CLASSICISMO
Profª Me. Andreza M. B. Leria
Classicismo
◦ O Classicismo foi um movimento cultural que fez parte do Renascimento
europeu, durante os séculos XV e XVI. Como o próprio nome aponta, a proposta
do Classicismo era um retorno às formas e temas da Antiguidade Clássica,
ou seja, Grécia e Roma antigas.
Mas o que foi o Renascimento?
◦O Renascimento foi um importante movimento
de ordem artística, cultural e científica que se deflagrou na passagem
da Idade Média para a Moderna. Em um quadro de sensíveis transformações
que não mais correspondiam ao conjunto de valores apregoados pelo pensamento
medieval, o renascimento apresentou um novo conjunto de temas e interesses aos
meios científicos e culturais de sua época. Ao contrário do que possa parecer, o
renascimento não pode ser visto como uma radical ruptura com o mundo
medieval.
◦ A razão, de acordo com o pensamento da Renascença, era uma manifestação do
espírito humano que colocava o indivíduo mais próximo de Deus. Ao exercer sua
capacidade de questionar o mundo, o homem simplesmente dava vazão a um
dom concedido por Deus (neoplatonismo). Outro aspecto fundamental
das obras renascentistas era o privilégio dado às ações humanas,
ou humanismo. Tal característica representava-se na reprodução de situações do
cotidiano e na rigorosa reprodução dos traços e formas
humanas (naturalismo). Esse aspecto humanista inspirava-se em outro ponto-
chave do Renascimento: o elogio às concepções artísticas da
Antiguidade Clássica ou Classicismo.
A burguesia
◦ Essa valorização das ações humanas abriu um diálogo com a burguesia, que
floresceu desde a Baixa Idade Média. Suas ações pelo mundo, a circulação por
diferentes espaços e seu ímpeto individualista ganharam atenção dos homens que
viveram todo esse processo de transformação privilegiado pelo Renascimento.
Ainda é interessante ressaltar que muitos burgueses, ao entusiasmarem-se com as
temáticas do Renascimento, financiavam muitos artistas e cientistas surgidos entre
os séculos XIV e XVI. Além disso, podemos ainda destacar a busca por prazeres
(hedonismo) como outro aspecto fundamental que colocava
o individualismo da modernidade em voga.
Antiguidade clássica
◦ Antiguidade, ou Idade Antiga, é o nome dado ao período da História da Humanidade
compreendido entre o fim do Neolítico, por volta de 4.000 a.C., e a queda do Império Romano do
Ocidente, em 476 d. C. A definição da existência de uma Antiguidade foi realizada por povos
europeus, mostrando uma concepção histórica específica desses povos.
◦ O início da Antiguidade é associado à invenção da escrita, que ocorreu inicialmente na
Mesopotâmia por volta de 4.000 a.C.. Foi a invenção da escrita que dividiu ainda a História da Pré-
história, indicando ainda que, de acordo com essa concepção de divisão periódica, onde não há
escrita, não há história.
◦ Essa perspectiva buscava assinalar uma suposta superioridade europeia e de alguns povos asiáticos
que contribuíram para a formação da Europa sobre outros povos que não utilizavam da escrita,
como diversos povos africanos, americanos e asiáticos. Nessa perspectiva, só há história se existe a
escrita. Se hoje utilizamos essa perspectiva, é uma herança da colonização europeia em diversos
locais do mundo.
Ou seja,
◦ A Antiguidade Clássica refere-se principalmente às civilizações grega e romana,
que estariam na gênese da formação da civilização europeia. As culturas grega e
romana foram as principais fontes da formação do Ocidente, com sua filosofia,
artes plásticas, ciência e também a própria forma de se fazer a História, em face
dos trabalhos de historiadores como Heródoto, Tucídides e Tito Lívio.
Vênus de Milo = Afrodite (Grécia antiga)
Contexto histórico
◦ O período da Idade Média durou cerca de 10 séculos na Europa (século V – século XV).
