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Desafios da Educação na Era da IA

MÉRITO

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Desafios da Educação na Era da IA

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ISSN 1984-8234

Unisinos Journal
of Philosophy
Filosofia Unisinos
Unisinos Journal of Philosophy
25(1): 1-16, 2024 | e25107

Unisinos – doi: 10.4013/fsu.2024.251.07

Artigo

Novos desafios para a educação na


Era da Inteligência Artificial
New Challenges for Education in the Age of Artificial Intelligence

Celso Candido de Azambuja


[Link]
Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos, Programa de Pós-Graduação em Filosofia, São Leopoldo, RS,
Brasil. Email: ccandido@[Link]

Gabriel Ferreira da Silva


[Link]
Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos, Programa de Pós-Graduação em Filosofia, São Leopoldo, RS,
Brasil. Email: gabrielferreira@[Link]

RESUMO
O artigo aborda os efeitos da Inteligência Artificial (IA) na educação, enfatizando a necessidade de
repensar as estratégias pedagógicas nas universidades. Explora as transformações trazidas pela IA in-
cluindo a automação e o potencial de personalização do ensino. Argumenta que as universidades
devem se adaptar para formar profissionais capazes de trabalhar com a IA valorizando habilidades
como criatividade, pensamento crítico e competências éticas. O texto também discute o papel dos
professores na era da IA sugerindo que devem se concentrar mais no desenvolvimento de habilidades
interpessoais e críticas dos alunos. Propõe uma reflexão sobre a direção ética e moral da educação em
um mundo cada vez mais dominado pela IA.

Palavras-chave: inteligência artificial, educação, estratégias pedagógicas, pensamento crítico.

ABSTRACT
The article addresses the effects of Artificial Intelligence (AI) on education, emphasizing the need to
rethink pedagogical strategies in universities. The work explores the transformations brought by AI,

Artigo está licenciado sob forma de uma licença


Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.
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including automation and the potential for personalized teaching. It argues that universities must adapt
to train professionals capable of working with AI, valuing skills such as creativity, critical thinking, and
ethical competencies. The text also discusses the role of teachers in the AI era, suggesting they should
focus more on developing students’ interpersonal and critical skills. It proposes a reflection on the ethi-
cal and moral direction of education in a world increasingly dominated by AI.

Keywords: artificial intelligence, education, pedagogical strategies, critical thinking.

It is an enabler of many industries and facets of human life: scientific research, education, manufactu-
ring, logistics, transportation, defense, law enforcement, politics, advertising, art, culture, and more.
The characteristics of AI—including its capacities to learn, evolve, and surprise—will disrupt and
transform them all. The outcome will be the alteration of human identity and the human experience
of reality at levels not experienced since the dawn of the modern age.

Kissinger; Schmidt; Huttenlocher

1 Introdução
Os desafios éticos na era da Inteligência Artificial são infinitamente vastos e profundamente com-
plexos. Esses desafios se estendem por toda a cadeia humana de produção, formação, intercâmbio
social, político e econômico. Estão presentes também no plano dos modos de subjetivação e indivi-
duação. Na medida em que a IA se torna uma força produtiva cada vez mais relevante, muitos aspectos
e funções do modo de produção contemporâneo se modificam, muitas profissões se transformam e,
em especial, aquelas do setor de serviços. Assim, parece-nos imperativo para a universidade repensar
seu posicionamento, suas estratégias pedagógicas e seus conteúdos fundamentais, não apenas para
acompanhar essas transformações no mundo do trabalho, mas também para se inserir criativamente,
tanto quanto possível, na modelagem do futuro.
Muitas questões se abrem nesse debate. Quais são as atividades profissionais que serão transfor-
madas, substituídas ou empoderadas pela IA? Que tipo de profissional está em gestação? Qual pro-
fissional deverá ser formado? Que espécie de processos pedagógicos estão em jogo? Quais os rumos
que as novas pesquisas deverão adotar? Em que se transforma a universidade nesse contexto? Como
vamos regular a IA no âmbito da formação universitária? O que fazer com a possível massa de desem-
pregados? Que tipos de profissões surgirão no horizonte futuro? Que tipo de formação universitária é
compatível com a perspectiva de um modo de produção sustentado pela IA?
Esse trabalho não pretende, obviamente, responder a todas essas complexas questões. Vamos
refletir, principalmente, sobre as transformações e desafios que se colocam no horizonte da educação,
particularmente, universitária. Ainda que nossas respostas não tenham pretensão de serem conclusivas,
acreditamos que os temas e problemas tratados aqui merecem nossa especial atenção.
No que segue, a partir de uma exposição inicial da noção de Inteligência Artificial, de seu significa-
do e de suas potencialidades, buscamos refletir acerca dos efeitos visíveis e possíveis da educação, em
geral, e da formação universitária, em particular. Buscamos compreender o lugar e as transformações
que as tecnologias de IA como ChatGPT estão trazendo para o contexto educacional e universitário.
Analisamos, também, a transformação e o papel do professor nesse cenário. Problematizamos ainda a
questão da “formação de virtudes morais e intelectuais” que cabe à universidade e como isso se torna
ainda mais central na formação acadêmica. Ao mesmo tempo, nos perguntamos sobre os limites e as
possibilidades do pensamento crítico, porque não basta que a IA nos entregue todos os conhecimen-
Celso Candido de Azambuja e Gabriel Ferreira da Silva
Novos desafios para a educação na Era da Inteligência Artificial 3/16
tos possíveis do mundo, é preciso que sejam capazes de pensar e ensinar a pensar criticamente as
realidades educacionais e sociais nesse novo contexto.

