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Yahari Ore no Seishun: Volume 2 Resumo

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Yahari Ore no Seishun Love Come wa Machigatteiru

Volume 2

Prólogo

Quando a Golden Week acaba, cada dia começa a ficar mais quente que o anterior.
É também o momento em que estudantes com muito tempo livre causam grandes
comoções, o que faz com que os dias pareçam mais quentes do que realmente

precisariam ser. Eu posso ser do tipo tranquilo, que nunca perde a calma, mas eu também sou
fraco contra o calor. E então, procurando por algo um pouco mais refrescante, eu me virei na
direção de águas desconhecidas.

A temperatura normal do corpo humano é de 36°C. Indo por esse número, sair com outras
pessoas não parece um dia de Verão e sim um dia em uma fornalha. Nem mesmo eu seria
capaz de suportar umidade e temperatura tão elevadas.

Gatos fazem a mesma coisa, sabia? Eles vão para algum lugar isolado quando está
quente. Deixando de lado o meu desejo de me defender do calor, eu também procurava por
algum lugar sem presença humana. Lembre-se, não é como se eu me sentisse desconfortável
na classe ou pensasse que eu absolutamente não me encaixaria— não é nada assim.

Isso é um ato de instinto— ou, de forma mais direta, tudo que meus colegas de classe
faziam era falhar como seres vivos. Eles se reúnem em bandos porque são fracos. Veja, apenas
criaturas débeis formam grupos por instinto. Herbívoros se reúnem para que possam
abandonar um dos seus em caso de ataque de algum carnívoro e meus colegas de classe não
eram diferentes. Eles sentavam-se sobre a grama, com seus inocentes olhos voltados para o
amigo que está sendo devorado.

Então, sim. Animais fortes não se reúnem em bandos ou nada assim. Vocês nunca ouviram
a expressão ‘um lobo solitário’? Gatos são fofos e lobos são legais. Em outras palavras,
solitários são fofos e legais.
Enquanto estes pensamentos adquiriam um certo ar de importância em minha
cabeça, eu me mantive em movimento. Meu destino: a escadaria para o telhado. A
rota era cheia de mesas, por isso, apenas uma pessoa poderia passar ali por vez.

Se este fosse um dia normal, então a porta do telhado deveria estar firmemente trancada.

Mas hoje o cadeado estava aberto e balançava de um lado para o outro, ainda no lugar. Acho

que algumas pessoas de outras classes haviam vindo até o telhado para se mostrar e fazer
juramentos entre si—você sabe o que eles dizem sobre cigarros, idiotas e lugares altos?

Meu primeiro impulso nesses momentos era o de mostrar para eles, então empilhei
três mesas e duas cadeiras para bloquear o caminho. Minha capacidade de agir me fez
parecer impressionante, como sempre. Que másculo. Kyaa. Faça amor comigo.

Mas então, eu percebi que estava muito quieto atrás da porta. Que estranho. Até onde eu
sabia, riajuus detestavam silêncio, fossem garotos ou garotas. Era igual a quando os animais
temiam o fogo. Eles interpretavam o silêncio como algo chato, então, para se convencerem de
que isso não estava ficando chato, eles caminhavam até outras pessoas e começavam a falar
com elas. Por outro lado, quando eles estavam falando comigo, eles engolem o tédio e
encaram o meu silêncio. Pergunto-me o que este silêncio realmente significa... não, não é que
você pensa— Eu prefiro o silêncio.

A partir deste silêncio sereno, realmente parecia que não havia nenhum desses riajuus por
aqui. Poderia ser que não havia ninguém aqui, afinal?

Quando não há ninguém ao redor, você fica completamente enérgico—isso é o que


significa ser um solitário. Não é que eu fique tímido diante de outras pessoas ou nada assim—é
apenas uma ordinária consciência pelos outros ou o desejo de não ficar no caminho deles.

Eu desfiz a barricada que havia acabado de construir e pus a mão na porta. Era o tipo de
[1]
emoção que eu sentia quando entrava pela primeira vez em algum bar de macarrão e meu
coração batia da mesma forma que batia quando deixei Chiba e percorri todo o caminho até
uma livraria em Yotsukaido apenas para comprar uma revista pornô. Entende, é porque eu sou
um solitário que eu posso experimentar todas essas sensações.
O vasto e azul céu e o horizonte infinito me aguardavam ao passar pela porta. O
telhado da escola havia se transformado em meu telhado particular bem diante dos
meus olhos. Pessoas ricas desejavam jatos particulares, praias privadas e por aí vai. Os
solitários que tinham algum tempo para si mesmos eram sempre vencedores na vida, então
isso quer dizer que solitários possuíam status social.

O céu estava tão amplo e ensolarado, como se ele estivesse me dizendo que um dia eu
seria livre do confinamento deste mundo. Se eu tivesse que descrever isso em termos
[2]
atemporais, era como algo tirado de ‘Um sonho de Liberdade ’. Beeeeem... Eu nunca vi, mas
o título indica que ele é esse tipo de filme.

Olhar para o nebuloso, vasto e distante céu e olhar para meu futuro era a mesma coisa
para mim. Então, esse era o lugar apropriado para encontrar o Formulário de Levantamento de
Perspectiva de Locais de Trabalho que eu tinha em mãos. A visita ao local de trabalho pairava
sobre mim assim como a data fixa de um exame.

Nessa folha de papel, eu listei cuidadosamente minhas perspectivas de carreiras e os locais


de trabalho com os quais eu gostaria de me familiarizar, assim como minhas razões para fazer
isso. Eu tinha certeza quanto aos planos para o meu futuro, então eu não afastei minhas mãos
da folha. Não levei nem mesmo dois minutos para terminar de preenchê-la.

... Mas, então—

O vento soprou. Era o tipo de vento que trazia uma proposta, aquele tipo que anuncia um
fatídico encontro após as aulas. A solitária folha de papel, com meus sonhos escritos, voou
em direção ao futuro, como se tivesse se transformado em um avião de papel.

Eu posso ter usado uma descrição cheia de floreios, mas eu estava, obviamente, falando de
um papel que eu havia terminado de escrever momentos antes. Oi, vá se ferrar, vento, seu
pedaço de merda.

Como se estivesse me provocando, o papel flutuou até o chão, apenas para


voar novamente assim que pensei que ele estava ao meu alcance.

... Meh, não posso me aborrecer. Eu iria pegar outro papel e reescrever. Meu lema favorito
era ‘se não funciona quando você tenta, desista’, então eu não estava triste. Enquanto
estamos nisso, você pode acrescentar ‘desistir quando as coisas estão complicadas’ a isso.

Dando de ombros, eu comecei a me afastar – e foi quando isso aconteceu.


– Isso é seu?

Escutei uma voz. Com o começo, eu procurei ao meu redor pelo dono daquela voz
ligeiramente rouca e vagamente sensual, mas não havia ninguém. Solidão era normal para
mim, mas aquilo não era ao que eu estava me referindo no momento—eu não podia encontrar
nenhum traço de alguém naquele telhado.

– Para onde você está olhando?

Eu ouvi uma risada desdenhosa vindo de cima.

Se a voz estava vindo de cima, então eu tinha certeza de onde ela estava vindo. Era do lugar
que se projetava em direção ao céu azul, ainda mais alto que o telhado – as escadas que
levavam até a torre de água.

A dona da voz estava encostada na torre de água, olhando para mim. Enquanto ela brincava
com um isqueiro barato de cem ienes, nossos olhos se encontraram e ela, furtivamente, o
enfiou no bolso do uniforme.

Seu longo cabelo prateado caía sobre suas costas. Seu laço estava desatado, revelando a
curva de seus seios. As partes desnecessárias dos punhos de sua blusa estavam soltos. Suas
pernas longas e afiadas pareciam ter sido projetadas para chutar. Mas o que deixou uma forte
impressão em mim foram os olhos sem ambição, que olhavam vagamente para longe. As
olheiras realmente contribuíam para aquela aparência desbotada.

– Isso é seu?

A garota perguntou usando o mesmo tom de antes.

Eu não sabia quantos anos ela tinha, então, no começo, eu mantive minha boca fechada e
apenas assenti.

Sabe, se ela fosse minha Senpai, então eu teria que ser formal, mas se ela não fosse, isso
seria embaraçoso. Os verdadeiros fortes mantem as cartas próximas a si.

– ... Espere um pouco.


Ela suspirou enquanto colocava as mãos na escada e começava a descer
rapidamente.

... Mas então—

O vento soprou. Era o tipo de vento que afastava os sentimentos ruins, o tipo que
determina o próprio destino. A única linha de tecido, que continha meus sonhos, cedeu
ao vento divino, como se gravasse a si mesma na memória eterna.

Eu posso ter usado uma descrição cheia de floreios, mas, basicamente, eu vi a calcinha dela.

Oi, bom trabalho, vento, você é o melhor!


A garota soltou a escada quando estava na metade do caminho, pousou
suavemente de pé e, em seguida, entregou-me o papel—mas não antes de olhar
para ela mesma antes.

– ... Você é idiota?

Ela disse secamente, praticamente atirando o papel em mim.

Assim que eu o peguei, ela não perdeu tempo em dar meia volta e desaparecer dentro do
prédio escolar, sem nunca olhar para trás. Eu fui deixado sozinho, perdendo minha chance de
dizer “obrigado” ou “o que você quer dizer com idiota? ” ou “Desculpe, eu vi sua calcinha!”.

Segurei o papel que ela havia me devolvido com uma mão e cocei a cabeça com a outra.
No mesmo momento, o sino tocou nos alto-falantes do telhado, sinalizando o final do
intervalo. Tomando isso como minha deixa, eu também virei meus pés na direção da porta.

– De lacinhos e preta, hum...

Eu murmurei, suspirando tanto de profunda satisfação quanto de profunda consternação.


Gostaria de saber se a brisa oceânica de Verão carregaria aquelas palavras por todo o

mundo.
Yahari Ore no Seishun Love Come wa Machigatteiru

Volume 2

Capítulo 1: E então, Yuigahama Yui decide

estudar

1–1
Um dos lados da sala dos professores havia sido transformado em
uma área de recepção. Uma partição separava um sofá preto de couro
e uma mesa de café do restante da sala. Havia uma janela próxima a
essa área, da qual era possível ter uma extensa vista da biblioteca.

Uma refrescante brisa de começo de Verão soprava pela janela aberta


e uma fina folha de papel dançava com o vento. Essa cena sentimental

roubou meu coração e eu segui os movimentos daquele pedaço de papel com meus olhos,
curioso sobre o modo como ele iria cair. Gentilmente, agora. Como uma lágrima escorrendo,
o papel flutuou em direção ao chão.

E então -- *rip*. Um estilete o perfurou como uma lança.

Um par de flexíveis pernas estava dobradas diante de mim. Eu não pude deixar de notar o
quão longas e torneadas elas eram, mesmo apertadas pela calça do paletó.

Ternos são muito elegantes, mas seu apelo muitas vezes deixa a desejar. Uma meia-calça
teria cumprido a exigência sexy de uma mulher vestindo uma saia, mas quando as pernas
estão escondidas por um terno e calças, elas parecem grosseiras e pouco refinadas. Se as
pernas de uma mulher fossem magras e não tivessem apelo sexual, não haveria um ponto em
ela usar terno e calças— ela iria parecer hedionda, na verdade.

Mesmo assim, as pernas diante de mim eram diferentes. Elas tinham um tipo perfeito
[1]
de simetria, tanto que não seria exagero dizer que a Proporção Áurea estava agindo.

Ah, mas isso não se aplica apenas às suas pernas. Seu colete apertado revelava a forma
suave de suas curvas, e essas curvas chegavam ao cume em seu esplêndido busto antes
de...

OH, ESTE É O MONTE FUJI? Seu corpo era afinado da cabeça aos pés como um violino— mas não
[2]
apenas um violino. Ela era orgulhosa, perfeitamente trabalhada como um Stradivarius .

O problema é que ela também tinha a forma de um terrível e irritado Buda, esculpido pelas
mãos de um gênio. Ela era assustadora de uma perspectiva artística, cultural e histórica.

Enquanto tragava distraidamente seu cigarro, minha professora de Japonês, Hiratsuka-


sensei, lançou um olhar fulminante em minha direção.

– Hikigaya. Você sabe onde isso vai dar, não sabe?

– Que-Quem sabe...

A intensidade nunca deixava seus grandes olhos e eu, rapidamente, olhei em outra direção.
Assim que fiz isso, Hiratsuka-sensei começou a estalar os nós dos dedos. Tudo o que eu
podia ouvir era o som da minha desgraça iminente.

– Não me diga que você não sabe?

– ‘Que-Quem sabe? Eu sei! ’ era o que eu ia dizer! Você está enganada! Eu sei muito
bem! Eu vou reescrever isso! Não me bata!

– Isso é óbvio. Poxa... e eu aqui, pensando que você tinha mudado um pouco.

– Meu lema significa que devo fazer tudo que tenho que fazer.

Eu disse isso com um sorriso elegante.

Eu pude sentir uma veia inflando na têmpora da Hiratsuka-sensei.

– ... então, no fim, minha única opção é bater em você, hum? Na TV, as pessoas batem
umas nas outras sempre que querem mudar a história.

– Na-na-não, você não pode fazer isso com meu corpo delicado. E, de qualquer modo, os
shows na TV tem pegado muito leve com a questão da violência, sabe. Isso realmente mostra a
sua idade!

– Por que você... Chocante Primeiro Tiro!

*Bonk.*

O grito dela não foi nada se comparado ao suave som que seu punho fez ao acertar meu
estômago.
– ... Urk.

Quando eu levantei minha cabeça com dificuldade—com minha vida pendurada


diante de meus olhos— Hiratsuka-sensei riu maldosamente.

– Se você não quiser experimentar meu ‘Aniquilante Segundo Tiro’, é melhor ficar calado
de agora em diante.

– Des-desculpe...

Pedi desculpas humildemente.

– Por favor, poupe-me do ‘Exterminante Último Tiro’.

Hiratsuka-sensei estatelou-se em sua cadeira, satisfeita. Ela estava sorrindo muito ao ver
como eu sucumbi rapidamente após seu ataque. Ela podia muito bem ser do tipo de pessoa
que, inconscientemente, se esquece do quão patéticas suas ações e palavras eram, mas ela
era, realmente, uma boa pessoa por dentro.

[3]
– ‘S-CRY-ed ’ é um ótimo programa, hum... Que bom que você entendeu rápido, Hikigaya.

Correção: ela era apenas patética. Parece que ela só era capaz de rir da própria piada.
Recentemente, eu tinha aprendido um pouco sobre os passatempos da Sensei.

Basicamente, ela gostava de mangás e de animes sangrentos. Eu estava aprendendo muita


merda, com a qual eu não me importava nem um pouco, sua folgada.

– Agora então, Hikigaya. Vou perguntar isso a você apenas para ser justa. Qual é o objetivo
dessa sua resposta de merda?

– Você, supostamente, não deveria julgar seus estudantes...

Teria sido mais fácil se eu apenas tivesse feito algo, mas uma vez que eu já havia canalizado
todos os meus pensamentos para aquele pedaço de papel, eu já não tinha mais respostas na
manga. Se ela não conseguia entender depois de ler aquilo, era problema dela.

Hiratsuka-sensei soprou a fumaça de seu cigarro e olhou furiosamente para mim, como se
ela pudesse ver através de mim e soubesse exatamente no que eu estava pensando.

– Eu entendo a sua personalidade corrompida, mas eu pensei que você tivesse crescido um
pouco. Será que passar um tempo com o Clube de Serviços não o influenciou nem um pouco,
afinal?

– Uh-huh...
Eu respondi, tentando me lembrar do tempo que passei no chamado ‘Clube de
Serviços’. O objetivo do Clube de Serviços era, para simplificar, ouvir sobre as
preocupações dos outros estudantes e ajudá-los a resolver seus problemas. Mas, na
verdade, ele não passava de uma área de isolamento, onde todos os desajustados da
escola eram reunidos. Eu acabei em uma situação na qual sou forçado a ajudar pessoas a
fim de corrigir minha personalidade corrompida, mas, uma vez que nada disso tinha a
ver comigo, meu nível de ligação emocional com o Clube era praticamente nulo. O que
posso dizer?

... Totsuka era fofo, no entanto. Sim, isso era tudo sobre o assunto.

– Hikigaya... De repente você ficou com um olhar deprimente. E você está babando.

– Hum? Oh, merda...

Eu limpei a boca, às pressas, com minha manga.

Isso foi perigoso. Alguma coisa havia acordado dentro de mim.

– Você não melhorou.

Hiratsuka-sensei prosseguiu após uma pequena pausa.

– Você apenas ficou ainda mais patético.

– Er, eu tenho a sensação de que estou longe de ser tão patético quanto você...

Eu murmurei.

– Mencionar s-CRY-ed é só o que você poderia esperar de alguém tão velho quanto—

– Exterminante...

– O que eu quero dizer é que é muito condizente com uma mulher adulta como você. Eu
realmente admiro o seu senso de dever no que diz respeito a divulgação dos clássicos. De fato!
Sério, você é incrível!

Eu disparei. Eu faria tudo que pudesse para evitar levar outro soco.

Funcionou, pois Hiratsuka-sensei baixou o punho. Porém, ela olhou para mim com seus
característicos olhos afiados, lembrando-me de um animal raivoso.

– Poxa...

Ela disse, por fim.

– De qualquer modo, reescreva seu Levantamento de Perspectiva de Local de Trabalho.


Quando terminar isso, eu quero que você conte todos os formulários, como punição por ter
ferido meus sentimentos.
– Sim, Madame.

Diante dos meus olhos, havia uma pilha de papeis cobrindo a mesa. Analisar folha
por folha era cansativo, como o trabalho em uma fábrica de pães. Ou talvez como o de um
salva-vidas.

Ficar sozinho com minha professora não era, exatamente, um desenvolvimento que fazia
meu coração bater mais forte e, obviamente, se ela me batesse, eu não iria cair e acabando
tocando os seios dela, como aconteceria com um pervertido acidental. Esse tipo de coisa não
passava de besteira. Quanta mentira! Eu exijo um pedido de desculpas de cada escritor de
simuladores de encontro e de cada autor de light novels que estão por aí.

[1] É uma loja de ramen localizada na rua ao invés de em um prédio


1–2

Na Escola Municipal de Ensino Médio de Chiba, existe um evento chamado de ‘Visita ao


Local de Trabalho’, que acontece quando você está no Segundo Ano.

Os formulários de pesquisa são utilizados para determinar a ocupação nas quais os


estudantes estão interessados em aprender sobre, e em seguida, a escola manda esses
estudantes a esse local de trabalho. Isso fazia parte do novíssimo programa educacional, que
visava instalar nos corações de todos os estudantes o desejo de trabalhar em alguma empresa.
De fato, não era nada demais, sério. Todas as escolas, provavelmente, tinham um evento
assim.

O problema era que ele acontecia logo depois dos exames semestrais. Em outras palavras,
fazendo com que esse esforço ocasional roubasse meu precioso tempo depois dos testes.

– Então, por que sou obrigado a fazer isso exatamente nesse momento do ano...?
Eu perguntei, já me contorcendo.

Enquanto eu organizada a pilha de formulários de ocupação, Hiratsuka-sensei sentou-se na

parte livre da mesa, estampando um grande sorriso em sua boca.

– É exatamente porque estamos nessa parte do ano, Hikigaya.


Ela respondeu.

– Você não ouviu que deverá escolher seu curso no Terceiro Ano logo após as férias
de Verão?

– Não escutei nada, Madame.

– Você deveria ter escutado isso hoje na sala de aula.

– Bom, no meu caso, eu estava fora da sala de aula, então eu não ouvi nada.

[4]
Não, verdade, por que isso era chamado de ‘sala de aula’? Não era sua casa . Eu
realmente odiava isso. E mais, eu estava cansado de todo esse sistema de ter suas funções
atribuídas na sala de aula. Você tem a chance de se levantar e ir para a frente da classe
distribuir ordens, mas eu gostaria que os outros parassem de ficar completamente
quietos quando eu faço isso. Se alguém como o Hayama desse as ordens, todos
ficariam sorridentes e escutariam atentamente, como se fossem uma pequena família
feliz, mas quando eu faço isso, ninguém nem ao menos diz uma só palavra. O inferno? De fato,
ninguém nem mesmo me vaia, uma vez que todos fingem não estar ali.

– ... De qualquer modo, a visita ao local de trabalho acontece após os exames semestrais
e antes das férias de Verão. Eles acontecem nessa época para que vocês possam fazer seus
exames com uma proposta clara em mente, não para que vocês façam deles um conto de
fadas.

“Eu duvido que isso vá funcionar, no entanto”, acrescentou Hiratsuka-sensei, soprando


um anel de fumaça da ponta de seu cigarro.

A escola que eu frequentava, a Escola Municipal de Ensino Médio de Chiba, era dedicada a
preparar seus alunos para a Universidade. A maioria dos estudantes almejava seguir para a
Universidade e a maioria de fato fazia isso. Isso era algo que eles mantinham em mente desde
o momento em que entravam nessa escola.

Talvez fosse porque eu havia calculado que a Universidade seria uma moradia de quatro
anos desde o início, mas minha chamada ‘visão sobre o futuro’ era corrompida. Eu já havia
pensado claramente no que eu faria no futuro. Eu, definitivamente, não iria trabalhar.

– Parece que você está pensando em coisas inúteis...

Hiratsuka-sensei revirou os olhos.

– Então, você irá entrar no Departamento de Ciências ou no Departamento de Humanas?


Ela perguntou.

– Bem, sabe, isso é, eu—

Assim que eu abri a boca para falar, uma voz alta me interrompeu.

– Ah, aí está você!


Ela estava balançando a cabeça, de mau humor, com seu cabelo brilhante (que
estava completamente preso como se fosse uma bolinha) girando para trás e para
frente. Como de costume, ela vestia uma saia curta e uma blusa com dois ou três
botões abertos, revelando seu considerável busto. Yuigahama Yui, que eu havia conhecido
recentemente. O fato de termos nos conhecido apenas recentemente, embora ela estivesse na
minha classe, dizia muito sobre meus poderes de comunicação. Eles eram horríveis.

– Oh, ei, Yuigahama.


Disse a Hiratsuka-sensei.

– Desculpe, estou pegando o Hikigaya emprestado de você.

– Na-não é como se ele pertencesse a mim ou algo do tipo! Está completamente tudo bem!
Yuigahama negou veementemente, balançando a mão. Eu senti um certo traço de ‘eu não

preciso dele, de qualquer modo’ nessa fala. Ser completamente rejeitado desse jeito meio que

machuca um pouco...

– O que você quer?


Eu perguntei.

A pessoa que respondeu não foi Yuigahama, mas sim a garota que, de repente, apareceu
atrás dela. Seu cabelo preto (que estava amarrado em twintails) subia e descia,
acompanhando seus movimentos abruptos.

– Você não chegava na sala do Clube, então ela veio procurar por você. Yuigahama-san,
quero dizer.

– Um, você não precisava frisar essa última parte. Eu imaginei isso.

A garota de cabelo preto, cuja única coisa que salvava era o rosto, era Yukinoshita Yukino.
Como uma boneca de porcelana, ela era de tirar o fôlego de se ver, mas sua atitude era
mortalmente fria como se ela, também, fosse de porcelana. Como você pode imaginar pelo
modo como ela me tratou assim que me viu, nós não éramos melhores amigos.
Yukinoshita e eu estávamos no mesmo Clube – O Clube de Serviços – por hora.
Ela era a líder. E no curso de nossas atividades, nós estávamos com as mãos no
pescoço um do outro, apenas sendo capazes de nos dar bem em raras ocasiões.
Basicamente, tínhamos essa briga sem esperança acontecendo entre nós, na qual
derramávamos sal nas feridas um do outro.

Ao ouvir as palavras de Yukinoshita, Yuigahama cruzou os braços e fez uma careta.

– Eu saí por aí perguntando por você—


Ela reclamou.

– —E todo mundo estava tipo “Hikigaya? Quem é esse? ”. Isso foi tãããããããããão estranho.

– Você não precisa contar ao mundo sobre isso.

Como eu explico que essa garota atira uma bala em meu coração toda vez que fala assim?
Esse nem mesmo era o objetivo dela. Ela era algum tipo de sniper genial ou algo do tipo?

– Isso foi tãããããããããão estranho.

Ela repetiu, por alguma razão estúpida, franzindo a testa. Graças a ela, o conhecimento de
que ninguém na escola sequer sabia quem eu era, foi arrancado de minhas entranhas pela
segunda vez.

Bem, isso não era assim tão ruim, especialmente se você conhece todos na escola. Julgando
pelo modo como ninguém me conhecia após todo esse tempo, eu posso ter tropeçado na
ocupação que combina perfeitamente comigo: ninja.

– O que? Um, desculpe.

Desculpe, ninguém nem mesmo sabe que eu existo. Era a primeira vez que eu tinha que me
desculpar por algo tão triste.

Se eu não tivesse uma grande força de vontade, eu estaria chorando baldes de lágrimas.

– Na-não é grande coisa, mas...


Yuigahama começou a brincar com os dedos em frente ao peito.

– Is-isso é, um...

Ela disse timidamente, estufando as bochechas.

– Di-diga-me seu número de telefone? Sa-sabe! É estranho ter que sair por aí para procurar
você e, além disso, isso é embaraçoso... sempre que alguém me pergunta sobre nosso
relacionamento, eu apenas—não.

O rosto dela ficou vermelho, como se a mera lembrança de que ela havia saído para me
procurar fosse incrivelmente embaraçosa. Ela desviou os olhos de mim, cruzou os braços com
firmeza diante do peito e virou a cabeça para o lado. E então, ela me espiou com os cantos
dos olhos.

– Beeeeeeeem, isso realmente não é grande coisa, sério...

Eu disse, enquanto pegava meu celular. Assim que fiz isso, Yuigahama pegou o seu próprio
enorme e brilhante celular.

– O que é esse celular gigantesco?


Yuigahama respondeu.

– Hum? Ele não é fofo?

Ela insistiu, me mostrando o adorno em seu celular. Alguma coisa macia, que parecia um
cogumelo pendurado, que balançava de um lado para o outro. Era surpreendentemente
deprimente.

– Não me pergunte. Eu não entendo o senso de estética de uma vadia. Então você gosta de

[5]
coisas brilhantes? Você está falando sobre vidro, travessas de sushi ou o quê?

– Huum? Sushi? E não me chame de vadia!

Yuigahama olhou para mim com olhos de um monstro devorador de homens.


– Hikigaya. Se você disser ‘coisas brilhantes’, então você realmente não tem ideia
de como ser um estudante do Ensino Médio. Ninguém coloca vidro no sushi.

Hiratsuka-sensei interveio com os olhos brilhando.

– Mas isso é apenas sushi.

Esse olhar de ‘Eu disse uma coisa legal agora’ no rosto dela meio que me irritou...

– Se você não pode ver a fofura, isso não seria culpa desses seus olhos de peixe morto?
Minha reputação como autoridade em olhos de peixe morto estava só aumentando.

Tanto faz, eu desisto.

– Bem, tanto faz.


Disse Yuigahama.

– Você pode sincronizar seu celular com o meu, certo?

– Nah. Eu tenho um smartphone, então não posso.

– Huuum? Então eu tenho que digitar o número?


Ela reclamou.

– Que saco.

– Eu não preciso desse tipo de função. Eu realmente odeio celulares, de todo modo. Tome.
Eu entreguei meu celular a Yuigahama, que o pegou nervosamente.

– E-eu vou digitar, hum... Está tudo bem, eu acho. Espere, estou impressionada que você
entregue seu celular para alguém desse jeito.

– Meh, não tem problema se você ver o que tem no meu celular. De qualquer forma,
eu mando mensagens apenas para minha irmã mais nova e para a Amazon.

– Whoa! Verdade!? E espere— Amazon!?

Me deixe em paz.
Yuigahama começou a digitar no celular que eu entreguei a ela com uma
velocidade impressionante. Para meus olhos lentos, ela era o extremo oposto de
mim—rápida e afiada.

Eu decidi chamá-la de Ayrton Senna dos celulares.

– Você digita muito rápido...

– Hum? Isso não é nada. Talvez seus dedos estejam desacostumados, pois você não tem
ninguém para quem enviar mensagens?

– Estou ofendido.

Eu disse.

– Eu costumava enviar mensagens para garotas o tempo todo quando estava no


Fundamental.

*Thud.* Yuigahama derrubou o celular.

Oi, preste atenção no que está fazendo com minhas coisas.

– Sem chance...
1–3

– Um, você percebe o quão cruel foi sua reação agora?


Eu disse para Yuigahama.

– Não percebeu, não é? Trabalhe nisso.

– ... Oh.

Yuigahama recuou.

– Eu só, hum, não consigo imaginar você com uma garota, Hikki...

Ela pegou o celular caído, sorrindo timidamente.

– Garota idiota.
Eu disse.

[6]
– Eu sou como o joelho de uma abelha . Permita que eu mostre a você o quanto eu sou
incrível. Quando nossas classes mudaram e todos estavam trocando números de telefone, eu
era tão popular que tudo o que eu fiz foi pegar meu celular e olhar, sem jeito, ao redor, até
que essa garota me chamou e disse: “Um, tudo bem, vamos trocar nossos números”.

– “Tudo bem”, ela disse. A gentileza pode ser uma dama cruel.

Um genial sorriso surgiu no rosto de Yukinoshita.

– Poupe-me de sua pena! Nós totalmente enviamos mensagens um para o outro depois
disso.

Yuigahama olhou para o celular.

– Que tipo de garota ela era?

Ela perguntou com indiferença. Estranhamente, porém, o movimento veloz de seus dedos

parou completamente.
– Vejamos...

Eu disse.

– Ela era uma garota saudável e reservada. Ora, ela era tão saudável que quando mandei
uma mensagem para ela por volta de sete da noite, eu recebi uma mensagem, na manhã
seguinte, dizendo: ‘Desculpe, eu estava dormindo— vejo você na escola—‘. Além disso, ela era
tão discreta e graciosa que era embaraçoso para ela falar comigo na escola.

Yuigahama colocou a mão sobre a boca.

– Oh, isso quer dizer...

Ela sufocou um soluço e lágrimas escapavam de seus olhos.

Ela nem mesmo precisava que eu apontasse o quão patético eu era. Ela claramente havia
percebido isso por conta própria.

– Então, ela ignorou sua mensagem ao fingir estar dormindo. Hikigaya-kun, pare de desviar
seus olhos da verdade. Encare a realidade.

Você disse alguma coisa, Yukinoshita-san? O que há com esse olhar alegre em seu rosto,
Yukinoshita-san? Foda-se você também, Yukinoshita-san!

– ... Eu sei tudo o que há para saber sobre a realidade. Eu sei tanto que poderia muito
bem criar uma Hikipédia.

Pffft, hahahaha! Isso certamente trouxe antigas memórias. Eu era tão inocente
naquela época. Eu nem suspeitava que aquela garota havia pedido meu número de
telefone e respondido minhas mensagens porque sentia pena de mim. Eventualmente, eu
acabei percebendo isso após duas semanas, quando ela parou de responder as
mensagens, não importando quantas eu enviasse. E, assim, eu parei.

E, então, um dia eu escutei as garotas conversando.


– Aquele garoto, o Hikigaya, tem enviado mensagens para mim. Eu gostaria
que ele parasse. É medonho.

– Aposto que ele gosta de você, Kaori...!

– Eew, que nojo!

Eu quis murchar e morrer ali mesmo. E também, eu, realmente, realmente, gostava dela!
Agora, eu me sinto mal pelo meu eu que adicionava emoticons em todas as mensagens. Eu

achava que usar corações seria nojento, então usava estrelas, sorrisos e notas
musicais. Apenas pensar sobre isso já me faz sentir um frio na espinha *OMG VDD*.

– Hikigaya...

Hiratsuka-sensei disse, evidentemente tocada.

– En-então eu você trocaria números comigo? Eu prometo que vou responder


suas mensagens. Eu não vou fingir estar dormindo.

Assim que ela disse isso, ela pegou meu celular das mãos de Yuigahama e começou a socar
o número dela. O nível de pena que ela sentia de mim estava fora da curva.

– Um, você não precisa boa comigo desse jeito.

Quero dizer, trocar mensagens com sua professora é algo realmente triste. Não é nada
diferente de dar chocolates para sua mãe todos os anos no Dia dos Namorados. Foda-se a
pena dela. Eu preferia ser submetido a indiferença de Yukinoshita em horas assim.

No fim, as duas digitaram seus números no meu celular e o devolveram a mim. Apenas
uma pequena quantidade de dados havia sido adicionado por elas, então não era como se algo
tivesse realmente mudado, mas, por alguma razão, eu sentia o peso por trás da ação delas.
Então esse é o peso por trás das ligações, hum?

... Bastante frágil, sério. É ridículo o quanto o meu antigo eu teria ficado desesperadamente
apegado a essa ínfima quantidade de kilobytes de informação. Enquanto eu pensava em como
essas memórias eram inúteis hoje em dia, eu abri meu celular. E então, eu vi um nome escrito
nele.
☆★YUI★☆

Oh, vamos lá, como isso deveria ser listado? Não começava com uma letra do alfabeto. E
além disso, isso parecia com um endereço de spam, não importava o quanto eu olhasse para
isso. Bastante compatível com Yuigahama e seu jeito de vadia. Eu fechei meu celular sem olhar
mais.

Uma vez que eu estava ficando muito bom em fazer trabalhos estranhos, eu tinha
apenas mais um par de formulários a esquerda. Comecei a guardá-los rapidamente.

Hiratsuka-sensei visivelmente limpou a garganta, olhando de soslaio para mim.

– Hikigaya, já é o bastante. Obrigada pela ajuda. Você pode ir agora.


Ela disse enquanto acendia, sem olhar, o cigarro em sua boca.

Me pergunto se a onda de pena anterior teria causado um impacto permanente nela.


Hiratsuka-sensei estava sendo estranhamente gentil. Ou talvez fosse mais correto dizer que ela
estava apenas relativamente falando de forma mais gentil e que ela não estava agindo de
modo mais gentil do que uma pessoa normal.

– Certo. Para minhas atividades do Clube, então.

Eu peguei minha mochila, que estava caída sobre o carpete, e a joguei sobre meu ombro
direito. Dentro dela, havia uma grande quantidade de livros contendo a matéria dos exames
semestrais e um mangá, o qual eu planejava ler na sala do Clube.

Seria, provavelmente, outro dia desperdiçado, uma vez que ninguém apareceria na sala do
Clube para requisitar nossos serviços.

Caminhei com Yuigahama em meus calcanhares. Eu gostaria que ela se apressasse e fosse
logo para casa. Pare de me seguir, poxa... Apenas quando eu já estava diante da porta, escutei
uma voz atrás de mim.
– Oh, verdade. Hikigaya, eu esqueci de te dizer isso antes, mas vocês irão em grupos
de três na próxima visita ao local de trabalho. Vocês podem escolher seus próprios
grupos, então pense a respeito.

Eu não podia acreditar em meus ouvidos.

Assim que ela disse isso, eu murchei. Meus ombros caíram e tudo mais.

– ... Oh, cara. Eu realmente não quero que meus colegas de classe venham para minha casa.

– Então você está realmente empenhado em fazer sua visita ao local de trabalho em casa,
hum...?

Hiratsuka-sensei estremeceu diante da minha vontade de aço.

– Eu absolutamente desprezo a ideia de ter que escolher meu próprio grupo.

Eu declarei.

– Hum? Que tipo de merda você está—

Eu me virei de repente, sacudindo meu cabelo para cima ao mesmo tempo. E então, com
meus olhos abertos o máximo possível, eu olhei para Hiratsuka-sensei com toda a intensidade
que meus globos oculares podiam reunir. Enquanto estamos nisso, meus dentes também
estavam brilhando.

– A dor de um solitário não é grande coisa! Estou acostumado com isso!

– Isso é realmente triste...

– Qu-que idiotas vocês são! Um super heroi é sempre um solitário, sabem. E super herois
são legais. Em outras palavras, ser um solitário é sinônimo de ser legal.

– De fato, existem super herois que dizem que os únicos amigos dos quais você precisa são
o amor e a
[7]
coragem .
Disse
Yukinoshita.

– Eu sei, certo? Ei, você sabe bastante sobre esse gênero.

– Sim, estou interessada nesse tópico. Quando foi que você percebeu que era uma criança
que não tinha nem amor, nem coragem e nem amigos, eu me pergunto...

– Esse é um interesse bastante perverso...

Mas, bem, Yukinoshita tinha um argumento. Eu não tinha amor, coragem ou amigos.
Aquelas eram apenas palavras bonitas, disfarçando a verdade com mentiras e ficções. No
coração, elas não eram nada além de palavras de desejos a se realizar e de autossatisfação. E
[8]
então, eu não tenho amigos. Enquanto estamos nisso, a bola também não é minha amiga .

Gentileza, pena, amor, coragem, amigos— e sim, até mesmo a bola— eu não precisava
disso.
1–4

Quarto andar do edifício especial, ala leste— lá você poderia encontrar uma sala com vista
para os jardins, se fosse esse o seu desejo.

Os sons da juventude entravam pela janela aberta. As vozes dos diligentes garotos e
garotas no meio de suas atividades de Clube ecoavam ao redor da sala, misturando o som
de bastões de metal e assobios com as clarinetas e trompetes da banda.

Em meio a essa maravilhosa trilha sonora da juventude, o que nós, do Clube de Serviços,
estávamos fazendo? Absolutamente nada. Eu estava lendo o mangá shoujo que havia pego
emprestado com minha irmã, Yukinoshita estava imersa em um livro de bolso com capa de
couro e Yuigahama estava brincando, ruidosamente, com seu celular.

Como de costume, no que se refere a vivermos nossa juventude ao máximo, nós não temos
nenhum ponto.

Que tipo de Clube idiota era esse, em que tudo o que fazíamos era perder tempo? Era
como se o Clube de rugbi se transformasse em um Clube de mahjong. Ouvi dizer que eles
jogavam partidas antes e depois dos treinos. Por causa disso, no dia seguinte, você sempre
podia ver as moedas do Clube de rugbi (a que circulava entre os membros do Clube de rugbi.
Dinheiro totalmente falso. Sua principal característica era sua semelhança com o Iene
Japonês.) espalhadas pela sala de aula e nos corredores. Se você me perguntasse, era apenas
mahjong, mas para aqueles caras isso era uma forma de comunicação e mais uma página de
sua brilhante juventude.

Quantos desses caras que participam desses jogos estavam cientes das regras do
mahjong antes de começarem a jogar?

Não haviam muitas pessoas que jogavam Shangai ou Strip Mahjong no fliperama de
Tsudanuma como eu fazia. Tenho certeza de que esses caras apenas estudaram e aprenderam
as regras do mahjong apenas para poderem desafiar uns aos outros. Aliás, as regras são
completamente diferentes para o Shangai Mahjong, embora você possa usar as mesmas
peças. Em outras palavras, você só poderia aprender as regras do Strip Mahjong por uma
razão. As pessoas realmente colocam energia quando seios estão em jogo.
Ter um elemento comum é algo absolutamente necessário quando se trata
de fazer amigos. Era a esse tipo de laia que Yuigahama Yui pertencia.

Esses pensamentos passaram pela minha mente enquanto eu terminava de checar se os


personagens haviam, de fato, feito o trabalho sujo no mangá shoujo que eu estava lendo.
Quando eu terminei, voltei meu olhar na direção da Yuigahama. Ela estava segurando seu
celular em uma das mãos, com um sorriso vago flutuando em seus lábios, mas ela suspirava
profundamente— só que de forma tão sutil que era quase inaudível. Eu não podia escutar o
som de seus suspiros, mas eu percebi os quão profundos eles eram a partir do quanto o peito
dela murchava.

– O que houve?

Não fui eu quem perguntou— foi Yukinoshita. Ela parecia ter notado o estranho
comportamento de Yuigahama mesmo não tendo tirado os olhos do livro. Talvez ela tenha
escutado aquele suspiro. Nada mais do que você poderia esperar do Devilman, cujas orelhas
[9]
eram olheiras do inferno !

– Oh, uh... nada, eu acho.


Disse Yuigahama.

– Eu apenas recebi essa mensagem estranha, então eu estava toda ‘uau!’.

– Hikigaya-kun, a menos que você queira parar no tribunal, eu sugiro que você pare de
enviar essas mensagens obscenas agora mesmo.

Então ela estava assumindo que aquilo era um caso de assédio sexual e que eu era o
culpado.

– Não fui eu...

Eu disse.

– Onde está a prova? Eu disse para mostrar a prova.

Com um sorriso, Yukinoshita jogou o cabelo por sobre o ombro.

– Você apenas provou meu argumento. Essas são, claramente, as palavras de um criminoso.
‘Onde está a prova? ’, ‘Não tem como eu estar na mesma classe de um assassino’.
– Essa última parece mais com a fala da vítima...

Eu disse. Ela pede uma flag da morte.


Yukinoshita assentiu com o que eu disse.

– Talvez você esteja certo.

Ela respondeu enquanto virava a página de seu livro. Parecia que, de todas as coisas,
ela estava lendo uma novel de mistério.

– Nah, não parece que o Hikki seja o culpado.


Yuigahama disse, meio minuto tarde demais.

A mão de Yukinoshita, que estava a caminho de virar a página, de repente parou.


‘Onde está a prova? ’, ela perguntou apenas com seus olhos. Cara, ela queria tanto assim
que eu fosse um criminoso?

– Hmmm, bem, sabe, a mensagem é sobre minha classe. Então isso significa que o Hikki não
tem nada a ver com isso.

– Mas eu estou na sua classe.

Eu disse.

– Isso faz sentido. Disse Yukinoshita.

– Nesse caso, Hikigaya-kun não poderia ser o culpado.

– Então ela aceita essa evidência...

Olá todo mundo, aqui é o Hikigaya Hachiman, da Classe F do Segundo Ano.

Eu estava tão atordoado que fiz uma apresentação dentro da minha cabeça. Porém,
eu havia escapado das acusações criminais, então talvez isso tenha sido uma coisa boa.

– Beeeem, acho que essas coisas acontecem de tempos em tempos.


Yuigahama disse solenemente enquanto fechava seu telefone com um estalo.

– Não vou me preocupar muito com isso.


Era como se ela estivesse falando por uma profunda experiência própria.

Ela disse ‘de tempos em tempos’, mas eu nunca recebi uma mensagem desse remetente,
então apenas você sabe disso.

... Boa coisa eu não ter amigos, hum!?

Não, mas é sério, pessoas com muitos amigos tem que passar por muita merda.
Honestamente, isso parecia ser um trabalho duro. Seguindo essa mesma nota, eu estava livre
das ideias mundanas e vergonhosas que meus colegas de classe tinham. Com todos os meus
pensamentos profundos, eu sou quase o próprio Budha. Eu sou tão demais.

E com isso, Yuigahama se recusou a tocar em seu telefone.

Eu não tinha como adivinhar o que estava escrito na mensagem, mas provavelmente não
era nada bom. Yuigahama era uma idiota, para dizer o mínimo, e ela era do tipo de idiota que
usava todo o seu coração. Ela era uma completa imbecil que sempre se preocupava com
Yukinoshita e comigo e, por isso, ela também tinha um lado que sempre ficava desanimado
com certas coisas.

Como se vigorosamente estivesse mandando sua depressão para longe, Yuigahama


recostou-se na cadeira e esticou os braços.

– ... Não tem nada para fazer.


1–5

Sem seu telefone para matar tempo, Yuigahama escorou-se preguiçosamente sobre sua
cadeira. Fazer isso fazia com que seus seios escapassem involuntariamente, o que
realmente me deixou quente e incomodado, então voltei meu olhar para Yukinoshita, cujos
seios não instigavam nenhuma reação.

Yukinoshita, cujos seios eram a epítome triunfante de ‘Seguros para Trabalhar’, fechou seu
livro.

– Então, por que você não estuda, já que não tem nada para fazer? Ela

disse para Yuigahama, com um tom de desaprovação em sua voz.

– Os exames semestrais estão chegando, afinal.

Pela forma como ela falou, Yukinoshita carecia de qualquer senso de urgência. Para ela,
este era totalmente o problema de outra pessoa. Mas havia uma razão para isso— para
Yukinoshita, os exames semestrais não passavam de mais uma obrigação acadêmica. Essa
galinha havia ficado em primeiro lugar na classificação dos estudantes em praticamente
qualquer coisa que pudesse ser testada. Por isso, era possível dizer que nem mesmo os
exames semestrais seriam capazes de irritá-la.

Yuigahama virou-se, parecendo de alguma forma irritada, como se ela também estivesse
bem ciente desse fato.

– Qual é o ponto em estudar?

Ela murmurou com o canto da boca.

– Ninguém usa essas coisas na vida real...

– Você acaba de soltar a fala padrão de um burro!

Eu exclamei. Foi tão terrivelmente previsível que me pegou desprevenido. É sério que ainda
haviam pessoas que pensavam assim hoje em dia?
Inflamada por ter sido chamada de ‘burra’, Yuigahama agarrou-se
desesperadamente a sua posição.

