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Gênero e Atitudes sobre Sexualidade

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PAPEL DE GÊNERO E ATITUDES ACERCA

DA SEXUALIDADE

Maria Alice D'Amorim


Universidade de Brasília

RESUMO - Estudantes e profissionais de ambos os sexos, oriundos de


quatro cidades brasileiras responderam ao Inventário de Papel Sexual de
Bem (1974) sendo agrupados, de acordo com os escores obtidos, como
masculinos (59), femininos (170), andrógenos (74) e indiferenciados (97);
os sujeitos responderam também a Escala de Atitudes diante da Sexuali-
dade de Pasquali, Souza e Tanizaki (1985). Foi predito que os sujeitos
com alto nível de tipificação de gênero (masculinos e femininos) seriam
menos tolerantes, diante de assuntos polémicos referentes ao comporta-
mento sexual, do que os sujeitos cujo nível de tipificação de género é bai-
xo (andrógenos e indiferenciados). Testes Mann Whitney foram usados
nos seis fatores da Escala de Atitude. A predição foi confirmada no caso
de dois fatores que apresentavam como legítimos a homossexualidade e
as relações extra-conjugais.

ROLE OF GENDER AND ATTITUDES IN REGARD


TO SEXUALITY

ABSTRACT - Male and famale undergraduates and professionals of four


Brazilian cities answered Bem's Sex-Role Inventory (1974) and were
grouped according to their scores as masculine (59), feminine (170), an-
drogynous (74), and undifferentiated (97). They also answered Pasquali,
Souza and Tanizaki's Atittude Towards Sexuality Scale (1985). It was
predicted, according to Bem (1981), that high gender-typed subjects
(masculine and feminine) would have less tolerant attitudes towards de-
batable issues in sexual behavior than low gender-typed ones (androgy-
nous and undifferentiated). Mann Whitney tests were used for the six
factors of the attitude scale. The prediction was confirmed for two factors,
that described extra-marital relationships and homosexuality as legitimate.

Ao estudar os papéis sociais atribuídos, em geral, a homens e mulheres, um


primeiro cuidado deve ser o de clarificar os conceitos de sexo e género. O termo se-
xo, ligado basicamente à composição cromossômica do indivfduo e ao tipo de apare-
lho reprodutor dela resultante, teve seu significado alargado de modo a abranger as

Endereço: Instituto de Psicologia- Universidade de Brasília; 70910 - Brasília, DF.

Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, V.5, N° 1, pp. 71 -83 71


características intrapsíquicas e comportamentais consideradas típicas de homens e
mulheres. Na verdade, enquanto o conceito de sexo, em seu sentido mais estrito, tem
apoio em diferenças anatómicas e fisiológicas entre indivíduos, a expectativa de de-
terminados traços de personalidade como típicos de homens e mulheres, é um cons-
truto simbólico, de caráter social, cuja base são os valores do grupo. Diante da ne-
cessidade de distinguir o enfoque social do biológico, os autores mais recentes têm
preferido o termo gênero ao falarem de aspectos pcicológicos e comportamentais. Esta
distinção torna menos provável a atribuição sistemática das diferenças encontradas
entre os grupos masculino e feminino a fatores biológicos; assim, género refere-se à
soma das características psico-sociais consideradas apropriadas aos membros de
cada grupo sexual, sendo a identidade de género o conjunto destas expectativas, in-
ternalizadas pelo indivíduo, em resposta aos estímulos biológicos e sociais (Unger,
1979).
O construto de identidade de género é visto atualmente como um conjunto das
crenças, atitudes e estereótipos do indivíduo; Katz (1986) o explica a partir de seus
antecedentes bio-psico-sociais e de sua influência sobre o comportamento.
O enfoque atual assume que os estereótipos culturais constituem um elemento
importante na formação da identidade de género, cujas fontes são, em sua maioria,
mais externas do que internas; dentre os fatores enumerados por Katz (1986), apenas
os biológicos são vistos como internos. Da intemalização destes diversos fatores
surge a identidade de género, que irá orientar os comportamentos e estereótipos do
indivíduo, ligados à sua percepção da própria personalidade.
O desenvolvimento da identidade de género foi estudado por Block (1973), que
distingue várias fases: a percepção inicial da identidade sexual, a aceitação do papel
de gênero imposto através da socialização direta, o exame critico das implicações
desta realidade cultural, chegando finalmente à construção da identidade de género,
através da conciliação dos aspectos femininos e masculinos da própria personalida-
de, numa integração eminentemente pessoal. O desenvolvimento da identidade de
género é visto como uma parte importante da formação da identidade psicossocial
global (Costos, 1986).
Um momento importante na aquisição do papel de género é aquele no qual a
criança percebe a constância do sexo, através de variações comportamentais e a
existência de características psicológicas comuns a ambos os sexos. A partir desta
percepção, a criança se torna mais flexível em seus estereótipos de género e menos
exigente no que considera a adequação do comportamento ao sexo (Bernt e Heller,
1986).
O estereótipo de género é o conjunto de crenças acerca dos atributos pessoais
adequados a homens e mulheres, sejam estas crenças individuais ou partilhadas.
Adotando um enfoque cognitivo e social, Ashmore e Del Boca (1986) consideram os
estereótipos de género como parte da teoria implícita da personalidade construída pelo
indivíduo e conservada na memória, como parte de seu sistema geral de valores.
Os estudos sobre diferenças de gênero têm-se apoiado no conceito de mascu-
linidade-feminilidade, visto inicialmente como uma única dimensão, com os indivíduos
altamente masculinos em uma extremidade e os altamente femininos na outra. Pes-