2 Considerações iniciais sobre a Inteligência Artificial


A definição do que seja a IA é multifacetada e de difícil compreensão. Como disse recentemente
o CEO da OpenAI, Sam Altman, quando acreditamos que entendemos a IA, é porque na verdade,
nada entendemos. Ao contrário, começamos a entender algo da IA quando imaginamos que não a
entendemos.1 A literatura atual sobre o tema fala em três tipos de IA: a IA Fraca (ou estreita), a IA Forte
(ou Geral) e a IA Superinteligente. A IA Fraca é aquela que encontramos nos Chatbots, nos sistemas
de recomendação de conteúdos, de reconhecimento de voz e imagem. Não possuindo “consciência”
autônoma, a IA Fraca opera dentro de parâmetros e regras limitadas. Já a IA Forte seria aquela capaz
de agir de forma semelhante à inteligência humana e ainda não existe na prática. Teoricamente a IA
Forte teria autoconsciência2 e teria capacidade de resolver problemas, pensar, articular experiências de
forma similar aos seres humanos. Finalmente, a IA Superinteligente, ainda apenas um conceito teórico,
que seria capaz de superar as habilidades intelectuais humanas (OPENAI, 2023a).
Dentro da categoria da IA Fraca, encontramos a IA Generativa e a IA Interativa. A IA Generativa é pro-
jetada para realizar tarefas bem delimitadas de geração de conteúdo, tais como textos, imagens, músicas e
códigos de programação. A IA Interativa, por sua vez, é projetada para interagir com usuários em contexto
específicos e limitados, a partir de comando de texto ou voz, tais como assistentes virtuais, Chatbots, secre-
tarias de atendimento ao cliente etc. Essas duas IAs podem, no entanto, se confundir, como por exemplo,
no caso do ChatGTP, pois ao mesmo tempo em que gera conteúdo, ele interage em tempo real com seus
usuários, ao responder perguntas, conversar e adaptar-se ao contexto da interação. (OPENAI, 2023b)
Dentro do campo da IA Fraca, no qual nos movimentamos no momento, gostaríamos de trazer uma
imagem que talvez ajude nossa autocompreensão parcial da IA. Podemos imaginar uma grande máquina
onisciente, ubíqua, capaz de predizer, decidir, criar e agir de acordo com padrões relativamente pré-defini-
dos, especialmente, quando se trata de conhecimentos explícitos. Uma máquina que detém todo o conhe-
cimento humano técnico e científico acumulado e que é capaz de articular esses conhecimentos e produzir
as mais variadas tarefas intelectuais e práticas. O que pode a IA fazer? Em certo sentido, tudo aquilo que é
passível de ser transformado em conhecimento explícito pode ser utilizado pela IA para promover as mais
diversas formas de processamento, interrelação, análise e tomada de decisão.
De certa forma, todas aquelas atividades, cognitivas e produtivas, que envolvem conhecimentos explí-
citos são passíveis de serem realizadas por dispositivos orientados por IA. Entre outras atividades cognitivas,
pode-se destacar: reconhecimento de padrões, tais como leitura facial e impressão digital e mesmo iden-
tificação de tendências de mercado; processamento de linguagem natural, capaz de entender e respon-
der eu achei que a linguagem humana através de texto e voz, incluindo tradução e análise de sentimentos;
aprendizado de máquina que é capaz de aprender e melhorar suas respostas a partir das experiências não
previamente programadas; resolução de problemas e tomada de decisão que envolve análise de informa-
ções para tomada de decisões ou recomendação de ações como por exemplo rotas de transporte; visão
computacional, que é a capacidade de entender conteúdos visuais de objetos bem como análise de vídeo e
navegação autônoma de veículos; robótica autónoma ou seja robôs capazes de manusear materiais fazer ci-

1
Em seu twitter Sam Altman escreveu: “if you think that you understand the impact of AI, you do not understand, and have yet
to be instructed further. if you know that you do not understand, then you truly understand”. Disponível em: [Link]
sama/status/1621556257323888641. Acesso em: 10 out. 2023.
2
Claro está que uma discussão mais aprofundada das capacidades da IA Forte teria de discutir os problemas relativos à cons-
ciência de maneira mais pormenorizada, o que nos levaria para longe dos nossos propósitos aqui. Sobre isso, veja-se Chalmers,
1995; 1997.
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rurgias e dirigir veículos; geração e criatividade assistida por IA para produzir textos, músicas, imagens; análi-
se preditiva e de dados, para previsão do tempo, variações nas bolsas, planejamento das cidades e assim por
diante (OPENAI, 2023c). Do ponto de vista prático, a IA é capaz de realizar diversas aplicações, entre outras:
diagnóstico médico, desde análise de imagens, dados e acesso a literatura medida para ajudar a formular
diagnósticos e propor terapias com base em dados atualizados no mundo inteiro; previsão de tempo; assis-
tentes virtuais, tais como Siri, Alexa; recomendações personalizadas, em plataformas como Netflix, Spotify;
veículos autônomos; automação industrial; análise financeira; Chatbots e atendimento ao cliente; segurança
cibernética; agricultura de precisão etc. (OPENAI, 2023d) E enquanto não chegamos na inteligência artificial
geral, podemos considerar a importância enorme que os Chatbots especializados poderão ter no contexto
das atividades formativas e profissionais nos próximos anos. Focados em áreas especializadas de conheci-
mento, esses Chatbots especializados podem ser instrumentos importantes de apoio ao processo de ensino-
-aprendizagem bem como na tomada de decisões por profissionais. Em alguns casos, poderão até mesmo
substituir segmentos inteiros de trabalhos humanos, pois sua acurácia tenderá a ser bastante confiável.

2.1 A inteligência artificial é uma inteligência humana

Uma discussão que merece atenção antes de seguirmos adiante é aquela em torno da relação entre
Inteligência Artificial (IA) e Inteligência Humana (IH). Primeiramente, não entendemos que existe uma con-
traposição entre a IA e a IH, como às vezes se insinua no debate contemporâneo. Nossa compreensão é de
que, ao contrário, a IA é naturalmente humana, simplesmente porque é uma criação humana com a finalida-
de de emular e reproduzir os processos e resultados que encontramos em nossas próprias faculdades. Pois
tudo que é criação humana é, evidentemente, humano. Parece-nos que o erro dessa abordagem consiste
em tomar o indivíduo como parâmetro de comparação, ou então, as faculdades cognitivas humanas. Mais
produtivo é tentar entender, primeiro, que a IA é o resultado de milhares de anos de desenvolvimento
e aperfeiçoamento cultural e tecnocientífico humano. Ela é o resultado de milhares de forças produtivas,
técnicas e intelectuais que a criaram e a desenvolvem a cada dia. Assim, se ficamos presos ao debate que
opõe IA e IH, ficamos presos a uma falsa dicotomia e permanecemos incapazes de pensar criativamente as
infinitas possibilidades da articulação e interconexão que estas inteligências complexas nos permitem. Toda
técnica, toda tecnologia constitui o mundo humano, sua cultura, sua economia, sua política e seu destino,
seu passado e seu futuro. Sem a técnica não nos teríamos tornado o que somos hoje, sapiens sapiens, não
teríamos cultura, não teríamos espírito, não teríamos civilização. A humanidade é essencialmente um fenô-
meno tecnocientífico. Como propunha McLuhan (1969), os meios técnicos são extensões de nossos corpos,
de nossas habilidades motoras e intelectuais. A IA não é menos inteligente porque ela não pensa como um
cérebro humano pensa, porque não tem autoconsciência. Nem pensamos que ela precisa funcionar como
funciona e pensar como pensa a mente humana. Ela é inteligente na sua medida possível de inteligência.
A compreensão disso é crucial para não sermos totalmente passivos, para não sermos totalmente
dominados pela técnica, conforme ressaltou Galimberti (2006). Sem a compreensão da verdade que
está por trás da técnica, dirá Heidegger (2007), não podemos estabelecer uma relação livre com ela,
pois o que realmente importa é como podemos nos apropriar dessas tecnologias e entender como elas
estão transformando o mundo e como elas podem transformar o mundo.