Durante esse longo período de tempo, o desenvolvimento científico e cultural dependia do
aval ou do aceite da Igreja Católica, que exercia influência política e socioeconômica em toda a
Europa.
◦ Enquanto a riqueza na Idade Média estava relacionada à posse da terra e à tradição, as trocas
comerciais que se estabeleceram com o mercantilismo tornaram o dinheiro a grande fonte de
poder. O intercâmbio com civilizações da Ásia e da África, sobretudo com povos de origem
árabe, abriu para os europeus novos horizontes, como o desenvolvimento da matemática e os
instrumentos de navegação, como o astrolábio.
◦ Os espaços geográficos abriam-se, com a descoberta de novas rotas pelo mar, levando até a
chegada aos territórios do grande continente americano: eram as Grandes Navegações.
◦ Tudo isso foi possível graças ao Renascimento, movimento científico e cultural
que tomou conta da Europa no século XV. Esquivando-se da censura ideológica
da Igreja, pensadores e cientistas elaboraram novas teorias e invenções: Nicolau
Copérnico propõe o modelo heliocêntrico do Universo, Galileu Galilei descobre
as leis que regem a queda dos corpos, Johann Gutemberg inventa os tipos móveis
para imprimir os livros, tarefa antes delegada aos monges copistas.
◦ É importante ressaltar que a prensa de Gutemberg criada por volta de 1450,
possibilitou a reprodução mecânica da produção escrita, tornando-a acessível a
um maior número de pessoas, que estavam ascendendo socialmente.
Prensa - Gutemberg
Davi de Michelangelo (escultura italiana renascentista)
Principais características do Classicismo
◦ Busca pelo equilíbrio, pela proporção, pela objetividade e pela transparência.
◦ Obra mimética como reflexão de uma natureza que segue leis universais, ou seja, a obra como concerto
harmônico.
◦ Contenção da subjetividade, dos ímpetos da interioridade: o que vale é a obra, não o que sente ou pensa o
autor. O autor deve desaparecer perante a obra.
◦ Rigor formal: cada forma utilizada no texto clássico deve seguir um conjunto de regras próprio.
◦ Separação das artes: os gêneros textuais não se misturam. A poesia lírica tem seu próprio método e
características que não devem ser confundidos com aqueles da poesia épica, ou da dramaturgia, por exemplo.
◦ Noção do ideal de beleza grego, também norteado pela proporção e pelo equilíbrio das formas.
◦ Neoplatonismo.
◦ Temas da mitologia greco-romana.
◦ Valorização da racionalidade em oposição à sentimentalidade e do universal em detrimento do particular.
◦ Antropocentrismo, a centralidade da existência humana em relação ao Universo e àquilo que o compõe.
◦ Obra como veiculadora de verdades e ensinamentos que permitam aperfeiçoar a alma humana.
◦ Adoção de formas textuais da Antiguidade Clássica, predominantemente a dramaturgia e os gêneros da
tragédia e da comédia, e a poesia, nos gêneros lírico e épico.
Classicismo em Portugal
◦ Embora na Itália o Classicismo tenha se insinuado em meados do século XIII, é
apenas em 1527, com Sá de Miranda, que o movimento tem início em Portugal.
Influenciado pelo dolce stil nuovo, “doce estilo novo”, em tradução livre, que
aprendera na Itália, Sá de Miranda introduz à literatura o gênero do soneto
decassílabo, que ficaria conhecido como “medida nova”, em oposição à “medida
velha”, a das redondilhas (cinco ou sete sílabas métricas).
