Administração Rural: Cooperativas e Sustentabilidade
Administração Rural: Cooperativas e Sustentabilidade
Administração Rural
Volume 4
1ª Edição
Belo Horizonte
Poisson
2020
Editor Chefe: Dr. Darly Fernando Andrade
Conselho Editorial
Dr. Antônio Artur de Souza – Universidade Federal de Minas Gerais
Msc. Davilson Eduardo Andrade
Dra. Elizângela de Jesus Oliveira – Universidade Federal do Amazonas
Msc. Fabiane dos Santos
Dr. José Eduardo Ferreira Lopes – Universidade Federal de Uberlândia
Dr. Otaviano Francisco Neves – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Dr. Luiz Cláudio de Lima – Universidade FUMEC
Dr. Nelson Ferreira Filho – Faculdades Kennedy
Msc. Valdiney Alves de Oliveira – Universidade Federal de Uberlândia
Formato: PDF
ISBN: 978-85-7042-217-0
DOI: 10.36229/978-85-7042-217-0
CDD-658
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de responsabilidade exclusiva dos seus respectivos autores.
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SUMÁRIO
Capítulo 1: O interesse pela comunidade das organizações cooperativas, vista pela
percepção dos cooperados da Cooperativa de Crédito de Livre Admissão do Leste e
Nordeste Mineiro - SICOOB AC CREDI. ............................................................................................. 07
Larissa Ribeiro de Castro, Pablo Murta Baião Albino
DOI: 10.36229/[Link].01
Capítulo 11: Avaliação do perfil das embalagens e rótulos de Cachaça Artesanal do Brejo
............................................................................................................................................................................ 151
Anderson Ferreira Vilela, Darlan Willer Batista Roque, Josias Pereira do Nascimento, Jeffrey Tyrone de
Lima Araújo Santos, Ana Clara de Alvarenga Morais, Joselito Bastos da Silva Júnior
DOI: 10.36229/[Link].11
Capítulo 13: Elaboração e avaliação da aceitação sensorial de queijo tipo coalho a partir
de leite fermentado com grãos de kefir............................................................................................ 161
Eronilson Vieira da Silva, Nkarthe Guerra Araújo, Idiana de Macedo Barbosa, Simone Eugênia Pinheiro,
Victoria Batista Pereira, Beatriz Pammela Nunes da Silva
DOI: 10.36229/[Link].13
Capítulo 1
O interesse pela comunidade das organizações
cooperativas, vista pela percepção dos cooperados da
Cooperativa de Crédito de Livre Admissão do Leste e
Nordeste Mineiro - SICOOB AC CREDI
Larissa Ribeiro de Castro
Pablo Murta Baião Albino
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Administração Rural – Volume 4
1. INTRODUÇÃO
O Cooperativismo é a doutrina que visa a renovação social por meio da cooperação (PINHO, 1966). É um
movimento que preza pela democracia, transparência, igualdade, equidade, solidariedade e busca
promover a qualidade de vida e autonomia das pessoas, além de contribuir com o desenvolvimento das
regiões, valorizando as comunidades locais.
Esse movimento surgiu na Revolução Industrial, período em que os operários sofriam péssimas condições
de trabalho e não tinham condições de adquirir produtos alimentícios, devido aos altos preços taxados na
época. Como alternativa de compra com valores acessíveis, uniram-se 28 pessoas e formaram a primeira
cooperativa em 1844.
Com a criação de regras e princípios, a cooperativa de Rochdale tornou-se uma experiência sólida, sendo
referência em todo o mundo. Segundo Pinho (1966) as cooperativas são grupos sociais que visam fins
econômicos e educativos. Logo, são organizações compostas por características próprias, uma vez que sua
atividade econômica é baseada na cooperação e no interesse comum dos associados, sendo eles, donos e
usuários do negócio.
Os princípios criados em 1844 se tornaram doutrina e são seguidos pelas cooperativas até os dias atuais.
Entretanto, essa “doutrina cooperativista necessita de criatividade e de adaptação ao tempo e espaço, pois
cada época e em cada região as economias e as necessidades sociais são peculiares” (IRION, 1997, p. 54).
Nesse sentido, em 1895 a Aliança Cooperativa Internacional (ACI), se tornou responsável pela adaptação
dos princípios ideológicos.
Então, em 1995 no congresso realizado em Manchester (Inglaterra), a ACI acrescentou o princípio de
interesse pela comunidade na doutrina cooperativista (NETO, 2012). Sendo o sétimo princípio, o foco do
presente trabalho.
O tema foi escolhido por despertar interesse da pesquisadora, pois a prática desse princípio deve ser
divulgada e disseminada, destacando a contribuição social das cooperativas para as suas comunidades.
Ainda, o principal motivo que levou o estudo na cooperativa pesquisada foi devido ao fato do estágio
curricular obrigatório, para a conclusão do curso de Cooperativismo, ter sido realizado na organização,
percebendo assim uma oportunidade para o aprofundamento do estudo.
Para o desenvolvimento do referencial teórico, foi relacionado o interesse pela comunidade com as ações
de responsabilidade social, uma vez que por mais que outras organizações realizam essa prática, a
responsabilidade social está enraizada no cooperativismo, fazendo parte de sua doutrina (GIMENES et al
2007).
Dessa forma o presente trabalho buscou, por meio de entrevista com os associados do Sicoob AC Credi,
verificar se a cooperativa atende ao sétimo princípio (interesse pela comunidade) e se os cooperados
percebem este trabalho.
Para isso, buscou-se verificar se há ações sociais desenvolvidas pela cooperativa, se elas são consideradas
pelos seus cooperados, como de interesse pela comunidade e ainda, averiguar qual o nível de satisfação
dos cooperados com essas ações.
Além disso, é importante esclarecer que o presente trabalho estudou apenas a percepção dos cooperados
do PA Centro localizado no município de Governador Valadares, visto que as ações de responsabilidade
social podem variar em cada região. Os demais postos de atendimento do leste e nordeste mineiro
possuem autonomia para desenvolverem seus próprios projetos, de modo a atender as demandas e
especificidades de suas comunidades.
2, REVISÃO DE LITERATURA
2.1. ORGANIZAÇÕES COOPERATIVAS E SEUS PRINCÍPIOS
Segundo Neto (2006) o cooperativismo é uma doutrina que por meio da cooperação, contribui para o 8
desenvolvimento da sociedade e a distribuição de riquezas.
Administração Rural – Volume 4
As cooperativas são os empreendimentos que trabalham seguindo essa ideologia. De acordo com a Lei nº
5.764/71 “Lei do Cooperativismo no Brasil” em seu Art. 4º “As cooperativas são sociedades de pessoas,
com forma e natureza jurídica próprias, de natureza civil, não sujeitas a falência, constituídas para prestar
serviços aos associados, distinguindo-se das demais sociedades [...]” (BRASIL, 1971).
Essas organizações coletivas, são compostas por pessoas ligadas a ideais e objetivos próximos, em que
buscam suprir necessidades semelhantes. Elas são formadas por um grupo de pessoas que possuem como
objetivo, satisfazer suas necessidades comuns por meio da realização de uma atividade econômica
específica (NETO, 2006).
Para atuação destas organizações dentro do modelo auto gestionário, as cooperativas se norteiam em sete
princípios. De acordo com Neto (2012), são eles:
1 - Adesão livre e voluntária; esse princípio possibilita que todas as pessoas se associem, desde que
estejam alinhadas com o objeto social da cooperativa.
2 – Gestão democrática; reforça que as pessoas possuem o mesmo poder de decisão nas votações,
independentemente do valor de capital integralizado.
3 - Participação econômica dos sócios; diz que os membros controlam a cooperativa de forma democrática
e contribuem de maneira equitativa para o seu capital, de modo que, pelo menos parte desse montante
permanece na cooperativa.
4 - Autonomia e independência; garante que os sócios devem impedir que fatores externos interfiram em
suas decisões, de modo a assegurar que a organização seja gerida de forma autônoma.
5 - Educação, formação e informação; assegura que as cooperativas proporcionem educação, treinamento
e informação aos seus membros, representantes, diretores e colaboradores, de modo que possam
contribuir com o desenvolvimento da organização e com a consolidação do movimento cooperativo.
6 – Intercooperação; esse princípio estimula que as cooperativas devem cooperar entre si, seja no
envolvimento de ações comuns ou no compartilhamento de práticas de sucesso.
7 – Interesse pela comunidade; garante que as cooperativas promovam ações de interesse coletivo em
suas comunidades.
Segundo Gimenes et al (2007), esses princípios são os valores enraizados que as cooperativas possuem
como base para praticar suas ações. Dessa forma, a doutrina compartilhada entre as cooperativas,
dão formato a um modelo de empreendimento ímpar.
Estudos sobre este último princípio do cooperativismo, como o de Jaques e Freitas (2017) e Socreppa e
Silva (2017), buscaram analisar a aplicabilidade do interesse pela comunidade das organizações
cooperativas, bem como destacar a importância do papel que as mesmas exercem em suas comunidades.
Diante do que já foi apresentado sobre o princípio, é possível compreender que o interesse pela
comunidade das cooperativas, presa pela prática de programas ou ações por parte da organização que
valoriza as comunidades locais e os atores que nela se encontram, sejam crianças, mulheres, idosos ou
jovens.
O objetivo era realizar empréstimos com taxas de juros mais acessíveis, em que os mesmos sendo donos e
usuários, pudessem participar efetivamente das decisões e resultados.
Como reflexo do sucesso dessa iniciativa, no ano 2000 a cooperativa já contava com 2670 associados e
uma sede própria, bem como o aumento no número de operações financeiras. Em 2006, a AC Credi,
incorporou a Credito, uma cooperativa de crédito da área de confecção do município de Teófilo Otoni,
expandindo sua atuação as regiões de Teófilo Otoni e Itambacuri, onde se encontravam os postos de
atendimento da Credito.
Ainda na perspectiva de ampliar sua área de atendimento, dentre os anos de 2001 a 2008, a AC Credi
inaugurou 9 postos de atendimento (PA’s) em diferentes cidades, sendo elas: Aimorés, Belo Oriente,
Conselheiro Pena, Dom Cavati, Engenheiro Caldas, Governador Valadares (Vila Isa), Itambacuri,
Resplendor e Teófilo Otoni. Além do seu primeiro posto de atendimento, localizado no centro de
Governador Valadares, o qual atualmente conta com aproximadamente 3,2 mil associados e é objeto de
estudo do presente trabalho.
No ano de 2009, a cooperativa aderiu a marca Sicoob, sendo designada Sicoob AC Credi e em 2014 se
tornou de livre admissão, alterando seu estatuto para Sicoob AC Credi - Cooperativa de Crédito de Livre
Admissão do Leste e Nordeste Mineiro LTDA. Atualmente, a cooperativa possui 10 postos de atendimento,
com área de atuação em 21 cidades e com aproximadamente 11,8 mil cooperados, incluindo pessoas
físicas e jurídicas.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Ao analisar os dados obtidos nas entrevistas, foram explorados três eixos temáticos: a prática de ações
sociais desenvolvidas pela organização, o conhecimento dos cooperados que se refere as ações sociais
empreendidas pela cooperativa e a percepção destes com relação ao nível de satisfação dessas práticas.
Nessa primeira edição, as ações escolhidas foram a arrecadação de alimentos para 7 instituições sociais
(creches, orfanatos e asilos) além de moradores carentes da região. Ainda, em parceria com as agências
dos correios locais, a cooperativa incentivou os associados, colaboradores e comunidade a adotarem as
cartas de natal das crianças e apadrinhá-las. No ano de 2017, a parceria com as agências dos correios se
manteve e as ações foram semelhantes.
Quadro 2. Quantidade de cooperados que conhece as Ações Sociais promovidas pela cooperativa.
N° CONHECIMENTOS POR GRUPO
Conselho Fiscal, de
GRUPO A GRUPO B Administração e Diretoria
Executiva
Projeto Bolinha Cidadã 2 1 4
Dia de Cooperar 6 1 5
Natal Social 6 4 5
Não conhece nenhuma Ação Social - 4 -
Fonte: Elaboração própria, com base nas entrevistas dos participantes.
Isso indica que os cooperados mais antigos (Grupo A) possuem uma relação mais próxima com as
atividades desenvolvidas pela organização. Por outro lado, para os que se associaram mais recentemente
foi percebido que há necessidade de fazer um trabalho de aproximação e conhecimento dos serviços e
atividades desenvolvidas pela organização.
Ainda, alguns entrevistados do Grupo A, recordaram de projetos que a cooperativa desenvolvia e
atualmente estão extintos, bem como outras ações pontuais praticadas no decorrer de sua história. Uma
das ações mencionadas foi o projeto Coop Arte que segundo o presidente do Conselho de Administração:
A gente levava a cooperação em forma de arte: artesanato e culinária para
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escolas e entidades mais necessitadas, visando uma profissionalização das
pessoas. Porém essa profissionalização era dada com princípios de cooperação
onde as ideias do cooperativismo eram colocadas na prática.
Administração Rural – Volume 4
Quando questionado se a cooperativa pratica ações sociais, esse projeto foi recordado por um dos
cooperados do Grupo A que comentou: “Há um tempo atrás tinha uma funcionária aqui que visitava as
instituições de caridade e promovia algumas atividades lá, com trabalhos manuais”.
Além disso, alguns cooperados também do Grupo A, resgataram momentos marcantes que tiveram a
oportunidade de atuar como voluntários junto a cooperativa, como a reforma de uma creche. O Primeiro
cooperado comenta: “uma ação social que eu conheço foi na creche de um bairro carente com pessoas de
baixa renda, eu até ajudei na reforma”. E o segundo acrescenta: “trabalhei lá na creche como voluntário, a
gente murou a creche toda, a cooperativa fez uma reforma lá”.
No Gráfico 1 abaixo ainda é possível verificar que 58,8% dos cooperados entrevistados conhecem o Natal
Social; 41,2% o Dia C e apenas 17,6% conhecem o Bolinha Cidadã. Isso se dá principalmente porque o
Natal Social é a ação que mais envolve a atuação dos cooperados uma vez que eles têm a oportunidade de
participarem de forma efetiva. Além disso, na época natalina, a cooperativa divulga a campanha de natal
com panfletos, banner e enfeites, o que chama a atenção dos associados que vão visitar o posto de
atendimento. Dez (10) dos entrevistados afirmaram tomar conhecimento dessa ação na própria agência e
dois (2) desses tiveram a oportunidade de participar doando os presentes para as crianças carentes.
Já no que diz respeito ao Dia C, além da cooperativa beneficiar as entidades carentes como foi exposto no
tópico 4.1.2, dois (2) entrevistados afirmaram que já visitaram os estandes que a cooperativa coloca
anualmente em local público com atividades de lazer para a comunidade e entretenimento para as
crianças. Outros dois (2) respondentes da pesquisa relataram que conhecem a ação por meio do boletim
informativo que é disponibilizado aos associados. Ainda, três (3) entrevistados disseram que não
conhecem o objetivo dessa ação social, apenas veem os funcionários usando as camisetas de divulgação.
Ainda, os três (3) que afirmaram conhecer o Bolinha Cidadã, não tiveram nenhuma atuação no projeto,
argumentaram que tomaram conhecimento apenas por meio de divulgação no jornal local da cidade.
Portanto, a ação social menos conhecida pelos cooperados não foi divulgada na agência, enquanto que a
mais conhecida houve maior ênfase nesse mesmo local.
Na concepção do entrevistado que conhece apenas o Natal Social, essa ação não representa o interesse
pela comunidade, uma vez que a cooperativa: “faz só ações específicas e em datas comemorativas, não tem
uma ‘coisa’ o ano inteiro, com continuidade”.
O que pode ser acrescentado por um dos conselheiros fiscais que conhece apenas o Dia C e o Natal Social e
acredita que essas ações representam o sétimo princípio do cooperativismo, mas também sugere que a
instituição financeira desenvolva o Dia C: “como um trabalho permanente, (...) deveria abrir um ‘leque’
para algo constante no dia a dia da sociedade, principalmente para a comunidade carente”.
Nesse sentido, uma sugestão é que a organização invista em ações permanentes que promovam benefícios
duradouros, como novas estratégias de implementar o Dia C como foi comentado pelo entrevistado
mencionado acima.
Dos entrevistados que acreditam que as ações sociais da cooperativa atendem ao sétimo princípio,
acrescentaram que essas ações beneficiam principalmente as pessoas e entidades carentes. E segundo
Cançado, Júnior e Rigo (2008, p. 6), a prática desse princípio “aumenta o caráter social da organização
cooperativa, pois prevê ações da organização na melhoria das condições da comunidade”.
Um dos entrevistados que se referia ao Dia C afirmou que o mesmo representa o interesse pela
comunidade: “porque é um trabalho social, a cooperativa faz com pessoas da sociedade que não são
associadas a ela”.
Outro associado, ao mencionar sobre o Natal Social, argumenta que investir na comunidade pode
beneficiar a própria cooperativa, afirmando que: “uma instituição financeira, seja ela do tamanho que for,
se olhar pela comunidade, estará construindo base, quanto mais ela olhar pela comunidade ela está se
erguendo perante a comunidade”.
De acordo com Gimenes et al (2007, p. 9) “as ações de responsabilidade social se tornam visíveis ao serem
observadas às mudanças benéficas geradas na comunidade ou entre os profissionais que fazem parte de
uma cooperativa”. E para o presidente do conselho de administração e um dos diretores executivos, o
Bolinha Cidadã é o projeto de maior prestígio e está melhor estruturado atualmente. Segundo o
presidente:
O Bolinha Cidadã é um projeto que através do esporte a gente dignifica aquela
pessoa que está em áreas de alto risco social e damos a ela condição e visão de
um mundo diferente do que ela tem. Tentamos “moldar” o caráter das pessoas
em uma visão de mundo diferente, nós já temos advogado e professor de
educação física frutos do projeto, estamos empregando alguns desses jovens
nas cooperativas e no mercado local. Então eles viram que essa opção é melhor,
tudo isso através do esporte onde coloca disciplina, exigindo notas boas.
Ao mesmo tempo que ambos consideram que esta é a ação social que mais proporcionou benefício a
comunidade, reconhecem que a maioria dos cooperados não possuem essa informação.
De acordo com o diretor executivo: “a gente não divulga o suficiente, muita gente nem sabe que a
cooperativa promove esse projeto. O que justifica a falta de conhecimento do mesmo pela maioria dos
entrevistados e a insatisfação dos associados que lamentaram o fato da instituição não possuir uma ação
social permanente.
Com o intuito de investigar o grau de satisfação dos entrevistados (cooperados, conselho fiscal, conselho
administrativo e diretoria executiva) com as ações de interesse pela comunidade que a cooperativa
promove, foi solicitado aos mesmos que pontuassem de 1 a 5 onde a nota 1 indicava muito insatisfeito, a
nota 2 insatisfeito, 3 média satisfação, 4 satisfeito e 5 muito satisfeito.
Assim, verificou-se que nenhum deles está muito insatisfeito, um (1) está insatisfeito, nove (9) com média
satisfação, seis (6) satisfeitos e seis (6) muito satisfeitos. Pode-se identificar o grau de satisfação ilustrado
no Gráfico 2 a seguir.
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Administração Rural – Volume 4
Gráfico 2. Grau de satisfação dos entrevistados com relação ao interesse pela comunidade praticado pelo
Sicoob AC Credi.
Para o associado que demonstrou insatisfação a cooperativa não pratica o princípio de interesse pela
comunidade. Dentre as nove (9) pessoas que apresentaram média satisfação, duas (2) não conhecem
nenhuma ação social que a cooperativa promove. A primeira justificou sua posição: “entrei na cooperativa
agora, quem sabe futuramente eu tendo mais ciência e conhecendo posso melhorar meu posicionamento”,
e a segunda acrescentou: “eu sei que tem ação social, mas eu não conheço, então não posso quantificar
tanto para bom quanto para ruim”. Os demais cooperados relataram não conhecerem com profundidade
para demonstrarem alto grau de satisfação, o que justifica o elevado índice de indiferença.
Ainda, dois (2) conselheiros fiscais e o presidente do conselho de administração possuem este mesmo
grau de satisfação por não se sentirem realizados. O presidente do conselho de administração comenta:
Eu nunca vou estar satisfeito com o que a gente está fazendo, sempre podemos
fazer mais. Daqui a alguns anos talvez eu continue insatisfeito mesmo tento
alcançado tudo o que planejamos, porque tenho certeza que teremos outras
ações para fazer ao invés de nos acomodar pensando no que a cooperativa já
tem realizado.
Ainda, entre os entrevistados que demonstraram satisfação, são destacadas duas justificativas. A primeira
são aqueles que se associaram recentemente e não conhecem as ações sociais praticadas pela organização
mas confiam que ela promova atividades com esse fim. A segunda, são os que conhecem suas ações mas
não estão plenamente satisfeitos, acreditam que ela pode desenvolver novas ações para a comunidade
como o apoio a prática de esportes, principalmente para jovens carentes financeiramente.
Os associados que estão muito satisfeitos acrescentam que a cooperativa cumpre com seu dever na
sociedade e deve continuar promovendo ações sociais na região onde atua como instituição financeira. O
que é corroborado por Socreppa e Silva (2017, p. 113) ao dizerem que com base no sétimo princípio “o
que se quer é um papel mais ativo das cooperativas nas sociedades em que estão inseridas”.
Por fim, os cooperados sugeriram que a instituição implementasse diversas práticas de interesse pela
comunidade, a fim de proporcionar benefícios para além do seu quadro social. Quatro (4) entrevistados
destacaram o incentivo de outros esportes para jovens carentes além do tênis, como o jiu-jitsu, capoeira,
judô, futebol e natação. Além disso, foi citado o incentivo à leitura e educação das crianças, como a criação
de uma biblioteca, bem como ações voltadas para a terceira idade.
Ainda, dois (2) entrevistados indicaram que a instituição implementasse um projeto de qualificação
profissional para menores carentes de modo que futuramente os mesmos tenham a oportunidade de
trabalhar na cooperativa ou no mercado local. E outro cooperado citou a necessidade da instituição
desenvolver ações de apoio as pessoas desabrigadas do município de atuação do PA Centro.
Por fim, um dos entrevistados relatou que a região sofre os reflexos de uma tragédia ambiental e
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manifestou a importância da organização implementar um projeto de plantio de árvores como uma prática
de interesse pela comunidade.
Ainda, um dos diretores executivos relatou que no planejamento estratégico atual, ficou definido que a
cooperativa irá investir nas ações de interesse pela comunidade que seus funcionários já participam como
voluntários. O objetivo da organização é buscar maior envolvimento de seus colaboradores nas ações
Administração Rural – Volume 4
sociais da própria organização, uma vez que muitas vezes quem contribui para o desenvolvimento desses
projetos são os próprios funcionários e acrescenta: “Nosso maior desafio é conseguir implementar pelo
menos uma atividade em cada município que atuamos”.
Portanto, esse estudo sugere que a organização invista em um espaço de relacionamento com os
cooperados e comunidade de forma geral, em que não somente os colaboradores participem, mas
principalmente para descobrir quais são as demandas da comunidade, implementando as ações que os
associados percebem como prioritárias. Assim, as necessidades e expectativas de desenvolvimento das
comunidades poderão ser identificadas formalmente por meio dos próprios cooperados, onde suas
sugestões poderão ser atendidas, reforçando a atuação social da cooperativa.
Dessa forma, a organização será mais assertiva na escolha da implementação dessas ações. Logo, há
possibilidade da cooperativa buscar maior envolvimento tanto dos colaboradores, como de seus
cooperados, para a execução do princípio de interesse pela comunidade.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Sabe-se da importância representativa das cooperativas atuarem seguindo os princípios ideológicos para a
doutrina e que isso reforça a preservação e a disseminação da cultura do cooperativismo. A pesquisa
expressa a realidade prática da idealização da doutrina que estão inseridas no sistema cooperativista.
Na percepção da maioria dos cooperados, o Sicoob AC Credi pratica o interesse pela comunidade, porém,
seu grau de satisfação quanto a execução desse princípio se concentra entre indiferente, satisfeito e muito
satisfeito.
Ainda, por meio desse estudo foi possível observar que a cooperativa busca desenvolver seu papel de
responsabilidade social e se preocupa com a comunidade local onde está inserida. O Sicoob AC Credi
promove ações sociais que reforçam a essência de ser cooperativa, seguindo a doutrina compartilhada
entre o movimento cooperativista e isso comprova que a organização se dedica para afirmar a sua atuação
em relação ao sétimo princípio.
Uma das limitações desse trabalho foi a área de abrangência das entrevistas e das ações sociais praticadas,
que ficaram concentradas no posto de atendimento Centro. Nesse sentido, uma recomendação para
trabalhos futuros é de que as entrevistas e verificação das ações sociais sejam ampliadas para todos os
postos de atendimento que a cooperativa dispõe, alcançando uma amostra que represente o total de
cooperados e de ações desenvolvidas.
REFERÊNCIAS
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<[Link] Acesso em: 17 de julho de 2018.
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[3] Brasil. Lei nº 5.764, Art. 28, de 16 de dezembro de 1971.
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INCRA/IICA, 1998.
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Comunidade ou Responsabilidade Social para Cooperativas? Uma abordagem baseada na Teoria da Dádiva. V
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Prática da Responsabilidade Social pelas Cooperativas Paranaenses, 2007.
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comunidade por uma cooperativa de crédito de João Monlevade - MG. 2017.
Administração Rural – Volume 4
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Multidisciplinary e-Journal, v. 29, n. unknown, p. 3-30, 2017.
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99, 1986.
[15] Machado, Fernanda. Responsabilidade Social e Ética na Cooperativa de Economia e Crédito Mútuo dos
Profissionais do CREA do Estado de Santa Catarina-Credcrea. Balneário Camboriú, 2008.
[16] Meinen, Ênio; PORT, Márcio. Cooperativismo Financeiro: percurso histórico, perspectivas e desafios. Brasília:
Confebras, 2014.
[17] Neto, Sigismundo Bialoskorski. Aspectos econômicos das cooperativas. Editora Mandamentos. Belo
Horizonte, 2006.
[18] Neto, Sigismundo Bialoskorski. Economia e gestão de organizações cooperativas. 2ª edição, editora Atlas. São
Paulo, 2012.
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utilidade. São Paulo, 1966.
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<[Link] Acesso em: 09 de agosto de 2018.
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[23] Socreppa, Anemari; da Silva, Everaldo. O Princípio do Interesse pela Comunidade nas Cooperativas. Cadernos
Zygmunt Bauman, v. 7, n. 13, 2017.
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Administração Rural – Volume 4
APÊNDICE - ENTREVISTA
1. Você pertence ao quadro de:
( ) Cooperado ( ) Conselho Fiscal
( ) Conselho de Administração ( ) Diretoria Executiva
11. Caso conheça ao menos uma, você já teve a oportunidade de participar dessa ação?
13. Caso conheça alguma das ações (Projeto Bolinha Cidadã, Dia C, Natal Social) na sua opinião, é uma
ação que representa o interesse pela comunidade?
15. Além das ações apresentadas acima, o que você sugere que a cooperativa possa implementar?
16. De 1 a 5 qual nota você daria para representar o seu nível de satisfação quanto ao interesse pela
comunidade praticado pelo Sicoob AC Credi?
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Administração Rural – Volume 4
Capítulo 2
Diagnóstico da rede de cooperação agroindustrial e
logística na Área de Livre Comércio de Guajará-Mirim-
RO
Eliane Alves da Silva
Sergio Nogueira do Nascimento
Mariluce Paes de Souza
Haroldo de Sá Medeiros
1. INTRODUÇÃO
O Brasil seguiu padrão de que a fronteira é concebida como área de segurança nacional a ser protegida de
inimigos externos. No entanto, somente nos últimos anos passou a pensar a zona de fronteira como espaço
de integração econômica e política entre as nações sul-americanas, fato este, provavelmente ligado à
recuperação do regime democrático no continente, após longo período de ditaduras. Assim, o momento
atual pode ser caracterizado como um momento de passagem de uma concepção de fronteira
exclusivamente de defesa de limites territoriais, rígida e isolante, para uma “concepção de aproximação,
união e abertura num espaço integrador sobre o qual se devem orientar as estratégias de
desenvolvimento por meio de ações conjuntas entre países vizinhos (MACHADO ET AL., 2005; NASSER;
MORAES, 2014).
A intensa circulação de pessoas e mercadorias transfronteira dada por movimentos pendulares de
trabalhadores ou cidadãos em busca de atendimento por serviços oferecidos no outro lado da fronteira ou
simplesmente em busca de lazer, faz parte de um modo de viver particular das populações da Zona de
Fronteira, que procura aproveitar as vantagens que este tipo de localização pode proporcionar.
Entretanto, os aparatos de controle dos Estados tendem a restringir estes movimentos, comprometendo a
eficiência das relações transfronteiriças, daí a demanda das populações da Zona de Fronteira pela
adequação dos marcos legais de cada país, às situações que de fato ocorrem nestes espaços. Neste sentido,
os legisladores são confrontados com questões complexas que demandam um olhar atento de modo a
estabelecer medidas justas e equilibradas. Um exemplo destas dificuldades legais é o de definir o que é
comércio fronteiriço e o que é exportação (MACHADO ET AL., 2005; GATTI, 2016).
Neste contexto se relacionam aspectos evolutivos que envolvem o conceito de redes de cooperação
interorganizacional. A dinâmica de relacionamentos presente nesses tipos de redes representa para o
cenário empresarial algumas possibilidades estratégicas de acesso a novos mercados consumidores ou,
em alguns casos, à manutenção de mercados atuais. Assim, o estudo do processo evolutivo das redes de
cooperação tornou-se um tema recorrente entre estudiosos organizacionais, resultando na proliferação de
proposições teóricas que analisam as diferentes etapas no gerenciamento do ciclo de vida das redes
(ZANCAN ET AL., 2013).
Estudos ressaltam a importância das redes de cooperação como estratégias relacionais capazes de
propiciar a geração de resultados que transcendem a simples soma dos recursos organizacionais
individuais (MÜLLER-SEITZ, 2011; LEE; MONGE, 2011; SIRMON ET AL., 2010; ATOUBA; TURRINI ET AL.,
2009; POLETTO ET AL., 2011; KUNZLER; BULGACOV, 2011; BALESTRIN ET AL., 2010). Do mesmo modo, o
compartilhamento de recursos e riscos, a sinergia resultante da interação organizacional e a estrutura de
relacionamentos produzida proporcionam uma configuração de elementos que pode resultar em aumento
de competitividade para organizações que estabelecem redes de cooperação como alternativa de
desenvolvimento (POWELL, 1998).
Embora a literatura ressalte a importância das relações interorganizacionais, representadas por redes de
cooperação, no entanto, torna-se necessário conhecer os motivos que levam algumas dessas redes a
sobreviverem e prosperarem, enquanto outras não. Neste sentido, o objetivo desta pesquisa é descrever
os condicionantes envolvidos para o processo de consolidação da rede de cooperação entre a
agroindústria da cidade de Guajará-Mirim e órgãos governamentais, assim como organizações da
sociedade civil.
Este estudo é uma contribuição para análise acerca dos processos de formulação e implementação de
políticas públicas para a gestão de mercados agroindustriais em zona de fronteira, quando analisa os
processos de articulação política que ocorreram para a inserção do tema entre o governo e a sociedade
civil que possibilitam a criação da política econômica. Neste estudo reforçam-se suas características
particulares e as políticas territoriais que incidem sobre elas. No caso de Guajará-Mirim, vigora uma Área
de Livre Comércio (ALC). Ainda que esta legislação especial não tenha todos os seus pontos planejados em
vigor, pois as cidades contempladas ainda não podem realizar importações com vantagens fiscais.
A metodologia de análise considerou duas etapas. Primeiramente, buscou-se por dados secundários
obtidos por meio de consulta à base de dados de instituições públicas, assim como pesquisas anteriores
23
relacionadas ao desenvolvimento local e redes de cooperação.
Administração Rural – Volume 4
Na segunda etapa analisou-se sob a ótica da teoria de redes colaborativas, a fase pré-decisional de
processos de formação da agenda pública e a especificação de alternativas para tomada de decisões dos
agentes governamentais sobre a formulação dos programas a serem implementados na zona de fronteira.
Este artigo está organizado da seguinte maneira. A próxima seção apresenta alguns fatos sobre a criação
da Área de Livre Comércio em Guajará-Mirim, sua importância para a economia doméstica e para estado
de Rondônia. Em seguida, aborda os aspectos relacionados a redes colaborativas na formação de políticas
públicas. Após discussão do referencial teórico, confrontou-se os dados secundários levantados com a
teoria fomentada. E por fim, apresentou-se as conclusões e observações finais.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1. REDES DE COOPERAÇÃO
O conceito de redes de cooperação emergiu no final dos anos de 1970, quando autores como Aldrich e
Williamson passaram a utilizar a forma de relacionamento interorganizacional como foco de análise. A
influência dessa perspectiva fez com que o tema redes fosse percebido a partir de diferentes enfoques. O
primeiro enfoque considerava as redes de cooperação como um novo arranjo voltado à melhoria do
desempenho organizacional. O segundo enfoque esteve voltado para o processo de formação e
estruturação dos arranjos cooperativos. Por fim, o terceiro enfoque compreendeu os relacionamentos
interorganizacionais cooperativos a partir de uma perspectiva temporal de forma mais ampla (MARTES
ET AL., 2006).
A partir destes três enfoques o conceito de redes de cooperação se desenvolveu, sendo
abordado em diferentes perspectivas na literatura internacional. Por exemplo, publicações no Strategic
Management Journal, no final dos anos de 1990 (PARK; UNGSON, 1997; STEENSMA ET AL., 2000),
passaram a ser estruturadas por grupos específicos de abordagens, a saber: em um primeiro grupo foram
reunidos trabalhos cujo tema central contempla a análise do desempenho das organizações envolvidas em
algum tipo de cooperação interorganizacional, além da investigação sobre as vantagens competitivas
decorrentes das estratégias de cooperação. O segundo grupo de trabalhos foi composto por artigos que
tratam de motivos e condições necessárias para que as organizações adotem ações cooperativas, reunindo
em seu entorno o maior número de publicações (KENT, 1991; MERCHANT; SCHENDEL, 2000; MOWERY
ET AL., 1996). Em um terceiro grupo foram reunidos artigos que propuseram e testaram modelos teóricos,
considerando influências externas e internas do contexto de inserção das redes (CARRÃO, 2004; MÜLLER-
SEITZ, 2011; ZANCAN ET AL., 2013).
Sobre pesquisas produzidas no Brasil, o enfoque temático de redes de cooperação pode ser percebido em
dois grupos. No primeiro grupo de resultados as redes são investigadas como alternativas estratégicas
para a sobrevivência organizacional, revelando resultados que configuram tipos inovadores de alianças
entre organizações (ou grupo de organizações) no gerenciamento dos relacionamentos
interorganizacionais desenvolvidos. No segundo grupo de resultados estão situados aqueles estudos que
consideram como objetivo a aplicação das técnicas de análise de redes sociais (ARS), ou seja, preocupam-
se com a demonstração de resultados que revelem padrões estruturais dos relacionamentos
organizacionais estabelecidos em forma de rede (BRITO ET AL., 2017; BALESTRIN ET AL., 2010; ZAJAC;
OLSEN, 1993).
No contexto interorganizacional brasileiro as redes têm sido apontadas como alternativas estratégicas
para a sobrevivência empresarial. Nesse sentido, as redes consistem em um formato que configura uma
distinta estrutura organizacional que ganhou notoriedade por combinar eficácia, informalidade e
flexibilidade, rompendo com modelos ortodoxos de organização. Originadas de relacionamentos
interorganizacionais, essas arquiteturas organizacionais expressam o grau de maturidade das articulações
dos atores que as compõem, além das instituições em seu entorno, caracterizando um relacionamento ao
mesmo tempo dinâmico e complexo (FRANCO, 2007; RING; VAN DE VEN, 1994).
Segundo Franco (2007) entendem-se que redes de cooperação podem ser vislumbradas como estruturas
horizontais resultantes de relacionamentos interorganizacionais com ênfase no enfoque coletivo, 24
comportando-se de maneira dinâmica na reconfiguração permanente de suas fronteiras, possibilitando
melhor adaptação de recursos diante de objetivos estratégicos compartilhados entre as organizações que
as formam.
Administração Rural – Volume 4
Dessa maneira, as redes podem ser consideradas entidades complexas, definidas como um arranjo único,
cuja evolução depende, por um lado, da sua capacidade de facilitar a comunicação entre seus componentes
e, por outro,
da coerência entre seus objetivos com os seus componentes (THOMPSON, 2003).
Este conceito sugere que as redes de cooperação são estruturas interorganizacionais, capazes de superar
limites durante sua trajetória evolutiva por meio da coordenação de recursos
compartilhados, que viabilizam o fomento das atividades inovadoras e promovem sua evolução.
Isto indica que, para o desenvolvimento interorganizacional ocorrer de forma satisfatória, tem-se a
necessidade da existência de um conjunto de condicionantes favoráveis ao processo de consolidação das
redes, provenientes do seu ambiente externo de inserção, além daqueles encontrados no contexto interno
(ZANCAN ET AL., 2013).
Com o conhecimento prévio desses condicionantes, torna-se possível entender e gerenciar a dinâmica de
configuração de uma rede de colaboração. Para Cavalcante e Alves (2012), a cooperação age como
ferramenta de ligação entre as pessoas que possuem um objetivo em comum, proporcionando proteção e
uma maior eficácia nos processos. No caso de Guajará-Mirim criando uma ambiência capaz de fazer as
estruturas das redes consolidarem e prosperarem. A abordagem das redes trabalha com temas
relacionados aos limites físicos da organização; a interação da organização com seu ambiente; a
coordenação das atividades econômicas dos atores para o alcance de objetivos comuns; a cooperação intra
e interfirmas; as alianças estratégicas e os contratos formais e informais; a interdependência das firmas e
complementariedade de recursos e capacidades; objetivos compartilhados etc. (JARILLO,1988; MILES;
SNOW, 1992; HATCH, 1997). Na literatura brasileira o arranjo produtivo local é definido como sendo
aglomerações territoriais de agentes econômicos, políticos e sociais – com foco em um conjunto específico
de atividades econômicas que mantêm entre si vínculos (CASSIOLATO; LASTRES, 2003; SANTOS ET AL.,
2004).
Para compensar o nível de desigualdade em relação ao desenvolvimento, na década de 1990 foi criada a
Área de Livre Comércio de Guajará-Mirim, sob a gerência da SUFRAMA, que possuía como objetivo
estimular o desenvolvimento da região a partir de uma política de incentivos fiscais. Apesar dos esforços, a
abertura do comércio brasileiro para os produtos estrangeiros, culminou em um duro golpe para a região
que, já vivenciava um longo período de crise econômica desde a Crise da Borracha (CAVALCANTE, 2011).
A criação da Zona Franca de Manaus e as áreas de livre comércio e regiões do Brasil, foi um benefício para
o desenvolvimento desta região, onde Governo procurou equilibrar o atraso no avanço desta região para
com as outras através da concessão de benefícios fiscais, pois através dos benefícios as grandes indústrias
se deslocavam para essas áreas, gerando assim desenvolvimento no local. Destaca-se que a implantação
dos incentivos na região norte foi devida à estagnação do ciclo da borracha, assim o governo procurava
novamente alavancar o desenvolvimento da região atraindo grandes empresas para esta região com a
concessão destes benefícios fiscais (SUFRAMA, 2014).
As Áreas de Livre Comércio (ALCs) foram criadas para promover o desenvolvimento das cidades de
fronteiras internacionais localizadas na Amazônia Ocidental e em Macapá e Santana, com o intuito de
integrá-las ao restante do país, oferecendo benefícios fiscais semelhantes aos da Zona Franca de Manaus
no aspecto comercial, como incentivos do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e do Imposto
sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS). Atualmente, existem sete ALCs,
localizadas nos Municípios de Tabatinga, no Estado do Amazonas; de Guajará-Mirim, no Estado de
Rondônia; Macapá-Santana, no Estado do Amapá; de Brasiléia, com extensão para o Município de
Epitaciolândia e de Cruzeiro do Sul, no Estado do Acre; e, finalmente, Boa Vista e Bonfim, no Estado de
Roraima (SUFRAMA, 2014).
Em dados obtidos com a SUFRAMA (2014), verificou-se que o governo federal por intermédio da Lei
federal n° 8.210, de 19 de julho de 1991 criou no município de Guajará-Mirim, Estado de Rondônia, uma
área de livre comércio de importação e exportação, sob regime fiscal especial, com a finalidade de
promover o desenvolvimento das regiões fronteiriças do extremo noroeste daquele Estado e com o
objetivo de incrementar as relações bilaterais com os países vizinhos, segundo a política de integração
latino-americana, com o prazo de vigência de 25 anos, a partir de sua publicação.
27
Administração Rural – Volume 4
Entre 2000 e 2010, o IDH passou de 0,573 em 2000 para 0,657 em 2010, havendo uma taxa de
crescimento de 14,66%. A distância entre o IDH do município e o limite máximo do índice, que é 1, foi
reduzido em 80,33% entre 2000 e 2010. Entre 1991 e 2000, o IDH passou de 0,468 em 1991 para 0,573
em 2000, houve uma taxa de crescimento de 22,44%. e 2010. De 1991 a 2010, o IDH do município passou
de 0,468, em 1991, para 0,657, em 2010, enquanto o IDHM da Unidade Federativa (UF) passou de 0,493
para 0,727. Isso implica em uma taxa de crescimento de 40,38% para o município (IBGE, 2015).
28
Dessa maneira, com base na importância econômica e social que esta rede representa
Administração Rural – Volume 4
para o setor produtivo de Guajará-Mirim verificou-se que os condicionantes responsáveis por sua
consolidação ganharam relevância, podendo esses resultados inspirar a definição de objetivos estratégicos
que levem à consolidação dessa rede colaborativa. No próximo tópico serão apresentados os resultados da
análise.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Em Guajará Mirim, o crescimento populacional entre 2000 e 2010 foi de 8,67%, contudo foi maior na área
rural (22, 31%) que na área urbana (6,17%), fato que está na contramão da tendência nacional, que é de
urbanização. Isto porque o potencial gerador de empregos na área urbana não se alterou nos últimos anos
e apesar das restrições ecológicas no município, o desmatamento aumentou 19,17% (IBGE, 2015).
Nas observações de campo realizadas por Batista (2018), as características da paisagem de Guajará-Mirim
denotam atividades de baixa tecnologia e baixo retorno econômico. Observou-se que a quantidade de
famílias em alguns casos fica abaixo da capacidade porque a possibilidade de permanência neste tipo de
assentamento requer o uso de técnicas menos degradadoras do meio natural. Este cenário colaborou para
que o município não apresente grandes atrativos ao crescimento populacional por meio dos movimentos
migratórios nas áreas rurais; isto porque a atividade primária do tipo agropecuária tradicional não tem
grandes possibilidades de expansão, embora esteja presente.
Decorrente de todo processo histórico e socioeconômico chega-se a números que após contextualização
são mais fáceis de serem interpretados. O produto interno bruto (PIB) de Guajará-Mirim é de R$14.711,46
per capita. No ranking estadual o município (tabela 1) encontra-se na 9ª posição dentre 52 municípios do
estado de Rondônia (IBGE, 2015). No que diz respeito sobre a participação dos setores da economia no
PIB, verifica-se 6,38% para a agropecuária, 5,60% para indústria, 49,73% para serviços e 38,29% para a
administração pública (IBGE, 2015).
O município possui de área o total de 24.855,652 km2, estando a Área de Livre Comércio de Guajará-Mirim
delimitada a uma área contínua de 82,50km2, conforme Lei 8.210/1991. Em termos percentuais, a ALCGM
representa 0,33% do município de Guajará-Mirim. Inversamente proporcional está a importância
socioeconômica da ALCGM para a dinâmica da atividade comercial do município, partindo-se do ano de
2013 foram identificadas 335 empresas comerciais, 11 empresas de serviços e 6 empresas industriais, que
fazem uso dos incentivos fiscais desta área de livre comércio (SUFRAMA, 2014).
Por força da Lei n.º 8.210/91 e seu Decreto de regulamentação nº. 843/93, os incentivos fiscais como IPI,
PIS/COFINS, promovem sobremaneira uma maior relação comercial com o mercado nacional e não com o
mercado exterior. As compras do exterior (importação) representam menos de 1% do que é efetivamente
adquirido do mercado nacional. 29
Administração Rural – Volume 4
Assim, tomando como ponto de partida o volume de compras nacionais com a compra por região,
verificou-se que a região sudeste é o maior fornecedor de produtos para Rondônia, e por consequência,
para Guajará-Mirim, razão pela qual pode-se buscar o caminho para produzir partes desses produtos na
região (SUFRAMA, 2014). Sobre as importações do mercado de Guajará-Mirim, a Bolívia fornece
basicamente uma pauta restrita de produtos provenientes de madeira, e afins.
Ao se observar as exportações do estado de Rondônia durante o primeiro semestre de 2018 verificou-se
que os dois itens com maior peso na balança comercial são o arroz e a castanha-do-pará. Além disso,
verificou-se que a Bolívia é o país que mais recebe os produtos exportados do estado. Enquanto às
importações do estado há forte dependência da farinha de trigo e peças de motocicletas (MDIC, 2018).
Cabe nessa situação analisar o que pode ser amenizado com a estruturação da economia local e que de fato
está sendo aproveitado na questão de benefícios fiscais provenientes de uma Área de Livre Comércio em
Guajará-Mirim. Se observa a importância da rota pelo Pacífico em reação às importações asiáticas.
A partir dos dados apresentadas foi possível dimensionar o potencial de mercado interfronteiriço de
Guajará-Mirim. Em tese, já existe um convênio firmado desde 2007, porém há uma carência de
infraestrutura portuária. O Porto Seco ou mesmo Porto de Guajará-Mirim, não atende às exigências
socioeconômicas, fiscais e legais quando se fala em segurança de fronteira. Por isso, o governo federal para
estimular o desenvolvimento socioeconômico das áreas de livre comércio, criou a Zona Franca Verde pela
Lei nº 11.898/2009, regulamentada pelos Decretos nº 8.597, de 18 de dezembro de 2015, e nº 6.614, de
28 de outubro de 2008. Essa lei também isenta do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) nas ALCs
de Tabatinga, no Estado do Amazonas; Guajará-Mirim, no Estado de Rondônia; Macapá e Santana, no
Estado do Amapá; Brasileia/Epitaciolândia e Cruzeiro do Sul, no Estado do Acre; e Áreas de Livre
Comércio de Boa Vista e Bonfim, no Estado de Roraima (SUFRAMA, 2014).
Segundo a SUFRAMA (2014), há isenção do imposto sobre produto industrializado (IPI) para produtos
cuja composição ocorra preponderância de matéria-prima regional, de origem vegetal, animal ou mineral,
resultante de extração, coleta, cultivo ou criação animal na região da Amazônia Ocidental e Estado do
Amapá. O objetivo é estimular de forma responsável a industrialização, de modo a garantir a sua
preservação e, ao mesmo tempo, valorizar o aproveitamento de sua biodiversidade, contribuindo para que
a matéria-prima regional se torne a base para o desenvolvimento sustentável, com produção de alto valor
agregado e garantia de geração de emprego e renda.
Além dos incentivos que o setor agroindustrial recebe da SUFRAMA, essa mesma instituição participa de
outros projetos. Após o Seminário da sócio biodiversidade, ocorrido em agosto de 2013, passou-se a
buscar estruturação para a produção de óleo da Castanha; industrialização da polpa do abacaxi;
industrialização do açaí e couro do Pirarucu. Adicionalmente, também foi apresentada à equipe técnica
desta instituição o plano de ação para revitalização da cultura do abacaxi em Guajará-Mirim-RO. Momento
em que se destaca a elaboração do projeto pela associação dos produtores, que busca o aporte de recursos
no montante de R$ 840 mil. Na mesma esteira encontra-se o Projeto quintal produtivo sustentável no
montante de R$ 50 mil para a Comunidade Indígena Linha 10 do Bom Sossego, com o objetivo de capacitar
a comunidade em gestão ambiental e tecnologias sustentáveis como agroecologia, saneamento ambiental,
associativismo e cooperativismo (SUFRAMA, 2014).
Confrontando os dados levantados com a teoria de redes de cooperação (KENT, 1991; MERCHANT;
SCHENDEL, 2000; MOWERY ET AL., 1996), verificou-se que houve motivos e condições necessárias para
que as organizações integrantes da rede estudada no município de Guajará-Mirim adotassem ações
cooperativas. Foi observado que as alternativas estratégicas propostas pela formação dessa rede buscam a
sobrevivência empresarial. Possui um formato que configura uma estrutura organizacional que rompe
com modelos ortodoxos de organização, baseando-se em relacionamentos interorganizacionais dinâmicos
e complexos (FRANCO, 2007; RING; VAN DE VEN, 1994).
Evidenciou-se que que o processo de consolidação da rede de cooperação baseia-se em um conjunto de
interações sistemáticas de aprendizagem entre os atores presentes em seu contexto de inserção, ou seja, a
SUFRAMA, e as empresas incentivadas. Isso permitiu uma formatação padronizada de conhecimentos
perante exigências do processo de aprendizagem necessário para a consolidação das atividades entre seus
participantes. Um dos principais problemas da rede de cooperação na área de livre comércio de Guajará- 30
Mirim reside na dificuldade de encontrar um meio de mitigar o confronto entre estratégias individuais e
estratégias coletivas.
Administração Rural – Volume 4
Existe um elevado nível de complexidade no relacionamento destas empresas, é previsto dificuldades para
a consecução dos objetivos coletivos da rede de cooperação produtiva. Na prática, os ganhos sociais e
econômicos advindos dos incentivos fiscais refletem no nível micro, que concretizado as operações de
forma efetiva irão pôr em funcionamento as estratégias do modelo de desenvolvimento social e econômico
em vigor na Região Amazônica.
O Parque agroindustrial de Guajará-Mirim ainda é insipiente quando comparado aos grandes produtores,
como os da região centro-oeste, por exemplo. Porém o que se reconhece é que se existe redes de
colaboração no município agrupadas na tentativa de se desenvolver um Arranjo Produtivo Local (APL),
cuja evolução depende da a comunicação entre seus componentes, SUFRAMA, Associação comercial,
industrial e serviços, prefeitura, produtores locais e instituições de ensino como a Universidade Federal de
Rondônia (UNIR). Seus integrantes possuem enfoque coletivo, comportando-se de maneira dinâmica para
sobrevivência econômica em zona de fronteira.
Vale mencionar que Cavalcante e Alves (2012), em seu estudo sobre índices de cooperação e
empowerment, identificou forte relação do setor empresarial local com o aspecto político. Assim, no
município de Guajará-Mirim se observa forte dependência política. Prevalece o enfoque voltado para o
processo de formação e estruturação dos arranjos cooperativos. Dessa maneira, as redes podem ser
consideradas entidades complexas, definidas como um arranjo único, no caso, no formato de um APL, cuja
continuidade depende da coerência entre os objetivos de seus componentes.
Seguindo o raciocínio de Cassiolato e Lastres (2003), que propõem uma tipologia para arranjos produtivos
locais, as redes de cooperação existentes no município podem evoluir. Pois, foi identificada no município
de Guajará-mirim uma aglomeração territorial de agentes econômicos, políticos e sociais, que possuem
foco em um conjunto específico de atividades econômicas que criam vínculos consistentes resultando em
interação, cooperação e aprendizagem, com potencial para gerar o incremento da capacidade de criar
condições que permitem a geração de inovações no interior delas mesmas. Logo, essa discussão poderá
fomentar novos estudos relacionados a agroindústria em região de fronteiras ou até mesmo ampliar os
debates em relação à ALCGM.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo tem como objetivo descrever os condicionantes do processo de consolidação da rede de
cooperação da agroindústria da cidade de Guajará-Mirim com órgãos governamentais e organizações da
sociedade civil. Verificou-se que embora haja uma dificuldade inicial, em razão de objetivos comuns os
componentes convergem para a formação de um Arranjo Produtivo Local, pois são altamente orientados
por questões políticas.
Desse modo, contribui-se para o debate que envolve a relação que existe entre o Estado e a sociedade civil
nas instâncias governamentais responsáveis pelo atendimento das demandas apresentadas pela
sociedade. Está claro em todo o processo que a função da sociedade não é, de maneira alguma, substituir o
papel do Estado, mas sim torná-lo competente e obrigá-lo a funcionar de maneira a atender,
satisfatoriamente, aos anseios e necessidades de sua população.
