Para Jenny e Cynthia com amor.
SUMÁRIO
Capa
Folha de rosto
Dedicatória
Sumário
Apresentação
Prefácio
Introdução
Capítulo 1
Lendas com um ponto de vista
Capítulo 2
Quem era ela?
Capítulo 3
Mulheres – onde a mulher era deificada
Capítulo 4
Os invasores do norte
Capítulo 5
Um da mesma raça deles
Capítulo 6
Se o rei não chorou
Capítulo 7
Os costumes da sexualidade sagrada
Capítulo 8
Eles ofereceram incenso à rainha do céu
Capítulo 9
E os homens da cidade devem apedrejá-la
Capítulo 10
Desvendando o mito de Adão e Eva
Capítulo 11
As filhas de Eva
Quadro de datas
Bibliografia
Índice remissivo
Agradecimentos
Sobre a autora
APRESENTAÇÃO
“Mas sempre foi assim.”
Quem usa essa frase considera qual “sempre” para justificar
crenças que limitam mulheres?
O que eu e Merlin Stone, autora deste livro, temos em comum é
uma deliciosa mania de questionar o que alguns consideram o
estado natural das coisas. A leitura na qual você está prestes a
mergulhar aborda tempos em que mulheres e deusas eram
reverenciadas, e logo uma pergunta me veio à cabeça: como seria
ser mulher hoje se mulheres ainda fossem vistas como potências,
com admiração e respeito? Com certeza, não haveria a atual
concepção de mulher ideal, muito menos a violenta pressão que
nós, mulheres, sofremos.
Como ratinhos de laboratório se movendo em uma roda, sem
chegar a lugar algum, convivemos com a sensação constante de
que não vamos dar conta, resultante de exigências que parecem
mínimas, mas que são contradições ambulantes: cuide da sua
aparência, mas não seja fútil. Seja bem-sucedida, mas não
ambiciosa. Seja mãe, mas não “só” isso – e trate de correr atrás do
seu corpo pré-gestação. Tenha uma carreira de sucesso, mas não
se esqueça do seu companheiro. Ame seu corpo exatamente como
ele é, mas não ouse sentir-se segura de si – afinal, a sociedade ama
uma mulher insegura.
O ápice dessa feminilidade moderna insiste que devemos nos
colocar em segundo plano. Somos ensinadas desde novas que
nossas chances de sermos amadas aumentam na mesma
proporção do quanto estamos dispostas a servir sem reclamar, e
permanecer assim. O silenciamento feminino foi tão bem articulado
que muitos consideram como mulheres agradáveis aquelas que
falam pouco e, preferencialmente, em voz baixa. Boas esposas são
as que se integram ao grupo de amigos do parceiro, abandonando
suas amigas e se isolando – o que pode ser bastante vantajoso para
companheiros abusivos.
Outra sensação que temos é de que não somos dignas de
merecimento algum, seja em nossa profissão, seja em nossa vida
pessoal, porque aprendemos a depositar nossa autoestima e nosso
valor em conquistas alheias e que pouco dependem de nós.
Já os homens, por outro lado, precisam de muito menos. O que
faz um pai ser considerado excelente? O mesmo que, para uma
mãe, é o mínimo. O que transforma um homem no tal “homão da
porra”? Ele fazer em um mês o que uma mulher realiza nas
primeiras horas do seu dia. Enquanto as conquistas masculinas têm
graus diferentes de importância – sendo a primeira delas, na minha
opinião, ter uma carreira de sucesso, e depois ter uma família e
então, quem sabe, cuidar da aparência –, as femininas devem
acontecer todas ao mesmo tempo e “pra já”.
Achamos que alcançar o ideal feminino imposto vai nos trazer a
segurança, o prazer e o status que buscamos para nos sentirmos
acolhidas e aceitas. Porém, a incessante otimização feminina é uma
armadilha que já naturalizamos, além de mais um peso em nossos
ombros, que nos leva ao limite – ou além dele.
As piores mentiras são aquelas que contamos para nós mesmas,
mas a construção da mulher ideal é tão inalcançável que pode ser
mais fácil simular. Com isso, colocamos nosso prazer em segundo
plano fingindo orgasmos, aumentando a autoestima de parceiros e
desrespeitando nossos desejos. Logo no início da leitura, com o
exemplo da Cleópatra, percebi que a importância da nossa
reputação e o sentimento de vergonha da nossa sexualidade foram
muito bem planejados e influenciados pela tendenciosidade
masculina, que conta a história a partir de seu ponto de vista.
O termo “patriarcado” pode soar como um grupo de homens
sentados a uma mesa conspirando pela infelicidade das mulheres (e
em alguns casos até se materializa dessa forma), mas na verdade
se trata de um conjunto de práticas instituído a milênios para manter
as mulheres sob o domínio masculino. Apesar de escritas em 1976,
as discussões aqui apresentadas por Stone nunca pareceram tão
atuais. Afinal, é ilusório achar que passamos ilesas pela história. A
cada parágrafo deste livro ficam mais evidentes as consequências
dessa total invisibilização (ainda) hoje. Muitas de nossas dores
foram articuladas por uma sociedade que se recusou a admitir que
Deus foi mulher um dia.
Sou fiel à ideia de que podemos, sim, viver em uma sociedade
igualitária, mas o primeiro passo para isso é rompermos as barreiras
do silêncio, questionarmos e travarmos as batalhas corretas. Não
indico este livro apenas para mulheres, mas também para homens.
Espero que você conclua a sua leitura com a certeza de que o
conhecimento aqui apresentado é de interesse de todos e essencial
para, no futuro, reconhecermos e respeitarmos o fato de o “sempre”
já ter tido as mulheres no topo.
MARCELA CERIBELLI
– CEO e diretora criativa da agência Obvious
Os homens gozam da grande vantagem de ter um deus
endossando o código que eles escrevem; e como o homem exerce
autoridade soberana sobre as mulheres, é especialmente
afortunado que sua autoridade tenha sido investida nele pelo Ser
Supremo. Para os judeus, maometanos e cristãos, entre outros, o
homem é senhor por direito divino; o temor de Deus irá, portanto,
reprimir qualquer impulso de revolta da mulher oprimida.
– Simone de Beauvoir, O segundo sexo, 1949
Em declaração contrária à ordenação de mulheres, o bispo C. L.
Meyers disse que o sacerdócio episcopal é um “conceito masculino”.
“Um sacerdote é um ‘símbolo de Deus’, goste ou não. Tanto no
Velho como no Novo Testamento, Deus é representado em imagem
masculina”, ele disse em solene declaração que circulou entre
quase 760 pessoas na Grace Catedral numa convenção de dois
dias e meio.
“Cristo é a fonte do Sacerdócio. A sexualidade de Cristo não é
acidental, e sua masculinidade não é incidental”, diz a declaração.
– San Francisco Chronicle, 25 de outubro de 1971
No começo havia Ísis: mais Antiga dos Antigos de quem surgiram
todos os que Se Tornaram. Ela era a Grande Senhora, Dona das
duas Terras do Egito, Dona dos Abrigos, Dona do Céu, Dona da
Casa da Vida, Dona da palavra de Deus. Ela era Única. Em toda a
sua grandeza e obras maravilhosas. Ela era a maga sábia e mais
excelente que qualquer outro Deus.
– Tebas, Egito, século XIV a.C.
Tu, Deusa do Sol de Arina, és uma deidade honorável. Teu nome
se eleva entre nomes. Tua divindade se eleva entre as deidades.
Não, não entre as deidades. Somente tu, Oh Deusa do Sol, és
honorável. Grande somente tu és. Oh Deusa do Sol de Arina. Não,
comparada a ti nenhuma outra deidade é honorável nem grande...
– Boghasköy, Turquia, século XV a.C.
Diante Dela que toma decisões, Deusa de todas as coisas,
Diante da Senhora do Céu e da Terra que recebe súplicas. Diante
Dela que ouve petições, que recebe orações. Diante da compassiva
Deusa que ama a retidão. Ishtar a rainha, que resolve tudo o que
está confuso. À Rainha do Céu, a Deusa do Universo, Aquela que
andou em caos terrível e trouxe a vida por meio da Lei do Amor. E
do Caos nos trouxe harmonia, e do Caos Tu nos conduziste pela
mão.
– Babilônia, séculos XVIII a VII a.C.
Ouvi, Oh regiões, o louvor à Rainha Nana. Engrandecei a
Criadora, exaltai a dignificada, exaltai A Gloriosa, chegai perto da
Poderosa Senhora.
– Suméria, século XIX a.C.
PREFÁCIO
Como de fato aconteceu? Como os homens adquiriram o
controle que hoje permite que eles ordenem o mundo de modos tão
diversos, como decidir quais guerras serão travadas e em que
momento, ou como e a que horas o jantar deve ser servido?
Este livro é resultado de minhas reações a essas e a outras
questões similares que preocupam muitos de nós, sobre o status
das mulheres em nossa sociedade. Como se em resposta a essas
dúvidas, outra questão se apresenta. O que mais podemos esperar
em uma sociedade que durante séculos ensinou a crianças,
meninas e meninos, que uma deidade MASCULINA criou o universo
e tudo o que ele contém, criou o HOMEM à sua imagem e
semelhança, e depois, como quem pensa melhor, criou a mulher
para obedientemente ajudar esse homem em seus projetos? Como,
de muitas maneiras, a imagem de Eva, criada para seu marido e a
partir dele, a mulher que supostamente desencadeou a ruína da
humanidade, veio a se tornar a imagem de todas as mulheres?
Pouca gente que vive em sociedades que seguem o cristianismo,
o judaísmo ou o islamismo não conhece a história de Eva dando
ouvidos à serpente no Jardim do Éden, comendo o fruto proibido e
convencendo Adão a comê-lo também. Em geral, é nos anos mais
impressionáveis da infância que aprendemos que o ato de comer o
saboroso fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal causou
a perda do Paraíso, a expulsão de Adão e de Eva, e com eles a
retirada de toda a humanidade desse lugar de êxtase e
contentamento. Também somos levados a crer que, em
consequência desse ato, Deus decretou que a mulher deveria
submeter-se ao domínio do homem – presenteado, então, com o
direito divino de subjugá-la – desde aquele momento até hoje.
A expulsão de Adão e de Eva do Paraíso não é exatamente
manchete de jornal, mas poucos acontecimentos contemporâneos
afetaram as mulheres de hoje de modo tão direto. No esforço de
alcançar um status de igualdade para as mulheres, em uma
sociedade ainda permeada pelos valores e pela moralidade judaico-
cristãos (que penetraram a fundo nos aspectos mais seculares da
civilização moderna), logo percebemos que uma análise profunda
desse mito criador, juntamente com suas origens históricas, nos
transmite informações vitais. O que nos permite compreender o
papel que as religiões contemporâneas tiveram e continuam a ter na
opressão e subjugação das mulheres – e as razões para isso.
Na pré-história e nos primeiros períodos do desenvolvimento da
humanidade, existiam religiões que reverenciavam uma criadora
suprema. A Grande Deusa – a Divina Ancestral – foi adorada desde
o começo do Neolítico, de 7000 a.C. até o fechamento dos últimos
templos da Deusa, cerca de 500 d.C. Alguns especialistas
entendem que os tempos de adoração à Deusa se estendem até a
Alta Idade Paleolítica, cerca de 25000 a.C. No entanto, eventos da
Bíblia, que em geral são descritos como ocorridos “nos primórdios”,
de fato ocorreram em períodos históricos. Muitos estudiosos da
Bíblia estimam que Abraão, primeiro profeta do deus hebreu-cristão
Iavé, mais conhecido como Jeová, não viveu antes de 1800 a.C. e
possivelmente após 1500 a.C.
Mais significativo é perceber que durante milhares de anos as
duas religiões existiram simultaneamente entre povos vizinhos.
Evidências arqueológicas, mitológicas e históricas revelam que a
religião feminina, longe de se extinguir naturalmente, foi vítima de
séculos de perseguição contínua e de supressão pelos defensores
das novas religiões, que adotavam deidades masculinas como
supremas. E dessas novas religiões derivou-se o mito de Adão e
Eva e da perda do Paraíso.
Como seria a vida de mulheres vivendo em uma sociedade que
venerava uma Criadora sábia e valente? Por que os membros das
religiões masculinas que vieram depois lutaram com tanta
agressividade para suprimir essa adoração, e até mesmo a
lembrança dela? O que a lenda de Adão e Eva realmente significa, e
quando e por que foi escrita? As respostas que encontrei formam o
conteúdo deste livro. Quando Deus era mulher é a história da
supressão dos ritos femininos. Foi escrito para explicar os eventos
históricos e as medidas políticas que levaram à escrita do mito
judaico-cristão da Queda, da perda do Paraíso e, não menos
importante, por que a culpa dessa perda foi atribuída à Eva, e desde
então recai pesadamente sobre todas as mulheres.
INTRODUÇÃO
Para muitos de nós, a religião hoje parece uma relíquia arcaica
remanescente do passado, principalmente os escritos do Velho
Testamento, que falam de um tempo muitos séculos antes do
nascimento de Cristo. Para muitos pais, avós e bisavós, porém,
esses escritos ainda eram vistos como o sagrado evangelho, a
palavra divina. Suas crenças religiosas, por sua vez, e seus
subsequentes comportamentos e valores sociais deixaram uma
marca em vários aspectos. Sem dúvida, o passado ancestral não
está tão distante quanto imaginamos ou preferimos acreditar.
Na verdade, é para esses períodos remotos da história humana
que devemos viajar se quisermos compreender como e por que o
homem adquiriu a imagem daquele que realiza os maiores e mais
importantes feitos, ao passo que a mulher foi relegada ao papel de
ajudante paciente, e subsequentemente convencida de que esse
era o estado natural das relações entre os dois sexos. Precisamos
explorar as mais antigas origens das civilizações humanas e o
desenvolvimento inicial dos padrões religiosos. E, como veremos,
essa não será uma tarefa fácil.
É chocante perceber quão pouco foi escrito sobre as deidades
femininas adoradas nos períodos mais arcaicos da existência
humana, e exasperante confrontar o fato de que até mesmo o
material que foi produzido tem sido quase totalmente ignorado na
literatura popular e na área da educação. Grande parte da
informação e das produções relacionadas à vasta religião feminina,
que floresceu por milhares de anos antes do advento do judaísmo,
do cristianismo e da Idade Clássica dos gregos, foi desenterrada
apenas para voltar a ser enterrada em obscuros textos
arqueológicos, guardados e protegidos cuidadosamente nos
acervos exclusivos de bibliotecas em universidades e museus. Muito
desse conteúdo só está acessível mediante vínculo universitário ou
para quem tem grau superior.
Anos atrás, decidi iniciar uma busca que me fez percorrer meio
mundo, de São Francisco a Beirute. Eu queria saber mais sobre a
antiga religião da Deusa. Nessa jornada passei por bibliotecas,
museus, universidades e sítios arqueológicos nos Estados Unidos,
na Europa e no Oriente Próximo. De lugar em lugar, compilei
informações de uma grande variedade de fontes, pacientemente,
destilando cada frase, oração ou fragmento de lenda a partir de uma
miríade de informações diversas.
Ao reunir esse material sobre as primeiras deidades femininas,
descobri que muitas lendas foram usadas para dramatizações
ritualísticas. Estavam ali, encenadas em cerimônias religiosas de
festivais sagrados ao lado de outros rituais. Estátuas, murais,
inscrições, placas de argila e papiros que registraram eventos,
lendas e orações, revelaram a forma e o comportamento da religião,
bem como a natureza da deidade. Era comum encontrar
comentários na literatura de um país sobre a religião e as
divindades de outros. Foi muito interessante perceber que os mitos
que explicavam as origens de determinada cultura nem sempre
eram os mais antigos. Novas versões suplantavam e descartavam
as anteriores, declarando solenemente que “assim é tal qual fora
nos primórdios”.
O professor Edward Chiera, da Universidade de Chicago,
escreveu sobre o mito babilônio da criação do Céu e da Terra pelo
deus Marduque, dizendo que “Marduque, o novo deus dessa cidade
tão nova, decerto não tinha o direito de se apropriar da glória de tão
grande proeza. (...) Mas no tempo de Hamurabi a Babilônia era o
centro do reino. (...) Marduque, apoiado pelos exércitos de
Hamurabi, agora podia se declarar o deus mais importante da terra”.
Chiera conta também que na Assíria, onde o deus Assur findou
tornando-se a deidade suprema, “os sacerdotes assírios deram tal
honra a Assur simplesmente reescrevendo o conteúdo das tábuas
da velha Babilônia, substituindo Marduque pelo nome do deus
deles. O trabalho não foi muito bem feito, e em algumas partes o
nome de Marduque ainda se esgueira”.
Nas dificuldades que encontrei na coleta de material, não pude
deixar de pensar nos escritos e na estatuária antiga que devem ter
sido destruídos intencionalmente. Relatos das atitudes antagônicas
do judaísmo, cristianismo e maometismo (islamismo) com relação a
artefatos sagrados das religiões que as precederam revelam que
isso aconteceu no caso da Deusa adorada em Canaã (Palestina).
Os massacres sangrentos, as demolições de estátuas (ídolos
pagãos) e de santuários estão registrados nas páginas da Bíblia,
seguintes ao comando de Iavé: “Deveis destruir completamente
todos os lugares em que as nações ocupadas por vós serviram aos
deuses delas, nas montanhas, nas colinas, sob qualquer árvore
frondosa, deveis pôr abaixo seus altares, esmagar seus pilares,
cortar seus bastões sagrados, atear fogo às imagens esculpidas de
seus deuses e fazer desaparecer seus nomes do lugar”
(Deuteronômio 12:2,3). Não resta dúvida de que os contínuos
ataques registrados no Velho Testamento destruíram informações
preciosas e irrecuperáveis.
Tempos depois, os cristãos ficariam conhecidos em todo o
mundo por sua destruição da literatura e dos ícones sagrados
pertencentes a religiões que chamavam de “pagãs” ou “gentias”. O
professor George Mylonas escreveu que, durante o reinado do
imperador cristão Teodósio, os “cristãos, principalmente em cidades
grandes de Antióquia e Alexandria, eram os perseguidores, e os
pagãos, os perseguidos; templos e ídolos foram destruídos pelo
fogo e os devotos, maltratados”. À medida que a adoração às
antigas deidades era suprimida e seus templos destruídos, fechados
ou convertidos em igrejas cristãs, como acontecia com muita
frequência, estátuas e registros históricos eram obliterados pelos
padres missionários da cristandade.
Apesar de importante, a destruição não foi total. Felizmente
muitos objetos foram negligenciados, remanescentes que hoje
contam uma versão própria da natureza dos odiados rituais e
crenças dos “pagãos”. A enorme quantidade de estatuetas da
Deusa encontradas em escavações do Neolítico e primeiros
períodos históricos do Oriente Próximo e Médio sugerem que
podem ter sido os evidentes atributos femininos de praticamente
todas as estátuas que incomodaram os defensores da deidade
masculina. Muitos “ídolos pagãos” tinham seios.
Os autores das escrituras judaico-cristã, tal como as
conhecemos, parecem ter escamoteado de propósito a identidade
sexual da deidade feminina considerada sagrada pelos vizinhos dos
hebreus em Canaã, na Babilônia e no Egito. O Velho Testamento
não tem sequer uma palavra para “Deusa”. Na Bíblia, a Deusa é
chamada Elohim, no gênero masculino, para ser traduzido por deus.
Mas fica bem óbvio no Corão dos maometanos, que diz que “Allah
não tolera idolatria (...) as orações pagãs a mulheres”.
Dado que grande parte das informações foram obtidas em
bibliotecas de universidades e museus, outro problema que
encontrei foi a discriminação sexual e religiosa de muitos
acadêmicos eruditos dos séculos XIX e XX. A maioria das
informações disponíveis, tanto da arqueologia como da história
antiga da religião, foi compilada e discutida por eles. A
predominância esmagadora de eruditos do sexo masculino, e o fato
de que quase todos os peritos em arqueologia, história e teologia de
ambos os sexos cresceram em sociedades que adotam as religiões
de orientação masculina (judaísmo ou cristianismo), parecem
exercer forte influência sobre o que foi incluído e expandido, e o que
foi considerado menor e não digno de menção. O professor R. K.
Harrison escreve sobre a religião da Deusa: “Uma de suas
características mais proeminentes era a lascívia, o caráter
depravado, orgiástico, de seus procedimentos cultuais.” Apesar das
descobertas de templos da Deusa em quase todas as escavações
do período histórico e do Neolítico, Werner Keller escreve que a
deidade feminina era adorada primariamente em “colinas e
outeiros”, simplesmente fazendo eco às palavras do Velho
Testamento. O professor W. F. Albright, uma das maiores
autoridades em arqueologia na Palestina, descreveu a religião
feminina como “adoração de natureza orgiástica, nudez sensual e
mitologia grosseira”. E prossegue dizendo que “foi substituída por
Israel, com sua simplicidade pastoral e pureza de vida, seu nobre
monoteísmo e seu severo código de ética”. É difícil entender como
essas palavras podem ser justificadas academicamente depois de
ler sobre todos os massacres perpetrados pelos hebreus sobre os
habitantes originais de Canaã, conforme descritos no Livro de
Josué, principalmente nos capítulos 9 ao 11. O professor S. H.
Hooke, em sua coletânea de ensaios Myth, Ritual and Kinship,
admite abertamente: “Acredito firmemente que Deus escolheu Israel
como veículo da revelação.”
O próprio Albright escreveu:
Dizem com frequência que a qualidade científica da arqueologia
palestina foi seriamente prejudicada pelos preconceitos religiosos de
peritos que escavaram na Terra Santa. É verdade que alguns
arqueólogos foram atraídos para a Palestina por seu interesse na
Bíblia e que alguns destes foram instruídos principalmente como
estudiosos da Bíblia.
Mas, em seguida, ele rejeita essa possibilidade de dano,
baseando sua conclusão no fato de que as datas atribuídas aos
sítios e artefatos da antiga Palestina pelos eruditos que tomaram
parte nas primeiras escavações mais tarde se mostraram muito
recentes, e não tão antigas quanto se poderia esperar. Sequer
entrou em discussão se as atitudes e crenças inerentes a possíveis
“preconceitos religiosos”, como se sugeriu, poderiam ter influenciado
de modo sutil as análises e descrições do simbolismo, dos rituais e
da natureza da religião antiga em geral.
Muitos textos arqueológicos mencionam a religião feminina como
“culto da fertilidade”, revelando, talvez, as atitudes com relação à
sexualidade presentes em várias religiões contemporâneas e que
podem ter influenciado tais autores. Mas as evidências
arqueológicas e mitológicas da veneração à deidade feminina como
criadora e regente do universo, profeta, provedora do destino da
humanidade, inventora, curadora, caçadora e líder valorosa nas
batalhas, sugere que o título “culto da fertilidade” pode ser uma
grosseira simplificação de uma complexa estrutura teológica.
Ao prestar mais atenção à semântica, insinuações linguísticas e
nuances de significado, observei que a palavra “culto”, cujas
conotações sugerem algo menos refinado ou civilizado do que
“religião”, era quase sempre aplicada a deidades femininas, não por
ministros da Igreja, mas por arqueólogos e historiadores
supostamente mais objetivos. Os rituais associados ao judaico-
cristão Iavé (Jeová) foram sempre descritos respeitosamente por
esses mesmos estudiosos como “religião”. Foi reparando que as
palavras “Deus”, e até “Ele” sempre começavam com letra
maiúscula, enquanto “rainha do céu”, “deusa” e “ela” eram escritas
com minúsculas, que decidi tentar outra abordagem, observando
como essas mudanças aparentemente pequenas afetavam, com
sutileza, o significado bem como o impacto emocional.
Em descrições de cidades e templos soterrados há muito tempo,
acadêmicos colocaram a Deusa sexualmente ativa como
“imprópria”, “insuportavelmente agressiva” ou “vergonhosamente
desprovida de moral”, enquanto deidades masculinas que
estupravam ou seduziam mulheres e ninfas nas lendas eram
descritas como “brincalhões” e até admiravelmente “viris”. A
natureza abertamente sexual da Deusa, justaposta à sagrada
divindade Dela, confundiu um acadêmico a tal ponto que ele se
decidiu pelo espantoso título de Virgem-Meretriz. As mulheres que
seguiam os costumes sexuais da fé na Deusa, conhecidas em sua
própria linguagem como mulheres sagradas ou consagradas, eram
sempre referidas como “prostitutas ritualísticas”. Mais uma vez, essa
escolha de palavras revela uma ética muito etnocêntrica,
provavelmente baseada em atitudes bíblicas. Contudo, usar o termo
“prostituta” na tradução do título de mulheres conhecidas de fato
como qadesh, que quer dizer sagrada, sugere uma falta de
compreensão da própria estrutura teológica e social que tais autores
tentavam descrever e explicar.
Descrições da deidade feminina como criadora do universo,
inventora ou provedora da cultura recebiam uma ou duas linhas, isto
quando mencionadas. Os autores rapidamente descartavam esses
aspectos da deidade feminina como se desprovidos de importância.
E, apesar do fato de, na maioria dos documentos históricos do
Oriente Próximo, o título da Deusa ser Rainha do Céu, alguns
autores queriam reconhecê-la apenas como a eterna “Mãe Terra”.
A divindade feminina, reverenciada como guerreira ou caçadora,
combatente corajosa ou ágil artilheira, às vezes era descrita como
possuidora dos “mais curiosos atributos masculinos”, com a
implicação de que Sua força e Seu valor faziam Dela algo como
uma aberração, uma anormalidade psicológica. J. Maringer,
professor de arqueologia pré-histórica, rejeitou a ideia de que
crânios de renas eram troféus de uma tribo paleolítica. O motivo?
Foram encontrados no túmulo de uma mulher. Ele escreve: “Aqui o
esqueleto era de uma mulher, circunstância que parece excluir a
possibilidade de crânios e galhadas de renas terem sido troféus de
caça.” Teriam esses autores julgado a natureza física feminina a
partir dos ideais de mulher frágil e chorosa oriundos de uma moda
ocidental atual?
As sacerdotisas da Deusa, que ofereciam orientações e
conselhos em Seus santuários de sabedoria profética, eram
descritas como adequadas para essa posição, dado que, como
mulheres, eram mais “intuitivas” e “emocionais”, e, portanto,
médiuns ideais para a revelação divina. Esses mesmos autores
desconsideravam a importância política dessas orientações, ou a
possibilidade de que essas mulheres deveriam realmente ser
respeitadas como detentoras de sabedoria e conhecimentos,
capazes de ocupar posições vitais de aconselhamento.
Estranhamente, qualidades emocionais ou poderes intuitivos nunca
foram mencionados com relação aos profetas masculinos de Iavé.
Gerhard von Rad comentou: “(...) sempre foram as mulheres que
demonstraram tendência para cultos obscuros astrológicos.”
A palavra “deuses” em vez da palavra “deidades”, sendo que
tanto deidades femininas quanto masculinas foram estudadas, era
escolhida com maior frequência pelos escribas contemporâneos da
religião antiga. Até algo simples como em Driver –“Ele tirou dos
campos as mulheres catando gravetos” – e em Gray – “Para lá e
para cá nos campos, as mulheres se ocupavam de cortar madeira” –
levantou questões sobre a precisão de certos termos usados em
traduções. É verdade que em geral é muito difícil decifrar e traduzir
linguagens arcaicas em termos contemporâneos. Em certos casos,
alguns palpites baseados na erudição podem ser temporariamente
úteis, mas é também nesse ponto que vieses preconceituosos têm a
chance de aparecer.
Infelizmente, exemplos de traduções possivelmente imprecisas,
comentários tendenciosos, suposições e especulações se mesclam
inocentemente em explicações de atitudes e crenças dos tempos
antigos. A tendenciosidade masculina e as atitudes religiosas
preconcebidas, que aparecem em temas de maior ou menor
importância, levantam questões prementes e pertinentes acerca da
objetividade das análises do material arqueológico e histórico
disponível atualmente. Isso sugere que teorias e conclusões aceitas
de longa data precisam ser reexaminadas, reavaliadas e, quando
indicadas por evidências mais atuais, revisadas.
Em 1961, uma série de erros foi apontada pelo professor Walter
Emery, que participou das escavações de alguns dos mais antigos
túmulos egípcios. Ele nos conta que a “posição cronológica e o
status de Meryet-Nit são incertos, mas há motivos para se supor que
ela teria sido a sucessora de Zer e terceira soberana da Primeira
Dinastia”. Sobre a escavação desse túmulo em 1900 por Sir Flinders
Petrie, Emery diz: “Na época, acreditava-se que Meryet-Nit era um
rei, mas pesquisas posteriores mostraram que se tratava de um
nome de mulher e, a julgar pela riqueza da câmara mortuária, uma
rainha.”
Ele prossegue: “Em 1896, De Morgan, então diretor do Serviço
de Antiguidades, descobriu em Nagadeh um enorme túmulo que,
pelos objetos nele encontrados, foi identificado como o local
funerário de Hor-Aha, primeiro rei da Primeira Dinastia. No entanto,
pesquisas posteriores mostraram ser mais provável que fosse o
sepulcro de Nit-Hotep, mãe de Hor-Aha.” E mais uma vez ele afirma:
“No bastão de Narmer, uma figura sentada num palanquim com
dossel foi tida como homem, mas uma comparação com figuras
similares num selo de madeira de Sakkara mostra que isso é
improvável e é quase certo que represente uma mulher.” E, apesar
de seus próprios relatos dessa suposição de que os enterros mais
ricos e os palanquins reais do passado fossem para homens e não
para mulheres, ao descrever a tumba do rei Narmer, ele declara:
“Esse monumento é quase insignificante em comparação com o
túmulo de Nit-Hotep em Nagadeh e somente podemos concluir que
essa era apenas a tumba do rei no sul, e que seu verdadeiro local
de enterro ainda está para ser descoberto.” (Grifo meu.) Embora
alguns faraós tenham construído dois túmulos, espera-se um
“possivelmente” ou “provavelmente” em vez dessa conclusão
absoluta e o descarte implícito da possibilidade de que, nesse
período da primeira dinastia egípcia, a tumba de uma rainha poderia
ser maior e mais ricamente adornada que a de um rei.
Em Palestine Before the Hebrews, E. Anati descreve um grupo
de asiáticos chegando ao Egito. Nessa descrição, ele conta que
foram os homens que lá chegaram e trouxeram consigo seus bens,
seus jumentos, esposas e filhos, ferramentas, armas e instrumentos
musicais, nesta ordem. A descrição que Anati faz da antiga
aparência da Deusa não é menos masculino-orientada: “Esses
homens do Paleolítico Superior também criaram uma figura feminina
aparentemente representando uma deusa ou um ser de fertilidade
(...) as implicações psicológicas da deusa mãe são, portanto, de
tremenda importância. (...) Aqui inegavelmente está a figura de um
homem pensante, de um homem com realizações intelectuais e
materiais.” (Grifo meu.) Não poderiam ter sido as ancestrais dessas
mulheres arroladas com os jumentos e outros bens, as mulheres
pensantes, mulheres com realizações intelectuais e materiais?
A dra. Margaret Murray, da Universidade de Londres, escrevendo
em 1949 sobre o Egito antigo, sugeriu que toda a série de eventos
acerca dos relacionamentos “românticos” de Cleópatra, que de fato
tinha o legítimo direito ao trono egípcio, foi mal compreendida em
resultado da tendenciosidade masculina. Ela salienta que “os
historiadores clássicos, imbuídos como eram dos costumes de
monogamia e descendência patrilinear, além de verem as mulheres
como bens móveis dos homens, não entenderam nada da situação
e passaram sua interpretação equivocada para o resto do mundo”.
Estes são apenas alguns exemplos da tendenciosidade sexual e
religiosa que encontrei. Como diz Cyrus Gordon, professor de
Estudos do Oriente Próximo e ex-diretor do departamento na
Universidade Brandeis de Massachusetts, “absorvemos atitudes,
além do tema, no processo de aprendizado. E as atitudes tendem a
determinar o que vemos e o que não vemos no tema em questão.
Por isso, a atitude é tão importante quanto o tema no processo de
aprendizado”. Muitas questões vêm à mente. Quão influenciados
pelas religiões contemporâneas eram muitos dos acadêmicos
autores dos textos disponíveis hoje? Quantos estudiosos
simplesmente entenderam que os homens sempre tiveram o papel
dominante em liderança, criatividade e invenções, e projetaram essa
suposição em sua análise de culturas antigas? Por que tantas
pessoas educadas neste século pensam na Grécia clássica como a
primeira cultura de maior relevância, sendo que já se usava a língua
escrita e havia grandes cidades construídas pelo menos vinte e
cinco séculos antes? E, talvez o mais importante: por que se deduz
que a era das religiões “pagãs”, quando ocorria a adoração das
deidades femininas (se é que são mencionados), era sombria e
caótica, regida por mistério e maldade, sem a luz da ordem e da
razão que supostamente acompanhava as religiões masculinas
posteriores – sendo que há confirmação arqueológica de que o
desenvolvimento inicial de leis, governo, medicina, agricultura,
arquitetura, metalurgia, veículos com rodas, cerâmica, tecelagem e
a linguagem escrita se deu nas sociedades que adoravam a Deusa?
Podemos indagar as razões da falta de informações acessíveis
sobre sociedades que, durante milhares de anos, adoraram a antiga
Criadora do Universo.
Apesar de muitos obstáculos, consegui reunir as informações
existentes e passei a comparar e correlacionar o que coletei. Nesse
processo, a importância, a longevidade e a complexidade dessa
religião arcaica começaram a tomar forma. Na maioria das vezes,
havia apenas a menção à Deusa, um trecho de uma lenda, uma
referência obscura, enfiados entre quatrocentas ou quinhentas
páginas de erudição acadêmica. Um templo abandonado em Creta
ou uma estátua num museu em Istambul, com pouca ou nenhuma
informação, passaram a encontrar lugar no panorama geral.
Reunindo a duras penas esse material, comecei enfim a
compreender a realidade. Era mais do que a inscrição de uma prece
antiga, mais do que uma relíquia artística na vitrine de um museu,
mais do que um terreno coberto de mato com pedaços de colunas
quebradas ou pedras de fundação em que outrora se erguia um
templo. Lado a lado, as peças desse quebra-cabeça revelaram a
estrutura geral de uma religião importante, com vasta abrangência
geográfica, que afetou a vida de multidões durante milhares de
anos. Assim como as religiões de hoje, ela era totalmente integrada
nos padrões e nas leis da sociedade, com a moral e as atitudes
associadas às crenças teológicas, provavelmente atingindo em
profundidade a mais agnóstica ou ateia das mentes.
Não estou sugerindo o retorno ou ressurgimento da antiga
religião feminina. Como Sheila Collins escreve: “Enquanto mulheres,
nossa esperança de satisfação repousa no presente e no futuro, e
não em um reluzente passado mítico.” Eu mantenho a esperança,
porém, de que tomar consciência hoje de uma antiga e amplamente
difundida veneração a uma deidade feminina, sábia Criadora do
Universo e de toda a vida e civilização, pode ser útil para atravessar
as muitas imagens, estereótipos, costumes e leis opressivas,
falsamente estabelecidas e patriarcais, que foram desenvolvidas
como reações diretas à adoração da Deusa e ditadas pelos líderes
das religiões masculinas. Pois, como explicarei, as invenções
ideológicas de defensores das deidades masculinas posteriores é
que foram impostas sobre a antiga adoração, com a intenção de
destruí-la e a seus costumes, e ainda são – por meio de sua
subsequente absorção pela educação, leis, literatura, economia,
filosofia, psicologia, mídia e atributos sociais em geral – impostas
até mesmo sobre a maioria das pessoas não religiosas de hoje.
Este texto não pretende ser arqueológico nem histórico. É mais
um convite a todas as mulheres para participar dessa busca, a fim
de descobrirem quem realmente são, começando por saber que
nossa herança é mais do que um fragmento enterrado de uma
cultura masculina. Precisamos começar a remover a mística
exclusiva do estudo de arqueologia e da religião antiga, a explorar o
passado por nossa conta em vez de permanecermos dependentes
de interesses, interpretações, traduções, opiniões e
pronunciamentos apresentados até agora. À medida que
compilamos as informações, somos mais capazes de entender e
explicar as suposições errôneas nos estereótipos inicialmente
criados para que as mulheres aceitassem e seguissem ditames das
religiões de orientação masculina em que, de acordo com a palavra
divina, uma determinada característica era normal ou natural, sendo
qualquer desvio impróprio, não feminino e até mesmo pecaminoso.
Somente quando muitos dos princípios das teologias judaico-cristãs
forem vistos à luz de suas origens políticas, e a subsequente
absorção desses princípios pela vida secular for compreendida, é
que as mulheres poderão se enxergar como seres humanos
maduros e autodeterminados. De posse dessa compreensão
poderemos ser capazes de nos vermos não como auxiliares
permanentes, mas como fazedoras, não como assistentes
decorativas e convenientes para os homens, mas como indivíduos
responsáveis e competentes por nosso próprio direito. A imagem de
Eva não é nossa imagem de mulher.
É também um convite a todos os homens – àqueles que já
questionaram o que há por trás das imagens e dos papéis sociais de
mulheres e homens na contemporaneidade e àqueles que nunca
pensaram no assunto. É um convite extensivo na esperança de que
a tomada de consciência das origens históricas e políticas da Bíblia,
e do papel desempenhado ao longo dos séculos pelas teologias
judaico-cristãs na formulação das atitudes de homens e mulheres de
hoje, possa levar a um maior entendimento, mais cooperação e
respeito mútuo entre os sexos do que tem sido possível até agora.
Para os homens interessados em atingir essa meta, explorar o
passado oferece um entendimento mais profundo e realista dos
estereótipos sexuais atuais, colocando-os na perspectiva de sua
evolução histórica.
Assim como em qualquer trabalho ou estudo extensivo, muitas
pessoas ajudaram amavelmente nesse percurso, pessoas a quem
devo muitos agradecimentos. Em primeiro lugar quero agradecer a
minha mãe, minha irmã e a minhas duas filhas pelo apoio emocional
que me deram durante todos os anos de pesquisa. Gostaria também
de expressar minha gratidão a Carmen Callil e Ursula Owen da
Virago Limited, do departamento feminista da Quartet Books
Limited, em Londres, que dedicaram tanto tempo, esforço e
interesse pessoal na edição e publicação deste livro na Inglaterra; a
Joyce Engelson, Debra Manette, Donna Schrader, Anne
Knauerhase e a todos os demais de The Dial Press que, por sua
vez, muito contribuíram amavelmente para esta edição. Em seguida
agradeço a todos os diretores e funcionários de museus, aos
bibliotecários de museus e universidades, arqueólogos e
funcionários em sítios arqueológicos, tantos que hesito em citar
seus nomes por receio de deixar alguém de fora, mas quase todos
extremamente atenciosos. Depois, aos arqueólogos e historiadores
cujos livros usei. (Muitos incluíram apenas fragmentos muito
superficiais e outros conseguiram até ignorar totalmente a existência
da deidade feminina.) Embora alguns comentários e conclusões
tenham me feito estremecer de espanto e consternação diante de
suas crenças internalizadas e inquestionadas acerca da dominância
natural dos homens, seus trabalhos de escavar e decifrar os
artefatos do passado tornaram este livro possível. Na verdade, não
posso evitar a esperança de que tudo o que eu disse e direi neste
livro tenha algum efeito em sua futura percepção dos povos que
adoravam a Deusa.
Os trabalhos do falecido Stephen Langdon, S. G. F. Brandon,
Edward Chiera, Cyrus Gordon, Walther Hinz, E. O. James, James
Mellaart, H. W. F. Saggs, J B. Pritchard e R. E. Witt foram úteis, mas
meu débito principal é para com mulheres acadêmicas, como as
falecidas Margaret Murray e Jane Harrison, E. Douglas van Buren,
Sybelle von Cles-Reden, Florence Bennett, Rivkah Harris e
Jacquetta Hawkes, por terem apresentado informações vitais com
uma percepção única, dando-me a coragem de questionar a
objetividade de tantos escritos, de aprender a peneirar com cuidado
o material de modo a separar a opinião e o fato, e – talvez o mais
importante – de começar a observar quantas informações eram
deixadas de fora.
Embora a arqueologia e a religião arcaica possam parecer muito
isoladas, ou pertencentes ao campo esotérico, espero que este livro
encoraje mais pessoas a explorar por conta própria estes temas,
para que algum dia possamos entender melhor os eventos do
passado, trazer à luz o que foi escondido por descuido ou intenção,
e desafiar as inúmeras suposições infundadas que há muito tempo
vêm se passando por fatos.
CAPÍTULO 1
Lendas com um ponto de vista
Mesmo vivendo cercados de altos prédios metálicos, bancadas
de fórmica e telas eletrônicas, alguma coisa em cada um de nós,
mulheres ou homens, nos conecta profundamente com o passado.
Pode ser a inesperada umidade de uma caverna na praia ou as
faixas de sol espreitando pelas formas rendadas das folhas de altas
árvores num bosque escuro, que desperte nos recessos ocultos da
mente os ecos distantes de um tempo remoto, antigo, nos levando
de volta aos primeiros movimentos da vida humana no planeta. Nas
pessoas criadas e programadas segundo as atuais religiões
patriarcais, que nos afetam mesmo nos aspectos mais seculares da
sociedade, talvez ainda exista uma lembrança persistente, quase
inata, de santuários e templos sagrados cuidados por sacerdotisas
que seguiam a religião da suprema deidade original. No começo, as
pessoas oravam à Criadora da Vida, a Senhora do Céu. Na aurora
da religião, Deus era mulher. Você se lembra?
Algo me atraiu magneticamente, por anos, à exploração de
lendas, locais de templos, estátuas e ritos antigos das deidades
femininas, transportando-me a uma época em que a Deusa era
onipotente e as mulheres eram Seu clero, controlando a forma e os
ritos da religião.
Talvez minha formação e trabalho como escultora tenham me
apresentado as esculturas da Deusa encontradas nas ruínas de
santuários pré-históricos e primeiras habitações de seres humanos.
Talvez certo misticismo romântico, de que já me envergonhei, mas
hoje confesso com alegria, por anos tenha me levado ao hábito de
pesquisar informações sobre as primeiras religiões femininas e a
veneração de deidades femininas. De vez em quando, eu tentava
rejeitar meu fascínio pelo assunto, considerando fantasioso demais
e desconectado de meu trabalho (na ocasião, eu construía
esculturas eletrônicas). Mesmo assim, sempre me encontrava
analisando periódicos de arqueologia e me debruçando sobre textos
nas estantes de bibliotecas universitárias e museus.
Enquanto lia, percebi que em algum ponto da minha vida me
disseram – e aceitei – que o Sol, grande e poderoso, era
naturalmente adorado como homem, enquanto a Lua, discreta,
símbolo delicado de sentimento e amor, sempre tinha sido
reverenciada como mulher. Grande foi minha surpresa ao descobrir
relatos de Deusas do Sol nas terras de Canaã, Anatólia, Arábia e
Austrália, e as Deusas do Sol de esquimós, japoneses, e do povo
khasi, na Índia, que eram acompanhadas por irmãos subordinados,
representados pela Lua.
Eu já havia assimilado a ideia de que a Terra era invariavelmente
identificada como feminina, a Mãe Terra, que aceita passivamente a
semente, enquanto o Céu era inerente e naturalmente masculino,
sua intangibilidade simbolizando a suposta capacidade exclusiva
dos homens de pensar em conceitos abstratos. Isso eu também
tinha aceitado sem questionar – até saber que quase todas as
deidades do Oriente Próximo e Médio eram intituladas Rainha do
Céu – no Egito, não apenas a antiga Deusa Nut era conhecida como
os Céus, mas seu irmão-marido Geb era simbolizado pela Terra.
Mais admirável ainda foi a descoberta de numerosos relatos das
Criadoras femininas de toda existência, divindades a quem se
atribuía não só o surgimento das primeiras pessoas, mas também
de toda a Terra e dos Céus. Havia registros dessas Deusas na
Suméria, Babilônia, Egito, África, Austrália e China.
Na Índia, a Deusa Sarasvati era honrada como inventora do
alfabeto original, e na Irlanda celta a Deusa Brigit era estimada
como a deidade padroeira da linguagem. Alguns textos revelaram
que a Deusa Nidaba, na Suméria, era honrada como a inventora
original das placas de argila e das artes da escrita. Ela figurava
nessa posição antes de ser substituída por qualquer deidade
masculina. A escriba oficial do céu na Suméria era mulher. O mais
significativo, contudo, foi a evidência arqueológica dos primeiros
exemplos de linguagem escrita descobertos até então; também
localizados na Suméria, no templo da Rainha do Céu em Uruque,
criados há mais de cinco mil anos. Embora quase sempre a
invenção da escrita seja atribuída ao homem, seja da forma que for,
a combinação dos fatores citados apresenta argumentos bem
convincentes de que, na verdade, deve ter sido uma mulher a
cunhar as primeiras marcas coerentes na argila úmida.
Segundo a teoria geralmente aceita de que as mulheres eram
responsáveis pelo desenvolvimento da agricultura, uma extensão de
suas atividades como provedoras da alimentação, em toda parte
havia deidades femininas às quais se creditava esse presente à
civilização. Na Mesopotâmia, onde foram encontradas as primeiras
evidências do desenvolvimento da agricultura, a Deusa Ninlil era
reverenciada por ter fornecido a Seu povo o entendimento dos
métodos de plantio e colheita. Em quase todas as partes do globo
as deidades femininas eram enaltecidas como curadoras,
fornecendo ervas, raízes e folhas curativas, além de outros auxílios
médicos, e as sacerdotisas dos templos assumiam o papel de
médicas para os devotos.
Algumas lendas descreviam a Deusa como guerreira poderosa,
corajosa, líder nas batalhas. A adoração da Deusa como valente
guerreira deve ser a causa de numerosos relatos de soldadas
femininas, posteriormente referidas nos clássicos gregos como
amazonas. Uma análise minuciosa dos relatos sobre o apreço das
amazonas pela deidade feminina torna evidente que as mulheres
que adoravam uma Deusa guerreira caçavam e lutavam nas terras
da Líbia, Anatólia, Bulgária, Grécia, Armênia e Rússia, bem
diferentes das fantasias míticas que tantos escritores atuais nos
levariam a crer.
Obviamente reparei nas imagens contemporâneas a subtração
das atitudes pré-históricas e arcaicas acerca das capacidades
mentais e intelectuais das mulheres, pois em quase todo lugar a
Deusa foi reverenciada como sábia conselheira e profeta. Nas
lendas irlandesas pré-cristãs, a celta Cerridwen era a Deusa da
Inteligência e do Conhecimento; nos santuários pré-gregos, as
sacerdotisas da Deusa Gaia forneciam a sabedoria da revelação
divina; a grega Deméter e a egípcia Ísis eram invocadas como
legisladoras e fontes de sabedoria, conselho e justiça virtuosos. A
Deusa Maat egípcia representava a própria ordem, o ritmo e a
verdade do universo. Na Mesopotâmia, Ishtar era considerada a
Diretora do Povo, a Profeta, a Senhora da Visão, e os registros
arqueológicos da cidade de Nimrud, onde Ishtar era venerada,
revelaram que as mulheres atuavam como juízas e magistradas nos
tribunais da lei.
Quanto mais eu lia, mais descobria. A adoração de deidades
femininas aparecia em todas as partes do mundo, apresentando
uma imagem da mulher que eu jamais encontrara. Assim, comecei a
refletir sobre o poder do mito e acabei compreendendo essas lendas
para além da primeira impressão de serem inocentes fábulas
infantis. Eram contos com um ponto de vista muito específico.
Os mitos apresentam ideias que guiam a percepção, nos
condicionando a pensar e interpretar de forma específica,
principalmente os jovens, mais impressionáveis. Frequentemente
retratam pessoas que foram recompensadas ou punidas por seu
comportamento, estimulando a ver nesses exemplos algo a copiar
ou evitar. Desde a idade em que começamos a compreendê-las,
muitas dessas histórias afetam profundamente nossas atitudes e
noção de mundo e de nós mesmos. Nossa ética, moral, conduta,
valores, senso de dever, e até o senso de humor, costumam se
desenvolver a partir de simples fábulas e parábolas da infância. Por
meio delas, aprendemos o que é socialmente aceitável no contexto
de onde provêm. Definem bom e mau, certo e errado, o que é ou
não é natural para as pessoas que consideram os mitos
significativos. Os mitos e as lendas que ganharam forma e foram
propagados por uma religião em que a deidade era feminina e
reverenciada como sábia, valente, poderosa e justa, forneciam
imagens da feminilidade bem diferentes das oferecidas pelas
religiões atuais, orientadas pela masculinidade.
Quinze dias após a criação do universo
À medida que eu refletia acerca do poder do mito, ficava mais
difícil evitar o questionamento sobre os efeitos que a influência dos
mitos relacionados às religiões com deidades masculinas tiveram
sobre minha própria concepção do significado de ter nascido mulher,
outra Eva, a progenitora da minha fé na infância. Quando criança,
me foi contado que Eva tinha sido feita da costela de Adão para ser
sua companheira e ajudante, para que ele não ficasse sozinho.
Como se essa designação permanente como figura secundária não
fosse opressiva o bastante para meus futuros planos como membro
iniciante da sociedade, soube depois que Eva era considerada uma
tola ingênua. Os mais velhos me explicaram que ela fora enganada
com facilidade pelas promessas da pérfida serpente. Eva desafiou a
Deus e provocou Adão a fazer o mesmo, arruinando assim uma
coisa boa – a bem-aventurada vida no Jardim do Éden. Ao que
parece, nunca valeu a pena discutir por que não consideraram Adão
igualmente tolo. Identificada com Eva, apresentada como símbolo
de todas as mulheres, a culpa era minha, de maneira misteriosa – e
Deus, vendo que o caso todo era por minha causa, escolheu punir a
mim, decretando: “Multiplicarei muito tua dor na gravidez; com dor
darás à luz teus filhos e ainda assim teu desejo será para teu marido
e ele te regerá.” (Gênesis, 3:16)
Desde menina me ensinaram que, por causa de Eva, quando eu
crescesse teria filhos com dor e sofrimento. Como se essa
penalidade não fosse suficiente, em vez de receber compaixão,
simpatia ou respeito e admiração por minha coragem, eu deveria
sentir essa dor com culpa, e o pecado do meu erro caía pesado
sobre mim, uma punição simplesmente por eu ser mulher, uma filha
de Eva. Para piorar, eu também deveria aceitar a ideia de que os
homens, simbolizados por Adão, foram presenteados com o direito
de me controlar – de me dominar – para evitar minhas futuras
tolices. De acordo com a onipresente deidade masculina, cuja
retidão e sabedoria eu deveria admirar e respeitar com reverente
fascínio, os homens eram muito mais sábios do que as mulheres.
Assim, minha posição penitente e submissa como mulher estava
estabelecida na terceira das quase mil páginas da Bíblia judaico-
cristã.
Esse decreto original da supremacia masculina, porém, era só o
começo. O mito que descreve a tolice de Eva não deveria ser
esquecido nem ignorado. Quando estudamos as palavras dos
profetas do Novo Testamento, vemos que usam repetidamente a
lenda da perda do Paraíso para explicar e até mesmo provar a
inferioridade natural da mulher. As lições aprendidas no Jardim do
Éden são gravadas em nós sem cessar. O homem foi criado
primeiro. A mulher foi feita para o homem. Só o homem foi feito à
imagem de Deus. Segundo a Bíblia e os que a aceitam como
palavra divina, o deus masculino favoreceu aos homens e os
designou como naturalmente superiores. Fico só imaginando
quantas vezes essas passagens do Novo Testamento foram lidas
num púlpito de domingo ou em casa, pelo pai ou marido – aos
ouvidos de uma devota mulher.
Que a mulher aprenda em silêncio em total sujeição. Não irei
tolerar que uma mulher ensine ou usurpe a autoridade do homem,
mas sim que fique em silêncio. Pois Adão foi formado primeiro, depois
Eva, e Adão não foi enganado, mas a mulher enganada estava
transgredindo. (I Timóteo 2:11,14)
Pois o homem não é da mulher, mas a mulher é do homem. Que a
mulher fique em silêncio nas igrejas, pois não é permitido a elas falar;
são comandadas a prestar obediência, assim diz a lei. E se
aprenderem alguma coisa, que perguntem aos maridos em casa; pois
é uma vergonha para a mulher falar na igreja. (I Coríntios 11:3,7,9)
Estranhamente, nunca me tornei muito religiosa, apesar dos
esforços constantes dos professores na Escola Dominical. De fato,
quando cheguei à adolescência já tinha rejeitado a maior parte do
que as religiões organizadas tinham a oferecer. Mas alguma coisa
ainda persistia do mito de Adão e Eva, como se permeasse a cultura
num nível mais profundo. Aparecia e reaparecia como fundamento
simbólico de poemas e romances. Nas aulas de história da arte,
surgia na interpretação visual das pinturas de grandes mestres
projetadas em slides. Nas revistas de moda, anúncios sugeriam que
a mulher sempre poderia superar qualquer desgosto se usasse o
perfume certo. Até mesmo nas tirinhas do jornal de domingo
mulheres eram a base de piadas sem graça. Como se em qualquer
situação a mulher fosse a tentação do homem para agir mal. Nossa
sociedade inteira concordava: Adão e Eva definiam o esteriótipo de
homens e mulheres. Estas eram inerentemente astutas,
conspiradoras, perigosamente sedutoras e ao mesmo tempo tolas e
simplórias. Obviamente precisavam de um capataz para mantê-las
na linha – e por indicação divina, muitos homens pareciam bem
dispostos a isso.
Quando comecei a ler outros mitos que explicavam a criação da
vida, histórias que atribuíam o evento a Nut ou Hathor no Egito,
Namu ou Ninhursag na Suméria, Mami, Tiamat ou Aruru em outras
partes da Mesopotâmia, e Mawu também na África, percebi que a
lenda de Adão e Eva não passava de mais uma fábula, uma
tentativa inocente de explicar o que ocorrera logo no início da
existência. E não demorou muito para que eu entendesse quão
especificamente planejados haviam sido os detalhes desse mito em
particular.
Em 1960, o mitólogo Joseph Campbell escreveu um comentário
sobre o mito de Adão e Eva:
A curiosa ideia mitológica e o fato ainda mais curioso de que por
dois mil anos ela foi aceita no Ocidente como relato absolutamente
confiável de um evento supostamente ocorrido quinze dias após a
criação do universo, forçosamente bllança a questão
interessantíssima da influência de mitologias conspicuamente
planejadas, falsificadas, e das inflexões da mitologia sobre a estrutura
das crenças humanas e o consequente curso da civilização.
O professor Chiera observa que “a Bíblia não nos dá uma história
da criação, mas várias; aquela apresentada no primeiro capítulo do
Gênesis parece ser a que estava menos em voga entre as pessoas
comuns. (...) Evidentemente, foi produzida em círculos acadêmicos”.
Ele prossegue, discutindo as diferenças entre as religiões de hoje e
a adoração na antiguidade:
Há poucos anos conseguimos combinar um grande número de
placas e formar a história completa de um antigo mito sumério. Eu
costumava chamá-lo de teoria darwinista dos sumérios e ele deve ter
circulado bastante, pois já surgiram muitas cópias. Em comum com a
estória bíblica, uma mulher tem o papel dominante, assim como Eva.
Mas a semelhança acaba aí. Eva, coitada, por seu ato foi desgraçada
por todas as gerações seguintes, ao passo que os babilônios tinham
sua ancestral mulher em tão alta conta que a deificaram.
Lendo sobre esses outros mitos, fica claro que a mulher
arquetípica nas religiões antigas, representada pela Deusa, era bem
diferente, em muitos aspectos, da mulher Eva. Observei então que
muitas dessas lendas da origem e da criação vinham das terras de
Canaã, Egito e Babilônia, as mesmas terras onde se desenvolveu o
mito de Adão e Eva. As outras lendas da criação vinham da
literatura mítica religiosa de pessoas que não adoravam o Iavé
(Jeová) hebreu, mas que de fato eram os vizinhos mais próximos
desses primeiros hebreus.
CAPÍTULO 2
Quem era ela?
Pouco depois, as diversas peças de evidências se encaixaram e
as conexões começaram a tomar forma. Então compreendi.
Astarote, a desprezada deidade “pagã” do Velho Testamento, era
(apesar dos esforços dos escribas bíblicos para disfarçar sua
identidade usando repetidamente o gênero masculino) Astarte – a
Grande Deusa, como Ela era conhecida em Canaã, a Rainha do
Céu no Oriente Próximo. Aqueles adoradores de ídolos pagãos na
Bíblia vinham orando a um deus mulher – em outros lugares
conhecida como Innin, Inanna, Nana, Nut, Anat, Anahita, Istar, Ísis,
Au Set, Ishara, Aserá, Ashtart, Attoret, Attar e Hathor – a Divina
Ancestral de muitos nomes. Mas todos os nomes denotavam, nas
diversas línguas e dialetos dos que A veneravam, a Grande Deusa.
Terá sido mera coincidência eu nunca ter aprendido, em todos
aqueles anos na Escola Dominical, que Astarote era mulher?
Ainda mais espantosa foi a evidência arqueológica provando que
Sua religião existira e florescera no Oriente Próximo e Médio por
milhares de anos antes da chegada do patriarca Abraão, o primeiro
profeta da deidade masculina Iavé. Os arqueólogos rastrearam a
adoração da Deusa até as comunidades do Neolítico, em torno de
7000 a.C. e algumas do Paleolítico Superior, perto de 25000 a.C.
Desde a origem no Neolítico, sua existência foi atestada repetidas
vezes, até nos tempos de dominação romana. Contudo, os
acadêmicos bibliólogos concordaram que Abraão vivera em Canaã
(Palestina) mais tarde, entre 1800 e 1550 a.C.
Quem era essa Deusa? Por que uma mulher, em vez de um
homem, fora designada a deidade suprema? Quão influente e
significativa era Sua adoração e quando realmente começou? Ao
me perguntar tudo isso, comecei a investigar ainda mais os tempos
neolíticos e paleolíticos. Embora as deusas tenham sido adoradas
no mundo inteiro, mantive o foco na religião e em sua evolução no
Oriente Próximo e Médio, já que nessas terras surgiram o judaísmo,
o cristianismo e o islamismo. Descobri que o desenvolvimento da
religião com deidade feminina se entrelaçava com os primórdios da
religião em si naquela área, mais que em qualquer outra parte da
Terra estudada até hoje.
Aurora no Jardim do Éden gravetiano
A maior parte dos sítios do período Paleolítico Superior foram
localizados na Europa, mas seus fundamentos conjeturais da
religião da Deusa emergiram na posterior Era Neolítica no Oriente
Próximo. Sendo anterior à época dos registros escritos, e não
conduzindo diretamente a um período histórico que pudesse
explicá-la, a informação sobre a existência da adoração à Deusa no
Paleolítico ainda é especulativa. As teorias sobre as origens da
Deusa naquele período são baseadas na justaposição de costumes
matriarcais com a antiga adoração. Existem três linhas de
evidências.
A primeira se baseia em analogia antropológica para explicar o
desenvolvimento inicial de sociedades matriarcais (parentesco
materno). Estudos sobre as tribos “primitivas” nos últimos séculos
indicaram que alguns povos “primitivos” isolados, mesmo nos
Estados Unidos, ainda não possuíam compreensão consciente da
relação entre sexo e concepção. Por analogia, os povos paleolíticos
deviam ter um nível similar de percepção biológica.
Em 1963, Jacquetta Hawkes escreveu que “os australianos e
alguns outros povos primitivos não entendiam a paternidade
biológica nem aceitavam uma conexão obrigatória entre relação
sexual e concepção”. No mesmo ano, S. G. F. Brandon, professor
de Religião Comparada na Universidade de Manchester, na
Inglaterra, observou: “Como a criança ia parar no ventre era sem
dúvida um mistério para o homem primitivo (...) considerando o
período que separa a impregnação com o nascimento, é provável
que o significado da gestação e do nascimento fosse prezado muito
antes de se perceber que esses fenômenos eram resultado da
concepção subsequente ao coito.”
“James Frazer, Margaret Mead e outros antropólogos”, escreve
Leonard Cottrell, “afirmaram que, nos primeiros estágios de
desenvolvimento do homem, antes de compreenderem o segredo
da fecundidade humana, antes de associarem o coito ao parto, a
mulher era reverenciada como doadora da vida. Só as mulheres
conseguiam produzir sua própria espécie e a parte do homem nesse
processo ainda não era reconhecida”.
Segundo esses autores e muitas autoridades que escreveram
sobre o assunto, é provável que nas sociedades mais arcaicas as
pessoas ainda não tinham entendimento consciente da relação do
sexo com a reprodução. O conceito de paternidade ainda não devia
ser compreendido. Embora envolvidos por diversas explicações
míticas, os bebês simplesmente nasciam das mulheres.
Nesse caso, a mãe seria vista como a única progenitora da
família, a única produtora da geração seguinte. Por essa razão, era
natural que as crianças tomassem o nome da tribo ou clã da mãe.
Os relatos da descendência seriam mantidos pela linhagem
feminina, de mãe para filha e não de pai para filho, como é o
costume atual na sociedade ocidental. Esse tipo de estrutura social
geralmente é mencionado como matrilinear, isto é, baseado no
parentesco com a mãe. Em culturas como essa (encontradas em
vários povos “primitivos” mesmo hoje em dia, bem como em
sociedades historicamente atestadas na época da Grécia clássica),
não só os nomes, mas também títulos, posses e direitos territoriais
são transmitidos pela linhagem feminina, e assim podem
permanecer dentro do clã familiar.
Hawkes observa que na Austrália, nas áreas onde o conceito de
paternidade ainda não era compreendido, “muita coisa demonstra
que a descendência matrilinear e o casamento matrilocal [o marido
se muda para a casa ou vilarejo da família da mulher] eram
generalizados e o status das mulheres era muito mais alto”. Ela
escreve que esses costumes ainda prevalecem em partes da África
e entre os dravidianos da Índia, e há vestígios deles na Melanésia,
Micronésia e Indonésia.
A segunda linha de evidências se refere aos primórdios das
crenças religiosas e rituais e sua conexão com a descendência
matrilinear. Houve inúmeros estudos sobre as culturas paleolíticas,
explorações em sítios ocupados por esses povos, e os sinais de
ritos conectados com o despojo dos mortos. Eles sugerem que os
primeiros conceitos de religião provavelmente se desenvolveram na
forma de adoração aos ancestrais. Mais uma vez, cabe a analogia
entre os povos paleolíticos e os conceitos religiosos e rituais
encontrados em muitas tribos “primitivas” estudadas pelos
antropólogos nos últimos dois séculos. A adoração aos ancestrais
ocorre em povos tribais em todo o mundo. Maringer afirma que
mesmo na ocasião de seus escritos, em 1956, certas tribos da Ásia
ainda faziam pequenas estátuas chamadas dzuli. Ao explicá-las, ele
diz: “Os ídolos são femininos e representam as origens humanas de
toda a tribo.”
Assim, no desenvolvimento dos conceitos religiosos dos
primeiros homo sapiens,1 pode ter começado a busca pela fonte
principal da vida (talvez o cerne de todo pensamento teológico).
Naquelas sociedades do Paleolítico Superior – em que a mãe deve
ter sido considerada a única progenitora da família, a adoração aos
ancestrais era aparentemente a base do ritual sagrado, e registros
de ancestralidade reconheciam apenas a linha materna –, o
conceito de criadora de toda vida humana pode ter sido formulado
pela imagem que o clã tinha da mulher que fora seu ancestral mais
antigo, o primeiro, e portanto essa imagem foi deificada e
reverenciada como a Divina Ancestral.
A terceira linha de evidências, a mais tangível, provém das
numerosas esculturas de mulheres encontradas nas culturas
gravetianas-aurignacianas da era do Paleolítico Superior. Algumas
datam de 25000 a.C. Essas pequenas estatuetas femininas, feitas
de pedra, ossos e argila, frequentemente chamadas de estatuetas
de Vênus, foram encontradas em áreas antes habitadas por
pequenas comunidades assentadas. Muitas vezes estavam perto
das ruínas de paredes do que provavelmente foram as primeiras
habitações na Terra. Maringer afirma que os nichos e as depressões
nas paredes eram feitos para se colocar as estatuetas. Essas
estátuas de mulheres, algumas podendo estar grávidas, foram
descobertas em todos os sítios gravetianos-aurignacianos
espalhados pela Espanha, França, Alemanha, Áustria,
Tchecoslováquia e Rússia. Esses sítios e estátuas podem abranger
um período de pelo menos dez mil anos.
“Então parece muito provável”, diz Maringer, “que as estatuetas
femininas fossem ídolos do culto a uma ‘grande mãe’ praticado
pelos caçadores de mamute aurignacianos não nômades que
habitavam os imensos territórios eurasianos, estendendo-se do sul
da França até o lago Baikal na Sibéria”. (A propósito, acredita-se
que se originaram dessa área do lago Baikal, na Sibéria, as tribos
que migraram para a América do Norte, aproximadamente no
mesmo período, formando os indígenas americanos.)
A paleontóloga russa Z. A. Abramova, citada no livro recente de
Alexander Marshak, Roots of Civilization, tem uma interpretação
ligeiramente diferente, ao escrever que, na religião paleolítica, a
“imagem da Mulher-Mãe (...) era complexa, incluindo diversas ideias
relacionadas ao significado especial da mulher na sociedade
primitiva dos clãs. Ela não era deus, nem ídolo, nem a mãe de um
deus; era a Mãe do Clã. (...) A ideologia das tribos caçadoras nesse
período dos clãs matriarcais se refletia nas estatuetas femininas”.
A manhã neolítica
As conexões entre as estatuetas femininas do Paleolítico e o
posterior surgimento das sociedades que adoravam a Deusa, nos
períodos do Neolítico no Oriente Próximo e Médio, não são
definitivas, mas são sugeridas por muitos especialistas no assunto.
No sítio gravetiano de Vestonice, na República Tcheca, onde as
estátuas de Vênus tinham sido moldadas e endurecidas em fornos,
foi encontrado um túmulo cuidadosamente arrumado de uma mulher
de cerca de quarenta anos. Ela estava com ferramentas, fora
coberta com ossos de escápulas de mamute e salpicada de ocre
vermelho. Num sítio protoneolítico em Xanidar, nas extensões ao
norte do rio Tigre, foi encontrado outro túmulo, de aproximadamente
9000 a.C. Era a sepultura de uma mulher um pouco mais jovem,
também polvilhada com ocre vermelho.
Uma das ligações mais significativas entre os dois períodos é a
estatueta feminina, conhecida nas sociedades neolíticas, por meio
de seu surgimento no período histórico de registros escritos, como
representante da Deusa. As esculturas das culturas do Paleolítico e
dos períodos do Neolítico são notavelmente semelhantes nos
materiais, nos tamanhos e, o mais admirável, no estilo. Hawkes
comentou a relação entre os dois períodos, observando que as
estátuas femininas do Paleolítico “são extraordinariamente
parecidas com as Deusas Mãe ou Terra dos povos agrícolas da
Eurásia na Era Neolítica e devem ser suas ancestrais diretas”. E. O.
James também ressalta a similaridade, falando das estátuas
neolíticas: “Muitas são obviamente ligadas aos protótipos
gravetianos-paleolíticos.” Porém, talvez o fato mais significativo seja
a recente descoberta de sítios aurignacianos perto de Antália, cerca
de cem quilômetros da comunidade neolítica de adoradores da
Deusa de Hacilar, na Anatólia (Turquia), e em Musa Dag no norte da
Síria (que já foi parte de Canaã).
James Mellaart, ex-diretor assistente do Instituto Britânico de
Arqueologia em Ankara, e que agora leciona no Instituto de
Arqueologia em Londres, descreve as culturas protoneolíticas do
Oriente Próximo entre 9000 e 7000 a.C. Segundo ele, durante
aquele intervalo, “a arte aparece na forma de entalhaduras de
animais e estatuetas da suprema deidade, a Deusa Mãe”.
Essas comunidades neolíticas emergem com as primeiras
evidências de desenvolvimento agrícola (o que as define como
neolíticas). Aparecem em áreas posteriormente conhecidas como
Canaã (Palestina [Israel], Líbano e Síria), na Anatólia (Turquia) e ao
longo do norte dos rios Tigre e Eufrates (Iraque e Síria). Pode ser
relevante que todas essas culturas possuíam obsidiana,
provavelmente adquiridas no local mais próximo disponível:
Anatólia. Um desses sítios, perto do lago Van, estaria diretamente
na rota das estepes russas até o Oriente Próximo.
No sítio agora conhecido como Jericó (em Canaã), em 7000 a.C.,
as pessoas moravam em casas de tijolos e argamassa, algumas
tinham fornos de argila com chaminés e até mesmo encaixes para
batentes de portas. Também já existiam santuários retangulares de
argamassa. Sybelle von Cles-Reden escreve sobre Jericó: “Vários
achados indicam uma vida religiosa ativa. As estátuas femininas em
argila com as mãos elevadas ao peito se assemelham aos ídolos da
deusa mãe que posteriormente seriam bastante disseminados no
Oriente Próximo.” Mellaart também escreve sobre Jericó: “Eles
moldavam cuidadosamente pequenas estátuas de argila do tipo da
deusa-mãe.”
Outra comunidade neolítica tinha o centro em Jarmo, no norte do
Iraque, em torno de 6800 a.C. O professor de Linguagens Semíticas
H. W. F. Saggs conta que em Jarmo “havia estatuetas em argila de
animais, bem como de uma deusa-mãe – a representada por essas
estatuetas aparentemente era a figura central na religião neolítica”.
Mapa 1: Alguns assentamentos neolíticos e calcolíticos 7000-4000 a.C.
Hacilar, cerca de 100 quilômetros do sítio aurignaciano de
Antália, era habitada em torno de 6000 a.C. Ali também foram
encontradas estátuas da Deusa. E nas escavações em Çatal Hüyük,
junto às planícies cilicianas da Anatólia, perto da atual Konya,
Mellaart descobriu não menos que quarenta santuários, datando
desde 6500 a.C. A cultura de Çatal Hüyük existiu por quase mil
anos. Mellaart revela que “as estátuas nos permitem reconhecer as
principais deidades adoradas pelos povos neolíticos em Çatal
Hüyük. A mais importante era uma deusa, mostrada em seus três
aspectos: jovem, parindo e velha”. Ele sugere que as mulheres
deviam ser a maioria em Çatal Hüyük, dado o número de sepulcros
femininos. Lá também se cobriam os corpos com ocre vermelho e
quase todos os que usavam tal artifício eram de mulheres. Ele
também sugere que a religião era basicamente associada ao papel
das mulheres no desenvolvimento inicial da agricultura, e
acrescenta que “parece muito provável que o culto à deusa era
administrado principalmente por mulheres”.
Em torno de 5500 a.C., as casas eram construídas com grupos
de cômodos distribuídos em volta de um pátio central, estilo usado
até hoje por muitos arquitetos. Elas foram encontradas em sítios ao
longo do norte do rio Tigre, em comunidades que representam o que
se conhece como período Hassuna. Como em outras comunidades
neolíticas, os arqueólogos encontraram ferramentas agrícolas como
foices e enxadas, barris para armazenar milho e fornos de argila. O
professor Saggs relata que “as ideias religiosas do período Hassuna
se refletem nas estatuetas femininas em argila da deusa-mãe”.
Uma das culturas mais sofisticadas da pré-história no Oriente
Próximo e Médio se localizava ao longo das margens norte do rio
Tigre e a oeste até o rio Habur. É a chamada Cultura de Halafe,
encontrada em vários lugares em 5000 a.C. Nesses sítios, foram
descobertas pequenas aldeias com ruas de pedras. Os habitantes já
usavam metais, e os arqueólogos posicionaram as culturas
halafianas no Período Calcolítico.
