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Desafios do Comércio Eletrônico no Brasil

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Livro:

Informação e Globalização na Era do Conhecimento

Capítulo 3: Comércio Eletrônico e Globalização: Desafios


para o Brasil

Autores:
Paulo Bastos Tigre

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84 — INFORMAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO NA ERA DO CONHECIMENTO

Capítulo

Comércio Eletrônico e Globalização:


Desafios para o Brasil

Paulo Bastos Tigre

1 Introdução
A Internet constitui uma poderosa ferramenta para facilitar e multi-
plicar a comunicação global entre pessoas e instituições. Do ponto de
vista econômico, seu potencial é refletido principalmente através do co-
mércio eletrônico, uma aplicação das tecnologias da informação
direcionada para apoiar processos produtivos e transações de bens e ser-
viços. O chamado e-commerce permite fortalecer a rede global de produ-
ção, comércio e tecnologia e os vínculos internos das corporações em
uma ampla gama de situações.
Cabe diferenciar as aplicações tangíveis, referentes ao uso da rede
para transacionar produtos materiais, daquelas que envolvem produtos
digitalizáveis. O comércio eletrônico contribui para articular o desenvol-
vimento, a produção, a distribuição e as vendas de bens físicos como
livros, discos, automóveis e computadores, tornando as transações mais
rápidas e econômicas. Nesse caso a Internet substitui outros meios de
comunicação como correio, fax e telefone. Mas a grande novidade do
comércio eletrônico reside justamente na sua modalidade digital. A dis-
tribuição de bens e serviços intangíveis como software, música, filmes e
serviços de informação por meios digitais pode ser feita a custos mínimos
e permite grandes retornos em escala, na medida em que os custos de
reprodução são desprezíveis. Para as empresas, surge a oportunidade de
atuar em um ambiente comercial global que praticamente não encontra
barreiras alfandegárias ou restrições legais, devido à impossibilidade de
rastrear a circulação de produtos virtuais. A Internet foi desenvolvida
COMÉRCIO ELETRÔNICO E GLOBALIZAÇÃO: DESAFIOS PARA O BRASIL — 85

como uma cobra sem cabeça ou rabo, entrelaçada por múltiplas rotas,
livre de controles e censuras. Apesar do seu potencial, o comércio pura-
mente digital ainda é muito incipiente, estando hoje limitado ao software
e à música.
O comércio eletrônico é visto por muitos especialistas como uma nova
forma de transações capaz de promover o desenvolvimento econômico,
de eliminar barreiras geográficas ao comércio e de transformar comple-
tamente os sistemas econômicos. Trata-se de uma tecnologia capaz de
viabilizar programas de integração monetária e comercial, a exemplo da
União Européia. Seu desenvolvimento tem sido estimulado pelo processo
de globalização que requer meios mais rápidos e eficientes de promover
as comunicações em multimídia, integrando o espaço econômico amplia-
do. Para Negroponte (1996), as superestradas da informação vão substi-
tuir as rodovias de concreto como fundamento da forma de viver e
transacionar. A Internet representa “a morte da geografia”, na medida
em que “ir ao trabalho” pode significar apenas ligar um modem.
A geografia certamente não vai morrer, pois as características físicas,
sociais e institucionais do local são fundamentais para definir suas ativi-
dades econômicas. A tendência, no entanto, é que os avanços nas
tecnologias de comunicação venham reduzir a dependência sobre estar
em um lugar específico em uma hora específica.
As evidências recentes sobre o desenvolvimento do comércio eletrô-
nico parecem corroborar com esses hypercenários. O comércio eletrôni-
co, restrito a poucas grandes corporações e seus fornecedores no início
da década, quando era realizado via EDI,1 vem atravessando uma verda-
deira revolução nesta virada de século. Segundo a Forrester Research, as
operações de comércio eletrônico entre empresas movimentaram US$43
bilhões em mercadorias em 1998, devendo mais que dobrar em 1999 para
US$109 bilhões. A expectativa para os primeiros anos do século XXI é um
volume de vendas business-to-business de US$1,3 trilhão, o que equivale a
9,4% das vendas globais entre empresas. Paul Saffo (1997), do Future
Institute, estima que, no caso dos Estados Unidos, 60% das operações co-
merciais serão realizadas via Internet já na primeira década do século.
Não há dúvida sobre o fato de a Internet estar revolucionando a eco-
nomia. Mas como propõe Newman (1997), com o advento do ciberespaço,
o importante não é mostrar que as coisas estão mudando, pois obviamen-
te estão, em muitos aspectos, mas sim entender para quem está mudan-

1. O comércio eletrônico existe há cerca de 20 anos de uma forma mais rudimentar utilizando a
tecnologia electronic data interchange (EDI).
86 — INFORMAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO NA ERA DO CONHECIMENTO

do, e mais profundamente por que está mudando em algumas áreas e em


outras não. Temos que separar os efeitos sobre empresas individuais dos
impactos que afetam regiões e países como um todo. No caso dos países,
é importante avaliar os impactos de tais mudanças sobre o crescimento
econômico e sua forma de inserção na nova economia global.
As novas tecnologias digitais de múltiplas aplicações são, de acordo
com dois importantes assessores do Presidente Clinton,2 “um meio de
conquistar o poder global no próximo século. A tecnologia converterá os
Estados Unidos nos vencedores do século XXI”. Outros prováveis bene-
ficiados desta nova era econômica e cultural são a União Européia e o
Sudeste Asiático. Quanto à América Latina e o Brasil, a aposta mais óbvia
dos cientistas políticos3 é que figurariam entre os perdedores da socieda-
de global de informações. A perspectiva de exclusão da periferia dos be-
nefícios de uma economia global de informações, dominada por grandes
empresas intensivas em tecnologia e estruturadas em redes, é uma ques-
tão que precisa ser mais bem analisada. Este capítulo pretende contribuir
para este debate, descrevendo as oportunidades e o padrão de difusão da
Internet no Brasil e analisando seus fatores condicionantes.