– Não há nenhum uso para o estudo, é isso que estou dizendo! A vida no Ensino Médio é
curta e esse tipo de coisa é perda de tempo! Você só vive uma vez, cê sabia?

– Mas isso significa que você não pode estragá-la!

[10]
– Meu Deus , você é um cobertor molhado!

– Eu prefiro pensar a longo prazo.

– No seu caso—

Disse Yukinoshita.

– —Você falhou em cada um dos aspectos da vida no Ensino Médio.

Muito bom. Você não pode ganhar todas. Espere, vamos lá! Ela estava dizendo que eu
não tinha uma vida? Que eu deveria checar minha existência terrena da mesma forma como
as pessoas fazem o check-out em hotéis?

– Quer saber? Eu não falhei... eu apenas sou diferente das outras pessoas. É a minha
personalidade! Todo mundo é diferente, todos são bons à sua maneira!

– Si-sim! É a minha personalidade! Ignorar os estudos faz parte da minha personalidade!


Nós dois gritamos clichês vazios no exatamente ao mesmo tempo. Mas, sério,

‘personalidade’ é uma palavra muito conveniente.

[11]
– Kaneko Mizuki teria se revirado no túmulo se escutasse isso ...

Yukinoshita suspirou, com uma mão sobre o rosto.

– Yuigahama-san, o que você disse antes, sobre o estudo ser algo inútil, está incorreto. De
fato, estudar é o ato de encontrar o seu próprio significado. Por causa disso, pessoas
diferentes possuem diferentes razões para estudar, mas isso não é razão para negar
inteiramente o propósito de se estudar.

Era um argumento sólido. Tão sólido que, de fato, parecia ter saído diretamente da cabeça
de um adulto— o que significava que ele iria entrar por um ouvido e sair pelo outro. Mesmo
uma declaração aparentemente simples como ‘O que está estudando? ’ causaria esse efeito.
Então, quem estava tentando se tornar um adulto nos dias de hoje, não receberia a
mensagem.

Na verdade, eu não estava mostrando o quanto sou inteligente ao chegar a essa conclusão.
Ao que parece, a única pessoa que verdadeiramente acreditava nisso era Yukinoshita.

– Mas você é inteligente, Yukinon...

Yuigahama disse com uma voz baixa.

– Eu apenas não fui feita para estudar... e, além disso, ninguém do meu grupo faz isso...

Os olhos de Yukinoshita, de repente, estreitaram. Percebendo que a temperatura da sala


havia caído pelo menos uns dez graus devido ao silêncio gélido de Yukinoshita, Yuigahama
parou de falar, assustada. Era como se ela ainda lembrasse de todas as coisas desagradáveis
que Yukinoshita havia dito a ela uma vez antes.

Ela desabou sobre sua própria vontade.

– O-Okay, eu vou fazer isso direito!


Ela insistiu veementemente.

– D-De todo modo! Hikki, você por acaso estuda!?

Ooooh, então ela tinha evitado a ira de Yukinoshita. Parecia que seu plano astuto era
empurrar o peso do ataque para cima de mim. Boa tentativa, Yuigahama.

– Sim, eu estudo.
Eu disse.

– Traidor! Eu pensei que você fosse um burro igual a mim!


– Por favor, vadia. Eu estava em terceiro lugar na classificação de
Japonês. Fiz uma pausa dramática.

– Além disso, eu também não sou ruim em nenhuma das outras matérias.

– Sem chance... eu não fazia ideia...

Aliás, eles não divulgavam os resultados dos testes nessa escola. Eles apenas diziam
pessoalmente a sua classificação e a sua nota. Como resultado, enquanto as pessoas

revelavam suas posições uma para as outras, ninguém sabia qual era minha posição—
porque não havia ninguém para quem eu pudesse contar. Praticamente ninguém me
perguntava sobre minha classificação.

Obviamente, em geral ninguém me perguntava nada sobre mim mesmo.

– Então isso significa que, na verdade, você é inteligente, Hikki!?

– Isso não é muito para se gabar.


Disse Yukinoshita.

– ... Por que você está respondendo por mim? Bem, é claro que minhas notas não são nada
se comparadas com as da Yukinoshita, mas elas estão longe de ser horríveis.

Isso significava que Yuigahama era, de longe, a mais burra entre nós três.

– Aww.

Ela lamentou

– Então eu sou a única personagem idiota aqui.

– Não salte para essa conclusão, Yuigahama-san.

O tom e a expressão frios de Yukinoshita haviam descongelado e seus olhos mostravam


uma clara convicção.
Ao escutar essas palavras, Yuigahama iluminou-se como uma lâmpada.

– Yu-Yukinon!

– Você não é um personagem de ficção. Sua estupidez é uma característica natural.

– Waaaaaaah!

Yuigahama bateu suas mãos contra o peito de Yukinoshita.

Olhando para aquilo como se não tivesse a menor ideia de como reagir, Yukinoshita deixou
escapar um tenso e curto suspiro.

– O que eu venho tentando dizer é que é tolice tentar medir o valor de uma pessoa
unicamente por suas notas ou por sua classificação. Existem seres humanos
notavelmente inferiores, mesmo entre os estudantes no topo da classificação.

– Ei, por que você está olhando para mim enquanto diz isso?

Eu perguntei. Por um breve momento, olhei em todas as direções.

– Vou dizer isso apenas por garantia, mas você sabia que eu estudo porque gosto de fazer
isso?

– Então é isso...

– Isso porque você não tem nada melhor para fazer.

As duas garotas falaram em uníssono. Yuigahama soltou uma única exclamação de


surpresa, enquanto a fala mais longa pertencia à Yukinoshita. Suas testas estavam
pressionadas uma contra a outra sem que elas notassem isso.
– Sim, mas o mesmo vale para você. Eu disse para Yukinoshita.

– No entanto, você não


negou isso. Ela disse.

– Negue isso já! Isso está me fazendo ficar meio triste!


Yuigahama gritou.

Yukinoshita falou com a frieza de sempre, mas Yuigahama estava cheia de empatia.

Yuigahama abraçou Yukinoshita calorosamente, como se ela estivesse tentando acalmar as


feridas no coração de Yukinoshita. Yukinoshita tinha um ‘... não consigo respirar! ’ escrito em
todo o seu rosto, embora não dissesse sequer uma palavra para manifestar seu desconforto.
Durante todo esse tempo, Yuigahama continuou a apertá-la com força.
Oi, vamos lá! E quanto a mim? Eu também não tenho nada melhor para fazer
além de estudar! Eu pensei nisso quando ficou claro que eu não iria haver abraços
ou apertos em minha direção. Bem, parando para pensar, suponho que fosse ser estranho
para mim se ela tivesse me abraçado.

Mas, falando sério, por que aqueles riajuus são sempre tão melosos uns com os outros?
Esfregar a pele é uma ocorrência natural, hum? Será que eles pensam que somos americanos,
hum? Eles mexem e batem uns nos outros por causa de uma piada, mas quando alguma coisa
séria acontece, eles se abraçam como se isso fosse a coisa mais inteligente a ser feita. Se esses
[12]
garotos e garotas pilotassem um Eva, eles nem mesmo seriam capazes de usar o Campo AT .
Não há limite para a gentileza em seus corações.
1–6

Enquanto ela estava segurando a cabeça de Yukinoshita e a acariciando, Yuigahama abriu


sua boca.

– Mas, cê sabe, Hikki, eu fiquei surpresa ao saber que você estuda tão duro.

– Nah, não é como se eu estudasse porque quero progredir com minha educação como os
outros estudantes nem nada assim. Eu não pretendo frequentar nenhum curso de Verão.

A Escola Municipal de Ensino Médio de Chiba era dedicada a preparar os estudantes para a
Universidade. Como resultado, a taxa de admissão na Universidade era bastante elevada.
Meus companheiros estudantes provavelmente já estariam com os exames de admissão
preenchendo seus cérebros a partir do Verão do Segundo Ano do Ensino Médio. Estava
chegando a hora deles começarem a se preocupar se iriam se preparar no Seminário
Tsudanuma, no Cursinho Kawai ou na Escola Inage-Kaigan.

– Oh, mas tem uma coisa.

Eu acrescentei.

– Eu estou almejando uma bolsa de estudos na minha escola preparatória.

– ... Bolsa de estudos?

Yuigahama repetiu.

– No seu caso, você não precisa almejar nada, uma vez que já chegou ao seu auge.
Disse Yukinoshita.

– Você é muito parecido com lixo industrial.

– O que é isso, Yukinoshita? Você está sendo gentil hoje. Eu pensei que você fosse negar o
meu direito de viver como eu quero.
– Uma excelente sugestão.

Yukinoshita pressionou um dedo contra a testa, com um olhar desagradável no rosto.

– Ei, ei, o que é uma bolsa de estudos?

Parecia que Yuigahama estava perdida desde a parte da ‘bolsa de estudos’. Uau, sério,
Yuigahama-san?

– Uma bolsa de estudos é quando você recebe dinheiro para garantir seus estudos.
Yukinoshita explicou.

– Muitas escolas preparatórias isentam os bons alunos de pagarem as taxas de matrícula.


Eu disse.

– Basicamente, se eu tiver uma bolsa de estudos, o dinheiro que meus pais usariam para
pagar a escola preparatória ficaria para mim.

Eu fiz uma pequena dança quando percebi isso. Para o aberto descontentamento da minha
irmãzinha, eu comecei a improvisar no meu quarto.

Meus pais iriam relaxar se eu pudesse estudar diligentemente com um objetivo claro
em mente e colher os resultados para justificar seu investimento. E eu poderia embolsar o
dinheiro enquanto estava nisso. Era um plano engenhoso, se posso dizer.

Porém, as duas garotas pareciam duvidar bastante.

– Isso não é fraude...?

– Não há problema para ele se você não puder dizer que ele está desfavorecendo seus pais
ao adotar uma abordagem orientada para o resultado de seus estudos. Além disso, aceitar
um estudante com bolsa de estudos é responsabilidade apenas da escola preparatória. De
acordo com a personalidade corrompida desse garoto, você não pode nem mesmo chamar
isso de fraude.

Yukinoshita disse sarcasticamente.


E-Então o que, okay? Uma pequena mentira branca não machuca ninguém.

Yuigahama olhou para mim.

– Então esse é o seu plano de vida, hum...

Ela murmurou. E, então, ela se agarrou a Yukinoshita ainda mais forte do que antes.
Assustada com sua intensidade, Yukinoshita olhou para o rosto de Yuigahama com uma

preocupação provisória.

– Aconteceu alguma coisa...?

– Oh, um, nada, eu acho...

Yuigahama disse, não enganando ninguém com sua risada falsa.

– Eu estava apenas pensando em como vocês são inteligentes, eu não sei se iremos nos
encontrar algum dia depois de nos formarmos.

– De fato...

Yukinoshita disse com um leve sorriso.

– Eu, pelo menos, não vou ver o Hikigaya-kun nunca mais.

Eu me limitei a dar de ombros. Intrigada com minha falta de reação verbal, Yukinoshita
olhou para mim interrogativamente. Me dê um tempo, eu estou concordando com você,
Yukinoshita.

Bem, elas existem nesse mundo: pessoas que estudam com seus traseiros voltados para
sua entrada nas maiores instituições de elite, longe de seus companheiros de Ensino Médio.
Esse tipo de pessoa decide jogar fora seu passado e juram nunca mais encontrar seus antigos
colegas de classe outra vez. Yuigahama iria, mais ou menos, bater um prego na
cabeça dessas pessoas.

E então, haviam aquelas pessoas que se agarravam a suas amizades, mantendo contato
com as pessoas do seu grupo. Com a tecnologia, eles poderiam manter uma certa intimidade.
Assim, qualquer pessoa que se recuse a manter contato acaba sozinha. O que eu quero dizer é
que você só pode manter contato com os outros por meio de telefone ou e-mail, do contrário
você nunca os contactaria. Você poderia chamar isso de amizade? Tenho certeza que poderia.
Isso quer dizer que telefones celulares cuidam de tudo para todos e o número de amigos que
você tem é igual ao número de contatos que você tem no celular.

Yuigahama apertou seu celular com força enquanto sorria para Yukinoshita.

– Mas não tem problema desde que tenhamos celulares. Nós sempre poderemos nos
manter em contato!

– Sim, mas eu gostaria que você parasse de me enviar mensagens todos os dias...

Yukinoshita respondeu.

– Hum!? Vo-você não gosta disso...?

Yukinoshita ficou em silêncio por um momento, procurando as palavras.

– Algumas vezes é um extremo incômodo.

– Que franca!

... Essas duas realmente se davam muito bem, no entanto. Desde quando elas haviam
ficado tão próximas a ponto de trocarem mensagens? Nessa nota, eu não conseguia imaginar
como poderiam ser as mensagens de Yukinoshita.

– Que tipo de mensagens você tem enviado todos os dias?

– Uhh...
Disse Yuigahama.

– Coisas como ‘Eu comi um folhado de nata hoje☆’.

– Eu respondi ‘verdade’.

Disse Yukinoshita.

– ‘Yukinon, você pode fazer folhados de nata!? Eu quero tentar comer outros doces na
próxima vez!’.

– ‘Tudo bem’.

– Que habilidade brilhantemente convencional, Yukinoshita...

Yukinoshita desviou o olhar, culpada.

– Não há muito para contribuir.

Ela resmungou. Era triste o fato de eu saber como ela se sentia.

Não, falando sério, como você, supostamente, deveria responder a esse tipo de conversa
fiada? Coisas como o tempo eram um tópico de conversação, mas terminava logo depois de
‘Bom tempo, hum?’ e de você responder ‘Sim’. Era como dizer ‘Er, um, um anjo passou.

Ehehehe’ seguido por um silêncio estranho ao telefone.

– Sim... eu não dou muita bola para celulares.


Eu disse.

– Acho que eles são um meio de comunicação muito imperfeito.


Acho que essas coisas de celulares são um certo tipo de dispositivo que enfatizam
o comportamento solitário. Você pode abandonar seu telefone mesmo quando há
uma chamada não atendida, você pode bloquear números, você pode se recusar a ler suas
mensagens—coisas assim. Você pode escolher aceitar ou negar qualquer tipo de
comunicação dependendo do seu humor no momento.

– De fato. O receptor é obrigado a responder à mensagem ou largar o celular.


Yukinoshita assentiu firmemente aos meus resmungos ocasionais.

Ela não é ruim quando você se limita a olhar para o rosto dela. Parando para pensar nisso,
provavelmente essa é a razão pela qual diversas pessoas pedem para trocar números de
telefone com ela.

Quanto a mim, teve essa única vez em que eu pedi a uma garota bonita para trocarmos
números de telefone. Isso foi quando eu era apenas um inocente estudante do Fundamental.
Toda vez que eu pedia o número dela, ela me dizia “Deeeeeeesculpe, minha bateria acabou
agora mesmo. Eu vou te mandar uma mensagem mais tarde, okay?’. Era um mistério como ela
nunca me passava seu número e, mesmo assim, planejava me enviar uma mensagem. Eu
ainda estou esperando o dia em que ela fará isso...

– Além disso, eu não leio nenhuma mensagem que me cause desgosto...

Yukinoshita admitiu, como se fizesse uma reflexão tardia.

– Hmmm?

Yuigahama pressionou o dedo indicador contra o queixo e inclinou levemente a cabeça.

– Então, isso significa que... minhas mensagens causam desgosto a você?

– ... Eu não disse isso.

Yukinoshita, que, até o momento, esteve olhando o tempo inteiro para Yuigahama, desviou

o olhar.
– Elas são apenas um incômodo.

O rosto dela estava vermelho. Este era um tipo fofo de reação, eu acho, mas como não
tinha nada a ver comigo, eu estava pouco me lixando.

Ao ver a expressão de Yukinoshita, Yuigahama saltou e deixou escapar um gritinho.


Misteriosamente o bastante, Yukinoshita virou-se com um olhar amolecido no rosto—ela
estava completamente descongelada. Novamente, isso não tinha nada a ver comigo, então
tanto faz.

– Oh, entendo. Mas telefones não são assim tão perfeitos, sim.

Yuigahama abraçou fortemente o corpo de Yukinoshita, como se doesse nela o quão


superficial era a ligação entre as duas.

– Eu vou estudar realmente duro, sim... seria incrível se eu pudesse ir para a mesma escola
que você.

Ela continuou em voz baixa, com seu olhar mirando o chão.

– Você decidiu a sua Universidade e essas coisas, Yukinon?

– Não, não em termos definitivos. No entanto, eu planejo entrar em uma Faculdade


de Ciências de prestígio Nacional.

– Você sabe tantas palavras difíceis!

Yuigahama exclamou. Em seguida, ela disse:

– Então, um... E quanto a você, Hikki? Eu pos-posso perguntar a você também.

– Artes Liberais em uma Universidade privada.

O sorriso voltou ao rosto de Yuigahama.


– Isso soa realizável!

Oh, vamos lá, o que é essa reação?

– Eu disse isso a você antes, mas estudar Artes Liberais em uma Universidade privada não é
caminhar no parque. Eu peço que você se desculpe com todos os Departamentos de Artes
Liberais do país. Eu e você não estamos no mesmo nível.

– Ooooh... então eu vou trabalhar duro, também!

Yuigahama tomou o lugar de Yukinoshita.

– E é isso. Nós teremos um grupo de estudos a partir dessa semana. Ela declarou em voz
alta.

– ... O que você quer dizer?

Perguntou Yukinoshita, em dúvida.

Yuigahama ignorou completamente a pergunta dela e prontamente começou a organizar as

coisas.

– Nós não temos atividades do Clube uma semana antes dos testes, então teremos tempo
livre durante a tarde, cês sabiam? Oh, Terça-feira é bom também, uma vez que os professores
terão uma excursão essa semana.

Sério, uma ‘excursão’? Que tipo de estudante do Ensino Médio diz isso?

A ‘excursão’ de que Yuigahama estava falando era um encontro do Departamento de


Pesquisa Educacional da cidade e, como a presença dos professores era obrigatória, as aulas
eram interrompidas e as atividades dos Clubes eram suspensas por um dia.
Bem, eu não poderia dizer que comprei a ideia de Yuigahama. Yukinoshita, a
estudante número um, que aspirava entrar em uma Faculdade de Ciências de
renome Nacional, e eu, o terceiro colocado em Japonês, dificilmente ficaríamos
desesperados antes dos testes. Além disso, eu tinha alguma medida de confiança em
relação a minha irmãzinha imbecil e tudo— minha irmãzinha imbecil, que não conseguia
tirar notas decentes. Sempre que ela tinha um problema que não conseguia resolver, eu
não poderia me importar menos em ajudá-la.

Se tem algo que eu odeio, é ter meu tempo privado tirado de mim. Eu nem sequer participo
das celebrações após o Festival de Esportes. Na-Não porque eu nunca sou convidado nem
nada assim! Minha razão é o quanto eu valorizo meu tempo e seria muito angustiante para
mim desperdiçá-lo com outras pessoas.

– Uhhh...

Apresse-se e discorde logo, eu pensei comigo mesmo, estalando a língua quando


Yuigahama recomeçou a falar.

[13]
– Então, nós deveríamos ir ao Saize de Chiba?

– Eu realmente não me importo...

Disse Yukinoshita.

– Yuigahama, um, sabe...

Se eu não me apressasse e dissesse algo logo, elas iriam, de fato, continuar com isso! Pare
de dar voltas e acabe logo com isso, eu pensei. Eu abri a boca.

– Essa é a primeira vez que vamos sair juntas, Yukinon!


Yuigahama me interrompeu.

– Só nós duas!

– De fato.
Disse Yukinoshita.

...

Então eu não havia sido convidado desde o começo.

– Hikki, você disse alguma coisa?


Yuigahama perguntou.

– N-nah... divirtam-se estudando.

É mais eficiente estudar sozinho, de qualquer modo.

... Eu não perdi, ok.


[1] Proporção Áurea é uma constante real algébrica irracional
denotada pela letra grega Φ (PHI).

[2] Stradivarius é o nome dado aos instrumentos de corda, principalmente


violinos e violoncelos, construídos por membros da família Stradivari.

[3] s-CRY-ed é um anime de 2001 que possui elementos shounen e batalhas


chuunibyou. O

nome dos ataques é retirado da dublagem americana.

[4] Na versão em Inglês, está sala de aula pode ser lido como homeroom, daí a
origem da piada.

[5] A piada aqui é que ‘coisas brilhantes’ também se refere a ‘hikarimono’, um tipo
de peixe

brilhante usado como cobertura de sushi.

[6] Joelho de abelha é uma expressão que significa, basicamente, que algo é doce.
Ela é baseada no fato de que os grãos de pólen prendem-se a região da perna das
abelhas onde estaria o joelho.

[7] Este é o lema do Anpanman. O Anpanman é um popular heroi entre as crianças


Japonesas.

[8] Uma referência ao lema do protagonista do icônico mangá de futebol Captain


Tsubasa: ‘A bola é minha amiga’.

[9] Uma referência a abertura de Devilman.

[10] Aqui ela usa uma gíria (Omigosh), que eu não soube traduzir de forma informal.

[11] Kaneko Misuzu é o poeta que escreveu Watashi to Kotori to Suzu to (Um
sino, um pássaro e eu), que caracteriza a linha ‘Todos são diferentes, todos
são bons’. É um excelente poema (que eu nunca li, essa é a opinião do cara
que traduziu para o Inglês) sobre aceitação das diferenças.
[12] Uma referência as habilidades especiais usadas pelos pilotos de Eva em
Neon Genesis Evangelion. Quanto mais psicologicamente confuso você
estiver, mais forte será o Campo AT criado.

[13] Forma reduzida de ‘Saizeriya’, uma famosa cadeia de restaurantes Italianos no


Japão.
Capítulo 2: Hikigaya Komachi com certeza vai se casar com seu
Onii-chan quando ela crescer (Eu acho)

Isso foi duas semanas antes dos exames semestrais.

Um estudante do Ensino Médio modelo é aquele que para em um restaurante


familiar, no caminho para casa, apenas para poder estudar. Aconteceu de eu parar em
um, no dia em que os professores visitaram o Departamento Municipal de Educação, o
que significava que as aulas acabaram mais cedo e as atividades dos Clubes foram
canceladas.

Eu estava fazendo um trabalho simples, apenas escrevendo algumas palavras em Inglês


repetitivamente. Eu era como um monge budista de antigamente. Você poderia até mesmo
[1]
dizer que eu era como o Shinran . Aliás, Shinran foi a pessoa que pregava a

doutrina ‘Confie nos outros para encontrar a iluminação’ – Ele era um grande homem. Esses
ensinamentos causaram uma grande impressão em mim e, então, eu também decidi confiar
em alguém. Eu pensava como um budista, então eu era totalmente como o Shinran.

Após alguns minutos, eu terminei de tomar notas e olhei para meus arredores enquanto
engolia meu chocolate. Foi quando isso aconteceu.

– Yukinon, desculpe por não termos ido ao Saize.


Disse a garota.

– Nós vamos provar o arroz à milanesa da próxima vez, okay? Eu também recomendo o Bife
de Hamburgo com vegetais e salsa, no entanto...

– Eu particularmente não me importo com onde vamos. Todos os lugares fazem as mesmas
coisas.

Disse a outra garota.

– Pensando nisso, Bife de Hamburgo é mesmo um prato Italiano?

Eu escutei vozes familiares.


– Oh!

Uma voz exclamou.

– ... Ah.

Disse a outra voz.

– Droga.

Eu reclamei.

Nós três vimos os rostos uns dos outros e nos deslocamos na direção uns dos outros. O
[2]
que, nós éramos a cobra, o sapo e a lesma ? Eu tinha a sensação de que eu era a lesma.

As duas garotas com uniforme escolar que haviam entrado eram Yukinoshita Yukino e
Yuigahama Yui. Para minha consternação, eu também as conhecia como minhas companheiras
de Clube. (Aliás, ‘companheiras de Clube’ é o termo usado para se referir aos membros dos
Clubes Culturais, ao contrário de ‘companheiro de time’ dos Clubes Esportivos. Essa era a
primeira vez que eu tentava usar esse termo.)

– Hikki, o que você está fazendo aqui?


Yuigahama perguntou.

– Er, um, estudando...

– Oooooh, não esperava ver você aqui. Yukinon e eu íamos estudar um pouco por aqui...

então, um, quer se juntar a nosso grupo de estudos?

Yuigahama disse enquanto seu olhar transitava entre meu rosto e o de Yukinoshita.

– Sim, tanto faz.


Eu disse.

– Bem, eu tenho que estudar as mesmas coisas que vocês.

– ... De fato.

Disse Yukinoshita.

– Ter você aqui não muda muita coisa.

Pela primeira vez, nós não estávamos mordendo a cabeça um do outro. Por um momento,
Yuigahama inclinou levemente a cabeça, surpresa com esse desenvolvimento, mas ela deixou
isso de lado com um “Okay, está decidido! ” e correu para minha mesa.

Nós ajudamos a pegar as novas bebidas no bar de bebidas self-service e, quando


estávamos para levá-las de volta para nossa mesa, Yukinoshita fixamente olhou para o balcão
vazio. Ela segurava seu copo na mão direita e, por alguma razão, uma pequena moeda na mão
esquerda. Depois de uma pausa, ela disse:

– Ei, Hikigaya-kun. Onde você coloca o dinheiro?

– Hum?

Ela estava me passando a perna? Será que nossa querida Yukinoshita-san realmente não
sabia como funcionava um bar de bebidas self-service? Que tipo de infância protegida ela
teve?

– Nah, você não precisa de dinheiro. É apenas, sabe.... como um buffet apenas de bebidas?

– ... O Japão é um país bastante generoso.

Yukinoshita disse, com um sorriso obscuro nos lábios, mostrando emoções que eu não
compreendia. Enquanto ela falava, ela desistiu de sua posição a minha frente na fila. E então,
ela observou intensamente enquanto eu enchia meu copo. A máquina soltava um zumbido à
medida que derramava coca no meu copo e Yukinoshita assistia ao que estava
acontecendo com brilho nos olhos.

Eu estava sem palavras. Apenas para ter certeza de que eu não estava enganado sobre o
que eu havia acabado de ver, eu coloquei meu copo sob a máquina de café expresso enquanto
estava nisso. Quando eu pressionei o botão para chocolate, ela deixou escapar um baixo “Oh,
então é assim que se faz isso...”.

Com a mão trêmula, Yukinoshita encheu seu copo com a bebida que queria e nós três
voltamos a nossos lugares juntos. Já estava na hora de nosso grupo de estudos começar.

– Okay, vamos começar.

Ao sinal de Yuigahama, Yukinoshita prontamente colocou seus fones de ouvido. Eu a olhei


de canto de olho e, então, coloquei meus próprios fones de ouvido.

Yuigahama olhou para nós com um olhar horrorizado no rosto.

– Hum!? Por que vocês estão ouvindo música!?

– Sabe, você supostamente escuta músicas quando está estudando.


Eu disse.

– Isso bloqueia o barulho.

– De fato.

Disse Yukinoshita.

– O fato de que eu posso me concentrar ao bloquear os ruídos, é uma excelente prova de


que isso é eficaz em minha motivação.

Yuigahama bateu o punho sobre a mesa.

– Não é assim que isso funciona! Não em grupos de estudo!


Ela protestou.

Com a reação de Yuigahama, Yukinoshita pôs uma mão no queixo, em um gesto que

indicava que ela estava pensando.

– Então, o que você propõe que façamos neste grupo de estudos?


Ela perguntou, por fim.

– Uhhhh, descobrir o que vai cair no teste, fazer perguntas sobre as partes que não
sabemos... claro, vamos procurar por algumas brechas e discutir algumas coisas e, então,
trocar informações. E... vamos conversar um pouco, eu acho?

– Isso é apenas ficar falando o tempo todo...

Eu disse.

Era um grupo de estudos sem nem mesmo um pouco de estudo. Você não poderia chamar
isso de perda de tempo?

– Estudar sempre foi uma atividade solitária por si mesma.

Yukinoshita disse, como se percebesse alguma coisa. Eu pensava da mesma forma.

Em outras palavras, se você fosse um solitário, estudar está completamente dentro das
suas habilidades! Eba, eba! Ei, isso é que diz aquele mangá que ensina sobre estudos em casa.

Yuigahama fez uma careta para a ideia de estudar desde o começo, mas quando ela viu o
modo como Yukinoshita e eu pretendíamos estudar em silêncio, ela deixou escapar um suspiro
resignado e começou a trabalhar.

E desse modo, cinco minutos se passaram. E então dez. E então uma hora.
Olhando para as duas, eu vi que o rosto de Yuigahama estava levemente
contorcido e ela mantinha sua mão parada. Yukinoshita, por outro lado, prosseguia
resolvendo problemas matemáticos sem nem sequer murmurar.

Eventualmente, Yuigahama voltou seu olhar para mim e perguntou, como se já não
pudesse mais suportar a intensa concentração.

– Er, um... então, sobre essa questão...

Ela perguntou corando, como se seu orgulho não pudesse lidar com a vergonha de
perguntar a mim, entre todas as pessoas, sobre a questão.

– O Efeito Doppler, hum...

Eu disse.

– Eu não sei muito sobre isso, uma vez que eu desisti das ciências. Agora, se você estiver

[3]
perguntando sobre Baki the Grappler , eu posso explicar para você, então, isso é bom
o bastante para você?

– Essa é a última coisa que eu quero! Luta profissional não tem nada a ver com nada!
Então isso não é bom o bastante, hum. E eu também tinha tanta confiança em meus

conhecimentos.

Yuigahama fechou seu livro e seu caderno, resignada, e bebeu seu chá gelado. Quando ela
ergueu o copo e olhou em volta, ela soltou um suspiro, como se tivesse percebido alguma
coisa.

Meu interesse foi despertado. Olhei na mesma direção e, de pé, havia uma garota de boa
aparência vestida com um uniforme de marinheira desalinhado, o que era fofo a sua maneira.

– É a minha irmãzinha...
Minha irmãzinha, Komachi, estava parada diante da registradora, sorrindo
alegremente. Ao lado dela, estava um garoto com uniforme do Fundamental.

– Droga, espere.

Eu disse, levantando-me do meu assento quando os dois estavam saindo. Porém, quando
eu saí do restaurante, os dois já não estavam mais a vista.

Relutantemente, eu voltei para dentro e foi nesse momento que Yuigahama falou:

– Então, uhhh, era a sua irmã mais nova?

– Ugh. Por que ela estava com um garoto em um restaurante familiar...?

Eu estava tão abalado que não poderia voltar a estudar. Não havia como a minha irmãzinha
estar matando tempo por aí em um restaurante familiar, ainda por cima com um garoto que
eu não conhecia.

– Ela devia estar em um encontro!


Yuigahama sugeriu.

– Isso é tolice... sem chance...

– Você realmente pensa assim? A Komachi-chan é bonita, então não seria nenhuma
surpresa se ela tivesse um namorado, certo?

– Eu não vou tolerar minha irmã mais nova ter um namorado quando eu não tenho uma
namorada— eu sou o irmão mais velho aqui! Irmãzinhas não devem superar seus irmãos mais
velhos!

Yukinoshita tirou seus fones de ouvido e olhou para mim.

– Por favor, pare de gritar essas declarações insípidas. Eu escutei você, mesmo usando
fones de ouvido.
Era como se ela estivesse me dizendo que estava segurando uma granada na mão.
Faça um movimento e está morto.

– Er, não. É só que, pensar que minha irmã estava com um misterioso e não identificado
garoto...

– Ele era um aluno do Fundamental, não importa como você olhe.

Yuigahama disse.

– Eu entendo que você esteja preocupado com a Komachi-chan, mas ela vai odiá-lo se você
ficar em cima dela, sabia? Ultimamente, o meu pai está todo tipo ‘Você tem um namorado? ’
e isso é uma total droga.

– Hahahaha. Seu pai não tem nenhuma pista! Em nossa família, nós confiamos que minha
irmãzinha não tem um namorado, então ninguém pergunta a ela. Então, ver tudo isso foi uma
pena, para ser honesto.

Eu disse.

– Pensando nisso, como você sabe o nome da minha irmã?

Eu nunca disse o nome da minha irmã para ninguém. Inferno, ninguém nem mesmo sabia o

meu nome, muito menos o dela.

– Hum!? Um, um, er, verdade... seu celular? Tenho certeza que vi o nome escrito nele...

Yuigahama disse, olhando para longe por alguma razão.

Oh, verdade, agora que ela mencionava isso, eu havia entregado meu celular para ela
uma vez. Ela poderia ter visto em uma mensagem.

[4]
– Então é isso? Que bom. Eu pensei que eu havia me tornado um desses siscons e deixei
o nome dela escapar enquanto falava sobre o quanto eu a amo...
– Uh, essa é, realmente, uma reação siscon, eu acho...

Yuigahama disse, afastando-se de mim.

– Impossível! Eu certamente não sou um siscon. Na verdade, para mim, ela nem mesmo é
minha irmã e sim apenas uma outra garota... argh, isso é uma piada, é claro. Pare de me olhar
assim.

Com seu garfo e faca em mãos, Yukinoshita olhou para mim, completamente sem palavras
e com horror e nojo misturados em seu olhar. Ela estava, indubitavelmente, pensando em me
esfaquear e cortar minha carne fresca, até o momento em que terminei de falar.

– É assustador que eu não possa dizer se você está mesmo brincando quando diz isso.

Ela comentou. Após uma pausa, ela prosseguiu.

– Se você está tão curioso, por que não pergunta a ela em casa?

Tendo afirmado suas últimas palavras sobre o caso, Yukinoshita e Yuigahama voltaram
a estudar.

Porém, minhas mãos estavam estáticas, pois o tempo todo eu me lembrava da Komachi me
chamando de ‘onii-chan’, seguido por ‘Eu com certeza vou me casar com o Onii-chan quando
eu crescer! ’ e a desaprovação do meu pai por causa disso.

Tanto faz, quem realmente dá a mínima para irmãzinhas?

E então, eu não perguntei nada a ela quando cheguei em casa. Na-não é como se eu
tivesse pensado que ela iria me odiar se eu me metesse ou nada assim!
[1] Shinran foi um monje budista Japonês.

[2] Esta é uma referência a uma lenda Japonesa sobre os poderes das
cobras, dos sapos e das lesmas.

[3] Baki the Grappler é um mangá sobre luta.

[4] Siscon é como são chamados aqueles que possuem o Complexo da Irmã, ou seja,
sentem atração por sua própria irmã.
Capítulo 3: Hayama Hayato sempre está por trás de tudo

3-1
Era um horário livre, mas eu nunca conseguiria descansar.

A sala de aula zumbia com todas as conversas. Todos e seus cães


haviam sido libertos das correntes dos deveres escolares e agora
estavam todos falando de modo familiar com seus amigos sobre

seus planos para depois das aulas e sobre o que eles assistiram na TV, blá, blá, blá. As palavras
deles entravam por um ouvido e saíam pelo outro. A conversa deles poderia muito bem-estar
em outro idioma, baseado no quanto eu estava entendendo dela. Eu também poderia muito
bem não ter que ficar ali.

Eu tenho a sensação de que a conversa estava até mesmo mais animada do que de
costume. Provavelmente isso se devia ao fato do professor responsável pela turma ter
anunciado que nós poderíamos escolher nossos próprios grupos para a ‘Visita ao Local de
Trabalho’. Embora depois de amanhã nós fôssemos ter um primeiro período mais longo do
que de costume para decidir os grupos e o local para onde cada um deles iria, meus colegas de
classe estavam um passo à frente. As conversas não estavam fugindo muito das perguntas
“Para onde você vai? ” e “Com quem você vai?”. Praticamente todos na classe estavam
fazendo planos especiais para ficarem juntos de quem eles queriam.

Isso era óbvio. A escola não é apenas um lugar onde você assiste a aulas. Em seu coração,
ela é como um microcosmo da sociedade, um jardim em miniatura, povoado por todos os
tipos de seres humanos existentes na Terra. E então, as pessoas no Ensino Médio tinham suas
próprias guerras e disputas através do bullying e, exatamente como qualquer outra sociedade
estratificada, a teoria da força da maioria também se aplica aqui. A regra da—aqueles com a
maior quantidade de amigos— maioria.

Eu assistia ao comportamento dos meus colegas de classe com meu queixo descansando
em minhas mãos e meus olhos semicerrados. Ultimamente eu vinha dormindo o bastante e
não era como se eu estivesse cansado ou nada do tipo, mas, porque eu havia passado minhas
horas de almoço desse jeito desde que eu era pequeno, dormir havia se tornado um
reflexo condicionado para mim.

Quando minha linha de visão havia começado a escurecer e eu estava quase cochilando, eu
fui surpreendentemente acordado por um pequeno par de mãos. Quando eu levantei meu
rosto, com os olhos ainda turvos, vi que Totsuka Saika estava sentado na cadeira a minha
frente.

– Bom dia.

Totsuka me cumprimentou com um pequeno sorriso.


Eu fiquei agitado.

– ... Por favor faça o café da manhã para mim todas as manhãs.

– Hu-hum!? O que você está...?

– Oh, não é nada. Eu apenas estava meio sonolento.

Caramba, eu propus a ele sem nem mesmo pensar. Merda, por que ele é tão
excessivamente fofo? Mas ele é um cara! Um cara! Um cara?... não que ele fosse fazer café da
manhã para mim todas as manhãs de qualquer modo.

Houve silêncio por um momento.

– Então, o que foi?


Eu perguntei.

– Não é nada...

Ele respondeu.

– Eu apenas pensei em dizer olá já que você estava aqui, Hikigaya-kun... eu estou ficando
no seu caminho?
– Nah, nem um pouco. Na verdade, eu adoraria se você falasse comigo vinte e
quatro horas por dia.

Nessa mesma nota, eu adoraria se ele dissesse que me ama vinte e quatro horas por dia.

– Nesse caso, eu teria que estar com você o tempo todo, sabia?

Totsuka riu de modo fofo, colocando uma mão na frente da boca. E então, como se tivesse
percebido alguma coisa, ele bateu as mãos e franziu os olhos ao perguntar,

– Hikigaya-kun, você ainda não decidiu onde você vai na Visita ao Lugar de Trabalho?

– O que vai ser, vai ser e o que não vai ser, não vai ser.

Eu disse.

Perplexo com o que eu disse, Totsuka olhou para o meu rosto e inclinou ligeiramente a
cabeça. Eu roubei um fugaz olhar para o espaço entre o colarinho de seu uniforme esportivo e
o seu pescoço e, inadvertidamente, desviei os olhos. Como ele poderia ter uma pele tão
bonita? Que tipo de sabonete corporal ele estava usando?

– Ahh, basicamente, o que eu quero dizer é que não me importo com o lugar para o qual eu

vá.

Eu respondi.

– Qualquer lugar próximo da minha casa é o mesmo para mim. Igualmente inútil.

– Oooh, algumas vezes você diz palavras tão grandes, Hikigaya-kun.

Eu não me lembro de ter dito nem mesmo uma única palavra difícil, mas Totsuka fez um
som de espanto, como se minhas palavras tivessem causado uma profunda impressão nele.
Eu tinha a sensação de que o Totsuka poderia explodir em framboesas e o meu
nível de afeto por ele iria aumentar. No entanto, o fato de que ele era um tipo de
personagem capaz de aumentar o seu nível de afeição não importa o que ele diga,
era assustador a sua maneira. Eu estava prestes a cair em uma rota que não deveria ser
nomeada.

– Então... você já decidiu com quem você vai, hum?

Totsuka olhou para os meus olhos hesitante, mas com uma inconfundível insistência.

Eu não tinha ideia do que fazer com o que ele havia dito. As palavras dele pareciam passar
uma sensação do tipo “Eu quero ir com você, mas como você já decidiu com quem vai, é uma
pena, hum? ”.

Isso foi o bastante para me colocar em guarda.

O ataque surpresa do Totsuka havia forçado violentamente a abertura das portas para as

minhas memórias. De fato, algo como isso também havia ocorrido há muito tempo atrás...

Veja, quando eu era um pequenino aluno do Segundo Ano do Fundamental, eu fui forçado
a ser o Representante de Classe. A outra candidata era uma garota bonita que sorriu para mim
e disse “Vamos nos esforçar este ano”...

Uuuurk! Merda! Novamente, eu estava quase sendo enganado por aquelas palavras
completamente incompreensíveis. Eu não estava a ponto de me machucar outra vez.

Eu já sobrevivi a tudo isso uma vez. Um solitário experiente é uma vez mais desconfiado e
duas vezes mais tímido. Confissões de amor como penalidade por uma derrota no pedra, papel
e tesoura, cartas de amor falsas escritas por garotos que copiavam o que as garotas ditavam
para eles— eu não quero ter nada a ver com essas pessoas. Eu sou um veterano de guerra.
Não há ninguém melhor em perder do que eu.
Tudo bem, acalme-se. Em momentos como este, apenas use o ‘Movimento do
Espelho’— que necessita de pouco esforço. Basicamente, o @ é, certamente, um
solitário entre todos os solitários.

Então, eu respondi à pergunta com outra pergunta.

– Você já decidiu com quem você vai?

– E-eu?

Aturdido por ter sua própria pergunta mandada de volta a ele, as bochechas do Totsuka
ficaram vermelhas.

– Eu, um, já decidi.

Ele cobriu ligeiramente os olhos com as mãos e olhou de lado para mim, para ver minha
reação.

Meh, essa é a vida, eu acho. O Totsuka era um membro do Clube de Tênis, o que
basicamente significa que ele tinha sua própria comunidade especial a qual pertencia e que
seria inevitável que ele tivesse conexões com outras pessoas. Era óbvio que ele teria amigos
nessa classe.

Eu, por outro lado, havia me juntado a um Clube que era como uma área de isolamento
para os desajustados da escola, então não existiam maneiras de que eu fizesse amigos.

– Quando eu penso nisso— na verdade, eu nem mesmo preciso pensar sobre isso— eu não
tenho nenhum amigo homem.

– Er, uh... Hikigaya-kun...

Totsuka disse em voz baixa.

– Eu sou um homem, sabe...


Ele era tão fofo que eu não pude ouvir apropriadamente o que ele disse.

De qualquer forma, no entanto, eu sentia uma sensação bizarra até mesmo ao falar com
alguém na sala de aula. Desde toda aquela coisa com o Clube de Tênis, as pessoas diziam
talvez duas ou três palavras para mim quando me viam. Com tudo isso dito e feito, eu poderia
realmente chamá-los de amigos? Eu duvidava. Se era uma conversa fiada desse nível, não fazia
diferença se nós nos conhecíamos ou não— nós poderíamos ser completos estranhos e isso
não importaria. Por exemplo, quando você está em uma fila para pegar Ramen, você pode ter
uma conversa do tipo, “Lotado, não é?” “Eu estou cansado de ter que esperar na fila todos os
dias. ” Mas vocês não poderiam se chamar de amigos.

Amigos eram algo assim:

– Hayato-kun, você já decidiu para onde você vai?

– Estou pensando em algum lugar relacionado a mídia ou uma corporação multinacional.

– Whoa, cara, você está com a bola toda. Hayato, você é tipo o superman ou algo parecido. Mas
estamos nessa idade, cê sabe? Eu tenho tido um baita respeito pelos meus pais esses dias.

– Temos que ser mais responsáveis a partir de agora, eh?

– Falou bem, mano. Mas não se esqueça que todos somos crianças no coração.

Esse não é o tipo de vibração que amigos passam? Ser amigos era, possivelmente, ser capaz
de falar uns com os outros sem se importar com o mundo. Entretanto, eu teria começado a rir
no meio disso, o que significa que amizade era algo completamente impossível para mim. O
que era essa merda sobre respeito aos pais? Esse cara pensa que é algum tipo de rapper?

Hayama Hayato estava cercado por três caras e estava radiante, como normalmente ficava.
Quase todo mundo estava feliz por chamá-lo de Hayato e o próprio Hayama também parecia
disposto a chamar todos eles pelos seus primeiros nomes. Esse único ato de ‘amizade’
era uma cena apropriadamente reconfortante.

No entanto, eu podia ver que eles estavam apenas fingindo essa amizade ao chamar uns
aos outros pelo primeiro nome. Chamar as pessoas pelo primeiro nome era algo que acontecia
em doramas, mangás e animes. A performance deles estava muito roteirizada. Eles queriam
apenas sugar um ao outro.

... Mas não há nenhum mal em tentar por mim mesmo, certo? Seria uma experiência.
(Eu não tenho nada contra os mangás que eu não leio, apenas contra as pessoas que os
desenham. Se eu tentasse ler e absorver tudo sobre eles, eu socaria o artista com toda a
minha força, no entanto.)

O experimento: Chamar alguém pelo primeiro nome mudaria o seu relacionamento com
essa pessoa?

– Saika.

Quando eu chamei o nome do Totsuka, ele não disse nada. Ele enrijeceu. Seus olhos se
arregalaram e ele piscou três vezes com a boca aberta.

Vê o que eu quero dizer? Isso não faz com que você se dê melhor com a pessoa.
Normalmente, chamar alguém pelo primeiro nome quando vocês ainda não têm tanta
intimidade iria apenas deixar a pessoa irritada. Tipo, quando o Zaimokuza me chama de
‘Hachiman’, eu ostensivamente o ignoro. O que eu estou tentando dizer é que quando aqueles
porcos riajuu (HA!) fazem tudo isso, eles mentem e fingem que não estão irritados.