3 A transformação da educação
O século 21 mostra a tendência, já iniciada em meados do século passado, de uma prevalência
cada vez maior da concentração da mão de obra no setor de serviços, particularmente nos países mais
avançados. Nos EUA, por exemplo, estima-se que cerca de 80% da população empregada encontra-se
no vasto campo do setor de serviços. (HARARI, 2016) No Brasil é estimado que cerca de 70% da popula-
Celso Candido de Azambuja e Gabriel Ferreira da Silva
Novos desafios para a educação na Era da Inteligência Artificial 5/16
ção esteja empregada nesse setor. Esse segmento tem como principal ativo de trabalho as habilidades
cognitivas dos trabalhadores. Ou seja, grande parte do trabalho produtivo e da renda na atualidade
estão diretamente relacionadas às habilidades intelectuais e conhecimentos explícitos.
Na medida em que a IA tem justamente o potencial de substituição das habilidades humanas
cognitivas que envolvem conhecimento explícito, boa parte dos processos de formação cultural e pro-
fissional precisam ser repensados para serem adaptados a essa nova lógica. Essa realidade produz
um impacto considerável no setor da educação, em geral e da universitária, em especial, cujo papel
tradicional principal é formar para o mercado de trabalho. Em um primeiro momento, parece-nos que
a formação acadêmica deverá voltar-se prioritariamente para o desenvolvimento de habilidades subje-
tivas - de criatividade, de pensamento crítico e reflexivo - e competências éticas, do que propriamente
técnicas. Nesse sentido, universidades e instituições escolares terão que rever seus processos forma-
tivos e suas estruturas organizacionais de ensino-aprendizagem. Mas o que será a educação na era da
inteligência artificial? Teremos professores digitais que simplesmente substituirão os professores de
carne e osso? Ou teremos uma hibridização entre esses dois tipos? Quais as melhores práticas educa-
tivas e formativas nesse contexto de transformação das atividades profissionais?

3.1 O aprendizado personalizado

Um dos mais importantes teóricos e pesquisadores, bem como empreendedores no campo da IA,
Kai-Fu Lee vê um potencial animador para a educação, pois considera que a maior oportunidade para
IA no campo da educação diz respeito ao aprendizado personalizado. (Lee; Qiufan, p. 118). Seu otimis-
mo, no entanto, não é mera fantasia. Na medida em que a IA avança no processamento de linguagem
natural, inúmeras possibilidades para a educação se colocam no horizonte.

O processamento de linguagem natural é um sub-ramo da IA. A fala e a linguagem são fundamen-


tais para a inteligência humana, a comunicação e os processos cognitivos, por isso a compreensão
da linguagem natural é frequentemente vista como o maior desafio da IA. “Linguagem natural”
refere-se à linguagem dos humanos – fala, escrita e comunicação não verbal que pode ter um com-
ponente inato e que as pessoas cultivam através de interações sociais e educação.
Em vez de usar construções humanas como conjugação e gramática, a aprendizagem profunda de-
pende de construções e abstrações autoinventadas, coletadas de dados e incorporadas em uma
rede neural gigante. (Lee; Qiufan, p. 109, trad. dos autores).3

O exemplo mais elucidativo do avanço nesse campo é o GPT-3 (Generative Pre-trained Transformer
4
3) que consiste em um imenso sistema de IA para transformar sequências e que adquiriu a capacidade
de analisar a linguagem através da exposição a um modelo extremamente vasto que abrange qua-
se todos os conceitos e noções possíveis. Ao aproveitar o poder computacional de um dos maiores
computadores do mundo, o GPT-3 foi submetido a treinamento em um corpus de texto superior a 45
terabytes, uma quantidade que exigiria 500 mil vidas humanas para ser lida. Esse processo está a cres-
cer exponencialmente a uma taxa de dez vezes por ano, aumentando assim as suas capacidades a um
ritmo alucinante (Lee; Qiufan, p. 118).

3
No original: “Natural language processing is a subbranch of AI. Speech and language are central to human intelligence, com-
munication, and cognitive processes, so understanding natural language is often viewed as the greatest AI challenge. ‘Natural
language’ refers to the language of humans—speech, writing, and nonverbal communication that may have an innate component
and that people cultivate through social interactions and education. Rather than using human constructs like conjugation and
grammar, deep learning relies on self-invented constructs and abstractions, gleaned from data and embedded in a giant neural
network.” (Lee; Qiufan, p. 109).
4
Lançado pela OpenAi em 2020 e que, na época, era um dos sistemas de processamento de linguagem natural mais avançados.
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No entanto, paradoxalmente, as salas de aula de hoje continuam praticamente iguais àquelas de


cem anos atrás, tornando o ensino uma tarefa complexa e difícil para os professores e a aprendizagem
um processo bastante despersonalizado, seriado e muitas vezes inconsistente para os alunos. A IA, en-
tretanto, tem potencial para transformar positivamente essa realidade. Segundo Kai-Fu Lee:

A IA pode desempenhar um papel importante na correção dessas falhas e na transformação da educa-


ção. O ensino consiste em palestras, exercícios, exames e aulas particulares. Todos os quatro componen-
tes exigem muito tempo do professor. No entanto, muitas das tarefas do professor podem ser automati-
zadas com IA suficientemente avançada. Por exemplo, a IA pode corrigir os erros dos alunos, responder
a perguntas comuns, atribuir trabalhos de casa e testes e classificá-los. E a IA pode trazer personagens
históricos de volta à vida para interagir com os alunos. A maioria dessas capacidades está começando a
aparecer em aplicativos educacionais, especialmente na China. (Lee; Qiufan, p. 118, trad. dos autores).5

Diferentemente dos professores tradicionais, que precisam considerar as necessidades de um gru-


po inteiro de estudantes, um instrutor virtual - um sistema de instrução baseado em IA - é capaz de se
dedicar individualmente a cada aluno, abordando aspectos específicos como dificuldades de pronúncia,
prática de operações matemáticas ou aprimoramento da escrita. Um instrutor virtual tem a habilidade de
perceber mudanças sutis no comportamento dos estudantes, como a dilatação das pupilas e o piscar dos
olhos. Essas observações permitem ao instrutor virtual adaptar seu método de ensino para atender às
necessidades de aprendizagem específicas de um determinado aluno, mesmo que esse método não seja
eficaz para os outros. Por exemplo, para um estudante que tenha interesse em basquete ou futebol, a IA
pode usar processamento de linguagem natural para contextualizar questões matemáticas nesse univer-
so esportivo. Além disso, a IA tem a capacidade de designar tarefas de casa personalizadas, respeitando
o ritmo de aprendizagem de cada aluno. A utilização de instrutores virtuais personalizados e “estudantes
virtuais” em ambientes educacionais online na China mostrou melhorias significativas tanto no desempe-
nho acadêmico dos alunos quanto no seu engajamento, evidenciado pelo aumento da participação ativa
e pela disposição para fazer perguntas relevantes. (Lee; Qiufan, p. 118).
Na China, de acordo com Kai-Fu Lee, “um aplicativo educacional popular mostrou que adicionar
alunos virtuais interessantes (atualmente com vídeo gravado, mas no futuro serão gerados por IA) au-
menta significativamente o envolvimento, a participação e até mesmo o desejo de aprender mais dos
alunos humanos” (Lee; Qiufan, p. 119).6
No entanto, ao contrário do que poderia parecer, nesse cenário de hibridização dos processos de
ensino-aprendizagem das instituições educacionais com a IA, os educadores humanos manterão pa-
péis cruciais, atuando principalmente como mentores e facilitadores do aprendizado dos alunos. Eles
desempenharão um papel vital no fomento do pensamento crítico, da criatividade, da compaixão e da
colaboração entre os estudantes. Além disso, os professores atuarão como mediadores para esclarecer
dúvidas, desafiar a complacência e oferecer conforto em momentos de frustração. Fundamentalmente,
os educadores terão a oportunidade de desviar sua atenção das tarefas mais tediosas de transmissão
de conhecimento para se concentrar no desenvolvimento da inteligência emocional, da criatividade,
do caráter, dos valores e da resiliência dos alunos. Outro papel vital dos professores será fornecer di-
reção e feedback aos professores virtuais, assegurando que as necessidades específicas de cada aluno