2 Oportunidades do comércio eletrônico


As tecnologias da informação vêm promovendo uma ampla mudança
nas formas de organização da produção, constituindo um instrumento
para o aumento da produtividade e da competitividade das empresas. O
comércio eletrônico, em particular, é essencialmente voltado para as ati-
vidades de coordenação da produção entre agentes geograficamente
dispersos, permitindo a comunicação instantânea com fornecedores, par-
ceiros e clientes. Através da troca de informações on-line, as empresas
melhoram sensivelmente a integração logística a montante, através da
coordenação da produção ao longo da cadeia produtiva. Tal processo já
vem ocorrendo há cerca de 20 anos, com o uso de redes proprietárias. A
novidade é o uso da Internet, uma rede aberta e global, para atingir clien-
tes finais e novos parceiros comerciais. Nesse campo, surgem oportuni-
dades de subcontratação e inovações nos métodos de venda, marketing e
atendimento ao cliente.

2. Joseph S. Nye Jr. e William Owens, artigo publicado em Foreign Affairs (março-abril de 1996),
citado por German, C. (1999).
3. Andres Boeckh, citado por German, acredita que a dissociação do mercado mundial nos anos
1970 era uma política de desenvolvimento, para os adeptos da teoria da dependência. Tal
dissociação ameaça agora resultar naturalmente da nova dinâmica da economia mundial.
COMÉRCIO ELETRÔNICO E GLOBALIZAÇÃO: DESAFIOS PARA O BRASIL — 87

O comércio eletrônico ocorre principalmente entre empresas, sendo


mais incipiente entre indivíduos. O volume de transações eletrônicas en-
tre empresas é de seis a dez vezes maior do que o realizado com pessoas
físicas. A razão econômica é óbvia: a soma das transações ao longo das
diferentes etapas da cadeia produtiva, envolvendo apenas empresas, é
normalmente maior do que a ponta varejista que liga ao usuário final.
Mas há também razões “culturais”: as empresas tradicionalmente fazem
negócios a distância, via telefone ou fax, tendo assim menos resistência à
transação eletrônica do que o usuário individual, cuja cultura de compras
está mais associada ao espaço físico.
A busca do consumidor final na Internet é uma atividade que requer
um marketing mais abrangente e criativo. A Internet é fundamentalmen-
te um instrumento de informação e lazer e seu uso comercial é uma ativi-
dade que somente foi permitida em meados dos anos 1990. O usuário é
reticente em confiar em lojas virtuais e a propaganda enviada sem solici-
tação é encarada como invasão de privacidade. Mas novas formas de
publicidade, enfatizando mais a informação do que a persuasão, vêm ga-
nhando importância relativa sobre a mídia tradicional.
A propaganda na Internet vem se revelando muito atraente para em-
presas de todos os portes, devido à possibilidade de acesso a um público
amplo e global a baixo custo. A Internet é uma mídia barata e interativa,
o que permite que pequenas empresas anunciem seus produtos na rede.
Pelo preço de uma página inteira em revistas semanais de grande circula-
ção no Brasil pode-se construir uma home page com mais de 300 páginas
de informação.4 Em 1999, a publicidade na Internet no Brasil varia entre
US$40 a 100 milhões, o equivalente a 1% do bolo publicitário nacional.
Comparado às técnicas tradicionais de marketing direto, utilizando
correspondência impressa e telemarketing, a publicidade via Internet pode
ser mais eficiente e econômica. Os milhares de folhetos distribuídos a
clientes desinteressados podem ser substituídos por uma ferramenta inte-
ligente e interativa, capaz de compreender melhor as preferências do con-
sumidor. Começam a surgir empresas especializadas em marketing pela
Internet que desenvolvem bancos de dados sobre os hábitos de consumo
das pessoas, obtidos com operadoras de cartões de crédito e outras fon-
tes. Uma experiência inovadora, lançada recentemente por uma empresa
virtual, permitiu a montagem de um banco de dados sobre centenas de
milhares de consumidores. A empresa oferece um pagamento aos usuá-

4. Antonio Rosa, Associação de Mídia Interativa. Gazeta Mercantil 18/3/1999 p. C-6.


88 — INFORMAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO NA ERA DO CONHECIMENTO

rios da Internet que se disponham a preencher um questionário sobre


seus hábitos de consumo, preferências musicais, prática de esportes, via-
gens, estilo de vida e interesses culturais, além de indicar datas especiais,
como o aniversário de familiares. O pagamento não é em dinheiro, mas
em serviços e mercadorias, como milhagem em companhias aéreas, bô-
nus de descontos e outros serviços oferecidos pelos anunciantes. A em-
presa passa a trabalhar individualmente o cliente, informando-o sobre
lançamentos de produtos e serviços, indicando promoções, roteiros de
viagens e eventos culturais dentro de sua área de interesse. Por esse servi-
ço de intermediação a empresa virtual recebe automaticamente um dólar
para cada negócio fechado.
A maioria das compras internacionais são feitas em sites americanos.
Mas no Brasil a Internet está progressivamente se tornando também uma
ferramenta de comunicação doméstica. Em 1995 mais de 95% do fluxo
da Internet no Brasil era internacional (usuários brasileiros se conectando
com endereços estrangeiros), enquanto em 1997 mais de 40% do tráfico
era doméstico, à medida que mais sites locais se tornaram disponíveis. As
informações sobre o valor das transações eletrônicas são difíceis de obter.
Sabe-se no entanto, através de pesquisas realizadas por provedores junto
a usuários5, que cerca de 35% dos internautas brasileiros já fizeram pelo
menos uma compra on-line. As atividades mais procuradas são os servi-
ços de home banking, viagens, compra de software, produtos eletrônicos,
livros e CDs. A Internet constitui também um importante instrumento de
pré-venda, na medida em que muitos usuários realizam pesquisas sobre
produtos e preços na rede e fecham negócios diretamente nas lojas.
As vendas de software representam o maior mercado individual, com
16% do total das vendas pela Internet, conforme mostra o Quadro 3.1.
O exemplo da Symantec, produtora dos softwares Norton Utilities, reve-
la o potencial da rede para o comércio puramente digital. Em seu website,
a empresa disponibiliza para download versões plenamente funcionais de
seus softwares, com limite de funcionamento de 30 dias, chamados
trialwares. Após esse período, o programa pára de funcionar, caso o usuário
não se disponha a efetuar a compra on-line. O software é o único produ-
to atualmente distribuído on-line. Apesar dos avanços, as vendas de
software pela Internet estão apenas engatinhado. Em 1996, segundo pes-
quisa realizada pela Softletter ([Link]) somente entre 1% e
2% das vendas totais de software eram feitas eletronicamente. Mas as
perspectivas são otimistas: a maioria das empresas entrevistadas acredita-

5. Star Media do Brasil, Gazeta Mercantil 18/3/1999 p. C-6.


COMÉRCIO ELETRÔNICO E GLOBALIZAÇÃO: DESAFIOS PARA O BRASIL — 89

va que, no ano 2000, cerca de um terço de suas vendas seriam feitas por
distribuição eletrônica (Serra, 1999).

