APELAÇÃO CÍVEL (198) Nº 6072358-45.2019.4.03.
9999
RELATOR: Gab. 28 - DES. FED. DAVID DANTAS
APELANTE: INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL - INSS
Advogados do(a) APELANTE: OLAVO CORREIA JUNIOR - SP203006-N, CASSIANO AUGUSTO GALLERANI - SP186725-N
APELADO: DIRCO SCUDELER
Advogados do(a) APELADO: VITOR MENDES GONCALVES - SP406284-N, PATRICIA DE OLIVEIRA RODRIGUES
ALMEIDA - SP187992-N
OUTROS PARTICIPANTES:
D E C I S ÃO
VISTOS.
A parte autora ajuizou a presente ação em face do Instituto Nacional do
Seguro Social - INSS, objetivando, em síntese, o reconhecimento de labor rural sem o
devido registro em CTPS com a consequente concessão de aposentadoria por idade rural.
Juntou documentos.
Justiça gratuita.
A sentença JULGOU PROCEDENTE o pedido, condenando o INSTITUTO
NACIONAL DO SEGURO SOCIAL INSS na concessão do benefício de aposentadoria
rural por idade à parte autora, no valor correspondente a um salário mínimo mensal, nos
termos do artigo 48, parágrafo 1º e 2º C.C. o artigo 143, ambos da Lei nº 8.213/91. Em
consequência, extinguiu o processo, com julgamento do mérito, com fundamento no artigo
487, I do CPC. Prestações vencidas deverão ser corrigidas monetariamente e juros
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moratórios, ambos a partir do requerimento administrativo. Condenou a Autarquia com os
honorários advocatícios de 15% (dez por cento) das parcelas vencidas até a sentença, de
acordo com a Súmula nº. 111 do C. Superior Tribunal de Justiça.
Apela o INSS, requerendo a reforma total da r. sentença, por não ter a parte
autora completado a carência necessária para a concessão do benefício.
Subsidiariamente, requer que os juros e correção monetária sejam fixados de acordo com
a Lei 11960/09.
Com contrarrazões, subiram os autos a esta E. Corte.
É o relatório.
DECIDO.
Por estarem presentes os requisitos estabelecidos na Súmula/STJ n.º 568 e
nos limites defluentes da interpretação sistemática das normas fundamentais do processo
civil (artigos 1º ao 12) e artigo 932, todos do Código de Processo Civil (Lei nº
13.105/2015), passo a decidir monocraticamente, em sistemática similar do que ocorria no
antigo CPC/73.
O julgamento monocrático, atende aos princípios da celeridade processual e
da observância aos precedentes judiciais, ambos contemplados na novel legislação
processual civil, e tal qual no modelo antigo, é passível de controle por meio de agravo
interno (artigo 1.021 do CPC/2015), cumprindo o princípio da colegialidade.
Da aposentadoria por idade rural
Busca a parte autora, nascida em 26/01/1957, a concessão do benefício
previdenciário da aposentadoria por idade a trabalhador rural.
Discute-se, nestes autos, o preenchimento dos requisitos necessários à
concessão de aposentadoria por idade ao rurícola, sendo necessária a comprovação da
idade mínima e o desenvolvimento de atividade rural pelo período exigido na Lei 8.213/91.
A Lei 8.213/91, em seus artigos 39, inciso I, 48, 142 e 143, estabelece os
requisitos necessários para a concessão de aposentadoria por idade a rurícola.
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Além do requisito etário, o trabalhador rural deve comprovar o exercício de
atividade rural, mesmo que descontínua, em número de meses idêntico à carência do
benefício.
O dispositivo legal citado deve ser analisado em consonância com o artigo
142, que assim dispõe:
"Art. 142. Para o segurado inscrito na Previdência Social urbana até 24 de
julho de 1991, bem como para o trabalhador e empregador rural cobertos pela
Previdência Social Rural, a carência das aposentadorias por idade, por tempo de serviço e
especial obedecerá a seguinte tabela, levando-se em conta o ano em que o segurado
implementou todas as condições necessárias à obtenção do benefício. (...)".