Arco da rua Augusta, na Praça do Comércio, em Lisboa: exemplo da
arquitetura classicista em Portugal
◦ Foi predominante no Classicismo português a temática do neoplatonismo,
escola filosófica que retomava a filosofia amorosa de Platão, tratando o amor não
a partir da sensualidade, mas por seu viés filosófico e religioso. Além disso, os
poetas do período valorizaram sobretudo os grandes feitos nacionais, as
conquistas do povo português, assunto da poesia épica. Pode-se entender,
portanto, que o Classicismo em Portugal voltou-se para dois principais
temas: amor e bravura
Principais características do classicismo português
◦ Humanismo – valorização do homem que é colocado no centro do pensamento filosófico (antropocentrismo);
◦ Racionalismo – a capacidade de raciocinar é bastante valorizada;
◦ Racionalização – reflexão sobre mundo e sobre lugar do homem no mundo;
◦ Valorização da cultura grega (paganismo) – a cultura grega passa a ser valorizada principalmente por causa de visão
que se tinha do homem;
◦ Hedonismo – busca por satisfação dos desejos humanos;
◦ Carpe diem – aproveite o dia – busca por aproveitar o dia porque a vida é efêmera (passageira);
◦ Efemeridade do tempo – o tempo e a vida passam rápido e devem ser aproveitados;
◦ Neoplatonismo – amor sensual e ao mesmo tempo platônico;
◦ Equilíbrio formal – utilização de poemas de formas fixas, rimas e métricas regulares.
◦ Doce estilo novo – gosto pelo verso decassílabo (dez sílabas métricas) em substituição a redondilha maior (verso de
sete sílabas métricas);
◦ Personificação – elementos da natureza personificados como deuses gregos: o amor, o tempo, etc.
◦ Figuras predominantes: paradoxo, antítese e personificação.
◦ O autor mais importante desse período em Portugal foi sem dúvida Luís Vaz de Camões. Sua obra é dividida em
épico, lírico e dramático.
Principais autores
◦ Francisco de Sá de Miranda (Coimbra, 1481 – Amares, 1558)
◦ Precursor do Classicismo português, foi o responsável pela introdução do verso
decassílabo em Portugal. Teve algumas poesias publicadas no Cancioneiro geral (1516), compilado
antológico da poesia humanista.
◦ Introduziu também, em língua portuguesa, as formas da canção da sextina e as produções em
tercetos e em oitavas, sendo responsável pela formação dos poetas portugueses, tendo grande
influência na literatura que se desenvolveu no período.
◦ Eram parte de suas temáticas a reflexão moral, filosófica e política, além do lirismo
amoroso. Escreveu também textos dramatúrgicos e cartas em forma de verso.
Luís Vaz de Camões (1524/1525-1580)
◦ O berço de nascimento de Camões é incerto: provavelmente Lisboa, provavelmente em 1524 ou 1525, mas as cidades de
Coimbra, Santarém e Alenquer também reivindicam ser o local onde o poeta nasceu.
◦ De origem fidalga, Camões teve uma educação sólida e era conhecedor de história, geografia e literatura. Deu início ao
curso de Teologia na Universidade de Coimbra, que abandonou por levar uma vida incompatível com os preceitos
religiosos. Conquistador, Camões teve muitas paixões e seus versos eram muito prestigiados pelas damas da corte.
◦ Envolveu-se em duelos e fez inimizades, o que o levou a alistar-se e embarcar, como soldado, para Ceuta, lutando contra os
mouros e perdendo o olho direito em combate. Já em liberdade, embarcou para a Índia, em 1554, e viveu também em Macau.
Salvou-se de um naufrágio em 1556, levando consigo os originais de sua mais célebre obra, o poema épico Os Lusíadas.
Morreu em Portugal, em 1580.
◦ Camões é considerado o mais importante poeta de língua portuguesa e um dos maiores da literatura universal. Sua
produção literária é múltipla e contempla tanto as formas eruditas quanto as formas populares, de trovas, inspiradas em
velhas cantigas medievais. A obra de Camões pode ser dividida em dois eixos principais: a poesia lírica e a épica.
◦ A lírica camoniana é composta principalmente de temas amorosos, bastante influenciada pelo neoplatonismo, que convive
com os temas sensuais, estabelecendo quase sempre uma contradição. As antíteses da presença-ausência, amor espiritual-
amor carnal, vida-morte, sonho-realidade são muito presentes em seus poemas, o que o torna um antecipador do movimento
maneirista.
