O princípio da igualdade é um dos fundamentos mais relevantes do
ordenamento jurídico contemporâneo, sendo frequentemente
invocado para sustentar a proteção de direitos e a promoção da
justiça social. No entanto, a aplicação tradicional da igualdade, que
prega o tratamento igual de iguais e desigual de desiguais, mostrou-
se insuficiente para abordar as desigualdades estruturais e sistêmicas
presentes na sociedade, especialmente aquelas que afetam grupos
subordinados, como as mulheres, pessoas negras, LGBTQIA+, entre
outros. Este entendimento é aprofundado no Protocolo para
Julgamento com Perspectiva de Gênero do CNJ, estabelecido pela
Portaria 77/21 e pela Resolução 492 de 17/04/2023, que oferece
diretrizes para uma atuação jurisdicional mais atenta e inclusiva,
fundamentada nos princípios do devido processo legal, igualdade,
acesso à justiça e equidade.
O devido processo legal é um princípio constitucional que assegura a
todos os indivíduos um tratamento justo e imparcial diante do sistema
jurídico. Contudo, a aplicação deste princípio não deve ser entendida
de forma restrita, apenas como um conjunto de garantias processuais
formais. O devido processo legal deve ser interpretado à luz do
princípio da igualdade substantiva, que não se limita ao tratamento
idêntico entre as partes, mas sim à consideração das desigualdades
estruturais e históricas que afetam certos grupos sociais.
O acesso à justiça é um direito fundamental que implica não apenas a
possibilidade de ingressar no sistema judiciário, mas também a
efetiva proteção e promoção dos direitos de todos os indivíduos,
especialmente daqueles em situação de vulnerabilidade. O Protocolo
do CNJ destaca a necessidade de se garantir que todas as pessoas,
independentemente de seu gênero, raça, orientação sexual ou classe
social, tenham acesso a um julgamento justo e equitativo.
Para que o acesso à justiça seja pleno, é indispensável que os
tribunais estejam cientes e preparados para lidar com as
desigualdades que permeiam as experiências de diferentes grupos.
Isso implica em uma reformulação das práticas judiciárias
tradicionais, adotando medidas como a sensibilização dos
magistrados, a inclusão de diretrizes específicas que promovam a
igualdade de gênero e a implementação de mecanismos que
assegurem a participação ativa e significativa de todos os grupos
sociais no processo jurídico. Somente através de uma justiça que
reconheça e combata as barreiras estruturais existentes é que se
pode alcançar um acesso à justiça verdadeiramente inclusivo.
A equidade, enquanto princípio orientador do direito, vai além da
igualdade formal, pois busca corrigir as desigualdades materiais e
proporcionar a cada indivíduo o tratamento necessário para garantir
oportunidades e resultados justos. A aplicação do princípio da
equidade requer uma análise detalhada das condições concretas de
vida das partes envolvidas, bem como uma disposição para ajustar as
práticas e decisões judiciais de forma a mitigar os efeitos de
discriminações e desigualdades históricas.
A adoção das diretrizes propostas pelo Protocolo do CNJ representa
um passo significativo na busca por um sistema de justiça mais
inclusivo e equitativo. No entanto, é fundamental reconhecer que
essa mudança depende não apenas de ajustes normativos, mas de
uma profunda transformação cultural dentro do próprio judiciário. Isso
implica na formação contínua de magistrados e magistradas, no
desenvolvimento de uma sensibilidade crítica para com as
desigualdades estruturais e na disposição para aplicar o direito de
maneira que realmente promova a igualdade substantiva.
Em última análise, a realização dos princípios do devido processo
legal, igualdade, acesso à justiça e equidade exige um
comprometimento com a justiça social e a dignidade humana, que
ultrapasse as limitações das abordagens formais e abrace uma visão
de direito como instrumento de transformação e promoção de uma
sociedade mais justa e igualitária para todos.