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Filtragem Racial na Abordagem Policial

Fichamento

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Filtragem racial na abordagem policial

Introdução
● Práticas autoritárias e violentas contra a população negra adotadas pela polícia
brasileira.
● Déficit de regulamentação jurídica e controle da atividade policial, além da incidência
discriminatória da violência estatal sobre a população negra, a partir da filtragem
racial (racial profiling) e do racismo institucional.
● Revistas, buscas e interrogatórios informais: incidem de forma desproporcional e
abusiva.
● Impacto da filtragem racial na busca pessoal.
● Estratégia de suspeição generalizada.
● Aproximação entre negros e suspeitos.
● Fragilidade no controle judicial da busca pessoal.
● Julgados pelo STF e STJ trazem ideias diferentes quando requisitos (características
pessoais do abordado e em outro resultado da busca).
● Nos EUA, há um esforço maior de racionalização jurídica da suspeição policial e de
superação da filtragem racial.

Policiamento no Brasil do século XIX: a “estratégia de suspeição generalizada”


● “Na Constituição de 1824, os escravos não eram considerados cidadãos e não
gozavam da plenitude dos direitos políticos (art. 6°). No entanto, eram considerados
como pessoas quando acusados de delitos.”
● Mera presença do negro no espaço público era um elemento de suspeição e
fundamento para repressão.
● Libertos e imigrantes ocuparam papel de suspeitos.
● “O poder de repressão passou então a ser articulado a um discurso jurídico tendente
à legitimação e da repressão orientada à preservação da ordem e ao controle dos
desvios entre os grupos subalternos.”
● O aparato policial não se desenvolve em oposição ao controle social privado.
● “raça não é simplesmente um elemento externo ao funcionamento do sistema penal”

Abordagem policial no século XXI: os jovens negros e pobres como os alvos


preferenciais da repressão
● “Conforme se registra em Relatório do PNUD (2005, p. 91 e 100), as abordagens
policiais no Brasil não são registradas, e mesmo aquelas que resultam em boletins
de ocorrência são muito vagamente reportadas, carecendo de informações
suficientes para uma investigação.”
● Alvo rotineiro das buscas pessoais: jovem negro e pobre do sexo masculino.
● Diferença entre características dos abordados a pé e em veículos particulares.
● Preconceito racial e discriminação (associados à classe social e à raça dos sujeitos).
● Uso da abordagem como mecanismo higienizador.
● Flagrante poucas vezes decorre da investigação prévia, mas sim decorre da
abordagem casual em via pública.

A indefinição da suspeição e o componente racial dos “tipos ideais” de suspeito


● “A prática da busca pessoal é comumente associada à suspeição.”
● “A suspeição não é objeto de nenhuma definição clara e objetiva e seu significado é
deixado “à mercê do senso comum, da ‘intuição’, da cultura informal e dos
preconceitos correntes”
● “características do indivíduo (roupas, atitudes, reação à aproximação da polícia),
bem como características relacionadas aos lugares ou territórios (alta criminalidade,
grande disponibilidade de alvos, horário, etc.)”
● “Estigmatização de grupos e tipos marginalizados como potenciais criminosos,
cristalizados como tipos ideais de suspeitos.”
● “tipo ideal de indivíduo suspeito construído em oposição ao tipo ideal de vítima”
● “Desse modo, a indefinição da noção de suspeição policial, que desemboca em uma
alargada brecha para a reprodução de preconceitos pelo aparato policial, é paralela,
no cenário nacional, então, à insuficiência de dados quanto aos resultados das
abordagens, inclusive sob a perspectiva de seus objetivos declarados, concomitante
à falta de transparência, fiscalização e controle das abordagens.”