Saggs, a julgar por uma imagem num vaso de cerâmica, escreve:
“A invenção de veículos com rodas provavelmente data do período
halafiano.” Em todos os sítios halafianos foram descobertas
estatuetas da Deusa, mas na aldeia halafiana de Arpachiyah essas
estátuas estavam associadas a serpentes, machados duplos e
pombas; em períodos históricos era sabido que todos esses
símbolos se conectavam à adoração da Deusa. Além de utensílios
rebuscados de cerâmica multicoloridos, em Arpachiyah havia
construções chamadas tholoi. Eram cômodos circulares de até 10
metros de diâmetro, com tetos abobadados bem construídos. As
estruturas redondas se conectavam a longos corredores
retangulares de quase 20 metros de comprimento. Como a maioria
das estatuetas da Deusa foi descoberta perto desses tholoi, é
provável que fossem usados como templos.
Por volta de 4000 a.C. as imagens da Deusa apareceram em Ur
e Uruque, regiões situadas no extremo sul do rio Eufrates, não longe
do Golfo Pérsico. Nesse mesmo período apareceram no Egito as
Culturas de Badari e de Amira. Foi nesses lugares que surgiu a
agricultura do Egito. E novamente foram descobertas estatuetas da
Deusa nessas mesmas comunidades neolíticas.
A partir desse ponto, com a invenção da escrita, a história
emergiu na Suméria (sul do Iraque) e no Egito – em torno de 3000
a.C. Em todo o Oriente Próximo e Médio, a Deusa era conhecida
nos tempos históricos. Embora muitos séculos de transformação
tenham sem dúvida alterado a religião de diversas formas, a
adoração à deidade feminina sobreviveu até os períodos clássicos
da Grécia e de Roma. Só foi totalmente suprimida no tempo dos
imperadores cristãos de Roma e Bizâncio, que por volta de 500 d.C.
já tinham fechado os últimos templos da Deusa.
Deusa – o que as pessoas hoje pensam de deus
Os artefatos arqueológicos sugerem que em todas as sociedades
neolíticas e nas primeiras calcolíticas a Divina Ancestral, geralmente
citada como Deusa Mãe, era reverenciada como a suprema
deidade. Ela fornecia não só a vida humana como também
controlava os suprimentos de comida. C. Dawson, em 1928,
escreveu sumariamente que “os primórdios da agricultura devem ter
evoluído ao redor de santuários da Deusa Mãe, que se tornaram
centros sociais e econômicos, além de lugares sagrados, e foram os
germes de futuras cidades”.
W. Schmidt é citado por Joseph Campbell em Mitologia primitiva
sobre essas culturas antigas: “Aqui eram as mulheres que se
mostravam supremas; elas não só concebiam crianças como eram
as principais provedoras de comida. Percebendo que era possível
cultivar e também coletar, elas tornaram valiosa a terra e,
consequentemente, se tornaram suas donas. Assim ganharam
prestígio e poder econômico e social.” Em 1963, Hawkes
acrescentou: “Todas as razões levam a supor que, nas condições
básicas do modo de vida neolítico, o direito materno e o sistema de
clã ainda eram dominantes e a terra era transferida pela linhagem
feminina.”
A Deusa pode ter começado a reinar sozinha, mas em algum
momento desconhecido Ela ganhou um filho ou irmão (dependendo
da localização geográfica), que era também Seu amante e consorte.
Ele é conhecido por meio do simbolismo dos primeiros períodos
históricos, e se assume que tenha feito parte da religião feminina
muito antes disso. O professor E. O. James escreve: “Se isso reflete
ou não um sistema primevo de organização social matriarcal, o que
é nada improvável, permanece o fato de que inicialmente a Deusa
tinha precedência sobre o deus-jovem associado a ela como filho,
marido ou amante.”
Era esse o jovem simbolizado pelo papel masculino na união
sexual sagrada anual com a Deusa. (Esse ritual é conhecido nos
tempos históricos, mas normalmente se acredita que já fosse
conhecido no período neolítico da religião.) Chamado em várias
linguagens de Damuzi, Tamuz, Átis, Adônis, Osíris ou Baal, esse
consorte morreu jovem, causando um ano de tristeza e lamentação
para os que homenageavam a Deusa. O simbolismo e os rituais
conectados a ele serão explicados mais detalhadamente no capítulo
sobre o consorte masculino, mas onde quer que esse jovem morto
apareça como deidade masculina, podemos reconhecer a presença
da religião da Deusa, sendo suas lendas e rituais de lamentação
extraordinariamente semelhantes em muitas culturas. Esse
relacionamento da Deusa com Seu filho, ou em certos lugares com
um belo jovem simbolizando o filho, era conhecido no Egito por volta
de 3000 a.C. Ocorreu nos primórdios da literatura na Suméria,
apareceu mais tarde na Babilônia, Anatólia e Canaã, sobreviveu na
lenda grega clássica de Afrodite e Adônis, e chegou à Roma pré-
cristã nos rituais de Cibele e Átis, possivelmente influenciando o
simbolismo e rituais dos primórdios do cristianismo. É um dos
principais aspectos da religião que atravessa vastidões, tanto
geográficas como cronológicas.
Assim como os povos das primeiras culturas neolíticas podem ter
vindo da Europa, possíveis descendentes das culturas gravetianas-
aurignacianas, levas de mais povos do norte vieram posteriormente
para o Oriente Próximo. Houve conjeturas de que estes descendiam
das culturas mesolíticas (15000- 8000 a.C.), maglemosianas e de
Kunda, do norte da Europa. Como explicarei melhor adiante, sua
chegada não foi uma assimilação gradual ao lugar, como parece ter
ocorrido com os povos da Deusa, mas uma série de invasões
agressivas, resultando na conquista sucessiva das áreas do povo da
Deusa.
Esses invasores do norte, geralmente conhecidos como indo-
europeus, trouxeram sua própria religião, a adoração a um jovem
deus guerreiro e/ou um supremo deus pai. Sua chegada é atestada
histórica e arqueologicamente em 2400 a.C., mas várias invasões
podem ter ocorrido antes. A natureza dos invasores do norte, sua
religião e seus efeitos sobre os povos adoradores da Deusa serão
descritos com maior profundidade e discutidos nos Capítulos 4 e 5.
Mas o padrão que emergiu após as invasões foi um amálgama das
duas teologias e a força de uma ou outra variava nitidamente entre
cidades. À medida que os invasores ganhavam mais territórios,
ficando cada vez mais poderosos ao longo dos dois mil anos
seguintes, essa religião sintetizada frequentemente reunia as
deidades masculina e feminina, não como iguais, mas com o
homem sendo um marido dominador ou até assassino Dela. Mesmo
assim, mitos, estátuas e evidências documentais revelam a
presença contínua da Deusa e a sobrevivência dos costumes e
rituais de sua religião, apesar dos esforços dos conquistadores para
destruir ou depreciar aquela adoração antiga.
Os primeiros exemplos de linguagem escrita já descobertos no
planeta foram descobertos no templo da Rainha do Céu, em
Uruque, na Suméria, pouco antes de 3000 a.C., mas naquele tempo
parece que os escritos tratavam mais da contabilidade dos negócios
do templo. Os grupos recém-chegados do norte adotaram essa
maneira de escrever, denominada cuneiforme (pequenos sinais
cunhados em argila úmida) e a usavam em seus próprios registros e
literatura. Chiera comenta: “É estranho notar que praticamente toda
a literatura existente foi colocada na forma escrita um século ou dois
após 2000 a.C.” Se isso sugere que a linguagem escrita nunca foi
considerada um meio para mitos e lendas antes daquele tempo, ou
se as placas então existentes foram destruídas e reescritas naquela
ocasião, é uma questão que permanece em aberto. Mas,
infelizmente, significa que precisamos contar com a literatura
produzida após o início das invasões do norte e suas conquistas.
Entretanto, a sobrevivência e o ressurgimento da Deusa como
suprema em certas regiões, costumes, rituais, orações e o
simbolismo dos mitos, bem como a evidência de locais de templos e
estátuas, nos fornecem muitas informações sobre a adoração à
Deusa já naquele tempo. Observando a progressão das transições
que aconteceram nos dois mil anos seguintes, essas informações
nos permitem, em certo sentido, extrapolar de forma retroativa e
entender melhor a natureza da religião tal como deve ter existido
nos tempos históricos iniciais e neolíticos.
Como já mencionei, a adoração da deidade feminina, em grande
parte, foi incluída como um acréscimo secundário ao estudo dos
padrões das crenças religiosas nas culturas arcaicas, e a maioria
dos escritores preferiu discutir os períodos em que as deidades
masculinas já eram proeminentes. Em muitos livros, uma apressada
menção à Deusa costuma preceder longas dissertações sobre as
deidades masculinas que A substituíram. São muito enganosas as
vagas inferências de que a veneração a uma deidade feminina era
uma ocorrência isolada, secundária, incomum ou curiosa. Como a
maioria dos livros trata de alguma área geográfica específica, esse
engano resulta parcialmente da identificação da Deusa por um ou
mais nomes, dependendo do local, e as conexões gerais nunca são
mencionadas.
No entanto, uma análise mais atenta mostra que muitos desses
nomes usados em diferentes áreas eram apenas títulos variados da
Grande Deusa, epítetos como Rainha do Céu, Senhora do Lugar
Elevado, Regente Celestial, Senhora do Universo, Soberana dos
Céus, Leoa da Sagrada Assembleia ou simplesmente Sua
Santidade. O nome da aldeia ou cidade costumava ser
acrescentado, tornando o nome ainda mais específico. Não estamos
confrontando a miríade confusa de deidades, mas sim a variedade
de títulos resultantes de diversas línguas e dialetos, mas que ainda
assim referem-se a uma divindade feminina por demais semelhante.
De posse dessa visão mais ampla e abrangente, é evidente que a
deidade feminina no Oriente Próximo e Médio era reverenciada
como Deusa – como as pessoas hoje pensam em Deus.
Em Syrian Goddess, de Strong e Garstang (1913), algumas
conexões são explicadas – “Entre os babilônios e semitas do norte
Ela era Ishtar; Ela é Astarote na Bíblia e Astarte na Fenícia. Na
Síria, o nome Dela era Athar e na Cilícia era Ate (Atheh)”.
Na tradução de Robert Grave de O Asno de Ouro, do escritor
romano Apuleio no século II d.C., a própria Deusa aparece e
explica:
Eu sou a Natureza, a Mãe universal, senhora de todos os
elementos, filha primordial do tempo, soberana de todas as coisas
espirituais, rainha dos mortos, rainha também dos imortais, a única
manifestação de todos os deuses e deusas que existem. A um aceno,
governo as alturas brilhantes do Céu, as brisas benéficas do mar, os
silêncios lamentosos do mundo inferior. Embora eu seja adorada sob
muitos aspectos, conhecida por inúmeros nomes e propiciada com
toda sorte de ritos, todos ao redor da Terra me veneram.
Os primeiros frígios me chamam de Pessinúncia, Mãe dos deuses;
os atenienses surgidos de seu próprio solo me chamam de Ártemis
Cecropiana; para os ilhéus de Chipre sou Afrodite Pafiana; para os
arqueiros de Creta sou Dictina; para os silicianos trilíngues sou
Prosérpina Estigiana; e para os eleusínios, sua antiga Mãe do Milho.
Alguns me conhecem como Juno, alguns como Belona das Batalhas,
outros como Hécate, ainda outros como Rhamnubia, mas tanto os
etíopes, das terras onde brilha o primeiro sol da manhã, como os
egípcios, excelentes no aprendizado do antigo, e que me adoram com
cerimônias apropriadas a minha divindade, me chamam por meu
verdadeiro nome, Rainha Ísis.
Ironicamente, Ísis é a tradução grega para a Deusa egípcia Au
Set.
As similaridades de estátuas, títulos, símbolos como a serpente,
a vaca, a pomba e o machado duplo, o relacionamento com o
filho/amante que morre e é pranteado anualmente, os sacerdotes
eunucos, a anual união sexual sagrada e os costumes sexuais no
templo, todas revelam as conexões sobrepostas e subjacentes entre
a adoração da deidade feminina em áreas tão afastadas no espaço
e no tempo quanto os primeiros registros da Suméria estão de
Roma e da Grécia clássicas.
A deificação e adoração da divindade feminina em tantas partes
do mundo antigo eram variações de um tema, versões ligeiramente
diferentes das mesmas crenças teológicas básicas, originadas nos
primeiros períodos da civilização humana. É difícil absorver a
imensidão e significação da extrema reverência prestada à Deusa
pelo período de 25 mil anos (como sugerem as evidências no
Paleolítico Superior) ou mesmo 7 mil anos, cobrindo quilômetros de
terras, atravessando fronteiras de nações e vastas extensões de
mar. Entretanto, é vital fazer exatamente isso se quisermos
compreender a longevidade e a grande abrangência de poder e
influência que essa religião já possuiu.
Segundo o poeta e mitólogo Robert Graves, “toda a Europa
neolítica, a julgar pelo que restou de artefatos e mitos, tinha um
notável sistema homogêneo de ideias religiosas baseadas na multi-
intitulada Deusa Mãe, que também era conhecida na Síria e na
Líbia. (...) A Grande Deusa foi considerada imortal, imutável,
onipotente; e o conceito de paternidade ainda não fora introduzido
no pensamento religioso”.
A mesma religião discutida por Graves existia bem antes, em
muitos aspectos, nas áreas hoje conhecidas como Iraque, Irã, Índia,
Arábia Saudita, Líbano, Jordão, Israel (Palestina), Egito, Sinai, Líbia,
Síria, Turquia, Grécia e Itália, bem como nas culturas de grandes
ilhas como Creta, Chipre, Malta, Sicília e Sardenha. Havia
ocorrências de quase a mesma adoração nos períodos neolíticos na
Europa, desde 3000 a.C. Os Thuata Dé Danann remontam suas
origens à Deusa que levaram consigo para a Irlanda, muito antes da
chegada da cultura romana. Os celtas, que hoje abrangem a maior
parte das populações da Irlanda, Escócia, País de Gales e Grã-
Bretanha, eram chamados pelos romanos de gauleses. Sabe-se que
eles enviaram sacerdotes a um festival sagrado para a Deusa
Cibele em Pessino, Anatólia, no século II a.C. E os achados de
entalhes em Carnac e nos santuários gálicos em Chartres e Monte
Saint-Michel, na França, indicam que esses lugares já foram
dedicados à Grande Deusa.
“Da Índia ao Mediterrâneo... Ela reinava suprema”
O status e as origens da Grande Deusa já foram discutidos em
diversos estudos sobre a antiga adoração. O interesse principal da
maioria desses acadêmicos era o filho/amante e a transição das
religiões femininas para as masculinas. Mas todas as suas
afirmações revelam que o status original da Deusa era de deidade
suprema.
Em 1962, James Mellaart descreveu as culturas entre 9000 e
7000 a.C. em seu Earliest Civilizations of the Near East. Como já
mencionei, Mellaart observou que, naquele tempo, “a arte aparece
na forma de entalhes de animais e estatuetas da suprema deidade,
a Deusa Mãe”. Ele escreve que em Çatal Hüyük em 7000 a.C. “a
principal deidade era uma deusa”. Ao descrever o sítio da antiga
Hacilar, uma comunidade neolítica em 5800 a.C., ele chama a
atenção para o fato de que “as estatuetas retratam a deusa, e o
homem só tem um papel subalterno, de filho ou amante”.
Uma estátua da Deusa em Hacilar está agora no museu de
Ankara – que abriga a maior parte das peças descobertas pelas
escavações de Mellaart em Hacilar e Çatal Hüyük –, e sua
antiguidade contrasta estranhamente com a arquitetura e a
decoração modernas. Essa escultura da Deusa em particular parece
representá-La no ato de fazer amor, embora a figura masculina
esteja quebrada, representada apenas por um pequeno fragmento
da cintura, coxas e uma perna. É possível que ele seja um filho mais
velho sendo abraçado, embora o mais provável é que seja um
adolescente, talvez representando o filho/amante da deidade
feminina há aproximadamente oito mil anos.
Em The Lost World of Elam, publicado em 1973, o dr. Walther
Hinz, diretor do Instituto de Estudos Iranianos da Universidade de
Göttingen, na Alemanha, também discute a adoração da Deusa no
Oriente Próximo e Médio. A nação de Elão ficava logo a leste da
Suméria, e nos primeiros períodos históricos as duas culturas
mantinham estreito contato. O dr. Hinz escreve: “Nesse mundo, o
lugar de honra era assumido por uma deusa, e isso é típico de Elão.
(...) Ela era a ‘grande mãe dos deuses’ para os elamitas. O próprio
fato de que a precedência era dada a uma deusa, que ficava acima
e à parte dos outros deuses de Elão, indica uma abordagem
matriarcal nos devotos dessa religião.”
O dr. Hinz descreve como a Deusa era conhecida nos vários
centros dos territórios elamitas, e prossegue: “No terceiro milênio
essas ‘grandes mães dos deuses’ ainda dominavam
indiscutivelmente o ápice do panteão elamita, mas durante o
segundo milênio houve uma mudança. Enquanto o velho
matriarcado de Elão cedia à gradual elevação da posição dos
homens, um arranjo correspondente aconteceu com os deuses. (...)
Durante o terceiro milênio, ele [Humban, consorte da Deusa] ainda
ocupava o terceiro lugar, mas desde a metade do segundo milênio
passou a ocupar o ápice do panteão.”
Explicando a precedência da deidade feminina entre os semitas,
que incluem os povos árabes e hebreus, Robertson Smith, em seu
profético livro de 1984, Religion of the Semites, afirmou que a
divindade feminina na religião semita fora deificada em resultado da
justaposição da adoração ancestral com um sistema de parentesco
feminino. Na ocasião, ele escreveu:
Pesquisas recentes na história da família tornam muitíssimo
improvável que o parentesco físico entre o deus e seus adoradores,
que deixaram marcas em toda a área semita, fosse originariamente
concebido como a paternidade. Foi o sangue da mãe, não do pai, que
criou a ligação original de parentesco entre os semitas e outros povos
iniciais naquele estágio da sociedade; se a deidade tribal era
considerada progenitora do grupo, então uma deusa, não um deus,
teria sido, necessariamente, o objeto de adoração.
“Na Mesopotâmia, a deusa é suprema”, escreveu o professor
Henri Frankfort em sua publicação de 1948, Kingship and the Gods,
“(...) porque a fonte de toda vida é vista como feminina. Portanto, o
deus também descende dela e é chamado de seu filho, embora
também seja seu marido. No ritual do casamento sagrado, a deusa
toma a iniciativa o tempo todo. Mesmo em condições de caos, a
mulher Tiamat é a líder, e Apsu é meramente seu complemento
masculino”.
Em seus extensos doze volumes de pesquisas sobre a religião
arcaica e “primitiva”, publicados em 1907, Sir James Frazer
escreveu sobre a Deusa Ísis egípcia (Au Set) e Seu irmão/marido
Osíris (Au Sar). Além dos volumes de O Ramo de Ouro, ele publicou
um livro em separado, Attis, Adonis and Osiris, título usado também
em várias seções de O Ramo de Ouro. Nessas duas obras, Frazer
afirma que, de acordo com a mitologia egípcia, Ísis era a divindade
predominante naquele casal. O autor relacionava isso ao sistema de
propriedade e descendência praticado no Egito, que descreveu
como “parentesco materno”. Ele se referia ao jovem amante da
Deusa como “a mítica personificação da natureza” e explicou que
era necessário que esse personagem fosse sexualmente acasalado
com a suprema deidade feminina. Sobre o status e a posição do
rapaz dentro da religião, ele comentou: “Em cada caso [Átis, Adônis
e Osíris] parece que originalmente a deusa era uma personagem
mais poderosa e importante que o deus.”
H. J. Rose, em seu Handbook of Greek Mythology, de 1928,
discutiu o papel do jovem na união sexual sagrada, descrevendo-o
como “seu parceiro inferior masculino” e observando: “Até agora
estivemos tratando de lendas que representam a deusa não casada,
mas formando uniões mais ou menos temporárias com alguém
muito inferior a ela, procedimento este bastante característico das
deusas orientais, que eram essencialmente mães, mas não viúvas,
e ao lado delas os amantes mergulham em comparativa
insignificância.”
Uma descrição do relacionamento entre a Deusa e Seu
filho/amante foi incluída pelo professor E. O. James em sua
publicação de 1960, The Ancient Gods. Ele explicou Sua
supremacia desta forma:
Foi Ela a responsável pela recuperação e ressuscitação dele, de
quem dependia a renovação da natureza. De modo que em última
análise Inanna/Ishtar, e não Damuzi/Tamuz, era a fonte primordial de
vida e regeneração, embora um jovem como seu agente fosse
fundamental no processo. (...) Com o estabelecimento da
agropecuária e da domesticação, porém, a função do homem no
processo de geração tornou-se mais aparente e vital, e então à Deusa
Mãe foi designado um esposo com o papel de procriador, enquanto na
Mesopotâmia, por exemplo, ele era Seu jovem filho/amante ou servo.
Da Índia ao Mediterrâneo, de fato, Ela reinava suprema,
frequentemente aparecendo como a deusa não casada.
Arthur Evans, eminente acadêmico de Oxford e notável
arqueólogo que localizou, desenterrou e reconstruiu parcialmente o
complexo real de Cnossos, na ilha de Creta, comentou em 1936:
“Por mais que o elemento masculino tenha se afirmado no domínio
do governo, é certo que, nos dias grandiosos da civilização minoica,
a religião ainda refletia o antigo estágio matriarcal do
desenvolvimento social. Sem dúvidas, a deusa era suprema.”
Discorrendo sobre Anatólia, que era estreitamente relacionada
com a Creta minoica por meio de colonização e comércio, Evans
escreveu: “Abrangendo uma grande parte da Anatólia, novamente
reconhecemos os cultos da mesma grande mãe com seu marido
satélite, amante ou filho, de acordo com o caso.” Outro acadêmico
de Oxford do final do século XIX, L. R. Farnell escreveu ainda em
1896 sobre Creta. Na série de volumes de The Cults of the Greek
States, ele comentou: “Podemos então concluir de forma segura, a
partir das evidências disponíveis até agora, que a primeira religião
da Creta civilizada era principalmente devotada a uma grande
deusa, enquanto a deidade masculina, sempre inevitável no culto à
deusa, era subordinada e mantida em segundo plano.”
Robertson Smith escreveu sobre a posição da Deusa na Arábia,
que ele já sugerira ter sido originariamente deificada como
progenitora de todos. Ele descreveu a transição de poder que então
aconteceu: “Na religião árabe, uma deusa e um deus formavam um
par, sendo a deusa suprema, e o deus, seu filho, uma deidade
menor. Gradualmente houve uma mudança em que os atributos da
deusa foram presenteados ao deus e assim a posição feminina foi
rebaixada.”
Smith ressaltou que a Deusa ainda era conhecida na religião
patriarcal posterior, e alegou que Sua adoração era relacionada a
“cultos” com origem nas eras do “parentesco materno”. Ele passou a
discutir o tempo em que:
a mudança na lei de parentesco privou a mãe de sua antiga
proeminência na família, e transferiu ao pai a parte maior da
autoridade e dignidade dela (...) as mulheres perderam o direito de
escolher seus próprios parceiros à vontade, a esposa ficou sujeita à
sua senhoria, o marido (...) e ao mesmo tempo os filhos, para todos os
fins de herança e deveres do sangue, tornaram-se membros da
família por parte dele e não dela. Na medida em que a religião
acompanhava as novas leis e moralidade social em decorrência desse
desenvolvimento, a divina mãe independente tornou-se
necessariamente a parceira subordinada à deidade masculina (...) ou,
se a supremacia da deusa estivesse bem-estabelecida demais para
ser abalada, ela poderia trocar de sexo, como na Arábia Saudita, onde
Ishtar foi transformada no masculino Athtar.
Resumindo, ele observou que, com a aceitação do parentesco
paterno, a mulher ganhou um status de subordinada, e a posição
principal na religião não era mais ocupada pela Deusa, mas por um
deus. Embora Smith tenha apresentado essa mudança como algo
natural, eu já mencionei, e vou descrever em maiores detalhes
adiante, que a transição foi na verdade acompanhada de violentas
agressões, massacres brutais e conquistas territoriais por todo o
Oriente Próximo e Médio.
Depois de ler esses e muitos outros estudos sobre o assunto,
não tive mais nenhuma dúvida da existência da antiga religião
feminina, nem da deificação da mulher como supremo e principal
ser divino nos primeiros sistemas teológicos. É essa religião original,
tão disseminada pelo mundo antigo, suas similaridades e diferenças
locais, que será descrita no restante deste livro. Mais uma vez, será
dividido em nomes e lugares, já que assim o material disponível fica
mais compreensível, mas não podemos evitar a percepção das
numerosas parecenças e similaridades entre a religião conhecida e
praticada em uma cultura e sua forma e rituais em outra. Ficou
também evidente que essa religião precedeu as religiões
masculinas por milhares de anos. Essa informação, porém, em vez
de satisfazer minha curiosidade, simplesmente a aguçou ainda
mais. O mais significativo para mim foi observar as inúmeras
questões a respeito da posição e status das mulheres que
realmente viveram nas sociedades em que a Deusa era
reverenciada.
CAPÍTULO 3
Mulheres – onde a mulher era deificada
A questão mais premente – talvez a mais insistente para este
livro existir – é esta: que efeito a adoração da deidade feminina
exercia sobre o status das mulheres nas culturas em que Ela foi
louvada? Hinz, Evans, Langdon e muitos outros referiram-se às
antigas sociedades em que havia adoração à Deusa como
matriarcais. Em que isso implica exatamente?
Inicialmente, seria fácil entrar numa espécie de gangorra de
raciocínio: eles adoravam uma Deusa, e por isso as mulheres
deveriam ter um alto status; ou as mulheres tinham um alto status,
então uma Deusa era adorada? Esses dois fatores, a julgar pelas
atitudes das sociedades de hoje que adoram deidades masculinas,
devem estar intimamente relacionados. No entanto, é preciso
considerar vários aspectos do tema, mesmo aqueles em que causa
e efeito parecem se confundir ou quando eventos simultâneos são
percebidos como lineares. O que desejamos é encontrar o
entendimento mais abrangente possível da relação da religião
feminina com a posição das mulheres.
Em The Dominant Sex, M. e M. Vaerting, na Alemanha, em 1923,
declararam que o sexo da deidade era determinado pelo sexo dos
que detinham o poder:
O sexo dominante, tendo o poder de difundir suas próprias
perspectivas, tende a generalizar sua ideologia específica. Se as
tendências do sexo subordinado forem contrárias, provavelmente
serão eliminadas com mais força na proporção em que o sexo
dominante for mais opressor. O resultado é que a hegemonia das
deidades masculinas geralmente é associada à dominância dos
homens, e a hegemonia das deidades femininas à dominância das
mulheres.
Sir James Frazer acreditava que o status elevado das mulheres
era responsável pela veneração e estima da deidade feminina. Ele
cita o clã de Palau, na Micronésia, onde as mulheres eram
consideradas social e politicamente superiores aos homens. “Essa
preferência por deusas em detrimento de deuses no clã das ilhas de
Palau”, escreve ele, “foi explicada, sem dúvida corretamente, pela
alta importância das mulheres no sistema social do povo”.
Robertson Smith associou a escolha do sexo da deidade
suprema à posição de dominância do homem ou da mulher na
família. Ele sugeriu que, em resultado do sistema de parentesco, a
identidade do chefe da família formulava a identidade sexual da
deidade suprema.
Ambos são exemplos da teoria de que o sexo da deidade é
determinado por uma dominância preexistente de um sexo sobre o
outro – no caso da Deusa, a posição mais alta das mulheres na
família e na sociedade. Junto a essas teorias, existem resmas de
material pseudopoético sobre a deificação da mulher como símbolo
de fertilidade – na visão do homem –, o deslumbramento ante a
capacidade mágica de produzir uma criança supostamente fazia
dela o objeto da adoração dele.
Como mencionei, Frazer sugeriu que o status elevado das
mulheres levava à adoração da Deusa como ser supremo,
baseando suas conclusões em anos de estudo de sociedades
“primitivas” e clássicas. Mas em virtude dessa pesquisa, ele também
associou a adoração da deidade feminina ao sistema de parentesco
materno e de adoração ancestral, explicando que “onde quer que a
deusa seja superior ao deus, e a antepassada mais reverenciada
que o antepassado, há quase sempre uma estrutura de parentesco
materno”. Robertson Smith também relaciona a identidade sexual da
deidade suprema ao sistema de parentesco prevalente em cada
sociedade.
Seja qual for a ordem de causa e efeito sugerida, um dos fatores
mais importantes – que aparece continuamente no material relativo
ao status e ao papel das mulheres na antiga religião feminina em
tempos históricos – é a estreita conexão com o parentesco feminino,
a matrilinearidade, que talvez seja a própria origem de seu
desenvolvimento. No exame da posição das mulheres, essa mãe,
ou estrutura familiar feminina, que leva à descendência matrilinear
de nome e propriedade, deve ser estudada com atenção.
Em geral, a matrilinearidade é definida como a estrutura de uma
sociedade em que a herança passa pela linhagem feminina, e filhos,
maridos e irmãos só têm acesso ao título e à propriedade por via de
sua relação com a mulher, que é a proprietária legítima.
Descendência matrilinear não significa matriarcado, que é definido
como as mulheres no poder ou, de forma mais específica, a mãe
como chefe da família, assumindo essa posição também no governo
da comunidade e do estado. Em algumas sociedades matrilineares,
o irmão da mulher que detém o direito ao nome e à propriedade tem
um papel importante. Contudo, não podemos ignorar a
probabilidade de que costumes matrilineares e matrilocais
afetassem de várias maneiras o status e a posição das mulheres.
Devem ser consideradas as sutilezas do poder e da posição de
barganha advindos da propriedade de uma casa, terras ou título, ou,
como em sociedades matrilocais, o fato de a mulher residir na casa
ou na cidade de seus próprios pais e não na de seus parentes afins.
A economia do Neolítico e das primeiras sociedades agrícolas
históricas foi discutida pela socióloga V. Klein em 1946. Ela sugere
que: “Nos primórdios da sociedade, as mulheres detinham as
principais fontes de riqueza; elas eram proprietárias da casa,
produtoras de comida, provedoras de abrigo e segurança.
Economicamente, portanto, o homem dependia da mulher.”
Sociedades que seguiam o costume de parentesco da mulher ou
da mãe eram bem comuns no passado e ainda podem ser vistas em
muitas áreas do mundo. A teoria de que muitas sociedades eram
originariamente matrilineares, matriarcais ou mesmo poliandras
(uma mulher com vários maridos) foi objeto de muitos estudos no
fim do século XIX e início do século XX. Estudiosos como Johann
Bachofen, Robert Briffault e Edward Hartland aceitaram a ideia do
antigo matriarcado e da poliandria, sustentando suas teorias com
muitas evidências, mas observaram tais sistemas como um estágio
específico no desenvolvimento evolucionário. Os autores sugerem
que todas as sociedades tinham que passar por um período de
matriarcado antes de se tornarem patriarcais e monogâmicas, o que
parecem considerar como um estágio superior de civilização. Mas,
como Jacquetta Hawkes observa: “Hoje está fora de moda falar
sobre antigas ordens mais matriarcais de sociedade. No entanto, há
evidências em muitas partes do mundo de que o papel das
mulheres vem enfraquecendo desde os tempos antigos em diversos
setores da estrutura social.”
A maioria dos estudos sobre matriarcado foi baseada em
analogia antropológica e literatura clássica de Roma e da Grécia.
Dado que uma grande quantidade desses trabalhos foram
pesquisados no século XIX e começo do século XX, os autores não
tiveram acesso a muitas das evidências arqueológicas disponíveis
hoje. Apesar de compreensões equivocadas de pontos específicos
ou julgamentos de valor tendenciosos, ainda podemos pensar que
eles estavam profeticamente à frente de seu tempo.
Hoje, além do material que já estava disponível para aqueles
autores, temos também à disposição um corpo de material muito
maior, produzido neste século por extensivas escavações
arqueológicas no Oriente Próximo e Médio. É verdade que a sorte
casual de achados arqueológicos apresenta limitações – o que não
foi descoberto, o que se encontra danificado demais para ser lido, o
que não pode ser decifrado e o que pereceu em resultado da
natureza do material original.
Sabe-se atualmente que o código de Hamurabi, da Babilônia
(cerca de 1790 a.C.), por muito tempo visto como o mais antigo já
compilado, foi precedido de muito outros, descobertos mais
recentemente. Ainda assim, apenas um destes data de cerca de
2300 a.C. e os outros, de cerca de 2000 a.C., ou pouco mais tarde.
Logo, ainda devemos confiar no material que aparece em forma
escrita apenas após o início das invasões do norte. Mas
examinando as evidências disponíveis e os comentários, que
diferem de acordo com o local e a era, podemos ter uma noção do
status das mulheres em sociedades que adoravam a Deusa. A
religião da Deusa, embora declinando lentamente, ainda existia.
Etiópia e Líbia – “toda autoridade era investida nas mulheres”
Quarenta e nove anos antes do nascimento de Cristo, um
homem da Sicília romana escreveu sobre suas viagens ao norte da
África e a alguns países do Oriente Próximo, anotando suas
observações das pessoas ao longo do caminho. Ele estava muito
interessado em padrões culturais e, sem dúvidas, foi um dos
precursores nos campos da antropologia e da sociologia. Esse
homem era conhecido como Diodoro Sículo, ou Diodoro da Sicília.
Em seus escritos constavam muitas afirmações do status elevado
das mulheres, que às vezes era até dominante. Podemos perguntar
por que ele, mais do que qualquer outro escritor clássico, registrou
tantas informações sobre mulheres guerreiras e matriarcado nas
nações ao seu redor. Diodoro não menosprezou os homens que
viviam nesses sistemas sociais; não parece ter sido seu objetivo. Na
verdade, ele parecia ter grande admiração e respeito pelas
mulheres investidas de tanto poder.
Foi Diodoro quem relatou que as mulheres da Etiópia portavam
armas, praticavam casamento comunal e criavam os filhos numa
comunidade tão plena que eles às vezes se confundiam sobre quem
era sua mãe natural. Em partes da Líbia, onde a Deusa Neite era
louvada, relatos de amazonas ainda persistiam nos tempos
romanos. Diodoro descreve assim a Líbia:
Toda autoridade era investida nas mulheres, que desempenhavam
todos os deveres públicos. Os homens cuidavam dos trabalhos
domésticos tal como as mulheres entre nós, e faziam o que as
esposas mandavam. Eles não tinham permissão para assumir
serviços de guerra, nem exercer funções de governo, ou qualquer
cargo público, pois isso poderia lhes dar mais ânimo para se voltar
contra as mulheres. Imediatamente após o nascimento, as crianças
eram entregues aos homens, que as criavam com leite e outros
alimentos adequados à idade.
Diodoro escreveu que as mulheres guerreiras na Líbia haviam
formado exércitos que invadiam outras terras. Segundo ele, elas
reverenciavam a Deusa como sua maior deidade e construíam
santuários para adorá-La. Embora ele não dê um nome específico, é
provável que tais relatos estejam se referindo à Deusa líbia
guerreira chamada Neite, também reverenciada com o mesmo
nome no Egito.
Egito – “enquanto os homens ficam em casa e tecem”
No Egito pré-histórico, a Deusa que tinha supremacia no Alto
Egito (no sul) era Nekhebt, simbolizada por um abutre. O povo do
Baixo Egito, que inclui a região do delta, ao norte, adorava sua
Deusa suprema na forma de uma serpente, com o nome de Ua Zit
(Grande Serpente). Desde cerca de 3000 a.C. diziam que a Deusa
conhecida como Nut, Net ou Nit – provavelmente derivados de
Nekhebt –, já existia quando nada ainda havia sido criado. Então,
Ela criou tudo o que passou a existir. Segundo a mitologia egípcia,
foi Ela que colocou no céu Ra, o deus do Sol. Outros textos do Egito
falam da Deusa como Hathor nesse papel de criadora da existência,
elucidando que Ela tomou a forma de uma serpente naquela época.
No Egito, o conceito de Deusa sempre permaneceu vital. A
introdução de deidades masculinas, justamente quando começaram
os primeiros períodos dinásticos (cerca de 3000 a.C.), será discutida
no Capítulo 4. É provável que esse fato tenha diminuído a
supremacia original Dela, como era conhecida nas sociedades
neolíticas. Mas a adoração da Deusa continuou e, com isso, as
mulheres do Egito parecem ter se beneficiado de várias maneiras.
Diodoro escreveu um longo relato sobre a adoração à Deusa Ísis
(a tradução grega de Au Set), que havia incorporado aspectos tanto
de Ua Zit como de Hathor. Ísis também era associada à Deusa
como Nut, que era mitologicamente registrada como a mãe Dela.
Em pinturas, Ísis usa as asas de Nekhebt. Diodoro explicou que,
segundo a religião egípcia, Ísis era reverenciada como a inventora
da agricultura, como grande curadora e médica, e como a primeira a
estabelecer as leis da justiça na terra.
Depois ele dá o que hoje podemos achar a mais surpreendente
descrição das leis do Egito, dizendo que eram resultado da
reverência prestada e essa poderosa Deusa. Ele escreveu: “É por
essas razões, de fato, que foi ordenado que a rainha deve ter maior
poder e honra do que o rei, e que na vida particular das pessoas a
esposa deve ter autoridade sobre o marido, o marido devendo
concordar no contrato de casamento que será obediente à esposa
em todas as coisas.”
Frazer, comentando a relação entre a veneração a Ísis e os
costumes de parentesco feminino, declarou que: “No Egito, o
sistema arcaico de parentesco materno, com sua preferência por
mulheres em vez de homens em matérias de propriedade e
herança, durou até os tempos romanos.”
Existem mais evidências de que o Egito era uma terra em que as
mulheres tinham mais liberdade e controle sobre a própria vida, e
talvez sobre a dos homens também. Heródoto, da Grécia, muitos
séculos antes de Diodoro, escreveu que no Egito “as mulheres vão
ao mercado, fazem transações e se ocupam dos negócios,
enquanto os homens ficam em casa e tecem”. Seu contemporâneo,
Sófocles, declarou que “seus pensamentos e ações são modelados
em termos egípcios, pois lá os homens ficam no tear dentro de casa
enquanto as mulheres trabalham fora para ganhar o pão de cada
dia”.
Em seus escritos de 1953 sobre a vida no Egito antigo, o
professor Cyrus Gordon nos diz que: “Na vida em família, as
mulheres tinham uma posição peculiarmente importante, pois a
herança passava pela mãe e não pelo pai. (...) Esse sistema pode
remontar a tempos pré-históricos, quando apenas a relação óbvia
entre mãe e filho era reconhecida, e não a menos aparente relação
entre pai e filho.”
O dr. Murray sugere que a “condição da mulher era elevada,
talvez devido à sua independência econômica”. S. W. Baron escreve
que nos papiros egípcios “muitas mulheres aparecem como partes
em litígios civis e transações independentes de negócios, mesmo
contra os próprios maridos e os pais”. Um dos primeiros
arqueólogos das pirâmides do Egito, Sir William Flinders Petrie,
escreveu em 1925 que no “Egito todas a propriedades vinham pela
linhagem materna, a mulher era a senhora da casa, e em narrativas
antigas era representada como possuidora do controle total sobre si
e sobre o lugar”.
Discutindo a posição da mulher no antigo Egito, o teólogo e
arqueólogo Roland de Vaux escreveu em 1965 que “no Egito, a
mulher era a chefe da família com todos os direitos que essa
posição acarretava”. A obediência era imposta ao marido nas
máximas de Ptá-Hotepe. Contratos de casamento de todos os
períodos atestam a posição de extrema independência social e
econômica da mulher. Segundo E. Meyer, citado nos estudos de
Vaerting, “entre os egípcios, a mulher era notavelmente livre. (...)
Até o século IV a.C. existia, lado a lado com o casamento patriarcal,
uma forma de casamento em que a mulher escolhia o marido e
podia se divorciar dele dando-lhe um pagamento de compensação”.
Poemas de amor descobertos em túmulos egípcios sugerem que
a mulher era quem fazia a corte, às vezes dopando o cortejado com
intoxicantes para diminuir seus protestos. Robert Briffault fala sobre
uma funcionária egípcia que veio a se tornar governadora e acabou
comandante em chefe de um exército.
Um estudo muito esclarecedor e significativo sobre a estrutura e
a posição social das mulheres no Egito foi realizado em 1949 pela
dra. Margaret Murray. Traçando a muito custo a linhagem de
famílias reais no Egito, ela conseguiu provar que, no nível da
realeza, a cultura egípcia foi matrilinear em muitos períodos. A
realeza foi estudada porque os registros dessas pessoas eram os
mais disponíveis. Segundo Murray, eram as filhas, e não os filhos,
as verdadeiras herdeiras ao trono. Ela sugere que o costume de
casamento de irmã com irmão foi desenvolvido desse modo,
permitindo que o filho tivesse acesso aos privilégios reais. Ela
escreve também que o direito matrilinear ao trono era a razão pela
qual, durante muitos séculos, as princesas egípcias só se casavam
com familiares e não podiam fazer alianças em casamentos
internacionais. Isso pode esclarecer por que a Deusa Ísis, que
Frazer declara ter sido uma deidade mais importante que Seu
irmão/marido Osíris, e a quem Diodoro cita como a origem da
posição geralmente elevada das mulheres egípcias, era conhecida
como O Trono.
Mas até no Egito as mulheres foram lentamente perdendo sua
prestigiosa posição. Sir Flinders Petrie que, a propósito, foi um
colega muito respeitado da dra. Murray na Universidade de Londres,
discutiu o papel das sacerdotisas no Egito antigo. Ele ressaltou que
a posição delas mudou entre o tempo das primeiras dinastias (3000
a.C. em diante) e o da Décima Oitava Dinastia (1570-1300 a.C.).
Segundo os registros disponíveis, a Deusa conhecida como Hathor,
a mesma deidade que Ísis, era nos primórdios servida por 61
sacerdotisas e 18 sacerdotes, enquanto a Deusa conhecida como
Neite era atendida apenas por sacerdotisas. Na época da Décima
Oitava Dinastia, as mulheres já não faziam parte do clero religioso, e
serviam apenas como musicistas do templo. Foi na Décima Oitava
Dinastia que o Egito sentiu a maior influência dos indo-europeus, um
fator que será discutido em maior profundidade nos Capítulos 4 e 5.
A propósito, o uso da palavra “faraó”, em geral invocando imagens
ainda mais poderosas que a palavra “rei”, na verdade vem do termo
par-o, que literalmente significa “casa grande”. Somente na época
da Décima Oitava Dinastia a palavra passou a ser usada com o
significado de homem real da casa.
Suméria – “as mulheres de antigamente costumavam ter dois
maridos...”
Em 1962, o professor Saggs escreveu sobre as sociedades da
Mesopotâmia, que incluíam tanto a Suméria como a Babilônia. Em
geral, a Mesopotâmia remete às áreas do Iraque ao longo e entre os
rios Tigre e Eufrates, começando no Golfo Pérsico e chegando até a
Anatólia. Ele examinou as relações entre a reverência às Deusas e
o status das mulheres na Suméria (cerca de 3000 a.C.-1800 a.C.,
no sul do Iraque), e concluiu que nos períodos arcaicos as mulheres
estavam em situação muito melhor do que nos períodos posteriores,
e que foram gradualmente perdendo o poder ao longo dos anos. O
professor Saggs relata:
O status das mulheres era muito mais elevado na antiga cidade-
estado suméria do que veio a ser mais tarde. (...) Há indícios de que,
bem no início da sociedade suméria, as mulheres tinham um status
muito mais alto do que no apogeu da cultura suméria. Isso repousa
principalmente no fato de que na antiga religião suméria uma posição
proeminente era ocupada por deusas que depois desapareceram, a
não ser – com exceção de Ishtar – quando no papel de consortes de
um deus em particular. O próprio Submundo era governado apenas
por uma deusa, e um mito explica como ela veio a ter um consorte; e
as deusas tomavam parte nas assembleias para decisões divinas nos
mitos. Existe até uma forte sugestão de que a poliandria pode ter sido
praticada em certa época, pois as reformas de Urukagina falam de
mulheres que tinham mais de um marido. Alguns estudiosos, no
entanto, se retraíram diante dessa conclusão, sugerindo que pode ter
sido uma referência apenas a um segundo casamento de uma viúva,
mas a formulação no texto sumério não apoia essa ideia.
Posso acrescentar que a Deusa do Submundo não só tem um
consorte, mas é puxada pelos cabelos, arrancada do trono e
ameaçada de morte até concordar em se casar com seu agressor, o
deus Nergal, que seca Suas lágrimas com beijos, se torna marido
Dela e reina a Seu lado.
A reforma de Urukagina é datada de cerca de 2300 a.C. e diz
assim: “As mulheres de antigamente costumavam ter dois maridos,
mas as mulheres de hoje serão apedrejadas se fizerem isso.” A
poliandria foi relatada nas regiões da Índia em que os dravidianos
adoram a Deusa, mesmo neste século.
As leis do estado sumério de Eshnunna, escritas em cerca de
2000 a.C., foram achadas numa cidadezinha, e por isso é possível
que reflitam atitudes mais antigas. Nelas, lemos que “se um homem
rejeita sua esposa depois que ela está esperando um filho, e toma
outra, ele deve ser expulso de casa e de tudo o que possui, e se
alguém o aceitar, deve seguir junto com ele”. Essas mesmas leis
ditam que se uma mulher é casada e tem um filho com outro homem
enquanto o marido está na guerra, ela ainda é considerada esposa
do primeiro homem. Não há menção de castigo para adultério. A
permissão para casamento tinha que ser dada pela mãe e pelo pai.
A posição e as atividades de um grupo de sumérias conhecido
como naditu foram estudadas em profundidade por Rivkah Harris
em 1962. No exame cuidadoso de textos sumérios, ela observou
que as mulheres naditu se ocupavam com negócios do templo,
possuíam imóveis em seu nome, emprestavam dinheiro, e, em
geral, estavam engajadas em diversas atividades financeiras. Ela
também encontrou relatos de muitas mulheres escribas do mesmo
período. Contudo, lemos no capítulo do professor Sidney Smith no
livro Myth, Ritual and Kingship, de Hooke, que a palavra naditu
“provavelmente quer dizer mulher despejada, isto é, rendida ao
deus”.
Nos hinos sumérios, a mulher precede o homem. O épico de
Gilgamés revela que a escriba oficial do paraíso sumério era mulher,
e a invenção da escrita era atribuída a uma Deusa. Como
mencionei, pode muito bem ter sido a sacerdotisa, possivelmente
naditu, que era quem fazia a contabilidade do templo, a responsável
pelo desenvolvimento da arte da escrita. O mais antigo exemplo de
escrita (de cerca de 3200 a.C.), descoberto no templo da Deusa
Inanna de Uruque, onde viviam muitas mulheres naditu, foi uma lista
do templo com pagamentos de aluguel de terras.
Em 1930, Stephen Langdon, eminente acadêmico de Oxford,
observou em seus escritos que as lendas associadas à Rainha de
Céu suméria, Inanna, podem ter se desenvolvido em um “sistema
matriarcal” da sociedade. A possibilidade também é sugerida pelas
mudanças na imagem e no papel da Deusa Inanna, encontrada
séculos mais tarde como a babilônia Ishtar. No mito sumério, Inanna
exibe Seu poder e ódio onipotente diante da recusa de Seu
filho/amante em Lhe mostrar o devido respeito, lançando-o aos
demônios da Terra dos Mortos. Porém, treze séculos mais tarde, no
mito babilônio de Ishtar há uma nova versão da mesma história, em
que a Deusa sofre pela morte acidental do jovem.
Em geral, os registros das reformas sumérias de Urukagina em
cerca de 2300 a.C. são orientados no sentido comunitário. Referem-
se às árvores frutíferas e comidas das terras do templo, que eram
para alimentar os necessitados e não o clero – o que parecia estar
se tornando um costume da época. O fato de que nessas placas de
argila se repita que tais reformas remontavam aos modos de vida de
períodos anteriores sugere que as sociedades iniciais eram mais
comunitárias. Ainda mais interessante é a palavra usada para rotular
essas reformas, amargi, que recebeu a tradução dupla de
“liberdade” e “volta à mãe”.
Elão – nus diante da alta sacerdotisa
Em 1973, o dr. Walther Hinz sugeriu que a supremacia original da
Deusa em Elão (localizado um pouco a leste da Suméria, cidade
com a qual mantinha estreito contato em 3000 a.C.) indicava uma
“abordagem matriarcal” nos devotos da religião Dela. Ele diz que,
embora Ela fosse suprema no terceiro milênio, mais tarde se tornou
secundária ao consorte Humban e passou então a ser conhecida
como a Grande Esposa. Em Susa, no extremo norte dos territórios
elamitas, o consorte masculino era chamado de In Shushinak. Nos
tempos arcaicos, ele fora conhecido como Pai dos Fracos; no
segundo milênio, era chamado de Rei dos Deuses; e no século VIII
a.C. era invocado como Protetor dos Deuses do Céu e da Terra.
Nos primeiros períodos de Elão, as deidades parecem ter sido
servidas por um clero masculino e feminino, e os homens ficavam
nus diante da alta sacerdotisa, como era costume na antiga
Suméria. Hinz conta que em Elão, muito semelhante às mulheres
naditu da Suméria, “um grupo especial entre as sacerdotisas era
formado por virgens, que dedicavam a vida à Grande Deusa”. Essas
mulheres se envolviam primariamente em compra, venda e aluguel
de terras.
Documentos legais de Elão, principalmente posteriores a 2000
a.C., revelam que as mulheres eram as únicas herdeiras. Uma
mulher casada se recusou a partilhar sua herança com o marido e
pretendia passá-la à filha. Outra placa diz que um filho e uma filha
devem receber em partes iguais, sendo a filha mencionada primeiro.
Várias placas descrevem situações em que o marido deixava tudo o
que possuía para a esposa e insistia que seus filhos só herdassem
se a tratassem com o maior respeito.
Babilônia – “manter e administrar suas propriedades”
Na Mesopotâmia, os acadianos, após uma elevação de sua
posição sob o governo de Sargão em 2300 a.C., vieram a obter
supremacia por volta de 1900 a.C., gradualmente suplantando os
sumérios como líderes nas áreas cultural e política. Formaram,
então, a nação conhecida como Babilônia, instalando a capital na
cidade de Babilônia, na parte central do Eufrates. A linguagem
acadiana dos babilônios tornou-se o idioma internacional do Oriente
Próximo, mas a religião dos sumérios foi incorporada na cultura
babilônia e a linguagem suméria foi tão usada quanto o latim foi
empregado nas missas da Igreja Católica Romana em todo o
mundo. Em 1600 a.C., o controle da Babilônia passou aos cassitas.
Evidências linguísticas sugerem que os cassitas eram governados
pelos invasores do norte, os indo-europeus, que se infiltraram
gradualmente na Babilônia e na Assíria.
Apesar da perda de status na posição das mulheres na Babilônia
em comparação com suas predecessoras da Suméria – uma perda
que foi acompanhada pela crescente ascendência de deidades
masculinas como Marduque, que matou miticamente a Deusa
Criadora Tiamat para tomar e assegurar sua posição –, as mulheres
da Babilônia ainda resguardavam certos direitos de independência.
A citação a seguir é baseada no código de Hamurabi, que precedeu
o controle total pelos cassitas, mas que pode ter sido um pouco
afetado pelas contínuas incursões indo-europeias vindas do norte
desde pelo menos 2000 a.C. em diante. W. Boscawen, em 1894,
relatou:
A liberdade assegurada às mulheres na Babilônia lhes permitia
manter e administrar suas propriedades, em especial no caso de
sacerdotisas do templo, que comerciavam extensivamente. (...) Um
dos traços mais interessantes e característicos dessa civilização
arcaica da Babilônia era a alta posição das mulheres. Aqui, a mãe é
sempre representada por um signo que quer dizer “deusa da casa”.
Qualquer pecado contra a mãe, qualquer repúdio, eram punidos com
expulsão da comunidade. Estes são fatos evidentemente indicativos
de um povo que em certa época seguia a descendência matriarcal.
Segundo o que De Vaux escreveu em 1965, na “lei da Babilônia o
pai dava à jovem noiva certas posses que pertenciam a ela por
direito, e o marido tinha apenas o direito de uso. Essas posses eram
restituídas para ela em caso de viuvez ou divórcio, sem ônus. Na
Babilônia, ela podia adquirir propriedades, mover ações legais, ser
sócia em contratos e receber uma parte da herança do marido.”
Nos tempos de Hamurabi, as mulheres eram livres para requerer
divórcio e uma lei da Babilônia declarava que, se a esposa não
queria ser responsável pelas dívidas anteriores do marido, ela
precisava obter um documento afirmando que ele concordava. Essa
suposição de responsabilidade financeira no casamento sugere que
a maioria das mulheres deve ter participado de questões financeiras
e de negócios (como faziam no Egito), e talvez a certa altura tenha
sido economicamente responsável pela família. Sete das leis de
Hamurabi eram concernentes às sacerdotisas do templo e ao seu
direito de herdar, e o que podia ou não podia transmitir aos filhos,
sugerindo que a posição econômica dessas mulheres era matéria
de preocupação e estava em rápida mudança.
Ishtar era reverenciada como “rainha majestosa cujos decretos
são preeminentes”. Em um texto, a própria Ishtar diz: “Quando estou
presente num processo ou julgamento, eu sou a mulher que
entende a questão.” Em escavações em Nimrud, no norte da
Mesopotâmia, foram encontrados registros de mulheres juízas e
magistradas, atestando a posição vital e respeitada das mulheres
mesmo no século VIII a.C. Em várias cidades havia relatos de
sacerdotisas babilônias que atuavam como profetisas em oráculos,
oferecendo conselhos políticos e militares a reis e líderes e
revelando sua poderosa influência nos negócios de Estado. E,
embora houvesse mais homens que mulheres nessa tarefa, há
relatos de mulheres escribas em todos os períodos babilônios.
Vemos que nas leis da Babilônia mais tardia, em uma época no
final do segundo milênio, uma mulher casada não podia mais se
dedicar aos negócios, a não ser que fosse orientada por seu marido,
filho ou cunhado. Se alguém fizesse negócios com ela, mesmo
insistindo não saber que ela era casada, era acusado de crime.
Anatólia – “desde os velhos tempos eles foram governados por
mulheres”
Ao norte da Babilônia, havia uma área de grande comércio
chamada Anatólia, onde hoje é a Turquia, também conhecida como
Ásia Menor. Nos períodos neolíticos na Anatólia, louvava-se a
Grande Deusa. Sua adoração surgiu nos santuários de Çatal Hüyük
de 6500 a.C. Pouco ainda se sabe da Anatólia logo após o período
de Çatal Hüyük, mas em algum momento antes de 2000 a.C. ela foi
invadida pelos indo-europeus.
As áreas onde os povos do norte instalaram mais assentamentos
foram as regiões sul e centro-sul da Anatólia, e alguns conquistaram
a terra conhecida como Hati. Assim como os habitantes locais, os
invasores passaram a ser chamados de hititas. Muito do que
aparece sobre Deusas em textos literários dessa área, depois da
chegada dos hititas, era de fato sobre antigas deidades desse povo.
Uma das mais importantes deidades femininas era a Deusa do Sol
de Arina. Após as conquistas hititas, foi dado a Ela um marido,
simbolizado como um deus da tempestade. Embora este tenha
adquirido supremacia em muitas cidades governadas pelos povos
do norte, em Arinna ele permaneceu em segundo lugar. Mas,
curiosamente, as rainhas hititas aparecem em vários textos numa
relação muito próxima a essa Deusa do Sol de Hati; elas atuavam
como altas sacerdotisas Dela. Apesar de não haver evidências
conclusivas para fundamentar isso, a existência desses textos
sugere a possibilidade de que os invasores, uma vez conquistada a
terra, podem ter se casado com as sacerdotisas de Hati a fim de
assegurar maior legitimidade ao trono diante da população
conquistada.
Nas regiões ocidentais da Anatólia, a descendência matrilinear e
a adoração à Deusa permaneceram nos tempos clássicos. Strabo,
pouco antes do nascimento de Cristo, escreveu sobre as cidades do
norte da Anatólia, chegando até a Armênia, onde filhos de mulheres
não casadas eram legitimados e respeitáveis. Eles tomavam o nome
da mãe que, segundo os relatos de Strabo, eram as mais nobres e
aristocráticas entre os cidadãos.
É possível que na época das invasões hititas muitos dos povos
que adoravam a Deusa tenham fugido para o oeste. O renomado
templo da Deusa na cidade de Éfeso era alvo dos zelosos esforços
missionários do apóstolo Paulo (Atos 19:27). Esse templo, que as
lendas e os textos clássicos alegam ter sido fundado pelas
“Amazonas”, só foi completamente fechado em 380 d.C. Por toda
essa seção ocidental, que incluía as áreas conhecidas como Lícia,
Lídia e Cária, havia relatos, na literatura clássica grega e na
romana, da difundida veneração à “Mãe de todas as Deidades”,
juntamente com registros de mulheres guerreiras, as amazonas.
Diodoro escreveu sobre uma nação nessa área em que “mulheres
detinham o poder supremo e autoridade real”. Segundo seus
registros, a rainha dessa terra atribuía as tarefas de cardar a lã e
outros deveres domésticos aos homens, enquanto as leis eram
estabelecidas pela rainha. Ele alega que o direito ao trono pertencia
à filha da rainha e a mulheres da família na linha de sucessão. Foi
na terra da Lídia que dizem que o lendário indo-europeu grego
Hércules foi aprisionado como amante servil da rainha Onfalo.
Nesse ponto, podemos perguntar se os numerosos contos das
“amazonas” não seriam os relatos posteriores, gregos indo-
europeus, das mulheres que tentaram defender os santuários da
antiga Deusa e repelir os patriarcais invasores do norte. Vemos,
porém, na Encyclopaedia Britannica, que a “única explicação
plausível da história das amazonas é que se trata de uma variedade
do conhecido conto de uma terra distante onde tudo é feito da
maneira errada; assim, mulheres lutam, o que é papel dos homens”.
Em todo o período grego clássico, a descendência matrilinear e
sugestões de matriarcado na Anatólia ocidental foram
repetidamente relatadas entre os lícios, que parecem ter persistido
por mais tempo ou sido mais observados. Heródoto escreveu:
“Pergunte a um lício quem é ele e ele responde dando seu nome,
que é o da mãe, e assim por diante na linha da família.” Nicolau de
Damasco relata: “Eles adotam o nome da mãe e a herança passa
para as filhas, e não para os filhos.” Sobre os lícios, Heráclides
Pôntico falou: “Desde os velhos tempos eles foram governados por
mulheres.”
Creta – “dominada pelo princípio feminino”
Muitos autores clássicos escreveram que os lícios e os cários
tinham grandes afinidades com a ilha de Creta. Alguns declararam
que a Lícia havia sido colônia daquela próspera cultura insular. Em
Creta, foram encontradas várias figuras da Deusa em diversos sítios
neolíticos, embora nenhuma tão antiga quanto no continente. Na
planície de Messara, também foram encontradas as edificações
conhecidas como tholoi, muito semelhantes às do sítio de Tell
Arpachiyah, em Halaf. Creta era a sociedade em que mais se
supunha haver matrilinearidade e, possivelmente, matriarcado.
Sinclair Hood, ex-diretor da British School of Archaeology na
Grécia, escreveu em The Minoans, Crete in the Bronze Age:
Parece bastante provável que costumes descritos como matriarcais
(governo da mãe) tenham persistido em Creta. Eles surgem em
sociedades primitivas onde as pessoas não compreendem, quando
nasce um bebê, quem pode ser o pai. As crianças recebem o nome da
mãe e toda a herança segue a linhagem feminina. Tradições primevas
desse tipo sobreviveram na Anatólia nos tempos clássicos. Assim,
entre os cários na costa oeste da Anatólia, a sucessão ainda era
através da mãe no século IV a.C., e na Lícia, a sudeste de Cária, as
crianças recebiam o nome da mãe.
Em 1952, Charles Seltman escreveu sobre a cultura altamente
desenvolvida em Creta, cujo início precedeu em muitos séculos os
tempos bíblicos, e afirmou que o matriarcado tinha sido o modo de
vida lá. Ele discutiu a liberdade sexual das mulheres, a
descendência matrilinear e o papel do “rei”, salientando o alto status
das mulheres na ilha e nas terras em que a Deusa parece ter sido o
próprio cerne da existência.
“Entre os povos mediterrâneos”, escreve Seltman, “via de regra a
sociedade era formada em torno da mulher, mesmo nos mais altos
níveis em que a descendência seguia a linhagem feminina. Um
homem somente se tornava rei ou chefete por meio de um
casamento formal, e sua filha, e não filho, o sucedia, de modo que o
próximo chefete seria o jovem que se casaria com sua filha. (...)
Antes da invasão dos povos do norte, a religião e os costumes eram
dominados pelo princípio feminino”.
Em The Aegean Civilization, Gustave Glotz, em 1925,
examinando o papel da mulher em Creta, afirmou que elas
controlavam a forma e os ritos da religião.
As sacerdotisas por muito tempo presidiram as práticas religiosas.
A mulher era a intermediária natural com as divindades, sendo a maior
destas a mulher deificada. Uma enorme quantidade de objetos
representa as sacerdotisas em seus deveres (...) a participação de
homens nos cultos foi, assim como a associação de um deus com a
deusa, um desenvolvimento mais tardio. O papel deles nas cerimônias
religiosas era sempre subalterno, mesmo quando o rei se tornava o
alto sacerdote. Para atenuar sua invasão e confundir os espíritos
maus a cujo poder seu ato os expunha, eles assumiam nos serviços
divinos os trajes sacerdotais das mulheres (...) enquanto a adoração
privada era realizada diante de pequenos ídolos, na adoração em
público o papel de deusa era representado por uma mulher. É a alta
sacerdotisa que toma lugar no assento da deusa, senta-se junto da
árvore sagrada ou fica de pé no pico de uma montanha para receber
adoração e oferendas dos acólitos e dos fiéis.
Stylianos Alexiou, diretor do Archaeological Museum em Iráclio,
participou no capítulo sobre religião em Creta no livro Minoan
Civilization, e escreveu: “O trono de alabastro em Cnossos estava
destinado, segundo Helga Reusch, à rainha-sacerdotisa que,
ladeada pelos grifos pintados na parede, personificava a deusa. No
palácio real, o trono situado à parte como uma espécie de altar
sagrado mostra que uma pessoa se sentava lá para receber
adoração. Segundo Matz, quando a rainha descia a escada do
palácio para a corte dentro do santuário, ela representava uma
autêntica incorporação da deidade diante da multidão de adoradores
extáticos.”
Em 1958, Jacquetta Hawkes trouxe perspicazes observações
sobre o status das mulheres em Creta, comentando que, embora se
possa considerar a possibilidade de que a Deusa devia ser um
sonho masculino, “homens e mulheres em todos os lugares de
Creta estavam acostumados a ver uma esplêndida deusa reinando
sobre um deus masculino pequeno e suplicante, e esse conceito
deve ter expressado alguma atitude presente na sociedade humana
que o aceitava”. Em seguida, destaca que a autoconfiança das
mulheres e seu lugar assegurado na sociedade talvez fossem
evidenciados por outra característica. “Essa é a destemida e natural
ênfase na vida sexual que perpassava toda expressão religiosa e
tornava-se óbvia na vestimenta provocativa de ambos os sexos e
sua fácil interação – um espírito melhor compreendido através de
seu oposto: o véu e o isolamento total das mulheres muçulmanas
sob uma fé que lhes negava até a existência de alma.”
Observando os artefatos e murais de Cnossos, o Archaeological
Museum de Iráclio e outros museus de Creta, resta pouca dúvida de
que a divindade feminina foi, durante milênios, o principal ser
sagrado do local, com mulheres atuantes no clero Dela. Portanto, é
interessante seguir as manifestações da cultura cretense tal como
apareceram depois na Grécia antiga, cerca de mil anos antes da
clássica Idade de Ouro (cerca de 500-200 a.C.), com a qual
estamos mais familiarizados.
Grécia – “o ataque aos clãs matrilineares”
As conexões são feitas pelos assentamentos em Creta e/ou
Grécia no continente, atribuídas ao povo conhecido como micênico,
assim chamado pelos arqueólogos devido a um dos sítios no
continente: Micenas. Indícios das origens do povo que habitava
esses sítios apresentaram algumas possibilidades intrigantes aos
estudiosos. Muitos acreditam que os micênicos eram um grupo de
indo-europeus, talvez o mesmo povo que os aqueus, ou
possivelmente vindos numa migração anterior das tribos do norte.
Outros afirmam que eles já eram habitantes de Creta e que haviam
derrubado o governo anterior pouco antes de 1400 a.C. Alguns os
relacionam ao grupo conhecido como Povos do Mar, e outros ainda
sugerem que eram filisteus ou que os filisteus eram um ramo dos
micênicos. Houve até uma sugestão de que os micênicos eram
relacionados com os hicsos, os “reis pastores” que usavam bigas
puxadas a cavalo e haviam mantido o Egito sob suas leis por muitos
séculos. Os hicsos foram expulsos do Egito na mesma época em
que os micênicos apareceram.
Sejam quais forem suas origens, o motivo da importância dos
micênicos aqui é que sua cultura, até onde sabemos, era
parcialmente cretense e parcialmente grega. Muitos estudiosos
acreditam que eles levaram a cultura cretense de Creta para a
Grécia. As placas com a escrita Linear B dos micênicos, que são
listas de inventários encontradas no palácio de Cnossos, são todas
datadas do mesmo ano, cerca de 1400 a.C., e usam uma linguagem
que os estudiosos acreditam ser diferente da usada anteriormente
em Creta. Após muitos anos de debates, a maioria dos especialistas
aceita que a linguagem usada nessas placas é uma forma arcaica
de grego (com muitos símbolos e sinais que tinham sido usados por
uma linguagem mais antiga e que ainda não foi decifrada de modo
aceitável, embora Gordon tenha oferecido um corpo de evidências
sugerindo que era intimamente relacionada à linguagem cananeia
usada em Ugarit). Se os micênicos ou seus líderes eram
originalmente indo-europeus, como sugerem as placas, uma vez
assentados em Creta logo adotaram muitos dos assuntos e técnicas
de artesanato, o estilo de vestimentas, a maneira de escrever e a
religião dos habitantes da ilha.
Cottrell nos diz que a “arte micênica continuou a refletir a cultura
‘minoica’1 dos povos mediterrâneos (...) cujo sistema de escrita
havia adotado”. R. W. Hutchinson, da Universidade de Cambridge,
escreve: “Em meados do segundo milênio, é provável que os gregos
ainda estivessem se instalando em Creta, embora em números
comparativamente pequenos, e já haviam adotado muitos cultos e
costumes religiosos cretenses. Até no continente encontramos
sobreviventes da religião minoica, ou pelo menos da pré-helênica...”
No Catalog of Prehistoric Collections do National Archaeological
Museum em Atenas, os curadores observam: “Na religião micênica,
em que a adoção de muitas características cretenses é óbvia,
podemos notar, acima de tudo, o aparecimento da deusa de
natureza cretense.” Nesse grande museu está a coleção de
artefatos descoberta em escavações nos assentamentos micênicos
na parte continental da Grécia, uma coleção que se destaca pelo
elaborado trabalho artesanal em ouro nos anéis com sinetes e
carimbos mostrando cenas da Deusa e das sacerdotisas Dela –
cenas quase idênticas às produzidas na Creta “minoica”.
Ao discutir as placas Linear B, que mencionavam os nomes de
várias deidades conhecidas mais tarde na Grécia clássica, Cottrell
explica que “existe também em Pilos [no continente] e em Cnossos
[em Creta] uma referência frequente a Potnia – ‘Amante’ ou ‘Nossa
Senhora’; essas últimas inscrições confirmam o que os arqueólogos
vinham suspeitando há muito tempo pela evidência em selos
encontrados no continente: que os micênicos também adoravam a
deusa mãe minoica”.
Os micênicos habitaram e governaram Creta no Palácio de
Cnossos pouco depois de um grande holocausto, possivelmente
causado por uma invasão ou um terremoto. Esse mesmo povo
fundou muitas cidades pré-gregas no continente, e trouxe a
adoração da Deusa cretense. A Idade Micênica é em geral situada
entre cerca de 1450 e 1100 a.C. Seu início data de pouco antes do
período geralmente atribuído a Moisés. Prosperou durante séculos
antes da Grécia de Homero e é provável que seus escritos
tratassem dos eventos desse período ou logo depois. A luta por
Helena bem pode ter sido a luta por direitos legais ao trono de
Esparta. Embora a Grécia clássica seja sempre apresentada como a
própria fundação da cultura e civilização ocidentais, é interessante
notar que de fato ela surgiu 25 séculos após a invenção da escrita e
foi formulada e profundamente influenciada pelas culturas do
Oriente Próximo, que a precederam por milhares de anos.
A Grécia foi invadida várias vezes pelos povos do norte. Robert
Graves, em sua introdução a Os mitos gregos, escreveu em 1955:
“As invasões dos aqueus do século XIII a.C. enfraqueceram
drasticamente a tradição matrilinear (...) quando os dórios
chegaram, perto do fim do segundo milênio, a sucessão patrilinear
se tornou a regra.” Com esses povos do norte, veio a adoração ao
indo-europeu Dyaus Pitar, literalmente Deus Pai, que veio a ser
conhecido na Grécia como Zeus e mais tarde, em Roma, como
Júpiter. Esse período transicional, da mudança de adoração à
Deusa para uma deidade masculina, mudança introduzida mais
intensivamente pela invasão dos dórios, é o tema de Some Traces
of the Pre-Olympian World, escrito por E. Butterworth em 1966.
Butterworth soube fazer com a Grécia o que Murray fez com o
Egito. Traçando cuidadosamente a linhagem das casas reais,
conseguiu mostrar que muitas das grandes cidades pré-gregas,
essencialmente pequenas nações, eram matrilineares. Ele ressaltou
que Argos, Tebas, Tirino e Atenas, assim como outras cidades, em
outros tempos seguiam o costume de descendência matrilinear. E
explicou que isso era resultado da adoração à Deusa e Suas
origens cretenses, afirmando que a própria Creta era matrilinear, e
possivelmente matriarcal.
Seu principal interesse era na revolução patrilinear, o tempo em
que os clãs patrilineares decidiram impor violentamente seus
costumes a todos à sua volta.
A matrilinearidade, embora não universal na Grécia e no mundo
Egeu, era amplamente difundida (...) o efeito do sistema de sucessão
à realeza e à herança de propriedades era imenso naquela época. A
maioria dos clãs era matrilinear por costume, e a maior revolução na
história da Grécia antiga foi a que mudou a sucessão de matrilinear
para patrilinear, e a lealdade ao clã foi destruída.
A partir de 3000 a.C., as sacerdotisas eram retratadas em
esculturas e apareciam em murais e outras obras e artefatos em
Creta, sugerindo que eram as mulheres que controlavam a
adoração. Creta foi mais tarde governada pelos micênicos, que
adotaram sua religião e muitos aspectos de sua cultura. Já que os
artefatos religiosos dos micênicos retratavam o clero da Deusa
como feminino, é muito provável que as mulheres das comunidades
micênicas na Grécia também tivessem esse privilégio. Butterworth
afirma que as mulheres, em especial as das casas reais, eram as
protetoras da religião. Ele diz:
O ataque aos clãs matrilineares destruiu o poder do próprio mundo
dos clãs e, com ele, sua religião (...) a história dos tempos é
seguidamente penetrada pelo embate entre patrilinear e matrilinear,
enquanto as velhas dinastias religiosas são quebradas, dispersadas e
reestabelecidas. (...) O mundo matrilinear foi levado ao fim por
inúmeros ataques criminosos ao coração desse mundo, à própria
Potnia Mater [a Grande Deusa].