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quisas mais recentes têm considerado os traços de masculinidade e feminilidade co-
mo independentes, presentes ambos em homens e mulheres, em níveis diferentes.
Os estudos de Bem (1974; 1975) oferecem suporte a este ponto de vista. A autora
desenvolveu o conceito de androgenia que significa a posse, em alto grau, de carac-
terísticas consideradas tanto masculinas como femininas. Em pesquisa posterior,
Bem constatou que indivíduos andrógenos, de ambos os sexos, realizam com maior
facilidade, comportamentos considerados como típicos do sexo oposto, adaptando-se
assim melhor às exigências situacionais (Bem e Lenney, 1976).
Em 1981, Bem elabora a Teoria de Esquema de Género, apoiada no processo
de desenvolvimento da identidade de género na criança. Durante a infância, além de
receber informações acerca do tipo de comportamento adequado a cada sexo, a
criança aprende a evocar este conjunto de dados sempre que tem de processar uma
informação nova, ligada ao comportamento feminino ou masculino. Este quadro de
referência embasa sua concepção do papel de género. A Teoria de Esquema de Gé-
nero considera a percepção como um processo de construção, sendo o percebido um
produto da integração entre a informação recebida no momento e o esquema cognitivo
já existente (Bem, 1981).
Mais recentemente, Payne, Conner e Colletti (1987) esquematizam as implica-
ções da tipificação de género elaborada por Bem (1981), para a retenção da informa-
ção acerca de aspectos sexuais. Segundo estes autores, os indivíduos andrógenos,
indiferenciados (baixo nível de características masculinas e femininas), ou cruzados
(alto nível das características opostas ao seu sexo biológico), não possuem um es-
quema de género definido. Nestes casos, não há predominância da retenção da in-
formação e lembranças sexualmente coerentes, como ocorre no caso dos indivíduos
masculinos ou femininos. Esta maior tolerância à informação sexualmente ambígua
daria lugar, no caso dos andrógenos, a uma maior adaptabilidade comportamental
(Orlofsky e Heron, 1987) e melhor relacionamento pessoal com o parceiro sexual
(Kurdek e Schmitt, 1986).
Este estudo pretende verificar a influência da tipificação de género nas atitudes
do sujeito em relação a vários aspectos da sexualidade. Os estudos anteriores per-
mitem prever uma atitude de maior aceitação, diante de vários temas controvertidos
de sexualidade humana, por parte daqueles sujeitos cuja tipificação sexual é menos
estrita, isto é, os andrógenos e os indiferenciados. Esta hipótese será testada especi-
ficamente em relação à liberdade de escolha do parceiro sexual manifesta através da
homossexualidade e das relações pré e extraconjugais. Os sujeitos de baixa tipifica-
ção de género, andrógenos e indiferenciados, deverão mostrar maior aceitação des-
tes comportamentos do que os sujeitos cuja tipificação é alta (masculinos e femini-
nos).