Assim, este trabalho enseja abrir um leque de investigações futuras que possam abranger outros aspectos
acrescente novos elementos à compreensão do processo de formulação e gestão de políticas públicas. Com
base nas perspectivas acima mencionadas e retomando os
questionamentos iniciais, pode-se dizer que a edição da Lei nº 6.316/2009 inovou o cenário legislativo
brasileiro, ao ampliar o rol de isenções tributárias às modalidades que não foram contempladas por
dispositivos anteriores. Esta possibilidade desponta novas perspectivas de atuação para as cidades que
serão envolvidas com o novo dispositivo legal. Novas perspectivas
econômicas poderão ser criadas nessas regiões, por meio da instalação de empresas e indústrias.
A fronteira tem ganhado destaque na pauta do governo federal brasileiro, principalmente no que diz
respeito às políticas públicas que remetem a um sentido integrativo e aos esforços de cooperação com
31
países vizinhos, promovendo uma ação coordenada e uma visão positiva para a região.
Administração Rural – Volume 4
Concluiu-se que o parque agroindustrial de Guajará-Mirim ainda é insipiente quando comparado aos
grandes produtores. Mas se reconhece que existe redes de colaboração no município agrupadas na
tentativa de se desenvolver um Arranjo Produtivo Local (APL), cuja evolução depende da comunicação
entre seus componentes, Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA), Associação comercial,
industrial e serviços, prefeitura, produtores locais e instituições de pesquisa como a Universidade Federal
de Rondônia (UNIR).
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34
Administração Rural – Volume 4
Capítulo 3
Há sustentabilidade na cadeia produtiva do algodão?
Um estudo comparativo entre os indicadores SEEP
ambientais nos paises do Peru, Bolivia e Paraguai
Emmanuel Salgado Funes
Adriana Calderan Gregolin
Joelcio Cosme Carvalho Ervilha
Ingrid Zabaleta Chaustre
Resumo: El sector algodonero de Bolivia, Paraguay y Perú está marcado por una serie de
desafíos que se agravaron a lo largo de los últimos 20 años, resultado de la pérdida de
competitividad del sector frente al mercado internacional del algodón. La recolección de
datos en campo y su análisis a través de indicadores son una herramienta que apoya a
los stakeholders en la toma de decisión, hacia un sector más sostenible. Fueron
levantadas informaciones a partir de 626 entrevistas en las principales regiones
algodoneras de los tres países, levantando informaciones sobre 13 indicadores
medioambientales de la metodología SEEP (ICAC, 2015). Los resultados indicaron la
necesidad de avanzar en los tres países en el desarrollo de acciones que amplíen los
niveles de sostenibilidad medioambiental del cultivo del algodón, como oportunidad
para aumentar la competitividad del sector y la calidad de vida de las familias
agricultoras.
35
Administração Rural – Volume 4
1. INTRODUÇÃO
El algodón es un cultivo de amplia extensión a nivel mundial y un rubro de ampliada y diversificada
cadena de valor que involucra más de 350 millones de personas alrededor del mundo. Su cultivo está en
más de 100 países, abarca una superficie de más de 30 millones de hectáreas y una producción mundial de
21,7 millones de toneladas (FAO, 2018). La diversidad de los sistemas agrícolas en las diferentes áreas
geográficas alrededor del mundo, la especificidad de los desafíos estructurales y la difícil relación
sinérgica entre los diferentes eslabones de la cadena dificultan el desarrollo de un modelo o un enfoque
único de trabajo a nivel de campo, programas y políticas. El escenario de sistemas de producción
principalmente de tipo familiar y manual en América Latina y el Caribe, África y Asia, y sistemas altamente
mecanizados en Australia, Brasil y los Estados Unidos posicionan el algodón como un rubro altamente
desafiador del punto de vista de la sostenibilidad, no solamente económica, pero social y ambientalmente.
Más de 100 millones de unidades familiares se dedican directamente a la producción de algodón (Potts et
al., 2014). Familias que dependen de este cultivo y que presentan dificultades en la adopción de prácticas
conservacionistas y de gestión eficiente de los recursos productivos, muchas veces por la baja rentabilidad
de sus sistemas de producción que imposibilita la inversión en este tipo de prácticas y/o infraestructura
adecuada para utilizar los insumos de la manera sostenible, así como también el ataque de plagas, bajo
acceso a semillas de calidad, menor o inexistente asistencia técnica y extensión rural y perdida de
mercados conforman una problemática importante.
Entre el año 2000 y 2005 el mayor rendimiento del algodón y el crecimiento económico mundial
impulsaron un período de rápido crecimiento del mercado algodonero. Sin embargo, en la segunda mitad
de la misma década, el estancamiento de los rendimientos y la recesión provocaron una reducción del
mercado mundial del algodón. No obstante, las distorsiones causadas por los programas de ayuda pública
a productores y la pérdida de competitividad de precios frente a la competencia de las fibras sintéticas
(principalmente poliéster) a partir del 2010, crearon una brecha entre el aumento de la producción de
algodón y la disminución de la demanda de este.
Desde este escenario cambiante se considera necesario medir la sostenibilidad de este cultivo. A través de
la medición de indicadores los stakeholders podrán establecer un consenso en cuanto a las temáticas que
deben ser trabajadas en el sector y así posicionar el algodón como un cultivo sostenible y no menos
importante en los tiempos actuales.
Desde esa motivación, en el año 2012 fue establecido como consejo asesor del Comité Consultivo
Internacional del Algodón (ICAC), el Panel de Expertos sobre el Desempeño Social, Económico y Ambiental
de la Producción Algodonera (SEEP), el que se puso como objetivo recolectar y revisar información
independiente, basada en la ciencia, sobre los tres aspectos mencionados, de la producción global de
algodón. En el año 2015, en conjunto con la División de Producción y Protección Vegetal de FAO, el
Instituto Internacional para el Desarrollo Sustentable (IISD) y la Agencia Alemana de Cooperación Técnica
(GIZ), el documento “Medición de la sostenibilidad en sistemas de cultivo del algodón: Hacia un marco
referencial” fue lanzado.
Para efectos del análisis de los indicadores medioambientales en la producción de algodón en los países
Paraguay, Perú y Bolivia se buscó obtener una mayor comprensión de las prácticas adoptadas como lo son
la protección fitosanitaria y tendencias en el uso de productos químicos, el uso y la gestión del agua,
gestión del suelo, eficiencia de la producción y uso de la energía, las emisiones de gases de efecto
invernadero y biodiversidad.
En este contexto, es que la iniciativa +Algodón, resultado de la Cooperación Sur-Sur Trilateral entre la
Agencia Brasileña de Cooperación (ABC/MRE), la Organización de las Naciones Unidas para la
Alimentación y la Agricultura (FAO) y 7 países de Latinoamérica, enmarca como parte de sus acciones el
desarrollo de informaciones clave para la toma de decisiones para el sector algodonero, donde uno de sus
principales desafíos es volver la producción de algodón más competitiva, sostenible, inclusiva y articulada
con las necesidades de desarrollo local y territorial. La aplicación de la metodología SEEP, en este sentido,
generó informaciones que permitieron medir estos indicadores en Latinoamérica, de manera inédita y
unirse al trabajo de recolección de datos del Panel a nivel mundial y, lograr la construcción de
36
recomendaciones orientadoras a las políticas públicas y al propio sector algodonero.
El objetivo de este estudio es caracterizar y comparar los indicadores SEEP levantados en Bolivia,
Paraguay y Perú, en el ámbito del Proyecto +Algodón, con el fin de evaluar el estado del sector algodonero
en términos medioambientales, lo que podrían ser extrapolados a los demás países productores de la
Administração Rural – Volume 4
región, dada la similitud de sistemas de producción adoptados y las características comunes cuando se
habla de pequeños productores familiares algodoneros (Schneider, 2016).
2. METODOLOGÍA
Los indicadores de sostenibilidad identificados por el SEEP abarcan tres grandes áreas: el aspecto
ambiental, social y económico. Dentro de cada gran apartado, existen puntos específicos abordados por
cada uno de los indicadores seleccionados, sumando 189 indicadores identificados. Sin embargo, la
extensión de la lista dificultó llegar a conclusiones y el número de indicadores se redujo a 68, post análisis
del Panel de Expertos.
Para la recolección de datos, en el contexto de este estudio, se tomó como referencia el documento
preparado por el panel de expertos del SEEP “Medición de la sostenibilidad en sistemas de cultivo del
algodón: Hacia un marco referencial” y con ello fueron preparadas las encuestas para la obtención de
datos en los países estudiados. El tamaño de muestra se calculó mediante un agrupamiento estratificado
simple, estadísticamente significativo (Índice de confianza 95%), con cifras del Ministerio de Agricultura y
Ganadería de Paraguay; del Ministerio de Agricultura y Riego de Perú; y, del Ministerio de Desarrollo Rural
y Tierras y la Federación de Productores de Algodón de Bolivia. Los datos corresponden al Censo
Agropecuario 2008, 2012 y 2013, respectivamente.
La muestra obtenida en Bolivia contemplo 28 productores algodoneros distribuidos en las localidades de
Charagua, Cotoca, La Guardia, Pailón, Santa Cruz de la Sierra. En Perú fueron entrevistados 293 hogares
productivos en los departamentos de Ica, Lambayeque y Piura. En Paraguay la encuesta llego a los
departamentos de Caaguazú, Caazapá, Concepción, Ñeembucú, Paraguarí y San Pedro, totalizando 305
hogares productivos.
Las encuestas fueron aplicadas entre los años 2015 y 2017 enfocadas en 30 de los 69 indicadores
seleccionados por el panel de expertos SEEP, los cuales fueron establecidos en función del contexto
latinoamericano, siendo 13 de tipo ambiental, 6 económicos y 11 social. En este estudio se analizan los 13
indicadores de tipo ambiental.
Cabe destacar que este trabajo se presenta de manera inédita en la región, siendo la primera aproximación
de los indicadores propuestos por el panel del SEEP aplicados en países latinoamericanos productores de
algodón, como parte de la iniciativa de Cooperación Sur-Sur Trilateral +Algodón.
El análisis se presentará por países y respectivas regiones, buscando de forma comparativa reflexionar el
nivel atingido por cada uno en relación a los indicadores de sostenibilidad analizados.
3. RESULTADOS
El manejo de plagas y plaguicidas es una práctica de gran importancia para los cultivos algodoneros,
demandante de control y pudiendo incurrir en un alto grado de inversión financiera por parte del
agricultor, además de la preocupación en términos de los riesgos ambientales o mismo para la salud de
trabajadores. Uno de los indicadores analizados fue la existencia de manejo integrado de plagas (MIP),
cuyos resultados son presentados en la tabla 1.
Tabla 1.- Existencia de un plan de manejo integrado de plagas (MIP) de tiempo limitado
Perú
Ica Lambayeque Piura
100% 95% 97%
Paraguay
Caaguazú Caazapá Concepción Ñeembucú Paraguarí San Pedro
49% 32% 60% 50% 69% 40%
Bolivia
Charagua Cotoca La Guardia Pailón Santa Cruz de la Sierra 37
25% 0% 0% 8% 0%
Es sabido que el MIP se inicia como una respuesta a las deficiencias y complicaciones del uso de pesticidas
en la protección de los cultivos. Las deficiencias se hicieron evidentes cuando las plagas mostraron
capacidad para desarrollar resistencia a las aplicaciones de insecticidas, cuando aparecieron nuevas
Administração Rural – Volume 4
plagas como consecuencia del uso extensivo de estos productos, y cuando los costos llegaron a niveles
insostenibles para los agricultores por el número de aplicaciones requeridas y mayor precio de los
productos.
En el caso de Perú, se observa que casi en su totalidad las tres regiones poseen este tipo de plan de
manejo, alcanzando porcentajes entre 95 y 100%, en Piura, Lambayeque e Ica. Para el caso de Paraguay, la
adopción de este tipo de práctica es menor, no superando el 70% en Paraguarí y con el grado más bajo de
adopción en Caazapá con un 32%; Bolivia llama la atención por el bajo porcentaje de agricultores que
cuentan con este tipo de plan de manejo, considerando la dinámica del algodón en Bolivia que
corresponde a una más de tipo agroindustrial, especialmente en Pailón y Santa Cruz de la Sierra. Es
importante también hacer la salvedad sobre si el plan de manejo de plagas es realizado de manera
eficiente o ineficiente, pudiendo resultar en las problemáticas listadas más arriba.
Más allá de contar con un plan de manejo integrado de plagas, es importante también considerar el área
del terreno en la que se aplican las medidas indicadas por el plan. Nuevamente se puede ver en Perú que el
99% del área del cultivo realiza el manejo integrado de plagas y enfermedades. En el caso de Paraguay, en
promedio en las diferentes regiones del país alrededor del 40% de los agricultores que dicen tener un plan
de MIP en su predio lo realizan en todo el terreno; al igual que en Bolivia, donde en los municipios de
Charagua y Pailón, los agricultores que dicen tener un programa de MIP lo realizan en todo su terreno.
Tabla 3.- Porcentaje de productores que utilizan métodos de disposición apropiados para contenedores de
plaguicidas y materiales contaminados, incluyendo los equipos desechados usados para la aplicación de
plaguicidas.
Perú
Ica Lambayeque Piura
80% 62% 84%
Paraguay
Caaguazú Caazapá Concepción Ñeembucú Paraguarí San Pedro
53% 70% 60% 100% 54% 70%
Bolivia
Charagua Cotoca La Guardia Pailón Santa Cruz de la Sierra
25% 0% 100% 31% 100%
El correcto desechado de los productos químicos es de suma importancia para disminuir los daños
ambientales y los perjuicios a la salud de agricultores, trabajadores y sus familias. Un gran porcentaje de
los productos químicos que contaminan fuentes de agua y la tierra corresponden a químicos desechados
en el campo, a orillas de rio, recipientes arrojados en pastizales, etc. En cuanto a los países, se observan
variados porcentajes para este indicador, donde por ejemplo en Perú, sobre el 80% de agricultores en Ica
y Piura dicen realizar los métodos apropiados para el desecho y disposición de los productos químicos, a
diferencia de Lambayeque donde este porcentaje disminuye al 60% aproximadamente; en Paraguay, este
indicador supera el 50% en todos los departamentos, sin embargo, es importante estudiar las razones de
porque estos porcentajes son tan bajos, considerando que se tiene una tendencia similar en todos los
38
departamentos a excepción de Ñeembucú, donde la muestra se compone de tan solo dos agricultores; para
el caso de Bolivia, y el que levanta más preocupaciones, se tienen agricultores que no realizan y
posiblemente no conocen estos métodos de disposición, en un contexto donde el uso de plaguicidas es
muy bajo pero que abarca todo el terreno, en los casos de Pailón y Charagua, donde cada uno respondió
afirmativamente para este indicador en un 31 y 25%.
Administração Rural – Volume 4
Tabla 4.- a) % de productores que siguen las prácticas recomendadas para la mezcla y aplicación de
plaguicidas b) así como para la limpieza de los equipos de aplicación de plaguicidas.
a)
Perú
Ica Lambayeque Piura
84% 87% 90%
Paraguay
Caaguazú Caazapá Concepción Ñeembucú Paraguarí San Pedro
46% 62% 47% 100% 50% 60%
Bolivia
Charagua Cotoca La Guardia Pailón Santa Cruz de la Sierra
50% 14% 100% 38% 0%
La mezcla adecuada de los insumos asegura una correcta y eficiente aplicación en campo, permitiendo así
no generar problemas posteriores a su uso y, además, contribuye al correcto establecimiento y
crecimiento del cultivo, sin recurrir a dosis perjudiciales de agroquímicos que tienen efectos acumulativos
en la tierra, las plantas y el medio ambiente. Para este indicador, en Perú se observan los porcentajes más
altos, superando el 80% en las tres regiones, a diferencia de Paraguay donde en algunos departamentos se
baja del 50% y en Bolivia, donde nuevamente (a excepción de La Guardia) se tienen bajos conocimientos
en relación con el manejo y uso de agroquímicos.
b)
Perú
Ica Lambayeque Piura
83% 61% 84%
Paraguay
Caaguazú Caazapá Concepción Ñeembucú Paraguarí San Pedro
55% 70% 80% 100% 64% 70%
Bolivia
Charagua Cotoca La Guardia Pailón Santa Cruz de la Sierra
25% 0% 100% 31% 0%
Interesante notar que, en Paraguay, todos los departamentos en el ítem de limpieza de equipos superaron
al indicador relacionado con la mezcla y aplicación de insumos. En Perú, este porcentaje fue más bajo que
para la mezcla y aplicación. Bolivia presentó porcentajes similares, pero más bajos, lo que demuestra que
la limpieza de equipos y mezcla de los insumos es algo que debe ser mirado con mayor detención e
incorporarlo en sus capacitaciones y entrenamientos, siendo los equipos de aplicación uno de los
instrumentos que mayor riesgo de contaminación para el hogar y la familia.
Tabla 5.- % de los productores con instalaciones destinadas para el almacenamiento que mantienen los
plaguicidas seguros y fuera del alcance de los niños.
Perú
Ica Lambayeque Piura
92% 93% 97%
Paraguay
Caaguazú Caazapá Concepción Ñeembucú Paraguarí San Pedro
59% 78% 60% 100% 60% 80%
Bolivia
Charagua Cotoca La Guardia Pailón Santa Cruz de la Sierra
25% 14% 100% 62% 0%
ndicador relacionado con la seguridad de la familia y el uso de productos químicos. Se observa que para
39
Perú este indicador alcanza valores cercanos al 100% en las tres regiones. En Paraguay, los porcentajes
son superiores a los reportados por los agricultores en cuanto a los métodos de disposición para
contenedores de plaguicidas, materiales contaminados y equipos usados para la aplicación de plaguicidas.
Sin embargo, aún falta mucho por mejorar, considerando el impacto de los agroquímicos en las personas y
sobre todo en los niños en crecimiento. En Bolivia, por su lado, presenta porcentajes diversos, sin
Administração Rural – Volume 4
embargo, llama la atención nuevamente los bajos porcentajes alcanzados en este indicador, demostrando
la falta de conocimiento en el manejo de plaguicidas químicos en este país.
Tabla 6.- % de Trabajadores en la aplicación de plaguicidas que han recibido entrenamiento en su manejo
y uso.
Perú
Ica Lambayeque Piura
54% 32% 69%
Paraguay
Caaguazú Caazapá Concepción Ñeembucú Paraguarí San Pedro
9% 9% 20% 100% 19% 20%
Bolivia
Charagua Cotoca La Guardia Pailón Santa Cruz de la Sierra
25% 29% 0% 23% 100%
Como regla general, a excepción de Piura, Ñeembucú y Santa Cruz de la Sierra, se tiene un bajo porcentaje
de agricultores que conocen realmente como utilizar y aplicar los agroquímicos, lo que supone perdidas a
nivel económico, un riesgo para ellos, sus familias, el medio ambiente y su biodiversidad.
Tabla 7.- a) %productores que tienen acceso y b) utilizan equipos de protección apropiados (por tipo).
a)
Perú
Ica Lambayeque Piura
69% 51% 75%
Paraguay
Caaguazú Caazapá Concepción Ñeembucú Paraguarí San Pedro
28% 27% 40% 50% 19% 20%
Bolivia
Charagua Cotoca La Guardia Pailón Santa Cruz de la Sierra
25% 29% 0% 62% 0%
Los equipos de protección están diseñados para resguardar la salud de los agricultores y jornales al
momento de aplicar productos químicos y plaguicidas, y evitar actuar como transporte mecánico de estas
sustancias en la ropa y llevarlas a sus hogares. El acceso a estos equipos de protección es variado en los
tres países, siendo Ica, Piura y Pailón los con mayores porcentajes de acceso, para el resto, es necesario
aumentar el acceso a estos equipos y de esta manera, disminuir los riesgos asociados a la aplicación de
agroquímicos.
b)
Perú
Ica Lambayeque Piura
69% 53% 78%
Paraguay
Caaguazú Caazapá Concepción Ñeembucú Paraguarí San Pedro
24% 27% 33% 50% 20% 20%
Bolivia
Charagua Cotoca La Guardia Pailón Santa Cruz de la Sierra
25% 29% 0% 38% 0%
Por otro lado, en cuanto al uso de los equipos de protección el porcentaje es similar en comparación al
acceso de los equipos, sin embargo, continúa siendo muy bajo, ya que hay municipios en Bolivia que tienen 40
0% de acceso y uso; en Paraguay la mayoría de los productores no usan equipos de protección, cuyos
municipios alcanzan un 30% en el uso de equipos de protección. Este bajo porcentual es preocupante en
un contexto de alto uso de plaguicidas, herbicidas y agroquímicos de diferentes tipos. Perú muestra más
señales de incorporar estos equipos a su sistema productivo, aunque todavía hace falta mejorar y
promover aún más su uso.
Administração Rural – Volume 4
El manejo del agua es un indicador de gran importancia para el cultivo del algodón, especialmente en los
países cuyo recurso es escaso y los diferentes sistemas de producción son manejados a través del riego. Se
observa en la tabla 8 el porcentaje de la superficie de área con algodón en los países que está bajo las
prácticas de conservación del agua.
Para los países de este estudio las prácticas de conservación de agua se encuentran poco presentes.
Situación preocupante pensando en la falta de agua que se vive en Perú, especialmente en Ica donde las
escasas lluvias y el uso ineficiente del riego perjudican el desarrollo del algodón e pueden impactar en las
reservas internas de agua, volviendo escaso el acceso a este bien, afectando de gran manera a la
agricultura y a las familias que dependen de ella; en el caso de Bolivia tampoco se observan prácticas de
conservación de agua, sin embargo, el riego tecnificado que se utiliza en la mayoría de los sistemas
productivos algodoneros puede suplir el hecho de utilizar de manera ineficiente este recurso. Paraguay
por su lado es el único que presenta un porcentaje, aunque pequeño, de prácticas de conservación de agua.
Hay que recordar que en Paraguay la producción de algodón se realiza en secano, por lo que la utilización
de prácticas de conservación se vuelve una opción para los momentos de escasez y su utilización en otros
cultivos secundarios.
En términos de manejo del suelo, la tabla 9 presenta datos relacionados al porcentaje de superficie de
producción de algodón que está bajo prácticas de control de la erosión del suelo y prácticas
conservacionistas. El suelo, uno de los bienes naturales más importantes para la sostenibilidad de la
agricultura tiene su baja capacidad de respuesta trasladada a bajos rendimientos de los cultivos.
Tabla 9.- % de la superficie bajo prácticas de control de la erosión del suelo y mínimo
laboreo/conservación
Perú
Ica Lambayeque Piura
1% 1% 1%
Paraguay
Caaguazú Caazapá Concepción Ñeembucú Paraguarí San Pedro
7% 3% 3% 11% 13% 0%
Bolivia
Charagua Cotoca La Guardia Pailón Santa Cruz de la Sierra
0% 0% 0% 2% 0%
Al igual que con las prácticas de conservación de agua, el porcentaje de realización e incorporación de
buenas prácticas en el sistema productivo algodonero es bajo. Nuevamente se tiene a Paraguay como el
país con mayor porcentaje de incorporación de buenas prácticas, sin embargo, no superando el 15% en
ninguno de los departamentos del país, con Ñeembucú y Paraguarí como los mejores porcentajes, con
11% y 13% cada uno, respectivamente. En el último tiempo, se han promovido en Paraguay líneas
estratégicas sobre el manejo sostenible del suelo y de recursos naturales en la producción algodonera, por
medio de un modelo diversificado entre algodón y alimentos, además de abonos verdes para aumentar la 41
materia orgánica y capacidades productivas del suelo, bajo la metodología de capacitaciones presenciales,
días de campo y talleres para el intercambio de información. El esfuerzo realizado en los últimos 10 años a
través del Programa Nacional de Manejo y Conservación de Suelos, especialmente para la agricultura
familiar campesina, es una experiencia que debe ser ampliada, teniendo en cuenta las bajas porcentajes
relacionados a este indicador en Paraguay.
Administração Rural – Volume 4
Perú y Bolivia presentan baja conservación de suelo, sin superar el 2%, lo que vuelve necesario discutir
sobre la sostenibilidad real del cultivo y el estado productivo en el que se encuentran los agricultores
familiares de la región.
El indicador biodiversidad y uso de la tierra incorpora un análisis de superficie total en hectáreas y el
porcentaje de vegetación natural para transformarlo en área algodonera, analiza el porcentaje de la
superficie total sin cultivos y el porcentaje de la superficie total con otros rubros. Además, trae el
rendimiento promedio de quilogramos de algodón en rama por hectárea, que es sabido es resultado en
muchos casos de cómo están los resultados de los elementos anteriormente mencionados.
Tabla 10.- Superficie total (ha) y % de la vegetación natural para transformarlo en área algodonera
Perú
Ica Lambayeque Piura
2% 0% 1%
Paraguay
Caaguazú Caazapá Concepción Ñeembucú Paraguarí San Pedro
9% 12% 35% 40% 11% 10%
Bolivia
Charagua Cotoca La Guardia Pailón Santa Cruz de la Sierra
3% 0% 7% 26% 0%
Del total de hectáreas en la finca, existe un porcentaje sin utilizar y que podrían estar disponibles para la
producción algodonera. Este indicador se obtiene para conocer que uso se le está dando a la tierra, su
disponibilidad para ser utilizada en labores agrícolas u otras actividades potenciales. En este caso,
podemos observar que en Perú el porcentaje alcanza casi cero en las tres regiones del país. En Bolivia el
porcentaje es mayor pero también arroja baja disponibilidad para extender el área de producción
algodonera. Paraguay por su lado cuenta con una mayor área disponible para extender la producción de
algodón en las actuales fincas. Hay que tener en cuenta que la producción de algodón en eses países se da
mayormente en pequeñas áreas, que es un trabajo realizado con mano de obra de la familia y con
restricciones de contratar mano de obra externa por el alto costo, lo que restringe la capacidad de
ampliación en el número de hectáreas con algodón. La dinámica de mercado podrá impulsar nuevos
cultivos o mismo la disminución de cultivos como el arroz y maíz en algunas áreas e inclusión del algodón
como cultivo principal o de rotación.
En Perú es muy poco el terreno que no posee algún tipo de cultivo, promediando alrededor del 4% del
área total de cultivo. En Paraguay se observa un mayor porcentaje de área libre de cultivos; una pequeña
distorsión de los datos se observa en Ñeembucú, producida por que solamente son dos los agricultores
que componen la muestra de ese departamento, generando un sesgo en el porcentaje por las diferencias
entre ellos. De igual forma, tan solo en los municipios de Pailón y Charagua, en Bolivia, hay un porcentaje
considerable de área sin cultivos, disponibles para ejercer la agricultura u otra actividad económica.
42
Administração Rural – Volume 4
Para el caso de este indicador, se observan altos porcentajes en los tres países, demostrando así que la
presencia de otros cultivos en la finca es algo común, ya sea para consumo propio o para comercialización,
entregando información acerca de cómo los agricultores organizan su sistema productivo en conjunto con
el algodón, asociando cultivos y/o rotando. Los sistemas diversificados de producción son una alternativa
importante desde la perspectiva de seguridad alimentaria y nutricional de las familias, además, de
contribuir para mayor sostenibilidad ambiental de los sistemas de producción. El algodón, como rubro
generador de ingresos, cumple un rol fundamental en eses sistemas diversificados.
[Link] CLIMÁTICO
Las variables de medición de cambio climático propuestas por el panel de expertos del SEEP no fueron
posibles de obtener a través de encuestas y requieren una medición más exhaustiva en campo, a través de
equipos especializados que permitan reconocer la variabilidad en los valores de emisiones de gases de
efecto invernadero, descomposición y mineralización de fertilizantes, cambios en las existencias de
carbono y uso de energía en la producción algodonera.
5 DISCUSIÓN
Mucho se ha conversado sobre los impactos de la producción de algodón a nivel ambiental, desde el alto
uso de plaguicidas, hasta los manejos ineficientes de agua para riego. Mucha discusión se ha generado 43
sobre el real impacto sobre el medio ambiente de las fibras naturales de algodón en comparación, por
ejemplo, con las fibras sintéticas. Por ejemplo, los requerimientos de agua para el algodón dependen de la
variedad, ciclo de desarrollo, temperaturas, horas de sol, lluvias, profundidad, textura y capacidad del
suelo para retener la humedad y calidad del agua.
Administração Rural – Volume 4
Las necesidades de agua para el algodón pueden variar entre 700 a 1300 mm (7000-13000 m3/ha),
dependiendo del clima y la duración de la estación de crecimiento (Reyes, 2014). Diversos factores afectan
la cantidad de agua que se utiliza y la contaminación que se genera. Estos incluyen si el algodón es de
secano o no, los métodos de riego utilizados, los tipos y cantidades de fertilizantes y pesticidas que se
aplican y los tipos de suelo. A nivel mundial, se estima que el 60% del algodón se cultiva en campos de
regadío y el 40% en condiciones de secano (Cotton UP, 2019). Esto en comparación con el poliéster, el que
puede llegar a tener una huella hídrica de 71.000 metros cúbicos por tonelada de fibra, principalmente
agua gris, proveniente de las fases de producción industrial (refinería, petroquímica y producción de fibra)
y explotación petrolera, contribuyendo en un 99% de la huella de agua del poliéster (Freitas, Zhang, &
Mathews, 2017), en comparación con los 10.000 a 20.000 metros cúbicos necesarios para producir un kg
de fibra de algodón.
Por otro lado, la generación de carbono también es un aspecto que debe ser mirado en detalle para medir
y comparar la sostenibilidad del algodón. En términos generales, el algodón contribuye entre un 0.3% y
1% del total de las emisiones de carbono a nivel global, las que derivan de la producción en campo en un
5% a 10%. En comparación al poliéster, que genera 14.2 kg de CO2 por kilo de fibra y que en 2015 produjo
cerca de 282 mil millones de kg de CO2, tres veces más que el algodón (Common Objective, 2018).
Aproximadamente el 90% del potencial técnico para reducir las emisiones de la producción agrícola
reside en la retención de carbono en el suelo. El 70% de este potencial se encuentra en países en
desarrollo. La mejora de la retención de carbono se logra principalmente a través de cambios en las
buenas prácticas agrícolas. Se puede lograr una mayor reducción de las emisiones mediante el aumento de
la eficiencia de los insumos de uso (agua, combustibles y productos agroquímicos) (ITC, 2011); este
indicador se encuentra dentro de los propuestos por el SEEP, sin embargo, para la agricultura familiar aún
requiere trabajar sus instrumentos de medición.
Otro desafío que debe ser abordado en la producción del algodón, de manera a lograr la sostenibilidad, es
monitorear el uso adecuado de productos químicos tanto plaguicidas como fertilizantes y las medidas de
seguridad asociadas a su utilización. En un contexto donde el uso de agroquímicos en países en desarrollo
es un asunto de preocupación para las personas expuestas y en especial, para los trabajadores que aplican
estos productos. La forma en que son aplicados debe ser mejor entendida y estudiada (Kooistra,
Termorsuizen, & Pyburn, 2006). Según datos de FAO, el año 2017, se constataron condiciones precarias en
el almacenamiento de los plaguicidas en sectores rurales, además, las formas de exposición a pesticidas
pueden ser a través de la piel, exposición oral al comer y/o beber, a través de la inhalación, contaminación
trabajo-hogar, entre otros (Van der Maden, Wulansari, & Koomen, 2014) por lo que la mantención de los
pesticidas en un lugar seguro es vital para disminuir riesgos sanitarios en las personas y los niños.
Según estudios realizados en Egipto, niños bajo exposición prolongada a organofosforados presentaban
problemas cognitivos y menores niveles de acetilcolinesterasa, a diferencia de los niños que no se
exponían a estos químicos (Abdel-Rasoul et al, 2008). En general, existe un incumplimiento de condiciones
en materia de seguridad, sobre todo desde la seguridad de los manipuladores de estos productos. Estudios
en Argentina reportan que productores algodoneros suelen recibir capacitación o asesoramiento, pero no
utilizan protección al momento de aplicar los plaguicidas y desconocen los riesgos de esta (Cravzov et al,
2000), lo que refleja la necesidad de fortalecer los conocimientos del agricultor, de manera de que las
bases del manejo agrícola de la unidad productiva sean sólidas y contribuyan a la seguridad de los que se
dedican a esta actividad. Mejorar este indicador es clave para asegurar la sostenibilidad del cultivo y la
seguridad de los trabajadores, en un contexto donde alrededor de 40,000 trabajadores agrícolas de
distintos rubros mueren cada año por la exposición a plaguicidas (Ergon, 2008).
En cuanto al uso de estos productos en campo, son conocidos los efectos de su mala práctica, pudiendo
contaminar fuentes de agua, causar eutrofización, afectar la estructura del suelo, entre otros. Estas y otras
perturbaciones generan condiciones desfavorables para el buen crecimiento y desarrollo de los cultivos
que ponen en riesgo la capacidad productiva y seguridad alimentaria de las familias productoras (Cotton
Up, 2019). Afortunadamente, esta mirada hacia la sostenibilidad se ha traducido en medidas para revertir
y evitar estos efectos, como lo ha demostrado el notorio crecimiento de la agricultura de conservación en
América Latina, especialmente en Brasil, Argentina y Paraguay, donde este tipo de agricultura representa
en la actualidad, casi dos tercios de las tierras de cultivo (Benites & Bot, 2013), sin embargo, aún falta en 44
materia de infraestructura de riego y extensión rural a las comunidades.
Analizar en la actualidad el impacto de la producción algodonera pasa por analizar el retraso tecnológico
en los primeros eslabones productivos, la ineficiencia en el uso de los recursos naturales y la baja
capacidad de inversión, en un contexto de agricultura familiar y baja promoción del cultivo desde las
entidades de Gobierno. En este sentido, entender al algodón latinoamericano como un potencial de
Administração Rural – Volume 4
desarrollo agrícola e importante ofertante de fibra de algodón es vital para retomar el cultivo de manera
sostenible y responsable, tanto con el medio ambiente y con las personas encargadas de su producción.
Una respuesta a esta situación puede ser el establecimiento de sellos de sostenibilidad que aseguren el
cumplimiento de todas estas variables permitan el fortalecimiento, desde la extensión rural, de los
mecanismos de gestión, venta y manejo del algodón y la finca. Además, entender que puntos son los que
requieren mayor atención facilita la labor de enfocar las acciones de manera específica y eficiente.
Los indicadores analizados para Bolivia, Paraguay y Perú señalan una posible hoja de ruta para la
intervención de las políticas públicas, desde una perspectiva intersectorial, donde ministerios de
agricultura y medioambiente actúen en conjunto para avanzar hacia sistemas productivos más sostenibles
y territorios rurales con medios de vida accesibles a las familias agricultoras.
6. CONCLUSIÓN
La sostenibilidad en el cultivo de algodón es clave para generar una cadena de valor responsable con el
medio ambiente. Objetivo que nace desde la necesidad de disminuir el impacto de la industria, en un
contexto de aumento de la demanda de fibra y textiles. Las buenas prácticas comienzan en el eslabón
agrícola, incorporan variables de manejo responsable del agua, suelo e insumos externos, aspectos
cruciales para la sostenibilidad del cultivo y el aseguramiento de condiciones óptimas y seguras de trabajo
para los agricultores y sus familias.
En los países objetivo de este estudio, se reconocen falencias a nivel de manejo de los insumos agrícolas y
conservación de suelo y agua, problemas dictados principalmente por falta de conocimiento técnico de los
agricultores, en un contexto de baja promoción del cultivo y programas de extensión rural inexistentes o
debilitados, no capaces de cubrir la necesidad completa de las familias agricultoras. En este sentido, los
indicadores de sostenibilidad propuestos por el SEEP permiten reconocer y comparar el estado general de
cada uno de los países e identificar los puntos de partida para la generación de recomendaciones,
adaptación de indicadores y toma de decisiones en relación con la mejora en la sostenibilidad del cultivo
de algodón. El conjunto de indicadores analizado probó ser adecuado para reconocer la realidad
individual de cada localidad y ajustarse al contexto especifico de cada país.
La promoción sostenible del cultivo de algodón podrá ser impulsado por una asistencia técnica y
extensión rural actuante y continua, por el fomento de sellos sostenibles y de identidad y el apoyo al
ingreso de nuevas tecnologías para la producción. Eso permitirá reposicionar al algodón latinoamericano a
nivel nacional y en los mercados internacionales, cambiar la percepción de ser un cultivo que genera
impactos ambientales y promover acciones para su fortalecimiento y estructuración de su cadena de valor.
Es importante registrar que una lista de indicadores como los del SEEP, acordada internacionalmente,
puede servir de referencia para evaluar comparativamente el "rendimiento" actual de la industria
algodonera en diferentes países y continentes y hacer un seguimiento de las mejoras en la cadena
productiva. La lista de indicadores no pretende ser una lista global absoluta que todos los países utilicen
para medir su rendimiento y o nivel de sostenibilidad. Sin embargo, cuando los países comparten temas
comunes, el acuerdo sobre los indicadores permitirá a la industria algodonera mundial informar mejor
sobre la forma en que se está abordando este tema a nivel internacional. La lista de indicadores
recomendados y aplicadas en este estudio es un punto de partida para el debate entre las partes
interesadas del sector algodonero, de modo que se puedan encontrar áreas de acuerdo sobre estas
cuestiones clave; es necesario subrayar que, si bien existen cuestiones de sostenibilidad de reconocida
importancia mundial para las que pueden utilizarse indicadores uniformes (por ejemplo, ausencia de
trabajo infantil), también existen otras cuestiones de sostenibilidad que, debido a la diversidad y
variabilidad de la producción de algodón en las distintas regiones, están muy localizadas y específicas.
El proyecto +Algodón en Latinoamérica reconoce la importancia de seguir evaluando los indicadores
medioambientales relacionados a la producción del algodón con la expectativa de que todos los actores de
esta cadena y los stakeholders del sector cuenten con informaciones que ayuden en la toma de decisión, en
el establecimiento de estrategias para su desarrollo medioambiental sostenible y resiliente a las
consecuencias del cambio climático. De la misma forma fomenta el uso, por parte del sector público y
45
privado, de las informaciones generadas en esto estudio, para promover apoyos a las familias agricultoras
en la caminata por un cultivo algodonero sostenible.
En los tres países estudiados se observa indicadores medioambientales en la producción de algodón que
requieren apoyo multisectorial para lograr dar al sector un mayor índice de sostenibilidad y mantener el
Administração Rural – Volume 4
algodón como un rubro competitivo y estratégico para la seguridad alimentaria de las familias y la
superación de la pobreza en los territorios.
BIBLIOGRAFÍA
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46
Administração Rural – Volume 4
Capítulo 4
Terras indígenas e terras rurais: Convergências
possíveis no Brasil do Século XXI
Elke Urbanavicius Costanti
Jorge Madeira Nogueira
Resumo: Por sua dimensão, o Brasil permite variados usos da terra, sendo que a as
atividades ou extrativistas são, historicamente, os determinantes da ocupação,
desenvolvimento e diferenciação econômica das regiões do País. Ao entrar no século XXI,
o Brasil encontra-se em situação de destaque como quarto produtor mundial de
alimentos, primeiro exportador de soja, e importante produtor de carne. Ao mesmo
tempo, convivem grandes agentes do agronegócio ao lado de uma agricultura familiar
importante do ponto de vista socioambiental. É também detentor de grandes áreas
florestais preservadas em terras indígenas e unidades de conservação, a maior parte
localizadas no bioma Amazônico. No entanto, verifica-se ainda hoje inúmeros conflitos
pelo uso da terra, deficiências de cadastro e de legalização de propriedades, tanto no
meio rural quanto urbano, e retorno da tendência crescente das taxas de desmatamento
na floresta Amazônica. Por isso, defende-se neste estudo a manutenção das terras
indígenas, que oferecem importantes serviços ecossistêmicos ao País, em especial a
regulação do clima. Ainda, pretende-se mostrar que há compatibilidade entre a
manutenção dessas terras e a expansão do moderno setor do agronegócio brasileiro que,
ao tempo em que aumenta sua produtividade, também respeita a legislação ambiental
vigente.
47
Administração Rural – Volume 4
1. INTRODUÇÃO
A administração fundiária e a governança de terras no Brasil são cronicamente frágeis, com problemas
associados a falta de direitos sobre a propriedade da terra, em geral, o que leva a conflitos fundiários
violentos em terras rurais, déficit de moradias urbanas, ocupações ilegais, invasões a terras privadas e
públicas, desmatamento das florestas tropicais e diversas formas de insergurança jurídica sobre a
propriedade ou seu direito de uso (FAO/SEAD, 2017, p. 3; REYDON et al., 2011, p. 3-48; BANCO MUNDIAL,
2014).
Em relação aos povos indígenas, as garantias jurídicas tem sido ainda mais frágeis, como bem resume
Perrone-Moisés (2000): desde a época colonial, as leis jamais negaram que os índios fossem livres e
tivessem direito sobre suas terras, mas, ao avançar da colonização o indígena foi sendo expulso por meio
pacíficos ou violentos, produzindo as chamadas “terras devolutas” de propriedade dos governos.
Historicamente, ainda, a principal destinação para uso das terras no País é a atividade agropecuária, que
tem sido indutora do desenvolvimento nacional. O Brasil é hoje o quarto maior produtor de alimentos no
mundo e o primeiro maior exportador de soja. Por um lado, com uso intensivo de tecnologia e aumento da
produtividade, os preços relativos de alimentos reduziram-se, enquanto a quantidade, qualidade e oferta
de alimentos aumentaram (MORANDI, 2018; BUAINAIN et al., 2014, p. 15). Por outro lado, a atividade
agropecuária tem sido também a força motriz do arco do desmatamento. Atualmente, a pecuária bovina é
a atividade mais fortemente correlacionada com o desmatamento na região Amazônica. A soja,
principalmente aliada ao cultivo de arroz e milho, ocupa o segundo lugar entre as causas diretas do
desmatamento na Amazônia (RIVERO, 2009; YANAI, 2015; VERÍSSIMO, 2015).
Na base do encontro entre a (i) gestão fundiária, (ii) os interesses indígenas, (iii) a atividade agropecuária,
e (iv) a proteção ambiental está a questão do uso da terra. Entre essas questões, encontram-se inúmeros
conflitos (passados e presentes), bem como possibilidades de convergências. Para lidar com os conflitos, é
necessário assegurar o cumprimento da legislação e reforçar a capacidade institucional de gestão. Para
vislumbrar as possibilidades, a economia pode oferecer como1 subsídio o entendimento de quais são os
custos e os benefícios de cada uso alternativo da terra para a sociedade brasileira como um todo e, não
somente para os agentes diretamente afetados, tanto no curto quanto no longo prazo.
O artigo começa com (i) a distribuição das terras indígenas no País; (ii) localiza-as no ordenamento
territorial nacional; aborda a (iii) convergência entre a proteção ambiental, as terras indígenas e seus
povos; apresenta (iv) a quantificação do uso das terras nas atividades agropecuárias, conforme o Censo
Agro 2017, (v) apresenta um breve histórico dos povos indígenas, para chegar a (vi) uma visão sobre os
conflitos e convergências possíveis.
1 Artigo apresentado no 57º Congresso da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural
(SOBER), realizado em Ilhéus, BA, 21 a 25 de julho de 2019.
Administração Rural – Volume 4
O avanço no segundo período foi impulsionado pela cooperação técnica e financeira internacional
intensificada para a área ambiental no Brasil após a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente
e o Desenvolvimento (CNUMAD), realizada no Rio de Janeiro, em 1992, que ficou conhecida como Rio-92.
A execução do Programa piloto para a proteção das florestas tropicais do Brasil (PPG-7) possibilitou a
criação do Projeto Integrado de Proteção às Populações e Terras Indígenas da Amazônia Legal - PPTAL,
responsável pelo grande número de demarcações no período de 1993 a 1998 (SANTILLI, 1999, pp. 15-
17).
Assim, chegou-se ao atual número de terras indígenas oficialmente reconhecidas, apesar dos inúmeros
retrocessos enfrentados pela FUNAI ao longo de sua história, dos questionamentos de segmentos da
sociedade em oposição aos direitos indígenas, e dos obstáculos legais, administrativos e políticos
enfrentados pela política indigenista nos últimos cem anos, no período republicano brasileiro. Atualmente,
as Terras Indígenas (TIs) estão estimadas, grosso modo, entre 1,17 e 1,18 milhões de km2, o que equivale a
14% do Território Nacional (estimado em 8.515.767,05 km2), conforme mostra a tabela 1.
A maior concentração das TIs está na Amazônia Legal (85% da área e 54% do número de terras),
correspondendo a 23% da extensão dessa região (ISA, 2017). Essa concentração espacial é explicada pelo
processo de desenvolvimento do País, iniciado no litoral e no bioma da Mata Atlântica. Conforme explica a
FUNAI, as TIs no Nordeste, Sudeste e Sul apresentam situação de “confinamento territorial”, pois a área
que acabou restando aos indígenas dessas regiões é densamente povoada e de dimensão muito inferior ao
tradicionalmente ocupado. Já na região Norte e na porção da Amazônia Legal do Centro-Oeste (a
totalidade do Estado do Mato Grosso), as TIs são maiores, mas sua população também é menor, de forma
coerente com as densidades demográficas das regiões Norte e Centro-Oeste, as mais baixas do País
(FUNAI, 2018).
Por exemplo, em Santa Catarina, há hoje 25 terras e reservas indígenas. Nas primeiras décadas do séc. XX,
os Estados estabeleciam áreas reservadas aos indígenas para liberar as terras para instalação de fazendas
e vilas de imigrantes, incentivados a virem trabalhar no Brasil, em especial alemães e italianos,
direcionados para o Sul e Sudeste do País. A persepectiva era a de que os índios das reservas fossem aos
poucos também absorvidos pelas fazendas, tornando-se “trabalhadores nacionais” e, dessa forma, ser
indígena era um estado “transitório”. Essa política levou a conflitos violentos entre agricultores e
indígenas na disputa pelas fronteiras das terras. O povo Xokleng (autodenominado Laklãno), por exemplo,
teve um espaço de 40.000 hectares reservado a eles em 1914. O decreto de criação da reserva foi assinado
somente em 1926 e, nos anos seguintes, as terras foram invandidas, vendidas e negociadas, tendo sido
registradas em nome de particulares sem qualquer respeito ao decreto. Em 1952, o governo de Santa
Catarina regularizou a posse definitiva de 6.000 hectares a agricultores invasores. Atualmente, na Terra
Indígena Ibirama, vivem 2.057 indígenas em 37 mil hectares (BRIGHENTI, 2012).
Já na região Norte, o Estado do Amazonas tem 165 TIs em 45,8 milhões de hectares; o Pará tem 64 TIs em
cerca de 31 milhões de hectares, o que segue o padrão de ocupação da região Norte, de exígua população
rural em extensos municípios. Em alguns municípios da Amazônia a população indígena é a maioria entre
a população rural, em alguns casos chegando a ser a totalidade (IBGE, 2010).
49
A baixa densidade demográfica na Amazônia (na região Norte, de 4,12 hab/km2) pode ser explicada por
outras características, como:
(I) o padrão histórico de povoamento, iniciado pelo litoral e Sul-Sudeste;
(II) o bioma preenchido por intensas florestas e inúmeras várzeas, o que não favorece a
ocupação humana de forma intensa;
Administração Rural – Volume 4
As áreas foram atribuídas com base em políticas de conservação, de inclusão social, ou de estratégia
militar, formando um conjunto de territórios que requer governança fundiária. Não resultam de um
processo de planejamento estratégico de ordenamento territorial e uso do solo e, em muitos casos,
envolvem conflitos pelo uso das terras, resultando em processos judiciais, impactos sociais e econômicos
(EMBRAPA, 2017).
A expansão de uma categoria de terras implica na retração de outras. Na Amazônia, a fronteira agrícola se
expandiu de forma acelerada a partir dos anos 70, iniciando um processo migratório com adensamento
urbano. Essa expansão foi motivada por incentivos fiscais, abundância de terra e criação de corredores de
acesso, em especial as rodovias Belém-Brasília (BR 010) e Cuiabá-Porto Velho - BR 364 (IGLIORI, 2006;
BECKER, 2005).
Espacialmente, o reflexo mais evidente dessas políticas foi a formação do chamado “arco do
desmatamento” nas fronteiras leste e sudeste da região amazônica. Embora não tenha um padrão
claramente definido, esse arco é formado por aglomerações de população, atividade econômica e de
desmatamento, geralmente em torno das capitais estaduais e de outros centros urbanos (IGLIORI, 2006).
No aspecto social, tais políticas geraram inúmeros conflitos pelo uso da terra, criando, de um lado, os
assentamentos rurais onde cada família recebia seu lote individual e, de outro, apossamentos regionais de 50
seringueiros, remanescentes de quilombos, e ribeirinhos, que foram excluídos das políticas oficiais até
final da década de 80 (BENATTI e FISCHER, 2018).
Ao longo das décadas de 1990 e 2000, os pequenos proprietários de terras e assentados que expandiram a
fronteira agrícola foram sendo substituídos por uma segunda geração de proprietários, com maior capital,
e maiores áreas de ocupação (SOUZA et al., 2012). Ao mesmo tempo, os pequenos agricultores
Administração Rural – Volume 4
procuravam novas áreas e abriam novas fronteiras para o desmatamento, expandindo novamente a
fronteira agrícola e aumentando o arco do desmatamento (MARGULLIS, 2003).
É nesse contexto que se expandem as demarcações das terras indígenas, a partir da CF/1988, bem como a
criação de unidades de conservação federais e estaduais, que passam a formar uma barreira à expansão do
desmatamento acelerado na Amazônia.
interessa o reconhecimento de sua contribuição aos processos que geram e mantêm a biodiversidade e,
consequentemente, o patrimônio genético (BENSUSAN, 2016).
Ainda não há uma avaliação da eficácia dos sistemas de gestão criados no âmbito da Lei da Biodiversidade,
nem um balanço de registros que permita auferir se o conhecimento tradicional associado está sendo
utilizado, ou em que medida o sistema facilitou ou dificultou a execução dessas atividades ou a utilização
de conhecimento tradiconal associado que possa beneficiar os povos indígenas.
Ademais da importância das Terras Indígenas na conservação da biodiversidade, ressalta-se que as TIs -
associadas às unidades de conservação na Amazônia - são fundamentais para que as outras regiões do País
tenha o clima e o regime hidrológico que favorece as atividades agrícolas. Sobre o regime hidrológico,
ficou conhecido o termo “rios voadores” para explicar a importância da Amazônia para manutenção dos
regimes de chuva nas outras regiões do País (NOBRE, C. A et al., 2016; NOBRE, C. A., 2001; NOBRE, A. D.,
2014; MARENGO, 2004).
Estima-se que o desmatamento na Amazônia afetaria as condições da agricultura nas regiões Norte e
Nordeste, com perdas para a produção e o cultivo, em especial para a agricultura familiar no Semiárido do
Nordeste (MACHADO FILHO, 2016). Outros estudos comprovam que o volume de chuvas na Bacia do
Xingu em 2007 foi o menor do que em toda a década de 2000 a 2010 (BRANDO, P. M., 2010) e, ainda em
2010, o número de focos de calor nas Terras Indígenas do Xingu (TIX) chegou a 884, quase quatro vezes
mais do que 2007 (ISA, 2011, p. 206).
Cabe observar que as principais atividades econômicas desenvolvidas nas cabeceiras do Xingu e
responsáveis pelo desmatamento e seus impactos na TIX são a pecuária, a soja e a exploração madeireira.
Entre 2003 e 2008, o rebanho total da bacia cresceu 10%. A soja é o principal cultivo agrícola da região do
Xingu e responde por 33% da área colhida no estado. (ISA, 2011).
Assim, os principais beneficiários dos serviços ecossistêmicos provenientes da TIX são os produtores de
soja do Mato Grosso, para citar apenas um exemplo dos benefícios das terras indígenas ao País como um
todo.
Cabe observar que nos registros no Cadastro Ambiental Rural – CAR, atualizados até 30/11/18, existem
5.455.781 imóveis cadastrados em uma área de 4.697.632 km2). Essa diferença de área talvez seja
explicada pelas diversas formas usadas para definir os polígonos das áreas declaradas, que variaram de
GPS de mão, imagens de satélites, drones até consultas no “Google Earth” (SFB/CAR, 2018).