◦ Além disso, Camões compôs na chamada “medida velha”, as redondilhas, ligadas à tradição popular, e na “medida nova”,
o poema decassílabo, forma preferida para a exposição de temas e sentimentos complexos.
Camões lírico
◦ Os sonetos camonianos sejam, talvez, os melhores da literatura em língua
portuguesa. Sua obra lírica possuía complexidade formal com rebuscados sonetos
decassílabos (poema com dois quartetos e dois tercetos e versos com dez sílabas
métricas) e o desenvolvimento de temas como o desconcerto² do mundo e a
efemeridade da vida. Outra temática muito comum é a mutabilidade da vida: a
vida é efêmera e mutável (muda constantemente).
MUDAM-SE OS TEMPOS...
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E enfim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.(desconcerto)
O desconcerto do mundo e o sofrimento do poeta:
ALMA MINHA GENTIL, QUE TE PARTISTE
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento Etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Algũa cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
Os Lusíadas, de Luís de Camões: Análise e resumo
Nesse grande poema épico, os feitos dos navegadores portugueses em direção às Índias são
igualados às façanhas de heróis da Antiguidade greco-latina
Os Lusíadas, grande poema épico de Luís de Camões, foi publicado em 1572, durante o
Renascimento em Portugal. Nesse período, os autores buscavam sua inspiração na cultura da
Antiguidade greco-latina. Eneida, de Virgílio, que narra a fundação de Roma e outros feitos heróicos
de Enéias, e a Odisséia, de Homero, que conta as aventuras do astucioso Ulisses, foram certamente
as maiores influências de Camões.
Em dez cantos, subdivididos em estrofes de oito versos, Os Lusíadas trata das viagens dos
portugueses por “mares nunca dantes navegados”. Uma das características da épica é a narração de
episódios históricos ou lendários de heróis que possuem qualidade superior.
As proporções dessa obra e a linguagem arcaica podem, de início, afastar o leitor de hoje. As
principais dificuldades encontradas na leitura são os termos antigos utilizados, a sintaxe truncada e o
grande número de informações mitológicas e históricas. Mas é possível compreender os principais
elementos, porque o poema épico tem como finalidade narrar a própria história, ou feitos heróicos
que estão no terreno da mitologia. As descrições são minuciosas, abrangendo todos os detalhes da
paisagem, as cenas de batalha e as vestes dos guerreiros.
A épica, como gênero, diferencia- se da tragédia. Na tragédia – como na de Édipo –, o personagem
principal envolve-se em uma trama que acabará por aniquilá-lo. O espectador assiste, aflito, ao
trágico encontro do protagonista com seu destino inevitável e cruel: Édipo fura os próprios olhos,
perambulando sem destino. No gênero épico, o “elemento de tensão” desaparece e surge em seu
lugar o “elemento retardador”. Os personagens épicos não têm um desenvolvimento psicológico
elaborado. Eles seguem suas características básicas, que não mudam no decorrer da história. A épica
deve ser lida, portanto, de maneira tranqüila e minuciosa, como uma aventura que se passa em
câmera lenta.
Forma
O poema é constituído por 1.102 estrofes de oito versos cada uma, o que resulta em um total de
8.816 versos. Camões utilizou em sua obra somente versos decassílabos, ou seja, de dez sílabas
métricas. Esse tipo de verso era conhecido como “medida nova” e foi levado da Itália para Portugal
por Sá de Miranda, em 1527, fato que marca o início do classicismo português.
As rimas aparecem da seguinte forma: o primeiro verso rima com o terceiro e o quinto; o segundo
verso rima com o quarto e o sexto; e o sétimo e o oitavo rimam entre si (o que é representado pelo
esquema ABABABCC). Essas estrofes são chamadas de oitava-rima. Além disso, o poeta inseriu na
obra diversas rimas internas, o que causa efeitos de assonância (sonoridade das vogais) e aliteração
(sonoridade das consoantes).
