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Terras Raras: Mineralogia e Mercado

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais

MONOGRAFIA

“Terras Raras – Aspectos Mineralógicos, Geológicos, Beneficiamento e Mercado – Uma


Revisão”

Autora: Jéssica Tavares da Cunha


Orientador: Prof. Paulo Roberto de Magalhães Viana

Julho/ 2018
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

Curso de Graduação em Engenharia de Minas

Jéssica Tavares da Cunha

TERRAS RARAS – ASPECTOS MINERALÓGICOS, GEOLÓGICOS,


BENEFICIAMENTO E MERCADO – UMA REVISÃO

Monografia apresentada a Universidade Federal de Minas Gerais como requisito parcial para
obtenção do título de Bacharel em Engenharia de Minas.

Orientador: Prof. Paulo Roberto de Magalhães Viana

Belo Horizonte
Escola de Engenharia da UFMG 2018
AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente a Deus, que me deu força, sabedoria e perseverança para concluir
esse trabalho.

À minha família pelo apoio constante e paciência nos dias difíceis. À minha mãe, Maria
Emília, por ser meu alicerce; ao meu pai, Francisco Assis, pelo apoio, à minha irmã, Camila,
pela ajuda constante e ao meu avô, Geraldo Brito, pelo exemplo de vida.

Aos meus amigos e colegas por tornar esse trabalho mais leve e alegre. Obrigada pelas
orações e torcida.

Ao meu professor orientador, Paulo Viana, pelo direcionamento prestado, meu muito
obrigada.

Aos membros da Banca Examinadora, pela leitura e pelas sugestões oferecidas ao aqui
proposto. À professora Rísia, pela atenção e colaboração.

3
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO .............................................................................................................................. 9
2. OBJETIVOS ................................................................................................................................. 10
3. ASPECTOS MINERALÓGICOS E GEOLÓGICOS DAS TERRAS RARAS ........................... 11
4. USOS E APLICAÇÕES................................................................................................................ 14
5. HISTÓRIA DAS TERRAS RARAS NO BRASIL ....................................................................... 19
6. LAVRA ......................................................................................................................................... 21
7. BENEFICIAMENTO .................................................................................................................... 22
7.1 Concentração de Bastnasita nos EUA ............................................................................... 22
7.2 Concentração de Bastnasita na China ............................................................................... 24
7.3 Concentração de Monazita no Brasil................................................................................. 26
7.3.1 Tratamento Químico da Monazita ............................................................................ 27
7.4 Individualização dos Elementos Terras Raras ................................................................. 28
8. MERCADO ................................................................................................................................... 30
8.1 Reservas Mundiais .............................................................................................................. 30
8.2 Reservas no Brasil ............................................................................................................... 31
8.3 Produção e Consumo .......................................................................................................... 33
8.4 Preços ................................................................................................................................... 35
9. CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................................ 38
10. CONCLUSÃO .......................................................................................................................... 40
11. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................................... 41

4
LISTA DE TABELAS

Tabela 1: Elementos de terras raras, sua simbologia e seu número atômico. ...................................... 12
Tabela 2: Ocorrências geológicas de terras raras. ................................................................................ 13
Tabela 3: Aplicações dos elementos de terras raras, por ordem alfabética, Y e Sc. ............................ 14
Tabela 4: Reservas e Produção de Terras Raras .................................................................................. 30
Tabela 5: Produção e consumo de Terras Raras no Brasil ................................................................... 34
Tabela 6: Estimativa de preços dos elementos terras raras de 2014 a 2025 ......................................... 37

5
LISTA DE FIGURAS

Figura 1: As terras raras na indústria automobilística......................................................................... 15


Figura 2: Diversas aplicações dos elementos terras raras .................................................................... 16
Figura 3: Principais aplicações das Terras Raras e seus percentuais de utilização em termos de
volume e valor. ...................................................................................................................................... 17
Figura 4: Fluxograma de concentração do minério de Mountain Pass, EUA. ..................................... 23
Figura 5: Fluxograma simplificado de concentração em escala industrial do minério de Baiyun Ebo,
China. .................................................................................................................................................... 25
Figura 6: Diagrama da Unidade de Beneficiamento Secundário –UBS de concentração de areias
monazíticas na INB em Buena (RJ): fluxograma anterior e atual. ........................................................ 26
Figura 7: Localização de depósitos e ocorrências de terras raras no Brasil. ........................................ 32
Figura 8: Preço dos elementos terras raras de 2006 a 2013 ................................................................. 36
Figura 9: Cadeia Produtiva das Terras Raras ....................................................................................... 38

6
RESUMO

CUNHA, Jéssica Tavares. Terras Raras – Aspectos Mineralógicos, Geológicos,


Beneficiamento e Mercado – Uma Revisão. Belo Horizonte: UFMG, 2018. Monografia

Os elementos terras raras estão ganhando cada vez mais visibilidade no mundo contemporâneo
dadas as suas propriedades magnéticas, elétricas, catalíticas e ópticas, que os tornam metais de
grande importância econômica e estratégica. Estes metais são usados em produtos de alta
tecnologia e também são empregados na chamada “Tecnologia Limpa” e no controle de
emissões atmosféricas. Neste sentido, pode-se citar os imãs permanentes usados em turbinas
eólicas e carros elétricos, baterias avançadas, entre outros. Este trabalho teve como objeto
principal de pesquisa os Elementos Terras Raras, abordando suas características mineralógicas,
geológicas e história, o mercado e beneficiamento. Neste último, verificou-se que no Brasil a
concentração da monazita, principal mineral minério portador de terras raras, é feita em duas
etapas. Primeiramente são realizados os processos de separação física, que resulta na separação
e produção de minerais pesados que ocorrem juntamente com a monazita, como o rutilo,
ilmenita e zirconita. A monazita, por sua vez, segue para a segunda fase do processamento, que
consiste na sua abertura química para produção de diversos compostos de terras raras. A
individualização dos elementos terras raras é bastante complexa, uma vez que todos eles
apresentam propriedades químicas e físicas muito semelhantes. Desse modo, as técnicas mais
frequentemente usadas tiram partido das diferenças de solubilidade entre os elementos
(Cristalização Fracionada e Extração por Solventes), e nas diferença de oxidação dos elementos
(Troca iônica). O Brasil, embora seja atualmente o segundo maior detentor mundial de terras
raras, em termos de reserva, não é competitivo no mercado e sua produção encontra-se
praticamente paralisada, pois não possui tecnologia para beneficiar estes metais. Portanto,
investimentos acadêmicos e empresariais neste setor faz-se muito importantes, para que as
terras raras não se tornem apenas mais uma commodity de exportação brasileira

Palavras-chave: Elementos Terras Raras; Alta Tecnologia; Minerais Estratégicos


Beneficiamento; Monazita; Tratamento Químico da Monazita; Individualização dos Elementos
Terras Raras.

