofia africana
1. Contextualização do debate sobre a Filosofia africana
1.1. Questões históricas
O povo africano foi vítima da colonização europeia. Com as viagens apelidadas de
"Descobrimento", os europeus conheceram outros povos, que foram julgados em comparação
com os usos e costumes da cultura ocidental. Por isso, houve uma série de filosofias concebidas
por ocidentais que se esforçavam por denegrir a personalidade dos negros no mundo. Os estudos,
quer antropológicos, quer sociológicos, preocupavam-se em provar, em todos os sentidos, a
superioridade dos povos do Ocidente em relação aos outros povos, sem que estes últimos, no
entanto, tivessem respostas imediatas escritas para contrapor as teses dos ocidentais.
A Teologia, a Filosofia e o Direito desempenharam um papel fundamental neste processo.
 A Teologia, definiu o povo negro como descendente de Cham, um homem que viu a nudez
do pai. Portanto, o homem negro aparece como símbolo de maldição. Neste caso, o negro
pertenceria à geração dos condenados de Deus.
 Na Filosofia, Voltaire afirma, na sua obra História do Século XIV, que o povo mais elevado é
o francês e o mais baixo é o africano; Jean-Jacques Rousseau diz que os africanos são bons
selvagens; para Hegel, os africanos são povos sem história e, por consequência, desprovidos
de humanidade; Kant chega à conclusão de que os africanos são povos sem interesse; Lévy
Bruhl proclama que os africanos têm uma mentalidade pré-lógica; por sua vez, Montesquieu
afirma que os africanos são povos sem leis; os antropólogos Morgan e Tylor sustentam que a
África é uma sociedade morta.
 O monarca francês Luís XIV escreveu O Código Negro, uma explicação das leis dos
senhores sobre os negros.
Não restam dúvidas, portanto, de que o Ocidente desencadeou uma teoria de dominação que
gerou um profundo complexo de inferioridade nos africanos. Em Panafricanisme ou
Communisme?, George Padmore diz que esse fato provocou uma crise no pensamento, na
palavra e no agir do homem africano. O ocidentalismo promovia, direta ou indiretamente, uma
antropologia triunfalista, cujas teorias e doutrinas exaltavam uma classe que se autoproclamava
herdeira exclusiva da humanidade inteira. Por essa razão, arrogava-se o direito de destruir,
assumir ou “esmagar” os outros povos. Este tipo de antropologia poderia ser classificado como
um verdadeiro "vandalismo" cultural, narcisista, agressivo e destruidor, como defende Lecrec em
sua obra Crítica da Antropologia.

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Mais tarde, as ciências sociais e humanas realizaram novas abordagens, adoptando uma visão
diferente em relação às culturas não-ocidentais. Passaram a reconhecer que toda cultura
representa uma determinada civilização, independentemente da sua situação geográfica,
histórica, social e econômica.
Contudo, não nos podemos esquecer de que o período em que a população africana viveu todas
estas discriminações foi tão longo e profundo que ainda hoje estas se encontram vivas na sua
memória. Tal condiciona o seu comportamento: este fenômeno não só influenciou a mentalidade
europeia, como também deixou marcas na mentalidade do próprio povo negro, visto que sua
auto-estima deveras afectada.
É aqui que é necessária a intervenção do filósofo africano, para projetar o futuro do homem
africano, partindo da sua própria história. Para tal, houve necessidade de reabilitar a imagem do
homem negro, estimulando sua auto-estima e mostrando-lhe que ele é um homem igual ao
branco.
Como se conseguiria convencer o homem negro, que sempre foi servo do branco, de que ele
próprio é igual ao seu patrão?
Essa tarefa difícil e árdua continua a ser realizada pelo filósofo africano, sobretudo junto das
comunidades das zonas rurais e de áreas mais remotas, que ainda têm esta mentalidade. Foi para
responder a esta preocupação que alguns pensadores africanos desenvolveram debates acesos
sobre a existência ou não da Filosofia Africana.