No mais, segundo o RESP 1.354.908, realizado segundo a sistemática de
recurso representativo da controvérsia (CPC, art. 543-C), necessária a comprovação do
tempo de atividade rural no período imediatamente anterior à aquisição da idade:
"PROCESSUAL CIVIL E PREVIDENCIÁRIO. RECURSO ESPECIAL
REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA. APOSENTADORIA POR IDADE RURAL.
COMPROVAÇÃO DA ATIV IDADE RURAL NO PERÍODO IMEDIATAMENTE ANTERIOR
AO REQUERIMENTO. REGRA DE TRANSIÇÃO PREVISTA NO ARTIGO 143 DA LEI
8.213/1991. REQUISITOS QUE DEVEM SER PREENCHIDOS DE FORMA
CONCOMITANTE. RECURSO ESPECIAL PROVIDO.
1. Tese delimitada em sede de representativo da controvérsia, sob a
exegese do artigo 55, § 3º combinado com o artigo 143 da Lei 8.213/1991, no sentido
de que o segurado especial tem que estar laborando no campo, quando completar a
idade mínima para se aposentar por idade rural , momento em que poderá requerer
seu benefício. Se, ao alcançar a faixa etária exigida no artigo 48, § 1º, da Lei 8.213/1991,
o segurado especial deixar de exercer atividade rural , sem ter atendido a regra transitória
da carência, não fará jus à aposentadoria por idade rural pelo descumprimento de um dos
dois únicos critérios legalmente previstos para a aquisição do direito. Ressalvada a
hipótese do direito adquirido em que o segurado especial preencheu ambos os requisitos
de forma concomitante, mas não requereu o benefício.
2. Recurso especial do INSS conhecido e provido, invertendo-se o ônus da
sucumbência. Observância do art. 543-C do Código de Processo Civil (RECURSO
ESPECIAL Nº 1.354.908 - SP (2012/0247219-3), RELATOR: MINISTRO MAURO
CAMPBELL MARQUES, DJ 09/09/2015)."
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Não se exige do trabalhador rural o cumprimento de carência, como dever de
verter contribuição por determinado número de meses, senão a comprovação do exercício
laboral durante o período respectivo.
No que se refere à comprovação do labor campesino, algumas considerações
se fazem necessárias, uma vez que balizam o entendimento deste Relator no que diz com
a valoração das provas comumente apresentadas.
Declarações de Sindicato de Trabalhadores Rurais fazem prova do quanto
nelas alegado, desde que devidamente homologadas pelo Ministério Público ou pelo
INSS, órgãos competentes para tanto, nos exatos termos do que dispõe o art. 106, III, da
Lei 8.213/91, seja em sua redação original, seja com a alteração levada a efeito pela Lei
9.063/95.
Na mesma seara, declarações firmadas por supostos ex-empregadores ou
subscritas por testemunhas, noticiando a prestação do trabalho na roça, não se prestam
ao reconhecimento então pretendido, tendo em conta que equivalem a meros depoimentos
reduzidos a termo, sem o crivo do contraditório, conforme entendimento já pacificado no
âmbito desta Corte.
Igualmente não alcançam os fins pretendidos, a apresentação de documentos
comprobatórios da posse da terra pelos mesmos ex-empregadores, visto que não trazem
elementos indicativos da atividade exercida pela parte requerente.
Já a mera demonstração, por parte do autor, de propriedade rural, só se
constituirá em elemento probatório válido desde que traga a respectiva qualificação como
lavrador ou agricultor. No mesmo sentido, a simples filiação a sindicato rural só será
considerada mediante a juntada dos respectivos comprovantes de pagamento das
mensalidades.
Têm-se, por definição, como início razoável de prova material, documentos
que tragam a qualificação da parte autora como lavrador, v.g., assentamentos civis ou
documentos expedidos por órgãos públicos. Nesse sentido: STJ, 5ª Turma, REsp nº
346067, Rel. Min. Jorge Scartezzini, v.u., DJ de 15.04.2002, p. 248.