5
No original: “AI can play a major part in fixing these flaws and transform education. Teaching consists of lectures, exercises, exa-
minations, and tutoring. All four components require a lot of the teacher’s time. However, many of the teacher’s tasks can be au-
tomated with sufficiently advanced AI. For example, AI can correct students’ errors, answer common questions, assign homework
and tests, and grade them. And AI can bring historical characters back to life to interact with students. Most of these capabilities
are now beginning to appear in education apps, especially in China.” (Lee; Qiufan, p. 118)
6
No original: “one popular education app has shown that adding interesting virtual students (currently with recorded video, but
in the future they will be AI generated) significantly increases the human students’ engagement, participation, and even desire to
learn more.” (Lee; Qiufan, p. 119)
Celso Candido de Azambuja e Gabriel Ferreira da Silva
Novos desafios para a educação na Era da Inteligência Artificial 7/16
sejam atendidas. Essa orientação dependerá da vasta experiência e compreensão profunda que os pro-
fessores têm sobre o potencial individual e as aspirações e sonhos de cada aluno. (Lee; Qiufan, p. 119)

3.2 Educação ao alcance de todos

Além desses aspectos mais propriamente pedagógicos, que vamos retomar em seguida no con-
texto da educação universitária, Kai-Fu Lee destaca que a presença da IA na educação pode levar a
uma diminuição considerável dos custos da educação, tornando-a mais acessível a um número maior
de pessoas. Os sistemas de IA têm o potencial de democratizar o ensino, pois torna possível a disponi-
bilização universal de cursos e conhecimentos, bem como de professores que antes estavam limitados
às instituições limitadas pelo tempo e pelo espaço. Ao mesmo tempo, nas sociedades mais avançadas
economicamente, essa tecnologia permite contratar mais professores para atender às demandas mais
personalizadas dos alunos, atuando como seus mentores ou instrutores pessoais.
Assim, esse novo modelo educacional que combina flexibilidade e simbiose com a IA, pode me-
lhorar significativamente o acesso à educação, por um lado, e por outro, pode ajudar os alunos a alcan-
çarem seu pleno potencial na Era da IA. (Lee; Qiufan, p. 119)

4 A formação acadêmica universitária


Mais especificamente, no que se refere à formação universitária, podemos dizer que ela foi, ao menos
na contemporaneidade, o lugar a partir do qual os jovens desenvolviam suas habilidades intelectuais e
obtinham seus conhecimentos técnicos de nível superior para exercer uma profissão no futuro, depois de
quatro, cinco ou seis anos de estudos. Em grande parte, os cursos superiores estavam estruturados em
bases disciplinares que tinham por objetivo transmitir os conhecimentos, principalmente, explícitos, acumu-
lados pela humanidade à juventude. Um dos principais veículos de transmissão desses conhecimentos era
o professor. Todo o conjunto de competências que os alunos - do latim, alumnos, aqueles que devem ser
nutridos, alimentados - deveriam possuir seria transmitido pelo professor - do latim profiteri - aquele que
professa uma expertise. Assim, os professores especialistas em diferentes áreas do saber transferem pelo
discurso, oral ou escrito, seus conhecimentos para seus discípulos. Assim, a principal função da Universidade
e dos professores como centros de transmissão de competências tecnocientíficas é distribuir o conhecimen-
to explícito reconhecido pela ciência e filosofia de cada época para os futuros profissionais.
No entanto, especialmente a partir do advento da Internet e na era da Inteligência Artificial, esse
papel de transmissão de conhecimento explícito não está mais somente nas mãos dos professores,
nem é mais exclusividade das Universidades.
A educação universitária se vê, assim, confrontada com novas ferramentas de ensino e pesquisa
de uma tal magnitude que necessariamente vai provocar profundas mudanças em seus métodos tradi-
cionais de ensinar e pesquisar. Para efeitos desses questionamentos e reflexões que propomos aqui,
fizemos alguns experimentos com o ChatGPT-4, uma ferramenta de Inteligência Artificial, desenvolvida
pela OpenAI e que podemos utilizar como exemplo do grande poder de processamento de conhe-
cimento e informação trazido ao grande público do mundo letrado no final de 2022. Trata-se de um
prodígio. Ainda em 2019, o ChatGPT-2 mal conseguia contar até 10 com segurança. (Yoshua; Hinton,
et al, 2023). Hoje, o ChatGPT-4 está configurado com aproximadamente dois trilhões de parâmetros e
responde a praticamente todas as questões relevantes que envolvem o conhecimento explícito acumu-
lado pela humanidade presente na forma digital e na Internet.7

7
Apenas a título de ilustração: atualmente, o ChatGPT, tem cerca de 100 milhões de usuários, de acordo com Sam Altman. Disponível
em: [Link] Acesso em: 10 nov. 2023.
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De fato, ferramentas como ChatGPT abrem a possibilidade para uma espécie de tutor personalizado,
para professores e alunos, sendo capazes de configurar respostas de acordo com as demandas. Entre os
muitos experimentos que fizemos com essa ferramenta nos últimos meses - sobre conceitos, autores da
filosofia e suas ideias, leitura de artigos, resumos, traduções, sínteses, paráfrase, relativos à área de conhe-
cimento da filosofia e outras áreas e, a cada resposta, ele não deixou de nos surpreender positivamente,
salvo algumas exceções - perguntamos ao ChatGPT-4 algumas questões em torno de temas pressupostos
em nossa reflexão. Reproduzimos aqui, em três quadros, algumas perguntas e respostas sobre as ques-
tões em torno do problema da emergência da era da IA, respectivamente, sobre os dilemas éticos da IA,
as transformações no campo da educação e os potenciais usos da IA no ensino de filosofia.

Quadro 1. Começamos perguntando sobre as questões éticas na era da IA.