Eu percebi que provavelmente deveria pedir desculpas ao Totsuka por hora.

– Ah, desculpe por agora...

– ... Eu estou tão feliz. Foi a primeira vez que você me chamou pelo primeiro nome.

– Eu apenas... o que...?
Totsuka abriu um largo sorriso para mim, seus olhos, de algum modo, estavam
nublados devido a profunda emoção. Que diabos? Eu estava começando a viver uma
vida plena? Deus abençoe os riajuu (meus salvadores!). As escalas haviam caído bem
diante dos meus olhos.

Totsuka olhou para mim e limpou a garganta,

– Então, um... eu posso chamar você de Hikki?

– De jeito nenhum.

Não, apenas não. Agora mesmo, existe apenas uma única pessoa que me chama por
esse apelido altamente revoltante e se isso pegasse eu estaria arruinado. Vendo como eu
me recusei a ceder, Totsuka pareceu um pouco desapontado por um momento, mas então
ele limpou a garganta e tentou de novo.

– E quanto a... Hachiman?

...

DING DING DING!

O barulho ressoou em meus ouvidos.

– Di-diga isso de novo!

Totsuka sorriu vagamente, perplexo pelo meu pedido sem sentido. Ele parecia fofo mesmo
quando estava preocupado— exceto pelo fato de que eu era a causa da preocupação.

– ... Hachiman.

Ele disse timidamente, observando minha reação por entre seus dedos.

– Hachiman?
Ele disse interrogativamente, inclinando levemente a cabeça.

– Hachiman! Você está me


escutando? Ele disse irritado, estufando
as bochechas.

Ver a expressão levemente irritada de Totsuka foi o bastante para me trazer de volta a
realidade. Oh merda, eu me permiti ficar fascinado pela intensa fofura dele sem nem
mesmo pensar...

– Uh, uhhhhh. Desculpe. Sobre o que estávamos falando mesmo?

Eu fingi que havia me distraído, mas na verdade eu estava escrevendo uma nota mental
sobre os resultados do meu experimento.

Conclusão: o Totsuka fica muito fofo quando você o chama pelo seu primeiro nome.
3–2

É sempre noite quando o tumulto no terreno da escola se acalma. Dessa sala, uma pessoa
podia ver os últimos raios de sol que desciam pela Baía de Tóquio, dando lugar à escuridão à
espreita no horizonte.

– Ohhh... então é chegada a hora da escuridão, hum...?

O jovem garoto sussurrou isso enquanto fechava a mão. Quando ele fez isso, as luvas de
couro sintético que ele estava usando fez um ligeiro som de aperto. Olhando fixamente
para os pesos de um quilo que ele tinha nas mangas, ele suspirou.

– É chegado o tempo de romper o selo...

Nem mesmo uma única voz respondeu a essas palavras.

... Mesmo que houvessem mais três pessoas na sala.

Aquele que olhava para os três de nós em turnos, obviamente esperando que um de nós
dissesse alguma coisa, era Zaimokuza Yoshiteru. E aquela que o ignorava totalmente e
continuava lendo com um silencioso desprezo era a Yukinoshita Yukino. Aquela que balbuciava
perplexa enquanto olhava para mim e para Yukinoshita a procura de ajuda, era a Yuigahama
Yui.

– Então, o que você quer, Zaimokuza?

Eu perguntei a ele, o que fez Yukinoshita suspirar profundamente. Em seguida, ela olhou
fixamente para mim. “Era para você, supostamente, ignorar ele...” era o que os olhos dela
pareciam dizer.

Sim, mas alguém tinha que fazer isso.


Eu realmente não queria falar com ele, mas ele vinha tagarelando sobre alguma
coisa já fazia meia hora. O que era esse infame momento “Mas tu deves” em Dragon
1
Quest V ? Se eu não falasse com ele aqui, ele continuaria tagarelando para sempre.

Assim que eu fiz minha pergunta, Zaimokuza alegremente esfregou a ponta do nariz e riu,
como se ele estivesse realmente lisonjeado. Cara, esse cara é chato como o inferno.

– Ah, minhas desculpas. Uma boa frase acaba de me ocorrer, então eu apenas tive de dizê-
la em voz alta para compreender todo o seu ritmo e o seu sentimento. Oho, de fato, eu sou
um escritor até em minha essência... Eu penso em minha novel quando estou acordado e
também quando estou dormindo. Tal coisa é o destino de um escritor...

Yuigahama e eu trocamos olhares cansados enquanto escutávamos o discurso pretencioso


do Zaimokuza. Yukinoshita fechou seu livro com força. Zaimokuza se encolheu em reação.

– Eu pensei que um escritor fosse alguém que realmente criava alguma coisa...

Yukinoshita disse.

– Então você escreveu alguma coisa, eu suponho.

Todo o corpo de Zaimokuza recuou e ele deixou escapar um som como se sua garganta
estivesse obstruída. Ambas as suas reações foram tão irritantes quanto o inferno. Mas,
estranhamente o bastante, hoje o Zaimokuza tinha nervos mais fortes que de costume. Ele
pôs-se de pé rapidamente e tossiu exageradamente.

– ... Ahem. Essa é a única verdade por hoje... por eu ter finalmente obtido meu desejo. Eu

2
estou na estrada para El Dorado !

– O que, você ganhou o prêmio?

Eu perguntei.

– Na-não, ainda não... en-entretanto, é apenas uma questão de tempo!


Zaimokuza declarou arrogantemente, por algum motivo agindo como se
fosse alto e poderoso.

Uh huh. Nesse caso, que parte do que ele disse valia a pena o bastante para ele se gabar
dela? Se ele podia dizer isso, então claramente o jogo que eu ainda tinha que completar com
minhas habilidades no RPG Maker iria mudar para sempre a Indústria Japonesa de Jogos.

Zaimokuza jogou seu casaco para trás com um floreio.

– Hahaha, ouçam e fiquem impressionados!


Ele gritou com vigor renovado.

– Nesta ocasião, eu decidi me aventurar em uma editora durante minha Visita ao Local
de Trabalho! Em outras palavras – vocês entenderam, não é?

– Não, não temos a menor ideia...

– Que julgamento pobre, Hachiman. Em outras palavras, é hora do meu talento


ser reconhecido. Eu estou fazendo conexões.

– Ei, não deixe isso subir a sua cabeça.

Eu fiz uma pausa.

– Eu juro, você é como uma criança que fica ao redor de um senpai delinquente. Você
é ainda pior do que um Chuuni restringindo a si mesmo.

Zaimokuza passou a ignorar tudo o que eu estava dizendo e começou a sorrir sem nenhuma
razão em particular. Ele estava, honestamente, assustador enquanto murmurava “O estúdio
vai ser... o elenco vai ser...” para si mesmo. E além disso, também havia um monte de editoras
medíocres. Se ele acreditava que seu futuro seria tão brilhante, não havia mais nada que eu
pudesse fazer por ele.

Ainda assim, havia algo estranho sobre tudo isso.

– Zaimokuza, eu estou impressionado que seu grupo tenha escutado a sua opinião.
– O que? Você está insinuando que eu sou um fracote... bem, tanto faz. Nesta
ocasião, apenas aconteceu de eu encontrar outros dois chamados otakus. Eu nem
sequer disse que queria ir a uma editora e descobriu-se que eles também desejavam ir
a uma. Eles estavam rindo, gargalhando e todos esses outros enfeites. Eu tenho certeza que
eles são adeptos dessa recente moda BL. O amor conquista tudo e então eu não fiz nenhuma
objeção.

Yuigahama recusou-se a olhar para o rosto do Zaimokuza.

– Você deveria se juntar com pessoas do mesmo tipo que o seu.

Ela disse, suspirando.

No entanto, o Zaimokuza tinha ido longe demais. Haviam algumas coisas que ele se
recusava a admitir por estar entre pessoas que tinham o mesmo hobbie que o seu. Isso era
como uma guerra religiosa, eu acho.

– Entendo, a Visita ao Local de Trabalho, hum...

Yuigahama disse isso com uma profunda emoção.

Então ela olhou de lado para mim antes de rapidamente desviar o olhar. Seus olhos
estavam úmidos, como se ela tivesse acabado de sair de uma piscina, e seu rosto estava um
pouco vermelho. Será que ela está gripada?

– Um, Hikki, onde você vai?


Ela me perguntou, hesitante.

– Minha casa.

– Sim, não!

Yuigahama disse com um aceno de mão.


Eu ainda não estava pronto para desistir disso, mas uma vez que eu não queria
apanhar da Hiratsuka-sensei, eu decidi deixar isso de lado. Eu tinha renunciado assim
que a partida foi suspensa.

– Hmph, bem, eu vou onde os outros caras do meu grupo quiserem ir.

– Uau, você não vai escolher por si mesmo?

– Nah... eu fiz isso no passado, mas eu acabei sendo um pé no saco, então eu perdi o meu
direito de opinar.

– Agora eu entendo— oh, espere. Oh.

Como de costume, ela havia pisado em uma mina terrestre. A Yuigahama provavelmente

era péssima no Campo Minado.

– Desculpe.

Parando para pensar nisso, aquilo me lembrou de algo. Na verdade, ‘formar trios’ é uma
instrução ainda pior do que ‘formar duplas’. Se fossem apenas dois de vocês, você poderia
apenas se resignar e não falar nada. No entanto, se fossem trios e as outras duas pessoas
forem camaradas e conversarem entre si, então você iria se sentir deslocado.

– Então, no fim você nunca se decide...?

Yuigahama murmurou com um olhar de profunda contemplação eu seu rosto.

– Você decidiu onde vai ir, Yuigahama-san?


Yukinoshita perguntou.

– Sim. Ao lugar mais próximo.

– Esse é um pensamento do mesmo nível que o do Hikigaya-kun...

– Não me misture com esse grupo.


Eu disse.
– Eu queria ir para a minha casa devido a minha forte convicção. De todo modo, onde é
que

você vai? A polícia? Um tribunal? Ou talvez para uma penitenciária?

– Errado.

Yukinoshita riu friamente.

– Você parece saber como eu penso.

Ufufu.

Vê o que eu quero dizer? A risada dela é assustadora.

Na medida em que as coisas aconteciam, Yukinoshita era morbidamente intelectual, mas


unicamente quando ela realmente não gosta de você. Que estranho, ela realmente não quer
dizer apenas coisas cruéis, de coração gélido e inumanas. Ufufu. O que há com essa risada sou-
tão-inocente?

3
– Eu acho que vou a um Think Tank —uma instituição de pesquisas. Eu vou escolher a
partir disso.

O fato de que a Yukinoshita já havia decidido o que ela queria fazer, exemplificava sua
tendência em tomar decisões rápidas. De qualquer forma, era fácil lembrar o quão séria ela
era a partir de quão fria era sua atitude.

Alguém continuou puxando a manga do meu blazer, me tirando do meu devaneio. O que
você pensa que está fazendo, sua punk? Eu pensei, olhando ao redor.

Era a Yuigahama. Ela havia aproximado seu rosto do meu, sem que eu percebesse. Ela
cheirava ridiculamente bem e seu lustroso cabelo estava roçando na minha nuca. Era a

primeira vez que eu ficava fisicamente tão próximo da Yuigahama. Devido ao


meu aborrecimento, meu coração começou a bater de forma irregular.

– Hi-Hikki...
Ela falou no meu ouvido com um suspiro de sonoridade agradável. Foi o
bastante para causar uma insuportável coceira no meu ouvido.

Da distância em que estávamos, nós podíamos ouvir o som das batidas do coração um do
outro. Poderia ser... não, espere... era possível que o pulsar que eu podia ouvir no peito dela
fosse...

– O que é um Thinkie Tank? É uma sociedade de tanques?


Ela pronunciou a palavra como uma velha faria.

Então, como podemos ver, as batidas frenéticas do coração dela deviam-se apenas a uma
arritmia ou algo do gênero.

– ... Yuigahama-san,

Yukinoshita disse com um suspiro exasperado. Enquanto Yuigahama se afastava de


mim, Yukinoshita começava sua explicação.

– Veja, um Think Tank é—

Yuigahama assentiu ansiosamente para mostrar que estava prestando atenção. As duas
iniciaram uma sessão de estudos improvisada. Observando-as com o canto do olho, eu
embarquei novamente no terrivelmente importante mundo da leitura de mangás shoujo. No
momento em que Yukinoshita havia terminado de explicar para a Yuigahama o que era um
Think Tank, juntamente com os detalhes relacionados, quinze minutos haviam se passado.

O sol poente já estava próximo do mar. Da nossa sala, eu podia ver a superfície do mar
brilhando ao longe. O quarto andar permitia a visão do Clube de Baseball varrendo os campos,
do Clube de Futebol carregando as traves e do Clube de Atletismo guardando os obstáculos e
tapetes que eles utilizaram.

Era quase hora dos Clubes encerrarem as suas atividades de hoje. Ao mesmo tempo em
que meus olhos se desviaram na direção do relógio, Yukinoshita fechou seu livro. Aliás, o
Zaimokuza vacilou assim que Yukinoshita fez um movimento. Cara, esse garoto se assusta com
muita facilidade.
Eu não sei como foi que isso aconteceu, uma vez que ninguém havia decidido
isso, mas a Yukinoshita fechar o seu livro era o sinal tácito para o fim das atividades
do Clube. Com isso consumado, Yuigahama e eu rapidamente também começamos
a nos preparar para irmos para casa.

No fim, hoje também ninguém veio ao nosso Clube para pedir por ajuda. Por alguma razão,
a única pessoa que veio foi o Zaimokuza e nós realmente não queríamos ele aqui.

Eu me pergunto se deveria comer ramen no caminho de casa...

Quando eu estava pensando sobre o jantar, a vaga ideia de que Horaiken poderia ser bom
me veio à mente. Era uma loja de ramen em Niigata, mas sopa era, facilmente, a melhor que
eu já tomei na vida. O Zaimokuza me falou sobre o lugar. Oh merda, eu estava babando, heh.

De repente, eu escutei uma curta e ritmada batida na porta.

– Quem está batendo a essa hora...?

Agora que minha feliz hora do ramen foi interrompida, eu olhei amargamente para o
relógio.

Eu tinha o hábito de fingir não estar em casa quando algo assim acontecia na minha própria
casa. Quando eu olhei interrogativamente para Yukinoshita, perguntando o que fazer, ela disse
“Entre.” Ela nem mesmo olhou para mim quando soltou sua resposta.

Nossos visitantes também não leram a atmosfera, mas em se tratando de ler errado
a atmosfera, Yukinoshita era inigualável. Ela provavelmente venceria todas as vezes.

– Desculpem pela intromissão.

Era uma voz masculina legal, cujo som imediatamente faria com que você se sentisse

confortável. Então, esse foi o cara que roubou meu ramen...

Eu olhei raivosamente para a porta, apenas para ser cumprimentado com uma genuína
surpresa. Era alguém que eu nunca teria sonhado que viria até essa sala.
3–3

Entre todas as pessoas, era um garoto bonito. Ele era tão bonito que você não
podia mais chamá-lo meramente de ‘garoto bonito’.

Seu cabelo castanho podia ser facilmente denominado como uma permanente. Sem
nenhuma autoconsciência, ele olhou diretamente para mim através da armação de seus
óculos da moda e, por alguma razão, ele sorriu quando nossos olhares se encontraram. Sem
pensar, eu forcei um sorriso de volta. Ele era um garoto tão bonito que eu instintivamente me
inclinei diante dele.

– Desculpem-me pela hora ruim. Eu tenho um pequeno pedido a fazer para vocês.
Ele colocou sua mochila da Umbro no chão de modo extremamente natural.

– Aqui está tudo bem?

Ele puxou uma cadeira e sentou-se de frente para a Yukinoshita. Tudo que ele fazia exalava

um charme tranquilo.

– Cara, eu tive problemas para fazer o pessoal do meu Clube me deixarem ir embora. As
atividades dos Clubes são adiadas antes dos exames, então eu percebi que tinha que vir ver
vocês hoje de qualquer maneira. Desculpem.

Pessoas que precisam de ajuda são assim. Ele nem mesmo notou que eu estava prestes a
ir para casa em liberdade. Isso porque eu sou um ninja, eu acho.

Ele disse que as atividades do Clube foram agitadas, mas todos em nosso Clube já estavam
de pé para irmos embora e mesmo assim não havia nenhum traço de odor corporal na sala.
Em vez disso, um certo odor refrescante de limão estava flutuando no ar.

– Chega.

Yukinoshita disse categoricamente, cortando a conversa animada do garoto. Eu tenho a

sensação de que ela estava agindo de forma mais afiada do que de costume.
– Você veio até aqui porque queria alguma coisa, não é? Hayama Hayato-
kun. O tom frio de Yukinoshita não abalou em nada o sorriso de Hayama
Hayato.

– Ah, você está certa. Vocês chamam isso de Clube de Serviços, certo? A Hiratsuka-sensei
me disse para vir aqui caso eu precisasse de algum conselho, então...

Toda vez que o Hayama falava, por alguma razão uma brisa refrescante entrava pela
janela. Poxa, ele tem controle sobre o vento ou algo assim?

– Desculpem a hora ruim. Se vocês, Yui e os outros, tiverem planos, eu virei novamente
em outro momento...

Ao ouvir seu nome, Yuigahama deixou escapar um sorriso tenso. Parece que nem mesmo
pessoas que estão mais acima que eu na escala social poderiam escapar do charme do
Hayama.

– Nada demais. E eu também não me importo. Você é o próximo capitão do Clube de


Futebol, Hayato-kun. Não me admira que você tenha demorado tanto para vir até aqui!

No entanto, a única que pensava dessa forma era a Yuigahama. Yukinoshita não estava nem
um pouco impressionada, enquanto o Zaimokuza estava sentado em silêncio, com um severo e
imponente olhar em seu rosto.

– Ahh, eu deveria pedir desculpas a você também, Zaimokuza-kun.

Hayama disse.

– Hum!? A-ahem! Er, eu mesmo realmente não me importo, uhh, é melhor eu ir agora...

E apenas abrindo a boca, Hayama prontamente dissipou a atmosfera hostil. Depois do


Hayama terminar sua obra, era como se o Zaimokuza fosse aquele que fez algo de errado.

Zaimokuza tossiu exageradamente.

– Ha-Hachiman, vejo você mais tarde!


Ele disse apressadamente e então realmente foi embora. Porém, mesmo
enquanto ele estava fugindo, um sorriso estava se espalhando pelo seu rosto.

... Eu entendo tão bem o que ele estava sentindo que chega a doer.

Eu honestamente não sei o porquê disso, mas excluídos do Ensino Médio como eu, sempre
se encolhem diante das pessoas populares. Nós damos espaço para eles no corredor e quando
eles falam conosco, nós tropeçamos nas palavras em oitenta por cento dos casos. E não é
como se nós sentíssemos inveja deles ou os odiássemos. Nos dias em que eles se lembram dos
nossos nomes, nós nos sentimos meio que felizes.

Caras como o Hayama sabiam meu nome e sabiam quem eu era. Saber disso me
fazia recuperar um pouco da minha dignidade.

– Você também, Hikitani-kun.


Disse Hayama.

– Desculpe, eu estou tomando seu tempo.

– ... gah, esqueça.

Ele só errou o meu nome! Ai, minha pobre dignidade.

– Sim, então o que cê quer?

Eu soltei irado, não porque eu estava subconscientemente canalizando minha raiva por ele
ter errado meu nome ou nada do tipo.

... Não, é sério! Eu tinha um genuíno interesse nos problemas do Hayama. É honestamente
difícil de imaginar que um cara tão popular e tão amado teria qualquer problema. Aliás, isso
não quer dizer que eu tenha qualquer segunda intenção, tipo querer saber qual é o ponto
fraco dele, para então eu poder tirar sarro depois.

– Ah. Bem, quanto a isso.


Hayama disse, lentamente pegando seu celular. Pressionando os botões com
agilidade, ele acessou as mensagens de texto e me mostrou a tela.

Ao meu lado, Yukinoshita e Yuigahama esticaram o pescoço para poderem olhar para a
tela. Com três pessoas aglomeradas para olhar para uma tela do tamanho da palma de uma
mão, eu me senti tonto. As duas cheiravam bem. Porém, assim que eu me afastei para
deixar que as duas vissem a tela em paz, Yuigahama soltou um suave “Ah....”

– O que houve?

Eu perguntei. Yuigahama pegou seu próprio celular e me mostrou. Ela havia recebido
exatamente a mesma mensagem de texto que eu havia lido antes.

Você poderia dizer que ela estava cheia de conteúdo impróprio. E não era apenas uma
mensagem. Toda vez que Yuigahama movia seu dedo, ela percorria uma longa lista de palavras

rancorosas e sem fim à vista. Eram todas contas de spam? Eu me perguntei. As mensagens de
cada um dos endereços eram dedicadas unicamente a difamar indivíduos.

Por exemplo, “Tobe pertence a uma gangue que fica andando em torno do fliperama,
atacando pessoas da West High.”

Ou, “Yamato é um babaca que sai com três garotas ao mesmo tempo.”

E até mesmo, “Ouka jogou duro na partida amistosa apenas para contundir o ás do time
adversário.”

A sensação geral que eu tive foi de que essas mensagens de origem duvidosa simplesmente
continuavam a ser enviadas. E apesar da fonte original, que era um endereço de spam, as
mensagens estavam sendo encaminhadas por colegas de classe.

– Ei, isso é...

– Mensagens de corrente, entendo.

Yukinoshita, que havia ficado em silêncio até agora, entoou.


Como o nome sugere, uma mensagem de corrente é um tipo de mensagem que é
passada adiante como elos de uma corrente. Por volta do fim da mensagem, teria um
‘repasse isso para cinco pessoas’ ou algo parecido com isso. Elas eram como as ‘cartas
amaldiçoadas’ dos velhos tempos: ‘Se você não passar isso adiante para cinco pessoas dentro
de três dias, você será amaldiçoado’, blá, blá, blá. Era praticamente esse mesmo tipo de
texto.

Enquanto olhava novamente para as mensagens, Hayama sorriu amargamente.

– Desde que essas começaram a circular, a atmosfera na classe tem ficado mais e mais
tensa. Além disso, eu estou irritado, pois é dos meus amigos que estão falando.

Nesse momento, a expressão no rosto de Hayama era como a que Yui havia feito antes.
Ele estava farto das más intenções daqueles que não mostravam seus rostos.

Não há nada mais horrível do que um mal do qual você não pode ver o rosto. Se alguém te
insulta cara a cara, você pode insultar essa pessoa de volta. Ou você pode canalizar a raiva e o
estresse reprimidos e os liberar em outras coisas. Tais emoções pesadas são uma grande
fonte de energia, a qual você pode usar em prol de coisas positivas. No entanto, quando esses
sentimentos de raiva, inveja e egoísmo não são direcionados a você, é impossível agrupar
qualquer emoção forte. Você pode apenas sentir-se vagamente inquieto.

– Eu quero parar com isso. Eu realmente não me sinto bem com tudo isso, afinal.

Hayama insistiu, antes de acrescentar alegremente,

– Mas eu não quero transformar isso em uma caça às bruxas. Eu quero saber como resolver
as coisas pacificamente. Eu me pergunto se vocês poderiam me ajudar.

Aí estava. Hayama havia acabado de liberar sua habilidade mortal: ‘A Zona’.

Permitam-me explicar. ‘A Zona’ é uma habilidade única, que apenas o mais verdadeiro dos
riajuu poderia possuir e sua característica é a de controlar o ambiente ao redor do seu usuário.
Diferente daqueles riajuu superficiais (HA!), que passeiam por aí e ficam se exibindo para os
seus companheiros, os verdadeiros riajuu estão genuinamente satisfeitos com o mundo real.
Por causa disso, eles não parecem para baixo— eles são gentis com pessoas que parecem ser
menosprezadas. Minha base para decidir entre os dois tipos de riajuu é ‘Você é gentil com o
Hikigaya Hachiman?’. O Hayama é um cara legal, eu acho. Quero dizer, ele falou
comigo, sabia? (Mesmo que tenha errado meu nome.)

Para resumir, você poderia dizer que ‘A Zona’ é unicamente a aura gentil e carismática que
as pessoas possuem. Se eu fosse ser gentil, eu diria que eles são pessoas gentis e que sabem
ler a atmosfera, mas se eu fosse descrevê-los como eles realmente são, eles apenas não
tinham opinião própria. Se eu fosse um idiota, eu diria que eles são lixos covardes. Bem, eu
acho que eles são boas pessoas, no entanto.

Diante da habilidade especial de Hayama, Yukinoshita ficou coçando o queixo, pensando


por algum tempo, e então ela abriu a boca.

– Então, basicamente, você quer que nós o ajudemos a esclarecer as coisas?

– Mmm, praticamente.

– Então nós devemos encontrar o culpado.

Yukinoshita declarou.

3–4

– Claro, eu vou deixar isso com vo—

Hayama começou alegremente, até que o choque foi registrado em seu rosto.

– Hum!?

No entanto, dentro de um instante, ele recuperou sua compostura e sorriu.

– Ahem, por que você precisaria fazer isso? Ele


perguntou calmamente para a Yukinoshita.

Com isso, Yukinoshita, cuja expressão fria era a completa antítese da de Hayama, começou
a falar devagar, como se estivesse escolhendo as palavras cuidadosamente.
– Enviar mensagens de corrente... é um ato desprezível que atropela a dignidade de
uma pessoa. Enquanto eles se escondem nas sombras do anonimato, eles caluniam os
outros com o único objetivo de prejudicá-los. Espalhar palavras caluniosas sobre alguém não é
nada além de uma coisa cruel de se fazer. Curiosidade saudável é uma coisa, mas continuar a
espalhar essas

palavras caluniosas... a menos que erradiquemos o mal pela raiz, não haverá nenhum
resultado. Fonte: Eu mesma.

– Isso é por experiência própria...?


Eu perguntei.

Eu gostaria que ela parasse com as declarações carregadas. Yukinoshita falou calmamente,
mas eu podia ver um fogo negro cintilando ao redor dela. Você poderia dizer que ela estava
emitindo uma aura maligna.
– Sério, eu me pergunto o que há de tão divertido em espalhar mensagens para
mostrar o seu desprezo por alguém. E eu não acho que exista algum mérito no que a
Sagawa-san ou a Shimoda-san fizeram...

– Então você cuidou de todas elas...

Yuigahama disse com um olhar bem tenso.

Eram coisas assim que afirmavam o quanto Yukinoshita era engenhosa e o quão
assustadora ela poderia ser como inimiga.

– Cara, seu Fundamental com certeza foi deprimente.


Eu comentei.

– Nada disso aconteceu na minha escola.

– ... Isso porque ninguém perguntava seu número de telefone.

– Por que, sua... Idiota! Isso deveria ser confidencial! Você não conhece o Ato de Proteção a
Informações Pessoais!?

– Essa é uma interpretação jurídica original...

Uma espantada Yukinoshita comentou enquanto jogava o cabelo por cima do ombro.
Entretanto, sim, a razão pela qual eu nunca me envolvi nesse tipo de drama telefônico era,

provavelmente, o que ela disse. Nunca pediram o meu número de telefone ou o meu e-mail.
Era aí que Yukinoshita e eu éramos diferentes. Ela havia sido exposta ao ódio declarado
enquanto eu não. De algum modo, eu suspeitava que se isso acontecesse comigo, eu não iria
encontrar o culpado. Eu iria direto para casa e choraria no meu travesseiro.

– De todo modo, uma pessoa que comete um ato tão desprezível merece, sem dúvidas, ser
erradicada.

Yukinoshita prosseguiu.
– Olho por olho e dente por dente— vingança é o meu credo.

Yuigahama reagiu como se ela já tivesse escutado essa frase em algum lugar.

– Oh, nós aprendemos isso na aula de História Mundial hoje! Isso é da Carta Magna, certo?

– É o Código de Hammurabi.

Yukinoshita respondeu suavemente, antes de voltar a se virar na direção de Hayama.

– Eu irei procurar pelo culpado. Acredito que tudo o que será necessário para fazê-los parar
vai ser ter uma conversinha comigo. Irei deixar todo o restante depois disso com você. Ou isso
não está ao seu gosto?

– ... Uh, está tudo bem.

Hayama disse.

Na verdade, eu pensava da mesma forma que Yukinoshita. Se o culpado se deu ao trabalho de

mudar seu número de telefone, é porque ele não queria que sua verdadeira identidade

fosse revelada e estava com medo de ser descoberto. Nesse caso, ele ou eles provavelmente
iriam parar no momento em que fossem descobertos. Basicamente, encontrar o culpado era o
modo mais rápido de terminar as coisas.

Yukinoshita olhou atentamente para o celular que Yuigahama havia deixado sobre a mesa.
Em seguida, ela colocou a mão sob o queixo, contemplativa.

– Quando as mensagens começaram a circular?

– No último fim de semana. Certo, Yui?


Hayama perguntou e a Yuigahama assentiu.
... Ei, Hayama. Você acabou de chamar a Yuigahama pelo primeiro nome. Eu não
sabia como esses garotos populares conseguiam chamar garotas pelo primeiro nome
delas. Se fosse comigo, eu definitivamente estaria tropeçando nas minhas próprias
palavras. O fato de que o Hayama podia proferir tais falsidades embaraçosas e ainda assim
manter um tom de respeito meio que me irritava. O que, ele era um Americano ou algo
assim?

– Então isso começou subitamente no último final de semana, entendo.


Yukinoshita meditou.

– Yuigahama-san, Hayama-kun, aconteceu alguma coisa na classe durante a última


semana?

– Nada me vem à mente.

Disse Hayama.

– Sim...

Disse a Yuigahama.

– Foi apenas igual ao habitual. Os


dois olharam um para o outro.

– Vou perguntar a você apenas para completar, Hikigaya-kun.


Disse Yukinoshita.

– Você notou alguma coisa?

– “Apenas para completar” você diz...

Eu estava na mesma classe que eles, muito obrigado. Porém, bem, uma vez que eu estava
assistindo a tudo de uma posição diferente desses dois, haviam coisas que apenas eu poderia
notar.
... Então, a última semana, hum? Isso significa algo que aconteceu recentemente.
Algo que aconteceu recentemente, algo que aconteceu recentemente, eu continuei
pensando comigo mesmo, mas nada me veio à mente.

Saika

Tão fofo

Eu tomei coragem Para


chamá-lo de Saika
Ontem

Oh sim, por que eu estava falando com o Totsuka ontem? Assim que eu pensei nisso, eu me
lembrei.

– Foi ontem. As pessoas estavam falando sobre seus grupos para a Visita ao Local de
Trabalho. (Verdade. E como uma extensão lógica desse pensamento, o Totsuka é fofo.)

Assim que eu disse isso, Yuigahama chegou a uma compreensão abrupta.

– Oooooh, é isso. É por causa dos grupos.

– Hum? Sério?

– Hum? Sério?

Hayama e eu dissemos em uníssono. Com isso, Hayama me mostrou um sorriso e disse,


“Estamos em sintonia”, embora eu seriamente não desse a mínima. Tudo o que eu pude dizer
foi,

– Um, sim...

4
Porém, paradoxalmente, Hayama mais Hachiman é igual a Riajuu muito bonito. Q.E.D .
Fim de demonstração. (... Isso acrescentou mesmo alguma coisa?)
Hayama dirigiu seu olhar para a Yuigahama. Quando ele fez isso,
Yuigahama sorriu timidamente.

– Er, veja, quando você faz um grupo para esse tipo de evento, isso afeta os
relacionamentos posteriores. Algumas pessoas levam isso para o lado pessoal...

Hayama e Yukinoshita olharam perplexos para uma Yuigahama um pouco sombria. Hayama
nunca havia sido excluído e Yukinoshita não tinha interesse nessas coisas, então nenhum dos
dois entendeu.

Mas eu sabia o que a Yuigahama queria dizer. Era porque aquelas palavras vieram da
Yuigahama, que prestava atenção nos outros e os aceitava com todas as suas bizarrices e
complicações, que eu podia acreditar nelas.

Yukinoshita tossiu, para trazer a conversa de volta aos trilhos.

– Hayama-kun, essas mensagens foram escritas sobre os seus amigos, você disse. Com
quem você vai fazer grupo?

– Oh, uhhhh.... agora que você mencionou isso, eu ainda não decidi. Acho que vou acabar
fazendo grupo com dois daqueles três.

– Eu acho que agora eu já sei quem fez isso...

Yuigahama disse com uma expressão um pouco abatida.

– Se importaria em nos dar uma explicação?


Yukinoshita perguntou.

– Mmm, bem, entende, basicamente, alguém que normalmente faz parte do grupo seria
excluído, certo? Apenas uma pessoa de um grupo de quatro seria deixado de fora. E essa
pessoa vai ficar muito irritada com isso.

A voz dela estava tremendo devido a emoção.

Se nós iríamos ir atrás do culpado, primeiro deveríamos pensar sobre suas razões. Se
pudéssemos descobrir o que havia feito com que ele agisse de tal forma, poderíamos lidar
mais naturalmente com ele.
Pensando nesse caso, isso era provavelmente para que eles não ficassem de fora.
Em nossa classe, Hayama era parte de um grupo de quatro garotos. Portanto, se eles
tinham que fazer um grupo de três, alguém acabaria ficando de fora. Não querendo que isso
aconteça, eles não tinham outras opções além de chutar alguém. Isso era, provavelmente, o
que o culpado estava pensando.

– ... Então não restam dúvidas de que o culpado está entre aqueles três.

Assim que Yukinoshita afirmou essa conclusão, Hayama deixou escapar uma rara explosão.

– Es-espere um instante! Eu não quero pensar que o culpado é um dos três. E as mensagens
não estão dizendo coisas ruins de todos os três? Não pode ser um deles.

– Hum, você é retardado? Você nasceu ontem ou algo assim?

Eu disse.

– É óbvio que eles fizeram isso para que ninguém suspeitasse deles. Se fosse comigo, eu
teria evitado caluniar um deles de propósito, apenas para incriminá-lo.

– Hikki, isso é realmente horrível...

Disse Yuigahama.

5
É um crime do colarinho branco. Um crime do colarinho branco, eu disse .

Hayama mordeu o lábio devido ao desgosto. Ele provavelmente nunca tinha imaginado
algo como isso antes: que havia ódio declarado bem debaixo do seu nariz ou que haviam
emoções negativas sob os sorrisos daqueles em quem ele confiava.
3–5

– Por enquanto, você poderia nos falar sobre aqueles três?

Yukinoshita sondou o Hayama atrás de informação.

Com isso, Hayama olhou para cima com o rosto cheio de determinação. Sua crença em seus
amigos se mantinha em seus olhos. Ele provavelmente mantinha a crença sublime de que
poderia esclarecer as suspeitas que foram lançadas sobre seus amigos.

– O Tobe está no Clube de Futebol, assim como eu. Seu cabelo descolorido pode fazer com
que ele pareça um cara mal, mas ele é o melhor em manter todos com energia. Ele sempre
está envolvido no Festival Cultural e no Festival Esportivo. Um cara legal.

– Uma pessoa que fica facilmente animada, cujo único talento é ser irritante, entendi.
Yukinoshita declarou.

Silêncio. Hayama estava sem palavras.

– Hm? O que houve? Continue.

Yukinoshita deu a Hayama um olhar estranho por ele ter ficado em silêncio do nada.
Recuperando seu impulso, Hayama lançou-se em sua próxima descrição de personagem.

– O Yamato está no Clube de Rúgbi. Ele é calmo e um bom ouvinte. Ele é um cara frio, que
deixa as pessoas a vontade sem falar nada, eu acho? Ele é do tipo silencioso e atencioso. Um
cara legal.

– Então ele não só é lento, mas também é incapaz de tomar suas próprias decisões... certo.
Incapaz de reunir todas as palavras, Hayama fez uma careta em silêncio, mas então, com

um sorriso resignado, ele continuou.


– O Ooka está no Clube de Baseball. É uma pessoa fácil de se lidar e ele está
sempre tentando ajudar as outras pessoas. Ele é sempre educado e respeita
tanto os mais velhos quanto os mais novos. Um cara legal.

– Um oportunista que se preocupa com sua reputação, então.

Hayama não era o único que tinha ficado sem palavras durante todo esse tempo.
Yuigahama e eu abrimos nossas bocas vagamente, mas as palavras não saíam.

Yukinoshita havia as demolido. Como eu esperava, ela havia nascido para ser uma
promotora.

Porém, a coisa mais assustadora sobre essa garota era que ela não estava necessariamente
incorreta em seus julgamentos de caráter. Haviam incontáveis maneiras de se ler o caráter de
uma pessoa. Hayama sempre insistia em olhar o lado bom das pessoas e ele era tendencioso
nesse sentido. Enquanto isso, Yukinoshita rejeitava tais interpretações de modo tão natural
que ela chegava a parecer dura. O problema era que ela era muito dura. Ela faria o Clint
Eastwood romper em lágrimas.

Yukinoshita olhou para as notas que ela escreveu e suspirou.

– Não seria estranho que qualquer uma dessas pessoas fosse o culpado.

– Isso não é por que você é que mais pensa como uma criminosa aqui?

Ela podia ver o mal em qualquer um apenas com uma pequena quantidade de evidências. Em
certo sentido, ela era ainda pior do que a pessoa que escreveu as mensagens de texto.

Yukinoshita colocou as mãos nos quadris com uma fúria exagerada, mas ela tinha um olhar
ainda mais irritado no rosto.

– Não há absolutamente nenhuma forma de que eu fizesse isso. Se eu fosse fazer isso, eu
destruiria meu inimigo cara a cara.
Os meios eram diferentes, mas essa garota parecia não perceber que ‘destruir seu
inimigo’ tinha o mesmo significado. Muito típico a Yukinoshita não ser capaz de
indicar uma solução pacífica.

Hayama sorriu para Yukinoshita com uma expressão que misturava raiva, arrependimento e
ansiedade de uma vez só. Yukinoshita tinha seus meios, mas o Hayama também tinha os dele.
No fim, ele só podia ver as palavras dela como bobagens. Ele era um bom garoto, mas o ponto
de vista dele era muito diferente do nosso e ele não quis delatar seus amigos.

Yukinoshita também pareceu ter notado isso.

– As descrições do Hayama-kun não são muito úteis... Yuigahama-san, Hikigaya-kun.

Ela virou seu olhar inquisitivo em nossa direção.

– O que vocês pensam desses garotos?

– Eh, na-não tenho muito o que dizer...

Yuigahama disse.

– Eu realmente não conheço esses caras.


Eu disse.

Nessa nota, eu realmente não conheço ninguém na escola inteira. Eu não tenho nenhum

amigo e meu número de conhecidos era muito pequeno. Sim, esse sou eu.

– Então você poderia observá-los por mim?


Yukinoshita disse para Yuigahama.

– Os grupos serão decididos depois de amanhã, correto? Nós temos um dia para descobrir.

– ... Um, tudo bem.


Uma expressão levemente desconfortável surgiu no rosto de Yuigahama.

Eu suponho que, para a Yuigahama, que estava tentando se dar bem com todos
em sua classe, essa não era uma ação que ela estivesse inclinada a empreender. Você teria
que se expor para as mesmas pessoas que você estava tentando expor. Era uma ação
relativamente arriscada para alguém que fazia parte da comunidade.

Yukinoshita também pareceu ter percebido isso, porque ela baixou os olhos delicadamente.

– ... Desculpe, essa não é uma coisa terrivelmente agradável de se fazer. Por favor,
tenha isso em mente.

Ela insistiu.

Quando ela coloca isso desse jeito, qualquer um diria que iria fazer. Bem, isso era muito
óbvio.

– Eu farei isso. Eu realmente não ligo para o que os meus colegas de classe pensam sobre
mim.

Eu disse, o que fez com que Yukinoshita olhasse para mim.


Ela sorriu levemente.

– Eu não estou prendendo a respiração.

– Deixe comigo. Encontrar falhas nas pessoas é uma das minhas 108 habilidades especiais.
Quanto as minhas outras habilidades especiais, elas incluem cama de gato. Eu sou tão bom

6
quanto o Nobita-kun .

– Es-espere um pouco! Eu vou fazer isso! E-eu não posso deixar o Hikki fazer isso do jeito
dele!

Yuigahama insistiu com o rosto vermelho. No momento seguinte, ela fechou os punhos.
– E além disso! Não tem como eu recusar um dos pedidos da Yukinon!

– ... Entendo,

Yukinoshita respondeu apressadamente, olhando para longe de modo afiado. Fosse devido
ao brilho do sol poente ou devido a sua vergonha, as bochechas da Yukinoshita estavam cor de
rosa.

Mas poxa, eu disse que faria isso. Por que essa vadia trata a Yuigahama de maneira tão
diferente de mim quando nós dois dizemos exatamente a mesma coisa?

Hayama estava assistindo as duas garotas com um brilhante e revigorante sorriso no rosto.

– Que ótima amizade.


Ele comentou.

– Hum? Sim. Aquelas duas se dão bem.

– Assim como você, Hikitani-kun.

Do que diabos ele estava falando...? Não tem nenhum cara chamado Hikitani neste Clube.
3–6

No dia seguinte na classe, Yuigahama estava completamente animada.

Ao invés de ir para o seu lugar de costume durante os intervalos, Yuigahama trouxe pão e
uma bebida enlatada para mim. Juntos, nós começamos a nossa elaborada reunião
estratégica.

– Eu vou puxar o assunto agora... en-então você não precisa se forçar, Hikki. Na
verdade, você não precisa fazer nada.

– Oh, legal. Aprecio muito. Por que você está tão motivada...?

Eu perguntei. Ela não estava tomando nenhuma contramedida.

– I-isso é aquilo, sabe? Po-Porque a Yukinon me pediu, sim!

A devoção dela à Yukinoshita era muito comovente. Ainda assim, eu estava cansado só de
assisti-la. Uma indescritível sensação de desconforto tomou conta de mim.

– É bom que você esteja motivada, mas o que você vai realmente fazer?

– Hmm, eu vou tentar escutar a conversa das garotas. Quando se trata de coisas como os
relacionamentos na classe, as garotas são bastante profundas. E elas ficam realmente focadas
quando é algo de que nenhuma delas gosta.

– Whoa, conversa de garotas é uma coisa assustadora. Droga.

O inimigo do meu inimigo é meu amigo, basicamente. Quem poderia saber que elas

utilizariam tais técnicas de alto nível...?

– Não é nada maligno quanto isso! São apenas reclamações— ou mais como trocar
informações?
– Não é o que você diz, mas como você diz, de fato.

– De todo modo! Você é uma droga nesse tipo de coisa, Hikki. Apenas deixe isso
comigo. Entretanto, havia alguma verdade no que a Yuigahama disse. Honestamente,
não era da

minha natureza espremer informações das pessoas falando com elas. Era mais como se no
momento em que eu falasse, elas imediatamente começariam a suspeitar de mim. Assim que
eu as fizesse uma pergunta, elas diriam ‘Quem é você?’ direto de volta para mim.

Diferente de mim, Yuigahama tinha status na classe e ela era querida. Além disso, ela era
sociável. Este sucesso dela era devido a ter aprimorado suas habilidades desde que era
pequena. A habilidade de procurar por um lugar onde ela pudesse se encaixar era, de fato,
realmente útil.

– Sim, você está certa... desculpe. Eu vou deixar isso com você. Boa sorte!

– Mmm! Sim!

Yuigahama declarou com espírito de luta, antes de se aproximar das garotas que estavam
amigavelmente com o grupo do Hayama. Ela caminhou até o grupo da Miura.

– Desculpem, eu demorei muito!

– Oh, Yui. O que a fez demorar tanto?

Miura, a líder do grupo, respondeu preguiçosamente.

– Ei, cês sabiam, o Tobecchi, o Ooka-kun e o Yamato-kun tem agido de modo muito
estranho ultimamente. Eles têm estado meio tipo assim, sabem. Quero dizer—

Cristo! Eu bufei ao escutar as palavras de Yuigahama.


Um golpe direto! E um golpe curvo ao mesmo tempo! Se fosse uma questão de
força, ela facilmente seria Nível S. No entanto, o controle dela era abismal— com
certeza Nível F.

– Hum... então você é do tipo fofoqueira, Yui...

Disse uma garota, afastando-se ligeiramente. Acho que o nome dela era Ebina-san, talvez.
Com um olhar de lado, Miura virou-se para a Yuigahama com seus olhos brilhando.

– Agora escute aqui, Yui. Não é nada bom ficar falando essas coisas, cê sabia? Não é nada
bom delatar seus amigos!

De acordo com essas maravilhosas palavras, Miura era um farol brilhante de bondade. Ou,
mais precisamente, Yuigahama havia criado uma situação em que ela era o cara mal. O

que ela estava fazendo?

Ainda assim, Yuigahama estava fazendo o seu melhor para convencê-las de que ela
não estava errada.

– Não! Vocês não entenderam! Eu só estava, tipo, interessada neles.

– O que, você tem uma queda por algum deles?

– Sem chance! Tem alguém em quem eu estou interessada, mas... bem... hum!?
Aproximadamente ao mesmo tempo em que Yuigahama tinha um ‘Oh droga!’ escrito por

todo o seu rosto, um sorriso sorriu no rosto de Miura.