MÉTODO
Sujeitos

Participaram da pesquisa 273 estudantes universitários e 127 profissionais de


quatro cidades: Brasília (34,5%), Porto Alegre (23,3%), Uberlândia (25,4%) e Uberaba

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(16,8%).* O grupo inclui 30,5% de homens e 69,5% de mulheres com idade média de
24,3 anos e desvio padrão de 6,19. Os solteiros compunham 76,0% do grupo, os ca-
sados 22,0% sendo os 2,0% restantes divorciados, separados ou viúvos.

Instrumentos

1. O inventário de papéis sexuais de Bem (1974), na adaptação de Oliveira


(1983), foi utilizado para obter os escores de tipificação de gênero dos participantes.
Este instrumento apresenta aos sujeitos 60 características comportamentais, sendo
20 delas consideradas masculinas, 20 femininas e 20 neutras; destas últimas, dez
são vistas como positivas e 10 como negativas. O participante responde numa escala
de 7 pontos, o quanto a característica é verdadeira quando a ele aplicada, sendo o
valor 1 igual a nunca é verdadeiro e o valor 7 significando que é sempre verdadeira. A
mediana dos escores obtidos pelos sujeitos nas escalas masculina e feminina permite
a classificação de cada participante, segundo o seu escore individual, em um dos
quatro tipos de papel sexual: masculino (escore acima da mediana na escala masculi-
na e abaixo na feminina), feminino (situação inversa), andrógeno (acima da mediana em
ambos), ou indiferenciado (abaixo da mediana em ambos).**
2. A escala de atitude diante da Sexualidade (E.A.S.) de Pasquali, Souza e Ta-
nizaki (1985) consta de 69 itens abrangendo diversos aspectos da sexualidade hu-
mana. Os itens são respondidos numa escala de 5 pontos com o valor 1 significando
desacordo total e valor 5 uma aceitação integral. Alguns itens, redigidos de forma ne-
gativa, devem sofrer inversão de seus valores de escala.
Uma análise fatorial, realizada pelos autores, produziu seis fatores: 1. O sexo
como algo vergonhoso, perigoso e inútil; 2. A legitimidade das relações sexuais pré e
extraconjugais; 3. O sexo como um envolvimento consciente e livre; 4. A legitimidade
da homossexualidade; 5. A legitimidade da masturbação; 6. A gravidez como um
transtorno. A escala pode ser vista no Anexo 1.

RESULTADOS

1. Tipificação de género

Usando o cálculo das medianas das escalas de masculinidade (Md = 4,49) e


feminilidade (Md = 4,40), os sujeitos foram classificados segundo a sua tipificação de
gênero em masculinos (59), femininos (170), andrógenos (74) e indiferenciados (97).
A distribuição desta tipificação, segundo o sexo do sujeito, pode ser vista na Tabela 1.
Pode-se notar predominância da tipificação feminina no grupo das mulheres,
enquanto os homens estão divididos entre masculinos e indiferenciados.

* A autora agradece a colaboração indispensável dos professores: Dra. Angela M. B, Biaggio


(UFRS), Dr. José Augusto Dela Coleta (UFU) e do Sr. Balsen Pinelli Jr. (FIUBE), cuja ajuda tornou
possível a coleta de dados.
** Explicações mais detalhadas podem ser encontradas em Oliveira (1983).

74
Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, V.5, N° 1, pp. 71-83
Tabela 1 - Tipificação de género segundo o sexo do sujeito

SEXO

Tipificação Homens Mulheres Total


f % f % f %

Masculinos 43 35,2 16 5,8 59 14,7


Femininos 16 13,1 154 55,4 170 42,5
Andrógenos 23 18,9 51 18,3 74 18,5
Indiferenciados 40 32,8 57 20,5 97 24,3

TOTAL 122 100,0 278 100,0 400 100,0

X2 = 90,146 gl = 3 p = 0,000

2. A Escala de Atitude diante da Sexualidade (E.A.S.)

Foram calculados os coeficientes de precisão dos seis fatores da E.A.S., sendo


os resultados apresentados na Tabela 2.
Os dois fatores que constituíram o objeto da hipótese obtiveram escores de
precisão próximos aos obtidos pelos autores no momento da construção da escala,
com 1.434 sujeitos (Pasquali, Souza e Tanizaki, 1985).