Estrutura
Assim como a Odisséia, de Homero, o poema de Camões é composto de cinco partes: Proposição,
Invocação, Dedicatória, Narração e Epílogo. Na Proposição — que aparece no Canto I, da primeira
à terceira estrofe —, o autor nos apresenta o tema de seu poema: a viagem de Vasco da Gama às
Índias e as glórias do povo português, comandado por seus reis, que espalharam a fé cristã pelo
mundo.
A segunda parte – também no Canto I, quarta e quinta estrofes – consiste na invocação das musas
do rio Tejo, as Tágides. Essa é mais uma indicação de que Camões retirou seu modelo da cultura
greco-latina.
Para os gregos, o poeta era um instrumento de uma força superior. Na Dedicatória — Canto I, da
estrofe 6 à 17 —, o poeta, após inúmeros elogios, dedica a obra ao rei dom Sebastião, a quem confia
a continuação das glórias e conquistas que serão narradas em seguida. Na Narração, o poema
propriamente se desenvolve — do Canto I, estrofe 18, ao Canto X, estrofe 144. Nela, é contada a
navegação de Vasco da Gama às Índias e as glórias da história heróica de Portugal.
O Epílogo – Canto X, estrofes 145 a 156 – consiste num lamento do poeta, que, ao deparar com a
dura realidade do reino português, já não vê muitas glórias no futuro de seu povo e se ressente de
que sua “voz enrouquecida” não seja escutada com mais atenção.
Enredo
Como era comum na literatura épica, a narração de Os Lusíadas começa in media res – ou seja, em plena ação – no caminho, quando os portugueses já
deixaram sua terra natal e se encontram ancorados em Melinde, cidade situada no oceano Índico.
Enquanto isso, os deuses fazem uma primeira reunião para decidir o destino dos navegantes. Baco se opõe ao feito, que diminuirá sua glória como senhor
do Oriente.
No entanto, Vênus, deusa do amor, e Marte, deus da guerra, colocam-se a favor dos portugueses. Júpiter concorda com os dois. Mercúrio, o mensageiro, é
enviado para garantir que o povo selvagem de Melinde seja hospitaleiro com os portugueses.
O capitão do navio, Vasco da Gama, narra ao rei de Melinde a história de Portugal, em que se inserem as figuras de grandes heróis da história portuguesa e
os episódios de Inês de Castro, do Velho do Restelo e do Gigante Adamastor.
A caravela continua sua viagem, atravessando o oceano Índico. Nessa parte da trajetória, um dos tripulantes, o marinheiro Veloso, narra a seus
companheiros o episódio dos Doze de Inglaterra, espécie de novela de cavalaria em que 12 cavaleiros portugueses vão à Inglaterra para defender a honra
de damas que haviam sido ofendidas por 12 cavaleiros ingleses. Após uma luta sangrenta, os heróis lusitanos vencem os ingleses, aos quais sobra a morte
ou a vergonha da derrota.
Ao mesmo tempo, o deus dos oceanos, Netuno, recebe a visita de Baco, que o convence a aliar-se contra os portugueses, argumentando que depois
daquela viagem os homens iriam perder o temor dos mares. Toda a força dos ventos invocados por Netuno atinge a embarcação de Vasco da Gama. Sob a
proteção de Vênus e das Nereidas, as ninfas marinhas, os portugueses sobrevivem, mas seu navio sofre inúmeras avarias, chegando a Calecute, na Índia,
graças a correntes marítimas invocadas em seu auxílio, uma vez que o mastro da embarcação estava partido.
Em Calecute, os portugueses são envolvidos em mais uma trama de Baco, que havia induzido o Samorim (líder local) a separar Vasco da Gama de seus
companheiros e prendê-lo. O capitão consegue escapar mediante o pagamento de suborno, o que vale uma crítica do narrador à corrupção dos homens
pelo dinheiro.
A última aventura dos argonautas portugueses é sua visita à Ilha dos Amores, já no retorno a Portugal. Vênus prepara maravilhosas surpresas para os
visitantes.