– Oho... então tem alguém de quem você gosta, Yui? Derrame os feijões, irmã. Se confesse.
Nós podemos te ajudar!

– Como eu disse! Esse não é o ponto! Eu estou interessada naqueles três, entendem?
Tipo, eu pensei que eles estavam agindo de modo estranho entre eles!

– Oh, é mesmo? Que chato.


Miura prontamente perdeu o interesse. Ela abriu seu celular e começou a brincar com
ele.

No entanto, a Ebina-san ainda estava interessada.

– Entendi... você também está interessada, Yui... na verdade, eu também estou!

– Sim, sim! Eles estão, tipo, estranhos e tudo mais!

– Eu também penso assim.

Ebina-san declarou com um solene suspiro.

Do jeito que eu vejo isso, o Tebecchi é certamente o uke! E o Yamato-kun é o auto-


confiante seme. Oh, e o Ooka-kun é um uke do tipo sedutor. Definitivamente existe algo

7
acontecendo entre aqueles três !

– Oh, você entendeu,

Yuigahama disse a princípio. E então,

– ... Hum?

– Mas sabe! Todos os três estão almejando o Hayato-kun, com certeza! Eeeeeek, eu
tenho a sensação de que eles estão se segurando por causa de seus amigos. Eu estou me
afogando em sentimentos!

Uau, isso é sério? Quem diria que a Ebina-san era uma personagem tão exagerada? O nariz
dela estava sangrando.

Yuigahama ficou gaga e completamente confusa, enquanto Miura deixava escapar um


longo e sofrido suspiro.

– Aqui vamos nós outra vez. Essa é a doença da Ebina. Poxa, você seria muito bonita se
deixasse essa sua boca fechada, então feche-a e limpe já esse seu nariz.
– Ahahahaha...

Yuigahama riu de forma incrivelmente desajeitada. Quando ela percebeu que


eu estava assistindo, ela bateu as mãos, sinalizando que havia falhado. Desculpe!

... Sim, nenhuma surpresa, já que a abordagem dela foi completamente


equivocada. Mesmo se a Ebina-san não estivesse ali, aquilo não teria terminado bem.

Então, no fim das contas, eu mesmo teria que fazer isso.

Porém, dito isso, me misturar com meus colegas de classe e sair perguntando para eles
estava fora de questão para mim. Então, o que eu deveria fazer para conseguir informação das
pessoas?

A resposta era óbvia. Eu não faria nada além de observá-los. Se eu não pudesse participar
da conversa— não, porque eu não poderia participar da conversa, eu tinha que usar quaisquer
outros meios para coletar informações.

Diz-se que, essencialmente, trinta por cento de toda a comunicação humana é realizada
através da linguagem. Os outros setenta por cento nós obtínhamos através dos movimentos
dos olhos e de gestos sutis. A frase ‘Uma imagem diz mais do que mil palavras’ surgiu da
grande importância desse tipo não-verbal de comunicação. Em outras palavras, até mesmo um
solitário, que é incapaz de conseguir conversar, através de um paradoxo, é capaz de absorver
cerca de setenta por cento do que chamamos de comunicação, certo? Certo?

Agora então, eis uma das minhas 108 habilidades especiais: ‘A Observação Humana’. Minha
outra habilidade é tiro com armas. É por isso que eu sou muito parecido com o Nobita-kun.

Realizar uma observação humana é algo ridiculamente simples:

1) Coloque os seus fones de ouvido, mas desligue a música para que você possa
focar apenas nos seus arredores.
2) Faça de conta que você está distraído, mas na verdade, preste muita atenção
nas expressões faciais de cada um dos membros do grupo do Hayama.
Isso é tudo.

Hayama e os outros estavam ao redor do assento ao lado da janela. Hayama


estava encostado na parede, cercado pelo Tobe, pelo Yamato e pelo Ooka.

Isso por si só já revelava muita coisa. Era fácil ver que o Hayama era quem mais exercia
influência naquele grupo. Isso porque era ele quem estava com as costas voltadas para a
parede, posição que conferia a maior das defesas, o lugar apropriado para o verdadeiro rei.
Provavelmente, eles mesmos não tinham nenhuma noção do que estavam fazendo. No
entanto, era exatamente porque eles não tinham noção disso e o faziam por instinto que
essa ação se tornava tão reveladora.

Eu podia ver que todos os três tinham papeis pré-estabelecidos que deveriam seguir.

– Yo, cara. Nosso treinador começou a mandar as bolas perdidas para o Clube de Rúgbi!
Nada bom! E também eram bolas difíceis!

– ... Sim, o nosso conselheiro capotou com a merda de vocês.

– Que pé no saco! Cês sabem, o time de Rúgbi ainda está bem. O nosso time de Futebol

é uma droga. Caaara, isso é ruim. É realmente ruim quando as bolas vão para fora do
campo externo. É rápido e furioso!
Ooka configurava a piada e o Yamato a carregava. Então, o Tobe gritava a piada. Era
como assistir a uma peça ensaiada. Shakespare disse: “Todo o mundo é um palco”, mas
certamente você poderia dizer que essas pessoas apenas representavam os papéis que
deram a eles.

E também, o diretor e o público dessa atuação era o Hayama. Ele ria das histórias deles
de tempos em tempos, sugeria o tópico de tempos em tempos e ficava animado com eles
de tempos em tempos. Eu percebi muitas coisas ao assisti-los:

Oh, aquele cara reclamou um pouco agora que você não estava olhando para ele. Esse
cara sempre se cala quando o cara ao lado dele começa a contar sua história. Esse
cara começa a brincar com seu celular com um olhar entediado no rosto e não liga
realmente para o assunto.

Sempre que uma piada suja aparecia, aquele cara sorria vagamente— que virgem
patético. Sem dúvidas quanto a isso. Fonte: Eu mesmo. (Eu me pergunto, por que será que
sempre que uma piada suja vem à tona, as pessoas fingem que estão por cima de tudo,
apesar do modo como eles realmente estão se sentindo...?)

... Eu tenho a sensação de que essa última informação é um pouco completamente


irrelevante.

Não parecia ter muito mais do que isso. Enquanto esse pensamento passava pela minha
cabeça, eu suspirei.

– Desculpem-me, com licença.

Hayama disse enquanto deixava seu assento e olhava na minha direção. Parecia que eu
estava encarando tanto que o Hayama acabou notando. Meu coração começou a bater mais
depressa devido ao pensamento de que um deles iria perguntar “O que cê tá olhando? Cê tá
querendo briga?” ou alguma coisa assim.

Hayama veio até mim,

– O que?

Eu perguntei bruscamente, com medo dos meus pensamentos mais íntimos. Em


resposta, Hayama não ficou particularmente irritado, nem me agarrou pelo

colarinho ou exigiu que eu mudasse de atitude. Ele apenas sorriu brilhantemente.

– Oh, eu apenas estava me perguntando se você descobriu alguma coisa.

– Nah...
O máximo que eu descobri foi que a Ebina-san era uma fujoshi e que o Ooka era
um virgem. Enquanto eu pensava nisso, eu olhei na direção de Ooka e dos outros,
apenas para dar de cara com uma cena surpreendente se desenrolando.

Os três estavam mexendo com seus celulares com indiferença. E ocasionalmente, todos
eles olhavam na direção de Hayama.

A resposta me atingiu naquele momento. Foi um lampejo de percepção como levar um


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tiro de arma tranquilizante na nuca .

– Aconteceu alguma coisa?


Hayama perguntou, confuso. Eu
sorri de volta para ele.

– Eu resolvi todo o mistério!

O raciocínio por trás dessa revelação virá depois do intervalo, é claro.


3–7

As pessoas que se reuniram na sala do Clube após as aulas foram


Yukinoshita, Yuigahama e eu. Oh, e o Hayama também.

– O que vocês descobriram?

Yukinoshita pressionou Yuigahama e eu pelo nosso relatório de informações.


Yuigahama riu timidamente.

– Desculpe! Eu perguntei para as garotas se elas sabiam de alguma coisa, mas não
consegui nada!

Ela se desculpou humildemente.

Sim, mas não havia nada que pudesse ser feito quanto a isso. Isso também foi devido ao
modo como a Ebina-san começou a falar de coisas que a Yuigahama realmente não precisava
saber, como shippar o uke e o seme e outras coisas. A tentativa de Yuigahama de obter
informações não deu em nada.

Yukinoshita baixou a cabeça e olhou diretamente para a Yuigahama. No entanto, ela não
parecia particularmente irritada.

– É mesmo? Nesse caso, eu não me importo.

– Hum? Você está bem com isso?

– Ao contrário, hoje você descobriu que aquelas garotas não tem interesse e que não
estão relacionadas. Isso mostra que este problema é relativo unicamente ao grupo do
Hayama-kun. Yuigahama-san, você fez bem.

– Yu-Yukinon...

Os olhos de Yuigahama ficaram nublados devido a emoção.


Yukinoshita claramente evitou o abraço de Yuigahama. A testa de Yuigahama
bateu na parede com um baque e seus olhos se encheram de lágrimas.

Espantada, Yukinoshita cuidou da testa de Yuigahama. Ao mesmo tempo, ela olhou para
mim.

– Então, e quanto a você?

– Desculpe, eu não encontrei nenhuma pista sobre a identidade do culpado.

– ... Entendo.

Eu pensei que ela fosse arrancar minha cabeça, mas Yukinoshita apenas suspirou com
resignação. Então, ela olhou para mim com olhos muito compadecidos.

– Ninguém iria falar com você.

– Não, não é isso...

É verdade que eu não tinha confiança de que alguém fosse me responder se eu falasse
com eles. O ato de falar com pessoas e abordar um tema específico consome uma grande
quantidade de calorias espirituais. Seria um desperdício tão grande de MP quanto a Magic
9
Burst .

– Eu não descobri a identidade do culpado, mas eu aprendi uma coisa. Eu


disse.

Yukinoshita, Yuigahama e Hayama se inclinaram para frente. Olhos duvidosos, olhos na


expectativa, olhos interessados— enquanto eu recebia seus olhares um de cada vez, eu tossi
uma vez. Como se fosse uma sugestão, Yukinoshita perguntou,

– O que será que você aprendeu, eu me pergunto?

– Aquele é o grupo do Hayama.


– Hum? Você não está afirmando o óbvio?

Yuigahama disse veementemente, como se eu fosse algum idiota. Tudo o que eu podia
ver nos olhos dela era, ‘Quem é esse virgem? Ooka?’. Ei, deixe o Ooka fora disso.

– Uhh... Hikitani-kun, o que você quer dizer?

– Oh, eu me expressei mal. Eu quis dizer ‘do Hayama’ no sentido possessivo. Em outras
palavras, o grupo pertence ao Hayama e existe pelo bem dele.

– Nah, eu não acho que seja realmente assim...

Hayama disse, mas isso era apenas por causa da sua falta de autoconsciência. Nesse
caso, talvez os três naquele grupo estivessem tão inconscientes disso quanto ele próprio
estava.

Porém, uma vez que eu era um observador externo, as diferenças para mim eram claras
como o dia.

– Hayama, você alguma vez já viu aqueles três quando você não está por perto?

– Não, nunca...

– Isso era desnecessário de se dizer.

Yukinoshita disse como se eu fosse um idiota.

– Não é como se você pudesse ver alguma coisa quando não está lá. Eu
assenti.

– Essa é a única razão pela qual o Hayama nunca notou. Aqueles três param de se dar bem
assim que são deixados sozinhos. Para simplificar, todos eles gostam do Hayama como seus
amigos, mas enxergam os demais como ‘amigos de um amigo’.
Yuigahama foi a única a reagir ao que eu disse.

3–7

As pessoas que se reuniram na sala do Clube após as aulas foram Yukinoshita,


Yuigahama e eu. Oh, e o Hayama também.

– O que vocês descobriram?

Yukinoshita pressionou Yuigahama e eu pelo nosso relatório de informações.


Yuigahama riu timidamente.

– Desculpe! Eu perguntei para as garotas se elas sabiam de alguma coisa, mas não
consegui nada!

Ela se desculpou humildemente.

Sim, mas não havia nada que pudesse ser feito quanto a isso. Isso também foi devido ao
modo como a Ebina-san começou a falar de coisas que a Yuigahama realmente não precisava
saber, como shippar o uke e o seme e outras coisas. A tentativa de Yuigahama de obter
informações não deu em nada.

Yukinoshita baixou a cabeça e olhou diretamente para a Yuigahama. No entanto, ela não
parecia particularmente irritada.

– É mesmo? Nesse caso, eu não me importo.

– Hum? Você está bem com isso?

– Ao contrário, hoje você descobriu que aquelas garotas não tem interesse e que não
estão relacionadas. Isso mostra que este problema é relativo unicamente ao grupo do
Hayama-kun. Yuigahama-san, você fez bem.

– Yu-Yukinon...

Os olhos de Yuigahama ficaram nublados devido a emoção.


Yukinoshita claramente evitou o abraço de Yuigahama. A testa de Yuigahama
bateu na parede com um baque e seus olhos se encheram de lágrimas.

Espantada, Yukinoshita cuidou da testa de Yuigahama. Ao mesmo tempo, ela olhou para
mim.

– Então, e quanto a você?

– Desculpe, eu não encontrei nenhuma pista sobre a identidade do culpado.

– ... Entendo.

Eu pensei que ela fosse arrancar minha cabeça, mas Yukinoshita apenas suspirou com
resignação. Então, ela olhou para mim com olhos muito compadecidos.

– Ninguém iria falar com você.

– Não, não é isso...

É verdade que eu não tinha confiança de que alguém fosse me responder se eu falasse
com eles. O ato de falar com pessoas e abordar um tema específico consome uma grande
quantidade de calorias espirituais. Seria um desperdício tão grande de MP quanto a Magic
9
Burst .

– Eu não descobri a identidade do culpado, mas eu aprendi uma coisa. Eu


disse.

Yukinoshita, Yuigahama e Hayama se inclinaram para frente. Olhos duvidosos, olhos na


expectativa, olhos interessados— enquanto eu recebia seus olhares um de cada vez, eu tossi
uma vez. Como se fosse uma sugestão, Yukinoshita perguntou,

– O que será que você aprendeu, eu me pergunto?


– Aquele é o grupo do Hayama.

– Hum? Você não está afirmando o óbvio?

Yuigahama disse veementemente, como se eu fosse algum idiota. Tudo o que eu podia
ver nos olhos dela era, ‘Quem é esse virgem? Ooka?’. Ei, deixe o Ooka fora disso.

– Uhh... Hikitani-kun, o que você quer dizer?

– Oh, eu me expressei mal. Eu quis dizer ‘do Hayama’ no sentido possessivo. Em outras
palavras, o grupo pertence ao Hayama e existe pelo bem dele.

– Nah, eu não acho que seja realmente assim...

Hayama disse, mas isso era apenas por causa da sua falta de autoconsciência. Nesse
caso, talvez os três naquele grupo estivessem tão inconscientes disso quanto ele próprio
estava.

Porém, uma vez que eu era um observador externo, as diferenças para mim eram claras
como o dia.

– Hayama, você alguma vez já viu aqueles três quando você não está por perto?

– Não, nunca...

– Isso era desnecessário de se dizer.

Yukinoshita disse como se eu fosse um idiota.

– Não é como se você pudesse ver alguma coisa quando não está lá. Eu
assenti.

– Essa é a única razão pela qual o Hayama nunca notou. Aqueles três param de se dar bem
assim que são deixados sozinhos. Para simplificar, todos eles gostam do Hayama como seus
amigos, mas enxergam os demais como ‘amigos de um amigo’.
Yuigahama foi a única a reagir ao que eu disse.

– Oh, oooohhh. Eu totalmente entendo isso. É estranho quando a pessoa que


mantém o fluxo da conversa não está lá. Eu nunca sei o que dizer, então eu sempre acabo
mexendo no celular...

Ela baixou a cabeça, como se tivesse lembrado de algo desagradável.

Yukinoshita inclinou-se em direção a Yuigahama, que ainda estava de cabeça baixa.

– Isso... isso é assim mesmo?

Ela sussurrou no ouvido de Yuigahama, puxando sua manga de forma hesitante.


Yuigahama cruzou os braços e assentiu, confirmando.

Essa foi a Yukinoshita para vocês. Ela não tinha experiência com amigos e então ela
também não tinha nenhuma experiência com amigos de amigos.

Hayama meramente permaneceu quieto, como se estivesse refletindo sobre minhas


palavras. No entanto, essa era a única coisa que o Hayama não poderia concertar. Para ele,
aqueles três realmente eram seus amigos. Mas esse relacionamento não se estendia entre os
três— eles apenas tinham que se contentar com a presença uns dos outros.

Ser amigo de alguém significava ter que se curvar para eles. Então, nessa condição, não
havia nada que me fizesse pensar que seria algo bom ter muitos amigos.

No momento, Hayama estava preso em um atoleiro. Ele estava cercado de amigos, mas,
por outro lado, você poderia dizer que ele estava preso por eles. Fugir também não era uma
opção. Em termos de Dragon Quest, isso seria ‘Mas Tu Deves’.

Ainda assim, eu sabia de um jeito de sair dessa situação.

– Assumindo que você esteja correto, Hikigaya-kun, os motivos deles apenas se tornam
ainda mais fortes.
Yukinoshita colocou uma mão sob o queixo, contemplativa.

– Talvez não exista um modo de determinar qual dos três fez tudo isso. A situação
não poderá ser controlada a menos que o culpado seja removido. Mais uma razão para
suspeitarmos daqueles três...

Remover pessoas faria as coisas se normalizarem— Yukinoshita era assustadora. Será


que ela tinha removido a Sagawa-san e a Shimoda-san do seu passado?

Nessa mesma nota, chutar pessoas para fora da escola era uma coisa terrível de se fazer,
então eu sugeri uma outra abordagem,

– Nah, não há necessidade de remover o culpado. Existe um jeito melhor.

Eu disse.

Yukinoshita inclinou a cabeça e olhou para mim com curiosidade.

Não havia dúvida sobre a teoria de se remover o culpado quando um crime era
cometido. Porém, nos restava uma outra opção. No caso do roubo de uma joia, o crime

nunca teria acontecido se a joia em questão não existisse. Remover a joia antes que o crime
aconteça. Eu, com minhas habilidades de ninja, escolhi o caminho do ladrão invisível em vez do
caminho do detetive.

– Hayama, você pode resolver isso se quiser. Você não precisa procurar pelo culpado e a
situação não vai mais piorar— e desse jeito, eles podem acabar se tornando melhores amigos.

Eu me pergunto que tipo de olhar eu estava fazendo enquanto dizia isso. Eu estava
sorrindo, ao menos. E era um sorriso tão esplêndido que fez a Yuigahama se afastar,
horrorizada.

Inadvertidamente, eu comecei a gargalhar do mesmo modo que o Zaimokuza fazia. Se


existisse um demônio que os seres humanos perseguiam para fazer pactos com ele, eu
deveria estar parecendo com ele naquele momento.
– Você quer saber como?

Eu perguntei.

Hayama, a pobre ovelha perdida, ouviu a proposta do demônio e assentiu


fervorosamente em resposta a ela.
3–8
Era o dia seguinte, quando Hayama tomou sua decisão sobre seu próprio destino. Na sala
de aula, o nome de todos os nossos colegas de classe estavam listados no quadro negro.
Cada agrupamento consistia de três nomes e eles foram escritos em fila, para indicar os
grupos na Visita ao Local de Trabalho. As três garotas que se sentavam ao

meu lado deram risadinhas e sorriram umas para as outras enquanto se levantavam para ir
até o quadro negro para escreverem seus nomes, como já haviam combinado.

Quanto a mim, eu não chamei ninguém e apenas fiquei sentado lá, como se eu estivesse
distraído. Essa era a forma que eu usava para lidar com essas ocasiões em que nós tínhamos
que nos dividir em grupos. Nesses momentos, era vital não fazer nenhum tipo de movimento.
O falecido Takeda Shingen também disse a mesma coisa: ‘Imóvel como uma montanha’. Ele
estava completamente certo. ‘Rápido como o vento, silencioso como uma floresta, intrusivo
10
como o fogo, imóvel como uma montanha’ . Esse era eu ali mesmo. Eu estava esperando
pela mudança do vento da fortuna, que faria com que nosso professor titular dissesse ‘Sim,
sim, eu sei que todos vocês odeiam o Hikigaya-kun, mas não é bom deixá-lo sozinho! Nada
bom!’.

(... isso foi o que a professora titular da minha classe na Quarta Série disse. Eu nunca vou
perdoar aquela velha Isehara.)

De qualquer forma, como diz o ditado ‘Coisas boas vem para aqueles que esperam’,
tudo o que um solitário tem a fazer é esperar, meio sonolento, até que seus colegas de
classe não possam encontrar um terceiro membro e recorram a chamar o seu nome. E é
assim que o nosso pequeno grupo feliz é formado!

... meh, eu vou tirar um cochilo.

Eu usei uma das minhas 108 habilidades— fingir que estou dormindo. Aliás, uma das
minhas outras habilidades é ‘virar um dos mocinhos durante arcos muito longos’. Eu sou
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muito parecido com o Gian .
Quando eu comecei a cochilar, alguém gentilmente me sacudiu pelos ombros. Eu
pude sentir a suavidade de suas mãos delicadas mesmo através das minhas roupas.
Quando uma voz chamou ‘Hachiman’, soou como música angelical alcançando meus
ouvidos. Enquanto eu estava sendo gentilmente sacudido, acordado pelos céus, eu abri meus
olhos.

– Bom dia, Hachiman.

– ... Um anjo? Oh, é o Totsuka.

Whoa, ele me pegou desprevenido. Ele era tão fofo que eu tive certeza de que era um anjo.
Rindo, Totsuka sentou-se na cadeira ao meu lado, onde as garotas estavam até instantes atrás.

– O que foi? Eu perguntei.

Totsuka segurou as mangas de seu uniforme esportivo e olhou para mim com olhos
suplicantes.

– So-sobre a formação de grupos...

Ele começou hesitante.

– Hum? Oh, sim. Você fez bem.

Então o Totsuka já havia decidido, afinal. Que pena.

Enquanto eu me esticava, olhei ao redor da sala de aula. A maioria dos grupos já havia
sido escolhida, então estava quase na hora de nós, solitários, fazermos nossa aparição. Eu
teria que participar de um grupo improvisado com outros solitários. Haviam dificuldades
mesmo entre os solitários e se eu demorasse a começar, eu acabaria sendo forçado a entrar
em um grupo com duas pessoas que não se davam bem. Estava na hora de procurar pelos
perdedores ao checar seus nomes no quadro negro.

Nesse exato momento, um grupo estava escrevendo seus nomes. Era um certo trio, do
qual eu me lembrava de vista.
‘Tobe, o loiro avoado.’ ‘Yamato, o imbecil indeciso.’ ‘Ooka, o virgem medroso.’

Os novos Três Mosqueteiros! Eu tinha inadvertidamente testemunhado o nascimento de


um novo legado. Aliás, meu personagem favorito era o ‘Ooka, o virgem medroso’. Depois que
ele escreveu seu nome e olhou para os outros dois, eles riram de modo estranho. Eu não
podia ver o nome do Hayama em lugar algum.

Enquanto eu assistia aos três, eu escutei uma voz súbita.

– Eu posso sentar aqui?

Sem esperar pela minha resposta, ele sentou-se ao lado do Totsuka. Diante do súbito
aparecimento de um inesperado recém-chegado, Totsuka lançou um olhar ansioso na
minha direção e murmurou,

– Er, uhhh...

Isso foi muito fofo.

– Graças a você, nós conseguimos resolver tudo de modo pacífico, obrigado, cara. O
recém-chegado sorriu alegremente. Era Hayama Hayato.

– Eu não fiz nada.

Eu insisti. Então, por que diabos esse cara está falando comigo como se me conhecesse?
Ele era um bom garoto? Realmente um bom garoto?

– Dê algum crédito a si mesmo. Se você não tivesse dito o que disse, eles ainda
poderiam estar brigando.

Ou assim Hayama Hayato alegou, uma vez que eu não havia feito sequer uma única coisa
agradável. Na verdade, tudo em que eu estava pensando era em arrastar o Hayama para o
caminho dos solitários.
A razão pela qual aqueles três estavam brigando era porque eles queriam ficar
12
juntos do Hayama. Então pegue a causa pela raiz e voila .

Basicamente, a resposta foi separar o Hayama Hayato dos seus amigos. A existência de um
solitário era como um país permanentemente neutro. Se você não fosse um, problemas
surgiriam em seu caminho mesmo quando você não fizesse nada. Se o mundo fosse povoado
apenas por solitários, indubitavelmente não haveriam coisas como guerras ou discriminação.
Ei, eu mereço um Prêmio Nobel da Paz por isso.

– Eu sempre quis que todos se dessem bem, mas agora eu entendo que eu também
causei conflitos...

Hayama murmurou e, pela primeira vez, ele pareceu solitário.

Incapaz de encontrar quaisquer palavras para responder ao Hayama, eu deixei escapar


um suspiro não-comprometedor. Hayama havia ido até o Clube de Serviços devido ao seu
enorme desejo de encontrar uma solução que pudesse ajudar seus amigos e seu grupo, mas
tudo que eu dei a ele foi uma difícil e dura escolha.

Mesmo que ele tivesse saído do seu caminho para falar comigo e lembrasse do nome do
Zaimokuza. Mesmo que ele fosse um cara legal. Mesmo que ele vivesse uma vida no Ensino
Médio mais feliz do que qualquer outra pessoa.

E ainda assim, era porque Hayama Hayato não gostava dessa parte de si mesmo que ele
estava dizendo essas coisas.

– Aqueles três ficaram muito surpresos quando eu disse que não formaria grupo com
eles. Eu acho que seria legal se isso os motivasse a se tornar amigos de verdade.

– ... Sim, eu acho.

Honestamente, eu acho que qualquer um que seja legal tem algum tipo de doença. Eu

dei a resposta genérica adequada e recuei um pouco.


– Obrigado. Oh, e sabe, eu ainda não decidi em que grupo entrar, então que
tal nós irmos juntos?

Sorrindo, Hayama ergueu seu braço direito na minha frente.

... Hum? Um aperto de mãos? O que há com esse riajuu para agir todo íntimo comigo?
Poxa, não fode comigo. O que, ele era Americano ou algo assim?

– Tu-tudo bem, parceiro.

E por causa disso, eu, involuntariamente, respondi como um delinquente Americano. Eu bati
na mão dele (Ai!) e Hayama sorriu mais uma vez. Agora que ele havia se tornado

um solitário como eu, nós podemos nos entender um pouco melhor a partir de agora. Agora
então, tudo o que nós precisávamos era assegurar mais uma pessoa e nosso

trabalho estaria pronto.

Subitamente, um adorável organismo começou a gemer do meu lado.

– ... Totsuka, o que foi?

Eu olhei para ele. O rosto irritado e os olhos marejados do Totsuka eram muito fofos.

– Hachiman... e quanto a mim?

– Er, uh, hum?

Eu pisquei.

– Eu, uh, pensei que você já tivesse decidido.

– Eu decidi!
Totsuka se preparou e agarrou a manga do meu blazer com força.

– Eu decidi ir com você desde o começo, Hachiman.

– Então é isso que você queria dizer com decidido...

Qual foi a desse truque literário? Mas sabe, como a habilidade de um solitário para ler o
clima não é necessariamente alta, eu nunca nem mesmo percebi que ele, na verdade, nunca
havia especificado com quem ele iria. Quando eu olhei para o emburrado e ruborizado
Totsuka, meu rosto suavizou sem que eu notasse. Quando eu sorri, Totsuka olhou para mim e
riu.

Hayama, que assistia a nós dois sorrindo, levantou-se e olhou de volta para nós por cima do
ombro.

– Certo, eu vou escrever os nossos nomes. Onde vocês querem ir?

– Isso é com você.

Eu disse e Totsuka assentiu, concordando.

Então, o Hayama começou a escrever nossos nomes no quadro negro.

‘Hayama’, ‘Totsuka’, ‘Hikigaya’. Oh, então ele não soletrou meu nome errado. Isso me
deixou meio feliz, eu acho. Poderia ser que essas pessoas eram meus amigos?

Hayama prosseguiu e começou a escrever ‘Lugar de Trabalho que queremos visitar’. E


então—

– Oh, ooooh.

Uma garota comentou.

– Eu vou fazer a mesma coisa que o Hayato.


– Sem chance, o Hayama-kun vai ir para
lá? Outra garota disse.

– Oh, eu vou mudar o meu também, eu vou mudar o meu também!

– Eu vou para lá também!

E outra.

– O Hayato é o verdadeiro negócio! Ele é o Super Hayato!

Nossos colegas de classe bombardearam o Hayama de uma só vez. E então, enquanto eles
ansiosamente tagarelavam entre si, eles escolheram o mesmo lugar para onde o Hayama ia e
substituíram seus nomes no quadro negro. Não muito tempo depois, meu nome havia se
perdido sob a montanha de nomes que foram escritos sobre ele. E mais uma vez, minha
existência era completamente ignorada.

13
Vê, é por isso que eu sou um ninja. Eu deveria ir para Iga ou para Kouga em minha
Visita ao Local de Trabalho. E com isso, eu escaparia despercebido, senhoras e senhores.

Desnecessários dizer que a amizade também é algo que pode escapar despercebida a
qualquer momento.
1
Um jogo

2
El Dorado é conhecida como uma cidade inteiramente feita de ouro. É uma lenda
ocidental.

3
São organizações ou instituições que atuam no campo dos grupos de
interesse, produzindo e difundindo conhecimento sobre assuntos estratégicos.
4
Expressão em latim que significa ‘Como queria demonstrar’.

5
Um crime do colarinho branco é um crime cometido por uma pessoa de alta
posição social, como um empresário ou um político.

6
Referência a Doraemon

7
Termos relacionados a Yaoi. Uke seria o passivo e Seme o ativo.
8
Referência a Detetive Conan

9
Um feitiço de Dragon Quest

10
Um antigo lorde feudal famoso por sua competência militar na era dos Estados em
Guerra

11
Referência a Doraemon
12
Palavra Francesa, pode significar algo como ‘aqui está’.
13
Províncias Japonesas associadas a ninjas
Capítulo 4: Por várias razões, Kawasaki Saki é uma delinquente

4–1
Os exames semestrais estavam convergindo em nossa
direção bem diante de nossos olhos.

Existem muitos casos em que seções de estudo significam


passar algum tempo em um restaurante familiar ou algum tempo
na biblioteca, mas não há meios de supervisionar um estudante
que saia para passear às onze da noite. Eu estou falando de
quando você é expulso de restaurantes familiares depois das dez
da noite. Por essa razão, seções de estudo noturnas são feitas
inteiramente em casa. A propósito, seções de estudo noturnas
não são a mesma coisa que seções noturnas de luta profissional.

Os ponteiros do relógio marcavam que já era quase meia noite. Eu gemi e me espreguicei.
Notei que eu ainda iria ficar estudando por mais uma ou duas horas. Eu deveria beber um pouco
de café? Eu perguntei a mim mesmo. Com os pés pesados, eu me arrastei escadas abaixo, até a
sala de estar. O café estava exatamente onde eu me lembrava que estaria.

Reabastecer uma dose de açúcar é algo absolutamente indispensável quando você


sobrecarrega seu cérebro. Por isso eu quero dizer que é hora da doçura do MAX Café fazer sua
aparição.

(Pensamento súbito: O MAX Café é erótico quando você coloca apenas a cafeína e uma dose
certa de leite. Primeiramente, isso estranhamente lembra um grande par de seios. O café pisca
para você e sugere ‘Eu não vou te deixar dormir essa noite☆’— ou alguma coisa assim. Alguém
1
deveria desenhar a MAX Café-tan no Pixiv para mim...)
Enquanto eu caminhava pela sala de estar, pensando em várias coisas inúteis
relacionadas ao MAX Café, eu notei que minha irmãzinha, Komachi, estava dormindo no
sofá. Os exames semestrais dessa pirralha também estavam chegando, mas como de
costume, ela não poderia se importar menos com isso.

Enquanto eu procurava pelo MAX Café que eu havia comprado, eu me lembrei de que ele já
havia sido aberto e então comecei a ferver a água ao invés disso. Coloquei a água em uma chaleira
2
Tefal , apertei o botão de ligar, que fez um bip quando fiz isso. Entediado enquanto esperava a
água ferver, eu me sentei na ponta do sofá em que minha irmãzinha estava dormindo.

Komachi estava dormindo com sua barriga exposta de forma provocativa.

Sua pele branca estava nua e movendo-se de acordo com seus roncos. Ao mesmo tempo, o bonito
umbigo dela se contraia. Quando ela se esticou, com um suave gemido, eu pude ver que ela estava
usando minha camisa e meu blazer, os quais ela pegou emprestado sem permissão. Eu não havia
notado isso antes, pois ela estava enrolada como se fosse uma bola, mas por que essa garota está só
de calcinha? Ela vai acabar pegando um resfriado a esse ritmo.

Eu a cobri com uma toalha de banho que estava por perto, ao menos por hora. Em resposta,
Komachi resmungou algo enquanto dormia. Enquanto isso acontecia, a água em ebulição havia
começado a sibilar, anunciando que estava pronta. Eu virei um pouco do café instantâneo em
uma caneca e derramei a água em ebulição sobre ele.

Um cheiro agradável vinha do café. Eu adicionei uma grande quantidade de leite e açúcar ao
café preto e misturei por quatro vezes com uma colher de chá. Quando eu fiz isso, meu
adoravelmente doce café estava pronto para ser servido.

O luxurioso aroma do leite e a doce fragrância do café se misturaram. Eu sabia que aquilo
estava ótimo.

Como se tivesse sido atingida por aquele cheiro, Komachi começou a acordar.
A primeira coisa que ela fez foi ficar imóvel, olhando para mim por dois segundos
inteiros. Então, sem dizer sequer uma palavra, ela usou três segundos inteiros para abrir
a camisa e a cortina em silêncio. Em seguida, ela arregalou os olhos e olhou para o
relógio por cinco segundos inteiros, também em silêncio. Foram necessários dez segundos para
que ela entendesse a sua situação atual.

Então, ela respirou fundo.

– Merda! Eu dormi demais!

Ela começou a gritar com uma voz desagradavelmente alta.

– Eu planejei dormir por apenas uma hora, mas então eu acabei dormindo cinco!

– Oh, entendi o que aconteceu. Você dormiu demais, você disse? Você foi dormir assim que
chegou em casa.

– Seu idiota! Eu tomei um banho antes de dormir!

– Poxa, eu absolutamente não tenho ideia do porquê você está tão ofendida.

– De todo modo, por que você não me acordou!?


A Komachi realmente ficou chateada comigo por alguma razão. Eu pensei que aquele “Eu
dormi demais” significasse praticamente a mesma coisa que ‘Eu sou um porco☆”.

– Eu realmente não me importo, mas vista uma calça, pelo amor de Deus. E quem foi que te
deu permissão para usar minhas roupas?

– Hm? Oh, isso. É uma camisola perfeita. Isso não parece com uma peça única?

Ela disse enquanto puxava a parte da frente da camisa.

Não estique isso, não estique isso. Eu posso ver seu sutiã, sabe. E não fique se mexendo
tanto— eu posso ver sua calcinha.

– ... Tudo bem, eu vou parar de usar isso então, seu chorão. Ela
disse.

– Oh, obrigado. Nesse caso, eu vou te dar algumas roupas de baixo, Komachi.

– Ohhh, aprecio muito!

Bebi um gole do meu café, jurando do fundo do meu coração que eu iria dar a ela um pano de
prato ao invés disso. Enquanto Komachi voltava a enrolar as mangas da minha camisa como se ela
fosse um pijama de peça única, ela foi até a cozinha e colocou um pouco de leite para aquecer no
micro-ondas.

– A propósito, o que você está fazendo a essa hora?

– Estudando para os exames. Estou aqui em baixo porque estou fazendo uma pausa agora. Eu
respondi.

Komachi fez um som de surpresa.

– Eu ainda não fiz uma pausa, agora que você mencionou isso.
Em seguida, ela fez uma pausa.

– Onii-chan, eu juro, você vai ser um homem businesslike quando começar a trabalhar.

3
– Ei, businesslike não significa que eu goste de trabalhar. Seu Inglês é uma droga.

– De jeito nenhum, Onii-chan. Inglês é totalmente o meu forte. Eu sou um gênio. I AM

SMARTICLES.

Ela disse com uma habilidade nem tão genial assim em Inglês. Smarticles nem mesmo é
uma palavra, sua idiota.

O micro-ondas fez um barulho. Komachi pegou a caneca com as duas mãos e enquanto
soprava o leite para esfriá-lo, ela começou a andar na minha direção.

– Acho que eu também vou estudar.

– Seja minha convidada. Eu vou voltar aos estudos, então. É melhor você também fazer
isso.

Eu bebi meu café em um gole só e me levantei. Porém, naquele momento, Komachi puxou de
volta a minha camisa e coaxou como se fosse uma rã-touro. Quando eu me virei, Komachi estava
exibindo um largo sorriso.

– Você disse ‘você também’, certo? Normalmente, isso não significa ‘Vamos fazer isso
juntos’? Onii-chan, o seu Japonês está comprometido?

– Você é a única cujo Japonês está prejudicado...

Bem, acho que não iria fazer mal algum me fazer de idiota por enquanto e dar uma olhada na
lição de casa da minha irmãzinha idiota, imagino.

E com isso, minha seção de estudos noturna com minha irmãzinha começou.
Nós trouxemos todo o nosso material de estudo dos nossos quartos e os colocamos na
mesa da sala de estar. Hoje eu decidi me focar principalmente em História Japonesa,
então fui com o grupo de questões Yamakawa e também com o livro e, então, comecei a fazer as
anotações.

Do lado da Komachi estava o ‘Inglês do Ensino Fundamental: Alvo 1800’, como se isso fosse
ajudar com o deplorável Inglês dela.

Juntos, nós estudamos silenciosamente e com concentração. Eu respondi as questões e


incluí extensas explicações nas anotações toda vez que haviam erros. Nós repetimos esse
processo incontáveis vezes. Quando eu terminei de ver todo o conteúdo dos exames
semestrais, eu percebi que a Komachi estava olhando para mim com um olhar distante.

– ... O que? Eu
perguntei.

– Hm? Oh, eu estava apenas pensando que você é muito certinho, Onii-chan.

– Você está me subestimando? Você está arrumando briga, sua pirralha? Eu vou puxar seu
cabelo!

No entanto, Komachi apenas riu das minhas ameaças fracas.

– Você diz isso, Onii-chan, mas você definitivamente não iria me bater.

– Hum? Isso é apenas o que você pensa. A razão pela qual eu não bato em você é porque
nossos pais iriam me espancar se eu fizesse isso. Não tenha a ideia errada.

– Teehee. Você está corando, você está corando.

Ela cantarolou como se isso fosse um sinal de paz.

– Ca... calada...
Por hora, eu vou me contentar apenas com um cutucão na testa dela.
Especificamente, eu atirei uma borracha na testa dela, fazendo-a se autodestruir.
Basicamente, eu descarreguei todas as minhas reservas de energia em um ataque
completamente indefensável.

– Oof!

Komachi gemeu. A borracha atingiu a testa dela, deixando uma marca. Enquanto ela coçava a
testa, Komachi me olhou com lágrima nos olhos.

– Hmph... e eu estava aqui elogiando por ser um bom aluno...

– Isso foi porque você disse uma coisa idiota. Agora, volte já a estudar, poxa.

– Coisas assim é que fazem de você um certinho. Cara, existem tantos tipos diferentes de
irmãos e irmãs lá fora. Eu tenho um amigo, que vai ao mesmo Cursinho de Verão que eu, cuja
irmã virou uma delinquente. Ela fica fora de casa a noite inteira e tudo mais.

– Uh huh.

Parece que a Komachi já perdeu toda a motivação para estudar. Em algum ponto durante
aquela conversa, ela havia fechado o livro Alvo: 1800. Por hora, nós estávamos entrando de
cabeça em um momento de conversa inútil.

Enquanto eu sabiamente ignorava a conversa da Komachi, eu voltei a estudar História


Japonesa. 645, o ano da Reforma Taika foi 645.

– Mas sabe, a irmã dele era uma estudante super séria antes de entrar para a Soubu High. Eu
me pergunto se aconteceu alguma coisa com ela.

– Oh, é mesmo.
As palavras da Komachi estavam entrando por um ouvido e saindo pelo outro. 694, o
ano em que Fujiwara-kyo tornou-se a capital foi 694. Oh, espere, essa era 794? Não,
4
essa era a Heian-kyo .

Ainda assim, aquilo foi o bastante para me deixar com sono. Pessoas possuem uma forte
determinação para não perder para as drogas. Em outras palavras, não importa quanta cafeína eu
ingerisse, meu desejo de dormir ainda poderia vencer.

– Mas bem, é a família dele, então eu realmente não posso dizer nada. Nós estamos ficando
mais próximos ultimamente, então ele tem confiado em mim, mas não tem muito o que eu
possa fazer. Oh, o nome dele é Kawasaki Taishi-kun e ele começou a frequentar meu Cursinho
de Verão em Abril.

– Komachi.

Minha lapiseira caiu da minha mão com um clique. Meu cansaço havia sido varrido em um

instante.

– Qual é o seu relacionamento com esse Taishi-kun? O que você quis dizer com ficando
mais próximos?

– Uau, você está com um olhar assustador, Onii-chan...

Parecia que eu estava com uma aparência um pouco séria. Komachi estava ligeiramente
assustada. Mas essa aqui era minha irmãzinha idiota. Algo poderia acontecer caso ela não
tomasse cuidado consigo mesma. Como membro da família, era apenas natural que eu ficasse
preocupado com ela. Se ela estivesse envolvida com algum garoto, isso não seria nada bom para
ela.

O Onii-chan realmente não tolera essas coisas.


– Meh. Diga-me se tiver algo incomodando você. Eu te disse isso antes, mas as coisas
que eu faço no Clube de Serviços— o qual eu ainda não compreendo, a propósito—
podem ser úteis para te ajudar. Eu acho.

Komachi estufou as bochechas e sorriu quando eu disse isso.

– Onii-chan, você realmente é um cara certinho!


4–2
Era de manhã. Os pardais estavam cantando. Então, isso era o chamado ‘avançar para o
dia seguinte’ que acontecia em histórias.

Eu abri meus olhos, piscando devido a surpresa. Eu fui saudado não pelo meu cenário habitual,
mas sim por um teto desconhecido. Com isso eu quero dizer que eu estava na sala de estar.
Parece que, de algum modo, nós acabamos caindo no sono enquanto estudávamos. A última coisa
de que eu me lembro é de que eu estava interrogando a Komachi sobre seu status de
relacionamento.

– Ei, Komachi. É de manhã. Eu


a chamei.

Foi quando eu percebi que não podia ver minha irmãzinha em lugar algum. Eu olhei ao meu
redor, procurando por Komachi, por dois segundos. Em seguida, eu olhei pela janela. O sol já havia
subido bastante. Levou cerca de três segundos para que eu confirmasse isso. Então, um
sentimento profundo caiu sobre mim e eu olhei para o relógio enquanto suava frio. Eram nove
horas. Eu olhei por cima e olhei por baixo, mas ainda eram nove horas. Este processo todo levou
cerca de cinco segundos.

O impacto da situação me atingiu após a passagem destes dez segundos.

– Eu vou me atrasar muito...

Eu baixei a cabeça, deprimido.

Um café da manhã com torradas, presunto e ovos estava sobre a mesa, junto com uma
carta que Komachi havia deixado para trás antes de partir.

‘Querido Onii-chan, eu estou indo na frente, pois não quero me atrasar. Pega leve!
S.P. Tenha certeza de tomar seu café da manhã!!’

– Idiota... você acha que é da Polícia de Segurança?

A maneira correta de escrever é P.S., como em Playstation.

De todo modo, uma vez que não valia a pena se exaltar sobre algo que ele não poderia
controlar, eu comi o café da manhã e me preparei para ir para a escola, murmurando enquanto
fazia isso. Parecia que meus pais já tinham ido trabalhar. Como ambos trabalhavam, as manhãs
na casa dos Hikigaya começava bem cedo. Minha mãe fazia o café da manhã, mas normalmente
era a Komachi que ficava encarregada do jantar.

E mesmo assim, nenhum deles me acordou apesar de tudo isso. Enquanto eu me preocupava
se eu era ou não amado, eu gostaria de acreditar que aquilo não havia passado de um ato de
bondade em deixar uma pessoa dormir.

Meu sangue estava pulsando enquanto eu trocava de roupa. Depois de me assegurar que a
casa estava bem trancada, eu fui embora.

Enquanto eu pedalava vigorosamente ao longo do rio, eu olhei para cima e vi gigantescas


colunas de nuvens rapidamente se formando por todo o céu.

Hoje o caminho até a escola estava maravilhosamente tranquilo. Isso me deixou à vontade.
Normalmente, a rota até a Soubu High era uma pista de corrida na qual estudantes de outras
escolas passavam pedalando e mexendo uns com os outros. Ultrapassar os outros e gritar coisas
como ‘Vai! Magnum!’ era a melhor sensação de todas. Quando você é afrontado por outros caras,
5
você fica animado e acaba dizendo coisas como ‘Eu não vou perder! Sonic!’ .