3. Diferenças de atitude diante da sexualidade segundo o nível


de tipificação de gênero

Segundo Bem (1981), indivíduos masculinos e femininos possuem um esquema


de gênero altamente tipificado, quando comparados aos andrógenos e indiferencia-
dos. A baixa tipificação destes últimos os torna mais tolerantes diante de afirmações
acerca de comportamentos sexuais não convencionais, tais como as relações se-
xuais pré e extraconjugais e a prática da homossexualidade. Para testar esta hipótese
foi calculada a diferença de médias das atitudes dos grupos de alta o baixa tipificação
de gênero, usando o teste U de Mann Whitney, cujos resultados são apresentados
em valores de Z.
Dentre os seis fatores da E.A.S., dois apresentaram diferenças significativas li-
gadas ao nível de tipificação de género, aqueles que foram objeto da hipótese. Eles
defendem a legitimidade da homossexualidade e das relações pré e extraconjugais.
Para os demais aspectos da sexualidade abordados na E.A.S., o nível de tipificação
de género dos sujeitos não foi relevante.
Os resultados referentes à legitimidade das relações sexuais pré e extraconju-
gais podem ser vistos na Tabela 3.
Foi encontrada uma tendência geral a uma atitude mais favorável em relação às
relações sexuais pré e extraconjugais por parte dos andrógenos e indiferenciados,

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Tabela 2 - Coeficiente de precisão da E.A.S.

N9 de ALP HA ALPHA
Fator DESCRIÇÃO
Itens (N =1434) (N=400)

21 Sexo; algo vergonhoso, perigosc > e inútil 0,8 8 0,813


09 Legitimidade das relações sexuais pré e
extra conjugais 0,7 7 0,755
03 08 Sexo; um envolvimento consciente e livre 0,6 5 0,627
15 Legitimidade da homossexualidade 0,8 8 0,843
12 Legitimidade da masturbação 0,8 7 0,835
16 A gravidez como um transtorno 0,84 0,749

Fatores que foram objeto da hipótese.

Tabela 3 - Médias das atitudes diante do comportamento sexual p ré e extraconjugal


segundo o nível de tipificação de género do sujeito

Resumo do Enunciado Nível de Tipificação P


Fator Z
no Anexo 1 Alto Baixo

02 Legitimidade das Relações pré


e extraconjugais 2,87 2,99 -2,578 0,00

Itens
20 Relações sexuais extraconjugais 1,88 2,02 -2,366 0,00
fortalecem o relacionamento conju-
gal das pessoas envolvidas.
23* Relações sexuais extraconjugais 2,22 2,42 -2,750 0,00
são sempre prejudiciais para o ca-
samento.
29 Relação sexual extraconjugal ê 1,89 2,17 -1,781 0,03
aceitável na mulher.
38 Relações sexuais antes do casa- 4,04 4,01 -0,993 0,16
mento deveriam ser socialmente
aceitáveis.
40 As mulheres deveriam ter experiên- 3,57 3,66 -0,704 0,24
cia de relação sexual antes do ca-
samento.
43* Relações sexuais fora do casa- 2,98 3,16 -1,572 0,05
mento são moralmente indesejáveis.

76 Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, V.5, N° 1, pp. 71-83


Resumo do Enunciado Nível de Tipificação Z P
no Anexo 1 Alto Baixo

62* Relações extraconjugais mostram 2,07 2,16 -1,781 0,03


que algo está errado com o casa-
mento.
63* Relações sexuais deveriam ocorrer 3,54 3,56 -0,844 0,19
somente entre parceiros casados.
67* Qualquer atividade sexual fora do 3,63 3,84 - 2,21 0,01
casamento e condenável.

* = Itens cujos escores foram invertidos.

como mostra a diferença obtida no fator dois. Uma análise dos nove itens que com-
põem o fator mostra que esta diferença está presente nos itens relacionados especifi-
camente com as relações sexuais extraconjugais (itens 20, 23, 29, 43, 62 e 67). Os
demais itens que constituem este fator não apresentaram diferenças de atitude entre
os dois grupos sujeitos.
Os resultados referentes à legitimidade da homossexualidade aparecem na Ta-
bela 4.
Uma diferença geral de atitude, confirmando a hipótese foi encontrada para o
fator 4, porém dos 15 itens que o compõem, apenas seis apresentaram diferenças
significativas (itens 1, 18, 19, 39, 58 e 65); os demais não diferenciam as atitudes dos
sujeitos de alto e baixo nível de tipificação de gênero.