Quadro 3.1
Principais produtos vendidos on-line

Produto/Categoria % de Compras
Software 16,0
Livros 14,0
Hardware 13,0
Música 11,0
Eletrodomésticos 6,5
Vídeos 5,0
Serviços de viagens 5,0
Roupas 4,5
Tickets de eventos 4,0
Fonte: OECD (1998), apub Serra (1999).

A venda de livros on-line representa a segunda maior área de comér-


cio eletrônico, com 14% do total das transações. A [Link], pionei-
ra no comércio eletrônico de livros, é apontada como um dos casos de
maior sucesso comercial na Internet. Fundada por dois doutores em ciên-
cia da computação, que não conheciam praticamente nada sobre o mer-
cado de livros, a empresa virtual tornou-se uma ameaça para concorren-
tes poderosos como a Barnes & Nobles, que chegou a processar a Amazon
por competição desleal. A principal vantagem da loja virtual é a elimina-
ção de estoques, na medida em que repassa os pedidos de compra direta-
mente às editoras, reduzindo substancialmente os custos em relação às
lojas físicas. A Amazon conseguiu agregar valor ao serviço de venda de
livros através de resenhas, informações e tratamento individualizado. Em
vez de contratar profissionais de vendas, a empresa admitiu “amantes de
livros” como professores de literatura e bibliotecários. Criou também um
ambiente cultural de debates ao publicar e premiar resenhas e opiniões
de leitores.
O caso da Amazon mostra que novos ambientes requerem novos tipos
de qualificação profissional. O argumento de Bill Gates (1995) de que a
Internet vai provocar o desaparecimento do “intermediário”, ou seja, do
profissional que liga a produção ao usuário, precisa ser mais bem qualifica-
do. A rede pode eliminar o comerciante que apenas repassa mercadorias
ao consumidor, mas passa a exigir um novo tipo de intermediário para ter
sucesso: o profissional que adiciona valor ao produto. Isso inclui serviços
90 — INFORMAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO NA ERA DO CONHECIMENTO

de informação ao cliente, tanto pré como pós-vendas. Um exemplo dos


“novos intermediários” são os serviços de busca tipo Yahoo e Cadê.
A venda de livros constitui uma “vocação” particular da rede, pois o
número de títulos em catálogo é muito maior do que a capacidade de
estocagem das livrarias. Enquanto uma grande loja de discos pode
disponibilizar grande parte dos títulos à venda (cerca de 20.000), uma
livraria pode estocar apenas uma fração dos mais de 1 milhão de títulos
oferecidos pelas editoras. Assim, é muito mais fácil encontrar um livro na
Internet do que percorrendo as livrarias de uma grande cidade.
A venda de música pela Internet, apesar de não ter apresentado inicial-
mente um sucesso equivalente aos livros, também começa a deslanchar.
Em 1998 as vendas internacionais quintuplicaram, somando US$143
milhões, o equivalente a 0,5% das vendas totais da indústria fonográfica.
As perspectivas, segundo a Market Tracking International, é que essa fa-
tia deve se elevar para 8% nos próximos cinco anos.6 Em 1999 as empre-
sas do setor (que inclui a Amazon) passaram a oferecer vendas digitais,
onde os discos são copiados diretamente nos endereços eletrônicos do
consumidor, sem mídia física. Isso possibilita inovações comerciais como
a montagem de discos exclusivos, escolhidos pelo usuário a partir de fai-
xas disponíveis na gravadora.
A venda de produtos de informática (hardware) e eletrodomésticos
também vem tendo grande sucesso na Internet, sendo responsável res-
pectivamente por 13% e 6,5% das vendas nos Estados Unidos. A caracte-
rística desses produtos é que são relativamente padronizados e suas mar-
cas conhecidas. Ao entrar no site o comprador potencial tem a oportuni-
dade de comparar preços e obter exatamente o modelo que deseja, em
vez de limitar sua opção à pequena gama de produtos oferecida pelo
comércio varejista. As vendas eletrônicas estão, em alguns casos, mudan-
do inteiramente o processo de fabricação. A Dell Computers, por exem-
plo, permite que os próprios consumidores configurem seus PCs on-line
e monitorem pela rede todo o processo de montagem e distribuição.
As atividades de suporte técnico virtual pós-venda são outra aplicação de
sucesso, graças à facilidade de acesso, disponibilidade de informação e ao
baixo custo, comparadas aos métodos tradicionais. Empresas de informática
são as principais usuárias da Internet para prestar serviços de suporte on-
line. O serviço permite que o vendedor conheça as dúvidas e necessidades
dos clientes, gerando informações para a melhoria dos serviços de suporte
e aperfeiçoamento dos produtos. Os serviços on-line geralmente incluem o
contato direto com técnicos da empresa, através do correio eletrônico.