Comando: Quais são, a seu ver, as principais questões e problemas éticos enfrentados pela humanidade
na era da Inteligência Artificial?
Resposta ChatGPT: Na era da Inteligência Artificial (IA), surgem diversas questões e problemas éticos signifi-
cativos que a humanidade enfrenta, incluindo:
Viés e Discriminação: Algoritmos de IA podem perpetuar e amplificar vieses humanos se forem treinados com
dados enviesados ou discriminatórios. Isso pode levar a decisões injustas ou preconceituosas em áreas como
contratação de emprego, concessão de crédito e justiça criminal.
Privacidade e Segurança de Dados: Com a coleta e análise de grandes volumes de dados pessoais, surgem
preocupações significativas sobre privacidade e segurança. Há o risco de uso indevido de dados, vazamentos
e invasão de privacidade.
Autonomia e Controle Humano: A autonomia crescente dos sistemas de IA suscita preocupações sobre a
perda de controle humano, especialmente em áreas críticas como armamento, veículos autônomos e sistemas
de suporte à vida.
Transparência e Explicabilidade: Muitos sistemas de IA são “caixas pretas”, onde é difícil entender como as
decisões são tomadas. Isso levanta questões sobre a responsabilização e a capacidade de contestar ou enten-
der as decisões da IA.
Desemprego e Desigualdade Econômica: A automação impulsionada pela IA pode levar à perda de empregos em
larga escala, exacerbando a desigualdade econômica e social e desafiando as estruturas de trabalho tradicionais.
Manipulação e Autonomia Pessoal: A IA pode ser usada para influenciar comportamentos e decisões, levan-
tando preocupações sobre manipulação e erosão da autonomia pessoal, especialmente em contextos como
publicidade e redes sociais.
Impacto na Educação e Aprendizagem: A IA na educação traz questões sobre a adequação e eficácia dos méto-
dos de ensino assistidos por IA, bem como sobre o desenvolvimento de habilidades críticas e criativas dos alunos.
Responsabilidade e Responsabilização: Determinar a responsabilidade por ações ou decisões tomadas por
sistemas de IA é complexo, especialmente em situações onde a IA opera de forma autônoma ou sem supervi-
são direta humana.
Desenvolvimento Sustentável e Impacto Ambiental: O treinamento de modelos de IA de larga escala pode con-
sumir grandes quantidades de energia, levantando preocupações sobre a sustentabilidade e o impacto ambiental.
Militarização da IA: O uso da IA em aplicações militares, como drones autônomos e sistemas de vigilância, gera
debates éticos significativos sobre a guerra, a tomada de decisões letais e o risco de escalada em conflitos.
Desigualdade no Acesso à Tecnologia: A disparidade no acesso à tecnologia de IA entre diferentes regiões
e grupos sociais pode aumentar as desigualdades existentes, criando “desertos digitais” e exacerbando a
divisão digital global.
Integração Homem-Máquina: O avanço da IA e sua integração com o corpo humano, como em implantes
cerebrais e próteses avançadas, levanta questões sobre a identidade humana, a privacidade dos pensamentos
e a ética do aprimoramento humano.
Essas questões éticas requerem uma abordagem multidisciplinar e colaborativa, envolvendo formuladores de
políticas, pesquisadores, desenvolvedores de IA, e a sociedade em geral, para garantir que os benefícios da IA
sejam maximizados enquanto seus riscos e desafios éticos são gerenciados de forma responsável.
Celso Candido de Azambuja e Gabriel Ferreira da Silva
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Quadro 2. Queríamos saber sobre as transformações na educação superior.
Comando: Quais são as principais transformações provocadas pela IA na educação superior?
Resposta ChatGPT: As principais transformações provocadas pela Inteligência Artificial (IA) na educação supe-
rior incluem:
Personalização do Aprendizado: A IA permite a criação de sistemas educacionais personalizados que se
adaptam ao ritmo e estilo de aprendizagem de cada estudante. Isso pode incluir recomendações de conteúdo
personalizadas, adaptação de dificuldade de exercícios, e feedback direcionado.
Assistência Virtual e Tutoria Inteligente: Assistentes virtuais e tutores baseados em IA podem oferecer su-
porte adicional aos alunos, esclarecendo dúvidas, fornecendo recursos adicionais de aprendizagem e auxilian-
do na revisão de conteúdos.
Avaliação Automatizada: A IA pode ser usada para avaliar automaticamente as respostas dos alunos em exa-
mes e atividades, fornecendo feedback instantâneo e detalhado, o que é especialmente útil em cursos online
com um grande número de participantes.
Detecção e Suporte a Necessidades Específicas de Aprendizagem: Sistemas de IA podem identificar
padrões de aprendizagem e destacar alunos que podem estar enfrentando dificuldades, permitindo uma inter-
venção mais rápida e efetiva.
Otimização da Administração e Gestão: A IA pode automatizar e otimizar diversas tarefas administrativas,
como matrículas, agendamento de aulas, e gerenciamento de recursos, melhorando a eficiência operacional
das instituições de ensino superior.
Conteúdo Educacional Enriquecido: Com a IA, é possível criar conteúdos educacionais mais interativos e
envolventes, como simulações, jogos educativos e realidade aumentada, que podem melhorar a experiência
de aprendizado.
Pesquisa e Análise de Dados: A IA auxilia na pesquisa acadêmica através da análise de grandes volumes de
dados, facilitando descobertas e insights que seriam difíceis de alcançar manualmente.
Preparação para o Mercado de Trabalho: A integração da IA na educação superior também prepara os alu-
nos para o mercado de trabalho futuro, onde o entendimento e a interação com tecnologias avançadas serão
habilidades essenciais.
Acesso e Inclusão: A IA pode ampliar o acesso à educação superior, fornecendo recursos de aprendizagem
digitais e remotos que podem alcançar estudantes em locais remotos ou com limitações de mobilidade.
Ética e Cidadania Digital: A crescente utilização da IA na educação superior também impulsiona o debate e
a aprendizagem sobre ética na tecnologia e cidadania digital, preparando os alunos para lidar com questões
complexas relacionadas à tecnologia na sociedade.
Essas transformações indicam um futuro promissor para a educação superior, onde a IA pode aumentar signifi-
cativamente a eficácia do ensino e da aprendizagem, tornando-a mais acessível, personalizada e alinhada com
as demandas do século 21.
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Quadro 3. Sobre os efeitos e possibilidades da IA no campo específico do ensino de filosofia.