Hoje, a ação de vai e vem estava sendo feita por senhoras de idade se esforçando para perder
peso e velhotes passeando com seus cachorros. Isso tudo era tão intenso quanto ir ver alguém
pescar. Ir para a escola desse jeito não era ruim de vez em quando. Na verdade, agora que
eu penso nisso, pedalar sob um céu azul oferece uma boa sensação. Esse era exatamente

o tipo de coisa que você diria a alguém para convencê-lo a matar aula junto com você e isso
funcionaria cinquenta por cento das vezes.

E mesmo assim, por que será que a medida em que eu me aproximava da escola, eu fui
tomado por uma súbita melancolia...?

Apesar disso, eu não me movi de modo furtivo. Na verdade, eu entrei na escola do jeito
normal. A essa hora, os professores já estariam nas classes, entende, por isso não havia
nenhuma maneira deles apontarem que eu estava atrasado. Apenas ficar com medo era algo
inútil. Eu aprendi isso a partir das setenta e duas vezes em que eu me atrasei no último ano. Esta
já era a minha oitava vez chegando atrasado este ano, o que provavelmente iria afetar meu
histórico escolar se continuasse neste ritmo. Eu gostaria de duzentas vitórias até o meu terceiro
ano no Ensino Médio.

Passar pelos portões da escola era fácil. O problema era a sala de aula. Eu parei minha
bicicleta na área de estacionamento e me virei bruscamente na direção da entrada. Assim que eu
coloquei os pés no jardim da escola, senti que o poder da gravidade aumentou um pouco.

6
Eu estava no Planeta Vegeta , sabia? Eu me arrastei até as escadas, cheguei até o corredor, onde
não havia ninguém, e finalmente cheguei até a minha sala de aula no segundo andar.

Eu respirei fundo diante da porta. Em seguida, eu coloquei minha mão na maçaneta.


Naquele momento, eu tinha borboletas dançando no meu estômago.

A porta se abriu.

E então, todos os olhos foram em minha direção de uma só vez, sem que ninguém dissesse
uma palavra. Silêncio havia tomado conta de toda a sala de aula. Os sussurros e o som da aula da
minha professora desapareceram de uma só vez.
Eu não odeio chegar atrasado. O que eu odeio é essa atmosfera.

Por exemplo, se tivesse sido o Hayama a fazer isso, eu estou bastante certo de que as
coisas seriam todas tipo ‘Ei, Hayama! Chegue um pouco mais tarde na próxima vez! ’, ‘Hayama,
você é tão lento, cara! ’, ‘Hahaha, Hayama, seu idiota! ’.

Porém, no meu caso, ninguém dizia nada e, por um momento, eu recebia olhares vindos de
todas as direções perguntando ‘Quem é esse cara? ’. Eu respondi a todos com silêncio enquanto
eu entrava na sala de aula com passos pesados. No momento em que sentei no meu lugar, um
súbito cansaço me atingiu.

Inadvertidamente, eu suspirei. Para a minha professora, aquela foi a última gota.

– Hikigaya. Venha me ver quando a aula acabar.

Hiratsuka-sensei disse enquanto batia com o punho em sua mesa.

– Tudo bem...

... Eu estava ferrado. Eu baixei minha cabeça em resposta, o que fez com que a Hiratsuka-
sensei assentisse com satisfação enquanto ela se virava e voltava a escrever no quadro negro,
com seu jaleco balançando atrás dela.

Espere, faltam apenas quinze minutos até o fim dessa aula!

E o mais cruel foi que esses quinze minutos passaram muito depressa. Enquanto eu estava
ignorando a aula e pensando em centenas de desculpas diferentes para estar atrasado, o sino
tocou.

– Isso é tudo para a aula de hoje. Hikigaya, venha até aqui. Hiratsuka-sensei
disse enquanto acenava para mim de forma impaciente. Olhei para o rosto
dela com um enorme desejo de fugir daquele lugar. Hiratsuka-sensei
abertamente fez uma careta para mim.

– Agora então, antes de socar você, eu vou perguntar o motivo para o seu atraso, apenas
para ser legal.

Ela já tinha decidido que ia me socar!

– Não, você está enganada. Por favor, espere um momento. Você não conhece aquela frase
‘elegantemente atrasado’? Basicamente, isso é uma pesquisa para quando eu me tornar um
poderoso executivo de elite.

– Eu pensei que você quisesse se tornar um marido dono de casa.

– Urk!

Eu estremeci, mas logo me recompus.

– Be-Bem! É errado pensar que chegar atrasado é intrinsicamente algo ruim. Você entende? A
polícia começa a agir depois que o incidente acontece. É algo bem estabelecido que o herói
sempre chega no último minuto. Em outras palavras, eles sempre estão atrasados. Mas quem os
culpa por isso!? Ninguém! A ironia aqui é o atraso da justiça!

Eu gritei do fundo da minha alma.

Quando eu terminei, a Hiratsuka-sensei tinha um olhar distante nos olhos por alguma
razão.

– ... Hikigaya. Deixe-me te dizer uma coisa. Uma justiça débil não é nada diferente do mal.

– ... Ju-Justiça débil é ainda melhor que o ma— espere! Não me bata! Não!
7
Aku Soku Zan . O punho da Hiratsuka-sensei acertou meu fígado com grande precisão.
Meu corpo gemeu devido aos danos causados. Quando eu tombei e caí no chão, deixei
escapar uma tosse.

Hiratsuka-sensei suspirou espantada enquanto eu me contorcia em agonia.

– Poxa... não há fim para as crianças problemáticas dessa classe.

No entanto, ela não estava dizendo isso com desgosto— na verdade, ela parecia mais feliz do
que qualquer outra coisa.

– Eu estou falando sobre uma outra pessoa quando eu digo isso.

Ignorando completamente que eu estava caído no chão, Hiratsuka-sensei bateu com seus
calcanhares no chão e encarou a parte de trás da porta da sala de aula. Eu olhei na mesma
direção da minha posição no chão e notei o aparecimento de uma solitária estudante segurando
sua mochila.

– Kawasaki Saki. Você também está elegantemente atrasada?


Hiratsuka-sensei chamou por ela com um sorriso irônico no rosto.

No entanto, a garota chamada Kawasaki Saki respondeu apenas com um silencioso balançar de
cabeça. Em seguida, ela passou direto pelo meu corpo esparramado no chão e foi para o seu lugar.

Seu longo cabelo prateado chegava até o fim de suas costas. Partes desnecessárias dos punhos
de sua blusa estavam soltas. Suas longas e afiadas pernas pareciam ter sido feitas para chutar.

Entretanto, o que mais me impressionou foram seus olhos sem ambição, os quais tinham um
olhar vago e distante. Sem mencionar o lacinho preto, que parecia ter sido bordado por um
artesão.
Eu juro que já vi essa garota em algum lugar antes... espere um instante, se ela
estava na minha classe, então é claro que eu já a tinha visto antes.

Uma vez que eu podia ver sua saia da minha atual posição esparramada no chão, eu me
coloquei de pé com um sobressalto. Eu não queria que ninguém suspeitasse de mim.

E naquele momento, algo estalou em minha cabeça.

– ... Você é a garota dos lacinhos pretos, não é?

Com isso, todas as minhas dúvidas foram removidas de uma só vez.

Inadvertidamente, eu me lembrei da cena que havia ficado gravada na minha memória. Eu me


recordei da garota que havia subitamente zombado de mim quando ela me viu no telhado. Oh,
então ela estava na minha classe, hum? Era hora de confirmar mais uma vez que essa era a garota
que eu agora entendia ser a Kawasaki Saki. Em vez de ir para o seu lugar, Kawasaki parou onde ela
estava e casualmente olhou para mim por sobre o ombro.
– ... Você é um idiota?

Kawasaki Saki respondeu. Ela não me chutou e nem me socou. Ela não estava corando
de vergonha e seu rosto também não estava vermelho de raiva— era como se ela não tivesse
nenhum interesse. Ela estava apenas um pouco incomodada.

Se a Yukinoshita Yukino era frígida, Kawasaki Saki era apenas fria. Era como a diferença entre o
gelo seco e o gelo comum. A Yukinoshita queimava qualquer um que a tocasse.

Com um olhar de desgosto no rosto, Kawasaki arrumou uma mecha de cabelo solta antes de ir
para o seu lugar dessa vez. Depois que ela puxou a cadeira e se sentou, ela olhou inexpressiva para
a janela, como se estivesse entediada. Era como se ela estivesse olhando para o lado de fora
apenas para não ter que olhar para o lado de dentro.

Não havia sequer uma pessoa no mundo que não fosse capaz de notar a aura de ‘não fale
comigo’ ao redor dela. Mas a aura de ‘não fale comigo’ dela ainda era fraca. Ninguém na classe iria
falar comigo, mesmo se eu ativasse a minha aura de ‘por favor falem comigo’.

– Kawasaki Saki, hum...?

– Hikigaya, sair murmurando o nome de uma garota cuja saia você olhou com tanta emoção...

Hiratsuka-sensei colocou uma mão sobre meu ombro. A mão dela estava terrivelmente gelada.

– Nós vamos ter uma boa conversa sobre isso mais tarde. Venha me ver na sala dos Professores
após as aulas.
4–3

Depois de uma breve hora sendo repreendido pela Hiratsuka-sensei, eu parei na livraria
do distrito de compras Marinepia em vez de ir direto para casa.

Eu olhei nas prateleiras e comprei um único livro. Lá se vai a minha nota de mil ienes, assim
como as poucas moedas que estavam balançando em minha carteira.

Depois disso, eu fui até o café, pensando que eu também poderia estudar. No entanto, parece
que todo mundo estava pensando na mesma coisa, pois o lugar estava lotado de estudantes de
todos os tipos. Exatamente quando eu estava pensando que deveria ir para casa afinal, eu avistei
alguns rostos familiares.

Vestido com um uniforme esportivo, Totsuka Saika estava olhando para uma vitrine de bolos.
(Em nossa escola, você podia vestir o uniforme comum ou o uniforme esportivo— não importa
qual.) A vibração daquela cena era ainda mais doce do que creme fresco e eu estava sendo atraído
por ela do mesmo modo que formigas são atraídas por açúcar. Eu sou uma daquelas pessoas do
tipo ‘tem que ser exatamente assim☆’. Ei, eu sou muito parecido com a Cachinhos Dourados.

– Tudo bem, agora é a sua vez de fazer uma pergunta, Yukinon. Disse o rosto familiar número
dois.

Yuigahama e Yukinoshita não estavam perdendo tempo enquanto esperavam que o pedido
chegasse e já estavam concentradas nos estudos.

– Certo, uma questão de Japonês então. Yukinoshita declarou.

– Complete a seguinte expressão: ‘Quando as coisas ficam difíceis—‘

– ... A linha Tóquio-Chiba desliga?


Correção: isso é apenas o Trans-Prefeitura de Chiba Ultra Quiz. E Yuigahama também
deu a resposta errada. A resposta correta seria ‘Hoje em dia, existem muitos trens que
apenas tem sua velocidade reduzida, sem chegar a parar por completo’.

Diante deste erro, o rosto de Yukinoshita também ficou nublado, exatamente como você
poderia esperar dela.

– Incorreto... próxima questão, então. Essa é mais sobre Geografia. Nomeie duas
especialidades locais de Chiba.

Tic tac, tic tac. Os ponteiros do relógio estavam andando. Yuigahama engoliu em seco.

– Miso de ervilhas e... ervilhas cozidas?

Ela tinha um olhar muito sério em seu rosto.

– Ei. Você acha que tudo que fazemos em Chiba é cultivar ervilhas? Eu perguntei.

– Whoa!

Yuigahama saltou. Em seguida, ela disse.

– Oh, é só o Hikki. Por um momento, eu pensei você era algum cara estranho falando comigo...

Merda. Eu estava pensando em voltar mais tarde, mas agora eu estava de pé nessa fila
estupidamente longa, tudo porque eu corrigi o erro da Yuigahama. Droga! Como eu sofro por
causa desse meu amor a Chiba!

Devido a exagerada reação de Yuigahama, Totsuka virou-se e olhou para mim. Então um
brilhante sorriso surgiu em seu rosto.

– Hachiman! Então você também foi convidado para essa seção de estudos!
Totsuka esgueirou-se até mim, sorrindo. Porém, naturalmente não havia como eu ter
sido convidado e Yuigahama tinha um olhar azedo que dizia ‘Que saco, esse cara não é um
de nós’

no rosto. Oi, pare com isso, você está trazendo à tona memórias do aniversário de uma das minhas
colegas de classe. Embora eu até mesmo tivesse levado um presente e tudo mais, todos eles
foram frios comigo e eu estava à beira das lágrimas.

– O Hikigaya-kun nunca foi convidado. Yukinoshita disse.

– Você quer alguma coisa?

– Yukinoshita, pare de confirmar os fatos com o único propósito de fazer as pessoas se


sentirem mal.

Poxa, se eu não tivesse uma grande força de vontade, você iria ter o que merece, sua vadia.

Na verdade, eu provavelmente teria gritado algo incompreensível e batido nela com uma
cadeira. Eu queria que ela se desculpasse com o meu ego excepcionalmente grande.

– Aah, eu estava pensando em ligar para você, Hikki, mas eu estava com a boca cheia de
comida...

Disse Yuigahama.

– Nah, eu realmente não me incomodo.

Eu estava acostumado a esse tipo coisa.

– Você também veio até aqui para estudar para os exames, Hikigaya-kun? Perguntou
Yukinoshita.

– Uh, acho que sim. Vocês também?


– É claro. Os exames são daqui a duas semanas.

Yuigahama declarou.

– Cara, antes de você estudar para os exames, é melhor você melhorar seus conhecimentos
sobre Chiba. Essa última questão foi praticamente de graça.

– Eu, particularmente, não acho que a questão estivesse de graça... essa é mais uma pergunta
de Geografia: ‘Nomeie duas especialidades locais de Chiba’.

Yukinoshita categoricamente proferiu a mesma pergunta de antes, como se ela estivesse


tentando me testar.

– A resposta correta seria ‘Os costumes famosos de Chiba são: festivais e dança’.

– Eu disse ‘especialidades locais’. Eu quase tenho certeza que ninguém conhece as canções
folclóricas de Chiba.

Yukinoshita ficou pasma. Não, eu tenho quase certeza de que ela as conhece. Ela simplesmente
não poderia admitir isso agora.

(Aliás, as canções folclóricas de Chiba são cantadas no Bom-Odori e a maioria delas recebem
performances que mais parecem exercícios de ginástica modernos. Os residentes de Chiba podem
cantar e dançar para ambos. Sim, de algum modo, você pode cantar durante um exercício de
ginástica, embora não tenha nenhuma letra para cantar.)

Enquanto tudo isso estava acontecendo, as pessoas a nossa frente terminaram de se servir e
logo era a nossa vez. Nesse momento, Yuigahama deixou escapar um sorriso.

– Hikki, eu vou pagar para você. Ela cantarolou.

– Hum? Eu disse que não estou chateado... depois disso você vai se vestir como a minha avó?
Vovó, que dentões a senhora tem.
– Eu não sou o lobo mal! Eu apenas estou tentando ser legal, embora eu não queira
pagar para você!

Ela acabou de cavar sua própria cova? Não havia nenhuma razão para a Yuigahama me
convidar, para começo de conversa.

Yukinoshita, que estava assistindo a nossa conversa, deixou escapar um pequeno suspiro
exasperado.

– Isso está sendo vergonhoso, então pare com isso. Eu não gosto desse tipo de coisa. Eu
desprezo pessoas com duas caras.

Pela primeira vez, eu concordei com a Yukinoshita.

– Sim. Eu também odeio esse tipo de pessoa.

– Hum!? Ne-Nesse caso, eu não vou dizer isso!

Yuigahama insistiu.

– Nah, está tudo bem quando isso é uma piada entre pessoas de quem você é próxima. Eu
disse.

– Sugiro que você faça isso apenas com pessoas que você gostaria de ter em seu círculo íntimo
de amizades?

– Sim, de fato.

Disse Yukinoshita.

– Você não faz parte do meu círculo íntimo, então eu não me importo.

– Eu estou um pouco chocada por você não me considerar parte do seu círculo íntimo!
Yuigahama olhou para Yukinoshita com lágrimas nos olhos.
Enquanto isso, chegou a minha vez de fazer um pedido. Quando eu pedi um frapuccino, o

atendente foi capaz de me responder prontamente.

– São 390 ienes.

Isso aconteceu quando eu coloquei minha mão no meu bolso. Minhas memórias do que havia
acontecido um pouco antes deslizaram de volta para a minha mente. Eu havia comprado uma light
novel na livraria e o que houve depois? Eu paguei mil ienes, a exata quantia de

dinheiro que eu tinha comigo e também tinha usado todos os meus trocados... o que significa que
eu não tinha mais dinheiro hoje. No entanto, o café já havia sido feito, então era tarde demais
para recusá-lo.

Eu comecei a falar disfarçadamente com as duas garotas atrás de mim.

– Minha culpa. Eu não tenho dinheiro hoje, teehee. Desculpe, mas você poderia pagar por
mim?

– ... Desprezível.

Yukinoshita não perdeu tempo para me classificar como lixo. Yuigahama suspirou, ela tinha um
olhar atordoado em seu rosto.

– Hum, acho que não posso fazer nada.

... Yu-Yuigahama-san! Você veio por mim, minha Deusa! Como eu adoro-te!

– Eu vou ficar com aquele café, então que tal se você beber água, Hikki?

8
... Esse demônio. Ela era a Lilith ou algo assim?
– Hachiman, e-eu vou pagar para você! Então não se preocupe com isso, tudo bem?
Totsuka sorriu gentilmente para mim.

O Totsuka era totalmente um anjo.

Assim que eu estava prestes a abraça-lo, a voz fria de Yukinoshita surgiu como um banho

de água fria entre nós.

– Não vai fazer nenhum bem a ele se você o mimar.

– Diga isso depois que você fizer alguma coisa boa para mim ao menos uma vez. Totsuka
acabou pagando para mim, então eu olhei em volta à procura de assentos livres,

como forma de agradecê-lo. Isso era o mínimo que eu poderia fazer enquanto os outros três
estavam esperando por seus pedidos.

Nesse exato momento, um grupo de quatro pessoas desocupou seus lugares, então eu ocupei
o lugar sem sequer um segundo de hesitação. Eu coloquei uma bandeja sobre a mesa e
apressadamente arremessei minha mochila para o lado. Devido a minha falta de zelo, ela acabou
caindo debaixo do assento almofadado.

Uma bonita estudante sentada na mesa ao lado a empurrou de volta para mim. Eu
respeitosamente me curvei, em resposta ao seu gracioso gesto resignado.

– Oh, é o Onii-chan.

A bonita garota era minha irmã, Hikigaya Komachi. Vestida com seu uniforme do Fundamental,
ela acenou para mim com um sorriso que iluminava seu rosto.

Eu levei um grande momento antes de responder.

– O que você está fazendo aqui? Eu questionei.


– Veja, eu estava apenas escutando sobre os problemas do Taishi-kun.

Komachi disse enquanto ela voltava seu olhar para trás, para o assento a sua frente.
Sentado lá, estava um garoto usando um uniforme do Fundamental.

Ele rapidamente baixou a cabeça, curvando-se na minha direção. Sem pensar, eu olhei para ele
com cautela. Por que esse garoto estava com a Komachi...?

– Este é o Kawasaki Taishi-kun. Eu falei sobre ele ontem, sabia? O garoto cuja irmã virou uma
delinquente.

Agora que ela mencionou isso, eu tenho a sensação de que nós tivemos uma conversa sobre
isso. Praticamente tudo sobre isso havia entrado por um ouvido e saído pelo outro, uma vez que
eu estava me concentrando em decorar datas naquele momento. O que aconteceu mesmo no ano
694...?

– Então sim, ele estava apenas me perguntando como ele poderia fazer sua irmã voltar a ser
como era antes. Oh, verdade. Você também perguntou sobre isso, Onii-chan. Você disse que eu
poderia falar com você se eu tivesse qualquer problema.

Oh, de algum modo, eu tinha a sensação de que eu tinha falado demais e declarado algo assim
ontem. ‘Deixe isso comigo e vá em frente! ’ ou qualquer coisa assim. Sim, eu poderia fazer algo
assim se fosse pelo bem da minha irmãzinha, mas para ser completamente honesto, eu não tinha
intenções de fazer isso pelos amigos dela, muito menos se fosse por um garoto...

– Sim, eu entendo. Mas sabe, eu acho que ele deveria falar sobre essas coisas com a família
dele sem demora. Sim, na verdade, não há tempo a perder.

Eu imaginei que poderia abrir meu caminho para fora dessa situação se juntasse algumas
palavras bonitas. Então eu poderia me livrar da Komachi e ir para casa. Enquanto esses
pensamentos passavam pela minha mente, aquele garoto, Taishi, começou a tagarelar algo como
se eu fosse o senpai dele ou algo parecido.
– Você está certo sobre isso, mas... ultimamente, a nee-chan tem chegado tarde em
casa e ela não escuta mais o que nossos pais dizem. Ela fica brava comigo e diz que isso não
é da minha conta toda vez que eu tento dizer algo a ela...

Taishi baixou a cabeça enquanto falava. Parecia que ele estava tentando lidar com isso do seu
próprio jeito.

– ... Você é o único com quem eu posso contar agora, Onii-san.

– Você não tem o direito de me chamar de Onii-san!

– Por que você está gritando coisas que um pai obstinado diria?

Uma voz fria surgiu atrás de mim.

Eu me virei e encontrei Yukinoshita e os outros já se aproximando. Julgando-os como meus


conhecidos devido ao fato de usarem o mesmo uniforme que eu, Komachi não perdeu tempo e
projetou um sorriso eficiente.

– Olá! Eu sou a Hikigaya Komachi! Obrigada por cuidarem do meu irmão.

Komachi os cumprimentou com um sorriso. Uma de suas habilidades especiais era que, desde
muito nova, ela sempre era capaz de se encaixar bem em qualquer situação, por mais
desconcertante que fosse.

Enquanto isso, Taishi-kun, o outro cliente, preferiu ficar na dele. Ele baixou a cabeça em uma
reverência incompleta e apenas se apresentou pelo nome.

– Você é a irmã mais nova do Hachiman? Totsuka disse educadamente.

– Prazer em conhece-la, eu sou colega de classe dele. Meu nome é Totsuka Saika.
– Oh, você é tão educada, que charmosa. E meu Deus, que linda. Certo, certo, Onii-chan?
Eu resmunguei.

– Ele é um garoto.

– Haha! Que piada engraçada! Hahaha, o que você está dizendo, meu irmão idiota?

– Er, um. Eu sou um garoto...

Totsuka disse timidamente enquanto ele virava o rosto, corando.

... Que infernos! Esse garoto é mesmo um garoto?

– Uh... sério?

Komachi perguntou, me cutucando com o cotovelo.

– Desculpe, eu tive dúvidas por um momento, mas ele é provavelmente um garoto. Ele é fofo,
no entanto.

– Si-Sim...

Komachi olhou diretamente para o rosto de Totsuka, meio convencida. Enquanto ela
murmurava coisas como ‘Que cílios longos você tem. Que pele bonita’, Totsuka corava e olhava
para longe dela, remexendo-se desconfortavelmente.

Eu queria ficar olhando para a figura adorável do Totsuka para sempre, mas quando ele fez
contato visual comigo, era como se ele estivesse dizendo ‘Ajude-meeeeeee...’, então eu afastei
dele a atenção da Komachi.

– Já chega por enquanto. De todo modo, essa é a Yuigahama e aquela é a Yukinoshita. Komachi
finalmente olhou para as duas após minha breve introdução. Quando seus olhos
se encontraram, Yuigahama sorriu nervosamente.

– Pra-prazer em conhece-la.

Ela se apresentou.

– Eu sou uma colega de classe do Hikki, Yuigahama Yui.

– Oh, olá, prazer em conhece-la tam—

Komachi parou de se mover e olhou diretamente para Yuigahama.

– Hum...

Yuigahama evitou os olhos dela, suando muito. O que, elas eram uma cobra e um sapo? Seu
olhar ficou fixo no chão durante três segundos inteiros, até que uma voz difundiu aquele clima.

– ... Vocês ainda estão fazendo isso?

Yukinoshita interveio calmamente, tendo esperado pacientemente por algum tempo.

Era incrível como apenas o som de sua voz fez com que Yuigahama e Komachi se calassem e
prestassem atenção nela. Sua voz era claramente fria, tranquila e suave. E mesmo assim, a
mensagem chegou até elas de forma alta e clara. Era como ouvir o som de neve fresca se
acumulando no chão.

Por isso, talvez o mais correto fosse dizer que— em vez de meramente se calar— elas estavam
maravilhadas por ela. Komachi arregalou os olhos e sentou-se no assento a frente de Yukinoshita.
Quando ela viu Yukinoshita, ela acabou ficando fascinada por um momento.
– Prazer em conhece-la. Eu sou Yukinoshita Yukino. O Hikigaya-kun é meu... o que o
Hikigaya-kun é para mim, eu me pergunto...? Ele não é meu colega de classe, ele também
não

é meu amigo... Eu estou relutante em admitir isso, mas ele é meu conhecido, eu suponho?

– Por que você está dizendo isso de forma tão incerta e por que você está tão envergonhada
por me conhecer?

– Sabe, eu estava me perguntando se conhecido é o termo apropriado. A única coisa que eu sei
sobre você, Hikigaya-kun, é o seu nome, afinal de contas. Ou talvez fosse mais exato dizer que eu
não quero saber nada mais sobre você além disso. E mesmo assim, eu posso dizer que você é meu
conhecido.

Que declaração cruel. Mas quando você pensa sobre isso, a definição de conhecido também é
vaga. Eu nem mesmo sei dizer o que é um amigo, muito menos um conhecido. Está realmente
tudo bem chamar alguém que você só viu uma vez de conhecido? Você poderia continuar
chamando alguém de conhecido mesmo após se encontrar incontáveis vezes com essa pessoa?
Você poderia chamar alguém de conhecido independentemente da quantidade de informações
que você tenha sobre essa pessoa?

Tanto faz. Usar um rótulo mal definido não foi uma boa ideia. Por hora, seria melhor priorizar
fatos concretos.

– Alguma coisa como ‘companheira estudante’ está bom o bastante por hora.

– De fato... então permita que eu me corrija. Eu estou relutante em admitir isso, mas eu sou
uma companheira estudante dele, Yukinoshita Yukino.

– Você ainda está envergonhada por me conhecer!

Bem, quer saber? Eu estou envergonhado por conhecê-la!

– Mas não tem nenhum outro jeito de dizer isso.


– Oh, um, está tudo bem. Acho que eu já consegui entender muito bem que tipo de
relacionamento você tem com o meu irmão.

Komachi disse gentilmente para uma ligeiramente perturbada Yukinoshita. Eu estava grato a
minha irmã por ela ter entendido tão depressa, mas o amor fraternal dela estava intensamente
em falta, na minha opinião.

– ... Com licença, mas o que supostamente eu deveria fazer?

Eu virei minha cabeça.

– Hum? O-ohhh...

Taishi-kun estava impassível, com uma expressão preocupada no rosto. Aqui estava ele,
derramando tudo que estava em seu coração sobre mim, mas sua única conhecida era a Komachi,
o que tornava aquela situação complicada para ele. Não, honestamente, a posição dele era a de
um conhecido e não era como se ele pudesse acompanhar o estranho fluxo que aquela conversa
havia tomado. Para não falar do fato de que ele estava rodeado de pessoas mais velhas. Ele
realmente estava em um beco sem saída. Longe de querer chamar a atenção para si mesmo por
falar fora de hora, ele estava no tipo de posição em que as pessoas perguntariam qual era o
problema dele. ‘Por que está tão quieto? ’ e por aí vai. Se eu estivesse no lugar dele, eu iria querer
morrer. Sua única escolha era concordar com tudo que fosse dito e ocasionalmente rir e sorrir
estranhamente.

Diante de tudo isso, o fato de que o Taishi estava determinado a dizer o que ele tinha em sua
mente mostrava alguns impressionantes poderes de comunicação. Suponho que você poderia
dizer que ele era um garoto com boas perspectivas. (Não que eu fosse permitir que ele tomasse
conta da Komachi algum dia, no entanto.)

– Com licença, eu sou Kawasaki Taishi. A nee-chan é uma aluna do Segundo Ano na Soubu
High... oh, e o nome dela é Kawasaki Saki. A nee-chan é... como eu posso dizer...? Uma
delinquente? Ela tornou-se podre...?
Eu tinha a memória de ter escutado esse nome recentemente. Enquanto eu misturava o
leite no meu frapuccino, ponderando, eu fui atacado por um batalhão de memórias. O
contraste entre o preto e o branco formou uma gradação que estimulou minha visão.

... Oh, é verdade! A garota dos lacinhos pretos!

– Você quer dizer a Kawasaki Saki que está na nossa classe?

– Kawasaki Saki-san...

Yukinoshita pronunciou o nome e inclinou sua cabeça, mostrando o quão pouco ela sabia sobre
a Kawasaki.

No entanto, Yuigahama, que estava na mesma classe que a Kawasaki, bateu as mãos em
reconhecimento, exatamente como o esperado dela.

– Oooh. Kawasaki-san, certo? Ela é meio que assustadora, do tipo delinquente.

– Vocês não são amigas?

Eu perguntei.

– Nós já conversamos, eu acho, mas nós não somos realmente amigas...

Yuigahama respondeu delicadamente.

– E, ei, isso não é algo que você deveria perguntar a uma garota. Isso nos deixa em uma posição
complicada.
Mesmo entre as garotas, existem grupos, facções, sindicatos, grêmios, guildas e tudo
mais. De todo modo, pelo modo como ela falou, parecia que o grupo de Yuigahama não
tinha um relacionamento particularmente bom com a Kawasaki.

– Mas eu nunca vi a Kawasaki-san se dar bem com ninguém...

Totsuka comentou.

– Eu sinto como se ela estivesse sempre olhando fixamente pela janela.

– ... Oh, isso realmente parece ser a cara dela.

Eu me lembrei do modo como Kawasaki Saki agia na sala de aula. Ela era uma garota solitária
com olhos cinzentos, que ficava o tempo todo olhando para o movimento das nuvens. Pensando
nisso, ela nunca olhava para nada na sala de aula, mas sim para algum lugar que se movia muito
mais rápido do que sua linha de visão.

– Então, desde quando sua irmã se tornou uma delinquente? Yukinoshita subitamente
perguntou para o Taishi.

Ele reagiu como no começo.

– Si-Sim!

Deve-se notar que ele não estava nervoso apenas porque a Yukinoshita era assustadora, mas
porque uma bonita garota mais velha estava falando com ele. Essa era a reação correta para um
garoto no Ensino Fundamental. Se eu fosse um estudante do Fundamental, provavelmente eu
também teria reagido dessa forma. Porém, quando você se torna um cansado estudante do Ensino
Médio, você acaba percebendo que ela era simplesmente assustadora.

– Er, uh... foi provavelmente na época em que a nee-chan entrou na Soubu High, uma vez que ela

era uma estudante super séria na época do Fundamental. Naquela época, ela estava
relativamente bem e frequentemente fazia o jantar e tudo mais. Ela não mudou muito nem
mesmo quando foi para o Primeiro Ano do Ensino Médio... ela mudou apena muito
recentemente.

– Então foi quando ela entrou no Segundo Ano?

Eu perguntei, o que fez com que Taishi respondesse afirmativamente. Ao ouvir isso, Yukinoshita
começou a ponderar.

– A respeito das mudanças que ocorreram quando ela se tornou uma aluna do Segundo Ano,
algo vem à mente?

– Essa é uma resposta genérica, mas ela não mudou de classe? Isso aconteceu depois que ela
foi para a Classe F.

– Em outras palavras, isso aconteceu depois que ela se tornou uma colega de classe do
Hikigaya-kun.

– Ora, ora, por que você está dizendo isso como se eu fosse o responsável?

Eu interrompi.

– O que eu sou, um vírus?

– Eu não disse nada desse tipo. Você está levando seu complexo de perseguição longe demais,
Hikigerme.

– Mas você mesma disse. Você claramente disse ‘germe’.

– Foi um mero lapso de língua.

Não, sério, pare com isso. Isso está trazendo à tona memórias traumáticas de quando eu era
tratado como um germe. Crianças do Primário são muito más. Todas elas começaram a dizer ‘É o
Hikigeeeeeeeeerme!’, ‘Você é isso!’, ‘Eu acabei de usar uma barreira! Então pare de me
tocar.’, ‘Barreiras não funcionam contra o Hikkigerme!’, elas diziam. O quão poderoso era o
Hikigerme?

Yuigama olhou para o Taishi-kun.

– Mas sabe, quando você diz que ela volta tarde para casa, que horas ela costuma voltar? Eu
também chego em casa relativamente tarde e essas coisas. Isso não é algo tão incomum para um
estudante do Ensino Médio, sabia?

– Oh, huh, sobre isso.

Taishi-kun desviou o olhar, nervoso.

Eu entendo como é. Ele estava tímido, pois uma incrivelmente sexy garota mais velha estava
falando com ele. Essa era a reação correta para um garoto no Ensino Fundamental. Quando você
se torna um cansado estudante do Ensino Médio, você acaba percebendo que pode, na verdade,
dizer que ela parece mais uma vadia.

– Mas chegar em casa às cinco da manhã é um pouco demais.

Ele prosseguiu.

– Isso é praticamente de manhã...

E ela também chega atrasada, meu Deus. Ela tem por volta de duas horas de sono, se tiver.

– E seus pais não dizem nada quando ela chega em casa a essa hora? Totsuka perguntou para o
Taishi, preocupado.

– Não. Ambos os nossos pais trabalham e nós temos um irmão e uma irmã mais novos, então
eles realmente não gritam com a nee-chan. Além disso, ela chega tão tarde que eles raramente se
encontram com ela, de todo modo... bem, acredito que ter muitos filhos significa que você
tem muitas responsabilidades.

Respondeu Taishi, relativamente inabalável.

Hmph, um garoto do Fundamental como ele ainda precisa perceber o charme do Totsuka.
Quando você se torna um cansado estudante do Ensino Médio, você passa a ser capaz de perceber
que o Totsuka é, na verdade, fofo como o inferno.

– Nas raras ocasiões em que nós nos cruzamos, sempre acabamos brigando e tanto faz o que
eu diga, ela fica realmente teimosa e diz ‘Isso não tem nada a ver com você’...

Taishi baixou os ombros. Ele estava muito perplexo.

– Razões familiares, hum...

Yukinoshita disse.

– Toda família tem isso.

Ela tinha um profundo olhar de melancolia em seu rosto, um que eu nunca tinha visto antes.
Ela parecia exatamente igual ao Taishi, que estava nos contando sobre seus problemas. Por isso,
eu quero dizer que ela estava à beira das lágrimas.

– Yukinoshita...

No entanto, assim que eu chamei por ela, as nuvens cobriram o sol e uma sombra se formou
sobre o rosto dela. Por causa disso, eu não pude ler claramente a expressão no rosto voltado para
baixo de Yukinoshita. Mas a simples visão de seus fracos ombros caindo, me disse que ela havia
deixado escapar um curto suspiro.

– Você disse alguma coisa?


Yukinoshita me respondeu enquanto levantava o rosto.

A expressão dela não estava diferente da habitual— fria e fulminante.

As nuvens haviam encoberto o sol apenas por um momento. Eu não tinha como saber qual era o
significado daquele suspiro que ela havia deixado escapar durante aquele breve segundo.

Eu era o único que havia notado a mudança no comportamento da Yukinoshita. Taishi e os


outros estavam falando normalmente.

– E isso não é tudo... a nee-chan recebe todos aqueles telefonemas de um lugar estranho.

Com as palavras de Taishi, uma interrogação se formou sobre a cabeça de Yuigahama.

– Lugar estranho?

– Mmm. Do Anjo alguma-coisa-ou-outra, provavelmente algum tipo de loja... o gerente sempre


fala com ela.

– O que tem de estranho nisso?

Totsuka perguntou.

Taishi bateu com o punho contra a mesa.

– Quero dizer, pense nisso! Anjo!? É uma loja totalmente sórdida!

– Hum, eu não sinto uma vibração assim...

Yuigahama disse, hesitante de algum modo, mas eu podia sentir totalmente essa vibração.
Veja, isso é... meu libido de aluno do Fundamental estava formigando. Tente imaginar essa
palavra, ‘Anjo’, sendo mostrada no distrito da luz vermelha de Tóquio. Entende o que
quero dizer? O fator pervertido subiu cinquenta por cento. E enquanto estamos nisso, a
palavra ‘Super’ deixava as coisas quarenta por cento mais eróticas.

Sem dúvidas, aquela era uma loja sórdida.

Esse pirralho havia percebido isso, assim como o esperado.

– Ei, acalme-se por um instante, Taishi. Eu disse.

– Eu entendo você.

Encantado por ter sido compreendido, Taishi enxugou suas lágrimas apaixonadas no canto dos
olhos e me deu um abraço apaixonado.

– O-Onii-san!

– Hahaha, você me chamou de Onii-san? Você está querendo morrer?

9
Enquanto os dois garotos estavam unindo suas almas sob a benção de Eros , as garotas
calmamente decidiam seus planos futuros.

– De todo modo, se ela está trabalhando em algum lugar, então nós precisaremos de um plano
especial.

Yukinoshita disse.

– Mesmo se não for uma loja perigosa como esse idiota parece acreditar que é, o fato de que
ela está trabalhando até tarde é um problema. Nós precisamos descobrir onde ela está indo e a
impedir.
– Sim, mas se nós formos capazes de impedi-la, ela pode apenas começar a trabalhar
em algum outro lugar, sabia?

Yuigahama disse.

Komachi assentiu, concordando.

– Colocar a frigideira na água.

– ... Você quis dizer no fogo. Disse Yukinoshita.

Oh, minha irmãzinha. Eu peço a você, por favor, não envergonhe o nome dos Hikigaya. Veja,
você está fazendo com que a Yukinoshita fique envergonhada por você.

– Em outras palavras, nossa única opção é, simultaneamente, tratar os sintomas e erradicar a


fonte dos problemas.

Yukinoshita concluiu isso praticamente no mesmo instante em que eu consegui afastar o Taishi
de mim.

– Ei, esperem um instante. Vocês estão planejando que nós façamos alguma coisa?

– Mas é claro. O Kawasaki Taishi-kun é o irmão mais novo da Kawasaki Saki-san, uma estudante
da nossa escola. Isso para não dizer que boa parte das preocupações dele são por causa dela.
Acredito que isso esteja de acordo com as diretrizes de trabalho do Clube de Serviços.

– Sim, mas todas as atividades dos Clubes estão suspensas por causa dos exames semestrais...

– Onii-chan.

Alguém me cutucou minhas costas várias vezes. Quando eu me virei, a Komachi abriu um largo
sorriso para mim.
Esse era o sorriso que a Komachi usava toda vez que pedia que eu fizesse algo por ela.
Muito tempo atrás, quando a Komachi queria ter meu presente de Natal, ela também tinha
essa expressão no rosto. Por que o Papai Noel teve que pedir as minhas cartas de Love &
10
Berry ? Não havia como eu lutar contra a Komachi, que tinha a mais poderosa das cartas na
manga: a simpatia dos nossos pais. Droga, ela nem era tão fofa assim...

– Eu farei isso...

Eu disse relutantemente.

Taishi curvou-se com entusiasmo, como se fosse um motor em alta velocidade.

– O-Obrigado!

Ele gritou alegremente.

– Desculpe por incomodar vocês! Eu prometo que vou me esforçar!


4–4

O programa de reabilitação da Kawasaki Saki começou no dia seguinte.

Depois das aulas, eu fui para a sala do Clube, onde Yukinoshita estava esperando
imperiosamente.

– Então vamos começar.

Yuigahama e eu concordamos com as palavras dela. Oh, e por alguma razão, o Totsuka
também estava aqui.

– Totsuka, você não precisa se forçar a ficar aqui.

Quero dizer, era extremamente doloroso ter que lidar com a tirania de Yukinoshita. Sem
dúvidas de que ele só estava aqui porque ela tinha dado a ele um olhar mortífero.

Porém, o Totsuka balançou a cabeça com um sorriso.

– Não, está tudo bem. Eu também ouvi sobre o que está acontecendo. Além disso, eu estou
interessado no que você e as outras fazem. Hachiman... eu gostaria de sair com vocês, se eu não
for ficar no caminho.

– En-Entendo. Então... por favor saia comigo.

Eu disse “Por favor saia comigo” parte como um reflexo encantador. Veja, é o seguinte, o
que mais você poderia dizer quando ele agarra a manga do seu uniforme de ginástica, olha para
cima e com olhos suplicantes pergunta se pode sair com você? Eu estava falando como um
homem de verdade! ... Oh, espere, o Totsuka é um garoto. Droga.

Uma vez que as atividades dos Clubes estavam suspensas durante os exames semestrais, o
terreno da escola ficava vazio após as aulas. Além de nós, haviam apenas alguns estudantes que
estavam estudando sozinhos na escola, tipos como a Kawasaki Saki, que estavam tendo
aulas por chegarem atrasados. (A propósito, você é chamado para uma aula na sala dos
professores se você se atrasar mais de cinco vezes em um mês.)

A Hiratsuka-sensei provavelmente tinha prendido a Kawasaki Saki e estava falando


diretamente com ela enquanto nós conversávamos.

– Eu fiz algumas reflexões e acredito que a Kawasaki-san deveria resolver seus problemas
por conta própria.

Yukinoshita declarou.

– Há um menor risco se ela resolver seus problemas com sua própria força do que se ela for
forçada a fazer isso por outras pessoas. Assim também há uma chance menor de ocorrer uma
recaída.

– Isso faz sentido, eu acho.

Eu concordei.

pessoas comentam suas ações. Por exemplo, se alguém próximo a você tentar te dizer o que
fazer, você começaria a se ressentir com essa pessoa. Uma maneira fácil de pensar nisso é
quando sua mãe diz para você antes de uma prova ‘Que tal você mexer esse seu traseiro e
estudar? ’. Em resposta, você normalmente diria algo como ‘Oh, poxa! Eu estava prestes a fazer
isso! Oh whoops, lá se vai minha motivação. ’.

– Tudo bem, então o que nós vamos realmente fazer? Eu


perguntei.

– Você já ouviu falar de terapia animal?

Terapia animal é, para simplificar, um tipo de terapia espiritual que envolvia cuidar de um
animal de estimação, com o objetivo de reduzir os níveis de estresse e trazer à tona o que você
tem de melhor. Enquanto Yukinoshita explicava isso, eu podia ouvir a Yuigahama rindo.
Porém, na minha opinião, essa realmente não era uma maneira ruim de fazer as coisas.
Pelo que o Taishi disse, a Kawasaki costumava ser uma garota certinha e de bom coração.
Este poderia ser um estímulo para trazer de volta o coração gentil dela.

Mas havia um problema.

– Quem vai providenciar o animal? Eu


perguntei.

– Sobre isso... ninguém aqui tem um gato?


Yukinoshita perguntou.

Totsuka tristemente balançou a cabeça negativamente em resposta. Aww, eu não podia

ficar com ele? Ele é tão fofo. Ele é super efetivo!

– Eu tenho um cachorro, está tudo bem?

Yuigahama levantou seu dedo mindinho e o indicador e fez um sinal com o polegar e os
dedos médio e anelar. Isso é uma raposa, não um cachorro.

– Gatos são mais simpáticos.


Yukinoshita insistiu.

– Eu realmente não entendo a diferença...

Eu murmurei.

– Sério, que evidência científica você tem?

– Nenhuma em particular.
Yukinoshita nitidamente evitou meu olhar.

– De qualquer modo, cachorros são inúteis.

– Então isso quer dizer que você não gosta de cachorros?

– Eu nunca disse nada assim, acredito eu. Por favor, pare de saltar para conclusões
precipitadas.

Yukinoshita disse, irritada.

Yuigahama era a única que estava tirando conclusões precipitadas.

– Sem chance, Yukinon. Você odeia cachorros? Como pode ser!? Você não gosta de animais
fofos!?

– ... Você se sente assim pois você ama cachorros, Yuigahama-san.

O tom de voz da Yukinoshita havia subitamente ficado mais leve.

O que, ela tinha algum tipo de trauma envolvendo cachorros ou algo assim? Ela foi mordida
por um no passado? Meh, se ela não gostava disso, acho que eu não deveria pressionar mais. Por
hora, eu vou apenas ficar alegre por ter descoberto um dos pontos fracos da Yukinoshita.

– Nós temos um gato. Eu


disse.

– Está tudo bem ser o nosso?

– Sim.
Com Yukinoshita aprovando minha sugestão, eu liguei para a Komachi. Eu podia
escutar algum tipo de música estranha ao fundo. O que era essa música brega? Por que
isso estava tocando no celular daquela garota?

– Siiiiiim, aqui é a Komachi!

– Oh, Komachi. Você está em casa agora?

– Sim, eu estou. E daí?