6. Jornal do Brasil, 29/3/99 p. 13.


COMÉRCIO ELETRÔNICO E GLOBALIZAÇÃO: DESAFIOS PARA O BRASIL — 91

Por outro lado, o comércio eletrônico não se desenvolveu satisfato-


riamente em mercados onde o consumo é também uma atividade de lazer.
No caso dos artigos de vestuário, os consumidores gostam de ter um
contato físico com o produto, sendo uma área onde as transações eletrô-
nicas dificilmente vão prosperar. Já os supermercados apresentam um
potencial segmentado. Os gêneros alimentícios continuam sendo adqui-
ridos diretamente enquanto crescem as vendas eletrônicas de artigos de
limpeza e produtos comprados de forma regular.
Curiosamente, os preços das lojas virtuais são mais elevados do que
os praticados pelas lojas físicas. Segundo pesquisa realizada pela OECD
(1998), os preços de CDs são, em média, 12,7% mais caros na Internet.
Já os livros são 4% mais caros, apesar das vantagens de custos de esto-
ques apontada anteriormente. A pesquisa mostrou ainda que software é
vendido na Internet por uma menor diferença de preço: 1,9% em média.
Outro estudo, realizado pela consultora Goldman Sachs, comparando o
preço de uma cesta de 30 produtos comprados on-line na rede de super-
mercados Wall-Mart, com o valor da mesma compra realizada na loja
física, confirma a pesquisa da OECD. Mesmo antes da entrega, a lista de
produtos adquiridos on-line já era 1% mais cara do que na loja. A dife-
rença subiu para 9% depois de computados os custos de entrega domici-
liar das mercadorias (Serra, 1999).
As causas dos preços relativamente mais altos na Internet merecem
ser mais bem investigados, já que os custos de prestação dos serviços são
aparentemente menores. Além dos baixos custos de comercialização, o
comércio eletrônico pode se beneficiar de vantagens fiscais. Nos Estados
Unidos, as compras pela Internet são isentas do imposto sobre vendas, a
exemplo do que ocorre tradicionalmente com o comércio por correspon-
dência. Historicamente, as compras pelo reembolso postal estão isentas de
impostos municipais porque não utilizam os serviços urbanos locais, uma
interpretação recentemente confirmada pela Suprema Corte dos Estados
Unidos. Os altos preços praticados podem refletir a fase de “inovação
schumpeteriana” onde os pioneiros são agraciados com um preço-prêmio.
Nesse caso, o diferencial de preços seria uma compensação pelos investi-
mentos realizados nos novos serviços e pelo risco assumido. Outra razão é
que o desenvolvimento e atualização dos sites, assim como a infra-estrutu-
ra informacional necessária para manter a segurança e qualidade do servi-
ço, requer investimentos permanentes em hardware, software e comunica-
ções, um campo onde a tecnologia se move rapidamente. Neste contexto,
a empresa pode crescer aceleradamente sem gerar ou distribuir lucros, pois
os resultados operacionais acabam sendo reinvestidos no próprio negócio.
92 — INFORMAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO NA ERA DO CONHECIMENTO

Por outro lado, a concorrência gerada pela difusão das vendas on-line e
a maior escala de operações pode contribuir para uma redução dos preços
relativos. Os serviços de busca e comparação de preços, oferecidos por
prestadores independentes, vão contribuir decisivamente para esse proces-
so, na medida em que eliminam a assimetria de informações. Do ponto de
vista do usuário, os altos preços relativos ainda podem ser compensados
pela comodidade de escolher melhor e receber os produtos em casa.

3 Difusão do comércio eletrônico no Brasil


O comércio eletrônico no Brasil se difundiu inicialmente nas transa-
ções financeiras e no interior de redes de firmas relativamente hierarqui-
zadas. Em pesquisa anterior (Tigre e Sarti, 1997), mostramos que os prin-
cipais usuários eram os bancos (45% do total), o comércio varejista (27%)
e o setor automotivo (7%). Com a difusão da Internet, o comércio eletrô-
nico vem se estendendo para os consumidores finais e o serviço mais
utilizado é o home banking.
O potencial do comércio eletrônico pode ser avaliado pelo cresci-
mento do uso da Internet. O Brasil vem se mantendo, desde meados dos
anos 1990, entre os 20 maiores usuários mundiais. Em 1999 o número
de usuários no país era estimado pela International Data Corporation
(IDC) em 3,8 milhões de pessoas. Considerando a existência de 8,5 mi-
lhões de PCs em uso no Brasil nesta época, observa-se que em cada 2,2
computadores um está ligado à rede. Em 2003, a previsão do IDC é de
que haverá 9 milhões de usuários da Internet no Brasil, cerca de 37% do
total previsto para a América Latina.

Quadro 3.2
Usuários da Internet no Brasil

Ano Quantidade Crescimento Percentual


1995 158.959 —
1996 463.508 192
1997 1.191.842 157
1998 2.737.236 130
1999 3.825.386 40
2000 4.993.992 31
2001 6.520.549 31
2002 7.793.202 20
2003 9.031.711 16
Fonte: GM Latino Americana, 15-21 de março de 1999 p. 10.
COMÉRCIO ELETRÔNICO E GLOBALIZAÇÃO: DESAFIOS PARA O BRASIL — 93

Outro indicador utilizado mundialmente para avaliar a difusão da


Internet é o número de hosts cuja evolução em diferentes países do con-
tinente americano, em termos absolutos e per capita, é mostrada no Qua-
dro 3.3. Apesar de os Estados Unidos estarem em um patamar muito
acima dos países latino-americanos, o número de hosts nesses países vem
crescendo mais aceleradamente, indicando um progressivo estreitamento
do gap. Entre os países latino-americanos, o Brasil se destaca como o
maior usuário em termos absolutos e o segundo maior em termos relati-
vos, ficando atrás do Chile. Em meados de 1998, de acordo com a Network
Wizards, o número de hosts cresceu para 163.890, um crescimento de
42% que coloca o Brasil em 18o lugar em termos absolutos no ranking
mundial.

Quadro 3.3
Número de hosts da Internet
Número total de Brasil México Venezuela Argentina Colômbia Chile Estados Unidos
hosts na Internet
1995 800 6.656 529 1.262 1.127 3.054 3.178.266
1996 20.113 13.787 1.165 5.312 2.262 9.027 6.053.402
1997 77.148 29.840 2.417 12.688 9.054 15.885 10.110.908
Hosts/1000
habitantes
1995 0.0 0.1 0.0 0.0 0.0 0.2 12.2
1996 0.1 0.2 0.1 0.2 0.1 0.6 23.2
1997 0.5 0.3 0.1 0.4 0.2 1.1 38.8

Fonte: Networks Wizards, “Internet Domain Survey”, janeiro, 1995, 1996, 1997 ([Link]).