DISCUSSÃO

A importância de distinguir entre as características biológicas ligadas ao sexo e


as psicossociais que, além das limitações orgânicas, sofrem a influência determinante
de fatores sócio-culturais, tem intensificado o interesse pelos estudos de Bem (1974,
1975, 1981) e a utilização do Inventário de Papéis Sexuais. Este estudo procurou
testar a hipótese de que os indivíduos de alta tipificação de gênero, isto é, os masculi-
nos e femininos, seriam menos tolerantes diante de afirmações favoráveis à prática
de atitudes sexuais não convencionais, quando comparados a pessoas cujo nível de
tipificação é baixo, os andrógenos e indiferenciados. Para a verificação foi usado a
Escala de Atitude diante da Sexualidade (E.A.S.) de Pasquali, Souza e Tanizaki
(1985).
Ao compararmos os resultados atuais com os obtidos por Pasquali, Souza e
Tanizaki (1985), encontramos duas diferenças importantes. Na elaboração da escala,
o fator 1 teve correlações negativas com todos os demais, sendo caracterizado pelos

Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, V.5, N° 1, pp. 71-83 77


Tabela 4 - Médias das atitudes diante da homossexualidade segundo a tipificação de
gênero do sujeito
Resumo do Enunciado Nível de Tipifi cação Z P
Fator
no Anexo 1 Alto Baixo
04 Legitimidade da
Homossexualidade 2,76 3,00 -1,773 0,03

01 Os homossexuais devem ter o di- 3,60 3,90 -2,127 0,01


reito de ser o que são.
10 A homossexualidade é aceitável no 2,37 2,65 -0,862 0,19
homem.
11 Os homossexuais são pessoas co- 3,85 3,96 -0,693 0,24
mo quaisquer outras.
13 Não há nada de errado nas relações 2,20 2,42 -1,401 0,08
amorosas entre pessoas do mesmo
sexo.
16 A homossexualidade é aceitável na 2,52 2,68 -0,692 0,24
mulher.
18* A única forma aceitável da relação 1,95 2,25 -1,936 0,02
sexual é entre um homem e uma
mulher.
19* A homossexualidade deve ser con- 3,60 3,96 -2,280 0,00
siderada como "sem-vergonhice".
21 É válida para as mulheres a cirurgia 2.04 2,20 -0,400 0,34
plástica para mudar de sexo.
22 É compreensível que na adolescên- 3,34 3,54 -0,400 0,34
cia ocorram atos de homossexuali-
dade.
27 É perfeitamente normal ter desejos 2,06 2,33 -1,362 0,08
por pessoas do mesmo sexo.
31 Na impossibilidade de contatos com 2,28 2,50 -1,037 0,19
pessoas do sexo oposto é compre-
ensível a atividade homossexual.
34 É válida, para o homem, a cirurgia 2,06 2,28 -0,096 0,46
plástica com a finalidade de mudar
de sexo.
39 Os homossexuais devem ter o di- 3,78 4,03 -1,635 0,05
reito de ser o que são.
58 Antes a homossexualidade do que 1,93 2,30 -1,556 0,05
viver sem sexo.
65* A homossexualidade deveria ser le- 3,86 4,25 -1,908 0,02
galmente proibida.

* - Itens cujos valores foram invertidos.