1.2. A existência ou não da Filosofia Africana


Essa discussão ocorre pelo fato de alguns estudiosos africanos e não africanos terem
apresentado ao mundo estudos sobre etnias africanas, denominando-os “Filosofia Africana”. Este
grupo é composto por Anyanw, Placide Tempels, Alexis Kagame, Mbiti, entre outros.
A questão que os críticos colocam é se se pode falar de Física ou Química africanas da mesma
forma que eles falam da Filosofia Africana. Como obviamente a resposta é não, eles negam a
ideia da existência de uma Filosofia Africana. Figuram na lista dos críticos: Hountondji, Franz
Chahay, E. Boulaga, M. Towa, Oruka, Weredu, entre outros. O problema fundamental do debate
é mais um objeto de estudo do que a designação em si. Até certo ponto, os críticos abrem a
possibilidade da existência da Filosofia Africana, apresentando em quais moldes tal Filosofia
deverá ser concebida para que possa ser designada como Filosofia Africana.
Nos parágrafos seguintes, estudaremos as correntes mais importantes da Filosofia Africana,
onde serão apresentadas, em linhas gerais, as razões de ambas correntes.

2. Principais Correntes da Filosofia Africana


2.1. Etnofilosofia

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Trata-se do "grito" de africanos e africanistas pelo reconhecimento do negro como homem.
Estes produziram obras em defesa do homem negro. Uma das formas de realizar essa defesa é
através da etnofilosofia. Os etnofilosofos são assim denominados por terem feito estudos sobre
etnias africanas. Estes defendem que toda Filosofia é uma Filosofia cultural, isto é, ninguém faz
filosofia sem se basear em alguma cultura. Para Anyanw, a missão do filósofo africano é
compreender e explicar os princípios sobre os quais se baseia cada uma das culturas africanas.
Todavia, as suas pesquisas, que se apelidam de Filosofia Africana, foram alvo de severas
críticas, principalmente pelas seguintes razões.
 As abordagens feitas por tais intelectuais descreviam, na sua maioria, práticas habituais dos
africanos, afirmando-as como Filosofia Africana.
 Estes estudos, quando eram feitos por africanistas não-africanos, denegriam o africano.
O sacerdote belga Placide Tempels, por exemplo, dizia que o africano tinha uma lógica
menor.
 Uma simples catalogação de mitos, crenças e provérbios considerava-se Filosofia Africana.
 Estes estudiosos abordavam temas relativos a etnias africanas. Alexis Kagame, por exemplo,
inspirando-se na filosofia aristotélica, escreveu uma obra intitulada A Filosofia Bantu-
Ruandês do Ser, onde desenvolvia a sua reflexão, trazendo á tona categorias aristotélicas do
ser, através da análise gramatical rigorosa das estruturas linguísticas. A partir desta obra,
vários estudantes africanos defenderam suas teses, cada um delas com a filosofia bantu da
sua linguagem vernácula.
 Tempels dizia que existe uma filosofia do negro, só que esta é diferente na forma e no
conteúdo da Filosofia Europeia.
Por estas e outras razões, os críticos opuseram-se à existência de uma Filosofia Africana.
Contudo, não devemos desprezar Tempels, pois a sua abordagem tinha como fim o
reconhecimento do negro como homem pelos colonizadores. Por conseguinte, os seus estudos
contribuíram bastante para a redefinição do relacionamento entre o Ocidente e o povo negro.