Da mesma forma, a qualificação de um dos cônjuges como lavrador se
estende ao outro, a partir da celebração do matrimônio, consoante remansosa
jurisprudência já consagrada pelos Tribunais.
Na atividade desempenhada em regime de economia familiar, toda a
documentação comprobatória, como talonários fiscais e títulos de propriedade, é expedida,
em regra, em nome daquele que faz frente aos negócios do grupo familiar. Ressalte-se,
contudo, que nem sempre é possível comprovar o exercício da atividade em regime de
economia familiar através de documentos. Muitas vezes o pequeno produtor cultiva
apenas o suficiente para o consumo da família e, caso revenda o pouco do excedente, não
emite a correspondente nota fiscal, cuja eventual responsabilidade não está sob análise
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nesta esfera. O homem simples, oriundo do meio rural, comumente efetua a simples troca
de parte da sua colheita por outros produtos de sua necessidade que um sitiante vizinho
eventualmente tenha colhido ou a entrega como forma de pagamento pela parceria na
utilização do espaço de terra cedido para plantar.
De qualquer forma, é entendimento já consagrado pelo C. Superior Tribunal
de Justiça (AG nº 463855, Ministro Paulo Gallotti, Sexta Turma, j. 09/09/03) que
documentos apresentados em nome dos pais, ou outros membros da família, que os
qualifiquem como lavradores, constituem início de prova do trabalho de natureza rurícola
dos filhos.
O trabalho urbano de membro da família não descaracteriza, por si só, o
exercício de trabalho rural em regime de economia familiar de outro. Para ocorrer essa
descaracterização, é necessária a comprovação de que a renda obtida com a atividade
urbana é suficiente à subsistência da família.
O art. 106 da Lei 8.213/91 apresenta um rol de documentos que não configura
numerus clausus, já que o "sistema processual brasileiro adotou o princípio do livre
convencimento motivado" (AC nº 94.03.025723-7/SP, TRF 3ª Região, Rel. Juiz Souza
Pires, 2º Turma, DJ 23.11.94, p. 67691), cabendo ao Juízo, portanto, a prerrogativa de
decidir sobre a sua validade e a sua aceitação.
No que se refere ao recolhimento das contribuições previdenciárias, destaco
que o dever legal de promover seu recolhimento junto ao INSS e descontar da
remuneração do empregado a seu serviço compete exclusivamente ao empregador, por
ser este o responsável pelo seu repasse aos cofres da Previdência, a quem cabe a sua
fiscalização, possuindo, inclusive, ação própria para haver o seu crédito, podendo exigir do
devedor o cumprimento da legislação. No caso da prestação de trabalho em regime de
economia familiar, é certo que o segurado é dispensado do período de carência, nos
termos do disposto no art. 26, III, da Lei de Benefícios e, na condição de segurado
especial, assim enquadrado pelo art. 11, VII, da legislação em comento, caberia o dever
de recolher as contribuições tão-somente se houvesse comercializado a produção no
exterior, no varejo, isto é, para o consumidor final, a empregador rural pessoa física ou a
outro segurado especial (art. 30, X, da Lei de Custeio).
Por fim, outra questão que suscita debates é a referente ao trabalho urbano
eventualmente exercido pelo segurado ou por seu cônjuge, cuja qualificação como
lavrador lhe é extensiva. Perfilho do entendimento no sentido de que o desempenho de
atividade urbana, de per si, não constitui óbice ao reconhecimento do direito aqui
pleiteado, desde que o mesmo tenha sido exercido por curtos períodos, especialmente em
época de entressafra, quando o humilde campesino se vale de trabalhos esporádicos em
busca da sobrevivência.
Da mesma forma, o ingresso no mercado de trabalho urbano não impede a
concessão da aposentadoria rural, na hipótese de já restar ultimada, em tempo anterior, a
carência exigida legalmente, considerando não só as datas do início de prova mais remoto
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e da existência do vínculo empregatício fora da área rural, como também que a prova
testemunhal, segura e coerente, enseje a formação da convicção deste julgador acerca do
trabalho campesino exercido no período.