– É sobre o gato. Desculpe, mas você poderia trazer ele até a escola?

– Hum? Por que? O Ka-kun é pesado, então eu não quero.

Ka-kun é o nome do nosso gato. Ele costuma se chamar Kamakura, mas como esse nome era
muito comprido, ele acabou sendo encurtado em algum ponto. Seu nome era derivado de sua
11
forma arredondada, que lembrava um kamakura .

– Er, veja, a Yukinoshita disse para você trazê-lo aqui.

– Eu já estarei aí.

O telefone subitamente foi desligado.

(... Hum? Por que a atitude dela mudou assim que eu mencionei a Yukinoshita? Ela estava
tão relutante quando eu perguntei!)

Eu fechei meu telefone, satisfeito porque ela viria. Nossa escola era conhecida nessa região,
então provavelmente ela não iria se perder no caminho.
– Ela disse que logo estará aqui.
Eu informei para a Yukinoshita.

– Nós deveríamos esperar lá fora?

Nós esperamos do lado de fora da escola por vinte minutos, até que a Komachi apareceu
segurando uma gaiola em suas mãos.

– Eu peço desculpas por chama-la até aqui.


Yukinoshita disse.

– Não, não, eu fico feliz por fazer isso por você, Yukino-san.

Komachi respondeu sorrindo enquanto ela abria a tampa da gaiola de transporte.

O Kamakura estava enrolado lá dentro. Ele abertamente fez uma careta para mim com um
olhar do tipo ‘Hum? O cê tá olhando, seu punk? ’. Ele não era o mais bonito dos felinos.

– Aww, ele é tão fofo!

Totsuka disse enquanto acariciava o gato. Kamakura contorceu seu corpo como se dissesse ‘Ei,
ei, acalme-se! Espere um instante! Não no meu estômago! Qualquer lugar exceto esse! ’. Ele
estava completamente a mercê do Totsuka.

Então, o que você vai fazer com ele?

Eu segurei o Kamakura pelo pescoço assim que Totsuka o entregou para mim. (A propósito,
essa é a maneira errada de se segurar um gato. O jeito certo é embalando-o em seus braços.)

– Nós vamos colocá-lo em uma caixa de papelão e deixá-lo na frente da Kawasaki-san.


Yukinoshita explicou.

– Eu tenho certeza que a Kawasaki-san vai pegá-lo se seu coração for tocado.
12
– Ela não é um daqueles banchou de antigamente.

Se ela pensasse que uma delinquente era a mesma coisa que uma amante de gatos, então
teria mais coisas vindo por aí. Que modo antiquado de pensar.

E sério, nós nem mesmo conhecemos a Kawasaki assim tão bem, então não há nenhuma
garantia que um método tão indireto como esse vá mesmo funcionar.

– Agora então, eu vou conseguir uma caixa de papelão.

Fiz menção de entregar meu gato para a Yuigahama, que estava bem ao meu lado. No
entanto, ela deu um passo para trás, alarmada.

... Apenas pegue isso agora mesmo. Eu tentei novamente, dessa vez dizendo o nome dela
enquanto entregava o Kamakura. Mais uma vez, Yuigahama desviou-se dele.

– Que diabos...

– Oh. Er, uh, não é nada!

Yuigahama disse enquanto esticava os braços com nervosismo. Kamakura olhou para as

mãos dela e soltou um miado. Tremendo, Yuigahama afastou suas mãos.

– Poderia ser... que você não se dá bem com gatos?

– Hu-hum!? É-É claro que eu me dou bem com gatos! Na verdade, eu amo todos eles! Que-
quero dizer, vem aqui gatinho. Miau, miau.

A voz dela estava trêmula. Não que aqui houvesse qualquer razão para ter medo.
– Komachi, eu vou deixa-lo com você.

Eu entreguei o Kamakura para a Komachi. Quando eu fiz isso, o Kamakura


subitamente ronronou, como se estivesse de bom humor. Merda, eu sou odiado até mesmo
pelos gatos.

– Bem, estou indo.

Provavelmente teriam algumas caixas de papelão no depósito, eu imagino. Gatos possuem


tipos de caixas que eles amam e tipos que eles odeiam, mas o nosso gato estava bem com a maior
parte dos tipos. Oh, e o nosso gato ama plástico por alguma razão e ele frequentemente fica
mastigando o plástico que reveste as minhas revistas em quadrinhos. Eu tenho que me perguntar
se elas são assim tão apetitosas.

Pensando nisso, onde eu iria conseguir uma caixa de plástico? Enquanto eu andava por aí,
pensando em como eu poderia agradar meu gato, Yuigahama rapidamente me alcançou.

– Um, sabe. Eu realmente não odeio gatos.

– Hum? Bem, eu realmente não me importo com isso, de qualquer modo. A Yukinoshita é do
tipo que odeia cachorros, sabe. Eu mesmo realmente não gosto de insetos.

Ou de seres humanos, por falar nisso.

– Não, eu quero dizer que realmente não odeio gatos. Eu acho que eles são fofos.

– Então? Você tem alergia a gatos ou algo assim?

– Não é isso... veja, meu gato fugiu, sabia? É por isso que eu fico meio triste sobre isso.
Yuigahama falou humildemente, o exato oposto de sua habitual alegria. Havia um olhar

melancólico em seus olhos. O ritmo de seus passos diminuiu e, naturalmente, eu também


passei a caminhar mais devagar, acompanhando o ritmo dela.

– Eu costumava viver em um grande complexo de apartamentos, sabe. Era muito popular


esconder um gato e leva-lo para o seu apartamento.

– Essa é a primeira vez que eu escuto sobre algo assim.

– É porque isso é algo para crianças que vivem em apartamentos! Você não pode ter
animais de estimação em um apartamento, sabia? Então, eu cuidei de um gato de rua sem
avisar aos meus pais. Mas, em algum momento, ele acabou indo embora...

Yuigahama parou de falar.E assim, ela passou a não lidar muito bem com gatos.

Yuigahama riu em sua habitual maneira acanhada. Eu me perguntei o que a versão mais nova
dela pensou daquela separação. Talvez por ela pensar que ele era um gato tão bonito e que eles
se davam tão bem, ela possa ter ficado perdida diante dos motivos pelos quais o gato foi embora.
Para ela, aquilo deve ter se parecido com uma espécie de traição.

No entanto, a garota que ela era hoje sabia quais eram os motivos. Eu escutei que um gato
abandona seu proprietário quando ele está prestes a morrer. Devido a isso, eu me pergunto
como a crescida Yuigahama lembra desse momento de despedida. Talvez ela estivesse cheia de
arrependimentos.

Isso era apenas uma especulação. A verdade poderia ser uma coisa completamente
diferente. Mas mesmo assim, eu achava que a tristeza e que a gentileza de Yuigahama eram
genuínas.

Silenciosamente, sem dizer sequer uma palavra um para o outro, nós carregamos a caixa de
papelão entre nós dois. Embora ela nem mesmo fosse pesada.
4–5

Quando colocamos o Kamakura dentro da caixa de papelão, ele tentou tocá-la com a
parte da frente de sua pata. Quando ele alisou o chão três vezes, ele ronronou satisfeito, como se
estivesse dizendo ‘Heh... é boa o bastante’.

Agora então, tudo o que precisávamos fazer era esperar que a Kawasaki Saki aparecesse. O
problema era que não sabíamos quando isso iria acontecer. A duração das broncas de Hiratsuka-
sensei dependiam dos seus caprichos.

– Vamos dividir as tarefas.

Yukinoshita propôs, tomando a liderança. Ela fez o Totsuka esperar em frente a sala dos
Professores, enquanto a Yuigahama ficava parada ao lado do estacionamento de bicicletas.
Komachi estava patrulhando. E eu fiquei encarregado de carregar a caixa de papelão e correr de
um lado para o outro.

Quando você pensa nisso, os outros tinham seus trabalhos, mas eu não tinha nada para fazer
até que a Kawasaki Saki fosse avistada. Enquanto eu estava em estado de espera, eu usei minha
grande força de vontade e saí para comprar uma caixa de Sportop em uma máquina de vendas
nas proximidades. Quando eu coloquei o canudo na caixinha e tomei um ou dois goles, eu voltei
para o meu lugar.

– Miau.

Eu escutei o miado familiar do Kamakura.

– Miau.

Eu escutei o miado não familiar de uma garota.

Reflexivamente, eu chequei os arredores, mas não havia nenhuma outra garota a vista além da
Yukinoshita. Por hora, eu chamei a garota cujas costas estavam viradas para mim.
– ... O que você está
fazendo? Eu perguntei.

– Do que é que você está falando?


Yukinoshita inocentemente respondeu.

– Nada, apenas sobre você estar falando com o gato agora há pouco.

– Mais importante, eu tenho quase certeza de que eu mandei você ficar em estado de espera,
mas parece que seguir uma simples instrução está além das suas capacidades. Eu levei o seu nível
de incompetência em consideração, mas, honestamente, você superou meus cálculos. Eu me
pergunto como eu deveria dizer minhas ordens de forma simples o bastante para que alguém
mais estúpido do que um estudante do Primário possa entender.

Yukinoshita estava cinquenta por cento mais fria que de costume e seu tom de voz era
rude. Seus olhos estavam dizendo que eu estaria morto se dissesse qualquer outra coisa.

– Em-entendi. Eu vou voltar para o estado de espera...

Quando eu deslizei de volta para o banco no qual eu deveria esperar, meu celular começou a
vibrar. Era uma ligação de um número desconhecido. Devido ao tempo, poderia ser apenas a
Yuigahama ou a Komachi ou o Totsuka— ou talvez a Yukinoshita.

Eu sabia o número da Yuigahama e da Komachi, além disso, seria impossível que a


Yukinoshita me ligasse depois do que havia acabado de acontecer.

... Então isso quer dizer que a ligação era do Totsuka!?

– A-alô!?

– Oh, é o Onii-san? Eu pedi o seu número para a Hikigaya-san.

– Eu não tenho nenhum irmão e nem um cunhado.


Eu encerrei a ligação ali mesmo, mas outra chamada chegou quase ao mesmo
tempo. Mesmo sem ver o rosto dele, eu sabia que ele era persistente, então eu
desisti.

– Ei, por que você desligou!?

– O que você quer?

– É apenas porque eu escutei sobre o plano do gato e, bem, a nee-chan tem alergia a gatos.

Silêncio. Nosso plano estava arruinado.

– Por que você não nos contou isso antes?

– Desculpe, eu acabei de ouvir sobre isso.

– Poxa, eu entendi, eu entendi. Obrigado por nos encher. Até mais.

Eu fechei o celular de uma vez e rapidamente fui até onde a Yukinoshita estava. Ela estava
agachada em frente a caixa do Kamakura e acariciava o pescoço dele. O Kamakura estava
enrolado, mais parecendo uma bola.

– Yukinoshita.

Eu chamei por ela.

Yukinoshita afastou-se de gato de repente e apenas olhou na minha direção com um ‘O que foi
agora? ’ escrito em seu rosto. Poxa, pare logo com isso. O modo como ela continuava a olhar para
mim apenas me fazia lembrar do que havia acontecido antes.

– Eu acabei de receber uma ligação do Taishi e descobri que a Kawasaki tem alergia a gatos.
Então eu não acho que ela vá pegar o gato mesmo que o deixemos aqui.

– ... Hum, isso é um banho de água fria em nosso plano.

Yukinoshita disse enquanto acariciava a cabeça do Kamakura, infelizmente em tom de

despedida. Miau.
Quando eu entrei em contato com os outros para avisar que tínhamos desistido do
plano, Yuigahama, Totsuka e Komachi voltaram.

– Onii-chan, você recebeu uma ligação do Kawasaki-kun?


Komachi perguntou.

– Er, sim.

Em seguida eu disse.

– Não saia dando o número de telefones para estranhos. E se alguma coisa perigosa
acontecesse? Seja cuidadosa quando você lidar com informações pessoais.

– As informações pessoais do Hikigaya-kun não são grande coisa.

Yukinoshita zombou de mim, mas era apenas uma brincadeira parcial.

– Não estou falando de mim, isso é para a Komachi. Você me escutou? Não dê o seu
número com tanta facilidade, tudo bem? Especialmente para garotos.

– Sem chance, você viu através de mim?

Komachi desviou do meu aviso com uma risada. Bem, minha irmãzinha era uma daquelas
pessoas do tipo ‘Poupe-me dos detalhes’. Isso não a impedia de ser muito superior a mim nesse
tipo de coisa.

(Ou melhor, era eu que tinha que alcançá-la.)

Agora que a operação terapia animal havia falhado, nós tínhamos que bolar algum outro
plano. Não tendo um plano eu mesmo, olhei na direção de Yukinoshita. Quando eu fiz isso, ela
olhou para Komachi e para mim e deixou escapar um suspiro suave.
– ... Vocês são irmãos que se dão
bem. Ela hesitou.

– Eu estou com um pouco de inveja.

– Hum? Oh, as pessoas dizem muito isso desde quando éramos pequenos. Não é grande
coisa.

– Não, eu...

Yukinoshita parou de falar, o que era raro para ela. Normalmente, ela dizia qualquer coisa
que ela tivesse em mente, mesmo que ferisse outras pessoas.

– Não, não importa.

Será que ela tinha comido algo estragado, como um dos biscoitos da Yuigahama ou algo
parecido?

– Agora então, o que nós vamos fazer? Nós precisamos pensar em alguma coisa.

– Er, uh...

Totsuka ergueu a mão timidamente. Ele olhou para Yukinoshita e para a Yuigahama com
um olhar incerto nos olhos, como se ele quisesse contribuir com alguma coisa, mas não
estivesse certo de como fazer isso.

Vá em frente e diga, eu pensei. Mesmo que ninguém mais fosse aceita-lo, eu iria! Por
exemplo, eu iria até mesmo aceitar um amor inaceitável!

– Vá em frente. Disse
Yukinoshita.

– Eu não me importo que você diga o que tem em mente. Isso iria nos ajudar bastante.
– Tudo bem então... um, que tal vocês conversarem sobre isso com a Hiratsuka-
sensei? Eu acho que ela pode estar muito próxima de seus pais para falar sobre esses
problemas. Mas se ela falasse com outro adulto, ela poderia ser capaz de falar sobre seus
problemas, talvez?

Oh, que ótima ideia. De fato, ela pode não ser capaz de falar com os pais dela porque eles são
os pais dela. Por exemplo, eu absolutamente não iria querer falar com os meus pais sobre
romance ou sobre pornô. E também, eu também não iria falar com eles se eu fosse para a escola
e encontrasse uma pichação na minha mesa, ou se tivesse lixo no meu armário de sapatos, ou se
eu tivesse recebido uma carta de amor e ficado animado com isso, apenas para descobrir que era
apenas uma piada de um dos meus colegas de classe.

É por isso que uma terceira parte era necessária. Uma pessoa confiável com grande
experiência de vida poderia ser capaz de oferecer alguma ajuda.

– Mas a Hiratsuka-sensei, você diz...

Havia um fator preocupante nisso. Você realmente poderia chamar aquela pessoa

deplorável de adulta? A única coisa que era adulta nela eram seus seios.

– Comparada a outros professores, a Hiratsuka-sensei está muito mais em contato com


seus alunos.

Yukinoshita declarou.

– Não há pessoa melhor para o trabalho.

– Oh, sim, eu acho.

Assim como a Yukinoshita disse, a Hiratsuka-sensei realmente se esforça muito para guiar
seus estudantes. Ela orientava os estudantes que estivessem presos a suas preocupações a
procurar o Clube de Serviços e ela se conecta aos seus alunos diariamente. Ela
provavelmente seria capaz de fazer o que precisávamos que ela fizesse, uma vez que ela
era assim tão atenta

e observadora.

– Nesse caso, eu vou tentar entrar em contato com ela.

Eu expliquei a essência da situação de Kawasaki Saki na minha mensagem de texto. O


contato da Hiratsuka-sensei, para o qual eu absolutamente não tinha nenhum uso e também
não tinha desejo de possuir, havia sido me dado certa vez.

– É isso. Eu disse a ela que explicaria mais aqui na entrada. Tudo bem, isso deve fazer com
que ela venha.

Depois que eu fechei o celular, nós esperamos por cinco minutos.

Nós escutamos o som de saltos batendo no chão, sinalizando a aparição da Hiratsuka-


sensei.

– Hikigaya, eu entendo a situação.

Ela disse com uma expressão séria.

– Eu vou ouvir os detalhes.

Ela depositou o cigarro que estava fumando em um cinzeiro portátil.

Eu expliquei o que sabíamos sobre Kawasaki Saki, assim como o que havíamos imaginado. A
Hiratsuka-sensei escutou silenciosamente até que eu terminasse, o que a fez deixar escapar um
suspiro curto.
– O fato de que uma estudante da nossa escola está trabalhando em meio período até
depois da meia noite é um sério problema. Nós precisamos lidar com isso rapidamente,
antes que a situação acabe piorando ainda mais. Eu vou lidar com isso.

A Hiratsuka-sensei gargalhou de forma pouco profissional.

– O que vocês estão olhando? Eu deixei a Kawasaki ir logo antes de vir até aqui. E levou
mais dois minutos para chegar aqui.

... O que era essa indescritível sensação que eu estava sentindo? Tudo nela cheirava a
desgraça alheia.

– Um, você sabe que não tem permissão para socá-la ou chutá-la, certo?

– Impossível... você percebeu que eu só faço essas coisas com você?

– Não, isso não é nada romântico.

Enquanto isso acontecia, Kawasaki Saki apareceu na entrada. Ela arrastava pesadamente os
pés e, ocasionalmente, dava um grande bocejo. Ela pendurava a mochila sobre o ombro, como se
ela não desse a mínima para nada. Seus cotovelos estavam balançando para frente e para trás
enquanto ela andava.

– Espere aí mesmo, Kawasaki.

Hiratsuka-sensei gritou com autoridade para as costas dela. O som de sua voz fez o chão
tremer com força.

Com isso, Kawasaki se virou e seus olhos se estreitaram um pouco enquanto ela olhava.
Quando ela se virou, ela parou com um movimento suave.

A Hiratsuka-sensei também era alta, mas ela era menor que a Kawasaki. As longas pernas dela,
cobertas folgadamente por um par de botas, chutavam pedras com inteligência.
– ... Você quer alguma coisa?

Kawasaki disse agressivamente com um tom rude de ‘Eu não dou a mínima’. O modo como ela
disse aquilo sem rodeios foi assustador. Ela não era assustadora como uma delinquente ou uma
valentona do tipo ‘Eu vou acabar com você, seu merda’. Ela era assustadora como uma mulher
mais velha em um bar desprezível. Ela tinha aquele tipo de vibração de uma pessoa sentada no
canto do balcão, fumando e segurando um copo de uísque com uma das mãos.

Por outro lado, todo o corpo da Hiratsuka-sensei também estava emitindo uma aura
assustadora. Ela era assustadora como é um homem velho e cansado quando se serve de uma
garrafa de cerveja enquanto come a sua quinta porção de soba em um restaurante chinês em
frente da estação na parte desprezível da cidade, gritando coisas como ‘Ele é inútil! Que
arremessador de merda! ’ enquanto assistia a reprise de uma partida de baseball. O que era
aquilo, um confronto de titãs?

– Kawasaki, eu ouvi que ultimamente você tem chegado tarde em casa— que você chega
apenas nas primeiras horas da manhã. Onde e o que exatamente você anda fazendo?

– Alguém contou isso para você?

– A informação do meu cliente é estritamente confidencial. Agora, responda a minha


pergunta.

Hiratsuka-sensei disse com seu tom fala-logo-essa-merda.

Kawasaki suspirou suavemente. Ao que parecia, ela estava ridicularizando a Sensei.

– Nada muito importante. Realmente importa para onde eu vou? Não é como se eu
estivesse atrapalhando alguém.

– Mas você pode fazer isso no futuro. Você não vai ser uma estudante do Ensino Médio para
sempre. Você não percebe que existem pessoas observando você? Como seus pais e eu.
Hiratsuka-sensei insistiu.

No entanto, Kawasaki apenas olhou para ela com uma expressão


entediada. Perdendo a paciência, Hiratsuka-sensei agarrou a Kawasaki pelo
braço.

– Você nunca considerou como os seus pais estão se sentindo?

Ela falou com seriedade, segurando-a como se não fosse mais deixa-la ir embora.

O toque dela era, provavelmente, quente e gentil. Eu me pergunto se os sentimentos


apaixonados dela iriam derreter o coração da Kawasaki.

– Sensei...

Kawasaki sussurrou, tocando a mão da Hiratsuka-sensei e olhando diretamente em seus


olhos.

Então—

– Como se eu soubesse como meus pais se sentem. E de todo modo, não tem como você
saber disso, uma vez que você também nunca foi mãe, Sensei. Você não deveria falar sobre
essas coisas apenas depois que se casar e tiver seus próprios filhos?

– uuuuuurk!

Kawasaki tinha virado o jogo completamente. A Hiratsuka-sensei perdeu completamente o


equilíbrio, como um boxeador que acabou de receber um cruzado do adversário. Ela estava
recebendo uma quantidade considerável de dano. Parece que seus sentimentos não foram
capazes de alcançá-la.
– Sensei, você deveria se preocupar com o seu próprio futuro antes de se preocupar
com o meu. Como arrumar um marido e essas coisas.

O corpo da Hiratsuka-sensei tombou enquanto a surra continuava. Os joelhos dela estavam


tremendo. Então o dano chegou até suas pernas, hum... O impacto alcançou seus quadris, seus
ombros e percorreu todo o caminho até suas cordas vocais. Ela resmungou, mas nenhuma palavra
saiu. Seus olhos estavam lacrimejando.

A insensível Kawasaki não deu atenção a isso e despareceu no estacionamento de bicicletas.


Olhamos uns para os outros sem palavras, sem saber o que fazer. Yuigahama e Komachi
olharam incisivamente para o chão, enquanto o Totsuka murmurava ‘Pobre Sensei’ para si
mesmo.

Em seguida, a Yukinoshita se ajoelhou. Era como se ela estivesse tentando esconder sua
própria presença.

Por que? Por que sou eu que tenho que fazer alguma coisa? Eu pensei. Enquanto eu
observava o estado deplorável da minha professora, eu senti a necessidade de dizer alguma
coisa. Poderia ser... que eu estava me sentindo mal por ela?

– Er, uh... Sensei?

Eu disse, tentando pensar em palavras reconfortantes.

A Sensei se virou rigidamente, como se ela fosse um zumbi. Ela fungou.

– Eu estou indo para casa...

Ela disse com uma foz fina e trêmula enquanto secava os olhos com a lateral de seus
polegares.

E então, sem nem mesmo esperar pele minha resposta, ela começou a fazer seu caminho
cambaleante até o estacionamento.
– Vo-Você se esforçou.

Enquanto eu assistia sua figura cambaleante se afastar, o sol da tarde acertou meus olhos,
fazendo com que lágrimas surgissem.

Alguém case logo com ela, por favor.


4–6
Uma hora depois da Hiratsuka-sensei desaparecer, o sol se pôr e uma estrela
solitária aparecer no céu noturno, nós estávamos na estação de Chiba.

A Komachi levou nosso gato para casa. Estava muito tarde para uma estudante do
Fundamental como a Komachi ir até o distrito empresarial no centro de Chiba. Comer com seus
13
amigos na 14ª praça de alimentação de Yokado combinava mais com ela. Mas sério, o que os
estudantes do Fundamental veem na Yokado? Eu desenvolvi ódio por aquele lugar desde a vez
em que eu fui lá fazer compras com a minha mãe. Mães ficariam melhores se fossem para
14
algum lugar parecido com o Parque das Mães .

De todo modo, já eram quase sete e meia da noite. Estava quase na hora em que a cidade
ficava agitada graças a sua vida noturna.

– Ao que parece, dentro do distrito comercial no centro de Chiba, apenas dois restaurantes
com a palavra ‘Anjo’ no nome operam até as primeiras horas da manhã.

Eu disse.

– E esse é um desses lugares?

Yukinoshita olhou com desconfiança para a placa iluminada com neon na qual se lia ‘Anjo Maid
Café’. Ao lado disso, havia uma ilustração de uma garota acenando e dizendo ‘Bem-vindo de volta,
woof♪’.

‘O que diabos é isso? ’ era o que estava escrito no rosto da Yukinoshita.

Eu me sentia da mesma forma. O que diabos era isso? Bem-vindo de volta, woof, miau? Elas
pensavam que eram cachorros ou gatos? E até mesmo o nome ‘Anjo’ me cheirava a uma
estupidez. A parte do anjo não tinha nada a ver com o que a loja realmente era.

– Então existe um Maid Café em Chiba...


Yuigahama olhava para o prédio, incrédula.

– Você é muito inocente, Yuigahama. Não há nada que Chiba não tenha. Agarrar-se a
tendências duvidosas, isso é o que Chiba verdadeiramente é. Veja, isso parece bastante infeliz.
Essa é a qualidade de Chiba para vocês.

Isso é verdade. Você poderia dizer que Chiba é uma Prefeitura bastante infeliz. O aeroporto
internacional de Narita, o Tóquio Game Show, a vila agrícola de Tóquio German, a ‘Shibuya de Chiba’—

essas novidades bizarras eram os resultados da fixação de Chiba por tendências, normalmente graças

a influência exercida por Tóquio. Adaptar e acrescentar coisas era o que Chiba fazia. Quando você
pensa sobre a existência do ‘Cem Cachoeiras’, o bairro residencial exclusivo de Chiba, você até
mesmo pode dizer que essa fixação já tornou Chiba um lugar secundário em relação a todo o
resto do mundo.

E assim, no centro da linha Keisei-Chiba, a indústria de animação se reunia


indiscriminadamente em um único lugar, formando o coração de um certo tido de subcultura de
Chiba. AKI-BA rima com CHI-BA, afinal de contas. Portanto, é claro que existiriam Maid Cafés
aqui.

– Eu realmente não entendo muito sobre essas coisas, mas... um, que tipo de loja é um
Maid Café?

Totsuka examinou o letreiro algumas vezes, mas aquilo ainda parecia não fazer sentido para
ele. Suponho que ele não fazia ideia do que era o ‘Nós deveríamos passar um tempo MOE MOE
Maid juntos? ’, que também estava escrito no letreiro. ‘Como você passa um tempo Maid?’ é o
que ele iria perguntar. ‘Isso supostamente deveria ser uma Maid?’.

– Oh, como eu realmente nunca fui a um, eu não sei dizer...

Eu admiti.
– Então eu liguei para um cara que conhece esse tipo de coisa em detalhes.

– Oho. Você chamou, Hachiman.

Como se estivesse esperando sua deixa, Zaimokuza Yoshiteru apareceu na bilheteria central da
estação Keisei-Chiba. Ele estava usando um casaco, apesar de estarmos no início do Verão, e suor
escorria da sua testa enquanto ele ria sonoramente. Cristais de sal voavam do colarinho de seu
casaco. Sabe, se estivéssemos na China Antiga, você seria executado por produção ilegal de sal.

– Whoa...

Yuigahama fez uma leve careta.

No entanto, seria difícil culpá-la por ter feito isso. A razão disso era porque eu estava
fazendo uma careta ainda pior do que a dela.

– Por que você tem esse olhar em seu rosto quando foi você quem me chamou?
Zaimokuza quis saber.

– Oh, veja, alguém tinha que fazer isso, mas eu estava apenas pensando no quanto você é um
pé no saco.

– Entendo.

Disse Zaimokuza, rindo maleficamente. Tudo o que eu consegui foi fazer com que sua voz

estridente ficasse ainda mais irritante. Isso já está perdido.

– De fato, é difícil suprimir sua verdadeira força quando se está lutando contra um inimigo
predestinado. Você deve abraçar o seu ódio centenas de vezes!

– Sim, sim. É por isso que você é um pé no saco.


Eu realmente não queria ligar para ele, mas as únicas duas pessoas que eu sabia que
entendiam dessas coisas eram o Zaimokuza e a Hiratsuka-sensei. No entanto, a
Hiratsuka-sensei sabia mais sobre mangás shounen do que sobre esse tipo de coisa,
sendo assim, só me restou uma opção.

Eu já tinha passado os detalhes para o Zaimokuza via mensagem de texto. Sobre a hora em que
a Kawasaki Saki ia para casa, sobre como nós achávamos que ela estava trabalhando em algum
lugar com a palavra ‘Anjo’ no nome e sobre a personalidade dela. Zaimokuza respondeu a toda
essa informação com um simples ‘Anjo Maid Café’.

– Zaimokuza, você tem certeza que é este o lugar?

– Oh, sem nenhuma dúvida.

Zaimokuza pressionou furiosamente os botões em seu smartphone e revelou informações


tiradas do google com um gesto dramático. Smartphones são úteis, mas se você os usar para
resolver qualquer pequena coisa em sua vida, seus dedos obrigatoriamente acabarão ficando
cansados. A Corporação Tecnológica de Computação Ubiquitous era uma companhia que
fabricava almofadas de dedos, criadas para que pessoas que usavam demasiadamente seus
smartphones pudessem descansar seus dedos.

– De acordo com isso, existem apenas dois candidatos nessa cidade. E no caso da Kawasaki,

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nós certamente deveríamos escolher este destino. Eu escutei isso em meu fantasma . A
resposta do Zaimokuza estava repleta de confiança.

Eu engoli em seco.

– Como você sabe?

Poderia ser que esse cara tinha algum tipo de sexto sentido único? Zaimokuza estava
sorrindo de orelha a orelha.
Ah, esse cara não tem nenhuma confiança em si mesmo, eu pensei. O que ele
tem é convicção.

– Bem, faça silêncio e venha... Eu posso fazer com que as Maids bajulem você.

Ele disse enquanto puxava seu casaco com um movimento exibido. Eu pude ver o vento
fazendo o casaco dele balançar.

Esse cara...

Se ele podia dizer tudo aquilo, então eu certamente iria segui-lo. Para essa terra prometida,
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um lugar transbordando de leite e mel— o Sagrado Reino do Harém !

Enquanto meu coração acelerava com a expectativa do que aquelas empregadas fariam por
mim, eu dei um passo à frente. Aquele era um pequeno passo para a humanidade, mas um
gigantesco passo para mim.

Alguém puxou o meu blazer. Eu olhei para trás e vi a Yuigahama olhando para mim com
uma expressão irritada.

Por um momento, ela não disse nada.

– ... O que foi? Eu


perguntei.

– Não é nada. Eu pensei que você também não ia nesse tipo de loja, Hikki.

Ela estava incessantemente amassando meu blazer com as pontas dos dedos, com um olhar
misteriosamente irritado em seu rosto.

– Mal pressentimento.
Pare de me tocar. Você vai estragar meu blazer.

– ... Eu nem mesmo entendo o que você está dizendo. Use a estrutura sujeito-
verbo-predicado em suas sentenças.

– Quero dizer, esse não é um lugar em que os garotos vão? O que nós garotas vamos fazer?
Hum? Oh sim, pensando nisso, será que garotas vão a Maid Cafés? Pensando que o

Zaimokuza-sensei iria me ensinar, eu olhei na direção dele. Zaimokuza-sensei estava de braços


cruzados e um ‘Deixa comigo’ estava estampado em seu rosto. Ele gritou mais alto do que o
necessário.

– Não tema, mademoiselle!

– Quem é uma made mosell...?

Na verdade, eu sabia o que ele tinha dito, mas eu não queria admitir isso.

– Eu imaginei que algo assim aconteceria, então eu trouxe fantasias de empregada para
serem usadas como dispositivos de infiltração.

Ele disse enquanto tirava da mochila em suas costas uma fantasia de empregada, assim
como um saco plástico contendo produtos de limpeza. Sério, também tinha um bastão de
metal e uma frigideira lá dentro.

– Ohohohohohoho. Agora então, Sir Totsuka, nós deveríamos nos retirar...?

Eu entendi o que você fez aqui. Bom trabalho.

– Hu-hum? O que eu tenho que...?


Totsuka deu um passo e depois outro em sua tentativa de ficar longe de Zaimokuza,
que agora estava lentamente tentando se aproximar dele.

Sério, o que há com essa reação de filme de terror? Em um dia normal, eu teria dado um
soco no estômago do Zaimokuza e resgatado o Totsuka como o herói que eu era, mas hoje,
essa era uma ação que eu poderia me forçar a fazer.

E-Eu meio que queria ver ele vestido com a fantasia de empregada...

Finalmente, Zaimokuza encurralou Totsuka contra a parede. Nesse exato momento, a luz ao
fundo fez com que o Zaimokuza parecesse um monstro de verdade.

– Agora então, Sir Totsuka... Eu peguei você, meu lindo!

Quando aquela criatura brandindo uma fantasia de empregada surgiu diante de um


Totsuka em lágrimas, Totsuka balançou freneticamente a cabeça.

– Não, não... por favor...

Porém, mesmo que ele soubesse que seria inútil resistir, Totsuka tentou negar a realidade
diante dele e fechou os olhos, fazendo com que grandes lágrimas escorressem pelo seu rosto.

Então isso aconteceu.

– Tudo bem, tudo bem, tudo beeeeem! Eu quero tentar vestir isso! É muito fofa! Yuigahama
disse enquanto tomava o uniforme de empregada das mãos do Zaimokuza.

– ... Keh!

Zaimokuza cuspiu.
Yuigahama respondeu aquele gesto com irritação e olhou para Zaimokuza com um
olhar do tipo ‘Que irritante e patético virgem’ no rosto.

– Hum, o que é essa atitude? Você está me irritando.


Disparou Yuigahama.

Em um dia normal, o Zaimokuza teria tossido de forma exagerada e fugido da situação, mas
como ele estava preenchido pelo poder dos uniformes de empregada, sua inútil autoconfiança de
antes voltou a aparecer.

– Hmph, não é isso que é ser uma verdadeira empregada. O que vocês chamam de
empregada não passa do ato de vestir uma fantasia. Falta alma para vocês.

– Que diabos? Eu não tenho ideia do que você está dizendo...

Yuigahama olhou na minha direção, procurando por ajuda, mas essa era uma situação na
qual eu me recusava a me intrometer.

Veja, isso é porque eu entendia completamente o que o Zaimokuza estava dizendo.

– Não, eu entendo. Como eu posso dizer isso? Você iria parecer completamente fora de
lugar mesmo se estivesse vestindo um uniforme de empregada. Se você estivesse usando a
roupa do festival de dança escolar, você apenas iria irritar alguns estudantes mais velhos.

Honestamente, uma vez que esses lugares serviam apenas para otakus e empregadas, assim
como aqueles que se reuniam ao redor deles, eu me pergunto o que há de tão bom em se
dedicar unicamente ao uniforme de empregada. De longe, isso me parece uma sensação
agradável.

– Você pode vestir a fantasia, mas o seu coração não está no cosplay! Volte depois que
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você ler Shirley ! Pessoas como você bagunçam seu cosplay na Comiket apenas para
poderem fumar na área de fumantes!

Yuigahama deu três passos para trás durante o discurso frenético do Zaimokuza. Gemendo
audivelmente, ela olhou ao redor, a procura de algum aliado. Então, ela se escondeu atrás das
confiantes costas de Yukinoshita.

Yukinoshita, que havia se tornado o escudo de Yuigahama, deixou escapar um curto e


conciso suspiro e então apontou na direção da placa do ‘Anjo Maid Café’.

– Parece que garotas também são bem-vindas aqui.

Ela disse.

Quando eu olhei para a parte do letreiro para a qual ela estava apontando, eu vi que as
palavras ‘Garotas também são bem-vindas! Vista-se como uma Maid!’ estavam escritas,

Droga, aquele letreiro realmente não estava mentindo. Era realmente um tempo de Maid.
4–7
Nós cinco caminhamos para o ‘Anjo Maid Café’. Lá, nós fomos recebidos com o
cumprimento padrão ‘Bem-vindos de volta, Mestres! Aproveitem sua estadia! ’ e fomos
levados até nossa mesa. Yuigahama e Yukinoshita estavam acumulando experiência como
empregadas, então apenas Totsuka, Zaimokuza e eu fomos levados até a mesa.

– Por favor sente-se, Mestre.

Disse uma dama usando óculos de armação vermelha e orelhas de gato enquanto nos
entregava o cardápio.

Uma grande variedade de coisas estava listada no cardápio, escrito com uma bonita letra
cursiva. ‘Omu Omu Omulette Rice’ e ‘Curry Branco☆’ e ‘Kyururun Cake’. E além do cardápio
padrão, várias opções como ‘Versão Tóquio-Chiba do Jokenpo Moe Moe’ também estavam
escritas. Mas espere, por que elas cobram dinheiro apenas por um tipo de jokenpo? A
economia em bolha parece ser aplicada unicamente neste lugar.

Eu decidi deixar todas essas opções incompreensíveis para o Zaimokuza, que já havia

tomado seu lugar. Enquanto eu olhava em sua direção, ele olhou ao redor, visivelmente pálido,

e bebeu água em um ritmo acelerado. Ele não havia dito uma só palavra durante todo esse

tempo.

– Oi, o que houve?

– Hmph... Eu estava tão seguro de mim mesmo antes de entrar nessa loja, mas agora eu
estou apreensivo, pois eu não posso conversar sem problemas com as empregadas.

– ... É mesmo?

A mão do Zaimokuza tremia violentamente quando ele pegou seu copo de vidro, mas eu
decidi ignorá-lo. Havia um outro personagem que também ainda não havia aberto a boca,
então eu decidi falar com ele dessa vez.
– Totsuka, você está em um Maid Café,
sabe. Totsuka não reagiu.

– To-Totsuka?

Novamente, ele me ignorou. Em um dia normal, ele teria falado comigo e sorrido para mim,
radiante como se fosse o sol. Totsuka estava agindo completamente Tsun e me evitando, ele nem
mesmo balançava a cabeça ou qualquer coisa do tipo.

– O que, você está bravo?

Eu perguntei enquanto me preparava mentalmente para perfurar meu pescoço com um


garfo caso ele continuasse a me ignorar.

Totsuka finalmente abriu a boca dessa vez.

– Antes, você não me salvou.

Ele disse depois de fazer uma pausa.

– Hum? Ohh, veja, isso é...

– ... Você queria que eu vestisse aquela fantasia fofa mesmo que eu seja um garoto.
Totsuka olhou para mim fazendo beicinho.

(... O rosto nervoso dele é tão fofo.)

Oh, merda. O Totsuka é um garoto. E além disso, eu realmente não gosto quando ele fica

bravo comigo e diz coisas que uma garota diria. Sendo esse o caso, eu tinha que me conter e

não mexer ainda mais com ele.


– Isso é, bem, entende, isso é meio que uma piada entre homens— como lobos
pregando peças uns nos outros, eu acho?

– ... Sério?

– Sério. Eu juro pela minha honra como homem.

De todo modo, eu tive que dar a ele um empurrão viril. Essa era uma conversa de homem
para homem, com ênfase no HOMEM.

– E-Então eu vou perdoar você...

Totsuka finalmente disso, corando.

– Desculpe. Eu vou me desculpar com um cappuccino por ter feito isso. Todos os garotos
italianos bebem isso, sabia?

– Tudo bem, obrigado!

Eu consegui concertar o humor do Totsuka apelando para minhas armas e para a virilidade
dele. Agora que eu era o alvo daquele sorriso radiante do Totsuka, eu não poderia estar com um
humor melhor. Eu toquei o sino que estava sobre a mesa.

– Desculpe por fazê-los esperar, Mestres.

– Oh, eu vou querer dois cappuccinos, obrigado.

– Nós podemos desenhar gatinhos no café, caso esse seja o seu desejo, Mestre. Você
gostaria disso.

– Er, não, obrigado.


Eu recusei a oferta, mas sem mostrar nenhum traço de irritação, a empregada
sorriu serenamente.

– Compreendo. Por favor, aguarde um momento.

Ela cantarolou. Em termos de tavernas, seria como se ela tivesse dito ‘Claro que sim,
companheiro! ’. Era exatamente o que você esperaria de uma profissional. Seus movimentos
eram sempre estimulantes e enérgicos.

A razão pela qual um Maid Café era popular provavelmente não era devido ao uso de palavras
como ‘moe moe’ ou ‘mestre’, mas sim por causa desse tipo de espírito fanservice que dizia
‘Vamos fazer toda e qualquer coisa para passarmos um tempo nos divertindo’. Jogar jokenpo com
você e desenhar figuras no seu omuraisu eram formas delas expressarem sua hospitalidade.

Dito isso, entre elas havia uma empregada que parecia ser horrível com toda aquela coisa de
faz de conta. As mãos dela tremiam enquanto ela carregava a bandeja e ela pisava com cuidado,
pois podia ver claramente que os copos estavam balançando. A esse ritmo, ela definitivamente
iria acabar caindo e eu seria capaz de ver a calcinha dela. Eu estou falando sobre a Yuigahama, a
propósito.

– De-desculpe por fazê-lo esperar.

Ela disse extremamente envergonhada enquanto colocava os copos na mesa. Seu rosto
estava vermelho brilhante.

– Me-mestre.

Ela acrescentou após uma longa pausa.

Ela estava usando um uniforme de empregada relativamente simples. O preto básico e os


babados brancos estavam presos e a blusa era demasiadamente curta, o que realmente
enfatizava seu busto.
Houve silêncio por um longo momento.

– I-isso combina comigo?

Quando ela colocou a bandeja sobre a mesa, ela girou o corpo com uma velocidade
deliberada. Sua fita decorativa e os babados balançaram com o vento.

– Uau, você está muito fofa, Yuigahama-san.


Totsuka comentou.

– Certo, Hachiman?

– Hum? Oh, sim. Eu acho. Eu


respondi vagamente.

No entanto, mesmo com minha resposta meio assertiva, Yuigahama sorriu como se eu a

tivesse elogiado.
– Entendo... é bom ouvir isso... ehehe, obrigada.
Honestamente, eu estava surpreso.

Ela era desajeitada como sempre, mas eu tive uma impressão completamente diferente da
Yuigahama agora que eu a vi com essa atitude subserviente com um certo olhar tímido no rosto.

– Sim, mas sabe, a saia dessa roupa de empregada é muito curta e as meias sobem até os
meus joelhos, então deveria ser muito difícil para as pessoas que usavam esse tipo de roupa
antigamente. Se você vestir isso e tentar fazer a limpeza, você acabaria ficando

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completamente cheia de poeira, como se fosse um Quickle Wiper . Eu
retiro o que eu disse antes. Ela era apenas a Yuigahama Yui.

– Você ficaria fofa se mantivesse a boca fechada.

Eu disse.

– O que—!? O que você está insinuando!?

Ela atirou um bolinho em mim e me bateu com a bandeja. Então ela estava levantando a

mão contra o seu Mestre, hum...

– Por que você está perdendo tempo aí...?

Uma voz fria disse, fazendo com que eu me virasse.

Atrás de mim havia uma empregada da época do Império Britânico.


Uma longa saia e longas mangas de um tom escuro de verde e um laço preto
amarrado na região do busto. Sua figura sombria combinada com aquela veste modesta
transbordava de esplendor.

– Uau, Yukinon, você está incrível! Essa roupa combina loucamente com você. Você está tão
bonita...

Yuigahama suspirou profundamente admirada.

Assim como a Yuigahama disse, a roupa realmente combinava com a Yukinoshita.

– Sim, mas você ficou parecendo mais com uma Rottenmeier do que com uma
empregada...

Eu pensei que aquela fosse uma referência muito boa, mas evidentemente, nem Yukinoshita
e muito menos a Yuigahama entenderam, então ambas inclinaram suas cabeças, confusas.

– Estou dizendo que combina com você...

– Entendo. Bem, suponho que isso particularmente não importa...

Yukinoshita respondeu com indiferença.

Aliás, Rottenmeier é a governanta idosa de Heidi, Garota dos Alpes. Você podeia dizer que ela
também é uma empregada, suponho. Fora isso, ela parecia mais com alguém saído de uma
mansão assombrada.

– A Kawasaki-san não parece estar nessa loja.


Yukinoshita comentou.

– Você realmente fez seu trabalho, hum...?

– É claro. Eu só vesti essa roupa por esta razão.


Yukinoshita foi a única que realmente levou a sério a missão de infiltração. Esse era
o nascimento da empregada detetive. Nesse caso, por que é que eu tinha apenas o
humor do Totsuka na minha mente?

– Então ela não está tirando um dia de folga?


Yuigahama perguntou.

Yukinoshita balançou a cabeça.

O nome dela não está no quadro de horários. Considerando que ela recebeu uma ligação em
sua própria casa, nós podemos excluir a possibilidade de que ela esteja usando um nome falso.

Se ela tinha ido tão longe, ela não era uma empregada comum. Ela era basicamente uma
empregada ninja.

– Então nesse caso, nós recebemos informações falsas...

Eu lancei um olhar na direção de Zaimokuza, que estava sentado ao meu lado.


Com isso, Zaimokuza inclinou a cabeça e começou a gemer.

– Que estranho... não tem como não ser isso...

– Do que é que você está falando?


*Ahem!*

Zaimokuza tossiu antes de prosseguir.

– Uma garota tsuntsun que secretamente trabalha em um Maid Café e faz ‘Miau, miau!
Bem-vindo de volta, Mestre... Hum, o que você está fazendo aqui!?’, é assim que

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supostamente deveria ser— ou eu deveria dizer destinado a ser!?
– Eu não faço ideia do que diabos você está falando.