7
ABSTRACT

CUNHA, Jessica Tavares. Rare Earths - Mineralogical and Geological Aspects, Processing
and Market - A Review. Belo Horizonte: UFMG, 2018. Monograph

Rare Earth Elements are gaining more and more visibility in the contemporary world because
their magnetic, electrical, catalytic and optical properties, making them metals of great
economic and strategic importance. These metals are used in high technology products and are
also used in "Clean Technology" and in the control of atmospheric emissions. In this use, the
permanent magnets used in wind turbines and electric cars, batteries, are an example. This work
had the Rare Earth Elements as main object of research, approaching its mineralogical,
geological characteristics and history, the market and the processing. In this last topic, it was
verified that in Brazil the concentration of the monazite, main mineral ore bearing rare earth, is
made in two stages. The first event is the processes of physical separation, which result in the
separation and production of heavy minerals and which are accompanied by monazite such as
rutile, ilmenite and zirconite. The monazite, on the other hand, goes to the second stage of
processing (chemical processing), which is able to determine the production of rare earth
compounds. The individualization of rare earth elements is quite complex, because all they have
very similar physical and chemical properties. Thus, the most used techniques consider the
solubility differences between the elements (fractional crystallization and solvent extraction)
and the oxidation variation of the elements (ion exchange). Although Brazil is currently the
world's second largest holder of rare earth reserves, is not competitive in the market and your
production is virtually paralyzed, because it does not have technology for the processing of
these metals. Therefore, academic and business investments in this sector becomes very
important, so that rare earths do not become just another Brazilian export commodity.

Keywords: Rare Earth Elements; High tech; Strategic Minerals; Monazite; Monazite Chemical
Treatment; Individualization of Rare Earth Elements.

8
1. INTRODUÇÃO

Chamados por alguns de “o ouro do século XXI” as terras raras são um grupo de metais
lantanídeos cujos elementos possuem número atômico (Z) entre 57 (lantânio) e 71 (lutécio),
incluindo ainda o escândio (Z = 21) e o ítrio (Z = 39).

O nome “terras” é devido ao fato de que, ao serem descobertos, nos séculos XVIII e XIX,
estes elementos foram isolados, na forma de óxidos, a partir de seus minerais. Naquela época o
termo “terras” era uma designação geral para óxidos metálicos, tal como em “metais alcalino-
terrosos”, por exemplo. Já o termo “raras” é devido ao fato de que estes elementos foram
inicialmente encontrados apenas em alguns minerais na Suécia, e também devido à sua
separação ser muito complexa. No entanto, o nome emite uma ideia errônea a respeito da
ocorrência desses elementos na crosta terrestre, uma vez que se trata de elementos metálicos
(não propriamente óxidos) cuja abundância é alta. Por exemplo, cério, lantânio e neodímio são
mais abundantes que cobalto, níquel e chumbo e mesmo os elementos mais raros, como lutécio
e tulio, possuem maior ocorrência do que a prata e os metais do grupo da platina.

Dos mais de 250 minerais que possuem terras raras, a monazita ((La,Ce,Th) PO4),
bastnasita ((La,Ce,Nd)CO3F) e xenotima ((Y,Dy,Yb)PO4) são os mais importantes e de maior
demanda industrial.

Devido às suas propriedades eletrônicas, magnéticas, ópticas e catalíticas são considerados


minerais estratégicos, utilizados em tecnologias limpas e produtos de ponta. Além disso, não
existem substitutos para esses elementos.

9
2. OBJETIVOS

Dada a tamanha importância econômica e estratégica das terras raras e seu emprego em
tecnologias limpas e de ponta, esses elementos podem ser considerados os minerais do futuro.
Portanto, esse trabalho tem como objetivo fazer uma revisão bibliográfica completa dos
elementos terras raras desde seus aspectos mineralógicos e geológicos, passando pelos seus
usos e aplicações, processos de lavra e concentração e ainda uma análise de mercado e as
perspectivas para o futuro.

10
3. ASPECTOS MINERALÓGICOS E GEOLÓGICOS DAS TERRAS RARAS

Segundo GALDINO (2015), os elementos terras raras podem ser encontrados em rochas
carbonatíticas, granito, pegmatito e rochas silicatadas em concentrações entre 10 e 300 mg/g.
Também podem ser encontrados em depósitos arenosos aluviais ou marinhos que recebem a
denominação de depósitos placers.

Os três minerais portadores de terras raras de maior importância econômica e industrial são
a monazita, bastnaesita e xenotimio. A bastnasita possui sistema de cristalização hexagonal,
tem massa específica de 4,9 a 5,2 g/cm3, dureza entre 4,0 e 5,0 graus Mohs, coloração amarelo,
de brilho vítreo a graxo. O xenotímio possui sistema de cristalização tetragonal, tem massa
específica de 4,4 a 5,1 g/cm3, dureza entre 4,5 graus Mohs, coloração marrom amarelada, de
brilho vítreo.

A monazita é um mineral monoclínico, possui massa específica de 5,0 g/cm3, densidade


aparente de 3,0 g/cm3, dureza entre 5,0 e 5,5 graus Mohs. Sua coloração é marrom, podendo
variar de amarela a avermelhada, e até mesmo esverdeada. É obtido normalmente em
concentrados com pureza de 90 a 95% e granulometria de 42 a 200 malhas Tyler (CETEM,
2008). A monazita é um ortofosfato de terras-raras, onde predominam os elementos da fração
leve. A fórmula estrutural da monazita é R-PO4, sendo R o grupo dos elementos de terras raras
Ce, La, Nd e Sm associados ao radical fosfato. A monazita pode apresentar teores variáveis:
40-50% de cério, 20-36% de lantânio, 8-16% de neodímio, 3-5% de praseodímio, 0,5-3% de
samário e 0,1-3% de ítrio. Os quatro primeiros elementos constituem aproximadamente 90%
dos elementos de terras-raras presentes na monazita. Outros elementos, como o tório e o urânio,
também encontram-se no mineral, tornando-o radioativo. O teor de tório varia bastante,
podendo oscilar entre 0,1 e 30%. A quantidade de urânio é menor, e pode atingir até 1,5%
(VIEIRA; LINS, 1997).