Administração Rural – Volume 4
Os diversos modelos de assentamentos de reforma agrária implantados desde a segunda metade do séc.
XX no País não conseguiram consolidar uma estrutura produtiva nas áreas destinadas aos assentamentos,
o que resultava em nova concentração de terras “a posteriori”. Os assentamentos realizados na região
Amazônica, em sua maioria, serviram como uma área de escape para evitar conflitos no Centro-Sul e
Nordeste do País, onde se encontrava o maior número de trabalhadores rurais desalojados. Prova disso é
que, entre 1988 e 2006, do total de famílias que estavam em ocupações de terra, apenas 5% se localizavam
na região Norte, enquanto que, entre as famílias assentadas, 40% estavam em lotes na região Norte – em
áreas de ocupação recente na fronteira agropecuária. Nas regiões Sul e Sudeste, há mais famílias em
ocupações do que assentadas. Com essa estratégia, a reforma agrária conduzida pelo Governo brasileiro
avança em áreas da Amazônia com um novo movimento de abertura da fronteira agrícola, mas mantém a
estrutura fundiária nas outras regiões, em especial no Sudeste e Centro-Oeste. No entanto, essa estratégia
atingirá o limite da disponibilidade de terras da União para fazer a reforma agrária (PAULINO et al., 2018).
Talvez a concentração de terras seja uma das causas da crescente demanda por arrendamentos verificado
no Censo Agropecuário de 2017: há 11 anos, no Censo 2006, elas somavam 14,9 milhões de hectares. Em 53
2017, cerca de 30 milhões de hectares. Em números absolutos, Mato Grosso lidera a lista de estados que
mais arrendam terras, com 5,7 milhões de hectares. O estado é seguido por Rio Grande do Sul (4,5 milhões
de hectares), e São Paulo (3,1 milhões de hectares).
O aumento observado entre 2006 e 2017 no mecanismo de arrendamento de terras (Censo Agro 2017), os
recentes aumentos verificados nas taxas de desmatamento na região Amazônica (INPE, 2018), e o relativo
Administração Rural – Volume 4
preço mais baixo da terra na Amazônia em relação às outras regiões do País, mostram que há demanda
por novas áreas para a expansão de atividades agropecuárias na Amazônia, ainda que com dificuldades
logísticas e falta de vocação natural das florestas para a agricultura.
No entanto, as terras indígenas não competem com o agronegócio pelas mesmas terras, pois é fora das
florestas Amazônicas que ocorre 90% do volume de produção agropecuária. Além disso, uma grande
porção das áreas amazônicas protegidas está em regiões remotas ou sem aptidão agrícola. Segundo os
dados do MapBiomas, cerca de 25% do Brasil está dentro de terras indígenas e unidades de conservação e,
destas, 90% na Amazônia (MORANDI, 2018).
Um estudo de Saath e Fachinello (2018) utilizou estimativas de crescimento da demanda por exportações
e consumo interno do Brasil entre 2012 e 2024 dos principais produtos alimentícios e outros produtos
agropecuários (celulose e etanol), relacionando-os à necessidade de produção e terras. Concluíram que
“novas demandas poderão ser atendidas com aumentos de produtividade ou substituição de cultura,
especialmente sobre a pecuária extensiva”, e que “pequenos ajustes de produtividade regionais e a
realocação produtiva seriam suficientes para atender às novas demandas até 2024” (SAATH e
FACHINELLO, 2018).
Ainda, um estudo sobre a política de controle de desmatamento realizada entre 2006 e 2011 aplicou um
modelo de equilíbrio geral que mostrou que o desmatamento pouco contribui para o crescimento
econômico da região amazônica, tendo-se verificado aumento apenas marginal no PIB da região. Assim,
políticas de aumento da produtividade contribuiriam mais para a economia do que a expansão para novas
áreas de ocupação (CARVALHO et al., 2016).
Da mesma forma, Aranha e Bragagnolo (2018) analisaram a relação entre a produção e o desmatamento
entre 2006 e 2014, a partir de uma amostra em painel de dados de preços de rebanho, produção agrícola,
PIB e desmatamento, por município da Amazônia Legal. O estudo mostrou que, em geral:
(I) com o aumento de preços da soja há aumento do desmatamento, mas somente nos municípios já com
menores níveis de PIB per capita;
(II) a produção de gado tem uma dinâmica própria e, aumentos temporários do preço da carne podem
elevar o número de abatimento do gado e, em decorrência, diminuir a pressão sobre a floresta;
(III) o aumento de crédito agrícola não se relacionou com alterações no desmatamento em ambos os casos
(soja e gado); e, sobretudo,
(IV) “o crescimento da produção e produtividade associado a um ambiente de regras mais rígidas quanto
ao uso dos recursos naturais demonstrou ser extremamente eficaz na redução da degradação ambiental”.
Este último fator se deve ao aumento da produtividade registrado especialmente a partir de 2008, quando
foi criada a “lista negra do desmatamento”, que levou a novos requerimentos para acesso ao crédito, o que
mostra a influência das regras institucionais na dinâmica do desmatamento (ARANHA E BRAGAGNOLO,
2018).
6. OS POVOS INDÍGENAS
Passados quinhentos anos após o processo de miscigenação, de mudança de hábitos, e dos impactos
culturais em geral, como distinguir o indígena do não-indígena? O Estatuto do Índio, Lei 6.001, de 1973,
define o indígena em seu artigo 3º como "todo indivíduo de origem e ascendência pré-colombiana que se
identifica e é identificado como pertencente a um grupo étnico cujas características culturais o distinguem
da sociedade nacional". Assim, no Brasil, tem prevalecido a auto identificação étnica e critérios culturais
para tratar da diferenciação entre indígena e não-indígena2.
Cabe ressaltar que a identidade indígena e sua cultura não são avaliadas pelo grau de interação com a
sociedade nacional. De acordo com Darcy Ribeiro (1996), ocorre sempre uma “transfiguração étnica” nos
contatos, um processo “através do qual as sociedades tribais que se defrontam com sociedades nacionais
preenchem requisitos necessários à sua persistência como entidades étnicas, ainda que com alterações em
54
sua cultura e forma de relação com a sociedade envolvente”. Ainda por esse conceito é que Darcy Ribeiro
não considerou que os indígenas brasileiros assimilaram a cultura da sociedade nacional e não se
tornaram “parte indistinguível dela”. O que ocorreu foi o extermínio de indígenas e a sobrevivência de
2 Utiliza-se o termo “indígena” e “nao-indígena”, pois entende-se ser “índígena” um termo mais apropriado a
identificaçao da cidadania indígena brasileira, em oposiçao ao termo generico “índio”.
Administração Rural – Volume 4
populações e indivíduos que permaneceram indígenas, “já não nos seus hábitos e costumes, mas na auto
identificação como povo distinto do brasileiro”. Em comum, identificam-se como uma coletividade
específica, distinta de outras com as quais convive e, principalmente, do conjunto da sociedade nacional na
qual está inserida (RIBEIRO, 1996, pp. 19-27).
Em consonância com esse entendimento, a Constituição Federal de 1988 desaprova o princípio
assimilacionista e rompe totalmente com a necessidade de aculturação e evolução embutida na antiga
política indigenista, presente na Constituição de 1967. “Na nova ordem constitucional, o indígena é um
cidadão pleno, que não necessita ser integrado à sociedade brasileira, pois dela já faz parte desde sua
gênese”. Superado o “falso dilema da integração”, deve ser respeitado em sua “organização social, línguas,
crenças e tradições”, como manda o art. 213, CF/88 (BIGONHA, 2019).
No Censo Demográfico de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foram
incluídas perguntas específicas que possibilitaram o conhecimento de quantos são os brasileiros indígenas
bem como sua localização quanto ao domicílio. As estatísticas foram divididas entre população “dentro” ou
“fora” de Terras Indígenas reconhecidas pelo governo federal e entre “urbana” e “rural”.
A atual população indígena brasileira segundo o Censo 2010 é de 896.917 pessoas3, com 517.383 vivendo
em terras indígenas e 379.534 fora de terras indígenas. Assim, a população indígena representava 0,43%
da população brasileira, estimada em 190.755.799 pessoas, em 2010 (IBGE, 2010). Em 2018, o IBGE
projetou que a população já alcançou 208.494.000 pessoas e, a população indígena, 971.000 pessoas,
tendo subido para 0,47%, caso tenha crescido à mesma taxa de 1,1% verificada entre 2000 e 2010 (taxa
maior do que do restante da população brasileira, que ficou em menos de 1% no mesmo período).
Por grupos de idade, a pirâmide demográfica da população indígena de homens e mulheres é bem
semelhante, e apresentam ambas distribuições com bases alargadas, em particular porque é maior a taxa
de natalidade entre os indígenas que vivem dentro das Terras Indígenas. Observa-se o maior número de
jovens, proporcionalmente, na população indígena do que na população não-indígena, o que torna ainda
mais relevante pensar as políticas públicas para o desenvolvimento sustentável e aproveitar o grande
potencial do capital humano nessa população. Quanto à distribuição por sexo, os homens são ligeiramente
predominantes dentro das Terras Indígenas, com 51,6%, e as mulheres são um pouco mais predominantes
fora delas, com 51,3% (IBGE, 2010).
Tabela 5 – População Indígena por Situação de Domicílio Segundo a Localização do Domicílio no Censo
2010
POPULAÇÃO INDÍGENA
Domicílio
Rural Urbana Total
Em Terras Indígenas 491.420 25.963 517.383
Fora de Terras Indígenas 298.871 80.663 379.534
Total 790.291 106.626 896.917
Fonte: IBGE, 2010
Apesar de reunidos estatisticamente na categoria indígena, cabe ressaltar a enorme diversidade desses
povos: os dados mostram a existência de 305 etnias e 274 línguas indígenas. Ademais das diferenças
culturais – mitos, modo de vida, rituais, vestimentas, alimentação - diferem na forma de organização social
e, conforme o tempo de contato com a sociedade envolvente, varia o grau de absorção de influências do
não-indígena, bem como do acesso à assistência social do estado brasileiro em termos de saúde e
educação.
A respeito da diversidade linguística, por exemplo, nota-se que o elevado número de línguas provocou
debate entre os linguistas, que esperavam um número menor. Suscitou debates sobre a própria definição
de língua, pois toda língua tem uma diversidade interna, varia no tempo e no espaço geográfico e social,
ademais da possibilidade de existência de dialetos. Ainda, dado o desconhecimento sobre as línguas
indígenas, não se pode afirmar nada a respeito desse número. Em 2009, foi instituído o Programa
Brasileiro de Documentação de Línguas Indígenas que já alcançou mais de trinta grupos indígenas. Os
55
indígenas são, assim, em sua maioria bilingues, ou multilíngues e, para muitos, o português é a segunda ou
3 Em algumas tabelas do mesmo Censo 2010 encontra-se o valor de 817.963 pessoas. A diferença de 78.954 a menos e
de populaçao indígena em terras indígenas que “nao se declaravam mas se consideravam indígenas”, conforme tabela
detalhada do Censo de 2010. O valor de 897.916 e reiterado na publicaçao conjunta IBGE/FUNAI intitulada “Brasil
Indígena”, de 2012.
Administração Rural – Volume 4
terceira língua. No entanto, a transmissão da língua entre gerações vem diminuindo com a migração das
aldeias para as cidades, como mostram as estatísticas do Censo 2010 na Tabela 6 (ISA, 2017, p. 58-61).
Em relação ao grau de contato com o não-indígena, há etnias em que o contato se estabeleceu no séc. XVIII
e ainda hoje mantém muito de sua cultura, como os Povos do Xingu, no Mato Grosso. Há etnias de contato
mais recente (meados do séc. XX) que, pela velocidade com que avançou a ocupação das terras
circundantes, têm hoje contato muito próximo com as cidades, tanto em termos culturais quanto em
assistência do Estado, como os Suruí, de Rondônia, que contam com escola indígena de educação básica e
posto de saúde em suas aldeias. Assim, da mesma forma como há diversidade cultural entre regiões e
Estados no País, há diversidade cultural entre os indígenas conforme a região em que vivem. O quadro 1 a
seguir resume o histórico de quatro etnias, a título de ilustração da diversidade.
56
Administração Rural – Volume 4
(continuação)
Quadro 1 - História Resumida dos Povos: Paiter-Suruí, Baniwa, Xinguanos e Paresís
Extensão Data do População em
Povo Terras Indígenas Local
(hectares) Contato 2014
Parque Indígena do
16 etnias
Xingu 2.600.000 1943 6.090 Xingu, Nordeste do
diferentes
MT
1. Contatados a partir da Expedição Roncador-Xingu, criada em 1943 para mapear a região central do Brasil e abrir
caminhos no Programa Marcha para o Oeste.
2. Em 1949, a expedição atinge o Alto Xingu, sob o comando de Orlando Villas-Bôas, e contata com dezessete tribos da
região.
3. A idéia de criação do Parque do Xingu é de 1952 e foi a primeira área indígena reconhecida pelo Governo federal,
em 1961.
4. Os Povos do Xingu têm hábitos semelhantes e sistemas sociais, apesar da diferença de idiomas. Especificamente,
eles consistem dos povos indígenas seguintes: Auetis, Calapalos, Camaiurás, Caiapós, Cuicuros, Matipus, Meinacos,
Nahukuá, Suyá, Trumai, Uaurás e Iaualapitis.
5. Em geral, sua forma de trabalho é o mutirão, voltado para atividades de subsistência.
6. Atualmente, há experiências de produção voltada para o mercado em: i) mel de abelha Apis mellifera (abelha-
europa), (ii) meliponicultura de espécies nativas (abelhas sem ferrão), e (iii) beneficiamento de óleo de pequi.
Extensão Data do População em
Povo Terras Indígenas Local
(hectares) Contato 2014
N/A -
Distribuem-se por 10 distribuídos em Final séc.
Paresís 2.138 Oeste do MT
terras indígenas terras com XVIII
outras etnias
1. Os primeiros contatos foram feitos por bandeirantes paulistas no final do séc. XVIII.
2. Durante a fase de exploração das minas na região de Cuiabá, as aldeias paresí constituíram-se em pontos de
provisão de mão-de-obra escrava e de bens alimentícios.
3. Em 1908 o então coronel Rondon supervisionou a construção da linha telegráfica na região oeste de Cuiabá (MT) e
conheceu os Paresí, cujo trabalho estava sendo explorado por seringueiros.
4. A partir de 1946 a aldeia Utiariti se tornou um centro educacional dos grupos indígenas, sob a égide da Missão
Anchieta (MIA), que influenciou sua cultura e estimulou a agricultura.
5. Os membros da aldeia Bacaval, por ex., foram transferidos para com o intuito de abrir uma roça de arroz e milho a
serviço da Missão, que fornecia toda a infra-estrutura aos indígenas em troca de produção. O pagamento era feito em
produtos: mantimentos, calçados, roupas e medicamentos.
6. Os Paresis da Terra Indigena Utiariti, em Campo Novo dos Parecis, MT, cultivam soja e comercializam os grãos há 15
anos, em uma área de 17.000 ha.
7. A tribo enfrenta, atualmente, ações do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama) com
multas pelo arrendamento e por plantação de milho transgênico. Foram autuados 16 arrendatários, duas fazendas e
cinco associações indígenas.
Fonte: ISA, 2017
Pecuária e Abastecimento (MAPA); e (II) insere outras questões indígenas tratadas pela FUNAI no
Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.
Na visão da 6ª Câmara de Coordenação e Revisão (CCR) do Ministério Público Federal (MPF), que trata das
populações indígenas e tradicionais, a MP 870/19 é inconstitucional e deve ser rejeitada no que se refere à
política indigenista do Governo federal. As mudanças institucionais na FUNAI “submetem os interesses
dos índios, disciplinados no Título da Ordem Social da Carta Magna, aos interesses agrícolas de que trata o
Título da Ordem Econômica e Financeira”, conflito com potencial de ressuscitar a visão integracionista que
“promoveu o assassinato indígena em grande escala, como registra o Relatório Figueiredo4” (BIGONHA,
2019).
Em relação às terras destinadas à agricultura, também foi recentemente transferido para o MAPA a
responsabilidade sobre o Cadastro Ambiental Rural (CAR), com a subordinação do Serviço Florestal
Brasileiro (SFB) a esse Ministério. A partir do CAR poderá ser implementado o Programa de Regularização
Ambiental (PRA) e o funcionamento das Cotas de Reserva Ambiental (CRA). Esses instrumentos fazem
parte do Código Florestal (Lei n. 2.651/2012), peça importante do arcabouço jurídico que disciplina o uso
da terra e contribui para a convergência entre as políticas ambientais e agrícolas.
Do lado do setor privado, o mercado internacional exige cada vez mais sustentabilidade na produção, por
isso o setor agropecuário nacional vem tomando iniciativas para coibir o desmatamento ilegal nas cadeias
de fornecimento de commodities agrícolas. Assim, o setor governalmental também pode ir além dos
instrumentos de comando-e-controle, e oferecer incentivos positivos aos produtores que se adequam à
legislação ambiental ou preservam além do limite mínimo de desmatamento, como estratégia de assegurar
a produção sustentável (BERNASCONI et al., 2018).
Na convergência entre as políticas ambientais e indigenistas pode-se citar a instituição da Política
Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI), Decreto nº 7.747/2012, com o
objetivo de “garantir e promover a proteção, a recuperação, a conservação e o uso sustentável dos
recursos naturais das terras e territórios indígenas” (PNGATI, 2012, Art. 1º). Um dos eixos dessa política é
o “uso sustentável de recursos naturais e iniciativas produtivas indígenas”, que inclui dez objetivos, entre
eles o de “fortalecer e promover as iniciativas produtivas indígenas com apoio à utilização e ao
desenvolvimento de novas tecnologias sustentáveis”. Para alcançar esse objetivo será fundamental a
adoção de algum instrumento de incentivo econômico aos produtos indígenas.
Como exemplo desses instrumentos temos (i) a Política de Garantia de Preços Mínimo (PGPM-Bio) da
Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) para garantia de quinze espécies vegetais selecionadas
de atividades extrativistas, estabelecida em 2008 e, mais recentemente, em 2018, (ii) as câmaras estaduais
de comercialização para articulação de oferta e demanda de produtos da agricultura familiar, da
sociobiodiversidade e da agroecologia, instituídas no então Ministério do Desenvolvimento Agrário, cujas
responsabilidades foram também transferidas ao MAPA pela MP 870/2019.
Em relação aos instrumentos legais, ademais das políticas de combate ao desmatamento ilegal, uma
política de apoio ao aumento da produtividade agrícola e aos pequenos proprietários na Amazônia traria
um impacto econômico maior do que a expansão da área agrícola nessa região, como demonstrado na
análise de equilíbrio geral realizada por Carvalho et al. (2016). Os resultados mostraram que o
desmatamento da Amazônia teria contribuído com apenas 0,142% do crescimento do PIB brasileiro entre
2006 e 2011. Considerando o PIB de 2011, de certa de quatro trilhões de reais, o desmatamento teria
acrescentado R$ 5,9 bilhões, ou 75,3 mil reais por km2 desmatado. Esses valores certamente não justificam
a degradação ambiental, a perda de biodiversidade e de serviços ecossistêmicos provocados pelo
desmatamento (CARVALHO et al., 2016).
58
4“O Relatorio Figueiredo apurou assassinatos, torturas outras crueldades praticadas contra indígenas em todo o país,
em especial por por latifundiarios e funcionarios do extinto Serviço de Proteçao ao Indio (SPI)” (MPF, disponível em:
[Link]
povos-indigenas-e-registro-militar/relatorio-figueiredo, acesso em: 29 mar. 2019).
Administração Rural – Volume 4
Assim, percebe-se que há interseções possíveis entre as políticas ambientais, agrícolas e indígenas que
possibilitam o encontro entre conservação, produção e uso sustentável. O Quadro 1 mostra, de forma
ilustrativa (e não exaustiva), instrumentos legais, a maioria de comando-e-controle, e instrumentos
econômicos e de gestão adequados a políticas públicas socioambientais e agrícolas. O reforço de uma
política auxilia na implementação da outra: ao respeitar o código florestal, por exemplo, 80% da região
Amazônica é preservada; ao respeitar a Constituição, o modo de vida indígena leva à preservação de quase
a totalidade das TIs na Amazônia; ao valorizar a Agricultura Familiar, valoriza-se também produtos da
sociobiodiversidade, que incluem os povos tradicionais e indígenas em suas políticas, como a PGPM-Bio; e
assim por diante, criando-se um ciclo de impactos positivos somente com a implementação das políticas já
existentes aliadas ao respeito à legislação vigente.
8. COMENTÁRIOS FINAIS
As terras indígenas e demais áreas protegidas da Amazônia enfrentam ainda em 2019 conflitos de
dimensões socioambientais, jurídicas e econômicas, que não se resolvem com uma única política.
OSTROM, E. (1994) observa que a governança de recursos naturais será sempre um desafio, “sob qualquer
regime de acesso”, e que será necessária a adoção de um conjunto de políticas e instituições que
considerem tanto o meio ambiente e físico quanto os aspectos culturais para que os recursos naturais
comuns sobrevivam ao séc. XXI. Ainda, as instituições de governança sobre uso de recursos naturais
comuns serão essenciais para a conservação ambiental, e sem tais instituições “será ainda maior a
aceleração da destruição dos recursos naturais”, diminuindo o bem-estar de todos.
Na região Amazônica encontram-se largas extensões territoriais governadas por instituições de uso
comum, tanto pelos indígenas em suas terras, quanto por povos tradicionais residentes nas Resex e
Flonas. Aprimorar as capacidades dessas instituições para fazer a gestão de seus recursos naturais comuns
é fundamental para a continuidade desses recursos no longo-prazo, assim como aperfeiçoar o conjunto de
políticas públicas que impactam sobre essa região.
59
Administração Rural – Volume 4
Há, atualmente uma grande variedade de situações de inserção dos indígenas na economia, variando
muito de região em que vivem, das aptidões naturais de suas terras, do histórico do contato, das
oportunidades de comercialização etc. No entanto, o que persiste ainda é uma baixa valorização dos
produtos indígenas e dificuldades diversas de inserção na sociedade envolvente, tanto de ordem
econômica quanto social. Diferentes experiências de atividades produtivas exitosas já se realizam por
muitos povos, e podem ajudar a identificar caminhos para uma economia indígena sustentável.
Ainda, na convergência entre as políticas setoriais, há espaço para distribuir o uso da terra por todos os
segmentos da sociedade brasileira, desde que respeitados o arcabouço institucional e avaliados os custos e
benefícios dessas políticas. O arcabouço de legislação e de políticas nacionais já trazem os elementos
necessários para o desenvolvimento sustentável, com convergêcia dos fatores comuns às políticas
socioambientais e agrícolas. O que se necessita é a efetiva implementação e avaliação das políticas
públicas existentes, com o reforço à capacidade das instituições para aperfeiçoar a governança territorial e
para conferir maior segurança jurídica aos direitos socioambientais.
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61
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Administração Rural – Volume 4
Capítulo 5
Economia, sustentabilidade e florestas: As
contribuições da ciência econômica
Elane Conceição de Oliveira
Lorena Pires Castro
Fernanda Almeida de Sousa
Aida Helena Macambira Dutra
Resumo: A crise ambiental global traz previsões catastróficas para as gerações presentes
e futuras em termos de mudanças do clima, mas de forma diferenciada em diversas
regiões do planeta. A queima de combustíveis fóssseis e as queimadas foram, ao longo do
tempo, as principais causadoras do aumento dos gases de efeito estufa na atmosfera e,
por conseguinte, o aquecimento global. A busca pela sustentabilidade parece ser um
caminho imprescindível para a manutenção da vida na Terra. Para tanto, o artigo traz
uma contribuição às discussões sobre sustentabilidade no âmbito das relações
existentes entre economia e meio ambiente. Buscou-se ampliar as discussões por meio
das funções dos serviços ecossistêmicos para satisfazer as necessidade da humanidade,
direta e indiretamente. E, partir de então, abordou-se a importância da região
Amazônica para o Brasil e o mundo por conta dos benefícios da imensa floresta tropical
úmida brasileira.
62
Administração Rural – Volume 4
1 INTRODUÇÃO
O final do século XX, especificamente a partir da década de 1960, representou um marco na história da
humanidade, por possibilitar o espraiamento de uma sensibilidade universal sobre os prováveis impactos
irreversíveis do crescimento econômico ilimitado sobre o bem-estar social e ambiental das gerações
presentes e futuras.
As preocupações dos organismos mundiais5 giraram (e giram) em torno dos perigos da intensificação do
efeito estufa. O efeito estufa é um fenômeno natural responsável pelo equilíbrio da temperatura média da
terra (15ºC). Mas, o crescimento populacional, o consumo intensivo e extensivo de recursos renováveis e
não-renováveis, a queima de combustíveis fósseis, os desmatamentos e as queimadas são responsáveis
pela intensificação desse fenômeno, causando uma série interligada de fenômenos extranaturais, como:
aumento da concentração dos gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera terrestre, elevação da
temperatura da terra, derretimento do gelo das regiões polares e, em consequência, mudanças climáticas
em todo o planeta. Tudo isto tem abalado o clima do planeta.
A verdade é que o mundo todo sofrerá com os impactos negativos das mudanças do clima. Mas, nos países
pobres – onde há grande incidência de fome, guerrilhas, subnutrição e falta geral de recursos de todas as
ordens, esses impactos serão mais graves e catastróficos. O Painel Intergovernamental sobre Mudança
Climática (2007) (IPCC, sigla em inglês), relata, também, que o aquecimento do sistema climático é
inequívoco, evidente nas observações dos aumentos das temperaturas médias globais do ar e do oceano,
do derretimento generalizado da neve e do gelo e da elevação do nível global médio do mar. O planeta
sofreu um aumento de 0,74ºC entre 1906 a 2005; o século XX foi o mais quente do milênio e os anos de
1995 a 2006 foram os mais quentes registrados desde 1850, informa ainda o IPCC. O dióxido de carbono
(CO2) é o gás de efeito estufa antrópico mais importante. A taxa de aumento de concentração anual foi
mais elevada durante os últimos 10 anos (média de 1995 a 2005: 1,9 ppm por ano) do que desde o início
das medições atmosféricas diretas contínuas (média de 1960 a 2005: 1,4 ppm por ano). A principal fonte
de aumento da concentração atmosférica de CO2 se deve ao uso de combustíveis fósseis, com a mudança
no uso da terra contribuindo com uma parcela significativa, porém menor (IPCC, 2007).
Outro problema é que mudanças do clima em regiões como a Amazônia possivelmente trarão impactos
severos nos ecossistemas naturais da região, assim como em diversas atividades econômicas
desenvolvidas na região e no restante do país e do mundo. Hoje, a região já possui uma taxa de
desmatamento acumalado em mais de 18% e os fatores causadores são diversos, entre eles estão a
extração madeira, produção agrícola, estradas.
O artigo traz uma contribuição às discussões sobre economia, sustentabilidade e os serviços
ecossistêmicos da floresta tropical úmida da região Amazônica no âmbito das relações existentes entre
economia e meio ambiente. Levantamento bibliográfico foi a base para a realização dessa pesquisa sob
três aspectos: o que se pode entender da relação entre economia e meio ambiente; economistas e o meio
ambiente; a escala econômica e o capital natural, abordando o perigo da in(sustentabilidade) e os serviços
da floresta tropical úmida. Buscou-se ampliar as discussões da relação entre economia e meio ambiente
para as funções ou os serviços do ecossistema como forma de satisfazer as necessidades humanas direta e
indiretamente, abordando a importância da Amazônia para o Brasil e o mundo.
2 ECONOMIA VERSUS MEIO AMBIENTE: O QUE SE PODE ENTENDER DESSA RELAÇÃO EM TERMOS
DE SUSTENTABILIDADE?
A ciência econômica, ao longo do tempo, internalizou diversas contribuições das demais ciências, as quais
representaram o avanço do conhecimento científico. Não é por acaso que as contribuições de Georgescu-
Roegen6 constituíram semínulas na análise econômico-ecológica, pois conseguiram sedimentar a lei da
entropia e a lei da conservação de matéria e energia para a análise econômica.
Para efeitos de compreensão, a lei da entropia (segunda lei da termodinâmica) afirma que nenhum
processo envolvendo transformação de energia irá ocorrer espontaneamente, a menos que haja a
degradação de energia de uma forma concentrada para uma forma dispersa (ODUM e BARRET, 2008, p.
63
5
Clube de Roma, em 1968; Conferência de Estolcomo, em 1972; Relatório Nosso Futuro/Comissão das Nações Unidas
sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1987; Eco-92, em 1992; Protocolo de Quioto, em 1997; Conferência Rio+10,
em 2002; Conferência Rio+20, em 2012; COP21/MOP11/Acordo de Paris, em 2015.
6
Entre suas contribuições estão: lei da entropia e o problema econômico (1993, 1995); energia e mitos econômicos (1995);
análise de energia e avaliação econômica (1979); a lei da entropia e o processo econômico (1986).
Administração Rural – Volume 4
78). Já a lei da conservação da energia (primeira lei da termodinâmica) estabelece que a energia pode ser
transformada de uma forma para outra, mas não pode ser criada nem destruída, acrescentam os autores. A
entropia, então, é uma medida de energia não disponível resultante das transformações.
Essas leis não se aplicam apenas aos processos termodinâmicos, mas a todos os sistemas que processam
matéria e energia, como o sistema econômico, em que as atividades econômicas produzem e consomem
também matéria e energia. O sistema econômico, então, é um subsistema do ecossistema global 7 e não
pode crescer indefinidamente, pois o ecossistema global (fonte de insumos e sumidouro de resíduos) é
finito e tem limitada capacidade de regeneração e assimilação (COSTANZA et. al., 1997a, p. 6-7; DALY &
FARLEY, 2004, p. 93).
A questão é que o propósito do processo econômico é o bem-estar. Mas, tanto o bem-estar quanto o
progresso econômico contínuo dependem da disponibilidade de insumos de baixa entropia, pois é
evidente que o processo econômico não é um sistema fechado ou isolado dos demais entes, mas uma
evolução unidirecional irreversível, que aproveita a baixa entropia e inevitavelmente produz alta entropia,
explica Georgescu-Roegen.
Essa relação não apresenta simbiose, pois tem colocado o subsistema econômico em debate e o
ecossistema global em risco. Uma vez que o subsistema econômico detém uma forte e inclusiva
dependência do capital natural, tanto de recursos de fluxo de estoque quanto de recursos de serviço de
fundo, fica patente que nenhum dos dois poderá subsistir indefinidamente. De acordo com DALY e
FARLEY (2004, p. 105), os recursos de fluxo de estoque são transformados no que produzem (causa
material), podem ser usados a qualquer ritmo e serem armazenados, esgotam-se, não se gastam; já os
recursos de serviço de fundo não são transformados materialmente no que produzem (causa eficiente),
podem ser utilizados a um dado ritmo e a sua produtividade é medida como produção por unidade de
tempo, não podem ser armazenados e gastam-se, não se esgotam.
Verdade esta já constatada, segundo Bursztyn (1995, p. 101), ao longo da história dos últimos dois séculos
por vários alertas explicitados nas obras de pensadores da sociedade: Em 1798, Malthus já apontava para
o risco do crescimento populacional; em 1920, a consciência das externalidades surge com Pigou; em
1950, a obra do físico Jacob Bronowsky “por uma ciência ética” aparece como um manifesto contundente
em virtude da catástrofe de Hiroshima; em 1968, a preocupação com uma economia que leve em conta o
excesso de pessoas com Garret Hardin; em 1970, os estudos do Clube de Roma “Limites ao Crescimento”
propunha um crescimento populacional e econômico zero; em 1990, novamente surgem estudos com a
preocupação do excesso de pessoas de Paul e Anne Ehrlich; a preocupação com uma ciência econômica
que leve em conta a natureza aparece nos estudos dos economistas Pearce, Allier, Kneese, entre outros.
Apesar das iniciativas bem-intencionadas por parte desses pensadores a favor da causa ambiental,
segundo Bursztyn (1995, p. 100), ainda que seja possível detectar elementos de preocupação quanto aos
limites do crescimento econômico, na matriz teórica da economia industrial há subestimação dos aspectos
relativos aos limites da natureza. Isto porque a sociedade ocidental se desenvolveu segundo a lógica
econômica de que a natureza é um meio de produção de riquezas, complementa o autor. E não só isto, a
visão de racionalidade econômica posta em termos das preferências dos indivíduos não se coaduna com os
elementos constitutivos da problemática ambiental (AMAZONAS, 2009, p. 187). Ou melhor, parafraseando
este autor, a racionalidade utilitarista não guarda (ou não guardou), ao longo do tempo, compromisso com
a racionalidade subjacente à idéia de sustentabilidade.
A ideia de sustentabilidade, segundo Odum e Barret (2008, p. 131), está diretamente ligada ao conceito de
capacidade de suporte; e, no longo prazo, a sustentabilidade deve efetivamente ser compreendida e
encarada no que se refere ao conceito de capacidade de suporte ótima e não máxima (capacidade de
suporte máxima é a densidade máxima que os recursos em certo habitat podem suportar, enquanto a
capacidade de suporte ótima é a densidade de nível mais baixo que pode ser sustentada em certo habitat
sem “viver no limiar ou na margem” no que diz respeito a recursos, como alimento ou espaço). De acordo
com os autores, o problema de manter o nível máximo de suporte em ambientes flutuantes no mundo é
porque provavelmente ocorrerá a ultrapassagem dos limites; e quando os limites são ultrapassados e a
entropia excede a capacidade do sistema de dissipá-la, pode ocorrer uma redução em tamanho ou em
“colapso”. 64
7 Um ecossistema (ou sistema ecologico) e qualquer unidade que inclui todos os organismos (comunidade biotica) em
uma dada area interagindo com o ambiente físico de modo que um fluxo de energia leve a estruturas bioticas
claramente definidas e a ciclagem de materiais entre componentes vivos e nao vivos (ODUM e BARRETT, 2008,
p.18).
Administração Rural – Volume 4
Nessa perspectiva, a busca pela sustentabilidade parece ser um caminho imprescindível para a
manutenção da vida no planeta. A grande questão é: de que forma podemos alcançar a sustentabilidade?
Apenas como uma reflexão transcendente: ou caminhamos em direção a um modo de vida que
compreenda os limites impostos por Deus à natureza humana, na qual não há restrição para tudo que
intenta fazer; ou continuamos caminhando em direção a um mito de infinitude humana, na qual o homem
é senhor dele mesmo, dos seus prazeres e de suas vontades mais imediatas e, ainda que ele “arrazoe”
sobre a sobrevivência das gerações futuras, suas ações hoje o traem.
Mas, trazendo tal reflexão para uma esfera mais elementar, podemos traçar duas concepções básicas. Na
primeira, se apreendermos a sustentabilidade do ponto de vista que há um limite para todas as coisas, tal
como colocado por Odum e Barret, talvez nos aproximem de uma ética para sustentabilidade no sentido
de evitar um colapso estrutural duradouro e intergeracional8. Essa ética, segundo Bartholo Jr. (2001, p.
19), respinga-se no sentido de responsabilidade como princípio ético; fundamenta-se numa dimensão
temporal futura do “ainda-não-existente” como um “compromisso de preservação do ser, uma
responsabilidade pelo ser”, capaz de restringir a capacidade humana de agir como uma destruidora do ser;
expressa-se na perenização da vida.
E não tão recente assim, Stuart Mill, economista clássico do século 19, já apontava para uma provável ética
da sustentabilidade: “se a Terra tiver de perder a grande parte de amenidade que deve às coisas que o
aumento ilimitado da riqueza e da população dela extirparia, simplesmente para possibilitar a Terra
sustentar uma população maior, mas não uma população melhor ou mais feliz, espero sinceramente, por
amor à posteridade, que a população se contente com permanecer estacionária, muito antes que a
necessidade a obrigue a isso” (MILL, 1983, p. 254).
Entretanto, para Amazonas (2009, p. 188), as possibilidades de não ocorrência do desejo de equidade para
com as gerações futuras ou de perpetuação da humanidade são prováveis. Segundo ele, ainda que
houvesse perfeito conhecimento por parte da geração corrente sobre o que irá tocar as gerações futuras, é
errôneo supor-se que as preferências dos indivíduos da geração corrente sejam necessariamente
altruístas em relação às gerações futuras e que incorporem o desejo de fazer valer os direitos destas
últimas. Nada implica que as preferências correntes dos indivíduos deixariam de ser “egoístas”, esclarece o
autor.
Na segunda, se apreendermos a sustentabilidade do ponto de vista do conceito normativo de
desenvolvimento sustentável: “aquele desenvolvimento que permite às gerações presentes satisfazerem
suas necessidades sem comprometer a capacidade das gerações futuras satisfazerem as suas próprias”,
estaríamos encarando a sustentabilidade tal como é interpretado pelo mainstream economics. Segundo
este a sustentabilidade é interpretada como uma restrição ao crescimento econômico vigente, qual seja,
que não acarrete um declínio no bem-estar futuro (ALMEIDA, 1998, p. 20). O bem-estar é medido em
termos de consumo9 potencial per capita tanto de bens comercializados no mercado quanto de bens
ambientais; então, a sustentabilidade é definida como consumo potencial não declinante ao longo do
tempo, afirma a autora. Isso nos leva a crer que o Relatório Brundtland não levou em conta as inevitáveis
leis da termodinâmica, em que todo crescimento material consome recursos e produz resíduos, o que
pode inviabilizar um crescimento duradouro e intergeracional como apregoado, de forma estilizada, pelo
relatório: “crescer, mas de maneira diferente; produzir mais com menos” (COSTANZA et al., 1997a, p.16).
Ora, a sustentabilidade do desenvolvimento foi vista como um processo de mudança contínuo na estrutura
social das nações, em que as variáveis tecnologia, organização social e capacidade da biosfera podem ser
gerenciadas e aprimoradas a fim de proporcionar uma nova ordem no crescimento econômico (DELÉAGE,
1993, p. 43 apud MOTA, 2001, p. 32). Mas, não é possível encarar hoje o desafio do desenvolvimento sem o
qualificarmos como sustentável (BURSZTYN, 2001, p. 59). É necessário entendermos o desenvolvimento
como mudança de estrutura, e não apenas como fortalecimento do status quo do crescimento econômico,
afirma o autor.
O que se pode, então, entender é que o modus operandis do desenvolvimento sustentável parece ser
aquilo que Duarte (2008) defendeu como mitos que consolidaram o modelo de desenvolvimento da
sociedade moderna: o mito da natureza infinita; o mito do progresso e do crescimento ilimitado; o mito da
igualdade socioeconômica e de sucesso garantido nos grandes centros urbanos ditos desenvolvidos e o 65
8 Colapso estrutural entendido como uma completa desordem no planeta proveniente das intensificaçoes das crises
economicas, das crises de recursos naturais e das crises de valores sociais.
9 Os níveis de consumo relacionam-se as condiçoes produtivas, de modo que a sustentaçao do consumo potencial exige
a disponibilidade futura de estoques de capital, que incluem os “capitais fabricados” e os “capitais ambientais”
(recursos naturais) (ALMEIDA, 1998, p. 20-21).
Administração Rural – Volume 4
mito da neutralidade e da superioridade da ciência e da tecnologia. Isso fica claro quando Souza (2008, p.
7), ao definir desenvolvimento econômico sob a ótica de mudança social, econômica e ambiental, atrela
tudo isto a existência de um padrão de crescimento econômico de longo prazo10. Mais ainda, a ideia
corrente de desenvolvimento refere-se a um processo de transformação que engloba o conjunto da
sociedade (FURTADO, 1980, p. 41). Essa transformação está ligada à introdução de métodos produtivos
mais eficazes e se manifesta sob a forma de aumento de fluxo de bens e serviços finais à disposição da
coletividade, afirma o autor.
É evidente que essa característica de ver o desenvolvimento como sustentável não é referendado por
alguns cientistas econômicos. Para Alier (2007, p. 47), por exemplo, o desenvolvimento é uma palavra
detentora de uma forte conotação de crescimento econômico e modernização uniforme, sendo preferível
deixá-la de lado e falar somente de sustentabilidade. Latouche (2003), ao corroborar com a ideia de Alier,
explica que a expressão desenvolvimento sustentável é constituída por dois nomes contraditórios; é uma
bricolagem conceitual que visa apenas mudar as palavras, na ausência de mudanças nas coisas. Isso
porque ele permite o direito de poluir, sustenta a mercantilização do meio ambiente, apregoa um
desenvolvimento como crescimento autossustentável e, sobretudo, é uma ideia consensual, unânime e
intergeracional.
Sendo assim, é grande o desafio da sustentabilidade no processo de desenvolvimento econômico,
especialmente, porque nenhum país desenvolvido da modernidade sacrificou seu desenvolvimento
econômico original em função da consciência da finitude dos recursos naturais (BURSZTYN, 2001a, p. 62).
Nesse sentido, os recados que o século 20 deixou para o seguinte, em termos do papel da ciência e da
tecnologia, constituíram um apelo por mudanças de conduta, resultado de pelo menos cinco categorias de
impasses (BURSZTYN, 2001b, p. 11): Consciência das possibilidades reais de que a humanidade possa se
autodestruir, pelo uso de seus próprios engenhos (bombas, mudanças climáticas, degradação das
condições ambientais); consciência da finitude dos recursos naturais; consciência de que é preciso agir
com cautela e considerar os aspectos éticos da produção de conhecimentos científicos; consciência de que
mesmo não tendo resolvido a necessária solidariedade entre grupos sociais e povos, é preciso que se
considere também o princípio da solidariedade em relação a futuras gerações (a ética da
sustentabilidade); consciência de que, na medida em que nossas sociedades vão ficando mais complexas, é
preciso mais ação reguladora, o que normalmente se dá pelo poder público.
E mais, o desafio da sustentabilidade no processo de desenvolvimento econômico deve levar em
consideração o papel da inovação tecnológica nos processos produtivos e sociais. Isto porque, um fato
nunca é pura ou exclusivamente econômico; sempre existem outros aspectos em geral mais importantes
(SCHUMPETER, 1982, p. 9). Pensando nisto, Schumpeter afirma que assim como falamos dos fatos
econômicos em geral, assim o fazemos com o desenvolvimento econômico. Mas, para ele, o
desenvolvimento é um fenômeno distinto, inteiramente estranho ao que pode ser observado no fluxo
circular ou na tendência para o equilíbrio; é uma mudança espontânea e descontínua nos canais do fluxo,
perturbação do equilíbrio, que altera e desloca para sempre o estado de equilíbrio previamente existente
(SCHUMPETER, 1982, p.47). Logo, a inovação não é só essencial para o processo de desenvolvimento
econômico, mas é altamente relevante para propor mudanças nos paradigmas sociais e econômicos,
afirma Shumpeter.
Em função disso, a fim de enfrentar as prováveis escolhas associadas ao modus operandis do subsistema
econômico versus ecossistema global é necessário não só fazer suposições, mas sim, lançar mão de
instrumentos de política ambiental, especialmente os instrumentos econômicos, de maneira a se
dimensionar os impactos que envolvem essa razão de dependência; e tentar de uma forma menos danosa
estabelecer parâmetros de sustentabilidade entre eles.
10 Desenvolvimento economico define-se pela existencia de crescimento economico contínuo, em ritmo superior ao
crescimento demografico, envolvendo mudanças de estruturas e melhoria de indicadores economicos, sociais e
ambientais. Ele compreende um fenomeno de longo prazo, implicando o fortalecimento da economia nacional, a
ampliaçao da economia de mercado, a elevaçao geral da produtividade e do nível do bem-estar do conjunto da
populaçao, com a preservaçao do meio ambiente.
Administração Rural – Volume 4
NOËL, 1995, p. 23). Isto, no entanto, não impediu que a ciência econômica manifestasse em suas teorias,
com o passar dos tempos, forte preocupação com os limites da natureza ao crescimento econômico.
As idéias dos fisiocratas, baseadas numa concepção metafísica da natureza do pensamento aristotélico11,
têm sua maior expressão no Tableau Économique, de Quesnay. Este modelo econômico reflete a maneira
como a sociedade deveria ser estruturada a fim de atender a essa lei natural. A nação se reduzia a três
classes de cidadãos: a classe produtiva, a classe dos proprietários e a classe estéril (HUME e QUESNAY,
1988, p. 155). Sendo que, a classe produtiva era a que fazia renascer, pelo cultivo do território, as riquezas
anuais da nação, e as outras classes eram estéreis, afirmam os autores. A verdade é que os fisiocratas
atribuíram a origem das riquezas à agricultura. Faucheux e Noël (1995, p. 31) relatam que a concepção
fisiocrática é fundamentalmente a de uma agricultura de longo prazo ajustando-se em torno de uma lei
constituintes de uma ordem natural, segundo a qual há um limite imposto pela própria natureza.
Com a descoberta da atração universal de Newton, em 1687, nasce a mecânica newtoniana ou mecânica
racional, cujo paradigma vai dominar o conjunto da ciência até ao século 19 (FAUCHEUX e NOËL, 1995, p.
40-41). Com isso, o projeto cartesiano, que consiste em não mais se sujeitar cegamente às leis impostas
pela natureza, vai organizar-se a uma lei única – a lei da gravitação universal, suposta a organizar o
universo inteiro e assegurar o seu equilíbrio, afirma os autores. Logo, para o conjunto do universo existe
uma só trajetória, repetitiva e reversível; e mesmo que ele sofra uma perturbação momentânea, volta
imediatamente e fatalmente ao equilíbrio.
A supremacia desse paradigma mecanicista influencia fortemente as teorias econômicas contemporâneas,
as quais vão procurar descobrir, sob o modelo newtoniano, a lei que governa a economia, tornando-se
assim autônoma a esfera econômica (FAUCHEUX e NOËL, 1995, p. 41). E, não tão distante Adam Smith
surge com a “mão invisível” dando autonomia e independência à teoria econômica. Com ela, uma metáfora
que designa o mercado, Smith dotou o econômico de uma “ordem natural” específica, separada das suas
dependências anteriores perante o divino, o político e a natureza. Segundo Hunt (1989, p. 64), na teoria de
Smith, embora os indivíduos pudessem agir de forma egoísta e estritamente em proveito próprio, havia,
nas “leis da natureza” ou da “divina providência”, a mão “invisível”, que guiava esses atos, que
aparentemente provocavam conflitos, de modo a haver mais harmonia. Sendo que, as pessoas eram
conduzidas por essa “mão invisível” com o fim de promover o bem social, sem que essa promoção seja
parte de seu intento ou motivo.
Como parte importante das contribuições dos clássicos era explicar o crescimento econômico ou de
determinar as causas do progresso econômico, eles fizeram isso visualizando explicitamente o sistema
econômico inserido no meio ambiente, embora considerasse este último passivo, benevolente (MUELLER,
2007, p. 121). Então, juntamente com o capital e a mão de obra, os recursos naturais eram parte explícita
da teoria clássica do crescimento; e como os clássicos consideravam estes últimos limitados, tratavam-os
como fatores de retornos decrescentes, afirma o autor.
De acordo com Goldblatt (1996, p. 19), Mueller (2007, p. 122-124) e Andrade e Romeiro (2011, p. 7), os
clássicos enfatizarem os efeitos dos retornos decrescentes gerados por uma população em expansão sobre
uma base fixa de recursos naturais, postulavam a necessidade de um “estado econômico estacionário”, na
medida em que a finitude dos recursos naturais e a impossibilidade de crescimento ilimitado da
produtividade apresentavam-se como um empecilho à continuidade da expansão do sistema econômico.
Dentre os clássicos devemos estabelecer a distinção entre a concepção de um estado estacionário em
Smith/Ricardo e Stuart Mill. A ideia básica de um estado estacionário em Smith e Ricardo estava associada
essencialmente, segundo Corazza (1991, p. 208), a um “excesso” de capital, que levaria a uma queda dos
lucros e, em consequência, a um desestímulo ao prosseguimento da acumulação, estagnação e penúria. É
claro que o esgotamento das terras passíveis de serem ocupadas para agricultura e, consequentemente,
para produção alimentos acarretaria uma diminuição da expansão populacional e da força produtiva e um
aumento nos preços dos alimentos em razão do aumento da renda da terra em função da sua escassez.
Isso comprimiria os lucros, reduziria a acumulação de capital e cairia o crescimento econômico,
alcançando assim um estado estacionário. Isto fazia com que Smith e Ricardo abominassem a situação
estacionária da economia, porque significava o fim do progresso.
67
Contrariamente a isso, Mill não considerou a condição estacionária do capital e da riqueza com essa
aversão impassível, tão generalizadamente manifestada pelos clássicos da velha escola (MILL, 1983, p.
11Entre as concepções das relações homem/natureza há uma categoria denominada naturicista, que atribui papel
proeminente à natureza dentro de uma concepção metafísica; tal concepção como se encontra em Aristóteles foi capaz
de influenciar as ideias econômicas (FAUCHEUX e NOËL, 1995, p. 28).
Administração Rural – Volume 4
252). Na verdade, Mill estava propenso a crer que a condição estacionária seria, no conjunto, uma enorme
melhoria da condição atual da sociedade. Até porque ele não concebia a ideia que o estado normal dos
seres humanos é aquele de sempre lutar para progredir do ponto de vista econômico, mas o melhor estado
para a natureza humana é aquele em que, se por um lado ninguém é pobre, por outro lado ninguém deseja
ser mais rico do que é.
Mill sabia que o aumento da riqueza não é ilimitado; ao final daquilo que denominavam condição
progressiva estava a condição estacionária, que todo aumento de riqueza é apenas um adiamento dessa
última condição. Sobre isso Mill (1983, p. 239) infere que quando um país durante muito tempo possui
uma produção grande, uma renda líquida grande da qual pode fazer poupança, e quando durante muito
tempo existiram os recursos para aumentar muito o capital, uma das características de tal país é a taxa de
lucro situada a uma distância muito pequena do mínimo, e, portanto, ele está a poucos passos da condição
estacionária.
Entretanto, a teoria econômica passa por outra transformação em meados do século 19, quando a
mecânica newtoniana conhece um renovamento graças a Hamilton, o qual desde 1834, tinha completado o
trabalho de Lagrange, tendo como resultado uma fórmula geral de maximização (FAUCHEUX & NOËL,
1995, p. 42). Os autores ainda revelam que foi esse o momento escolhido pelo pensamento neoclássico
para aderir explicitamente e o mais totalmente possível ao paradigma newtoniano.
Isso serviu como influência maciça para que houvesse o triunfo do utilitarismo na escola neoclássica com
Willian Jevons, Carl Menger e Léon Walras, posto que os estudos sobre utilidade já eram anteriormente
observados por Bentham, Say e Senior, mas sem aplicabilidade matemáticas, afirma Hunt. Especialmente,
Bentham foi um importante precursor dos teóricos posteriores da utilidade. Para ele, o termo utilidade
designava aquela propriedade existente em qualquer coisa, propriedade em virtude da qual o objeto tende
a produzir ou proporcionar benefício, vantagem, prazer, bem ou felicidade; ou a impedir que aconteça o
dano, a dor, o mal, ou a infelicidade para a parte cujo interesse está na pauta (BENTHAN, 1989, p. 4;).
Como para Bentham a dor era meramente o prazer negativo, o princípio da utilidade podia ser expresso
como “toda motivação humana é derivada do desejo de maximizar o prazer”; “todo valor se baseia na
utilidade” (HUNT, 1989, p.148).
Jevons, Menger e Walras formularam a versão da teoria do valor-utilidade que permanece como cerne da
ortodoxia neoclássica até hoje, propondo uma teoria do valor coerente com a perspectiva filosófica
utilitarista (HUNT, 1989, p. 279). A noção de utilidade marginal decrescente permitiu a eles e a seus
sucessores mostrarem, concreta e explicitamente, como a utilidade determinava os valores, mas o grande
significado das suas ideias estava em como eles mudaram a forma da economia utilitarista e não em
qualquer mudança em seu conteúdo, acrescenta Hunt. Isso porque o marginalismo permitiu que a visão
utilitarista da natureza humana, que era considerada somente uma maximização racional e calculista da
utilidade, fosse formulada em termos de cálculo diferencial.