Outra fonte (Abranet) estima o número de assinantes da Internet no


Brasil em 1,6 milhões perfazendo 2,2 milhões de usuários em 1998. O
número de provedores era de 321, repartindo um mercado de US$400
milhões (ver Quadro 3.4). Estimativas para o ano 2000 prevêem que o
mercado de provedores da Internet deverá chegar a R$1 bilhão, ajudado
pela entrada de novas tecnologias que visam reduzir preços e estender a
área de cobertura geográfica. Os serviços serão combinados com TV a
cabo permitindo maior integração entre diferentes meios de comunica-
ção digital. A NET, controlada pelas Organizações Globo e líder de mer-
cado com 2,5 milhões de assinantes, espera vender serviços de Internet
para 3% a 5% de seus assinantes, quando iniciar seus serviços cabo/modem.
94 — INFORMAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO NA ERA DO CONHECIMENTO

Quadro 3.4
A World Wide Web no Brasil
1996 1997 1998
Assinantes 0,3 milhão 0,8 milhão 1,6 milhões
Usuários 0,5 milhão 1 milhão 2,2 milhões
Provedores - - 321
Pontos de Acesso - - 865
Preços Médios (US$) - - 27,55
Mercado (US$) - - 400 milhões
Fonte: Abranet apud Gazeta Mercantil, 14 de janeiro de 1999.

No Brasil o maior provedor de Internet é atualmente a Universo


Online, uma associação entre o jornal Folha de São Paulo e a Editora
Abril. O rápido crescimento da rede está estimulando o desenvolvimento
de franquias, a exemplo do que vem praticando a Nutec/ZAZ, controla-
do pelo grupo de comunicações RBS. O mercado de provedores de Internet
no Brasil deverá passar por mudanças estruturais nos próximos anos, à
medida que grandes competidores internacionais entrarem no mercado.
A gigante AOL, dos Estados Unidos, por exemplo, já estabeleceu uma
joint venture com o grupo venezuelano Cisneros para lançar um serviço
de Internet em toda América Latina. Outros importantes provedores in-
ternacionais estão entrando no mercado brasileiro, principalmente por
meio da aquisição de provedores já instalados.

4 Fatores condicionantes da difusão


As oportunidades comerciais abertas pela comunidade de usuários da
Internet são significativas, mas sua viabilização depende da transposição
de importantes barreiras técnicas, culturais e de infra-estrutura. A rede
revoluciona não só a noção de tempo e espaço como também os funda-
mentos organizacionais das empresas que se propõem a explorar tais ati-
vidades. Dentre os fatores condicionantes da difusão destacamos:

Infra-estrutura de telecomunicações
As telecomunicações constituem a infra-estrutura crítica para a difu-
são do comércio eletrônico. O acesso a linhas digitais de qualidade e
cabos óticos de alta velocidade, interligando pontos de acessos urbanos
com o resto do mundo, condiciona o potencial de expansão da Internet,
juntamente com novas formas de acesso através de redes de TV a cabo e
redes privativas alternativas à rede telefônica pública.
COMÉRCIO ELETRÔNICO E GLOBALIZAÇÃO: DESAFIOS PARA O BRASIL — 95

Em meados de 1998, quando iniciou-se o processo de privatização da


telefonia fixa no Brasil, existiam mais de 17 milhões de telefones fixos e
5 milhões de telefones celulares, quase o dobro do número de terminais
disponíveis no início da década (ver Quadro 3.5). Ao longo dos anos
1990, a Telebrás empreendeu esforços para melhorar a tecnologia, intro-
duzir novos serviços e aumentar a oferta de novas linhas telefônicas. Os
investimentos pularam de uma média de US$1,2 bilhão/ano nos anos 1980
para US$6,7 bilhões em 1996. O Quadro 3.5 mostra também que de
1990 a 1996, a taxa de digitalização passou de 13,9% para 55%, melho-
rando a qualidade e reduzindo os custos das comunicações.

Quadro 3.5
Desempenho da Telebrás, 1990, 1996 e 1998
1990 1996 1998
Linhas de telefones
convencionais (mil) 9.300 14.900 17.000
Assinantes de celular (mil) 10 2.800 5.000
Telefones Públicos (mil) 227 433 n.d.
Digitalização de linhas locais 13,9% 55% n.d.
Empregos 93.000 89.000 n.d.
Localidades servidas 13.900 20.900 n.d.
Fonte: Mansell and Wenh, 1998; atualizado com outras fontes.

Apesar da melhoria, a densidade telefônica no Brasil (cerca de 10


telefones por cem habitantes em 1997, segundo o Banco Mundial) ainda
é baixa quando comparada à média dos países desenvolvidos (51/100
habitantes), embora seja próxima a países do Leste Europeu (17/100 ha-
bitantes) e a outros países da América do Sul (9/100). Mansell e Wehn
(1998:29) analisaram esses dados calculando a correlação entre renda
nacional e infra-estrutura de telecomunicações. Os dados para o Brasil
coincidiram com a reta de regressão traçada com os dados de diferentes
países. Isto significa que o Brasil tem um grau de difusão de telecomuni-
cações compatível com seu nível de desenvolvimento econômico.
O Quadro 3.6 mostra a densidade relativa de telefones fixos e celula-
res e compara os custos das ligações domésticas e internacionais em paí-
ses recentemente industrializados e os Estados Unidos. Podemos obser-
var que os custos do serviço local e internacional no Brasil são semelhan-
tes à Coréia e Malásia, mas são relativamente mais altos do que países
onde já existe competição na telefonia local e internacional.
96 — INFORMAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO NA ERA DO CONHECIMENTO

Quadro 3.6
Indicadores de telecomunicações

País Linhas Assinaturas de Custo de 3 m Custo de 3 m


principais telefone celular ligação local ligação para os
por 1000 por 1000 (US$)ª Estados Unidosª
habitantesª habitantesb
México 95 7 0,08 3,01
Brasil 96 8 0,04 4,68
Malásia 183 43 0,04 5,99
Tailândia 70 18 0,12 7,39
Coréia 430 37 0,04 4,88
Taiwan 430 36 0,04 n.d.
Cingapura 513 98 0,01 4,02
Hong Kong 547 129 n.a. 2,64
Estados Unidos 640 128 0,09 n.d.
Fontes: a. Banco Mundial. World Development Report, 1998.
b. ITU. 1997 World Telecommunication Development Report, 1996/1997.