Não posso evitar a menção à lenda grega da deusa conhecida
como Hera, cuja adoração parece ter sobrevivido aos tempos
micênicos, e Sua frustrada rebelião contra Seu marido recém-
designado, Zeus, um lembrete alegórico daqueles que lutaram pela
supremacia da Deusa – e perderam. Contudo, segundo Hawkes,
muitas das atitudes sobre a posição inferior das mulheres na Grécia
clássica foram exageradas pela “visão acadêmica tendenciosa do
século XIX”. Ela sugere que, mesmo no período clássico da Grécia,
as mulheres retinham alguma liberdade de suas predecessoras
cretenses:
Assim como em Creta, as mulheres compartilhavam o poder da
Deusa, tanto psicológica quanto socialmente; as sacerdotisas tinham
elevada posição e se formavam associações clericais de mulheres em
torno dos templos e dos lugares sagrados. Uma das mais influentes,
por exemplo, era associada ao famoso templo de Ártemis (Diana), em
Éfeso. Nessa cidade, e na Jônia em geral, mulheres e meninas
gozavam de muita liberdade. Enquanto as mulheres adquiriam
influência e responsabilidade servindo nos templos e em grandes
festivais das deusas, havia também a liberação dos cultos antigos.
Matronas respeitáveis e meninas em grandes grupos passavam noites
inteiras a céu aberto nas colinas em danças que estimulavam êxtase e
intoxicações, talvez em parte alcoólicas, mas sobretudo místicas.
Dizem que os maridos desaprovavam, mas não gostavam de interferir
em questões religiosas.
Na época clássica de Esparta, onde a veneração da Deusa como
Ártemis prosperava, as mulheres eram livres e independentes.
Segundo Eurípedes e Plutarco, as jovens espartanas não ficavam
em casa, mas nos ginásios, onde tiravam as roupas desconfortáveis
e lutavam nuas com os jovens de sua idade. As mulheres de
Esparta pareciam ter total liberdade sexual e, embora se dissesse
que a monogamia era a regra oficial dos casamentos, vários relatos
clássicos mencionam que essa regra não era levada muito a sério.
Plutarco relatou que em Esparta a infidelidade das mulheres
chegava a ser de certo modo glorificada, enquanto Nicolau de
Damasco, talvez em virtude de alguma experiência pessoal, nos diz
que a mulher espartana tinha o direito de engravidar do homem
mais bonito que encontrasse, fosse nativo ou estrangeiro.
Canaã – “a posição social e legal de uma esposa israelita”
Deixei por último a análise das mulheres nas duas nações
hebreias, Judá e Israel, porque em geral as vemos como parte de
uma sociedade patriarcal isolada, que adorava apenas a deidade
masculina. Neste ponto, será esclarecedor comparar a posição das
mulheres hebreias, não apenas com suas contemporâneas da
Babilônia e do Egito, culturas tão interligadas entre si, mas também
com as mulheres de Canaã, onde elas finalmente se estabeleceram.
Na cidade de Ugarit, no norte de Canaã no século XIV a.C., que
não era uma comunidade hebreia, existem registros de uma mulher
cujo título foi traduzido como “Senhora Importante da Casa Real”.
Ela era conhecida como Adath (que significa “Senhora”, a
contraparte feminina de Adon, que quer dizer “Senhor”). Nessa
região, a Deusa era conhecida como Anate, que pode ser a mesma
palavra. Os textos de Ugarit (atualmente Ras Shamra, na Síria), nos
quais foram também descobertas lendas de Anate, revelam que
essa “Senhora Importante” era parte ativa nas negociações
políticas.
Claude Schaeffer, codiretor da primeira escavação em Ugarit,
escreveu em 1939: “O status social das mulheres, particularmente a
mãe de família, parece ter sido elevado em Ugarit.” Documentos
encontrados desse mesmo período revelam que em caso de
divórcio ou viuvez a mulher conservava suas propriedades. Os
registros legais são muito parecidos com os de Elão, declarando
que o marido deixava suas posses para a esposa, e não para os
filhos. Esses filhos eram aconselhados a não brigar, a respeitar e
obedecer a mãe. Como explicarei nos dois próximos capítulos, em
Ugarit havia uma curiosa combinação das culturas do sul e do norte,
que se refletiam nos mitos religiosos. Há relatos de muitos indo-
europeus morando na cidade no século XIV a.C., porém o status
das mulheres não parece ter sido afetado nessa época.
Entre os amonitas de Canaã, um povo com o qual os hebreus
entravam frequentemente em conflito, as mulheres atuavam em
funções oficiais. Em 1961, o arqueólogo G. Landes escreveu que “a
posição superior das mulheres estava de acordo com a prática
nômade”. Ele afirmou que as rainhas, como a Rainha de Sabá
(cerca de 950 a.C.), às vezes conduziam os estados ou tribos
árabes, e isso foi relatado também nos séculos VIII e VII a.C.
Em contraste com a posição econômica, legal e social das
mulheres à sua volta, a posição das israelitas exibe os efeitos da
quase total aceitação da deidade masculina, Iavé, e da sociedade
patriarcal que o acompanha. Segundo a Bíblia, embora ainda não
haja evidências arqueológicas que as confirmem, as leis israelitas
datam do tempo de Moisés (em torno de 1300-1250 a.C.) e
permaneceram como leis dos hebreus de Canaã até a queda do
reino do norte, conhecido como Israel, em 722 a.C., e a queda do
reino do sul, chamado Judá, em 586 a.C. Essas mesmas leis
aparecem até hoje no Velho Testamento da Bíblia judaico-cristã.
Através de um estudo intensivo da Bíblia, o padre e arqueólogo
Roland de Vaux fez as seguintes observações sobre as hebreias em
seu estudo de 1965, publicado como Ancient Israel:
A posição social e legal de uma esposa israelita era inferior à
posição ocupada por uma esposa nos grandes países à volta (...)
todos os textos mostram que os israelitas queriam filhos homens para
perpetuar a linhagem e a fortuna da família, e para preservar a
herança ancestral. (...) O marido podia se divorciar da esposa (...) a
mulher, por sua vez, não podia pedir o divórcio (...) a esposa chamava
o marido de Ba’al ou amo; ela também o chamava de adon ou senhor;
de fato, ela se dirigia a ele como um escravo se dirigia ao amo, ou um
súdito ao rei. O Decálogo inclui a esposa entre as posses do marido
(...) ela permanece inferior durante toda a vida. A esposa não herda
do marido, nem as filhas do pai, exceto quando não há um herdeiro
homem. Um compromisso assumido por uma moça ou mulher casada
necessita, para ser válido, do consentimento do pai ou do marido, e,
se esse consentimento fosse suspenso, o compromisso seria anulado
e invalidado. O homem tinha o direito de vender a filha. As mulheres
eram excluídas da sucessão.
De Vaux afirma que, ao contrário de todas as outras culturas no
Oriente Próximo, não era permitido ter sacerdotisas na fé israelita.
Ele expõe que:
(...) a sugestão de que havia mulheres no clero do templo conflita
com um fato linguístico importante: havia sacerdotisas na Assíria,
sacerdotisas e altas sacerdotisas na Fenícia, onde são apresentadas
como o feminino de kohen; nas inscrições minoicas havia uma forma
feminina de lw’ [sacerdotisa] que alguns estudiosos ligam ao hebraico
lewy, mas em hebraico não há nome correspondente a kohen ou lwey,
nenhuma mulher jamais teve lugar no clero israelita.
Posso acrescentar que, segundo a lei hebraica, a mulher não
tinha direito a dinheiro ou propriedades no caso de divórcio e, como
seu compromisso ficava invalidado, presume-se que ela não podia
se envolver em negócios. Talvez as leis mais chocantes de todas
eram as que declaravam que a mulher deveria ser apedrejada ou
queimada se perdesse a virgindade antes do casamento, um fator
nunca antes mencionado em outros códigos legislativos no Oriente
Próximo, e que uma mulher solteira, sendo vítima de estupro, era
obrigada a se casar com o estuprador; se ela fosse noiva ou
casada, seria apedrejada até a morte por ter sido estuprada.
Talvez a explicação mais clara do status das hebreias na
antiguidade seja a revelada pelo arqueólogo D. Ussishkin em 1970.
Ele descreveu um túmulo hebreu antigo recentemente descoberto
em Israel: “Portanto, parece que um corpo, quase certamente do
marido, foi colocado mais alto que o corpo da esposa, de modo que
o status inferior da mulher era demonstrado mesmo após a morte.”
Apesar da posição mais baixa das mulheres decretada pelos
hebreus em suas leis e seus costumes, houve dois incidentes que
revelam um possível ressurgimento da antiga religião da Deusa,
dentro mesmo da casa real de Israel. A associação com as crenças
antigas sugere que duas rainhas podem ter adquirido poder por
meio dos velhos costumes de matrilinearidade, que talvez tenham
se infiltrado em Israel com outros padrões “pagãos”. Os dois
incidentes envolviam mulheres listadas como rainhas hebreias, uma
em Israel e outra em Judá.
O primeiro se refere a uma mulher conhecida como Rainha
Maaca, possivelmente descendente de uma princesa arameia do
mesmo nome que estava no harém do rei Davi, hebreu. Essa
segunda Maaca consta na Bíblia como a rainha de Roboão, rei de
Israel de cerca de 922 a 915 a.C. A mãe dele não era hebreia, e sim
uma princesa amonita. Registros desse rei dizem que ele erigiu
bezerros de ouro “pagãos”. Murray sugere que essa mesma Rainha
Maaca foi mais tarde casada com o rei sucessor, Abias, listado
como filho de Maaca e Roboão. Essa sugestão se baseia no fato de
que algumas versões da Bíblia listam Maaca como mãe do filho de
Abias, Asa. Outras versões listam Maaca como avó dele, mas
colocam o nome dela onde o nome da mãe normalmente estaria e
nunca mencionam quem era a mãe dele, um padrão muito diferente
de todas as outras descrições de filhos hebreus da realeza. Murray
escreveu: “A única maneira de Abias e Asa terem tido a mesma mãe
foi o casamento de Abias com a própria mãe.”
Foi Asa quem realizou muitas reformas, dando fim às práticas
“pagãs” até então muito prevalentes, e finalmente destronou Maaca.
À luz das curiosas discrepâncias na genealogia de Asa, o motivo
dado na Bíblia para a deposição de Maaca é ainda mais
interessante. Em 1 Reis 15:2-14 lemos que Maaca havia feito uma
asherah, isto é, uma estátua da Deusa Aserá. Considerando as
repetidas evidências de “paganismo” nesse período, é muito
provável que Israel tenha retomado costumes da antiga religião,
aceitando na época a deidade feminina e o parentesco feminino na
sucessão ao trono. Se assim foi, Maaca teria sido a herdeira real e
mantido sua posição até que Asa, possivelmente sob a influência
dos religiosos hebreus, restabeleceu a religião de Iavé.
O segundo incidente é datado de cerca de 842 a.C., quando
Atália, filha da Rainha Jezebel, reclamou seu direito ao trono de
Judá. Segundo a lei hebraica, as mulheres não tinham permissão
para reinar sozinhas. No entanto, foi preciso uma violenta revolução
para destroná-la. A própria Jezebel era muito identificada com a
religião antiga. Seus pais, avós de Atália, eram a alta sacerdotisa e
o alto sacerdote de Astarote e Baal na cidade cananeia de Sídon,
reinando lá como rainha e rei. O assassinato de Jezebel, que havia
reinado junto com Acabe como rainha no reino norte de Israel, foi,
na verdade, um golpe político para acabar com a religião da Deusa.
Isso fica evidente nos eventos que se seguiram ao assassinato no
relato bíblico em Reis 1 e 2. Portanto, vale notar que foi a filha de
Jezebel que ascendeu ao trono real de Judá, a única mulher que
governaria sozinha a nação dos hebreus. Mais significativo é o fato
de que, uma vez tendo assegurado seu direito ao trono, Atália
reinou durante seis anos, restabelecendo a antiga religião “pagã” em
toda a nação, para angústia e sofrimento dos sacerdotes hebreus.
Resumo
Por mais que causa e efeito entre descendência matrilinear,
status elevado de mulheres e veneração da Deusa sejam
confundidos, não podemos desconsiderar o fato de que repetidas
evidências atestam que a religião da Deusa e um sistema de
parentesco feminino estavam fortemente interligados em muitas
partes do Oriente Próximo. Embora muito do material seja pertinente
à realeza, há o suficiente para sugerir que os costumes
matrilineares eram praticados em diversas regiões, também pela
população em geral. Ao examinar a transição da religião da Deusa
para a adoração de uma suprema deidade masculina e os efeitos
subsequentes sobre o status das mulheres, vemos surgir certos
padrões.
Desde o começo do segundo milênio, os assírios tinham estreitas
relações políticas e comerciais com os indo-europeus hititas. Os
príncipes indo-europeus hurritas aparecem em várias cidades do
norte da Síria a partir dessa época. Em 1600 a.C., a Babilônia era
controlada pelos cassitas, liderados pelos indo-europeus. Em 1500
a.C., a Assíria estava sob o domínio completo dos hurritas, que
haviam formado o reino de Mitani.
Acompanhando essas conquistas estava a introdução do mito de
Marduque que, segundo dizem, assassinou a Deusa para adquirir
sua posição suprema na Babilônia. Na Assíria contavam o mesmo
mito, com o nome de Assur substituindo o nome de Marduque. Ao
longo do segundo milênio, os indo-europeus fizeram mais incursões
nas terras de Canaã e da Mesopotâmia e, como explicarei nos
próximos dois capítulos, podem ter desempenhado um papel
importante na formação da religião e das leis dos hebreus.
Nesse ponto pode ser útil fazer um resumo das mudanças nas
leis, já que afetaram vários aspectos da vida das mulheres. Em
Esnuna (na Suméria), em torno de 2000 a.C., se um homem
estuprava uma mulher, era condenado à morte. Na velha Babilônia,
no período de Hamurabi, antes das maiores incursões dos indo-
europeus, embora muitos vindos do norte já estivessem lá, era dada
a mesma punição. Nas leis da Assíria, datadas entre 1450 e 1250
a.C. (quando a Assíria estava sob o controle dos indo-europeus),
está escrito que se um homem estupra uma mulher, o marido ou o
pai dessa mulher deve estuprar a esposa ou a filha do estuprador
e/ou casar sua própria filha com o estuprador. Essa última parte
também está presente na lei dos hebreus, e ainda acrescentam que
a mulher seria condenada à morte se já fosse casada ou noiva. As
leis assírias parecem ter sido as primeiras a mencionar o aborto,
atribuindo à sua prática a pena de morte.
As reformas de Urukagina (cerca de 2300 a.C.) reportam o fato
de que a mulher costumava ter dois maridos, muito embora na
época de seu reinado isso não fosse mais permitido. Nas leis de
Esnuna, o homem que tomasse uma segunda esposa depois que a
primeira já tivesse dado à luz um filho era expulso de casa sem
direito a posses. Em Esnuna, se a esposa tivesse um filho de outro
homem enquanto seu marido estava na guerra, seu marido deveria
aceitá-la de volta. Não há menção a punição por adultério. No
código de Hamurabi, se uma mulher tivesse relações sexuais com
outro homem, ela deveria fazer um juramento no templo e voltar
para casa com o marido. As leis assírias e hebraicas davam ao
marido o direito de matar tanto a esposa como o amante.
É um pouco difícil fazer comparações entre os vários lugares e
períodos, já que as leis parecem ter sido incluídas na montagem de
um código de incidentes muito específicos e referidos a várias
situações. As mudanças mais importantes nas leis concernentes às
mulheres afetavam seu direito de participar de atividades
econômicas, o que podiam ou não podiam herdar, o que podiam
deixar para os filhos, a atitude ante o estupro, aborto, infidelidade
por parte do marido ou da mulher, e apenas entre os hebreus a
pena de morte – para mulheres – pela perda de virgindade antes do
casamento. Essas leis, que afetavam primariamente as atividades
econômicas e sexuais das mulheres, apontam para a probabilidade
de que o alvo era o costume da descendência matrilinear. O próprio
fato de que tantas dessas leis se referiam às mulheres sugere que a
posição tanto econômica quanto sexual destas sofria contínuas
mudanças desde o tempo das primeiras invasões atestadas vindas
do norte (cerca de 2300 a.C.) até as leis dos hebreus, escritas
provavelmente entre 1250 e 1000 a.C., embora, como mencionei,
nenhum dos textos hebreus originais tenha sido descoberto.
Ao questionar até que ponto o costume de parentesco feminino e
a reverência à deidade feminina afetaram o status das mulheres,
talvez possamos julgar melhor a partir de nossas observações das
mulheres de tribos hebreias que aceitaram adorar apenas a nova
deidade masculina e das subsequentes leis controlando sua posição
e seus direitos na sociedade em que viviam.
Podemos também considerar a possibilidade de que, num nível
mais pessoal, assim como os hebreus rezavam para ter filhos
homens e se rejubilavam quando nascia um herdeiro para dar
continuidade à linhagem da família (atitude não tão remota em
muitas famílias hoje em dia), nas sociedades matrilineares o
nascimento de meninas devia ser igualmente considerado uma
bênção especial. Meninas devem ter sido estimadas pelas mesmas
razões. Segundo os curadores do Archaeological Museum da
Universidade de Cambridge, na Inglaterra, até hoje no “povo
matrilinear asante, na África, as meninas são valorizadas por causa
de seu poder de transmitir sangue (mogya) para continuar a
matrilinearidade (abusua)”. Nos tempos antigos, a Deusa do Sol de
Arina, na Anatólia, era adorada com Suas duas filhas e uma neta.
Os khasis de Assam adoravam a Deusa com Suas três filhas e um
filho rebelde. Que efeitos emocionais isso pode ter tido na
autoestima e desenvolvimento de uma menina naquela época, só
podemos imaginar.
A tomada de consciência da relação entre a veneração da Deusa
e a descendência matrilinear de nome, propriedade e direito ao
trono é vital para o entendimento da destituição da religião da
Deusa. Como explicarei adiante, foi provavelmente o motivo
subjacente ao ressentimento pela adoração da Deusa (e tudo o que
isso representava) pelos invasores patriarcais que vieram do norte.
A julgar pela contínua presença da Deusa como deidade
suprema nas sociedades neolítica e calcolítica do Oriente Próximo e
Médio, a adoração da Deusa, provavelmente acompanhada pelos
costumes matrilineares, parece ter existido sem ameaças durante
milhares de anos. As maiores mudanças nas crenças religiosas e
costumes sociais devem ter ocorrido com a chegada dos invasores
do norte que, segundo todos os relatos, tinham estabelecido os
costumes patriarcais, a patrilinearidade e a adoração a uma
suprema deidade masculina algum tempo antes de sua chegada
nas áreas de adoração à Deusa. Quem eram esses invasores do
norte? E como foram capazes de ir aos poucos suprimindo até por
fim destruir a antiga religião da Deusa, que perdurou durante tantos
milhares de anos?
CAPÍTULO 4
Os invasores do norte
Quando e por que as tribos mais ao norte passaram a escolher
uma deidade masculina são questões em aberto. No
desenvolvimento inicial, eles não deixaram nem placas de argila
nem templos. Só nos chamam atenção quando chegam às
comunidades adoradoras da Deusa, no Oriente Próximo e Médio,
que na ocasião já eram prósperos centros urbanos.
A falta de evidências de centros culturais em sua terra natal, na
região da Rússia e do Cáucaso, logo antes das invasões, indica que
até sua chegada no Oriente Próximo e Médio ainda eram grupos
nômades que caçavam e pescavam, possivelmente pastores
começando a praticar a agricultura. Esses povos do norte são
mencionados em diversos contextos como indo-europeus, indo-
arianos, indo-iranianos, ou apenas arianos. Quando aparecem nos
períodos históricos, são descritos como guerreiros agressivos,
dirigindo bigas em duplas puxadas por cavalos; nas referências
mais especulativas de tempos pré-históricos são grandes
navegadores que percorriam rios e costas da Europa e do Oriente
Próximo.
Discorrendo sobre suas origens, Hawkes escreve sobre os
grupos do Mesolítico e Neolítico, conhecidos como possuidores de
“culturas de batalhas com machados”:
Nenhum outro assunto causou tão completa divergência nem tanta
falta de objetividade dos especialistas quanto as origens dessas
culturas. A razão desse partidarismo vem do único ponto de
concordância dessas autoridades: que as culturas de batalhas com
machados representam as raízes dos povos falantes indo-europeus.
(...) O que se pode dizer com alguma certeza é que os povos das
batalhas com machados receberam uma grande herança étnica,
social e cultural dos caçadores-pescadores das florestas, como os
maglemosianos e kunda. (...) Embora não tenha sido sempre assim,
nem em toda parte, com o tempo seu caráter passou a ser
predominantemente pastoril, patriarcal, guerreiro e expansivo.1
Os povos maglemosiano e kunda nos tempos mesolíticos (em
torno de 15000-8000 a.C.) se encontravam nas florestas e nas
costas do norte da Europa, especialmente na Dinamarca. Sua
localização era mais ao norte do que os primeiros grupos
gravetianos-aurignacianos, de quem herdamos as estátuas da
Vênus.
A invasão pelos povos do norte não foi um grande evento
isolado, mas uma série de migrações em ondas, por um período de
pelo menos mil e possivelmente três mil anos. As invasões no
período histórico, começando em aproximadamente 2400 a.C., são
atestadas pela literatura e pelos artefatos descobertos, e são aceitas
pela maior parte dos historiadores e arqueólogos. Aquelas do
período pré-histórico são especulativas, baseadas em sugestões de
evidências e conexões etimológicas. As invasões anteriores e
menos extensivas retroagem a 4000-3000 a.C., acontecendo,
portanto, antes do tempo dos registros escritos. Em geral não são
associadas às mesmas tribos invasoras, porém, com base nas
evidências que realmente aparecem, sinto que devam ser
mencionadas com os períodos mais atestados, de modo que quem
está lendo possa tirar suas próprias conclusões.
O mais significativo é que, nos tempos históricos, os invasores do
norte se consideravam um povo superior. Essa atitude deve ter se
baseado principalmente em sua capacidade de conquistar os
habitantes anteriores, mais desenvolvidos culturalmente, o povo da
Deusa. Os indo-europeus viviam em conflito constante, não só com
os povos das terras que invadiam, mas também entre eles. Nas
áreas onde aparecem, o padrão de sociedade é composto por um
grupo de guerreiros agressivos, acompanhados de uma casta
sacerdotal de alta posição, que começava invadindo, conquistando
e depois governando as populações nativas daquelas terras.
A data de seu surgimento original no Oriente Próximo varia. O
professor James sugere que os indo-europeus se estabeleceram no
platô iraniano em torno do quarto milênio. Os curadores do Museu
Fitzwilliam em Cambridge, Inglaterra, datam sua entrada na Anatólia
no final do quarto milênio ou começo do terceiro. O professor
Albright sugere que apareceram na Anatólia “o mais tardar no
começo do terceiro milênio”, enquanto o professor Seton Lloyd
escreve que “em torno de 2300 a.C. uma grande onda de povos
indo-europeus, falando em um dialeto conhecido como luviano,
parecem ter se espalhado pela Anatólia”.
O professor Gordon relata que “os indo-europeus aparecem em
cena no Oriente Próximo pouco depois de 2000 a.C. Seus principais
representantes são os hititas, mas os deuses e reis mitanianos
levam nomes indo-europeus. (...) O platô iraniano viria a ser o
grande lar dos arianos (como podemos denominar o segmento de
indo-europeus que inclui os iranianos)”. Gordon prossegue
elaborando que “o influxo de imigrantes indo-europeus ao Oriente
Próximo durante o segundo milênio a.C. revolucionou a arte da
guerra. Os recém-chegados introduziram as bigas de guerra
puxadas por cavalos, que deram um poderoso impulso de ataque
até então desconhecido no Oriente Próximo. (...) Os oficiais de elite
condutores de bigas, que ganharam o nome indo-europeu
maryannu, logo formaram uma nova aristocracia por toda a área,
incluindo o Egito”.
Da Anatólia ao Irã, essas tribos continuaram a invadir o sul na
direção da Mesopotâmia e Canaã. Segundo o professor Albright,
Há evidências tanto arqueológicas quanto documentais indicando
um grande movimento ou movimentos migratórios do nordeste para a
Síria no século XVIII a.C. O resultado dessa movimentação foi uma
enchente de tribos hurritas e indo-iranianas no país. No século XV
a.C. encontramos a maior parte do leste e do norte da Síria ocupados
predominantemente por hurritas e indo-iranianos. (...) Megido,
Jerusalém e Ascalão [todas em Canaã] são regidas por príncipes com
nomes anatolianos ou indo-iranianos. Os tipos de crânios em Megido,
antes de características mediterrâneas, tornam-se alpinos
braquicéfalos.
Mapa 2: Localização das áreas discutidas no Capítulo 4.
Como as invasões eram esporádicas, são difíceis de rastrear e
provavelmente exigiriam um volume para cada área em particular,
cobrindo um longo período, para serem explicadas. Mas as
evidências históricas, mitológicas e arqueológicas sugerem que
foram esses povos do norte que trouxeram os conceitos do claro
para o bem e do escuro para o mal (muito possivelmente,
simbolizando suas atitudes em relação às pessoas de peles mais
escuras das áreas mais ao sul) e de uma suprema deidade
masculina. O surgimento da deidade masculina em sua literatura
subsequente, que descrevia e explicava repetidamente a
supremacia da mesma, bem como a posição elevada de sua casta
sacerdotal, talvez permitam ver essas invasões como guerras de
cruzadas religiosas além de conquistas territoriais.
A chegada das tribos indo-arianas, a apresentação de suas
deidades masculinas como superiores às deidades femininas das
populações nativas das terras invadidas e o complexo entrelace
subsequente dos dois conceitos teológicos estão mitologicamente
registrados em cada cultura. É nesses mitos que testemunhamos as
atitudes que levaram à supressão da adoração à Deusa.
Como escreve Sheila Collins: “A teologia é essencialmente
política. A forma com que as comunidades humanas deificam o
transcendente e determinam as categorias de bem e mal tem mais a
ver com a dinâmica de poder dos sistemas sociais que criam as
teologias do que com a espontânea revelação da verdade por outros
quadrantes.”
A julgar pela mitologia religiosa por parte de escribas reais e
sacerdotes que se encontra nos arquivos de palácios das nações
governadas por indo-europeus nos períodos históricos, e a escrita
frequente nas línguas das populações conquistadas, podemos
deduzir que a motivação deve ter sido política e não devido ao
fervor religioso. A prevalência de mitos que explicam a criação do
universo pela deidade masculina ou a instituição do reinado
masculino, quando nenhum desses existia antes, sinaliza de forma
enfática a possibilidade de que muitos desses mitos foram escritos
por sacerdotes das tribos invasoras para justificar a supremacia das
novas deidades masculinas, e para justificar a instalação de um rei
por conta da relação dele com a deidade masculina.
A deidade masculina indo-europeia, diferente do filho/amante na
religião da Deusa, quase sempre era descrita como um deus da
tempestade, no alto de uma montanha, reluzente pela luz do fogo ou
relâmpago. Esse simbolismo recorrente sugere que esses povos do
norte podem ter adorado vulcões como manifestações de seu deus,
um fator que discutirei com mais detalhes no Capítulo 5. Em
algumas áreas, esse deus era relacionado à Deusa exercendo o
papel de marido, como o deus da tempestade Taru e a Deusa do Sol
em Arina, ou Zeus e Hera. Em algumas lendas, ele surgia como um
jovem rebelde que heroicamente destruía a antiga deidade feminina,
algumas vezes devido à promessa previamente assegurada de
supremacia na hierarquia divina.
Em muitos desses mitos, a deidade feminina é simbolizada como
uma serpente ou dragão, quase sempre associada à escuridão e ao
mal. Às vezes, o gênero do dragão parece neutro ou mesmo
masculino (estreitamente associado a sua mãe ou esposa que é a
Deusa). Mas a trama e o tema subliminar simbólico da história são
tão semelhantes em cada mito que, a julgar pelas narrativas que
chegam a usar o nome da deidade feminina, podemos deduzir que a
identidade alegórica do dragão ou serpente é a própria religião da
Deusa. Deidade suprema original dos povos conquistados e depois
governados pelos invasores indo-europeus, a Deusa não era
ignorada, mas simbolicamente incluída de tal modo que esses mitos
supostamente religiosos nos permitem rastrear Sua posterior
deposição.
A deidade masculina é invariavelmente o poderoso defensor da
luz. Com ligeiras variações, encontramos o mito nos hititas da
Anatólia, na batalha entre o deus da tempestade e o dragão
Illuyanka. Na Índia, entre Indra, Senhor das Montanhas e a Deusa
Danu e Seu filho Vritra. No norte de Canaã, entre Baal (que tem o
duplo papel de deus da tempestade do Monte Hermón e também de
irmão/consorte da Deusa Anate) e a serpente Lotan ou Lawtan (na
linguagem canaanita, Lat significa Deusa). Na Babilônia,
provavelmente no período indo-europeu do controle cassita, entre
Marduque e a Deusa Tiamat. Na Assíria indo-europeia controlada
pelos mitanianos, Assur simplesmente assume os feitos de
Marduque. Na Grécia indo-europeia, entre Zeus e a serpente Tifão
(filho da Deusa Gaia), entre Apolo e a serpente Píton (também
registrado como filho de Gaia) e entre Hércules e a serpente Ladão,
que guarda a árvore do fruto sagrado da Deusa Hera (diz-se que ela
ganhou de Gaia na ocasião do casamento com Zeus). O mito
aparece nos antigos escritos dos hebreus (e serão discutidas no
Capítulo 5 as conexões destes com os indo-europeus), como a
conquista da serpente Leviatã (outro nome canaanita para Lotan)
pelo deus hebreu Iavé (Jeová). Pode haver uma conexão com as
lendas de São Jorge com o dragão e de São Patrício com as
cobras.
A religião feminina, especialmente após as primeiras invasões,
parece ter assimilado as deidades masculinas na antiga adoração, e
a Deusa sobreviveu como a religião popular por milhares de anos
após as invasões iniciais. Nos tempos de Marduque e Assur, no
século XVI a.C., a posição Dela tinha sido muito rebaixada na
Mesopotâmia. Mas foi com os últimos ataques dos hebreus, e
depois dos cristãos, no século I d.C., que a religião da Deusa foi
suprimida e quase esquecida.
As origens de muitas ideias dos primeiros hebreus podem ser
encontradas nesses relatos do povo indo-europeu. O conceito do
deus no topo da montanha, flamejante na luz, a dualidade entre
claro e escuro simbolizando bem e mal, o mito da derrota da
serpente pela deidade masculina, bem como a liderança de uma
classe governante suprema, todos tão prevalentes na sociedade e
na religião indo-europeias, são encontrados também nos conceitos
políticos e religiosos dos hebreus. A influência, ou possível conexão,
com os povos indo-europeus pode explicar as atitudes patriarcais
dos hebreus, algo que discutiremos em profundidade no Capítulo 5.
Uma vez conhecidos os padrões políticos e as representações
religiosas dos indo-europeus, pode-se compreender melhor as
ideias e atitudes dos hebreus que posteriormente seriam adotadas
no cristianismo.
Índia – “origem das castas...”
Na Índia se encontram algumas das mais óbvias evidências das
invasões indo-arianas e da conquista dos primeiros povos
adoradores da Deusa. A língua dos indo-arianos na Índia era o que
hoje chamamos de sânscrito. Quando chegaram, os povos do norte
ainda não possuíam um método de escrita. Adotaram dois alfabetos,
possivelmente dos acadianos, que usaram para a escrita de seus
hinos e outras literaturas. Assim, os registros mais abrangentes dos
indo-arianos no país estão nos livros conhecidos como os Vedas,
escritos em alguma época entre 1500 e 1200 a.C. na língua
sânscrita indo-europeia, usando os caracteres herdados.
Em 1963, o professor E. O. James escreveu:
Ao que parece, os deuses celestiais do antigo panteão védico já
estavam estabelecidos nas tribos arianas quando começaram suas
migrações no segundo milênio a.C. (...) Ao chegarem à Índia
encontraram, ao contrário da crença anterior às escavações dentro e
ao redor do Vale do Indo desde 1922, não uma população aborígene
primitiva, mas uma civilização urbana desenvolvida, superior ao modo
de vida deles, relativamente simples, como representado no
Rigueveda.
Giuseppi Sormani, escrevendo em 1965, conta que “os arianos
entraram em contato com sociedades estabelecidas de forma já
antiga, altamente civilizadas, e em comparação eles eram meros
bárbaros”. E ele diz também que “eles já tinham abandonado o
matriarcado havia muito tempo e tinham um sistema familiar
patriarcal, bem como uma forma de governo patriarcal”.
De acordo com os hinos do Rigueveda indo-ariano, no início dos
tempos só existia asura, poder vital. A asura então se dividiu em
dois grupos cósmicos. Um era dos inimigos dos arianos, chamados
de dânavas ou daitias, filhos da Deusa Danu ou Diti; o outro grupo,
obviamente dos heróis dos arianos, era dos chamados de a-daitias.
Esse título revela o fato de que essa estrutura mítica foi criada em
reação à presença dos adoradores de Diti, já que a-daitia significa
literalmente “não daitia”, “não povo” de Diti. Isso é uma forte
indicação de que esses hinos míticos não foram escritos somente
quando os arianos entraram em contato com o povo da Deusa, mas
também foram concebidos e compostos depois daquela ocasião.
Um dos principais deuses indo-arianos era chamado de Indra,
Senhor das Montanhas, “aquele que derruba cidades”. Com a
promessa de supremacia se tivesse sucesso em matar Danu e Seu
filho Vritra, ele assim o faz e consegue reinar sobre os a-daitias. Em
um hino a Indra no Rigueveda que descreve esse evento, Danu e o
filho Dela são inicialmente descritos como serpentes demoníacas;
mais tarde, já mortos, são simbolizados por uma vaca e seu
bezerro. No Oriente Próximo e Médio, as duas imagens, da vaca e
da serpente, são associadas com a adoração à Deusa. Após os
assassinatos, “as águas cósmicas fluíram e ficaram grávidas”. Em
seguida, deram à luz o Sol. Essa imagem do deus sol emergindo
das águas primevas aparece em outros mitos indo-europeus e
também ocorre em conexão com duas das invasões pré-históricas.
A atitude indo-ariana em relação às mulheres transparece em
duas frases atribuídas a Indra no Rigueveda. “A mente da mulher
não tolera disciplina. Seu intelecto tem pouco peso.” Podemos achar
bastante irônica essa afirmação à luz do nível de cultura dos indo-
arianos, patriarcais, adoradores de homens, em comparação com o
nível de cultura dos povos adoradores da Deusa, mais orientados
para o feminino, subjugados à força.
O Rigueveda também faz referência ao deus pai ancestral
conhecido como Prajapati e como Diaus-Pita. Ele aparece como
uma ideia quase abstrata no Rigueveda. Contudo, Diaus-Pita é
conhecido nos escritos brâmanes posteriores como o “supremo pai
de todos”. Em vários hinos do Rigueveda há evidências de uma
adoração ancestral ao pai. Os indo-arianos recitavam diariamente o
Pitriyajna, a adoração aos pais ancestrais. Nesse ritual, o pai da
família atuava como alto sacerdote e depois passava os ritos ao
filho mais velho. Em sânscrito, pitar significa pai, mas pati tem
diversos significados. As conexões nos confirmam a posição dos
homens nessas tribos do norte. Pati tem tradução alternativa de
senhor, governante, mestre, proprietário e marido.
Com a expansão da cultura indo-ariana vieram as origens da
religião hindu e o conceito de que a pele mais clara era melhor do
que a escura. Os brâmanes, sacerdotes dos indo-arianos mais
claros, eram considerados o epítome da hierarquia racial. Sormani
relata que:
Muito se estudou sobre a verdadeira origem das castas e as teorias
mais confiáveis retrocedem às invasões nos tempos antigos. Os
arianos de pele branca não queriam se misturar com os dravidianos
de pele escura, que eram os habitantes originais (em sânscrito, a
palavra para casta, varna, significa cor). As primeiras medidas para
dividir as populações em castas foram leis proibindo casamentos
mistos entre arianos e dravidianos.
Mais tarde, no Bhagavad Gita, o herói ariano Arjuna fala de seu
medo de minar “a própria estrutura da sociedade”. A preocupação
dele é não produzir “ilegalidade”, em seguida descrita como “a
corrupção das mulheres” que, por sua vez, levaria a “mistura de
castas”.
Um personagem que aparece na mitologia indo-ariana de 400
a.C., embora possa ter sido conhecido em lendas antes disso, é
Rama, que simboliza a tradição bramânica. Norman Brown,
professor de sânscrito na Universidade da Pensilvânia, assim o
descreve:
Rama é o agente mítico da expansão da cultura ariana (que é
bramânica ou sânscrita) para o ainda não arianizado sul da Índia,
onde até hoje a cultura está na posse dos brâmanes, recobrindo um
substrato que é basicamente dravidiano. (...) Rama conquistou pela
força das armas (...) e assim é representado como provedor de cultura
e luz para os aborígenes, que são chamados de demônios quando
são intransigentes, ou de macacos e ursos quando se convertem
voluntariamente.
Portanto, os invasores patriarcais, que consideravam inferiores
as mulheres, podem ter sido responsáveis também pelas origens
das atitudes racistas.
Para os arianos, a luz deve ter sido as labaredas ofuscantes de
erupções vulcânicas, depois simbolizadas pela luz de seus
onipresentes sacrifícios pelo fogo, a luz dos corpos celestes,
especialmente do Sol, os relâmpagos de seu deus da tempestade,
talvez o tom claro de sua própria pele em comparação com o povo
mediterrâneo e o “reino de eterna luz” onde se supunha que
morariam os espíritos dos arianos mortos. Os “nobres pais residem
em luz brilhante, primeva luz”. Brahma, um nome que acabou se
tornando o do deus supremo, é descrito como “aquele que tem a
forma da luz”. Dev, palavra sânscrita para deus, significa
literalmente cintilante ou brilhante. Mitra, outro deus que aparece no
Rigueveda, surge posteriormente com um papel mais importante na
Avestá iraniana e é continuamente associado à luz, enquanto
Varuna, que pode ser outro nome de Diaus-Pita, tem a tarefa de
realizar sacrifícios diários para trazer o “sol brilhante” para fora do
“profundo espaço escuro embaixo da terra”.
Evidências arqueológicas, especialmente nos trabalhos de Sir
John Marshall, revelam que antes das invasões arianas as
populações nativas da Índia reverenciavam a Deusa. As primeiras
culturas do Vale do Indo parecem ter entrado em contato com a
Suméria e Elão por volta de 3000 a.C. As crenças e atitudes
religiosas frequentemente se entrelaçam aos costumes sociais e
familiares. Se a maior parte da população algum dia considerou a
Deusa sagrada, não surpreende muito descobrir que essas crenças
reviveram em ocasiões seguras, quando podiam ser seguidas
abertamente, embora seja impressionante o período abrangido.
Bem mais tarde na história indiana, assim como em muitas outras
áreas onde a adoração à deidade masculina foi sobreposta à
religião feminina, muitas pessoas, talvez as que permaneceram em
áreas mais isoladas, ainda mantinham a adoração à Deusa. Em 600
d.C., a adoração à divindade feminina reapareceu na Índia. Nos
Puranas e Tantras, ela recebeu muitos nomes, mas Devi, que
significava simplesmente Deusa, combinava todos. Porém, esse
nome vinha do sânscrito Dev; o nome Dela como Danu ou Diti fora
esquecido.
O professor Brown explica:
A razão de não termos notícias dela mais cedo é sem dúvida
porque a Grande Mãe não tem origem ariana e demorou a ter
reconhecimento bramânico. Ela é bem diferente de todas as deidades
femininas no Rigueveda. (...) A Grande Deusa Mãe é bastante
adorada hoje na Índia em círculos não arianos; no sul da Índia, todas
as aldeias têm sua coleção de Ammas, ou Mães, e a adoração a elas
é o principal exercício religioso da aldeia (...) os sacerdotes dessas
deidades [há sacerdotisas também] não são brâmanes (...) são
membros de castas inferiores, indicando adoração pré-ariana ou pelo
menos não ariana a essas deusas.
Brown relata que a Deusa finalmente foi incorporada à literatura
bramânica, mas ressalta que “a concepção da Grande Mãe ainda
tem posição duvidosa nos círculos bramânicos”.
Irã – “a semente das terras arianas”
As crenças indo-arianas também são encontradas nos escritos
do Irã, embora em um período muito posterior. O material escrito
mais antigo do Irã infelizmente retrocede apenas a 600 a.C., na
Avestá de Zaratustra. Mas é esclarecedor, como explica James:
“Tanto os indianos como os iranianos eram, como já vimos,
derivados da mesma descendência etnológica indo-europeia
estabelecida no platô iraniano desde o quarto milênio a.C. e, ao que
parece, falavam um dialeto sânscrito védico.”
O professor M. J. Dresden também conta que “um corpo
substancial de evidências linguísticas, religiosas e sociais garante a
tese de que, em alguma ocasião, houve a união dos portadores das
duas culturas, que encontram expressão no Rigueveda indiano, por
um lado, e em partes da Avestá iraniana, por outro”.
Sem dúvidas, muito mudou desde o tempo do Rigueveda até
escreverem a Avestá, mas encontramos de novo o conceito de um
grande pai representando a luz, agora chamado Ahura Mazda. Em
geral é mencionado como Senhor da Luz e mora no topo de uma
montanha, refulgente em luz dourada. Diz-se que essa morada fica
no monte Hara, supostamente a primeira montanha já criada. Na
língua dos indo-arianos, hara significava de fato montanha.
A dualidade de luz e escuridão como bem e mal fica evidente em
toda parte no pensamento religioso iraniano. Ahura Mazda é
elevado pela bondade, enquanto o personagem demoníaco
chamado Ahriman “está afundado na escuridão”. Em um relato,
Ahriman ousou chegar à fronteira entre eles e foi cegado pela luz de
Ahura. Ao ver o valor e a supremacia “superiores aos seus”, ele
fugiu de volta à escuridão. Nos textos iranianos de 200 d.C.
conhecidos como maniqueístas, novamente encontramos bem e mal
correspondendo a claro e escuro. Nessas afirmações, os
“problemas da humanidade são causados pela mistura dos dois”.
Mitra, que aparece no Rigueveda, surge mais significativamente no
pensamento iraniano: agora é Mitra quem derrota os “demônios da
escuridão”.
Um personagem iraniano interessantíssimo é Gayô Mareta, o
primeiro homem criado. Ele bem pode ter sido o mesmo
personagem, no Irã, que Indra na Índia. Gauee ou gavee em
sânscrito quer dizer vaca. Mrityu em sânscrito significa morte ou
assassinato e sobreviveu na linguagem germânica indo-europeia
como mord, assassinato, e na língua inglesa indo-europeia murder,
assassinato. Assim, Gayô Mareta era o “Assassino de Vaca”. Da
mesma forma que Danu foi simbolizada como a Deusa vaca, mais
adorada no Egito, e Indra Seu assassino, Gayô Mareta pode ter
assumido essa posição no Irã. Pahlavi escreveu, em torno de 400
a.C.: “Gayô Mareta foi o modelo de Ahura para a família das terras
arianas, a semente das terras arianas.”
Um posterior acréscimo à mitologia iraniana como a conhecemos
parece ser um ressurgimento da religião da Deusa. Segundo textos
iranianos do século IV d.C., o universo estava a cargo da Deusa
Anahita. É curioso o relato de que “foi dada a Ahura Mazda a tarefa
de cuidar de toda a criação”.
Os hurritas – “a casta governante dos indo-arianos”
Um grupo mais antigo de pessoas que passam a explicar a
identidade e padrões culturais dos invasores do norte era conhecido
como os hurritas. A maior parte deles não era indo-europeia; pelo
menos, não usavam linguagem indo-europeia. Entretanto, vieram de
uma região ao norte da Anatólia, ou do Irã, e formavam um grupo
braquicéfalo (alpino), assim como os indo-europeus. Talvez naquela
região tivessem sido inicialmente conquistados e governados por
indo-europeus.
“Essas pessoas”, diz o professor Saggs, “há muito conhecidas no
Velho Testamento como horitas ou horins, falavam uma língua sem
nenhuma afinidade reconhecida, exceto nos urartianos posteriores.
Devem ter chegado às montanhas no norte da Assíria,
presumivelmente vindos da região do Cáucaso na segunda metade
do terceiro milênio a.C.”.
Em 2400 a.C. não existia assentamento isolado hurrita em
Urkish, no vale do rio Cabur, no oeste da Assíria. Nessa mesma
época em Nuzi e Tell Brak, que mais tarde se tornariam importantes
centros do reino hurrita, começaram a aparecer nomes hurritas.
Alguns chegaram a ser encontrados ao sul, na Babilônia, e em 2300
a.C. apareceram na cidade suméria de Nipur, cerca de 65
quilômetros de Uruque.
Em seu livro de 1952, The Hittites, o arqueólogo O. R. Gurney
sugere que a terra natal dos hurritas era no norte do Irã. Ele diz:
“Sabe-se que o povo hurrita se espalhou gradualmente para o sul e
o oeste, saindo de sua terra na região montanhosa ao sul do mar
Cáspio, a partir de 2300 a.C., e durante o segundo milênio passou a
se organizar em vários reinos poderosos (...) situados perto das
águas superiores do Eufrates e do Cabur.”
A maioria dos hurritas não era indo-europeia, mas nosso
interesse neles se baseia na evidência de que seus reis e líderes
eram indo-europeus. Saggs diz que “os reis de Mitani não tinham
nomes hurritas, mas sim indo-europeus, enquanto os antigos
deuses indianos Mitra, Varuna e Indra eram adorados. (...) Tudo isso
indica a presença de uma casta de guerreiros arianos que
governava uma população de numerosos não arianos”. Gurney
concorda, afirmando que Mitani “era governada por uma dinastia de
reis de nomes com etimologia ariana, e deidades indianas como
Indra e Varuna constam com proeminência em seu panteão. Desse
modo, é evidente que, em Mitani, uma população de hurritas era
dominada por uma casta governante de indo-arianos”.
A lenda de Indra pode ter sido conhecida, já que ele é
mencionado em placas hurritas, mas até agora não se encontrou
nenhum relato hurrita da lenda em si. Um mito hurrita conhecido por
meio de cópias hititas, mesmo não sendo uma história de dragões
típica, gira em torno dos esforços para destruir Teshub, consorte da
importante Deusa Hepat da Anatólia, considerada pela rainha Pudu-
Hepa a mesma deidade que a Deusa do Sol de Arina. O principal
protagonista é o deus conhecido como Kumarbi, que tinha um
centro religioso listado como o primeiro assentamento hurrita em
Urkish. Nesse mito, ele é chamado de “pai de todos os deuses”.
Suas conexões arianas são visíveis em seu nome; Rajkumar em
sânscrito significa príncipe. Kumarbi tem um filho feito de pedra
chamado Ullikummi, que é o nome de uma montanha no território
Kizzuwatna da Cilícia, no centro-sul da Anatólia, possivelmente a
montanha vulcânica de dois picos conhecida hoje como monte
Haçane. A tarefa de Ullikummi é destruir Teshub. O texto é bem
longo, ilegível e truncado em muitos trechos vitais, mas o ponto-
chave é que foi dito a Ullikummi para “destruir a cidade de
Kummiya”, para “atacar Teshub”, “bater como se fosse farelo” e
“esmagar com o pé como se fosse uma formiga”. Não há certeza,
mas a cidade de Kummiya na lenda pode se referir à cidade de
Kummanni, que era um grande centro religioso da Deusa Hepat.
As origens do significado do nome hurrita, horita ou horim podem
estar associadas ao significado da palavra iraniana hara, montanha.
Essa palavra pode ter subsistido na palavra alemã para monte,
höhe, e na palavra para mais alto, höher (possivelmente na palavra
em inglês para mais alto, higher). Isso sugere que os hurritas podem
ter sido designados pelas palavras “montanhas” ou “montes”,
descrevendo sua terra natal.
Também é possível que o termo fosse originariamente
relacionado à palavra sânscrita hari, que significa amarelo dourado.
Essa palavra é associada a Indra, Senhor das Montanhas, usada
para descrever seu arco, seu cavalo, suas sandálias e outras
posses simbólicas. Pode até se referir à posse de ouro, que em
sânscrito é hiran e mais tarde se tornou oro em latim.
Indo um pouco mais adiante, esses grupos de palavras podem
derivar de uma ideia anterior de uma montanha dourada, o reino de
eterna luz, onde os ancestrais dos arianos supostamente residem
após a morte. Essa imagem é claramente apresentada na imagem
posterior de Ahura em sua morada refulgente no topo do monte
Hara.
O período Ubaid – Eridu, Urartu, Ararat e Arata
No tempo desses surgimentos historicamente atestados de indo-
europeus a partir da metade do terceiro milênio, há uma sugestão
especulativa de que estes, ou grupos estreitamente relacionados a
eles, como os predecessores dos hurritas, podem ter entrado no sul
do Iraque tão cedo quanto no quarto milênio a.C. Um grupo
conhecido como o povo da cultura Ubaida (assim chamado pelos
arqueólogos devido ao nome moderno do sítio onde foram
descobertos, Al-Ubaid) entrou na região do Tigre-Eufrates nessa
época. Com muita frequência se sugere que o povo ubaida veio das
terras altas do Irã, embora alguns especialistas no assunto
comecem a crer que tenha vindo do norte do Iraque.
Como não havia forma de escrita naquele tempo, alguns
escritores sugerem, mesmo sem ter certeza, que o povo ubaida
trouxe a linguagem suméria. Essa língua, nem semita nem indo-
europeia, há tempos intriga muitos peritos linguistas. O professor S.
N. Kramer, que decifrou placas sumérias, pondera que o sumério é
“em alguma medida remanescente das línguas altaicas dos Urais”.
Algumas áreas onde essas línguas foram notadas ficam logo ao
norte e a oeste do mar Cáspio. Sugeriu-se que Arata, um lugar
muitas vezes mencionado em textos sumérios, pode estar naquela
mesma área ou ligeiramente ao sul, nas extensões do nordeste do
Irã ao longo do mar Cáspio.
Seja qual for a direção de onde vieram, o povo ubaida
aparentemente estabeleceu seu principal assentamento na cidade
mais tarde conhecida como Eridu, muito perto da junção dos rios
Tigre e Eufrates com o Golfo Pérsico, e se espalhou pela região.
Mellaart relata que, em resultado, a cultura halaf “desmanchou” e
“em Arpachiyah houve destruição e massacre”. O povo ubaida se
estendeu para o norte até os lagos Úrmia e Van, perto da fronteira
Irã-Rússia, talvez a área onde se tornou um grupo mais nômade.
Essa região ficou conhecida depois como Ararat ou Urartu, nome
que pode ser derivado de Arata. É possível que o nome Eridu tenha
sido usado para lembrar seu povo do nome Arata ou Urartu (sabe-
se que em épocas posteriores Urartu foi habitada pelo povo hurrita,
e por vezes se sugere que fosse sua terra natal).
Em torno de 4000 a.C. o povo ubaida construiu um templo em
Eridu. Embora tenham sido construídos templos para a Deusa em
muitas aldeias neolíticas e calcolíticas ao longo dos rios Tigre e
Eufrates a partir de 7000 a.C., esse templo em Eridu parece ter sido
o primeiro a ser erguido sobre uma alta plataforma. Poderia ter sido
uma tentativa de simular uma montanha onde não havia nenhuma?
Curiosamente, a palavra suméria para montanha é hur ou kur.
Diferentemente das demais comunidades no Iraque naquela época,
no templo ubaida de Eridu não foi encontrada nenhuma estatueta da
Deusa.
Os povos maglemosianos e kunda que, como já foi mencionado,
parecem ter sido os ancestrais culturais dos povos indo-europeus,
usavam canoas “escavadas”, até mesmo no período mesolítico.
Esses barcos eram basicamente troncos e os ocupantes ficavam em
buracos cavados com fogo. Em épocas anteriores, tais povos foram
localizados no norte da Europa e na Dinamarca. Duas canoas, uma
nos Países Baixos e outra na costa da Escócia, foram atribuídas ao
povo maglemosiano. Remos, redes e armadilhas indicam que eram
usadas para atividades de pesca, aparentemente um aspecto
primordial da vida maglemosiana.2
Com rios e outros cursos d’água fluindo através da Europa e do
Oriente Próximo, tornando-se mais numerosos depois do degelo dos
glaciares da Era do Gelo, e com as chuvas que ainda ocorriam em
10000 a.C., podem ter sido esses antigos navegantes, talvez por
muitas gerações, que acabaram chegando ao clima mais quente de
Eridu. Evidências dos maglemosianos também foram encontradas
na Estônia, sugerindo que eles devem ter viajado descendo o Volga,
que deságua no mar Cáspio. Muitos podem ter passado pelos
numerosos afluentes na costa à esquerda do Cáspio e chegado à
região do Cáucaso. Um dos rios até hoje importantes chegando ao
Cáspio é o Arax. Seguindo seu leito, alguns podem ter chegado às
regiões dos lagos Úrmia e Van, ou seja, à terra de Urartu. Braços do
Tigre em Urartu se encontram com o Arax, levando diretamente ao
Golfo Pérsico, onde o Tigre se encontra com o Eufrates.
Segundo Hawkes, “no Eufrates os homens da cultura Al-Ubaid
provavelmente foram os primeiros navegadores regulares. (...) Uma
miniatura encontrada em uma das últimas tumbas ubaidas em Eridu
representa o barco a vela mais antigo conhecido no mundo”.
Mapa 3: Alguns dos principais cursos d’água da Estônia ao Golfo
Pérsico.
A deidade adorada em Eridu nos tempos históricos era
conhecida como o deus Enki. Nos períodos pré-históricos, o deus
desse templo parece ter sido um peixe ou deus da água – em seu
altar eram queimadas oferendas de peixes. Nos tempos históricos,
Enki muitas vezes era representado velejando ou mencionado como
“aquele que veleja”. Esse conceito do deus dos peixes ou da água é
bastante similar ao descoberto em um fragmento de placa indo-
europeia hitita, que conta de um deus que emergiu da água com um
peixe na cabeça. Também remete ao deus do Sol, que nasceu das
águas cósmicas, supostamente liberado por Indra após a morte de
Danu e Vritra. Apesar de Enki não ser geralmente designado como
um deus do Sol, na mitologia ele consta como pai de Marduque que,
por sua vez, é chamado de “filho do Sol”.
Ao povo ubaida atribui-se o primeiro desenvolvimento de canais
de irrigação em Eridu. Embora as águas do Golfo Pérsico
salgassem os canais, podemos ver o conceito de irrigação como
uma ideia natural para as pessoas que passaram a vida em rios e
riachos e depois se assentaram em áreas mais secas.
Outro possível indício da identidade dos povos do período ubaida
em Eridu é a instituição de um reinado e a menção do nome Alalu
como o primeiro rei da Suméria, segundo a lista de reis na primeira
parte do segundo milênio. De acordo com essas placas, que
parecem se referir a períodos pré-históricos, foi na cidade de Eridu
que “o reinado desceu dos céus pela primeira vez”. O nome Alalu
também ocorre no mito hurrita de Kumarbi, já mencionado. O mito
começa “nos primeiros anos, quando Alalu era rei no céu, quando
Alalu estava sentado no trono”. Embora a indicação mais frequente
de que o uso hurrita do nome Alalu se baseie nos escritos da
Suméria, mais antigos, é possível que esse nome tenha ficado na
memória daqueles ubaidas que depois velejaram de volta à região
do lago Úrmia – sua presença ali é atestada em sítios posteriores
àquele dos primórdios de Eridu. Talvez por isso o nome Alalu tenha
persistido nos mitos hurritas dos povos que viveram naquela área.
Suméria e Babilônia – novos povos, novos deuses e um relato
revelador sobre o assassinato da Deusa
Em algum momento entre 3400 e 3200 a.C. outro grupo aparece
entrando na região da Suméria. O professor Saggs escreve sobre o
modo de construção de um templo, durante o chamado período
Uruque do Nível V, “indicando a chegada de uma raça das
montanhas familiarizada com as técnicas de trabalho com pedras”.
Na mesma época, as regiões de Nipur e Quis começaram a se
desenvolver como centros populosos.3 Em Nipur, nos períodos
históricos, um deus chamado Enlil parece ter passado à frente de
Enki. Nos mitos e nas inscrições, Enlil é “a grande montanha de
olhos brilhantes” e seu templo é descrito como a Casa da Montanha,
apesar de Nipur – na verdade, a maior parte da Suméria – estar a
menos de 190 metros acima do nível do mar. A introdução de Enlil
na cidade de Nipur está mitologicamente associada ao estupro da
filha da Deusa, Nunbarshegunu. A filha ganha o nome Ninlil e
depois é descrita como esposa de Enlil. Ele também era conhecido
como Senhor Ar, título igualmente associado a uma deidade no
Egito, onde o símbolo para a palavra “ar” é uma vela de barco. Nos
mitos hurritas, Kumarbi é relacionado à cidade de Nipur – alega-se
que ela é a cidade de Kumarbi.
Nas placas sumérias, a Deusa recebe muitos nomes. Nos
primórdios, cada um desses nomes deve ter sido reverenciado
como a Divina Ancestral de cada comunidade ou aldeia. Ninsikil era
a deidade madrinha de Dilmum, o Paraíso dos sumérios, que
também é listado em muitos registros como sendo um local físico
real. Namu era conhecida como “Aquela que dá à luz o céu e a
terra” e “a mãe de todas as deidades”. Nina era adorada como a
“Profetisa das Deidades”. Nanshe de Lagas era “Aquela que
conhece o órfão, conhece a viúva, busca justiça para os pobres e
abrigo para os fracos”. No dia do ano novo, ela julgava toda a
humanidade. Nidaba de Uruque era conhecida como a mais
instruída nas câmaras celestiais, Aquela que ensina os decretos, a
grande escriba do céu. Shala, um título de Ininni, descrevia a Si
mesma como “Poderosa rainha Deusa que concebe céu e terra sou
eu”.
Ningal ou Nikkal (“Grande Senhora”), que nos tempos históricos
era conhecida como a esposa de um deus Lua chamado Nannar (ou
Sim, na Acádia), pode em alguma época ter sido adorada como o
Sol. Na Anatólia, várias sacerdotisas-rainhas da Deusa do Sol de
Arina tinham Nikkal como parte do nome. Nos períodos históricos,
dizia-se que Ela era mãe de Utu, o Sol, o que pode ter sido uma
inovação posterior. Um santuário em Ur, que em períodos anteriores
pode ter sido o mesmo de Ningal, foi em muitas épocas dividido com
o marido Dela. No período cassita de Ur, Ela foi removida do templo
principal e colocada em um anexo menor. Existe um longo poema
para Ela como “mãe e rainha de Ur”, e Nannar é mencionada como
Sua sacerdotisa ishib.
A Deusa Ninhursag, também conhecida como Ninmah, parece se
identificar estreitamente com a adoração a Enki, como sua esposa e
irmã, embora em lendas anteriores Ela tenha um papel dominante e
Seu nome costume preceder os de Enki e Enlil. Certa lenda diz que,
com a ajuda de Namu, Ela criou as primeiras pessoas. Em uma
antiga lenda suméria, a Deusa, conhecida como Ereshkigal, que
mais tarde será citada como a Senhora do Submundo, é carregada
para dentro do Submundo como um prêmio – na ocasião em que
Enlil tomou posse da Terra. Mas, como acabamos de ver, mesmo no
Submundo Ela não teve paz e acabou sendo forçada a aceitar um
consorte para reinar ao seu lado, a quem Ela teve que presentear
com as Tábuas do Destino.
O nome Inanna deve ter derivado de Innin, Innina ou Nina. Ela
deve ter se tornado a filha de Ningal na mesma ocasião em que Utu
se tornou o Sol. Quando A encontramos na época de lendas
escritas (pouco depois de 2000 a.C.), apesar de ainda ser muito
reverenciada, Ela já havia perdido o que possuía anteriormente.
Embora Namu tivesse criado o Céu e a Terra, e Ninhursag, Nintu ou
Ninmah as primeiras pessoas, um mito conta que foi Enki quem
estabeleceu a ordem no mundo. Nesse mito, ele criou os canais de
irrigação, “fazendo o Tigre e o Eufrates comerem juntos”. Em
seguida, vemos que ele designou várias deidades a certas posições
e o próprio Enki, ou o personagem designado a cuidar dos canais,
“carregou o joelho principesco para fora do palácio como se gordura
fosse”. Embora esse trecho seja bastante obscuro, pode se referir
ao assassinato de um jovem príncipe naquela ocasião. Pouco
depois, há dois relatos de Inanna desistindo de Seu cetro real,
perguntando duas vezes a Enki “Onde estão meus poderes reais?”.
Como se para consolá-la, ele diz que Ela ainda está a cargo das
“palavras faladas pelo jovem rapaz”, palavras que Ela mesma
estabelecera, e o cajado, o bastão e a “vara de pastoreio” também
ainda eram Dela. Como se desse maiores explicações de Sua perda
de poderes em resultado da construção do canal, ele conclui:
“Inanna, você que não conhece os poços distantes, as cordas de
amarração, a inundação chegou, a terra foi restaurada, a inundação
de Enlil chegou.”
Nessa lenda podemos ver uma explicação para a diminuição dos
poderes e status da Deusa com a chegada dos ubaidas de Eridu ou
dos defensores de Enlil em Nippur a quem, segundo a lenda
suméria, Enki deu muitos presentes. Como o mito só foi escrito
depois de 2000 a.C., é difícil dizer se essas mudanças aconteceram
durante a chegada do povo de Enki ou na época do assentamento
em Nipur. A posição das mulheres e a supremacia da Deusa foram
perdendo prestígio ao longo de todo o período histórico na Suméria,
mas essas mudanças talvez viessem ocorrendo durante séculos ou
mesmo milênios. Entretanto, por todo o período histórico, a Deusa,
como Inanna, ainda era reverenciada, especialmente em Uruque.
Ela deve ter sido sempre considerada a que concedia os direitos de
pecuária ou reinado, sugerindo que os direitos matrilineares ao trono
real continuavam a existir, fator que discutiremos com mais detalhes
no Capítulo 6.
Pode mesmo ter havido um ressurgimento da religião da Deusa
entre os dois períodos, pois um mito trata da transferência do centro
cultural de Eridu para Uruque, com Enki alegando que Inanna tinha
lhe roubado todos os presentes da civilização. Além de evidência
arqueológica demonstrando que muitos desses “presentes da
civilização” tinham sido desenvolvidos nas comunidades de
adoradores da Deusa em tempos neolíticos, também é interessante
notar que as palavras sumérias usadas para fazendeiro, arado,
sulco, ferreiro, tecelão, coureiro, cestaria, potes e pedreiro não
tinham origens sumérias, mas eram aparentemente emprestadas de
outra linguagem, talvez anterior.
Uma terceira deidade masculina foi introduzida na Suméria,
provavelmente pouco antes do começo do segundo milênio, época
em que os hurritas começavam a chegar à região. É chamado de An
ou Anu, palavra geralmente definida como céu na língua suméria.
Entretanto, a palavra an ou ahn consta de diversas linguagens indo-
europeias como “ancestral”, e em alemão ür-ahn é definida como
ancestral primevo. Esse título aparece no nome indo-europeu grego
Urano, um deus do céu. O professor Hooke conta: “No começo do
período sumério, o nome Anu é relativamente obscuro e não
aparece em nenhuma das 18 listas desse período.”
Anu aparece como sucessor de Alalu no mito hurrita e hitita de
Kumarbi, já discutido aqui. Mas é interessantíssimo que tenha
aparecido no mito posterior de Marduque, “o filho do Sol”. Nesse
mito, foi pedido primeiro a Enki que subjugasse a Deusa-Criadora, a
quem chamam Tiamat, mas ele falhou, conseguindo apenas matar o
marido Dela, Apsu, tornando-se então o Senhor de Abzu (águas
primevas). Então foi feito o pedido a Anu, mas, de acordo com a
lenda, ele se encolheu de medo ao confrontar a Deusa e se recusou
a cumprir a missão. Por fim, Marduque, filho de Enki, se dispôs, mas
apenas com a promessa de obter a suprema posição entre todas as
outras deidades caso conseguisse. Essa garantia prévia da
promessa traz à lembrança aquela requisitada por Indra antes de
assassinar Danu e Seu filho Vritra. Os dois mitos foram escritos
provavelmente no mesmo período (1600-1400 a.C.).
Essa lenda, conhecida como o Enuma Elish, que explica a
supremacia de Marduque, durante muito tempo foi considerada
babilônica e, portanto, acadiana e semítica. Entretanto, as últimas
pesquisas sugerem que, mesmo Marduque sendo conhecido no
período de Hamurabi, o mito que alega sua supremacia só apareceu
de fato após a conquista da Babilônia pelos cassitas. O professor
Saggs nota que “nenhum dos textos encontrados que o referenciam
é anterior ao primeiro milênio” e que “já foi sugerido que de fato
essa obra surgiu apenas no período cassita, e agora se sabe que foi
uma época de intensa atividade literária”. Como já mencionei, os
cassitas também eram governados pelos indo-europeus. Gurney
relata que “os nomes das deidades indianas formavam um elemento
nos nomes dos governantes cassitas da Babilônia”, embora, mais
uma vez, a maior parte do povo cassita não fosse indo-europeia.
Em torno de 2100 a.C., um rei sumério chamado Ur Namu
declarou que estabeleceria justiça nas terras, de certo modo como
as reformas de Urukagina, que o precedeu. Disseram que ele
eliminou os trabalhos pesados e as taxas que sobrecarregavam o
povo naquele tempo, e “livrou a terra dos grandes navegadores que
se apoderavam de bois, ovelhas e jumentos” (grifos meus.).
Em muitas lendas e inscrições, os sumérios costumam ser
descritos como as “pessoas de cabeça preta”. Essa designação
provavelmente se refere à cor do cabelo da maioria de seus
habitantes naquele tempo, e é interessante quando se começa a
questionar por que a expressão passou a ser usada. As pessoas
normalmente são identificadas por alguma diferença que
apresentem. Só poderíamos nos referir a um grupo como “pessoas
com dois olhos” se também existisse um grupo com um olho só, ou
mais de dois. Aquela descrição, tantas vezes aplicada ao povo
sumério nos escritos da própria Suméria, pode ser outra indicação
de que os primeiros a cunhar a expressão tenham sido eles
mesmos, ou que eles ao menos estavam muito familiarizados com
pessoas que não tinham “cabeça preta”, e sim um cabelo de cor
mais clara.
Cada uma dessas conexões, vistas lado a lado, pode sugerir que
Enki, Enlil, Anu e Marduque tenham sido todos introduzidos por
indo-europeus, ou grupos estreitamente relacionados com eles,
vindos do norte e chegando às culturas da Deusa na Mesopotâmia.
Enlil, Enki e Anu devem ter sido assimilados gradualmente pelos
numerosos adoradores da Deusa. Mas personagens posteriores,
como Marduque e, especialmente, Assur, que substituiu sua posição
na Assíria controlada pelos hurritas, foram adorados nas sociedades
em que o status das mulheres já tinha sido rebaixado.
Egito – Um barco nos céus?
A outra hipótese possível, mas também especulativa, é que o
surgimento desses invasores do norte tenha ocorrido pouco antes
do início do período dinástico do Egito. Há evidências de que logo
antes de 3000 a.C. houve uma invasão no Egito e, pouco depois,
assim como em Eridu, foi instituído o reinado. Pela primeira vez, o
Alto e o Baixo Egito foram unidos sob comando de um só rei. Até a
invasão, as culturas neolíticas do Egito devem ter considerado suas
supremas deidades a Deusa Cobra do norte (Ua Zit) e a Deusa
Abutre do sul (Nekhebt), embora houvesse muitas outras deidades
locais em cada comunidade. Após a invasão, as duas Deusas foram
demovidas, mas continuaram a simbolizar as coroas reais do Baixo
e do Alto Egito, ambas usadas sobre a cabeça do rei – uma dentro
da outra.
M. E. L. Mallowan escreveu: “A dedução de ter havido na época
algum contato entre Egito e Suméria é confirmada pela presença de
selos do tipo de Jemdet Nasr.” No período Jemdet Nasr, da
Suméria, houve o assentamento de Nipur e, pode-se dizer, a
introdução de Enlil. Mallowan, considerando os métodos de
construção e estilo, também sugeriu que as tumbas da Primeira
Dinastia poderiam ter sido inspiradas pelos templos da
Mesopotâmia.
Discutindo esse mesmo período, Saggs relata que:
Há evidências abundantes da influência cultural da Mesopotâmia
nessa época no Egito. É significativo o fato de ocorrerem lá os selos
cilíndricos (invenção especificamente mesopotâmica) com métodos de
construção com tijolos, estranhos ao Egito, mas típicos da cultura
Jemdet Nasr. Também nesse tempo no Egito, objetos e motivos
mesopotâmicos são representados na arte, e um exemplo
impressionante é um barco do tipo mesopotâmico entalhado no cabo
de uma faca (...) ao passo que o princípio de se escrever (mas não a
técnica) certamente foi tomado da Mesopotâmia pelos egípcios.
Pode ser que as mesmas pessoas conhecidas como ubaidas na
Suméria tenham partido de lá durante o período Jemdet Nasr com a
chegada de novos grupos, e chegado ao Egito. Pinturas em antigas
tumbas dinásticas mostram uma armadilha para peixes na forma de
cesta cônica quase idêntica àquelas do povo de Ertebølle do norte
da Europa, descendentes diretos dos maglemosianos. No Egito, o
deus que assumiu o papel de pai da antiga Deusa Nut era chamado
Shu, Senhor Ar. Como já mencionei, no Egito o símbolo para o ar é
uma vela, enquanto o símbolo para a palavra deuses é uma série de
bandeiras ou fios de prumo que podem ser vistos como a proa de
um barco. A deidade masculina do Egito, que chegou com os
invasores, foi retratada como um deus do Sol guiando seu barco,
aliás, como Enki era conhecido, “aquele que veleja”.
O professor Walter Emery passou cerca de 45 anos escavando
as antigas tumbas e pirâmides do Egito. Discorrendo sobre a
chegada dessas pessoas, ele escreve:
Se essa incursão tomou a forma de infiltração gradual ou invasão
de hordas nômades é incerto, mas a comparação de evidências,
principalmente as fornecidas pelo entalhe em um cabo de faca em
marfim do sítio de Gebel-el-Arak e por pinturas nas paredes de uma
posterior tumba pré-dinástica em Hieraconópolis, indica o segundo
caso. No cabo da faca vemos um estilo artístico que alguns supõem
ser original da Mesopotâmia ou mesmo da Síria, e uma cena que
pode representar uma batalha marítima contra invasores, tema
também grosseiramente retratado na tumba em Hieraconópolis. Nas
duas representações, há embarcações típicas originárias do Egito e
estranhas naus com proa e curvatura de origem sem dúvida
mesopotâmica.