A bastnaesita, fluorocarbonato de terras-raras, contém majoritariamente, assim como a


monazita, os elementos da fração leve das terras-raras. A sua fórmula química é
(Ce,La)(F,OH)CO3. Esse mineral apresenta teores variáveis de elementos de terras-raras: 40-
54% de cério, 25-40% de lantânio, 8-16% de neodímio e 3-5% de praseodímio. O conteúdo de
tório é menor que na monazita, normalmente inferior a 0,1%. É uma das mais importantes fontes
de terras-raras, tanto pelas suas reservas como pelos seus teores (VIEIRA; LINS, 1997).

11
Já o xenotímio, segundo VIEIRA; LINS (1997), é um fosfato de ítrio e outros elementos da
fração pesada das terras-raras, apresentando teores variáveis desses elementos, 40-69% de ítrio,
4-19% de itérbio, 4-14% de érbio, 5-14% de disprósio e 1-8% de gadolínio. É a fonte mais
importante de ítrio, apresentando em média um teor de 60%. O xenotímio ocorre associado
usualmente à monazita, porém, em quantidades menores que essa. Entre suas mais importantes
propriedades físicas, pode-se mencionar que é mais fortemente magnético que a monazita, fato
que permite sua separação por métodos magnéticos.

Os elementos terras raras são divididos entre leves (elementos com número atômico Z entre
51 a 63) e pesados (número atômico Z entre 64 a 71), acrescidos do ítrio (Z=39) e o escândio
(Z=21), conforme Tabela 1:

Tabela 1: Elementos de terras raras, sua simbologia e seu número atômico.

Fonte: Vieira; Lins, 1997.

A Tabela 2 mostra as formas de ocorrência dos principais minérios de terras raras.

12
Tabela 2: Ocorrências geológicas de terras raras.

Fonte: BNDES, 2012.

Alguns indicadores da mineralização de terras raras são conhecidos atualmente e


indicam processos de formação associados à sua ocorrência. São eles: Magmas carbonatíticos
gerados no manto litosférico: Ascensão e emplacement como carbonatitos primários
(vulcânicos ou plutônicos), magmas alcalinos ricos em CO2 gerados no manto litosférico;
Ascensão, emplacement e diferenciação em câmara magmática, gerando complexos
alcalinocarbonatíticos (dunitos, piroxenitos, bebedouritos, ijolitos, sienitos, foscoritos,
carbonatitos); Extravasamento, gerando vulcanismo alcalino (nefelinitos, kamafugitos,
fonolitos, lamprófiros, melilititos) (FERREIRA, 2017). Também pode-se citar os complexos
carbonatíticose e evolução de magmas: Evolução complexa, processos recorrentes, as vezes
simultâneos: Cristalização Fracionada; Imiscibilidade de Líquidos; Desgaseificação /
Metassomatismo (FERREIRA, 2017).

13
4. USOS E APLICAÇÕES

No século XIX usava-se a monazita para produção de nitrato de tório empregado na


iluminação pública a gás. Com o advento da eletricidade a importância da monazita diminuiu.
No entanto, durante a Segunda Guerra Mundial, extraía-se urânio da monazita para fins bélicos.
No século XX as terras raras eram usadas na forma de mischmetal, produto da eletrólise de sais
fundidos do cloreto de terras raras cristalizado, para liga pirofórica (pedra de isqueiro) e como
agente dessulfurante na siderurgia. Hoje, devido às suas propriedades elétricas, magnéticas,
catalíticas e ópticas são considerados minerais estratégicos e empregados tanto em produtos
comuns do cotidiano, quanto em produtos de alta tecnologia (CETEM, 2008).

Tabela 3: Aplicações dos elementos de terras raras, por ordem alfabética, Y e Sc.

Fonte: Lapido – Loureiro, 2013.

Os elementos terras raras também são empregados na chamada “Tecnologia Limpa” e


no controle de emissões atmosféricas. Neste sentido, pode-se citar os imãs permanentes usados
14
em turbinas eólicas e carros elétricos, baterias avançadas, semi condutores filme-finos
empregados em painéis de energia fotovoltaica, luminóforos, entre outros (CGEE, 2013).

Como exemplos de aplicações de terras raras no uso cotidiano pode-se citar as lâmpadas
fluorescentes (La, Tb, Eu), auto falantes (Nd, Sm), computadores (Ce, Nd), monitor de vídeo
(Y/Te/Eu), o telefone celular utilizando auto falantes com ímãs, lentes de câmaras fotográficas
(La), equipamentos de Raio-X e ressonância magnética, entre outros (SENADO, 2013). Na
indústria automobilística, por exemplo, são inúmeras as aplicações dos elementos terras raras.

Segundo GALDINO (2015), os elementos terras raras estão presentes no motor de


partida do carro, no sistema de condicionamento de ar, ventilador de resfriamento do radiador,
motor da bomba d’água do para-brisa, nos indicadores dos níveis de óleo e combustível, no
velocímetro, no odômetro e relógio digital, motor do cd player, acionador do teto solar,
controles automáticos de temperatura, alto-falantes, motores de acionamento dos espelhos
retrovisores, motores de acionamento das maçanetas das portas, motor da bomba de
combustível, motor no acionamento das janelas laterais, motor de acionamento da antena, na
ignição eletrônica.

Figura 1: As terras raras na indústria automobilística.

Fonte: Galdino, 2015.

15
Figura 2: Diversas aplicações dos elementos terras raras

Fonte: SENADO FEDERAL, 2013.

16
De acordo com a Figura 3, pode-se analisar as principais aplicações dos elementos terras
raras e seus percentuais de utilização em termos de volume e valor agregado.

Figura 3: Principais aplicações das Terras Raras e seus percentuais de utilização em termos de volume e valor.

Fonte: Filho; Serra, 2013.

De acordo com a Figura 3, a aplicação dos elementos terras raras nos processos de
catálise, especialmente no craqueamento do petróleo e redução da emissão de poluentes pelos
motores automotivos, correspondem a 20% em termos de volume. No entanto, esse percentual
cai para apenas 5% em termos de valor agregado, isso porque neste processo são utilizados
principalmente o cério e lantânio, elementos de maior abundância e relativamente baratos. A
aplicação dos elementos terras raras na produção de magnetos também corresponde a
aproximadamente 1/5 (21%) em termos de volume, porém é o maior percentual (37%) em
termos de valor agregado. Os magnetos de terras raras, sobretudo os imãs permanentes (Sm-Co
17
e Nd-Fe-B) são usados em discos rígidos, dínamos, auto falantes e turbinas eólicas (FILHO;
SERRA, 2013).