Eu não dava a mínima para as inclinações do Zaimokuza. Graças a ela, nós


desperdiçamos um dia inteiro. Estava ficando consideravelmente tarde e não havia nenhum
ponto em irmos para casa apenas para termos que voltar em algum outro momento.
4–8

No dia seguinte ao que fomos ao Maid Café, o número de pessoas na sala do Clube foi
recorde. Nós unimos nossos cérebros porque, de acordo com a Yukinoshita, quando tratar os
sintomas mostra-se ineficaz, você tem que mudar sua perspectiva e mirar na erradicação da raiz
do problema.

Eu sabia que a Yukinoshita e eu— e talvez a Yuigahama também— éramos membros do


Clube. Também não era um grande mistério o porquê do Totsuka e do Zaimokuza estarem aqui,
uma vez que eles nos visitavam de tempos em tempos. Uma outra pessoa estava presente,
ainda que a presença dele aqui fosse algo incomum e, misteriosamente, ele estava se
misturando com os demais.

– O que o traz aqui, Hayama? Eu


perguntei.

Hayama estava lendo um livro perto da janela. Oi, dá um tempo, eu pensei. O que, ele era um
daqueles tipos de garotos que eram agradáveis até mesmo enquanto estavam lendo um livro?
Aposto que essa não era toda a capacidade dele. Quando eu chamei por ele, Hayama fechou seu
livro e balançou a mão em um gesto singelo.

– Veja, a Yui me chamou aqui...

– A Yuigahama?

Eu me virei e vi a Yuigahama estufando o peito orgulhosamente por alguma razão.

– Sim, eu meio que pensei sobre isso e você não acha que tem que existir alguma razão
para a Kawasaki-san ter mudado? Então eu pensei que seria bom eliminar essa razão, mas,
tipo, fica meio difícil fazer isso quando ninguém nos diz qual é essa razão, cê sabia?

– Sim, eu acho.
Milagrosamente o bastante, o argumento da Yuigahama fazia sentido. Encantado por
este pequeno milagre, eu apenas pude grunhir em resposta. Como resultado de ter seu
ego inflado, Yuigahama inflou ainda mais o peito até o ponto em que, eu juro, ele ficou
completamente voltado para o teto.

– Eu sei, certo!? É por isso que nós precisamos pensar em alguma coisa para lutar contra
isso. Se ela mudou para pior uma vez, dessa vez nós podemos fazer com que ela mude para
melhor.

Ela era um daqueles tipos de pessoa que pensava que ‘Dois erros fazem um acerto’. Ela era
mais pateta do que os Três Patetas.

– Então, por que era necessário chamar o Hayama-kun?

Yukinoshita disse um pouco tempestuosa, como se ela não pensasse grande coisa das
capacidades do Hayama.

No entanto, Hayama particularmente parecia não se importar com isso, uma vez que sua
atenção estava voltada para a Yuigahama.

– Você não entendeu, Yukinon.


Yuigahama disse.

– Só existe uma razão pela qual uma garota mudaria.

– Uma razão pela qual uma garota mudaria... você está falando sobre a degradação
causada pelo tempo?

– Isso não se chama envelhecer!? Vo-Você entendeu errado! Uma garota sempre será uma
garota em seu coração! Yukinon, tenha mais orgulho de você mesma enquanto mulher!

– Não isso outra vez...


Yukinoshita suspirou, espantada. Ainda assim, ela tinha um argumento. Na minha
opinião, as garotas que dizem possuir um ‘poder feminino’ possuem muito menos ‘poder
feminino’ do que aquelas que elas criticam por não ter ‘poder feminino’.

– A razão pela qual uma garota mudaria é-é... amor ou algo parecido com isso.

Eu mal podia acreditar que essa garota havia acabado de dizer algo tão embaraçoso.

... Sem mencionar que ela era quem estava mais envergonhada entre todos nós.

– De-De todo modo! Quando você gosta de uma pessoa, todo o seu mundo muda! Eu pensei
que nós iríamos precisar de alguém que pudesse desencadear essa reação... então eu chamei o
Hayato-kun.

– Er, eu não sei porque você pensou em mim.

Hayama disse para a Yuigahama com um sorriso tenso.

Oi, seu bastardo, se você nem mesmo sabe por que ela pensou em você, eu vou ficar ainda mais
irritado com você. Zaimokuza evidentemente pensava da mesma forma, porque ele olhou para o
Hayama praticamente no mesmo instante que eu.

– Eu tenho certeza que tem vários outros garotos que se dão bem com garotas. Mesmo
entre nós... o Totsuka não é bastante popular?

Oh, bom... então o Hayama é consciente de sua própria popularidade... Quero dizer, não, eu
nunca vou perdoar esse babaca. Zaimokuza evidentemente pensava da mesma forma, porque ele
olhou para o Hayama praticamente no mesmo instante que eu.

Quando viu nossos olhares, Yuigahama cruzou os braços e pensou um pouco.


– Hum, eu também acho o Sai-chan fofo, mas eu não acho que ele seja o tipo da
Kawasaki-san. O outro garoto aqui é, vamos encarar isso, o Chuuni é um chuuni. Sendo
assim, sobra apenas o Hayato-kun.

– Oi, não me deixe de fora assim tão casualmente.

Ela ficou vermelho brilhante.

– Vo-Você está fora de cogitação, Hikki!

Cara, ela realmente não precisava jogar isso na minha cara.

Outra coisa, o Zaimokuza estava ainda mais chocado do que eu por ter sido completamente
deixado de lado... e também, o apelido dela para ele era ‘Chuuni’?

– O julgamento da Yuigahama-san foi astuto.


Yukinoshita disse para mim.

– Você honestamente acredita que alguém na sua classe iria notá-lo?

– Não.

Eu concordei com ela. Veja, se eu fosse uma garota, eu não teria o menor interesse em um
solitário como eu. Olhe, esse é meu talento ninja, tudo bem. Você não pode fazer nada quando
sua existência está envolta em sombras. Cara, que ótimo ninja eu sou. Acredite...

– Oh, uh, eu não quis dizer dessa forma. Quero dizer, você realmente não é assim tão ruim,

é só que, sabe, razões e essas coisas... de todo modo, eu pedi que o Hayato-kun ajudasse.
Enquanto eu pensava sobre como eu iria usar minhas habilidades shinobi para me tornar

20
Hokage um dia , Yuigahama começou a falar com o Hayama, que estava de frente para ela.
– Você vai nos ajudar?

Ela juntou as mãos e baixou a cabeça.

Não havia nenhum garoto que recusaria se pedissem desse jeito. Várias coisas aconteciam com
os garotos. Eles ficavam felizes se alguém pedisse alguma coisa a eles e sentiam uma grande
alegria se alguém juntasse as mãos e baixasse a cabeça para fazer isso. Eles ficavam motivados a
ajudar graças ao desejo de se tornarem heróis que ajudavam os outros desde que eram
pequenos. Várias coisas, eu acho.

Hayama parecia não ser diferente.

– Entendido.

Ele respondeu encolhendo levemente os ombros.

– Não posso fazer nada se é essa a razão. Não posso garantir nada, mas eu vou fazer o que eu
puder.

Ele fez uma pausa.

– Faça o seu melhor também, Yui.

Ele disse e colocou uma mão sobre o ombro da Yuigahama.

Ugh, não era ele que supostamente deveria fazer seu melhor?

– O-Obrigada...

Yuigahama respondeu corando, devido ao fato de ter sido tocada.


E com isso, o plano da Yuigahama ‘Operação: Comédia Romântica Maliciosa do
Gigolô Hayama!’ foi posta em prática. Que capacidade ridícula de nomeação.

A essência era bastante simples.

O Hayama iria usar todos os seus poderes de gigolô de uma só vez, com o intuito de capturar o
coração da Kawasaki. (A propósito, por que eles dizem ‘capturar’ o coração de uma pessoa, afinal?
Nem mesmo um gigolô é capaz de arrancar o coração do peito de alguém.)

Fomos até a posição no estacionamento de bicicletas para nos prepararmos para quando a
Kawsaki aparecesse. Obviamente, uma vez que seria estranho que nós estivéssemos com o
Hayama, nós mantemos distância entre eles, para que pudéssemos observar o que iria acontecer
entre os dois.

Então, finalmente, a hora chegou.

Kawasaki entrou no nosso campo de visão, arrastando os pés da mesma forma de ontem. Ela
reprimiu um bocejo e tirou o lacre de sua bicicleta. Hayama escolheu esse momento para
aparecer.

– Olá. Você parece cansada. Ele


comentou levemente.

Era para ser apenas uma atuação, mas ele disse aquilo com tanta naturalidade que nós, que
estávamos escutando de um lugar próximo, não pudemos evitar de responder com um ‘Olá’ para
ele.

– Você tem um emprego de meio período? Você não deveria morder mais do que pode
mastigar, sabia?

Ele disse isso com uma preocupação casual.


Eu não posso acreditar nesse Hayama, foi o que metade de mim pensou, enquanto a
outra metade estava apaixonada por ele.

Enquanto isso, Kawasaki apenas suspirou com irritação.

– Obrigada por se preocupar comigo. Bem, até mais.

Ela começou a empurrar sua bicicleta sem se importar com o resto do mundo.

No entanto, quando ela deu as costas, uma voz aquecida a acertou, uma daquelas que
derreteria até o mais frio dos corações.

– Veja...

Isso fez com que a Kawasaki parasse. Ela olhou para trás por sobre o ombro, sem sair de
onde estava.

Uma refrescante brisa de Verão soprou pelo espaço que os separava. Diante desse súbito
desenvolvimento de Comédia romântica, Yuigahama inclinou todo o seu corpo para frente,
mostrando grande interesse. Ela apertava as mãos com tanta força que suas palmas estavam
suadas. Enquanto isso, Zaimokuza fervia de ódio e ciúmes e apertava os punhos com uma clara
intenção assassina.

Quando a brisa parou, a voz de Hayama ecoou. Hayama tinha uma placa de ‘Garoto bonito’
brilhando sobre sua cabeça. Ele estava fedendo a feromônios.

– Você não precisa fingir ser tão dura, sabia? Por um


momento, nenhum dos dois disse nada.

– Obrigada, mas não, obrigada.

Kawasaki continuou a empurrar sua bicicleta.


Mas para Hayama Hayato, o tempo parou. Ele havia sido deixado para trás. Levou
cerca de dez segundos para que o Hayama voltasse para o lugar em que estávamos
assistindo das sombras.

– Então, parece que eu fui rejeitado. Ele


riu timidamente.

– Oh, bom traba— pfffffft.

Eu queria falar para confortá-lo, mas as palavras não saíram da minha boca. Uma estranha
sensação estava me acertando diretamente no estômago. Merda! Meus modos! Enquanto eu
lutava para reprimir a súbita sensação que havia tomado conta de mim, o cara ao meu lado
começou um tumulto.

– HAHA, BWAHAHAHAHAHAHAHA! Você foi re-rejeitado! Rejeitado! Você não é grande


coisa afinal, sendo rejeitado! Bwahahahahaha!

– Ca-Cale já essa boca, Zaimokuza pffffft...

Eu bufei alto.

– Vocês dois, é cruel ficar rindo!

Totsuka falou para nós dois, parecendo como se ele mesmo estivesse tentando muito duro
segurar suas próprias risadas. A risada aos berros do Zaimokuza era contagiante e ele não podia
fazer nada quanto a isso.

– Be-Bem, entendo. Eu realmente não me importo, Totsuka.


Hayama disse, fazendo uma careta.

... Cara, ele era um cara legal. Ele nos ajudou apesar dos seus receios e por causa disso ele
acabou sofrendo aquela humilhação. E mesmo assim, ele levou isso na esportiva.
Previsivelmente o bastante, Zaimokuza sufocou suas risadas enquanto
considerava a situação de Hayama. Então ele tossiu e disse,

– Sir Hayama... Você não precisa fingir ser tão duro pffffffft! Hahahahaha!

– Idiota! Pare com isso, Zaimokuza! Pare de me fazer rir!

Enquanto Zaimokuza e eu gargalhávamos, o rosto da Yuigahama endureceu.

– Vocês são os piores...

– Então isso também foi uma falha.


Disse Yukinoshita.

– Não podemos fazer nada. Esta noite, nós vamos tentar visitar a outra loja.

– Acho que sim...

Eu estava ofegante. Aquilo era divertido.

Essa era a primeira vez que eu ficava feliz por ter me juntado ao Clube de Serviços. Sério.
4–9

Meu relógio de pulso marcava oito e vinte da noite. Encostei-me no monumento


cônico (conhecido como ‘Broca Estranha’) que ficava no nosso ponto de encontro, em frente à
estação Kaihin-Makuhari. Do outro lado de onde eu estava ficava o Royal Hotel Okura. No
último andar do Hotel ficava situado o bar ‘Escada do Anjo’.

Essa era a última loja no distrito empresarial do centro de Chiba que tinha a palavra ‘Anjo’ no
nome e ficava aberta até as primeiras horas da manhã. O nome estava escrito duas vezes:
primeiro em Inglês e depois em Japonês.

Eu ajustei meu frágil e desconfortável casaco, para que eu pudesse me acostumar melhor com
ele. Era um bonito casaco, o qual eu havia pegado sem permissão do armário do meu pai, mas
mesmo assim ele me servia bem, já que éramos praticamente da mesma altura. Eu vesti uma
calça jeans e uma camisa colorida com uma gola preta, além de um simples par de tênis de bico
largo. Esse não era o tipo de coisa que eu costumava vestir.

Sério, eu não podia suportar essas roupas. Tudo exceto a calça jeans eram coisas do meu pai.
Meu cabelo estava até mesmo penteado com gel e tudo, cortesia da Hikigaya Komachi. Quando eu
pedi que a Komachi escolhesse algumas roupas de adulto para mim, de algum modo ela virou toda
a casa de ponta cabeça apenas para conseguir uma roupa para mim.

(“Uma vez que você tem os olhos de um assalariado cansado, Onii-chan, suas roupas e cabelo
também precisam parecer com as de um adulto”. Ela insistiu, o que foi problemático de ouvir.
Meus olhos realmente eram tão ruins assim?)

O primeiro a aparecer no nosso ponto de encontro foi o Totsuka Saika.

– Desculpe, você estava esperando?

– Nah, eu acabei de chegar aqui. Eu


disse.
O Totsuka estava usando roupas esportivas, que ficariam bem independentemente do
sexo.

Suas calças largamente ajustadas, estavam combinadas com uma camisa muito apertada. Ele
usava uma espécie de chapéu fino de lã, que não esquentaria nada, e um par de fones de ouvido
em volta do pescoço. Toda vez que ele se movia com seus tênis de basquete, sua corrente da
carteira balançava, exibindo um brilho fraco.

Era a primeira vez que eu via o Totsuka usando roupas normais— não me admira que eu
tenha ficado olhando para ele de forma vaga. Enquanto eu fazia isso, Totsuka segurou com
força seu chapéu de lã e escondeu os olhos por algum motivo.

– Oh, não olhe tanto assim para mim... se-será que eu estou parecendo estranho?

– Na-Não, nem um pouco! Você, uh, parece bem.

Toda essa conversa soava estranhamente como algo que poderia acontecer em um
encontro, mas, infelizmente, Totsuka e eu não estávamos nesse tipo de relacionamento.

Zaimokuza provou isso apenas por mostrar sua cara.

Tudo bem, por alguma razão, ele estava vestido como se fosse um monje e tinha uma
toalha amarrada na cabeça. De todo modo, eu o ignorei.

– Hum. Esse deveria ser o local de encontro... oooooh! Se não é o Hachiman!

Quando você é irritado por um personagem irritante, você não pode evitar comentar isso.

– O que é essa fantasia? Por que você está com uma toalha amarrada na cabeça? Você acha
que é um chef de ramen?
– Oho, boas vibrações. Não foi você mesmo que disse que nós deveríamos nos vestir
como adultos maduros? Como tal, eu optei por usar as vestes de um monge e uma toalha
na cabeça, assim como um homem trabalhador...

... Ah, então essa era sua ideia. Cara, agora que ele tinha ido em frente e vestido isso, não
tinha nada que eu pudesse fazer. Ele não precisava ter ido tão fundo assim no personagem, mas
tanto faz.

Por volta do mesmo instante em que eu cheguei a essa conclusão, eu ouvi o som da
Yuigahama entrando no campo de visão. Ela olhou ao redor, inquieta, e pegou o celular. Ela
não tinha percebido que estávamos bem ao lado dela?

– Yuigahama.

Eu a chamei, fazendo-a congelar em reação. Ela olhou para trás por cima do ombro, com
medo estampado em todo o seu rosto. Sério, ela tinha acabado de olhar para a gente apenas há
um segundo atrás.

– Hi-Hikki!? Oh, é o Hikki. Por um momento ali, eu não te reconheci... de-deve ser a roupa,
hum?

– Calada. Não ria.

– E-Eu não estou rindo! Eu fiquei apenas, tipo, chocada com o quanto você está diferente do
seu normal...

Ela olhou para mim enquanto fazia ruídos de incredulidade. Então ela assentiu em
reconhecimento.

– A Komachi-chan escolheu essas roupas para você?

– Sim, você entende rápido.


– Assim como eu pensava...

Yuigahama parecia ter entendido alguma coisa. Eu não tinha a menor ideia do
que ela poderia ter entendido.

Por alguma razão, ela estava olhando para mim como se fosse uma policial da moda, então eu
devolvi o gesto e olhei para ela.

Yuigahama estava vestindo uma blusa de vinil preta com uma alça que cobria apenas seu ombro
direito e deixava o esquerdo nu. Um colar em forma de coração estava pendurado em seu pescoço
como de costume, já que ela provavelmente gostava dessas coisas. Ela estava usando uma jaqueta
jeans com mangas curtas que cobria toda a parte superior do seu corpo.

Sua mini bermuda preta tinha um botão dourado e ela estava usando sapatos de salto que se
prendiam em seus tornozelos como se fossem videiras. Toda vez que ela caminhava, as
tornozeleiras que ela usava balançavam.

– De algum modo, você não parece muito adulta para mim...

– Hum!? Qual parte!?

Yuigahama olhou para os seus braços em pânico e em seguida para suas pernas. Com todos
aqueles acessórios, ela parecia exatamente igual a uma estudante colegial, eu acho.

E com isso, nós estávamos quase todos reunidos. Exatamente no momento em que eu
pensei que apenas mais uma pessoa precisava aparecer, eu escutei uma voz atrás de mim.

– Eu peço desculpas. Estou atrasada?

Seu vestido de Verão branco se destacava brilhantemente na escuridão noturna. Olhando


para baixo, eu pude ver o contorno fino de suas pernas através da legging preta. Seus sapatos de
salto eram visivelmente pequenos, encaixando-se como luvas em seus pés. Ela parecia muito
lisonjeada. Quando ela ergueu o braço para verificar a hora, o rosa do seu pequeno
relógio de pulso foi refletido em sua pele branca, ressaltando sua fofura. Eu pude notar
que a parte de metal enrolada em seu pulso fino e feminino era feita de prata.

– Está na hora.

Yukinoshita Yukino exalava o encanto agradável de uma flor alpina desabrochando no início

da noite.
– Ce-Certo...

Eu não conseguia reunir mais palavras. Eu me lembrei de como sua aparência havia me

dominado na primeira vez em que a encontrei no Clube de Serviços.

Agora, se a personalidade dela combinasse...

21
– Você é o Fantasma do Desperdício ?

– Isso é ridículo. O Fantasma do Desperdício não existe.

Yukinoshita negou minha afirmação enquanto olhava suavemente para cada um de nós.

– Hmph...

Ela apontou para cada um de nós, começando pelo Zaimokuza.

– Essa roupa é inapropriada.

– Hum?

– Essa roupa é inapropriada.

– ... Eh?

– Essa roupa é inapropriada.

– O que?

– Sua aparência é completamente inapropriada.


– Ei...

Por alguma razão, ela estava nos julgando. E por alguma razão, ela me julgou de uma forma

diferente dos demais...

– Eu disse a todos para que viessem com roupas formais.

– Eu pensei que você tivesse dito para nos vestirmos como adultos?

– Onde nós estamos indo, ninguém estará vestido dessa forma. Os homens usam gravata e

é um senso comum usar um casaco.

– É-É assim mesmo...?

Totsuka perguntou.

Yukinoshita assentiu em resposta.

– Os restaurantes de muitos hotéis razoavelmente bem classificados costumam ser assim.


Você faria bem em se lembrar disso.

– Você soa como se soubesse muito a respeito disso.

Com certeza, isso não era algo que uma estudante comum do Ensino Médio deveria saber. Os
únicos restaurantes que nós frequentávamos eram o Bemiyan e o Saize. O restaurante de mais
alta classe em que tínhamos ido foi o Royal Host, sem dúvidas.

De todo modo, eu era o único entre todos nós que estava usando um casaco. O Totsuka
estava usando roupas casuais, enquanto o Zaimokuza estava parecendo um chef de ramen.
– A-A minha roupa também não está
boa? Yuigahama perguntou para ter
certeza. Yukinoshita pareceu pouco à
vontade.

– No caso de uma garota, seu código de vestuário não é ruim... mas se o seu acompanhante for
o Hikigaya-kun, você poderia se dar ao luxo de ser um pouco mais rigorosa.

22
Eu mexi no meu casaco estilo ‘Hiromi Go’ , para fazer com que minha presença fosse
notada, mas a Yukinoshita debochou.

– Suas roupas podem fazer com que você pareça inofensivo, mas os seus olhos dizem outra
coisa.

... Meus olhos eram assim tão potentes?

– Eu preferia não ter que passar pelo esforço de tentar novamente após ser rejeitada na porta
da primeira vez, então eu suponho que seja melhor você trocar sua roupa na minha casa,
Yuigahama-san.

– Uau, você vai deixar eu ir na sua casa!? Eu quero ir, eu quero ir!

Yuigahama se conteve.

– Oh, mas eu não vou causar incômodo a essa hora?

– Não há nada com o que se preocupar. Eu moro sozinha, entende.

– Você é uma mulher capaz!?

Yuigahama piscou, exageradamente surpresa.


Eu me pergunto quais são as suposições dela. Será que ela pensa que qualquer um que
viva sozinho é uma mulher capaz? No entanto, no caso da Yukinoshita, eu tinha que
concordar. Ela cozinhava insanamente bem e (mais importante) eu não conseguia
imaginar ela vivendo com outras pessoas.

– Então vamos indo, podemos? É logo ali.


Yukinoshita olhou para o céu atrás dela.

Toda a área era preenchida por edifícios arranha-céus conhecidos por serem particularmente
caros. Eu realmente não assistia muita televisão, então eu realmente não sabia muito, mas eu
reconhecia essa área de alguns doramas e de alguns comerciais que eu via ocasionalmente.
(Informação aleatória: A estação Kaihin-Makuhari é frequentemente usada como cenário em
tokusatsus.)

Yukinoshita estava olhando para uma luz alaranjada vinda de um arranha-céu


extremamente alto. Curiosamente, parecia que a Yukinoshita morava em um dos andares
superiores. Uau. Uau. Então era assim que a burguesia vivia... de algum modo, eu duvidava
que nem mesmo esse tipo de pessoa fosse deixar que uma garota do Ensino Médio vivesse
sozinha.

– Totsuka-kun, Ela
disse.

– Desculpe-me manda-lo embora mesmo depois que você tenha vindo até aqui...

– Não, está tudo bem. Eu me diverti muito vendo todo mundo sem seus uniformes.
Totsuka disse com um sorriso.

A sua fofura pura quase me fez querer ir para casa agora mesmo. Eu não queria vê-lo ir

embora.
– Tudo bem, então enquanto a Yuigahama se troca, nós vamos jantar. Entre em
contato comigo apropriadamente quando vocês terminarem.

– Tudo bem, com certeza!

Assim que as duas garotas se afastaram de nós, os três garotos que restaram ficaram em
silêncio, ouvindo o ruído de nossos estômagos.

– Então, o que nós vamos comer?

Zaimokuza perguntou enquanto coçava a barriga.


Totsuka e eu trocamos um olhar.

– Ramen.

– Ramen.

Nós dissemos em uníssono.


4 – 10

Eu me separei do Totsuka e do Zaimokuza em frente a bilheteria da estação. Na loja


de ramen, o Zaimokuza foi confundido com o chef pelos outros clientes, então eles ficaram
tentando fazer pedidos para ele. Ainda assim, eu pude comer um ramen muito saboroso e os
outros dois também pareceram ter ficado satisfeitos.

Quando eu deixei a estação, eu encarei o Royal Hotel Okura. Dessa vez, eu ia encontrar com a
Yukinoshita e com a Yuigahama ali, apenas com as duas. Quando eu parei na frente do hotel pela
segunda vez, eu fiquei um pouco impressionado com o quão grande era aquele lugar. Até mesmo
a luz fraca que estava sendo emitida pelo edifício parecia ser de outro mundo. Aquele era
claramente um prédio no qual um mero estudante do Ensino Médio supostamente não deveria
entrar.

Ainda assim, eu entrei, com meu coração batendo freneticamente dentro do meu peito.
Mesmo o chão sob meus pés parecia ser completamente diferente. Um tapete vermelho
estava estendido a minha frente. O que era isso, o Oscar?

Eu pude ver que todas as senhoras e os senhores presentes ali estava agindo de uma forma
casualmente esnobe. Eu vi estrangeiros aqui e ali. Isso me assustou. Isso era demais para a cidade
de Makuhari.

De acordo com a mensagem que eu recebi da Yuigahama, supostamente nós deveríamos nos
encontrar em frente aos elevadores do Hotel. Ao contrário dos elevadores com os quais eu estava
familiarizado, a porta daqueles estavam piscando com luzes. E a largura da porta também era
muito grande. Tipo, você poderia colocar um sofá dentro do elevador. Ele era maior do que a
minha própria sala de estar.

Além disso, o sofá também era muito bom de sentar— realmente macio. Oh, e também
haviam panelas e essas coisas. Assim que eu me sentei no sofá e bocejei, meu celular fez um
sinal sonoro.
“Nós acabamos de chegar, vc ainda tá aqui? ”

Ela disse que havia chegado, mas... eu olhei ao redor com incerteza.

– De-desculpe por fazê-lo esperar...

Uma bonita e cheirosa dama disse para mim.

Um vestido carmesim traçava uma linha sinuosa ao redor do decote dela, fazendo com que ela
parecesse uma sereia. Seu cabelo estava amarrado em um coque e enquanto olhava para mim,
ela engoliu em seco.

– Isso é totalmente como se, tipo, eu estivesse aqui para um recital de piano...

– Oh, é você, Yuigahama. Eu pensei que fosse alguma outra pessoa.

Eu finalmente percebi que aquela era a Yuigahama graças ao modo garota adolescente de
falar, mas eu provavelmente nunca teria notado se ela agisse com compostura.

– Você poderia ao menos dizer que está aqui para um casamento? Como esperado, eu
tenho sentimentos confusos quanto a dizer que este nível de roupa seria para um recital de
piano, no entanto...

Disse uma bonita garota, usando um vestido preto, que tinha acabado de aparecer.

O tecido do seu vestido exalava um ar puro, que complementava perfeitamente a beleza de


sua pele pálida como a neve virgem.

A parte inferior do seu vestido, que ia até abaixo dos seus joelhos, exibia suas pernas bem
torneadas. E o que era ainda mais fascinante era o seu fino e sedoso cabelo preto. Ele estava
amarrado em um único rabo de cavalo e caía sobre seu peito, parecendo um tipo de
ornamento.

Não haviam dúvidas sobre quem era ela. Essa era Yukinoshita Yukino.

– Ve-Veja, essa é a primeira vez que eu uso esse tipo de roupa.


Yuigahama insistiu.

– Tipo, uau, quem é você, Yukinon?

– Que exagero. Eu tenho essas roupas apenas para o caso de surgir alguma oportunidade.

– A maioria das pessoas jamais teria essas oportunidades.

Eu apontei.

23
– E de todo modo, onde eles vendem essas coisas? Shimamura ?

– Shimamura? Essa é a primeira vez que eu escuto falar dessa marca...

Ela respondeu inexpressiva.

24
Essa vadia nem mesmo é capaz de dizer a diferença entre Shimamura e Uniqlo .

– Bem então, deveríamos ir?

Yukinoshita pressionou o botão do elevador. A luz acendeu e com um barulho avisando que

ele havia chegado, a porta se abriu sem fazer ruídos.


Pelo elevador de vidro, eu podia ter uma vista impressionante da baía de Tóquio. O
cenário noturno de Makuhari estava pontilhado com luzes brilhantes: navios de cruzeiro,
carros correndo pelas ruas da cidade próxima a baía com seus faróis traseiros piscando,
edifícios arranha-céus.

Quando chegamos ao último andar, a porta se abriu mais uma vez.

Uma luz suave surgiu a nossa frente. Um lounge bar se estendia a nossa frente, obscurecido
por causa da fraca luz das velas.

– Ei... ei. Uau. Isso é...

Nós tínhamos claramente chegado a um lugar em que claramente não deveríamos estar. Em
um palco iluminado por lâmpadas embutidas, uma senhora de pele branca estava apresentando
um número de jazz ao piano. Ela provavelmente era Americana. Estrangeiros é o mesmo que
Americanos, afinal de contas.

Talvez eu devesse ir para casa afinal, eu pensei, fazendo contato visual com a Yuigahama.
Ela estava balançando a cabeça energeticamente, como se ela não fosse capaz de dizer sim
vezes o bastante.

Bastou apenas uma camponesa como a Yuigahama para fazer com que eu me sentisse
extremamente à vontade nesse lugar. Mas para a Yukinoshita, alguém da alta sociedade, isso
era inadmissível.

– Pare de agir estupidamente.

Usando seus saltos, ela pisou com força no meu pé.

– Ai!
Eu gritei sem pensar. O que eram aqueles saltos? Aquelas coisas podiam
perfurar. Eles eram como arraias enlouquecidas ou algo assim.

– Fique de pé e estufe o peito. Levante o queixo.

Yukinoshita falou ao meu ouvido enquanto ela sorrateiramente segurava meu cotovelo
direito. Seus finos e suaves dedos o agarraram com firmeza.

– Er, uh... Yukinoshita-san? Algum problema?

– Não perca a cabeça. Yuigahama-san, faça a mesma coisa.

– O-O que?

Com um olhar completamente perplexo no rosto, Yuigahama disse como a adulta


Yukinoshita ditou. Para encurtar a história, ela segurou meu cotovelo esquerdo.

– Então, vamos prosseguir.


Yukinoshita me disse.

Com isso, Yukinoshita, Yuigahama e eu começamos a caminhar lentamente e em sintonia.


Quando passamos pela pesada porta de madeira na entrada, fomos instantaneamente
abordados por um garçom e eu baixei minha cabeça.

– Quantas pessoas? Você fuma, senhor?

Eu não conseguia dizer nem mesmo uma palavra. Enquanto ele falava mais e mais, o
homem continuava andando a nossa frente, guiando-nos até o balcão do bar, que ficava em
frente a uma grande janela de vidro.
Lá, polindo cuidadosamente os copos, estava uma bartender. Ela estava de pé e tinha
uma postura perfeita. Sua expressão silenciosa e seus olhos sonolentos combinavam
perfeitamente com esse lugar pouco iluminado.

... Ei, essa não é a Kawasaki?

Ela passava uma impressão completamente diferente da que ela passava na escola. Seu
longo cabelo estava preso em um coque, ela estava usando uma roupa de garçom e seus
movimentos eram elegantes e refinados. Sua apatia havia desaparecido.

Sem perceber quem éramos, sem dizer nada, Kawasaki colocou porta-copos e refrescos
diante de nós, esperando em silêncio. Eu tinha certeza que ela iria colocar um cardápio diante
de nós e perguntar qual era o nosso pedido, mas é claro que as coisas não aconteceram desse
jeito.

– Kawasaki.

Eu disse a ela em voz baixa.

Kawasaki fez uma expressão um pouco preocupada.

– Eu sinto muitíssimo. Quem poderia ser você?

– Estou impressionada. Nem mesmo os próprios colegas de classe do Hikigawa-kun


lembram-se do rosto dele.

Yukinoshita disse com admiração enquanto sentava-se em um dos bancos.

– Bem, veja. Nossas roupas estão diferentes hoje, então não é culpa dele.
Yuigahama interveio enquanto também se sentava.
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Havia um assento disponível entre as duas. Se isso fosse Othelo , eu estaria perdido. Se

isso fosse Go... oh bem, não é como se eu conhecesse as regras desse jogo.

– Nós encontramos você, Kawasaki Saki-san.


Yukinoshita declarou.

A expressão no rosto da Kawasaki mudou.

– Yukinoshita...

A expressão no rosto dela era como a de alguém encontrando um inimigo familiar. Era
claramente antagônica.

Embora eu duvidasse que aquelas duas já tivessem interagido de alguma forma, a


Yukinoshita era um rosto bastante conhecido na nossa escola. Acredito que existiam pessoas
que não pensavam muito bem da Yukinoshita devido a sua aparência e a como sua
personalidade parecia ser.

– Boa noite.

Estivesse ciente ou não dos sentimentos da Kawasaki, Yukinoshita proferiu aquele


cumprimento de forma fria.

As duas trocaram olhares. Elas eram diferentes como a noite e o dia. Eu tive a sensação de
que faíscas estavam saindo entre as duas. Assustador.

Os olhos da Kawasaki se estreitaram um pouco enquanto ela servia uma bebida para a
Yuigahama. Estar com a Yukinoshita, alguém de sua própria escola, significava que ela podia
ver através das aparências transparentes dos outros.
– Yo, sup...?

Yuigahama disse sem jeito, como se estivesse sucumbindo à pressão.

– Yuigahama... eu não a reconheci por um instante. Então esse cara também é uma pessoa
da Soubu High?

– Uh, sim.

Disse Yuigahama.

– Ele é o Hikki da nossa classe. Hikigaya Hachiman.

Quando eu balancei a cabeça, confirmando, Kawasaki suspirou e sorriu resignadamente.

– Entendo. Então vocês me pegaram.

Ela encolheu os ombros, como se não tivesse particularmente nada a esconder. Cruzando os
braços, ela recostou-se na parede. Essa ação indicava que ter seu disfarce descoberto talvez a
incomodasse mais do que ela deixava transparecer. Ela exalava uma atmosfera apática, assim
como fazia na escola, e depois de deixar escapar um suspiro cansado, ela olhou para nós.

– ... Vocês querem uma bebida?

– Eu vou querer um Perrier.

Yukinoshita disse em resposta. Eu nem mesmo tinha ideia do que era um Perrier.

– E-Eu vou querer a mesma coisa!


Isso era o que eu estava planejando dizer, mas a Yuigahama furou a fila.

Eu gemi, fumegando. Sério, o que supostamente eu deveria dizer? Dom Pérignon ou


Donpen ou algo assim? (A propósito, Donpen é o mascote de um sujo clube barato. Se você
pedir por ele, provavelmente ele não iria sair.)

– Hikigaya, não era? E quanto a você?

Aquela Perri-alguma coisa de antes, era uma bebida e também um Comodoro, hum... Eu
não tinha nenhuma obrigação particular de dizer alguma coisa do tipo Townsend Harris ou
26
Ernest Mason Satow . Ainda assim, por hora, eu vou pedir uma bebida com o nome de uma
pessoa no nome...

– Eu vou querer um MAX Ca—

– Ele vai querer uma ginger ale seca.


Yukinoshita me interrompeu no meio da frase.

Com um sorriso irônico e um ‘Entendido’, Kawasaki preparou três taças de champanhe e

serviu cada uma das bebidas com facilidade evidente antes de colocá-las sobre os porta-copos.
De algum modo, sem que nenhuma palavra fosse dita, nós acabamos levando os copos a boca
ao mesmo tempo.

Então, depois de uma pausa, Yukinoshita disse, como se lembrasse de alguma coisa.

– Eu não acredito que eles sirvam MAX Café aqui.

– Sério!? Mas estamos em Chiba.


Uma Chiba sem MAX Café não era mais Chiba, tudo bem? Havia MAX Café até
mesmo nas montanhas, assim como na Prefeitura de Yamanashi.

– ... Bem, nós servimos isso.

Kawasaki murmurou preguiçosamente, fazendo com que Yukinoshita olhasse para ela de
forma brusca. Então, um, de todo modo, por que mesmo essas duas não se dão bem?
Assustador.

– Então o que vocês vieram fazer aqui? Não me digam que vocês estão em um encontro
com essa coisa?

– Deus, não. Se você está falando sobre essa coisa ao meu lado, você tem um péssimo
gosto para humor.

– Um... essa é uma discussão entre vocês duas, então poderiam parar de ficar me
insultando aleatoriamente?

Eu realmente não estava impressionado por estar sendo chamado de coisa. A conversa
entre aquelas duas parecia não estar dando em nada, então eu decidi me intrometer.

– Eu escutei que você tem chegado tarde em casa ultimamente. Isso é por causa desse seu
emprego de meio período? Seu irmão mais novo está preocupado com você.

Com isso, Kawasaki sorriu com um olhar levemente de escárnio, embora isso estivesse
escondido atrás de sua irritação.

– Você veio até aqui apenas para dizer isso? Bom trabalho. Você acha, você realmente acha
que eu iria parar de trabalhar apenas porque algum cara que eu não conheço ou com quem eu
não me importo disse isso para mim?

– Incrível. Nem mesmo os colegas de classe do Hikki conhecem ou se importam com ele...
Yuigahama escolheu um momento estranho para mostrar sua admiração.

Ainda assim, eu também não sabia nada sobre a Kawasaki, portanto estávamos na mesma

situação.

Kawasaki subitamente voltou a falar.

– Oooooh, então vocês eram a razão pela qual eu comecei a pensar que as coisas estavam
ficando mais irritantes que de costume. O Taishi falou alguma coisa para vocês? Eu não sei o que ele
tentou enrolar vocês, mas eu vou ter uma conversa com ele, então não se preocupem.

Ela fez uma pausa.

– Entendam, o Taishi não tem nada a ver com isso.

Kawasaki estava me encarando abertamente. Ela praticamente estava dizendo para que
não nos intrometêssemos nos negócios dela. No entanto, a Yukinoshita não era do tipo de
recuar após encontrar adversidades.

– Essa é a razão pela qual você deveria parar.

Yukinoshita desviou o olhar de Kawasaki para o relógio de pulso em seu braço esquerdo,
checando a hora.

– Dez e quarente... Se você fosse a Cinderela, teria apenas mais uma hora antes que a
magia desaparecesse.

– Se minha magia acabar, o que me espera é um final feliz, não acha?


– Eu me pergunto quanto a isso, Pequena Sereia. Acredito que o que te espere seja
um final ruim.

A natureza da conversa delas desencorajava qualquer um que pensasse em intervir,


combinando-se perfeitamente com a atmosfera daquele bar.

Repetir comentários sarcásticos e maldosos era um passatempo da elite. Mas sério, por que
essas duas não se dão bem? Essa não era a primeira vez que elas falavam uma com a outra?
Assustador.

Alguém começou a bater incessantemente no meu ombro e falou perto da minha orelha,
distraindo-me dos meus pensamentos.

– ... Ei, Hikki. Do que essas duas estão falando?

Oh, Yuigahama. Eu realmente posso me sentir à vontade com uma camponesa como você
por perto.

A Lei das Normas Trabalhistas proíbe que menores de idade trabalhem após as dez da
noite. Para estar trabalhando até a essa hora, a Kawasaki estava fazendo uso de uma magia
conhecida como identidade falsa. E essa magia não iria escapar de um comentário da
Yukinoshita.

Mesmo assim, a Kawasaki parecia estar impassível como sempre.

– Então você não está nem um pouco inclinada a sair?


Yukinoshita a pressionou.

– Hum? Não.

Kawasaki disse despreocupadamente, enquanto limpava uma garrafa de sake com um


pano. Então ela fez uma pausa.
– Bem, mesmo se eu decidisse sair daqui eu sempre poderia conseguir um
emprego em algum outro lugar.

Yukinoshita segurou seu Perry (... ou era um Harris?) agitadamente, como se ela estivesse
ligeiramente irritada com a atitude da Kawasaki.

Em meio a esta atmosfera hostil e inquietante, Yuigahama nervosamente abriu a boca.

– Um, sabe... Kawasaki-san, por que você tem que trabalhar aqui? Quero dizer, eu também
faço trabalhos de meio período quando preciso de dinheiro, mas não é como se eu mentisse
sobre minha idade para poder trabalhar a noite...

– Nenhuma razão... eu apenas preciso do dinheiro.

A garrafa de sake fez um pequeno som de raspagem quando Kawasaki a colocou sobre a
mesa.

Bem, eu acho que é assim que as coisas são, eu pensei. Dinheiro quase sempre era a
principal razão para trabalhar. Haviam pessoas que faziam isso porque todo mundo estava
fazendo ou porque não podiam viver sem fazer isso, mas eu nunca consegui entender esse
último tipo.

– Oh, sim, eu entendo o que você quer dizer.


Eu comentei, indiferente.

A expressão no rosto da Kawasaki endureceu instantaneamente.

– Não, você não entende... ninguém que escreveria uma opção de carreira tão idiota como
aquela iria conseguir entender.

– Ela não era tão idiota...


– Hum, se aquilo não era idiota, eu não sei o que seria. Você seriamente subestima
a raça humana.

Kawasaki bateu o pano, com o qual ela estava limpando a garrafa de sake, no balcão,
fazendo-o balançar.

– Você... não, não só você— a Yukinoshita e a Yuigahama também não entendem. Não é
como se eu estivesse trabalhando porque quero dinheiro para me divertir por aí. Não me
coloque no mesmo grupo desse idiota aí.

Kawasaki olhou para mim com ferro em seus olhos. Não fiquem no meu caminho, era o que
aqueles olhos pareciam estar dizendo. No entanto, ela estava chorando por dentro.

E mesmo assim, aquilo realmente era um sinal de sua força após tudo ter sido dito e feito. Eu
não estava preparado para pensar que aquelas palavras aquecidas significavam o quão
incompreendida ela era e que, na verdade, ela secretamente queria que as pessoas gostassem
dela.

Veja a Yukinoshita, por exemplo. Ela era incompreendida por todos e ela nunca chorava ou
desistia. Mas isso era porque ela estava convencida de sua própria força de vontade.

Ou veja a Yuigahama. Quando ela estava tentando entender alguém, ela nunca desistia ou
fugia. Não importava que coisas surgissem em seu caminho, ela continuava a tentar fazer
contato com a pessoa, rezando para que algo mudasse.

– Sim, mas nada vai mudar se você não falar conosco, sabia? Pode até mesmo, tipo, deixar
você mais forte... apenas conversar pode levantar seu espírito, então sim...

Yuigahama parou no meio de sua sentença. O olhar gélido da Kawasaki a silenciou antes
que ela pudesse dizer qualquer outra palavra.
– Como eu disse, vocês definitivamente não entendem. Me deixar mais forte?
Levantar meu espírito? Tudo bem então. Você pode conseguir o dinheiro por mim?
Vocês podem arcar com as despesas com as quais meus pais são incapazes de lidar?

Jesus! A Kawasaki me assustou para valer. As palavras dela fizeram a Yuigahama baixar a
cabeça, envergonhada.

– I-Isso é...

Ela pronunciou com dificuldade.

– Isso é o bastante.

Yukinoshita disse com um tom frígido.

– Se você disser mais alguma coisa...

Ela foi ainda mais imponente para cortar Yuigahama no meio da frase. Todo o meu corpo
estava arrepiado de medo.

Assim como eu, a Kawasaki estremeceu por um momento, mas ela deu as costas para a

Yukinoshita com um pequeno ‘tsk’.

– Ei, o seu pai não é um membro do regimento da Prefeitura? Não tem como uma esnobe
da alta sociedade como você ser capaz de me entender...

Ela disse com uma voz baixa, quase sussurrante. Havia um tom de derrotismo em sua voz.
Assim que Kawasaki pronunciou essas palavras, houve um barulho agudo quando um copo

caiu no chão.
Quando eu olhei para o lado, uma poça de Perrier estava se formando no local em
que a taça de champanhe havia tombado.

Yukinoshita estava mordendo o lábio, com seu olhar voltado para baixo. Eu jamais teria
imaginado ver a Yukinoshita daquele jeito. Incapaz de organizar meus pensamentos, eu olhei
para a Yukinoshita, que estava em choque.

– ... Yukinoshita?

Ela começou a falar.

– Hum? O-oh, eu peço desculpas.

Yukinoshita disse com a sua habitual— não, com uma frígida falta de expressão ainda maior
do que o habitual enquanto ela calmamente limpava o balcão com um lenço umedecido.

Acredito que para a Yukinoshita, aquela reação vergonhosa fosse algo bastante incomum.
Pensando nisso, aquela não era a primeira vez que eu a via fazer aquela expressão.
Exatamente quando eu estava prestes a me lembrar onde eu tinha visto aquilo antes, eu
escutei o som de alguém batendo no balcão.

– Espere aí! A família da Yukinon não tem nada a ver com isso!