Comando: Quais são os possíveis impactos da IA no campo do ensino de filosofia?
Resposta ChatGPT: A integração da Inteligência Artificial (IA) no campo do ensino de filosofia pode ter diver-
sos impactos, tanto positivos quanto desafiadores. Vamos explorar alguns deles:
Impactos Positivos
Personalização do Aprendizado: A IA pode ajudar a criar experiências de aprendizado personalizadas, adap-
tando-se ao ritmo e estilo de aprendizado de cada estudante. Isso pode ser particularmente útil na filosofia,
onde diferentes abordagens podem ser necessárias para diferentes tópicos ou teorias.
Acesso a Recursos Ampliados: Algoritmos de IA podem facilitar o acesso a uma vasta gama de textos filosófi-
cos, análises críticas e comentários, tornando o estudo mais rico e diversificado.
Ferramentas de Análise de Texto: A IA pode ser usada para analisar textos filosóficos complexos, identifican-
do temas-chave, argumentos e conexões entre diferentes obras e autores.
Simulação e Modelagem: A IA pode criar simulações que ajudam a ilustrar conceitos filosóficos complexos,
tornando-os mais acessíveis e compreensíveis para os estudantes.
Apoio na Avaliação: Sistemas de IA podem auxiliar na avaliação de ensaios e trabalhos de filosofia, oferecen-
do feedback instantâneo e personalizado.
Desafios e Considerações Éticas
Manutenção do Pensamento Crítico: Existe o risco de a IA simplificar demais conceitos complexos, o que
poderia limitar o desenvolvimento do pensamento crítico e da capacidade de argumentação, habilidades
essenciais no estudo da filosofia.
Viés e Interpretação: A IA pode ser enviesada com base nos dados em que foi treinada. Na filosofia, onde a
interpretação é fundamental, isso pode levar a uma visão unilateral ou limitada.
Interação Humana: O estudo da filosofia muitas vezes se beneficia da discussão e do debate. A IA pode limi-
tar a interação humana, que é crucial para o desenvolvimento de habilidades argumentativas e analíticas.
Acesso e Desigualdade: O acesso à tecnologia de IA pode variar significativamente, o que pode levar a desi-
gualdades no ensino e aprendizagem da filosofia.
Questões Éticas: A utilização de IA no ensino de filosofia levanta questões éticas próprias, especialmente em
relação à privacidade dos dados dos estudantes e à autonomia no processo de aprendizado.
Em resumo, enquanto a IA tem o potencial de enriquecer significativamente o ensino de filosofia, é essencial
abordar esses desafios e considerações éticas para garantir que sua integração seja benéfica e eficaz.

Como se pode ver, a capacidade de fornecer respostas coerentes, bem estruturas e significativas
de tais ferramentas é considerável. A cada uma dessas repostas poderíamos avançar indefinidamente
na conversação, propondo novas perguntas, questionando certas respostas.
Observamos, de passagem, que tais ferramentas de IA ainda estão em estágio de desenvolvimen-
to e aperfeiçoamento. Assim como o ChatGPT outras ferramentas de IA estão sendo desenvolvidas e
aplicadas no campo da educação e da pesquisa. Entre outras, destacamos: o ChatPDF8, o Scholarcy9,
o Scispace10, que são capazes de analisar e resumir documentos, criar blocos de notas, indicar passa-
gens principais, responder questões pertinentes ao texto ou artigo em questão etc. Também chama a
atenção as IAs de tradução que são capazes de permitir a leitura de dezenas de línguas estrangeiras de
forma cada vez mais aperfeiçoada, transformando a Internet em uma verdadeira Alexandria universal. E
assim por diante. A cada dia, uma nova ferramenta de pesquisa, de ensino e aprendizagem é colocada
à disposição das pessoas e instituições sociais.

8
Pode-se encontrar no seguinte endereço: [Link] Acesso em 15 nov. 2023.
9
Pode-se encontrar no seguinte endereço: [Link] Acesso em 15 nov. 2023.
10
Pode-se encontrar no seguinte endereço: [Link] Acesso em 15 nov. 2023.
Celso Candido de Azambuja e Gabriel Ferreira da Silva
Novos desafios para a educação na Era da Inteligência Artificial 11/16
5 A “technotização”: a nova alfabetização e suas questões
Nesse contexto de acelerada renovação das tecnologias da inteligência baseadas em IA, os pro-
cessos de “alfabetização” se transformam radicalmente. Vivemos, assim, uma época em que os pró-
prios educadores, outrora plenamente alfabetizados, precisam estar permanentemente em processo
de “alfabetização”. Na medida em que as tecnologias da inteligência e da cultura se desenvolvem em
uma velocidade cada vez maiores, é preciso que os educadores estejam constantemente se atualizan-
do do ponto de vista do domínio das novas tecnologias intelectuais e culturais. Processo que podería-
mos chamar de “technotização”.11
Antes mesmo de surgir o ChatGPT, as universidades e professores estiveram - e ainda estão - bas-
tante ocupados e preocupados com a questão do plágio acadêmico, em virtude da facilidade com que
os estudantes têm para acessar conteúdos acadêmicos na Internet. Não são raros os casos de plágios
encontrados em trabalhos acadêmicos, tal a facilidade de encontrar textos, selecionar e simplesmente
“colar” no trabalho a ser entregue ao professor. Processo praticamente nulo de envolvimento, esforço
e criatividade intelectual. Com ferramentas como o ChatGPT o problema permanece e se aprofunda,
pois agora a ferramenta entrega textos que não estão prontos na Internet. A ferramenta oferece a sua
própria versão sobre o assunto pesquisado com enorme poder de síntese, pois, em princípio, para
formular suas respostas especula com trilhões de parâmetros pré-definidos conjuntamente com a vasta
rede mundial de computadores. Aparentemente não faz distinção de língua e é possível gerar conteú-
do a partir de fontes de várias línguas. O resultado, normalmente, são textos muito bem fundamenta-
dos e muito bem escritos que dão inveja a bons escritores e intelectuais. Até o presente momento não
há consenso sobre como se deve referenciar esses textos – e sons e imagens – produzidos por IA. Até
agora, o silêncio a esse e outros aspectos relacionados ao ChatGPT e similares é constrangedor e, ao
mesmo tempo, sintomático de um certo descompasso entre o que está acontecendo na vida real e nas
nossas bolhas acadêmicas.
Assim, o processo de alfabetização tecnológica se torna uma variável constante. Educadores precisam
estar o tempo todo sendo atualizados para dominar as diferentes ferramentas que surgem a cada dia a uma
velocidade impressionante e se modificam e se aperfeiçoam. De certa forma, esse processo de “technotiza-
ção”, a partir de agora, será permanente para tudo e todos, professores e alunos, mas também todo o tipo
de profissional que lida com algum tipo de conhecimento. Não é mais possível imaginar um educador, um
pesquisador universitário incapaz de se inserir nesse processo de alfabetização tecnológica.