2.2. Filosofia Profissional e Crítica à Etnofilosofia


Os críticos da etnofilosofia defendem que não podemos confundir o emprego do termo
"filosofia", usando-o no sentido ideológico. "Filosofia" é uma palavra que se utiliza para
designar uma ciência rigorosamente científica. Reivindicar que os africanos têm sua própria
filosofia seria cair nas mãos dos colonizadores, que queriam dar ou manter a ilusão de que os
africanos têm uma filosofia, porque o que nós temos realmente são mitos, crenças e provérbios.
Pauline Hountondji (Benin) é um dos grandes críticos e vale-se dos seguintes argumentos,
expressos na obra African Philosophy, Mythe and Reality, de 1974.
1. Reivindicando que existe uma Filosofia africana, estamos a cair na ratoeira colonialista e
racista que insiste que um africano é diferente de um europeu. Portanto, qualquer referência
à Filosofia africana obriga-nos a definir África em relação à Europa. Logo, não podemos
aceitar que haja uma Filosofia africana que claramente nega a filosofia em geral.
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2. Filosofia, no seu sentido restrito, é uma disciplina científica, teórica e individual, assim
como a linguística, a álgebra e, portanto, não se pode substituí-la por crenças populares,
práticas tradicionais e comportamento popular de um povo qualquer. A Filosofia não se
deve identificar com o mito ou com a religião tradicional.
3. A Filosofia, enquanto disciplina científica, teórica e individual, emerge sempre em oposição
ao mito, às religiões tradicionais e ao seu respectivo dogmatismo e conservadorismo. O que
é dogmático não pode ser filosófico. A relação filosófica com o mito e as religiões
tradicionais não é uma relação arquivista ou arqueológica com a função de sistematização e
perpetuação, nem sequer é uma protectora desse passado popular, muito pelo contrário. A
relação da Filosofia com o mito e a religião tradicional é de continuidade, transformação
consciente e crítica contínua da tradição do povo face aos desafios que o povo tem de
enfrentar no presente e no futuro. Portanto, a filosofia deve abrir os horizontes do povo para
que este consiga enfrentar os desafios do futuro. Querer que a Filosofia africana exista não
tem sentido.
4. Todo o projeto de edificar uma Filosofia africana é um projeto europeu de demarcar a todo
o custo é a civilização africana da europeia. Por isso, dizer que os africanos têm a sua
própria
civilização quer dizer que a civilização africana é fixa e está mumificada nas tradições
antigas, que todo o poder do africano reside no passado, nas tradições dos seus
antepassados. Os filósofos que encaram a filosofia a partir do ponto de vista do passado
designam-se por etnofilosofos e são europeus. Tentam sufocar a capacidade criativa dos
africanos porque esperam que os filósofos africanos sejam simples ativistas das suas
tradições culturais, em vez de pensadores originais.
5. Todos concordamos que a Filosofia Africana não pode nascer ex nihil (do nada), mas que
necessariamente parte da herança cultural. Contudo, esta herança cultural não consiste
apenas em olhar para atrás. A Filosofia africana deve ser uma confrontação criativa das suas
ideias com o presente e o futuro.
6. O papel criador da Filosofia africana deve ser desempenhado por filósofos africanos que
são sujeitos da atividade filosófica. A africanidade da Filosofia africana só emerge a partir
de uma atividade filosófica de discussão e crítica dos africanos que são filósofos. A
africanidade consiste na pertença dos filósofos ao continente africano. A africanidade não
consiste em falar da África ou em tratar de problemas africanos, pelo contrário, consiste na
partilha e na conversa entre africanos que são filósofos qualificados e profissionais que
usam a filosofia de maneira crítica e criadora.
Hountondji afirma que o problema que se coloca é substancialmente a associação da ideia de
filosofia á palavra africana, que a qualifica, deixando em dúivida se a palavra "filosofia" ainda
mantém o seu significado original. Na opiniao deste critico, a universalidade da Filosolia deve
ser conservada, No entanto, isto nao significa que a filosofia deva tratar necessariamente os
mesmos temas ou fazer as mesmas perguntas, até porque as diferenças de conteúdos são
consideraveis. É preciso salientar que os primeiros propagandistas da Filosofia africana foram
homens da lgreja, como, por exemplo: Tempels (belga), Alexis Kagame (ruandês), John Mbiti

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(queniano) eVicente Mulago (congolês). Estes pensadores queriam somente encontrar bases
psicológicas para implantar o Evangelho no terreno africano, sem prejudicar ninguém.
Quando a palavra "filosofia" é qualificada pela palavra "africana" não tem o mesmo
significado que a filosofia ocidental do século XIX.
“Parece-me que a uma palavra muda seu significado se aplicada á Europa e á América em vez
da África. Este se refere a um fenômeno comum, como o nosso amigo Odecra (queniano)
humoristicamente comenta: "O que é superstição é apresentado como religião africana. Do
Ocidente espera-se que diga que é mesmo assim, religião africana; o que é mito é apresentado
pelos africanos como Filosofia africana, e os africanos estão á que os ocidentais confirmem que
não é mito, mas Filosofia africana. O que é claramente ditadura é considerado democracia
africana, e espera-se que a cultura europeia apoie dizendo que é mesmo assim." Nós
manipulamos as palavras em nome da cultura africana. O que é pseudodesenvolvimento
(desenvolvimento da elite, favoritismo) é descrito em África como desenvolvimento cultural e
esperamos que o Ocidente aplauda tudo isto como desenvolvimento africano.” Portanto, segundo
Hountondji, as palavras mudam de significado quando passam do contexto europeu para o
contexto africano.