A privatização das empresas controladas pela Telebrás e o surgimento


de concorrência na prestação de serviços de telecomunicações vêm esti-
mulando os investimentos e a introdução de novas tecnologias. Visando
aumentar a atratividade das operadoras telefônicas para os investidores
privados, as tarifas foram recompostas e, para permitir o desmembramento
dos serviços locais e internacionais, foram eliminados os subsídios cruza-
dos existentes. A Anatel estabeleceu metas de universalização para a tele-
fonia fixa a serem cumpridas pelas novas operadoras privadas que assu-
miram a rede a partir de 1998. Dentre as metas está a elevação da densi-
dade telefônica para 40 linhas fixas por cem habitantes. A curta expe-
riência das empresas privatizadas, no entanto, mostra que as metas de
universalização dificilmente serão cumpridas a médio prazo. As novas
operadoras atendem prioritariamente a consumidores de alta renda e
deixam de cumprir as obrigações assumidas com as periferias das grandes
cidades e regiões de baixa densidade populacional. A qualidade dos ser-
viços também vem se deteriorando devido a cortes de pessoal e progra-
mas de redução de custos. A força da Anatel está sendo testada pelas
empresas que apostam em um rápido retorno do investimento.

Nível educacional e capacitação tecnológica


O nível educacional afeta a difusão das novas tecnologias tanto em
termos de oferta de serviços técnicos quanto pela qualificação dos usuá-
COMÉRCIO ELETRÔNICO E GLOBALIZAÇÃO: DESAFIOS PARA O BRASIL — 97

rios. A disponibilidade do suporte técnico para desenvolvimento de


aplicativos, treinamento do usuário e manutenção de hardware e software
pode ser avaliada comparativamente no Quadro 3.7, que avalia também
o nível educacional da população de cada país.

Quadro 3.7
Indicadores de recursos humanos
País México Brasil Coréia Cingapura Malásia Estados Unidos
a
População (milhões) 91.1 159 44.9 3.3 20.1 267.1
Adultos alfabetizados (%)a 90 83 98 91 84 99
Média de anos de educação b 4.7 3.9 8.8 n.d. n.d. 12.3
Taxa de matrícula secundário a 58 45 101 n.d. 57 91
Cientistas e técnicos de 0.3 0.2 2,9 2.6 0.2 4
P&D por 1000 pessoas a
Número de profissionais 321 550 340 11 53 2.006
de software (1000) c
Fontes: a. UNPD, 1998; b. UNPD, 1993; c. Capers Jones, 1993. Software Productivity and Quality
Today — The Worldwide Perspective.

O Brasil se destaca pelo elevado número absoluto de pessoas (aproxi-


madamente 550 mil) atuando em informática, tanto como usuários pro-
fissionais, quanto em atividades de suporte. Tal número supera o México
e a Coréia (que têm uma população menor) e equivale a um quarto da
força de trabalho técnico nos Estados Unidos. Esse número é surpreen-
dentemente alto quando comparado a outros indicadores de difusão de
tecnologias da informação. Outro indicador positivo é a disponibilidade
de cientistas de alto nível. Em 1997, o Brasil tinha 700 [Link] na área de
tecnologia de informação, um crescimento substancial em relação aos
200 que atuavam em 1980 (MCT-Sepin, 1998:10).
A expansão do ensino superior, tanto público quanto privado, foi a
fonte para o surgimento de novas empresas de informática e o crescimen-
to das aplicações junto a usuários. A oferta tem gerado inclusive um mo-
vimento de imigração de quadros altamente qualificados para os Estados
Unidos. Embora não disponhamos de estatísticas a respeito, verificamos
a oferta de empregos em jornais brasileiros e na própria Internet, buscan-
do técnicos com nível de pós-graduação para atuar no exterior. Esta “eva-
são de talentos” não é necessariamente negativa. Em muitos casos, os
profissionais retornam ao país após absorver novas tecnologias e adquirir
experiência em um mercado mais amplo e sofisticado, capacitados para
estabelecer parcerias internacionais e exportar software.
98 — INFORMAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO NA ERA DO CONHECIMENTO

A capacidade tecnológica acumulada durante os anos 1980, quando


vigorava a política de reserva de mercado na informática, foi outro fator
positivo para a difusão das tecnologias da informação no Brasil. Muitos
engenheiros envolvidos em atividades de P&D na década de 1980 admi-
nistram hoje provedores de Internet, projetam aplicativos e dão suporte
para a difusão de sistemas de informação on-line. Também, a capacidade
tecnológica adquirida em centros de pesquisa em telecomunicações como
CPqD, foi fundamental para a difusão da Internet no Brasil.
Com relação à capacitação dos usuários, o quadro brasileiro também
necessita da qualificação absoluto/relativo feita anteriormente. Embora
exista uma massa crítica de pessoas potencialmente capazes de usar a
Internet, uma ampla parcela da população não adquiriu as habilidades
genéricas mínimas necessárias para um aprendizado contínuo. A taxa de
analfabetismo no Brasil é de 17%, mas o número de “analfabetos funcio-
nais” é significativamente maior. Segundo o IBGE (1998: 129) menos de
um terço da população brasileira tem sete ou mais anos de estudo, ou
seja, uma escolaridade equivalente ao primeiro grau. A média nacional é
de apenas 3,9 anos de estudo por pessoa e apenas 45% dos jovens em
idade de cursar o segundo grau estão efetivamente matriculados. O Qua-
dro 3.5 mostra que os indicadores educacionais do Brasil são pobres
mesmo comparados a outros países em desenvolvimento como o México
e a Malásia.
Apesar dos avanços na interface homem-máquina estarem tornando
mais fácil o uso dos computadores, habilidades cognitivas adquiridas pela
educação formal são essenciais para a sua difusão. Dentre as habilidades
desejáveis para o domínio da informática está a fluência em inglês. Estima-
se que 85% da literatura técnica em informática está disponível neste idio-
ma, fato que limita o acesso da ampla maioria da população aos manuais e
programas existentes. Na Internet, a maioria dos sites estão em inglês e,
segundo levantamento recente, 62% dos usuários da Internet são fluen-
tes nessa língua. O rápido crescimento dos sites em português e o fato de
o número de usuários que somente falam português estar aumentando,
parece indicar que essa barreira está se tornando menos importante.
O uso da informática na educação é outro fator que pode ampliar
consideravelmente a difusão das novas tecnologias da informação (TI),
pois além de familiarizar o aluno com os computadores, incorpora pode-
rosas ferramentas ao aprendizado de outras disciplinas. Os programas
brasileiros de informática na educação são bem formulados, mas avan-
çam de forma lenta devido à falta de verbas, à precariedade da rede esco-
lar e à dependência de importações.
COMÉRCIO ELETRÔNICO E GLOBALIZAÇÃO: DESAFIOS PARA O BRASIL — 99