De início, cumpre esclarecer que, do entendimento combinado dos artigos 2º e
3º da Lei 11.718/08, o que se infere é que não há estabelecimento de prazo decadencial
para a hipótese de "aposentadoria rural por idade" após 31/12/2010, mas tão somente o
estabelecimento de regras específicas a serem aplicadas para a comprovação de
atividade rural após este prazo. Nesse sentido, já decidiu a C. Décima Turma desta Corte:
"DIREITO PREVIDENCIÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO LEGAL.
APOSENTADORIA POR IDADE RURAL. EMPREGADOS E AUTÔNOMOS. REGRA
TRANSITÓRIA. DECADÊNCIA. AFASTAMENTO. PROSSEGUIMENTO DA AÇÃO.
...
2. As Leis 11.363/06 e 11.718/08 somente trataram de estender a vigência da
regra de transição para os empregados rurais e autônomos, porque, para esses
segurados, o Art. 48 da Lei 8.213/91, ao contrário do citado Art. 39, refere-se ao
cumprimento da carência, devendo a renda mensal ser não de um salário mínimo, mas
calculada de acordo com os salários-de-contribuição.
3. Ainda assim, não previu o legislador a decadência para a hipótese de
pedido de aposentadoria por idade formulado por empregados e autônomos, após
31/12/10. O que a Lei 11.718/08 trouxe a esses segurados foi mais uma regra transitória.
...
5. Apelação provida para afastar a prejudicial de mérito (decadência) e
determinar o prosseguimento da ação em seus ulteriores termos."
(TRF3. Décima Turma. AC 0019725-43.2011.4.03.9999. Rel. Des. Fed.
Baptista Pereira. J. 04.10.2011. DJE 13.10.2011, p. 2079).
Por sua vez, de acordo com o estabelecido no art. 3º da Lei 11.718/08, a partir
de 01/01/2011 há necessidade de recolhimento das contribuições previdenciárias, uma
vez que o período de 15 anos a que se refere o artigo 143 da Lei 8.213/91 exauriu-se em
31/12/2010, conforme disposto no artigo 2º da Lei 11.718/08, que assim dispõe:
"Art. 2º Para o trabalhador rural empregado, o prazo previsto no art. 143 da Lei
nº 8.213, de 24 de julho de 1991, fica prorrogado até o dia 31 de dezembro de 2010."
Entretanto, cabe destacar que, em face do caráter protetivo-social de que se
reveste a Previdência Social, não se pode exigir do trabalhador campesino o recolhimento
de contribuições previdenciárias, quando é de notório conhecimento a informalidade em
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que suas atividades são desenvolvidas, cumprindo aqui dizer que, dentro dessa
informalidade, verifica-se uma pseudo-subordinação, uma vez que a contratação
acontece, ou diretamente pelo produtor rural ou pelos chamados "gatos", seria retirar
desta qualquer possibilidade de auferir o benefício conferido em razão do implemento do
requisito etário e do cumprimento da carência. Ademais disso, o trabalhador designado
"boia-fria" deve ser equiparado ao empregado rural, uma vez que enquadrá-lo na condição
de contribuinte individual seria imputar-lhe a responsabilidade contributiva conferida aos
empregadores, os quais são responsáveis pelo recolhimento das contribuições daqueles
que lhe prestam serviços.
A propósito, colaciono o seguinte aresto:
"PREVIDENCIÁRIO - SALÁRIO- MATERNIDADE - TRABALHADORA RURAL
- EMPREGADA - REEXAME NECESSÁRIO - VALOR DA CONDENAÇÃO INFERIOR A 60
SALÁRIOS MÍNIMOS - DISPENSA - INÉPCIA DA INICIAL - LEGITIMIDADE -
HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS.