78 Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, V.5, N° 1, pp. 71-83


autores como um núcleo independente, onde a sexualidade é vista como de modo ne-
gativo. No nosso estudo, aspectos da gravidez estão incluídos neste núcleo, já que
os fatores 1 e 6 tiveram correlação positiva. Os demais fatores podem ser considera-
dos como exprimindo aspectos da sexualidade não diretamente ligados à reprodução.
Esta tendência a separar os aspectos reprodutivo e erótico da sexualidade foi encon-
trada em pesquisa sobre a Educação Sexual nas escalas de Primeiro Grau. Os as-
suntos referentes à sexualidade como função reprodutora eram melhor aceitos por
pais e professores como objeto de educação sexual do que os ligados a uma visão
erótica da sexualidade (D'Amorim, 1982).
Outra diferença entre os resultados deste estudo e os de Pasquali, Souza e
Tanizaki (1985) foi a correlação de 0,00 obtido por eles entre os fatores 2 e 3, o que
exclui do núcleo de aceitação dos vários aspectos da sexualidade a legitimidade das
relações pré e extraconjugais.
A comparação entre as atitudes dos sujeitos de alto e baixo nível de tipificação
sexual quanto às relações sexuais pré e extraconjugais forneceu resultados cuja in-
terpretação não apresenta dificuldade. Os itens referentes ao comportamento sexual
pré-marital parecem ter um alto grau de aceitação por parte dos sujeitos, sem que
sejam observadas diferenças entre os grupos (itens 38, 40 e 63). No caso do com-
portamento sexual extraconjugal, a atitude dos sujeitos de baixo nível de tipificação de
género é bem mais tolerante que a dos de alto nível (itens 20, 23, 29, 43, 62 e 67). Po-
de-se talvez supor que o fator 2, tal como elaborado por Pasquali, Souza e Tanizaki
(1985) compõe-se, na realidade, de dois elementos cuja relação não é suficiente para
constituir um só fator; esta observação tem como base a percepção das expressões
extraconjugal e fora do casamento como sinônimos.
A aceitação da legitimidade da homossexualidade apresenta um problema bem
mais sério de interpretação. Dos 15 itens que compõem o fator, podemos dizer que
apresentaram diferenças na direção prevista seis itens, dos quais três tem um caráter
bastante extremo, na sua reprovação da homossexualidade (itens 18,19 e 67), sendo
a posição mais tolerante assumida pelos sujeitos andrógenos e indiferenciados. Os
demais itens que apresentam diferenças, sempre na direção prevista, afirmam o di-
reito dos homossexuais de serem como são e a homossexualidade como preferível à
castidade; nos demais itens que abrangem a aceitabilidade da homossexualidade em
homens e mulheres, das mudanças de sexo, do comportamento homossexual nos
adolescentes, da atração por pessoas do mesmo sexo, as atitudes dos dois grupos
não apresentaram diferenças significativas, embora os andrógenos e indiferenciados
sejam sistematicamente mais favoráveis.
Uma avaliação global do estudo revela uma confirmação parcial da hipótese.
Verifica-se entretanto, que, de modo geral, o nível de confirmação foi fraco; este tipo
de resultados sugere uma nova exploração do problema da tipificação de género atra-
vés de outros instrumentos de avaliação de atitude diante da sexualidade, e mesmo
abordando outras áreas do comportamento, onde os fatores psicossociais ligados ao
gênero possam ter relevância no estabelecimento dos estereótipos.

Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, V.5, N° 1, pp. 71-83 79


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Artigo recebido em julho de 1988.

80 Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, V.5, N° 1, pp. 71-83


ANEXO I

O INSTRUMENTO EAS

01 - Os homossexuais devem ter o direito de ser o que são.


02 - O uso do sexo leva a doenças venéras.
03 - Masturbação ente meninos causa impotência.
04 - A sexualidade degrada a pessoa humana.
05 - Muito sexo leva à prostituição.
06 - Masturbação entre meninas causa comportamento homossexual (lesbianismo).
07 - No homem, muito sexo antes do casamento favorece a infidelidade.
08 - A virginidade entre moças solteiras deveria ser encorajada.
09 - Doenças venéreas é típico de prostituta.
10 - A homossexualidade é aceitável no homem.
11 - Os homossexuais são pessoas como quaisquer outras.
12 - Não tem nada de mal em se masturbar.
13 - Não há nada de errado nas relações amorosas entre pessoas do mesmo sexo.
14 - Doenças venéreas é típico de homossexual.
15 - A masturbação é aceitável para a mulher.
16 - A homossexualidade é aceitável na mulher.
17 - É vergonhoso ser frígida (fria).
18 - A única forma aceitável de relação sexual é entre um homem e uma mulher.
19 - A homossexualidade deve ser considerada como "sem-vergonhice".
20 - Relações sexuais extraconjugais (fora do casamento) fortalecem o relaciona-
mento conjugal das pessoas envolvidas.
21 - É válida para as mulheres a cirurgia plástica com finalidade de mudar de sexo.
22 - É compreensível que na adolescência ocorram alguns atos de homossexualida-
de.
23 - Relações sexuais extraconjugais são sempre prejudiciais para o casamento.
24 - Felizmente a menopausa é o fim da vida sexual.
25 - Escolher entre ter ou não relação sexual antes do casamento deve ficar a critério
do casal.
26 - A masturbação é aceitável no homem.
27 - É perfeitamente normal ter desejos por pessoas do mesmo sexo.
28 - É preciso ser criativo na atividade sexual.
29 - Relação sexual extraconjugal é aceitável na mulher.
30 - A gravidez é um transtorno para o marido.
31 - Na impossibilidade de contatos com o sexo oposto, é compreensível a atividade
homossexual.
32 - Um homem estéril não consegue ter desejo sexual.
33 - A gravidez é um transtorno para a mulher.
34 - É válida para os homens a cirurgia plástica com a finalidade de mudar o sexo.
35 - A gravidez é indecente e não deveria ser exposta às crianças.
36 - Relação sexual pré-marital (antes do casamento) é abuso do sexo.