Para William Jevons, por exemplo, a economia deve ter por base uma investigação completa e precisa
sobre as condições da utilidade; e para entendermos esse fundamento devemos necessariamente
examinar as necessidade e desejos do homem (JEVONS, 1988, p. 48). Para ele, a utilidade, apesar de se
uma qualidade das coisas, não é uma qualidade inerente; ela define-se como uma circunstância das coisas
que surge da relação destas com as exigências do homem. É por isso que o valor, segundo Jevons, depende
inteiramente da utilidade e, valor refere-se a valor de troca ou preço (HUNT, 1989, p. 280-281). Ao
introduzir a noção de marginalismo na economia utilitarista, descobriu uma nova maneira pela qual a
visão utilitarista dos seres humanos como maximizadores racionais e utilitaristas pôde ser expressa em
termos matemáticos,12 complementa o autor. Havia uma necessidade de apreciar a diferença entre a
utilidade total de qualquer bem e o grau de utilidade do bem em qualquer ponto por intermédio de uma
linguagem matemática (JEVONS, 1988, p. 53). Do lado dos recursos naturais, Jevons também deteve forte
contribuição quando tentou provar a probabilidade de um esgotamento dos recursos carboníferos
britânicos no seu trabalho The Coal Question, já significando estudos sobre as dependências das
atividades industriais face às matérias-primas e à energia (FAUCHEUX e NOËL, 1995, p. 16; ROLL, 1950, p.
22).
68
12 𝑈𝑇 = 𝑓 (𝑄). Significa que a utilidade total tem relaçao concreta com a quantidade consumida; a primeira derivada
de uma funçao de utilidade total da a utilidade marginal com qualquer quantidade consumida. Para maximizar a
utilidade obtida com o consumo de determinada mercadoria, dever-se-ia consumir ate ficar saciado, isto e, nao se
obter mais utilidade do outro pequeno incremento da mercadoria.
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Com base nas condições de maximização da utilidade e do lucro, os neoclássicos construíram um edifício
bem-organizado, simétrico e esteticamente agradável, dedutivo e matemático, que “prova” que, em
condições de concorrência, os agentes econômicos automaticamente agirão e interagirão de maneira a
maximizar o bem-estar social.
Para explicar o ápice desse bem-estar social parte-se do princípio de que em qualquer ponto na fronteira
de possibilidades de produção13 pode-se calcular a taxa marginal de transformação na produção – TMT14,
que, em condições de concorrência, essa taxa sempre refletirá os preços de equilíbrio. Nesse ponto os
consumidores procurarão maximizar suas utilidades de acordo com a restrição orçamentária. Logo, a TMT
de A-B bem como a razão entre as Utilidades Marginais de A-B refletem a razão de preços de A-B.15. Essa
igualdade leva à fronteira de possibilidades de utilidade16 da sociedade, que os neoclássicos chamam de
“ponto ótimo de Pareto”; representa o bem-estar máximo que a sociedade poder conseguir com certa
distribuição de riqueza.
Como essa lógica de mercado justifica o bem-estar social, “todos os teóricos neoclássicos centraram sua
análise num indivíduo genérico isento de relações sociais, que busca atender ao seu próprio interesse, e
que se orienta invariavelmente por suas preferências subjetivas” (PRADO, 2001, p. 11-12). E mais, o
tratamento dado aos fatores de produção – força de trabalho, recursos naturais e meios de produção – são
estritamente vistos como capazes de gerar serviços que contribuam para a efetivação e maximização do
processo produtivo apenas, afirma Prado.
A preocupação com um eminente estado estacionário dos clássicos dá lugar agora a um permanente
estado de crescimento ótimo, caracterizando a ideologia fundamental da escola neoclássica. Logo, no
começo do século 20, a norma fundamental da economia neoclássica era a otimalidade, de Pareto (HUNT,
1989, p. 413). A regra fundamental da otimalidade, de Pareto, afirma que a situação econômica é ótima
quando nenhuma mudança pode melhorar a posição de um indivíduo sem prejudicar ou piorar a posição
de outro; uma melhora segundo Pareto é uma mudança que tira a sociedade de uma posição não ótima e
mais a aproxima de uma posição ótima: qualquer mudança que não prejudique quem quer que seja e que
melhore a situação de alguém tem de ser considerada uma melhora. Isso constituiu o conceito básico da
teoria do bem-estar da escola neoclássica.
Deste ponto em diante, o econômico tornou-se unidirecional e o seu procedimento totalmente
reducionista e autocontido, em que as regulações naturais perderam a sua autonomia e até mesmo a sua
existência (FAUCHEUX e NOËL, 1995, p. 43).
A perda das regulações naturais fica mais evidente quando analisamos as implicações teóricas da
economia do bem-estar da escola neoclássica já exposta, resumidamente, acima. Mas, essas implicações
merecem uma atenção melhor no que diz respeito ao seu tratamento para com as consequências
hedonistas (“mais prazer é, eticamente, melhor do que menos prazer”, “mais utilidade é melhor do que
menos utilidade”) dos desejos ou preferências individuais seja do consumidor seja do mercado em
detrimento do todo (sociedade). Isso porque essas preferências não são produtos de um processo social
específico, isolado e reducionista, mas sim, produtos de um processo social que tem implicações sociais,
como externalidades.
As externalidades ocorrem em virtude de uma ação de um consumidor ou de um produtor que tem
influência sobre outros produtores ou consumidores, mas que não é levada em consideração no preço de
mercado (PINDYCK e RUBINFELD, 2005, p. 259). Ou melhor, às vezes, a atuação dos consumidores ou dos
produtores resulta em custos (externalidade negativa) ou benefícios (externalidade positiva) que não se
13 Mostra todas as possibilidades combinaçoes de mercadorias que podem ser produzidas quando o trabalho e o
capital de toda a sociedade sao utilizados eficientemente; a eficiencia e atingida quando, para qualquer
combinaçao de mercadoria produzida, o aumento da produçao de qualquer mercadoria implica, obrigatoriamente,
a diminuiçao da produçao de outras mercadorias.
14 Exemplificando, a taxa marginal de transformação das mercadorias A e B podem ser 2:1, significando que ao
desistirmos de produzir duas unidades de A pode-se produzir mais uma unidade de B. Esse ponto na fronteira de
possibilidades de produção será atingido quando o preço de equilíbrio do mercado B for o dobro do preço 69
correspondente de A.
15 Se nao fosse assim, e se a taxa de transformaçao e a razao entre as utilidades marginais nao fosse igual, a utilidade
para pelo menos um consumidor poderia ser aumentada, sem se diminuir a utilidade para qualquer outro.
16 Cada pondo nessa fronteira representa uma situaçao na qual nenhuma mudança na produçao e nenhuma
quantidade adicional de mercadoria trocada poderiam fazer com que o indivíduo melhorasse, sem piorar a posiçao
de outro.
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17 Pindyck & Rubinfeld (2005, p. 556) expoem dois exemplos de externalidade. Uma externalidade negativa ocorre
quando uma usina de aço despeja seus efluentes em um rio do qual os pescadores dependem para sua pesca. Quanto
mais efluentes forem despejados no rio pela usina de aço, menos peixes havera. Nao ha nada, porem, que motive a
usina de aço a se responsabilizar pelos custos externos que esta impondo aos pescadores quando toma sua decisao de
produçao. Alem disso, nao existe um mercado no qual esses custos externos possam ser refletidos no preço do aço.
Uma externalidade positiva ocorre quando um proprietario de uma casa resolve pinta-la e construir um lindo jardim.
Todos os vizinhos se beneficiam dessa atividade, embora a decisao do proprietario de pintar a casa e fazer o jardim 70
nao tenha levado em conta esses benefícios.
18 A falencia do mercado susceptível diz respeito a extinçao ou ausencia de um mercado no qual os preços da
sua produçao e zero para um consumidor adicional; mas ele e nao exclusivo quando as pessoas nao podem ser
impedidas de consumi-lo, de modo que vem a ser difícil ou impossível cobrar por sua utilizaçao.
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Almeida (1998, p. 29) levanta uma questão para a importância da definição econômica de poluição, a qual
deve considerar o efeito físico do elemento poluente (emissões, lixo) sobre o meio ambiente e a reação
humana ao mesmo 20. Mas, segundo a autora, o fato de se tratar de poluição como uma externalidade
(negativa) implica que a simples ocorrência de poluição física não significa que exista “poluição
econômica”; e que mesmo existindo “poluição econômica”, ela não deve necessariamente ser eliminada.
Almeida esclarece tais prerrogativas a partir da afirmação de que o objetivo da sociedade é maximizar o
total de ganhos menos o total de custos. Sendo assim, o ponto de encontro entre a curva de lucro privado
marginal líquido21 e a curva de custos externos marginais22 corresponde ao nível ótimo de produção.
Segue que, segundo Almeida, o nível de poluição física decorrente desse nível de atividade produtiva é o
nível ótimo de poluição. Isto significa que o nível de poluição socialmente ótima não é zero; mesmo se
produzindo a quantidade socialmente ótima, há um custo externo envolvido; reduzir poluição abaixo
desse nível ótimo implica um nível de atividade econômica aquém do ótimo, afirma a autora.
Mais precisamente, o ótimo paretiano surge como um ótimo econômico de poluição (FAUCHEUX e NOËL,
1995, p. 223). Este ponto, segundo os autores, que pode ser atingido, por exemplo, pela redução da
produção do agente poluidor, manifesta o retorno à esfera econômica mercantil de fenômenos até então
situados fora do mercado. Logo, o fato do ótimo de poluição se situar algures entre o nível, alto de
poluição, na ausência de qualquer processo de internalização da externalidade, e o nível “zero” de poluição
significa também a existência de um compromisso entre as exigências da economia (produção e valores de
mercado) e a ecologia (favorável à poluição zero, que tenderia ser o seu ótimo).
Diante disto, apesar de Pigou ter oferecido elementos para a análise das externalidades em função dos
problemas ambientais interferirem no funcionamento eficiente do mercado, segundo Ayres e Kneese
(1969, p. 282) as externalidades eram tratadas como exceções ao sistema, quase curiosidades de livro de
texto. O sistema econômico funcionaria como se existissem fontes inesgotáveis de insumos materiais e de
energia para alimentar o funcionamento do sistema; na produção, os insumos fossem convertidos
inteiramente em produtos e, no consumo, todos os produtos desaparecessem inteiramente sem deixar
vestígios (MUELLER, 2007, p. 221). Entretanto, afirma o autor, na década de 1960, já havia se tornado
evidente que externalidades ambientais são parte normal e inevitável dos processos econômicos, surgindo
os primeiros esforços da economia neoclássica para alterar nesse aspecto as bases da sua análise; e,
destacando-se assim os estudos pioneiros23 de Ayres e Kneese, Production, consumption and externalities,
de 1969.
De modo geral, estes autores postulavam que os insumos para o sistema econômico eram os combustíveis,
os alimentos e as matérias-primas que, em parte, eram transformados em produtos finais e, em parte,
eram alteradas em resíduos e rejeitos (AYRES e KNEESE, 1969, p. 284). A ideia fundamental embutida no
modelo que eles desenvolveram era a do balanço dos materiais, o qual permite tratamento simultâneo dos
problemas ambientais decorrentes da extração de recursos naturais do ecossistema, bem como da
deposição, neste, de resíduos e rejeitos provenientes do processo de produção e consumo (AYRES e
KNEESE, 1969, p. 284; VICTOR, 1972, p.25; MUELLER, 2007, p.223). A partir de então, reconheceu-se a
existência de processo unidirecional e, pelo menos no caso da energia, irreversível; admitiu-se, também,
que, em um mundo finito, tais unidirecionalidade e irreversibilidade podem levar à crescente escassez de
certos materiais, assim como os rejeitos e a poluição crescentes podem exceder a capacidade de
assimilação do ecossistema (MUELLER, 2007, p. 222).
Entretanto, a economia ambiental neoclássica, segundo Mueller (2007, p. 231), vem considerando
separadamente esses aspectos, fazendo que evoluíssem dois ramos quase independentes: o da teoria da
poluição e o das teorias dos recursos naturais, sendo àquela o ramo mais importante da economia
ambiental neoclássica. Sua importância, a partir de meados de 1980, passou a predominar porque, de um
lado, declinou o receio instalado pela crise do petróleo dos anos de 1980 de que a escassez generalizada de
recursos naturais pudesse impor sérias restrições à expansão da economia; e, do outro lado, os problemas
causados pela poluição e pela degradação originados no sistema econômico passaram a merecer maior
atenção.
71
20 O efeito físico pode ser uma reaçao biologica, química; e o efeito humano pode ser a perda de bem-estar.
21 Lucro líquido extra por unidade de produçao.
22 Valor do dano ambiental extra acarretado por unidade de poluiçao (correspondente a cada nível de atividade
produtiva).
23 Acrescenta-se aí os trabalhos de Tietenberg, T.H., Specific taxes and pollution control, de 1973; de Noll, R.G., Mass
prazo. A produção pela qual estes estoques se mantêm deve ser baixa em vez de alta, e sempre dentro das
capacidades regenerativas e de absorção do ecossistema, e mais; o pressuposto da economia estável não
era o de ficar maior, mas sim, o de ficar melhor. Isso possivelmente levaria a uma “escala máxima
sustentável”; aquela em que o throughput (fluxos de materiais e energéticos provenientes do meio
ambiente e que entram e saem do sistema econômico) esteja dentro da capacidade de suporte do sistema
(carrying capacity) (COSTANZA, et. al., 1997a, p. 80; ANDRADE e ROMEIRO, 2011, p. 8).
Por outro lado, poder-se-ia pensar em uma escala ótima com o fim de se pretender minimar os deletérios
efeitos da expansão da economia. No entanto, para Costanza et. al. (1997a, p. 81), apesar de ela ser uma
escala menos sustentável, é uma escala em que ainda não se tem sacrificado serviços ecossistêmicos, os
quais são presentes que valem mais do que os benefícios derivados do crescimento da escala de utilização
de recursos. Escala ótima é aquela que maximiza a diferença entre os estoques de benefícios e malefícios
acumulados através do crescimento, isto é, iguala os benefícios marginais e os malefícios marginais do
crescimento econômico (ANDRADE e ROMEIRO, 2001,p. 8).
Não se pretende aqui advogar qual a melhor estratégia a ser utilizada; mas sim, compreender claramente
que o ecossistema global sustenta a economia e que a expansão (escala) desta indefinidamente afeta
(impacta) o ecossistema sustentador, e que a ela por meio do capital natural presta e fornece serviços
ecossistêmicos à humanidade.
O termo capital natural foi primeiramente utilizado como metáfora para se referir aos recursos naturais
disponíveis ao homem (DALY e COBB JR, 1989 apud ANDRADE e ROMEIRO, 2011, p. 9). Entretanto,
segundo os autores, foi no final do século 20 que o termo deixa de ser apenas uma metáfora usada para
chamar atenção ao problema da depleção dos recursos naturais e passa a ser um conceito formal e técnico,
utilizado juntamente com definições de outros tipos de capital.
De acordo com Costanza et. al. (1997b, p. 254), em geral, “capital” é considerado os estoques de materiais
ou informações existentes num determinado período que geram fluxos de serviços que podem ser usados
para transformar outros materiais ou sua configuração espacial, contribuindo para a melhoria do bem-
estar humano. Ou melhor, capital natural são reservas ou fundos fornecidos pela natureza (bióticos ou
abióticos) que produzem um fluxo valioso para o futuro, quer de recursos naturais quer de serviços (DALY
e FARLEY, 2004, p. 512).
Daly e Farley (2004, p. 104-105) distinguem as características do capital natural em recurso de fluxo de
estoque e recurso de serviço de fundo, como inicialmente Georgescu-Roegen estabeleceu. O recurso de
fluxo de estoque é transformado materialmente naquilo que produz e, como um estoque pode
proporcionar um fluxo de material, o fluxo pode ter, virtualmente, qualquer ritmo que se queira; o tempo
entra nesta equação, de maneira que a unidade apropriada para medir a produção de um recurso de fluxo
de estoque é a quantidade física de bens ou serviços que se consegue produzir. Eles se esgotam, não se
gastam apenas. Quanto ao recurso de serviço de fundo, ao contrário, sofre desgate e degrada-se com a
produção, mas não se tornar parte integrante da coisa produzida (não está incorporado nela). Em vez
disso, um fundo proporciona um serviço a uma taxa fixa, e a unidade para medir o serviço é a produção
física por unidade de tempo. O serviço resultante de um fundo não pode ser armazenado para uso futuro, e
os recursos de serviço de fundo gastam-se, não se esgotam.
O objetivo aqui é explicitar como esses conceitos de recurso de fluxo de estoque e de recurso de serviço de
fundo (elementos estruturais) se relacionam com o capital natural, de modo a compreender-se melhor o
papel que o capital natural exerce sobre o sistema ecológico, sobre o ecossistema, e sobre o sistema
econômico.
Podemos agora voltar ao conceito de recurso natural. Segundo Costanza e Daly (1992 apud Andrade e
Romeiro, 2011, p. 9): o capital natural pode ser considerado como o estoque de recursos naturais (de fluxo
de estoque ou de serviço de fundo) existentes, que gera um fluxo de serviços tangíveis e intangíveis direta
e indiretamente úteis aos seres humanos. Os autores acrescentam que os fluxos de benefícios gerados pelo
estoque de capital natural têm sido referidos como serviços de ecossistemas ou ecossistêmicos, cuja
importância para o sistema econômico e o bem-estar humano vem sendo crescentemente reconhecido.
Em resumo, os elementos estruturais de um ecossistema são reservas de recursos bióticos e abióticos 73
(minerais, água, terra, etc.) que, quando combinados em conjunto, produzem funções ou serviços do
ecossistema (DALY e FARLEY, 2004, p. 144). Os serviços ecossistêmicos é a capacidade dos processos e
passaríamos a dar mais atençao a melhorar as nossas vidas a partir do momento em que cessassemos de nos
preocupar em sermos maiores, acrescentam os autores.
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componentes naturais proverem bens e serviços que satisfaçam as necessidades humanas, direta ou
indiretamente (DE GROOT et. al., 2002; COSTANZA et. al., 1997a, 95; COSTANZA et. al., 1997b, 253). Esses
serviços dos ecossistemas consistem de fluxos de material, energia e informação de estoques de capital
natural que combinados com capital manufaturado e humano servem para produzir bem-estar humano
(COSTANZA et. al., 1997b, p. 254).
De modo geral, os serviços ecossistêmicos podem ser classificados em quatro categorias (MEA, 2003, p.
56-60; De GROOT et al., 2002; ANDRADE e ROMEIRO, 2011, p. 14): serviços de provisão (ou serviços de
abastecimento); serviços de regulação; serviços culturais; e serviços de suporte. Quanto à caracterização
de cada função lançou-me mão das explicitações contidas no Ecosystems and Human Well-being: a
framework for assessmente, de 2003, assim como dos trabalhos de Andrade & Romeiro:
Serviços de provisão: estes incluem os produtos obtidos dos ecossistemas, entre eles alimentos e fibras,
madeira para combustível e outros materiais que servem de fonte de energia, recursos genéticos, produtos
bioquímicos, medicinais e farmacêuticos, recursos ornamentais e água. Sua sustentabilidade não deve ser
medida apenas em termos de fluxos, isto é, quantidade de produtos obtidos em determinado período.
Deve-se proceder a uma análise que considere a qualidade e o estado do estoque do capital natural que
serve como base para sua geração, atentando para restrições quanto à sustentabilidade ecológica. Os
esforços empreendidos para atender à crescente demanda pelos serviços de provisão ilustram a existência
de trade-offs na geração de serviços ecossistêmicos. Ações no sentido de aumentar a produção de
alimentos, as quais geralmente envolvem o incremento no uso de água e fertilizantes, além de
frequentemente envolverem expansão de área cultivada, impactam ou degradam outros serviços,
incluindo a redução da quantidade e qualidade de água para outros usos, assim como o decréscimo da
cobertura florestal e ameaças à biodiversidade.
Serviços de regulação: estes se relacionam às características regulatórias dos processos ecossistêmicos,
como manutenção da qualidade do ar, regulação climática, controle de erosão, purificação de água,
tratamento de resíduos, regulação de doenças humanas, regulação biológica, polinização e proteção de
desastres (mitigação de danos naturais). Diferentemente dos serviços de provisão, sua avaliação não se dá
pelo seu “nível” de produção, mas sim, pela análise da capacidade de os ecossistemas regularem
determinados serviços.
Serviços culturais: estes incluem a diversidade cultural, na medida em que a própria diversidade dos
ecossistemas influencia a multiplicidade das culturas, valores religiosos e espirituais, geração de
conhecimento (formal e tradicional), valores educacionais e estéticos, etc. Estes serviços estão
intimamente ligados a valores e comportamentos humanos, bem como às instituições e padrões sociais,
características que fazem com que a percepção dos mesmos seja contingente a diferentes grupos de
indivíduos, dificultando sobremaneira a avaliação de sua provisão.
Serviços de suporte: estes necessários para a produção dos outros serviços ecossistêmicos. Eles se
diferenciam das demais categorias na medida em que seus impactos sobre o homem são indiretos e/ou
ocorrem no longo prazo. Como exemplos, pode-se citar a produção primária, produção de oxigênio
atmosférico, formação e retenção de solo, ciclagem de nutrientes, ciclagem da água e provisão de habitat.
Os ciclos de vários nutrientes chaves para o suporte da vida têm sido significativamente alterados pelas
atividades humanas ao longo dos últimos dois séculos, com consequências positivas e negativas para os
outros serviços ecossistêmicos, além de impactos no próprio bem-estar humano. A capacidade dos
ecossistemas terrestres em absorver e reter nutrientes suspensos na atmosfera ou fornecidos através da
aplicação de fertilizantes tem sido comprometida pela transformação e simplificação dos ecossistemas em
paisagens agrícolas de baixa diversidade.
26Essa discussão foi baseada em Daly e Farley (2004, p. 108-124) e Faucheux e Noël (1995, p. 86-87). Em especial, nos
comentários relativos ao mercado de terras na região norte, respeita-se todos os direitos autorais de COSTA (2010,
2012), pois toda a abordagem veio dos seus estudos.
27 Substrato e a superfície, sedimento, base, meio ou ainda qualquer superfície que possa servir de suporte a
organismos vivos.
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nutrientes e minerais. Terra aqui é uma estrutura física e local, qual a terra ricardiana; a quantidade e a
qualidade de solo disponível num determinado pedaço de terra ricardiana será agrupada com os minerais.
A terra, então, não pode ser produzida nem destruída em quantidades significativas pela atividade
humana. Ela também é um recurso de fundo, que fornece o serviço de um substrato capaz de dar suporte a
seres humanos e às nossas infraestruturas e de capturar a energia solar e a chuva. Os serviços da terra são
seguramente dedutíveis e, em determinado momento, também rivais. Por exemplo, se for utilizada para
cultivo, a terra fornece o serviço de um substrato para colheitas. Se um agricultor utilizar esse serviço mais
ninguém o pode fazer durante esse período.
A terra, em razão da sua limitação em quantidade e da apropriação daí resultante, ela surge obviamente
como um recurso natural mercantil e, logo, apreendido pela análise econômica. O seu papel é fundamental,
visto condicionar o crescimento econômico, quer o favoreça pela sua fecundidade, quer o limite devido à
sua escassez, como o evidenciam Malthus e Ricardo.
A terra entre os clássicos, tal como entre os fisiocratas, raramente é utilizada no sentido estrito, no sentido
de solo. O solo é que é raro, e não a terra. Esta surge como uma espécie de símbolo de todos os fluxos
dispensados pela natureza e utilizados pelo sistema produtivo.
Como evidência disto, mostra-se como se orienta o setor de terras na Região Norte do país.
Primeiramente, o setor rural dessa região se assenta sobre uma estrutura fundiária (relações de
apropriação, uso e alienação de um conjunto de ativos suportados pela terra) que suporta o uso de
recursos público por critérios privados e admite a posse ilegítima de terras públicas.
É aí que se fundamenta o mercado de terras na região. Tal mercado se expressa nos preços e na “natureza”
do que movimenta. No período de 2001 a 2007, estudos revelam que em 241 municípios do Acre, Amapá,
Amazonas e Pará, o mercado de terras na região apontam para três grandes categorias de mercadorias:
“terras com mata”; “terras de pastagens” e “terras para lavoura”.
De modo geral, os preços de “terras com mata” são parcelas dos demais, em média 43% dos das “terras de
pastagem” e 23% dos das “terras de lavouras”. O mercado de terras informa, assim, só reconhecer os
preços das “terras com mata” como parcelas na formação dos preços das pastagens e terras agrícolas. Isso
pressupõe uma regulação que transforma florestas originárias (não mercadoria) em “terras com mata”
(mercadoria) a preço sistematicamente controlado de modo a não comprometer, no passo seguinte, a
viabilidade da formação dessas em “terras de pastagem” ou em “terras para lavoura”.
O que se nota é um processo de produção de “terras com mata” a partir de matas originais. Logo, há
necessidade de conter o mercado de terras na região, atingindo-o em dois momentos: no seu processo de
produção, no momento da transformação do ativo específico “floresta primária” em “terras com mata” e
no momento da legitimação do produto final – “terras para pasto” e “terras para lavoura”.
Uma das consequências disso é mudança no uso e ocupação do solo seguida de perda de biodiversidade
em regiões florestais, entre as quais, a floresta amazônica. Segundo Fearnside (2003, p. 45), o uso da terra
e a mudança do uso da terra na Amazônia contribuem para mudanças climáticas globais de diversas
maneiras; no período de 1981-1990, a emissão comprometida líquida globais de gases causadores do
efeito estufa na Amazônia brasileira somaram 6,6% da emissão total antropogênica global, incluindo
combustíveis fósseis e mudanças do uso da terra.
Com relação às mudanças do uso da terra na região, Alencar et. al. (2004, p. 25) e Higuchi et al. (2009, p.
38) relatam que os principais usos do solo amazônico são voltados para agropecuária, produção de
madeira, produção de energia (hidrelétricas, petróleo e gás natural) e exploração mineral; sendo que estes
diferentes usos de solo já provocaram desmatamento total na Amazônia Legal (até 2007) de,
aproximadamente, 70 milhões hectares ou 697.838 km2, que correspondem a 14,1% da cobertura
florestal da região.
O desmatamento médio anual, segundo Higuchi et. al. (2009, p. 39), de 1978 a 2007, foi de 17.821 km2, ou
seja, 1.782600 hectares. A emissão anual de carbono (equivalente) desde 1978 é de 223 milhões de t C
(78%) enquanto que a emissão brasileira via queima de combustível fóssil em seu primeiro inventário
nacional de emissões foi de 64 milhões de t C (22%), explica o autor. Acrescenta ainda Higuchi que a 75
emissão total do Brasil pode ser estimada em 287 milhões t C ou 1 milhão t CO2; esta emissão o coloca em
5º lugar na lista dos maiores emissões do mundo, perdendo apenas para China, EUA, Índia, Rússia e Japão.
Mas, um dos grandes questionamentos que se levanta em relação a essa região é se de fato ela é fonte ou
sumidouro de dióxido de carbono para atmosfera global (NOBRE, 2001, p. 197-224). A questão é que esta
importante indagação ainda permanece em aberto. Isto porque por muitas décadas, imaginou-se que a
Administração Rural – Volume 4
emissão devida aos desmatamentos e queimadas de crescentes áreas da floresta tropical inevitavelmente
significaria que a região deveria ser fonte de CO2 para a atmosfera. Mas já há evidências científicas sobre o
balanço de carbono da floresta não perturbada tem mostrado que estas florestas tropicais podem estar
acumulando carbono por fotossíntese mais do que perdendo por meio de respiração das plantas e
decomposição da matéria orgânica, isto é, poderiam estar retirando (sequestrando) carbono da atmosfera,
explica o autor. Para o ano de 2016, conforme a Tabela 1, o desmatamento na Amazônia pode ser assim
avaliado com base nos dados Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE).
Nota-se que o desmatamento acumulado da região chegou, em 2016, a 18,6%, sendo Rondôndia (61,4%),
Mato Grosso (31,0%) e Pará (27,8%) os Estados que mais desmataram no período avaliado. O
desmatamento no Amazonas é relativamamente pequeno em relação aos Estados da região.
76
Tabela 1: distribuição dos 10 países com maior área de floresta, ano 2015
O estado de equilíbrio dinâmico atual da atmosfera sobre a região amazônica depende do tipo de
cobertura vegetal existente, ou seja, depende da floresta. Grandes altrações da cobertura vegetal poderão
levar a alterações climáticas. No caso de desmatamento, haverá uma elevação da quantidade de água
escoada e uma queda na quantidade de água disponível para evaporação. Havendo menos água disponível
para evapotranspiração, haverá uma queda da umidade relativa do ar, alterando o equilíbrio da energia. O
desmatamento causará também a diminuição de vapor d’água na atmosfera, afetando a distribuição da
precipitação.
A floresta controla, também, o balanço de energia do ecossistema. Do balanço de energia de uma floresta
densa, cerca de 75% é utilizada para evaporar água através da evaporação direta e da transpiração das
plantas. Para a Amazônia como um todo, esse valor é da ordem de 60%. Um desmatamento ou
substituição das florestas por outros tipos de utilização do solo, trará uma mudança neste balanço de
energia. Tudo indica que a fração utilizada no processo de evaporação da água será menor, aumentando a
fração utilizada no aquecimento do ar.
A floresta, pela sua estrutura, intercepta a chuva, promovendo uma evaporação direta com retorno do
vapor d’água para a atmosfera. O valor desse vapor depende da estrutura florestal, sendo, porém, da
ordem de 20-25% das precipitações
As plantas constituintes da floresta funcionam como transportadora de água do solo para a atmosfera. As
florestas evitam o escorrimento superficial, uma vez que os solos são recobertos por espessa camada de
matéria organica e apresentam grande capacidade de infiltração da água.
Dessa forma, a floresta aumenta o tempo de residência da água no ecossitema, permitindo que as plantas
atuem, através da transpiração, como sistemas transportadores de água do solo para a atmosfera.
Uma remoção das florestas, o coeficiente de infiltração de água no solo diminui com o tempo, o que
significa que existe uma diferente distribuição dos componentes do balanço da água em áreas florestadas
e nas áreas com outro tipo de utilização.
A quantidade de água precipitada na Amazônia é maior que a quantidade evaporada, ela importa vapor
d’água, por meio da atmosfera, de outras regiões do globo, o que ressalta a sua relevânvia na dinâmica do
ciclo hidrológico do planeta.
O vapor d’água que sai da região leva consigo uma grande quantidade da energia solar incidente, na forma
de calor latente (mudança de estado sólido, líquido e vice-versa), sendo este um processo de transporte de
água de energia das regiões equatoriais para as regiões de maior latitude, inclusive as regiões polares.
Os ecossistema amazônicos absorvem anualmentecercade 250a500milhões detoneladas
(aproximadamente 8 a 16 toneladas em cada segundo) deCO2 para efeito de fotossítese, valor próximo ao
emitido (550 milhões de toneladas de CO2) pelos 400 milhões de carros do mundo em 1990, e bastante
77
superior às 60 milhões de toneladas de carbono emitidas anualmente pelo Brasil devido à queima de
combustíveis fósseis neste mesmo ano.
Para a biodiversidade: a Amazônia possui cerca de 8% das florestas tropicais mundiais; 15 a 20% dos
recursos hídricos mundiais; 1/3 de toda a biodiversidade do planeta; entre o período de 1995-2000, 97%
dos registros de patentes feitos no Brasil foram de estrangeiros sobre produtos de biodiversidade; a
Administração Rural – Volume 4
floresta amazônica possui em torno de 350 toneladas de biomassa por hectare; a Amazônia possui
conforme dados de 2004 sobre o investário da biodiversidade brasileira; 427 espécies de anfíbios, o
equivalente a 71% do Brasil e a 10% do mundo; 3.000 espécies de peixes (o equivalente a 50% das
América do Sul e Central e a 23% do mundo); 378 espécies de répteis, o equivalente a 81% do Brasil e a
6% do mundo; 4.000 espécies de plantas superiores com sementes, o equivalente a 93% do Brasil e a 17%
do mundo; 427 espécies de mamíferos, o equivalente a 81% do Brasil e a 9% do mundo; 1.294 espécies de
aves, o equivalente a 77% do Brasil e a 13% do mundo.
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80
Administração Rural – Volume 4
Capítulo 6
Instituições financiadoras do Programa Produtor de
Água e os objetivos do desenvolvimento sustentável
Samanta Ongaratto Gil
Greici Joana Parisoto
Ivaneli Schreinert dos Santos
Verônica Schmidt
Laura Possani
Paulo Vinícius de Miranda Pereira
81
Administração Rural – Volume 4
1. INTRODUÇÃO
O Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) é uma ferramenta de valoração do meio ambiente, o qual
funciona como protetor da natureza, ou seja, produtores rurais que se propuserem a adotar práticas e
manejos conservacionistas em suas terras recebem recursos financeiros para preservar o solo e/ou a água
aumentando. Desta forma, a quantidade e qualidade da água (ANA, 2018). O pagamento por serviços
ambientais consiste no reconhecimento do valor dos serviços ambientais, por serem gerados livremente
pela natureza, em forma de recompensa aos que ajudam a conservar estes recursos (WHATELY;
HERCOWITZ, 2008).
A Agência Nacional de Águas (ANA) é uma reguladora deste tipo de instrumento de valoração, ou seja, o
PSA, através do Programa Produtor de Água (PPA). Dedicada a fazer cumprir os objetivos e diretrizes da
Lei das Águas do Brasil, a lei nº 9.433 de 1997, atuando em quatro linhas de ação: regulação,
monitoramento, aplicação da lei e planejamento. O PSA se encontra na aplicação da lei através da
implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos, realizando e dando apoio a programas e
projetos, órgãos gestores estaduais e à instalação de comitês e agências de bacias. Assim, a ANA estimula a
participação de representantes dos governos, usuários e das comunidades, em uma gestão participativa
em parceria com instituições e órgãos do poder público (ANA, 2018).
Concepções como o PSA, idealizadas pelas esferas do Governo em conjunto com a iniciativa privada
proveriam mais benefícios, proporcionando o desenvolvimento econômico dos provedores e constituindo
novas fontes de financiamento para a conservação. (PATTANAYAK, WUNDER, FERRARO 2010). Iniciativas
deste tipo, onde o Governo, a sociedade e a iniciativa privada trabalham em conjunto, podem gerar um
impacto positivo no mundo através do desenvolvimento sustentável.
Em conformidade com estas ações encontram-se os 17 objetivos do desenvolvimento sustentável (ODS) da
Agenda 2030, como parte de uma abordagem globalmente integrada para resgatar a
multidimensionalidade do desenvolvimento sustentável (ONU, 2018). Nesta Agenda de Setembro de 2015
incluí uma lista de áreas indicativas, abrangendo temas como: erradicação da pobreza, segurança
alimentar, água e saneamento, energia, cidades sustentáveis, maior capacidade dos sistemas naturais para
apoiar o bem-estar humano, padrões sustentáveis de consumo e produção e emprego e segurança (ONU,
2018).
Desta forma, o objetivo do presente estudo foi analisar as instituições participantes nos projetos do
Programa Produtores de Água da ANA e comprometimento de cada instituição com os 17 Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável (ODS).
O presente trabalho é dividido em quatro etapas, em uma primeira parte está à fundamentação teórica,
logo após são detalhados os procedimentos metodológicos utilizados, em seguida estão expostos os
resultados e as discussões, finalizando com os principais pontos encontrados sobre o tema e sugestão de
trabalhos futuros.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
A ANA foi criada pela lei nº 9.984 de 2000 (BRASIL, 2000), sendo a agência reguladora vinculada ao
Ministério do Meio Ambiente (MMA) dedicada a fazer cumprir os objetivos e diretrizes da Lei das Águas
do Brasil, lei nº 9.433 de 1997 (BRASIL, 1997). É a entidade responsável pela implementação da Política
Nacional dos Recursos Hídricos e pelo gerenciamento do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos
Hídricos (SINGREH).
Conforme o inciso II, do artigo 1°, da Lei das Águas (BRASIL, 1997, p.1), “a água é um recurso natural
limitado, dotado de valor econômico”, deste modo cabe à ANA a tarefa de atuar na elaboração e efetuação
de planos de recursos hídricos em bacias hidrográficas de domínio federal e oferecer apoio técnico para
elaboração desses planos em outras esferas. Também é de sua responsabilidade enquadrar os corpos
hídricos em classes, estabelecendo o nível de qualidade a ser alcançado ou mantido em determinado
trecho de corpo d’água ao longo do tempo. Essa classificação objetiva assegurar a qualidade da água com
seu respectivo uso e diminuir os custos direcionados ao combate à poluição. A divisão de atribuições entre 82
União e Estados na gestão hídrica foi definida na pela Lei de Águas.
Administração Rural – Volume 4
A ANA desenvolveu, em 2008, o Programa Produtor de Água (PPA) e, de acordo com seu o manual
operativo (ANA, 2012), o programa é um instrumento pelo qual a União apoia a melhoria, a recuperação e
a proteção de recursos hídricos em bacias hidrográficas estratégicas no meio rural, tendo como objetivos a
redução da erosão e do assoreamento de mananciais, de forma a proporcionar o aumento da qualidade e a
tornar mais regular a oferta da água. As ações implementadas na esfera do programa incluem o
reflorestamento, adequação de estradas rurais e a conservação de solo e água em áreas produtivas.
O Programa também é uma ferramenta de articulação entre a Agência, os usuários e o setor rural, usando
o conceito de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), que estimula os produtores a recuperar suas
nascentes e recursos hídricos, através de apoio técnico e financeiro (ANA, 2018).
Segundo Jardim (2010), PSA é uma ferramenta para a valoração dos ecossistemas naturais e um
instrumento econômico que pode auxiliar na gestão ambiental. Ele atua de forma a evitar o desmatamento
e a consequente perda dos serviços ambientais, mas também tem o papel de restaurar serviços ambientais
onde eles já foram perdidos (PAGIOLA; ARCENAS; PLATAIS, 2005).
A ideia se baseia no princípio protetor-recebedor e na possibilidade de recompensar quem busca
preservar a natureza e o meio ambiente, através de ações de preservação. Este princípio parte da premissa
de que o indivíduo (um produtor rural) que, voluntariamente, decide participar de uma PSA assume a
responsabilidade de participação do Programa para um bem de todos, isto indiretamente tem uma perda
financeira, perda de áreas de produção e, consequentemente, cria uma desvantagem na competitividade
econômica. Moraes (2012) explica:
A ideia básica do Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) é a de que os
beneficiários externos dos Serviços Ambientais (SA) devem realizar
pagamentos diretos aos provedores desses serviços, proprietários do recurso
ambiental, geralmente rural, mediante contratos e condições que garantam que
estes adotarão as práticas de conservação e/ou restauração dos ecossistemas
(MORAES, 2012, p.44).
Em relação à degradação de bacias hidrográficas, o PSA torna-se um instrumento promissor para resolver
problemas relacionados, principalmente, à poluição não-pontual advinda da agricultura (ANTONIAZZI;
SHIROTA, 2007). Moraes (2012) ressalta que programas como este têm surgido como alternativas para o
desenvolvimento sustentável, sempre conciliando a preservação ambiental com a melhoria das condições
socioeconômicas dos proprietários rurais. Salienta-se que o ingresso dos produtores no projeto é
totalmente voluntário e que a adequação ambiental de suas propriedades é uma consequência positiva do
projeto e não uma imposição legal (ANA, 2018).
Assim sendo, o PSA atuaria de forma a internalizar as externalidades ambientais por meio de incentivos
financeiros destinados aos participantes deste tipo de projeto (MAYRAND; PAQUIN, 2004). Externalidades
são efeitos não intencionais, que surgem da produção ou consumo de bens e serviços e que, por não serem
devidamente capturadas pelo mercado ou por não serem tão bem quantificados como são os bens de
mercados (COSTANZA et al., 1997).
Quanto aos de recursos financeiros, técnicos, de desenvolvimentos, de execução e etc., o Manual do PPA
(ANA, 2012) lista diversos potenciais recursos, entre eles: Orçamento Geral da União, Estados e
Municípios; Bancos; Organizações Não Governamentais; Fundações; Empresas de geração de energia
elétrica; Comitês de bacias (recursos da cobrança pelo uso da água); Empresas públicas e privadas.
O desenvolvimento destes projetos ocorre, em grande parte, pela articulação entre políticas públicas e as
estratégias privadas atuando como os impulsionadores e coordenadores, assim como financiadores ou
captadores de recursos para os projetos e programas (ANA, 2018). Conforme descreve o site do Ministério
do Meio do Ambiente (2018), mudanças são necessárias na relação entre os administradores públicos e os
usuários do Programa para que ocorra uma gestão descentralizada e compartilhada entre as instituições,
uma vez que estas definem os incentivos financeiros, os quais são fundamentais para o desenvolvimento
econômico, social e ambiental.
Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) nasceram na Conferência das Nações Unidas, em
83
setembro de 2015, e visam suprir os desafios ambientais, políticos e econômicos que o mundo enfrenta. Os
ODS estão em vigor até 2030 (Agenda 2030) e substituem os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio
que cobriram o período 2000-2015.
Administração Rural – Volume 4
Os ODS são compostos por 169 metas e 241 indicadores (ONU, 2018). São objetivos a serem cumpridos
pelos governos, a sociedade civil, o setor privado e todos os cidadãos na jornada coletiva para um 2030
sustentável. Estes objetivos são descritos como uma forma eficaz de direcionar os esforços das nações
para diminuir as diferenças sociais no mundo e, ao mesmo tempo, buscar formas de contribuir para a
sustentabilidade ambiental. (ONU, 2018).
No entanto, a implementação da Agenda 2030 é complicada pelo fato de que metas e objetivos interagem e
impactam uns aos outros de diferentes maneiras; por diferentes realidades dos países, governos e
orçamentos. Além do que, a maioria dos governos não está efetivamente organizada para lidar com
questões como os ODS, então a participação do segmento privado tem sido fundamental para o avanço dos
17 ODS, seja através do desenvolvendo ferramentas, financiamento ou de liderança.
3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa exploratória e descritiva (VERGARA, 2013),
utilizando-se uma análise documental a fim de analisar as instituições participantes nos projetos do
Programa Produtores de Água da Agência Nacional das Águas, as quais fazem uso da ferramenta de
Pagamento por serviços ambientais (PSA), estritamente relacionados a recursos hídricos.
A base de dados utilizada para a composição da amostra se encontra no site da Agência Nacional de Água
(ANA) na sessão Programas e Projetos, no Programa Produtor de Águas, onde estão discriminados os 27
projetos ativos em solo Brasileiro. Os dados foram coletados nos meses de novembro e dezembro de 2018.
E a partir deles foram identificadas as instituições ligadas a cada projeto e categorizadas em organizações
públicas (Federal, Estadual e Municipal), privadas ou Organização Não Governamental (ONGS).
Foi possível localizar quais as agências financiadoras ou parceiras que colaboram ou que patrocinam os 27
programas. Posteriormente, através das informações contidas em seus respectivos sites analisou-se o
comprometimento de cada instituição relacionando-os com os 17 Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável (ODS).
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Constatou-se que haviam 27 projetos ativos de PSA-RH, em 2018 e, destes, apenas dois não
disponibilizaram dados atualizados, sendo estes nos municípios de Rio Verde/GO e Uberaba/SP. As
instituições financiadoras e/ou parceiras destes projetos foram categorizadas em organizações públicas
(Federal, Estadual e Municipal), privadas ou organização não governamental (ONGs), somando 70
participações nos projetos. Verificou-se que as organizações públicas foram as mais ativas representando
68,6% das participações nos projetos, das quais as instituições federais apareceram em maior número
(Tabela 1).
De acordo com Scardua e Bursztyn (2003) e Abers e Jorge (2005), a União é responsável por implementar
a Política Nacional e o Plano Nacional de Recursos Hídricos, além de fiscalizar e regular a gestão hídrica no
País, ficando ao Estado a regulação simultânea do bem natural água e, ao Município, os serviços de
saneamento básico. A participação do poder público é imprescindível, uma vez que o Estado tem de atuar
como proponente, organizador, colaborador e até participante no financiamento dos projetos (FOLETO e
LEITE 2011).
A rede privada, representada por universidades, empresas nacionais e internacionais, institutos,
fundações, sindicatos, entre outros que possuem algum vínculo físico ou financeiro com a região, estão
entre as instituições privadas de financiamento de 21,4% das ações. Tal fato pode estar ligado a incentivos
fiscais, projetos sociais e interesses no desenvolvimento da região contribuindo, consequentemente, com o
crescimento da empresa.
Independente do motivo, o papel da rede privada mostra-se essencial para o sucesso e continuação de
projetos deste tipo. Universidades particulares, como Universidade de Santa Cruz (UNISC) e Centro
Universitário UNA, colaboram com estudos e pesquisas, do mesmo modo que institutos de pesquisas. 84
Empresas como AMBEV - Companhia de Bebidas das Américas e Phillip Morris Internacional, dentre
outras, investem financeiramente nestes projetos por diversos motivos.
Administração Rural – Volume 4
Alguns estão relacionados com as políticas de gestão ambiental destas Empresas, como por exemplo,
reduzir o impacto ambiental local e não apenas em seus processos produtivos.
Dos 25 projetos analisados, apenas sete unidades não possuem parceria com a iniciativa privada, sendo o
Projeto Bocaina, da cidade de Passos, em Minas Gerais, o que apresentou o maior número de parceiros
privados, assim como o de parceiros no total.
Outro elemento analisado é a quantidade total de financiadores em Minas Gerais, este estado além de
apresentar a maior número de projetos, também tem três projetos com mais unidades financiadoras
(Tabela 1), muitas destas investindo em mais de um programa.
Tabela 1. Quantidade de agências financiadoras, por categoria, em cada projeto do PPA, em 2018.
Número de Instituições
Nome do Projeto Cidade UF Total
Mun. Est. Fed. ONG Privada
Produtor de Água no Pipiripau Brasília DF 0 6 7 3 0 16
João Leite Goiânia GO 0 4 0 0 1 5
Produtores de Água* Rio Verde GO - - - - - -
Recuperação do Rio Capivari Bom Despacho MG 0 4 0 0 4 8
Ambrósio Capitólio MG 0 3 0 0 1 4
Conservação de Água e Solo Carmo do Cajuru MG 5 2 7 3 0 17
Petrobrás Doresópolis MG 2 7 0 1 4 14
Conservador das Águas Extrema MG 1 3 0 2 0 6
Santuário das Águas Formiga MG 3 4 0 0 7 14
Guardião dos Igarapés Igarapé MG 1 3 1 1 0 6
Conservador das Águas Nova Serrana MG 0 1 0 0 3 4
Bocaína – Produtor de Água Passos MG 4 7 1 1 8 21
Oásis – Nascente Pimenta Pimenta MG 2 6 0 1 4 13
Araras Piumhi MG 3 7 1 0 5 16
Água na bacia do rio Mutum* Uberaba MG - - - - - -
Manancial Vivo Campo Grande MS 1 1 2 1 1 6
Conservador das Águas Brasil Novo PA 1 2 2 0 2 7
Rio Sesmaria Resende RJ 1 2 1 1 1 6
Protetor das Águas Vera Cruz RS 1 2 0 0 4 7
Protetor das Águas no rio Balneário
SC 3 0 0 1 0 4
Camburiú Camburiú
Canindé de São
Produtor de Água SE 1 3 6 0 0 10
Francisco
Conservador das Águas na
Bauru SP 1 1 0 0 1 3
bacia do rio Batalha
Bacias Jaguariúna Jaguariúna SP 0 1 1 1 2 5
Joanóplois e
Produtor de Águas do PCJ SP 3 2 4 2 1 12
Nazaré Paulista
Produtor de Águas Ribeirão
Penápolis SP 1 2 0 0 1 4
Lajeado
Produtor de Águas Salesópolis Salesópolis SP 1 0 0 1 0 2
São José dos
Mais Água SP 1 0 1 0 2 4
Campos
Total 15 16 17 7 15 70
N (%) 21,4 22,9 24,3 10,0 21,4
*sem dados informados
Fonte: ANA, 2018
Na Tabela 2 estão relacionadas às dez agências financiadoras mais presentes dentre os 25 programas
ativos que possuem dados atualizados.
85
Administração Rural – Volume 4
Tabela 2. Número de projetos financiados pelas 10 instituições mais presentes nos PSA-RH Brasil, em
2018.
Instituição Número de projetos
IEF - Instituto Estadual de Florestas 9
TNC - The Nature Conservancy 9
EMATER/MG - Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural 9
PMMG - Polícia Militar de Meio Ambiente /MG 6
ANA - Agência Nacional de Águas 6
FAEMG - Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais 4
ARPA - Associação Regional de Proteção Ambiental 4
IGAM - Instituto Mineiro de Gestão das Águas 4
MPMG - Ministério Público Estadual 3
WWF Brasil 3
Fonte: ANA, 2018.
O IEF financia nove Programas Produtor de Água, sendo todos do estado de Minas Gerais. De acordo com
site, o instituto concentra sua atuação nas atividades ligadas ao desenvolvimento e à conservação florestal,
ao estímulo às pesquisas científicas relacionadas à conservação da biodiversidade e à gestão de áreas
protegidas e das unidades de conservação estadual (IEG-MG, 2018). Mesmo não citando em seu site sobre
as ODS, o IEF trabalha em acordo com as ODS, tendo como missão assegurar o desenvolvimento
sustentável. Através da execução das políticas florestal e de proteção da biodiversidade, o IEF estabelece
uma relação com o Objetivo 15 que trata de proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos
ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter
à degradação da terra e deter a perda (ONUBR, 2015).
Entre as instituições financiadoras de projetos, a EMATER/MG (nove), o PPMG (seis), a FAEMG (quatro),
IGAM (quatro04), ARPA (quatro04) MPMG (três) estão vinculadas ao programa do Estado de Minas
Gerais. Isto corrobora com o fato do primeiro caso de PSA-RH no Brasil é da cidade de Extrema, em Minas
Gerais, com o nome de Conservador das Águas. O município de Extrema possui uma área rural com grande
quantidade de nascentes e pequenos cursos d’água. Essas águas possuem grande importância para a
segurança hídrica de toda a região metropolitana de São Paulo, uma vez que alimenta o Sistema
Cantareira, maior manancial de abastecimento da capital paulista (DOMINGUES, 2009). O Projeto foi
concebido em 2005, através da Lei Municipal nº 2.100, com o objetivo de manter a qualidade dos
mananciais de Extrema e promover a adequação das propriedades rurais, assim impulsionado outros
projetos na região e no Brasil (ANA, 2018).
Os 06 parceiros do Programa Produtor de Água acima descrito, encontram em suas missões ou projetos de
atuação promover o desenvolvimento sustentável, conservação da natureza e biodiversidade, produção de
alimentos sustentável, no aquecimento global, incentivo a proteção das águas e um crescimento
econômico inclusivo, portanto estas instituições estão trabalhando direta ou indiretamente com as 17
ODS.
TNC - The Nature Conservancy (nove projetos) e a WWF Brasil (03 projetos) são organizações
internacionais, sem fins lucrativos presente no mundo todo, consideradas líderes na conservação da
biodiversidade e do meio ambiente, conservando plantas, animais e comunidades naturais, trabalhando
para mudar a atual trajetória de degradação ambiental e promover um futuro onde sociedade e natureza
vivam em harmonia (TNC, 2018; WWF, 2018). Nesta perspectiva, dentre todas as parceiras do Programa
da ANA, estas são instituições que buscam mais ativamente alcançar os 17 ODS.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo se propôs a identificar e analisar as principais instituições financiadoras e parceiras dos 27
projetos do Programa Produtor de Água, criado pela Agência Nacional de Águas (ANA), no Brasil e sua
relação com as 17 ODS.
86
Conforme o resultado apresentado, mesmo sendo um plano relativamente novo, no qual o primeiro
projeto implementado foi em 2005, é possível constatar que há uma participação grande e crescente das
instituições. Salienta-se que as particularidades de cada projeto influenciam nas instituições parceiras.
Os Governos Estaduais são responsáveis pela gestão das águas sob seu domínio e elaboração de legislação
específica para a área, por este motivo são as instituições mais presentes. Também é dos Estados o dever
Administração Rural – Volume 4
de organizar o Conselho Estadual de Recursos Hídricos e garantir o funcionamento dos Comitês de bacia
em sua região. Como não possuem atribuições específicas na gestão hídrica, os municípios são
responsáveis por integrar as políticas locais de meio ambiente, saneamento básico e de uso e ocupação do
solo com as políticas federais e estaduais de recursos hídricos, enquanto o Governo Federal tem o papel de
regular e de fiscalizar. Estas articulações criaram uma gestão descentralizada e compartilhada, um dos
princípios do Programa Produtor de Água. O que se observa é que geralmente os governos participam
diretamente dos projetos de PSA (nos serviços hídricos especificamente), dado que se trata de serviços
ambientais com caráter de bem público.