O controle judicial da busca pessoal pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e pelo
Superior Tribunal de Justiça (STJ)
● Suspeição sistemática, a partir de um padrão autoritário e repressivo ainda
preferencialmente direcionado contra a negritude e a pobreza.
● “busca pessoal é medida incorporada ao ciclo da persecução penal e é diariamente
validada pelo Poder Judiciário na qualidade de meio de obtenção de prova”
● Pouca ou nenhuma clareza quanto aos limites.
● “O acórdão de julgamento do HC 81.305/GO foi proferido pela Primeira Turma do
STF em 2001. No caso, o impetrante-paciente havia sido autuado pelo crime de
desobediência em virtude de ter-se recusado a submeter-se a busca pessoal.”
(Singularidade)
● Não haveria “razão fática”, impetrante-paciente era advogado, estava usando um
“blusão” e isso é insuficiente para embasar a busca pessoal.
● Deve se basear em elementos concretos.
● Ilegal a conduta dos policiais.
● “Por outro lado, o acórdão de julgamento do HC 257.002/SP, julgado pela Quinta
Turma do STJ, refere-se a um caso em que o paciente do caso, que estava com
outro indivíduo dentro de um ônibus interestadual, teria reagido com nervosismo à
presença de policiais. Os dois teriam fornecido “respostas desencontradas” às
perguntas a eles direcionadas, razão pela qual foi realizada busca pessoal pelos
policiais. Nada foi encontrado após a revista de ambos, mas eles não foram
liberados. Ao contrário, foram conduzidos coercitivamente a um hospital a fim de
serem submetidos a exame radioscópico. Lá, foi constatada a existência de droga
em seus sistemas digestivos.”
● “A condução coercitiva para realização de exame radioscópico não configuraria
autoincriminação, mas mera extensão da busca pessoal.”
● “Quanto ao exame da legalidade da busca pessoal no caso concreto, é interessante
salientar que não há nem mesmo menção no acórdão do STJ ao fundamento
utilizado pelos policiais para praticar a busca pessoal.”
● “fato de efetivamente terem sido encontradas drogas após a realização do exame
seria suficiente para a “demonstração objetiva” da suspeita”
● Demonstrada pelos resultados e não pelos fundamentos da busca: interpretação
equivocada da “fundada suspeita”.
● “nenhum dos dois acórdãos analisados apresenta diretrizes que viabilizem limites
efetivos à atuação policial.”

O controle judicial da stop and frisk nos Estados Unidos: os casos Terry v. Ohio
(1968) e Floyd, et al. v. City of New York, et al. (2013)

6.1. O caso Terry v. Ohio


● “McFadden suspeitou (embora sem elementos suficientes para constituir causa
provável) que um assalto à mão armada poderia ocorrer em breve.” (Realizou revista
e achou pistola em dois dos três suspeitos)
● “Suprema Corte concluiu pela validade da abordagem policial, embora tenha
reconhecido que McFadden agiu sem mandado prévio e sem causa provável”
● “A stop and frisk seria um tipo específico de abordagem policial, caracterizada como
uma breve e superficial detenção e revista das vestes do indivíduo, limitada à
procura por armas, em que os requisitos de mandado prévio e causa provável não
seriam exigíveis.”
● Busca razoável e quaisquer armas apreendidas podem ser utilizadas como prova
contra a pessoa da qual elas foram retiradas.
● “deixou de estabelecer exigência direcionada a coibir a discriminação racial pela
polícia e rejeitou a possibilidade de aplicação mais rigorosa da exclusionary rule com
o fito de desestimular abordagens discriminatórias.”

Pós-Terry: a filtragem racial e o julgamento do caso Floyd, et al. v. City of New York, et
al. pela Corte Federal do Distrito Sul de New York
● Os parâmetros foram flexibilizados pelas cortes estadunidenses.
● Aplicada a detenções mais longas e a intervenções policiais mais ostensivas e
intrusivas.
● “A própria “suspeita razoável” passou a ser reconhecida pelas cortes a partir de
fundamentos questionáveis, calcados em uma cegueira racial.”
● “Black Lives Matter, criado após a morte de Martin, refere-se à criação de
mecanismos voltados à superação do racismo institucional, o que passa pela
intensificação do controle sobre a prática de stops and frisks e sobre o uso da
filtragem racial na motivação dessas abordagens policiais.”
● “investigação de tráfico de drogas têm sido “higienizadas” ao serem classificadas
como abordagens rotineiramente de trânsito”
● “No julgamento da class action Floyd, et al. v. City of New York, et al.42 pela juíza
federal Shira Scheindlin, da Corte Federal do Distrito Sul de Nova Iorque, no qual se
reconheceu a inconstitucionalidade do modo como foi praticada a stop and frisk pelo
NYPD entre 2004 e 2012.”
● Fragilidade dos fundamentos utilizados pelos policiais para fundamentar as
abordagens e nítido direcionamento racial.
● “série de medidas (remedies) a serem tomadas pelo NYPD a fim de conformar a
prática da stop and frisk à Constituição dos EUA e inviabilizar o uso da filtragem
racial.”
● “A juíza esclareceu de início os fundamentos que autorizam uma abordagem (stop) e
uma revista (frisk), bem como os caracteres que as distinguem.”
● “percepção de “movimentos furtivos” não basta para ensejar uma abordagem:
deve-se descrever a natureza dos “movimentos furtivos”
Conclusão
● Negritude: indício de suspeição e periculosidade.
● “frágil o controle de tais práticas policiais pelo aparato jurisdicional.”
● “controle judicial de validade da abordagem policial é dotado de relevância e, em
particular, pode trilhar diferentes caminhos em relação ao problema da filtragem
racial.”
● “responsabilidade das agências judiciais sobre o racismo institucional diariamente
reproduzido pelo aparato policial.”

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