De qualquer modo, chegando ao fim do quarto milênio a.C.,
encontramos as pessoas tradicionalmente conhecidas como os
“Seguidores de Hórus” formando ao que parece uma aristocracia ou
raça dominante que governou todo o Egito. A teoria da existência
dessa raça é apoiada pela seguinte descoberta: os sepulcros do final
do período pré-dinástico na parte norte do Alto Egito continham
despojos anatômicos de um povo com crânios de tamanho maior e
corpos maiores do que os dos nativos. A diferença é tão marcante que
qualquer sugestão de que aquelas pessoas descenderam dos povos
anteriores é impossível.
Ele também descreve um cetro de um dos primeiros reis,
encabeçado por uma cena que retrata o rei construindo um canal,
aparentemente em meio às atividades de uma grande cerimônia, e
acrescenta que “há fortes evidências demonstrando que o
conquistador tentou legitimar sua posição tomando a princesa do
Norte como sua consorte”.
Os invasores desse período eram conhecidos pelos egípcios
como os Shemsu Hor – povo de Hor. Com o tempo, as tribos de Hor
tornaram Mênfis sua capital. Com sua chegada foi introduzida a
nova deidade masculina. Era chamado Hor-Wer – Grande Hor.
Escrevendo sobre as origens do personagem de Hor na mitologia
egípcia, Rudolf Anthes, professor de egiptologia, explica: “A época
era o início e o meio do terceiro milênio a.C., nos primórdios da
documentação da história, e as circunstâncias foram propiciadas
pelo estabelecimento do reinado no Egito.”
Em 2900 a.C. o deus Sol Hor-Wer é retratado navegando em seu
barco celestial. Podemos achar essa imagem conceitual do deus Sol
em seu barco navegando pelos céus são semelhantes às imagens
indo-europeias posteriores na Índia e na Grécia, onde o deus Sol
atravessou os céus guiando uma carruagem puxada por cavalos.
Segundo o professor Emery, o nome do primeiro rei da Primeira
Dinastia, conhecido como Narmer ou Menes na história escrita por
Manetão em 270 a.C., era na verdade Hor-Aha. Mas o nome Hor
parece ter sido incorporado à religião mais antiga da Deusa como “o
filho que morre”. Isso levou a muita confusão entre os dois Hor: um,
o deus da luz dos invasores, mais velho; e outro, o filho da Deusa
Ísis.
Hor (mais tarde conhecido como Hórus pelos gregos) foi descrito,
em vários textos, lutando num combate ritual com outra deidade
masculina conhecida como Set. Este geralmente é identificado
como tio ou irmão de Hor. A luta simbolizava a vitória de Hor sobre
Set – Hor sendo a luz e o bem, e Set, a escuridão e o mal. O dr. E.
Wallis Budge escreveu: “A luta que Hórus, o deus Sol, travou contra
a noite e a escuridão também foi identificada em um período muito
antigo como o combate entre Hórus, o filho de Ísis, e seu irmão Set.
(...) Originariamente, Set ou Sut representava a noite natural e era o
oposto de Hórus.”
Em sânscrito, a palavra sat significa destruir fazendo em
pedaços. No mito de Osíris, que é Hórus depois de morto (mas
também conhecido ao mesmo tempo como pai de Hórus), foi Set
quem matou Osíris e cortou seu corpo em catorze pedaços. Mas
pode ser significativo que a palavra set também seja definida como
“rainha” ou “princesa” em egípcio. Au Set, conhecida como Ísis
pelos gregos, é definida como “rainha excedente”. No mito do
combate, Set tenta se relacionar sexualmente com Hórus, o que é
interpretado como um insulto. Entretanto, a identidade mais primitiva
do personagem Set, que também tem estreita correspondência com
a serpente da escuridão Zet, muitas vezes mencionada pelos
escritores gregos como Tifão, a serpente da Deusa Gaia, pode já ter
sido feminina, ou de algum modo simbolizava a religião da Deusa,
talvez relacionada a Ua Zit, Grande Serpente, a Deusa Cobra dos
tempos neolíticos.
Os seguidores de Hor que invadiram o Egito neolítico instituíram
o reinado. Hor costumava ser simbolizado por um gavião ou falcão;
o nome Hórus do rei era sempre representado por um gavião. No Irã
indo-europeu, a palavra xvarnah queria dizer a legítima autoridade
real. Em um mito iraniano, esse xvarnah deixou seu dono e voou
para longe dele – na forma de um gavião.
Os Shemsu Hor aparecem em tempos remotos do Egito pré-
dinástico, e as informações sobre eles são esparsas. Poderiam, no
entanto, em algum momento terem sido relacionados com os povos
mais tarde conhecidos como hurritas ou horitas, primeiro morando
no norte do Irã, depois na Suméria, e finalmente se tornando os
Shemsu Hor do Egito?
Por volta da Segunda Dinastia, a cidade de Heliópolis (chamada
pelos egípcios de Annu), cerca de 16 quilômetros ao norte de
Mênfis, tornou-se a sede de uma escola de sacerdotes escribas que
também adoravam um deus Sol que guiava um barco. Nessa cidade
eles lhe davam o nome de Rá, que em sânscrito, significa real ou
exaltado nas alturas. Esse prefixo é encontrado nas palavras
sânscritas para rei, raja, e para rainha, rani. Sobrevive na palavra
alemã ragen, alçar, na francesa roi, que significa rei, bem como nas
palavras em inglês royal, real, reign, reinar, e regal, régio.
Nos Textos das Pirâmides da Quinta Dinastia (cerca de 2400
a.C.), Hórus era igualado a Rá e os dois eram estreitamente
conectados, às vezes de modo competitivo, com o direito ao
reinado. Como Ra-Horakhty, Rá é idêntico a Hórus do Horizonte,
ambos significando o sol nascente. Rá também é retratado como
Sol que atravessa os céus em seu barco sagrado. Por que um barco
nos céus? Teria sido porque os homens que trouxeram a ideia de
um deus de luz tivessem de fato chegado em barcos? Diziam que o
barco de Rá tinha emergido das águas primevas, bem parecido com
Enki guiando seu barco nas águas profundas de Abzu em Eridu, ou
com o deus Sol indo-ariano emergindo das águas cósmicas. Como
no mito indo-europeu hitita do deus Sol na água, emergindo do mar
com um peixe na cabeça, Rá também surgia assim das águas a
cada manhã.
Como deus Sol, Rá era conhecido como o “brilhante”, o
“antecessor da luz”, “o senhor da luz”. E mais uma vez encontramos
o mito do dragão, tão sugestivo da religião ariana. Diariamente, Rá
lutava com a serpente da escuridão conhecida como Zet, depois
chamada de Apófis. O motivo de a tarefa de nascer ser considerada
tão difícil para o Sol, especialmente no clima do Egito, é um enigma.
Seria mais fácil entender esse tipo de pensamento como originário
do norte da Europa. Mas a escuridão da noite era vista como uma
potência a ser vencida diariamente, assim como o indo-ariano
Varuna precisava realizar sacrifícios diários para trazer o Sol para
fora do profundo espaço escuro sob a terra.
Como o nome de Hórus foi assimilado na religião da Deusa como
filho de Ísis, as sacerdotisas de Mênfis propuseram outro conceito
para o grande deus pai: Ptá, curiosamente parecido com o sânscrito
Pitar. Os textos a respeito dele descrevem a criação de toda a
existência, sugerindo que Ptá estava lá antes. Dessa vez se conta
que, por meio de um ato de masturbação, Ptá fez com que todos os
outros deuses viessem a existir, dessa maneira eliminando a
necessidade de uma ancestral divina.
Apesar das invasões de deidades masculinas que substituíram
as Deusas Cobra e Abutre como supremas deidades do Egito,
descobrimos que o conceito da Deusa estava longe de ser
esquecido. Os antigos egípcios, tão adeptos à incorporação de
novas deidades em sua religião (por vezes ao ponto de ser
desanimadora a miríade de nomes e o entrelace de mitos), parecem
ter assimilado as deidades masculinas dos invasores, sintetizando a
religião em várias formas novas. A julgar pela longa permanência
dos padrões de descendência matrilinear nos períodos históricos, os
egípcios provavelmente assimilaram também os invasores, embora
muitos tenham ficado na casa da realeza.
A natureza da Deusa Cobra, Ua Zit, foi mantida em outras
deidades femininas posteriores. Uma é a Deusa conhecida como
Hat-Hor, literalmente a Casa de Hor. Ela é simbolizada por uma
vaca que traz a cobra na testa. Mas um texto A descreve como a
serpente primeva, a primeira a criar o mundo. Au Set, retratada na
forma humana, também tinha uma cobra na testa. O nome Au Set
parece ter derivado de Ua Zit.
A Deusa egípcia conhecida por Maat é uma figura
interessantíssima. Maat simbolizava a ordem do universo, tudo que
era correto e bom. Dependendo da localização dos textos, Ela
passou a ser conhecida como o Olho de Hórus, Olho de Rá ou Olho
de Ptá. Olho em egípcio é uzait, mais uma palavra muito
semelhante a Ua Zit. Mas no grego indo-europeu a palavra para
olho é mati. Maat era a corporificação da antiga cobra do ornamento
na testa, o ureu. Aparentemente, Maat tivera permissão de manter
as qualidades e natureza Dela contanto que ficasse na posse de
uma das deidades masculinas. O professor Anthes escreve:
“Enquanto o rei vivesse, o ureu era guardado pela magia do rei,
como expressam os Textos das Pirâmides. Porém, quando ele
morresse, a víbora venenosa escaparia, a não ser que a levassem
presa.”
Isso indica que a lei e a ordem, na percepção dos seguidores de
Hor, Rá ou Ptá, só eram possíveis enquanto a Deusa Cobra fosse
controlada pelo rei. A estranha combinação de qualidades atribuídas
à cobra do ureu, então conhecida como Maat – visão máxima e
caos perigoso, talvez rebelde –, sugere que ela simbolizava para os
reis do Egito a sociedade de adoradores da Deusa que Ela
originalmente representava.
Uma referência nos Textos da Pirâmide da Quinta Dinastia vem
intrigando há muito tempo os estudantes da antiga cultura egípcia. É
o relato de que nos tempos antigos foram sacrificados homens no
sepulcro de Osíris – homens de cabelo vermelho. Se os Shemsu
Hor tivessem relação com as pessoas que posteriormente
reconhecemos como indo-europeus ou hurritas, a referência fica
mais plausível.
A questão de se os povos do período Ubaid de Eridu, os povos
do período Jemdet Nasr de Nipur ou os Shemsu Hor do Egito eram
na verdade grupos dos primeiros indo-europeus, ou povos
estreitamente relacionados das áreas do Cáucaso e Urartu, ainda é
uma especulação hipotética, pelo menos até que mais pesquisas
sejam conduzidas. O fato é que esses grupos trouxeram a adoração
da deidade masculina ao entrarem nas terras dos povos que
consideravam a Deusa sagrada, e tanto os ubaidas como os
Shemsu Hor podem ter criado o conceito de reinado, enquanto os
povos de Jemdet Nasr em Nipur e Quis o reviveram.
Os hititas – “a criação de uma casta exclusiva”
Voltando aos períodos das invasões indo-europeias mais
atestados historicamente, acredita-se que os hititas tenham entrado
na Anatólia vindos da região do Cáucaso em torno de 2200 a.C.,
embora haja exemplos anteriores de chegadas dessas mesmas
pessoas, em grupos menores.
De acordo com o professor Gurney, o “exame dos crânios
encontrados em vários sítios na Anatólia demonstra que no terceiro
milênio a.C. era preponderante na população o crânio alongado ou
dolicocéfalo [mediterrânico], com apenas uma pequena mistura de
tipos braquicéfalos [alpinos]. No segundo milênio, a proporção de
crânios braquicéfalos aumentou para cerca de 50%”.
Foram essas pessoas braquicéfalas ou alpinas que finalmente
ficaram conhecidas como a classe governante do Império Hitita.
Antes de sua chegada, os habitantes da terra eram chamados de o
povo de Hati. Na verdade, foi por causa do nome Hati que aquelas
pessoas foram denominadas hititas pelos primeiros acadêmicos,
que ainda não sabiam que o reino hitita era composto de dois
grupos de pessoas bem distintos. Uma complicação adicional foi o
fato de vários reis hititas assumirem o nome Hattusili e os invasores
nomearem a capital Hatusa, talvez para se identificarem com o povo
do lugar. Agora fica mais claro que os habitantes originais das terras
se tornaram a classe subserviente ou conquistada, ao passo que os
indo-europeus assumiram os papéis da realeza e liderança, assim
como os Shemsu Hor fizeram no Egito e os arianos historicamente
atestados fizeram na Índia; os hurritas de Mitani entre os cassitas e
depois na Grécia e em Roma.
“O estado hitita”, diz Gurney, “firmou-se na criação de uma casta
exclusiva imposta à população nativa do país (...) um grupo de
imigrantes indo-europeus tornou-se dominante sobre uma raça
aborígene de hatitas”. O professor Saggs conta que “após um
período de confusão em resultado da incursão de invasores indo-
europeus na região do rio Hális, um de seus príncipes, um certo
Labarna, construiu para si um reino que, segundo a tradição hitita,
rapidamente foi ampliado por meio de missões militares bem-
sucedidas até que sua fronteira fosse o mar”. Saggs concorda com
Gurney, afirmando que “no reino hitita daquele tempo o governo era
essencialmente restrito a uma casta nobre e fechada, que
controlava a população nativa e exercia com exclusividade as
atividades militares e de administração central do estado”.
Os indo-europeus, com bigas puxadas por cavalos e armas de
ferro, assim como porte físico mais avantajado (ainda mais
enfatizado pelos chapéus cônicos que deviam ter cerca de 45 a 60
centímetros de altura), possuíam uma supremacia militar jamais
vista antes. O veículo com rodas aparece nas culturas de
adoradores da Deusa no período Halafe, mas até a chegada de
hititas e hurritas, vagões e carroças eram atrelados apenas a
jumentos, basicamente para transporte de pessoas e produtos.
Somente após o advento dos guerreiros maryannu indo-europeus é
que passaram a usar cavalos, e as bigas de guerra puxadas por
esses animais foram introduzidas no Oriente Próximo. Nas
descrições do Rigueveda, essas bigas eram puxadas por uma
parelha de cavalos e conduzida por dois homens. Afirma-se que, em
alguma época no segundo milênio a.C., os hititas descobriram o
processo de mineração e fundição do ferro, embora tenha sido
encontrada uma adaga de ferro em uma sepultura de
aproximadamente 2500 a.C. Em comparação com o cobre, o ouro e
o bronze das culturas da Deusa, o ferro obviamente fornecia
armamento mais “eficiente”. A palavra em inglês para ferro, iron,
pode corresponder à palavra ariano, pela estreita associação com
aquele povo que conseguiu manter o processo em segredo por
muitos séculos. Os egípcios neolíticos tinham usado ferro de
meteoritos, a que chamavam de “metal do céu”. Talvez tenha sido
essa associação dos arianos com o ferro, embora cientificamente
atestado como ferro terrestre, que originou as lendas sugerindo
suas origens celestiais e a ideia de reinado descido dos céus.
Juntando o monopólio das armas de ferro e a velocidade e potência
das bigas a cavalo nas guerras (e provavelmente os efeitos
intimidadores sobre um povo urbano pacífico), os invasores indo-
europeus possuíam um poder militar desconhecido no Oriente
Próximo até então.
Os hatitas conquistados devem ter sido rigorosamente mantidos
na linha por medo dessa casta guerreira bem armada que
governava seu país. Uma lei hitita declarava: “Se qualquer um se
opuser ao julgamento do rei, sua casa deverá ficar em ruínas; se
qualquer um se opuser ao julgamento de um dignitário, sua cabeça
deverá ser cortada.”
Antes das invasões, os hititas ainda não tinham desenvolvido
uma linguagem escrita, ou pelo menos não uma que fosse usada
para registrar mitos e literatura. (Realmente apareceram hieróglifos
hititas, que discutirei mais adiante.) Com sua chegada e o contato
com o povo acadiano, eles começaram a usar o alfabeto cuneiforme
acadiano, baseado na escrita dos sumérios. Embora os hititas de
fato usassem a língua acadiana para escrever muitos de seus mitos,
sua própria linguagem também foi transferida para a maneira
acadiana de escrever. É essa língua hitita que aparece como uma
das primeiras formas de fala dos indo-europeus. Nos primeiros
tempos históricos, essa linguagem é estreitamente associada ao
sânscrito, latim e grego. Já nos tempos atuais, encontramos
relações com alemão, francês, inglês, dinamarquês e quase todos
os outros idiomas europeus.
Gurney relata: “A descoberta de que o hitita tinha afinidades com
as línguas indo-europeias foi feita pelo acadêmico tcheco B. Hrozny
e publicada em 1915. A sugestão de que uma língua indo-europeia
era falada pela população da Ásia Menor no segundo milênio antes
de Cristo foi tão impressionante que de início foi recebida com
grande ceticismo.” Ele prossegue dizendo que depois foi provada de
forma incontestável.
Os hatitas originais, que podem ter se relacionado com os povos
muito mais antigos de adoradores da Deusa em Çatal Hüyük, cerca
de 200 quilômetros ao sul da capital hitita Hatusa, também parecem
ter considerado a Deusa como sua deidade suprema. Deusas como
HannaHanna, Hepat, Kupapa e a Grande Deusa do Sol de Arina,
todas parecem ter sobrevivido da antiga religião hatita. Em vários
textos, a Deusa era simplesmente chamada de O Trono, título
associado a Ísis no Egito.
Apesar das evidências em textos de que os hititas adoravam
Indra, Mitra e Varuna, ainda não foram descobertos mitos e relatos
hititas sobre essas deidades. Deuses de tempestades nas
montanhas foram introduzidos pelos hititas, e nos escritos da
Anatólia hitita somos brindados com algumas das atitudes em
relação a essas novas deidades masculinas. Nas inscrições do rei
Anita, um dos primeiros reis hititas, o deus da tempestade Taru é
mencionado como a deidade suprema. No entanto, séculos depois
na cidade de Arina, ainda não localizada, mas que se dizia estar a
um dia de viagem de Hatusa, a história é diferente. A partir dos
textos de Boghazkoy, Gurney observa: “Em Arina a principal
deidade parece ser a Deusa do Sol, Wurusemu; seu consorte Taru,
o deus do Clima, fica em segundo lugar, e há filhas, chamadas
Mezulla e Hulla, e até uma neta, Zintuhi.”
Alguns textos descrevem os rituais observados por uma série de
rainhas hititas para a Deusa do Sol de Arina, revelando que a rainha
também tinha o papel de alta sacerdotisa da Deusa. Como já
mencionei, esse estreito relacionamento das rainhas hititas com a
Deusa do Sol sugere que em algum momento os indo-europeus
invasores devem ter tido aceitação popular e legitimidade ao trono
pelo casamento com sacerdotisas hatitas, que podem ter mantido o
direito ao trono graças à descendência matrilinear. Gurney explicou
que os reis arianos mantinham os antigos templos hatitas “e ao
mesmo tempo assumiam para si próprios o ofício de alto sacerdote
supremo do reino”.
Mais uma vez, encontramos o mito da derrota do dragão. O rei
hitita Mursil II escreveu que precisava celebrar os festivais do deus
da tempestade em várias cidades. Na mesma carta, ele se referia
ao maior festival dessa natureza sendo celebrado na capital Hatusa,
no mausoléu da Deusa conhecida como Lelwani. Nesses festivais,
um combate ritual era recitado ou representado, talvez muito
parecido com o de Hor contra Set no Egito. Esse combate era entre
o deus da tempestade e o dragão Illuyanka. Parece que Mursil,
como rei, pode até ter atuado no drama, possivelmente como o deus
da tempestade. Mas o outro personagem envolvido na história, um
jovem chamado Hupisayas que, por ter dormido com a Deusa
conhecida como Inara, ganhou força suficiente para ajudar o deus
da tempestade a derrotar o dragão, parece um papel mais provável.
A estória de Hupisayas ganhando força por fazer amor com a Deusa
pode ter sido representada por uma união sexual sagrada anual,
semelhante às descritas nos textos da Suméria e da Babilônia, que
serão explicadas mais profundamente no Capítulo 6. Naqueles
países, o rei fazia o papel de filho/amante da alta sacerdotisa da
Deusa, que então lhe concedia os direitos ao reinado. Se é assim,
novamente se sugere que os primeiros reis indo-europeus podem
ter representado esse papel com sacerdotisas hatitas para legitimar
sua posição. O nome do dragão Illuyankas pode estar relacionado à
Deusa Lelwani. No final, o dragão foi morto, como a Deusa Tiamat,
simbolizada por um dragão, foi morta por Marduque. Será
coincidência que o festival tenha acontecido não no templo de
Lelwani, mas em Seu mausoléu?
O nome do deus hitita Taru algumas vezes é relacionado à
palavra hitita tarh, conquistar. Em sânscrito, a palavra tura significa
poderoso, enquanto que na Índia, Tura Shah era outro nome para
Indra. Essa palavra pode ter sobrevivido nas palavras taurus e toros,
um touro. Mas também pode ser ligada a montanhas, como Hor, Hur
ou Hara. Além do fato de que uma das grandes serras da Anatólia
se chama montanhas Toros e um de seus picos mais altos é o
monte Toros, encontramos na língua indo-europeia celta a palavra
tor para cume rochoso, e em alemão türm é torre, que em inglês é
tower. Esse nome aparece como o do deus etrusco da tempestade
Tarcão e pode estar de algum modo associado ao famoso deus
viking da tempestade Thor.
Os hititas entraram em frequentes conflitos com os exércitos
egípcios, ambos tentando ganhar o controle de Canaã (área hoje
conhecida como partes da Síria, do Líbano e de Israel [Palestina]). É
possível que, em resultado desses conflitos, em um esforço de
pacificação ou talvez de infiltração, princesas hititas, hurritas e
cassitas foram enviadas para se tornarem esposas de reis egípcios
na Décima Oitava Dinastia (1570-1300 a.C.) durante várias
gerações. Alguns especialistas no assunto acham que as rainhas Tí
e Nefertiti, respectivamente mãe e esposa do rei revolucionário
Aquenáton, descendiam de hititas ou hurritas. Caso isso seja
verdade, poderia explicar a revolução religiosa em torno de 1350
a.C., que fez Aquenáton mudar sua capital para El Amarna,
rejeitando todas as deidades exceto Rá, o disco solar, que ele
chamou de Aton. Se os casamentos foram tentativas de infiltração,
funcionaram, pois Aquenáton, supostamente tão interessado em
suas atividades religiosas, ignorou suas colônias e seus aliados em
Canaã, o que permitiu aos hititas e hurritas ganharem o controle.
Outro dado curioso foi uma carta recebida por um rei hitita logo
depois das mortes de Aquenáton e seu filho e genro Tutancámon.
Há dúvidas se foi enviada por Nefertiti ou sua filha Anquesenamon.
Na carta, ela se identifica como Rainha do Egito e pede ao rei hitita
para enviar-lhe um de seus filhos para ser seu marido.
Os hititas, assim como outras nações governadas por indo-
europeus, estavam continuamente envolvidos em guerras e política
internacional. No tempo do rei Mursil, os hititas atacaram a Babilônia
aproximadamente em 1610 a.C., mas quando este foi assassinado,
os cassitas tomaram as rédeas do governo. A partir dessa mesma
época, o estado hurrita de Mitani controlou a Assíria por vários
séculos, enquanto os cassitas conquistaram as antigas cidades
sumérias de Ur e Uruque.
Do século XX ao XVI a.C., a arqueologia em Canaã mostra
constantes perturbações nomádicas. Isso geralmente se atribui a
batalhas locais entre nômades. Contudo, o professor Albright, que
descreve a entrada dos indo-europeus em Canaã como um
“movimento migratório”, conta que “no século XV a.C. nobres e
príncipes indo-arianos e horitas estavam estabelecidos em quase
toda parte”. Raramente se sugere que as “perturbações nomádicas”
podem ser resultado das invasões originais dessas tribos indo-
arianas e horitas, entrando no país e batalhando até serem
finalmente aceitas como governantes. Descrevendo cartas
encontradas nos arquivos de Aquenáton em El Amarna, Werner
Keller escreve: “Embora possa parecer extraordinário, um terço
desses nobres correspondentes de Canaã tem ancestralidade indo-
ariana.”
O nome Baal, que foi usado para o consorte masculino da Deusa
em Ugarit, Canaã, no século XIV a.C., e para o consorte de Astarote
no período bíblico no sul de Canaã depois de Moisés (por volta de
1250-586 a.C.), também pode ter suas origens na linguagem indo-
europeia. No século XIV a.C., grande parte da população de Ugarit
era hurrita. Os textos hititas e hurritas usavam o mesmo símbolo
para Baal que os acadianos. Em sânscrito bala significa quase o
mesmo que tura, ou seja, touro e poderoso ou potente. É usado
especialmente em conjunção com tropas de exército, o que pode
explicar o duplo papel de Baal. Possivelmente como o deus da
tempestade indo-europeu em Ugarit, ele é o senhor do monte
Hérmon [Saphon] pedindo à Deusa Anate que fosse construído um
templo apropriado para ele. O monte Hérmon também é
mencionado no mito hurrita de Kumarbi. Nos tempos clássicos, foi
conhecido como monte Cásio e descrito como a localização da
batalha entre Zeus e a serpente Tifão que, segundo a lenda grega,
nasceu numa caverna de montanha na Cilícia, Anatólia, onde sofreu
o primeiro ataque de Zeus. Pode ser significativo que a montanha
vulcânica ao norte do lago Van ainda seja conhecida como monte
Süphan, embora o monte Hérmon de Baal seja geralmente descrito
como o Saphon perto de Ugarit (hoje Jebel Aqra). Assim como Hor
se tornou o nome usado para o filho da Deusa Ísis no Egito, o nome
Baal parece ter sido usado para substituir o nome Tamuz como
consorte da Deusa, embora o nome Tamuz continuasse a ser usado
até 620 d.C. em Jerusalém.
Outra deidade masculina de Ugarit, conhecida como El, é
considerado o consorte da Deusa Aserá e pode ter feito parte da
religião da Deusa dos tempos mais antigos. Mas devemos suspeitar
novamente da natureza de El em Ugarit, pois os textos de lá
constantemente se referem a ele como Thor-El, indicando também
seus laços com o deus da tempestade indo-europeu.
Luvitas, louvitas ou luvischen
Perto do território hitita na Anatólia existiu outro grupo de indo-
europeus, conhecido como luvitas ou lúvios, dependendo da
tradução. Alguns luvitas viveram logo ao sul dos hititas, na região
conhecida como Cilícia, perto dos montes Tauro. É quase a mesma
área onde a cultura de adoradores da Deusa de Çatal Hüyük
florescera. Por muito tempo, os luvitas foram considerados parte da
nação hitita e somente há poucas décadas foi esclarecida sua
existência como um grupo separado.
Muito pouco se sabe sobre eles, exceto que eram autores de
palavras pictóricas apresentadas em monumentos reais e em alguns
poucos textos, e por muito tempo referidas como hieróglifos hititas.
Esses hieróglifos têm sido extremamente difíceis de se decifrar, e
até hoje muitos permanecem um mistério.
Várias datas são atribuídas à entrada dos luvitas na Anatólia.
Albright escreve: “Os luvitas ocuparam a maior parte da Ásia Menor
antes do começo do terceiro milênio a.C.” R. A. Crossland, em
Cambridge Ancient History, sugere uma data posterior, afirmando
que “a dedução de que os luvitas ocorriam no oeste da Anatólia a
partir de 2300 a.C. não é improvável em si”. O professor Lloyd
concorda com Crossland e diz que “em torno de 2300 a.C., uma
grande leva de povos indo-europeus, falando um dialeto conhecido
como luvita, parece ter se espalhado pela Anatólia. (...) Sua
progressão foi marcada por ampla destruição”.
Alguns acadêmicos alegam que o luvita é arcaico em
comparação com o hitita. O nome luvita nos chega por meio de
textos hititas que se referiam à terra onde viviam essas pessoas
como Luviya, e sua língua como luvili. Assim como as pessoas de
Hati foram chamadas de hititas e os hurritas às vezes chamados de
horitas, esse povo pode ter sido chamado de luwitas ou luvitas.
Arqueólogos franceses se referem a eles como louvitas. Os alemães
os chamam de Luvischen. O nome verdadeiro pode ser um fator
significativo, como explicarei no próximo capítulo.
Os experts em linguística descrevem luvili como uma língua indo-
europeia, estreitamente relacionada à hitita. Somente à medida que
os hieróglifos daquelas pessoas vão sendo gradualmente traduzidos
é que passamos a aprender um pouco sobre elas. Hans Güterbock,
professor de Hititologia, escreveu em 1961: “Precisamos presumir
que também os luvitas suplantaram uma população que falava outra
língua, mas esse substrato ainda permanece desconhecido e não
nomeado. A língua escrita com os chamados hieróglifos hititas nada
mais é do que um dialeto luvita.”
Devido aos problemas de se decifrar os hieróglifos, o mau estado
do que já foi encontrado até o momento e as limitações de material
em si, pouco ainda se sabe da religião luvita. Sabemos que a
principal deidade era o deus da tempestade, chamado de um nome
bem parecido com o do deus hitita Taru. Em luvita, ele era
conhecido como Tarhund, Tarhunta ou Tarhuis. Güterbock conta que
ainda não foi encontrado nenhum material mitológico nos hieróglifos,
e que eles têm na maioria um caráter votivo. A estes ele se refere
como do “tipo mágico”, “encantamentos e feitiços inseridos em
textos rituais”. Essa prevalência de material religioso em seus
próprios hieróglifos arcaicos, enquanto havia outros tipos de escrita
prontamente à mão, sugere que os luvitas, talvez muito similares
aos brâmanes na Índia ou aos escribas sacerdotais de Rá em Annu,
no Egito, também podem ter sido uma casta sacerdotal. Outras
indicações que podem afirmar essa possibilidade incluem o fato de
que as escolas de escribas que produziam mitos na língua hurrita,
hitita e acádia devem ter se localizado no território luvita de
Quizuatena.
Güterbock observa que “Quizuatena, a região no sudeste da
Anatólia, incluindo a planície da Cilícia, era a província hitita onde as
escolas hurritas de escribas devem ter florescido da forma mais
proeminente”. Ele faz essa indicação baseado no fato de que há
muitas palavras tomadas da língua luvita em textos escritos na
língua hitita, mas que tratam de mitos hurritas. Contudo, é
igualmente possível que os próprios luvitas fizessem essas
traduções.
Pouco se pode afirmar sobre os luvitas enquanto não surgirem
interpretações adicionais dos hieróglifos ou não descobrirem mais
materiais. Mas o papel deles na história da religião deve ter sido
extraordinário, como explicarei no próximo capítulo, que prossegue
com nossa análise das culturas patriarcais que acabaram por
destruir a religião da Deusa.
CAPÍTULO 5
Um da mesma raça deles
Por mais improvável que pareça, o próximo grupo que possui
conexões com os indo-europeus que veremos aqui é o dos hebreus.
Como diz George Mendenhall: “Israel Antigo não pode mais ser
tratado como um objeto de estudo isolado e independente; sua
história está inseparavelmente ligada à história antiga oriental, seja
nossa abordagem de caráter religioso, político ou cultural.”
Mendenhall comenta também que “hipóteses são básicas para
pesquisas sólidas e eminentemente práticas; são construídas, não
como substitutas de fatos, mas para sugerir possibilidades e guiar
futuras observações”. É no espírito dessa atitude que espero que
entendam o que vou dizer agora.
Abraão, pai das tribos hebraicas, primeiro profeta do deus hebreu
Iavé, pode ter sido relacionado, ou profundamente influenciado pelo
conclave dos indo-europeus que viviam na cidade de seus parentes,
Harã. É possível que o nome do Deus judaico-cristão, conhecido no
Velho Testamento como Iavé, embora mais familiar a nós como
Jeová, seja originalmente derivado da palavra sânscrita yahveh, que
significa transbordante. O próprio nome Abraão pode estar
relacionado com o nome da casta sacerdotal ariana na Índia, os
brâmanes, e as atitudes patriarcais dos hebreus podem ter sido
formadas, não em um vácuo cultural, como se supõe, mas por suas
conexões com os invasores do norte, de orientação masculina.
Sem dúvidas, nunca se pensou no povo hebreu como indo-
europeu, e na época em que se instalaram em Canaã, após a
temporada no Egito, a maioria deles deve ter sido semítica.
Contudo, há um grupo que se mantém afastado dos hebreus, mas é
considerado como uma de suas tribos: os levitas sacerdotais. Essa
é de fato a hipótese mais controversa já sugerida, mas, mesmo
correndo o risco de sofrer avassaladoras reações religiosas,
emocionais e acadêmicas, sugiro que os levitas possam estar
relacionados de algum modo com os indo-europeus, principalmente
os luwianos, luvianos, luwitas ou luvitas, de acordo com as várias
traduções. Apesar da aceitação quase universal da crença de que
os hebreus foram sempre um povo totalmente semítico, há
estranhas peças de evidência sugerindo que suas conexões com os
indo-europeus deveriam pelo menos ser consideradas nesse
contexto.
Antes de nos aprofundarmos, é importante notar que os mais
antigos textos existentes do Velho Testamento em hebreu foram
encontrados recentemente em Qumran, que datam de dois ou três
séculos antes de Cristo. Antes dessas descobertas, a versão mais
antiga era uma tradução grega da mesma época. O mais antigo
texto hebreu disponível antes das descobertas em Qumran é de
cerca do século X d.C. A julgar pelo vocabulário, a estrutura de
linguagem e os nomes de lugares e pessoas, acredita-se que parte
do Velho Testamento, conhecida como fonte javista, foi escrita em
cerca de 1000 a.C., enquanto outras seções, conhecidas como
sacerdotais, foram escritas em cerca de 600 a.C.
Devemos também levar em conta que a Bíblia, tal como a
conhecemos, é o resultado de muitas mudanças através dos
séculos, um fator que põe em evidência suas passagens
contraditórias. O professor Edward Chiera observa:
No caso da Bíblia, além do processo de expansão que abrange
todos os produtos literários da antiguidade, havia outra tendência, e
contrária, ou seja, a invejosa censura por parte do sacerdote que não
queria que o livro contivesse episódios ou explanações que pudessem
discordar de sua própria concepção, ou do deus, ou do que serviria
para ser incorporado na história dos fundadores da raça, e que
piedosamente, mas mesmo assim implacavelmente, eliminou tudo o
que não aprovava.
George Widengren, professor de línguas orientais na
Universidade de Uppsala, na Suécia, também escreve que não
“devemos perder de vista o fato de que o Velho Testamento, como
nos foi transmitido no Cânon Judaico, é apenas uma parte – e
sequer sabemos se é a maior delas – da literatura nacional de
Israel. Além disso, essa parte preservada tinha muitas passagens
obviamente expostas a censura e, portanto, removidas”.
Indo-europeus no livro do Gênesis
Em geral, os estudiosos da Bíblia situam Abraão entre 1800 e
1700 a.C. aproximadamente. Mas muitos dos mesmos estudiosos
colocam Moisés em torno de 1300 ou 1250 a.C. Entretanto, se
traçarmos cuidadosamente as gerações que constam na Bíblia,
veremos que há apenas sete gerações no intervalo, incluindo as
duas figuras patriarcais. Quinhentos ou quatrocentos anos parecem
muito tempo para sete gerações. Como as datas de Moisés são
baseadas em evidências mais históricas e conduzem mais
diretamente aos relatos mais históricos de Saul, Davi e Salomão, eu
situaria Abraão em torno de 1550 a.C. Mesmo colocando Moisés em
1300 a.C., ainda assim seriam mais de 40 anos entre cada geração,
o que é mais provável do que os 60 ou 70 anos que outras datas
sugerem. Usando essa mesma listagem bíblica de gerações, sem
supor omissão de nomes e considerando 35 a 40 anos para cada
geração, vemos que até a figura primeva de Noé, de apenas dez
gerações antes de Abraão, seria datada em cerca de 2000-1900
a.C., bem na época da chegada dos indo-europeus ao Oriente
Próximo.
O Velho Testamento nos diz que Abraão tinha vivido em Ur, dos
Caldeus. É geralmente aceito que seria a cidade de Ur, na Suméria,
cerca de oito quilômetros de Eridu. Todavia, depois da primeira
menção a Ur, Harã é continuamente referida como a terra de
Abraão, a terra de seus parentes e da casa de seus pais. A Bíblia
diz que, depois de deixar Ur, “quando chegaram a Harã, se
instalaram lá” (Gênesis 11:32). Mas uma vez em Harã, “O Senhor
disse a Abraão: deixe seu país, seus parentes e a casa de seu
pai...” (Gênesis 12:1). Alguns estudiosos da Bíblia sugeriram que, já
que nesse tempo havia cidades com nomes como Urkish, Uruque,
Ura, Urfa e outros (“ur” significa velha ou grande), uma dessas
poderia ser a Ur da Bíblia. Embora Harã não pareça ser sua
verdadeira terra natal e a cidade de seus parentes, essa conexão
traz tantas evidências nas histórias de Isaac e Jacó que podemos
conjeturar se Abraão ou sua família tinham se mudado de Harã para
Ur algum tempo antes. Sabemos que havia hurritas em Nipur em
2300 a.C. Em todo caso, a Bíblia diz que Abraão se mudou de Ur
para Harã com sua esposa e família.
As informações sobre as invasões indo-europeias deixam
evidente que mesmo em 1800 a.C. muitos hurritas haviam se
mudado para a área que veio a ser conhecida como Mitani. Harã
estava localizada bem no centro daquele reino. O nome da cidade
resulta provavelmente de sua posição nos territórios hurritas. Não é
longe dos primeiros assentamentos de Urkish, o que é datado de
cerca de 2400 a.C. As relações de Abraão com essa cidade podem
ser indicadas também pelos nomes de seus parentes. Seu avô e um
irmão se chamavam Na Hor. Seu outro irmão se chamava Harã.
Em toda a Bíblia, mas principalmente em Gênesis, há referências
aos povos hititas e horitas, alguns intimamente associados à família
de Abraão. Lemos em Gênesis 23:6 que mais tarde, quando Abraão
estava em Canaã, ele precisava de um lugar para enterrar sua
esposa, Sara. Para enterrar os mortos, as pessoas tentavam
encontrar um terreno consagrado, ou pelo menos familiar. Portanto,
é talvez curioso que Abraão tenha requerido ao hitita Efron o uso da
terra para o enterro de Sara. Mais surpreendente ainda foi a
resposta de Efron quando Abraão se ofereceu para pagar pela terra.
“Você é um príncipe poderoso entre nós”, disse o hitita. “Enterre
seus mortos em nossa melhor sepultura.” Esse mesmo enredo
sobre terra no território hitita foi repetido quando Abraão morreu. Até
seu neto Jacó, antes de morrer no Egito, pediu que seus filhos
levassem seu corpo de volta a Canaã para ser enterrado na terra
que Abraão comprara de Efron, o hitita.
O filho de Abraão era Isaac. Isaac teve dois filhos, Jacó e Esaú.
Quando chegou a hora de escolher uma esposa para Isaac, Abraão
enviou seu servo de volta a Harã para encontrar a filha de Na Hor,
irmão de Abraão. E mais uma vez, quando Jacó se casou, foi a neta
de Na Hor a escolhida, também de Harã. Esaú teve duas esposas,
uma era filha do hitita Elon, e a outra do horita Zibeão. Esaú depois
se mudou com a família para uma área em Canaã conhecida na
Bíblia como “monte Seir, a terra dos horitas”. Nas listas de gerações
(genealogias), que abundam nos escritos bíblicos, temos a lista dos
descendentes de Esaú, mas estranhamente eles nos brindam
também com uma lista dos descendentes de Seir, o horita, avô da
esposa de Esaú.
A maioria das conexões com os hititas e horitas ocorre em
Gênesis, o primeiro livro da Bíblia. Mais tarde, no Livro de Ezequiel,
lemos duas vezes uma reprimenda ao povo de Israel quando
Ezequiel diz: “Seu pai era amorita, sua mãe era hitita.” Isso pode
sugerir que era Sara, que era indo-europeia, ou a própria mãe de
Abraão, notável por sua ausência no Livro dos Gênesis. Não há
provas conclusivas das conexões exatas, mas é preciso levar em
conta a repetida associação da família de Abraão com povos e
lugares que sabemos ser ligados aos reinos indo-europeus, no
tempo exato de sua existência.
Algumas conexões
Outra similaridade interessante é o costume hebreu do
casamento levirato, isto é, a lei pela qual a viúva de um homem é
destinada ao irmão do falecido ou, se ele não tiver irmãos, ela se
casará com o sogro. O professor Gordon escreve que este “dado é
comprovado na Índia antiga e surge no Oriente Próximo apenas na
esteira das invasões indo-europeias, e ao que parece foi
introduzido, ou pelo menos popularizado, pelos indo-europeus”. O
professor Gurney também discute esse costume do casamento
levirato entre os hititas, e comenta: “A lei é notavelmente similar à lei
hebraica do casamento levirato.” Algo tão próximo de casa, como o
conceito de casamento levirato, não devia ser um costume adotado
superficialmente, e é provável que tivesse origens profundas nas
sociedades em que era praticado.
O professor Gordon destacou há muito tempo a íntima relação
entre os indo-europeus e os povos hebreus em termos de literatura,
linguística e costumes. Embora não apresente uma relação tão
íntima como a que estou sugerindo, ele diz: “Agora podemos
depreender por que foram os hebreus e os gregos que primeiro
surgiram como historiadores no ocidente. Ambos começaram a
carreira historiográfica a partir do substrato hitita.” Robert Graves
também sugere uma estreita relação entre os conceitos e a literatura
dos hebreus e dos gregos indo-europeus, mesmo defendendo sua
posição ao comentar que ele não é um “israelita britânico”.
Como já mencionei, os hebreus também mantiveram a lembrança
do mito de uma batalha entre Iavé e a serpente Leviatã, embora a
maior parte possa ter sido removida, possivelmente na época da
adição da lenda de Adão e Eva. Em Jó 26:13 e no Salmo 104 ainda
podemos ler que Iavé destruiu a serpente primeva. Em Salmos 74
encontramos também “Tu dividiste o mar pelo teu poder; quebraste
as cabeças das serpentes das águas [exatamente como Marduque
fez]. Esmagaste as cabeças do Leviatã”. Essa serpente Leviatã
também era conhecida nos textos de Ugarit, no norte de Canaã,
como inimigo do deus da tempestade, Baal. Embora ainda não
saibamos se eram indo-europeus, os governantes de Ugarit, que
ficava a poucos quilômetros ao sul dos territórios hitita e luvita,
viviam em termos muito amigáveis com os reis hititas. Sabemos que
muitos hurritas estavam em Ugarit quando os textos foram escritos,
em torno do século XIV a.C. O pai de Baal em Ugarit era Dagon.
Dag ainda é a palavra usada na Turquia para montanha. Textos de
Ugarit descrevem a conquista do dragão Lotan, Lawtan ou Leviatã,
por Baal. Como já mencionei, Lat ou Elat em cananeu significa
deusa. O nome ressurgiu no mito grego indo-europeu com Hércules
matando a serpente Ladão que, dizia-se, guardava a sagrada árvore
frutífera da Deusa.
As descrições bíblicas da conquista da serpente primeva por Iavé
bem podem ser outra versão do conto, agora nosso conhecido, da
deidade masculina indo-europeia derrotando a serpente da
escuridão, a Deusa. Desde o tempo de Moisés até a queda dos dois
estados hebreus, este povo desprezou o nome de Baal, pois o nome
do deus da tempestade parece ter sido assimilado pela religião da
Deusa como Tamuz, seu filho/amante. Em acadiano, Baal passou
simplesmente a significar Senhor, e Baalat passou a significar
Senhora. Em torno de 1000 a.C. o nome Baal era intimamente
associado a Astarote como consorte Dela. Mas nos tempos da
primeira introdução do nome Baal em Ugarit (possivelmente
originado do sânscrito bala, que quer dizer poderoso), antes que
Baal tivesse um templo próprio, ele e Iavé podem ter sido a mesma
deidade. Em textos de Ugarit, lemos: “Contemplai teus inimigos, Oh
Baal; contemplai teus inimigos que irás esmagar.” Em Salmos 92 da
Bíblia, lemos: “Os meus olhos contemplaram a derrota dos meus
inimigos.” Em Ugarit, Baal era chamado de Cavaleiro das Nuvens.
Salmos 104:3 descreve Iavé usando as nuvens como sua
carruagem.
Outra passagem enigmática da Bíblia pode se revelar uma
referência às primeiras conexões indo-europeias. Uma vez sabendo
que os arianos se viam como uma raça superior ao povo que
conquistavam e governavam, essa passagem pode ser entendida
como um reflexo dessa atitude. Na primeira parte da Bíblia (Gênesis
6:1,4) está escrito: “Quando os homens começaram a multiplicar-se
na terra e lhes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas
dos homens eram bonitas, e escolheram para si aquelas que lhes
agradaram. (...) Naqueles dias, havia nefilins [gigantes] na terra, e
também posteriormente, quando os filhos de Deus possuíram as
filhas dos homens e elas lhes deram filhos. Eles foram os heróis do
passado, homens famosos.”
Essa passagem, que tanto figura na onda atual de livros
sugerindo que alienígenas tenham sido responsáveis pelo
desenvolvimento da cultura humana, pode, na verdade, se referir à
imagem que os arianos tinham de si mesmos, fisicamente maiores
e, na época, os únicos adoradores do deus da luz no topo da
montanha, em comparação com os povos mediterrâneos, menores
fisicamente e que adoravam a Deusa. A miscigenação que, como
sabemos, foi tão desprezada pelos sacerdotes arianos, parece ser a
razão subjacente para o dilúvio em que apenas Noé e seus parentes
na arca sobreviveram.
A literatura iraniana ocorre quatro séculos após o período
geralmente atribuído a fontes javistas no Velho Testamento, apesar
de trechos sacerdotais simultâneos. Semelhanças entre mitos
hebreus e iranianos podem resultar de conexões nesse período
(cerca de 600 a.C.) e não seria difícil decidir qual cultura era a
originária. Mas ainda há a possibilidade de que ambas eram
derivadas do mesmo pensamento religioso indo-europeu. Nos textos
Pahlavi de 400 a.C., baseados na Avestá de 600 a.C., a criação do
universo é descrita em sete atos, que têm uma correlação
extraordinária com o relato hebreu. Primeiro o céu, segundo a água,
terceiro a terra, quarto as plantas, quinto os animais, sexto o
homem, e no sétimo dia foi o próprio Ohrmazd (também conhecido
como Ahura Mazda). O relato é decerto semelhante, porém, tendo
em vista as diferenças que apresentam, pode-se supor que nenhum
dos dois foi emprestado de modo direto, mas provavelmente
resultam de duas linhas de desenvolvimento, brotando da mesma
fonte.
Outro texto nos livros Pahlavi lida com a visão indo-iraniana da
primeira mulher. Era conhecida como Jeh, “rainha de todas as
prostitutas demoníacas”. A história toma as características da lenda
de Adão e Eva na medida em que relata Jeh chegando à Criação
em companhia do demônio (Ariman). Nessa história, ela não
conversa com ele, e sim se relaciona sexualmente. Depois é dito
que ela se juntou ao demônio, de modo que poderia corromper
todas as mulheres que, por sua vez, corromperiam todos os
homens. E prossegue: “Já que as mulheres são subservientes ao
demônio, elas são a causa da corrupção dos homens.” Claro que
não é a mesma história, mas decerto o pensamento e a atitude
subjacentes são os mesmos. Além disso, podemos perguntar por
que as histórias dos hebreus estavam tão alinhadas com as
iranianas indo-europeias.
Outra história com uma contraparte bíblica é iraniana, de um
homem chamado Yima. Ahura avisou a ele que o mundo seria
destruído por enchentes porque o povo havia pecado. Ele instruiu
Yima a construir um vara, geralmente traduzido como fortaleza.
Nesse vara ele deveria levar fogo, comida, animais e humanos – em
pares. A lenda arcaica de uma grande inundação não ocorre
somente na literatura iraniana e hebraica, mas também como uma
lenda antiga na Suméria. É frequente a suposição de que os
hebreus tomaram emprestada a lenda dos sumérios. Mas a história
do dilúvio pode ter sido conhecida pela “raça da montanha”, que
chegou à Suméria pouco antes do período Jemdet Nasr, talvez
contada como lembrança mítica da chegada de seus ancestrais nas
terras montanhosas de Arata. Mais tarde pode ter sido associada à
própria chegada deles na Suméria, talvez descrevendo uma extensa
tempestade em toda a área naquela época, levando à frase “A
Inundação de Enlil chegou, a terra está restaurada”. Juntamente
com seu aparecimento no mito sumério, a inundação pode ter
permanecido na memória daqueles que ficaram para trás em Arata
(Ararat?), vindo a ser conectados com o ancestral de Abraão, Noé, e
com o iraniano Yima.
Isso parece ainda mais provável quando notamos que a Suméria
não tem terrenos muito elevados, nenhuma montanha para a arca
aportar (e os sumérios também afirmam que aportou). O relato
hebreu descreve a chegada da arca em Ararat, ou no próprio monte
Ararate. O monte Ararate é conhecido por esse nome até hoje. É
mais alto que todas as montanhas na região, chegando a mais de
cinco mil metros de altura. Está localizado na ponta mais oriental da
Turquia, perto das fronteiras do Irã e da Rússia, na terra então
conhecida como Urartu, que é o mesmo nome de Ararat. De fato,
está ao longo do rio Arax, que se junta ao mar Cáspio. Podemos
também achar interessante que o estado hebreu iniciado por Noé,
ancestral primevo dos hebreus, começou depois da inundação na
mesma área em que, segundo evidências históricas atestadas, os
indo-europeus entraram na Anatólia.
Outra similaridade entre as lendas da Bíblia e as da Suméria
concerne aos canais de irrigação. A Bíblia registra que, após Iavé
criar o mundo, ainda não havia vegetação porque não havia água.
Gênesis 2:6 diz: “Houve uma inundação para emergir da terra e
regar toda a superfície do solo.” Na lenda do Paraíso da Suméria,
Dilmum, também faltava água e não crescia vegetação. Enki, deus
do templo de Eridu, ordenou que a água brotasse da terra para
regar o solo. No mito de Enki estabelecendo a ordem no mundo,
vemos também atividades de construção de canais. Todas essas
histórias descrevem uma terra onde há pouca ou nenhuma chuva. A
água deve vir do solo. Essa era a situação no período Ubaid de
Eridu, quando se desenvolveram os primeiros canais de irrigação.
Relatos desse período ainda existiam dois mil anos depois na
Suméria, no começo do segundo milênio. Mais uma vez, podemos
deduzir que eles encontraram o caminho de volta para Arata,
considerando o incessante contato entre os dois lugares.
As conexões de Moisés, José e mesmo Abraão com a realeza
egípcia também devem ser consideradas como um fator nas
relações entre os hebreus e os indo-europeus. Como já mencionei,
em toda a Oitava Dinastia (cerca de 1570-1300 a.C.) houve
registros de princesas hititas e hurritas sendo enviadas como
esposas para os reis do Egito, decerto uma quebra dos padrões de
descendência matrilinear. É durante esse período que não
encontramos sacerdotisas nos templos egípcios e a palavra Par-O
(faraó) se aplicava somente ao rei, e não à casa real. E foi também
nesse período que teve lugar a revolução religiosa de Aquenáton,
permitindo que os exércitos hitita e hurrita obtivessem maior controle
de Canaã. Um terço da correspondência encontrada nos arquivos
do palácio de Aquenáton vinha de príncipes com nomes indo-
arianos.
Assim sendo, podemos achar significativo que, segundo a Bíblia,
Moisés fosse o “filho adotivo” da filha do faraó, e que teria sido
encontrado quando bebê. Em Êxodo 2:5-10 ele foi encontrado pela
filha do faraó, que o deu a uma mulher, supostamente sua mãe
verdadeira, para ser criado enquanto bebê. Mas depois lemos que,
“quando a criança tinha idade suficiente, ela o trouxe para a filha do
faraó, que o adotou e o chamou de Moisés”. Muitos faraós da
Décima Sétima, Décima Oitava e Décima Nona Dinastias tinham
nomes como Kamosis, Amosis, Tutmosis e Ramses. É um tanto
curioso que a filha do faraó desse a uma criança “enjeitada” um
nome da realeza.
Mas mesmo antes de Moisés, José, outro filho de Jacó, também
era intimamente ligado à realeza egípcia. Diziam que ele havia
conquistado essa posição devido à sua capacidade de interpretar
sonhos. Em Gênesis 41:41, lemos que “o faraó prosseguiu: ‘Entrego
a você agora o comando de toda a terra do Egito’”.
Até Abraão, muito antes deles, parece que teve estreito contato
com a realeza egípcia. Em Gênesis 12:10-20, Abraão e Sara
também se viram no Egito, supostamente por causa da fome que
assolava Canaã. Dessa vez, ficamos sabendo que Abraão disse a
Sara para fingir ser sua irmã. Possivelmente por sua grande beleza,
Sara é levada para a casa do faraó – como esposa dele.
Novamente, não temos evidências conclusivas, pois a Bíblia não
menciona os nomes desses faraós. Mas tanto o período de Abraão
como o de José devem ter sido no tempo da Décima Oitava
Dinastia, enquanto o de Moisés deve ter ocorrido pouco tempo
depois. Mais uma vez, podemos nos perguntar se houve alguma
conexão possível entre as princesas indo-europeias e aqueles que
provavelmente as acompanharam e os relatos bíblicos sobre
Abraão, José e Moisés, estando cada um deles tão fortemente
relacionados com os faraós do Egito naquele período em particular.
Deuses e montanhas refulgentes
Outro enigma, talvez a conexão mais significativa e reveladora
entre os indo-europeus e os hebreus, é o simbolismo da montanha,
mais especialmente a grande luz brilhante em seu cume. Os arianos
da Índia adoravam os pais ancestrais, “que ascenderam aos reinos
da luz eterna”. Indra era o Senhor das Montanhas, suas posses
eram de ouro. Diziam que a morada do indo-iraniano Ahura era
luminosa e brilhante, no topo do monte Harã. Como dito antes, no
iraniano indo-europeu, hara de fato significava montanha.
Nos textos hebreus, a história de Moisés é frequentemente
associada ao Monte Sinai, situado no extremo sul da Península de
Sinai. Mas, em muitas referências bíblicas à montanha onde Moisés
falou com Iavé, essa montanha é chamada de monte Horebe. Muito
antes de Moisés conduzir os hebreus para fora do Egito, ele havia
encontrado essa montanha. Em Êxodo 3:1 Moisés estava sozinho
no deserto, antes do Êxodo, “e chegou a Horebe, o monte de Deus”.
Depois do Êxodo e da mais conhecida ascensão de Moisés ao
Monte Sinai, afirma novamente: “Lembrem-se do dia em que vocês
estiveram diante do Senhor, o seu Deus, em Horebe...”
(Deuteronômio 4:10). E em Deuteronômio 4:15: “No dia em que o
Senhor falou a vocês do meio do fogo em Horebe...”
A associação de Iavé com, ou como, uma montanha é evidente
em todo o Livro dos Salmos, uma das partes mais antigas da Bíblia.
Em Salmos 31, 62, 71 e 94, Iavé é chamado de “rocha de refúgio”.
Em Salmos 62, ele é a “rocha que me salva”. Em Salmos 18, é “meu
rochedo, em que me refugio”. Em Salmos 19, “minha rocha e meu
resgatador”. Em Salmos 28, “Senhor, minha rocha” e em Salmos 42,
“Deus, minha rocha”. Em Salmos 78 está escrito “os trouxe à
fronteira da sua terra santa, aos montes....”. Em Salmos 48
sabemos que Iavé está “em seu monte sagrado”. Em Salmos 99,
“prostem-se, voltados para seu santo monte”. Em Salmos 92 foi
escrito simplesmente “Ele é a minha rocha”. Se não houvesse tantas
alusões à montanha ou monte, poderíamos entender isso como um
simples símbolo de estabilidade, mas lemos também sobre as
íntimas conexões e a importância da montanha em si.
Em Êxodo 24:17, o aparecimento de Iavé é descrito não somente
no topo de uma montanha, mas em um pico ardendo em fogo. “Aos
olhos dos israelitas, a glória do Senhor parecia um fogo consumidor
no topo do monte.” E em Deuteronômio 5:4, “O Senhor falou com
você face a face, do meio do fogo, no monte”. Em Salmos 144 Iavé
é solicitado a enviar “relâmpagos”. Em Salmos 104 Iavé é descrito
como “envolto em luz como numa veste”.
O indo-europeu Zeus, com seus relâmpagos e raios fulminantes,
se encontrava no Monte Olimpo. Baal, com o mesmo símbolo do
raio, residia no Monte Hérmon. Os deuses da tempestade dos hititas
e dos hurritas são retratados com relâmpagos na mão, elevando-se
sobre uma ou duas montanhas. Indra, reluzente em ouro, também
segurando seu raio chamado vajra, era conhecido como Senhor das
Montanhas. Ahura habitava sua casa reluzente no alto do monte
Harã. O Iavé hebreu que falou por entre o fogo no monte Horebe
deve ser considerado uma imagem e um conceito muito diferentes
dos deuses indo-europeus? Ou ele também pode ser visto como o
indo-ariano “pai que reside na luz brilhante” como é retratado no
Rigueveda? Estranhamente, a palavra hebraica que quer dizer
montanha é har.
Louvitas e levitas
Não obstante termos observado as conexões que os hebreus
tinham com os grupos indo-europeus em geral, os luvitas podem ter
sido os mais intimamente ligados ao surgimento da religião
hebraica. Evidências sugerem que os luvitas (ou luvianos) podem
ter sido a origem dos sacerdotes levitas dos hebreus.
Textos luvitas ainda estão sendo decifrados. Como já mencionei,
esse povo era intimamente relacionado com os hurrita e hitita, e há
muito tempo os arqueólogos os consideram hititas. A julgar pela
prevalência de textos rituais, votivos e de encantações até o
momento atribuídos a eles, os luvitas podem ter sido uma casta
sacerdotal separada dentre os indo-europeus, parecida com a dos
brâmanes na Índia. Podemos questionar por que eles continuaram a
usar os pouco flexíveis hieróglifos quando outros escritos estavam
tão disponíveis e sendo usados por outros indo-europeus, e por que
os hieróglifos eram aplicados exclusivamente para rituais votivos e
inscrições em monumentos reais. Muitas escolas de escribas
parecem ter sido situadas em seus territórios, sugerindo que os
luvitas é que usaram as linguagens hurrita, hitita e acadiana para
disseminar suas ideias, e ao mesmo tempo mantiveram os antigos
hieróglifos como sua própria maneira, talvez mais sagrada, de
escrever (como os judeus fizeram posteriormente com o hebreu).
Entre os indo-arianos, a casta sacerdotal conhecida como
brâmane fazia dos sacrifícios com fogo um dos aspectos mais
importantes de sua religião. O professor Norman Brown escreve
sobre os brâmanes no século IV a.C.: “(...) o poder primordial do
elaborado sacrifício Veda realizado pelos brâmanes de acordo com
um antigo ritual de máxima complexidade e carregado de inigualável
autoridade.” Ele nos conta que os “brâmanes se arrogavam, como
guardiões e únicos oficiantes competentes desse importantíssimo
ritual, uma posição de superioridade moral e social sobre os
militares seculares e a aristocracia governante”.
Giuseppi Sormani escreve que no antigo Ayurveda em sânscrito,
uma coleção de fórmulas bramânicas de orações rituais e
sacrificiais, é datada de pouco depois do Rigueveda: “Os sacerdotes
comandavam a sociedade; eles eram senhores até mesmo dos
deuses, que faziam curvar à sua vontade por meio dos rituais. O
poder sacerdotal dos brâmanes já era evidente nesse Veda.”
Essas descrições poderiam ser tanto dos hebreus levitas como
dos brâmanes. Se os luvitas eram uma casta sacerdotal similar e
um grupo deles ficaria mais tarde conhecido como a casta
sacerdotal levita dos hebreus, essa conexão talvez possa explicar a
posição extraordinária que os levitas ocupavam entre as outras
tribos de hebreus.
Segundo os Livros da Bíblia conhecidos como Êxodo, Levítico,
Números e Deuteronômio, isto é, os últimos quatro dos primeiros
cinco livros do Velho Testamento, os levitas permaneceram como
um grupo muito exclusivo. Moisés é descrito como filho de mãe e
pai levíticos, assim como seu irmão Aarão. Em Números 8:14 Iavé
afirma: “Dessa maneira você separará os levitas do meio dos
israelitas, e os levitas serão meus.” Em Números 18:1, Iavé diz a
Aarão: “Você e seus filhos serão responsáveis pelas ofensas
cometidas no exercício do sacerdócio.”
Apenas os levitas eram aceitos como membros do sacerdócio de
Iavé. Moisés, Aarão e os filhos de Aarão eram os mais altos
sacerdotes. Um alto sacerdote levita era proibido de se casar com
qualquer mulher que fosse estrangeira ou pertencente a outra tribo
dos hebreus. E mesmo em sua própria tribo, não podia se casar
com uma viúva, uma divorciada, ou qualquer uma que tivera
relações sexuais com outro homem.
Ninguém, a não ser um levita, tinha permissão para entrar na
Tenda da Presença, onde Iavé era adorado. Estava implícito que,
quem o fizesse, corria risco de vida. Quando os israelitas
marcharam atravessando o deserto do Sinai, os levitas os
lideravam, mantendo “um dia de viagem à frente deles” para decidir
onde seria o acampamento seguinte. É dito que, a princípio, Moisés
era o único juiz em todas as disputas, mas depois escolheu
delegados para as diversas unidades. Essas unidades eram
formadas por um número de dez, cinquenta, cem ou mil, bem
parecidas com um exército, cada uma sob a vigilância de um
delegado. Os levitas eram os juízes da lei da comunidade. “O
Senhor, seu Deus, os escolheu para ministrarem e para
pronunciarem bênçãos em nome do Senhor e resolverem todos os
casos de letígio e de violência.” (Deuteronômio 21:5).
Somente os levitas tinham a posse e o uso de duas trombetas de
prata para reunir a comunidade e levantar acampamento. O soar de
uma trombeta era uma convocação para os chefes das outras tribos
virem para a frente da Tenda da Presença, exibindo a autoridade até
mesmo entre eles. O soar de duas trombetas era para convocar
toda a comunidade israelita. Apenas os sacerdotes aaronitas tinham
permissão para usar as duas trombetas, que também eram tocadas
durante a batalha para estimular os israelitas, e possivelmente para
comandar todas as estratégias militares, como sugerem os
manuscritos de Qumran.
Quando estavam no deserto, provavelmente se preparando para
a batalha ao entrarem em Canaã, era ordenada a contagem das
tribos. A princípio, apenas as outras onze tribos eram contadas.
Todo homem a partir de 21 anos apto para o serviço militar era
convocado. Mais tarde, quando os levitas passaram a ser contados,
todos os meninos com mais de um mês eram alistados. Em
Números 13:1,5, foi montada uma equipe de espiões para verificar a
situação na abordagem a Canaã. Embora todas as outras tribos
fossem representadas por um homem, nenhum levita foi chamado.
Às vezes havia aviso de rebelião entre as outras tribos, que
reclamavam da falta de comida e da perda do conforto que tinham
no Egito, apesar de se supor que tivessem sido maltratados como
escravos. Mas as punições por quebra das leis levitas eram
severas. Em Levítico 24:16, lemos que um homem foi apedrejado
até a morte por ter blasfemado contra Iavé. Números 15:32-36 traz o
relato de um homem que estava catando gravetos no Sabat dos
levitas: “Assim, toda a comunidade o levou para fora do
acampamento e o apedrejou até a morte, conforme o Senhor tinha
ordenado a Moisés.” Quando Josué substituiu Moisés no comando,
dizem que os homens juraram: “Assim como obedecemos
totalmente a Moisés, também obedeceremos a você. (...) Todo
aquele que se rebelar contra as suas instruções e não obedecer às
suas ordens, seja o que for que você lhe ordenar, será morto.”
(Josué 1:17-18)
Sacrifícios com fogo eram um aspecto extremamente importante
e imponente dos rituais dos levitas, muito semelhantes aos dos
brâmanes na Índia. As primeiras dez seções do Levítico são
totalmente dedicadas a sacrifícios com fogo. Nesses livros, bem
como em todo o Números e o Deuteronômio, que também
descrevem leis e rituais dos levitas, vemos que os sacrifícios com
fogo deveriam ser feitos duas vezes por dia, e também no Sabat,
em mudanças de estação, por sujeira, por culpa e por pecado.
Apenas aos levitas cabia o direito de comer as oferendas de
alimentos que eram trazidas à Tenda da Presença para os
sacrifícios listados acima. Assim, outros israelitas lhes traziam bois,
carneiros, ovelhas, pombos, milho, farinha, pão, azeite e vinho. Esse
direito dos levitas e de suas famílias (embora, muito
frequentemente, só coubesse aos homens) foi mencionado tão
repetidamente que hesito em incluir essas leis aqui. Talvez uma
passagem a respeito dessas regras seja suficiente para explicar a
situação.
Para todos esses sacrifícios, chamados de “ofertas queimadas”,
as comidas listadas acima eram trazidas para os sacerdotes na
Tenda. A lei estabelecia que:
Os sacerdotes levitas e todo o restante da tribo de Levi não terão
posse nem herança em Israel. Viverão das ofertas sacrificadas para o
Senhor, preparadas no fogo, pois esta é a sua herança. Não terão
herança alguma no meio dos seus compatriotas; o Senhor é a sua
herança, conforme lhes prometeu. Quando o povo sacrificar um
novilho ou uma ovelha, os sacerdotes receberão a porção devida: a
espádua, a queixada e o estômago. Vocês terão que dar-lhes as
primícias do trigo, do vinho e do azeite, e a primeira lã da tosquia das
ovelhas, pois, de todas as tribos, o Senhor, o seu Deus, escolheu os
levitas e os descendentes para estarem na presença do Senhor e
para ministrarem sempre em seu nome. (Deuteronômio 18:1-5)
Presentes de prata, ouro e propriedades para os levitas eram
também repetidamente comandados por Iavé. Todo homem acima
de vinte anos tinha que dar meio shekel como garantia de sua vida.
Em outro sistema de garantia de vida, há relatos de precisarem dar
1.365 shekels de prata aos levitas. “Entregue a Arão e aos seus
filhos a prata para o resgate do número excedente de israelistas.”
(Números 3:48)
Levitas que vendiam suas casas sempre tinham direito a resgatá-
la, e se não pagassem o resgate, a casa seria devolvida
automaticamente no jubileu de sete anos. Se um homem de outra
tribo quisesse vender sua casa a um levita, somente o levita tinha o
direito de decidir o preço. Se o homem quisesse comprar a casa de
volta, tinha que pagar um adicional de vinte por cento do valor.
Outra ordem de ofertas incluía seis carroções cobertos e doze
bois: “Entregue-as aos levitas.” (Números 7:5). Em outra seção,
vemos que vasos de prata valendo 2.400 shekels, ouro a 120
shekels, 36 touros, 72 carneiros adultos, 72 bodes e 72 carneirinhos
eram as ofertas consagradas para a Tenda (Números 7:84-88).
Ainda em Números 18:8 está escrito “O Senhor Deus disse a Aarão:
‘Agora estou lhe dando todas as ofertas especiais que forem
trazidas a mim e que não foram queimadas como sacrifício. Eu dou
essas ofertas a você e aos seus descendentes como aquela parte a
que vocês têm direito para sempre.’” Números 18:21 declara: “Dou
aos levitas todos os dízimos em Israel.”
Como lemos acima, os levitas não deveriam ter qualquer
patrimônio, que frequentemente era dado como o motivo para
receberam um tanto a mais. Mas em Números 35:2-6, lemos:
“Ordene aos israelitas que, da herança que possuem, deem cidades
para os levitas morarem. E deem-lhes também pastagens ao redor
das cidades.” Ao todo foram dadas 48 cidades.
Em Êxodo 28 são dadas instruções muito específicas para os
trajes dos levitas, feitas com tecidos violeta e escarlate em linho
fino, ouro e pedras preciosas. Além das roupas, os filhos de Aarão
deveriam ter adornos de cabeça que lhes dessem “dignidade e
grandiosidade”, talvez remanescentes dos chapéus altos dos hititas.
Até perfumes deveriam ser providenciados para Aarão e seus filhos.
Se alguém mais tivesse a audácia de usá-los, seria “cortado da
família de seu pai”.
As outras tribos israelitas eram advertidas: “E nunca se
esqueçam dos levitas que vivem em suas cidades” (Deuteronômio
14:27) e “Lembrem de cuidar dos levitas durante todo o tempo em
que vocês viverem naquela terra.” (Deuteronômio 12:19).
Em Deuteronômio 31:24, lemos: “Depois que Moisés terminou de
escrever num livro as palavras desta lei do início ao fim, deu esta
ordem aos levitas (...) ‘Coloquem este Livro da Lei ao lado da arca
da aliança do Senhor, do seu Deus, onde ficará como testemunha
contra vocês.’” Assim foi que essas leis, inicialmente escritas pelos
levitas, foram colocadas na posse única dos levitas, que eram os
únicos a terem acesso a elas para interpretar, censurar ou modificar
da maneira que achassem melhor.
O panorama geral não é de prelados monásticos ou de gurus
ascetas, e sim de homens bem-vestidos, bem alimentados, com boa
moradia, bons transportes, uma aristocracia perfumada com
autoridade suprema sobre os outros povos hebreus.
Nas entrelinhas das leis relativas aos levitas, podemos achar
extraordinária a posição deles comparada à dos outros israelitas. De
acordo com a Bíblia tal como a conhecemos, lemos que os levitas
eram descendentes de Levi, um dos doze filhos de Jacó. Mais uma
vez, traçando as genealogias, Moisés deve ter sido bisneto de Levi,
o que não bate com a contagem de homens pouco depois saída do
Egito. Embora os números possam ser exagerados, os levitas
alegavam que havia 22 mil homens entre eles, uma família e tanto
em três gerações.
Sua posição de classe governante do povo hebreu, certamente
um padrão indo-europeu, sugere que eles podem ter assumido essa
herança para justificar suas relações com as outras tribos.
Entretanto, as histórias de Abraão, Isaac, Jacó e Esaú são as que
se relacionam mais de perto com os hititas e horitas, sugerindo
ainda mais que Jacó e Abraão possam na verdade ter sido os
ancestrais de Moisés e seu irmão Aarão, que eram líderes dos
levitas, ao passo que até outros levitas, assim como os membros
das outras onze tribos, entendiam que essa ancestralidade era
simbólica e não biológica. A julgar por seus números, as outras
tribos podem ter se reunido sob o mesmo simbolismo, o que
explicaria por que Jacó, supostamente o pai dos dozes filhos que
geraram as dozes tribos dos hebreus, foi de fato chamado de Israel,
e não de Abraão, geralmente considerado o primeiro pai do povo
hebreu.
A sugestão de que os hebreus originais não eram todos de uma
só raça é trazida também em Salmos 107, onde encontramos:
“Assim o digam os que o Senhor resgatou, os que livrou das mãos
do adversário e reuniu de outras terras, do oriente e do ocidente, do
norte e do sul.” Lemos também em Salmos 87 que Sião, que é outro
nome da nação dos israelitas: “Em Sião estão as nossas origens!”
Isso sugere que, na época em que esses salmos foram escritos,
Israel se via como um grupo de raças, cada uma reunida sob o
emblema de Israel, talvez incluindo povos semíticos do deserto,
egípcios, canaanitas e outros, e possivelmente sob a direção dos
levitas.