Distribuição de renda
A distribuição de renda, ao lado da educação, é um fator social
condicionante da difusão da Internet. Segundo o IBGE, em 1996 existi-
am no Brasil 7,8 PCs para cada 100 famílias, mas sua distribuição era
muito desigual. Enquanto microcomputadores equipavam quase metade
dos domicílios com mais de 30 salários de renda familiar, eles pratica-
mente inexistiam em famílias com renda inferior a 5 mínimos. Famílias
com renda mensal acima de 30 salários mínimos representam somente
10% do total de famílias brasileiras, mas respondem por 60% do total de
computadores domésticos. Na classe média, com renda entre 20 e 30
salários mínimos, os micros estavam presente em 17% dos domicílios.

Quadro 3.8
Base de PCs domésticos instalados por classe de renda familiar
Renda mensal em Número de Número de PCs/100
salários mínimos* famílias famílias com PCs famílias
Menos de 2 1.228.090 0 0,0
De 2 a 3 1.020.255 2.261 0,2
De 3 a 5 1.821.733 4.093 0,2
De 5 a 6 817.139 5.215 0,6
De 6 a 8 1.274.646 19.009 1,5
De 8 a 10 897.768 17.303 1,9
De 10 a 15 1.529.351 72.022 4,7
De 15 a 20 862.184 84.181 9,8
De 20 a 30 853.863 144.996 17,0
Mais de 30 1.272.878 606.004 47,6
Não informado 966.162 17.336 1,8
Total 12.544.069 972.420 7,8
*Valor do salário mínimo US$ (janeiro 1999).
Fonte: MCT/Sepin (1998) e MPO/IBGE (1996).

A má distribuição de renda no Brasil constitui uma barreira à difusão


da Internet, mas políticas públicas podem contribuir para aumentar o
acesso junto à população mais pobre. A exemplo do plano de universali-
zação da telefonia convencional, que prevê o atendimento de toda popu-
lação, seja através de linhas compartilhadas, telefones públicos ou correio
de voz, a Internet pode ser difundida, para fins educacionais e de pesquisa,
junto a escolas e bibliotecas públicas. Programas de universalização da
Internet vêm sendo adotados por diferentes países do mundo, a exemplo
da National Information Infrastructure dos Estados Unidos. A interferên-
cia do governo para criar condições de acesso às tecnologias de informa-
100 — INFORMAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO NA ERA DO CONHECIMENTO

ção em classes menos favorecidas é fundamental para reduzir a exclusão


social e democratizar as oportunidades de emprego.

Disponibilidade local de hardware e software


O mercado brasileiro de tecnologias da informação atingiu, segundo
a Sepin/MCT, o valor de US$15 bilhões em 1997, incluindo hardware,
software e serviços técnicos. De 1991, quando foi iniciada a abertura do
mercado de informática, até 1997, as vendas da indústria cresceram 112%
enquanto as importações de produtos acabados aumentaram 741% e as
exportações permaneceram estagnadas. Em conseqüência, a balança co-
mercial de produtos eletrônicos se deteriorou rapidamente, atingindo um
déficit de US$6,4 bilhões em 1997.
A facilidade de importações e a insuficiência dos instrumentos de es-
tímulo à produção local levaram a indústria local a reduzir o conteúdo de
componentes locais na produção. Para cumprir as regras de Processo Pro-
dutivo Básico (PPB), exigidas pelo governo para que o produto seja con-
siderado “nacional” e assim fazer juz a incentivos fiscais (isenção de
IPI principalmente), as empresas podem simplesmente realizar no país as
etapas finais de montagem, a partir de componentes importados. A maio-
ria dos PCs fabricados no Brasil tem cerca de 90% de seus componentes
importados, sendo assim muito pequena a articulação com fornecedores
locais. A importação de produtos finais também é grande, principalmen-
te se incluirmos o contrabando, que chega a atingir 50% do mercado de
determinados produtos.
A crise cambial de janeiro de 1999 representou um freio nos investi-
mentos públicos e privados em TI e afetou drasticamente os programas
de informática na educação. Isso mostra que a dependência excessiva das
importações diante de um quadro de grandes flutuações da taxa de câm-
bio real e dificuldade de acesso ao crédito externo, dificulta a difusão de
novas tecnologias. A alternativa à esta dependência é desenvolver a in-
dústria local de forma a reduzir a vulnerabilidade da oferta de equipa-
mentos importados.

Política governamental
Na década de 1990 observa-se, principalmente em países desenvolvi-
dos, o surgimento de novas políticas de difusão de tecnologias da infor-
mação baseadas em “grandes visões” do futuro da sociedade. O leitmotiv
dessas políticas é a percepção de que as grandes oportunidades ofereci-
COMÉRCIO ELETRÔNICO E GLOBALIZAÇÃO: DESAFIOS PARA O BRASIL — 101

das pelas novas tecnologias para o desenvolvimento econômico e social


podem não se concretizar devido às falhas de mercado. De fato, existem
grandes assimetrias entre agentes econômicos, e o uso das tecnologias da
informação requer mudanças freqüentes no perfil de qualificação dos
recursos humanos e na natureza institucional, levando a grandes disper-
sões na difusão das novas tecnologias. Os programas nacionais seguidos,
por exemplo, pelos Estados Unidos e Canadá foram elaborados para esti-
mular a oferta e demanda de TI e universalizar o uso da Internet, princi-
palmente em pequenas empresas e populações de baixa renda.
A política de “grandes visões” contrasta com a postura liberal em
relação à sociedade da informação adotada pelos países latino-america-
nos. Aqui o Estado age como “espectador” das forças de mercado, limi-
tando-se a adequar as estruturas e regulações existentes à evolução
tecnológica, privatizar os serviços de telecomunicações e seguir as reco-
mendações de organismos internacionais em relação a normas e padrões
técnicos. A política é passiva, reservando ao Estado o papel de fiscal dos
contratos e metas acertadas com a iniciativa privada. No Brasil, entretan-
to, as políticas de promoção das TI não foram inteiramente abandona-
das, como mostra o Quadro 3.9.