2.3. Filosofia Política


Além das teorias das filosofias ocidentais que mencionamos na contextualização histórica (no
ponto 3.1), os trabalhos forçados e a escravatura contribuíram sobremaneira para a redução do
homem negro ao status de coisa, de mercadoria suscetível de ser vendida e comprada, um
simples instrumento de trabalho e fonte de rendimento das economias ocidentais.
Assim, é óbvio que a prioridade do negro seja a sua emancipação.
Nas colônias da América do Norte, destacou-se um movimento de revolta, manifesto pelos
escravos através das chamadas work songs e posteriormente dos gospel spirituals, nas igrejas. A
característica fundamental do africano é ser um guerreiro pela liberdade. As primeiras formas de
luta do homem negro pela liberdade foram teorizadas por duas visões: a primeira acreditava que
o negro só se emanciparia plenamente voltando à sua terra natal (África); a outra corrente
defendia que o homem negro podia viver livre e em pé de igualdade com os brancos sem precisar
sair da América. A primeira corrente foi defendida pelo jamaicano Marcus Garvey, discípulo de
Booker Washington, e a segunda por William Edward Burghardt Du Bois.
Encontramos doravante duas perspectivas, duas ideologias de libertação, cujas diferenças não
são somente ideológicas, mas também raciais. Du Bois era um jovem culto (cursara a
Universidade, tendo sido o primeiro negro a fazer um curso superior). Marcus Garvey, conhecido
como um anextraodinary leader of men, não estudara muito, mas viu muitos negros a trabalhar
em condições desumanas. É importante salientar que Garvey começou a trabalhar aos 15 anos e
foi expulso do seu serviço por incitar seus colegas a protestar contra as condições injustas em
que trabalhavam. Este julgava que os libertadores da raça negra deveriam ser negros autênticos e
que o negro só se realizaria plenamente na sua terra natal, em Africa. Ora, Du Bois era mulato,

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por isso Garvey não o considerava negro. Na sua opinião, Du Bois não passava de um
prolongamento da mão do branco, pois não concordava com o regresso do negro à África-mãe.
Garvey construiu um navio para levar os negros que quisessem voltar à terra de origem.
Du Bois, contrariamente ao seu antecessor Booker Washington, que achava que a emancipação
do negro passava por uma formação técnica e por se acomodar à posição subalterna do negro nos
EUA, afirmou que o problema fundamental dos negros não era de ordem econômica, mas antes
política. Du Bois postulou a existência de elites intelectuais que serviriam de pontos de
referência para os outros.

A maior dificuldade que Du Bois teve de enfrentar foi levantar o moral do negro ,
freneticamente rebaixado pelas filosofias ocidentais. Este disse ao homem negro que Africa teve
impérios: o império de Ghana, o império de Mwenemutapa, Benin, Mali, Shongai, etc., os quais
deram um grande contributo para a humanidade.
Paralelamente a Du Bois, e ainda sobre a mesma problemática, em Nations Negres et culture,
de Cheikh Anta Diop, lê-se “Supomos, com a egiptologia moderna, que os egipcios eram de raça
branca. Assim, teriam como conterraneos gregos e romanos. Estes tiveram um espirito cientifico
e filosofico identico ao da gente moderna do Ocidente [...]. No entanto, tudo indica que os
egipcios eram de raça negra, como os etiopes e outros africanos, e que o Egipto civilizou o
mundo [...]. Dados dos antigos escritores e filosofos e da Biblia [...] sao testemunhos oculares
que afirmam formalmente que os egipicios eram negros.”
Outra evidencia da influencia africana sobre o Ocidente e a pintura: a pintura europeia
revolucionou-se quando o pintor espanhol Pablo Picasso entrou num museu que ostentava
objectos da cultura africana e ficou profundamente impressionado com uma mascara ( assim
nasceu o cubismo de Picasso).
O africano era visto como um povo que nunca fizera nada de significativo. Os ocidentais
“desconhecem ou negligenciavam a célebre tese que coloca o negro africano em um lugar
privilegiado, considerando-o um dos "arquitectos" da Filosofia grega, que contou com a
sabedoria e a inteligência dos egípcios, cuja a população não era apenas formada por homens de
raça branca”. Ao que tudo indica, o desprezo pelo negro e a sua consequente condenação a um
plano o mais inferior possível foram deliberados, apoiando-se na literatura, o Ocidente tentou
distorcer tudo o que abonava a raça negra. Nos estudos de Maurice Delafosse, foi revelado que a
época medieval africana era, sob muitos pontos de vista, comparável à época medieval europeia.
Neste estudo dedicado à história da África Ocidental, concluiu-se que a pretensa inferioridade
intelectual do negro nunca tinha sido demonstrada e que havia provas que a contradiziam.
Tudo isto prova que o Ocidente assumiu atitudes etnocêntricas, especialmente em relação ao
continente africano e aos seus habitantes, como ficou demonstrado no julgamento do padre
Bartolomeu de Las Casas, por defender a humanidade dos índios. O cardeal Antônio chegou a
aceitar que os índios eram homens, porém preveniu Las Casas que estender essa humanidade aos
negros seria um exagero.