6 A atividade professoral em transformação


Outrora o professor era aquele personagem plenamente justificado pelas circunstâncias econômi-
cas, tecnológicas e culturais que, tendo estudado durante longos períodos, armazenava grande parte
do conhecimento acumulado pela humanidade, a fim de transmiti-los aos seus alunos e discípulos. Sua
missão fundamental era transmitir conhecimento e avaliar segundo esses critérios de transmissão de
conhecimento. Aos alunos cabia a tarefa de reproduzir, de forma relativamente mecânica e competen-

11
Perguntamos ao ChatGPT se ele poderia nos oferecer um neologismo para essa situação de alfabetização tecnológica na atua-
lidade. Ele nos sugeriu dois neologismos: Techucar e Technotização. Techucar, seria uma fusão de Tecnologia e Educar. Technoti-
zação, por sua vez, combina tecnologia com alfabetização. Escolhemos a palavra Technotização para referir a esse processo. De
acordo com a ferramenta: “O termo Technotização captura a ideia de se tornar proficientes ou imersos no mundo da tecnologia,
indicando tanto o aprendizado quanto a integração de habilidades tecnológicas na vida cotidiana. ‘Technotização’ poderia ser
usada para se referir a como indivíduos e sociedades estão se adaptando e incorporando tecnologias digitais em diversos aspec-
tos da vida, desde a educação até o trabalho e o lazer. É um termo que encapsula a transformação contínua impulsionada pela
evolução tecnológica”. OPENAI. CHATGPT-4. Crie uma palavra nova para dar conta do processo de alfabetização tecnológica na
atualidade. Acesso em 20.10.2023.
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te, os conhecimentos transmitidos pelo seu mestre. Com a especialização dos conhecimentos tecno-
científicos ele armazenou conhecimentos cada vez mais especializados.
No entanto, esse papel professoral, de certa forma, parece estar se esgotando. Por duas razões
que agora se afunilam. Primeiramente, pelo big bang disciplinar e a incomensurabilidade dos conhe-
cimentos produzidos na atualidade. O big bang disciplinar e a consequente ultraespecialização do co-
nhecimento nos leva a necessidade de construção de uma mentalidade transdisciplinar para dar conta
dos problemas complexos do nosso mundo. Por sua vez, a incomensurabilidade dos conhecimentos,
faz com que ninguém mais seja capaz de estar atualizado na sua própria área de conhecimento, que
se renovam a cada instante em velocidade exponencial.12 Em segundo lugar, na medida em que os
sistemas de IA artificial são capazes de armazenar esses conhecimentos, eles se tornam muito mais
efetivos e eficientes na captura e transmissão desses saberes. Assim, seja para ter uma atitude transdis-
ciplinar, seja para uma apropriação e partilha dos conhecimentos específicos de cada área, os sistemas
de IA artificial podem ser essenciais. Para a simples transmissão de conhecimentos, esses sistemas
demonstram ser muito mais eficientes, pois estão disponíveis 24h por dia para qualquer estudante ou
pesquisador. Nessa tarefa de simples transmissão do conhecimento a que muitos professores ainda
estão limitados os professores virtuais tendem a substituir, com grandes vantagens, quase inteiramente
os professores humanos.
Harari faz uma provocação interessante nesse sentido.

Professores digitais vão monitorar minuciosamente cada resposta que eu der e quanto tempo eu
levo para dá-las. Com o decorrer do tempo, eles vão discernir minhas fraquezas, assim como meus
pontos fortes. Vão identificar o que me deixa excitado e o que faz minhas pálpebras despencarem.
Serão capazes de me ensinar termodinâmica ou geometria de um modo que se adapte à minha
personalidade, mesmo que ele não se aplique a 99% dos outros alunos. E esses professores digitais
nunca perderão a paciência, nunca gritarão comigo, nunca entrarão em greve. (Harari, 2016, p. 435).

Assim, nesse cenário de transformação constante das tecnologias intelectuais e de atualização


incomensurável dos saberes, os professores devem orientar seus alunos na utilização da IA para desen-
volver principalmente suas competências de pensamento crítico e reflexivo a fim de orientá-los para
uma compreensão e interpretação independente dos conteúdos e saberes entregues pela IA. Eles de-
vem auxiliar os alunos a questionarem os conteúdos gerados pelos sistemas de IA promovendo assim
uma avaliação crítica da qualidade, confiabilidade e vieses. Os professores também devem fornecer
orientação sobre como utilizar com eficácia e corretamente os sistemas de IA para investigar e recupe-
rar informação e conhecimento mantendo sempre uma mentalidade crítica. Eles devem também incor-
porar os sistemas de IA nas suas salas de aula para a realização de trabalhos acadêmicos orientando
os alunos a avaliarem e manipularem criticamente os conteúdos gerados pela IA e assim promover ter
habilidades analíticas e de raciocínio. Os professores devem cumprir um papel fundamental na criação
de uma abordagem razoável em relação à integração da IA aos processos de ensino-aprendizagem,
promovendo e garantindo que os alunos sejam capazes de pensar criticamente, analisar e tomar deci-
sões informadas, aproveitando, ao mesmo tempo, todos os potenciais que os sistemas de IA permitem
no processo de ensino aprendizagem (Sampaio et al, 2023).
Por outro lado, a IA pode fornecer aos professores ferramentas e recursos para melhorar os méto-
dos de ensino e melhorar os resultados dos alunos, criando experiências de aprendizagem personali-

12
Para se ter uma ideia dessa situação, desde 2016 foram publicados mais de 64 milhões de artigos acadêmicos no mundo e so-
mente em 2022, foram publicados mais de 5,14 milhões de artigos acadêmicos, incluindo pequenas pesquisas, análises e anais de
conferências”. Fonte: Wordsrated, em: [Link] Acesso em: 15
nov 2023.
Celso Candido de Azambuja e Gabriel Ferreira da Silva
Novos desafios para a educação na Era da Inteligência Artificial 13/16
zada para os alunos, analisando os dados sobre o desempenho individual de cada aluno e fornecendo
informações sobre os pontos fortes e fracos e estilos de aprendizagem de cada um. A IA pode fazer
recomendações aos professores sobre diferentes estratégias de ensino, seleção de conteúdo e méto-
dos de avaliação com base nas necessidades e preferências dos alunos. Ao mesmo tempo ela pode
automatizar as tarefas administrativas incluindo notas e feedback entre outras atividades mecânicas,
permitindo assim que os professores se concentrem nas questões de ensino e suporte aos alunos. A IA
pode fornecer análises e ideias em tempo real, ajudando os professores a identificarem as dificuldades
dos seus alunos e oferecendo possibilidades de abordagem dessas dificuldades. A IA pode também
ajudar os professores a manterem-se atualizados com as mais recentes pesquisas científicas e práticas
pedagógicas (Costa Júnior et al, 2023).
Quanto aos alunos, a IA pode adaptar-se aos alunos analisando seus padrões buscando e prefe-
rências de aprendizagem e dados de desempenho a fim de criar experiências de aprendizagem per-
sonalizadas. Os sistemas de inteligência artificial são capazes de fornecer conteúdos, bem como ativi-
dades personalizadas com base nas especificidades de cada aluno. Ao mesmo tempo, as tecnologias
adaptativas de IA permitem ajustar o nível de dificuldade das tarefas e nas avaliações a partir de uma
leitura do progresso real do aluno, proporcionando desafios pedagógicos apropriados para otimizar
a aprendizagem. A IA pode também oferecer feedback e orientação em tempo real aos alunos, auxi-
liando-os a identificar possibilidades de melhoria e orientando estratégias de estudo personalizadas.
Através de monitoramento e análise contínuas dos dados dos alunos, ela pode adaptar e aperfeiçoar
recomendações e intervenções personalizadas (Costa Júnior, et al, 2023).