1. Sentença que não se submete ao reexame necessário por ter sido proferida
após a vigência da Lei nº 10.352/01 e cujo valor da condenação foi inferior a 60
salários-mínimos.
2. Rejeitada a preliminar de inépcia, vez que a inicial bem especifica o pedido
e seus fundamentos.
3. Tratando-se de matéria previdenciária, a competência para sua apreciação
é da Justiça Federal, bem como das Varas Estaduais nas localidades onde esta não tenha
sede, de acordo com o art. 109, § 3º da CF.
4. A responsabilidade pelo pagamento do benefício é do INSS, pois, de acordo
com a redação dos Arts. 71 e 72 da Lei 8.213/91, anteriormente à edição da Lei 9876/99, o
empregador pagava as prestações do salário-maternidade e compensava o valor em suas
contribuições junto ao INSS, que por este motivo, era o responsável final pela prestação.
Rejeitada, assim, a preliminar de ilegitimidade passiva.
5. As características do labor desenvolvido pela bóia-fria, demonstram que é
empregada rural.
6. Não cabe atribuir à trabalhadora a desídia de empregadores que não
providenciam o recolhimento da contribuição decorrente das atividades desenvolvidas por
aqueles que lhes prestam serviços, sendo do Instituto Nacional do Seguro Social - INSS a
responsabilidade pela fiscalização.
7. Esta Corte tem entendido que, em se tratando de trabalhador rural, havendo
início de prova material corroborado por depoimento testemunhal, é de se conceder o
benefício.
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8. O direito ao salário-maternidade é assegurado pelo art. 7º, XVIII da CF/88.
9. Honorários advocatícios mantidos, eis que fixados de acordo com o labor
desenvolvido pelo patrono da autora e nos termos do § 4° do art. 20 CPC.
10. Preliminares rejeitadas. Remessa oficial não conhecida e apelação
improvida."
(TRF 3ª Região; AC 837138/SP; 9ª Turma; Rel. Es. Fed. Marisa Santos; j. DJ
02.10.2003, p. 235).
Nos termos da Súmula de nº 149 do Superior Tribunal de Justiça, é
necessário que a prova testemunhal venha acompanhada de início razoável de prova
documental, in verbis:
"A prova exclusivamente testemunhal não basta à comprovação da atividade
rurícola, para efeito de obtenção do benefício previdenciário".
A parte autora, nascida em 26/01/1957 completou a idade mínima de 60
(sessenta) anos em 26/01/2017, devendo comprovar o exercício de atividade rural por 180
meses (15 anos).
No intuito de reforçar sua tese inicial, de exercício laborativo rural, a parte
autora coligiu aos autos cópias dos seguintes documentos:
- Certidão de nascimento do filho, datada de 28/03/1988, em que está
qualificado como pecuarista;
- CTPS do autor, com vínculo urbano entre os anos de 1978 a 1986;
- Registro de imóvel rural (1,5 alqueire) em nome do autor, datada de
29/10/1993;
Pertinente dizer que é sedimentado o entendimento de que documentos
apresentados para comprovação de tempo rural não precisam referir-se a todo o
interregno que se pretende comprovar, constituindo em início de prova material e não
prova plena, podendo, assim, ser complementado por depoimentos testemunhais.
Confira-se:
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"PREVIDENCIÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL.
APOSENTADORIA POR TEMPO DE SERVIÇO INTEGRAL, MEDIANTE A JUNÇÃO DO
TEMPO DE SERVIÇO RURAL COM O URBANO. ATIVIDADE RURÍCOLA. INÍCIO DE
PROVA MATERIAL CORROBORADO POR PROVA TESTEMUNHAL.
RECONHECIMENTO. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO.
1. Para efeito de reconhecimento do tempo de serviço urbano ou rural , não há
exigência legal de que o documento apresentado abranja todo o período que se quer ver
com prova do, devendo o início de prova material ser contemporâneo aos fatos alegados e
referir-se, pelo menos, a uma fração daquele período, desde que prova testemunhal
amplie-lhe a eficácia probatória.