De tal forma, todos os projetos visaram melhorar os recursos hídricos e foram desenvolvidos por grupos
de instituições públicas e privadas com atuação na própria região ou em outras localizações, organizadas
de forma que todas puderam contribuir. Destaca-se o papel das duas ONGS internacionais, a TNC e a WWF,
ambas ativas na qualidade de seus programas e na sua diversificação. Suas missões e atividades conjugam
com os 17 ODS.
Este estudo apresenta algumas limitações, pois as análises são efetuadas a partir dos dados da ANA e dos
respectivos sites. Deste modo, foram desconsiderados dois projetos que não continham informações
atualizadas. Sugere-se, para pesquisas futuras, ampliar esta busca utilizando outras formas de publicação
e outras bases de busca. Este trabalho não teve como objetivo analisar a porcentagem, valor ou motivo
porque essas instituições estão presentes nestes projetos, podendo ser uma sequência deste estudo.
REFERÊNCIAS
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hidrográficas. In: Congresso da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural, 45, 2007,
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17 de Julho de 2000. Disponível em: <[Link] Acesso em: 04 nov.
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Nature, v. 387, nº6630, p. 253-260, 1997.
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[11] Foleto, Eliane Maria; Leite, Michele Benetti. Perspectivas do pagamento por serviços ambientais e exemplos
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Desenvolvimento Sustentável dos territórios rurais: O Projeto Protetor Das Águas de Vera Cruz, RS. Sustentabilidade
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mananciais de São Paulo. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2008. 119 p.
88
Administração Rural – Volume 4
Capítulo 7
Competitividade das Exportações Brasileiras e
Vietnamitas de Café
Leonardo Sangoi Copetti
Daniel Arruda Coronel
Resumo: O objetivo deste estudo foi o de analisar a competitividade das exportações brasileiras no
mercado mundial do café, entre 2000 a 2016, em comparação ao segundo produtor e exportador mundial,
o Vietnã. Os dados foram coletados no site do UN COMTRADE (United Nations Comtrade), da FAO (Food
and Agriculture Organization of the United Nations) e da WTO (World Trade Organization). A metodologia
empregada baseou-se no Índice de Vantagem Comparativa Revelada Simétrica (VCRS), na Razão de
Concentração (CR), e no Índice de Orientação Regional (IOR). Os resultados revelaram que tanto o Brasil
quanto o Vietnã apresentaram vantagens comparativas para o café. Em relação à CR, o Brasil apresentou
concentração e o Vietnã desconcentração das exportações. O IOR indicou orientação das exportações de
café do Brasil à Alemanha, à Itália, e aos Estados Unidos. Já o IOR do Vietnã apresentou orientação das
exportações de café somente à Alemanha e à Itália.
89
Administração Rural – Volume 4
1 INTRODUÇÃO
O comércio mundial cresceu 181% em exportações ligadas ao agronegócio, entre os anos de 2000 a 2016,
passando de US$ 558 bilhões a US$ 1,57 trilhões, respectivamente, segundo a World Trade Organization
(WTO, 2017). Além disso, a participação do setor sobre o total exportado mundial teve aumento de 1
ponto percentual, sendo que, em 2000, era de 9% e, em 2016, passou a 10%. Segundo Vieira Filho &
Fishow (2017), esse período, a partir da década de 2000, foi caracterizado como o “boom das
commodities”, sendo impulsionado pelo acelerado volume de exportações agropecuárias mundiais e
influenciadas pela alta demanda dos produtos de origem primária nos países emergentes, com a
modernização tecnológica e a concorrência entre os países exportadores no mundo (VIEIRA FILHO;
FISHLOW, 2017).
Neste contexto, segundo a World Trade Organization (WTO, 2018), o Brasil teve um incremento de quase
400% no faturamento das exportações ligadas ao agronegócio que, nos anos 2000, eram de US$ 15,5
bilhões e passaram para US$ 6 bilhões em 2016. Já a participação do setor sobre o total exportado pelo
país teve aumento de 13,48 pontos percentuais, sendo que, em 2000, era de 28,06% e, em 2016, de
41,54%. Além disso, conforme dados da Food and Agriculture Organization of the United Nations – (FAO,
2018), o Brasil representa o maior exportador mundial de café, uma vez que, em 2016, o valor exportado
foi de US$ 4,84 bilhões, o que representou 2,61% das exportações deste país, e 25% das exportações
mundiais. Em comparação com ano 2000, o crescimento das exportações brasileiras de café foi de 210%,
e, neste ano, eram de US$ 1,56 bilhões.
Já no Vietnã, a participação do agronegócio no total exportado reduziu cerca de 12%, de 2000 a 2016, mas
houve incremento no faturamento das exportações ligadas ao setor de 563%, sendo que, em 2000, era de
US$ 3,95 bilhões, saltando para US$ 26,20 bilhões em 2016 (WTO, 2018). O crescimento nas exportações
de café neste período foi de 492%, passando de US$ 501,44 milhões nos anos 2000 para US$ 2,97 bilhões
em 2016, representando 1,68% das exportações do país e 15% das exportações mundiais (UN
COMTRADE, 2018).
Neste cenário, o presente estudo tem o seguinte problema de pesquisa: “Brasil e Vietnã são competitivos
no mercado mundial do café entre 2000 a 2016?” Para responder ao questionamento, o objetivo do
trabalho foi o de analisar a competitividade das exportações brasileiras e vietnamitas no mercado mundial
do café, entre 2000 a 2016, uma vez que o Brasil é o maior produtor e exportador, e o Vietnã é o segundo
maior produtor e exportador de café mundial.
A metodologia empregada na pesquisa baseou-se no Índice de Vantagem Comparativa Revelada Simétrica
(VCRS), na Razão de Concentração (CR), e no Índice de Orientação Regional (IOR). O ineditismo desta
pesquisa está relacionado à análise do mercado do café internacional, traçando um comparativo entre
Brasil e Vietnã que, juntos, destinaram ao mercado externo mais de US$ 7,81 bilhões em 2016 de café
verde, representando 40% do faturamento total mundial na exportação desta commodity (UN
COMTRADE, 2018). Além disso, as exportações do café verde representam uma parcela do comércio
mundial de café, correspondente a 52%, que também é composto por produtos, tais como os extratos de
café e o café torrado, que, em conjunto com o café verde, totalizou mais de US$ 37,15 bilhões em
exportação em 2016 (FAO, 2018). Desta forma, esta pesquisa pode servir de subsídio para ações visando
fomentar a competitividade do setor, tais como esforço de liberalização multilateral que exclua a redução
de barreiras comerciais no agronegócio entre os países, participação de acordos preferenciais de comércio
e políticas setoriais de apoio à agricultura (GURGEL, 2014).
Com o intuito de atingir o objetivo do trabalho de avaliar a competitividade das exportações brasileiras no
mercado mundial do café, entre 2000 a 2016, em comparação com o Vietnã, este estudo está organizado
em mais quatro seções, além desta introdução. Na segunda seção, apresentam-se o conceito de
competitividade e os estudos empíricos realizados sobre a exportação e a competitividade do café
brasileiro, o panorama do comércio internacional do café, destacando o Brasil e o Vietnã. A terceira seção
compreende os procedimentos metodológicos. Na quarta seção, os resultados são discutidos e analisados.
Por fim, na quinta seção, são expostas as conclusões do estudo.
90
2 COMPETITIVIDADE NO MERCADO MUNDIAL DO CAFÉ
2.1 COMPETITIVIDADE
A competitividade, segundo Ricardo (1996), economista inglês do século XIX, relaciona-se às Vantagens
Comparativas que um país possui em relação a outro, pela qual a abundância de recursos naturais
Administração Rural – Volume 4
favoreceria o competidor que os tivesse. Também se refere a outros fatores como a escala de produção, a
existência de capital físico (equipamentos, infraestrutura, vias, portos, etc) e humano (investimentos
destinados à formação educacional e profissional de uma determinada população), e abertura econômica.
Ricardo (1996) explica a teoria utilizando como referência Inglaterra e Portugal e os produtos tecidos e
vinhos. Se Portugal ou Inglaterra não tivessem nenhuma ligação comercial entre si e produzissem os dois
produtos, seriam obrigados a aplicar todos os seus recursos na produção destes e, com isso, os resultados
seriam provavelmente inferiores em quantidade e qualidade. Já o comércio faria com que os países se
beneficiassem com a especialização e produção do produto em que possuem maior vantagem e com a
importação do outro.
No exemplo citado por Ricardo (1996), a Inglaterra produziria tecidos e vinhos utilizando,
respectivamente, 100 e 120 homens por ano e Portugal 90 e 80. Da situação analisada no todo se deduziria
que a produção deveria ocorrer exclusivamente em Portugal, já que o custo na produção de ambos os
produtos é menor, contudo, examinando o cenário à luz das vantagens comparativas, percebe-se que, se a
Inglaterra se especializasse em tecidos e Portugal em vinhos, ambos obteriam maiores ganhos na
produção e na troca comercial. Neste caso, o preço relativo de cada produto seria de 0,83 (100/120) para
o tecido na Inglaterra; 1,20 (120/100) para o vinho na Inglaterra; 1,125 (90/80) para o tecido em
Portugal; e 0,88 (80/90) para o vinho em Portugal. Ou seja, o aperfeiçoamento na produção do produto em
que cada país possui maior vantagem comparativa e a troca pelo outro proporcionaria maiores ganhos
para ambos.
Por outro lado, segundo Porter (1988), a competitividade também estaria relacionada à produtividade que
determinado país possui no processo de fabricação de um produto, que, para Ricardo, era explicada pelos
custos de produção e pela vantagem comparativa. Tendo em vista este posicionamento, é possível elucidar
o porquê de certos países como a Alemanha, a Suíça e a Suécia, onde os salários são altos e a mão de obra
não é tão abundante, prosperam e são altamente competitivos.
Ainda, para Porter (1988), a vantagem competitiva de uma nação relaciona-se a quatro determinantes, a
saber:
1. Condições de fatores: a posição do país nos fatores de produção, como trabalho especializado,
infraestrutura, necessários à competição em determinada indústria;
2. Condições de demanda: como a demanda interna de um país se manifesta voltada aos produtos ou
serviços da indústria, este determinante é relevante na medida em que promove a melhoria e inovação
pelas empresas do país e reflete o grau de exigência que o mercado tem pela qualidade dos produtos;
3. Indústrias correlatas e de apoio: referem-se às indústrias produtoras do maquinário necessário à
produção de determinado produto; e
4. Estratégia, estrutura e rivalidade das empresas: as condições e políticas da nação onde se está
produzindo determinado produto. O autor cita do caso de Londres, na Inglaterra, que tem seu
desenvolvimento devido à sua demanda avançada de muitos bens e serviços, à concentração industrial e à
presença maciça de mão de obra altamente especializada.
Para Best (1990), uma organização de negócios é competitiva quando integra o pensar e o fazer através da
procura continuada de melhoria. Como forma de elucidar seu pensamento, o autor cita o exemplo de duas
regiões produtoras de armas leves para infantaria, uma em Birmingham, na Inglaterra, e outra nos Estados
Unidos, em Conecticut, chamada de Springfield Armory. Nos Estados Unidos, a produção era bem
desenvolvida, com sistemas automatizados em torno e forja. Já na Inglaterra, o processo produtivo se dava
de forma manual e artesanal. Como resultado, a indústria americana desenvolveu-se e tornou-se
produtiva, e a inglesa tornou-se decadente e entrou em recessão.
Ainda nesta perspectiva, Best (1990) conclui que a mudança nos sistemas de produção relaciona-se às
grandes mudanças tecnológicas ocorridas nos Estados Unidos, que possibilitaram a introdução de novas
tecnologias de produção e, consequentemente, promoveram seu desenvolvimento e prosperidade.
Além disso, a definição do conceito de competitividade relaciona-se diretamente à escolha dos indicadores
91
de desempenho a serem utilizados. Como exemplo, cita-se a evolução da participação de mercado, que
pode sintetizar muito fatores competitivos de um concorrente (KENNEDY et al., 1998).
Fatores como custos, produtividade, inovação em produto e processo também são frequentemente
utilizados como forma de comparar e medir a competitividade. Esses fatores, se somados, apresentam-se
como determinantes da preservação e melhoria das participações de mercado (KENNEDY et al., 1998).
Administração Rural – Volume 4
Colômbia e Peru, no período de 1994 a 2013. A aplicação do modelo CMS permitiu analisar a
decomposição e a contribuição das fontes de crescimento das exportações do café em três períodos
considerados: período I (1994–1998 no comparativo com 1999-2003), período II (1999-2003 no
comparativo com 2004-2008), e período III (2004-2008 no comparativo com 2009-2013). O modelo CMS
permitiu identificar três efeitos: a) crescimento das exportações no mundo; b) composição da pauta de
exportações do país; e c) resíduo inexplicável ou “efeito competitividade”. Como resultados, as
exportações brasileiras de café foram competitivas durante todo o período de análise, com IVCR superior à
unidade, variando entre 7,20 e 20,84. Além disso, o Brasil foi o mais competitivo em 1999, 2001, e de 2004
a 2011, apresentando IVCRs superiores aos concorrentes. Em relação ao CMS, o Brasil ampliou seu
market-share nos períodos I, II, e II, respectivamente, de 18,73% para 21,74%, de 21,74% para 25,13%, de
25,13% para 28,61%, sendo que o efeito crescimento do mercado mundial foi determinante para explicar
o incremento nas exportações de café do Brasil, dado que o valor percentual nos três períodos foi muito
significativo. O efeito competitividade apresentou-se positivo nos períodos II e III, explicando parte do
crescimento nas exportações brasileiras do café verde.
Na Figura 1, faz-se uma síntese dos estudos acerca da competitividade do café.
Nesta subseção, foram reunidos estudos realizados sobre o café brasileiro a fim de analisar as exportações
e a competitividade do país na comercialização do produto, com base, principalmente, no IVCR e VCRS. Os
estudos supracitados revelaram que o Brasil apresentou competitividade nas exportações de café de 1990
a 2014. Na subseção seguinte, apresenta-se o panorama do comércio internacional do café, com destaque
para o Brasil e o Vietnã.
Com base na Tabela 1, percebe-se que o incremento na produção de café no mundo, nos anos de 2000 a
2016, foi de 22,93%, passando de 7,50 para 9,22 milhões toneladas. O Brasil e o Vietnã tiveram um
aumento de 58,95% e 85,50% respectivamente. No quesito participação de mercado, esses países também
apresentaram crescimento, o Brasil em 7,37% e o Vietnã em 5,14%. Outros países que também elevaram
sua participação de mercado foram Etiópia (2,02%), Honduras (1,35%), Peru (0,46%) e Uganda (0,29%).
Por outro lado, o país que mais reduziu sua participação de mercado foi a Guatemala, em 1,60%,
correspondendo a um declínio na produção de 22,58%, que passou de 0,31 milhões de toneladas em 2000
a 0,24 milhões de toneladas em 2016, fato ligado à epidemia de ferrugem nas plantações em 2012, quando
20% das plantações foram perdidas em função da doença, e também pela falta de competitividade do país,
que apresenta altos custos de produção (USDA, 2018).
A seguir, na Tabela 2, é avaliada a participação dos principais exportadores mundiais de café com base nos
mesmos períodos.
Tabela 2 - Participação dos maiores exportadores mundiais de café verde em 2000 e em 2016
2000 2016
Variação da
Exportação Participação Exportação Participação
País participação
(milhões de (%) (milhões de (%)
(em p.p.)
toneladas) toneladas)
Brasil 0,97 17,59 1,82 25,46 7,88
Vietnã 0,73 13,35 1,40 19,54 6,20
Colômbia 0,51 9,25 0,73 10,26 1,01
Indonésia 0,34 6,14 0,41 5,76 -0,38
Alemanha 0,17 3,04 0,34 4,69 1,65
Honduras 0,17 3,04 0,31 4,33 1,29
Índia 0,16 2,94 0,25 3,50 0,56
Peru 0,14 2,60 0,24 3,34 0,74
Bélgica 0,07 1,35 0,19 2,64 1,28
Guatemala 0,29 5,30 0,18 2,51 -2,79
Resto do Mundo 1,95 35,41 1,29 17,98 -17,43
Total 5,50 100,00 7,16 100,00 -
Nota: Ranking relacionado ao ano de 2016
94
Fonte: Elaborado pelos autores a partir de FAO (2018)
O comércio mundial de café é dominado em grande parte pelo Brasil, que, no ano de 2016, teve uma
participação de 25,46% no total exportado, seguido por Vietnã, Colômbia, Indonésia, Alemanha, e
Honduras, com, respectivamente, 19,54%, 10,26%, 5,76%, 4,69% e 4,33%. Neste cenário, novamente a
Administração Rural – Volume 4
Guatemala foi o país que mais reduziu sua participação de mercado em 2,79%, correspondendo a um
declínio na exportação de 37,93%, que passou de 0,29 milhões de toneladas em 2000 a 0,18 milhões de
toneladas em 2016, sendo a quebra de safra de 2012, os altos custos de produção, e os baixos preços
internacionais do café os responsáveis pela queda no comércio exterior do país (USDA, 2018).
Em relação à disponibilidade de café brasileiro, na safra 2016/2017, foi de 3,51 milhões de toneladas, e,
destes, 56,52% foram destinados à exportação, 36,94%, ao consumo interno e 6,54% foram os estoques
finais (USDA, 2018). Percebe-se a alta participação da exportação que está relacionada à orientação da
indústria cafeeira ao mercado externo.
Além disso, a produção brasileira de café é distribuída pelas regiões do país, tomando como base a safra de
2016, da seguinte forma: 5% Norte, 8% Nordeste, 1% Centro-Oeste, 84% Sudeste e 2% Sul de acordo com
a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB, 2016). Com base neste levantamento, percebe-se a alta
concentração do café produzido pelo país na região Sudeste.
A Figura 2 ilustra a produção e a produtividade do café no Brasil, entre os anos de 2000 a 2016.
Figura 2 - Evolução da produção e da produtividade do café verde no Brasil entre 2000 e 2016
A partir da análise da Figura 2, é possível observar que, apesar da oscilação da série, o crescimento da
produtividade do café brasileiro é constante desde o início do período analisado. De acordo com a Conab
(2017), o incremento produtivo do café brasileiro está ligado à aplicação de novas tecnologias nessa
cultura, com o uso de novas variedades, adubação adequada, irrigação, entre outros. Acrescente-se ainda
que a média da produtividade brasileira no período foi de 1,16 ton/ha, bem acima da média mundial de
0,77 ton/ha (FAO, 2018), demonstrando o bom desenvolvimento tecnológico nesta etapa produtiva.
A Figura 3 ilustra a importação, a exportação e o saldo comercial de café verde no Brasil, entre os anos de
2000 a 2016.
95
Administração Rural – Volume 4
Figura 3 - Evolução da importação, exportação e saldo comercial do café verde no Brasil entre 2000 e 2016
Percebe-se, assim como no caso da produção e da produtividade, uma linha de tendência crescente nas
exportações brasileiras de café, com um crescimento de 88,60% entre os anos de 2000 e 2016 (FAO,
2018). Neste mesmo período, as importações apresentam-se pouco significativas dadas as proporções. A
Figura 4 ilustra a produção e a produtividade do café verde no Vietnã, entre os anos de 2000 e 2016.
Figura 4 - Evolução da produção e da produtividade do café verde no Vietnã entre 2000 e 2016
Pela análise da Figura 4, percebe-se o crescimento na produtividade do café no Vietnã, que, no ano de
2000, era de 1,68 ton/ha e passou a 2,44 ton/ha no ano de 2016, com uma média de 2,07 ton/ha. A
produção também apresentou tendência crescente, passando de 0,80 milhões de toneladas em 2000 a 1,46
milhões de toneladas em 2016 (FAO, 2018), um incremento de 82,50%, fato impulsionado pela
alavancagem da política cambial vietnamita e pelos baixos custos de mão de obra em relação à produção
dos concorrentes (NISHIJIMA, SAES & POSTALI, 2012).
Segundo o USDA (2018), o total disponível de café no Vietnã, na safra 2016/2017, foi de 1,89 milhões de
toneladas, e, destes, 87,45% foram destinados à exportação, 8,79% ao consumo interno e 3,76% foram os 96
estoques finais. Percebe-se que a indústria cafeeira vietnamita, tal como a brasileira, é orientada ao
mercado externo.
Com base na Figura 5, identifica-se a evolução das importações, das exportações e o saldo comercial do
café verde do Vietnã. As exportações tiveram um incremento de 90,76%, passando de 733,90 mil de
toneladas em 2000 para 1,40 milhões de toneladas em 2016. Este crescimento está relacionado ao
Administração Rural – Volume 4
incremento da produção e aos preços internacionais atrativos ao produtor ao longo do período (USDA,
2012; USDA, 2016). Já as importações foram pouco significativas entre 2000 a 2016, com Vietnã
importando pequenas quantidades de café principalmente do Laos, da Indonésia e do Brasil (USDA, 2012;
USDA, 2016).
Figura 5 - Evolução da importação, exportação e saldo comercial do café verde no Vietnã entre 2000 e
2016
Por fim, na Tabela 3, é apresentada uma síntese dos principais fatores de competitividade do café entre
Brasil e Vietnã, nos anos de 2000 e de 2016.
Tabela 3 - Síntese dos principais fatores de competitividade do café verde entre Brasil e Vietnã em 2000 e
2016
Produção (milhões de toneladas) Exportação (milhões de toneladas)
Países
2000 % 2016 % 2000 % 2016 %
Brasil 1,90 25,37 3,02 32,74 0,97 17,59 1,82 25,46
Vietnã 0,80 10,70 1,46 15,84 0,73 13,35 1,40 19,54
Demais países 4,79 63,92 4,74 51,41 3,80 69,07 3,94 54,97
Mundo 7,50 100,00 9,22 100,00 5,50 100,00 7,16 100,00
Fonte: Elaborado pelos autores a partir de FAO (2018)
Por meio das análises realizadas, observou-se que tanto o Brasil como o Vietnã apresentaram resultados
significativos na produção e na produtividade, dadas as proporções, ao longo dos últimos anos. Contudo,
apesar de ambos os países apresentarem crescimento na produtividade, o Vietnã ainda obteve maior
média na produtividade (2,07 ton/ha), já que o Brasil apresentou (1,16 ton/ha), indicando maior
competitividade.
Brasil e Vietnã possuem outra semelhança: o fato de registrarem níveis de exportação muito superiores
aos de importação sugere que os países têm competitividade no mercado internacional do café. Ainda,
ambos os países aumentaram o volume exportado e o market-share no período, indicando expansão e
97
incremento no setor.
Administração Rural – Volume 4
3 MATERIAL E MÉTODOS
3.1 ASPECTOS METODOLÓGICOS
3.1.1 ÍNDICES DE VANTAGEM COMPARATIVA REVELADA (IVCR) E VANTAGEM COMPARATIVA
REVELADA SIMÉTRICA (VCRS)
O Índice de Vantagem Comparativa Revelada foi desenvolvido por Balassa (1965), utilizando como base a
teoria de Ricardo (1817), como forma de avaliar a competitividade de um país, já que, para o autor, seria
inviável avaliar todos os fatores que afetam o desempenho econômico frente aos concorrentes. Além disso,
para o autor, esta avaliação deveria recair somente sobre as exportações, já que as importações são
influenciadas por barreiras protecionistas. Assim, o IVCR é calculado da seguinte forma:
𝑋𝑖𝑗
𝑋𝑖
𝐼𝑉𝐶𝑅 = 𝑋𝑚𝑗 (1)
𝑋𝑚
em que: 𝑋𝑋𝑋 representa o total das exportação do país i do produto j; 𝑋𝑋 refere-se ao valor total das
exportações do país i; 𝑋𝑋𝑋 significa o valor total das exportações mundiais do produto j; 𝑋𝑋 mostra o valor
total das exportações mundiais.
O índice deve ser avaliado da seguinte forma: quando o resultado for superior à unidade, conclui-se que o
país possui vantagem comparativa revelada para as exportações de determinado produto. Por outro lado,
quando o resultado for menor do que um, o país não possui vantagem comparativa revelada nas
exportações de um produto. Além disso, quanto maior for o índice, maior será a vantagem comparativa do
país. O IVCR informa o nível das exportações de um país, com relação à sua pauta exportadora, podendo
comparar determinado bem entre diferentes países e permitindo revelar o grau de competitividade do
país em questão.
A fim de melhor analisar as vantagens comparativas entre mais de um competidor e mais períodos, optou-
se por utilizar o índice de vantagens comparativas efetuando a normalização, conforme proposto por
Laursen (1998):
𝐼𝑉𝐶𝑅−1
𝑉𝐶𝑅𝑆 = (2)
𝐼𝑉𝐶𝑅+1
Em que o índice representa a Vantagem Comparativa Revelada Simétrica (VCRS). Assim, o valor do índice
passa a variar entre -1 e 1. Se o índice se encontrar entre -1 e 0, a economia do estado não possui
vantagem comparativa revelada naquele determinado produto; entre 0 e 1, a economia possui vantagem
comparativa revelada e quanto mais próximo de 1, maior será a vantagem.
café verde exportado pelo Vietnã em 2000, foram, respectivamente, de US$ 101,07 milhões (20,16%) para
a Suíça; US$ 70,92 milhões para os Estados Unidos (14,14%); e US$ 52,61 milhões para a Alemanha
(10,49%) (UN COMTRADE, 2018).
Em 2016, para o Vietnã, os países selecionados foram Alemanha, Estados Unidos e Itália. O total das
exportações vietnamitas de café verde e representatividades sobre o total de café verde exportado pelo
Vietnã em 2016, foram, respectivamente, de US$ 477,92 milhões (16,11%) para a Alemanha; US$ 407,89
milhões para os Estados Unidos (13,75%); e US$ 240,22 milhões para a Itália (8,10%) (UN COMTRADE,
2018).
O somatório das parcelas de mercado das k-ésimas maiores empresas ou países define o grau de
concentração, sendo apresentado na Fórmula (3):
𝐶𝑅𝑘=∑𝑘 (3)
𝑖=1 𝑆𝑖
Na fórmula, Si representa a parcela de mercado do i-ésimo país, enquanto k significa o número de países
pesquisados. Quanto mais alto o valor, mais concentrado é o fluxo comercial das k maiores nações.
em que: 𝑋𝑘𝑖𝑗 representa as exportações da commodity k do país i para o país j; 𝑋𝑖𝑗 refere-se ao total das
exportações do país i para o país j; 𝑋𝑘𝑖𝑒𝑗 significa as exportações da commodity k de i para extra j; e 𝑋𝑖𝑒𝑗
mostra o total das exportações do país i para extra j.
Figura 6 - Índice de Vantagem Comparativa Revelada Simétrica do café verde do Brasil e do Vietnã de
2000 a 2016
A presente pesquisa demonstrou estar em consonância com alguns trabalhos já realizados sobre a
competitividade do café brasileiro. Para Sereia, Camara & Anhesini (2012), que também utilizaram o VCRS
como indicador, as exportações de café do Brasil se apresentaram competitivas entre os anos de 1990 a
2007, com índice variando entre 0,89 a 0,93. Segundo Thomé & Ferreira (2015), as exportações brasileiras
de café foram competitivas entre os anos de 2003 a 2012. Outro estudo, como o de Franck et al. (2016),
apresentou como resultado competitividade na exportação de café entre 1999 e 2014. Já para Arevalo,
Arruda & Carvalho (2016), o Brasil foi competitivo nas exportações de café verde entre os anos de 1994 a
2013.
Tabela 4 – CR3 das exportações de café verde do Brasil para os anos de 2000 e 2016
2000 2016
Produtos/ Anos
Países % Países %
Alemanha 17,19 Alemanha 19,69
Café verde Estados Unidos 14,00 Estados Unidos 19,39
Itália 11,15 Itália 9,99
CR3 42,35 49,07 100
Pela análise da Figura 7, identifica-se orientação das exportações brasileiras de café verde (IOR) aos países
que foram seus principais destinos em 2000 e 2016. Somente as exportações para os Estados Unidos, no
Administração Rural – Volume 4
período de 2000 a 2005, não apresentaram a orientação de mercado; o período de 2006 a 2016 e
exportações para Alemanha e Itália, de 2000 a 2016, apresentaram a orientação de mercado, com IOR
superior à unidade.
Figura 7 - Índice de Orientação Regional (IOR) das exportações brasileiras de café verde para Alemanha,
Itália e Estados Unidos, em US$
Ainda, na Figura 7, verifica-se a evolução do IOR, demonstrando a tendência das exportações brasileiras
do café verde aos países parceiros.
As exportações brasileiras do café verde para a Alemanha foram crescentes, passando de US$ 268,20
milhões, em 2000, a US$ 953,58 milhões em 2016 (UN COMTRADE, 2018), refletindo, desta forma, as
elevações consecutivas do IOR que passou de 4,32 a 9,10. Destaca-se que o país é um importante parceiro
comercial brasileiro, assumindo a 4ª e 5ª posição, respectivamente, em 2000 e 2016, entre países para os
quais o Brasil mais exportou, sendo os principais produtos o minério de ferro, o café e a soja (BRASIL,
2018).
A tendência das exportações brasileiras aos Estados Unidos foi de crescimento, uma vez que, em 2000,
eram de US$ 13,39 bilhões, e, em 2016, foram de US$ 23,30 bilhões, com um aumento de 74%. Nesta
mesma medida, houve incremento das importações norte-americanas de café verde do Brasil, que, em
2000, eram de US$ 218,35 milhões, e, em 2016, foram de US$ 938,98 milhões (UN COMTRADE, 2018), com
um aumento de 330%, evidenciado nos valores crescentes do IOR no período que passou de 0,51 em 2000,
a 1,67 em 2016. Ainda, os Estados Unidos apresentam importante parceria comercial com o Brasil,
assumindo a 2ª e 1ª posição, respectivamente, em 2000 e 2016, de países que o Brasil mais exportou,
sendo os principais produtos aviões, calçados e produtos semimanufaturados de ferro (BRASIL, 2018).
Em relação à Itália, as importações de café verde do Brasil representaram uma média de 38,32%, de 2000
a 2016, em relação ao total da importação do produto, caracterizando o país brasileiro como o maior
fornecedor da commodity no período, seguido por Vietnã e Índia, com as médias de participações,
respectivamente, de 12,49% e 10,84% (UN COMTRADE, 2018). Além disso, os valores do IOR das
exportações brasileiras de café verde para a Itália foram crescentes, passando de 3,10, em 2000, a 6,08 em
2016, indicando fortalecimento do comércio e tendência a exportar mais.
101
4.2.2 GRAU DE CONCENTRAÇÃO E ÍNDICE DE ORIENTAÇÃO REGIONAL DAS EXPORTAÇÕES DE CAFÉ
VERDE DO VIETNÃ
Pela análise da Tabela 5, percebe-se uma redução da concentração das exportações de café verde do
Vietnã, de 2000 a 2016, passando de 44,79% para 37,95%, o que indica aumento na dispersão das
Administração Rural – Volume 4
exportações. Como origem da mudança nas importações dos principais parceiros vietnamitas, tem-se
principalmente o caso da Suíça, que reduziu suas importações do café verde do Vietnã, em 2016, para
US$ 6,90 milhões, e, em 2000, eram de US$ 101,07 milhões, ou seja, houve uma redução de US$ 94,17
milhões, fato ligado principalmente ao fortalecimento das parcerias comerciais da Suíça com Brasil e
Colômbia, que importou destes 45,74% do total de café verde em 2016 (UN COMTRADE, 2018).
Tabela 5 - CR3 das exportações de café verde do Vietnã para os anos de 2000 e 2016
2000 2016
Produtos/ Anos
Países % Países %
Suíça 20,16 Alemanha 16,11
Café verde Estados Unidos 14,14 Estados Unidos 13,75
Alemanha 10,49 Itália 8,10
CR3 44,79 37,95
Fonte: Elaborado pelos autores a partir de UN COMTRADE (2018)
Na Figura 8, verifica-se a evolução do IOR, demonstrando a tendência das exportações vietnamitas do café
verde aos países parceiros.
Figura 8 - Índice de Orientação Regional (IOR) das exportações vietnamitas de café verde para a Suíça, os
Estados Unidos, a Alemanha e a Itália em US$
As exportações vietnamitas de café verde para a Suíça foram decrescentes, pois, em 2000, eram de 102
US$ 101,07 milhões, e passaram a US$ 6,90 milhões em 2016, refletindo, desta forma, as reduções
consecutivas do IOR, que passou de 21,69 a 0,69, sendo ausente a orientação de mercado nos anos de
2009, 2010, 2013, 2014, e 2016 (UN COMTRADE, 2018).
Administração Rural – Volume 4
A tendência do IOR das exportações vietnamitas de café para os Estados Unidos foi de redução, uma vez
que, em 2000, era de 3,09, e, em 2016, passou a 0,57, sendo que, de 2002 a 2016, foi inferior à unidade,
indicando ausência na orientação de mercado. As exportações de café do Vietnã ao país norte-americano
foram crescentes, já que, em 2000, era de US$ 70,92 milhões, e, em 2016, passaram a US$ 407,89 milhões,
ou seja, tiveram 475% de incremento, porém, suas representatividades sobre o total exportado do Vietnã
aos Estados Unidos foram baixas, com uma média, entre os anos de 2002 a 2016, de 1,64% (UN
CONTRADE, 2018), explicando, assim, a ausência na orientação de mercado neste período. As exportações
totais também cresceram 5.149%, as quais, em 2000, eram de US$ 732,95 milhões, e, em 2016, passaram a
US$ 38,47 bilhões, e os principais produtos comercializados, além do café, foram máquinas e
equipamentos elétricos, e artigos de vestuário e acessórios de malha (International Trade Centre - ITC,
2016a).
Segundo os dados do UN CONTRADE (2018), de 2000 a 2016, foi significativa a participação da Alemanha
sobre o total de café exportado pelo Vietnã, com uma média de 13,86%, refletindo um IOR superior à
unidade e indicando orientação de mercado. É interessante destacar também que as exportações
vietnamitas totais ao país alemão, extra-café, cresceram 716%, pois, em 2000, eram de US$ 730,32
milhões, e, em 2016, passaram a US$ 5,96 bilhões, refletindo a parceria comercial, especialmente em
produtos como máquinas e equipamentos elétricos, calçado, polainas e semelhantes (ITC, 2016b).
E relação à Itália, as exportações vietnamitas de café verde cresceram 890%, sendo que, em 2000, eram de
US$ 24,26 milhões, e, em 2016, passaram a US$ 240,22 milhões, e o IOR, de 2000 a 2016, passou de 3,33 a
4,68, respectivamente, indicando orientação nas exportações do produto e tendência a exportar mais.
Além disso, neste mesmo período, a média da participação do café sobre o total exportado pelo Vietnã ao
país italiano foi de 10,95%, sendo esta commodity representativa nas transações comerciais entre os
países (UN CONTRADE, 2018).
5 CONCLUSÕES
O objetivo deste estudo foi analisar a competitividade das exportações brasileiras no mercado mundial do
café verde, entre 2000 a 2016, em comparação ao segundo maior produtor e exportador mundial, o Vietnã.
Além disso, analisaram-se o grau de concentração e a orientação de mercado das exportações desses
países. Os resultados obtidos sobre a participação no comércio internacional para os países, analisando os
anos de 2000 e 2016, indicaram que ambos os países aumentaram seus níveis, em relação à produção, o
Brasil passando de 25,37% a 32,74%, e o Vietnã, de 10,70% a 15,84%; e na exportação, o Brasil passando
de 17,59% a 25,46%, e o Vietnã passando de 13,35% a 19,54%.
Sobre a produtividade do café, o Vietnã apresentou-se como o mais produtivo, com uma média de 2,07
ton/ha em relação ao Brasil, que apresentou uma média de 1,16 ton/ha, sendo mais competitivo neste
quesito. Além disso, ambos os países apresentaram média acima da média mundial de 0,77 ton/ha,
demonstrando bons desenvolvimentos tecnológicos nesta etapa do processo produtivo.
Em relação à competitividade, os VCRS observados para o Brasil e o Vietnã para o produto café verde
foram superiores à unidade, entre 2000 a 2016, comprovando a competitividade internacional dos países.
Além disso, o Brasil foi mais competitivo nos anos de 2002, 2011, e de 2014 a 2016, com índices
superiores ao concorrente.
O Brasil apresentou aumento na concentração das exportações do café verde no período analisado,
relacionado ao incremento da parceria comercial com Alemanha e Estados Unidos, que elevaram suas
importações. O Vietnã, por outro lado, revelou desconcentração nas exportações do café verde de 2000 a
2016, passando de 44,79% a 37,95%, fato atrelado à redução das exportações para a Suíça.
As exportações brasileiras do café verde apresentaram-se orientadas (IOR) aos três principais parceiros
comerciais, nos seguintes anos: Alemanha e Itália, de 2000 a 2016; e para os Estados Unidos, de 2006 a
2016. Já o Vietnã, apresentou suas exportações do café verde orientadas, nos seguintes anos, aos países:
Suíça, de 2000 a 2008, 2011, 2012, e 2015; Estados Unidos, 2000 e 2001; Alemanha e Itália, de 2000 a
2016.
103
Entre as limitações do presente trabalho está o fato de os índices utilizados serem estáticos, ou seja,
permitem a análise em períodos de tempos específicos, não compreendendo diversas alterações
econômicas. Neste sentido, fazem-se pertinentes análises com acuidade, utilizando modelos
econométricos, bem como de Equilíbrio Geral de Gerações Sobrepostas, os quais permitem captar a
evolução das mudanças econômicas e sociais, na competitividade setorial.
Administração Rural – Volume 4
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105
Administração Rural – Volume 4
Capítulo 8
O Complexo Agroindustrial da Soja Brasileira
Caroline Marques Ramos
Marcia Gonçalves Pizaia
Carlos Eduardo Caldarelli
Marcia Regina Gabardo da Camara
106
Administração Rural – Volume 4
1 INTRODUÇÃO
No Brasil o complexo da soja envolve uma produção interna orientada para a exportação do produto em
sua forma bruta, até a transformação do grão voltada para a indústria que realiza procedimento de
transformação da soja em farelo ou óleo para a exportação ou para consumo interno (CORONEL;
MACHADO; CARVALHO, 2009).
Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Brasil em 2017 foi o segundo maior
produtor e processador mundial da soja em grão do mundo. Porém, para se tornar o primeiro na produção
de soja é necessário que resolvam problemas internos como: logística, infraestrutura e investimento
(EMBRAPA, 2018).
Portanto, é necessário analisar o movimento econômico que a soja gera na economia brasileira nos
últimos anos, em termos de emprego, produção e exportação para que se apontem medidas para auxiliar
na sua ampliação e também identificar como estes desafios prejudicam a expansão da produção atual, e
como se elevaria sem tais empecilhos.
Devido à importância do complexo agroindustrial da soja e o crescimento da área plantada e produção, o
estudo da competitividade da soja brasileira no mercado internacional, destinos de exportação, espera-se,
com a pesquisa, poder contribuir para uma melhor compreensão dos fatores inerentes à competitividade
das exportações brasileiras, bem como as facilidades e dificuldades das transações brasileiras.
O objetivo principal deste estudo é analisar o complexo agroindustrial da soja no Brasil, investigando-se o
grau de produtividade, de competitividade e inserção da soja no mercado externo. Para tanto, os seguintes
objetivos específicos são propostos: realizar pesquisa bibliográfica da literatura existente no país e no
exterior, através de periódicos específicos e de base de dados nacional e estrangeira; elaborar um breve
histórico da produção e comercialização da soja no Brasil no período de 2005 a 2016; identificar as
principais fontes de crescimento da produção e das exportações brasileira do complexo soja no período;
mensurar o grau de competitividade e inserção da soja no mercado externo através do modelo Índice de
Vantagem Comparativa Revelada Simétrica (IVCRS); e verificar os determinantes da competitividade da
soja e sua participação no comércio internacional e identificar os principais países competidores e
destinos das exportações no período de estudo.
Este estudo é composto por seis seções. A primeira contém a introdução do estudo, contextualizando-o,
trazendo os objetivos buscados e a justificativa para esta pesquisa. O segundo versa sobre a
fundamentação teórica e o referencial de leitura empírica, discutindo os conceitos que norteiam o
trabalho, como as teorias do comércio internacional e da competitividade. O terceiro visa evidenciar um
breve histórico da produção e comercialização da soja no Brasil no período de 2005 a 2016. O quarto
tratará da metodologia escolhida, o Índice de Vantagem Comparativa Revelada Simétrica (IVCRS). O
quinto analisa os resultados do estudo. O sexto destaca as principais conclusões da pesquisa.
O princípio das Vantagens Absolutas retrata que cada país deve se especializar na produção da commodity
produzida com maior vantagem absoluta e trocar parte de sua produção pela commodity que produzida
com maior desvantagem absoluta. Assim, a nação que produz bens empregando menor quantidade de
insumos tem vantagem absoluta na produção desse bem (CORONEL; DESSIMON, 2008).
Administração Rural – Volume 4
Esta teoria não é totalmente explicativa em relação as bases centrais de trocas e, segundo Rainelli (1998),
apresentava uma limitação no sentido que se uma nação não tem nenhuma vantagem absoluta, não
adentraria no comércio. Então, David Ricardo realizou avanços em relação a Adam Smith ao propor em
seu livro, nos Princípios de Economia Política, a Lei das Vantagens Comparativas. De acordo com Ricardo,
mesmo que um país obtém desvantagem absoluta na produção de ambas os produtos, ainda haveria uma
possibilidade de comércio, desde que a nação se especializasse na produção de sua commodity de menor
desvantagem absoluta (KRUGMAN E OBSTFELD, 2001).
De acordo com Maia (2001) e Gonçalves (1998), a Teoria das Vantagens Comparativas não se aplicam as
atuais situações do comércio internacional, visto que não contempla o papel da tecnologia, a diferenciação
dos produtos, os rendimentos crescentes de escala. Ademais, a teoria de Ricardo presume que exista
apenas um fator de produção, que o comércio seja entre dois países, que não haja custos de transporte e
que a Balança Comercial esteja sempre equilibrada. E de acordo com Ferrari Filho (1997), para os
pressupostos clássicos serem válidos, o comércio internacional deveria observar as seguintes condições:
concorrência perfeita nos mercados de bens e fatores; (b) imobilidade internacional dos fatores de
produção; (c) ausência de quaisquer custos adicionais, como fretes e seguros, incidentes sobre a
operacionalização do comércio internacional; (d) livre comércio, caracterizado pela inexistência de
barreiras alfandegárias, tarifas e quaisquer outras restrições à importação (FERRARI FILHO 1997, p. 258).
Heckscher expandiu o modelo Ricardiano, apresentando outros fatores de produção além da terra,
trabalho e capital em seu estudo, no qual os preços relativos refletiam a produtividade relativa do
trabalho. Desse modo, a análise neoclássica do comércio internacional ficou conhecida como a teoria de
Heckscher-Ohlin ou a teoria de Heckscher-Ohlin-Samuelson. Neste modelo de estudo neoclássico, as
diferenças de dotações de fatores entre países é o principal componente das vantagens comparativas. As
diferenças de escassez relativa de fatores de produção afetam os custos relativos e, por conseqüência, os
padrões de comércio. Como resultado, a teoria neoclássica básica do comércio internacional é que
qualquer país tende a exportar mercadorias que usam quantidades relativamente altas de seus fatores de
produção mais abundantes (GONÇALVES, 1998).
As teorias modernas de comércio internacional são baseadas no custo comparativo de oportunidades. De
acordo com Hecksher e Ohlin, as discrepâncias de custos de produção de um produto entre países são
resultadas de várias conjunções: valor dos insumos, quantidade dos fatores de produção (terra, trabalho e
capital), imobilidade da mão-de-obra, e dificuldade na logística da troca dos fatores de produção de um
país para outro (SILVA, 2016).
Esse teorema expressa que o comércio internacional equaliza os preços dos fatores de produção entre as
nações. Com o comércio, cada país se especializa na produção do bem em que possui vantagem
comparativa (intensivo em fator de produção abundante, mais barato). (KRUGMAN E OBSTFELD, 2001).
E os preços dos fatores dependem do preço das mercadorias que produzem, segundo o teorema de
Stolper-Samuelson. O comércio beneficia o fator de produção abundante em detrimento do fator escasso
de cada país. O pleno emprego e o nivelamento do preço dos fatores asseguram que o fator de produção
abundante se beneficie com o comércio, possibilitando a redistribuição da renda. De acordo com
Williamson (1989), os detentores do fator de produção escasso podem aumentar sua renda real em
termos absolutos através da proteção de importações, mesmo que a sociedade como um todo perca
(SILVA, 2016).
Já a teoria da vantagem competitiva de Michel Porter traz um conceito mais condizente com a realidade
contemporânea. Esta teoria fundamenta-se em estudos empíricos em nações já industrializadas, baseia-se
nos países desenvolvidos, os quais necessitam cada vez mais de aprimoramento do produto, e o aspecto
qualitativo, e não quantitativo, é o mais importante. De modo geral, pode-se dizer que a vantagem
competitiva é a ocorrência de níveis de performance econômica acima da média de mercado em função
das estratégias adotadas pelas firmas (SEREIA; NOGUEIRA; CAMARA, 2011).
Para Porter (1989) a vantagem competitiva apresenta a idéia de cadeia de valor, que serve de
embasamento para o raciocínio estratégico sobre as atividades envolvidas em qualquer empresa e a
avaliação do custo relativo e diferenciação de produtos. Com a cadeia de valor consegue-se entender as 108
origens do valor para o comprador, que gerarão preços mais altos e razões pela qual um produto ou
serviço substitui o outro..
Além disso, Alfred Marshall, em uma pesquisa sobre as concentrações geográficas da indústria, aferiu que
as economias podiam ser explicadas por outros elementos e não dependiam da existência de recursos
naturais. Havia três razões que fazia com que um grupo de firmas pudesse ser mais eficaz que a firma
Administração Rural – Volume 4
individual de forma isolada: a habilidade do grupo é manter fornecedores especializados; a maneira pela
qual uma indústria geograficamente concentrada permite um mercado comum de trabalho; e a maneira
pela qual uma indústria geograficamente concentrada ajuda a expandir o conhecimento. Esses fatores
continuam válidos atualmente (KRUGMAN; OBSTFELD, 2001).
Depois de Marshall, diversos outros autores procuraram recuperar os principais elementos que justificam
as vantagens competitivas das estruturas geográfica e setorialmente concentradas. Quase todos esses
autores partem do trabalho pioneiro de Marshall para construir a análise das economias externas que são
obtidas pelas empresas participantes do sistema local (GARCIA, 2006).
No entanto, uma área de estudo importante de discussão do comércio internacional, é o debate sobre a
concorrência imperfeita. A maior parte do comércio mundial ocorre não entre países que se especializam
na produção de mercadorias diferentes, mas entre países que comercializam os mesmos produtos. Nas
condições da concorrência imperfeita, há incentivos para que os governos subsidiem a exportação ou
pesquisas para o desenvolvimento de novos produtos a serem exportados com o objetivo de obter lucros
mais altos no estrangeiro. Mas, se houver retaliação por parte de outros governos, todos terão prejuízos,
podendo ser necessários acordos para evitar que o processo se inicie (SEREIA; NOGUEIRA; CAMARA,
2011).
Os modelos de defasagem tecnológica e de ciclo do produto são considerados ampliações válidas do
modelo estático de H-O. De acordo com o modelo de defasagem tecnológica detalhado por Posner (1961
apud SALVATORE, 2000), a maior parte do comércio entre os países industrializados se baseia na
introdução de novos produtos e processos de produção, concedendo ao país inovador o monopólio
provisório do mercado mundial, estabelecido em patentes e direitos autorais, concedidos para estimular o
fluxo das inovações.
As empresas fortemente voltadas para o comércio internacional, seja através de exportações ou de
produção externa, são mais lucrativas e tem-se variação inferior na lucratividade do que as empresas
puramente domésticas (SALVATORE, 2000). Kenen (1998) alega que os produtos diferenciados, as
vantagens tecnológicas e economias de escala dão às grandes empresas estabelecidas vantagem
competitiva sobre empresas locais menores e mais novas, envolvendo a integração horizontal, ou a
produção no exterior de um produto diferenciado também produzido internamente.
Assim, a partir dos anos 90, o modelo do comércio internacional teve alteração significativa, com novas
análises sobre as principais políticas adotadas pelos países, tais como barreiras, subsídios e tarifas e a
necessidade da abordagem dos mercados imperfeitos mundiais e das nações que intensificaram sua
exportação criando economias de escala e de escopo (DORNELES; CALDARELLI, 2014).
Segundo Brum (2005), no Brasil desde os primórdios da colonização, as atividades econômicas
predominavam com a finalidade da exportação. Como nenhum país é autossustentável, os acordos
internacionais tornam-se obrigatórios para o desenvolvimento de um país nos mais variados segmentos
econômicos, isso inclui o segmento agrícola.
Portanto, o estudo das teorias do comércio internacional busca entender a motivação do comércio entre
nações e a evolução das relações comerciais mostra que a competitividade é apontada como importante
causa e efeito do comércio entre nações. Dessa forma, é importante aprofundar-se nas análises das teorias
de competitividade que complementam a análise das teorias do comércio entre nações.
2.2 COMPETITIVIDADE
A competição encontra-se presente na maior parte dos sistemas econômicos, sendo particularmente
importante nos sistemas agroindústrias após os anos 2000 - é um estímulo essencial para garantir que as
empresas diminuam custos, aumentem a qualidade e procurem desenvolvimento tecnológico constante. A
concorrência é uma característica dos mercados pela renda dos consumidores ou pelo acesso a insumos,
enquanto, a competitividade é a forma pela qual um empreendimento cresce e se desenvolve de modo
sustentável, sendo a característica de um agente (ALVIM; OLIVEIRA JUNIOR, 2005).
109
Existem vários conceitos de competitividade na literatura, no conceito macroeconômico a análise é geral e
engloba as condições gerais. No conceito do desempenho está associada a performance do comércio
daquele país por setores ou produtos. E por último o conceito da eficiência estuda os fatores estruturais
que permitem o país ser superior aos demais (MENEZES; SAMPAIO; BERTRAND, 2012).
Administração Rural – Volume 4
David Ricardo, no entanto, foi pioneiro a enunciar teorias de competitividade, pois com a teoria das
vantagens comparativas, já tentava provar que a especialização era vantajosa para determinado país em
presença de competitividade (MARKUSEN, 2005). Dessa forma, o Índice de Vantagens Comparativas
Reveladas que foi proposto por Balassa (1965), balizado na lei das Vantagens Comparativas, fornece um
indicador da estrutura relativa das exportações de uma região ou país (MAIA, 2001).
De acordo com Carvalho (1995), os indicadores de vantagem comparativa revelada são importantes
porque permitem definir o padrão de especialização internacional que segue a pauta de exportação dos
países. Pois, esses indicadores são úteis para identificar em qual produto um país exportador tem maior
vantagem comparativa.
Porter (1989) adiciona variáveis no conceito de competitividade, inclui as estratégias adotadas pelas
empresas, que contemplam no nível sistêmico, a produtividade, pois considera a oferta dos fatores de
produção, de demanda, estruturas e rivalidades das empresas.
A produtividade da empresa está na essência das ideias de competitividade. A produtividade e a
competitividade empresarial são efeitos da utilização e difusão de inovações tecnológicas, organizacionais
e institucionais. Envolvem aspectos internos à firma como a gestão da produção, inovação em processos,
produtos e na própria gestão empresarial. Os determinantes estruturais envolvem fatores associados à
oferta e à demanda e os determinantes sistêmicos estão relacionados a fatores macroeconômicos, de
infraestrutura, a marcos legais e institucionais, entre outros (CALDARELLI; CAMERA; SEREIA, 2009).
Salvo frustrações de safras, um aumento da área cultivada leva invariavelmente a um aumento na
produção. A produção também pode apresentar um crescimento relativamente superior ao índice de
aumento de área, desde que tenha havido um aumento de produtividade física (quilos colhidos por
hectare plantado). Dessa forma, os índices de produtividade física estão relacionados a outros fatores,
principalmente à melhoria nos níveis de tecnologia empregados na atividade (ZOTARELLI, 2001, p. 45).