Por fim, os luminóforos, que correspondem a 7% do volume usado de terras raras são
responsáveis por aproximadamente 1/3 do percentual de valor agregado. Isto se justifica devido
ao fato de os elementos empregados nesta aplicação serem menos abundantes e de elevado grau
de pureza (99,9%). Alguns exemplos de aplicações em luminóforos são as lâmpadas
fluorescentes convencionais e compactas, visualização (tubos de raios catódicos, displays de
plasma), lasers, LEDs (light-emitting diodes), marcadores ópticos luminescentes, entre outros.
As ligas metálicas, terceira classe de materiais que mais associa valor aos elementos terras raras,
são amplamente utilizadas em baterias recarregáveis (níquel-hidreto metálico), aplicadas, por
exemplo, no desenvolvimento de veículos híbridos (FILHO; SERRA, 2013).

18
5. HISTÓRIA DAS TERRAS RARAS NO BRASIL

Segundo GALDINO (2015), em 1885 teve início a exploração de terras raras no Brasil
a partir da retirada de areia monazítica da região de Prado, Bahia. A extração era gratuita, uma
vez que, naquele tempo, o governo não tinha ciência da importância das terras raras. A
justificativa usada pelos exploradores era de que a areia retirada seria usada como lastro para
os navios retornarem aos Estados Unidos e Europa.

Até 1915 o Brasil era o maior fornecedor de monazita do mundo e até meados da década
de 40 alternou a posição de maior produtor mundial com a Índia (SENADO, 2013).

Apenas no final de 1940 é que o Brasil, por iniciativa privada, começou a produzir
compostos derivados das terras raras. A produção era realizada pela USAM (Usina de Santo
Amaro), pertencente à ORQUIMA (Indústrias Químicas Reunidas S/A), a partir da monazita
da UPRA (Usina de Praia), pertencente à SULBA (Sociedade Comercial de Minérios LTDA)
(CETEM, 2005). Em 1946 o Brasil foi pioneiro, com a ORQUIMA, a separar e produzir
industrialmente as primeiras terras raras (SENADO, 2013).

Na década de 60 a SULBA foi estatizada devido à presença de elementos radioativos,


como urânio e tório, no minério monazítico. Dessa forma, o CNEN (Comissão Nacional de
Energia Nuclear) assume as atividades da SULBA e também da ORQUIMA (CETEM, 2005).

Em 1988 é criada a INB (Indústrias Nucleares do Brasil S/A), que sucede a


NUCLEBRÁS (Empresas Nucleares Brasileiras S/A) criada em 1974 e a NUCLEMON
(Nuclebrás de Monazita e Associados Ltda) criada em 1976 (CETEM, 2005).

Em 1989 cria-se a USIN (Usina de Interlagos), em São


Paulo, destinada à separação de terras raras através da extração por solventes.
É inaugurada ainda, na USAM, a unidade de STR (Separação de Terras Raras), cujo objetivo
era processar cloreto de terras raras e obter de hidróxidos e óxidos de cério, bem como solução
de cloreto de lantânio, em escala industrial (CETEM, 2005).

Em 1990 teve início o desenvolvimento da produção dos óxidos individuais de terras


raras em parceria com o IEN (Instituto de Engenharia Nuclear) e em 1992 a então NUCLEMON
paralisa suas atividades. Em 1997 a INB, juntamente com o IEN retoma as atividades de
produção dos óxidos individuais de terras raras (CETEM, 2005).

19
Em 2002 a produção de terras raras foi praticamente desativada (FILHO; SERRA,
2013). Com a descoberta do depósito de Mountain Pass, nos EUA e a entrada da China no
mercado de terras raras por volta de 1980 o Brasil perdeu representatividade e competitividade
no setor (SENADO, 2013).

20
6. LAVRA

A lavra dos minérios portadores de terras raras pode ser entendida, de maneira geral, pela
citação abaixo:

Os minérios de terras raras são caracterizados por suas diferentes tipologias e podem ser
lavrados de diferentes formas, não necessariamente de forma padronizada. O método de lavra
deve levar em consideração a geologia da jazida, os minerais minérios e os minerais de ganga
presentes. A Monazita e o Xenotímio, por exemplo, são lavrados basicamente por dragagem de
aluviões e areias de praia mineralizados. Outros depósitos também são lavrados de forma
superficiais, usando desmonte hidráulico, pás carregadeiras, trator de lâmina e caminhões. No
caso da Bastnasita o método de lavra aplicado é de lavra em bancadas à céu aberto, utilizando
técnicas de perfuração e desmonte, transportados para o processo de cominuição em moinhos,
logo após cominuídos são peneirados, aquecidos e encaminhados a usina de beneficiamento
(GALDINO, 2015).

Vale ressaltar que o material proveniente do decapeamento da área, bem como o estéril,
geralmente retornam à jazida para preenchimento da cava e reconstituição do terreno,
minimizando assim o impacto da lavra.

21
7. BENEFICIAMENTO

As etapas de beneficiamento mineral dependem da natureza geológica da jazida em


questão, dos minerais minérios constituintes, bem como dos minerais de ganga presentes. Dessa
maneira, as rotas de processamento são únicas e específicas para cada tipo de minério lavrado.
Ainda assim, é possível, de uma maneira geral, estabelecer algumas etapas comuns.

Segundo VIEIRA; LINS (1997) e SOARES (1994), observa-se etapas de separação


gravimétrica, magnética e eletrostática como um estágio de pré-concentração, a fim de
individualizar os constituintes mais comuns (ilmenita, rutilo e zirconita). Esse estágio de pré
concentração ocorre principalmente em minerais de depósitos placers de origem marinha e
fluvial. Para minérios cuja mineralogia é mais complexa, como por exemplo àqueles de origem
hidrotermal ou magmática a flotação seletiva é um método de concentração empregado. Na
China e nos EUA a concentração de óxidos de terras raras por flotação seletiva foi empregada
em escala industrial.

A seguir, apresenta-se um estudo simplificado das rotas de beneficiamento usadas


Mountain Pass, EUA e em Baiyun Ebo, China. Tais rotas estavam passando por processos de
estudos e modificações, com o objetivo de diminuir o consumo energético e otimizar os
resultados a partir do uso de novos reagentes. Não foi encontrada a rota de processamento atual.

7.1 Concentração de Bastnasita nos EUA

A bastnaesita de Mountain Pass, descrita em 1982, foi caracterizada como ocorrendo


em um minério do tipo carbonatito, associado com carbonatos e sulfatos como os principais
minerais de ganga. O minério tinha origem magmática e era constituído, em média, por 60% de
carbonatos, principalmente calcita, 20% de baritacelestita, 10% de bastnaesita e o restante por
outros minerais como quartzo (VIEIRA; LINS, 1997).

22
Figura 4: Fluxograma de concentração do minério de Mountain Pass, EUA.

Fonte: Vieira; Lins, 1997.