Outra passagem curiosa em nossa discussão dos levitas como
grupo indo-europeu ocorre em Deuteronômio 18:18, no qual
encontramos um relato de Iavé falando com Moisés no alto da
montanha. Moisés desce da montanha e conta aos israelitas o que
Iavé lhe disse: “Levantarei do meio dos seus irmãos um profeta
como você.”
Lewi e Levi, o nome hebreu de seus sacerdotes, são a mesma
palavra, como fica evidente nas traduções para inglês, alemão e
francês. Sugiro que tanto esse nome como o dos luvitas possam
derivar do material de erupções vulcânicas, a massa fundida e
incandescente jorrando do pico da montanha.
Em latim, lavo significa lavar em água corrente, enquanto lavit
significa jorrar. Em hitita, lahhu também significa jorrar. Encontramos
essa palavra sobrevivendo na França como laver, lavar. Isso sugere
que a palavra era primariamente associada a líquidos. Mas também
vemos que lawine, alemã, significa avalanche, e a palavra lavish,
inglesa, significa transbordamento, abundância. Portanto, essas
palavras parecem estar relacionadas a uma massa que se move ou
flui.
Uma série muito similar de palavras ocorre em conexão com luz
flamejante. Levo em latim significa levantar e é associada
principalmente ao nascer do sol. Em sânscrito, lauha é definida
como vermelho brilhante, e relâmpago é chamado de lohla. Em
alemão encontramos a palavra löhe, chama ou flama, enquanto em
dinamarquês lue quer dizer arder em chamas. Mas talvez seja no
inglês lava, no alemão lava e no francês lave, cada palavra
querendo dizer uma massa derretida flamejante jorrando de uma
montanha vulcânica, que podemos encontrar a chave desses dois
conceitos, que são a luz e a flama ao mesmo tempo jorrando quase
líquidas.
A imagem do deus na montanha refulgente, a imagem indo-
europeia da deidade masculina que aparece também no imaginário
hebreu dos relatos do monte Horebe, talvez aponte para a antiga
conexão de tempos idos, com a adoração às montanhas vulcânicas.
No relato do Êxodo da “montanha de Deus”, lemos essas
descrições: “Ao amanhecer do terceiro dia houve trovões e raios,
uma densa nuvem cobriu o monte, e uma trombeta ressoou
fortemente. Todos no acampamento tremeram de medo.” (Êxodo
19:16) E em Êxodo 20:18-21: “Vendo-se o povo diante dos trovões e
dos relâmpagos, e do som da trombeta e do monte fumegante,
todos tremeram assustados. Ficaram a distância e disseram a
Moisés: ‘Fala tu mesmo conosco, e ouviremos. Mas que Deus não
fale conosco, para que não morramos.’ Moisés disse ao povo: ‘Não
tenham medo! Deus veio prová-los, para que o temor de Deus
esteja em vocês e os livre de pecar.’ Mas o povo permaneceu a
distância, ao passo que Moisés aproximou-se da nuvem escura em
que Deus se encontrava.” Depois, no Deuteronômio, quando Moisés
estava contando os incidentes que tiveram lugar em “Horebe, no
monte de Deus”, ele relembrou aos hebreus: “Vocês se
aproximaram e ficaram ao pé do monte. O monte ardia em chamas
que subiam até o céu, e estava envolvido por uma nuvem escura e
densa. Então o Senhor falou a vocês do meio do fogo. Vocês
ouviram as palavras, mas não viram forma alguma; apenas se ouvia
a voz.” (Deuteronômio 4:11-12) Recordando a eles o bezerro
“pagão” que tinham construído durante sua ausência, ele diz: “Então
peguei o bezerro, o bezerro do pecado de vocês, e o queimei no
fogo; depois o esmigalhei e o moí até virar pó e o joguei no riacho
que desce do monte.” (Deuteronômio 9:21) (Grifos meus.)
Novamente procurando nos Salmos hebreus, encontramos:
“Sobre os ímpios ele fará chover brasas ardentes” (Salmos 11); “À
sua frente vai um fogo devorador, e, ao seu redor, uma violenta
tempestade” (Salmos 50); “Até quando a tua ira queimará como
fogo?” (Salmos 89); “Os montes se derretem como cera diante do
Senhor” (Salmos 97); “Enquanto eu meditava, o fogo aumentava”
(Salmos 39). É claro que a descrição mais vívida de Iavé como
montanha vulcânica ocorre em Salmos 18: “A terra tremeu e agitou-
se, as fundações da montanha sacudiam; arfavam porque Ele
estava zangado. De suas narinas saía fumaça, fogo devorador saía
de sua boca, brasas vivas e calor escaldante. (...) Com o fulgor da
sua presença, as nuvens se desfizeram em granizo e raios. (...)
Atirou suas flechas e dispersou meus inimigos, com seus raios os
derrotou.” É uma imagem difícil de ignorar.
Podemos também achar significativo que a montanha ao norte do
lago Van, na terra antes conhecida como Urartu, e chamada até
hoje de monte Süphan, é uma montanha vulcânica. Em Cilícia, no
território Quizuatena dos luvitas, há duas montanhas vulcânicas.1
Na região do Cáucaso e logo ao sul, mais uma vez na terra de
Urartu, há nada menos que treze montanhas vulcânicas, e três
delas estão ativas ainda hoje. Uma está situada perto de Baku, no
mar Cáspio, perto da foz do rio Arax. Pode também ser pertinente
que na lenda grega da batalha entre Zeus e a serpente Tifão, a
serpente nasceu na caverna de uma montanha na Cilícia, onde foi
atacada por Zeus pela primeira vez, e mais tarde lutou contra ele no
monte Cásio, e foi finalmente morta no vulcânico monte Etna, na
Sicília. Mas pode ser ainda mais significativo que logo a leste do
Sinai, na Arábia, encontramos uma fileira de montanhas vulcânicas,
agora extintas, correndo por toda a costa ocidental de frente para o
Egito, e que o próprio monte Ararate é vulcânico.
Para se ter uma ideia mais exata dos tempos, é importante notar
que as montanhas vulcânicas entram em erupção muitas vezes
durante um período relativamente curto. O monte Kilauea, no Havaí,
entrou em erupção mais de 24 vezes nos últimos vinte anos. (A
propósito, esse vulcão é adorado como a Deusa Pele.) Até hoje, no
Irã, os zoroastrianos sobreviventes rezam para o fogo, enquanto nos
territórios curdos, parcialmente na terra que foi Urartu, acendem
fogo no cume das montanhas nas comemorações de Ano-Novo.
A adoração dos deuses indo-europeus e hebreus com
montanhas vulcânicas pode explicar a grande importância dos
rituais do fogo entre os brâmanes e os levitas. Pode também
explicar o nome de Iavé, um enigma cujo significado há muito tempo
os estudiosos da Bíblia vêm buscando em textos e culturas semitas,
pois a palavra yahveh em sânscrito significa transbordante, tão
sugestiva da lava em erupções vulcânica que pode estar
relacionada à própria lava. Pode também ser importante que outro
grupo que falava a linguagem luvita deve ter vivido na área de outra
montanha vulcânica, na Turquia. Curiosamente, esse povo era
chamado de ahhiyawa.
As conexões entre os indo-europeus e os hebreus são
numerosas demais para serem descartadas levianamente, mas
somente com um entendimento maior dos textos luvitas, ou quando
for descoberto um material em melhores condições, poderemos ser
capazes de afirmar ou rejeitar uma relação mais direta dos luvitas
com os levitas.
Os levitas e os Filhos da Luz
A associação entre o povo hebreu e os indo-europeus, ambos
adoradores de um deus da luz, é ainda mais indicada pelas recentes
descobertas de antigos textos hebreus, popularmente chamados de
Manuscritos do Mar Morto. Esses manuscritos, descobertos em
Qumran, na Palestina, são os mais antigos remanescentes de textos
hebreus dos livros do Velho Testamento, datando de cerca do
século III a.C. Em geral, têm muito a ver com a versão grega e até
com a versão posterior hebraica, com algumas variações. Mas há
um texto adicional novo para os estudiosos da Bíblia. É um relato
chamado “O Livro da Guerra dos Filhos da Luz Contra os Filhos da
Escuridão”. Consiste em planos para uma batalha que estava a
ponto de acontecer. O inimigo era coletivamente chamado de Filhos
da Escuridão; os hebreus, ainda liderados pelos sacerdotes levitas,
eram os Filhos da Luz. Começa afirmando que o “primeiro
compromisso dos Filhos da Luz será atacar o grupo dos Filhos da
Escuridão. (...) Os Filhos da Luz são o grupo de Deus.”
Mais uma vez, muitos especialistas atribuíram esse achado
surpreendente à influência do Irã, onde ainda prevalecia a adoração
a Ahura. Mas quando consideramos que tantos outros textos
descobertos em Qumran remontam ao Velho Testamento, podemos
questionar por que esse relato em particular deveria ter sido incluído
entre eles. Além disso, não há menção específica a Ahura. Como
vimos, o conceito de deus da luz não era novidade para os hebreus.
A dualidade indo-europeia de luz e escuridão pode ser vista
subjacente à descrição anterior da criação do mundo por Iavé. Pois
em Gênesis 1:3-4, lemos: “Disse Deus: ‘Haja luz’, e houve luz. Deus
viu que era boa, e separou a luz das trevas.”
Outro fator significativo nos Manuscritos do Mar Morto é a
revelação de que os sacerdotes levitas ainda estavam no controle.
O povo de Qumran era descendente das tribos de Judá e Benjamin,
sobreviventes no sul após as outras tribos de Israel, no norte, terem
sido conquistadas e dispersadas em 722 a.C. Embora o estado sul
de Judá tivesse sido conquistado em 586 a.C., muitas pessoas
retornaram à região para viver sob um governo estrangeiro. É
dessas duas tribos que o povo hebreu de hoje descende; os outros
provavelmente se dispersaram entre populações da Síria, do
Líbano, da Turquia e do Iraque, apesar de tentativas esporádicas de
apresentar traços deles na Irlanda ou nas várias culturas indígenas
da América do Norte.
Nos textos de Qumran, assim como nos livros do Velho
Testamento, as roupas, as bandeiras, os deveres e a posição dos
levitas eram descritas em separado e cuidadosamente. As
bandeiras deveriam ser decoradas com os nomes de Aarão e seus
filhos. Mais interessante ainda é o fato de que os levitas estavam
novamente, ou ainda, encarregados das trombetas de guerra. Os
toques são explicados tão minuciosamente nos textos do Mar Morto
quanto num manual de guerra. Vários tipos deles comandavam
“preparar para a batalha”, “avançar”, “aproximar”, “começar a lutar” e
“recuar”. O relato da liderança dos levitas, escrito uns dez séculos
depois dos levitas do tempo de Moisés, nos dá uma ideia de como
deve ter sido rígida, através de tantos séculos, a aderência destes à
mesma posição daquele tempo.
O aspecto guerreiro dos hebreus, descrito dos tempos de Moisés
em diante, será discutido em capítulos referentes à supressão da
adoração à Deusa por parte desse povo. Por enquanto, pode
explicar o nome dos hebreus como Yehudi (Judá): a palavra
sânscrita para guerreiro é Yuddha.
Resumo
Torna-se necessário fazer um comentário antes de concluir este
capítulo. Se essa hipótese se sustentar após investigações mais
profundas, devemos ver os eventos da Segunda Guerra Mundial e
as atrocidades cometidas contra o povo hebreu no século XX por
autodenominados arianos na Alemanha Nazista não só como
trágicos, mas também irônicos. Ao longo de todo o século XX, as
pesquisas e escavações da cultura hitita foram primariamente
realizadas por arqueólogos alemães. Foi algum tempo antes e
diretamente depois da Primeira Guerra Mundial que o nasili
começou lentamente a ser aceito como o verdadeiro nome da
linguagem hitita, e Nesa, ou Nasa, sua primeira capital. O nome
original dos invasores hititas pode ter sido nesianos ou nasianos.
Nuzi tornou-se a capital da nação indo-europeia de Mitani. Só
podemos imaginar quanto Adolf Hitler foi afetado pelos relatos
desses achados, divulgados pela mídia popular da época. Terá sido
isso que causou a mudança de seu nome Schickelgrüber para Hitler,
que em alemão quer dizer algo como “Professor de Golpe”? Por
mais estranho que pareça, outra conexão entre hititas e hebreus é o
uso destes da palavra nasi significando príncipe.
Nos últimos dois séculos, estudiosos de religião, arqueologia,
história, e até cientistas, tiveram que rever muitas ideias tidas como
fatos antes do advento de cada descoberta arqueológica. Podemos
achar ainda outra revisão que explica as origens do deus Iavé, o
deus do fogo no topo do monte Horebe, à medida em que a cultura
luvita for melhor compreendida. Isso poderia ajudar a explicar
muitas das leis e atitudes patriarcais dos sacerdotes levitas dos
hebreus no Velho Testamento, e sua insistência na destruição da
religião da Deusa.
Sabendo-se que a adoração da Deusa foi afetada pelos
invasores indo-europeus desde pelo menos 2400 a.C. em diante,
possivelmente, embora de modo menos extenso, no Egito a partir
de 3000 a.C., e na Suméria talvez nos mais arcaicos períodos de
sua cultura, 4000-3000 a.C., podemos entender melhor as
transições que ocorrem nos mitos, rituais e costumes da religião da
Deusa ao longo dos períodos históricos. Por outro lado, começamos
a entender os confrontos que ocorreram quando o patriarcado do
norte começou a suprimir a adoração antiga e tudo o que ela
representava.
Um dos temas mais controversos parece ter sido o conceito de
direito divino aos privilégios reais e a instituição da hereditariedade
ao trono. Essas leis e mitos antigos sugerem que os povos da
religião da Deusa tinham uma orientação comunitária, embora se
organizassem por meio de santuários centralizados Nela. Podemos
então perguntar como aconteceu a transição da religião da Deusa
para o direito divino de hereditariedade, trazido por uma deidade
masculina – ou seja, a hereditariedade como ainda é vista nos dias
atuais.
CAPÍTULO 6
Se o rei não chorou
Em muitas cidades e assentamentos no Neolítico e nos primeiros
períodos históricos, uma pessoa podia ocupar o trono por direito
divino, tal como as monarquias remanescentes mantêm até hoje. A
principal diferença era que o direito divino originalmente não devia
ser ditado por um deus masculino, mas por uma Deusa. Evidências
documentais e mitológicas sugerem que esse direito, em vez de ser
concedido a um homem, era concedido a uma mulher, a alta
sacerdotisa da Deusa, que pode ter conquistado tal posição pelo
costume da descendência matrilinear. Nessa função, a mulher pode
ser vista também como rainha ou governante tribal. Certamente
esse era o caso em Khyrim, onde, segundo Frazer, a alta
sacerdotisa se tornava automaticamente chefe de Estado.
A justaposição dessas duas funções, de alta sacerdotisa e
rainha, é repetidamente atestada nos primeiros tempos históricos,
em placas e textos do Oriente Próximo. Muitos escritores, talvez
usando como padrão nossa própria sociedade de orientação
masculina, revertem causa e efeito, sugerindo que quando uma
mulher se tornava rainha, também ganhava o título de alta
sacerdotisa, uma posição supostamente resultante de seu
casamento com o rei. Mas, como explicarei, as evidências sugerem
que era o contrário – a mais alta e mais sagrada atendente da
deidade feminina nos tempos mais antigos era provavelmente a
origem do conceito de realeza.
Como já mencionei, os templos da Deusa nos períodos Neolítico
e Calcolítico parecem ter sido o cerne da comunidade, prováveis
possuidores da terra, dos rebanhos e de muitos bens materiais.
Essa era a situação nos primeiros tempos históricos em E Anna, a
Casa do Céu, o templo da Deusa Inanna em Uruque.
A. Moortgat escreve: “Em torno de 3000 a.C. em Uruque, o lugar
sagrado de Inanna, a Senhora do Céu suméria, foi erguido um
complexo de construções que até hoje seriam vistas como algumas
das obras mais esplêndidas de arquitetura, se estivessem em
melhor estado de conservação.” O professor Albright prossegue,
dizendo que “as descobertas em Uruque, na Babilônia, provam que
o complexo de templos em Eanna já era, antes de 3000 a.C., o
centro de uma elaborada organização econômica”. Segundo Sydney
Smith, professor de Arqueologia do Oriente Próximo na Suméria, “o
templo dirigia todas as atividades essenciais, não só questões que
poderiam ser consideradas religiosas, mas também as atividades
urbanas de artesãos, mercadores, e o emprego rural de fazendeiros,
pastores, granjeiros, pescadores e plantadores de frutas”.
No Neolítico e nos primeiros tempos históricos, a Entu, nome da
alta sacerdotisa na Suméria, a Tawawannas, nome da alta
sacerdotisa na Anatólia e suas contrapartes em outras áreas,
provavelmente eram as líderes titulares daquelas comunidades dos
templos. O ofício sacerdotal de “Divina Senhora”, um dos dons que
Enki lamentava ter sido levado por Inanna de Eridu para Uruque,
pode se referir justamente a essa posição.
Mas líder titular não significa monarquia. De fato, vários
documentos e mitos sugerem que, no Neolítico e nas primeiras
comunidades históricas, a adoração à Deusa era governada por
assembleias, provavelmente compostas por anciãos da
comunidade. Uma placa da Mesopotâmia diz: “Guiados por Inanna
em Agade, suas mulheres velhas e seus homens velhos deram
sábios conselhos.” Um “presbitério” de anciãos foi outro dom de
civilização que Inanna deu a Uruque. Gurney escreve que, antes da
chegada dos hititas, os hatianos eram “originalmente mal
organizados em várias cidadezinhas independentes, cada uma
governada por um grupo de anciãos”. Mesmo nos tempos dos
hititas, textos falam de um grupo conhecido como as Mulheres
Anciãs, que tinha posições proféticas e de aconselhamento, e era
também associado à cura mental e física.
O professor Thorkild Jacobsen, da Universidade de Chicago,
influenciou muitos arqueólogos e historiadores nesse sentido. Sua
teoria, baseada no fato de que os primeiros mitos sumérios incluíam
deidades tanto femininas quanto masculinas nas decisões de
assembleias do céu, sugere que essa participação de mulheres na
liderança era muito provavelmente um reflexo das sociedades que
escreviam as lendas, com mulheres e homens participando do
governo da comunidade. Podemos até ver o conceito de
monoteísmo, frequentemente apresentado como um tipo mais
civilizado ou sofisticado de religião, como reflexo da ideologia
política que concentra todo o poder em uma única pessoa
dominante, enquanto o politeísmo, em especial quando
representado pela imagem de assembleias divinas, talvez
simbolizasse uma atitude mais comunitária nas sociedades que
desenvolveram e seguiram esse pensamento teológico.
Não há evidência definitiva da relação entre a função das altas
sacerdotisas e esses grupos de anciãos, embora “sob a orientação
de Inanna” possa se referir ao papel desempenhado pela alta
sacerdotisa Dela. A julgar pelos relatos mitológicos da Deusa (as
altas sacerdotisas sendo encarnações Dela na terra), a imagem que
se apresenta não é de uma mulher celibatária, nem de uma que tem
um marido permanente, como as rainhas dos períodos históricos,
mas de uma mulher que escolhia amantes ou consortes anuais,
mantendo para si mesma a posição permanente no nível mais alto.
O simbolismo dos consortes anuais, jovens, o filho/amante
moribundo da Deusa, é recorrente nas lendas de Sua religião,
registrando provavelmente o Neolítico e os primeiros períodos
históricos. É encontrado nas mais antigas lendas, tanto na Suméria
quanto no Egito, e sobrevive em todos os períodos históricos no
Oriente Próximo até os primeiros séculos do cristianismo, no qual
pode ter permanecido como o luto anual pela morte de Jesus.
Sir James Frazer, autor de O Ramo de Ouro, explorou esse tema
em maior extensão e profundidade do que qualquer outro estudioso
de religião comparada. Apesar de algumas de suas conclusões e
teorias terem sido questionadas por autores posteriores, o corpo
principal do conteúdo dos doze grandes volumes ainda hoje guarda
muitas informações valiosas – e talvez mais pertinentes – e levanta
pontos interessantes. O tema da morte anual do filho/amante da
Deusa nos interessa aqui porque parece ser fruto direto dos rituais e
costumes originais da antiga religião feminina. Simboliza uma das
mais arcaicas práticas registradas – o ritual do sacrifício anual do
“rei” consorte da alta sacerdotisa.
Diversos relatos de tribos na África descrevem rainhas que
permaneceram solteiras, mas tinham amantes de posição inferior.
Registros da Nigéria relatam que um homem era consorte da rainha
até ela ficar grávida, quando então ele era estrangulado por um
grupo de mulheres, pois tinha cumprido sua função na Terra.
Numerosos relatos, lendas e fragmentos de textos e orações
sugerem que havia práticas similares na maioria das culturas de
adoração à Deusa em todo o Oriente Próximo, com ligeiras
adaptações, dependendo do lugar e das transições graduais que se
sucediam no correr dos anos. Não há motivo para fazer qualquer
generalização sobre o que era feito ou por quê, dado que a
informação em cada cultura específica não apoia uma afirmação
global. Contudo, em todo lugar, algumas peças de evidência
sugerem que no Neolítico, e talvez mesmo nos primeiros períodos
históricos, o consorte da alta sacerdotisa tinha morte violenta e ela
permanecia, em luto.
O material dispõe de três linhas de evidências. A primeira inclui
os relatos das cerimônias em si, descrevendo o casamento do
consorte com a sacerdotisa, dando a ele uma posição mais tarde
definida como reinado. A segunda contém os documentos dos
rituais, que nos tempos históricos vieram a ser usados como
alternativas ao sacrifício original: substitutos humanos, agressão,
efígies e sacrifício de animais. A terceira traz as descrições mais
detalhadas, fornecidas por lendas que provavelmente
acompanhavam os rituais substitutivos. Estes, no momento do ritual
propriamente dito, oferecem a explicação teológica da ação
simbólica realizada.
O material também sugere que a alta sacerdotisa, como
encarnação da Deusa, escolhia um amante muito mais jovem do
que ela, dado que é frequentemente citado como filho Dela. Vários
relatos falam da união sexual entre eles, muitas vezes chamada de
hieros gamos, o casamento sagrado. Esse casamento sagrado, ou
união sexual, é atestado nos períodos históricos da Suméria, do
Egito, da Babilônia, e até na Grécia clássica. Depois da cerimônia
sexual, o jovem assumia o papel de consorte da sacerdotisa. Ele era
o “rei”.
“A dedução que parece indiscutível”, escreve o professor S.
Smith, “é que o rito do casamento sagrado remonta à antiguidade, e
por esta razão foi incluído em cultos de deuses bem distintos. (...)
Sua natureza anual parece estar ligada à renomeação anual do rei”.
Ao descrever o status do homem que se relacionava com a alta
sacerdotisa no Egeu, Butterworth diz: “O acesso ao divino era
através da rainha.”
A união sexual sagrada com a alta sacerdotisa dava ao consorte
uma posição privilegiada. Segundo o professor Saggs, no tempo
histórico da Suméria e da Babilônia, após o casamento sagrado, a
Deusa “fixava o destino” do rei para o ano seguinte. Mas em dias
mais arcaicos essa posição de reinado estava longe de ser
permanente. O escolhido tinha seus direitos reais durante um tempo
específico. Ao fim desse período (talvez um ano a partir da
cerimônia anual, mas outros registros parecem sugerir um período
mais longo em certos lugares), o jovem era sacrificado em um ritual.
Em 1914, Stephen Langdon escreveu: “As figuras divinas de
Tamuz, Adônis e Osíris representam um princípio teológico, a
encarnação de ideias religiosas que já foram ilustradas de uma
forma mais tangível. Não o filho divino que pereceu nas ondas, mas
um rei humano que foi assassinado.”
Em 1952, Charles Seltman, da Universidade de Cambridge,
descreveu a situação:
A Grande Deusa sempre foi suprema e os muitos nomes pelos
quais era chamada não eram senão uma variedade de títulos dados a
ela em diferentes lugares. Ela não tinha um “marido” constante, mas
seu companheiro, seu jovem amante, morria ou era morto a cada
outono e era glorificado em ressurreição a cada primavera, voltando
para a deusa, mesmo que a cada ano um novo galã fosse favorecido
para ser companheiro de uma rainha terrena.
Em 1957, Robert Graves escreveu sobre o ritual regicida como
se apresentava na Grécia pré-indo-europeia, explicando: “A Ninfa
Tribal, ao que parece, escolhia um amante anual dentre sua corte
de jovens, um rei para ser sacrificado quando acabava o ano (...) o
rei sagrado continuava a manter sua posição somente por direito de
casamento com a Ninfa Tribal.” Na introdução a Os mitos gregos,
ele explica suas teorias de como o reinado no Egeu se tornou uma
instituição permanente, com a extensão gradual do “ano” para um
“ano mais longo” introduzida pelos invasores indo-europeus aqueus
do século XIII a.C., e mais tarde o reinado permanente foi instituído
pelos indo-europeus dórios por volta de 1100 a.C.
Tanto Frazer quanto James indicam os grupos shilluk do Alto Nilo
como uma analogia possível. O professor James escreveu em 1937:
“Até recentemente, era costume nessa tribo condenar o rei à morte
se ele desse mostras de enfraquecimento da saúde ou da virilidade.
Portanto, tão logo ele se tornava incapaz de satisfazer as paixões
sexuais de suas esposas, era dever delas comunicar o fato aos
anciãos, que tomavam providências imediatas para seu falecimento
e a escolha de um sucessor vigoroso para reinar em seu lugar.”
Frazer cita Canaã, Chipre e Cartago como lugares onde nos
primeiros tempos históricos havia as mais certas evidências do
assassinato do rei. Frazer, Langdon, James, Seltman, Graves e
muitos outros concordam que a lenda era de fato performada e que
o homem assassinado era o rei temporário da cidade, o jovem que
desempenhava a função de filho/amante na união sexual sagrada.
Muitos autores que discutem o sacrifício do “rei” o descrevem
primariamente como um rito de fertilidade, sugerindo que seus
despojos podem até ter sido espalhados pelos campos recém-
semeados. Embora talvez tenha se tornado um costume em
períodos posteriores, uma das mais antigas lendas registradas (da
Deusa suméria Inanna, pouco depois de 2000 a.C.), provavelmente
um registro escrito de mitos e ideias religiosas ainda mais antigas,
apresentava um motivo diferente. Nessa lenda, o sacrifício do
consorte ocorria quando ele não queria mais ceder aos desejos,
ordens e poder da Deusa. O relato mais antigo talvez revele as
primeiras origens e razões da morte do consorte masculino. Ideias
posteriores, de fertilidade e expiação de pecados, podem ter
adornado o costume para garantir ou explicar sua continuação.
A explicação em geral aceita do sacrifício do rei como rito de
fertilidade talvez tenha resultado do fato de que todas as lendas
disponíveis até recentemente falavam apenas da tristeza da Deusa
pela morte do filho/amante. Somente depois que descobriram e
decifraram os últimos fragmentos da lenda suméria, com a
informação adicional de que Inanna se entristeceu com a morte,
mas que o ato foi consequência do ódio Dela pela arrogância do
jovem, é que estamos em posição de questionar o verdadeiro
significado e as razões desse antigo ritual e rever as explicações até
então aceitas.
Pode ser útil examinar os numerosos relatos do casamento
sagrado, ou do filho/amante como rei e a posição da alta
sacerdotisa em várias culturas do Oriente Próximo. Para uma maior
compreensão do costume tal como deve ter sido originalmente, será
interessante conhecer suas várias adaptações nos períodos
históricos, posteriores às invasões indo-europeias.
Suméria – “os amados maridos de Inanna”
Nos relatos sumérios de Inanna e Damuzi (definido como o
verdadeiro filho), vemos que após ele “se provar” na cama Dela, Ela
arrumou o futuro dele, tornando-o “pastor da terra”. Apesar de
parecer simbolicamente um posto muito importante, devemos
lembrar que havia enormes rebanhos pertencentes e mantidos pelo
pessoal dos templos, e o título poderia ser originalmente uma
descrição de sua verdadeira função. O filho/amante aparece como
pastor em diversas versões dessa história, em diversas regiões e
épocas, e mais uma vez sugere a relação do filho/amante original
com a posterior adoração a Jesus.
Mas, fosse qual fosse a verdadeira natureza da posição, a lenda
suméria conta que, quando Inanna estava procurando uma
substituição para Si Mesma na Terra dos Mortos, Ela ignorou Seu
próprio servo porque ele havia sido muito leal e A servira bem.
Ignorou um deus menor porque ele tinha se curvado a Ela como Ela
lhe pedira, mas acabou escolhendo Seu próprio filho, Seu amante,
Damuzi, que havia ousado subir no trono Dela durante Sua
ausência e se comportado de modo muito arrogante no retorno
Dela. A morte do mais antigo sumério, Damuzi, não foi por acidente.
Ele morreu por ordem de Inanna.
Documentos sumérios revelam que a origem do reinado na
Suméria começou com a posição de En, definido como sacerdote e
consorte da Deusa. O En-reinado, foi mais tarde substituído pelo
Ensi-reinado, que parece ter concedido mais e maiores poderes
seculares. O lugar do Ensi foi então suplantado pelo título e a
posição conhecidos como Lugal, que significa literalmente “homem
importante”, mas é comumente traduzido por rei. Outra palavra
muito antiga, Mukarrib, é também muito traduzida por rei, embora
signifique literalmente “o que traz oferendas”. Saggs explica que o
Ensi era originalmente eleito, provavelmente em tempos de guerra,
mas chegando ao fim do terceiro milênio essa posição se tornou
hereditária. O professor Sidney Smith comenta que documentos
descrevendo o extenso uso de profecia e adivinhação oracular
revelam que, mesmo após a função do rei se tornar mais
permanente, “nenhum rei agia de acordo apenas com seu próprio
julgamento”.
A posição do rei como líder parece ter sido instituída em um
período relembrado na ocasião em que aparecem os registros
escritos. A lenda de Etana, do começo do segundo milênio, diz que
“Na época, não se usava nenhuma tiara (...) no começo não havia
direção real do povo da Deusa, o reinado então vinha do céu”. Mas
esse reinado, como sugeriam os relatos da chegada dos povos
Ubaid e Shemsu-Hor da Suméria e do Egito, vinha mais
provavelmente por barcos do que por naves espaciais.
O professor S. N. Kramer, eminente sumeriólogo, nos diz que nos
períodos históricos da Suméria
O rito mais significativo do Ano-Novo era o hieros gamos, o
casamento do rei, que representava o deus Damuzi, e uma das
sacerdotisas, que representava a deusa Inanna (...) surgiu a ideia de
que o rei da Suméria, não importava quem fosse ou de qual cidade
viesse, deveria se tornar marido da deusa provedora da vida e do
amor, isto é, Inanna de Uruque (...) os reis da Suméria são conhecidos
como os “maridos amados” de Inanna em todos os documentos
sumérios, desde o tempo de Enmerkar (cerca de 2600 a.C.) até os
dias pós-sumérios, pois parecem ter sido misticamente identificados
com Damuzi.
O professor Kramer descreve o papel de uma sacerdotisa de
Inanna como a “parceira dominante”, explicando que Ela faz dele o
rei, e não o contrário; Ela traz o amante para a casa Dela; e cabe a
Ela como Rainha do Céu permitir que ele goze de longos dias em
Seu colo sagrado. O professor Henri Frankfort diz também que, no
“casamento sagrado, a dependência que o deus tem da deusa é
fortemente enfatizada. Textos de Isin não deixam dúvidas de que a
iniciativa é atribuída a ela”. Todos os reis de Isin, uma cidade da
Suméria que floresceu entre 2000 e 1800 a.C., falavam de si como
“o amado consorte de Nana”.
Placas do reino de Shu Sin, por volta de 1980 a.C., também
sugerem um papel mais ativo de Inanna no casamento sagrado. Um
trecho delas diz: “Noivo, deixa-me te acariciar. Minha carícia
preciosa é mais saborosa que o mel; na alcova, deixa-nos gozar da
tua beleza divina.” (Grifos meus.)
Enmerkar (um En em Uruque) combateu o rei de Arata e venceu.
Então o rei de Arata lhe disse: “Você é o amado de Inanna, só você
é exaltado. Inanna verdadeiramente escolheu você para seu colo
sagrado.” Outra placa diz: “Para Eannatum, o ensi de Lagash [cerca
de 2200 a.C.], Inanna, porque o amava, lhe deu o reinado de Quis,
além do reinado Ensi de Lagash.”
Textos de Shulgi, um rei da terceira dinastia de Ur (cerca de 2040
a.C.), diz: “Deusa, farei para você os ritos que constituem a minha
realeza. Realizarei para você o modelo divino.” Nas mesmas placas,
que parecem ser diálogos escritos para os papéis performados no
hieros gamos, o drama cerimonial sagrado, a alta sacerdotisa de
Inanna fala sobre Shulgi: “Quando ele tiver feito amor comigo na
cama, eu também mostrarei meu amor pelo senhor, farei para ele
um bom destino, farei dele o pastor da terra.”
Dois outros nomes da Deusa na Suméria, cada um (em lugares
diferentes) descrevendo a Deusa como mãe de Inanna, também são
mencionados em conexão com esse costume. Uma inscrição fala da
Deusa Ninmah (Senhora Mãe) “elevando” Rim Sin ao reinado por
volta de 1800 a.C. em Larsa. Os relatos de quatro reis da Suméria
registram que a Deusa conhecida como Ninlil trouxe um novo jovem
rei ao pavilhão Dela a cada vez – talvez querendo dizer que
acontecia uma união sexual sagrada entre o rei em potencial e a
alta sacerdotisa da Deusa. O professor Sidney Smith escreve: “Os
registros dos festivais de Ninlil mostram que, sempre que um rei da
Suméria e de Akkad era levado ao pavilhão, estava marcada a
instauração de novas dinastias.”
No começo do reinado de Lipit-Ishtar, por volta de 1930 a.C., a
“irmã” dele era alta sacerdotisa em Ur. Mas, quando outro grupo de
pessoas conquistou a cidade, o nome dela passou a ser associado
ao rei deles. Fica evidente que nessa época, e até mesmo desde o
tempo de Enmerkar, os costumes antigos serviam para justificar os
resultados das batalhas e conquistas militares. Aos olhos do povo, o
casamento da alta sacerdotisa era usado para que se adquirisse
legitimidade para ocupar o trono. Sidney Smith escreve sobre “a
excepcional posição política das sacerdotisas”. Ele descreve a
situação de Lipit-Ishtar e a mulher conhecida como sua irmã,
dizendo que “todo o incidente ilustra a significação política desses
compromissos. (...) O compromisso esporádico de princesas em Ur,
quando essa cidade foi compelida a reconhecer as normas de
homens de origem não sulista, foi obviamente devido a motivos
políticos”.
Como expliquei no capítulo anterior, à medida que os seguidores
de Enki e Enlil se tornavam mais poderosos, a alta sacerdotisa
representante da Deusa perdia muitas de suas prerrogativas
anteriores, mas provavelmente a deixavam com o papel de
outorgante do título de rei, pois o costume matrilinear ainda era
honrado. A verdadeira posição da alta sacerdotisa nesse período
está aberta a questionamentos. A partir dos registros, sabemos que
muitas eram filhas, irmãs ou mães dos reis que estavam no poder.
Os registros do tempo de Hamurabi mostram que sua irmã era uma
sacerdotisa naditu, sugerindo que a alta sacerdotisa devia estar
ligada a esse grupo que parece ter gerenciado os negócios dos
templos e da terra da comunidade.
Babilônia – “aquela que segura as rédeas dos reis”
Na Babilônia do século XVIII até o VI a.C., que suplantou a
Suméria como o maior poder na Mesopotâmia, a Deusa era
conhecida como Ishtar. Ela era a versão acadiana de Inanna, e
reverenciada como Ishtar até no templo de Uruque. Seu
filho/amante morto, chamado de Damuzi na Suméria, era chamado
de Tamuz. O professor James comenta o relacionamento de Ishtar e
Tamuz, dizendo: “Nessa aliança ela era a parceira dominante, como
foi demonstrado, pois quando ele foi trazido para uma conexão
íntima com Ishtar, no mito de Tamuz, ele era filho dela bem como
seu marido e irmão, e sempre subordinado a ela como o Deus-
jovem.”
Os atributos e as lendas de Inanna e Ishtar são tão semelhantes
que muitos autores falam da Deusa como Inanna/Ishtar. Mas há
certas variações nas lendas, transições que talvez reflitam a
mudança de atitudes no correr dos séculos em resultado das
invasões dos indo-europeus, mais contínuas e bem-sucedidas. Na
literatura babilônica, dificilmente lemos que Ishtar causou a morte de
Tamuz, que é relatada numa variedade de acidentes. As lendas em
geral contam que Tamuz morreu e Ishtar ficou de luto.
Mas, no épico babilônico de Gilgamés, baseado numa saga
suméria conhecida apenas por breves fragmentos, o nome de
Tamuz estava incluído numa longa lista de amantes a quem Ishtar
infligira graves ferimentos. Gilgamés, historicamente listado como
um antigo En de Uruque, recusou de forma enfática a honra de se
tornar marido de Ishtar e por isso passou a fazer parte da lista. A
história provavelmente representa uma das primeiras recusas de um
consorte/rei a seguir o antigo costume, e a tentativa de instituir um
reinado mais permanente e poderoso. Na mesma lenda, a busca
dele por imortalidade pode também revelar essa mensagem
implícita.
A história de Gilgamés acontece na Suméria. Mais uma vez,
porém, podemos suspeitar da influência ou presença da
patrilinearidade dos nortistas, talvez vinda de Arata. O nome
Gilgamés pode ser associado à cidade hurrita posterior de
Carchemish, cujo nome antigo era Kar Gamish. A história de
Gilgamés é encontrada não somente na literatura suméria e
babilônica, mas também em textos hurritas e hititas.
Gilgamés está listado como um En de Uruque – portanto, com a
função de “rei” enquanto consorte da alta sacerdotisa. Seu pai é
classificado como Lugal Banda que, embora anteriormente fosse um
En de Uruque, é também descrito como pastor e nômade. Logo no
começo da história, vemos que Gilgamés está oprimindo Uruque,
“tirando o filho do pai, tirando a donzela do amante”. Em seguida,
ele vai a um festival onde irá “fertilizar a mulher de destino”,
sugerindo seu papel no casamento sagrado. Outra figura aparece
nesse momento. É conhecida como Enkidu, um homem selvagem
da floresta. Enkidu recebe roupas extravagantes, bebidas e comidas
esplêndidas e a companhia de uma qadishtu, uma mulher sagrada
do templo, com quem ele tem seus primeiros encontros sexuais.
Pouco depois, Ishtar propõe casamento a Gilgamés, dizendo-lhe
que há tempos o olhar Dela anseia pela beleza dele. Mas Gilgamés,
agindo em desacordo com o que se esperava dele, rejeita a
proposta da Deusa. Ao recusar, ele cita todos os amantes Dela que
tiveram um fim trágico, terminando com “Você me amaria também, e
depois faria meu destino igual ao deles”. Dentre esses amantes
anteriores, Tamuz é citado sendo um deles nos dias de juventude de
Ishtar. O nome de Damuzi aparece duas vezes na lista de reis
sumérios, uma vez diretamente entre Lugal Banda e Gilgamés, e
outra vez num período ainda anterior, poucos nomes depois de
Alalu, primeiro rei da Suméria em Eridu. O segundo Damuzi, e o
próprio Gilgamés, parecem ser de cerca de 2500 a.C.
Depois da rejeição do casamento, segue-se uma luta entre Ishtar,
Enkidu e Gilgamés, em que os dois homens insultam a Deusa,
matam o touro celestial Dela e atiram o osso da coxa do touro, ou os
genitais (depende da tradução), no rosto da Deusa, e Gilgamés
clama: “Se su pudesse faria a mesma coisa com você.” Em
consequência desse incidente, Enkidu, que provavelmente simboliza
um sacrifício substitutivo, é condenado à morte. Gilgamés é
poupado e a essa altura sai em busca da imortalidade, o que leva
ao relato sumério do dilúvio e seus sobreviventes.
Afora as possíveis conexões do nome Gilgamés com a posterior
cidade hurrita de Kar Gamish, os indícios, logo no começo, de que
Gilgamés está oprimindo Uruque, o enredo geral da história e a
existência de versões hurritas e hititas do mesmo épico, vários
outros fatores sugerem que tal relato mais uma vez pode refletir
atitudes dos povos do norte. Podemos aqui estar testemunhando
um confronto entre as duas culturas. Na lista de reis sumérios,
Enmerkar precede diretamente Lugal Banda, o pai de Gilgamés.
Diversas placas cuneiformes revelam que tanto Enmerkar como
Lugal Banda estiveram em estreito contato com a terra de Arata
(possivelmente Urartu). Um mito fala de Lugal Banda
acompanhando Enmerkar a essa área, em um viagem interrompida
por um evento muito místico em um lugar chamado monte Hurum.
Enmerkar tinha também fortes conexões com o templo de Enki em
Eridu, e exigia que o povo de Arata enviasse tributos para lá. Ao que
parece, o rei que precedeu Enmerkar fundou a Primeira Dinastia de
Uruque. As listas de reis dizem que ele “adentrou os mares e subiu
nas montanhas”, talvez se referindo a suas viagens antes de chegar
a Uruque, possivelmente desde as terras montanhosas de Arata. O
relato da rebelião contra Ishtar (provavelmente representada pela
alta sacerdotisa) pode ter de fato ocorrido na época da instituição do
reinado em Uruque, e mais tarde a história se acrescentou aos
relatos babilônicos de Gilgamés, que parece ter se tornado uma
espécie de herói lendário em muitos outros contos, em
consequência de suas incursões militares.
Tenha ou não acontecido, esse relato pode simbolizar um
incidente muito parecido com a narrativa de Diodoro Sículo sobre os
núbios e o Alto Nilo. Ele escreveu que um rei, rebelando-se para
não ser sacrificado, assassinou todo o clero que presidia ali, e se
autoproclamou rei permanente.
Nos tempos babilônicos, o rei já não era mais condenado à
morte. No entanto, Ishtar ainda era descrita como aquela que
escolhia o rei, “Ela que o investiu de prestígio”. Uma inscrição a
intitula “Conselheira de Todos os Dirigentes, Aquela Que Segura as
Rédeas dos Reis”. Em outra, ela é conhecida como “Aquela que dá
o cetro, o trono, o ano de reinado a todos os reis”. Sargão da
Acádia, um dos primeiros reis da Mesopotâmia Central (cerca de
2300 a.C.), escreveu que sua mãe era uma alta sacerdotisa, e seu
pai, desconhecido. Mais tarde, diz ele, Ishtar veio a amá-lo “e então
durante anos eu exerci o reinado”.
Em The Childhood of Man, L. Frobenius, discutindo o ritual do
sacrifício do rei, explica: “Já na antiga Babilônia ele havia
enfraquecido, dado que no Festival do Ano-Novo, no templo, o rei
era somente despido, humilhado e espancado, enquanto no
mercado um substituto, instalado cerimonialmente com todas as
glórias, era enviado à morte por enforcamento.”
Vários relatos das cerimônias que aconteciam nos períodos
babilônicos falam do rei indo ao templo para ser golpeado no rosto,
e suas roupas e insígnias reais eram tiradas temporariamente.
Outros textos dizem que seus cabelos eram raspados, seu cinturão
retirado, e nesse estado ele era jogado no rio. Quando emergia, era
obrigado a andar vestido em trapos por muitos dias, como símbolo
de luto. Saggs observa: “Há alguma evidência, mesmo do primeiro
milênio, de que o rei, em sua morte, pode ter sido assimilado ao
(supostamente) morto deus Tamuz.”
Esses eram lembretes simbólicos dos dias em que o consorte/rei
teria encontrado a morte. Mas assim como Gilgamés continuou a
viver e Enkidu morreu, o substituto perdia a vida porque o reinado
se tornara uma instituição permanente e hereditária na Suméria e na
Babilônia. Há indícios de expiação de pecados e redenção nesses
rituais – o rei é punido. Mas por quê? Parece que afinal o castigo
vinha por causa dos pecados do povo, mas isso não se originava
das antigas punições por recusa a ceder à sacerdotisa/rainha? O
fato de que as lágrimas que viessem aos olhos dele durante a surra
seriam sinal de boa sorte talvez revele essas origens. Segundo
placas babilônicas, “Se o rei não chorar quando golpeado, é mau
augúrio para o ano”.
Egito – Ísis chora a morte de Osíris
Saggs, escrevendo sobre o ritual regicida, afirma: “Essa última
prática certamente ocorreu no Egito em tempos pré-históricos,
enquanto algumas autoridades dizem que sobreviveu em tempos
históricos.” Nos primeiros registros do Egito, pouco depois de 3000
a.C., homens eram sacrificados “na tumba de Osíris”, irmão/marido
da Deusa Ísis. Os registros nos dizem que os sacrificados tinham
cabelos ruivos, talvez, como já mencionei, um resultado da invasão
dos Shemsu-Hor.
Na teogonia egípcia, Hórus era filho de Ísis. Quando morreu,
tornou-se Osíris. Embora a morte de Osíris seja comemorada, na
verdade foi Hórus, o filho, quem morreu. Com a morte de Osíris, o
novo Hórus foi então instalado no trono. Assim, nos mitos
cumulativos do Egito, em que cada nova ideia parece ter sido
acrescentada, e pouco ou nada de qualquer coisa retirada, tanto
Osíris como Hórus travam uma batalha contra Set, mas é Osíris
quem é morto por ele. As histórias da morte de Osíris não apenas
eram lembradas e reencenadas cerimonialmente no Egito, como
também muito conectadas com Canaã, principalmente no
antiquíssimo porto de Biblos. Um pouco ao norte de Beirute, no
Líbano, a cidade de Biblos era uma colônia egípcia e porto marítimo
comercial, tão antiga quanto a Segunda Dinastia do Egito, que
ocorreu por volta de 2850-2600 a.C. Mas até cerca de 150 d.C.
Luciano fala da morte do amante da Deusa, então conhecido como
Adônis, ocorrido em Afaca, perto de Biblos. Luciano revela que os
ritos secretos de Adônis são na verdade ritos de Osíris. Alguns
relatos dizem que o corpo de Adônis foi enterrado em Afaca, a
poucos quilômetros de Biblos, enquanto os mitos egípcios nos
dizem que Ísis trouxe o corpo de volta para ser enterrado no Egito,
descrevendo em detalhes todos os vários problemas que Ela
encontrou nessa jornada.
Creta – “o deus (que geralmente morre logo após o casamento)”
Hawkes, descrevendo a Deusa e o jovem que morre na ilha de
Creta, onde a adoração à deidade feminina floresceu desde antes
de 3000 a.C. até a chegada dos indo-europeus dórios, por volta de
1100 a.C., afirma: “Ela é acompanhada por uma deidade masculina
jovem, um Espírito do Ano, que é seu consorte e filho, que morre e
nasce de novo – a visão cretense de Adônis. Na Creta Minoica,
esse jovem deus sempre foi súdito da deusa – era o instrumento da
fertilidade dela e é representado em atitudes humildes e de
adoração.”
O arqueólogo Stylianos Alexiou sugere que em Creta “o
casamento sagrado, a união da deusa e do deus (que geralmente
morre logo após o casamento) simboliza a fertilidade da terra”.
Mesmo nos tempos clássicos, o indo-europeu Zeus era adorado
pelo povo de Creta como infante e reverenciado primariamente
como filho de sua mãe, Reia. A teogonia grega nos diz que a Deusa
Reia escondeu o bebê Zeus do pai em uma caverna em Creta. Uma
lenda diz que Ela foi “atacada sexualmente” por Seu filho Zeus,
possivelmente uma reminiscência de um relato anterior sobre a
união sexual sagrada que houve entre eles. Em Creta, Zeus era
visto como o filho morto, conceito do qual muitos indo-europeus
gregos do continente se ressentiam, pois insistiam que este era
imortal.
Norte de Canaã – “amante do reinado”
Nos textos de Ugarit do século XIV a.C., muitos relatos parecem
resultar da assimilação da religião da Deusa com os novos
conceitos indo-europeus, possivelmente derivados de um número
maior de hurritas vivendo por lá naquela época. Os textos contam a
história da morte de Baal, Senhor do monte Hérmon. Relatam que
sua morte foi consequência de uma batalha com Mot, um nome
quase desconhecido, mas lendas revelam que Mot era um inimigo
muito temido por Baal. Depois da morte deste, a Deusa Anate
carregou o corpo dele em Seus ombros para encontrar um lugar
onde enterrá-lo. Tão logo conseguiu, Ela vingou a morte de Baal
matando Mot, em um evento descrito em detalhes horripilantes. Mas
a vingança mortal parece ter sido a razão pela qual Baal teve
permissão para retornar ao mundo dos vivos. Segundo a lenda, ele
acompanhou Anate a um campo e se prostrou diante Dela em
gratidão, “admirando Seus cornos de força”. Assim, ela tomou a
forma de uma vaca sagrada e ele de um touro, e se juntaram numa
união sexual sagrada. Mesmo nesse período, Anate ainda era
conhecida como a “Senhora dos Céus, Senhora do Reinado”.
Anatólia – “aquela que controla o reinado”
Nos textos hititas da Anatólia, não há registros indicando que o
rei fosse condenado à morte, possivelmente porque o mais antigo
material escrito encontrado até o momento pode ter sido produzido
pelos próprios hititas indo-europeus. No entanto, a Deusa do Sol de
Arina, a deidade hatita que parece ter sido adotada pelos invasores
hititas, ainda estava presente nas orações como “Aquela que
controla o reinado no céu e na terra”. Textos hititas descrevem um
ritual conduzido pela rainha diante de oito estátuas da Deusa do Sol,
cada uma com o nome da alta sacerdotisa-rainha anterior.
Gurney escreve que “a grande deidade nacional dos hititas era a
rainha-sol de Arina, ‘que governa o reinado do rei e da rainha’, e,
portanto, não é surpresa ver que seus ‘constantes festivais’ estavam
entre os que contavam com a presença essencial do rei”. Embora a
evidência seja escassa, parece ser um forte indício da mesma
relação entre a sacerdotisa da Deusa e o rei dos dias pré-hititas.
Possivelmente adotados pelo costume hitita para garantir a
legitimidade real, os primeiros líderes indo-europeus podem ter
participado do casamento sagrado com as sacerdotisas hatitas.
Após cerca de 1000 a.C., histórias da Deusa então conhecida
como Cibele e o jovem conhecido como o pastor Átis predominam
na Anatólia, em lendas provavelmente sobreviventes da antiga
religião dos povos da Deusa. Diversas versões da morte de Átis, às
vezes associadas à castração, recontam a história do filho/amante
morto. Um fator interessante nos relatos sobre Cibele e Átis é que
essa versão da religião da Deusa acabou sendo trazida da Anatólia
para Roma. Foi celebrada em grandes procissões e festivais até 268
d.C. e adotada por imperadores como Cláudio e Augusto. Podemos
apenas imaginar que influência isso teve sobre a religião cristã, que
se desenvolvia na época. Relatos romanos dos rituais de Cibele
dizem que seu filho, a essa época uma efígie, primeiro foi atado a
uma árvore e depois enterrado. Dizem que passados três dias uma
luz apareceu na tumba onde Átis jazia e de lá ele ressurgiu dos
mortos, trazendo a salvação com seu renascimento. Cibele sempre
foi muito identificada com a Deusa Reia, mãe de Zeus, e é bem
possível que, na Roma pré-cristã, a mãe do deus morto fosse
conhecida como Ma Rhea.
Chipre e Grécia – os ritos para o pastor morto
Na ilha de Chipre, a morte de Adônis era relembrada na
adoração de Afrodite. Contos gregos narram que a Deusa havia
tomado um jovem pastor como amante, e tinha se apaixonado por
esse jovem desde a primeira vez em que o viu, quando ainda era
menino. Segundo a lenda, depois de morar com ele durante um ano
nas florestas das colinas de Chipre, Ela foi a Corinto, um dos
maiores centros de adoração a Afrodite na Grécia clássica. Na
ausência Dela, Adônis foi morto por um javali, e a descrição dessa
morte também aparece em algumas lendas de Osíris e Átis. Na
vigência da adoração a Afrodite, que na ilha de Chipre era
fortemente associada à canaanita Astarte, os ritos da morte do
jovem Adônis sobreviveram na Grécia clássica, apesar da
desaprovação dos governantes indo-europeus.
Israel – um deus morto chamado Tamuz
Nos relatos bíblicos os rituais da morte do filho/amante foram
citados de novo, dessa vez acontecendo entre as mulheres hebreias
que rezavam no templo de Jerusalém por volta de 620 a.C. O Livro
de Ezequiel diz que “Então ele me levou para a entrada norte da
casa do Senhor. Lá eu vi as mulheres sentadas, chorando por
Tamuz” (Ezequiel 8:14). Elas estavam no muro do templo ainda
cumprindo cerimônias fúnebres, chorando por Tamuz.
Em 1933, o professor T. H. Robinson escreveu sobre a morte
cerimonial de Tamuz ocorrida em Israel, declarando: “Esse assunto
tem sido estudado atentamente em anos recentes, e é geralmente
(embora não universalmente) aceito que um ritual envolvendo um
deus morto, um casamento divino e uma procissão cerimonial
acontecia em Israel.”
Em 1958, o professor Widengren afirmou: “Estamos, portanto,
habilitados a declarar que havia em Israel um ritual funerário como o
da Mesopotâmia depois da morte de Tamuz, e que esse festival de
lamentação era celebrado em conexão com a Festa dos
Tabernáculos, após as cerimônias de júbilo do casamento sagrado.”
Deuses castrados e sacerdotes eunucos
É possível que, em certas regiões, um dos rituais que
inicialmente substituíram a morte do rei temporário tenha sido o ato
da castração, talvez a origem da fantasia freudiana sobre o medo da
mesma. A amputação dos genitais masculinos apareceu em várias
lendas que anunciavam a deposição do governante masculino.
Esses relatos ocorrem nas mesmas regiões que também registram
a morte do consorte masculino. Em algumas dessas lendas, como a
de Osíris e Átis, castração e morte estão muito interligadas.
Na história de Kumarbi, que tomou a posição de poder do deus
reinante, Anu, a mitologia hitita indo-europeia relata que Kumarbi,
quando ascendeu ao nível superior, castrou Anu. A mitologia grega,
provavelmente tomando emprestadas essas histórias antigas dos
hititas, fala de Cronos castrando seu pai, Urano, e usurpando sua
posição aconselhado por sua mãe, a Deusa Gaia. Cronos, temendo
que seu filho pudesse lhe fazer o mesmo, desencadeou uma série
de eventos mitológicos gregos em que Zeus acabou por derrubar o
pai. Tanto as histórias gregas como as hititas são indo-europeias. A
castração pode ter sido, portanto, a solução original indo-europeia
para o ritual regicida.
O mito anatólio da Deusa Inara revela que, quando um homem
dormia com a Deusa (presumivelmente a alta sacerdotisa), ele não
deveria jamais dormir com outra mulher, por medo de transmitir a
esta os poderes sagrados da Deusa. Uma lenda de Átis fala de sua
castração voluntária por medo de ser infiel à Deusa. Se o consorte
não tinha permissão para ter relações sexuais com qualquer outra
pessoa depois de ter estado com a alta sacerdotisa, a castração
podia ser a solução para ao menos se manter vivo.
Quando o corpo de Osíris foi cortado em catorze pedaços por
Set, às vezes representado por um javali, ou porco selvagem, Ísis o
reconstituiu, juntando pacientemente todas as partes mutiladas.
Mas, segundo o mito egípcio, os genitais foram irremediavelmente
perdidos, comidos pelos peixes do rio Nilo. A propósito, os genitais
de Urano também foram “atirados nas águas”. O anatólio Átis
parece ter castrado a si mesmo num fervoroso arroubo de amor,
religiosidade, medo da infidelidade, vergonha ou autopunição,
dependendo da versão da história. Os leais servidores e atendentes
nas lendas de Ishtar e Inanna eram descritos como eunucos.
O elemento da castração aparece em diversos relatos antigos da
religião da Deusa. São feitas várias referências à presença de
sacerdotes eunucos na antiga Suméria, Babilônia, Canaã e muito
particularmente na Anatólia, onde textos clássicos registram que, na
época, o número desses homens servindo à religião da Deusa
chegava a cinco mil em algumas cidades. Os sacerdotes eunucos
na Anatólia dos tempos clássicos se denominavam Átis.
Houve sugestões para explicar a decisão evidente desses
homens de se castrarem, um costume que hoje podemos achar
espantoso. Essas explicações encontram apoio no aparecimento em
todo o Oriente Próximo de representações de sacerdotes em trajes
femininos, que dizem ter sido usados pelos sacerdotes eunucos.
Stylianos Alexiou escreve: “Os sacerdotes e músicos usando
longas vestes femininas pertencem a uma categoria especial. Essa
prática levou a conjeturar que, talvez por influência síria, existiam
companhias de sacerdotes eunucos nos palácios cretenses. Em um
período posterior, os sacerdotes eunucos de Cibele e Átis, na Ásia
Menor, formaram uma classe similar.”
É bem possível que os homens, à medida que começaram a
adquirir poder, tenham substituído as sacerdotisas mesmo ainda na
religião da Deusa. Inicialmente, os homens podem ter obtido esse
direito por identificação e imitação do estado de castração do
filho/amante. Ou, na tentativa de imitar o clero feminino que
originalmente detinha o poder, eles podem ter tentado se livrar da
masculinidade, adotando o ritual da castração e o uso de trajes
femininos.
Na Anatólia, e mesmo em Roma, logo depois de um jovem
devotado à Deusa enfiar a faca sagrada no próprio corpo, ele saía
pelas ruas segurando as partes seccionadas. Então, entrava
correndo numa casa qualquer no caminho, e o costume determinava
que os habitantes da casa lhe dessem roupas de mulher, que ele
usava daí por diante.
G. R. Taylor, em seu resumo de The Mothers, de Briffault,
comentou esse costume: “O primeiro passo na limitação do status
das mulheres foi tirar delas o monopólio da função religiosa.” Graves
destacou que o rei era privilegiado para substituir a rainha, mas
somente se usasse as roupas dela. Ele sugeriu que esse era o
sistema na Lagash suméria.
Em algumas áreas da Anatólia nos tempos clássicos, os
sacerdotes eunucos parecem ter conquistado todo o controle da
religião da Deusa. Um grande grupo deles acompanhava a imagem
e os ritos de Cibele quando foram trazidos para Roma. Podemos
apenas especular sobre o efeito e a influência que isso pode ter tido
na recém-formada religião cristã e o costume do celibato entre os
sacerdotes, ainda existente nos cânones da Igreja Católica.
As leis dos antigos hebreus ditavam que um homem sem pênis
não podia ser considerado membro da congregação. “Qualquer um
que tenha os testículos esmagados ou tenha amputado o membro
viril não poderá entrar na assembleia do Senhor.” (Deuteronômio
23:1) É significativo, talvez, que a Bíblia afirme que a primeira
aliança que Iavé fez com Abraão seja tão explícita a respeito da
prática da circuncisão. Exigia que se fizesse em todos os hebreus,
logo após o nascimento. Embora seja explicada por autores na
sociedade contemporânea como uma medida preventiva contra
doenças venéreas, não poderia de fato ser um meio de enfatizar a
“masculinidade” dos hebreus adoradores do homem contra a
“feminilidade” daqueles que adoravam a Deusa?
Resumo
O jovem consorte castrado e/ou morto, um vestígio dos tempos
em que a alta sacerdotisa detinha o direito divino ao trono, é muitas
vezes ignorado ou mal entendido por autores que se concentram em
uma área geográfica ou em determinado período cronológico, e não
se detêm a examinar a gradual transição da supremacia da deidade
feminina e Suas sacerdotisas para a supressão e obliteração dessas
crenças.
Às vezes, o mal-entendido parece ter uma impressionante
desconexão das evidências documentais. Em 1964, A. Leo
Oppenheim, que em menos de duas linhas passou por cima da
primeira Deusa adorada na Suméria como deidade padroeira da
linguagem escrita, dedicou-se a escrever cinco páginas discutindo a
teoria de que a palavra istaru era um simples conceito que implicava
em sina ou destino de vida, mais tarde personificado por homens
como a Deusa Ishtar. Ele afirmou que isso, por sua vez, explicava
por que a Deusa era continuamente descrita como “a portadora, a
fonte do poder e prestígio do rei”. Mas a quantidade de evidências
deixa óbvio que Ishtar, bem como as outras versões da Deusa por
todo o Oriente Próximo e Médio, era descrita como “a fonte do poder
e prestígio do rei” porque era de fato exigido que o rei se tornasse o
consorte sexual da alta sacerdotisa, a encarnação da Deusa na
terra, que provavelmente detinha o direito ao trono por meio da
matrilinearidade.
O costume do ritual regicida desapareceu quando as tribos
patrilineares passaram a dominar. As numerosas publicações da
lenda de Gilgamés, em várias línguas, podem ter servido para
reforçar esse propósito. O reinado hereditário permanente tornou-se
a regra e, quando a deidade masculina ganhou supremacia, o papel
do portador do direito divino ao trono passou a ser dele, da deidade
masculina, um conceito de direitos de realeza que sobrevive até
hoje.
Restam poucas dúvidas de que os costumes originais de
regicídio ritual e da posição política da alta sacerdotisa
apresentavam um grande obstáculo aos conquistadores vindos do
norte para obterem reinado permanente e controle total do governo.
Mas um segundo ponto de confronto, igualmente vital, nos leva ao
próximo capítulo e a uma explanação mais completa das atitudes e
dos padrões culturais acerca de sexo e reprodução na religião da
Deusa, permitindo, e até encorajando, a continuação de um sistema
de reinado feminino.
CAPÍTULO 7
Os costumes da sexualidade sagrada
Os canaanitas são conhecidos em todo o Velho Testamento como
o principal elemento da população da Palestina desalojada por Israel
em sua ocupação da “terra onde flui leite e mel’”. Com grande
indignação e ampla generalização, “a abominação dos canaanitas” foi
estigmatizada pelos profetas hebreus, reformistas e editores do Velho
Testamento. Eles condenam veementemente aquele povo pela
“depravação de Baalim” e Astarote, as manifestações locais das
deidades do culto de fertilidade canaanita, caricaturadas quando eles
se referem a um só elemento, a libertinagem sexual...
O comentário acima é do professor John Gray em The
Canaanites, escrito em 1964. Essa “libertinagem sexual” descrita
entre os canaanitas é referida aos sagrados costumes sexuais da
antiga religião, costumes encontrados também em muitas outras
áreas do Oriente Próximo e Médio.
Nos tempos bíblicos esses costumes ainda eram habituais, como
haviam sido por milhares de anos na Suméria, Babilônia e Canaã,
por muitas mulheres que viviam no complexo dos templos, que em
tempos arcaicos eram o próprio cerne da comunidade. Como vimos,
os templos eram donos de muitas terras aráveis e rebanhos de
animais domesticados, mantinham registros culturais e econômicos
e, em geral, parecem ter funcionado como postos de controle central
da sociedade. Mulheres que residiam nos recintos sagrados da
Divina Ancestral tomavam amantes dentre os homens da
comunidade, fazendo amor com aqueles que vinham prestar honra
à Deusa. Para aquelas pessoas o ato sexual era considerado
sagrado, tão santificado e precioso que era efetuado dentro da casa
da Criadora do céu, da terra e de toda a vida. Um dos muitos
aspectos da Deusa, e pelo qual era reverenciada, era ser a deidade
padroeira do amor sexual.
Alguns arqueólogos supõem que esses costumes sexuais dos
templos, tão repetidamente atestados na religião da deidade
feminina em todos os primórdios do Oriente Próximo e Médio,
devem ter sido vistos como uma espécie de símbolos mágicos
primitivos para invocar a fertilidade do gado e da vegetação, assim
como dos seres humanos. Em minha opinião, devem ter se
desenvolvido em virtude da primeira compreensão e tomada de
consciência da relação entre sexo e reprodução. Já que essa
conexão foi provavelmente observada de início pelas mulheres,
pode ter sido integrada na estrutura religiosa como um meio de
assegurar a procriação entre as mulheres que escolhiam viver e
criar seus filhos dentro do complexo do santuário, e também,
possivelmente, como um método de controlar a gravidez.
O conceito de reprodução aparece explicado pictoricamente em
um placa de pedra neolítica descoberta no santuário da Deusa, em
Çatal Hüyük, entalhada há cerca de oito mil anos. Um lado do relevo
apresenta os corpos de dois amantes abraçados e, do outro lado,
uma mulher segurando um bebê.
Hoje as pessoas criadas e programadas na “moralidade” da
religião masculina contemporânea podem achar tais atitudes e
costumes sexuais desconcertantes, chocantes, ou até sacrílegos.
No entanto, devemos considerar a probabilidade de que esses
julgamentos ou reações sejam resultado dos ensinamentos e
condicionamentos das atitudes religiosas presentes em nossa
sociedade, por sua vez baseadas em ideologias daqueles que
inicialmente, repetidamente, condenaram os costumes sexuais da
Deusa.
Na adoração à deidade feminina, o sexo era o presente Dela
para a humanidade. Era sagrado e santificado. Ela era a Deusa do
Amor Sexual e da Procriação. Mas na religião de hoje encontramos
uma atitude quase totalmente inversa. O sexo, principalmente o
sexo não conjugal, é considerado mau, sujo, pecaminoso. Contudo,
em vez de chamar de “cultos da fertilidade” as práticas das religiões
antigas, que tinham tamanha aceitação de toda a sexualidade
humana, podemos chamar as religiões atuais de esquisitas, na
medida em que associam a vergonha e o pecado ao próprio
processo de concepção da vida humana. Talvez, daqui a séculos,
outros estudiosos e historiadores venham a chamá-las de “culto da
esterilidade”.
Evidências documentais da Suméria, Babilônia, Canaã, Anatólia,
Chipre, Grécia, e até mesmo da Bíblia, revelam que, apesar do
conceito de casamento ser conhecido desde os registros escritos
mais antigos, tanto as mulheres casadas quanto as solteiras
continuavam a viver por muitos períodos de tempo nos complexos
do templo, seguindo os antigos costumes da Deusa. A própria Bíblia
revela que eram livres para ir e vir como lhes aprouvesse. Mulheres
de famílias ricas e reais, assim como mulheres da comunidade,
participavam dos costumes sexuais da Deusa. Essas mulheres
eram livres para se casar a qualquer momento, e Estrabão conta
que, até o século I d.C., eram consideradas esposas
excepcionalmente boas. Nos primeiros tempos históricos, nunca se
levantou a questão, ou mesmo o conceito, de respeitabilidade ou
propriedade das mulheres – isso foi inventado depois, com a nova
moralidade.
As Religiões Mediterrâneas do Velho Mundo, à exceção da
hebraica, viam os processos da propagação da vida como divinos, ou
pelo menos como algo não estranho e repugnante à divindade. Mas
os primeiros propagandistas cristãos, trabalhando na linha hebraica,
intensificaram o isolamento de Deus do simples fenômeno do
nascimento, passando a engendrar então uma tendenciosidade
antissexual, e preparando uma discórdia entre qualquer visão
biológica e o dogma religioso vigente, e, desse modo, o pensamento
da ética moderna não obteve sucesso.
Esse foi o comentário do historiador L. R. Farnell, em Oxford, em
1896. Farnell foi um dos poucos autores dessa época, e um dos
muitos desde então, que conseguiram lidar de modo objetivo com a
atitude das religiões antigas com relação ao sexo, em vez de seu
texto fazer corar até a raiz dos cabelos de vergonha ou gerar
comentários frementes de indignação.
Neste capítulo, pretendo abordar e tentar explicar as razões
subjacentes a essa postura “antissexual” dos hebreus, e mais tarde
das religiões cristãs, e os confrontos que se seguiram. Essa atitude
antissexual não era resultado de uma pureza mais inerente ou de
um menor impulso sexual entre os adeptos das crenças judaico-
cristãs. Como veremos, foi desenvolvida e difundida provavelmente
por motivos puramente políticos, com o objetivo de permitir aos
invasores hebreus patrilineares um maior acesso ao controle da
terra e do governo, destruindo o sistema matrilinear.
Desde as primeiras conquistas pelos indo-europeus, as leis
concernentes às mulheres sagradas dos templos, as qadishtu – leis
de direitos de herança, de propriedades, de negócios e suas
relações legais e econômicas com os filhos – aparecem
continuamente nos códigos. Entretanto, os indo-europeus, tal como
os conhecemos, aparentemente não fizeram oposição frontal aos
costumes sexuais em si. Ao menos é o que sugere a literatura
descoberta e traduzida até o momento, embora possa ter sido essa
a meta das leis cada vez mais severas quanto à infidelidade de
mulheres casadas.
Mas entre os hebreus ligados aos levitas podemos observar
conexões. Desde o tempo de Moisés, as leis levitas dos israelitas
exigiam virgindade de todas as mulheres até o casamento, sob pena
de serem mortas, apedrejadas ou queimadas e, uma vez casadas,
era exigida total fidelidade apenas por parte da esposa, também sob
risco de morte caso a descumprisse. Talvez a pena de morte para
uma mulher casada ou noiva que tivesse sido estuprada seja uma
clara mostra da insistência levita sobre o conhecimento da
paternidade. Tomar parte nos costumes sexuais sagrados do templo
decerto infringiria essas leis. Em paralelo com essas maiores
restrições sexuais para as mulheres, vemos que os sacerdotes e
profetas levitas condenavam também os costumes sexuais dos
templos. Sugiro que o motivo desse confronto tenha sido o que se
segue.
Se, enquanto qadishtu, as mulheres sagradas da Deusa fizessem
amor com vários homens em vez de serem fiéis a um marido, a
paternidade dos filhos delas seria questionável. Documentos
sumérios e babilônios revelam que essas mulheres, devido a sua
filiação ao complexo do templo, possuíam terras e outras
propriedades, e se dedicavam a amplas atividades de negócios.
Vários relatos atestam que muitas eram de famílias ricas, bem
aceitas na sociedade. Seguindo os costumes originais de
parentesco na religião da Deusa, as crianças nascidas das qadishtu
seriam prováveis herdeiras do nome, títulos e propriedades da mãe.
A descendência matrilinear teria continuado a existir como uma
estrutura social inerente à comunidade. As filhas também poderiam
ser qadishtu. Uma inscrição de Trales, no oeste da Anatólia,
esculpida por volta de 200 d.C. por uma mulher chamada Aurelia
Aemilias, anuncia orgulhosamente que ela tomou parte nos
costumes sexuais enquanto servia no templo, tal como haviam feito
sua mãe e todas as suas ancestrais.
Os costumes sexuais sagrados da religião feminina nos oferecem
mais uma das ligações aparentes entre a adoração da Divina
Ancestral na Suméria, Babilônia, Anatólia, Grécia, Cartago, Sicília,
Chipre e até em Canaã. As mulheres que faziam amor nos templos
eram conhecidas, em sua própria linguagem, como “mulheres
sagradas”, “as imaculadas”. Seu nome acadiano de qadishtu é
traduzido literalmente como “mulheres santificadas”, ou “mulheres
santas”. No entanto, os costumes sexuais, até nos estudos mais
acadêmicos dos últimos dois séculos, quase sempre são
classificados de “prostituição”, e as mulheres sagradas são referidas
como “prostituas do templo” ou “prostitutas rituais”. A palavra
“prostituta” em tradução de qadishtu não somente nega a santidade
do que era tido como sagrado, como também sugere, pelas
inferências e implicações sociais do termo, uma subjetividade
etnocêntrica por parte do autor. Conduz o leitor a uma má
interpretação das crenças religiosas e da estrutura social do
período. Parece-me que a palavra “prostituta” distorce inteiramente
o sentido dos costumes antigos que o autor supõe estar
esclarecendo.