As empresas de “commodities” enfrentam acirrada concorrência e devem ser capazes de explorar ao
máximo todas as fontes que podem reduzir os custos: operar processos atualizados tecnologicamente,
apresentar nível de excelência na gestão da produção, possuir sistemas eficientes de abastecimento de
matérias-primas e apossar-se de logística adequada de transferência de produtos (FERRAZ; KUPFER;
HAGUENAUER, 1996).
Segundo Porter (1989), a rivalidade ocorre quando uma ou mais empresas se sentem pressionadas ou
percebem uma oportunidade para ganhar mais espaço no mercado. As táticas variam, mas costumam se
basear em artifícios como a concorrência de preços, batalhas de publicidade, introdução de produtos e
aumento dos serviços ou garantias ao cliente.
A competitividade no comércio mundial reflete o resultado dos avanços tecnológicos e das contribuições
de autores que estudam a dinâmica do comércio internacional em busca de resultados promissores aos
produtores e consumidores (SILVA; DE LIMA; BATISTA, 2011).
Ferraz, Kupfer e Haguenauer (1996) estudando a competitividade de vários setores da indústria
brasileira, inclusive a de soja, explicam que o poder competitivo de uma firma, segmento ou de um
produto, é expresso pelo seu desempenho, ou seja, a sua participação no mercado e por sua eficiência que
é a capacidade de transformar insumos em produtos com a máxima produtividade.
No caso do Brasil, a abertura comercial nos anos 90 acompanhada de uma redução nas barreiras tarifárias
estimulou a modernização do setor agrícola e elevou a competitividade no setor. A criação de acordos
bilaterais como o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) foi de suma importância, pois aumentou a
participação do agronegócio brasileiro no comércio internacional tendo países competitivos como
Paraguai e Argentina como importantes parceiros comerciais (FIGUEIREDO; SANTOS, 2005).
A competitividade pode ser analisada pelas indústrias através dos índices de um conjunto específico de
produtos ou pode ser analisada pela pauta de exportações de uma determinada indústria seja ela com o
fator determinante tecnologia ou bens de capital. Outra forma de analisar a competitividade de um país é
através do conceito preço e qualidade comparando os preços internacionais e os preços de um país
específico (KUPFER, 1992). 110
O Brasil possuía vantagem comparativa no comércio internacional de soja na primeira metade da década
de 90; em 1996 houve uma melhora no índice de Vantagem Comparativa Revelada que se elevou
consideravelmente em 1998 mostrando as vantagens comparativas do Brasil nas exportações de grãos.
Entre 1997 e 2002 houve um aumento de 2,56% a.a, esse desempenho se deve sobretudo a Lei Kandir, que
tirava isenção de ICMS sobre as exportações de soja no período (FIGUEIREDO; SANTOS, 2005).
Administração Rural – Volume 4
Entre 1990 e 2007, Brasil apresentou Market-share crescente e as fontes do crescimento estavam ligadas
principalmente à competitividade. Houveram constante desvalorizações cambiais da moeda doméstica, no
período após 1999 até 2006, quando o câmbio passou a apresentar valorização crescente. A trajetória de
valorização só seria interrompida no segundo semestre de 2008, após a crise imobiliária e financeira
americana que afetou a economia brasileira e o aumento da modernização do campo (CALDARELLI;
CAMERA; SEREIA, 2009).
Christovam (2016) mediu o grau de competitividade das exportações brasileiras do complexo soja por
meio do Índice de Vantagem Comparativa Revelada Simétrica, notou-se no período de 2000 a 2012 a soja
sendo o principal produto de exportação do complexo agroindustrial de soja, indicando vantagem
comparativa em todo o período analisado.
Este tópico destacou as principais teorias do comércio internacional, juntamente com os conceitos
relativos à competitividade, por serem aspectos essenciais para compreensão do funcionamento dos
sistemas agroindustriais. A próxima sessão retrata o histórico de produção e comercialização da soja.
111
Administração Rural – Volume 4
A alta nos preços internacionais a partir de 1970, assim como a necessidade de geração de divisas,
incentivou o governo a aumentar os investimentos, ajudando sua inclusão no mercado mundial. A
demanda pelo grão passa a ter tendência de crescimento nas indústrias alimentícias mundiais,
favorecendo ainda mais o consumo (CHRISTOVAM, 2016).
As vantagens da região Sul nesta época eram, principalmente, a concentração de recursos, a facilidade de
escoamento da produção via portos, a semelhança climática com regiões produtoras de outros países e a
existência de cooperativas de produtores. Já em 1980, durante a consolidação da produção no cerrado da
região Centro-Oeste pode-se destacar a existência de terras baratas, a topografia e o clima favoráveis, a
instalação de agroindústrias na região, entre outros. Campos (2011) compara a trajetória da soja no
centro-sul e centro-oeste brasileiros em relação às semelhanças entre os fatores motivadores deste
processo:
Tanto nos estados das regiões Centro-Oeste como no Centro-Sul, a expansão da soja se deu após os
incentivos governamentais, a correção de solos antes impróprios para o plantio, a instalação de
agroindústrias, a melhoria em logística territorial, e a aplicação de técnicas modernas de produção
juntamente com a criação da EMBRAPA/CNPS e de outros institutos estaduais de pesquisas direcionados a
melhoria das cultivares para o plantio no Brasil. Esses fatores provocaram um rápido incremento na
produção de soja (CAMPOS, 2011, p. 10).
A partir dos anos 1990, a agricultura brasileira se moderniza, contribuindo para que a cultura da soja se
reestruturasse ao longo da sua cadeia, devido à introdução de novas tecnologias. Esta mudança fez com
que o processo da soja se tornasse essencial para o crescimento da renda, emprego e exportações.
No estudo de Figueiredo e Santos (2005), no caso do Brasil a abertura comercial nos anos 90
acompanhada de uma redução nas barreiras tarifárias estimulou a modernização do setor agrícola e
elevou a competitividade no setor. A criação de acordos bilaterais como o Mercado Comum do Sul
(MERCOSUL) foi de suma importância, pois aumentou a participação do agronegócio brasileiro no
comércio internacional tendo países competitivos como Paraguai e Argentina como parceiros comerciais.
E também houve o aumento do volume de grãos exportados devido a compra de grãos pelos países da
União Europeia e pela Ásia, com destaque para Japão e China, que também possuem agroindústria
moageira.
A “Lei Kandir” de 1996 obteve significativas alterações na legislação do ICMS, e talvez a mais importante
tenha sido a completa desoneração das operações que destinassem mercadorias ao exterior, alcançando
inclusive produtos primários e produtos industrializados semielaborados. No entanto, a lei acabou
beneficiando a soja em grãos sem transformações, onerando o farelo e óleo de soja (MEIRA; DIAS; BRAUN, 112
2009).
Em 1998 o rendimento brasileiro chegava a 31 milhões de toneladas ao ano. Em 2006, o país atingiu uma
rentabilidade de aproximadamente 58,3 milhões de toneladas, sendo a região Centro-Oeste do Brasil
responsável por 46,2% (SILVA; DE LIMA; BATISTA, 2011). No começo da década de 2000, a China se
destaca como a segunda maior economia do mundo e maior importadora de bens, a evolução econômica
Administração Rural – Volume 4
dos países emergentes alavanca o consumo de alimentos e os preços das commodities agrícolas atingem
níveis recordes, impulsionando as vendas externas do Brasil. Há mudanças na produção, a cana-de-açúcar
se expande para novas fronteiras agrícolas, como o Triângulo Mineiro e o sudoeste de Goiás, o algodão
renasce em um ambiente de alta escala e altamente produtivo na região Centro-Oeste e os grãos começam
a conquistar as fronteiras do Norte e Nordeste (CÂMARA, 2011).
Já em 2004, o Brasil sofreu restrições por parte da China, que exigia a certificação do grão em virtude dos
produtos geneticamente modificados e, posteriormente, da presença de grãos com ferrugem. Fernandes et
al. (2010), ao analisarem os aspectos que levaram a China a quebrar contratos com o Brasil, em 2004, por
causa da ferrugem asiática, afirma que a incidência dessa praga, que era de 0,06 % por tonelada, estava
dentro dos padrões permitidos pela Organização Mundial do Comércio (OMC), que é de 0,2 % por
tonelada, tendo a China se utilizado de barreiras não-tarifárias com o pretexto de justificar tal atuação
como benéfica à saúde da população. Como resultado, os exportadores brasileiros, para não perderem os
vários carregamentos, tiveram que se ajustar às exigências chinesas e ainda baixaram os preços.
O Gráfico 2 apresenta a evolução da área plantada de soja, no período de 2007 a 2017, por região.
Observa-se que a região com maior área plantada é o Centro-Oeste, sendo aproximadamente 44,8% da
área de soja no brasil na safra 2016/2017, encontra-se na região do Centro-Oeste, e a região Sul é
responsável por 33,8%.
Gráfico 2 - Evolução da área plantada de soja em hectares: período de 2007 a 2017, por região.
De acordo com levantamentos feitos pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento e Embrapa,
o Brasil poderá ter sua área aumentada até 2021 cerca de 5,3 milhões de hectares de soja. Segundo o
estudo, esse acréscimo em área se concentrará principalmente nas regiões Centro-Oeste e Norte-Nordeste,
adentrando os estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Oeste da Bahia. Isso ocorrerá principalmente
graças a conversão de pastagens degradadas em áreas agrícolas.
Administração Rural – Volume 4
Ademais, além da produção da soja para comercialização externa, no Brasil a oleaginosa é responsável por
mais de 82% da produção de biodiesel, de acordo com a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e
Biocombustíveis (ANP, 2018). O processamento de soja para fazer o biodiesel passou de 14,3 milhões de
toneladas em 2017 para quase 17,9 milhões de toneladas do grão em 2018.
4 METODOLOGIA
Esta sessão apresenta a metodologia desta pesquisa, apresentada no método Índice de Vantagem
Comparativa Revelada Simétrica (IVCRS). Também é descrita a base de dados, assim como os demais
procedimentos metodológicos a serem adotados para o cálculo do respectivo modelo.
A base de dados utilizada para a elaboração e interpretação dos índices, gráficos e tabelas são
provenientes do Commodity Trade Statistics Database (COMTRADE, 2018) e também da Alice Web que é
um site oficial de estatísticas de comércio exterior do governo brasileiro. As análises são do período entre
os anos de 2008 a 2016 e para a mensuração do, IVCRS será utilizada a base do COMTRADE de exportação
e importação.
A competitividade é analisada a partir de um conjunto de indicadores de competitividade: modelo Índice
de Vantagem Comparativa Revelada Simétrica (IVCRS).
Assim, esse índice mostra as vantagens comparativas em um determinado setor por meio da relação entre
os avanços obtidos em sua pauta de exportações e a pauta mundial, ou da região adotada. De acordo com
Maia (2001):
IVCR > 1 = O país possui vantagem comparativa revelada para as exportações de soja;
IVCR < 1 = O país possui desvantagem comparativa revelada para as exportações de soja.
O Índice de Vantagem Comparativa Revelada Simétrica (IVCRS) tem como objetivo corrigir uma distorção
característica do índice de vantagem comparativa revelada. Quando há vantagem comparativa revelada, o
índice varia entre 1 e infinito e quando há desvantagem comparativa, o índice varia apenas entre 0 e 1. A
seguinte expressão procura corrigir a assimetria supracitada:
114
𝐼𝑉𝐶𝑅𝑖𝑗 − 1
𝐼𝑉𝐶𝑅𝑖𝑗 =
(𝐼𝑉𝐶𝑅𝑖𝑗 + 1)(2)
Administração Rural – Volume 4
𝐼𝑉𝐶𝑅𝑖𝑗 representa o índice de vantagem comparativa revelada simétrica. Quando 𝐼𝑉𝐶𝑅𝑆𝑖𝑗 varia entre -1 e
0, há desvantagem comparativa para o produto em estudo e quando o resultado se situa entre 0 e 1, a
vantagem comparativa é revelada.
Verifica-se que para soja em grão, os valores do IVCRS são muito próximos ao do complexo soja, indicando
que a soja em grão é um produto competitivo para economia brasileira e também responsáveis pelo
crescimento do agronegócio no Brasil. Durante o período analisado os valores do IVCRS mantiveram-se
constantes, com pequenas oscilações e próximos a 1 unidade, mantendo sua vantagem comparativa nas
exportações.
Identifica-se que o farelo e principalmente o óleo de soja tem menor vantagem comparativa quando
relacionada com a soja em grão. Conforme MAPA (2007), essa diferença do resultado da vantagem
comparativa no farelo e óleo de soja, está relacionada à perca de competitividade, durante esse período
outros mercados se especializaram no processamento da soja, por exemplo, Argentina e China, em
conjunto com os baixos investimentos e incentivos no Brasil para o processamento interno. O óleo de soja
foi o mercado onde Brasil perdeu maior espaço, em 2008 o resultado do índice era de 0,8876 e no ano de
2016 caiu para 0,7843.
Em virtude das particularidades do grão, óleo e farelo, foi separada a análise do Índice Vantagem
Comparativa Revelada Simétrica. O Gráfico 3 compara o IVCRS dos principais players das exportações da
soja em grão. Observa-se que mesmo os Estados Unidos sendo o principal exportador da cultura, a 115
vantagem comparativa do Brasil e da Argentina é maior.
Administração Rural – Volume 4
Gráfico 3 – Índice de Vantagens Comparativas Revelada Simétrica dos principais players da soja em grão.
Análise do período de 2008 a 2016.
EUA
IVCRS
BRASIL
ARGENTINA
Anos
Fonte: Elaborado pelo próprio autor a partir dos dados do COMTRADE (2018).
Ao analisar a vantagem comparativa revelada, algumas limitações podem surgir, devido ao protecionismo
inerente às relações comerciais, como tarifas sobre importação, subsídios às exportações, poder de
mercado, desalinhamento cambial e outras que, em conjunto, podem afetar os resultados da vantagem
comparativa revelada. Essas limitações surgem porque a noção de vantagem comparativa revelada está
interligada a fatores estruturais do processo produtivo, sendo associada de forma direta aos custos
relativos de produção. Segundo Fontes (1992), nesse aspecto, a definição de vantagem comparativa
preserva as pressuposições clássicas da concorrência perfeita, dentre as quais a ausência de barreiras
comerciais e o protecionismo.
Assim, por este motivo, explica-se as vantagens comparativas no complexo de soja da Argentina e do Brasil
estarem maior que dos Estados Unidos, atualmente o país que mais exporta soja do mundo. Isto também
pode ser evidenciado pelo fato que as exportações de soja em grão serem mais representativas nas
exportações da Argentina e do Brasil, pois as exportações deste produto equivaleram a 6% e 10% das
exportações da Argentina e do Brasil respectivamente, enquanto dos Estados Unidos equivaleu a 2% das
exportações totais.
O Gráfico 4 mostra o IVCRS dos três grandes players da soja, relevando o resultado no óleo de soja. Exibe-
se uma dinâmica diferente da soja em grão, evidenciando a Argentina com maior vantagem comparativa, a
qual consolidou-se nos anos de 2008 a 2016 como maior exportadora do óleo de soja, seu Índice de
Vantagem comparativa aproxima-se de 1.
Gráfico 4 – Índice de Vantagens Comparativas Revelada Simétrica dos principais players do óleo de soja.
Análise do período de 2008 a 2016.
ARGENTINA
IVCRS
BRASIL
EUA
116
Na qualidade de grandes consumidores de óleo de soja, o Brasil e os EUA não geraram excedentes
exportáveis de óleo em níveis que permitissem a ambos os países atingirem uma maior vantagem
comparativas na comercialização externa desse produto.
Os indicadores de IVCRS do Brasil apresentaram-se superiores aos estimados para os EUA em todo o
período analisado, com o índice do EUA chegando a negativo, entrando em desvantagem comparativa. Em
se tratando da Argentina e do resto do mundo, percebe-se que eles detêm vantagens comparativas,
reveladas em relação ao Brasil e aos EUA, na exportação de óleo de soja. O Gráfico 5 traz a mesma análise
do índice de Vantagem Comparativa, porém com o farelo de soja. Mostra-se similar aos resultados obtidos
com óleo de soja.
Gráfico 5 – Índice de Vantagens Comparativas Simétrica dos principais players do farelo de soja. Análise
do período de 2008 a 2016.
EUA
IVCRS
ARGENTINA
BRASIL
Ano
A participação no segmento de farelo declinou principalmente pela vantagem crescente apresentada pela
Argentina - o país líder nas exportações mundiais de farelo. Sem grandes investimentos na ampliação da
capacidade de processamento da soja no Brasil a Argentina mostrou-se muito mais competitiva e
desbancou o Brasil e EUA da principal posição de exportador de farelo.
6 CONCLUSÃO
O complexo agroindustrial da soja apresentou, no período 2005 a 2016, modificações na sua composição e
no comportamento das exportações brasileiras e paranaenses. O complexo soja foi importante indutor de
crescimento e gerador de divisas para o país.
A competitividade da soja no Brasil cresceu também em função da abertura comercial após 1990. Entre
1997 e 2004, os incentivos tributários, como isenção de ICMS - Lei Kandir – favoreceram a exportação de
produtos menos elaborados. As barreiras não tarifárias sobre o óleo de soja também desestimularam até
recentemente a dinâmica e só foi superada com a diversificação de mercado.
Os Índices de Vantagens Comparativas Revelada se apresentaram no complexo de soja da Argentina e do
Brasil maiores comparadas ao Estados Unidos, atualmente o país que mais exporta soja do mundo. Isto
pode ser evidenciado pelo fato que as exportações de soja em grão serem mais representativas nas
exportações da Argentina e do Brasil, pois as exportações deste produto equivaleram a 6% e 10% das
exportações da Argentina e do Brasil respectivamente, enquanto dos Estados Unidos equivaleu a 2% das
exportações totais. 117
Um dos maiores desafios do Brasil é viabilizar a agregação de valor às exportações de soja, em especial
para a China, principal mercado consumidor deste produto. Para tanto, em termos de política econômica,
admite-se a necessidade da adoção de políticas públicas (ou de incentivos a iniciativa privada ou parcerias
público-privadas), pois existe a necessidade de interação mais intensa da cadeia de soja com os demais
complexos e incremento de recursos públicos para políticas de pesquisa e desenvolvimento do complexo,
Administração Rural – Volume 4
em função do potencial nacional da atividade, bem como o incentivo a instalação de novas e modernas
indústrias de esmagamento da soja, com maior capacidade de processamento e escoamento.
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119
Administração Rural – Volume 4
Capítulo 9
A cadeia produtiva da cachaça no Piauí: Um estudo de
caso no Município de Castelo do Piauí
Gerardo Nogueira Lima Neto
Edivane de Sousa Lima
120
Administração Rural – Volume 4
1. INTRODUÇÃO
A cachaça, bebida genuinamente brasileira, tem sua importância reconhecida desde a época colonial,
especialmente na região Nordeste, onde havia a maior concentração de grandes engenhos de cana-de-
açúcar. Ao longo do tempo, essa bebida passou a fazer parte da preferência gastronômica de consumidores
de várias classes sociais das áreas urbanas e rurais.
Segundo Oliveira et. al. (2008), a cachaça vem ganhando destaque como um produto importante do
agronegócio no Brasil, conquistando um espaço cada vez maior na pauta de exportações do país.
Justificando a citação desse autor, alguns pontos como a adequação dos produtores às legislações vigentes,
a busca pela formalização e também o reconhecimento da cachaça como produto genuinamente brasileiro.
Contudo, há diversos empecilhos que têm dificultado o seu avanço citando, por exemplo, a falta de apoio
do governo, alta carga tributária, a informalidade, dentre outros.
Segundo o Instituto Brasileiro da Cachaça (IBRAC, 2012), o setor conta com um nível de informalidade em
torno de 15%, com capacidade de instalação de 1,2 bilhão de litros. Há cerca de 4 mil empresas registradas
que geram em torno de 600 mil empregos diretos e indiretos, tendo como principais estados produtores:
São Paulo, Pernambuco, Rio de Janeiro, Ceará, Bahia e Minas Gerais que juntos foram responsáveis por 17
milhões em exportações no ano de 2011.
Segundo Silva (2016), na região Nordeste, o setor produtivo de cachaça é caracterizado pela
predominância de micro e pequenos produtores, sendo o produto em grande parte comercializado
regionalmente. Entre os maiores produtores dessa região, estão Pernambuco, Ceará e Paraíba, juntos,
concentram 20% da produção nacional.
Segundo o site Mapa da Cachaça (s.d), no Piauí, a produção de cachaça ainda é pequena com relação à
participação das empresas atuantes no mercado regional e nacional, porém, algumas variedades da
cachaça vêm obtendo destaque tanto no mercado nacional quanto no mercado internacional, com isso,
essas empresas piauienses buscam se firmar no mercado ao lado de outras marcas já consolidadas no país
e no mundo. Além de Castelo do Piauí, há outras empresas atuantes no mercado piauiense, porém, o
número ainda é inexpressivo.
A produção de cachaça no município de Castelo do Piauí iniciou em 1956, na fazenda que tem o mesmo
nome. Essa fazenda existe há mais de cem anos, inicialmente começou explorando a atividade
agropecuária e após algum tempo voltou-se para a produção de rapadura mas, devido à retração da
demanda por rapadura no mercado, a empresa decidiu investir na produção de cachaça. A princípio, essa
produção atendia apenas a cidade de Castelo do Piauí, ao longo do tempo, a cachaça de origem castelense
começa a ganhar notoriedade dentro do estado do Piauí, onde é distribuída sua produção e aos poucos ela
começa a ser distribuída para outros estados do Brasil.
Com base nesse contexto, o objetivo geral deste trabalho consiste em analisar a cadeia produtiva da
cachaça no município de Castelo do Piauí nos segmentos da produção, do beneficiamento, do fornecimento
de insumos e da distribuição, na intenção de identificar oportunidades e desafios dessa cadeia produtiva.
2. CADEIA PRODUTIVA
O conceito de cadeia produtiva surgiu na França na década de 1960 através do termo Filliére29 aplicado ao
agronegócio, representando a forma moderna de pensar a agricultura, recentemente, tem sido
incorporada, a esse conceito, a ideia de cadeia de valor, conceito mais abrangente que engloba todos os
valores nas fases de comercialização, da distribuição, dentre outros (MORVAN,1985, apud, ARAÚJO, 2010;
KLIEMANN, 2003).
A análise da cadeia produtiva de um produto tem permitido visualizar as ações e as interrelações entre
todos os agentes que a compõem e dela participam.
121
29Significa (fileira=cadeia), ou seja, uma sequência de operações que conduzem à produção de bens, cuja articulação é
amplamente influenciada pelas possibilidades tecnológicas e definida pelas estratégias dos agentes. Estes possuem
relações interdependentes e complementares, determinados pelas forças hierárquicas
(MORVAN,1985, apud, ARAÚJO, 2010; KLIEMANN, 2003)
Administração Rural – Volume 4
Nesse sentido, tem facilitado a caracterização e a transformação dos insumos em ciclos de produção,
distribuição e comercialização dos bens e serviços; somando-se a essas características implica também na
divisão do trabalho nas diferentes etapas do processo produtivo além do reconhecimento do papel
desempenhado pela tecnologia e as estratégias das empresas e das associações (ARAÚJO, 2010; HAGA,
2008; OLIVEIRA, 2005).
Esta ideia é complementada por Souza [Link]. (2001) que menciona também a importância do ambiente
institucional representado pelas leis federal, estadual e municipal e os aspectos culturais através dos
costumes, da cultura, da etnia e das tradições que são responsáveis, em algum grau, em diferenciar a
sociedade e influenciar, de certa forma, o ambiente produtivo e organizacional por meio de políticas
públicas setoriais voltadas à modernização do setor.
No Brasil, os estudos e as análises de cadeias produtivas surgiram na década de 1980, em movimentos
mais organizados em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Nessa época, surgiram a Associação Brasileira de
Agrobusiness (ABAG) e o Programa de Estudos dos Negócios do Sistema Agroindustrial da Universidade
de São Paulo (Pensa/USP). Essa visão tem sido ampliada recentemente para os chamados Clusters30
agroindustriais que procuram mostrar as integrações e interrelações entre cadeias produtivas em um
espaço delimitado. Exemplo desse tipo têm sido as cadeias produtivas da soja e do milho interligadas
diretamente a montante e a jusante com outras cadeias produtivas – aves e suínos (ARAÚJO, 2010).
A receita chegou às mãos de alquimistas que também acreditavam no seu poder medicinal. A bebida
passou até a receber o nome de “Água da Vida”.
Historicamente, atribui-se aos egípcios os primeiros indícios da bebida, que a
utilizavam na cura de moléstias (inalando os vapores de líquidos aromatizados
e fermentados). Na Grécia, detectaram-se registros da produção da acqua
ardens (água que pega fogo), ou água ardente, no Tratado da Ciência escrito por
Plínio, o velho (23 a 79 D. C.), que relata o modo de coletar o vapor da resina de
cedro, do bico de uma chaleira, com um pedaço de lã, dando origem ao al kuhu.
Mais adiante, alquimistas passam a estudar e analisar a água ardente,
atribuindo a ela propriedades místicomedicinais. Era o surgimento da água da
vida – eau de vie –, que era receitada como elixir da longevidade. (SEBRAE,
2012 p.10)
Para Battisti [ca. 2012], os primeiros equipamentos usados para destilar a cachaça, que são similares aos
utilizados hoje, foram desenvolvidos e utilizados pelos árabes, originando o destilado que se chama “al
raga”, que daria origem ao “arak”. Essa bebida é resultado de uma mistura de licores de anis. Com o intuito
de intensificar a exploração dos recursos disponíveis na colônia brasileira e, assim, incentivar a imigração
dos portugueses nas novas terras, Portugal traz a cana-de açúcar ao país que, ao longo do tempo, teria
papel decisivo na produção do destilado nacional. Hoje, a cachaça é reconhecida como uma bebida
tipicamente brasileira.
No Brasil, a cachaça teve origem no período colonial, época que o país estava sob a tutela socioeconômica
e política de Portugal. Nesse período, a produção da cachaça ocorreu em conjunto com a produção do
açúcar e coincidiu com a intensificação do tráfico de escravos, a qual era utilizada como moeda de troca na
compra e venda de escravos. [MOSER et. al. (2009); OLIVEIRA et. al. (2008), MAIA e CAMPELO (2006)]
De acordo com o Sebrae (2012), a versão que realmente é aceita, consta que os portugueses já tinham uma
experiência com a bagaceira e, assim, teriam aproveitado para produzir o destilado que era à base da cana-
de-açúcar. Logo, o termo “cachaça” originou-se do espanhol “cachaza” cujo significado era “bagaceira
inferior”, desta forma:
Apesar das várias versões sobre a origem da cachaça brasileira, o certo é que a
sua história no Brasil, tendo como principais protagonistas a cana-de-açúcar, o
escravo africano e o imigrante português, que, juntos, numa terra de índios,
criaram a bebida que mais simboliza o espírito descontraído dos brasileiros.
(SILVA, 2006, p. 27)
Com o sucesso da produção da cachaça no Brasil, surgiu o interesse de Portugal em substituir a bebida que
vinha de Portugal e, nas palavras de Braga e Kiyotani (2015), à medida que a cachaça conseguia espaço e
conquistava os paladares, ela se tornava uma concorrente direta das outras bebidas, inclusive a bebida
feita pelos portugueses.
Vila Castelo, e, em 1942, por força da legislação que proibia a duplicidade entre nomes, volta a ser
chamada de Marvão até 1948, onde finalmente herda o nome de Castelo do Piauí, elevada à categoria de
cidade em 1949.
O município possui área de 2072,9 km², está situado na Mesorregião Centro Norte Piauiense, na
microrregião de Campo Maior. No último censo realizado pelo o IBGE, em 2010, a população era de 18.336
habitantes e uma densidade demográfica de 9,01 hab/km². O índice de desenvolvimento humano é de
0,587 conforme o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) medido em 2010 (ATLAS,2013).
Gráfico 1- Total de encargos pagos pela empresa na produção da cachaça por litro no ano de 2018.
126
32Empresa que emprega menos de 250 pessoas e com um volume de negócios anual que não excede 50 milhões de
reais, e que não está classificada como micro ou pequena empresa. Disponível em:
[Link]
Administração Rural – Volume 4
33 O grau Brix é a quantidade de sólidos solúveis no sumo de frutas e em outros produtos líquidos, tais como, caldo de
cana, melado, melaço, xarope de frutas. Como esses sólidos são, em grande parte representados pelos açúcares totais, 127
ele às vezes também é utilizado como estimativa de açúcares.
Uma unidade de brix corresponde a 1g de sólidos solúveis em suspensão em 100g de solução (% m/m ou %m/v) à
uma determinada temperatura. Disponível em: [Link] 24 Grau
GL é a fração em volume que representa a quantidade em mililitros de álcool absoluto, é indicado em bebidas através
de (%Vol). Disponível em: [Link]
[Link]
Administração Rural – Volume 4
[Link]. EXPORTAÇÃO
A cachaça mangueira é distribuída somente no Piauí e não há previsão de quando será exportada para
outros estados e países, no entanto, há interesse dos empresários exportá-la para outros países.
Entretanto, não tem havido incentivo por parte do governo ou outros órgãos públicos, além da existência
de barreias sanitárias impostas por países importadores, o que dificulta sua inserção no mercado 128
internacional.
Administração Rural – Volume 4
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta pesquisa se propôs a entender o funcionamento da cadeia produtiva da cachaça no município de
Castelo do Piauí. Através de um estudo de caso, é possível perceber de que forma está organizada essa
cadeia e como os agentes trabalham de forma harmônica, desde o plantio da cana-de-açúcar até a
obtenção do produto final. Há uma organização verticalizada, onde o produtor atua em todas as etapas
dessa cadeia, desde o plantio da matéria-prima, passando pela fabricação do produto final e sua
comercialização.
A pesquisa revela, também, as dificuldades encontradas para a distribuição da cachaça no mercado interno
e a sua inserção no mercado externo, seja por falta de incentivo ou outros entraves que dificultam a
expansão para esses mercados.
Os gargalos são problemas que empresas têm em seu processo produtivo e que limitam sua capacidade
final de produção, reduzindo sua produtividade. Para minimizar esses gargalos sob o ponto de vista
econômico é possível, por exemplo, a empresa buscar um equilíbrio na sua produção, melhorar sua
logística de distribuição, produzir sustentavelmente para alcançar a competitividade no mercado. Não é
fácil localizar gargalos e mais difícil, é eliminá-los. Mas, buscar uma solução para o problema, é crucial para
manter a competitividade, uma vez que sua existência é detectada, pode representar enormes custos, no
entanto, sua eliminação pode trazer uma eficiência econômica.
Na pesquisa de campo aplicada neste trabalho, é possível perceber alguns gargalos que limitam a
produção e a distribuição. No processo de produção são encontrados alguns problemas no plantio da cana-
de-açúcar, por exemplo, não há tecnologias que minimizem as perdas da cana devido à seca que ocorre em
alguns períodos. As máquinas utilizadas não estão em pleno emprego, o que gera um déficit de produção e,
consequentemente, impacta na distribuição final do produto.
Na distribuição do produto, é possível constatar que a logística ainda é falha em alguns aspectos. O fato da
empresa possuir poucos veículos para a distribuição do produto final, limita sua participação em outros
estados Para conseguir eliminar esses gargalos encontrados, uma possível alternativa seria investir em
mais tecnologias que possam maximizar sua produção, otimizando, em parte, sua distribuição nos
mercados onde atua e melhorar sua competitividade frente a outras concorrentes já estabelecidas no
mercado.
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[8] IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2010. Rio de Janeiro: IBGE, 2012.
Disponível em: <[Link] Acesso em: junho. 2018.
[9] IBRAC. Instituto Brasileiro Da Cachaça. Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da cachaça, Brasília, p. 1-17, fev.
2012. Disponível em: <[Link]
[Link]>. Acesso em: 21 jun. 2017.
[10] Kliemann, F. J.; SOUZA, S. O. Desenho, Análise e Avaliação de Cadeias Produtivas. Porto Alegre; Bookmamn,
2003
[11] Mapa da Cachaça. Mangueira tradicional. Disponível em:
<[Link] Acesso em: 23 nov. 2017.
[12] Meira, Etienne Desireé. A Cachaça Morretiana: Uma Tradição Inventada?. A Cachaça Morretiana: Uma
Tradição Inventada?, Curitiba, jan. 2010.
Disponívelem:<[Link] pdf>.
Acesso em: 02 out. 2017
[13] Moser, D. D. N. et al. A Influência da Imagem da Cachaça no Brasil em sua Internacionalização: O Caso da Pitú
na Alemanha. A Influência da Imagem da Cachaça no Brasil em sua Internacionalização: O Caso da Pitú na Alemanha,
São Paulo, set. 2009. Disponível em: <[Link] Acesso em: 27 ago. 2017.
[14] Oliveira, C. R. D. et al. Cachaça de Alambique: Manual de Boas Práticas Ambientais e de Produção, Belo
Horizonte, p. 1-72, jun. 2005. Disponível em:
<[Link] aca_040805.pdf>.
Acesso em: 07 dez. 2017.
[15] Oliveira, A. R. D. et al. Análise da Cadeia Produtiva da Cachaça em Minas Gerais Sob a Ótica da Economia dos
Custos de Transação. Custos e @gronegócio online, Lavra, v. 4, n. 3, p. 72-97, out/mar. 2009. Disponível em:
<[Link] Acesso em: 17 ago. 2017.
[16] Oliveira, Ana Márcia Lara. O Processo De Produção Da Cachaça Artesanal E Sua Importância Comercial, Belo
Horizonte, p. 1-55, mai. 2010. Disponível em:
<[Link]
_2.pdf?sequence=1>. Acesso em: 25 dez. 2017.
[17] Prochnik, Victor; Haguenauer, Lia. Cadeias produtivas e oportunidades de investimento no nordeste
brasileiro. XIV Congresso Brasileiro de Economistas, Recife, p. 1-18, set. 2001. Disponível em:
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vestimento_no_nordeste_brasileiro.pdf>. Acesso em: 04 out. 2017.
[18] Sebrae. Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. Cachaça Artesanal: Série de Estudos
Mercadológicos, [S.L], p. 1-84, jun. 2012. Disponível em:
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83e8debad2d7f38f49e848f449/$File/[Link]>. Acesso em: 09 out. 2017.
[19] _______ Potencial Da Cachaça Brasileira, São Paulo, p. 1-6, abr./mai. 2014. Disponível em:
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Acesso em: 23 jan. 2018.
[20] Silva, J. M. da. (2006). Cachaça: o mais brasileiro dos prazeres. São Paulo: Anhembi Morumbi.
[21] Souza, M. P. D. et al. Governança em Cadeias Produtivas Agroindustriais, Porto Velho, p. 1-20, jan. 2001.
Disponível em: <[Link] Acesso em: 13 set. 2017.
[22] Yin, Robert K. Estudo de Caso, planejamento e métodos. [Link]. São Paulo: Bookman, 2001.
130
Administração Rural – Volume 4
Capítulo 10
Extensão rural e tecnologias de informação e
comunicação: Aportes Institucionais da FAO, revisão
de literatura e relatos de uma iniciativa público-
privada em países da América do Sul
Marcos Roberto Pires Gregolin
Adriana Calderan Gregolin
Marcos Contreras Urra
Renato Santos de Souza
1 INTRODUÇÃO
Na atualidade, a agricultura familiar é considerada protagonista e um dos alicerces da configuração do
espaço rural brasileiro. Segundo Elesbão (2007) as transformações que aconteceram no Brasil Rural
podem ser classificadas em quatro, a quebra do ciclo do café, a modernização da agricultura, o processo de
êxodo rural que se agrava ao longo dos tempos e o reconhecimento da agricultura familiar como um
segmento importante dentro deste campo.
Esta agricultura familiar pode ser vista por diversos prismas. Para alguns, é este o segmento que mantem a
diversidade da produção de alimentos, para outros é onde ainda se preserva o meio ambiente, outros
ainda a caracterizam como espaço de atraso. Para Ignacy Sachs ela deve também ser encarada como
alavanca do desenvolvimento rural. Mas isso exige, além do acesso à
terra, acesso ao conhecimento, às tecnologias apropriadas, às
infraestruturas (estradas e energia além de água para irrigação), ao
crédito e aos mercados. (SACHS, 2003, p. 33).
A extensão rural cumpre um papel mister para que a agricultura familiar possa obter os acessos
anteriormente apresentados. Dias (2008) atribui um papel fundamental, tanto a extensão rural como ao
extensionista para se promover o acesso a políticas públicas (nesse caso tem-se políticas públicas de
acesso aos mercados, ao crédito, a infraestrutura, tecnologias, inovação, etc) e a promoção do
desenvolvimento. Corrobora este entendimento a teorização apresentada por Peixoto (2008) de que a
extensão rural desempenha um papel fundamental na promoção de desenvolvimento para os pequenos
produtores.
Ao se retomar um histórico não muito longo da trajetória da extensão rural em países da América Latina,
nota-se um primeiro momento de franca expansão, com forte apoio dos Estados Unidos, onde recursos
nacionais e internacionais fomentaram muitos projetos e programas, cujo objetivo principal era de
modernizar e incrementar a produtividade por meio de transferências de tecnologias (LANDINI, 2015).
Dados apontados por Marinho, Gregolin e Diesel (2018) dão conta de que a extensão rural, desde suas
origens, (sobretudo o modelo americano) consolidou sua práxis tendo por base, visitas individuais,
atividades coletivas, cursos, demonstrações e outros, práticas estas que se mantem até os dias atuais nos
manuais de extensão rural. Contudo, tais orientações e ferramentas sugeridas pelos manuais têm como
sustentáculo a presença física de extensionistas atuando no campo, situação está que requer um número
considerável de profissionais, estrutura logística além de custeio para as ações.
Porém, por motivos diversos, (e não nos cabe aqui discuti-los), a partir do início dos anos 80, deu-se um
drástico ataque, com cortes de recursos e até extinção de órgãos públicos de ATER, (PEIXOTO, 2008;
DIESEL et al, 2008), e nesse cenário a atuação do extensionista começa a ter limitações estruturais bem
como as próprias instituições de ATER, com número reduzido de profissionais, passam a diminuir sua
atuação.
Por outro lado, a pesquisa de Singh e colaboradores (2018), dá conta de que informações do Banco
Mundial demonstram um gasto maior do que 10 bilhões de dólares nos programas públicos de extensão
nas últimas cinco décadas em nações desenvolvidas. Prosseguindo a apresentação de seus resultados
afirmam que em 2010 o Governo da índia investiu USD $300 milhões em pesquisa Agrícola e mais USD 60
milhões nos programas convencionais de extensão pública. Contudo, nem sempre se avalia positivamente
os recursos investidos em termos de eficiência e eficácia de resultados junto ao público beneficiado, pois
“apesar dos enormes investimentos, muitos agricultores ainda não estão familiarizados com as mais
recentes tecnologias agrícolas” (SINGH, 2018, p. 08).
Por mais que em alguns momentos nos peguemos avaliando e ou escrevendo a respeito das práticas
extensionistas e o seu distanciamento ou aproximação com modelos tidos como superados de extensão,
nota-se que esforços são conduzidos com o intuito de qualifica-la e deixa-la menos invasiva a realidade
dos agricultores, mais participativa e menos difusionista, mais dialógica e menos impositiva. Para
Abramovay, um exemplo de toda essa intencionalidade se revela quando um grupo de entidades e
extensionistas se põem a dialogar sobre a
132
necessidade de uma definição que não seja puramente instrumental de
seu trabalho. Se o extensionista enxergasse o seu papel como o de
simplesmente levar algumas técnicas produtivas aos agricultores, não
haveria por que aprofundar-se quanto ao marco ético-filosóficos de sua
ação (ABRAMOVAY, 1998, p. 143).
Administração Rural – Volume 4
De acordo com Diesel (2012) um grupo de instituições de cooperação internacional, buscando novas
metodologias diferentes do Método Treino & Visita, do Banco Mundial, em 1995 se reuniram para dialogar
a respeito de quais rumos poderiam ser dados aos processos de extensão rural. De desta reunião surge o
Grupo Neuchâtel. Dentre as publicações de algumas organizações que compõem este grupo, nota-se um
lugar de destaque dado para as Tecnologias de Informação e Comunicação – TIC´s, como uma ferramenta
para se promover o Desenvolvimento Agrícola, Rural e Sustentável, lançando mão de novas ferramentas
menos caras e de amplo alcance. Dentre estas publicações citam-se achados no Global Forum for Rural
Advisory Services (GFRAS), no Modernizing Extension and Advisory Services (MEAS34), no Technical
Centre for Agricultural and Rural Cooperation ACP-EU (CTA) e na Food and Agriculture Organization of
the United Nations (FAO).
No universo de publicações do GFRAS, percebem-se diversos textos onde um dos componentes é a
utilização das TIC´s por parte dos extensionistas. Cita-se nesse sentido o Guia para avaliar a extensão rural
de 2012, o manual intitulado O “Novo Extensionista”: Funções, Estratégias e Capacidades para Reforçar os
Serviços de Extensão e Consultivos de 2013 e o curso “Kit de Aprendizagem do Novo Extensionista” de
2016.
Compõe também a estratégia do GFRAS a publicação de notas, geralmente em inglês ou francês, com o
objetivo de informar os extensionistas sobre novidades em tecnologias e como utilizar antigos e novos
meios de comunicação no dia-a-dia da atuação profissional. Neste grupo citam-se as seguintes notas:
NOTA 3: Serviços “empacotados” baseados em dispositivos móveis: exemplo de dispositivos móveis da
Agri-Fin; NOTA 6: Vídeos para extensão agrícola; NOTA 11: Navegando nas TICs para serviços de extensão
e consultoria; NOTA 15: Mídia Social para Serviços de Assessoria Rural; NOTA 16: Portais Web para
Extensão Agrária e Serviços de Consultoria; NOTA 17: Extensão - Telemóveis para Serviços de Consultoria
Agrícola; NOTA 18: Usando o rádio em extensão agrícola.
Sobre as publicações do MEAS, faz-se referência ao manual de 2013, intitulado Opções e estratégias para o
uso das TIC´s nos serviços de extensão. De acordo com este manual
A construção de uma estratégia eficaz de TICs requer uma compreensão
completa das funções de extensão. (...) as funções de extensão são:
encaminhar agricultores para mercados; aumentar a consciência geral
das oportunidades; fornecer informações técnicas, demonstrar ou
treinar; diagnosticar problemas e recomendar soluções; Auxiliar o
seguimento a responder questões do mercado; fornecer informação em
massa; facilitar o acesso ao crédito e aos insumos; ajudar com
planejamento de negócios; e realizar pesquisas, monitoramento e
avaliação e estatísticas (MEAS, 2013, p.06).
Este manual também salienta que dado o cenário atual, as TIC´s cada vez tem maior importância, haja vista
que a extensão rural é recorrentemente solicitada a fazer mais com menos recursos. Tendo por base este
manual, as TIC´s podem ser definidas como complicadas e ao mesmo tempo como simples. “A simplicidade
é que no centro é o processo de comunicação. A complexidade é encontrada na escolha do destinatário,
bem como na escolha do tipo de informação além da escolha do formato ideal para essa informação”
(MEAS, 2013, p.22).
A respeito da atuação do CTA35, pode-se dizer que além de realizar publicações diversas, também tem se
dedicado a organização de eventos, debates e seminários sobre o tema das TIC´s na extensão rural.
Referencia-se neste momento um deles, uma conferência intitulada “EXTENSION IN ICT OVERDRIVE” em
novembro de 2013. Tal evento contou com a participação de expertos do MEAS, GFRAS e do próprio CTA
para debater os seguintes temas: TIC´s para a extensão agrícola: onde estamos e como avançar?36;
Revisitando a extensão com a mudança da arquitetura da informação: as perspectivas do CTA37;
133
34 MEAS e um centro ligado a USAID (US Agency for International Development) e a UNIVERSITY OF ILLINOIS AT
URBANA-CHAMPAIGN.
35 A CTA é uma instituição internacional que aglomera países da África, Caribe e Pacífico (ACP) e da União Européia
Mensagens de texto a distância: as TICs como ferramenta para melhorar a extensão?38; Colocar o cavalo na
frente do carrinho: uma abordagem estratégica para projetar a extensão suportada pelas TIC´s39; e
Aproveitando tecnologia e redes sociais para amplificar a extensão agrícola40.
Em resumo, para o CTA, a extensão rural atualmente enfrenta novos desafios, onde novas configurações
globais impõem que o serviço seja mais amplo, com mais capacidade e com profissionais melhores
preparados. Os conferencistas presentes nesse evento acreditam que as TIC´s podem oferecer
oportunidades extraordinárias para enfrentar os desafios emergentes da extensão rural, contudo, há que
se considerar a integração das TIC´s como elemento-chave da agenda de reforma de extensão.
Sobre os trabalhos da FAO, nota-se um grande contingente dos que em suas páginas dedicam um espaço
para abordar as TIC´s. Contudo, usa-se este espaço para elencar alguns apontamentos oriundos de uma
publicação de 1997, com o título “Melhorando a extensão agrícola: um manual de referência”. Neste
manual, já em 1997 se previa que as TIC´s se apresentariam como suporte para a extensão rural, haja vista
que “A necessidade de informação agrícola e rural e serviços de consultoria provavelmente se intensificará
no futuro” (FAO, 1997, p. 17).
Este manual salienta que uma agricultura inserida em contextos sociais e econômicos como os atuais
necessita trabalhadores que saibam onde acessar informações relevantes pra solucionar os problemas que
se apresentam. Neste sentido, nota-se um papel de pró-atividade esperado de um trabalhador rural, ou
seja, no nosso contexto um agricultor familiar. Esse perfil proativo é resultado e também demanda de
meios de comunicação mais interativos, os quais se diferenciam em muitos aspectos daqueles meios de
comunicação utilizados na extensão rural em tempos passados, ou seja, “a TI trará novos serviços de
informação às áreas rurais, onde os agricultores, como usuários, terão um maior controle do que recebem
nos atuais canais de informação” (FAO, 1997, p. 18).
O rápido e contínuo desenvolvimento das tecnologias de informação é
provavelmente o maior fator de mudança na extensão, que irá facilitar e
reforçar outras mudanças. Existem muitas possibilidades para as
aplicações potenciais destas tecnologias na extensão agrícola (FAO, 1997,
p. 18).
Justifica este estudo, em primeira instância, a curiosidade acadêmica em conhecer as recomendações de
organismos internacionais sobre as Tecnologias de Informação e Comunicação – TIC´s e em um segundo
momento a análise prática de como se dá a utilização dessas ferramentas em uma dada realidade.
Metodologicamente, valeu-se de pesquisa bibliográfica para elucidar questões referentes às TIC´s, suas
aplicações e a gama de ferramentas que constam nesse universo, pesquisa documental para conhecer as
recomendações do GRAS, MEAS, CTA e FAO. Estes organismos internacionais foram escolhidos, levando
em consideração i) a vanguarda constatada em artigos de revisão sobre a cooperação internacional
(DIESEL, 2012) e ii) a facilidade com que se tem acesso a estas publicações. Dentre as quatro, optou-se
pelo aprofundamento nas publicações na FAO, haja vista a grande oferta de materiais, tais como livros,
manuais, relatórios de encontros, documentos em geral, projetos, materiais mistos e periódicos (FAO,
2018). A respeito elucidação de como se dá a utilização dessas ferramentas em uma dada realidade, optou-
se pela pesquisa documental e pela observação participante empreendida pelos autores, a sistematização
das informações nesse tópico se deu, por base de uma adaptação da ferramenta 5W2S e do hexâmetro de
Quintiliano.
2 DISCUSSÃO
Na seção que segue, apresentam-se os resultados da pesquisa bibliográfica sobre o tema, os resultados da
pesquisa documental sobre as TIC´s nos documentos da FAO e um relato sobre a utilização dessas
ferramentas em uma dada realidade.
134
38 Maximo Toreto. Diretor, Mercados, Comercio e Instituiçoes. Instituto Internacional de Pesquisa em Políticas
Alimentares – IFPRI.
39 Andrea Bohn. Programme Manager, Modernising Extension and advisory Service - MEAS
40 Rikin Ghandi. CEO – Digital Green.
Administração Rural – Volume 4
41 Nota-se tambem a preocupaçao da FAO, ja em 1972, quando publica o “Agricultural Extension. A Reference Manual”,
e destina capítulos inteiros para tratar da efetividade da comunicaçao na extensao e orientaçoes de uso de
ferramentas de comunicaçao e informaçao para potencializar a açao do extensionista. Neste manual ja se identifica
a divisao de metodos individuais, metodos grupais e metodos de massa.
Administração Rural – Volume 4
envolvidos. De acordo com, Duarte e Soares (2011) as TIC proporcionam uma Extensão Rural e uma
Comunicação rural de baixo custo,
com maior rapidez de fluxo e melhor codificação pedagógica da
mensagem extensionista, na medida em que permitem ambientes
multimídia e interativos (cursos on-line, recebimento de informações por
celular, acesso remoto à internet, lista de discussões, entre outras
possibilidades) (DUARTE, SOARES, 2011, p. 417).
Nesse âmbito cabe referenciar a EMATER do estado do Rio Grande do Sul, que em 2009 publica um
manual (Métodos e Meios de Comunicação e Extensão Rural) e nele replica a ênfase, já presente em um
manual de extensão rural da FAO de 1972, nos métodos individuais, grupais e nos meios de comunicação
de massa. Rádio, televisão, filmes ou DVD, jornal, artigo especializado são meios sugeridos pela EMATER
que vão de encontro com as recomendações de outrora, porém, nota-se um esforço em assimilar ou no
mínimo contextualizar os extensionistas para a utilização de outras ferramentas mais modernas, tais como
o correio eletrônico, website, ferramentas de comunicação instantânea ou de chat, blog, vídeo conferência
ou teleconferência. O manual é claro ao informar os leitores que estas ferramentas
não permitem o contato direto entre o extensionista e seu público, mas
apresentam um custo unitário bastante baixo pelo grande número de
pessoas atingidas e pela rapidez com que as mensagens chegam até ao
público. Prestam-se para estimular interesses, criar ansiedade e atrair a
atenção (EMATER-RS, 2009, 19).
Na atualidade diversos estudos são realizados para discutir o uso destas tecnologias pela agricultura
familiar e para a agricultura familiar, tendo por razão a otimização de “processos de gestão, marketing,
comunicação, organização, comercialização e outros” (GREGOLIN et al., 2017, p. 624).
Algumas pesquisas são otimistas, como o caso de Felippi, Deponti e Doenelles (2017), que afirmam que os
agricultores familiares “estão tendo acesso às recentes ofertas em tecnologia da informação e da
comunicação, tratando-se especificamente aqui do celular e do computador com internet” (FELIPPI,
DEPONTI, DOENELLES, 2017, p. 10). Para esses autores
O acesso a bens simbólicos e, por meio deles, à informação e ao
conhecimento, se não garante, carrega o potencial da inclusão dos grupos
sociais, seja no sistema produtivo ou na vida social de um modo geral. No
espaço rural, historicamente menos privilegiado em relação ao urbano
quanto à presença das tecnologias de informação e de comunicação, tem
vivido nos últimos anos a chegada da nova mídia. No entanto, o acesso a
essas tecnologias não ocorre de maneira uniforme, oscilando conforme a
presença de maior ou menor infraestrutura e as possibilidades
financeiras de acesso à tecnologia dos usuários (FELIPPI, DEPONTI,
DOENELLES, 2017, p. 26).
Outros estudos dão conta de uma opinião um pouco mais pessimista ao afirmarem que “somente o acesso
das famílias de agricultores às novas tecnologias e uma infraestrutura adequada não garantem, por si só, a
utilização das TIC” (DEPONTI, KIRST, MACHADO, 2017, p. 4).