Conforme observado na Figura 4, após o processo de cominuição, o produto final da


moagem, contendo cerca de 7,5 % de óxidos de terras raras (OTR), alimentava o estágio de
flotação. O concentrado da flotação primária, com cerca de 30% de OTR seguia para as etapas

23
cleaner, enquanto o rejeito era descartado. Ao final das flotações cleaner obtinha-se um
concentrado final com 60 a 63% de OTR e 65 a 70% de recuperação (VIEIRA; LINS, 1997).

Parte deste concentrado final era direcionado ao comércio e parte seguia para o
tratamento químico. Primeiramente, realizava-se a lixiviação com ácido clorídrico, a pH 10
para promover a dissolução da ganga carbonatada (que não havia sido separada através da
flotação), elevando o teor de OTR para cerca de 70%. Logo após o concentrado seguia para
etapa de calcinação, que elimina os fluorocarbonatos e elevando o teor de OTR para cerca de
90% (VIEIRA; LINS, 1997).

7.2 Concentração de Bastnasita na China

A jazida de Baiyun Ebo, localizada no interior da República da China, é a maior


mineralização de terras-raras do mundo. O depósito é resultado de um processo de
metamorfismo que deu origem a uma complexa mineralização, composta por uma diversidade
de espécies minerais (VIEIRA; LINS, 1997).

Além de uma maior complexidade mineralógica, quando comparada ao minério de


Mountain Pass, o processo de concentração do minério chinês é ainda mais trabalhoso devido
à liberação da bastnaesita e monazita ocorrer em uma faixa granulométrica fina (abaixo de 40
µm). Conforme fluxograma ilustrado na Figura 5, na primeira etapa de separação magnética era
retirada a magnetita. Em seguida, a flotação coletiva tinha por finalidade separar os minerais
fluorita, calcita e barita dos óxidos de ferro (rejeito). Os minerais bastnaesita e monazita
encontram-se no rejeito junto com os óxidos de ferro. Esse produto passa por uma separação
magnética de alta intensidade, a fim de retirar a hematita. A seguir, o produto não magnético
era submetido à flotação na qual obtinha-se um concentrado de bastnaesita-monazita com
menos de 56% de OTR. Em uma etapa final, o concentrado misto de terras-raras alimentava as
mesas oscilatórias para uma separação adicional dos óxidos de ferro, visando um aumento do
teor de OTR. O produto final apresenta um teor em torno de 60% de OTR; no entando, a
recuperação é considerada não satisfatória. (VIEIRA; LINS, 1997).

24
Figura 5: Fluxograma simplificado de concentração em escala industrial do minério de Baiyun Ebo, China.

Fonte: Vieira; Lins, 1997.

25
7.3 Concentração de Monazita no Brasil

Segundo o CETEM (2008), o tratamento da monazita no Brasil é dividido em duas


etapas, a saber: O Tratamento Físico de Minérios (TFM) e o Tratamento Químico da Monazita
(TQM). O primeiro resulta na produção de rutilo, ilmenita e zirconita para comercialização e
de monazita, que passará para a segunda fase do processamento, que consiste na sua abertura
química para produção de diversos compostos de terras raras.

Figura 6: Diagrama da Unidade de Beneficiamento Secundário –UBS de concentração de areias monazíticas na


INB em Buena (RJ): fluxograma anterior e atual.

Fonte: CETEM, 2008.


26
O TFM ocorre em três etapas, divididas em Unidades de Beneficiamento Primária
(concentração hidrogravimétrica para separação dos minerais pesados do estéril); Secundária
(separação dos minerais pesados úteis através de métodos gravíticos, eletrostáticos e
magnéticos. Dessa etapa obtêm-se ilmenita para venda e um concentrado misto de monazita,
zirconita e rutilo, que passará para a fase seguinte do beneficiamento); e Terciária (purificação
dos concentrados de zirconita e rutilo, direcionados para venda, e monazita, direcionada ao
tratamento químico). Na Figura 6, tem-se o fluxograma da unidade de beneficiamento
secundário da INB em Buena, Rio de Janeiro (CETEM, 2008).

No Fluxograma atual (2008) a separação magnética antecede a eletrostática. Isso é


possível pois ilmenita e rutilo são materiais condutores, e a monazita e zirconita são não-
condutores. Por outro lado a ilmenita e monazita são minerais magnéticos, enquanto a zirconita
e o rutilo são não magnéticos (CETEM, 2008).

7.3.1 Tratamento Químico da Monazita

O processamento químico pode envolver rotas ácidas, alcalinas e calcinações.

Para a bastnaesita o processamento químico é conduzido sobre um concentrado com


60% de OTR. Este material é inicialmente calcinado em condições oxidantes levando o Ce3+ a
Ce4+ e posteriormente lixiviado a frio com ácido cloridrico. O resíduo sólido da operação é um
óxido de cério produto comercial e as terras raras obtidas no filtrado são conduzidas à etapa de
extração por solventes (SOARES, 1994).

O tratamento ácido da monazita é baseado na decomposição do concentrado monazítico


com ácido sulfúrico, seguindo-se uma lixiviação aquosa dos sulfatos formados (SOARES,
1994).

Segundo SOARES (1994), a etapa de decomposição com ácido sulfúrico ocorre em uma
temperatura de aproximadamente 180 a 200 graus Celsius, com o tempo variando entre 2 a 4
horas conforme a granulometria do minério. Geralmente o processo ocorre em fornos rotativos.
Esta decomposição resulta em sulfatos de terras raras (e também sulfatos de tório e titânio),
conforme reação a seguir:

2TRPO4 +3H2SO4  TR2(SO4)3 +2 H3PO4


27
Após a etapa de sulfatação ocorre a lixiviação aquosa para a dissolução dos sulfatos de
terras raras formados. A dissolução deve ocorrer em temperaturas menores ou iguais a 25 graus
Celsius, uma vez que a solubilidade dos sulfatos lantanídeos descresce com o aumento de
temperatura. Desta etapa forma-se um sólido insolúvel rico em sílica zirconita, cassiterita, entre
outros. A separação se dá através de decantação e filtração. O filtrado obtido é rico em
Lantanídeos, tório, titânio entre outros, que passaram por um tratamento de individualização
dos elementos (SOARES, 1994).