O professor Albright, que admirava os nobres ideais dos
israelitas, escreve:
A prostituição sagrada parece ter sido invariavelmente
concomitante ao culto da deusa fenícia e síria, fosse qual fosse o
nome pessoal dela, como sabemos a partir de muitas alusões na
literatura clássica, especialmente em Heródoto, Estrabão e Luciano.
Enquanto prostituta sagrada, a deusa era, estranhamente para o
nosso ponto de vista, chamada de “a Santificada”... a prática estava
firmemente implantada entre os aborígenes canaanitas da Palestina, e
foi constantemente reintroduzida a partir dos países que circundavam
Israel como “um costume muito sagrado”, para citar as palavras de
Luciano ao discutir a mesma prática em Hierápolis, na Síria, cerca de
mil anos depois de Asa.
O professor James, um pouco menos antagonista, escreve: “Isso
surgiu da prática da prostituição ritual em conexão com santuários
israelitas em Siló, condenada por Amos... Como Oseias deixa
abundantemente claro, as sacerdotisas continuavam a exercer suas
funções com igual zelo nessa época (750-735 a.C.), apesar dos
esforços de Amos e de outros reformistas como Asa para eliminá-
las”.
Até na terra hebraica de Judá
Mas apesar das imagens contemporâneas dos costumes
sexuais, arqueólogos encontraram relatos das mulheres sagradas
nos mais antigos registros da Suméria. A lenda de Inanna e Enki
classificam os costumes sexuais sagrados como um dos maiores
dons que Inanna trouxe para o povo civilizado de Uruque. A Rainha
do Céu era muito reverenciada e estimada pelas mulheres sagradas
que, por sua vez, eram especialmente protegidas por Ela. Em
Uruque, as mulheres do templo eram conhecidas como nu-gig, as
puras, ou imaculadas. Um interessante fragmento sumério traz o
nome de Lilith, descrita como uma jovem donzela e “a mão de
Inanna”. Lemos nessa placa arcaica que Lilith foi enviada por Inanna
para reunir homens na rua e levá-los ao templo. Esse mesmo nome,
Lilith, aparece mais tarde na mitologia hebraica como a primeira
mulher de Adão e que se recusou a ser sexualmente submissa a
ele. E ainda mais tarde aparece como o nome do demônio que
pairava por ali para colher o esperma derramado e com ele fazer “os
filhos demônios ilegítimos” dela. Essas duas histórias podem ter
sido desenvolvidas em reação à Lilith original, tão intimamente
associada aos costumes sexuais da adoração à Deusa.
No século XVIII a.C., na Babilônia, o nome acadiano de Ishtar
começou a substituir o nome sumério de Inanna. Uma placa faz
referência a Uruque, onde a adoração a Ishtar acabou suplantando
a de Inanna, como a cidade de “cortesãs e prostitutas” (uma
tradução contemporânea das palavras). Essa mesma placa
menciona sacerdotisas que faziam amor com estrangeiros,
alegando que eles eram encarnações do espírito santo. As mulheres
de Ishtar também eram conhecidas pela palavra acadiana qadishtu,
ao passo que no importante templo da Babilônia eram conhecidas
como ishtaritu, que significa simplesmente “mulheres de Ishtar”.
Remanescentes desses costumes sexuais primitivos foram
descritos por Heródoto, relatando que na época dele, cerca de 450
a.C., mulheres da Babilônia faziam sexo com estrangeiros só uma
vez na vida, como uma experiência sexual inicial, e mais tarde se
casavam e daí por diante tinham sexo apenas com seu marido.
Estrabão, nascido na Anatólia pouco antes do nascimento de
Cristo, registrou que naquele tempo os costumes sexuais eram
seguidos em muitas áreas da Anatólia na adoração à Deusa, sob os
nomes de Cibele ou Anaitis. Ele relata que se tratava de um aspecto
integral da adoração em Comana e também na Lídia, onde esse
relato tem apoio na inscrição de Trales. Estrabão escreveu que, em
suas viagens, viu que as crianças nascidas dessas relações eram
consideradas legítimas e respeitáveis, e recebiam simplesmente o
nome e o status social da mãe. Ele acrescenta que o nome e o título
eram usados com orgulho em todas as inscrições oficiais, e
comenta que nesse período, na Anatólia, “a mãe não casada parece
ser adorada”.
No período clássico da Grécia as mulheres sagradas serviam no
templo de Afrodite, em Corinto. Luciano mais tarde falou dos
costumes em sua época, 150 d.C., contando que as mulheres de
então somente tomavam amantes estrangeiros no dia do festival de
Adônis. Mesmo quando a adoração da egípcia Ísis foi levada para
Roma, as mulheres sagradas seguiram o antigo costume sexual no
templo Dela.
Não há registros conhecidos hoje sugerindo que as mulheres do
Egito antigo seguiam os costumes sexuais, mas no capítulo 23 do
livro do sacerdote reformista Ezequiel, ele acusa, enraivecido, um
grupo de mulheres hebreias de depravação e obscenidade,
insistindo que elas haviam aprendido seus modos sexuais “do mal”
com os egípcios. Em uma passagem, ele adverte: “Vou pôr fim a
sua lascívia e meretrício trazidos da terra do Egito.” (Ezequiel 23:27)
Em seu conto alegórico de duas meninas que simbolizavam as
nações separadas do povo hebreu de Judá e Israel, ele reclama que
as meninas, por terem sido tão livres sexualmente no Egito, agora
eram mulheres más e decaídas em Canaã.
A adoração da Deusa como Astarote (Astarte) era difundida em
toda a área mediterrânea. Canaanitas de Tiro e Sidon (fenícios)
fundaram templos de Astarote em Cartago, Erix na Sicília e em
diversos lugares em Chipre. Em cada um desses lugares eram
seguidos os costumes sexuais sagrados. Sozomeno relata
costumes sexuais nos templos de Astarote em Afqa e Balbeque, na
área onde hoje é o Líbano. Farnell esclarece muitas das conexões
na área do Mediterrâneo.
Na religião de Astarote, assim como na adoração à Deusa em
toda parte do Oriente Próximo e Médio, as mulheres continuavam a
seguir os costumes sexuais sagrados. A Bíblia conta que qadishtu
em Jerusalém teciam véus ou roupas finas para a asherim (imagens
da Deusa Asherá) no local referido por Roland de Vaux como a
“casa das prostitutas sagradas”. Ele afirma ainda que os costumes
sexuais eram muito típicos dos templos canaanitas e que as
mulheres de Israel mantinham essa prática apesar da condenação
por parte dos líderes hebreus.
Mais importante para a compreensão total do antagonismo dos
hebreus a esse costume é constatar que as mulheres sagradas
continuaram a servir à deidade feminina de acordo com o modo
sexual antigo, até na terra hebraica de Judá. Os costumes sexuais
permaneceram como um aspecto da adoração religiosa no templo
de Jerusalém, o templo reivindicado por Iavé, o mesmo templo em
que as mulheres haviam sido vistas chorando a morte de Tamuz.
O professor James e vários outros estudiosos escreveram sobre
a adoração a Astarote existindo lado a lado com a de Iavé em
Jerusalém. James descreveu também os costumes sexuais em
Jerusalém e no templo hebreu em Siló.
No Livro de Oseias, no Velho Testamento, ficamos sabendo que
uma mulher, nesse caso Gomer (esposa de Oseias) era livre para
se casar, criar filhos e continuar a fazer amor com outros homens no
templo, vestida de forma luxuosa. Mesmo nesses relatos bíblicos,
que eram escritos obviamente para depreciar e aviltar as ações
dela, a descrição revela que Gomer tomava parte nos costumes
sexuais por livre e espontânea vontade, e não os via como um dever
obrigatório ou compulsório, mas como ocasiões agradáveis,
festivas. Essa situação era claramente inaceitável para os homens
que se casavam no sistema hebraico patrilinear, como Oseias, mas
revela que, para os pertencentes a outros sistemas religiosos, era
um comportamento bastante típico.
Durante milhares de anos, esses costumes sexuais foram aceitos
naturalmente entre os povos do Oriente Próximo e Médio. Eles
devem ter permitido, e até encorajado a continuidade do modelo da
descendência matrilinear e a sobrevivência do parentesco feminino.
Inerente a essa mesma prática dos costumes sexuais era a falta de
preocupação com a paternidade das crianças, e é apenas com certo
conhecimento de paternidade que o sistema patrilinear pode ser
mantido.
Eu sugiro que foi na tentativa de estabelecer esse certo
conhecimento de paternidade, o que tornaria então possível que
houvesse o reconhecimento patrilinear, que esses costumes antigos
foram finalmente denunciados como perversos e depravados, e foi
por esse motivo que os sacerdotes levitas desenvolveram o conceito
de “moralidade” sexual: virgindade pré-nupcial das mulheres e
fidelidade conjugal das mulheres. Em outras palavras: total controle
sobre o conhecimento da paternidade.
É óbvio que o lugar onde você está determina o que você vê. Do
ponto de vista dos que seguiam a religião da Deusa, eles estavam
simplesmente procedendo conforme os modos antigos. Do ponto de
vista das tribos hebreias invasoras, essa antiga religião era
considerada um culto baseado na fertilidade, orgiástico, maligno,
libidinoso, vergonhoso, desgraçado, pecaminoso. Mas podemos
suspeitar que, subjacente a essa postura moral havia a manobra
política do poder sobre as terras e as propriedades, acessíveis a
eles apenas com a instituição do sistema patrilinear, um sistema
talvez muito conhecido por eles nas terras do norte dos indo-
europeus? Teria sido por essas razões que as leis levitas
declararam que qualquer atividade sexual das mulheres que não se
restringisse ao leito conjugal seria considerada pecaminosa, isto é,
contra os decretos de Iavé? Segundo a Bíblia, essas leis foram
instituídas no tempo de Moisés, pouco antes da invasão de Canaã
pelas tribos dos hebreus. Os confrontos territoriais e sociais
ocorreram lado a lado. Foi uma batalha longa e feroz, começando
com a chegada dos hebreus a Canaã e continuando pelas eras dos
romanos e dos cristãos, e muito dessa saga é registrada na Bíblia.
Para compreender bem a extensão da postura antissexual dos
hebreus e a tentativa dos sacerdotes levitas de mudar o
comportamento sexual e as atitudes das mulheres hebreias,
precisamos examinar a que ponto a religião da Deusa afetou
diretamente o povo hebreu. Seriam os costumes da religião da
Deusa um desvio esporádico, realizados em ocasiões
indeterminadas, ou a religião seria, a despeito das incursões dos
indo-europeus e dos levitas, ainda um fator muito importante na vida
daqueles que viviam em Canaã?
1. Estatueta do Paleolítico Superior (cerca de 25000 a.C.). Vênus de
Willendorf, Áustria. É uma das muitas figuras similares descobertas nos
sítios gravetianos-aurignacianos que atravessam a Europa e a Ásia,
desde a Espanha até a Rússia. Cortesia do Departamento de
Arqueologia da Universidade de Cambridge.
2. Uma das várias estatuetas pequenas, em argila, da Deusa com
cabeça de réptil, descoberta na cidade de Ur, na Suméria (Iraque). Os
arqueólogos datam de 4000-3500 a.C. Cortesia dos curadores do British
Museum.
3. Pequena estatueta de bronze da Deusa montada em dois leões. Esse
duplo simbolismo de dois leões foi associado, nos períodos grego e
romano, a deusas como Artêmis, Cibele e Reia. Essa estatueta foi
descoberta no sul da Itália e é datada de cerca do século V a.C.
Cortesia dos curadores do British Museum.
4. Deusa sentada em trono com dois felinos. Descoberta no Nível II
(5750 a.C.) de Çatal Hüyük, Anatólia (Turquia), por James Mellaart, que
desencavou muitas outras estatuetas da Deusa e santuários no mesmo
sítio. Cortesia do Museu de Arqueologia de Ancara.
5. Ainda conhecida em Creta como A Pequena Deusa das Serpentes,
essa figura da Deusa ou de uma de suas sacerdotisas foi descoberta no
Palácio de Cnossos, em Creta. É datada do Período Minoico Médio
(2000-1800 a.C.). Cortesia de Stylianos Alexiou, diretor do Museu
Arqueológico de Creta em Heraclião.
6. A e B. Duas serpentes de ouro se enroscam nos braços e se
estendem das mãos dessa delicada estatueta em marfim e ouro da
Deusa, ou de sacerdotisas, do século XVII a.C., em Creta. Cortesia do
Museu de Belas Artes de Boston. Doação de Mrs. W. Scott Fitz.
7. Uma das muitas imagens da Deusa suméria sentada em seu trono. A
peça foi encontrada em um nível do Período Pré-Dinástico (começo do
terceiro milênio) em Ur, na Suméria (Iraque). Cortesia dos curadores do
British Museum.
8. Serpentes e flores em Seus braços abertos, a Deusa nesta placa
combina o simbolismo da Deusa egípcia Hator e da Deusa canaanita
Astarote. “Placas Astarte” similares foram descobertas no Egito, Líbano,
Israel, Jordânia e Iraque. Esta, do Egito, é datada de cerca de 1250 a.C.
Cortesia dos curadores do British Museum.
9. Pequena escultura em argila de um casal deitado em uma cama de
tecido, talvez representando os rituais sexuais sagrados da religião da
Deusa. Uma dentre muitas peças similares do primeiro Período
Babilônico (1900-1700 a.C.) encontradas na cidade de Ur na Suméria
(Iraque). Cortesia dos curadores do British Museum.
10. Estátua em calcário da Deusa Cobra Ua Zit (chamada de Uto pelos
gregos). Deidade padroeira de todo o Baixo Egito nos períodos pré-
dinásticos, deidade protetora da coroa do Norte nos primeiros tempos
dinásticos, com santuário central em Per Uto no Delta. Essa estátua do
século XVII a.C. é de Desouk, no Egito, provável local de origem da
antiga Uto. Cortesia do Museu Universitário da Universidade da
Pensilvânia.
11. Um peitoral em ouro de Ísis alada usando sobre a cabeça o símbolo
egípcio do trono. Descoberta em uma pirâmide na Etiópia, esta peça é
datada de aproximadamente 600 a.C. Cortesia do Museu de Belas Artes
de Boston.
12. Estátua da Senhora de Biblos (Baalat) do período grego, de Biblos,
Canaã (Líbano). A adoração à Deusa no templo de Biblos data de pelo
menos 2800 a.C. e era estreitamente associada à adoração de Ísis e
Hator no Egito, bem como da Senhora da Serpente da Península do
Sinai. Cortesia dos curadores do British Museum.
13. As asas da Deusa Ísis protegem a figura menor de Osíris, seu irmão
e marido. Esse entalhe em pedra, do Egito, é datado de
aproximadamente 600 a.C. Cortesia dos curadores do British Museum.
14. Um tubo com cobras descoberto em Bete-Seã, Israel (Canaã).
Datado aproximadamente do século XIII a.C., é similar aos tubos com
cobras daquele mesmo período, escavados em Kition, Chipre e em
Cnossos, Creta. Cortesia do Museu Universitário da Universidade da
Pensilvânia.
15. Estátua de uma sacerdotisa do templo de Afrodite em Pafos, Chipre.
Segundo a lenda grega, Chipre, onde a adoração da Deusa como
Astarote (Astarte) havia se espalhado desde 2000 a.C., era o local de
nascimento da Deusa conhecida como Afrodite na Grécia clássica. Esta
estátua é datada de aproximadamente 700 a.C. Cortesia dos curadores
do British Museum.
16. Com um címbalo ritual na mão, Afrodite, como era conhecida em
Tapso, Cartago, durante o período romano. Embora fosse geralmente
designada como a Deusa do Amor, Afrodite era também reverenciada
como uma deusa das batalhas e Mãe de Todas as Deidades. Cortesia
dos curadores do British Museum.
17. Uma estátua, maior que o tamanho humano, da Deusa Deméter
grega, adorada como provedora da lei e da agricultura, teve seu templo
mais importante em Elêusis. Essa figura da Deusa dos Mistérios
Eleusinos vem de Cnido, Turquia (antiga Cária). Cortesia dos curadores
do British Museum.
18. Pedra de selo da Deusa Atena, que tinha o principal local de
adoração na Acrópole de Atenas, Grécia. Como em muitas outras
representações de Atena, aqui ela aparece com sua serpente sagrada.
Este pequeno entalhe em cornalina foi encontrado em Cúrio, Chipre e é
datado do século V a.C. Cortesia dos curadores do British Museum.
19. Busto em bronze de Atena usando seu elmo de batalha. Serpentes
adornam seus ombros e o peitoral. Encontrada em Pireu, Grécia, essa
figura da deidade padroeira Atena é datada do século IV a.C. Cortesia
do Museu Arqueológico Nacional de Atenas.
20. Amazonas: fato ou fantasia? Em registros gregos e romanos, as
amazonas adoravam a Deusa como a Mãe de Todas as Deidades. Este
é um fragmento de um relevo maciço representando as amazonas na
tumba de Artemísia em Halicarnasso, Turquia (Cária). O monumento é
uma das numerosas representações de amazonas em batalha contra
homens gregos. Cortesia dos curadores do British Museum.
21. Este relevo votivo dedicado à Deusa Ártemis mostra a apresentação
à Deusa da tocha passada em uma corrida em sua honra, em Pireu,
Grécia. É datada do século IV a.C. Cortesia dos curadores do British
Museum.
CAPÍTULO 8
Eles ofereceram incenso à rainha do céu
Embora profundamente enterradas nas areias do que foi Canaã,
estátuas da deidade feminina têm sido continuamente descobertas
em escavações arqueológicas. Essas imagens da Deusa, algumas
datadas até de 7000 a.C., oferecem um testemunho silencioso da
mais antiga adoração à Rainha do Céu na terra que hoje é lembrada
como local de nascimento do judaísmo e do cristianismo.
Yigael Yadin, professor de Arqueologia na Universidade Hebraica
de Jerusalém e diretor do Instituto de Arqueologia, também em
Jerusalém, publicou recentemente seu relato da escavação da
cidade de Hazor, na Canaã bíblica. Um pouco evasivamente, ele
fala da evidência da adoração à Deusa da seguinte maneira:
Embora a religião oficial no norte de Israel fosse a de Iavé – o deus
de Israel – sabemos, tanto pelos versos da Bíblia quanto pelas
descobertas arqueológicas, que os cultos de Baal e Astarte exerceram
forte influência na população local em relação ao folclore e às crenças
populares. De fato, descobrimos uma boa quantidade de estatuetas
de argila representando Astarte, a deusa da fertilidade, e o que se
pode chamar de prostitutas sagradas ligadas aos cultos de Baal e
Astarte.
Ao discutir a Alta Idade do Bronze em Canaã (cerca de 1500-
1300 a.C.), o professor Albright nos diz que
Uma das classes mais comuns de objetos religiosos encontrados
nos níveis do Alto Bronze é constituída pelas chamadas placas “de
Astarte”. São placas de cerâmica, geralmente de formato oval, em que
estão impressas (em molde de cerâmica ou metal) uma figura da
deusa Astarte nua en face, com os braços levantados, segurando nas
mãos hastes de lírios ou serpentes, ou ambos. A cabeça da deusa é
adornada com duas longas espirais de cachos idênticos aos cachos
da Hator egípcia. Essas placas foram tomadas emprestadas da
Mesopotâmia, onde têm uma longa história na Baixa Idade do Bronze
(cerca de 3200-2100 a.C.).
Kathleen Kenyon, ex-diretora da Escola Britânica de Arqueologia
em Jerusalém, ao discutir a Canaã bíblica, escreve que
(...) as placas de Astarte são os objetos de culto mais comuns em
quase todos os sítios do período [Alta Idade do Bronze]. Que essas
placas, em suas associações com a religião fenícia, sejam
encontradas, não quer dizer, porém, que possam ser tomadas em
qualquer sítio como evidências de que ainda não estavam sob
controle israelita, pois o próprio Tell Beit Mersim fornece claras
evidências de que a ocorrência de tais placas ou estatuetas similares
remontam ao século VII a.C. As denúncias dos profetas bastam para
mostrar que o iaveísmo precisava lutar continuamente com a antiga
religião da terra.
Explorando a influência e a importância da adoração à Deusa em
Canaã nos tempos bíblicos, nós a encontramos como Astarote,
Aserá, Astarte, Attoret, Anate, ou simplesmente Elat ou Baalat
(ambas definidas como Deusa). Ela era a principal deidade de
cidades canaanitas tão grandes quanto Tiro, Sídon, Ascalão, Beth
Anate, Afqa, Biblos e Asterote-Carnaim.
Em 1894 Robertson Smith conjeturou que, nos tempos bíblicos,
Astarte já havia se tornado a esposa menos importante de Baal,
mas há inscrições para a Deusa em Canaã como a Regente
Celestial, Amante do Reinado, Mãe de Todas as Deidades. Ela é
certamente associada a Baal, ou um Baal ou muitos Baalim, porém,
após cuidadosa observação, vemos que o ritual e a forma das
práticas religiosas são as da antiga religião da Deusa.
Segundo Seton Lloyd, Professor de Arqueologia Asiática
Ocidental, a palavra baal, geralmente traduzida como senhor,
implicava originalmente em uma posição temporária, ou dono
temporário de uma propriedade. Pode ter sido usada à semelhança
da palavra indo-europeia pati, também usada como senhor, dono,
amo e marido e, como já mencionei, pode até estar relacionada à
palavra sânscrita bala.
Nas lendas de Ugarit, no norte de Canaã, Baal do monte Hérmon
pediu à Deusa, lá chamada de Anate, para ajudar a lhe dar um
templo, porque ele não tinha nenhum. Nessas mesmas lendas do
século XIV a.C., Anate matou facilmente o inimigo, que tinha poder
bastante para atemorizar e depois matar Baal. Embora o nome Baal
possa ter sido introduzido séculos antes como deus da tempestade
do monte Hérmon pelos hurritas em Ugarit, na época em que essas
lendas foram escritas o nome era também identificado com o
consorte da Deusa e, em Ugarit, Baal tinha o papel dual de deus da
tempestade da montanha e de consorte morto, muito semelhante a
Damuzi, Tamuz, Átis, Osíris e Adônis. Diz-se que em sua morte, o
sofrimento de Anate por ele foi igual ao de uma vaca pela perda do
bezerro.
Há registro de que até mesmo Thor-El, uma deidade masculina
mais antiga descrita por alguns autores como o cabeça das
deidades de Ugarit, se escondeu no mais recôndito santuário de
suas oito câmaras, tremendo de medo diante da aproximação da
poderosa Anate. Nesses mesmos textos, Anate era conhecida como
“Amante do Reinado, Senhora do Domínio, Amante dos Altos Céus.
À luz das placas do norte de Canaã, é difícil defender a ideia de que
alguma dessas deidades masculinas fosse retratada como poderosa
ou onipotente, a não ser que simplesmente se insistisse em que
todas as deidades masculinas sempre o são. Ainda que essa
conclusão seja deixada em suspenso por muitos autores, é a Deusa
Anate que emerge dessas lendas canaanitas como a deidade de
maior valor e força.
Em seu Dictionary of the Bible, de 1900, J. Hastings afirmou que
Astarote era a suprema, dizendo: “Essa Deusa era a maior
divindade dos semitas em seu primitivo estágio matriarcal de
organização. Ela era análoga à matriarca humana, livre em seu
amor, a mãe fecunda do clã, e líder na paz ou na guerra.”
Nas páginas do Velho Testamento, porém, Astarote, o nome mais
usado no sul de Canaã, onde a maioria do povo hebreu havia se
instalado, raramente aparece desacompanhado. Ele quase sempre
vem junto com Baal, tal como muitos demônios serpentes das
lendas indo-europeias eram filhos ou maridos da Deusa; às vezes a
religião é até designada como baalismo. Embora seja certamente
possível que a religião canaanita no sul, onde príncipes arianos já
haviam feito grandes incursões, tenha elevado Baal a um status
mais alto nos últimos tempos bíblicos, a adoração, os rituais, os
costumes sexuais, os sacerdotes eunucos, o luto pelos consortes
mortos Tamuz ou Baal, a abundância de estátuas de Astarte e as
placas, os pilares e postes simbólicos (na verdade chamados de
asherah, embora sempre em minúsculos), tudo isso revela que
foram o simbolismo e os costumes da religião da Deusa os
verdadeiros alvos da agressão dos hebreus. É mais que provável
que os sacerdotes levitas, assim como propositalmente escreviam e
pronunciavam erradamente o nome Dela (dizendo boseth, que
significa vergonha), e se referiam a Ela sempre no gênero
masculino, se recusavam sequer a reconhecer a posição da Deusa,
ligando-A sempre ao Seu consorte.
Como já vimos, a Bíblia e a literatura de outras religiões podem
ser parcialmente resultante de objetivos políticos intencionais, bem
como o registro de uma crença ou tradição de longa data. Ao
discutir o mito do Paraíso na Bíblia, Joseph Campbell fala de
“mitologias ostensivamente inventadas, falsificadas”. O professor
Chiera escreveu que o mito de Marduque foi provavelmente
difundido com a ajuda de exércitos babilônicos, e ressalta que a
lenda da supremacia de Assur era simplesmente uma versão
reformulada do mito de Marduque. Ele escreveu também que o mito
de Adão e Eva tinha sido “evidentemente produzido em círculos
acadêmicos”, e acrescenta que a Bíblia foi submetida à censura de
sacerdotes que tinham poder de decisão sobre “o que era adequado
para ser incorporado à história dos fundadores da raça...”. O
professor Widengren também comentou que a Bíblia, tal como a
conhecemos, “...tem muitas passagens obviamente expostas à
censura e devidamente removidas”.
Mesmo que muitos relatos da Bíblia possam ser baseados em
eventos históricos, confirmados de várias maneiras por diversos
documentos e evidências fornecidos por escavações arqueológicas,
é bem provável que o registro bíblico levita sobre a religião “pagã”
em Canaã seja apresentado de um ponto de vista muito mais
vantajoso e aceitável para a teologia levítica, em vez de configurar
um registro histórico totalmente objetivo. A despeito de vários
métodos usados para confundir a identidade e o gênero da Deusa
como Astarote ou Aserá, mesmo na Bíblia tal como a conhecemos
hoje, passagens e simbolismos traem a presença influente e
prevalente da antiga adoração à deidade feminina, confirmados por
artefatos canaanitas e do Oriente Próximo.
No Egito, os hebreus conheceram a Deusa adorada como Ísis ou
Hator. Durante quatro gerações, esse povo viveu em uma terra em
que as mulheres tinham um status muito elevado e o sistema de
descendência matrilinear persistiu por um longo período. A julgar
pela quantidade de hebreus que vieram do Egito em comparação
com a família dos doze filhos que supostamente havia chegado lá
quatro gerações antes, é possível que um grande número desses
hebreus conhecidos como israelitas tenham sido, na verdade,
egípcios, canaanitas, nômades semitas e outros povos adoradores
da Deusa que se reuniram no Egito. A leste de Canaã, na Babilônia,
estavam os templos de Ishtar. E na terra de Canaã, que os hebreus
invadiram e tomaram para si depois da saída do Egito, registros e
artefatos arqueológicos revelam que a religião da Deusa, como
Astarote, Astarte, Aserá, Anate, Elat ou Baalat, ainda estava em
vigência em muitas das grandes cidades.
“Destruirás seus altares, quebrarás suas imagens.”
Os autores levitas do Velho Testamento alegavam que a deidade
deles os havia presenteado com Canaã como “a terra prometida”.
No entanto, mesmo nos próprios relatos deles, fica claro que Canaã
não era uma terra despovoada, mesmo no tempo de Abraão. Em
Números 13:17-19 foi registrado que as tribos hebreias, ao se
aproximarem pelo deserto do Sinai, enviaram com antecedência
alguns homens às cidades de Canaã. Em seu relatório da situação,
em torno de 1300-1250 a.C., consta: “‘Entramos na terra à qual você
nos enviou, onde há leite e mel com fartura! Aqui estão alguns frutos
dela.’ Mas o povo que lá vive é poderoso, e as cidades são
fortificadas e muito grandes.” (Números 13:27-28).
A passagem da Bíblia admite que Canaã já era habitada e que
muitas pessoas viviam em grandes cidades fortificadas. Apesar
disso, a intenção dos hebreus era não só continuar a adentrar a
terra de Canaã, mas também destruir proposital e violentamente a
religião existente e substituí-la pela deles. Essa intenção foi
apresentada pelos levitas como ordem de Iavé, supostamente
expressa antes da entrada dos israelitas em Canaã.
Obedeça às ordens que hoje lhe dou. Expulsarei de diante de você
os amorreus, os cananeus, os hititas, os ferezeus, os heveus e os
jebuseus. Acautele-se para não fazer acordo com aqueles que vivem
na terra para a qual você está indo, pois eles se tornariam uma
armadilha. Ao contrário, derrube os altares deles, quebre as suas
colunas sagradas e corte os seus postes sagrados. Nunca adore
nenhum outro deus, porque o Senhor, cujo nome é Zeloso, é de fato
Deus zeloso. (Êxodo 34:11-14).
Diante dessa ordem, a invasão de Canaã começou. Embora a
entrada dos hebreus na “terra prometida” de Canaã seja imaginada
como a chegada a um refúgio de paz após séculos de escravidão no
Egito, diz a Bíblia que a ocupação tomou a forma de uma série de
ataques sangrentos, talvez muito parecidos com as antigas invasões
dos indo-europeus.
Em Deuteronômio 2:33-34 lemos que, sob a liderança de Moisés
e Aarão, os israelitas encontraram um rei chamado Seom na cidade
de Jahaz. O relato levita diz: “Mas o Senhor, o nosso Deus,
entregou-o a nós, e o derrotamos, a ele, aos seus filhos e a todo o
seu exército. Naquela ocasião conquistamos todas as suas cidades
e destruímos totalmente, matando homens, mulheres e crianças,
sem deixar nenhum sobrevivente.” Quando encontraram Ogue, rei
de Basã, Deuteronômio 3:3-7 conta: “Então o Senhor, o nosso Deus,
também entregou em nossas mãos Ogue, rei de Basã, e todo o seu
exército. Nós os derrotamos, sem deixar nenhum sobrevivente. (...)
Foram sessenta. (...) matando também os homens, as mulheres e
as crianças.”
Mas Aarão e Moisés morreram no deserto. Josué assumiu o
comando e os israelitas entraram em Jericó. Vemos em Josué 6:21
que: “Consagraram a cidade ao Senhor, destruindo ao fio da espada
homens, mulheres, jovens, velhos, bois, ovelhas e jumentos; todo os
seres vivos que nela havia.” Mas nesse mesmo ataque, ele diz:
“Toda a prata, todo o ouro e todos os utensílios de bronze e de ferro
são sagrados e pertencem ao Senhor e deverão ser levados para o
seu tesouro.” (Josué 6:19). Em Josué 6:24, vemos que essas
ordens foram executadas: “Depois incendiaram a cidade inteira e
tudo o que nela havia, mas entregaram a prata, o ouro e os
utensílios de bronze e de ferro ao tesouro do santuário do Senhor.”
E na batalha de Ai vemos que “doze mil homens e mulheres caíram
mortos naquele dia. Era toda a população de Ai.” (Josué 8:25).
Ainda em Josué 8:29, é dito que Josué “enforcou o rei de Ai numa
árvore e ali o deixou até a tarde”. Dado que numa passagem
anterior Iavé disse a Josué para fazer com o rei de Ai o mesmo que
ele tinha feito com o rei de Jericó, podemos supor que o rei de
Jericó tivera a mesma sina, embora o relato do evento não seja
registrado.
Em Josué 10:28-32, lemos que:
Naquele dia Josué tomou Maquedá. Atacou a cidade e matou o
seu rei à espada e exterminou todos os que nela viviam, sem deixar
sobreviventes. E fez com o rei de Maquedá o que tinha feito com o rei
de Jericó. Então Josué, e todo o Israel com ele, avançou de Maquedá
para Libna e a atacou. O Senhor entregou também aquela cidade e
seu rei nas mãos dos israelitas. Josué atacou a cidade e matou à
espada todos os que nela viviam, sem deixar nenhum sobrevivente ali.
E fez com o seu rei o que fizera com o rei de Jericó. Depois Josué, e
todo o Israel com ele, avançou de Libna para Laquis, cercou-a e a
atacou. O Senhor entregou Laquis nas mãos dos israelitas, e Josué
tomou-a no dia seguinte, atacou a cidade e matou à espada todos os
que nela viviam, como tinha feito com Libna.
Nesse meio-tempo Horão, rei de Gezer, fora socorrer Laquis, mas
Josué o derrotou, a ele e ao seu exército, sem deixar sobrevivente
algum. Josué e todo o Israel com ele, avançou de Laquis para Eglom,
cercou-a e a atacou. Eles a conquistaram naquele mesmo dia,
feriram-na à espada e exterminaram os que nela viviam, como tinham
feito com Laquis. Então Josué, e todo o Israel com ele, foi de Eglom
para Hebrom e a atacou. Tomaram a cidade e a feriram à espada,
como também o seu rei, os seus povoados e todos os que nela
viviam, sem deixar sobrevivente algum. Destruíram totalmente a
cidade e todos os que nela viviam, como tinham feito com Eglom.
Depois Josué, e todo o Israel com ele, voltou e atacou Debir. Tomaram
a cidade, seu rei e seus povoados e os mataram à espada.
Exterminaram os que nela viviam, sem deixar sobrevivente algum,
fizeram com Debir e seu rei o que tinham feito com Libna e seu rei e
com Hebrom. Assim Josué conquistou a região toda, incluindo a serra
central, o Neguebe, a Sefelá e as vertentes, e derrotou todos os seus
reis, sem deixar sobrevivente algum. Exterminou tudo o que respirava,
conforme o Senhor, o Deus de Israel, tinha ordenado. (Josué 10:33-
40)
Em ataques descritos de modo semelhante, Josué e os israelitas
destruíram as cidades de Gibeom, Hazor e até Baal-Gad no vale do
Líbano sob o monte Hérmon. Mesmo correndo o risco de ser
repetitiva, relembro o comentário do professor Albright, de que “a
adoração de natureza orgiástica” de Canaã “foi substituída por
Israel, com sua simplicidade pastoral e pureza de vida, seu elevado
monoteísmo e seu severo código de ética”. Em vez da imagem dos
pobres escravos injustiçados, portadores de elevados ideais,
chegando à “terra prometida” para descansar seus corpos exaustos
e construir uma nova vida, estamos mais propensos a lembrar do
que o professor Lloyd disse sobre a incursão dos luvianos na
Anatólia e do rastro deixado à medida que “seu progresso era
marcado por sinais de total destruição”.
Mapa 4: Sul de Canaã – Velho Testamento.
Em maior refutação a essa suposta “pureza de vida” e aos
“severos códigos de ética”, lemos que, embora todos os relatos
afirmem que os israelitas não deixavam sobreviventes, talvez não
seja a verdade. Pois em Números 31:17-18, depois da batalha
contra os midianitas, ainda sob a liderança de Moisés e Aarão, foi
dito aos israelitas: “Agora matem todos os meninos. E matem
também todas as mulheres que se deitaram com homem, mas
poupem todas as meninas virgens.” Em Números 31:32-35 há uma
lista de saques e butins de guerra tomados pelos israelitas na
mesma batalha. Nessa lista temos, pela ordem, ovelhas, gado,
jumentos e “32.000 mulheres virgens”.
No Livro do Deuteronômio, também precedendo o comando de
Josué, encontramos:
Quando vocês guerrearem contra os seus inimigos e o Senhor, o
seu Deus, os entregar em suas mãos e vocês fizerem prisioneiros, um
de vocês poderá ver entre eles uma mulher bonita, agradar-se dela e
tomá-la como esposa. Leve-a para casa; ela rapará a cabeça, cortará
as unhas e se desfará das roupas que estava usando quando foi
capturada. Ficará em casa e pranteará seu pai e sua mãe um mês
inteiro. Depois você poderá chegar-se a ela e tornar-se o seu marido,
e ela será sua mulher. Se você já não se agradar dela, deixe-a ir para
onde quiser, mas não poderá vendê-la nem tratá-la como escrava,
pois você a desonrou. (Deuteronômio 21:10-14)
Embora novamente aqui os números pareçam exagerados,
essas passagens sugerem que muitas das mulheres mais tarde
vistas como esposas dos israelitas podem ter sido as moças que
assistiram à morte de toda sua família e a de seus amigos, e a
destruição de sua casa e sua cidade. A combinação de medo e
trauma que devem ter sentido ao serem levadas dessa maneira
para as tribos dos hebreus, somada às lembranças da religião e dos
costumes de sua infância, devem ter tornado muito difícil a atitude e
posição delas na vida dos homens desse povo. Posto que não há
listagem do número de mulheres nas tribos hebreias, essas
passagens sugerem também que, quando os hebreus saíram do
Egito, a porcentagem de homens deve ter sido muito maior. Cada
um desses fatores pode ajudar a explicar a “aceitação” das novas
leis patriarcais por parte das mulheres hebreias.
“E eles abandonaram o senhor e adoraram Baal e Astarote”
Ainda que, segundo a Bíblia, toda a população de muitas aldeias
e cidades tenha sido massacrada, várias cidades grandes não foram
tocadas, cidades em que Astarote ainda era adorada com grande
reverência. Uma vez em Canaã, as terras capturadas foram
divididas entre as tribos, e levitas viviam em cada uma delas. Desse
ponto em diante, observamos o prolongado e violento ataque dos
hebreus contra a Rainha do Céu e o Baal Dela. Apesar de todas as
advertências, a religião da Deusa era uma grande tentação para os
hebreus que invadiram Canaã. Para muitos deles, pode ter sido a
religião de seus ancestrais. Referências ao povo hebreu abraçando
a antiga religião aparecem repetidamente nas páginas da Bíblia, nos
relatos dos sacerdotes levitas.
Juízes 2:13 – “Abandonaram o Senhor e prestaram culto a Baal e
Astarote.”
Juízes 3:7 – “Os israelitas fizaram o que o Senhor reprova, pois
se esqueceram do Senhor, o seu Deus, e prestaram culto aos
baalins e a Aserá.”
1 Samuel 7:3 – “E Samuel disse à toda a nação de Israel: ‘Se
vocês querem voltar-se para o Senhor de todo o coração, livrem-se
então dos deuses estrangeiros e das imagens de Astarote,
consagrem-se ao Senhor e prestem culto somente a ele, e ele os
libertará das mãos dos filisteus.’”
O período de Samuel ocorreu no tempo de Saul, o primeiro rei
hebreu, em torno de 1050 a.C. O Livro de Juízes é anterior a esse
tempo. Segundo a Bíblia, o rei Salomão, em cerca de 960-922 a.C.,
adorava Astarote e outras deidades locais. Ele chegou a ser
ameaçado de perder o reino por ter abandonado Iavé e
reverenciado a Rainha do Céu, Astarote dos sidônios. Em I Reis
15:13 encontramos o relato do destronamento da rainha Maaca por
seu filho (ou neto) Asa, em cerca de 910 a.C. O crime? Adorar
Aserá. O nome Aserá foi também usado nos textos do norte de
Canaã, às vezes junto a Anate. Podem tê-la adorado como mãe e
filha nessa época. Mas Aserá é também identificada com Astarote,
que era muito reverenciada em Tiro e Sídon com esse nome. Um
texto do norte de Canaã assim a descreve: “Ele chegou ao santuário
de Aserá dos tírios, Yea, a Deusa dos sidônios.” Nos textos de
Ugarit, Aserá era conhecida como a “Criadora de Todas as
Deidades”.
Veremos que o abandono de Iavé, tal como descrito acima,
continuou por todos os relatos da Bíblia. Mas uma passagem muito
reveladora está no Livro de Jeremias. O incidente ocorreu numa
colônia hebraica no Egito, em cerca de 600 a.C. Ali a religião da
Deusa e a reverência a Ela, mesmo pelos hebreus na época, não foi
descrita como uma nova religião adotada recentemente, mas uma
religião que os hebreus haviam seguido antes – em Jerusalém. O
texto traz também forte indicação de que era uma religião de
mulheres, embora o autor levita retrate cuidadosamente os maridos
como detentores da autoridade e exiba uma insistência óbvia na
linhagem masculina na resposta dada até pelos adoradores à
Rainha do Céu:
Então, todos os homens que sabiam que as suas mulheres
queimavam incenso a deuses, e todas as mulheres que estavam
presentes, em grande número, e todo o povo que morava no Egito, e
na região de Patros, disseram a Jeremias: “Nós não daremos atenção
à mensagem que você nos apresenta em nome do Senhor! É certo
que faremos tudo o que dissemos que faríamos – queimaremos
incenso à Rainha dos Céus e derramaremos ofertas de bebidas para
ela, tal como fazíamos, nós e nossos antepassados, nossos reis e
nossos líderes, nas cidades de Judá e nas ruas de Jerusalém.
Naquela época, tínhamos fartura de comida, éramos prósperos e nada
sofríamos. Mas, desde que paramos de queimar incenso à Rainha dos
Céus e de derramar ofertas de bebidas a ela, nada temos tido e temos
perecido pela espada e pela fome.” E as mulheres acrescentaram:
“Quando queimávamos incenso à Rainha dos Céus e derramávamos
ofertas de bebidas para ela, será que era sem o consentimento de
nossos maridos que fazíamos bolos na forma da imagem dela e
derramávamos as ofertas de bebidas?” (Jeremias 44:15-19).
O professor Hooke pergunta: “O que podemos dizer quando
vemos no registro os jardins de Adônis, câmaras de imagens de
Ezequiel, mulheres declarando que desde que deixaram de fazer
bolos para a Rainha do Céu nada deu certo para elas, os obeliscos,
as asheras, as adivinhações [...] e tantas outras práticas?” E
responde: “É impossível negar que esses são elementos
estrangeiros, alguns canaanitas, alguns presumivelmente assírio-
babilônios, e alguns possivelmente egípcios, e que todos estes
compõem o quadro da religião de Israel como aparece no Velho
Testamento.”
O professor Widengren, como se desse uma resposta adicional,
observou: “Agora, essa Rainha do Céu(s) não pode ser outra senão
Astarote que, segundo consta ainda em 600 d.C., gozou da
adoração oficial no reino de Judá.”
Muitas passagens da Bíblia relatam que ídolos da deidade
feminina, chamadas de asherah (em letra minúscula), eram
encontrados em todos os montes altos, sob todas as árvores
verdejantes e em altares nos templos. Eram um símbolo identificado
com a adoração à Deusa como Aserá, e podia ser um poste ou
árvore viçosa, escavados como uma estátua. Arthur Evans escreveu
que “os registros bíblicos atestam repetidamente que o culto de
Aserá se fazia ou numa árvore viçosa, ou num pilar ou poste de
madeira morta, e os altares canaanitas eram colocados em frente”.
Eu suspeito que os asherim (plural) eram figueiras, os figos do
plátano, árvore que no Egito era considerada o “Corpo da Deusa na
Terra”. Há muitas razões para crer que sim, evidências que
examinaremos mais a fundo ao desvendar o mito de Adão e Eva –
evidências que talvez expliquem o simbolismo da árvore no mito do
Paraíso.
Continuando nossa exploração da presença da Deusa em
Canaã, relatos bíblicos nos dizem que os asherim, embora sua
associação com Aserá como a Deusa não seja explicada, eram
encontrados em toda parte.
Os israelitas praticaram o mal secretamente contra o Senhor, o seu
Deus. Em todas as suas cidades, desde as torres das sentinelas até
as cidade fortificadas, eles construíram altares idólatras. (...)
Abandonaram todos os mandamentos do Senhor, o seu Deus, e
fizeram para si dois ídolos de metal na forma de bezerros e um poste
sagrado de Aserá. Inclinaram-se diante de todos os exércitos
celestiais e prestaram culto a Baal. (II Reis 17:9,16).
Como os levitas declararam que era missão dos hebreus destruir
esses símbolos da religião aos quais se referiam como “seus
deuses” onde quer que os achassem, foi exatamente o que eles
fizeram. Os sacerdotes levitas escreveram que a destruição havia
sido comandada por Iavé:
Destruam completamente todos os lugares nos quais as nações
que vocês estão desalojando adoram os seus deuses, tanto nos altos
montes como nas colinas e à sombra de toda árvore frondosa.
Derrubem os seus altares, esmigalhem as suas colunas sagradas e
queimem os seus postes sagrados; despedacem os ídolos dos seus
deuses e eliminem os nomes deles daqueles lugares. (Deuteronômio
12:2-3).
Não ergam nenhum poste sagrado além do altar que construírem
em honra ao Senhor, o seu Deus. (Deuteronômio 16:21).
Não obstante as advertências dos sacerdotes levitas, os asherim
continuavam a ser erigidos e adorados. Em I Reis 16:13, lemos que
em cerca de 850 a.C. o rei hebreu Acabe, marido de Jezebel, fez
um asherah. Isaías, em algum momento do século VIII a.C., falou de
asherim na cidade de Damasco. Gideão, no período de Juízes,
destruiu o asherah de um templo, e usou a madeira queimada como
oferenda a Iavé.
Havia a ameaça de que “O Senhor irá castigar Israel porque
fizeram asherim”. O rei Ezequias, que reinou por volta de 715-690
a.C., “fez o que era certo aos olhos do Senhor”. Ele quebrou os
pilares e cortou o asherah. Foi esse mesmo Ezequias que destruiu
uma serpente de bronze que era mantida no templo de Jerusalém
desde o tempo da chegada dos hebreus a Canaã. Depois dele, seu
filho Manassés, que reinou durante 55 anos, erigiu novamente o
asherim, como fez também seu filho Amon, que o sucedeu.
Em II Reis 23:4-15, o sacerdote levita Hilquias, que serviu ao rei
Josias em torno de 630 a.C., tirou os vasos feitos para Aserá e Baal
daquele mesmo templo em Jerusalém. Ele retirou o asherah. “Ele
profanou o alto lugar que Salomão havia construído para Astarote.”
“Ele despedaçou os pilares e cortou os asherim e encheu seus
espaços com ossos de homens.”
Embora, mais uma vez, a religião da Deusa não seja
mencionada, mais evidências à Sua adoração em Canaã nos
tempos bíblicos são reveladas pela presença de carpideiras pelo
Seu filho/amante Tamuz. O Livro de Ezequiel diz que as mulheres
choravam por Tamuz nesse mesmo templo em Jerusalém por volta
de 620 a.C., continuando a praticar cerimônias de luto da religião da
Deusa, bem conhecidas a partir dos relatos babilônicos de Ishtar.
Como já citamos, o professor Widengren afirmou que um ritual de
luto ocorria em Israel, comemorando a morte de Tamuz, do mesmo
modo que ocorria na Mesopotâmia.
I. Epstein, em sua história do judaísmo escrita em 1959, falou do
afluxo de ideias “pagãs”, principalmente no tempo de Salomão,
culpando as esposas de Salomão pelas idolatrias praticadas. Há
uma forte possibilidade de que o hábito de Salomão, de colecionar
princesas estrangeiras para seu harém (setecentas, segundo a
Bíblia), tenha tido uma motivação política para assegurar o direito
definitivo de governar as terras conquistadas por meio do
casamento com as herdeiras. A relação entre os direitos a muitos
tronos no Oriente Próximo e o padrão de descendência matrilinear
dos povos adoradores da Deusa talvez explique o grande número
de mulheres de famílias reais estrangeiras – todas listadas como
esposas legais de Salomão – e a aceitação da presença das
religiões que elas levaram consigo.
Depois do reinado de Salomão, quando as tribos de hebreus se
dividiram em duas nações, a adoração à Deusa continuou. Há
evidências em Samaria, a capital do reino do norte, Israel, no
período de Acabe e Jezebel (cerca de 869-850 a.C.); a adoração a
Astarote e ao Baal Dela parece ter florescido nessa ocasião. O
casamento do hebreu Acabe com Jezebel, filha da rainha e do rei de
Sídon, que foram alta sacerdotisa e sacerdote de Astarote e Baal,
pode também ter lhe dado um direito legítimo ao trono. Mas mesmo
antes (cerca de 922-901 a.C.), o rei Jeroboão havia feito bezerros
de ouro, símbolos da religião da Deusa.
Em Judá, reino hebreu do sul, cuja capital era Jerusalém, em
cerca de 922-915 a.C. dizia-se que Roboão e seu filho Abias, ambos
talvez reinando como maridos da rainha Maaca, praticavam
“idolatrias pagãs”. Como sabemos, Maaca adorava Aserá e acabou
sendo destronada por ter feito um ídolo Dela. Por volta de 842 a.C.,
a rainha Atália governava em Jerusalém, e em seu reinado vigorava
a religião “pagã”. Sendo filha de Jezebel, podemos voltar a
perguntar se, aos olhos de muitos habitantes de Canaã, Atália tinha
o direito de governar por ser neta da alta sacerdotisa e do sacerdote
de Astarote em Sídon. Por volta de 735-727 a.C., o rei Acaz também
seguia a religião antiga, cometendo “o mal aos olhos do Senhor”. E
por volta de 620 a.C., no tempo de Ezequiel, as mulheres foram
vistas chorando a morte de Tamuz no templo de Jerusalém,
enquanto no tempo de Jeremias, por volta de 600 a.C., as mulheres
se rebelaram anunciando abertamente sua intenção de continuar a
reverenciar a Rainha do Céu.
Resumo
Graças a evidências arqueológicas, que ajudam a explicar muitas
referências obscuras, apesar das palavras evasivas e da falta de
esclarecimentos na Bíblia, não há dúvida de que, nos períodos
bíblicos de Canaã, os sacerdotes levitas dos hebreus mantinham
contato assíduo com a religião da Deusa. Embora o comando de
destruição de seus artefatos provavelmente tenha resultado em
menos achados arqueológicos no sul de Canaã do que no restante
do Oriente Próximo, corpos que comprovam o extenso culto à
Deusa foram desenterrados em todas as outras terras em que os
hebreus viveram ou tiveram estreito contato, como Egito, Babilônia,
Sinai e norte de Canaã. No sul de Canaã, em terras ao redor dos
hebreus, havia habitantes nativos vivendo em cidades que não
tinham sido destruídas e que reverenciavam a deidade feminina
desde os tempos arcaicos.
Como a própria Bíblia revela, mesmo nas capitais de Samaria e
Jerusalém, e mesmo por aqueles considerados membros das tribos
que seguiam a nova religião de Iavé (especialmente a realeza e os
governantes, que parecem não terem sido escolhidos pela tribo
levita), a adoração à Deusa deve ter sido um dos fatores de maior
influência no desenvolvimento da atitude judaica e, mais tarde, do
cristianismo. A possibilidade de que os levitas possam originalmente
estar relacionados aos indo-europeus luvianos, ao passo que as
outras tribos possam ser descendentes de povos mediterrâneos
adoradores da Deusa, deve ajudar a explicar essa divisão entre os
sacerdotes e profetas levitas e a contínua “obstinação e deserção”
do povo israelita, que parece muitas vezes ter retornado à religião
antiga.
Os sacerdotes levitas declararam: “Não deverá haver prostitutas
de culto nas filhas de Israel.” No entanto, como já vimos, os
costumes sexuais antigos permaneceram. Parece ter sido a própria
natureza dos costumes sexuais – tão inerentes e integrados à
religião feminina, permitindo, e possivelmente encorajando, a
continuação dos padrões de descendência matrilinear – o que
despertava as mais violentas reações entre os levitas que
demandavam a patrilinearidade.
Sabendo-se da contínua presença da religião da Deusa, uma
leitura cuidadosa dos relatos do Velho Testamento (em que as
mulheres hebreias tinham inicialmente um status secundário, de
assistentes obedientes), revela passagens extensas de ameaças, às
vezes veladas ou ocultas em simbolismos, contra a adoração da
Deusa. Mas algumas delas eram mais abertas. Seus alvos eram
aqueles que continuavam a praticar a religião antiga, constando até
nos registros bíblicos os relatos de chacinas e massacres de quem
ousasse rezar para “outros deuses”.
Como veremos no próximo capítulo, a imagética sexual insistente
e repetitiva nos permite observar as atitudes dos levitas em relação
aos costumes sexuais da religião da Deusa e à autonomia sexual
das mulheres em geral, autonomia essa que durante milhares de
anos as ajudou a manter sua independência econômica, social e
jurídica. Por isso, as leis dos levitas pregavam a destruição da
adoração à Divina Ancestral e, com isso, a destruição final do
sistema matrilinear.
CAPÍTULO 9
E os homens da cidade devem apedrejá-la
Os sacerdotes levitas eram tão antagônicos à religião da Deusa
em Canaã (embora todas as passagens se referissem evasivamente
a “outros deuses”) que redigiram leis proibindo a adoração a esses
“outros deuses”. As leis eram tão severas que ordenavam que os
membros da religião hebraica assassinassem até mesmo os
próprios filhos se não adorassem a Iavé. As leis levitas da Bíblia
orientavam que se “o seu próprio irmão ou filho ou filha, ou a mulher
que você ama ou o seu amigo mais chegado secretamente instigá-
lo, dizendo: ‘Vamos adorar outros deuses!’ – deuses que nem você
nem os seus antepassados conheceram (...). Você terá que matá-
lo”. (Deuteronômio 13:6,9)
Essa ordem foi obviamente dirigida aos homens apenas, já que o
único parente que não mandava assassinar era o marido. Nem só
os parentes deviam ser vigiados de perto, pois como os levitas
escreveram: “Se vocês ouvirem dizer que numa das cidades que o
Senhor, o seu Deus, dá a vocês para nelas morarem, surgiram
homens perversos e desviaram os seus habitantes, dizendo: ‘Vamos
adorar outros deuses!’, deuses que vocês não conhecem, (...)
matem ao fio da espada todos os que viverem naquela cidade.
Destruam totalmente a cidade, matando tanto os seus habitantes
quanto os seus animais.” (Deuteronômio 13:12-13, 15)
Conhecendo a identidade da Rainha do Céu e a extensão de Sua
adoração em Canaã, mesmo entre a realeza hebreia, podemos ter
uma visão mais profunda das motivações políticas dos levitas se
nos familiarizarmos com as imagens das mulheres na Bíblia e as
leis específicas para elas.
Os profetas e sacerdotes hebreus, os levitas, escreveram
abertamente e com deboche sobre o desprezo a qualquer mulher
que não fosse virgem nem casada. Eles insistiam que todas as
mulheres deviam ser publicamente designadas como propriedade
privada de algum homem, o pai ou o marido. Assim, desenvolveram
e instituíram o conceito de moralidade sexual – para mulheres.
No prefácio de uma versão do Talmude hebreu, em 1935, o
historiador bíblico I. Epstein sugeriu que a principal razão para os
hebreus serem tão ameaçados pelas religiões circundantes era a
seguinte:
A experiência logo provou quão grande era a tentação de imitar as
práticas religiosas das nações circundantes, mesmo numa época em
que os israelitas habitavam sua própria terra. A dificuldade de resistir
à influência estrangeira ficou muito maior em períodos de dispersão,
quando judeus moravam em ambientes pagãos e os rabinos
precisavam atentar seriamente para como contra-atacar as forças da
assimilação, que ameaçava submergir comunidades judaicas
assentadas em países onde a religião vigente era a adoração a
ídolos.
É importante entender que a oposição veemente à idolatria, que
distingue a legislação da Bíblia e depois do Talmude, não era apenas
o antagonismo entre um sistema teológico e outro.
Fundamentalmente, era um conflito de padrões éticos. Povos pagãos
praticavam abominações seriamente advertidas a Israel nas
escrituras. A idolatria era identificada como conduta imoral,
identificação quase sempre verificada por experiência.
O “conflito de padrões éticos” e a “conduta imoral” parecem ser
basicamente a percepção levita dos costumes sexuais, que se sabe
terem existido em todos os períodos da história bíblica. A falta de
preocupação com a paternidade das crianças entre os povos
hebreus que ainda reverenciavam a Rainha do Céu permitia a
continuação dos padrões de descendência matrilinear resultante dos
costumes sexuais, e parece ter sido crucial para os sacerdotes das
tribos hebreias perseguirem as antigas crenças. Sem dúvidas, ficou
evidente para os líderes levitas a grande dificuldade dos hebreus em
convencer suas mulheres a aceitarem ser propriedades dos maridos
enquanto, paralela à religião deles, existisse uma outra em que elas
detinham propriedades em seu nome, eram dotadas de uma
identidade legal e tinham liberdade para se relacionar sexualmente
com vários homens. Eles precisavam ensinar às hebreias a aceitar a
ideia de que uma mulher dormir com mais de um homem era ruim.
Precisavam ensinar que isso traria desastre, ódio e vergonha do
todo-poderoso – mas ao mesmo tempo era aceitável que os maridos
tivessem relações sexuais com duas, três ou cinquenta mulheres.
Desse modo, a virgindade pré-nupcial e a fidelidade conjugal
feminina eram proclamadas pela lei levítica como divinamente
essenciais para todas as hebreias, a antítese das atitudes em
relação à sexualidade feminina assumidas na religião da Deusa.
Contudo, a influência e o prestígio da antiga religião estavam
sempre presentes. Como vimos, há constantes relatos bíblicos de
“paganismo” em todas as épocas – era algo que pairava como um
problema constante e está descrito por todo o Velho Testamento. Os
sacerdotes-profetas de Iavé ameaçavam, repreendiam. Os
escritores levitas rotulavam qualquer mulher sexualmente
autônoma, inclusive as mulheres sagradas do templo, como
prostitutas e meretrizes, exigindo o cumprimento das atitudes
patriarcais levitas com respeito à propriedade sexual sobre as
mulheres. Uma vez inventado esse conceito de “moralidade”,
passaram a lançar acusações de “imoralidade” contra aquelas que
viviam e se comportavam da maneira mais elevada e sagrada de
acordo com suas próprias crenças antiquíssimas.
“Mas tu agiste como meretriz de muitos amantes”
É muito reveladora a analogia simbólica traçada entre qualquer
mulher que se recusasse a obedecer às leis da nova moralidade –
continuamente apontada como meretriz e adúltera – e a teimosia e
abjuração de todo o povo hebreu pela constante falta de fidelidade a
Iavé. O uso da infidelidade sexual feminina como pecado máximo –
grave a ponto de ser análogo à traição a Iavé – nos permite alguma
reflexão sobre a atitude levita em relação à mulher sexualmente
autônoma. As duas partes da analogia frequentemente se
entrelaçam – às vezes de modo obscuro –, mas, enquanto os
profetas de Iavé insultavam os hebreus que ousassem adorar a
“outros deuses”, simultânea e automaticamente atacavam qualquer
mulher que se recusasse a ser propriedade de um homem. Como
vimos, apesar das constantes ameaças, tanto hebreus como
hebreias, até da realeza, continuaram de fato a adorar a Rainha do
Céu. Aos que agiam assim, os sacerdotes recorriam ao símbolo de
“Filha de Sião” e, assim como a essa filha, a denunciavam como
meretriz infiel.
Jeremias, Isaías, Ezequiel, Oseias e Naum, todos usaram
exaustivamente a metáfora sexual. Segundo Jeremias 3:1,
sacerdote levita, “‘Se um homem se divorciar de sua mulher e
depois da separação ela casar-se com outro homem, poderá o
primeiro marido voltar para ela? Não seria a terra totalmente
contaminada? Mas você tem se prostituído com muitos amantes e,
agora, quer voltar para mim?’, pergunta o Senhor”. Em outra
passagem (3:20), ele novamente compara a abjuração de hebreus a
uma mulher infiel, dizendo: “‘Mas, como a mulher que trai o marido,
assim você tem sido infiel comigo, ó comunidade de Israel’, declara
o Senhor.” Em outra reprimenda (2:20), ele acusou os hebreus –
“em todo monte elevado e debaixo de toda árvore verdejante, você
se deitava como uma prostituta”.
Irado, falou como Iavé, perguntando: “‘Por que deveria eu o
perdoar?’ ‘Seus filhos me abandonaram e juraram por aqueles que
não são deuses. Embora eu tenha suprido as suas necessidades,
eles cometeram adultério e frequentaram as casas de prostituição.’”
(Jeremias 5:7). Novamente foi usada a analogia em Jeremias 3:6-9:
Durante o reinado do rei Josias, o Senhor me disse: “Você viu o
que fez Israel, a infiel? Subiu todo monte elevado e foi para debaixo
de toda árvore verdejante para prostituir-se. Depois de ter feito tudo
isso, pensei que ela voltaria para mim, mas não voltou. E a sua irmã
traidora, Judá, viu essas coisas. Viu também que dei à infiel Israel
uma certidão de divórcio e a mandei embora, por causa de todos os
seus adultérios. Entretanto, a sua irmã Judá, a traidora, também se
prostituiu, sem temor algum. E, por ter feito pouco caso da
imoralidade, Judá contaminou a terra, cometendo adultério com ídolos
de pedra e madeira.” (As palavras de Jeremias foram ditas
aproximadamente um século após a derrota do reino do norte, Israel,
por Sargão II da Assíria em 722 a.C.)
O sacerdote-profeta levita Ezequiel disse a sua congregação:
“Esta palavra do Senhor veio a mim: ‘Filho do homem, existiam duas
mulheres, filhas da mesma mãe. Elas se tornaram prostitutas no
Egito, envolvendo-se na prostituição desde a juventude. Naquela
terra os seus peitos foram acariciados e os seus seios virgens foram
afagados. A mais velha chamava-se Oolá; sua irmã, Oolibá. Elas
eram minhas e deram à luz filhos e filhas. Oolá é Samaria, e Oolibá
é Jerusalém.’” (Ezequiel 23:1-4) Toda a seção de Ezequiel 23
descreve o comportamento sexual “obsceno” dessas duas irmãs,
simbolizando as duas capitais hebreias, e em um trecho (23:26),
Ezequiel diz: “Assim darei um basta à lascívia e à prostituição que
você começou no Egito.” Finalmente, ele resume dizendo: “Dessa
maneira darei fim à lascívia na terra, para que todas as mulheres
fiquem advertidas e não imitem vocês. Vocês sofrerão o castigo de
sua cobiça e as consequências de seus pecados de idolatria. E
vocês saberão que eu sou o Soberano, o Senhor.” (23:48-49) Em
mais outra passagem (16:41), Ezequiel adverte: “Eles destruirão a
fogo as suas casas e infligirão a você castigo à vista de muitas
mulheres. Porei fim à sua prostituição, e você não pagará mais nada
aos seus amantes.”
Naum, falando da cidade de Nínive, um centro religioso da Deusa
Ishtar na Babilônia, atacou dessa forma a Deusa e sua sexualidade:
“Por causa das multitudes de prostituições da meretriz bem-
favorecida, a amante de feitiçarias, que vendeu nações por meio de
suas prostituições e famílias por meio de suas feitiçarias; vê que
estou contra ti, disse o Senhor das Hostes, e vou descobrir tuas
saias até teu rosto, e vou mostrar às nações tua nudez e os reinos
que envergonhas.”
Mas as primeiras seções do livro de Oseias apresentam muito
claramente a indignação do homem hebreu com a esposa que se
recusasse a ser sua propriedade particular. Primeiro, lemos que Iavé
falou a Oseias: “‘Vá, tome uma mulher adúltera e filhos da
infidelidade, porque a nação é culpada do mais vergonhoso
adultério por afastar-se do Senhor.’” (Oseias 1:2) Oseias então falou
a sua filha sobre a “prostituição” e “obscenidade” da mãe dela,
Gomer, que aparentemente era uma mulher sagrada do templo.
Mais tarde foi dito a Oseias que jogasse fora o meretrício e adultério
dela, ao que ela respondeu, desafiadora, que iria correr “atrás dos
seus amantes”. Em resposta a essa rebeldia, a deidade masculina
ameaçou impedir as atividades dela pelo tempo necessário até que
ela, desesperada, dissesse: “Voltarei a estar com o meu marido
como no início.”
Não está claro se essas palavras eram atribuídas a Oseias ou a
Iavé, já que são inicialmente apresentadas como a fala de Oseias à
esposa, mas lemos em Oseias 2:11-13: “‘Acabarei com a sua
alegria: suas festas anuais, suas luas novas, seus dias de sábado e
todas as suas festas fixas. Arruinarei suas videiras e suas figueiras,
que, segundo ela, foram pagamento recebido de seus amantes;
farei delas um matagal, e os animais selvagens as devorarão. Eu a
castigarei pelos dias em que queimou incenso aos baalins; ela se
enfeitou com anéis e joias e foi atrás dos seus amantes, mas de
mim, ela se esqueceu’, declarou o Senhor.” Oseias (4:14) então
prossegue dizendo: “Não castigarei suas filhas por se prostituírem,
nem suas noras por adulterarem, porque os próprios homens se
associam a meretrizes e participam dos oferecidos pelas prostitutas
cultuais.”
“E eles foram em frente e mataram na cidade”
Aquelas mulheres eram insultadas e recebiam ameaças
violentas. No livro de Jeremias, este profeta ameaçou furiosamente
a “filha do Egito, Tiro, Sídon e Ascalão”, uma referência simbólica à
Deusa, a julgar pelas cidades mencionadas. Em outra passagem,
ele advertiu as mulheres que anunciavam abertamente suas
intenções de continuarem a adorar a Rainha do Céu de que
encontrariam fome, violência e total destruição em consequência de
suas crenças religiosas.
O profeta Isaías, angustiado com a situação, gemeu: “Meu povo
é oprimido por uma criança; mulheres dominam sobre ele.” (Isaías
3:12) Explodindo em acusações zombeteiras à “filha da Babilônia”,
mais uma referência a Ishtar, ele A insultou por Sua autoconfiança e
sexualidade, bem como Seus poderes mágicos e encantamentos.
Considerando a provável independência das hebreias,
aparentemente influenciadas pela liberdade de outras mulheres à
sua volta, Isaías listou todas as suas joias e acessórios de sedução
com sumo desprezo e então ameaçou: “Seus homens cairão ao fio
da espada; seus guerreiros morrerão no combate.” (3:25) E
“naquele dia, sete mulheres agarrarão um homem e lhe dirão: ‘Nós
mesmas providenciaremos nossa comida e nossas roupas; apenas
case-se conosco e livre-nos da vergonha de sermos solteiras!’”
(Isaías 4:1)
Assim, o profeta hebreu ansiava pelo dia da glória masculina,
quando todas as mulheres independentes escolheriam ser
propriedades de um homem, como devem ter sido forçadas no
deserto, ou quando suas cidades foram incendiadas, suas famílias
mortas e as primeiras esposas israelitas então levadas como
prisioneiras de guerra pelas tribos hebreias. Na luta pelo parentesco
masculino, Isaías sonhava com o dia em que as mulheres diriam
“case-se conosco”.
Na seção oito do livro de Ezequiel novamente encontramos a
religião da Deusa sob ataque, quando ele recorda o seguinte evento
em 8:7-10: “Em seguida me levou para a entrada do pátio. Olhei e vi
um buraco no muro. Ele me disse: ‘Filho do homem, agora escave o
muro.’ Escavei o muro e vi ali a abertura de uma porta. Ele me
disse: ‘Entre e veja as coisas repugnantes e más que estão
fazendo.’ Eu entrei e olhei. Lá, desenhadas por todas as paredes, vi
todo tipo de criaturas rastejantes e animais impuros e todos os
ídolos da nação de Israel.” Segundo Ezequiel, as coisas
“repugnantes” que os adoradores estavam fazendo dentro do
templo, virados para leste, era se curvar ao Sol e levar um ramo às
narinas, provavelmente um ramo da árvore sagrada chamada de
asherah. Ezequiel prossegue: “Então ele me levou para a entrada
da porta norte da casa do Senhor. Lá eu vi mulheres sentadas,
chorando por Tamuz.” (8:14) Esse comentário, mais claro que
qualquer outro, revela que ele estivera observando a religião de
Astarote/Ishtar – ainda praticada no templo em Jerusalém.
A figura misteriosa então disse: “Você vê isso, filho do homem?”
Essa denominação “filho do homem” foi usada repetidamente no
livro de Ezequiel, talvez para lembrar aos leitores que os sacerdotes
levitas, como o próprio Ezequiel, não se consideravam mais filhos
de mulheres. Depois, virando-se para as mulheres que oravam, a
figura ordenou: “‘Agora, filho do homem, vire o rosto contra as filhas
do seu povo que profetizam pela sua própria imaginação [diferente
dos profetas de Iavé, que aparentemente tinham uma linha direta
com a fonte apropriada]. Profetiza contra elas.’” (Ezequiel 13:17)
Ameaças e insultos aos habitantes nativos de Canaã e aos
hebreus que adotaram seus costumes não era só o que usavam
para amedrontar e desencorajar os seguidores da Rainha do Céu.
Em seguida há relatos de massacres a sangue frio, verdadeiras
chacinas impiedosas dos que ainda se recusassem a aceitar Iavé. A
própria Bíblia registra que qualquer hebreu que ousasse adorar a
Rainha do Céu e Seu Baal era vítima de violenta perseguição
religiosa.
As palavras e ameaças de Ezequiel, assim como as dos demais
profetas, se traduziam em assassinato e destruição, explicadas
como se fossem comandos de Iavé. Nas páginas do Velho
Testamento, são registradas deste modo:
[E o Senhor] lhe disse: “Percorra a cidade de Jerusalém e ponha
um sinal na testa daqueles que suspiram e gemem por causa de todas
as práticas repugnantes que são feitas nela.” Enquanto eu escutava,
ele disse aos outros: “Sigam-no por toda a cidade e matem, sem
piedade ou compaixão, velhos, rapazes e moças, mulheres e
crianças. Mas não toquem em ninguém que tenha o sinal. Comecem
pelo meu santuário.” Então eles começaram com as autoridades que
estavam na frente do templo. E ele lhes disse: “Contaminem o templo
e encham de mortos os pátios. Podem ir!” Eles saíram e começaram a
matança na cidade toda. (Ezequiel 9:4-7)
Um relato anterior da chacina impiedosa em nome de Iavé contra
a religião da Deusa ocorreu no reinado de Acabe. Elias exibiu a
mesma atitude fanática que ao longo da história vem autorizando o
assassinato em massa em nome de um princípio, seja político,
religioso ou uma combinação dos dois. Referindo-se a quatrocentas
pessoas que adoravam na antiga religião, a passagem (I Reis
18:40) afirma: “Então Elias ordenou-lhes: ‘Prendam os profetas de
Baal. Não deixem nenhum escapar!’ Eles os prenderam, e Elias os
fez descer ao riacho de Quisom e lá os matou.”
Essa passagem em particular vem da Versão Padrão Revisada
do Velho Testamento. Mas na New English Bible, publicada em 1970
pelas Sociedades Bíblicas da Escócia e Inglaterra, que retraduziram
muitos textos antigos do original hebraico e grego, lemos a história
de uma forma ligeiramente diferente. De fato, nessa versão do Velho
Testamento muitas referências a Aserá, Astarote e asherim são
mais explicitadas. Na New English Bible, Elias confronta a antiga
religião como sendo de Aserá. Em I Reis 18:19, vemos que essas
quatrocentas pessoas eram “quatrocentos profetas da deusa Aserá,
que são beneficiários de Jezebel”.1
Na história de Jezebel, há tempos apresentada como epítome e
símbolo da mulher traiçoeiramente maligna, fica muito evidente que
seu verdadeiro crime foi se recusar a aceitar a adoração a Iavé,
escolhendo a religião de seus pais, a da Rainha do Céu e Seu Baal.