Nota-se, tendo por base o Manual de Boas Práticas de ATER (SEAD, INCRA, ANATER, 2016), que o rádio e a
televisão ainda são tidos como meios de comunicação úteis para a ATER. Tem-se como exemplo o
programa de Televisão Minas Rural, o qual, segundo os gestores da EMATER - MG, apoia “na disseminação
de conhecimentos” com conteúdo “informativo, técnico e traz boas práticas agropecuárias e a riqueza
cultural, turística e gastronômica do Estado” (SEAD; INCRA; ANATER, 2016, p. 76). O caso do Rio Grande
do Sul ilustra a utilização tanto do rádio quanto da televisão para apoio aos processos de ATER. “O
programa Terra Sul é o primeiro televisivo brasileiro feito por uma instituição de Ater” e vai ao ar tanto
em cadeia Nacional, nas terças feiras e em cadeia estadual nos sábados. Outro programa é chamado Rio
Grande Rural, e vai ao ar também em uma edição nacional e outra estadual. “É uma revista semanal, com
reportagens técnicas-educativas, entrevista com especialistas, cotações, fatos e agenda da semana, além de 136
receitas”. Sobre o Rádio, a instituição da conta de que são produzidos nove formatos de programa e estes
são “exibidos diariamente por 122 emissoras, sendo 110 do interior do Rio Grande do Sul e 12 da capital”.
Para o Gestor da EMATER – RS, a utilização destes e de outros meios, “serve para estruturar sistemas e
criar canais que fomentem o diálogo com os produtores, suas organizações e segmentos da sociedade, de
Administração Rural – Volume 4
forma ágil, dinâmica e eficiente, propiciando a socialização das informações” (SEAD; INCRA; ANATER,
2016, p. 83).
Outras experiências são referenciadas por este manual, nesta feita, sobre o uso de novas tecnologias, como
é o caso da EMATER do Paraná, que com o uso do WhatsApp®, passou a fazer a disseminar informações
em tempo real para os agricultores produtores de soja (em um número de 70), fato este que ocasionou
redução de custos para os agricultores e para a própria EMATER.
A interação, via celular, entre os 70 agricultores e a equipe de ater trouxe
redução no custo de combustível e telefone e menor desgaste da frota de
veículos do Instituto. Porém, segundo o técnico Paulo Roberto, um dos
principais benefícios é a “otimização das atividades dos extensionistas,
com a adesão dos agricultores às recomendações propostas”. “Com as
informações, o produtor sabe o estágio da soja, se as condições climáticas
estão favoráveis ou não para a disseminação da ferrugem ou mesmo se
os esporos são viáveis ou não para o surgimento da doença” (SEAD;
INCRA; ANATER, 2016, p. 79).
Outro caso a ser referenciado é o da EMATER do Estado do Rio Grande do Norte, que criou o aplicativo
Ceres Cidadão, cujo slogan é “Agricultura Familiar na palma da mão”. O objetivo deste aplicativo é
“divulgar informação e, em paralelo, visualizar o agricultor nas suas diversas dimensões, monitorando a
aplicação da Ater para medir a evolução e reaplicar a extensão com mais efeito” (SEAD; INCRA; ANATER,
2016, p. 80). Este aplicativo é utilizado tanto pelos agricultores como para a gestão de ATER. Para os
agricultores são oferecidas informações como “previsão do tempo, precipitação pluviométrica, calendário
de feiras, cursos e palestras, legislação, vídeos e cotação de preços da Central de Abastecimento do Rio
Grande do Norte (Ceasa/RN)” e para a gestão de ATER os módulos são Administrativo, cuja finalidade se
dá na gestão “de recursos humanos, de veículos e de patrimônio do Instituto” e o módulo técnico onde se
operacionalizam registros da “Atividade diária do extensionista e os dados do agricultor familiar, sua
propriedade, cultivo e criação. Contém ainda registros fotográficos e georreferenciados” (SEAD; INCRA;
ANATER, 2016, p. 81).
Contudo, há que se levar em consideração, que com o advento das TIC´s, tem-se no cenário uma poderosa
ferramenta, porém, de acordo com Viero e Silveira (2011) são unicamente ferramentas,
sua utilidade depende de como, quem e para quem se utiliza e dos
interesses que representa para os usuários. Nesse sentido, o simples fato
de estar conectado à rede não implica mudanças substanciais nas
condições dos indivíduos, empresas, comunidades ou países (VIERO;
SILVEIRA, 2011, p. 274).
Outra ressalva das autoras, complementar a supracitada, da conta de que nesses processos de
comunicação implementados no âmbito da agricultura familiar e da extensão rural, os agricultores “não
sejam vistos como meros receptores, mas também como parte atuante, atores essenciais que devem
integrar a Sociedade da Informação” (VIERO; SILVEIRA, 2011, p. 275) como ativos interlocutores e não
como meros receptores de conteúdo, em um velho processo de difusionismo, nesta feita, implementado
com apoio e novos meios.
A FAO tem sua sede localizada em Roma, além de cinco escritórios regionais, dez sub-regionais, seis de
ligação e setenta e quatro escritórios em países. Para os países da América Latina e do Caribe a FAO
trabalha com três prioridades, escolhidas pelos gestores dos países durante as conferências. Objetivo 1 -
América Latina e Caribe sem Fome; Objetivo 2 - Agricultura familiar e sistemas alimentares inclusivos
para o desenvolvimento rural sustentável; e Objetivo 3 - Uso sustentável dos recursos naturais, adaptação
às mudanças climáticas e gestão de riscos de desastres (FAO, 2018).
Em âmbito mundial
A FAO gera e compartilha informações importantes sobre alimentos,
agricultura e recursos naturais na forma de bens públicos globais. Mas
não é um fluxo de informações unidirecional. Desenvolvemos um papel
de ligação, identificando e trabalhando com diversos parceiros de
experiência comprovada e facilitando o diálogo entre aqueles que têm o
conhecimento e aqueles que precisam. Ao transformar o conhecimento
em ações concretas, a FAO vincula o campo a iniciativas nacionais,
regionais e globais em um círculo que se reforça mutuamente. Ao unir
forças, facilitamos parcerias para segurança alimentar e nutricional,
agricultura e desenvolvimento rural entre governos, parceiros de
desenvolvimento, sociedade civil e setor privado (FAO, 2018).
As esferas principais das atividades da FAO estão organizadas em cinco linhas:
Fornecer informações e apoiar a transição para a agricultura sustentável; fortalecer a vontade política e
compartilhar conhecimentos em questões políticas; Fortalecer a colaboração público-privada para
melhorar a agricultura de pequena escala; Levar conhecimento para o campo; e Apoiar os países para
prevenir e mitigar riscos (FAO, 2018).
Dentre estas linhas, nota-se que as Tecnologias de Informação e comunicação perpassam algumas com
maior evidência e outras de forma mais indireta, contudo, é notório o papel destas tecnologias na
operacionalização também dos objetivos regionais para os países Latinos e Caribenhos. Tendo esta
concepção, realizou-se busca no site da FAO ([Link] com o intuito de conhecer as
publicações que fazem referência as Tecnologias de Informação e Comunicação. Dentre os documentos
apresentados como resultado na janela temporal de 2001 a 2017, tem-se a seguinte classificação: livros
(4344), encontros (2990), documentos (1434), relatórios (577), projetos (487), seriados (274), material
misto (265), periódicos (245), boletins (35), artigos (14) e Multimídia (1).
Nota-se por meio de uma simples análise que houve de 2001 (205) até 2014 (802) uma constante
evolução nessas publicações, havendo uma queda em 2015 (711) e outra posterior queda em 2017 (707),
contudo, salienta-se que, mesmo com esta baixa, o número de publicações de 2017 é muito superior ao de
2001, quadro quantitativo que ilustra a atribuição de valor dada pela instituição ao tema bem como o
ritmo como a sociedade evoluiu no que diz respeito ao uso destas tecnologias.
Ao passo que é possível filtrar as publicações por ano também pode ser realizado uma busca detalhada
por palavras chave, ou por coleções temáticas. O gráfico que segue demonstra as coleções bem como o
quantitativo de publicações em cada uma delas de forma a ilustrar a organização das publicações da FAO
que responderam a busca simples sobre o tema em inglês.
138
Administração Rural – Volume 4
Gráfico 1. Coleções de publicações da FAO onde consta resposta ao termo “Information and
Communication Technologies”.
Nota-se que existe um grande empenho da FAO em publicar relatórios de reuniões e também avaliações
de projetos, e nestes constam referências ao tema das TICs. Sobre os “macros” temas salienta-se que
aparece em lugar privilegiado a pesca (pesca; pesca marítima; desenvolvimento da pesca; e atum) além
dos temas como desenvolvimento Agrícola, recursos genéticos vegetais, desenvolvimento sustentável e
desenvolvimento rural. Uma situação curiosa é a incidência considerável da difusão de informação,
situação está que pode nos remeter ao ideário extensionista difusionistas inovador, contudo, tal afirmação
para se tornar válida carece de uma análise específica nessas publicações, que no caso, perfazem um total
de 301. Outra situação no mínimo curiosa é o fato de Agricultura Sustentável e Pequenos Agricultores
estarem juntos em uma posição bem inferior no ranking de temas, logo após, depois de um intervalo
composto por outros temas tem-se a coleção de textos cuja “palavra” chave é “tecnologias de informação e
comunicação”.
139
Sobre os idiomas das publicações não é de se espantar que haja uma gigante discrepância entre as
publicações em inglês e as em outros idiomas. Nota-se nesse gráfico que além do inglês tem-se o francês e
o espanhol como idiomas majoritários no que diz respeito às publicações da FAO sobre o tema. O
português aparece com o pequeno número de 08 publicações, ficando atrás também do Russo, Chinês e
Arábico.
Em uma análise mais detalhada nas publicações da FAO onde consta resposta ao termo “Information and
Communication Technologies”, tem-se o grupo onde o termo figura como palavra-chave, de acordo com o
gráfico 1, nesse grupo constam 88 publicações, as quais temporalmente se organizam na seguinte
maneira:
Após uma análise detalhada das publicações dos anos de 2018 e 2017, nota-se que dos 29 resultados ficam
apenas 18. O motivo para esta quebra de 11 publicações é o fato de que muitas delas, ao serem publicadas
em dois ou três idiomas apareciam mais de uma vez na coleção.
Das 18 publicações, ao se aprimorar os critérios de filtragem, nota-se que estas podem ser organizadas
nos seguintes grupos:
42
Grandes publicações, relatos de casos ou manuais de boas práticas
43
Informativos curtos
44
Publicações de divulgação
Levando em consideração que a pesquisa não é um ato que se dá isolado das concepções e desejos do
pesquisador bem como as impossibilidades de se proceder uma análise mais abrangente neste artigo,
valeu-se dessa premissa para fazer um recorte o qual possibilitasse um melhor aprofundamento e que
dialogasse com os objetivos desse estudo. Sendo assim, optou-se por dar sequência nas análises tendo por
42 “FAO, 2017 - E-agriculture Strategy Guide”, “FAO, 2017 - Case study on the use of Information and Communication
Technology in the management of rural groundwater in China” e “FAO, 2017 - Success stories on information and
communication technologies for agriculture and rural development”
43 “FAO, 2017 - El uso de la tecnología de la informacion en la agricultura de las economías del Foro de Cooperacion
Economica Asia-Pacífico (APEC) y mas alla”, “FAO, 2017 - Fortaleciendo los sistemas de vigilancia fito-zoo sanitaria 140
del IPSA basados en el Sistema de Alerta Temprana para Mesoamerica (SIATMA)”, “FAO, 2017 - SMS Gateway
Improving animal health through Information and Communication Technologies” e FAO, 2017 - SMS Gateway
Improving animal health through Information and Communication Technologies. Information factsheet”.
44 “FAO, 2017 - Conjunto de herramientas para la Gestión Forestal Sostenible (GFS)” e “FAO, 2017 - FAO eLearning
Center – Brochure”.
Administração Rural – Volume 4
base as publicações E-AGRICULTURE STRATEGY GUIDE, de 2017, haja vista que este manual se apresenta
como um compêndio de experiências apoiadas pela instituição em diversos continentes.
No que diz respeito ao uso das TIC´s no apoio da Extensão Rural, nota-se um exemplo operacionalizado na
Índia. De acordo com FAO (2017) o serviço denominado “IFFCO Kissan Sanchar Limited (IKSL)” tem por
objetivo transformar o aparelho celular dos agricultores em um banco de informações muito dinâmico. O
agricultor ao se cadastrar junto a esta plataforma passa a receber cinco mensagens de voz por dia, 141
relacionadas com os temas de seu interesse. Ainda, este agricultor pode efetuar uma chamada de voz para
uma central onde encontrará profissionais habilitados para lhe atender e tirar as dúvidas referentes ao
seu cultivo ou situação mercadológica.
Outra experiência de êxito que também ocorre em Índia, especificamente com produtores de algodão,
onde através de mensagens de voz por telefones celulares os agricultores recebem informações
Administração Rural – Volume 4
importantes para o cultivo e manejo em suas diferentes fases de desenvolvimento do algodoeiro. Nesse
contexto é amplamente reconhecido que o uso de ferramentas de comunicação, para troca de informações
técnicas e de gestão, pode cumprir um papel central para o desafio permanente de acesso pelas famílias ao
conhecimento.
Fonte: [Link]
Vale ressaltar que nesse caso os autores salientam que a proporção de pesquisadores para agricultores é
muito alta (1 para 1.000) e aliado as longas distancias, acaba se tornando quase impossível a comunicação
com cada agricultor individualmente. É nesse sentido que
Para superar tais situações, a tecnologia da informação e comunicação
(TIC) pode ser explorada como a ferramenta mais barata, mais eficaz e
eficiente, através da qual um pesquisador pode se comunicar com
milhares de agricultores com facilidade e maior cobertura (SINGH et. all,
2018, p. 2)
Novo exemplo apresentado pela FAO é operacionalizado na Uganda e na Colômbia. O “Community
Knowledge Worker” da Fundação Grameen, que consiste em uma rede de técnicos que, por meio de
aplicativos de celular, oferece informações para agricultores sobre preços, condições climáticas,
marketing, tratos culturais dentre outros.
Segundo a FAO, a Promoção de práticas agrícolas ambientalmente sustentáveis se dá em Bangladesh por
meio do programa “Custo Zero” operacionalizado pela e-Krishok. Neste programa o agricultor ao adquirir
um pacote de insumos torna-se elegível a receber um pacote de informações e serviços de assistência
técnica “cujo valor depende do valor dos produtos” (FAO, 2017, p. 05).
A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) já em meados de 1985
colocou em campo uma ação de Gerenciamento de desastres e sistema de alerta prévio ao inaugurar a
“Rede de Sistemas de Aviso Prévio contra Fome” (FAO, 2017, p. 5). A rede se caracteriza como ator ativo
nas comunidades humanitárias e de desenvolvimento, participando de
comitês globais para melhorar a classificação, o sensoriamento remoto e
outros aspectos da análise de segurança alimentar. Também apoiamos e
conduzimos treinamento e capacitação para sistemas nacionais de alerta
antecipado, serviços meteorológicos e outras agências (FEWS, 2018).
Os relatórios são elaborados contando com a colaboração de cinco agências do governo dos estados
unidos, liderados pela USAID (NASA, NOAA, USDA, USGS) e duas empresas privadas, uma que administra
os escritórios e outra que prove as tecnologias de informação necessárias para a coleta e gerenciamento
de dados e a divulgação. Os relatórios são produzidos em forma de mapas atuais e previsões para as
regiões da América Central e Caribe, Ásia Central, África Oriental, Ocidental e do Sul. Além de informações
sobre a fome a rede fornece “relatórios especializados sobre clima, mercados, comércio, produção
142
agrícola, subsistência e nutrição” (FEWS, 2018).
As TIC´s cumprem um papel importante na melhoria do acesso ao mercado, pois por meio delas é possível
acessar e gerenciar informações além de coletar e analisar dados referentes aos mercados, preços,
especificidades culturais, climáticas dentre outras. De acordo com a FAO (2017), no continente Africano
foi desenvolvida uma série de aplicativos que cumprem o papel de conectar produtores a compradores,
Administração Rural – Volume 4
além de oferecer uma gama de informações de mercado, técnicas produtivas e outros. Com o Slogan
“Trazendo dados para a vida: aplicativos móveis e web para coletar e visualizar dados” a Esoko é
apresentada pela FAO como um dos exemplos para esta aplicação das TIC´s na agricultura.
Nossas soluções incluem ferramentas móveis e baseadas na Web para
coleta de dados, juntamente com aplicação em campo; uma plataforma
de comunicação baseada em voz / SMS para gestão de agricultores; e
uma extensão eletrônica móvel e web app (ESOKO, 2018).
Informações da Esoko dão conta de um universo de 2.2 milhões de pessoas cadastradas, 104 mil acres de
terras produtivas mapeadas além de 30 milhões de SMS enviados a produtores e 180 mil chamadas
telefônicas realizadas para assessoramento.
Tendo por base o postulado pela FAO (2017), a Rastreabilidade dos produtos alimentícios é um fator
importante na promoção da Segurança Alimentar. Nesse sentido, mediar ações de rastreamento se torna
uma aplicação muito relevante para a TIC´s, e a sua operacionalização acaba por promover a segurança
alimentar. Como exemplo desta aplicação tem-se a rastreabilidade de frutos do mar na Tailândia e Vietnã,
do café na Colômbia, do abacate no Chile, do gado na Coréia, dos vegetais frescos no Quênia, dentre outras
cadeias produtivas, nas quais se institui uma melhoria no valor dos produtos, um diferencial ao produtor
além da valorização da marca destes produtos rastreados.
A Inclusão financeira, seguros e gerenciamento de riscos são tidos pela FAO (2017) como questão muito
importante para os pequenos produtores. Na Tanzânia, no Quênia, e na Ruanda atua a ACRE-AFRICA, uma
empresa que se dedica a consultoria e assessoria para seguradoras agrícolas locais, “realiza avaliações de
risco, desenvolvimento de produtos e monitoramento de riscos para facilitar o acesso a produtos de
seguros para pequenos produtores” (ACRE, 2018).
Além de se relacionar com as partes interessadas das cedeias produtivas45 por meio de tecnologias de
informação e comunicação, são estações meteorológicas espalhadas em diversos pontos estratégicos que
coletam informações e encaminham para a central, a qual distribui posteriormente os dados. Os
“consumidores” recebem junto com as informações previamente demandadas a cobrança pelo serviço que
pode ser quitado via pagamento por celular (FAO, 2017).
O Desenvolvimento de capacidade e empoderamento dos pequenos agricultores foram apontados pela
FAO como uma das potencialidades do uso das TIC´s. Para tanto a instituição utiliza como exemplo a
experiência do caso Digital Green, o qual por meio do uso das tecnologias facilita e elabora, desde 2008,
vídeos relevantes em mais de 50 idiomas, contando com a colaboração de parceiros locais e dos próprios
agricultores (DIGITALGREEN, 2018). De acordo com a FAO, este projeto utiliza os vídeos na extensão rural
e por meio de sua experiência demonstra que
um processo participativo de engajamento combinado com soluções
tecnológicas simples pode permitir que comunidades agrícolas de
pequena escala produzam e compartilhem informações sobre melhores
práticas para melhorar a produtividade e os meios de subsistência
sustentáveis. Este modelo foi desenvolvido para ser menos oneroso e
mais eficiente do que os sistemas clássicos de extensão agrícola (FAO,
2017, p. 6).
Os trabalhos do projeto se iniciaram na Índia e na Etiópia e posteriormente foram se lastreando para
Afeganistão, Bangladesh, Gana, Guiné, Malauí, Moçambique, Níger, Senegal e Tanzânia. Os dados dão conta
de que na Índia, 90% do público é constituído por mulheres, que na Etiópia são mais de 1600
extensionistas comunitários capacitados e que em âmbito global mais de 1.5 milhões de famílias foram
beneficiadas direta ou indiretamente pelos trabalhos.
143
45 As principais culturas seguradas sao milho, sorgo, cafe, girassol, trigo, castanha de caju e batata, com cobertura
contra a seca, excesso de chuva e tempestades (ACRE, 2018).
Administração Rural – Volume 4
Fonte: [Link]
Em resumo, problemas reais são diagnosticados nas comunidades, e pessoas são capacitadas para
produzir vídeos que tratem da solução deste problema. Outra frente de atuação é mobilizada por meio dos
extensionistas ou trabalhadores líderes, os quais utilizam estes vídeos para potencializar sua atuação
como extensionista. Os beneficiários finais têm acesso a uma biblioteca vasta de produções por meio das
quais aprendem técnicas de manejo, detalhes sobe mercados, produção organiza e outros. “Capacitamos
os pequenos agricultores a sair da pobreza, aproveitando o poder da tecnologia e das parcerias de base”
(DIGITALGREEN, 2018).
Por fim, a utilização de tecnologias de informação e comunicação na agricultura (e-agricultura) é uma
possibilidade para os encaminhamentos políticos e de regulamentação para o setor. Melhorar a política
agrícola além de equalizar as atividades reguladoras e conscientizar uma nação sobre a importância dos
pequenos produtores são ações que se dão por meio de troca de informações oportunas, precisas e
abrangentes do setor agrícola.
para melhorar a vida dos pequenos e médios agricultores nos países em desenvolvimento na América
Latina.
Plataforma Web:
Usuários simultâneos que podem trabalhar simultaneamente na plataforma.
Plataforma para revisar e analisar os gráficos.
“Irribook” (sistema de irrigação que permite manter registro histórico das tarefas do campo)
Segmentação de usuários por funções de Administrador ou Usuário. Onde o equipamento é
instalado designa-se uma pessoa para monitoramento.
Análise:
Depois de iniciar o projeto, quando houver dados suficientes, o módulo de análise é oferecido. Ele consiste
de um grupo de análise, monitoramento e recomendações de especialistas. Nesse módulo os agricultores e
agentes locais são treinados para manusear e administrar o projeto.
Na sequência são instalados os equipamentos e
capacitados os agentes locais para o seu uso.
Periodicamente se realizam avaliações de resultados
e são firmados acordos de cooperação. O
acompanhamento dos resultados foi pensado aliado
a treinamentos e capacitações, para ao final da
vigência do projeto, se promover a apresentação dos
resultados obtidos. Por meio da utilização de vários
sensores e com o apoio da inteligência artificial por
meio de um modelo matemático personalizado,
consegue-se prever a necessidade de irrigação,
levando em conta o sistema meteorológico e a
probabilidade de precipitação pluviométrica futura.
Com base nesses dados, são realizadas orientações práticas, e por meio delas tem-se a possibilidade da
diminuição do uso de água e de energia elétrica, melhorando a qualidade e a quantidade da produção na
propriedade rural. O foco está em democratizar a Agricultura Inteligente: transformando as informações
coletadas a campo em recomendações, para que o agricultor tome melhores decisões na gestão de sua
propriedade, informações estas no campo da Produção, Irrigação, Clima, Pragas e Fertilizantes.
2.3.4. QUANDO?
O projeto em questão teve início em diferentes épocas em cada um dos países, ou seja, encontra-se em
diferentes estágios de implementação e constatação de resultados.
Peru – Início no segundo semestre de 2018; Chile – Início no primeiro semestre de 2015; Colômbia - Início
no segundo semestre de 2018; e El Salvador - Início no segundo semestre de 2018.
Chile O trabalho vem sendo realizado a 6 anos e tem foco na cultura do abacate. O trabalho é localizado na
cidade de Ovalle IV Região Chile. Dentre os resultados tem-se a otimização do uso de recursos (água de
irrigação e energia elétrica) e aumento na produtividade. Constatou-se uma relação direta entre a
quantidade de raízes e a quantidade de frutas, e a partir foi projetada uma estratégia sólida para
fortalecer o bulbo radicular com resultados progressivos em 3 estações contínuas. Os resultados na
primeira temporada foram de 10 Ton/H, na segunda 14 Ton/Ha e na terceira temporada: 24 Ton/Ha.
Colombia Um sensor de humidade de solo e uma estação meteorológica foram instalados na Associação de
Agricultores de Batata de Ventaquemada. Através do uso do monitoramento sensorial, do relatório de
irrigação mais as recomendações agronômicas, conseguimos apresentar resultados preliminares
interessantes. Compara-se os custos de produção, a produtividade e a receita, resulta em um aumento
de mais de 80% na rentabilidade para os agricultores que tiveram acesso ao produto.
147
Administração Rural – Volume 4
El Na cidade de San Bartolo, onde o principal problema é a seca, um sensor de umidade do solo e uma
Salvador estação meteorológica foram instalados e calibrados por validação. Os sensores de umidade do solo
quantificam a incidência de partículas de água nos diferentes estratos do solo e apresentam leituras do
comportamento e do consumo por parte das raízes. A estação meteorológica fornece informações
importantes sobre o comportamento climático e a variável que quantifica a evapotranspiração do solo.
No momento não temos resultados pois se aguarda a colheita. Por meio da leitura correta dos
sensores, e da validação desses dados em uma "trincheira descritiva", percebeu-se em 04.03.2019 um
estado de ótima umidade, chamada "capacidade de campo". Desta forma, conseguimos definir pontos
críticos de umidade do solo em gráficos e definir um manejo adequado de irrigação. Esta “trincheira
descritiva” nos permite ter certeza ao definir os pontos críticos da umidade do solo. Isso nos permitiu
entender e corrigir a estratégia de irrigação em 20,66%.
Peru Foram instalados 3 kits de tensiômetros digitais em dois vales principais de Ica e Lambayeque. Ainda
não temos resultados pois se espera a colheita. O processo de irrigação é pausado devido ao estado
fenológico do cultivo do algodão. No entanto, através de treinamento para o grupo de técnicos da FAO,
conseguimos tomar as decisões corretas de irrigação para o correto desenvolvimento da cultura.
Como depoimento, tem-se a fala do Sr. Bruno Devoto, morar de Limache, Chile. “Depois de um mês usando
os sensores de umidade do solo eu já estou regando 20% menos”
3. CONCLUSÃO
No âmbito dos documentos de recomendação da FAO consultados:
As recomendações incentivam a utilização e a promoção do diálogo, a interatividade, utilizando
multimeios, aplicativos, produção de vídeos e outros que interferem no dia a dia da população rural dos 148
países pobres.
Por mais que em muitas realidades essas tecnologias passam desapercebidas devido a banalização do seu
uso, nota-se que a os organismos internacionais, neste caso, a FAO, tem atribuído uma importância
considerável para a sua aplicação em realidades carentes, seja de recursos naturais, capitais ou até de
orientação técnica.
Administração Rural – Volume 4
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Administração Rural – Volume 4
Capítulo 11
Avaliação do perfil das embalagens e rótulos de
Cachaça Artesanal do Brejo
Anderson Ferreira Vilela
Darlan Willer Batista Roque
Josias Pereira do Nascimento
Jeffrey Tyrone de Lima Araújo Santos
Ana Clara de Alvarenga Morais
Joselito Bastos da Silva Júnior
Resumo: O método de grupo de foco foi utilizado para obter informações a respeito do
perfil de embalagens e rótulos de cachaça e aguardente de melhor avaliação pelos
consumidores dessas bebidas do Brejo Paraibano. Foram distribuídos questionários de
recrutamento entre pessoas que circulam o ambiente do campus III da UFPB. De acordo
com as respostas obtidas por meio dos questionários, foram selecionadas 20 pessoas, as
quais consumiam cachaça/aguardente pelo menos uma vez por mês e tinham o hábito
de observar o rótulo no momento da compra para formar o grupo de foco. Verificou-se
que os participantes não aprovaram a garrafa de vidro de cor âmbar com tampa metálica
tipo “chapinha” para acondicionara bebida. Há preferência pela garrafa de vidro
transparente e com tampa metálica rosqueável e por ilustrações do rótulo que estejam
relacionadas com o processo produtivo de cachaça. Verificou-se entre os participantes
que a marca, selos de qualidade, premiações recebidas, informações apresentadas na
embalagem, tipo do lacre e ilustrações dos rótulos influenciam no momento de compra
das bebidas. Concluiu-se que é fundamental que os produtores de cachaças do Brejo
Paraibano trabalhem no desenvolvimento e qualidade das embalagens e rótulos para
terem destaque no mercado de bebidas destiladas.
151
[Link]ÇÃO
O ramo da aguardente de aguardente de cana e cachaça, entre bebidas, foi o que mais investiu recursos em
controle de qualidade e marketing para prospectar no mercado internacional e sepultar de vez o
preconceito que ameaçava a bebida. As empresas tornaram as garrafas e os rótulos mais sofisticados como
parte da estratégia de internacionalização do produto. Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro
da Cachaça (IBRAC, 2009), a exportação de aguardente e cachaça aumentou 20% em volume e 18% em
valor.
Jerônimo (2004) ressalva que as empresas de cachaça estão buscando uma imagem fortemente vinculada
à qualidade e investindo no desenvolvimento de um mercado consumidor mais exigente, fato que resulta
no desenvolvimento de novos produtos, cujas características tentam desvinculá-la parcialmente de sua
linha tradicional de bebida popular. Estas ações e programas objetivaram valorizar a cachaça, aumentar a
aceitação do produto no mercado interno e externo, mudar seu status e transformar uma atividade
historicamente informal em outra, voltada para o mercado e para a competitividade (AMPAQ, 2009).
Coutinho (2001) registra que o estado da Paraíba se destaca como um dos principais produtores de
cachaça de alambique, e uma das principais características do seu setor de produção é a coexistência de
produtores arcaicos com modernos. Porém, a literatura brasileira é carente de trabalhos a respeito do
comportamento dos consumidores de cachaça em relação às preferências de embalagens. A abrangência
do comportamento, ou seja, entender como as pessoas compram e usam os produtos, auxilia as empresas
a atenderem as necessidades dos consumidores e contribui para o sucesso do produto no mercado.
Segundo Matsunaga (2007) a importância de se estudar o processo de consumo baseia-se em entender as
variáveis do processo decisório do consumidor diante de um produto de valor histórico e cultural, com
evidência que as empresas têm que viabilizar meios que possam almejar a conquista de novos
consumidores, e entre os fatores que influenciam no comportamento dos consumidores, enfatizam-se a
embalagem e os rótulos dos produtos. O aspecto visual das embalagens e rótulos é um fator decisivo para
que o produto alcance o sucesso.
A embalagem e o rótulo têm uma fundamental importância na escolha do produto durante o momento de
compra, pois são os primeiros atributos identificados entre o consumidor e o produto (CARNEIRO, 2007).
Todas estas informações poderão influenciar no comportamento do comprador, mas nem sempre o
indivíduo tem a possibilidade de sentir a fragrância da bebida ou de degustá-la no ato da compra. Por isso,
o canal visual, naturalmente dominante na percepção humana acaba sendo o principal estímulo (GOMES
FILHO, 2002).
A linguagem da bebida destilada, muitas vezes, confunde-se com a de sua embalagem, pois ela faz parte do
processo de comercialização e tem como missão expressar os benefícios tangíveis e intangíveis do objeto
para o consumidor. O que acaba sendo de fundamental importância, pois em um sistema de autosserviço,
em que os produtos são expostos em gôndolas, a embalagem é um dos poucos meios que o fabricante tem
para convencer o consumidor a adquirir o seu produto. (GIOVANNETTI, 2000).
Nesse contexto este trabalho buscou avaliar a percepção dos consumidores de cachaça artesanal do Brejo
Paraibano em relação às embalagens e rótulos dessas bebidas disponíveis no mercado local de forma a
obter informações detalhadas em relação às preferências dos consumidores. Esta pesquisa visou ainda
gerar respostas que sirvam de orientação para os produtores na escolha de embalagens e
desenvolvimento dos rótulos.
[Link] E MÉTODOS
Foram distribuídos 60 questionários de recrutamento entre frequentadores do campus III da
Universidade Federal da Paraíba. De acordo com as respostas obtidas por meio dos questionários, foram
selecionadas 20 pessoas consumidoras de cachaça e que disseram ter o hábito de verificar os rótulos de
cachaça. Esse conjunto o grupo de foco que fez a avaliação das embalagens e rótulos.
As cachaças que foram usadas para a análise nesse estudo foram adquiridas do comércio local da cidade 152
de Bananeiras e Solânea-PB. Foram escolhidas as marcas mais frequentemente encontradas em bares,
supermercados e lojas de conveniência. Por apresentarem características distintas em suas embalagens,
rótulos e pelo pré-requisito de produção na região do brejo paraibano apenas 11 marcas da bebida foram
encontradas para o estudo (Tabela 1).
Administração Rural – Volume 4
O grupo de foco foi planejado e realizado de acordo com as etapas descritas por Della Lucia e Minim
(2006). As sessões do grupo de foco, com cerca de uma hora de duração, foram conduzidas por um
moderador em sala com os participantes confortavelmente sentados em cadeiras dispostas em círculo
para permitir a interação, o contato visual e a harmonia da discussão. No início da primeira sessão, o
moderador apresentou o propósito, a metodologia e objetivos da técnica, o objetivo do estudo e cada
participante se apresentou ao grupo. As sessões do grupo de foco foram gravadas para registro das
observações.
[Link] E DISCUSSÃO
O perfil dos participantes do grupo de foco está descrito na Tabela 2. Observa-se que há uma elevada
fração do público feminino que consume cachaça em concordância com os resultados encontrados por
Oliveira et. al. (2012). Esses resultados também reforçam a constatação de Aguiar (2004) de que o
mercado de cachaça no Brasil tenha passado por recentes transformações, demonstrando certa elitização
do produto uma vez que consumidores de maior escolaridade e maior renda têm cada vez mais criando o
hábito de consumir a aguardente de cana brasileira. Em relação ao grau de instrução, 100% dos
participantes tem ensino superior incompleto, o que é justificável porque a pesquisa foi desenvolvida
dentro de um campus universitário, onde a grande maioria é estudante.
Os hábitos de consumo dos participantes do grupo de foco também foram caracterizados e estão
demonstrados na Figura 1. Selecionou-se para participação no grupo de foco pessoas que tinham o hábito
de consumir cachaça, entretanto o percentual de participantes que fazem a leitura dos rótulos de cachaça
variou de 50% para os que leem os rótulos às vezes e 10% para os que leem ocasionalmente. Percebe-se
que entre os participantes do grupo, infelizmente, a prática de observação dos rótulos não é habitual visto
que os que fazem a leitura sempre (25%) e frequentemente (15%) só representam 40% do total, (Figura
1A).
O fator que mais é observado nas embalagens de cachaça no momento da compra, para os participantes do
grupo de foco, é a marca (55%) seguida do preço (23%). Mostrando que a tradição e prestígio de uma
marca no mercado são preponderantes na atratividade das garrafas e rótulos da cachaça a serem
compradas. Pouca importância é dada pelos participantes do grupo para as informações sobre aditivos e
data de fabricação presentes (Figura 1B).
Figura 1 – Hábitos de consumo de cachaça dos participantes do grupo de foco. A) Perfil de observação dos
rótulos; B) Informações procuradas nos rótulos; C) Fatores que influenciam na compra; D) Frequência de
consumo de cachaça.
154
Administração Rural – Volume 4
Através da Figura 1C vê-se que 50% participantes, no momento da compra, leva em consideração,
majoritariamente, já ter anteriormente tomado a cachaça, seguido do preço (15%). A dificuldade central
do comportamento do consumidor é a escolha. Uma vez que o resultado de uma escolha só pode ser
conhecido no futuro, o consumidor é forçado a lidar com a incerteza ou risco, que o leva, algumas vezes, a
não consumir o desconhecido, mesmo se o produto for de alta qualidade e atratividade, dando maior
importância à experiência de consumo anterior. A embalagem (10%); a marca (15%) e os selos de
qualidade (10%) têm pouca influência no momento de compra, o que concorda com resultado encontrado
por Silva (2011) que ao realizar testes de aceitação sensorial de cachaças paraibanas, verificou que a
marca exerceu pouca influência na intenção de compra para cachaças de alambique.
Uma interessante observação entre os recrutados para participar do grupo de foco foi a baixa frequência
de consumo. Entre os participantes 85% consome cachaça de forma bastante espaçada, de uma a duas
vezes por mês (20%) e ocasionalmente (65%), como pode ser observado na Figura 1D.
Foram levantados os termos ou atributos das embalagens considerados importantes pelos participantes
que apontaram de forma negativa embalagens que contenham letras sem destaque e de difícil leitura,
indicando a importância de informações claras e visíveis. 75% dos participantes relataram gostar de
ilustrações que estejam relacionadas com o processo produtivo da cachaça, como plantação da cana-de-
açúcar, a própria cana, engenhos, tonéis e alambiques. Articularam que a falta de cor não é adequada para
rótulo de cachaça e que é importante o uso do contrarrótulo para mais informações do produto. Costa
(1999) verificou que a ilustração do rótulo foi um fator que representou um importante papel na
preferência e na intenção de compra dos consumidores. A pesquisa de Carneiro (2007) verificou-se que o
rótulo e design da embalagem também influenciaram no processo de escolha, compra e aceitação de
cachaças pelos consumidores.
Verificou-se que 75% dos participantes não aprovaram a garrafa de vidro de cor âmbar para acondicionar
cachaça alegando não agregar valor à cachaça, ser parecida com a garrafa de cerveja, não permitir a
visualização do conteúdo e estar relacionada à imagem de garrafa reutilizada. 20% já preferiu a de vidro
âmbar e para 5% tanto faz a cor do vidro da garrafa. Os que defenderam o uso da garrafa transparente
disseram que essa embalagem permite identificar defeito ou impurezas no conteúdo, ser mais atraente e
facilitar a observação da cor causada pelo armazenamento em madeira. A maioria dos participantes do
grupo demonstrou preferência por garrafas de cachaça maiores: 600 e 670 mL. As garrafas com a
impressão no vidro em alto relevo da expressão “Cachaça do Brasil” assim como a garrafa de formato
quadrado foram muito bem avaliadas pela equipe.
Todos os participantes disseram não gostar da tampa metálica Twist Crown, tipo coroa ou chapinha,
daquelas de garrafas de cerveja, que se usa abridor para retirar, preferindo a tampa metálica rosqueável.
Justificou-se essa negativa em função da impossibilidade de fechar a garrafa após ser aberta para consumo
posterior e da necessidade do uso do abridor. Os participantes advertiram ainda que o lacre, seu material,
sua cor e informação contida nele são importantes para que não ocorra nenhuma violação na embalagem.
A unanimidade dos participantes considerou os selos de qualidade e de certificação de produto orgânico
importantes no momento da compra assim como a apresentação de prêmios recebidos. Já a expressão do
tempo de envelhecimento, do tipo de madeira do tonel de armazenamento e apresentação de região de
fabricação foi avaliada como positiva pela maioria do grupo. Coutinho et al (2002) analisaram embalagens
de cachaça artesanal, sob o ponto de vista dos consumidores e constataram que as embalagens
sofisticadas são uma importante estratégia de diferenciação e agregação de valor ao produto.
[Link]ÕES
Pode-se concluir que a experiência de já ter consumido anteriormente uma determinada cachaça seguida
do preço são os fatores que mais influenciam no momento da compra de cachaças. A marca e o preço são
os dois alvos mais procurados numa embalagem pelos consumidores participantes do grupo de foco desta
pesquisa.
Verificou-se que os participantes não aprovaram a garrafa de vidro de cor âmbar e tampa metálica tipo
155
“chapinha” para acondicionar cachaça. Há preferência por ilustrações do rótulo que estejam relacionadas
com o processo produtivo de cachaça, expressões de prêmios e selos de qualidade nos rótulos e presença
de contrarrótulos nas embalagens de cachaça e aguardente.
Administração Rural – Volume 4
[Link]
Ao CNPq pelo apoio financeiro para realização dessa pesquisa.
REFERÊNCIAS
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<[Link] Acesso em: Ago. 2009.
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consumidores. 146fLS. Tese (Doutorado em Ciência e Tecnologia de Alimentos). UFV, Viçosa, 2007.
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construindo uma cachaça de qualidade. Tese (Doutorado em Engenharia da Produção). UFRJ, Rio de Janeiro, 2001.
[6] Coutinho, E. P. et al. Aplicação de técnicas de conclaves na prospecção de mercado para embalagens
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consumidores. Viçosa: Editora UFV, 2006. cap. 4, p. 85-109.
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Barcelona: Gustavo Gili, 2000.
[9] Gomes Filho, J. Gestalt do objeto. São Paulo: Escrituras, 2002.
[10] Ibrac - Instituto Brasileiro da Cachaça. Dados de mercado. Disponível em: <[Link] Acesso
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[12] matsunaga, P. H. Identificação de atributos sensoriais de pedaços empanados de frango mais valorizados pelo
consumidor. Dissertação (Mestrado em Alimentos e Nutrição). Unicamp, Campinas, 2007.
[13] Oliveira, R. E. S. et al. Perfil do consumo feminino de cachaças artesanais e industriais no estado da Paraíba.
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[14] Silva, M. J. Percepção da qualidade de cachaça artesanal pelo consumidor: notoriedade das marcas versus
aceitação sensorial. 100 fls. Dissertação (Mestrado em Tecnologia Agroalimentar). UFPB, Bananeiras, 2011.
156
Administração Rural – Volume 4
Capítulo 12
Índice de aceitabilidade e intenção de compra de
queijo coalho imerso em suco de uva tinto integral
Auriana de Assis Regis
Pahlevi Augusto de Souza
Anaklaudia Sombra Santos
Zulene Lima de Oliveira
Elisabeth Mariano Batista
Raimunda Valdenice da Silva Freitas
Hirllen Nara Bessa Rodrigues Beserra
1. INTRODUÇÃO
O queijo Coalho é um produto típico da região Nordeste, principalmente do estado do Ceará onde é
amplamente fabricado e consumido. Apesar de sua grande expressão, ainda são escassos os estudos
envolvendo o levantamento dos atributos sensoriais que descrevem sua qualidade. As características
sensoriais como aroma, cor, sabor e textura estimulam os sentidos e provocam vários graus de reações de
desejo ou rejeição (ANDRADE, 2006).
O suco de uva integral apresenta uma concentração e composição natural, límpido ou turvo, não sendo
permitida a adição de outro tipo de açúcar. É considerada uma bebida distinta, tanto sob o aspecto
energético quanto nutricional e terapêutico. Os bioflavonóides, os taninos e o resveratrol encontrados na
fruta são os responsáveis pelos por benefícios à saúde. A substância mais importante é o resveratrol, um
composto fenólico encontrado na casca da uva. Ele funciona como um protetor do alimento contra o
ataque de vírus e fungos (RIZZON; MENEGUZZO, 2007).
A análise sensorial é uma ciência interdisciplinar na qual se convidam avaliadores, que se utilizam da
complexa interação dos órgãos dos sentidos (visão, gosto, tato, olfato e audição) para medir as
características sensoriais e a aceitabilidade dos produtos alimentícios e muitos outros materiais
(LANZILLOTTI, 2015).
Conforme Dutcosky (2013), análise sensorial é um campo muito importante na Indústria de Alimentos,
pois ela contribui para a determinação da qualidade e a aceitação de um produto novo através de métodos
sensoriais.
Objetivou-se com este estudo avaliar o índice de aceitabilidade e intenção de compra de queijo Coalho
imerso em suco de uva tinto integral a fim de gerar informações que contribuam para a melhoria do
produto e satisfação do consumidor.
2. MATERIAL E MÉTODOS
Para elaboração do queijo Coalho utilizou-se leite cru integral refrigerado, obtido de vacas mestiças (zebu-
holandês) proveniente de uma associação de produtores da zona rural de Limoeiro do Norte- CE. Na
imersão dos queijos foi utilizado o suco de uva tinto integral da marca Sinuelo®, adquirido no comércio
local, sendo este um produto não fermentado, não alcoólico, composto apenas pelo suco natural de uva
sem adição de açúcar.
Os queijos foram elaborados de acordo com a metodologia de Nassu; Macedo e Lima (2006) com
adaptaçõ[Link] mesmos apresentaram rendimento de 550g/unidade aproximadamente.
Após a fabricação, os queijos foram armazenados por 5 dias em câmara fria a 4ºC para maturação. Em
seguida, foram fatiados com a finalidade de aumentar a superfície de contato, melhorando a
homogeneização da cor do produto e foram imersos em suco de uva tinto integral. Posteriormente,
mantidos em refrigeração por 24 horas para secagem da superfície. Os tratamentos utilizados foram
compostos pelo tempo de imersão dos queijos no suco de uva tinto integral: Tratamento 1 (1h de
imersão); tratamento 2 (2h); tratamento 3 (3h) e tratamento 4 (4h), com três repetições de três queijos,
sendo um queijo por parcela para cada tratamento. Após a secagem as fatias foram cortadas em formato
de cubo (2 cm3). A figura 1 apresenta os queijos Coalhos imersos em suco de uva tinto integral fatiados e
em cubos.
Figura 1: Queijos Coalho imersos em suco de uva tinto integral fatiados e em cubos.
158
A avaliação sensorial foi realizada através da verificação do índice de aceitação e da intenção de compra de
acordo com Dutcosky (2013). A análise ocorreu no Laboratório de Análise Sensorial do Instituto Federal
de Educação, Ciência e Tecnologia – IFCE, Campus Limoeiro do Norte.
Administração Rural – Volume 4
Participaram da avaliação sensorial 122 provadores não treinados de ambos os sexos, entre o corpo
discente, docente e servidores da Instituição. As amostras de queijo foram padronizadas em tamanho de
cubo e servidas em temperatura ambiente, colocadas em copos descartáveis (50 mL) devidamente
codificadas com três dígitos aleatórios. Foram solicitados aos julgadores que provassem as amostras da
esquerda para direita e entre as amostras ingerissem biscoito água e sal e um pouco de água para limpar o
palato.
O delineamento utilizado foi em blocos completos balanceados com relação à ordem de apresentação das
amostras (DUTCOSKY, 2013).
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Observou-se conforme a figura 2 que, para o atributo aroma, houve maior frequência de resposta (70%)
para o tratamento T2, e os tratamentos T1, T3 e T4 obtiveram frequências iguais de 67%, sendo inferior
ao tratamento T2.
Figura 2: Índice de aceitabilidade de queijos Coalho imerso em suco de uva tinto integral.
Quanto ao atributo sabor verificou-se que os tratamentos T1, T2, T3 e T4 apresentaram percentuais de
respostas de 65, 63, 61 e 63%, respectivamente. Para a cor
os queijos apresentarem frequência de resposta de 63% para T1, T2 e T3; e 64% para T4. Os atributos
sabor e cor obtiveram índices de aceitabilidade muito aproximados entre si, indicando que os provadores
não perceberam diferença significante.
Em relação a textura os provadores atribuíram maiores percentuais de respostas que compreenderam
valores de 71 a 75%, indicando excelente índice de aceitabilidade segundo Dutckosky (2013), que
considera aceitas as formulações que apresentarem o índice de aceitabilidade igual ou superior a 70%.
Foram atribuídas para a aparência global frequências variando de 66 a 68%, mostrando que os queijos
avaliados obtiveram um bom índice de aceitação global.
Chaves (1998) afirma que a qualidade sensorial dos alimentos é julgada pelos consumidores, através de
medidas subjetivas, realizadas por meio dos sentidos humanos.
Os resultados da intenção de compra reforçam de certa forma, a aceitabilidade dos produtos. Verificou-se,
conforme a figura 3, que a maioria dos provadores escolheu a opção provavelmente compraria (nota 4
segundo a escala utilizada) com valores de 33% para T1 e T3; e 28% para T2 e T4, concordando com o
trabalho de Silvino et al.(2010), que avaliando aceitabilidade de quatro marcas de queijos de coalho,
obteve o maior percentual de intenção de compra, a maioria dos provadores (83,34%) marcou as notas 4
(possivelmente compraria) e 5 (compraria) para o produto. 159
Administração Rural – Volume 4
Figura 3: Intenção de compra de queijos Coalho imerso em suco de uva tinto integral.
A análise sensorial vem atuando ativamente como método para interpretar as propriedades sensoriais dos
alimentos (aparência, sabor, aroma e textura) em função da composição química, do processamento, das
condições de embalagem e do armazenamento. Assim, os atributos sensoriais de qualidade utilizam o
homem como ferramenta de análise e são de extrema importância para a indústria alimentícia, pois
podem determinar a aceitação do produto do mercado (BIEDRZYCKI, 2008).
4. CONCLUSÕES
Concluiu-se que os queijos avaliados obtiveram maior índice de aceitabilidade para o atributo textura e
maior intenção de compra para os tratamentos T1 e T3. Sugere-se uma nova pesquisa com mais
tratamentos e que seja feito o estudo da vida de prateleira deste produto.
AGRADECIMENTOS
Ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, Campus Limoeiro do Norte-CE, e ao Professor DSc.
Pahlevi Augusto de Souza, pelo apoio ao ensino e à pesquisa.
REFERÊNCIAS
[1] ANDRADE, A. A. Estudo do perfil sensorial, físico-químico e aceitação de queijo de coalho produzido no
estado do Ceará. 2006. 127 f. Dissertação (Mestrado em Tecnologia de Alimentos)-Faculdade de Engenharia de
Alimentos, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2006.
[2] BIEDRZYCKI, A. Aplicação da avaliação sensorial no controle de qualidade em uma indústria de produtos
cárneos. 2008. 64f. Monografia (Curso de Engenharia de Alimentos) Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto
Alegre, 2008.
[3] CHAVES, J. B. A. Análise sensorial na indústria de laticínios. Revista do Instituto de Laticínios Cândido Tostes.
v.45, p. 38-52,1990.
[4] DUTCOSKY, S. D. Análise sensorial de alimentos. Universitária Champagnat, 4 ed. Curitiba, 531 p. 2013.
[5] LANZILLOTTI, Regina Serrão; LANZILLOTTI, Haydée Serrão. Análise sensorial sob o enfoque da decisão
fuzzy, 1997. 2015. Revista de Nutrição. v. 12, n. 2, p. 145-157, maio/ago., 1999.
[6] NASSU, R.T.; MACEDO, B. A.; LIMA, M. H. P. Queijo de Coalho. Brasília: Embrapa, 2006. p. 45. (Coleção
Agroindústria Familiar).
160
[7] RIZZON, L. A.; MENEGUZZO, J. Suco de uva. Brasília: Embrapa, 2007. p. 50 (Coleção Agroindústria Familiar).
[8] SILVINO, J.; ALVES,M.; OLIVEIRA, E.; CORREIA,H.; SILVA,A.
[9] Aceitabilidade de quatro marcas de queijos de coalho comercializados no mercado de Maceió-AL: [Link] V
Congresso Norte-Nordeste de Pesquisa e Inovação, 2010, Alagoas. Anais...Maceió, CDROM.
Administração Rural – Volume 4
Capítulo 13
Elaboração e avaliação da aceitação sensorial de
queijo tipo coalho a partir de leite fermentado com
grãos de kefir
Eronilson Vieira da Silva
Nkarthe Guerra Araújo
Idiana de Macedo Barbosa
Simone Eugênia Pinheiro
Victoria Batista Pereira
Beatriz Pammela Nunes da Silva
[Link]ÇÃO
Cada vez mais as pessoas se preocupam com a sua qualidade de vida e bem-estar, praticando exercícios
físicos e cuidando de sua alimentação. Assim, vem aumentando a procura por alimentos com diminuição
de sódio, gorduras e açúcares bem como a procura por alimentos que tragam benefícios a saúde. Visto que,
com a evolução da ciência e tecnologia de alimentos e outras áreas afins, tem se constatado
cientificamente que a saúde pode ser controlada pela alimentação e que o baixo ou excessivo consumo de
alimentos estão relacionados a manifestações de algumas patologias (GARCIA, 2004). Neste contexto,
aparecem os alimentos funcionais, onde os probióticos e os prebióticos se destacam (ANTUNES et al.,
2007; SILVA, 2007).
Conforme Dolinsky (2009), os compostos funcionais, que podem suplementar os alimentos, são divididos
em classes: probióticos, prebióticos, simbióticos, fibras dietéticas (frutanos, inulina, frutoligossacarídeos-
FOS), alimentos sulfurados e nitrogenados, antioxidantes, fitosteróis, ácidos graxos poli-insaturados e
algas.
Os micro-organismos probióticos, quando empregados em alimentos com alegação de propriedade
funcional, devem apresentar resistência às operações de processamento e viabilidade durante o período
de armazenamento do produto. Estes micro-organismos devem estar presentes no produto em
concentração significativa e, para que ocorra ação benéfica no intestino, devem ser capazes de sobreviver
à acidez estomacal e aos sais biliares (CHAMPAGNE et al., 2011).