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37 - É saudável o alívio de tensão através da masturbação.
38 - Relações sexuais antes do casamento deveriam ser socialmente aceitáveis.
39 - Os homossexuais devem ter o direito de ser o que são.
40 - As mulheres deveriam ter experiência de relação sexual antes do casamento.
41 - As amizades entre jovens do sexo oposto devem ser encorajadas.
42 - Sexo é feio, mas é necessário para a procriação.
43 - Relações sexuais fora do casamento são moralmente indesejáveis.
44 - Pessoas em idade mais avançada não deveriam pensar em sexo.
4 5 - O ato sexual somente é bom até os 60 anos.
4 6 - O sucesso do ato sexual depende da participação ativa tanto do homem como
da mulher.
47 - É vergonhoso constatar-se a esterilidade na mulher.
48 - Relações sexuais extraconjugais são mais aceitáveis para os homens.
49 - Os parceiros devem discutir francamente um com o outro sobre seus sentimen-
tos e problemas sexuais.
50 - As amizades com o sexo oposto devem ser mais discretas.
51 - Os pais devem impedir a masturbação nos seus filhos de ambos os sexos.
52 - A gravidez é um transtorno para a vida conjugal.
53 - A gravidez é deselegante.
54 - Se não houvesse sexo, não haveria crime no mundo.
55 - Na mulher, muito sexo antes do casamento favorece a infidelidade.
56 - A esterilidade impossibilita ter prazer nas relações sexuais.
57 - A gravidez é um acontecimento maravilhoso para a vida conjugal.
58 - Antes a homossexualidade do que viver sem sexo.
59 - Nada justifica a masturbação.
60 - É vergonhoso constatar-se esterilidade no homem.
61 - A masturbação é prejudicial à saúde.
62 - Relações extraconjugais mostram que algo está errado no casamento.
63 - Relações sexuais deveriam ocorrer somente entre parceiros casados.
64 - Masturbar-se produz doença venérea.
65 - A homossexualidade deveria ser legalmente proibida.
66 - Sexo só serve para encher o tempo.
67 - Qualquer atividade sexual fora do casamento é condenável.
68 - Masturbação entre meninas causa frigidez.
69 - A gravidez é destoante (não pega bem) em idade mais madura.

82 Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, V.5, N° 1, pp. 71-83


Fator Itens Total Total
Inversões

01 02, 03, 04, 05, 06, 07, 09, 09, 14,17,19, 24, 36,
42, 48, 50, 55, 56, 64, 65, 68 21
02 20, 23*, 29, 38, 40, 43*, 62*, 63*, 67* 09 05
03 25, 28, 38, 40, 41, 46, 49, 57 08
04 01,10,11,13, 16,18*, 19*, 21, 22, 27, 31, 34,
39, 58, 65* 15 03
05 03*, 12,15, 26, 37, 38, 51*, 59*, 61*, 63*, 64*, 68* 12 07
06 24, 30, 32, 33, 35, 42, 44, 45, 47, 52, 53, 54, 56,
60, 66, 69 16

Itens que aparecem em mais de um fator.


Itens cujo valor de escala deve ser invertido nos fatores em que estão assinalados.

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