Os pais dela, rainha e rei de Sídon (alguns dizem que era Tiro),
tinham alta posição na antiga religião como alta sacerdotisa e
sacerdote. Jezebel não só seguia a antiga religião como, segundo a
Bíblia, influenciou seu marido Acabe, rei hebreu de Israel, a também
adotar os modos pagãos, erigindo asherim no templo. O suposto
crime de Jezebel, de ter começado um rumor que resultou na morte
de um homem, é questionável quando constatamos que o marido
dela é quem realmente desejava a propriedade do morto e que a
acusação feita a ela foi baseada em cartas assinadas com o nome
de Acabe.
Jezebel foi assassinada da maneira mais repugnante, descrita
em mórbidos detalhes na Bíblia, certamente com a intenção de
advertir todas as outras mulheres “traiçoeiras”. A execução foi feita
por Jeú, herói vingador hebreu. Porém, os motivos de Jeú se tornam
assustadoramente óbvios quando, depois da morte da rainha
“pagã”, ele providenciou um massacre daqueles que “comessem na
mesa real dela” e então reclamou para si o trono de Israel.
Pouco depois do assassinato de Jezebel, Jeú convocou uma
assembleia solene das pessoas que prestavam homenagem a
Astarote e Baal, enganando-os desse modo para que se reunissem
no templo deles em um horário marcado. Na descrição, o sagrado
santuário estava lotado. Depois foi relatado na Bíblia: “E eles se
aproximaram para oferecer sacrifícios e holocaustos. Jeú havia
posto oitenta homens do lado de fora, fazendo-lhes esta
advertência: ‘Se um de vocês deixar escapar um só dos homens
que estou entregando a vocês, será a sua vida pela dele.’” (II Reis
10:24) E foi registrado que Jeú e seus homens assassinaram todos
os membros da congregação e por fim fizeram do prédio em si uma
“latrina”. E quando o massacre e a profanação estavam completos,
registra-se que Jeú ouviu Iavé dizer: “você executou corretamente o
que eu aprovo”. (II Reis 10:30)
“Então ele pode escrever a ela um termo de divórcio”
As evidências são abundantes. A religião de Astarote, Aserá ou
Anate e Seu Baal – acompanhada da autonomia sexual feminina –
era o inimigo. Nenhum método era considerado muito violento se
atingisse a meta. Para elucidar ainda mais as motivações
subjacentes dos levitas, além dos massacres, podemos citar as
regras que os sacerdotes declararam a todas as hebreias. A leitura
das leis levíticas evidencia que a autonomia sexual das mulheres na
religião da Deusa era uma ameaça constante. Sabotava as
grandiosas metas dos homens, talvez guiados ou influenciados
pelos povos indo-europeus, que consideravam as mulheres como
propriedades e almejavam uma sociedade em que o parentesco
masculino fosse a regra, como já era há muito tempo nas nações
indo-europeias. Por sua vez, isso exigia que cada mulher fosse
propriedade de um só homem, não deixando dúvida da identidade
do pai dos filhos que ela concebesse, especialmente filhos homens.
Mas as linhas de parentesco masculino continuavam impossíveis
enquanto as mulheres pudessem agir como pessoas sexualmente
independentes, continuando a gerar filhos de paternidade
desconhecida ou nem considerada importante.
Leis, discursos e até a palavra divina pareciam ter sido ineficazes
contra uma liberdade há tanto tempo conhecida. Assim, foram
planejadas e distribuídas punições severas para conseguir o
controle sexual total das hebreias. Qualquer desvio era pecado e em
muitos casos a punição era a morte em desgraça e agonia. (Embora
essas leis apareçam nos livros do Levítico e Deuteronômio que, diz-
se, foram escritos no tempo de Moisés, estudiosos da Bíblia
geralmente os datam entre 1000 e 600 a.C.) De acordo com as leis
levíticas, todas as mulheres deveriam permanecer virgens até o
casamento. Já legalmente casada, uma mulher só se relacionaria
sexualmente com o homem que fora designado como seu marido,
que seria escolhido pelo pai dela. Esse marido poderia já ter
possuído, ou poderia no futuro adquirir qualquer número de outras
esposas ou concubinas, livre para acrescentar mais uma a qualquer
quando bem entendesse.
Levítico 20:10 diz que se uma mulher cometesse adultério, tanto
ela como o amante seriam condenados à morte. Em Deuteronômio,
os levitas escreveram sobre a noiva israelita: “Se, contudo, a
acusação for verdadeira e não se encontrar prova de virgindade da
moça, ela será levada à porta da casa do seu pai e ali os homens da
sua cidade a apedrejarão até a morte. Ela cometeu um ato
vergonhoso em Israel, prostituindo-se enquanto estava na casa de
seu pai. Eliminem o mal do meio de vocês.” (Deuteronômio 22:20-
21) Então uma moça hebreia poderia ser arrastada de casa e
brutalmente apedrejada até a morte – por ter feito amor, ou mesmo
por ter perdido a virgindade por meio de outra atividade, ou
acidente, enquanto suas contemporâneas canaanitas teriam sido
consideradas santificadas por participar dos costumes sexuais
sagrados.
Os levitas estavam tão determinados a promover o
desenvolvimento de um cuidado reverente com a paternidade dos
filhos que, entre eles, até um estupro violento era igualado a um
casamento, igual ao que acontecia entre os assírios controlados
pelos indo-europeus. Na lei levítica, o estupro de uma virgem era
honrado como uma declaração de propriedade e acarretava um
casamento forçado. A mulher vítima do estupro automaticamente
perdia o direito de seguir a vida como solteira ou de se tornar
esposa em um casamento planejado com mais reflexão e
provavelmente mais desejável. Segundo a lei, “Se um homem se
encontrar com uma moça sem compromisso de casamento e a
violentar, e eles forem descobertos, ele pagará ao pai da moça
cinquenta peças de prata e terá que casar-se com a moça, pois a
violentou. Jamais poderá divorciar-se dela.” (Deuteronômio
22:28,29)
Para as filhas levitas era decretado: “Se a filha de um sacerdote
se corromper, tornando-se prostituta, desonra seu pai; deverá
morrer queimada.” (Levítico 21:9). Como foram os próprios
sacerdotes levitas que escreveram as leis, essa disposição de
queimar as próprias filhas até a morte talvez seja a revelação mais
evidente da intensidade da atitude dos mesmos em relação à
autonomia sexual das mulheres.
Pode ser espantosa também a lei sobre a vítima de estupro que,
se fosse casada ou noiva, deveria ser morta – por ter sido
estuprada. A lei declara que uma mulher noiva ou casada que fosse
sexualmente violentada seria apedrejada até a morte, e o homem
também (Deuteronômio 22:23-25). O estupro era visto como uma
afronta ao homem que fosse seu proprietário. Só no campo deserto
a mulher poderia ser “desculpada” por ter sido estuprada, pois talvez
tivesse pedido socorro e ninguém ouvira.
Embora a Bíblia anunciasse repetidamente que a mulher que
ousasse fazer amor com outro homem que não seu marido
representaria uma degradação vergonhosa e profana para toda a fé,
os homens hebreus podiam circular honradamente coletando tantas
mulheres quantas pudessem sustentar economicamente. Os
registros dos reis hebreus revelam que mantinham grandes haréns
e a maioria dos hebreus parece ter tomado várias esposas.
Entretanto, esperava-se que cada uma dessas mulheres fosse fiel
ao fragmento de marido que lhe fora atribuído. A falta de fidelidade
por parte do homem parecia ser ponto pacífico, a menos que a outra
mulher já fosse casada ou noiva, o que era considerado pecaminoso
porque era uma infração legal à propriedade de outro homem.
Dificilmente a fidelidade romântica dos parceiros no casamento era
considerada importante ou sagrada; apenas para as mulheres a
virgindade pré-nupcial e a fidelidade sexual se tornaram questões
“morais”, atitudes refletidas até hoje.
Mas também era precária a posição da mulher casada que
tivesse sido fiel. Em Deuteronômio 24:1, a lei evidencia um
problema da mulher casada. “Se um homem casar-se com uma
mulher e depois não a quiser mais por encontrar nela algo que ele
reprova, dará certidão de divórcio à mulher e a mandará embora.”
Como vimos anteriormente, sob a lei levítica somente o marido
poderia pedir ou exigir divórcio. De fato, ele só precisava escrever
um bilhete. Uma sociedade bem diferente de Esnuna, na Suméria,
na qual o homem que tomasse uma segunda mulher depois que a
primeira tivesse filhos, seria posto para fora da casa sem posse
alguma.
Ficam claras as vantagens do parentesco e linhas de herança
masculinos, não só para a realeza ou o clero, mas até para o
homem comum. A mulher que tivesse morado na casa com o
marido, provavelmente tendo filhos, fazendo serviços domésticos,
talvez contribuindo e aumentando o valor da casa, propriedades e
terras por seus próprios esforços, não importando sua idade ou seu
estado de saúde, não tinha direito legal nem apelação a nada. Ela
poderia simplesmente receber um comunicado e ser colocada para
fora. O marido passava a assumir a posse de todos os produtos, do
tempo e dos esforços dela e, se ainda não o tivesse feito,
provavelmente a substituiria logo por outra esposa, ou duas. Com a
virgindade perdida, ela ficaria praticamente sem valor como material
matrimonial.
Esses divórcios podem não ter acontecido com frequência,
embora não tenhamos registros para julgar, mas é provável que as
leis que os permitiam resultassem em uma mulher amedrontada
pela possibilidade de ser dispensada, tornando-se uma serva
submissa, o arquétipo da “boa esposa”, obediente e sorridente ao
atender aos mínimos desejos e caprichos do marido.
“Eu vim para destruir as obras das mulheres”
A supressão e perseguição à religião da deidade feminina
continuou por séculos. No Avodah Zarah, um livro do Talmude
hebraico compilado aproximadamente no século V d.C., são dadas
diretrizes ao adorador pio para que pudesse entender como destruir
os poderes de um “ídolo”. Isso poderia ser feito arrancando a ponta
da orelha ou do nariz (o que pode explicar a falta de nariz em tantas
estátuas). O livro inteiro era cheio de regras e leis específicas
descrevendo as relações que os hebreus deveriam manter com os
“idólatras”.
Depois de florescer por milhares de anos, trazendo em seus
primórdios invenções de métodos de agricultura, medicina,
arquitetura, metalurgia, veículos com rodas, cerâmicas, têxteis e
linguagem escrita, as civilizações que adoravam a Deusa foram
gradualmente pisoteadas. Os indo-europeus tinham iniciado
inúmeras mudanças, mas passou a ser o dever de todo hebreu, em
seguida de todo cristão, suprimir e destruir a adoração à deidade
feminina onde quer que ainda existisse.
Se os hebreus seguiam os comandos descritos em
Deuteronômio, os massacres descritos no Velho Testamento podem
ter sido apenas uma porção simbólica dos assassinatos e
destruições que realmente foram cometidos. A perseguição à
religião da Deusa continuava na medida em que a literatura e os
dogmas da religião levítico-hebraica eram incorporados à nova fé,
que eventualmente se desenvolveria como o cristianismo. O poder e
a influência da nova Igreja cresceram, a lei levítica foi justaposta
pela imagem revisada da lenda familiar da mãe com o filho morto –
e com ela veio uma supressão ainda mais extremada da religião
feminina.
Em 1971, R.E. Witt escreveu Isis in the Græco-Roman World,
indicando que a adoração à Deusa como Ísis e Artêmis, nomes
amplamente usados na época de Cristo, era o alvo do apóstolo
Paulo. O autor conta que
Na Palestina e na Síria, assim como na Ásia Menor, onde tanto se
concentrou o zelo apostólico de Paulo, o culto a deidades femininas
estava profundamente enraizado e era muito antigo (...) o sermão
atacando a idolatria mostrada pelos efésios em relação à Grande
Deusa Artêmis não sobreviveu em detalhes. Não precisamos duvidar
de que Paulo tenha percebido a dimensão das deidades femininas, já
que tinha longa experiência com a influência destas, especialmente
Artêmis e Ísis. (...) Paulo sabia que ali estava um rival perigoso. (...)
Sem dúvidas, a visão paulina do isiscismo (adoração a Ísis) era crítica
e penetrante. O mundo de Paulo era um patriarcado, sua religião era
cristológica e monoteísta, e Deus se encontrava na forma de um
homem. Ísis era mulher. (...) O inimigo óbvio da Igreja em seus
primeiros embates ecumênicos era o culto a Ísis e seus companheiros
de templo. Isso fica evidente mesmo antes do golpe mortal que o
paganismo recebeu de Teodósio.
Witt também cita um trecho, talvez o mais revelador na história
da destruição da religião da Deusa, contando que: “Clemente de
Alexandria reproduz uma fala do The Gospel According to the
Egyptians. As palavras de Cristo são interessantes e no contexto
quase certamente são direcionadas à adoração vigente a Ísis: ‘Eu
vim para destruir as obras das mulheres.’”
Por volta de 300 d.C., o imperador Constantino deu fim ao antigo
santuário de Astarote em Afqa e promoveu uma supressão
generalizada da adoração a ela em toda Canaã, alegando que era
“imoral”. Diz-se que ele teve uma visão de Cristo durante uma
batalha e ouviu as palavras “Neste sinal, conquista”. Estranhas
palavras para o Príncipe da Paz.
Em 380 d.C., o imperador Teodósio fechou o templo da Deusa
em Elêusis, os templos da Deusa em Roma e a “sétima maravilha
do mundo”, o templo da Deusa então conhecida como Artêmis ou
Diana em Éfeso, no oeste da Anatólia. Disseram que ele
desprezava a religião das mulheres. Esse grande imperador cristão
pode ser mais lembrado por seu massacre de sete mil pessoas em
Tessalônica.
Em Atenas, o Partenon da Acrópole, lugar sagrado da Deusa
desde os tempos micênicos de 1300 a.C., foi convertido em igreja
cristã em 450 d.C. No século V, o imperador Justiniano converteu os
templos remanescentes de Ísis em igrejas cristãs.
Na Arábia do século VII, Maomé acabou com a adoração
nacional à Deusa do Sol, Al Lat, e à Deusa conhecida como Al
Uzza, nome que pode ter sido relacionado à antiga Ua Zit. O
professor J. B. Pritchard escreve que de início Al Lat era
praticamente a mesma deidade que Aserá na religião arábica.
Maomé fez surgir a adoração a Alá como o deus supremo. Alá
realmente significa deus, assim como Al Lat significa Deusa. Não é
sempre percebido na sociedade ocidental, mas Maomé incorporou
muitas lendas e atitudes do Velho e do Novo Testamento no Alcorão
muçulmano, a bíblia do islã. No Alcorão, em Sura 4:31 vemos que:
“Os homens têm autoridade sobre as mulheres porque Deus fez um
superior ao outro e porque eles gastam sua riqueza para mantê-las.
Por isso, as boas mulheres são obedientes, guardando suas partes
não vistas como Deus as guardou.”
Mais recentemente, no século XVI, os acadêmicos hebreus
compilaram um texto conhecido como Cabala. Novamente aparece
o nome de Lilith, que já fora descrito em placas sumérias como “a
mão de Inanna”, aquela que trazia homens para o templo, nome
também encontrado na literatura hebraica como a primeira esposa
de Adão, que se recusou a ficar por baixo dele e obedecer a seus
comandos. Na Cabala hebraica, Lilith foi apresentada como o
símbolo do mal, o mal feminino. G. Scholem escreveu que no Zohar,
uma parte da Cabala, afirmou-se que “Lilith, Rainha dos demônios,
ou os demônios de seu séquito, faz o que pode para provocar os
homens para atos sexuais sem benefício de uma mulher, sendo seu
alvo fazer para si mesma corpos com o sêmen perdido”.
Era uma advertência de que Lilith pairava por ali, só esperando
haver esperma disponível para ela criar demônios e filhos ilegítimos.
A Cabala avisava que, com a ajuda de Lilith, os filhos ilegítimos de
fato vinham. Seria isso uma remota referência às antigas qadishtu,
sua imagem agora incorporada no vil demônio Lilith? O principal
fator para se esquivar da perigosa Lilith era mais uma vez a questão
da herança. Isso transparece na descrição das ações das crianças
ilegítimas depois que o pai morria.
Scholem conta que:
Desejando, junto com as outras crianças, ter no falecido um papel
de pai, elas dão puxões e beliscões para que ele sinta a dor, e o
próprio Deus ao ver esses rebentos perniciosos junto ao corpo se
lembra dos pecados do falecido. (...) Todos os filhos ilegítimos que um
homem tenha concebido com demônios no curso de sua vida
aparecem depois de sua morte para tomar parte no luto e no funeral
(...) os demônios reclamam sua herança nessa ocasião, junto com os
outros filhos do falecido, e tentam prejudicar os filhos legítimos.
Resumo
Vimos que as ordens para destruir a religião da Deusa foram
construídas nos próprios cânones e leis das religiões masculinas
que a substituíram. Fica claro que a antiga reverência à deidade
feminina não cessou simplesmente, mas foi desaparecendo de
modo gradual, primeiro com os invasores indo-europeus, depois
com os hebreus, chegando aos cristãos, e ainda mais tarde com os
maometanos. Com a aceitação definitiva das religiões masculinas
em grande parte do mundo, os preceitos de “moralidade” sexual,
isto é, virgindade pré-nupcial e fidelidade conjugal para as mulheres,
foram incorporados às atitudes e leis das sociedades que as
abraçaram.
Não há dúvida sobre o antagonismo expressado pelos patriarcas
levitas em relação à religião da deidade feminina. Relatos, talvez
originalmente lembrados na forma oral, extraídos de outros escritos
hebraicos ou mesmo em alguma outra linguagem, tornaram-se parte
dos textos bíblicos que se assume terem sido escritos, como os
conhecemos, em aproximadamente 1000 a.C. A partir do tempo de
Moisés, os levitas parecem ter tomado a decisão de destruir os
templos e santuários da antiga adoração. Desde então até a queda
das duas nações hebraicas em 722 e 586 a.C., lemos na Bíblia
sobre os verdadeiros massacres e profanações executados, como
alegam, por comando da deidade masculina. É inevitável observar a
constante ênfase na sexualidade feminina sendo aceitável apenas
quando as mulheres estavam a salvo, designadas como
propriedade de um homem específico, e qualquer desvio dessa
regra era denunciado como meretrício ou adultério, sujeito a punição
por morte, o que tornava bem difícil seguir os costumes sexuais da
antiga religião.
O mito de Adão e Eva, segundo o professor Chiera, mostra
evidências de ter sido “produzido em círculos acadêmicos”, portanto,
não é especulação demasiada sugerir que pode ter sido
intencionalmente escrito e incluído na história bíblica da criação
como mais um ataque à religião da Deusa.
Na lenda da criação de toda existência e vida por Iavé, história
que supostamente explica o que aconteceu no começo dos tempos,
pode ter sido inserida a imagem da mulher como tentação
perigosamente sedutora, que causou a queda de toda a
humanidade. Diante de tudo que sabemos sobre os costumes
sexuais sagrados na religião da Deusa – a constante presença dos
mesmos entre os hebreus até em Jerusalém; o uso dos mitos com
dragões e serpentes pelos indo-europeus (frequentemente em
conjunção com histórias da criação) e os vestígios do mito de
Leviatã no Velho Testamento –, podemos ter uma percepção mais
esclarecedora do simbolismo e da mensagem contidos no mito
bíblico de Adão e Eva.
O exame das imagens simbólicas da religião da Deusa e da
lenda do Livro de Gênesis sobre a criação, no próximo capítulo,
fornece algumas informações surpreendentes. Podemos começar a
compreender o que significa quando a Bíblia diz que Eva desafiou a
deidade masculina e, em vez disso, aceitou a palavra e o conselho
da serpente. Podemos de fato descobrir que o mito aparentemente
inocente do Paraíso e de como o mundo começou foi, na verdade,
cuidadosamente construído e propagado para “manter as mulheres
no lugar delas”, o lugar designado a elas pela tribo levita da Canaã
bíblica.
CAPÍTULO 10
Desvendando o mito de Adão e Eva
Quando comecei minha investigação da adoração à deidade
feminina, uma grande motivação foi a imagem da mulher
apresentada pelo judaísmo e pelo cristianismo – aquela conhecida
como Eva. Quanto mais eu explorava os ritos e simbolismos dos
que reverenciavam a Divina Ancestral, mais me convencia de que o
mito de Adão e Eva, um conto, sem dúvidas, expressando um ponto
de vista e com um desfecho muito tendencioso, fora destinado à
utilização na batalha constante dos levitas para suprimir a religião
feminina. Talvez fosse uma versão adaptada do mito do dragão e da
serpente, que deixaram vestígios nos livros bíblicos dos Salmos e
de Jó.
A fé feminina tinha uma estrutura teológica muito complexa,
afetando muitos aspectos da vida dos que rendiam homenagens a
Ela. Foram milhares de anos de desenvolvimento, e seu simbolismo
era rico e intricado. Símbolos tais como serpentes, árvores frutíferas
sagradas e mulheres sexualmente tentadoras seguindo conselhos
de serpentes podem ter sido entendidos nos tempos bíblicos como
símbolos da presença já familiar da deidade feminina. No mito do
Paraíso, essas imagens podem ter explicado alegoricamente que
dar ouvidos às mulheres que reverenciavam a Deusa já tinha
causado a expulsão de toda a humanidade de seu lar original na
graça no Éden.
Cobras sagradas e visão profética
Comecemos com a serpente. Em algumas terras, toda existência
parece ter começado com uma serpente. Apesar da suposição
insistente, talvez esperançosa, de que era vista como símbolo fálico,
ela parece ter sido originalmente reverenciada como mulher no
Oriente Próximo e Médio, geralmente relacionada à sabedoria e aos
conselhos proféticos em vez de fertilidade e crescimento, como se
sugere com frequência.
A Deusa Nidaba, escriba do céu sumério, a Instruída das
Câmaras Sagradas, adorada como a primeira deidade patrona da
escrita, às vezes era representada por uma serpente. Na cidade
suméria de Dir se referiam à Deusa como a Divina Senhora
Serpente. Dizia-se que a Deusa sob o nome Ninlil, às vezes
mencionada como provedora da agricultura e subsequente
civilização para Seu povo, tinha uma cauda de serpente. Em várias
placas sumérias, a Deusa era simplesmente chamada de Grande
Mãe Serpente do Céu.
Stephen Langdon, o arqueólogo que conduziu uma das primeiras
escavações na Suméria e depois lecionou em Oxford, afirmou que
Inanna, então conhecida como Ininni, era estreitamente relacionada
à adoração à serpente. Ele também A descreve como a Divina Mãe
que Revela as Leis. Ele escreve que a Deusa conhecida como Nina,
outra forma talvez mais antiga do nome Inanna, era uma deusa
serpente que remontava aos mais antigos períodos sumérios. E
explica que, como Nina, era prezada como deidade oracular e
intérprete de sonhos, e cita uma oração em uma placa suméria: “Oh
Nina de ritos sacerdotais, Senhora de preciosos decretos, Profetisa
de Deidades és tu.” Também comenta: “As evidências indicam uma
deusa serpente original como a intérprete de sonhos do futuro
desconhecido.” Várias esculturas descobertas na Suméria, datando
de aproximadamente 4000 a.C., mostram uma figura feminina com
cabeça de cobra.
Escrevendo sobre Elão, logo ao leste da Suméria, onde nos
primeiros tempos a Deusa reinava suprema, o dr. Walther Hinz
conta: “parte dessa individualidade [em Elão] consiste em respeito e
reverência incomuns pela eternidade da condição de mulheres e em
adoração a cobras, que têm raízes na magia... Até as cerâmicas dos
terceiro e quarto milênios mostram uma profusão de cobras”.
Ishtar da Babilônia, sucessora de Inanna, foi identificada com o
planeta Vênus. Em alguns textos babilônicos, esse planeta era
chamado Masat, literalmente significando “profetisa”. Ishtar foi
representada sentada no trono real do céu, segurando um bastão
onde se enroscavam duas cobras. Um selo da Babilônia, mostrando
Ishtar segurando o cetro com cobras entrelaçadas, traz a inscrição
“Senhora da Visão de Kisurru”. Em outro lugar foi registrada como
“Aquela que Dirige os Oráculos” e “Profetisa de Kua”. As placas
babilônicas oferecem numerosos relatos de sacerdotisas que davam
conselhos proféticos nos templos de Ishtar, alguns deles muito
significativos nos registros de eventos políticos.
Mesmo no mito babilônico-cassita, Tiamat foi registrada como o
primeiro ser divino. Segundo a lenda, ela originalmente possuía as
Tábuas do Destino e, ao ser assassinada, estas são reclamadas
como propriedade de Marduque. Nesse mito, Tiamat era descrita
como um dragão ou serpente. A associação concreta da serpente
com a deidade feminina, em todos os textos e as inscrições na
Suméria e na Babilônia, provavelmente foi a razão de usarem esse
simbolismo nos mitos indo-europeus.
Na ilha de Creta, a cobra aparece na adoração à deidade
feminina com maior frequência do que em qualquer outra parte da
área mediterrânea. Em toda a ilha foram desenterrados artefatos
retratando a Deusa ou Suas sacerdotisas segurando cobras nas
mãos ou trazendo-as enroladas no corpo, revelando que esse
animal era parte integral dos rituais religiosos. Junto às estátuas de
sacerdotisas com cobras entrelaçadas, foram descobertos objetos
cilíndricos em argila, também com cobras enroladas em volta. Arthur
Evans, o arqueólogo que escavou o palácio cretense em Cnossos,
os descreve como “tubos de cobras” e sugere que eram usados
para alimentar as serpentes sagradas mantidas nos santuários da
Deusa cretense. As abundantes evidências da natureza sagrada da
serpente de fato apareceram tão extensamente em Creta que
muitos arqueólogos se referem à deidade feminina de lá como a
Deusa Serpente.
Evans oferece evidências que sustentam a afirmação de que a
Senhora das Serpentes em Creta era originalmente derivada da
adoração à Deusa Cobra pelos povos pré-dinásticos do Egito, e
sugere que a adoração à Senhora Serpente pode ter sido levada a
Creta em torno de 3000 a.C. É praticamente a mesma época da
formação da Primeira Dinastia do Egito – e ele sugere também que
o povo egípcio pode ter fugido para Creta devido às invasões
naquele tempo.
O uso da cobra na religião da Deusa no Egito era tão antigo que
o sinal que precedia o nome de qualquer Deusa era a cobra (isto é,
uma figura de cobra era o hieróglifo para a palavra Deusa). No Egito
pré-dinástico, a deidade feminina do Baixo Egito (ao norte) era a
Deusa Cobra conhecida como Ua Zit. Não se sabe muito sobre essa
antiquíssima Deusa Cobra, mas depois A vemos como a cobra do
ureu usada na testa de outras deidades e da realeza egípcia. A
cobra era conhecida como o Olho, uzait, símbolo de intuição mística
e sabedoria. Derivações posteriores, como Hator e Maat, também
eram conhecidas como o Olho. Esse termo, em qualquer contexto,
era escrito na forma feminina. A posição do Olho e sua eventual
associação com deidades masculinas foi explicada no Capítulo 4. A
Deusa como Hator era também associada ao deus masculino
Hórus; o nome Dela de fato significa Casa de Hor. Mas um texto
preservou a história de que Hator tinha sido a serpente que existia
antes que qualquer coisa tivesse sido criada. Ela então fez os céus,
a terra e toda vida que existia ali. Nesse relato, embora o texto não
esteja claro quanto ao motivo, Ela estava zangada e ameaçou
destruir toda a criação e reassumir Sua forma original de serpente.
Um santuário para profecias ficava na cidade egípcia de Buto,
que já foi o principal centro religioso da Deusa Cobra. A cidade era
de fato conhecida na língua egípcia como Per Uto, mas os gregos a
chamavam de Buto e usavam esse nome para a própria Deusa
Cobra. Esse santuário nos tempos clássicos gregos era creditado à
Deusa conhecida como Leto, mas é provável que esse mesmo local
tenha sido o santuário de aconselhamento oracular da própria
Deusa Ua Zit. Heródoto relatou ter visto quantidades imensas de
esqueletos de cobras cobrindo uma passagem naquela cidade.
Na Grécia, conseguimos olhar mais de perto para as variações
egípcia e cretense da Deusa Serpente. A natureza da religião tinha
passado por grandes transformações após as invasões de aqueus e
dórios, que trouxeram a adoração a Zeus, mas muitos vestígios das
primeiras imagens e símbolos sobreviveram. Isso se manifestou
especialmente na figura heroica de Atena. Sua serpente aparecia
constantemente em lendas, desenhos e esculturas. Em algumas
estátuas, aparecia embaixo de Seu grande escudo de bronze ou a
Seu lado. Uma edificação conhecida como Erecteion ficava na
Acrópole junto ao templo Dela, o Partenon. O Erecteion era
considerado a casa da cobra de Atena, mas a cobra da Deusa da
Sabedoria grega, reverenciada nas alturas majestosas da Acrópole,
não foi uma criação do período grego clássico. Apesar da lenda
indo-europeia grega sugerindo que Atena tenha nascido da cabeça
de Zeus, a adoração à Deusa chegara muito antes à Acrópole –
com a Deusa cretense dos assentamentos micênicos.
As conexões começam a tomar forma. Como já lemos, os
micênicos eram o povo que tinha vivido em Creta, no palácio de
Cnossos, em torno de 1400 a.C. Eles haviam incorporado a antiga
cultura minoica-cretense à deles, em tal extensão que a adoração é
frequentemente descrita como religião minoico-micênica. Os estilos
de vestimentas, anéis de sinete, murais, selos e artefatos de todo
tipo revelam a grande similaridade entre as crenças religiosas
micênicas e as dos cretenses. Uma vez compreendidas essas
conexões, constatamos o significado do fato de que, sob as ruínas
dos templos gregos clássicos de Atenas e Delfos, e de vários outros
santuários onde a Deusa era muito associada à Sua serpente,
jazem esses vestígios micênicos mais antigos.
O santuário que pode oferecer a visão mais profunda das
conexões da deidade feminina da Grécia com a Deusa Serpente de
Creta é o de Delfos. Abaixo do templo clássico e de outras
construções em Delfos foram desenterrados artefatos micênicos e
ruínas de antigos santuários. Nos primórdios, a Deusa era sagrada
nesse local, a que fornecia as revelações divinas proferidas pelas
sacerdotisas que A serviam. A mulher que enunciava os oráculos da
divina sabedoria era chamada de pitonisa, termo oriundo de Píton.
Embora os últimos escritos gregos usassem o gênero masculino,
nos primeiros relatos a pitonisa era feminina. A serpente píton era
tão importante que essa cidade já tinha sido conhecida como Pito.
Segundo Pausânias, o primeiro templo naquele local foi construído
por mulheres, ao passo que Ésquilo registra que nesse mais
sagrado de todos os templos a Deusa era exaltada como a Profetisa
Primeva. Tempos depois, os sacerdotes de Apolo tomaram o templo
e a lenda grega relata que este assassinou a píton. As muitas
esculturas e relevos de mulheres, geralmente descritas como
“amazonas” lutando contra homens, podem de fato representar esse
ataque inicial.
Relatos sobre Píton, bem como a lenda de Cassandra de Troia,
revelam que as cobras eram habitantes familiares no santuário
oracular de Delfos. No templo da Deusa conhecida como Hera,
estreitamente associada a Gaia de Delfos, a Profetisa Primeva,
também se mantinham cobras. Os locais adivinhatórios em Delfos,
Olímpia e Dodona inicialmente identificados com a Deusa,
posteriormente seriam confiscados pelos sacerdotes de Zeus e
Apolo (ambos descritos como matadores da serpente da Deusa
Gaia). Mesmo em nome das deidades masculinas, quem costumava
oferecer com mais frequência os respeitáveis conselhos ainda eram
as sacerdotisas.
Até o momento, observamos que a deidade feminina, como era
conhecida na Babilônia, no Egito, em Creta e na Grécia, era
identificada como ou associada a serpentes, animal intimamente
ligado à sabedoria e profecia. Mas a Deusa Serpente não era
conhecida só naquelas terras. Novamente, quando voltamos a olhar
para Canaã, que beirava o mar Mediterrâneo (assim como Egito,
Creta e Grécia), descobrimos evidências do louvor à Deusa como
Senhora Serpente.
As conexões ocorrem de maneira complexa. Realmente
mereceriam um livro inteiro em vez dos poucos parágrafos de que
dispomos. A partir dos tempos neolíticos, as pessoas passaram a se
movimentar bastante, comerciando e guerreando a muitos
quilômetros de sua terra natal. Fundavam colônias distantes onde
quer que encontrassem madeira, ouro, especiarias e outros
materiais valiosos. Navios fenícios atravessavam não somente o
Mediterrâneo em todos os sentidos e os rios do continente, como
também podiam contornar a costa da Espanha até Cádiz, e é
possível que tenham chegado às Ilhas Britânicas muitos séculos
antes do nascimento de Cristo e das invasões romanas. Antes dos
fenícios, que na verdade eram cananeus de Tiro e Sídon, houve
grupos de pessoas que navegavam livremente pelas águas
mediterrâneas e eram chamados de Povos do Mar. Ao que parece
viajaram pelos oceanos, quase sempre deixando vestígios de sua
passagem ou assentamento.
Um desses povos era conhecido como filisteus. Nos
familiarizamos com esse nome por meio da Bíblia, que os descreve
como pessoas traiçoeiras e malignas – obviamente, arqui-inimigos
dos hebreus. No entanto, como escreve o professor R. K. Harrison,
“escavações arqueológicas no território filisteu têm demonstrado
que é um erro se referir a esse povo como sinônimos de barbárie ou
deficiência cultural, como se faz com tanta frequência no discurso
comum”.
O povo filisteu apresenta uma das conexões mais significativas
entre a adoração da Deusa Serpente de Creta e a deidade feminina
reverenciada em Canaã. O Velho Testamento os registra como um
povo oriundo da ilha de Caftor – que geralmente se acredita ser
Creta. Os egípcios a chamavam de Keftiu. A Bíblia os coloca vindos
de Caftor e do Egito. Embora suas maiores migrações para Canaã
apareçam em torno de 1200 a.C., há menção aos filisteus no tempo
de Abraão. Vários escritores sugerem que os filisteus eram, na
verdade, um ramo dos micênios, culturalmente ativos em Creta e na
Grécia naquele mesmo tempo. Alguns escritores os associam aos
pelasgos, povos que viviam na Grécia antes das invasões indo-
europeias. Durante as maiores migrações de filisteus para Canaã,
os principais assentamentos ficavam no sudoeste. Essa área
passou a ser conhecida como Filisteia, origem do nome Palestina.
As evidências sugerem que juntamente com o povo filisteu veio a
religião da Deusa Serpente.
Algumas das evidências mais reveladoras de conexões da
adoração da Deusa Serpente de Creta com a deidade feminina de
Canaã, bem como da vizinha ilha de Chipre, foi a descoberta nesses
lugares de “tubos de cobras” – quase idênticos aos encontrados em
Creta. Mais significativo ainda é o fato de que um tubo de cobra foi
desenterrado em um templo filisteu dedicado à adoração de
Astarote.
O arqueólogo R. W. Hutchinson indica algumas dessas
conexões:
Os tubos de cobras de Gúrnia (uma cidade em Creta) têm
paralelos interessantes fora de Creta, e Evans faz uma compilação de
uma série convincente de exemplos de tubos de argila, conectados ao
culto doméstico de cobras, alguns modelados com cobras enroladas.
(...) Alguns dos exemplos mais interessantes desses tubos, entretanto,
não vêm de Creta, mas de sítios da Alta Idade do Bronze em Chipre e
Filisteia. Um tubo encontrado em Kition, em Chipre, mostra o tubo de
cobra convertido em ninho de pomba. (...) Outro tubo encontrado na
Casa de Astarote no sítio filisteu de Bete-Seã (Canaã), datado do
reinado de Ramsés II do Egito (1292-1225 a.C.), mostra duas cobras
rastejando em volta e para dentro do tubo.
Outra peça encontrada em Bete-Seã retrata a Deusa apoiada à
janela de um santuário, com uma serpente emergindo de um nível
abaixo. Nesse mesmo sítio foram encontradas algumas “placas de
Astarte”, além da estátua de uma mulher, talvez com a intenção de
representar uma sacerdotisa – com uma serpente enrolada no
pescoço. Outra descoberta interessante nesse templo é de uma
serpente de terracota com seios. Segundo a Bíblia, foi nessa Casa
de Astarote em Bete-Seã que a armadura do rei Saul hebreu,
derrotado, foi vitoriosamente exposta pelos filisteus (I Samuel
31:10).
Na ilha vizinha de Chipre, em outro templo de Astarote localizado
na cidade de Kition, perto da atual Lárnaca, descobriram não só um
tubo de cobra muito similar aos de Creta, mas também uma
pequena imagem em argila segurando uma cobra. Escavações
recentes em Kition desenterraram outra imagem de Astarote. Não
nos surpreende saber que o templo Dela em Kition tenha sido
construído no que se acredita serem fundações micênicas ou
cretenses.
A presença em si dos filisteus poderia ser suficiente para atestar
e explicar o aparecimento da Deusa Serpente em Canaã, mas Sua
adoração também teve acesso à “terra prometida” por outros canais.
A Deusa Ísis-Hator, cuja adoração assimilou a de Ua Zit, a Deusa
Cobra do Egito, era famosa em certas áreas do Sinai e de Canaã.
Acredita-se que alguns desses lugares, ainda na Segunda Dinastia,
eram portos ou mesmo colônias do Egito.
Algumas conexões da Deusa em Canaã com a deidade feminina
conhecida no Egito são reveladas por seus nomes. No Egito, a
Astarote cananeia era chamada de Asit, novamente muito parecido
com Ua Zit e Au Set. O nome Umm Attar, Mãe Attar, era conhecido
em partes da Arábia, provavelmente relacionado ao nome Hator,
mas também a outro nome cananeu para Astarote – Attoret.
Vários templos antigos oferecem evidência das conexões entre
Ísis-Hator e a Deusa em Canaã, aparecendo como a Deusa
Serpente. Em um deles, Serabit el Khadim, um santuário na
Península do Sinai perto das grandes minas egípcias de turquesa,
foram descobertas inscrições bilíngues, egípcias e semíticas. As
inscrições chamam de Deusa Hator a deidade que foi adorada no
santuário. Nessas inscrições bilíngues, Hator também é designada
como Baalat, significando Senhora ou Deusa, como a palavra era
então conhecida em Canaã. J. R. Harris escreve sobre o templo no
Sinai e discute a relação entre os dois nomes da Deusa. E explica
que: “Aqui ela [Baalat] evidentemente se identificava com a Deusa
Hator egípcia, em cujo templo todas as inscrições foram
encontradas.” Porém, talvez mais significativo seja o fato de que,
nas paredes desse templo, há duas orações entalhadas na pedra.
Em ambas a Deusa é invocada – como a Senhora Serpente.
Sir Flinders Petrie escreveu sobre prováveis oráculos dentro do
complexo de Serabit. Esse santuário na Península do Sinai, que fica
entre o Egito e Canaã, é especialmente digno de atenção, já que
muitos estudiosos sugerem que pode ter estado na rota das tribos
hebreias no êxodo do Egito. A Bíblia registra que foi durante essa
época no deserto que Moisés veio a possuir a “serpente de bronze”,
que apareceria setecentos anos depois no templo de Jerusalém.
Serpente essa que seria destruída pelo reformista hebreu Ezequias
como uma “abominação pagã”, mas não é inconcebível que tenha
caído nas mãos de hebreus em Serabit e que tivesse sido aceita
temporariamente por Moisés para aplacar o povo hebreu.
No entanto, essa serpente de bronze parece ter sido identificada
com a religião da Deusa, pois a Bíblia revela que permaneceu no
mesmo templo em Jerusalém onde encontramos, em 700 a.C.,
vasos para Astarote e Baal, a asherah, a casa das mulheres
sagradas e as mulheres que choravam por Tamuz.
O título de Baalat como outro nome para Hator leva a mais um
santuário da Deusa, no porto cananeu de Biblos, um sítio que teve
seu primeiro assentamento em torno de 6000 a.C. Já no século IV
a.C., escritos de Berytus (Beirute) afirmavam que a Baalat ainda era
a principal deidade da cidade Biblos. Com vista para as águas
mediterrâneas, na face costeira do atual Líbano, no que um dia já foi
Canaã, as fundações do templo datam de pelo menos 2800 a.C.
Muitos registros de Biblos contam que na maior parte do tempo a
cidade esteve estreitamente alinhada com o Egito.
Nesse templo em Biblos, a Deusa era reverenciada como Baalat
e como Ísis-Hator. Muitos símbolos da Deusa e Sua cobra foram
encontrados em meio às ruínas. Uma faixa para a cabeça, adornada
com a cobra se erguendo, foi construída de tal forma que a cobra
parecia emergir da cabeça de quem a usasse, como o Olho da
Sabedoria. Nesse sítio também foram desenterradas duas cobras
de ouro e uma vasilha para oferenda decorada com cobras. Na
lenda egípcia, foi a essa cidade de Biblos em Canaã que Ísis viajou
para recuperar o corpo de seu irmão/marido Osíris já morto.
Em toda Canaã aparecem evidências de cobras acompanhando
a adoração à Deusa. É provável que a maioria das esculturas e
artefatos lá associados à deidade feminina e Sua serpente tenham
sido destruídos na época da ocupação do local pelos hebreus,
conduzida pelos levitas. Entretanto, vestígios espalhados dão o
silencioso testemunho da existência Dela por algum tempo até nas
cidades do sul de Canaã.
Em Tanach, foram descobertas inúmeras cabeças de cobra, bem
como uma pequena imagem segurando uma serpente. Ali também
encontraram uma estatueta de bronze de Astarote com uma
inscrição indicando que a Deusa dava os oráculos ao apontar Seu
dedo.
Em Bete-Semes, as escavações encontraram jarros com
serpentes e uma imagem da Deusa com uma cobra caindo de Seu
ombro para o colo. Em Tell Beit Mirsim, outra fortaleza filisteia, havia
muitas “placas de Astarte”, além de uma placa que Albright identifica
como a Deusa, com uma serpente enrolada na metade inferior do
corpo. A peça está tão mutilada que eu hesitaria em dizer quem a
imagem realmente representa, mas a serpente está bastante nítida.
Hutchinson traça uma conexão entre essa imagem em particular
e a Deusa Serpente da Creta minoica, escrevendo:
Uma deusa cobra semelhante parece ter sido adorada durante a
Idade do Bronze na Palestina, onde encontraram em Tell Beit Mirsim,
em um depósito datado de aproximadamente 1600 a.C., uma estela
entalhada com a representação de uma deusa com sua cobra
enrolada no corpo. Essa estela era praticamente contemporânea da
imagem em faiança da Deusa Cobra encontrada nos repositórios do
templo em Cnossos.
Outra serpente de bronze foi encontrada em Shushan, e os
arqueólogos em Shechem desenterraram uma estatueta com uma
cobra enrolada no corpo. Na cidade de Gezer, quase trinta
quilômetros a noroeste de Jerusalém, uma serpente de bronze foi
encontrada perto de uma caverna outrora usada como santuário
religioso. Havia também uma placa da Deusa com uma cobra e,
aparentemente, com serpentes decorando suas bordas. Sugere-se
que os braços abertos Dela já tinham segurado serpentes, como em
tantas outras placas desse tipo combinando aspectos de Astarote e
Hator, em que os relevos na argila estão marcados com a inscrição
Qadesh – Sagrada. Também foi descoberta uma imagem de
Astarote em bronze nesse mesmo sítio.
O arqueólogo R. A. S. Macalister assim descreve as escavações
em Gezer:
Em um compartimento perto das pedras eretas foi encontrada uma
miniatura em bronze de uma cobra que pode ter sido usada como
oferenda votiva. Faz lembrar a história, em II Reis, da serpente de
bronze de Moisés, cuja adoração foi encerrada por Ezequias. É
possível que esse objeto tivesse aparência semelhante. Outro achado
notável nos arredores do local sagrado foi a imagem singular de
Astarte com dois chifres.
Gezer tinha duas grandes cavernas subterrâneas e a cobra foi
encontrada em uma estrutura circular próxima. Mais uma vez, vários
autores sugerem que a adivinhação oracular pode ter sido praticada
nessas câmaras subterrâneas, onde foram descobertas vasilhas
para libação decoradas com cobras.
E na própria Jerusalém havia a serpente de bronze, que se diz
datar do tempo de Moisés, guardada como ídolo sagrado no templo
até aproximadamente 700 a.C.
O símbolo da serpente enroscada, em relatos de revelação
oracular, aparece em todo o Oriente Próximo e Médio. Para resumir,
são traçadas conexões entre a Deusa Cobra do Egito e a Deusa
Serpente de Creta. Parece que os micênios levaram com eles, de
Creta para os santuários da pré-Grécia, a serpente oracular,
observada com maior clareza nos sítios de Atenas e Delfos. Outro
povo, os filisteus, provavelmente de Creta, levaram a Deusa
Serpente para o Chipre e Canaã, e os egípcios levaram a adoração
à Senhora Serpente através do mar Mediterrâneo para Biblos e
através das areias do Sinai até Serabit. Tanto na Babilônia quanto
na Suméria encontramos a Deusa associada a cobras e à profecia
oracular. Praticamente todas as áreas no Oriente Próximo e Médio
fornecem relatos da serpente e dos santuários da sabedoria divina
como elementos separados. Contudo, ocorrem juntos com
frequência suficiente para sugerir o reconhecimento da relação entre
esses dois elementos.
Ao questionar a natureza e o objetivo dos santuários oraculares e
das sacerdotisas que davam conselhos, os registros históricos,
especialmente na Babilônia e na Grécia, explicam que eram
utilizados em assuntos vitais políticos, governamentais e militares.
Não era só a crença no poder das sacerdotisas de verem o futuro
que tornou a adivinhação oracular tão popular, mas também uma
compreensão de que essas mulheres estavam em comunicação
direta com a deidade que possuía a sabedoria do universo.
Os relatos das pessoas que acreditavam na revelação profética
deixam evidente que elas não viam o futuro como algo
predestinado, determinado por sinas incontroláveis, mas sim como
algo que podia ser manipulado, contanto que se soubesse qual a
forma mais vantajosa de agir. As sacerdotisas oraculares não eram
consultadas para dar uma previsão firme do futuro, mas para
aconselhar quanto à melhor estratégia de acordo com a situação. O
conselho podia ser obtido em santuários por todo o caminho da
Grécia à Mesopotâmia.
Evidências da Deusa na Suméria, chamada de Nina, Ininni ou
Inanna, sugerem que a revelação divina era um aspecto da religião
desde seus primórdios. Já na Babilônia, registros das Rainhas Sibtu
e Nakia revelavam a importância e influência das sacerdotisas
oraculares nos assuntos políticos não só babilônicos, como também
da cidade de Mari. As profetisas babilônias eram conhecidas como
appiltu ou muhhtu. É interessante notar que a palavra hebraica
zonah é definida às vezes como “prostituta”, às vezes como
“profetisa”.
J. Hastings escreve que, no Egito, nos “Impérios Antigo e Médio,
as mulheres de famílias importantes frequentemente levavam o
título de ‘profetisas’. Nesse papel, quase sempre serviam às deusas
Hator e Neite”.
D. S. Russell escreve sobre as profetisas que viriam a ser
conhecidas como as Sibilas. Estas eram identificadas com uma
profetisa na Anatólia, chamada Sybella, de quem podemos suspeitar
que tivesse alguma conexão com a Deusa conhecida lá como
Cibele. De fato, foram as Sibilas de Roma as responsáveis pela
entrada da adoração da Cibele de Anatólia para Roma. Segundo
Russell:
Esses oráculos sibilinos foram escritos durante a segunda metade
do século II a.C. em Alexandria. Eles imitam as Sibilas gregas que
exerciam uma considerável influência sobre o pensamento pagão,
antes e depois dessa época. A Sibila pagã era uma profetisa que, por
inspiração do deus, era capaz de fornecer sabedoria aos homens e
lhes revelar o desejo divino. Havia grande variedade desses oráculos
em diferentes países – e, particularmente no Egito, eles passaram a
ter crescente importância e significado.
No templo em Jerusalém, em torno de 620 a.C., Ezequiel falou
que as mulheres que ousavam profetizar “estavam fora de si”.
Mesmo os cânones posteriores de São Patrício, a quem se atribui
ter levado o cristianismo para a Irlanda “pagã”, advertiam contra as
“pitonisas”. A palavra ainda é definida nos dicionários de inglês
contemporâneos como profetisa ou bruxa.
“Minha mente tinha poderes extraordinários”
O constante aparecimento da serpente com a Deusa, em
associação com profecia e revelação divina, levanta a questão do
objetivo e do significado dessa presença repetitiva. Nunca ficou
evidente o modo de utilização da serpente na adivinhação oracular,
mas algumas indicações dão uma possível explicação.
Uma delas vem da história de Cassandra, um conto que pode ter
sobrevivido desde os tempos dos aqueus na Guerra de Troia. Na
lenda, Cassandra era ainda uma menininha quando foi deixada no
santuário a noite inteira. Ao chegar lá pela manhã, a rainha troiana
Hécuba encontrou a filha rodeada pelas cobras sagradas que eram
mantidas no santuário. Elas lambiam as orelhas de Cassandra.
Essa experiência foi a explicação para Cassandra ganhar o dom da
profecia.
Um profeta grego chamado Melampo, segundo registros,
também teve as orelhas lambidas por cobras até ficarem limpas, o
que permitiu a ele entender a linguagem dos pássaros. Em seus
escritos, Filóstrato alega que era muito comum entre os árabes
entenderem as revelações divinas e especialmente os sons dos
pássaros, explicando que tinham adquirido essa capacidade por
comerem o coração ou o fígado de serpentes. Sons de pássaros
eram associados com muita frequência aos santuários oraculares da
Grécia, ao passo que em Creta e em Ascalão, Canaã, as estátuas
costumavam incluir uma ou mais pombas empoleiradas na cabeça
da Deusa ou sacerdotisa.
Tanto em hebraico quanto em árabe, os termos para magia são
derivados das palavras que significam serpente. Para os indígenas
Sioux da América do Norte, a palavra wakan significa tanto mago
como serpente. Os indígenas do sudoeste dos Estados Unidos
tinham um ritual de iniciação em que um bravo, escolhido para essa
honra, executava uma dança enquanto se deixava picar várias
vezes por uma cobra. Em resultado dessa experiência, se
sobrevivesse, ele ganharia grande sabedoria e intuição sobre o
funcionamento do universo e o significado de todas as coisas.
Além dessas conexões entre serpentes e revelação oracular, a
ciência contemporânea forneceu talvez a mais profunda visão da
relação entre os elementos. Normalmente, quando uma pessoa é
mordida por uma cobra venenosa, o veneno entra no sistema
sanguíneo e provoca várias reações, a depender da espécie de
cobra, incluindo sudorese, hemorragia interna, dificuldade de
respirar e paralisia. Efeitos que costumam ser fatais. Mas há
registros recentes de pessoas que, em vez de morrer, ficaram
imunizadas. Uma vez imunizado, especialmente pela krait
malasiana e outros elapídeos, o sujeito experimenta um estado
emocional e mental que foi comparado aos efeitos de drogas
alucinógenas.
Em um relato guardado por sua esposa, William Haast, do
Serpentário da Flórida (onde extraem venenos para diversos usos
medicinais), descreve sua reação a uma mordida de krait, mesmo
depois de ter sido repetidas vezes imunizado devido ao seu
trabalho. O relato foi depois lembrado em Cobras in his Garden, de
H. Kursh:
De repente, ele começou a se sentir agradavelmente leve,
estranhamente animado, quase alegre, como se estivesse um pouco
intoxicado (...) desenvolveu um sentido agudo de audição, quase
dolorosamente agudo. No ar em volta havia uma “quizumba” de sons,
uma verdadeira selva de barulhos dissonantes. Foi como se estivesse
sob a influência de algum estranho narcótico (...) Ele tinha uma
sensação inexplicável. Uma reação emocional peculiar, que não
conseguia controlar. Ao se deitar com os olhos involuntariamente
fechados, foi capaz de “ver” coisas. Havia visões na frente dele.
Em outro relato desse mesmo incidente, Marshall Smith, da
revista Life, citou Haast, que dizia: “Eu me vi inventando os versos
mais maravilhosos. Minha mente tinha poderes extraordinários.”
Podem ou não ter relação, mas dizem que os oráculos dos
santuários na Grécia eram dados em versos.
Semelhante à mescalina (produto do cacto peiote) ou à
psilocibina (presente em certos tipos de cogumelos), ambos usados
como sacramentos em algumas religiões dos indígenas norte-
americanos, a combinação química de alguns tipos de venenos de
cobras pode fazer com que a pessoa, especialmente se estiver em
um estado mental de expectativa, sinta-se em contato com as
próprias forças da existência e com a sensação de discernir eventos
e significados do passado, presente e futuro com grande clareza e
compreensão. Esse tipo de sensação é quase sempre relatado por
pessoas quando usam mescalina, psilocibina e LSD (dietilamida do
ácido lisérgico). As serpentes sagradas, aparentemente guardadas
e alimentadas nos santuários oraculares da Deusa, talvez não
fossem meros símbolos, mas de fato os instrumentos para alcançar
as experiências de revelação divina. Isso pode explicar o título da
Deusa Cobra egípcia, que às vezes era conhecida como a Senhora
dos Encantamentos.
Segundo uma antiga tradição talmúdica, o veneno da serpente,
que tinha corrompido Eva e toda a humanidade, perdeu sua força
com a revelação do Monte Sinai, mas a recuperou quando Israel
começou a adorar o bezerro de ouro.
Carne e fluido da Deusa
A serpente não é a única conexão entre a história de Adão e Eva
e a adoração à Deusa. Outro símbolo importantíssimo na história é
a árvore, a árvore do conhecimento do bem e do mal, de onde
pendia o fruto proibido. Há lendas conhecidas desde a Grécia
clássica sobre a árvore de maçãs douradas da Deusa Hera, com a
serpente Ladão enrolada no tronco. Diz-se que a árvore, aliás, fora
um presente para Hera da Deusa Gaia, a Profetisa Primeva do
santuário de Delfos. As lendas de macieiras eram conhecidas na
Grécia clássica, mas sugiro que a árvore do conhecimento do bem e
do mal nos primeiros tempos não dava maçãs, e sim figos.
Um tipo particular de árvore foi considerado sagrado em diversos
registros antigos, mas infelizmente com três nomes diferentes e por
isso sua identidade passou despercebida. Às vezes era chamada de
plátano ou sicômoro, às vezes de figueira e às vezes de amoreira.
Na verdade, a árvore é a fícus sicomorus, a figueira-brava,
geralmente indicada como amoreira-negra. Ela difere da figueira
comum por ter frutos avermelhados que crescem em grandes
agrupamentos semelhantes a um cacho de uvas.
Referências a essa árvore sagrada são encontradas nos escritos
do Egito e há representações em murais egípcios. A Deusa Hator do
Egito, reverenciada como o Olho da Sabedoria e Senhora Serpente,
também tinha outro título – a Senhora do Sicômoro. Essa árvore
também era conhecida como o Corpo Vivo de Hator na Terra.
Comer seu fruto era o mesmo que ingerir a carne e o fluido da
Deusa. Alguns murais egípcios A mostram dentro dessa árvore,
passando seu fruto sagrado ao morto como o alimento da
eternidade, imortalidade e vida contínua, mesmo após a morte.
O tipo de árvore presente nos anéis de sinete de Creta talvez
fosse o mesmo, embora ela fosse representada de forma mais
simbólica, mostrando os cachos de frutos. Evans sugere que o figo
era sagrado para os cretenses e descreve uma seção de um mural
em Cnossos em que a árvore ao lado do altar é uma figueira. Ele
também menciona um grupo de árvores sagradas retratadas nas
paredes internas de um santuário cretense e as folhagens
demonstram que são figueiras. Selos e anéis cretenses repetidas
vezes representam a Deusa ou Suas atendentes ao lado de
pequenas árvores frutíferas, cuidando delas, quase as acariciando,
como em um gesto de devoção sagrada. Na Índia, a figueira é
conhecida como “figueira sagrada” até hoje.
Algumas das evidências mais elucidativas do significado
simbólico dessa árvore é nosso conhecimento dos rituais memoriais
celebrados na “morte anual” de Osíris, irmão/marido de Ísis, uma
morte estreitamente relacionada ao sacrifício do rei a cada ano. De
acordo com registros egípcios, Osíris foi primeiramente enterrado
em um caixão de amoreira. Depois o caixão foi colocado dentro de
um sicômoro vivo, simbolizando Ísis-Hator como sua mãe/esposa.
Desse modo, ela lhe forneceria o alimento da eternidade. Esse
costume tem muita ligação com a lenda em que Ísis foi a Canaã
para recuperar a árvore onde Osíris fora enterrado, retirando o
caixão de dentro da árvore e deixando os despojos como relíquia
sagrada no templo Dela em Biblos; esse era o santuário cananeu
onde Ísis-Hator e Baalat eram sinônimos.
O simbolismo sagrado dessa árvore funerária de Hator indica a
probabilidade de que seja ela a árvore designada repetidas vezes
na Bíblia como a asherah. Ezequiel falou duramente contra
“idólatras” no templo de Jerusalém, passando de mão em mão o
ramo sagrado de uma árvore, como se isso fosse um grande
pecado. Passagens em Ezequiel ameaçam: “Não se contaminarão
mais com seus ídolos e imagens detestáveis nem com nenhuma de
suas transgressões” e “Israel não terá mais vizinhos maldosos
agindo como roseiras bravas dolorosas e espinhos pontudos”. Isaías
se refere ao plantio de pequenas árvores para Adônis ao advertir
que “os brotos de deuses estrangeiros” trariam uma colheita de
desgosto e desesperado pesar.
Evans menciona folhas de figueira em ouro encontradas nas
tumbas micênicas em conexão com um “culto funerário” no lugar. A
figueira era considerada um presente da Deusa quando adorada no
santuário grego de Elêusis, um templo também construído sobre
fundações micênicas. Foi em uma árvore que tanto Adônis como
Átis tiveram mortes lendárias e era em uma árvore que a efígie
anual de Átis ficava exposta em Roma. Dionísio, personagem bem
similar a Átis e Adônis, associado à adoração à Deusa em Delfos e
em Elêusis, também foi simbolicamente associado à figueira.
Como mencionei anteriormente, o asherah ou os asherim da
Bíblia eram plantados ou mantidos eretos ao lado do altar nos
santuários da Deusa. Eram os pilares e postes desprezados que os
hebreus continuamente ordenavam que fossem destruídos. Embora
não tenhamos provas garantidas de que fossem figueiras, as
evidências sugerem que sim. O fruto dessa árvore, descrito em
textos egípcios como “a carne e o fluido de Hator”, pode mesmo ter
sido comido em um tipo de “comunhão” com a Deusa, talvez
suscitando o costume de comunhão do “corpo e sangue” de Jesus,
até hoje ingeridos na forma de hóstia e vinho. Intriga muito a
passagem da Bíblia contando que, quando Adão e Eva constataram
sua nudez por terem comido o fruto proibido da árvore, eles fizeram
tangas para cobrir as partes sexuais – com folhas de figueira.
Serpentes, figueiras e sexualidade
É aqui que nossa compreensão dos costumes sexuais sagrados
e os padrões de descendência matrilinear entram em questão,
esclarecendo mais o simbolismo do fruto proibido. Em todas as
áreas onde a Deusa era conhecida e reverenciada, era exaltada não
só como a profetisa de grande visão, muito identificada com a
serpente, mas também como a Criadora original e a padroeira de
prazeres sexuais e da reprodução. A Divina Ancestral era
identificada como Aquela que trouxe a vida, bem como Aquela que
decretou os destinos e diretrizes dessas vidas, uma combinação
natural. Era mérito de Hator ter ensinado às pessoas a procriar.
Ishtar, Astarote e Inanna eram todas respeitadas como deidades
tutoras da sexualidade e da nova vida. As mulheres sagradas
celebravam esse aspecto Dela fazendo amor dentro dos templos.
Considerando o ódio dos hebreus aos asherim, um símbolo
primordial da religião feminina, não seria uma surpresa que o
simbolismo da árvore do fruto proibido, que diziam oferecer o
conhecimento do bem e do mal, ainda que representada no mito
como provedora de consciência sexual, fosse incluído na história da
criação para advertir que comer o fruto dessa árvore era o que tinha
causado a queda da humanidade. Comer da árvore da Deusa, que
ficava em todos os altares, era tão perigosamente “pagão” quanto
Seus costumes sexuais e Suas serpentes oraculares.
Por isso, no mito da origem do mundo, na história que os levitas
ofereceram como explicação da criação de toda existência,
inseriram a figura da serpente conselheira e da mulher que aceitou
esse conselho, comungando da árvore que lhe deu o entendimento
do que “só os deuses sabiam”, o segredo do sexo: como criar vida.
Enquanto os defensores de Iavé destruíam os santuários da
deidade feminina onde quer que conseguissem, assassinando
quando não eram capazes de converter, o clero levita ia escrevendo
o conto da criação. Eles anunciaram que a supremacia masculina
não era uma ideia nova, mas que de fato fora divinamente
decretada pela deidade masculina na primeira aurora da existência.
A dominação do homem sobre a mulher – quando as hebreias se
viram sem os direitos de suas vizinhas, direitos que elas também
devem ter tido algum dia – não foi simplesmente acrescentada como
outra lei hebraica, mas escrita na Bíblia como um dos primeiros
grandes atos e proclamações do criador masculino. Com flagrante
desprezo pela história factual, esses líderes levitas anunciaram que
a mulher devia ser regida pelo homem, declarando que isso estava
de acordo com o decreto original de Iavé que, segundo essas novas
lendas, fora o primeiro a criar o mundo e as pessoas. O mito de
Adão e Eva, que explicava e justificava a dominação masculina,
informava tanto homens quanto mulheres que a propriedade e o
controle masculino sobre mulheres submissas e obedientes deviam
ser vistos como o estado divino e natural da espécie humana.
Os sacerdotes da deidade masculina, para alcançar sua posição,
foram forçados a convencer a si mesmos e a suas congregações de
que o sexo, a própria forma de procriar vida nova, era imoral, o
“pecado original”. Nessa tentativa de instituir um sistema de
parentesco masculino, o judaísmo, e depois o cristianismo, se
desenvolveram como religiões que consideravam o processo de
concepção vergonhoso ou pecaminoso. Eles elaboraram um código
de ideias filosóficas e teológicas que trazia inerente desconforto ou
culpa pelo fato em si de ser humano – um ser que, ao menos até o
momento, concebe nova vida por meio de relação sexual –, sendo
imoral ou não.
E nessa armadilha infeliz, desnaturada e desconfortável, criada
por eles mesmos, caiu a religião patriarcal. Até hoje lemos no Livro
de Oração Comum da Abadia de Westminster, para a Solenização
do Matrimônio: “Em segundo lugar, foi ordenado como remédio
contra o pecado e para evitar fornicação; que aquelas pessoas que
não têm o dom da continência deviam se casar e se manter como
membros não profanados do corpo de Cristo.” (Grifos meus.)
O quadro toma forma diante de nós, cada pedacinho se
encaixando no lugar. Sem virgindade para as solteiras e restrições
sexuais para as casadas, não poderiam existir a propriedade
masculina do nome e dos bens, nem o controle masculino do direito
divino ao trono. Passeando mais um pouco pelo Jardim do Éden,
onde a cobra oracular se enrolava na figueira-brava, logo
descobrimos que os diversos eventos no mito do Paraíso, um a um,
traem as intenções políticas dos que o inventaram.
Um relato levítico da criação – teologia ou política?
Olhemos mais de perto o conto da criação e a subsequente
perda do Paraíso como foi relatado pelos líderes hebreus e depois
adotado e apreciado pelos defensores do cristianismo. Quando
comparamos a história levítica da criação com relatos da religião da
Deusa, notamos em toda virada, em cada frase do mito bíblico,
como os princípios originais da religião foram atacados.
Stephen Langdon escreve: “Assim, sem dúvida alguma, a escola
nipuriana de teologia suméria considerava que o homem fora feito
do barro pela grande deusa mãe.” O professor Kramer conta que em
“uma placa listando os deuses sumérios, a deusa Namu, escrita
com o ideograma para ‘mar’, é descrita como ‘a mãe que deu à luz o
céu e a terra’”. Uma oração suméria diz o seguinte: “Ouçam Oh
regiões, o louvor à Rainha Nana, Magnifiquem a Criadora, exaltem a
dignificada, Exaltem a Gloriosa, cheguem para perto da Poderosa
Senhora.” Os egípcios escreveram: “No começo havia Ísis, a Mais
Antiga das Antigas. Ela foi a Deusa de quem todo o devir surgiu.”
Mesmo nos períodos babilônicos havia orações a Mami ou Aruru
como criadora da vida humana. Porém, os adoradores de Iavé,
talvez mil anos depois, afirmaram ter sido um homem que criou o
mundo. Foi a primeira reivindicação do parentesco masculino –
masculinidade era primordial.
Nas lendas da Suméria e da Babilônia, mulheres e homens
tinham sido criados simultaneamente, em pares – pela Deusa. Mas,
para a religião masculina, era de suma importância que o homem
fosse criado antes, e à imagem do criador – a segunda e a terceira
reivindicações dos direitos do parentesco masculino. Em seguida,
nos contam que a mulher foi formada a partir de uma parte bem
insignificante do homem, sua costela. Apesar de tudo que sabemos
sobre os fatos biológicos do nascimento, fatos que os levitas
certamente conheciam bem, fomos assegurados de que o homem
não vem da mulher, mas a mulher vem do homem. Podemos
relembrar a história dos indo-europeus gregos sobre Atena ter
nascido da cabeça de Zeus.
Qualquer reminiscência ou lembrança desagradável de se nascer
de uma mulher devia ser negada e alterada. Assim como no mito da
criação por meio de um ato de masturbação do Ptá egípcio, a Divina
Ancestral foi descrita fora da realidade. Somos então informados de
que a mulher feita dessa maneira foi dada de presente ao homem,
declarando e assegurando o status dela – entre os que aceitavam o
mito – como propriedade dele. Conta-se que ela foi dada para que
ele não ficasse sozinho, “uma ajudante adequada”. Portanto,
espera-se que entendamos que o único e divino propósito da
existência da mulher é para ajudar ou servir ao homem de algum
modo.
O casal assim caracterizado foi colocado no Jardim do Éden –
paraíso –, onde a deidade masculina os advertiu a não comerem
nenhum fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Para os
antigos hebreus, essa árvore provavelmente era entendida como
representante da figueira sagrada da Deusa, o familiar asherah, que
ficava ao lado dos altares dos templos da Deusa e Seu Baal. O
ramo sagrado que passava por todos no templo, como descrito por
Ezequiel, pode ter assumido a forma de comer o fruto em
“comunhão”. Nos textos egípcios, comer esse fruto era comer a
carne e o fluido da Deusa, a padroeira do prazer sexual e da
reprodução. Na história bíblica, o fruto proibido causou a
compreensão consciente do casal sobre a sexualidade. Ao
comerem o fruto, Adão e Eva constataram a natureza sexual de
seus corpos e “souberam que estavam nus”. Por isso, quando a
deidade masculina os achou, eles tinham modestamente coberto os
genitais com folhas de figueira.
Era de importância vital para a construção do mito levítico, no
entanto, que os dois não decidissem juntos comer o fruto proibido, o
que seria uma virada mais lógica da história, já que o fruto
simbolizava a consciência sexual. Não. Os sacerdotes escribas
deixaram excessivamente claro que a mulher, Eva, foi quem comeu
o fruto primeiro – seguindo o conselho da serpente.
Dificilmente foi acaso ou coincidência ter sido uma serpente a
oferecer o conselho a ela. As pessoas daquele tempo sabiam que a
serpente era o símbolo, talvez o instrumento, do conselho divino na
religião da Deusa. No mito do Paraíso, assim como nos mitos indo-
europeus com serpentes e dragões, a intenção era transformar a
serpente, familiar conselheira das mulheres, em fonte do mal,
dando-lhe um papel tão ameaçador e vil que quem ouvisse as
profetisas da deidade feminina estaria violando a religião da deidade
masculina de uma maneira perigosíssima.
O relacionamento entre a mulher e a serpente se mostra um fator
importante, pois o Velho Testamento relata que a deidade masculina
falou diretamente com a serpente, dizendo: “Eu vou pôr inimizade
entre você e a mulher e entre sua semente e a dela.” Desse modo,
as sacerdotisas oraculares, as profetisas cujos conselhos tinham
sido identificados com o simbolismo e uso da serpente por vários
milênios, passaram a ser vistas como responsáveis pela queda de
toda a espécie humana. A mulher, como consultora sagaz e sábia
conselheira, intérprete humana do divino desejo da Deusa, não era
mais respeitada, mas odiada, temida, ou na melhor das hipóteses,
contestada ou ignorada. Essa demanda pelo silêncio das mulheres,
especialmente nas igrejas, se reflete mais tarde nas passagens de
Paulo no Novo Testamento. Segundo a teologia judaica e cristã, o
juízo da mulher tinha levado ao desastre todo o futuro do ser
humano.
Nos foi dito que, sendo a primeira a comer o fruto, a mulher
ganhou consciência sexual antes que o homem, e ela logo o tentou
a compartilhar do fruto proibido, isto é, se juntar a ela em prazeres
sexuais pecaminosos. Essa imagem de Eva sexualmente tentadora
e sedutora, desafiando Deus, tinha a intenção de advertir todos os
homens hebreus para ficarem longe das mulheres sagradas dos
templos, pois caso sucumbissem às tentações delas,
simultaneamente estariam aceitando à deidade feminina – o fruto
Dela, Sua sexualidade e, talvez o mais importante, a subsequente
descendência matrilinear de qualquer criança concebida dessa
maneira. A advertência deve ter sido dirigida, talvez mais
incisivamente, também às hebreias, prevenindo-as para não
tomarem parte na antiga religião e seus costumes sexuais, como
parece que continuaram a fazer, apesar das repreensões e punições
infligidas pelos sacerdotes levitas.
O mito hebraico da criação culpou a fêmea da espécie pela
consciência sexual inicial com o objetivo de suprimir a adoração à
Rainha do Céu, a existência das mulheres sagradas e dos costumes
matrilineares, e, a partir daquele tempo, atribuiu às mulheres o papel
de tentadoras sexuais. A mulher foi elencada como quem desperta
com astúcia e falsidade os desejos físicos do homem, a que oferece
o fruto atraente, mas perigoso. Nas religiões masculinas, o impulso
sexual não poderia ser visto como desejo natural biológico de
mulheres e homens, que estimulava as espécies a se reproduzirem;
deveria ser visto como uma falha da mulher.
Não foi apenas a culpa por ter comido o fruto da sexualidade e
por tentar Adão a fazer o mesmo que recaiu pesadamente sobre as
mulheres, já que a suposta prova de admissão dessa culpa tornou-
se evidente na dor do parto, reservada às mulheres como eterno
castigo por ensinarem aos homens tais maus hábitos. Eva deveria
ser severamente punida, como decretou a deidade masculina:
“Multiplicarei grandemente o seu sofrimento na gravidez; com
sofrimento você dará à luz filhos. Seu desejo será para o seu
marido, e ele a dominará.”
Valendo-se da ocorrência natural de dores pela pressão de uma
criança humana passando do ventre ao mundo externo através de
um canal estreito, o escritor levita fingiu provar o poder onipotente
de sua deidade. Além de carregar a culpa pela consciência sexual,
segundo a deidade masculina, a dor de conceber filhos devia ser
encarada como punição, de modo que todas as mulheres dando à
luz seriam forçadas a se identificar com Eva.