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Este estudo revela tão-somente que a pretensa inferioridade do negro foi a arma psicológica
que o branco inventou para denegrir a sua imagem, com o fim último de dominá-lo. Sendo
assim, os intelectuais africanos tinham como missão procurar caminhos para a reconquista da
humanidade perdida. Esta tarefa foi levada a cabo por várias correntes de pensamento, como o
pan-africanismo, a negritude e o Black renaissance, entre outras.

Pan-Africanismo
O pan-africanismo surge como uma manifestação de solidariedade entre os africanos e os
povos de descendência africana. O seu obcjetivo principal era a unidade política dos Estados
africanos. A sua perspectiva englobava a federação dos países regionais autônomos e o seu
enquadramento num conjuntu de Estados Unidos de África. Dito de outra forma, o pan-
africanismo lançou as bases da filosofia política africana, como vimos na Unidade 2, no capítulo
sobre a filosofia política africana.
A primeira conferência pan-Africana teve lugar em Londres, em 1900. O seu objetivo era
procurar uma forma de proteção contra os agressores imperialistas brancos e contra a política
colonial que até então submetia os negros. Entendia-se que, por esta via, o africano conquistaria
o direito à sua própria terra, à sua personalidade. Tratava-se, portanto, de uma luta pelo direito de
todos os africanos serem tratados como homens, daí o conceito de pan-africanismo.

Renascimento Negro (Black Renaissance) e Renascimento Africano (African Renaissance)


Foi dentro do espírito emergente de revolta contra o colonialismo que surgiu o Black
Renaissance, cujo fundador foi Du Bois. Esta corrente de pensamento teve repercussões sociais,
que consistiam em incutir no homem negro a ideia de ser igual aos brancos. Este movimento
difundia ideologias contra a discriminação do povo negro. Defendia que os negros não podiam
continuar a assistir passivamente à sua própria discriminação e que deviam reagir perante os
tratamentos desumanos. Du Bois afirmava: "[...] que os brancos saibam que por cada porrada que
o branco der a um negro, nós lhes vamos dar duas; por um negro morto, nós vamos matar dois
brancos."
Azikiwe escreveu em Renascent Africa: “Ensinai que renasce a ser homem."
Foi no âmbito do Renascimento Africano que se desenvolveu o conceito de personalidade
africana. A personalidade africana defende que existem características comuns, atributos
essenciais e únicos que fazem parte do ser de todos os africanos. A ideia de "African Personality"
teve as suas raízes em Edward Wilmot Blyden e foi retomada por Kwame Nkrumah.
Blyden fundou a dignidade do africano na mesma linha do movimento negritude, procurando
provar que a raça negra tinha uma história e uma cultura das quais se podia orgulhar.
Blyden reflecte não sobre o passado do africano, mas sobre o que se deveria fazer em prol de
um futuro africano mais digno. Para ele, cada um de nós tem um dever especial a cumprir, um
trabalho não só importante, como também necessário, um trabalho a realizar pela raça a que

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pertencemos: lutar pela própria individualidade para manter e desenvolver. "Orai e amai a vossa
raça. Se não fordes vós mesmos, se abdicardes da vossa personalidade, não havereis deixado
nada ao mundo. Não tereis satisfação, utilidade, nada que atraia ou fascine os homens, porque
com a supressão da vossa individualidade havereis perdido o vosso caráter distintivo. Vereis,
então, que ter abdicado da vossa personalidade significará ter abdicado da missão e da glória
particular à qual sois chamados" - aconselha Blyden, notando que " seia de facto renunciar a
vossa divina individualidade, o que seria o pior dos suicídios."
Este pensador demonstra que os costumes e as instituições da África negra estão em
consonância com as necessidades dos africanos. Ademais, África pode dar um contributo ao
mundo nas questões de ordem espiritual. A civilização europeia é dura, individualista,
competitiva, materialista e fundada sobre o culto da ciência e da técnica. A civilização africana é
doce e humana.
Para Nkrumah, o homem africano é um ser espiritual, dotado de dignidade, integridade e valor
intrínseco.