De acordo com SOARES (1994), no Brasil, até o encerramento das atividades da


NUCLEOMON em 1992, realizava-se a rota alcalina para o tratamento químico da monazita.
Era realizado o ataque químico usando hidróxido de sódio em temperaturas de
aproximadamente 100 graus Celsius, formando hidróxidos de terras raras conforme reação
abaixo:

TRPO4 + 3NaOH  TR(OH)3 + Na3 PO4

A separação sólido-líquido do material lixiviado ocorria em filtros prensa. A torta sólida


rica em hidróxidos de lantanídeos era reagida com ácido clorídrico a fim de se obter cloretos de
terras raras solúveis, os quais passariam por precipitações sucessivas para individualização dos
elementos terras raras (SOARES, 1994).

O beneficiamento da monazita gerava produtos secundários de tório e urânio, elementos


radioativos e que requeriam elevada atenção ambiental.

7.4 Individualização dos Elementos Terras Raras

A individualização dos elementos terras raras é baseada nas sutis diferenças de


propriedades existentes entre eles. No entanto, tais diferenças são muito discretas e por isso este
tratamento é bastante complexo e difícil. Desse modo, as técnicas mais frequentemente usadas
atualmente tiram partido das diferenças de solubilidade entre os elementos (Cristalização
Fracionada e Extração por Solventes). Assim, sucessivas dissoluções e precipitações,
acompanhadas por ajustes de pH, ilustram uma possibilidade. Outra técnica usada baseia-se nas
diferença de oxidação dos elementos - Troca iônica (SOARES, 1994).

28
Cério e lantânio podem ser obtidos por precipitação a partir de misturas de terras raras
obtidas como resultado do processamento de concentrados minerais de monazitas e
bastnaesitas. Isto se deve principalmente ao fato de que estes são os principais constituintes
destes concentrados e podem ser separados com relativa facilidade com ajustes de acidez e
níveis de oxidação a partir de soluções de seus cloretos. A única instalação industrial de
fracionamento operada no Brasil pela NUCLEMON até 1991, produzia compostos de cério e
lantânio e fracionava ainda uma mistura de cloretos de terras raras em leves e médias + pesadas,
empregando extração por solventes. (SOARES, 1994).

29
8. MERCADO

8.1 Reservas Mundiais

A China (Baotou, Mongólia Interior) e os Estados Unidos da América (Mountain Pass,


Califórnia) possuem as maiores reservas de bastnaesita, em carbonatitos. Já no Brasil, Austrália,
Índia, África do Sul, Tailândia e Sri Lanka, os elementos terras raras ocorrem principalmente
na monazita, em areias de paleopraias, junto com outros minerais pesados como a ilmenita,
zirconita e rutilo e, em menor quantidade, também ocorrem em carbonatitos. Estima-se que as
reservas lavráveis em Óxidos de Terras Raras no mundo sejam de 126.1 milhões de toneladas.
Desse total, a China possui 55.0 milhões de toneladas (o que representa 44% das reservas
mundiais), seguida pelo Brasil com 22.0 milhões de toneladas (17% das reservas mundiais). A
Austrália ocupa o terceiro lugar, com uma reserva de 3.2 milhões de toneladas (DNPM, 2015).

Tabela 4: Reservas e Produção de Terras Raras

Fonte: DNPM, 2015.

A seguir apresenta-se um estudo realizado em 2012, pelo BNDES sobre as tipificações


quanto aos teores das principais reservas da China, Austrália e EUA de minérios de terras raras.
A China, dominante em produção e mercado conforme citação.

Na China os elementos de TR contidos na bastnaesita são obtidos nas


províncias da Mongólia Interior, de Gansu e de Sichuan. Na primeira
província, o mineral é obtido como subproduto da extração do ferro, o

30
que garante custos relativamente baixos em relação aos demais
produtores. Nas duas outras, a bastnaesita é obtida diretamente por
mineração. As reservas na Mongólia Interior atingem um teor de 1,5%
de óxidos e fator de recuperação de 25% a 50%. Em Sichuan, as reservas
chegam a um teor de 3% de óxidos de TR e fator de recuperação de 50%.
O mineral extraído em Sichuan tem composição semelhante. A extração
de elementos de TR ocorre também nas províncias de Guangdong, de
Hunan, de Jiangxi e de Jiangsu, a partir de argilas lateríticas. Nessas
argilas, o conteúdo de cério é baixo, mas o de elementos pesados de TR
e de ítrio é particularmente elevado (BNDES, 2012, p.376).

Na Austrália as reservas de MountWeld foram estimadas a um teor de


9,7% de óxidos. A fina granulação do minério torna difícil seu
tratamento. As reservas do projeto Nolans são estimadas a um teor de
2,8% de óxidos. Outros projetos como o DubboZirconia estimam-se que
tenha uma reserva a um teor de 0,75% de óxidos. Além deste, o país conta
com o Projeto Cummins Range, que se encontra no estágio de
perfurações (BNDES, 2012, p.378).

Nos EUA, o Mountain Pass trata-se da reabertura da mina que já foi a


maior do mundo, mas que, por razões ambientais e baixos preços das TR,
foi fechada em 2002. Predominam os elementos cério e lantânio. O
projeto DeepSands baseia-se em areias enriquecidas em elementos de
TR. Os teores de óxido oscilam entre 0,14% e 0,80%, os quais, embora
baixos, são compensados pelo tipo de material e a grande quantidade
estimada de minério. (BNDES, 2012, p.381).

8.2 Reservas no Brasil

A Figura 7 apresenta os depósitos e ocorrências de terras raras no Brasil.

31
Figura 7: Localização de depósitos e ocorrências de terras raras no Brasil.

Fonte: Lapido – Loureiro, 2011.

É reconhecido que o Brasil tem um grande potencial no que se refere aos elementos
terras raras, justificado pela pluralidade de suas ocorrências, a multiplicidade dos seus
ambientes geológicos e a sua dispersão geográfica. No Brasil já há evidências bastante
consistentes de que as terras raras formam vários depósitos em todo o território, estando mais
comumente associadas a ambientes minerais, como por exemplo, placers litorais e de rios;
complexos alcalino-carbonatíticos, minérios associados ao zircão, anatásio, pirocloro,
cassiterita e apatita (LAPIDO LOUREIRO, 2013).

As principais ocorrências de elementos terras raras no Brasil estão em Goiás (Catalão),


Minas Gerais (Araxá e Tapira), São Paulo (Jacupiranga), Paraná (Mato Preto).

No final de 2012, o DNPM aprovou novas reservas lavráveis, em duas áreas de Araxá
das empresas CBMM e CODEMIG, com 14.2 milhões de toneladas e 7.7 milhões de toneladas

32
de óxidos de terras raras (OTR) contidos, e teores de 3.0% e 2.3%, respectivamente. Outra área
em Itapirapuã Paulista, com 97.96 mil toneladas de OTR contidos, teor de 4.89%, de
titularidade da Vale Fertilizantes S/A também foi aprovada. Estas novas áreas elevaram o Brasil
à posição de segundo maior detentor mundial de reservas de OTR, logo após a China (DNPM,
2015).