2. Agravo regimental desprovido.
A convicção de que ocorreu o efetivo exercício da atividade, durante
determinado período, nesses casos, forma-se através do exame minucioso do conjunto
probatório, que se resume nos indícios de prova escrita, em consonância com a oitiva das
testemunhas. É preciso que se estabeleça um entrelaçamento entre os elementos
extraídos de ambos os meios probatórios: o material e o testemunhal.
Nesse sentido, é a orientação do Superior Tribunal de Justiça.
Confira-se:
"RECURSO ESPECIAL. PREVIDENCIÁRIO. APOSENTADORIA POR
TEMPO DE SERVIÇO. VALORAÇÃO DE PROVA. INÍCIO DE PROVA MATERIAL.
EXISTÊNCIA. CARÊNCIA.
1. "1. A comprovação do tempo de serviço para os efeitos desta Lei, inclusive
mediante justificação administrativa ou judicial, conforme o disposto no artigo 108, só
produzirá efeito quando baseada em início de prova material, não sendo admitida prova
exclusivamente testemunhal, salvo na ocorrência de motivo de força maior ou caso
fortuito, conforme disposto no Regulamento." (artigo 55, parágrafo 3º, da Lei 8.213/91).
2. O início de prova material, de acordo com a interpretação sistemática da lei,
é aquele feito mediante documentos que comprovem o exercício da atividade nos períodos
a serem contados, devendo ser contemporâneos dos fatos a comprovar, indicando, ainda,
o período e a função exercida pelo trabalhador." (REsp 280.402/SP, da minha Relatoria, in
DJ 10/9/2001).
3. (...)
4. "Não há exigência legal de que o início de prova material se refira,
precisamente, ao período de carência do art. 143 da referida lei, visto que serve apenas
para corroborar a prova testemunhal." (EDclREsp 321.703/SP, Relator Ministro Gilson
Dipp, in DJ 8/4/2002).
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5. Recurso improvido.
( STJ - Superior Tribunal de Justiça; REsp 628995; Processo: 200400220600;
6ª T. j. 24/08/2004; DJ 13/12/2004, pg 470; Rel. Min. HAMILTON CARVALHIDO).
Finalmente, impende sublinhar que, para a conclusão sobre ter ou não direito
à aposentadoria, mister se faz a constatação, por meio da prova testemunhal, se
efetivamente a parte autora trabalhou no campo e a duração do referido labor,
corroborando, assim, o início de prova material apresentado, o que ocorreu nos autos.
Com efeito, a oitiva das testemunhas, mostrou-se harmônica e reveladora da
atividade rural da parte autora, afirmando que conhecem o autor desde criança e que ele
laborava no sítio da família. Que saiu do sítio por um período para laborar em Cotia e
depois que seu pai faleceu voltou a labora na lavoura e está laborando até os dias de hoje.
Dos requisitos para a concessão do benefício.
Dessa forma, ante o início de prova material apresentado, corroborado por
prova testemunhal idônea, impõe-se reconhecer que a parte autora comprovou o exercício
de atividade rural por período superior ao legalmente exigido, e no período imediatamente
anterior ao cumprimento do requisito etário.
Portanto, positivados os requisitos legais, é de se concluir que a parte autora
tem direito à aposentação por idade, devendo, portanto, ser mantida, no mérito, a
sentença prolatada.
Com relação aos índices de juros e correção monetária, deve ser observado o
julgamento proferido pelo C. Supremo Tribunal Federal na Repercussão Geral no recurso
Extraordinário nº 870.947.
Isso posto, dou parcial provimento à apelação do INSS, nos termos da
fundamentação.
Considerando o parcial provimento ao recurso interposto pela autarquia, não
incide ao presente caso a regra do artigo 85, §§ 1º e 11, do Novo CPC, que determina a
majoração dos honorários de advogado em instância recursal.
Publique-se. Intimem-se.
Decorrido o prazo recursal, remetam-se os autos à vara de origem.
São Paulo, 11 de março de 2020.
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