2.4. Filosofia Cultural (Negritude)


A Negritude insere-se no espírito pan-africanista da união e solidariedade entre os africanos,
com a simples diferença de se revestir de um caráter cultural e literário. Tal como o pan-
africanismo, a Negritude nasceu fora do continente africano, como resultado dos esforços
emancipatórios da comunidade negra radicada em França. Os mentores deste projeto eram
membros das profissões liberais, estudantes, eclesiásticos, intelectuais e políticos.
A Negritude pretendia a união de todos os negros. Césaire, depois Senghor, mais tarde, a
revista Présence Africaine e os congressos de escritores e artistas negros, que aquela organizou
em 1956 e 1959, dão expressão à ideia da unidade africana sob a forma cultural.
O evolucionismo, classificando as sociedades segundo o seu grau de desenvolvimento técnico,
confirmou a visão etnocêntrica da elite ocidental e facilitou o colonialismo. A maioria dos
evolucionistas, como Tyler e Morgan, e os etnocentristas, como, por exemplo, Levy Brhul, não
admitiam a possibilidade de haver culturas que não fossem europeias. Estes consideravam a vida
cultural das outras sociedades como estádios arcaicos de um único processo cultural, no qual a
Europa representava o estádio mais completo.
O funcionalismo, por sua vez, sugerindo a ieredutibilidade das culturas a um denominador
comum, abria as portas ao princípio do relativismo cultural evocado pela etnologia americana. A
corrente relativista punha a tônica na diversidade cultural e social, considerando que a unidade
do gênero humano se manifestava na sua capacidade de diferenciar entre múltiplas culturas. A
posição relativista pretendia sobretudo lutar contra o imperialismo americano e defender as
minorias colonizadas, os grupos africanos. Esta corrente impôs como normas o respeito pela
diferença, a tolerância, a crença na pluralidade de valores e a aceitação da diversidade.

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Assim, abriam-se as portas para o pronunciamento da cultura africana, ou melhor, a negritude
surge como resposta imediata ao espaço aberto pelo relativismo cultural.
Entretanto, coube a Aimé Césaire o mérito de ser considerado o grande impulsionador deste
termo. Aliás, a ele cabe a paternidade do termo "negritude", pois o seu conceito já se consegue
distinguir no projeto anglófono do pan-africanismo.
Os maiores impulsionadores da negritude - Césaire (antilhano), Senghor (senegalês) e Damas
(guianes) - resumiram o projeto em três conceitos:
 Identidade: consiste em o negro assumir plenamente a sua condição;
 Fidelidade: atitude que traduz a ligação do homem negro à terra-mãe;
 Solidariedade: sentimento que liga secretamente todos os irmãos.
A negritude era um movimento principalmente cultural e literário, mas com pretensões também
políticas, conquanto protestava contra a atitude colonialista, lutando pela emancipação do povo.
O poema de Noémia de Sousa "Let my people go⁄Deixa passar o meu povo", é disso um exemplo
vivo.
É útil reler os escritos de Senghor e sentir a nostalgia com que este lembra o seu passado
recente:
“[...] quando Césaire, Damas e eu próprio ainda nos sentávamos nos bancos do liceu[...]” diziam
“[...] nós, criadores da nova geração, queremos exprimir a nossa personalidade negra sem
vergonha nem temor. Se isto agrada aos brancos, ainda bem. Se não lhes agrada, não importa. É
para amanhã que construimos os nossos templos, templos sólidos como nós sabemos edificar, e
permanecemos erectos em cima da montanha, livres em nós mesmos”.
No mundo da lusofonia, o movimento foi difundido por vários orgãos, como, por exemplo, a
Junta de Defesa dos Direitos da África, a Tribuna de África e A Mensagem, formadas por
africanos e europeus favoráveis à promoção da cultura negro-africana.
Foi neste contexto que, em 1920, nasce, em Lisboa, a Liga Africana com os seguintes
objetivos:
 Promover, através de todas as mudanças políticas, o progresso físico, mental e econômico da
raça africana nas colônias portuguesas;
 Conseguir a revogação de todas as leis e regulamentos de excepção contra os africanos ainda
existentes na legislação colonial portuguesa, especialmente no que diz respeito ao direito de
propriedade;
 Conseguir que se torne realidade o livre acesso de indivíduos de raça africana a todas as
situações sociais e cargos públicos, nas mesmas condições exigidas aos indivíduos de raça
branca.

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