Além das novas áreas aprovadas em 2012, outras reservas contribuem para o Brasil ser
considerado o segundo maior detentor mundial de terras raras. As reservas pertencentes à
Mineração Terras Raras, em Poços de Caldas (MG), possuem 3 Milhões de toneladas de
minério lavrável, com teor de 1,15% de OTR, perfazendo um total de 34,8 mil toneladas de
OTR contidos. As Indústrias Nucleares do Brasil – INB, em São Francisco do Itabapoana (RJ),
detêm 338,4 mil toneladas de minério lavrável, com teor de 0,129% de monazita, totalizando
438 toneladas de monazita contida. A exploração realizada pela VALE S/A, no Vale do Sapucaí
(MG) conta com 5,7 mil toneladas de terras raras de reservas medidas e indicadas, contendo
62% de monazita, equivalente a 3,56 kt) (DNPM, 2015).

Além disso, existem também outras reservas ainda não aprovadas pelo DNPM, como
por exemplo a província mineral de Pitinga, em Presidente Figueiredo (AM), com 2 milhões de
toneladas de xenotímio e teor de 1% de ítrio, e a província de Catalão(GO), onde a VALE é
proprietária de um depósito com 32,8 milhões de toneladas de reservas lavráveis com teor
médio de 8,4 % de OTR - óxidos de terras raras contidos, e teores de urânio e tório inferiores a
0,01% (Lapido-Loureiro, 2011). No rejeito da mineração do nióbio da CBMM, em Araxá, estão
concentradas quantidades importantes de terras raras, com grande potencial de aproveitamento.
Isso tudo aumenta ainda mais a potencialidade competitiva do Brasil (DNPM, 2015).

8.3 Produção e Consumo

A China também compõe a liderança em termos de produção e consumo, sendo a


responsável por 85,2% da produção mundial dos óxidos de terras raras em 2014 (86,6% em
2013) e consumindo cerca de 64% da produção mundial, seguida pelo Japão (15%), EUA
(10%), União Européia (7%) (DNPM, 2015).

33
Tabela 5: Produção e consumo de Terras Raras no Brasil

Fonte: DNPM, 2015.

Apesar do Brasil ser o segundo maior detentor de reservas de óxidos de terras raras,
segundo o Sumário Mineral de 2015, não houve produção de terras raras no país em 2014.

No que se refere às importações o Brasil desembolsou um montante de US$ 12,87


milhões (FOB) em compostos químicos e produtos manufaturados com ETRs. As importações
de manufaturados foram originadas principalmente da China (62%), Bulgária (18%), Canadá
(9%), Alemanha (5%) e Irlanda (1%); já as importações de compostos químicos foram
originadas da China (94%), França (3%) e Estados Unidos da América (2%) (DNPM, 2015).

O Brasil exportou, em 2014, compostos químicos e produtos manufaturados no


montante de US$ 383mil (FOB). Para os compostos químicos, os principais países de destino
foram o Paraguai (42%), Argentina (30%), Bolívia (14%), Cabo Verde (8%) e Chile (5%). Para
os produtos manufaturados, os principais países de destino foram Angola (47%), Estados
Unidos (20%), Canadá (11%), Uruguai (7%) e Espanha (5%). (DNPM, 2015)

O consumo aparente dos manufaturados ficou praticamente estável em 2014 (de 415
toneladas para 408 toneladas), mas o de compostos químicos aumentou 40 % em relação a 2013
(de 887 toneladas para 1.244 toneladas) (DNPM, 2015).
34
8.4 Preços

Em meados da década passada, consolidado o domínio chinês do mercado de terras-


raras — quando o país passou a figurar, ao mesmo tempo, como maior produtor, maior
consumidor e maior exportador —, teve início uma escalada de preços. Em 2008, houve um
primeiro pico, mas em 2011 os preços de alguns elementos saltaram até 600%. Mesmo
elementos de menor valor nominal, como as terras-raras leves praseodímio e neodímio, tiveram
o preço elevado seis vezes. Já os óxidos dos elementos pesados, como disprósio e térbio,
subiram 500% e 300%, respectivamente. Para ter uma ideia, os Estados Unidos, que em 2005
importaram 24 mil toneladas de terras-raras da China por US$ 42 milhões, em 2010 pagaram
US$ 129 milhões por apenas 14 mil toneladas, ou seja, compraram 42% a menos por um preço
200% maior (SENADO, 2013).

Embora os preços tenham recuado desde 2011, ainda permanecem em patamares muito
mais altos que os de 2002. Os preços dos metais de terras-raras são tradicionalmente um pouco
maiores que os dos respectivos óxidos e, em geral, os pesados — menos abundantes e de
extração mais cara — são mais caros que os leves. A diferença de preços dos diversos elementos
costuma ser gigantesca. O quilo do óxido de cério, por exemplo, foi comercializado em agosto
de 2011 por US$ 150, enquanto a mesma quantidade de óxido de európio custava US$ 5.880
(SENADO, 2013).

O aumento dos preços em 2011 está diretamente relacionado ao mercado chinês. O


governo passou a pressionar as empresas para melhoria das práticas ambientais, uma vez que
as atividades de beneficiamento de terras raras têm elevado impacto ambiental. Dessa forma,
algumas minas e pequenas empresas de beneficiamento fecharam as portas e a oferta de terras
raras diminuiu. Outro fator que contribuiu para a queda na oferta mundial de terras raras foi o
fato de o consumo destes elementos pela China aumentou em uma escala muito maior que no
restante do mundo. Além disso, a política de cotas de exportação adotada pela China também
contribuiu para o aumento dos preços (Disponível em:
[Link]/2018).

35
Figura 8: Preço dos elementos terras raras de 2006 a 2013

Fonte: SENADO, 2013.

A importância estratégica das terras raras ficou bastante clara após a China embargar as
exportações destes elementos para o Japão como represália à prisão de um navegante de pesca
chinês que estava em uma área marítima disputada pelos dois países. O Japão teve problemas
com este embargo, uma vez que sua economia depende muito dos produtos de alta tecnologia.

Após esse episódio, países como os EUA começaram a se preocupar e voltaram a


investir na produção de terras raras. A empresa estadunidense Molycorp Minerals está
trabalhando para recolocar suas atividades em operação.

36
Tabela 6: Estimativa de preços dos elementos terras raras de 2014 a 2025

Fonte: Disponível em [Link]


prices-globally/ acesso em 19/06/2018

Com o aumento da produção de terras raras por outros países, espera-se que o preço volte
a estabilizar. A Tabela 6 mostra a previsão dos preços futuros para estes elementos.