O kefir é um produto lácteo em que a fermentação é feita por bactérias ácido-lácticas conhecidas como
grãos de kefir, que produzem ácido láctico, etanol e dióxido de carbono. É ligeiramente efervescente e
espumoso, com consistência semelhante ao iogurte, de sabor agridoce e de alta digestibilidade
(MARCHIORI, 2007; LEITE et al., 2013). Desta forma o Kefir, com composição de diferentes espécies de
leveduras, bactérias ácido-lácticas e bactérias ácido-acéticas, possui grande potencial probiótico, pois além
de promover benefícios ao organismo, como a manutenção do equilíbrio da flora intestinal, purificação do
trato gastrintestinal, também auxilia na neutralização dos microrganismos patogênicos responsáveis por
infecções.
A fermentação do kefir rende vários componentes, incluindo o ácido lático, ácido acético, o álcool, o CO2 e
compostos aromáticos (OTLES e CAGINDI, 2003), resultados da atividade metabólica simbiótica das
bactérias e das leveduras que se encontram naturalmente nos grãos. No processo de cultivo dos grânulos
de kefir, após serem inoculados em um substrato durante 24 horas e passarem pelo processo de
fermentação lática, os grãos devem ser peneirados e o seu fermentado deve ser resfriado, permanecendo
por 24 horas, nesta fase, as leveduras produzirão álcool e CO2. A presença da fermentação lática e
alcoólica faz-se imprescindível no aumento da biodisponibilidade do kefir tornando-o mais nutritivo.
O queijo de coalho é um dos produtos mais tipicos da região Nordeste, que faz parte das refeições diárias,
seja como complemento alimentar ou como iguaria, apresentando um relevante valor socio-econômico e
cultural, cujas bases encontram se enraizadas na história do pecuarista do semiárido, através da
transmissão cultural ocorre de pais para filhos, e este último mantendo a tradição, faz sua produção de
forma artesanal, tendo como base os conhecimentos práticos construídos através de gerações. Por se
tratar de um produto artesanal, o queijo de coalho possui certo padrão de fabricação, entretanto cada
produtor, de acordo com suas habilidades, estrutura física e econômica, faz uma adaptação do processo,
adotando pequenas alterações na forma de elaboração do seu produto, resultando em um queijo com
características organolépticas peculiares (DANTAS, 2012).
Graças a capacidade fermentativa dos grãos de Kefir em diversos alimentos e pelo fato do queijo ser um
produto que agrada aos mais variados paladares, de todas as faixas etárias e de qualquer classe social, o
queijo de coalho junto com fermentado de kefir foram ideais para o projeto de pesquisa de elaboração de
um produto com propriedades funcionais. Além de ser um alimento fresco que combina com café da
manhã, onde existe uma variada gama de ingredientes que podem ser usados para enriquecer e
diversificar ainda mais a alimentação de quem o consome.
162
[Link] E MÉTODOS
2.1 ELABORAÇÃO DO PRODUTO
A pesquisa foi desenvolvida na Unidade de Processamento de Laticínio da Escola Agrícola de
Jundiaí/Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde foram utilizados grãos de Kefir oriundos de
doação. Inicialmente, realizou-se o cultivo e multiplicação dos grãos de Kefir no leite bovino, através
Administração Rural – Volume 4
adição dos grãos a um recipiente de vidro com leite pasteurizado, o qual fermentou em temperatura
ambiente (±25ºC) durante 24 horas. Após o período de fermentação, foram coados com peneiras para a
obtenção do líquido fermentado, o quefir. Na segunda fase da pesquisa, os grãos utilizados possuíam a
mesma origem que os da primeira fase, sendo utilizados 100 gramas de grãos para 2L de leite, inoculados
em um recipiente de vidro para efetuar a sua multiplicação. Na fase final ocorreu a elaboração do queijo
tipo coalho, onde foi adicionado um litro e meio (1/2 do fermentado de quefir) o que equivale a 10% do
fermentado a 15 litros de leite bovino. Onde foram elaborados o queijo de coalho e o queijo de coalho
condimentado com orégano, ambos com adição do fermentado de kefir.
[Link] E DISCUSSÃO
Foram analisadas duas amostras do queijo de coalho com e sem condimento de orégano, os dois tiveram
boa aceitação comparado ao queijo de coalho tradicional, tanto no que se refere ao teor de sal quanto a
quantidade de condimento.
Nos estudos realizados nesse trabalho, as amostras focadas foram as correspondente ao queijo sem
condimento e o queijo condimentado, no qual se obteve o resultado de boa aceitação para os critérios
analisados.
Para melhor visualizar possíveis diferenças na aceitação das amostras, foi construído um histograma da
distribuição das frequências das respostas dos provadores para a textura, cor e o sabor (Gráfico 1 e 2). Na
escala hedônica, a categoria “nem gostei, nem desgostei” (valor 5) é considerada como uma região de
relação afetiva do provador com o produto, dividindo a escala em duas outras regiões: a região de
aceitação (valores de 6 a 9), e a região de rejeição do produto (valores de 1 a 4).
Com relação à textura, a partir da o Gráfico 1 verifica-se que à amostra 140 foi atribuído notas que
prevaleceram em torno da nota 8. Ainda com relação a textura, no Gráfico 2 observa-se que a amostra 441
apresentou também significativos percentuais das respostas na região de aceitação da escala hedônica,
especialmente pela predominação dos resultados em torno da moda 8 e representativos valores na escala.
De acordo com a análise de intenção de compra dos jurados, se houvesse a possibilidade de fabricação do
produto para disponibilização no mercado, a intenção de comprar um dos produtos ou ambos,
corresponde a um total de 99%.
Tabela 3. Avaliação da preferência de intenção de compra (%) dos dois tipos de queijos à base de
fermentado de Kefir.
Intenção de compra Amostra 140 Amostra 441 Ambas amostras Não comprariam
(%) 20 29 50 1
A característica sabor alcançou média correspondente a “gostei moderadamente” na escala hedônica, não
havendo diferença significativa entre as duas amostras. Portanto não houve rejeição do produto com
relação ao sabor característico do fermentado de kefir.
164
Administração Rural – Volume 4
Não encontramos na literatura pesquisas semelhantes que utilizasse o leite fermentado com grãos de kefir
para elaboração de queijo tipo coalho.
Em termos comparativos com relação a avaliação da aceitação sensorial de produtos lácteos fermentados
com grãos de kefir, destacamos Palezi et al.(2015) que ao fazer a caracterização e avaliação sensorial do
kefir tradicional e derivados verificaram que o patê elaborado com fermentado kefir obteve boa aceitação,
considerando que a maioria dos julgadores classificaram entre gostei ligeiramente e gostei muito,
resultando em uma média de 7,22. Enquanto que Weschenfelder et al. (2011), ao realizarem a
caracterização físico-química e sensorial de kefir tradicional e derivados, verificaram que três formulações
de antepastos elaborados com fermentados de kefir obtiveram uma aceitação sensorial com as seguintes
médias de 6,8 (antepasto I), 5,6 (antepasto II) e 5,1 (antepasto III).
Saito et al. (2013), ao desenvolveram um sorvete a base de concentrado protéico de soro fermentado com
kefir, obtiveram nota global igual a 73,55%, o que é considerado aceito.
O nosso estudo mostrou que a avaliação da aceitação sensorial para a impressão global obteve médias de
7,9 (amostra 140) e 8,2 (amostra 441). Assim a utilização do kefir em formulações para queijo tipo coalho
pode ser realizada com sucesso, resultando em um produto probiótico e funcional.
[Link]ÕES
Os resultados apresentados permitem concluir que a produção de queijos com fermentado de Kefir
apresentaram uma boa aceitação, em especial ao queijo com condimento de orégano 441, conferido pela a
textura com melhor sabor. Logo, são de grande potencial às indústrias lácteas, pelo baixo custo de
produção, praticidade, aceitação e procura de um produto saboroso ao mesmo tempo em que seja
funcional.
A pesquisa permitiu ainda, chegar a ideia de que o queijo, em possíveis trabalhos futuros, pode ser
adicionado em sua formulação uma maior quantidade de fermentado de kefir e condimentos a fim de
melhorar suas características organolépticas e consequentemente a qualidade do produto final, o que
possivelmente aumentaria os níveis de aceitação de maneira geral na escala hedônica.
165
Administração Rural – Volume 4
REFERÊNCIAS
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<[Link] Acesso em: 03 Out. 2018.
[12] Saito, P. T. et al. Desenvolvimento de sorvete à base de concentrado proteico de soro fermentado com kefir.
In: Simpósio sobre inovação na indústria de lácteos, Ital. Anais. Campinas, 2013.
[13] Silva, S. V. Desenvolvimento de iogurte probiótico com prebiótico. 2007. 107 p. Dissertação (Mestrado em
Ciência e Tecnologia de Alimentos) –Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2007
[14] Weschenfelder, S. et al. Caracterização Físico-Química e Sensorial de Kefir Tradicional e Derivados. Arquivo
Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v. 63, n. 2, p. 473-480, 2011.
166
Administração Rural – Volume 4
Capítulo 14
Avaliação físico-química e sensorial de rapaduras
oriundas da Paraiba
Fabiano Tavares de Moura
Rafael Oliveira Inácio
Jennifer Maria Barros do Nascimento
Katharina Kardinele Barros Sassi
Regivânia Saraiva da Silva
Ricardo Targino Moreira
Laesio Pereira Martins
Saulo de Tarso da Silva
Resumo: A rapadura tem sabor e odor agradável e característico, além do elevado valor
alimentício. O objetivo deste trabalho foi avaliar cinco procedências de rapadura
comercializadas no estado da Paraíba, quanto às características físico-químicas e
sensoriais. As análises físico-químicas realizadas foram quanto à umidade, cinzas,
sólidos solúveis, açúcares solúveis, açúcares redutores e açúcares não redutores. O
método de ordenação foi utilizado na avaliação da doçura e preferência das amostras. As
amostras provenientes das cidades de Serraria, Alagoa Nova, Alagoa Grande e Ingá,
encontram-se dentro dos padrões físico-químicos estabelecidos pela Agência Nacional
de Vigilância Sanitária – ANVISA, resolução - CNNPA nº 12, de 1978. Na avaliação
sensorial, as amostras de rapaduras não apresentaram diferença entre a doçura e
preferências pelos provadores, indicando competitividade de mercado igualitária entre
as mesmas em relação aos atributos avaliados.
167
Administração Rural – Volume 4
[Link]ÇÃO
A importância do setor de produtos naturais como mercado consumidor tem raízes no movimento
mundial da sociedade contemporânea de busca e aspiração por maior e melhor qualidade de vida, o que
está relacionado basicamente a dois grandes temas: saúde e meio ambiente. Assim, quando o dilema
ambiental ganhou uma dimensão maior e universal, na virada do século XX, e a qualidade de vida passou a
ser praticamente assunto de saúde pública, consumir produtos naturais passou a ser visto como uma
questão moderna, atual, símbolo de uma nova era no mundo do consumo (GOMES, 2009).
Tradicionalmente consumida pela população do Nordeste brasileiro, a rapadura substitui outros produtos
graças ao seu valor comercial e nutritivo (OLIVEIRA et al., 2007). A rapadura é um produto integral, sem
refino, puro e passível de utilização equivalente à do açúcar. Dispõe de vitaminas essenciais que
complementam a alimentação diária, sendo sua composição rica em vitaminas A, B, C, D e E, e sais
minerais, como ferro, cálcio, fósforo potássio e magnésio, além de obter característica natural e orgânica. A
rapadura contém, em média, 14% de açúcares redutores (a glicose e a frutose), que são açúcares mais
assimiláveis pelo organismo humano do que a sacarose (SEBRAE, 2005). Contém ainda componentes que
lhe conferem atributos funcionais, destacando-se as altas concentrações de polifenóis, que por suas
propriedades antioxidantes, atuam na prevenção de enfermidades crônico-degenerativas e exercem efeito
protetor contra a oxidação de LDL (COLINA et al., 2012). À rapadura também podem ser adicionados
ingredientes como castanha-de-caju, coco, amendoim, entre outros.
Apesar dos vários tipos de rapadura, a tradicional é a mais preferida pelos consumidores, que em sua
maioria tem o conhecimento sobre a procedência da rapadura e que estão satisfeitos com o produto
consumido. O consumo da rapadura está alcançando novos consumidores, como os jovens entre 15 a 19
anos, com frequência de consumo de no mínimo uma vez por mês, levando em consideração aspectos de
compra como preço, praticidade, boa apresentação do produto e a escolha do sabor como atributo
essencial para a ingestão da rapadura (NOGUEIRA, 2015).
A fim de conhecer as reais condições de competitividade dos diferentes fabricantes deste produto, o
objetivo deste trabalho foi avaliar parâmetros físico-químicos e sensoriais de cinco procedências de
rapadura comercializadas no estado da Paraíba, incluindo o estudo da preferência dos consumidores.
[Link] E MÉTODOS
As amostras de rapadura foram adquiridas no comércio do município de Bananeiras e Solânea, localizados
no estado da Paraíba. Foram procedentes das cidades de Serraria, Alagoa Nova, Alagoa Grande, Campina
Grande e Ingá e, classificadas em A, B, C, D, E, respectivamente (Figura 1).
[Link]ÇÕES FÍSICO-QUÍMICAS
A análise de umidade foi realizada por secagem em estufa a 105ºC até peso constante e a determinação de 168
cinzas por incineração em mufla à 550ºC (IAL, 2008).
Os sólidos solúveis foram medidos com refratômetro digital portátil - RTD-95.
Administração Rural – Volume 4
Os açúcares solúveis e os açúcares redutores foram realizados segundo metodologia descrita por Yemn e
Willis (1954) e, Miller (1959), respectivamente. Os açúcares não redutores foram obtidos pela diferença
entre os açúcares solúveis e os açúcares redutores.
Os dados foram submetidos à análise de variância. As médias dos tratamentos foram comparadas pelo
teste de Tukey a 5 % de probabilidade.
[Link]ÇÃO SENSORIAL
O experimento constou da avaliação sensorial através do teste de ordenação de amostras de rapadura por
30 julgadores, compostos por consumidores de rapaduras, não treinados. Utilizou-se técnica de
apresentação em blocos completos, ou seja, as cinco amostras foram apresentadas simultaneamente e,
balanceadas de forma a evitar vícios nos resultados. Os julgadores receberam amostras de rapadura com
dimensões aproximadas de 1cm x 2 cm x 2 cm (altura x largura x comprimento) (Figura 2), servidas em
copinhos descartáveis codificados com números de três dígitos e, para eliminar resíduos do produto na
boca serviu-se biscoito (água e sal) e um copo com água.
Foi solicitado aos 30 julgadores que, ao degustarem as cinco amostras da esquerda para a direita,
ordenasse-as na ficha fornecida, de forma crescente, da pior para a melhor, em função da doçura e “sua
preferência”.
Os resultados foram tratados segundo metodologia descrita pela ABNT, NBR 13170/1994.
[Link] E DISCUSSÃO
[Link]ÇÕES FICO-QUÍMICAS
Os valores de umidade das amostras variam de 4,53 e 7,09 %, sendo esses valores encontrados nas
amostras A e D, respectivamente (Figura 1). A Anvisa (Resolução - CNNPA nº 12, de 1978), que dispõe
sobre normais técnicas especiais incluindo o melaço, melado e a rapadura, não estabelece o valor máximo
sobre o percentual de umidade em rapadura.
Figura 1 – Valores médios de umidade (%) de rapadura, procedentes de cinco municípios da Paraíba: A –
Serraria, B - Alagoa Nova, C - Alagoa Grande, D - Campina Grande e E – Ingá.
169
Administração Rural – Volume 4
Figura 2 – Valores médios de cinzas (%) de rapadura, procedentes de cinco municípios da Paraíba: A –
Serraria, B - Alagoa Nova, C - Alagoa Grande, D - Campina Grande e E – Ingá.
Embora verificou-se diferença entre algumas amostras com relação aos sólidos solúveis (ºBrix), pode-se
observar que houve pouca variações dos valores médios entre as amostra, sendo entre 82,78 e 89,29%
(Figura 3). Cezar e Silva (2003) denominam a rapadura como sendo o melado em elevada concentração
(82 a 85º Brix), que se solidifica em blocos por resfriamento. Para Oliveira et al. (2007), seu ponto final é
conseguido por desidratação do caldo em torno de 92º Brix. Os resultados de sólidos solúveis obtidos para
as cinco amostras de rapaduras analisadas encontram-se dentro da fiaixa citadas pelos autores.
Figura 3 – Valores médios de sólidos solúveis (%) de rapadura, procedentes de cinco municípios da
Paraíba: A – Serraria, B - Alagoa Nova, C - Alagoa Grande, D - Campina Grande e E – Ingá.
A rapadura é fonte dos seguintes carboidratos: sacarose, glicose e frutose. Os percentuais de açúcares
solúveis nas amostras avaliadas variaram de 67,24%, amostra D e, a 98,21%, amostra B (Figura 4). De
acordo com a legislação vigente da Anvisa, a amostra D estaria fora dos padrões determinado, pois, o
mínimo para os glicídios totais é de 80%.
170
Administração Rural – Volume 4
Figura 4 – Valores médios de açúcares solúveis (%) de rapadura, procedentes de cinco municípios da
Paraíba: A – Serraria, B - Alagoa Nova, C - Alagoa Grande, D - Campina Grande e E – Ingá.
Os valores de açúcares redutores, ou seja, teores de glicose e frutose, açúcares que não cristalizam
facilmente nas mesmas condições que a sacarose variaram entre 3,43% (amostra C) e 55,9% (amostra B)
(Figura 5). Segundo Silva (2012), quanto maior o teor de açúcares redutores significa que houve maior
inversão da sacarose (açúcar que cristaliza) e assim, existe uma menor possibilidade de cristalização deste
açúcar.
Figura 5 – Valores médios de açúcares redutores (%) de rapadura, procedentes de cinco municípios da
Paraíba: A – Serraria, B - Alagoa Nova, C - Alagoa Grande, D - Campina Grande e E – Ingá.
O carboidrato predominante na rapadura é quase que exclusivamente sacarose (açúcar não redutor), uma
vez que a mesma é uma substância energética dos vegetais, constituída de glicose e frutose. Verificou-se
para os valores médios de açúcares não redutores que a amostra D diferiu significativa das demais
amostras, com valor de 61,44% (Figura 6). Nogueira (2015) encontrou valores de açúcares não redutores
em rapaduras entre 53,52 e 80,81%.
Figura 6 – Valores médios de açúcares não redutores (%) de rapadura, procedentes de cinco municípios
da Paraíba: A – Serraria, B - Alagoa Nova, C - Alagoa Grande, D - Campina Grande e E – Ingá.
171
Administração Rural – Volume 4
[Link]ÇÃO SENSORIAL
Os resultados das tabelas dos módulos das diferenças entre as somas das ordens (Tabela 1 e 2), foram
obtidos através das respostas descritas nos formulários, os quais foram organizados em quadros de
ordenação de doçura e de preferência das amostras, segundo a metodologia proposta pela ABNT, 1994.
Comparando-se os módulos das diferenças pelo valor crítico, qual seja de 34, nos testes de ordenação de
doçura e preferência ao nível de 5% de significância, verificou-se que não houve diferença entre as
amostras de rapadura em ambos os testes. Verificando-se desta forma, uma grande variabilidade dos
resultados nas ordenações solicitadas, pelos julgadores entre amostras avaliadas.
Tabela 1 – Avaliação sensorial de doçura de rapadura por ordenação, procedentes de cinco municípios da
Paraíba: A – Serraria, B - Alagoa Nova, C - Alagoa Grande, D - Campina Grande e E – Ingá.
MÓDULOS DAS DIFERENÇAS ENTRE AS SOMAS DAS ORDENS
Amostras
A B C D E
TOTAL 99 89 84 84 94
Diferenças versus A - 10ns 15ns 15ns 5ns
Diferenças versus B - - 5ns 5ns 5ns
Diferenças versus C - - - 0ns 10ns
Diferenças versus D - - - - 10ns
Valor crítico = 34, ao nível de 5% de significância (ABNT, 13170/1994).
(ns) = não significativo e (s) = significativo.
[Link]ÕES
As amostras provenientes das cidades de Serraria, Alagoa Nova, Alagoa Grande e Ingá, encontram-se
dentro dos padrões físico-químicos estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA,
resolução - CNNPA nº 12, de 1978.
Na avaliação sensorial, as amostras de rapaduras não apresentaram diferença entre a doçura e
preferências pelos provadores, indicando competitividade de mercado igualitária entre as mesmas em
relação aos atributos avaliados.
REFERÊNCIAS
[1] ABNT. Associação Brasileira de Normas Técnicas. Teste de ordenação em análise sensorial. NBR 13170,
1994. 7p.
[2] ANVISA - Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução CNNPA nº 12, de 1978. Disponível em:
<[Link] Acesso em: 06 out 2010.
[3] Cesar, M. A.; Silva, F. C. Pequenas indústrias rurais da cana-de-açúcar: Melado, rapadura e açúcar mascavo. 172
Disponível em:
<[Link]
[Link]> Acesso em: 06 out 2015.
[4] Colina, J.; Guerra, M.; Guilart, D.; Alvarado, C. Contenido de polifenoles y capacidad antioxidante de bebidas
elaboradas con panela. Arquivos Latinoamericanos de Nutrición, v. 62, n. 3, p. 303-310, 2012.
Administração Rural – Volume 4
[5] Gomes, A. N. O novo consumidor de produtos naturais: consumindo conceitos muito mais do que produtos.
In: Encontro ESPM de Comunicação e marketing, 3, 2009, São Paulo, Para além do produto: comunicação e consumo
na sociedade do acesso, Resumos... São Paulo, ESPM. Campus Francisco Gracioso, 2009. 11 p.
[6] Miller, G.L. Use of dinitrosalicylic acid reagent for determination of reducing sugars. Analytical Chemistry,
Washington v.31, p.426-428.
[7] Nogueira, S. R.; Caracterização da produção, qualidade e preferências e hábitos de consumo da rapadura no
município de Areia – PB. 2015. 77 f. Dissertação (Mestrado em Tecnologia Agroalimentar) - Centro de Ciências
Humanas, Sociais e Agrárias, Universidade Federal da Paraíba, Bananeiras. 2015.
[8] Oliveira, J. C; Nascimento, R. de J; Britto, W. S. F. Demonstração dos custos da cadeia produtiva da rapadura:
estudo realizado no Vale do São Francisco. Custos e @gronegócio on line - v. 3 – Edição Especial – Maio - 2007.
[9] SEBRAE. Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. O novo ciclo da cana: Estudo sobre a
competitividade do sistema agroindustrial da cana-de-açúcar e prospecção de novos empreendimentos. Ed. IEL / NC.
Brasília: IE L/ NC; SEBRAE, 2005.
[10] Yemn, E.W. & Willis, A.J. The estimation of carbohydrate in plant extracts by anthrone. The Biochemical
Journal, London, 57:508-14, 1954.
[11] Zenebon, O.; Pascuet, N. S.; Tiglea, P. Métodos físico-químicos para análise de alimentos. 1 ed. São Paulo:
Instituto Adolfo Lutz, 2008, p. 1020.
173
Administração Rural – Volume 4
Capítulo 15
Preparação e análise sensorial do licor cremoso de
acerola
Ana Beatriz Silva Rodrigues
Ana Virginia Fernandes Barros
Maria Graciele Rodrigues Dias
Maria Aparecida da Costa Pereira
Érica Milô de Freitas Felipe Rocha
174
[Link]ÇÃO
Licor é uma bebida com graduação alcoólica de 15 a 54 %, em volume, a 20°C, com percentual de açúcar
superior a 30 g/L. Este pode ser elaborado com álcool etílico potável ou destilado alcoólico simples, pode
ser de origem agrícola, bebida alcoólica ou mistura desses produtos. O licor será denominado, de acordo
com a quantidade de açúcar, podendo ser licor seco (30 a 100 g/L), fino ou doce (100 a 350 g/L), creme
(mais de 350 g/L), escarchado ou cristalizado (açúcar na proporção de saturação (BRASIL, 2009).
Elaborado com uma parte alcoólica e com uma parte não alcoólica de origem vegetal ou animal (BRASIL,
2008)
A acerola possui 1.500 mg de ácido ascórbico em 100 g de polpa e toda a vitamina C presente na polpa de
acerola é absorvida pelo organismo humano, enquanto somente 50% da vitamina C sintética é aproveitada
pelo corpo. E lembrando que tem atividade antioxidante devido ao alto teor de vitamina C (NASCIMENTO
et al., 2010).
Segundo Teixeira et al. (2011), a produção de licores representa uma forma de contornar os problemas
relacionados à comercialização de produtos perecíveis e com aspectos visuais de tamanho e forma
inferiores aos exigidos pelo mercado de “mesa”, mas que se encontra em bom estado de conservação e
apresente excelente valor sensorial e nutricional.
A produção de licor de frutas visa melhor aproveitamento do excedente de produção durante a safra,
tornando-se uma alternativa para conservação e agregação de valor a variedade produzida, bem como de
aumento de renda para o produtor. A produção de licores de frutas se destaca por ser um processo de fácil
execução, contudo, assim como qualquer outro processo exige cuidados com a higienização, avaliação das
proporções de fruta e álcool, tempo de maceração, proporção de açúcar e envelhecimento da bebida
(CAMARGO, 2015).
Segundo a Instrução Normativa Nº 62 de dezembro de 2011, entende-se por leite, sem outra especificação,
o produto oriundo da ordenha completa e ininterrupta, em condições de higiene, de vacas sadias, bem
alimentadas e descansadas. O leite de outros animais deve denominar-se segundo a espécie de que
proceda. (BRASIL,2011))
O ovo é o produto de eficiente transformação biológica feita pela galinha (Gallus gallus) de postura. Sendo
que a mesma transforma recursos alimentares de menor valor biológico em produto com alta qualidade
nutricional para o consumo humano e é rico em nutrientes: proteína de alto valor biológico (fornecendo
todos os aminoácidos essenciais), vitaminas (riboflavina, vitamina E, vitamina B6, vitamina A, ácido fólico,
colina, vitamina K, vitamina D e vitamina B12), minerais (zinco, cálcio, selênio, fósforo e ferro). (SARTORI,
2009)(ALEXANDER et al., 2016; LIU et al., 2017; GEIKER et al., 2017). A gema é uma emulsão de gordura
em água (52%) composta por um terço de proteínas (16%), dois terços de lipídios (34%), vitaminas
solúveis em lipídios A, D, E e K, glicose, lecitina e sais minerais, envolta pela membrana vitelina.
(ALCANTARA, 2012) e utilizou-se para deixar o licor mais cremoso, e para que não ficasse o odor do ovo
foi peneirado e retirado a película que as envolve fica retida na peneira pois ela é a responsável pelo
cheiro e gosto forte de ovo nas receitas.
O presente estudo teve como objetivo desenvolver um licor a base de acerola e ovo, visando o
aproveitamento destes insumos produzidos pela agricultura familiar bem como, realizar analise sensorial
para avaliar suas características sensoriais e a aceitação das bebidas produzidas.
[Link] E MÉTODOS
A pesquisa foi desenvolvida no laboratório de processamento de alimentos do Instituto Federal de
Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) - campus Ubajara. Sendo que a ideia do desenvolvimento
destas bebidas, surgiu de um desafio lançado pelo campus para elaboração de um produto que fizesse uso
da acerola e do ovo pois são insumos de grande produção na região, Serra da Ibiapaba.
As matérias-primas utilizadas foram adquiridas no comércio local sendo as mesma oriundas da
agricultura familiar da comunidade, as acerolas, antes do processamento, lavadas em água potável e
sanitizadas em solução de hipoclorito de sódio a 200 ppm por 15 minutos com posterior enxágue em água
corrente para retirar o excesso de cloro.
175
Administração Rural – Volume 4
Os licores de acerola e ovo foram elaborados a partir de duas formulações que são apresentadas na Tabela
1.
Para a formulação A, após a higienização das acerolas, as mesmas foram pesadas e sofreram um leve
esmagamento juntamente com metade do açúcar e, posteriormente, foi adicionado metade da vodca da
formulação então foi fechado hermeticamente o pote de vidro e deixado maturar por 7 dias. Após este
período foi feita uma filtração obtendo-se o primeiro extrato que foi armazenado em um recipiente de
vidro hermético. Neste momento, foram homogeneizadas as gemas de ovo peneiradas (retirada a película
que a envolve e que fornece o odor forte e característico) com a outra metade do açúcar até branquear e,
em seguida, adicionou-se a água, leite, vinho, essência de baunilha e canela em pó que foram
homogeneizados com um mix de alimentos por 5 minutos, sendo adicionada então o restante da vodca,
obtendo-se o segundo extrato alcóolico que também descansou por 7 dias. Passado este período (14 dias
para o primeiro extrato e 7 dias para o segundo extrato), os dois extratos alcóolicos foram
homogeneizados, envasados em garrafas de vidro esterilizadas e armazenados até a realização da análise
sensorial.
Para a formulação B, foi seguido quase o mesmo processo sendo que nesta formulação não se adicionou o
vinho, a essência de baunilha e a canela além de que, os dois extratos foram preparados no mesmo dia,
deixados maturar por 7 dias isoladamente e, após este período, foi realizada a mistura dos dois extratos
alcóolicos, envasados em garrafas de vidro esterilizadas e armazenados até a realização da análise
sensorial.
A avaliação sensorial foi realizada no laboratório do IFCE ─ campus Ubajara/CE, com um grupo de 100
julgadores, de ambos os sexos, não treinados e voluntários da comunidade acadêmica deste Instituto,
envolvendo estudantes, professores e funcionários, onde a idade variou de 18 a 35 anos. É valido salientar
que todos os voluntários assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
A análise realizada foi o teste de aceitação que seguiu a metodologia preconizada por Dutcosky (2013)
onde foi utilizada uma escala hedônica estruturada de 9 pontos, sendo 1 desgostei muitíssimo e 9 gostei
muitíssimo, para o teste de aceitação no qual avaliou-se a aparência, aroma, sabor, textura e impressão
global do produto. Avaliou-se, também, o critério de intenção de compra do produto no mercado, nesse
teste foi empregado uma escala hedônica variando entre 1 (com certeza não compraria) e 5 (com certeza
compraria) conforme metodologia recomendada pelo Instituto Adolfo Lutz (2008).
Os testes foram realizados em cabines individuais e os julgadores receberam 2 amostras, uma amostra por
vez, na quantidade de 15 ml em copos descartáveis, codificados com números aleatórios de 3 dígitos
acompanhados da ficha de avaliação e um copo com água mineral para consumo entre as amostras.
Além disso, foi calculado o índice de aceitabilidade a partir da seguinte Fórmula 1 (PEUCKERT et al.,
2010):
IA = A x 100 (1)
176
B
Onde IA é o índice de aceitabilidade e “A” é a média obtida para o produto e “B” é a nota máxima que o
produto poderia obter.
Administração Rural – Volume 4
A análise estatística dos dados foi realizada utilizando-se o programa computacional Excel@ onde foram
obtidas as médias, desvio-padrão e foi analisado se existia diferenças significativa entre as amostras pelo
Teste F a 5% de probabilidade.
[Link] E DISCUSSÃO
Na análise sensorial, mediante os dados obtidos, não houve diferença significativa entre as Formulações A
e B há 5% (p > 0,05) de probabilidade, nos atributos analisados, os quais são: aparência, aroma, sabor,
textura e impressão global (Tabela 2). Os atributos avaliados tiveram aceitação, variando os escores de
6,03 a 7,38, ou seja, na escala hedônica variando entre os termos de “Gostei Ligeiramente” e “Gostei
Moderadamente”. Sendo que a formulação A, licor com a acréscimo de vinho, essência de baunilha e canela
em pó e a formulação B, licor sem a acréscimo de vinho, essência de baunilha e canela em pó.
Tabela 2 – Atributos de aparência, aroma, sabor, textura e impressão global das formulações de licor de
acerola e ovo.
Atributos Analisados Formulação A Formulação B
Aparência 6,67a±1,95 6,74a±1,66
Aroma 6,78a±1,86 6,03a±1,98
Sabor 7,38a±1,95 6,23a±2,23
Textura 7,33a±1,61 6,63a±1,91
Impressão Global 7,08a±1,72 6,55a±1,74
Médias na mesma linha acompanhadas de letras minúsculas iguais, não apresentam diferença significativa a 5% de
probabilidade no teste de F Valores representam médias ± desvio padrão
Fonte: Elaborada pelo autor
O índice de aceitabilidade dos atributos analisados para ambas as formulações se encontram representada
no Gráfico 1. Segundo Maia et al (2008), a aceitabilidade é considerada como ótima quando estiver acima
de 90%, boa acima de 80%, moderada acima de 70% e razoável acima de 60%. Neste sentido, as duas
formulações de licor de acerola e ovo apresentaram-se moderadamente aceitas pelos provadores.
Grafico 1 – Indice de aceitabilidade dos atributos sensoriais analisados para as formulações de licor de
acerola e ovo.
É valido salientar que, apesar das formulações serem estatisticamente iguais, foram observados nos
comentários dos provadores que, os mesmos, ressaltaram perceber diferenças nos parâmetros de aroma,
textura e sabor alegando ser detectado uma menor presença de ovo na formulação A. Este fato pode estar 177
relacionado ao acréscimo de vinho, essência de baunilha e canela em pó na referida formulação.
Administração Rural – Volume 4
Outra informação importante encontrada nos comentários foi em relação ao parâmetro de aparência pois,
foi mencionado que a formulação B apresentava uma coloração típica de uma bebida de acerola podendo,
estar esta fato também relacionado ao . Este fato pode estar relacionado a não inclusão do vinho, essência
de baunilha e canela que acabaram modificando a coloração típica da acerola. É importante ressaltar que
100% dos provadores já haviam consumido algum tipo de licor anterior a esta análise.
Já para a intenção de compra, em que os provadores não treinados deveriam classificar a sua intenção
baseado na escala de 5 pontos (1 “Com Certeza Não Compraria” e 5 “Com Certeza Compraria”), a média
para melhor venda hipotética seria também a da Formulação A que obteve um resultado médio de 3,91
classificado como, em termos hedônicos, “Provavelmente Compraria”, conforme Gráfico 2.
As duas formulações de licor de acerola e ovo obtiveram aceitação por parte dos provadores e, mesmo
sem diferença estatística entre as amostras, pelos comentários observou-se uma pequena preferência pela
formulação A que continha vinho, essência de baunilha e canela em pó. Quanto ao parâmetro de aparência,
a formulação B obteve um melhor resultado por apresentar uma cor mais característica da fruta (acerola).
Por fim, ambas as Formulações se apresentaram como veículo para comercialização, tendo em vista que
foram bem avaliadas, reduzindo com isso o desperdício desta fruta e agregando valor a mesma através
desta bebida tradicional.
Em relação à aparência da embalagem do licor, foi bem característico da região, por ter sido de uma
maneira bem artesanal, o rotulo foi elaborado pelas alunas e de maneira bem simples, a garrafa de vidro
foi escolhida por impedir as trocas gasosas e conservar bem o licor, conforme a Figura1.
178
[Link]ÕES
A elaboração de licor de acerola e ovo é uma opção de aproveitamento, apresentando como mais um
veículo de comercialização destas matérias-primas pois, ambas formulações foram aceitas pelos
provadores, reduzindo com isso o desperdício desta fruta e agregando valor a uma bebida tradicional e
artesanal.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) – Campus Ubajara
por nos proporcionar condições de desenvolver a pesquisa fazendo uso de seus laboratórios.
REFERÊNCIAS
[1] Alexander D.D et al. Meta-analysis of Egg Consumption and Risk of Coronary Heart Disease and Stroke. J Am
Coll Nutr; 35(8):704-716, 2016.
[2] Alcantâra. J, B. Qualidade Físico-Química de Ovos Comerciais: Avaliação e Manutenção da Qualidade,2012
acessado em: 09/10/2018
[3] Brasil. Instrução Normativa, 2011 disponível em: [Link] acessado em
15/10/2018
[4] Brasil. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa nº 55 de 31 de outubro de
2008 que dispõe sobre os regulamentos técnicos para a fixação dos padrões de identidade e qualidade para as bebidas
alcóolicas por mistura: licor, bebida alcóolica mista, batida, caipirinha, bebida alcóolica composta, aperitivo e
aguardente composta. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, 31 out. 2008.
[5] Brasil. Poder Executivo Federal. Decreto nº 6.871, de 4 de junho 2009. Regulamenta a Lei nº 8.918, de 14 de
julho de 1994, que dispõe sobre a padronização, a classificação, o registro, a inspeção, a produção e a fiscalização de
bebidas. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, 05 jun. 2009.
[6] Camargo, G. H. Estudo de parâmetros de maceração para obtenção de licor de abacaxi, 2015. 31f. Trabalho de
Conclusão de Curso (Graduação) – Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Pato Branco, 2015.
[7] Dutcosky, S. D. Análise Sensorial de Alimentos. 4 ed. rev. ampl. – Curitiba: Champagnat, 2013. 531 p.; 23 cm.
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[8] Gu L. et al. Protection of β-carotene from chemical degradation in emulsion-based delivery systems using
antioxidant interfacial complexes: Catechin-egg white protein conjugates. Food Res Int; 96:84-93, 2017.
[9] Geiker N.R.W et al. [Eggs do not increase the risk of cardiovascular disease and can be safely consumed].
Ugeskr Laeger; 15;179(20), 2017.
[10] Maia, M. C. A. et al. Avaliação do consumidor sobre sorvete com xilitol. Ciênc. Tecnol. Aliment., Campinas, 28
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[12] Sartori, E.V, Concentração de proteínas em gemas de ovos de poedeiras (Gallus gallus) nos diferentes ciclos
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[Link] acessado em 08/10/2018
[13] Teixeira, L, J. et al. Tecnologia, Composição e Processamento de Licores, Enciclopédia Biosfera, Centro
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[Link] Acessado em 05/10/2018.
[14] Você joga fora a gema do ovo? Disponível em: [Link]
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179
Administração Rural – Volume 4
Capítulo 15
Desenvolvimento e caracterização da bebida alcoólica
fermentada de manga (Mangifera Indica L.)
Edilaine Alves da Silva Santos
Thaís Lima Moreira
Rosangela Dias de Aragão Rosa
Claudenice dos Santos
Danilo Santos Souza
Maycon Fagundes Teixeira Reis
1. INTRODUÇÃO
O crescimento do mercado de frutas e seus derivados tem ocasionado um aumento significativo do
desperdício dessas matérias-primas e a geração de resíduos. Estima-se que o número de frutas e
hortaliças perdidas no Brasil chega a ser de aproximadamente 40%, necessitando de uma alternativa para
o melhor aproveitamento destes (PINTO et al.,2014), desenvolvimento de técnicas que minimizem o
descarte impróprio de alimentos, contribuindo de forma significativa para a economia do país e a
diminuição dos impactos ambientais (DAMIANI et al., 2008).
Dentre as frutas com altos índices de desperdício encontra-se a manga (Mangifera indica L.) uma fruta
polposa, de tamanho variável, aroma e cor muito agradáveis (BALLY,2011). Além de ser uma importante
fonte de fitoquímicos bioativos, dentre os quais se destacam os carotenoides e a vitamina C. Estes
fitoquímicos, por exibirem propriedade antioxidante, atuam retardando a velocidade da reação de
oxidação. (MELO; ARAÚJO, 2011; RODRIGUEZ-AMAYA, 1999).
A produção de bebidas alcoólicas a partir de fontes de carboidratos fermentáveis é uma técnica
biotecnológica econômica e antiga. As técnicas dos processos fermentativos podem ser empregadas de
forma eficiente para a elaboração de fermentados de frutas. Teoricamente, qualquer fruto ou vegetal que
apresente umidade, açúcar e nutrientes para as leveduras pode ser utilizado como matéria-prima para a
produção de bebidas alcoólicas fermentadas (TORRES NETO et al., 2006; SILVA et al., 2011; OLIVEIRA et
al., 2012 apud GONÇALVES et. al. 2016). A bebida fermentada de frutas é definida como uma bebida com
graduação alcoólica de quatro a quatorze por cento em volume, a vinte graus Celsius, obtida da
fermentação alcoólica do mosto de fruta sã, fresca e madura (SILVA et al., 2011).
A fermentação alcoólica é a biotransformação resultante dos processos metabólicos das leveduras que se
alimentam de substratos (açucares), produzindo álcool e gás carbônico, por meio de um microrganismo.
Usualmente é utilizada a levedura da espécie Saccharomyces cerevisiae, a qual realiza a fermentação dos
açúcares com um único objetivo, que é conseguir energia química necessária à sua sobrevivência, sendo o
etanol apenas um subproduto desse processo. Quimicamente, é um processo de oxidação anaeróbica
parcial da glicose, onde está é convertida em duas moléculas de piruvato por meio de reações catalisadas
por diferentes enzimas (LACERDA et al. 2011).
Furtas tropicais tais como abacaxi, manga, laranja apresentam um grande potencial para produção de
bebidas fermentas por serem ricas de nutrientes principalmente carboidratos e água. Garantindo um
aproveitamento das frutas e agregando valor.
2. MATERIAL E MÉTODOS
Desenvolveu-se a bebida alcoólica fermentada de manga no Laboratório de Bromatologia da Universidade
Federal de Sergipe – UFS, Campus do Sertão em Nossa Senhora da Glória – SE.
181
Administração Rural – Volume 4
A figura 2 mostra o fluxograma como as etapas da produção da bebida fermentada. Para elaboração do
fermentado alcóolico de manga a polpa foi submetida à um tratamento térmico (80°C/10 minuto), afim de
reduzir parte da carga microbiológica. Em seguida resfriou-se o mosto e adicionou-se leveduras na
proporção de 4g/l. A fermentação alcoólica ocorreu em recipientes de polipropileno vedados, a
temperatura ambiente por um período de 7 dias. Durante esse período realizou-se análises a cada 24
horas, verificando-se o teor de Sólidos Solúveis Totais (SST), pH e Acidez Total (AT). Com o cessar da
fermentação a bebida foi submetida bebida a etapa de clarificação.
182
Administração Rural – Volume 4
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1. ESTUDO CINÉTICO DO PROCESSO FERMENTATIVO DA BEBIDA ALCOÓLICA FERMENTADA DE
MANGA
O processo de fermentativo da bebida fermentada de manga durou 168 horas, e apresentou um
rendimento de 35,63%, nesse período ocorreram modificações, em função o metabolismo das leveduras.
Na figura abaixo é possível observar que no início do processo o mosto apresentou acidez total de 18,43
meq/L tendo pico em 109 meq/L e depois decresceu para 59,17 meq/, esse comportamento pode ser
justificado por uma grande produção de ácidos voláteis na fase inicial do processo fermentativo, seguido
da perda de parte desses compostos (BORZANI et al. 1983, ALMEIDA et al., 2009).
183
O teor de Sólidos Solúveis Totais é o fator mais importante a ser observado durante o processo
fermentativo, pois ele demonstra o metabolismo da levedura, que ao consumir os açucares disponíveis no
mosto produzem etanol e dióxido de carbono. Na figura 5 encontra-se o gráfico demonstrando o
comportamento do teor de sólidos solúveis durante a fermentação. Inicialmente o mosto apresentou
22,13°Brix e finalizou com 7°Brix, demonstrando o consumo de açucares no período de sete dias. A fase
tumultuosa se deu entre nas primeiras 72 horas, com o consumo de mais da metade dos açucares
fermentescíveis, seguida pelas fases de declínio e estacionaria, nas últimas 24 horas, caracterizada por não
haver consumo significativo de açúcares.
Figura 5 - Evolução do parâmetro físico-químico, Sólidos Solúveis Totais (°Brix) durante a fermentação da
Bebida Fermentada de Manga.
Tabela 2 - Resultados das Análises dos parâmetros físico-químicos, sólidos solúveis totais (SST), pH e
acidez total da bebida alcoólica fermentada de manga – Brasil – 2017
PARÂMETROS FÍSICO-QUÍMICOS
BEBIDA Sólidos Solúveis Totais Acidez Total Teor alcoólico
pH
(°Brix) (meq/L) (°GL)
Manga 7 ± 0,4242 3,7 ± 0,0070 59,17 ± 0 6,43 ± 0,4242
Fonte: Dados da pesquisa.
Tabela 3 - Resultados das Análises microbiológicas mesofilos, bolores e leveduras– Brasil - 2017.
Análises Resultados
Mesofilos (UFC/ml) 0
Bolores e leveduras (UFC/ml) 0
Coliformes totais Ausente
Coliformes termotolerantes Ausente
Fonte: Dados da pesquisa.
Figura 6 - Histograma dos resultados da análise sensorial da bebida fermentada de Manga, em relação à
frequência dos valores hedônicos atribuídos a aparência, aroma, sabor, textura e impressão global (9=
gostei muitíssimo e 1= desgostei muitíssimo).
4. CONCLUSÕES
Com o desenvolvimento e caracterização da bebida alcoólica fermentada de manga pode-se notar que a
mesma atende aos padrões físico-químicos estabelecidos pela Portaria nº 64, de 23 de abril de 2008, que
186
fixa padrões de identidade e qualidade para as bebidas alcoólicas fermentadas. A análise microbiológica
mostrou que a bebida foi produzida utilizando as práticas higiênico-sanitárias e se apresenta apta para
consumo. A avaliação sensorial revelou a aceitabilidade desta, evidenciando possibilidade de
comercialização do produto.
Administração Rural – Volume 4
REFERÊNCIAS
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Linhagens de Saccharomyces cerevisiae. The Journal of Engineering and Exact Sciences. Campus Rio Paranaíba. v. 03, n.
06, p. 0780-0785, 2017.
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Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.11, n.1, p.15-20, 2009.
[3] Asquieri, E.R.; Rabelo, A. M. S. e Silva, A. G. de M. Fermentado de jaca: estudo das características físico-
químicas e sensoriais. Cienc. Tecnol. Aliment, Campinas, vol.28, n.4.2008.
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Jaboticabal, v. 33, n.1 - edição especial, p. 57-63, 2011.
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padrões microbiológicos para alimentos. ANVISA - Agência Nacional de Vigilância Sanitária 2001.
[6] Brasil. Portaria n. 64 de 23 de abril de 2008. 2008 Diário Oficial da União Aprovam os regulamentos técnicos
para a fixação dos padrões de identidade e qualidade para as bebidas alcoólicas fermentadas: fermentado de fruta,
sidra, hidromel, fermentado de cana, fermentado de fruta licoroso, fermentado de fruta composto e saquê. Brasília:
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, 2008.
[7] Damianii, C. et al. Análise física, sensorial e microbiológica de geléias de manga formuladas com diferentes
níveis de cascas em substituição à polpa. Ciência Rural, Santa Maria, v.38, n.5, p.1418-1423, 2008.
[8] Gonçalves, M. S. et. al. Elaboração e caracterização físico-química de bebida alcoólica mista de laranja com
beterraba. Revista Brasileira de Tecnologia Agroindustrial. Gramado, v. 6, n° 01, p. 2016.
[9] Hoeckel, P. H. de O. A eficiência econômica na produção de vinhos no Rio Grande do Sul (2008-2009). 2014.
f. 152. Dissertação (Mestrado em Economia e Desenvolvimento) – Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria.
2014.
[10] Instituto Adolfo Lutz. Normas analíticas do instituto Adolfo Lutz: métodos químicos e físicos para análise de
alimentos. 2. ed. São Paulo: Instituto Adolfo Lutz, 2008.
[11] Junior, O. C. et al. O setor de bebidas no Brasil. BNDES Setorial. v.40, p. 93-130. 2014.
[12] Lacerda, A.K.N. de et al. Fermentação Alcoólica: Processos e Análises. IX Simpósio de Base Experimental das
Ciências Naturais da Universidade Federal do ABC, São Paulo, 2011.
[13] Melo, E. A.; Araújo, C. R. Mangas das variedades espada, rosa e Tommy Atkins: compostos bioativos e
potencial antioxidante. Seminário: Ciências Agrárias, Londrina, v. 32, n. 4, p. 1451-1460, 2011.
[14] Oliveira, L. A., et al. Elaboração de bebida fermentada utilizando calda residual da desidratação osmótica de
abacaxi (Ananas comosus L.). Revista Brasileira de Tecnologia Agroindustrial, Ponta Grossa, v. 06, n. 01: p. 702-712,
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[15] Pinto, L. I. F. et al. Desenvolvimento de bebida alcoólica fermentada obtida a partir de resíduos
agroindustriais. XXCOBEQ, Florianópolis, 2014.
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indica l.). Revista Brasileira de Tecnologia Agroindustrial. Ponta Grosa, v. 05, n. 01: p. 367-378, 2011.
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AUTORES
ADRIANA CALDERAN GREGOLIN
Graduada em Engenharia Agronômica pela Universidade de Brasília (1998) com mestrado em
Ciências Agrárias (Agronegócio) pela Universidade de Brasília (2004). Trabalhou na Universidade
de Brasília no Grupo de Trabalho de Apoio à Reforma Agrária (GTRA/UnB) com Educação do
Campo. Foi professora da disciplina de Extensão Rural na Faculdade de Agronomia e Medicina
Veterinária da UnB e desde 2004 atua como consultora do IICA e do Programa das Nações Unidas
para o Desenvolvimento na Secretaria de Agricultura Familiar do Ministério do Desenvolvimento
Agrário. Tem atuado profissionalmente na análise, acompanhamento e avaliação de projetos de
capacitação, assistência técnica e extensão rural e pesquisa, coordenação de ações com agricultores
familiares, assentados da reforma agrária, capacitação de técnicos e agentes, gestores públicos,
apoio técnico em programa de diversificação da produção e renda para agricultores familiares em
áreas de fumicultura.
HAROLDO DE SÁ MEDEIROS
Professor do curso de Administração da Fundação Universidade Federal de Rondônia - Campus de
Porto Velho. Vice-chefe do Departamento Acadêmico de Administração da Fundação Universidade
Federal de Rondônia - Campus de Porto Velho. Doutor em Administração de Empresas pela
Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Mestre em Administração pela Fundação Universidade
Federal de Rondônia (UNIR). Graduado em Administração pela Universidade Federal do Rio
Grande do Norte (UFRN). Pesquisador associado e vice-coordenador do Centro de Estudos
Interdisciplinares em Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (CEDSA). Pesquisador associado
ao Marketing and Consumption Lab (MCL-UNIR).
ambos pela Universidade Federal de Paraíba, possui Especialização em Alta Gastronomia (2014)
pela Faculdade Internacional da Paraíba e graduada em Nutrição (2007) pela Universidade Federal
de Paraíba. Atua na área de Ciência e Tecnologia de Alimentos e Gastronomia com ênfase em:
avaliação físico-química, microbiológica e análise sensorial de alimentos. Atualmente é técnica no
Laboratório de Análise Sensorial de Alimentos, e Professora externa de Análise Sensorial do
Programa de Pós-Graduação de Ciência e Tecnologia de Alimentos, ambos da Universidade Federal
da Paraíba.
LAURA POSSANI
Engenheira Agrônoma formada na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA). Mestre em
Extensão Rural pelo Programa de Pós Graduação em Extensão Rural da Universidade Federal de
Santa Maria (UFSM). Aluna do Programa Especial de Formação de Professores para Educação
Profissional da UFSM e Doutoranda em Agronegócios pela UFRGS. Almeja atuar em pesquisas que
envolvam as três áreas, ensino, pesquisa e extensão, sempre buscando associar com suas áreas de
formação. Busca envolver-se em pesquisas sobre agronegócios, produções agrícolas em geral,
comercialização, mercados agrícolas, economia rural, agricultura familiar, cooperativismo,
desenvolvimento rural, questões sociais nas ciências rurais e educação rural.
Economia pela Universidade de São Paulo – USP (1986) e doutorado em Economia pela
Universidade de São Paulo (1993). Atualmente é Professora Associada da Universidade Estadual
de Londrina e do Mestrado em Economia Regional dessa instituição.
Engenharia de Alimentos pela Universidade Federal da Paraíba - UFPB. Tem experiência na área de
Ciência e Tecnologia de Alimentos, com ênfase em Engenharia de Alimentos, atuando nos seguintes
temas: controle de qualidade e desenvolvimento de novos produtos.
VERÔNICA SCHMIDT
Possui graduação em Medicina Veterinária (UFRGS, 1985), mestrado em Medicina Veterinária
(UFRGS, 1990) e doutorado em Ciências Veterinárias (UFRGS, 2002). Realizou treinamento no
Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade de Kyoto, Japão (1996-1997), com ênfase
em qualidade de água. Atualmente é Professora Titular do Departamento de Medicina Veterinária
Preventiva da Faculdade de Veterinária e Professora do Programa de Pós-graduação em
Agronegócios da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.
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