Quadro 3.9
Principais Programas de TI do Ministério da Ciência e Tecnologia

Programa Agência
Responsável
Rede Nacional de Pesquisa (RNP), Internet Brasil CNPq
Programa Nacional de Exportação de Software (SOFTEX-2000) CNPq
Programa temático multi-institucional em ciência da computação CNPq
Tecnologias avançadas para automação industrial CTI
Qualidade e produtividade em software CTI
Processamento de alta performance CTI
Suporte financeiro para a indústria de software FINEP
Suporte para a capacitação tecnológica na indústria FINEP
Fonte: Ministério da Ciência e Tecnologia, 1996.

Dentre as políticas públicas, cabe destacar o papel da RNP (Rede


Nacional de Pesquisas) na propagação da Internet no Brasil. O programa
é controlado por um comitê de acadêmicos e representantes dos empre-
sários usuários de TI. Em 1997, o programa investiu $20 milhões em
serviços de provedores locais de TI, escolas, e infra-estrutura, como
backbones de alta velocidade, ligação de universidades e centros de negó-
102 — INFORMAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO NA ERA DO CONHECIMENTO

cios. A RNP objetivou promover o uso da Internet em instituições de


ciência e tecnologia, mas acabou por impulsionar também o uso comer-
cial da Internet ao prover infra-estrutura e capacidades técnicas. O proje-
to agora está se deslocando para o uso social e acadêmico, através da
Internet II, na medida em que backbones privados estão disponíveis para
o comércio eletrônico.
Por fim, outra importante questão de responsabilidade do governo
são os acordos multilaterais sobre o comércio eletrônico. Nessa área, os
países menos desenvolvidos encontram dificuldades em defender seus
interesses, devido à pouca capacitação das agências para lidar com o pro-
blema e seu inerente baixo poder de barganha em fóruns internacionais.
Observa-se atualmente uma bipolarização de interesses. Por um lado, os
Estados Unidos vêm promovendo ativamente a abertura do mercado glo-
bal para o comércio eletrônico junto à Organização Mundial do Comér-
cio (OMC) e em acordos plurilaterais como o International Technology
Agreement (ITA). Por outro, os países periféricos são mais reticentes em
promover uma abertura total, diante da ameaça de concorrência preda-
tória em seus mercados nacionais. Não é objetivo deste capítulo tratar
essas questões mas cabe alertar para a importância de aprofundar o estu-
do da matéria e de capacitar órgãos-chave como o Ministério das Rela-
ções Exteriores para o processo de negociação.

5 Conclusões
O processo de globalização econômica demanda novas tecnologias
de comunicações capazes de reduzir as limitações inerentes à distância
geográfica, ao tempo e aos custos de transações. O comércio eletrônico
vem se revelando uma ferramenta essencial para lidar com esses proble-
mas. Através de uma rede aberta como a Internet, é possível avançar na
integração das cadeias produtivas, e coordenar atividades de desenvolvi-
mento, produção, comercialização e distribuição de produtos e serviços.
Já o comércio eletrônico com consumidores individuais é mais incipiente,
embora mantenha um grande potencial para o futuro, especialmente em
produtos e serviços digitalizáveis.
É preciso reconhecer os problemas que esse processo suscita para países
periféricos. Contando com infra-estrutura física e social mais precária,
esses países têm uma difusão limitada da Internet e tendem a ter o papel
de meros importadores de informações e serviços. Assim, deixam de ex-
plorar o potencial de integração às redes globais e de gerar empregos
qualificados para sua população.
COMÉRCIO ELETRÔNICO E GLOBALIZAÇÃO: DESAFIOS PARA O BRASIL — 103

Dentre os países periféricos, o Brasil se destaca pela sua capacitação


na informática, adquirida precocemente a partir dos anos 1970. Apesar
das desigualdades sociais e da precariedade da infra-estrutura de teleco-
municações, o país conta com uma numerosa comunidade on-line capaz
de proporcionar um mercado atraente e uma força inovadora para o de-
senvolvimento. A exploração desse potencial para exportar produtos e
serviços, no entanto, ainda está longe de se concretizar. Poucas empresas
brasileiras direcionam seus sites para o exterior, usando idiomas interna-
cionais como inglês e espanhol.
As políticas públicas para difusão da Internet no Brasil, a exemplo da
RNP, vêm produzindo excelentes resultados no sentido de desenvolver a
infra-estrutura para pesquisa e formação de recursos humanos
especializados. Entretanto, faltam políticas orientadas para estimular o
uso comercial da Internet pelo setor privado, principalmente junto a pe-
quenas empresas. Tais empresas necessitam de apoio técnico, informacional
e financeiro para explorar as oportunidades de negócios que surgem com
os novos meios de comunicação. A realização de fóruns de debates, pes-
quisas e projetos pilotos cooperativos podem contribuir para capacitar
empresas e alavancar novas estratégias competitivas. Outro importante
papel para o setor público é participar das discussões sobre normas inter-
nacionais sobre comércio eletrônico global, para defender os interesses
nacionais e regionais.
O desafio de entrar na sociedade da informação parece intransponível
para aqueles que não reúnem os recursos e a capacitação necessária para
colher seus benefícios. Entretanto, aceitar passivamente uma ordem
neoliberal que “condena” todo o Terceiro Mundo ao papel de proletaria-
do off-line é no mínimo prematuro, diante das inúmeras janelas de opor-
tunidades abertas pelas novas tecnologias.

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