37
9. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A constatação da vulnerabilidade econômica devido à ausência de terras raras fez despertar


recentemente o interesse governamental para a produção dessa commodity. A confirmação do
potencial brasileiro em termos de reservas e o fato de que a tecnologia limpa (energia eólica e
veículos híbridos) e estratégica (petróleo e comunicação) são limitadas pela disponibilidade de
terras raras fez com que alguns setores da economia brasileira tomasse algumas iniciativas
(FILHO; SERRA, 2013).

No Quarto Encontro Nacional de Terras Raras, realizado em Aracaju, cientistas e estudiosos


elaboraram uma carta ao Ministério da Ciência e Tecnologia alertando sobre a necessidade da
retomada da produção desses elementos. Como resposta, o governo iniciou a elaboração do
Marco Regulatório de Mineração de Terras Raras e do Plano de Mineração Nacional 2030. Este
último projeto envolve trabalhos de levantamento geológico e pesquisa mineral para maior
conhecimento das reservas brasileiras. Além disso envolve estudos sobre a cadeia produtiva das
terras raras, identificando os pontos que devem ser priorizados. Este projeto mostra os desafios
e as estratégias que o Brasil deve seguir para vencê-los e se tornar novamente competitivo
(FILHO; SERRA, 2013).

Figura 9: Cadeia Produtiva das Terras Raras

Fonte: Disponível em [Link] acesso em 19/06/2018

A seguir, cita-se alguns exemplos das estratégias que o Brasil deverá adotar até 2030,
para se tornar competitivo no mercado das terras raras:
38
Realizar mapeamento de ocorrências, identificação e dimensionamento das reservas e
viabilizar a produção e o processamento mineral de TRs; Encaminhar e aprovar o novo marco
regulatório mineral, explicitando aspectos referentes ao desenvolvimento da cadeia produtiva
de TRs; Promover políticas públicas de cunho mineral, industrial voltadas para o
desenvolvimento da cadeia produtiva de TRs; Equacionar as questões ambientais relacionadas
à presença de radionuclídeos em jazidas na legislação brasileira; Criar mecanismos de
financiamento em condições compatíveis com os concorrentes internacionais e incentivos para
atração de empresas de toda a cadeia produtiva e suas aplicações; Viabilizar as cadeias
produtivas de aplicações de TRs de forma sustentável e competitiva; Consolidar e expandir
infraestrutura de laboratórios, facilidades de pesquisa, suporte técnico e logístico ao
desenvolvimento da cadeia produtiva de TRs (CGEE, 2013, p.27).

Atualmente, existe a consciência de que falta tecnologia nesse setor, porém grande empresas
como Vale e Petrobrás ainda não demonstraram interesse uma vez que, comparado ao montante
gerado pela comércio de minério de ferro e petróleo, o mercado de terras raras ainda representa
uma fatia muito pequena. A única empresa que tem se engajado mais nessa questão é a CBMM.
No entanto, uma mobilização do setor acadêmico e empresarial faz-se muito importante, dado
o cenário atual.

39
10. CONCLUSÃO

O governo brasileiro está consciente da necessidade da retomada da mineração e


processamento das terras raras e de sua utilização na cadeia produtiva, agregando valor e
garantindo ao país uma autonomia estratégica em sua matriz energética, principalmente no
refino de petróleo, energia eólica e veículos híbridos. Há que se levar em conta um
processamento equilibrado, sem danos ambientais. Ainda que, na aparência, os valores
envolvidos sejam pequenos e os lucros financeiros duvidosos, o setor produtivo e instituições
de pesquisa devem ser fortemente incentivados. As Terras Raras são elementos altamente
estratégicos política e economicamente. Elas não podem ser apenas mais uma commodity
brasileira para exportação.

40
11. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BNDES. Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Terras raras: situação


atual e perspectivas. Rio de Janeiro: BNDES Setorial, 2012.

CETEM. Centro de Tecnologia Mineral. Rochas e Minerais Industriais. Terras Raras.


CETEM/2008, 2a Edição.

CETEM. Centro de Tecnologia Mineral. Rochas e Minerais Industriais. Terras Raras.


CETEM/2005.

DNPM. Departamento Nacional de Produção Mineral. Terras Raras. Sumário Mineral, 2015.

Evolução das Terras Raras no Brasil. Disponível em: [Link]


evolucao-das-terras-raras-no-brasil/, acesso em 19 junho 2018.

FERREIRA, D. F. S. ESTUDO DO POTENCIAL DE TERRAS RARAS NO ESTADO


DO RIO GRANDE DO NORTE. Congresso Técnico Científico da Engenharia e da
Agronomia, 2017.

FILHO, P. C. DE S.; SERRA, O. [Link] RARAS NO BRASIL: HISTÓRICO,


PRODUÇÃO E PERSPECTIVAS. Química Nova, Vol. 37, No. 4, 753-760, 2013.

Forecast of rare earth oxide prices worldwide from 2014 to 2025. Disponível em:
[Link]
acesso em 19/06/2018.

GALDINO, Cristiane Mello. A Importância das Terras Raras no Mercado Brasileiro e


Internacional. Trabalho de conclusão de curso (graduação) – Curso de Engenharia de Minas,
Centro Universitário Luterano de Palmas, Palmas/TO, 2015.

41
LAPIDO – LOUREIRO, F. E. O Brasil e a Reglobalização da Indústria das Terras Raras.
Rio de Janeiro: CETEM/ MCTI, 2013.

LAPIDO – LOUREIRO, F. E. Terras-Raras - Tipos de Depósitos, Recursos Identificados e


Alvos Prospectivos no Brasil. In: I SEMINÁRIO BRASILEIRO DE TERRAS RARAS, 2011,
Rio de Janeiro. Power Point.

CGEE. Usos e aplicações de Terras Raras no Brasil:2012-2030. MCTI, Ministério da


Ciência, Tecnologia e Inovação Brasília: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2013.

SOARES, P. S. M. Estudo Preliminar do Fracionamento de Terras Raras Médias e


Pesadas em Grupos com Extração por Solventes. Dissertação de Mestrado em Ciências na
Área de Reatores Nucleares de Potência e Tecnologia do Combustível Nuclear. 1994.

SENADO FEDERAL. Terras Raras: Estratégia para o futuro: Em Discussão – Revista de


Audiências Públicas do Senado Federal, set. 2013.

VIEIRA, E.V.; LINS, F. A. F. Concentração de minérios de terras-raras: uma revisão. Rio


de Janeiro: CETEM/CNPq. 1997.

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