Contudo, o mais significativo é o fato de que a história também
declara ser a vontade da deidade masculina que Eva dali em diante
desejaria somente seu marido, lembrando-nos com redundância de
que essa fábula inteira foi destinada e propagada para prover
sanção “divina” à supremacia masculina e ao sistema de parentesco
patrilinear, possível apenas com o conhecimento da paternidade.
Estamos talvez familiarizados demais com a parte final do
decreto, que anuncia que a partir de então, devido ao pecado dela e
em eterno pagamento pelo crime desafiador que cometera contra a
deidade masculina, o marido deve ser recompensado com o direito
divino de dominá-la, de “governar” sobre ela, para afirmar totalmente
sua autoridade. Culpada pelo que supostamente fizera no começo
dos tempos, como se confessasse seu mau juízo, esperava-se que
ela se submetesse com obediência. Neste ponto, podemos
considerar a realidade mais prática, já que a segurança econômica
das mulheres fora sabotada pela instituição do parentesco
masculino e elas foram forçadas à posição de aceitar aquele único
provedor masculino, o que “cantava de galo”.
Após a emissão de tais éditos, o casal foi expulso do Jardim do
Éden, o paraíso original onde a vida tinha sido tão fácil. Dali em
diante, precisariam trabalhar para viver, uma advertência gravíssima
para qualquer mulher que ainda pudesse ser tentada a desafiar o
Iavé levítico. Pois não tinha sido exatamente essa mulher, ouvindo
conselhos da serpente, comendo o fruto proibido, sugerindo que o
homem também o experimentasse e se unisse a ela na consciência
sexual, quem tinha algum dia causado a queda e infelicidade de
toda a humanidade?
CAPÍTULO 11
As filhas de Eva
Até os dias de hoje, os homens hebreus devem oferecer a
oração diária: “Bendito seja o Senhor nosso Deus, Rei do Universo,
que não me fez mulher.”
Maomé disse: “Quando Eva foi criada, Satanás regozijou.”
Depois que o mito da criação foi adotado pela literatura sagrada
da cristandade, junto com os escritos do Velho Testamento, os
autores e líderes religiosos seguidores de Cristo assumiram a
mesma postura de desdém pela figura feminina, continuando a usar
a religião para encerrar ainda mais as mulheres no papel de seres
passivos e inferiores, e assim controlar com maior facilidade a
propriedade dos homens. No correr dos anos, enquanto a posição e
o status das mulheres iam perdendo cada vez mais terreno, a Igreja
persistia em seu objetivo de criar e manter uma sociedade
dominada pelos homens. Pois este não havia sido um dos primeiros
decretos do deus que criou o mundo e toda a vida? As mulheres
deveriam ser vistas como criaturas irracionais, carnais, como era
justificado e “comprovado” pelo mito do Paraíso.
Na epístola de Paulo aos efésios, lemos: “Mulheres, sujeite-se
cada uma a seu marido, como ao Senhor, pois o marido é o cabeça
da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu
corpo, do qual ele é o Salvador. Assim como a igreja está sujeita a
Cristo, também as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus
maridos.” (Efésios 5:22-24).
Essa citação traz à mente a fala de Oseias, em que o marido se
identifica tão completamente com a deidade masculina que suas
palavras se tornaram as palavras do próprio Iavé. Na nova religião,
não apenas os sacerdotes, mas todos os homens, deveriam ser
considerados mensageiros diretos do Senhor, e não somente na
Igreja, mas também na privacidade da casa e da mulher, na cozinha
e até na cama.
Valendo-se do já difundido mito do Éden, Paulo afirma que essa
é a razão para a mulher ser obediente, negando a si mesma até a
faculdade de usar as cordas vocais, quanto mais a cabeça. Lemos
em I Timóteo 2:11,14: “A mulher deve aprender em silêncio, com
toda a sujeição. (...) E Adão não foi enganado, mas sim a mulher
que, tendo sido enganada, se tornou transgressora.”
E em Coríntios vem de novo a palavra da lenda da criação. A
“cabeça de todo homem é Cristo, a cabeça da mulher é o homem e
a cabeça de Cristo é Deus. (...) O homem não deve cobrir a cabeça,
visto que ele é imagem e glória de Deus; mas a mulher é glória do
homem (...) o homem não foi criado por causa da mulher, mas a
mulher por causa do homem.” (I Coríntios 11:3,7,9).
Afirmações cuidadosamente destinadas a suprimir a estrutura
social antiga são apresentadas continuamente no mito de Adão e
Eva como prova divina de que cabe ao homem manter autoridade
total. O status da deidade masculina era o status do homem mortal,
e decerto não é por acaso que os sacerdotes levitas de Iavé lutaram
tão duramente por sua posição. A intenção de Paulo foi tão clara ao
declarar que a masculinidade vem em primeiro lugar, que foi preciso
fechar os olhos à verdade biológica do nascimento: “o o homem não
criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem”. A
mulher aguenta a dor, e o homem leva o crédito.
Quando o apóstolo Pedro estava na Anatólia, onde a Deusa
ainda era reverenciada, condenou os “pagãos” pela “luxúria profana
da paixão”, muito como os profetas do Velho Testamento,
ridicularizando aqueles que “se deleitam durante o dia”. E se queixa
dos hereges que ainda seguiam Baalim. Pedro pontifica
solenemente: “Do mesmo modo, mulher, sujeite-se cada uma a seu
marido, a fim de que, se ele não obedece à palavra, seja ganho sem
palavras, pelo procedimento de sua mulher.” (I Pedro 3:1).
São Clemente, pai da Igreja Romana, negava às mulheres – em
nome do Senhor – os efeitos do prazer, da saúde e da força de
esportes físicos como lutar e correr, afirmando que estava mais de
acordo com a Bíblia que as atividades femininas fossem confinadas
a cardar, tecer e cozinhar.
São João Crisóstomo, professor cristão do século V, advertia: “A
mulher ensinou uma vez e estragou tudo. Por isso (...) não a deixem
ensinar.”
Santo Agostinho, na mesma época, dizia que o homem, e não a
mulher, foi feito à imagem e semelhança de Deus e a mulher,
portanto, não é completa sem o homem, enquanto ele já é completo.
A partir dessas ideias bíblicas, Martinho Lutero diz em seus
escritos que é muito natural para as mulheres estarem em posição
secundária aos homens. Em seu “Vindication of Married Life”, ele
escreve que os homens devem manter seu poder sobre as
mulheres, pois o homem é maior e melhor que a mulher, “pois a
regência e o domínio pertencem ao homem como cabeça e chefe da
casa”.
O reformista suíço do século XVI, João Calvino, também falou
contra a igualdade política das mulheres, declarando que seria um
“desvio da ordem original e correta da natureza”. Ele até falou a
favor da poligamia, sugerindo que ajudaria a evitar que as mulheres
ficassem solteiras e sem filhos.
Em 1527, em um tratado sobre o livre-arbítrio, o teólogo cristão
Hubmaier escreveu:
A razão pela qual a queda da alma é parcialmente reparável,
porém, e não fatal, mesmo aqui na terra – apesar de a queda da carne
ser até certo ponto irreparável e fatal –, é que, como Adão é uma
espécie de alma (como Eva é da carne) teria preferido não comer o
fruto da árvore proibida. Ele não foi enganado pela serpente, mas Eva
foi (I Timóteo 2:14). Adão sabia muito bem que as palavras da
serpente eram contrárias às palavras de Deus. No entanto, ele
consentiu em comer o fruto contra sua própria consciência a fim de
não aborrecer ou irritar sua costela, sua carne, Eva. Ele teria preferido
não comer o fruto.
A dra. Margaret Murray sugere, em vários de seus livros, que a
caça às bruxas no mundo ocidental era na verdade uma
continuação da supressão das antigas religiões “pagãs”. Já que as
mulheres eram o alvo e as vítimas principais desses brutais
massacres, e tantas acusações eram de algum modo ligadas a
sexo, esta é certamente uma possibilidade. A Deusa Danu, a Divina
Ancestral da Tuatha de Dannan da Irlanda, talvez relacionada com a
Deusa Diana dos romanos, Dione dos gregos e até com Danu da
Índia, pode ter sido a base da adoração rotulada como o culto das
bruxas. Sabemos que a adoração a Ísis era conhecida na Inglaterra
no período romano. Um templo de Ísis na margem do Tâmisa, em
Londres, e um altar a Ísis em Chester atestam a existência da
religião Dela nas Ilhas Britânicas naquela época.
Murray cita uma afirmação do século IX a respeito das bruxas em
que Diana é mencionada como líder. “Certas mulheres más,
voltadas para Satanás, e reduzidas por ilusões e fantasmas de
demônios, acreditam e professam que eles cavalgam à noite com
Diana em certos animais, com uma multidão inumerável de
mulheres, percorrendo imensas distâncias, obedecendo aos
comandos dela como sua senhora e invocados por ela em certas
noites.”
Em A Cauldron of Witches, Clifford Alderman relata que a história
de Eva era usada de novo, dessa vez para justificar o assassinato
de muitas mulheres que desafiaram a Igreja. Em um registro da
Igreja do século XVI: “A mulher é mais carnal que o homem: houve
um defeito na formação da primeira mulher, que foi formada de uma
costela curva. Ela é imperfeita e por isso sempre ludibria. A bruxaria
vem da concupiscência carnal. As mulheres têm de ser castas e
subservientes ao homem.”
Durante a violenta imposição das religiões masculinas, que
passaram a ter aceitação forçada, as mulheres foram finalmente
manejadas para um papel muito diferente do antigo status que
tinham nas terras onde reinava a Rainha do Céu. Mais alarmante
era a qualidade absoluta dos decretos creditados à deidade
masculina onipotente. No correr do tempo, o braço longo e poderoso
da Igreja a tudo alcançou e, com ele, vieram as inquestionáveis
atitudes “morais” e o papel subserviente e carregado de culpa
atribuído às mulheres.
Na própria estrutura das religiões masculinas contemporâneas
estão as leis e as atitudes originalmente designadas para aniquilar
as religiões femininas, a autonomia sexual feminina e a
descendência matrilinear. Esses são os preceitos que muitos de
nossos pais e avós aceitaram como a palavra sagrada e divina de
Deus, tornando-os uma parte tão inerente da vida em família que
hoje afetam até aqueles de nós que vivem afastados de missas e
sacramentos das religiões organizadas. É tempo de examinar e
questionar quão profundamente essas atitudes foram assimiladas
pelas mais seculares esferas da sociedade atual, permanecendo de
modo insistente como vestígios opressivos de uma cultura outrora
permeada e controlada pela palavra da Igreja.
Podemos nos perguntar até que ponto a supressão dos ritos
femininos foi na verdade a supressão dos direitos das mulheres.
O corajoso desafio dos séculos XVIII e XIX
O mito e a imagem de Eva penetraram fundo naquela parte das
mulheres em que os mais recônditos sentimentos e ideias ficam
guardados, a presença da história da primeira mulher no mito da
criação hebraica repisando o coração, a mente e o espírito de
mulheres ressentidas do mando dos homens, a despeito da palavra
divina da deidade masculina onipotente.
Muitas que ousaram falar que as mulheres eram oprimidas, e
sobre a flagrante desigualdade de sua posição na sociedade,
tiveram de combater diretamente a história bíblica da mulher que
deu ouvidos à serpente e assim iniciou a proclamação da lei
masculina. Nos séculos XVIII e XIX, o poder e a influência da Igreja
eram um obstáculo ainda maior do que hoje na busca pela
autonomia feminina. Entretanto, as pioneiras dessa batalha pela
igualdade das mulheres tiveram a coragem de falar contra esse
poder, desafiando a Igreja e seus ensinamentos. A reivindicação dos
direitos das mulheres era, em certo sentido, uma defesa da mulher
Eva.
Pensamentos e lembranças do injusto castigo de Eva ainda
pairavam simbolicamente sobre mulheres que tinham a audácia de
exigir direitos iguais. Nos escritos de Mary Wollstonecraft em 1792,
os personagens do Jardim do Éden mais uma vez se tornaram o
tema do debate. Em uma das primeiras tentativas de expor o
vergonhoso tratamento dado a metade das pessoas nesse mundo,
em seu Reivindicação dos Direitos da Mulheres, Wollstonecraft
escreve:
É provável que a opinião prevalente, de que a mulher foi criada
para o homem, possa ter surgido com a história poética de Moisés.
Como é de se supor que muito poucos tenham dedicado um
pensamento mais sério ao tema, jamais aceitando que Eva foi –
falando sério – uma costela de Adão, a dedução pode ser descartada,
ou somente ser admitida se provar que o homem, desde a mais
remota antiguidade, achou conveniente exercer sua força para
subjugar a companheira, e sua invenção para mostrar que ele devia
pôr o pescoço dela sob a cangalha de gado, porque ela era uma
criatura bruta que só existia para lhe dar prazer (...).
Arriscando-se bravamente a ser acusada de ateísmo, ou mesmo
de estar sob a influência “do diabo”, acusações ainda
potencialmente perigosas em 1792, Wollstonecraft declara
publicamente que, “embora o grito de irreligião, ou até de ateísmo,
seja erguido contra mim, declaro que se viesse um anjo do céu a me
dizer que a cosmogonia linda, poética, de Moisés, e a história da
queda do homem fossem literalmente verdadeiras, eu não poderia
acreditar no que minha razão diz ser depreciativo do caráter do Ser
Supremo; e, não tendo medo do demônio diante de meus olhos,
arrisco-me a chamar isso de uma sugestão da razão”.
Nesse mesmo livro, há sua análise crítica de Emílio, ou Da
Educação, que Jean Jacques Rousseau escreveu em 1761,
propondo a educação das crianças em uma “sociedade livre”. Essa
tese de Rousseau, junto com seu Contrato Social, exerceu uma
forte influência, tanto na independência norte-americana quanto na
Revolução Francesa. Com muitas passagens voltadas ao masculino
nos escritos de Rousseau, Wollstonecraft cita as regras prescritas
por ele para a educação religiosa das mulheres na utopia com a
qual ele sonhava.
Dado que a conduta das mulheres é subserviente à opinião
pública, sua fé em matéria de religião deveria, por essa mesma razão,
estar submetida à autoridade. Todas as filhas deveriam ter a mesma
religião da mãe, e toda esposa deveria ter a mesma religião do
marido: pois ainda que a religião seja falsa, essa docilidade que induz
mãe e filha a se submeterem à ordem da natureza exclui, aos olhos
de Deus, a criminalidade de seus erros (...) elas não têm capacidade
de julgar por si mesmas, precisam obedecer a decisão do pai ou do
marido com tanta confiança quanto na igreja.
Wollstonecraft comenta ainda: “Os direitos da humanidade têm
sido confinados à linha masculina desde Adão.”
Embora no tempo de Rousseau as revoluções americana e
francesa ainda não tivessem acontecido, esse homem que defendeu
tão ardentemente a liberdade e a independência, e cujas ideias
afetaram revolucionários nesses dois países, propôs
(presumivelmente em plena consciência) que as mulheres, mesmo
em uma “sociedade livre”, deveriam “estar sujeitas à autoridade” e
“obedecer às decisões do pai e do marido”, especialmente em
matéria de religião. A filha deveria seguir a religião da mãe, e a
crença religiosa da mãe deveria ser determinada pelo marido. Não
sendo uma família com uma longa linha de lares sem pai, uma
ocorrência muito inusitada, as mulheres, supostamente privadas da
“capacidade de julgar por si mesmas”, deveriam apenas seguir as
doutrinas teológicas dos homens. Na primeira linha, dramática, de
Contrato Social, Rousseau diz “O homem nasceu livre, mas está
sempre encarcerado”, um chamado de independência e liberdade
que ainda soa em nossos ouvidos, e talvez mais em 1976 (época da
primeira edição deste livro). No entanto, segundo esse mesmo
autor, as instituições e crenças religiosas que insistiam que a
dominação masculina sobre a mulher existia por ordem divina
(sendo a religião primariamente cristã na França e no Norte da
África) deveriam ser aceitas pelas mulheres sem questionamento.
Em 1838, 62 anos depois da revolução americana, outra ferrenha
batalhadora pelos direitos iguais das mulheres escreveu sobre a
mãe mitológica de todas as mulheres judias a cristãs, enquanto o
pecado e o castigo de Eva continuavam a explicar universalmente o
direito do homem a oprimir e subjugar a mulher. Sarah Grimke,
como se estivesse em um tribunal de leis universais, apresentou o
argumento de que, mesmo se o relato original fosse verdadeiro, as
mulheres já não teriam cumprido sua pena?
A mulher, eu sei, é acusada até os dias de hoje por ter trazido o
pecado ao mundo. Não contestarei essa acusação com outras
asserções contra, embora como se insinuou, a aquiescência imediata
de Adão à proposta da mulher não prova muito essa superioridade de
força mental da qual os homens se prevalecem. Mesmo admitindo que
o maior pecado foi de Eva, parece-me que o homem deveria estar
satisfeito com o domínio que reivindicou e exerceu durante seis mil
anos, e que maior nobreza seria manifestada ao se empenhar em
erguer os caídos e fortalecer os fracos do que manter as mulheres em
sujeição. Não peço favores por meu sexo. Não estou fazendo uma
solicitação de equidade. Tudo o que peço dos nossos confrades é que
não nos sufoquem.
Lucy Komisar, ex-vice-presidente da National Organization of
Women (NOW) nos Estados Unidos, em seu estudo informativo The
New Feminism, descreve esse primeiro período da luta das
mulheres para se libertar, e a oposição que encontraram. Ela conta
que as mulheres tomaram consciência de seus problemas com a
opressão quando tentaram falar a favor da abolição da escravatura,
e relata que essa tentativa feminina de participar da política
despertou a ira da Igreja, representante oficial da palavra da
deidade masculina:
Quando Sarah e Angelina Grimke percorreram a Nova Inglaterra
para falar contra a escravatura em 1836, o Conselho Congressional
de Ministros de Massachusetts emitiu uma declaração para atacá-las,
ressaltando que o “poder da mulher é sua dependência decorrente da
consciência dessa fraqueza que Deus lhe deu para sua própria
proteção (...) quando ela assume o lugar e o tom do homem como
reformista público, ela extrapola o poder que Deus lhe deu para sua
proteção, e seu caráter se torna não natural”.
Mas Grimke não tinha medo de brigar, mesmo naquele tempo em
que a Igreja mal tinha abandonado a prática de queimar mulheres
na fogueira por muito menos que isso. Enraivecida, ela retrucou
sobre a vantagem das religiões masculinas – para os homens – e as
desvantagens para as mulheres: “Quando determinaram que Iavé
colocou as mulheres em uma plataforma inferior à dos homens, é
claro que desejavam mantê-las lá, e daí por diante as nobres
faculdades de nossa mente foram esmagadas e nossos nobres
poderes de raciocínio foram totalmente descultivados.”
Várias mulheres abolicionistas planejavam comparecer a uma
conferência internacional em Londres para discutir o problema, e lá
chegando souberam que um grupo de clérigos americanos havia se
adiantado em partir para Londres a fim de avisar aos clérigos
ingleses que elas estavam vindo, e que até tinham a intenção de
falar. Seguiu-se um longo debate entre os homens sobre a
admissão de mulheres, e chegou-se à decisão de que elas
poderiam estar presentes, mas apenas sentadas em silêncio em
uma sala fechada por uma cortina.
Foi o impacto revoltante dessa decisão que terminou por fazer
acontecer a primeira conferência dos direitos da mulher em Seneca
Falls, em Nova York. Nesse encontro de 1848, foi redigida uma
Declaração de Independência das Mulheres, e elas voltaram a falar
contra a posição inferior em que a Igreja as havia colocado. Nessa
Declaração, cerca de quinze séculos após a eliminação da adoração
à Rainha do Céu e a suas sacerdotisas, foi escrito: “Ele [o homem]
permite a presença dela na Igreja, bem como o Estado, mas numa
posição subordinada, valendo-se da autoridade apostólica para a
exclusão dela do Ministério e, com algumas exceções, de qualquer
participação pública nos assuntos da Igreja. (...) Ele usurpou a
prerrogativa do próprio Jeová, tomando para si o direito de designar
para ela uma esfera de ação, quando esta pertence à consciência e
ao deus dela.”
Mas, assim como Oseias falara personificando o próprio Jeová,
muitos homens em 1848, fazendo uso da autoridade dessas
mesmas ideias, ainda se identificavam com a deidade masculina e,
por meio dessa autoridade, proclamaram e decretaram suas
decisões sobre as mulheres informando, com arrogância moral, o
que elas podiam e não podiam fazer. A Bíblia foi evocada inúmeras
vezes para “provar” que a posição delas estava fora de questão.
Em 1848, a feminista Emily Collins falou sobre um homem que
chicoteava a esposa, mãe de seus sete filhos, que trabalhava o dia
inteiro. Essa mulher não só cuidava dos filhos e do marido, mas
ordenhava as vacas, fiava, tecia e costurava para toda a família,
fazia a comida, limpava tudo, lavava e remendava as roupas de
todos. Segundo o marido, o crime dela era “repreender”, isto é,
reclamar; em outras palavras, ela falava o que pensava. E isso era
aceito como razão suficiente para um cristão espancar a esposa.
Collins perguntou, com amargura, raiva e sarcasmo: “E diga-me, por
que ele não deveria castigá-la? A lei deu a ele esse privilégio – e a
Bíblia, nessa interpretação, fez disso o dever dele. É verdade, a
mulher se queixava de tanta trabalheira, mas pensava-se que foi
determinado por decreto divino pois ‘o homem deve ter domínio
sobre ti’ e ‘Esposas, se submetam a seus maridos como se
submetem ao Senhor’ levou-as a considerar seu destino como
inevitável.”
A dominação masculina e o controle foram mais uma vez
justificados por essas palavras arcaicas. As primeiras feministas
foram arrojadas a ponto de compilar seus pensamentos em um livro
intitulado The Woman’s Bible, no qual Elizabeth Cady Stanton
escreve: “É de fato impressionante que dissessem aos jovens
hebreus que honrassem sua mãe quando todo o conjunto dos
ensinamentos até então tinha a finalidade de lançar desprezo sobre
todo o sexo. De que modo poderiam demonstrar respeito pela mãe?
Todas as leis e costumes os proibiam que fizessem isso.”
A religião, tal como a conheciam no ocidente no século XIX, era
masculina. Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, embora diferissem
sobre qual sacramento adotar, ou que dia era o verdadeiro Sabat,
tinham plena concordância em um ponto – o status das mulheres.
Elas precisavam ser vistas como criaturas inferiores, destinadas por
ordem divina a serem vasos silenciosos e obedientes para a
produção de filhos e para o prazer e conveniência dos homens.
Essas atitudes não só floresceram na Igreja, mas abriram caminho
pelos grandes portais para se instalarem de modo mais pessoal nos
pensamentos, sentimentos e valores de cada família judaica, cristã
e maometana.
Em The Victorian Woman, Duncan Crow relata algumas das leis
da época e seus efeitos sobre as mulheres. Ele diz que, até 1857, a
mulher não podia pedir o divórcio (exceto por um Ato do
Parlamento, geralmente reservado para a aristocracia). Que até
1881, o direito legal do marido de usar força física para impedir a
esposa de deixar a casa nunca fora questionado. E que até 1884 a
esposa podia ser presa por negar ao marido seus “direitos
conjugais”. Ele escreve que, com essas leis: “A religião cristã
também tinha uma força poderosa para proclamar e manter a
posição inferior das mulheres. Nessa herança judaica erigiu-se o
mito de que o lugar de subordinação da mulher era a punição pelo
pecado original de Eva. Eram adoradas as palavras de Paulo, de
que ‘o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por
causa do homem’.” Crow observa que durante o período vitoriano
não só era esperado que homens e mulheres fossem à igreja todos
os domingos, mas que ler a Bíblia em casa, organizar encontros de
oração, ouvir e ler sermões e a total observância do Sabat eram
atividades muito típicas em muitas casas, e acrescenta: “a
importância da religião dificilmente pode estar mais enfatizada”.
Em 1876, quando Annie Besant defendeu um panfleto sobre o
uso de contraceptivos, encontrou grande resistência por parte do
governo e da Igreja. Seu biógrafo, Arthur Nethercot, explica a
situação daquele momento: “Preventivos físicos em qualquer
ocasião eram considerados uma vontade contrária a de Deus;
pouca gente parecia ver alguma inconsistência em interferir no
curso da natureza ao curar ou se precaver contra doenças, ou
construir casas contra os elementos, mas se recusavam a interferir
no processo da procriação.” A corajosa Annie Besant também
escreveu sobre as leis relativas a custódia de filhos, sugerindo que
muitas das atitudes daqueles tempos não estavam longe das
atitudes dos hebreus “quando a mulher ainda era vista como um
objeto”. Em sua cruzada contra o poder da Igreja Cristã, tomando a
perspectiva do secularismo bem como do feminismo, ela deu muitas
palestras na Inglaterra e escreveu numerosos artigos e panfletos,
inclusive um intitulado “Woman’s Position According to the Bible”,
expondo-se a muitos antagonismos e ressentimentos, às vezes
expressos em ameaças de violência física.
Na coletânea de artigos e citações intitulada Voices From
Women’s Liberation, aparecem vários excertos de palestras e
escritos dos primeiros movimentos a favor das mulheres, muitos dos
quais são encontrados em um livro pouco conhecido chamado The
History of Woman Suffrage, publicado em 1881. Um excerto de uma
palestra dada em 1853 por uma mulher chamada Abby Foster diz
que a educação e a formação da mente dos jovens na época eram
profundamente influenciadas pela Igreja. Muito porque, ela afirma,
isso se faz através do poder que a Igreja detém sobre a mãe, pois
no fim das contas o que a criança recebe são seus ensinamentos e
suas atitudes. Ela observa: “Podem me dizer que é a mulher a
formadora da mente da criança, mas revido dizendo que é o ministro
religioso que forma a mente da mulher. É também ele que faz da
mãe o que ela é, portanto, os ensinamentos recebidos pela criança
são apenas uma transmissão das instruções do púlpito em segunda
mão.”
Não obstante as acusações, os homens da Igreja organizada não
tinham a intenção de reexaminar ou rever a posição humilde que
tinham atribuído às mulheres. Os religiosos continuavam a sustentar
que os homens, segundo a antiga palavra divina, eram destinados a
dominar as mulheres que, por sua natureza, eram espiritualmente
fracas e um pouco deficientes mentalmente. Assim foi que em 1860,
passados uns setenta anos de contínuas acusações contra a
posição da Igreja com relação às mulheres, Susan B. Anthony foi
motivada a comentar: “Pela lei, pelo sentimento público e pela
religião, desde os tempos de Moisés até os dias de hoje, a mulher
nunca foi ensinada a ser outra coisa além de um objeto de
propriedade, à disposição da vontade e do prazer do homem.”
Olhar para o passado para olhar para o futuro – o paraíso em
perspectiva
À medida que a luta pela obtenção de direitos iguais continuava a
ganhar força, a Igreja seguia exercendo seu poder e sua influência
com grande zelo, protegendo cuidadosamente o enaltecido e santo
conceito da supremacia masculina. A despeito da arrogância dos
comentários masculinos, que em geral eram pouco mais que
aparentes admissões de desconforto da classe dominante com
medo de ser deposta, escassamente revestidos de simples gracejo
ou humor, o antagonismo às vezes eclodia em feroz violência física
quando o humor não funcionava. Komisar explica que “o clero
estava frequentemente na vanguarda da luta contra o sufrágio,
desencavando citações da Bíblia a fim de provar que a obediência
da mulher era a ordem natural das coisas”.
Embora as mulheres tenham acabado por ganhar o direito de
voto – na verdade, apenas uma parte do conjunto de suas metas,
depois de uma vitória incrivelmente difícil –, elas ainda se
encontravam em uma sociedade controlada por homens, em que
tinham sido condicionadas a acreditar que o criador os havia feito
mais inteligentes que as mulheres. Elas agora estavam livres para
votar – em homens.
Aqueles que detinham o controle político geralmente falavam de
um só fôlego as palavras Estado e Deus. A voz da Igreja ainda era
poderosa, e séculos de violência em nome da religião, de cruzadas
fanáticas e terríveis, inquisições e caça às bruxas, pairavam em
ameaçadoras lembranças de quem ousasse desafiar a autoridade
da Igreja.
Medo e terror haviam inoculado os preceitos da religião
masculina em todos os aspectos da sociedade. E a instituição, que
havia com tanta persistência aniquilado a adoração à Rainha do
Céu, passara a oferecer em Seu lugar o papel de uma Eva culpada,
pecadora, sofrida, obediente. Pat Whiting, em The Body Politic, uma
recente coletânea de escritos do atual movimento de liberação das
mulheres na Grã-Bretanha, observa que “nossa cultura está
impregnada da mitologia dos antigos hebreus. O pecado original de
Eva ainda está conosco”. Barbara Cartland, em seu estudo das
mulheres na sociedade de hoje, se refere à mulher como “a Eva
eterna”. E o nome escolhido para uma revista inglesa relativa à
posição das mulheres na sociedade contemporânea foi, com um
sarcasmo humorístico, Spare Rib.1
Durante milhares de anos, a supremacia masculina foi sugerida,
declarada, provada, explicada, anunciada, proclamada, afirmada,
confirmada e reafirmada pela Bíblia e por aqueles que acreditam
nela como a palavra sagrada do criador.
Ainda recentemente, em 1965, Cartland comentou a construção
do ego, os efeitos inebriantes da história do Paraíso – para os
homens:
No conciso registro do livro do Gênesis, o homem tem grande
satisfação em aprender que ele é, de fato, como sempre pensou que
fosse, a mais esplêndida de todas as criaturas de Deus. (...) É
reconfortante mesmo, deixa o homem sem qualquer dúvida sobre a
posição exclusiva, solitária, de suprema perfeição que ele tem no
mundo. (...) Em mais de nove décimos do mundo, a base da história
do Gênesis, com a condenação da maldade da mulher, encontrou eco
no coração dos homens.
Simone de Beauvoir, em seu clássico estudo da opressão das
mulheres, O segundo sexo, aponta, com sensível sarcasmo, a
conveniência da religião de homens – para homens. Segundo
Beauvoir, “O homem aproveita a grande vantagem de ter um deus
endossando o que ele escreve; e como o homem exerce uma
autoridade soberana sobre as mulheres, é especialmente
afortunado que sua autoridade seja investida nele pelo Ser
Supremo. Para os judeus, maometanos e cristãos, entre outros, o
homem é senhor por direito divino, o temor de Deus reprimirá,
portanto, qualquer impulso de revolta na mulher oprimida”.
Eva Figes, em Patriarchal Attitudes, relata a não-tão-
surpreendente reação de um arcebispo inglês em 1968, que
comentou, com uma franqueza contundente, a ordenação de
mulheres no clero da Igreja Inglesa: “Se a igreja se escancarar para
as mulheres, será o prenúncio da morte da atração da Igreja para os
homens.”
Um bispo episcopal de São Francisco, diante da questão da
ordenação de mulheres na Igreja em 1971, deu a reposta com que o
livro começa: “A sexualidade de Cristo não é acidental, e nem sua
masculinidade é incidental. Esta é a escolha divina.”
Komisar listou uma série de eventos ocorridos recentemente,
desde que o movimento das mulheres ganhou impulso, eventos que
apresentam um questionamento sério das atitudes da Igreja com
relação às mulheres. A lista inclui relatos de irmãs católicas que
acusaram abertamente a Igreja de ser uma igreja de homens,
declarando que esta coloca as mulheres na mesma categoria de
crianças, que por sua vez são colocadas na mesma categoria de
imbecis.
A Igreja pode ter enfraquecido em seus efeitos sobre indivíduos e
comunidades, principalmente para quem vive em grandes cidades,
onde há menos vida em comunidade ou menor pressão da mesma
sobre o indivíduo. Contudo, dentro da Igreja a ênfase na supremacia
masculina continua a existir. Está escrita nos próprios cânones e na
literatura sagrada sobre os quais as religiões masculinas foram
erigidas. Como Eva Figes comenta tão apropriadamente: “A igreja
pode estar morrendo em pé, mas vai se agarrar até o fim na
exclusividade masculina, que foi sua própria raison d’être.”
Entretanto, a memória da antiga religião feminina – a Rainha do
Céu, as sacerdotisas, os costumes sexuais sagrados – ainda
permanece na lembrança de alguns homens que até hoje controlam
a Igreja. No The Times de 23 de maio de 1973, há um artigo com a
manchete “Sacerdotisas, uma virada para os credos pagãos”.
Novamente, a ordenação de mulheres na igreja controlada por
homens despertou a reação. Segundo os correspondentes de
assuntos religiosos do The Times:
Um aviso de que a admissão de mulheres no sacerdócio da Igreja
da Inglaterra seria uma virada sutil para as velhas religiões pagãs foi
dado pelo bispo de Exeter, o dr. Mortimer, à assembleia de ontem em
Canturbury.
Nas antigas religiões da natureza, declarou ele, as sacerdotisas
eram comuns – “e todos sabemos dos tipos de religiões que eram e
são”. A igreja se adaptou com muita frequência a mudanças de
condição no passado e teve que ser duplamente cuidadosa “em uma
cultura obcecada por sexo”.
Sejam quais forem as condições da Igreja neste ponto da
história, não podemos nos permitir ignorar ou descartar
levianamente o longo alcance dos efeitos que séculos de seu poder
têm sobre cada um de nós ainda hoje, não obstante quão
distanciados podemos estar do púlpito ou do altar. É rara a família
que pode rastrear além de duas ou três gerações sem descobrir que
seus antepassados viviam imersos em atitudes e valores de uma
das religiões de orientação masculina. E é por isso que as pressões
religiosas não estão assim tão distantes de nós quanto preferimos
acreditar.
Pois na própria estrutura da vida familiar, em famílias que
abraçaram ou abraçam as religiões masculinas, estão os quase
invisíveis costumes sociais aceitos e padrões que refletem a antiga
aderência severa às escrituras bíblicas. Atitudes de dupla moral na
virgindade pré-nupcial, dupla moral da fidelidade conjugal, a
autonomia sexual das mulheres, ilegitimidade, aborto, contracepção,
estupro, parto, a importância do casamento e de filhos para as
mulheres, as responsabilidades e o papel das mulheres no
casamento, mulheres como objeto sexual, a identificação sexual de
passividade e agressividade, os papéis das mulheres e dos homens
no trabalho e em situações sociais, mulheres que expressam suas
ideias, liderança feminina, as atividades intelectuais das mulheres,
as atividades econômicas e as necessidades econômicas das
mulheres e a suposição automática do homem como provedor e
protetor – tudo isso ficou tão profundamente entranhado que
sentimentos e valores concernentes a esses temas são vistos, tanto
por homens quanto por mulheres, como tendências naturais ou até
mesmo instinto humano.
Para muitas mulheres e homens contemporâneos, atitudes
bíblicas podem não ser mais justificadas como vitais ou absolutas
porque o Senhor decretou que assim sejam, mas séculos como
seguidores desses preceitos baseados na religião forneceram o
próximo argumento: as pessoas “sempre” os aceitaram como certos,
e, portanto, deve ser um modo de ser natural, normal.
O conhecimento das antigas religiões femininas, tantas vezes
revelando comportamentos e atitudes que eram a própria antítese
das supostas tendências humanas “naturais”, e que, como vimos,
foram na verdade a causa subjacente a tantas reações e atitudes
dessas religiões posteriores, é um conhecimento quase totalmente
esquecido ou mal compreendido. A censura acidental ou intencional
na educação em geral e na literatura popular negam a própria
realidade de sua importância, e até de sua existência.
Recentemente, ainda em 1971, uma mulher extremamente culta
e capacitada começou a escrever um livro sobre lutas políticas de
mulheres naquela época, e abordou em apenas três linhas a antiga
religião feminina. Ela escreveu que as religiões pagãs originalmente
adoravam mulheres, mas em uma era da qual sabemos muito
pouco, os deuses substituíram as deusas e a supremacia masculina
foi estabelecida na religião.
Outro livro recente sobre o status das mulheres na história
começa com a Grécia, e a introdução indica vagamente que o povo
de Creta era a única sociedade principal a preceder a Grécia, e que
quase nada se sabe de Creta ou de qualquer outra cultura antiga.
Uma professora de antropologia de uma famosa universidade
nos Estados Unidos afirmou para um grupo de mulheres, em uma
conferência de estudos da mulher em 1971, que todas as deusas
eram obesas, figuras nuas da fertilidade, desenvolvidas e adoradas
por homens.
Já é tempo de trazer à luz os fatos das antigas religiões
femininas. Elas estiveram escondidas por muito tempo. Conhecendo
esses fatos seremos capazes de entender os primórdios do
desenvolvimento do judaísmo, do cristianismo e do islamismo, suas
reações a religiões femininas e os costumes que precederam as
religiões masculinas. Conhecendo esses fatos seremos capazes de
entender como essas reações levaram a atitudes políticas e a
eventos históricos que ocorreram enquanto essas religiões de
orientação masculina se formavam – atitudes e eventos que tiveram
um papel tão importante na formulação da imagem das mulheres
durante e desde esses tempos. Conhecendo esses fatos seremos
capazes de sanear os séculos de confusões, mal-entendidos e
supressão de informações, e assim poderemos ter o ponto de
vantagem necessário para examinar a imagem, o status e os papéis
atribuídos ainda hoje às mulheres. Conhecendo esses fatos teremos
a perspectiva histórica e política que nos permitirá refutar ideias de
“papéis naturais ou divinamente ordenados”, abrindo finalmente
caminho para um reconhecimento mais realista das capacidades e
do potencial de crianças e adultos, sejam homens ou mulheres,
como seres humanos individualizados. Quando as fontes antigas da
atual estereotipia de gêneros forem melhor compreendidas, o mito
do Jardim do Éden não poderá mais nos assombrar.
Matar um consorte desafiador já não é a reposta, como silenciar
e debilitar economicamente a mulher tem sido. Talvez, quando a
mulher e o homem comerem a maçã – ou o figo – ao mesmo tempo,
aprenderem a considerar com respeito as ideias e opiniões um do
outro, e virem o mundo e suas riquezas como um lugar que
pertence a cada ser vivo, possamos começar a dizer que somos
uma espécie verdadeiramente civilizada.
QUADRO DE DATAS
É importante lembrar que essas datas são revisadas
continuamente à medida que novas evidências são descobertas, e
que mesmo com as evidências atuais os arqueólogos divergem com
relação a elas. As datas são apresentadas aqui para dar uma ideia
geral dos vários períodos em cada local, e devem ser entendidas
como aproximadas e não definitivas.
GRAVETIANO – AURIGNACIANO
(Sítios do Paleolítico Superior)
25000-15000 a.C.
CANAÃ
Baixa Idade do Bronze: 3000-2000 a.C.
Média Idade do Bronze: 2000-1600 a.C.
Alta Idade do Bronze: 1600-1200 a.C.
Baixa Idade do Ferro I: 1200-900 a.C.
Baixa Idade do Ferro II: 900-600 a.C.
Baixa Idade do Ferro III: 600-300 a.C.
Figuras Bíblicas em Canaã
Abraão: alguma época entre 1800-1550 a.C.
Moisés e Aarão: 1300-1250 a.C.
Saul: 1020-1000 a.C. (Samuel um pouco antes)
Davi: 1000-960 a.C.
Salomão: 960-922 a.C.
Oséias: 735 a.C.
Ezequiel: 620 a.C.
Jeremias: 600 a.C.
JUDÁ (capital, Jerusalém)
Roboão: 922-915 a.C.
Abijão: 915-913 a.C.
Asa: 913-873 a.C.
Josafá: 873-849 a.C.
Jorão: 849-842 a.C.
Ocozias: 842 a.C.
Atália: 842-837 a.C.
Ezequias: 715-687 a.C.
Queda de Jerusalém: 586 a.C. (conquistada primeiro pela
Babilônia, e depois por Ciro da Pérsia [Irã])
ISRAEL (capital, Samaria)
Jeroboão: 922-901 a.C.
Zimri: 876 a.C.
Omri: 876-869 a.C.
Jezebel e Acabe: 869-850 a.C.
Ocozias: 850-849 a.C.
Jorão: 849-842 a.C.
Jeú: 842-815 a.C.
De Joacaz a Oséias: 815-724 a.C.
Queda de Samaria: 722 a.C. (conquistada por Sargão da Assíria)
MESOPOTÂMIA
Jarmo: 6800 a.C.
Período de Hassuna: 5500 a.C.
Período de Halafe: 5000 a.C.
Período de Ubaid: 4000-3500 a.C.
Período de Uruque: 3500-3200 a.C.
Período de Jemdet Nasr: 3200-2850 a.C.
Período da Primeira Dinastia na Suméria: 2850-2400 a.C.
Dinastia de Acádia (Sargão): 2370-2320 a.C.
Invasão Guti: 2250-2100 a.C.
III Dinastia de Ur (incluindo Ur Namu, Shulgi, Bur Sin, Shu Sin,
Ibbi Sin): 2060-1950 a.C.
Dinastia Isim da Suméria: 2000-1800 a.C.
Dinastia Larsa da Suméria: 2000-1800 a.C.
I Dinastia da Babilônia: 1830-1600 a.C. (sob o domínio cassita
em 1600 a.C.)
Hamurabi: 1792-1750 a.C.
Babilônia: 1830-540 a.C.
Assíria: 1900-600 a.C. (sob o domínio hurrita de 1500-1300 a.C.)
EGITO
Neolítico (Badariano, Amratiano, Gerzeano): 4000-3000 a.C.
I-V Dinastias: 2900-2300 a.C.
VI-X Dinastias: 2300-2000 a.C.
XI-XVI Dinastias: 2000-1600 a.C.
XVII Dinastia: 1600-1570 a.C. (Camés)
XVIII Dinastia: 1570-1304 a.C. (Amósis, Amenófis I, Tutemés I,
Tutemés II, Tutemés III, Hatexepsute, Amenófis II, Tutemés
IV, Amenófis III, Amenófis IV (Aquenáton), Semenkhere,
Tutancâmon, Aí, Horemebe)
XIX Dinastia: 1304-1200 a.C. (Ramsés I, Seti I, Ramsés II,
Merneptá)
XX Dinastia: 1200-1065 a.C. (Ramsés III, Ramsés IV, Ramsés
XI)
XXII Dinastia: 935-769 a.C.
XXIII-XXVII Dinastias: 760-525 a.C.
XXVIII-XXX Dinastias: 431-404 a.C.
ANATÓLIA (Turquia)
Çatal Hüyük: 6500-5000 a.C.
Hacilar: 6000-5000 a.C.
Baixa Idade do Bronze: 3000-2000 a.C. (Alaca Hüyük: 2500-2300
a.C.)
Média Idade do Bronze: 2000-1700 a.C.
Alta Idade do Bronze: 1700-1200 a.C.
Os Reis Hititas na Anatólia
Pitana e Anita de Cussara: começo do século XX a.C.
Labarnas: 1700 a.C.
Hatusil I: 1650 a.C.
Mursil I: 1620 a.C.
Shuppiliuma: 1375-1306 a.C.
CRETA
Idade Neolítica: 5000-3000 a.C.
Baixo Minoico: 2900-2000 a.C.
Médio Minoico: 2000-1500 a.C.
Alto Minoico: 1500-1350 a.C.
Micênico: 1350-1100 a.C.
Dórios invadem Creta: 1100 a.C.
550-525 a.C.: Iranianos (persas) liderados por Ciro conquistam a
maioria da Mesopotâmia, Anatólia, Canaã, Norte do Egito e
Noroeste da Grécia.
Por volta de 330 a.C.: os gregos (liderados por Alexandre) tinham
conquistado a maioria dos territórios que estavam sob o domínio
persa.
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Homero
Luciano
Pausânias
Plutarco
Filóstrato
Sófocles
Estrabão
ÍNDICE REMISSIVO
Aarão
Abijam, Rei de Judá
Aborto
Abraão
Abramova, Z. A.,
Acabe, Rei de Israel
Acadianos, linguagem
Acaz, Rei de Judá,
Adão e Eva, mito
Adath (Deusa),
Adivinhação oracular
Adônis (deus)
Adoração ancestral,
Adultério
Afrodite (Deusa),
Agostinho, Santo,
Agricultura
Ahhiyawa, povo,
Ahura Mazda (deus)
AI Lat (Deusa),
AI Uzza (Deusa),
Ai, batalha de,
Alalu, Rei da Suméria
Albright, W. F.
Alcorão,
Alderman, Clifford,
Alemanha nazista,
Alexiou, Styliano
Alta Idade do Bronze,
Amazonas
Amiratiana, cultura,
Amonita, povo,
Anahita (Deusa)
Anaitis (Deusa),
Anat (Deusa),
Anate (Deusa)
Anati, E.,
Anatólia
invasões indo-europeias,
filho/amante, lenda,
sacerdotes eunucos,
Antália, Anatólia,
Anthes, Rudolf
Anthony, Susan B.,
Anu (deus),
Apolo (deus)
Apuleio,
Aquenáton, Rei do Egito,
Aqueus
Arábia, Saudita,
Ararat. Ver Urartu
Arianos. Ver Indo-europeus
Arinna, Deusa do Sol
Armamento,
Arpachiyah, Assíria
Artêmis (Deusa)
Aruru (Deusa)
Árvore, simbolismo,
Asante, povo,
Aserá ou Asherah (Deusa)
Asherim
Ashtart (Deusa),
Ashur (deus)
Ásia Menor. Ver Anatólia
Assíria,
Astarote (Deusa
Astarte (Deusa)
Astarte, placas
Atália, Rainha de Judá
Ate (Deusa),
Atena (Deusa)
Athar (Deusa),
Átis (deus)
Attar (Deusa),
Attoret (Deusa)
Au Sar (deus),
Au Set (Deusa)
Austrália
Avestá
Avodah Zarah,
Baal (deus)
Baalat (Deusa)
Babilônia
costumes sexuais sagrados
criação, mito,
filho/amante, lenda
invasões indo-europeias
profecia oracular,
reinado, origens,
serpente, simbolismo
Bachofen, Johann,
Badariana, cultura,
Barcos,
Baron, S. W.,
Batalhas com machados, culturas,
Beauvoir, Simone de,
Besant, Annie,
Bete-Semes, Canaã,
Bhagavad Gita,
Biblos, Fenícia
Bigas
Body Politic, The (Whiting),
Boscawen, W.,
Brahma (deus),
Brâmanes,
Brandon, S. G. F.
Braquicéfalo (Alpino), povo,
Briffault, Robert
Brigit (Deusa),
Brown, Norman
Bruxas, culto das,
Budge, E. Wallis,
Buto, Egito,
Butterworth, E.,
Cabala,
Calcolítico, período
Calvino, João,
Campbell, Joseph
Canaã
antagonismo de levitas à deidade feminina
costumes sexuais sagrados
invasão de hebreus,
invasões indo-europeias
migrações de filisteus,
serpente, simbolismo,
Canais, irrigação
Cária
Cartago, costumes sexuais sagrados
Cartland, Barbara,
Casamento sagrado. Ver Filho/amante, simbolismo
Casamento. Ver também Fidelidade conjugal
Casas
Cassandra de Troia
Cassitas, povo
Castas,
Castração,
Çatal Hüyük, Anatólia,
Celtas,
Cerridwen (Deusa),
Chiera, Edward
Chipre
costumes sexuais sagrados,
serpente, simbolismo
Cibele (Deusa)
Circuncisão,
Clemente, São,
Cleópatra, Rainha do Egito,
Cles-Reden, Sybelle von,
Cobra, Deusa
Cobra, veneno,
Cobras, tubo de
Cobras. Ver Serpente, mitos
Collins, Emily,
Collins, Sheila
Concepção
Consorte masculino. Ver Filho/amante, simbolismo
Constantino, Imperador,
Contraceptivos,
Contrato Social, O (Rousseau),
Costumes sexuais sagrados
Cottrell, Leonard
Creta
árvore, símbolo,
filho/amante, lenda,
serpente, simbolismo,
Criação, mito
Cronos (deus),
Crossland, R. A.,
Crow, Duncan,
Damuzi (deus)
Danu (Deusa)
Dawson, C.,
Declaração de Independência das Mulheres (1848),
Delfos (santuário)
Deméter (Deusa),
Devi (Deusa),
Diana (Deusa)
Dilúvio, lenda do
Dinamarca,
Diodoro da Sicília (Diodoro Sículo),
Dionísio (deus),
Divórcio
Dodona (santuário),
Dórios, povo,
Dragão, mito
Dravidianos, povo
Dresden, M. J.,
Dyaus Pitar,
Éfeso, Jônia,
Efron, o Hitita,
Egito
árvore, símbolo,
criação, mito
hebreus,
hititas, conflitos,
invasão indo-europeia,
Mesopotâmia, influência,
reinado, origens
serpente, simbolismo,
tumbas,
El (deus),
Elam
Elat (Deusa)
Elêusis (santuário),
Elias,
Emery, Walter
Emile (Rousseau),
Enki (deus)
Enkidu
Enlil (deus),
Enmerkar, Rei da Suméria,
Ensi,
Enuma Elish,
Epstein, I.
Ereshkigal (Deusa),
Eridu, Suméria
Ertebølle, povo,
Esaú
Escravatura,
Escrita
Esculturas
Eshnunna, Suméria,
Esparta,
Ésquilo,
Estatuetas
Estrabão
Estupro
Etiópia,
Eunucos, sacerdotes,
Eurípides,
Eva
Evans, Arthur
Ezequias, Rei de Judá
Ezequiel
Farnell, L. R.
Feminismo,
Ferramentas,
Ferro,
Fidelidade conjugal
Figos, Eva,
Figueira
Filho/amante, simbolismo
Filhos, criação em comunidade,
Filisteus, povo
Filóstrato,
Foster, Abby,
Frankfort, Henri
Frazer, Sir James
Frobenius, L.,
Fruto proibido
Gaia (Deusa)
Gayô Mareta (deus),
Geb (deus),
Gezer, Canaã,
Gideão,
Gilgamesh, épico
Glotz, Gustave,
Gomer (esposa de Oseias)
Gordon, Cyrus
Graves, Robert
Gravetianos-aurignacianos, culturas
Gray, John,
Grécia
árvore, símbolo,
costumes sexuais sagrados
filho/amante, lenda,
profecia oracular
serpente, simbolismo,
Grimke, Angelina,
Grimke, Sarah,
Guerreiras
Gurney, O. R.
Gütterbock, Hans,
Haast, William,
Hacilar, Anatólia
Halafiana, cultura
Hamurabi
HannaHanna (Deusa),
Harã, Mesopotâmia
Haréns,
Harris, Rikvah,
Harrison, R. K.
Hartland, Edward,
Hassuna, período,
Hastings, J.
Hat-Hor (Deusa),
Hathor ou Hator (Deusa)
Hati, Anatólia
Hatita, povo,
Hatusas, reino hitita
Hawkes, Jacquetta
Hazor, Canaã,
Hebreus,
atitude antissexual,
circuncisão,
Egito,
filho/amante, lenda,
indo-europeus, conexão,
invasão de Canaã,
Ver também Levitas
Hepat (Deusa),
Hera (Deusa)
Heráclides Pôntico,
Herança
Heródoto
Hicsos,
Hilquias (sacerdote levita),
Hinduísmo,
Hinz, Walther
History of Woman Suffrage, The,
Hititas
Hieróglifos
Linguagem,
povo
Hitler, Adolf,
Homero,
Hood, Sinclair,
Hooke, S. H.
Hor (deus)
Hor, tribos
Horitas. Ver Hurrita, povo
Hórus (deus)
Hor-Wer (deus),
Hrozny, B.,
Hurrita, povo
Hutchinson, R. W.
Iavé
Ilegitimidade. Ver Paternidade
Inanna (Deusa)
Inara (Deusa),
Índia
Indígenas norte-americanos
Indo-europeus
Anatólia
Babilônia
Canaã
Egito,
Hebreus, conexão,
Índia,
Irã
Suméria,
Indonésia,
Indra (deus)
Infidelidade. Ver Fidelidade conjugal
Ininni (Deusa),
Innin (Deusa),
Invasores do norte. Ver Indo-europeus
Irã
Iraque
Isaac,
Isaías
Ishara (Deusa),
Ishtar (Deusa)
Isis (Deusa)
Israel
Istar (Deusa),
Itália,
Jacó,
Jacobsen, Thorkild,
James, E. O.
Jardim do Éden. Ver Adão e Eva, mito
Jarmo, Iraque,
Jeh,
Jemdet Nasr, período
Jeová. Ver Iavé
Jeremias,
Jericó
Jeroboão, Rei de Israel,
Jerusalém
Jeú (herói hebreu),
Jezebel, Rainha
João Crisóstomo, São,
José,
Josué
Judá,
Júpiter (deus),
Justiniano, Imperador,
Keller, Werner
Kenyon, Kathleen,
Khasis de Assam,
Kish, Suméria,
Kition, Chipre,
Klein, V.,
Knossos, Palácio
Komisar, Lucy
Kramer, S. N.
Kumarbi (deus),
Kunda, cultura
Kupapa (Deusa),
Kurgan, cultura, 88n
Kursh, H.,
Ladão (serpente)
Lago Baikal, Sibéria,
Landes, G.,
Langdon, Stephen
Lelwanis (Deusa),
Leto (Deusa),
Levi
Leviatã (serpente)
Levirato, casamento,
Levitas,
antagonismo à religião da Deusa
leis para mulheres
paraíso, mito
Líbia,
Lícia
Lídia,
Lilith
Linear B, placas,
Linguagem
Lipit-Ishtar, Rei da Suméria,
Livro da Guerra dos Filhos da Luz Contra os Filhos da Escuridão, O,
Lloyd, Seton
Luciano
Lugal Banda
Luther, Martin,
Luvianos, povo
Luz e escuridão, dualidade
Maaca, Rainha,
Maat (Deusa)
Macalister, R. A. S.,
Maglemosiano, povo
Mallowan, M. E. L.,
Malta,
Mami (Deusa)
Manassés, Rei de Judá,
Maniqueístas, textos,
Manuscritos do Mar Morto
Maomé,
Marduque (deus)
Maringer, Johannes
Marshall, Sir John,
Matriarcado,
Matrilinearidade
Mawu (Deusa),
Mead, Margaret,
Melampo,
Melanésia,
Mellaart, James
Mendenhall, George,
Mesolítico, cultura
Mesopotâmia
Meyer, E.,
Micênios, povo,
Micronésia,
Midianitas, povo,
Minoica, civilização
Mitani (reino)
Mitra (deus)
Moisés
Monoteísmo,
Montanhas, simbolismo
Monte Ararat
Monte Etna,
Monte Horebe,
Monte Kilauea,
Monte Olimpo,
Monte Saphon,
Monte Sinai,
Monte Suphan
Moortgat, A.,
Mot,
Murray, Margaret
Mursil II, Rei dos hititas,
Musa Dag, Síria,
Mylonas, George,
Naditu, mulheres,
Nakia, Rainha da Babilônia,
Namu (Deusa)
Nanshe de Lagash (Deusa),
Narmer (Menes), Rei do Egito,
Naum
Nefertiti, Rainha do Egito,
Neite (Deusa),
Nekhebt (Deusa),
Neolítico, período
Nesa, reino hitita,
Nesianos, povo,
Nethercot, Arthur,
New Feminism, The (Komisar),
Nicolau de Damasco
Nidaba (Deusa)
Nikkal (Deusa),
Nina (Deusa),
Ningal (Deusa),
Ninhursag (Deusa)
Nínive, Assíria,
Ninlil (Deusa)
Ninmah (Deusa),
Ninsikil (Deusa),
Nippur, Suméria,
Noé
Núbio, povo,
Nut (Deusa)
Nuzi (assentamento hurrita)
Oferendas queimadas. Ver Sacrifício, fogo
Ogue, Rei de Bashan,
Olímpia (santuário),
Onfalo, Rainha,
Oppenheim, A. Leo,
Ordenação de mulheres,
Oseias
Osíris (deus)
Pahlavi, textos
Palau, Ilhas,
Paleolítico Superior, período
Paraíso, mito. Ver Adão e Eva, mito
Parentesco materno. Ver Matrilinearidade
Parto
Paternidade
Patriarchal Attitudes (Figes),
Patrício, São
Paulo (apóstolo)
Pausânias,
Pedro (apóstolo),
Pelasgos, povo,
Petrie, Sir William Flinders
Pirâmide, textos da Quinta Dinastia
Píton (serpente)
Plutarco,
Poliandria
Politeísmo,
Povos do Mar
Prajapati (Dyaus Pitar),
Pritchard, J. B.
Profecia
Propriedade
Ptah (deus),
Qadishtu
Qumran, manuscritos. Ver Manuscritos do Mar Morto
Ra (deus)
Rama,
Rea (Deusa)
Regicida, ritual
Revolução Francesa,
Rigueveda,
Robinson, T. H.,
Roboão, Rei de Judá,
Roma, Cibele, rituais
Rose, H. J.,
Rousseau, Jean Jacques,
Sabá, Rainha de,
Sacrifício:
Fogo
Rei,
Saggs, H. W. F.
Salomão, Rei
Samaria
Samuel,
Sara (esposa de Abraão)
Sarasvati (Deusa),
Sardenha,
Sargão da Acádia,
Saul, Rei de Israel
Schaeffer, Claude,
Schmidt, W.,
Scholem, G.,
Segundo sexo, O (de Beauvoir),
Seltman, Charles
Semitas,
Serabit el Khadim (santuário),
Serpente, mitos
Set (deus),
Shala (Deusa),
Shechem, Canaã,
Shemsu Hor
Shilluk, grupos,
Shu (deus),
Shushan, Canaã,
Sibilas,
Sibtu, Rainha da Babilônia,
Sicília
Sicômoro,
Síria
Smith, Marshall,
Smith, Robertson
Smith, Sidney
Sófocles,
Sormani, Giuseppi
Sozomenos,
Stanton, Elizabeth Cady,
Sufrágio,
Suméria,
costumes sexuais sagrados
criação, mito,
filho/amante, lenda
invasões indo-europeias,
linguagem
reinado, origens,
sacerdotes eunucos,
serpente, simbolismo
Sybella (Deusa),
Talmude,
Tammuz (deus)
Tanach, Canaã,
Tarcão (deus),
Tarhund (deus),
Taru (deus)
Taylor, G. R.,
Tell Beit Mersim, Canaã,
Tell Brak (assentamento hurrita),
Teodósio, Imperador,
Teshub (deus),
Tholoi,
Thor (deus),
Thor-El (deus)
Tí, Rainha do Egito,
Tiamat (Deusa)
Tifão (serpente)
Troia, Guerra,
Tuatha de Danaan (povo),
Ua Zit (Deusa)
Ubaida, povo,
Ugarit, Canaã
Ullikummi (deus),
Ur Namu, Rei da Suméria,
Ur, Suméria
Urano (deus)
Urartu (reino),
Urkish (assentamento hurrita)
Urukagina, reforma
Uruque Nível V, período,
Uruque, Suméria
Ussishkin, D.,
Utu (Deusa),
Vaerting, M. e M.
Varuna (deus)
Vaux, Roland de
Vedas,
Velho Testamento
Vênus, estatuetas
Vestonice, República Tcheca,
Victorian Woman, The (Crow),
Virgindade pré-nupcial
Viuvez
Voices From Women’s Liberation,
Von Rad, Gerhard,
Vritra (deus)
Vulcões
Whiting, Pat,
Widengren, George
Witt, R. E,
Wollstonecraft, Mary,
Woman’s Bible, The (Stanton),
Woman’s Position According to the Bible (Besant),
Wurusemu (Deusa),
Yadin, Yigael,
Zet (serpente)
Zeus (deus)
Zoroastrianos,
AGRADECIMENTOS
Meus agradecimentos pela autorização para usar os seguintes
materiais:
De They Wrote on Clay, de Edward Chiera: Reimpresso com
permissão da University of Chicago Press (1938), pela University of
Chicago (1966). Todos os direitos reservados.
De Ancient Israel, de Roland de Vaux: Copyright 1965 de Roland
de Vaux. Utilizado com permissão de McGraw-Hill Book Company e
Darton, Longman & Todd Ltd.
De Arcaic Egypt, de W. B. Emery: Copyright 1961 de Walter B.
Emery. Utilizado com permissão de Penguin Books Ltd.
De The Greek Miths, de Robert Graves: Reimpresso com
permissão de Curtis Brown Ltd. Copyright 1955 de Robert Graves.
De The Hittites, de O. R. Gurney (2ª edição, 1954): Copyright de
O. R. Gurney 1952, 1954. Utilizado com permissão de Penguin
Books Ltd.
De The Greatness That Was Babylon, de H. W. F. Saggs:
Utilizado com permissão de Praeger Publishers Inc.
SOBRE A AUTORA
Merlin Stone nasceu em Nova York, em 1931, e formou-se em
Arte na Universidade de Buffalo em 1958, quando surgiu seu
interesse por arqueologia e religiões da Antiguidade. Trabalhou
como escultora e professora até 1967 e lecionou no programa de
extensão da Universidade de Berkeley entre 1968 e 1972, onde se
dedicou à pesquisa de culturas antigas.
Depois de quase uma década de estudos, lançou este livro em
1976, no Reino Unido, com o título The Paradise Papers,
renomeado nos Estados Unidos como When God Was a Woman. A
partir de então, Stone se tornou uma das principais pensadoras da
teologia feminina. Seu livro impactou profundamente o movimento
feminista e as concepções sobre a deidade feminina, sendo uma
das fontes para o documentário canadense Goddess Remembered,
de 1989. Também escreveu Ancient Mirrors of Womanhood, outra
obra de peso que reúne histórias, mitologias e orações envolvendo
figuras femininas de várias religiões antigas no mundo todo.
É autora de inúmeros contos, resenhas de livros e ensaios,
incluindo 3,000 Years of Racism. Suas hipóteses – radicais, para
alguns – desafiam muitas das teses aceitas e divulgadas sobre a
Antiguidade. Stone faleceu em 2011 na Flórida.
NOTAS
Capítulo 2
1 A expressão homo sapiens (literalmente, “homem que sabe ou
sábio”) ilustra mais uma vez a suposição acadêmica da
importância primordial do homem, neste caso para indicar a
negação total da população feminina na definição da espécie. Se
todo “homo sapiens” fosse literalmente apenas isso, logo que a
espécie se desenvolvesse morreria pela falta de capacidade de
reproduzir a si mesma.
Capítulo 3
1 “Minoica” é o nome dado à cultura nativa de Creta (pré-micênica)
por seu escavador, Sir Arthur Evans, e se baseia em um relato
clássico grego sobre o rei Minos de Creta que, segundo parece,
deve ter realmente vivido no período micênico.
Capítulo 4
1 Algumas autoridades no assunto associam os povos falantes indo-
europeus aos povos da cultura neolítica curgã da Rússia, que
viveram ao norte do Mar Negro e do Cáucaso. Houve sugestões
de que mais tarde o povo curgã dominou os povos da Europa
neolítica e um escritor chegou a especular que foram eles a
introduzir a linguagem indo-europeia nos povos europeus da
época. (Como não temos evidências da língua do povo curgã na
Rússia nem do povo europeu na época, por enquanto a teoria
permanece especulativa.)
2 Os maglemosianos, que parecem ter sido excepcionalmente
interessados em mobilidade e meios de transporte, também
desenvolveram esquis e trenós.
3 A lista de reis sumérios menciona uma grande enchente,
afirmando que depois dela o reinado desceu dos céus pela
segunda vez, agora em Quis.
Capítulo 5
1 Uma dessas, hoje conhecida como monte Haçane, tem dois picos
vulcânicos, o que talvez explique por que o deus da tempestade
e o rei hitita são frequentemente representados de pé sobre uma
montanha de dois picos, com um pé em cada pico.
Capítulo 9
1 Tradução literal do original: “four hundred prophets of the goddess
Asherah, who are Jezebel’s pensioners”. [N. de E.]
Capítulo 11
1 Spare Rib, ou seja, Costela Sobressalente. [N. de T.]
QUANDO DEUS ERA MULHER
TÍTULO ORIGINAL:
When God Was a Woman
COPIDESQUE:
Marina Góes
REVISÃO:
Juliana Pitanga
Thaís Carvas
COORDENAÇÃO:
Anna Beatriz Seilhe
CAPA:
Giovanna Cianelli
PROJETO GRÁFICO:
Giovanna Cianelli
DIAGRAMAÇÃO:
Desenho Editorial
DIAGRAMAÇÃO DE E-BOOK E REVISÃO DA VERSÃO ELETRÔNICA:
Calil Mello Serviços Editoriais
DIREÇÃO EXECUTIVA:
Betty Fromer
DIREÇÃO EDITORIAL:
Adriano Fromer Piazzi
EDITORIAL:
Daniel Lameira
Tiago Lyra
Andréa Bergamaschi
Débora Dutra Vieira
Luiza Araujo
Juliana Brandt
COMUNICAÇÃO:
Júlia Forbes
Maria Clara Villas
Giovanna de Lima Cunha
COMERCIAL:
Giovani das Graças
Lidiana Pessoa
Roberta Saraiva
Gustavo Mendonça
FINANCEIRO:
Helena Telesca
Rosangela Pimentel
COPYRIGHT © MERLIN STONE, 1976
COPYRIGHT © ALEPH, 2022
(EDIÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA PARA O BRASIL)
TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.
PROIBIDA A REPRODUÇÃO, NO TODO OU EM PARTE, ATRAVÉS DE QUAISQUER
MEIOS.
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04533-010 – São Paulo – SP – Bras
Tel.: [55 11] 3743-3202
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DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)
DE ACORDO COM ISBD
M821i Stone, Merlin
Quando Deus era mulher [recurso eletrônico] / Merlin Stone ; traduzido por
Angela Lobo de Andrade. - São Paulo : Goya, 2022.
304 p. ; ePUB ; 2 MB.
Inclui bibliografia e índice.
Tradução de: When God Was a Woman
ISBN: 978-85-7657-542-9 (Ebook)
1. Religião. 2. Mulher e religião. 3. História. I. Andrade, Angela Lobo de. II.
Título.
2022-3510 CDD-200
CDU-2
ÍNDICES PARA CATÁLOGO SISTEMÁTICO:
1. Religião 200
2. Religião 2
A experiência psicodélica
Leary, Timothy
9788576574972
200 páginas
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A primeira incursão de Timothy Leary com psilocibina aconteceu no
México em 1960. A experiência foi tão avassaladora que ele passou
a dedicar suas pesquisas aos possíveis usos dos psicodélicos como
um modo de transformação do comportamento e da personalidade.
Foi a partir desse evento que Leary se juntou a outros dois
psicólogos da Universidade de Harvard e escreveu A experiência
psicodélica. Lançado em 1962, o livro é um ensaio pioneiro e um
guia para se romper as barreiras da mente por meio da ingestão de
alucinógenos, permitindo a expansão da consciência. Meio século
após a década que ficaria marcada como um dos períodos de maior
quebra de paradigmas sociocomportamentais do século XX, o uso
de psicodélicos ainda é discutido à luz da ciência, mas na prática,
permanece um tabu monumental. Uma reavaliação do uso de
alucinógenos precisa levar em conta os aspectos positivos e
negativos de seu consumo no curto e no longo prazos. Foi
pensando nisso, e com base em uma interpretação única do Livro
tibetano dos mortos, que Leary, Metzner e Alpert criaram este livro,
que certamente foi usado por milhares de pessoas ao longo dos
anos como um ponto de partida para quem, de outra forma,
mergulharia em uma viagem alucinógena sem qualquer
contextualização.
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Espiritualidade quântica
Goswami, Amit
9786586064803
296 páginas
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Amit Goswami e Valentina Onisor explicam os detalhes de
como a interação de cada pessoa com mente, corpo, mundo e
cosmos é uma interação quântica. Sua investigação é
fascinante e, na minha opinião, apresenta uma nova e
expandida visão da medicina, psicoterapia, biologia, genética e
muito mais. Estamos a um passo de redefinir o que significa
ser humano, e Goswami e Onisor estão na vanguarda dessa
revolução. – Deepak Chopra, autor de Cura Quântica e as Sete
leis espirituais do sucesso
Neste livro inspirador, Amit Goswami e Valentina Onisor afirmam
categoricamente que a ciência quântica, baseada na primazia da
consciência, preenche todas as lacunas geradas pelo pensamento
materialista. E mais. Ela completa os espaços deixados pelas
tradições espirituais antigas e pelas religiões dogmáticas. Em suma,
a ciência quântica revela a interface entre espírito e matéria,
apontando para a verdadeira espiritualidade. Com clareza e muita
convicção, os autores demonstram que o domínio quântico é
importante para a ciência, para a cura, para o autoconhecimento e
para a iluminação pessoal. Portanto, importante para você!
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Psicologia quântica e a ciência da felicidade
Goswami, Amit
9788576575078
264 páginas
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Não seria exagero dizer que todas as pessoas buscam a felicidade.
Mas existe um método científico para alcançá-la? Neste livro
inspirador, Amit Goswami e Sunita Pattani afirmam que sim. E
sustentam sua tese ensinando-nos, entre outras coisas, a entrar em
contato com nossos sentimentos e desenvolver nossa intuição; a
exercer o livre-arbítrio e nosso potencial criativo; a entender o papel
do inconsciente e equilibrar nossas dicotomias para sermos cada
vez mais felizes. O que acontece quando um físico quântico e uma
psicoterapeuta decidem unir seus talentos para nos mostrar que é
possível viver uma vida mais significativa, transformadora e plena de
propósito? A resposta está em suas mãos. Abordando a psicologia
positiva com base na visão de mundo quântica, Amit Goswami e
Sunita Pattani fazem uma discussão aprofundada sobre a
integração científica dos caminhos que levam à felicidade. Tendo a
física quântica como fio condutor, os autores desenvolvem uma
ciência que legitima tanto a matéria quanto a consciência; que
explica como o livre-arbítrio e a criatividade podem manifestar novas
potencialidades em sua vida; que confere validade para alguns dos
fenômenos da consciência que intrigam os pesquisadores até hoje,
como o inconsciente, o self e suas experiências. Você está pronto
para superar as barreiras que o impedem de viver com mais alegria
e menos medo? Preparado para ter mais significado, propósito e
paixão na vida? Siga em frente, então, pois a psicologia quântica
garante: a felicidade está ao seu alcance, apenas aguardando que
você a descubra.
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Box Inteligência se aprende
Piazzi, Pierluigi
9788576575269
768 páginas
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De forma simples e estimulante, os quatro livros que compõem este
box mostram que a inteligência pode ser aprendida e desenvolvida
por todos. Em cada volume, o professor Pierluigi Piazzi ensina a
importância do estudo individual e do apoio familiar para o
estudante, além de ajudar os educadores a estimular a inteligência
de seus alunos com técnicas inovadoras e eficientes. Aprendendo
inteligência discute de forma geral a maneira como os alunos
encaram os estudos e oferece dicas preciosas de como eles podem
aproveitar melhor esse tempo – por incrível que pareça, estudando
menos e aprendendo mais! Estimulando inteligência mostra como
melhorar a interação entre pais e filhos, visando incentivar a criação
de um ambiente doméstico e escolar que estimule o aumento do
nível de inteligência das crianças e jovens. Ensinando inteligência
baseia-se nos mais de cinquenta anos de experiência do Prof. Pier
em sala de aula, e apresenta técnicas inovadoras das neurociências
para estimular de forma eficiente o cérebro de seus alunos,
transformando-os, finalmente, em estudantes. Inteligência em
concursos ajuda vestibulandos e concurseiros a se tornarem mais
inteligentes e a estudarem de forma mais eficaz. O livro ainda
contém dicas e exercícios que pretendem aumentar a velocidade de
raciocínio e evitar o famoso "branco" durante as provas.
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