6.1 Novas tecnologias, antigas virtudes

Por um conjunto de fatores sociais e econômicos, que incluem primordialmente a reconfiguração


do universo do trabalho e a consequente diminuição de seus postos, a universidade tem perdido sua
não apenas sua identidade fundamental programática, mas também sua posição social. Se a função e o
objetivo essencial da universidade no último século tornou-se, paulatinamente, a formação de mão de
obra qualificada e a instrução técnica, alterações no mundo do trabalho – em especial aquelas trazidas
pela automatização – que acarretam menor demanda de mão de obra impactam inexoravelmente no
papel da universidade. Não é de se surpreender, portanto, que em países nos quais esses processos
estão em estágio mais avançado, tem havido uma queda sensível na procura por uma formação univer-
sitária13. No entanto, no marco das reflexões sobre o novo papel da atividade docente, em específico,
e da universidade de modo mais geral, parece-nos que o avanço das IAs pode trazer novamente à tona
justamente as características que conformaram o ensino superior em seu passado e que, de modo ab-
solutamente não-surpreendente, mostram-se extremamente atuais14.
O primeiro conjunto delas diz respeito àquilo que certa parcela da literatura (cf. Strauss, 2003;
Oakeshott, 2021) denominou “educação liberal”. Note-se que “liberal” aqui não diz respeito ao
sentido político ou econômico do termo, mas sim denota exatamente uma forma de aproximação
ao conhecimento e, portanto, à docência, que exerceu um papel fundante para o modo como a uni-
versidade se constituiu no ocidente. Nas palavras de Oakeshott, a marca distintiva de uma educação
liberal é que uma educação vista sob esse prisma é uma educação que tem como objetivo “oferecer
libertação do aqui e do agora dos compromissos cotidianos, da confusão, da crueza, do sentimenta-
lismo, da pobreza intelectual e do pântano emocional da vida ordinária.” (Oakeshott, 2021, 61). Ela
é liberal na medida em que se vê, portanto, livre de finalidades externas ao próprio processo educa-

13
Cf. The labor shortage is pushing American Colleges into crisis, with the plunge in enrollment the worst ever recorded, [s.d.]
14
Sobre a origem e o desenvolvimento das universidades no ocidente, veja-se o excelente HASKINS, 1957.
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tivo. Desse modo, tal concepção põe em relevo o fato de que a educação – em especial a superior
– deve focalizar, para além da instrução técnica em vista do aprendizado de um ofício, a formação de
virtudes intelectuais e morais que encontram suas finalidades em si mesmas, na própria consecução
e desenvolvimento do estudante.
O que dissemos até aqui acerca dos diversos impactos da evolução das IAs na educação, longe de
fazer com que o ensino e a aprendizagem sejam substituídos por algum sucedâneo totalmente estra-
nho, coloca em xeque a necessidade de que docentes e instituições de ensino, em especial a univer-
sidade, voltem-se àquilo que, de fato, caracteriza a formação de tipo superior. Provavelmente, o maior
impacto a ser visto e vivenciado nas instituições de ensino a partir do novo quadro tecnológico no qual
já estamos, seja o de que os professores possam enfim, libertos das atividades mais mecânicas e das
demandas mais pragmáticas do processo educativo, dedicarem-se ao desenvolvimento de virtudes e
hábitos intelectuais e morais tais como a do pensamento crítico, do rigor intelectual, da criatividade, da
imaginação moral e da resolução eticamente balizada de problemas nas mais diversas áreas.
É curioso notar, assim, que o processo de evolução tecnológica que descrevemos até aqui, pode –
e, por que não dizer, deve – desencadear uma reflexão profunda sobre a identidade da universidade no
mundo contemporâneo e ter como consequência mais do que desejada, a reinserção dessa instituição
no horizonte das “novas” necessidades trazidas pelas mudanças na educação.

7 Conclusão: em busca do prompt perfeito


Desse modo, se, por um lado, grande parte das atividades profissionais cognitivamente espe-
cializadas tendem a ser pouco a pouco transformadas e algumas completamente substituídas pelas
tecnologias de inteligência artificial, e, por outro, os processos de ensino-aprendizagem se trans-
formam substancialmente, sobretudo no que diz respeito ao papel professoral de transmissão do
conhecimento que até então era monopólio das universidades, acreditamos que, diferentemente
do que foi o processo de educação predominante nos séculos da era industrial de especialização
cognitiva, está colocado na ordem do dia das instituições universitárias o desafio da elaboração de
uma concepção pedagógica voltada para a formação integral, humana e moral da juventude. A nosso
ver, trata-se, de agora em diante, em certo sentido, de um retorno criativo e atualizado à formação
clássica proposta pelo ideal grego do desenvolvimento intelectual, crítico e criativo, com foco na
educação moral e estética da juventude, a famosa kalokagathia, uma vez que grande parte dos pro-
cessos produtivos – e, também decisórios – e educativos estarão cada vez mais, por assim dizer, nas
mãos dos sistemas de IA.
Deveríamos, portanto, estar mais preocupados em como potencializar os sistemas de IA na sala
de aula e fora dela, e não nos concentrarmos simplesmente em como coibir a utilização dessas ferra-
mentas de IA. Na filosofia, sobretudo, constantemente fala-se em aprender e ensinar os estudantes a
fazerem a perguntas certas. A filosofia tem seu momento lógico inicial na boa fixação de um problema
que, idealmente, pode ser colocado na forma de uma pergunta. Assim, uma parte importante do pro-
cesso de ensino-aprendizagem na era da inteligência artificial é como nós, professores, aprendemos e
ensinamos nossos alunos a fazerem as perguntas certas para os sistemas de IA, ou seja, como fazer os
melhores prompts para obter as melhores respostas geradas pelas diferentes tecnologias de IA.
Em todo caso, a grande questão ética e educacional da IA no fundo não se reduz àquilo que nós
podemos fazer com a IA, mas também e principalmente o que nós queremos e devemos fazer com a
revolução da IA? Ou seja, qual é a direção que, como civilização, nós queremos dar a essa nova era que
se avizinha no horizonte? Como nós vamos educar professores e pesquisadores e como vamos formar
as novas gerações de universitários nesse espírito de criatividade, proatividade, responsabilidade ética
e moral no contexto da Era da Inteligência Artificial?
Celso Candido de Azambuja e Gabriel Ferreira da Silva
Novos desafios para a educação na Era da Inteligência Artificial 15/16
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[Link] Acesso em: 12 nov. 2023.

Submetido em 16 de novembro de 2023.


Aceito em 11 de janeiro de 2024.

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