Na ilha, estão ninfas que foram flechadas por cupido. Ao avistarem os navegantes, elas imediatamente ficam apaixonadas. Começa, então, uma verdadeira
perseguição erótica, em que são exaltadas as qualidades do amante português. Depois de um banquete no qual todos ouvem previsões sobre o futuro de
cada um, a deusa Vênus mostra a Vasco da Gama uma esfera, mágica e perfeita: a maravilhosa Máquina do Mundo.
Após a volta tranqüila dos aventureiros a Portugal, o poeta termina seu livro em tom de lamento. Queixa-se de que sua opinião não seja levada em conta
pela “gente surda e endurecida” e oferece ao rei dom Sebastião uma solução para impedir a decadência do Império: uma grande empresa em direção ao
Oriente, buscando a salvação de muitos infiéis e resgatando a glória do heróico povo português.
Três episódios
Existem três episódios em Os Lusíadas que merecem destaque por sua importância: o de Inês de Castro, o do
Velho do Restelo e o do Gigante Adamastor.
O episódio de Inês de Castro aparece no Canto III, durante o relato de Vasco da Gama ao governante de
Melinde. Trata-se da história do amor proibido de Inês, dama de companhia da rainha, pelo príncipe dom
Pedro. Ao saber do envolvimento do príncipe com ela e preocupado com a ameaça política oferecida por Inês,
que tinha parentesco com a nobreza de Castela, o rei dom Afonso manda executar a jovem.
O rei percebe então que o amor de Inês por seu filho era sincero e decide mantê-la viva, mas o povo,
representando o interesse do Estado, o obriga a executar a moça. Dom Pedro, ausente do reino na ocasião do
assassinato, inicia depois uma vingança sangrenta contra os executores e coroa o cadáver de Inês, aquela “que
depois de ser morta foi rainha”.
O relato sobre o Velho do Restelo encontra-se no Canto IV. Na praia lisboeta de Restelo, um velho profere um
discurso poderoso contra as empresas marítimas de Portugal, que ele considera uma ofensa aos princípios
cristãos, uma vez que a busca de fama e glória em terras distantes contraria a vida de privações pregada pela
doutrina católica.
O episódio do Gigante Adamastor figura no Canto V. Ele aparece quando Vasco da Gama e sua tripulação se
dirigem ao Cabo das Tormentas, ou Cabo da Boa Esperança, personificado pela figura de Adamastor. Esse
gigante da mitologia grega se apaixonara pela ninfa Tétis, que o rejeitara. Peleu, o marido de Tétis, transformou
então o gigante em pedra. Mais uma história de Camões em que o amor, “áspero e tirano”, causa o infortúnio a
quem se deixa levar por ele.
“Vês aqui a grande máquina do mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assim foi do Saber alto e profundo,
Que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfície tão limada,
É Deus: mas o que é Deus ninguém o
entende,
Que a tanto o engenho humano não se
estende.”
(Canto X, estrofe 80)
Comentário
Nessa estrofe, a deusa Vênus apresenta aos portugueses a máquina do mundo, uma esfera perfeita, espécie de
maquete do universo, na qual está contido tudo o que nele existe. As mentes mortais logo perguntam: se nessa
esfera está tudo o que há, então o que está por fora dela? A deusa responde que, em volta do globo, está Deus.
Alguém poderia perguntar: e o que está além de Deus? Mas logo somos advertidos de que o entendimento de
Deus está além da compreensão humana; não devemos, portanto, insistir na questão. Camões adota em seu
livro a concepção de Ptolomeu, segundo a qual a Terra ocuparia o centro do universo, sendo envolvida por sete
esferas celestes, como as camadas de uma cebola, cada uma correspondendo a um dos sete planetas então
conhecidos. O paraíso celeste, ou empíreo, estaria localizado na sétima esfera, a mais luminosa e próxima de
Deus.
Referências
Abaurre, Maria Luiza M. Português: contexto, interlocução e sentido / Maria Luiza M. Abaurre, Maria Bernadete M. de
Abaurre, Marcela Pontara. – 3. ed. – São Paulo: Moderna, 2006.
[Link] - acesso em 22/08/2019
[Link] - acesso em 24/05/2020
[Link] - acesso em 24/05/2020