Yuigahama falou com um tom incomumente rude enquanto olhava para a Kawasaki. Isso
não era uma piada ou uma tentativa de ser dar bem com alguém— a Yuigahama estava
irritada. Então ela também podia fazer uma cara feia quando estava irritada...

Fosse devido ao fato dela ter sido pega de surpresa pelo contraste entre a habitual risada
frívola da Yuigahama e aquilo ou porque ela mesma estava ciente de que havia dito algo
ofensivo, Kawasaki baixou um pouco o seu tom de voz.
– ... Nesse caso, minha família também não tem nada a ver com
isso. E essa foi o fim de tudo.

Yuigahama e eu— e é claro, a Yukinoshita— não tínhamos nada a ver com ela. Se, digamos,
as ações da Kawasaki estivessem temporariamente fora da lei, seus pais e professores seriam os
únicos responsabilizados por isso e ela acabaria por ser julgada pela lei. Não havia
absolutamente nada que nós— que não éramos seus amigos e nem nada para ela—
pudéssemos fazer por ela. – Você pode ter um argumento, mas esse não é o problema aqui! A
Yukinon é—

– Yuigahama-san. Por favor acalme-se. Eu apenas derrubei o meu copo. Isso não tem nada a
ver com você, então não se preocupe.

Yukinoshita gentilmente conteve a Yuigahama, cujo corpo inteiro já estava praticamente


sobre o balcão. Ela manteve sua voz mais fria do que de costume e isso soou bastante frígido,
de fato.

Embora ainda estivéssemos no começo do Verão, a atmosfera estava muito fria e


sufocante. Foi assim que as coisas pareceram ter ocorrido hoje. Yukinoshita, Yuigahama e
também a Kawasaki falaram calmamente e isso acabou ficando assim.

Haviam apenas algumas coisas que eu entendia. Tudo o que restava era fazer algo para
corrigir a situação atual.

– Vamos logo para casa. Honestamente, eu mal posso manter meus olhos abertos neste
lugar. Assim que eu terminar de beber isso, eu vou embora.

Pensando nisso, a Cinderella ainda tinha mais trinta minutos sobrando.

– Você...
Yukinoshita suspirou de desgosto e estava prestes a dizer algo para mim
quando a Yuigahama a deteve.

– Vamos, vamos, Yukinon, deveríamos ir para casa agora?

Quando Yuigahama e eu trocamos olhares, Yuigahama assentiu levemente. Parece que ela
também havia notado que a Yukinoshita estava agindo de uma maneira diferente do seu
comum.

– ... Muito bem, então estamos de saída.

Milagrosamente, a Yukinoshita seguiu minha ordem, como se ela mesmo tivesse notado que
estava agindo de forma estranha. Enquanto ela calmamente colocava várias notas sobre o
balcão, sem nem mesmo checar a conta, ela se levantou. Yuigahama também se levantou do
seu assento, seguindo a Yukinoshita.

Eu a chamei de volta.

– Yuigahama, eu vou te mandar uma mensagem mais tarde.

– ... Hum? Oh, uh. Certo, um, tudo bem.

Por causa da iluminação direta, eu pude ver que o rosto da Yuigahama estava vermelho
brilhante e que suas mãos estavam inquietas na frente do seu peito. Essa era uma ação muito
estranha para este tipo de lugar, então eu desejei que ela parasse com aquilo.

– Eu vou esperar por isso, então.

Depois que eu vi as duas saírem, eu peguei meu copo e me virei para a Kawasaki. Assim que
eu havia matado um pouco da minha sede, eu comecei a falar.

– Kawasaki. Me dê um pouco do seu tempo amanhã de manhã. Eu estarei no McDonalds as


cinco e meia. Entendido?

– Hum? Por que?


A atitude da Kawasaki estava ainda mais fria que antes.

Mesmo assim, eu tinha a confiança de que as minhas próximas palavras iriam


mudar a perspectiva dela.

– Eu quero falar um pouco com você sobre o Taishi.

– ... O que?

Kawasaki olhou para mim com suspeita— não, era mais como hostilidade. Para evitar
aqueles olhos, eu tomei o resto da minha bebida em um gole só e me levantei.

– Nós vamos falar sobre isso amanhã. Até mais.

– Espere!

Ela gritou para mim.

Ignorando-a, eu deixei o lugar de forma arrogante, de uma forma que combinasse com a
vibração sinistra daquele lugar.

– Espere! Isso não é dinheiro o bastante!

... Droga, Yukinoshita. Ela não tinha pago a minha parte. Silenciosamente, eu voltei até o
balcão e ofereci uma nota de mil ienes, por cortesia.

Quando eu fiz isso, recebi sessenta ienes de troco. Eu tinha a sensação de que eu não
deveria perguntar a ela o porquê disso.

Uma simples dose de ginger ale custa quase mil ienes. Isso era um roubo em plena luz do

dia...
4 – 11
Avançando para a manhã seguinte. Ou assim escrevo, mas em vez de estar dormindo,
eu estava no McDonalds as cinco da manhã, cochilando e bebendo minha segunda
xícara de café. O céu já estava claro e os pardais estavam ocupados bicando o chão antes de
voltarem a voar.

Depois do incidente no Royal Hotel Okura, todos nós tomamos caminhos separados. Assim
que eu fui para casa, eu implorei para que a Komachi fizesse algo para mim e saí para matar
algum tempo. Eu provavelmente ficaria melhor dormindo, mas eu não tinha confiança de que
conseguiria acordar as cinco horas.

Essa era a única razão pela qual eu fiquei acordado dessa maneira.

– Então você veio...

A porta automática fez um som enquanto abria e Kawasaki Saki apareceu, arrastando os pés
com indiferença.

– O que você quer?

Ela perguntou, muito mais irritada que de costume, provavelmente porque ela não havia
dormido muito.

Ela estava tão irritada que o pensamento de me prostrar no chão diante dela passou pela
minha mente por um breve momento, mas eu afastei esse pensamento e tentei agir da forma
mais casual que eu conseguia.

– Bem, aclame-se.

Eu me atrapalhei com as palavras com uma excepcional delicadeza.

– Quero dizer, acalme-se.

Tudo bem, então agir casualmente foi uma grande falha. Mas isso era porque a Kawasaki
me assustava mais do que o inferno.

Aquele pequeno erro foi o bastante para fazer com que eu me soltasse e, a partir desse
ponto, minhas palavras começaram a sair sem problemas.
– Todos logo estarão aqui. Então apenas espere um pouco mais.

– Todos?

Enquanto uma confusa Kawasaki olhava para mim, a porta automática voltou a se abrir,
sinalizando a chegada da Yukinoshita e da Yuigahama.

Logo depois que eu me separei das duas, eu enviei uma pequena mensagem para a
Yuigahama. Eu a instruí para que passasse a noite na casa da Yukinoshita, avisasse seus pais e
viesse ao McDonalds com a Yukinoshita as cinco da manhã. Isso foi tudo— eu escrevi esses
pequenos três pontos para passar uma simples e pragmática mensagem.

– Vocês outra vez?

Kawasaki suspirou profundamente, irritada.

No entanto, ela não era o único indivíduo irritado naquele lugar.

Com um olhar mal-humorado no rosto, Yuigahama se recusou a olhar na minha direção.

– O que, ela não dormiu o bastante?

Eu tentei perguntar para a Yukinoshita, mas ela também deu de ombros.

– Quem sabe? Eu acho que ela dormiu bem... isso me lembra, depois que ela viu sua
mensagem de texto, o humor dela pareceu piorar consideravelmente. Você por acaso
escreveu algo indecente?

– Você poderia, tipo, parar de me tratar como um criminoso sexual? E de todo modo, eu não
sei como é que uma mensagem de texto com instruções simples poderia tê-la deixado tão
irritada.

Enquanto Yukinoshita e eu olhávamos um para o outro, a Komachi subitamente se

intrometeu.

– Sim, esse é o meu Onii-chan para vocês! Ele não tem o menor senso de delicadeza.

– Oi, Komachi. Você poderia parar de aparecer do nada apenas para abusar de mim?
– Onii-chan, normalmente as pessoas enviam instruções em suas mensagens de
texto quando elas estão em uma relação de trabalho. Quando você envia
instruções em suas mensagens, você realmente tem que acrescentar algo para
amaciar a conversa.

– Você também foi chamada aqui, Imouto-san?

Yukinoshita perguntou um pouco surpresa.

– Sim, eu tinha uma missão a cumprir. Eu trouxe ele até aqui, sabia?
Komachi disse enquanto apontava para o Taishi. Ele grunhiu em resposta.

– Taishi... o que é que você está fazendo aqui a essa hora?

Kawasaki olhou para o Taishi com uma mistura de preocupação e irritação preenchendo

seu rosto.

Porém, o Taishi manteve-se impassível.

– Eu que deveria estar perguntando isso, nee-chan. O que é que você estava fazendo até
essa hora da manhã?

– Isso não é da sua conta...

Kawasaki severamente cortou a conversa ali.

No entanto, embora sua lógica pudesse funcionar com os outros, ela não tinha efeito sobre o
Taishi, que era parte de sua família. Até agora, a Kawasaki e o Taishi haviam conversado
apenas um com o outro e era por essa razão que a Kawasaki sempre conseguia dar um jeito
de fugir do assunto. Ela poderia arbitrariamente cortar a conversa e ir embora. Ela poderia
fazer tudo o que ela quisesse.

Mas agora, ela não poderia fazer isso. Nós havíamos a cercado, impedindo que ela saísse
correndo— e mais do que isso, era manhã, então nós pudemos prendê-la em um lugar real,
fora do seu ambiente de trabalho.

– Isso é da minha conta.


Taishi insistiu.

– Eu sou sua família...


– ... Eu te disse que você não precisa saber.

Kawasaki respondeu com sua voz enfraquecendo. Mas mesmo assim, ela
permaneceu sem falar.

A razão pela qual ela estava dando as costas, era porque ela não achava que poderia falar
com o Taishi sobre esse assunto, eu suponho.

– Kawasaki, permita-me adivinhar porque você está trabalhando e porque você precisa de
dinheiro.

Eu disse, fazendo com que Kawasaki olhasse para mim. Yukinoshita e Yuigahama também
se viraram para mim com grande interesse.

Qual era a razão pela qual a Kawasaki havia começado a trabalhar em meio período,
claramente ela era a única que poderia saber. Mas se você pensasse com cuidado, isso por si
só já era uma pista.

Kawasaki Saki tornou-se uma delinquente em seu Segundo Ano do Ensino Médio, de acordo
com o Kawasaki Taishi. Isso certamente seria a partir do ponto de vista do Kawasaki Taishi. Mas
você não poderia dizer o mesmo se olhasse da perspectiva da Kawasaki Saki.

Do ponto de vista da Kawasaki Saki, ela começou a trabalhar em meio período quando o
Kawasaki Taishi começou o Terceiro Ano do Fundamental. Nesse caso, a razão dela tinha
relação com esse período de tempo.

– Taishi, alguma coisa mudou quando você foi para o Terceiro Ano?

– Er, uh... isso não foi na época em que eu comecei a frequentar o Cursinho?

Taishi balançou a cabeça, como se estivesse à procura de várias outras memórias, mas essa
era reveladora o bastante. Como se ela tivesse adivinhado o que eu estava prestes a dizer a
seguir, Kawasaki mordeu o lábio, frustrada.

– Entendi, era para pagar as mensalidades dos estudos do seu irm— Yuigahama entrou na
conversa, mas eu a interrompi.
– Não. As mensalidades em si já estavam pagas na época em que o Taishi começou a
frequentar o Cursinho, em Abril. As taxas de matrícula e o material didático também já
haviam sido pagos nessa época. Isso quer dizer que a família da Kawasaki já havia levado
essas despesas em consideração com antecedência. Por outro lado, é o tipo de situação em
que você poderia dizer que as mensalidades do Taishi já eram um assunto resolvido.

– Eu entendo onde você quer chegar.

Yukinoshita direcionou seu olhar para a Kawasaki com uma completa compreensão e uma
quantidade mínima de simpatia em seus olhos.

– De fato, isso não é sobre o irmão mais novo, cujas mensalidades já haviam sido levadas
em conta.

Verdade, nossa escola, a Soubu High, era dedicada a preparar seus estudantes para a
Universidade. A maioria dos estudantes almejava seguir para a universidade e a maior parte
deles realmente seguia. Como resultado, muitas pessoas ficavam obcecadas pelos Exames de
Admissão já a partir do Segundo Ano do Ensino Médio e muitas pessoas também pensavam
seriamente em frequentar Cursinhos de Verão.E quando você está tentando entrar na
Universidade, você precisa de dinheiro para cada

passo que der em seu caminho.

– É como o Taishi disse. A nee-chan dele costumava ser uma garota certinha e tudo mais.
Basicamente, ela continua sendo desse jeito.

Eu declarei, concluindo.

Kawasaki baixou os ombros com indiferença.

– Nee-chan... eu estou indo para o Cursinho, então...

– ... É por isso que eu disse que você não precisava saber,

Kawasaki bateu levemente na cabeça do irmão.

Aww, isso parecia uma resolução comovente para todo aquele drama. Quero dizer, bom
para eles. E todos viveram felizes para sempre. Ou assim eu pensei, mas então a Kawasaki
apertou os lábios com força.
– Mesmo depois de tudo isso, eu não posso sair do meu emprego. Eu pretendo ir
para a universidade. Eu não quero que isso cause problemas para você ou para os
nossos pais, Taishi.

O tom da Kawasaki era afiado.

Ela estava claramente mantendo a decisão para si mesma e sua vontade de ferro mais uma
vez fez com que o Taishi ficasse em silêncio.

– Um, eu posso dizer uma coisa?

Uma voz cuidadosa rompeu o silêncio.

Era a Komachi. Kawasaki se virou para ela com irritação.

– O que?

Ela perguntou com um tom meio seco e meio agressivo.

Mas a Komachi respondeu a irritação dela com um sorriso.

– Tudo bem, então. Ambos os nossos pais têm estado trabalhando há anos, e então,
quando eu era pequena eu ia para casa e não havia ninguém lá. Toda vez que eu anunciava
que tinha chegado, ninguém nunca me cumprimentava.

– Um, se alguém te cumprimentasse quando não tinha ninguém em casa seria assustador.
Eu apontei.

– O que há com essa narrativa assim de repente?

– Oh, certo. Onii-chan, cale o seu bico por um momento.

Ela absolutamente me calou. Encolhendo meus ombros em resignação, eu segurei a minha


língua e voltei meus ouvidos para o que a Komachi estava dizendo.

– Então, eu fiquei cansada de sempre voltar para uma casa vazia e fugi de casa por cinco
dias. Durante esse tempo, não foram meus pais que vieram me procurar, foi o Onii-chan.

Então, a partir desse dia, meu Onii-chan passou a chegar em casa antes de mim. Então eu sou
grata ao Onii-chan por isso.
O melhor irmão do mundo— sim, assim está bem para mim. Essa história comovente
(da qual eu não me lembro) foi o bastante para trazer lágrimas aos meus olhos, apesar
de ser sobre eu mesmo. Naqueles dias, eu não tinha nenhuma intenção de tomar conta
da Komachi. Eu ia cedo para casa apenas porque eu não tinha nenhum amigo com quem
brincar e porque eu queria ver os animes das seis horas na TV Tokyo.

Kawasaki virou-se para mim com algo que parecia um novo respeito em seus olhos,
enquanto os olhos da Yuigahama estavam marejados. A Yukinoshita era a única que
meramente coçava a cabeça.

– A razão pela qual o Hikigaya-kun ia cedo para casa era porque ele nunca teve amigos
desde aquela época, acredito eu?

27
– Ei, como você pode saber disso? O que, você é a Yukipédia ou algo parecido?

– Bem, sim, eu estou bem ciente disso.

Komachi admitiu calmamente.

– Mas eu pensei que dizer isso faria meus pontos Komachi aumentarem.
Esse comentário fez com que Yuigahama falasse.

– Você é realmente a irmã do Hikki.

Foi o que ela disse, cansada.

– Ei, o que você está insinuando...?

Ela estava dizendo que eu também era fofo? Então eu teria que concordar.

– Então, onde é que você está querendo chegar?


Kawasaki perguntou com irritação.

Honestamente, eu estava praticamente molhando minha calça, mas a Komachi olhava


diretamente nos olhos da Kawasaki com seu habitual sorriso alegre, completamente
implacável.
– Mesmo que o meu Onii-chan seja tão inútil, ele definitivamente não faria nada
que pudesse me preocupar— é aí que eu estou querendo chegar. Mesmo as pequenas
coisas que ele faz me ajudam e isso me deixa muito feliz.

Ela sorriu.

– Oh, isso jogou meus pontos Komachi lá para cima.

– Não diga coisas desnecessárias no fim.

– Sem chance, é óbvio que você está apenas escondendo seu constrangimento. Oh, isso
também aumenta meus pontos Komachi.

– Já chega.

Poxa, já que eu estava relacionado a alguém que dizia essas coisas estúpidas e descuidadas,
não era de me admirar que eu não acreditasse em nenhuma palavra pronunciada por essas
criaturas conhecidas como mulheres. Quando eu a tratei como o incômodo que ela era, a
Komachi fez beicinho como resposta. Quando eu me recusei a concordar com ela, ela desistiu e
continuou sua conversa com a Kawasaki.

– Então, basicamente, do mesmo modo que você não quer ser um incômodo para a sua
família, Saki-san, o Taishi-kun também não quer causar problemas para você, sabia? Eu ficaria
feliz como uma irmã mais nova se você pudesse entender ao menos esse pequeno ponto.

Sem resposta.

Kawasaki estava completamente em silêncio. E naquele momento, eu também estava.

... Merda, eu não tinha ideia do que fazer com aqueles sentimentos que eu tinha. Eu mal
podia acreditar que a Komachi pensava essas coisas sobre mim. Eu nunca tinha percebido isso,
uma vez que ela nunca havia sido problemática durante todo esse tempo.

– ... Bem, alguma coisa assim, eu acho.

Taishi acrescentou sem convicção. Ele se virou e seu rosto estava vermelho.

Kawasaki se levantou e acariciou gentilmente a cabeça do Taishi. Em vez de sua expressão


normalmente dura, ela sorriu de forma muito gentil.
Mesmo assim, o problema ainda não havia sido resolvido. A única coisa que havia
acontecido foi que a Kawasaki e o Taishi tinham aprendido a se comunicar novamente.
Estar emocionalmente satisfeito não significa que as coisas estejam bem. Isso não iria
fazer com que todos os problemas desaparecessem ou se tornassem insignificantes. No fim,
posses físicas e dinheiro eram absolutamente indispensáveis.

Dinheiro era um grande problema para estudantes do Ensino Médio. O dinheiro que você
recebe em algum trabalho parcial meia-boca não é nada se comparado a escala do mundo real.
Era deprimente ter que calcular o número de horas que você teria que trabalhar para obter os
milhões de ienes necessários para cobrir as mensalidades de uma Universidade particular.

Ceder um ou dois milhões de ienes iria fazer com que parecêssemos ótimos e tudo, mas
nós não tínhamos essa quantia e isso ia contra os princípios do Clube de Serviços, de todo
modo. Isso foi o que a Yukinoshita disse daquela vez. Dê um peixe ao homem e você irá
alimentá-lo por um dia. Ensine-o a pescar e você estará alimentando-o por toda a vida.

Com isso em mente, eu ensinei a ela uma das táticas do meu esquema para ficar rico
rápido.

– Kawasaki, você sabe o que é uma bolsa de estudos?


4 – 12

As cinco e meia da manhã, o ar ainda estava desagradavelmente frio. Sufocando um


bocejo, eu assistia as silhuetas de duas pessoas se afastando ao longe.

A distância entre eles nunca aumentava ou diminuía. Toda vez que um deles passava a
frente do outro, a pessoa a frente reduzia o passo, esperando até que o outro a alcançasse.
Além disso, seus ombros balançavam de vez em quando, acompanhando o som animado de
suas gargalhadas.

Yukinoshita estava parada em meio a névoa da manhã.

– Isso é o que significa ser irmãos, eu me pergunto...?


Ela deixou escapar um suspiro.

– Pode ser. Depende muito de quem está envolvido. Você também poderia dizer que eles
são estranhos próximos.

Na verdade, haviam momentos em que eu ficava tão irritado com minha irmãzinha que eu
pensava em bater nela. Nesses momentos, eu podia sentir que não estava agindo como eu
mesmo. E mesmo assim, em momentos inadvertidos como esses, sentimentos como amor e
afeição também surgiam em mim. Ser incapaz de expressar esses sentimentos de forma clara e
sempre erguer uma parede entre vocês é o que realmente significa ser irmãos.

É por isso que chamá-los de estranhos próximos era estranho e ao mesmo tempo
apropriado. Eles eram as pessoas mais próximas a você e mesmo assim, eram estranhos. Ao
mesmo tempo, eles eram estranhos e, mesmo assim, eram as pessoas mais próximas de você.

– Um estranho próximo a você... entendo. Eu entendo isso muito bem.

Yukinoshita assentiu, mantendo seu rosto abaixado.

– Yukinon?

Yuigahama olhou timidamente para o rosto de Yukinoshita, intrigada devido a aparência

dela.
Com isso, Yukinoshita levantou a cabeça e deu um sorriso para Yuigahama.

– Agora então, nós também devemos ir. Em três horas, estará na hora de ir para a escola.

– Tu-tudo bem...

Yuigahama estava incerta em aceitar a atitude da Yukinoshita devido ao modo como ela
parecia estar, mas ela assentiu e ajustou a bolsa em seu ombro mesmo assim.

Eu também retirei a trava da minha bicicleta.

– Sim. Komachi, acorde.

A Komachi estava sentada no meio fio em frente ao McDonalds, cochilando. Eu cutuquei


levemente a bochecha dela, fazendo-a murmurar algo incompreensível e abrir seus olhos
sonolentos. Ela se levantou e arrastou os pés como se fosse um zumbi se jogando na parte
traseira da minha bicicleta.

Em um dia normal, ela ainda estaria dormindo. Isso não era nada para ela. Hoje eu teria
que pedalar bem devagar pela estrada. Eu sentei na minha bicicleta e pus os pés nos pedais.

– Eu estou indo para casa, então. Bom trabalho, todo mundo.

– Sim, vejo você amanhã. Não, espere. Vejo você hoje na escola.
Yuigahama acenou levemente, com sua mão próxima ao peito.

Yukinoshita ficou em silêncio por um momento, olhando vagamente para Komachi e para

mim, mas assim que eu movi o meu pé, ela falou em voz baixa.

– Eu não recomendo que você ande de bicicleta com duas pessoas de uma vez... você pode
se envolver em outro acidente.

– Oh, vejo você depois.

Eu respondi enquanto começava a pedalar. Meu cérebro privado de sono estava incapaz de
funcionar adequadamente e quase toda a minha capacidade mental estava voltada para evitar
os carros na estrada. Graças a isso, eu pude apenas pensar em uma resposta superficial para dar
para a Yukinoshita.
Vagamente, eu me perguntei como é que ela sabia sobre aquele acidente...

Deliberadamente, eu pedalei lentamente em linha reta por toda a estrada que


cruzava com a 14ª Rodovia Nacional. O vento que normalmente batia em nossos rostos quando
íamos para a escola, hoje estava em nossas costas. Enquanto esperávamos em frente ao
segundo semáforo, um agradável aroma vindo da padaria estrada abaixo surgiu no ar.

Meu estômago começou a roncar.

– ... Komachi. Você quer um pouco de pão antes de irmos para casa?

– Tch! Onii-chan, seu idiota! Você sempre passa calado pela padaria, fingindo não notar
nada. Mas você só está com fome!

Enquanto ela cutucava minhas costas, eu virei a bicicleta na direção da padaria e comecei a
pedalar.

A Komachi suspirou.

– Onii-chan, você é realmente inútil. Se eu soubesse que você ia agir desse jeito, eu não
teria dito todas aquelas coisas legais sobre você.

– Nah, você não estava mesmo me elogiando. No fim, era tudo sobre você ser uma boa
garota. E você praticamente inventou aquela história, de qualquer modo.

– Bem, meio, sim.

Komachi disse enquanto parava de me cutucar. Ela ficou quieta por um momento.

– Mas sabe, eu não estava mentindo sobre ser grata.

Então ela apertou seus braços ao redor da minha cintura em um abraço apertado,
enterrando seu rosto nas minhas costas.

– Você está aumentando seus pontos Komachi outra vez?

– Hmph, você me pegou.

Mesmo dizendo isso, Komachi não afrouxou os braços ao redor da minha cintura.
A agradável brisa da manhã tinha congelado nossos corpos enquanto estávamos
separados. Senti que o toque quente e reconfortante de sua pele estava começando a
gradualmente fazer com que eu me sentisse sonolento. De algum modo, eu suspeitava
que nós iríamos nos atrasar hoje também. Se eu fosse para casa me sentindo desse jeito, eu
sabia que certamente iria acabar caindo no sono. Não era tão ruim chegar atrasado de vez em
quando para poder ficar desse jeito com sua irmãzinha.

– Mas sabe, que bom para você.

A voz da Komachi surgiu atrás de mim.

– Você conseguiu encontra-la de forma apropriada.

– Hum? Do que é que você está falando?

Suponho que eu estivesse fazendo uma expressão de dúvida. A Komachi continuou falando
alegremente, desconhecendo a expressão que estava sendo mostrada em meu rosto.

– Você sabe, a pessoa doce. Eu deveria ter dito alguma coisa quando nós nos encontramos
antes. Mas bem, parabéns, Onii-chan. Você conseguiu encontrar uma garota bonita como a
Yui-san porque fraturou um osso.

– Sim, eu acho...

Eu movi meus pés e pedalei mecanicamente. Eu estava incerto sobre todos os sentimentos
que surgiram enquanto eu praticava essa ação.

Isso provavelmente explicaria o motivo para a minha pedalada ter sido interrompida
poucos momentos depois.

Meu corpo tremeu violentamente. E uma dor penetrante atingiu minha canela.

– Gahhhh!

– Aaaaaai... o que foi isso de repente? Essa é a primeira vez que eu vejo alguém errar os
pedais.

O lamento incessante da Komachi soava como algo muito distante.


Eu mal podia acreditar no que ela havia acabado de dizer. Então a Yuigahama era a
pessoa doce?

Para qualquer outra pessoa, uma pessoa doce poderia ser alguém que distribuía doces
durante o Festival Bom ou algum parente amigável, mas eles não eram interesses amorosos.
Mas no meu caso, meu destino estava conectado com essa pessoa doce.

Eu me envolvi em um acidente de trânsito no meu primeiro dia no Ensino Médio. No


caminho para a escola, uma garota passeando com seu cachorro na vizinhança da escola deixou
a corrente escapar no mesmo infeliz momento em que uma limusine de aparência cara
apareceu. Minha recompensa por salvar o cachorro foi um osso quebrado. Eu fiquei
hospitalizado por três semanas inteiras depois do meu primeiro dia de aula, selando meu
destino como um solitário.

E a dona daquele cachorro era a pessoa a quem Komachi chamava de pessoa doce.

– Onii-chan, o que houve?

Komachi olhou para mim com preocupação, mas tudo o que eu pude fazer foi dar um
sorriso vago. Eu apenas estava pensando em algumas coisas, isso é tudo.

Então meus lábios formaram um sorriso amargo, um daqueles de auto depreciação e


zombaria.

– Não é nada. Vamos apenas comprar aquele pão e ir para casa.

Eu disse enquanto recomeçava a pedalar, tentando recolocar o idiota que eu era em


movimento.

Mas estranhamente, aquilo não passou de um esforço inútil. Mais uma vez, o pedal bateu
na minha canela.
1
O Pixiv é um site no qual muitos artistas independentes Japoneses
compartilham seus desenhos de personagens de anime e afins.
2
Um tipo de chaleira elétrica

3
Businesslike significa eficiente. Komachi confunde a palavra com business
like, que quer dizer gostar de trabalhar.
4
Um método comum para gravar datas é o uso de mnemônicos (palavras,
números ou qualquer outra coisa que facilite o processo de memorização), mas
aqui foram traduzidas apenas as datas.

5
Uma referência a ‘Bakusō Kyōdai Let’s & Go!!’, um antigo mangá de corridas.

6
Uma referência a Dragon Ball Z
7
Literalmente ‘Destrua o Mal Imediatamente’. Uma referência ao lema do
Shinsengumi, um grupo de soldados revolucionários. Também é um termo
frequentemente associado as habilidades com a espada de Saitou Hajime, de
Rurouni Kenshin (Samurai X).

8
Lilith aparece como um demônio noturno na crença tradicional judaica e islâmica
como a primeira mulher do bíblico Adão, sendo que em uma passagem (Patai 81: 455f)
ela é acusada de ser a serpente que levou Eva a comer o fruto proibido.

9
Eros, o Deus grego do amor
10
Oshare Majo: Love & Berry é uma referência a um conjunto de cartas
colecionáveis destinadas para meninas.
11
Kamakura é uma espécie de iglu usado como uma espécie de altar para a
divindade da água.
12
Um líder de uma gangue de delinquentes. Frequentemente representados na
ficção como homens de bom coração.

13 A maior rede de varejo do Japão

14 Um parque temático Japonês


15
Uma frase tirada de Ghost in the Shell
16
Uma referência ao mangá Shinsei Motemote Oukoku
17
Um mangá sobre empregadas desenhado por Kaoru Mori.

18
Um tipo de produto de limpeza usado para tirar poeira

19
Alguém está lendo muito ‘Kaichou wa Maid-sama...

No entanto, bem, a Yuigahama parecia feliz por ter tentado usar a fantasia de
empregada e além disso eu havia encontrado um bom Café. Por hora, esse era o fim
disso.
20
Referência a Naruto
21
Um personagem fictício criado para assustar crianças que desperdiçam
comida. Quando elas o fazem, os pais dizem que o Fantasma do Desperdício virá
atrás delas.
22
Hiromi Go é um artista Japonês

23 Uma rede de lojas de roupas baratas no Japão


24 Outra rede de lojas de roupas
25
Uma das obras de William Shakespeare
26
Hikigaya faz referência a vários ocidentais famosos na história do Japão. O
Comodoro Perry foi parcialmente responsável pela abertura dos portos Japoneses
ao Ocidente. Townsend Harris foi o primeiro Cônsul Geral Americano a ir para o
Japão. E Ernest Mason Satow foi uma figura diplomática importante no início dos
anos 1800.
27
Uma referência a Wikipédia
Capítulo 5: Hikigaya Hachiman volta ao caminho que ele

originalmente seguia

5–1
Eu fui inundado de exames durante uma semana inteira até a Segunda-feira. Hoje era o dia em
que os resultados dos exames seriam devolvidos.
Em nossas classes, nós recebíamos nossas folhas de respostas de
volta e os problemas eram explicados para nós. Sempre que um
assunto qualquer terminava, Yuigahama saía do seu caminho para vir
reportar a mim.

– Hikki! Minha nota em História Japonesa aumentou! Aquela seção


de estudos foi uma boa pedida, afinal.

Yuigahama tagarelava animadamente, mas eu dava a ela a


mesma resposta fria todas as vezes.

– Bom para você.

– Sim! E isso é tudo graças a Yukinon... oh, e a você também, Hikki.


Então a Yuigahama disse, mas eu realmente não fiz nada.

Se você estudou mais, seus resultados seriam certamente melhores. Fato. Os elogios dela

eram fundamentalmente sem sentido. Quero dizer, Yuigahama havia conseguido essas
notas graças ao seu próprio trabalho duro.

Falando nos resultados dos meus exames, eu estava defendendo minha terceira posição na
classificação de História Japonesa, como sempre. Minha nota em matemática foi 9/100. Uau, o
que é essa equação diferencial novamente? Eu tinha acabado de fazer um palpite sobre o
significado dessa palavra, mas acho que isso está muito além da forma de um estudante do
Ensino Médio fazer as coisas.

Oh, e este não era apenas o dia em que receberíamos nossos testes de volta, era também o
dia daquele evento que esteve pairando sobre nós há algum tempo: a visita ao local de
trabalho. Os estudantes foram chamados durante o recesso e enviados ao local que eles
mesmos haviam escolhido.
Nós fomos até a estação Kaihin-Makuhari. Esta área era densamente cheia de
escritórios e também havia um número surpreendente de sedes operacionais. E ao
mesmo tempo, como se estivesse consciente do ocorrido do outro dia, aquele lugar
era um formigueiro. Makuhari não era chamada de novo coração da cidade por nada. Você
poderia até mesmo dizer que esse lugar era a capital de Chiba hoje em dia.

Nosso grupo era formado pelo Totsuka, pelo Hayama e por


mim. Ou ao menos, era assim que deveria ser.

Porém, na realidade, mais pessoas estavam se reunindo ao redor do Hayama toda vez que
eu olhava na direção dele, como se fossem moscas. O que ele era, um corpo morto? Bem, eu
nunca nutri o pensamento de que eu estaria indo com o Hayama, para começar. Eu pensei que
isso seria quase como um encontro com o Totsuka — apenas nós dois — mas quando eu olhei
na direção do Totsuka, ele estava sendo seguido de perto por um bando de garotas. Totsuka
seguia em frente, parecendo tão chocado e consternado que você diria que ele estava sendo
intimidado caso não o conhecesse bem.

Hayama estava cercado pelos três garotos, que supostamente deveriam formar um grupo
diferente, juntamente com Miura e as outras. Eu podia apontar a figura de Yuigahama no meio
deles. Quando eu tentei contar aqui e ali, percebi que uns cinco grupos haviam vindo para este
lugar.

Ficar com pessoas realmente não é o meu forte. Naqueles feriados ocasionais em que eu
saía, apenas o grande número de pessoas ao meu redor já era o bastante para me fazer querer
rastejar de volta para casa. Naturalmente, eu acabei ficando bem para trás em relação ao
restante do grupo. Que incrível eu era, tomando a posição de Lorde por iniciativa própria? Se
eu fosse um comandante na era dos Estados em Guerra, eu teria merecido uma medalha.

O lugar que nosso grupo (e com isso eu quero dizer apenas o Hayama) escolheu era uma
Fábrica de Eletrônicos da qual eu já havia ouvido falar. Este lugar não apenas servia como
um simples edifício com escritórios e como uma instituição de pesquisas, mas também era
acoplado a um museu aberto à visitação. Era uma empresa que incorporava perfeitamente o
conceito de diversão interativa, com todas aquelas telas interativas que preenchiam cada
um dos cantos daquele museu e assim por diante.

Se o Hayama havia escolhido este lugar sem nem mesmo estar ciente do quão bom era,
então essa seria uma coisa boa a respeito dele: ele tinha um excelente sexto sentido.
Novamente, mesmo se ele tivesse escolhido esse lugar sabendo que uma grande multidão
se reuniria aqui, seu nível de atenção com as necessidades das outras pessoas era
francamente surpreendente.

Mais do que qualquer outra exibição, o trabalho de uma fabricante de máquinas era
divertido de se olhar, mesmo para um solitário como eu.

Eu pressionei meu rosto contra o vidro, olhando com muita atenção para as máquinas que
zumbiam, como se eu fosse um garotinho que acabara de ganhar um novo brinquedo. Apenas
olhar para as máquinas já era o bastante para me deixar animado.

“Nós não somos máquinas”, essas eram as palavras que as pessoas cuspiam quando se
rebelavam por estarem sendo controladas ou usadas para trabalhos duros, mas isso era
completamente sem sentido. Nós não somos máquinas. E por causa disso, existem momentos
em que as pessoas se atrapalham com engrenagens que elas não sabem usar. Se isso fosse
1
sobre miniaturas de automóvel, eu estaria perguntando para a Corporação Tamiya .

Estritamente falando, máquinas também possuem esses tipos de elementos supérfluos.


Normalmente, aquelas peças eram ‘para diversão’. Era assim que você explicaria as partes
excessivas da corrente de uma bicicleta ou engrenagens extras. Alguns poderiam dizer que
um corpo mecânico facilitaria uma vida útil mais longa. Isso foi o que um dos empregados
disse hoje— que tanto máquinas quanto humanos precisam de sua diversão.

Bem, não é como se alguém fosse me convidar para me divertir.

Enquanto eu construía uma distância moderada entre mim e o restante do grupo, eu olhei
ao redor do grupo de máquinas. Na minha frente estavam garotos e garotas tagarelando e
aproveitando a companhia uns dos outros. Eu olhei para trás, mas não havia ninguém. A única
coisa que me cumprimentou foi um doloroso e ensurdecedor silêncio.

No entanto, esse silêncio absoluto logo foi quebrado pelo duro som de saltos contra o chão.

– Hikigaya. Então você fez todo o caminho até aqui, hum?

Pela primeira vez, a Hiratsuka-sensei não estava usando seu jaleco branco. Isso porque se
ela vestisse um jaleco aqui, ela acabaria sendo confundida com um dos empregados.

– Você está dando uma olhada, Sensei?

– Sim, algo assim.

Hiratsuka-sensei respondeu, embora seu olhar não tenha se desviado nem mesmo por um
instante da deslumbrante máquina, nem mesmo para dar uma olhada na direção dos alunos.
– Heh... Máquinas Japonesas são
incríveis. Ela fez uma pausa.

– Me pergunto se eles vão mesmo construir um Gundam enquanto eu ainda estou viva.
Ela realmente tinha o cérebro de um garotinho. Ela estava admirando aqueles corpos de

metal com olhos brilhantes. Não, por favor, continue assim.

Ocorreu-me o pensamento de que esse seria um excelente momento para fazer uma pausa
de tudo isso. Hiratsuka-sensei deve ter escutado o som dos meus passos quando comecei a
andar, pois ela combinou seu ritmo com o meu.

– Oh, isso me lembra, Hikigaya. Sobre sua competição hipotética...

A competição... ela estava se referindo aquela entre Yukinoshita e eu, na qual iríamos
decidir qual método de ajudar as pessoas funcionava melhor através do Clube de Serviços. O
vencedor iria decidir o destino do perdedor.

A Sensei hesitou sobre o assunto que ela mesma havia trazido à tona.
Eu pedi a ela que continuasse apenas como meus olhos.

Com isso, a Sensei voltou a abrir a boca, dessa vez com uma determinação renovada.

– Tem havido muita interferência devido a fatores externos. No quadro atual, é impossível
continuar com isso. Devido a isso, eu proponho uma alteração em uma parte do sistema.

A linguagem dela estava carregada com o mesmo tipo de desculpas que uma empresa de
jogos usaria, mas para encurtar uma longa história, parece que a capacidade da Sensei está
ficando sobrecarregada, fazendo-a quebrar.

– Eu realmente não me importo, de qualquer modo...

Eu murmurei.

Não importa o que eu fizesse, as regras dessa competição eram decididas pela Hiratsuka-
sensei. Ela mudaria as regras independentemente do que eu dissesse. Em primeiro lugar, as
condições para a vitória e para a derrota seriam decididas de acordo com o julgamento
tendencioso da Sensei.

Resistência era inútil.

– Na verdade, isso já está decidido, não está?

– Não...

Hiratsuka-sensei disse enquanto coçava a cabeça.


– Ainda tem uma pessoa com quem é difícil de lidar.

Difícil de lidar. Quando eu escutei isso, a Yuigahama foi a primeira pessoa que
me veio à mente. Ela era a garota que havia se juntado ao nosso Clube depois que ele
começou— o Clube que deveria ser apenas Yukinoshita e eu.

Você poderia dizer que ela é uma existência irregular. Um fator externo também
funcionaria bem. Sem ser parte do plano original, ela tinha aberto seu caminho até o coração
do atual Clube de Serviços.

Nesse caso, talvez isso se tornasse uma competição entre nós três: eu, Yukinoshita—
e agora a Yuigahama.

– Hmph, parece que esse é o fim da Estrada Mecha Mecha.

(O que diabos é Estrada Mecha Mecha?)

– Se você decidir fazer um novo Clube de Serviços, tenha certeza de me avisar. Agora
vamos, eu não vou fazer nada de mal.

Hiratsuka-sensei disse com um sorriso, mas para mim, isso soou muito como a fala de um

vilão...

Depois disso, Hiratsuka-sensei voltou a Estrada Mecha Mecha original. Eu a vi indo e, então,
virei-me em direção a saída.

Eu passei muito tempo conversando com a Hiratsuka-sensei. Hayama e os outros já


estavam indo e o som mais alto que eu podia ouvir era o farfalhar do começo de um vento de
verão em uma deserta plantação de bambu. Eu tentei olhar ao redor da isolada entrada
quando o sol começou a se pôr e as cores no céu começaram a mudar.

E ali, eu avistei um familiar penteado em forma de bolinho. Inadvertidamente, eu havia a


encontrado.
5–2
A garota estava sentada no meio fio de pedra, abraçando seus joelhos e
pressionando o celular a uma certa distância dela. Por um momento, eu deliberei
sobre chama-la. Porém, durante minha hesitação, ela acabou notando minha presença ao
invés disso.

– Oh, Hikki, você está atrasado! Todo mundo já foi, cê sabia?

– Oh, sim. Culpa minha, eu estava distraído com meu robô interior... então, para onde todo
mundo foi?

– Saize.

Estudantes do Ensino Médio em Chiba realmente amavam o Saize. Era uma rede de
restaurantes familiares localizada em Chiba desde o início dos tempos— cara, ela era
superestimada. A comida era barata e saborosa, então isso não era nenhuma surpresa, no
entanto.

– Você não vai ir?

Eu perguntei a ela abruptamente.

– Hum!?
Yuigahama piscou.

– Oh, cê entende, eu meio que estava esperando por você, Hikki. Tipo... eu me sentiria mal
se você fosse deixado para trás, cê sabe.

Enquanto brincava com os dedos, Yuigahama olhou para mim de modo hesitante. Vendo-a
desse jeito, eu acabei deixando escapar um sorriso sem nem mesmo pensar sobre isso.

– Yuigahama, você é tão boa.

– Hum!? Um, o quê!? I-Isso não é verdade!

Yuigahama balançou os braços descontroladamente, seu rosto estava vermelho


brilhante, talvez devido ao sol poente.

Eu não tinha ideia do porquê ela estava negando isso, mas eu sabia que Yuigahama era uma
boa garota. Ela era uma boa pessoa, acho. Era por isso que eu tinha que dizer isso a ela
apropriadamente.
– Sabe, você realmente não precisa se preocupar comigo. Eu salvei seu cachorro
por coincidência e, além disso, eu provavelmente seria um solitário na escola mesmo
se aquele acidente nunca tivesse acontecido. Você não tem nenhuma necessidade de
se preocupar com isso. É o que eu sempre digo a mim mesmo.

Eu nunca tinha dito essas palavras, mas eu me conhecia bem o bastante para saber que
elas eram verdadeiras. Eu provavelmente— não, definitivamente— não estaria cercado de
amigos mesmo que eu tivesse entrado na escola de forma normal.

– Vo-Você se lembrou, Hikki?

Yuigahama olhou para mim abertamente chocada, seus olhos estavam arregalados.

– Não, eu não me lembrei, na verdade. É que houve uma vez em que você foi até a
minha casa para me agradecer. A Komachi me contou sobre isso.

– Oh, certo... a Komachi-chan te contou...

Yuigahama riu debilmente, um sorriso vazio se formou em seu rosto. Ela baixou a cabeça

furtivamente.

– Desculpe, parece que você saiu do seu caminho por minha causa. Bem, você não precisa
mais se preocupar comigo a partir de agora. Eu era um solitário desde o começo e aquele
acidente não tem nada a ver com isso. Você não precisa se sentir mal por mim ou agir desse
jeito por obrigação.

Eu fiz uma pausa e, em seguida, continuei.

– Se você é boa comigo por estar preocupada com os meus sentimentos, então pare com
isso.

Por um momento, eu estive bastante ciente de quão duras eram as palavras que eu estava
dizendo. Eu estava praticamente rosnando aquelas palavras para ela. Eu me pergunto por
que fiz isso. Aquilo não era algo que deveria me irritar tanto assim.

Eu cocei minha cabeça como uma maneira de esconder minha irritação. Esse era o
desesperado som de palha balançando. O silêncio ecoou entre nós, uma extensão daquele
silêncio de antes, e isso fazia com que eu me sentisse doente.

Era a primeira vez que eu não conseguia tolerar o silêncio.

– Bem, uh, um...


Nós dois abrimos a boca, tentando em vão formar as palavras que supostamente
deveríamos dizer, mas nada saiu. Quando nossas palavras se chocaram umas contra as
outras, Yuigahama deixou escapar uma falsamente alegre risada.

– Um, cê sabe, como eu posso dizer isso? As coisas não são realmente assim. Sabia?
Enquanto ela continuava rindo, ela claramente olhou para baixo, seu rosto se contorcendo

de dor.

– Quero dizer, as coisas realmente não são desse jeito...

Eu não conseguia compreender sua expressão depois que ela baixou a cabeça. E mesmo
assim, ela falou de forma débil, com sua voz tremendo ligeiramente.

– Não é— não é assim... não é desse jeito...

Ela murmurou.

Yuigahama sempre fora uma boa garota e, provavelmente, ela continuaria sendo uma pelo
resto de sua vida. Se a verdade é uma amante cruel, então a mentira é uma amante gentil.

Então, a gentileza por si só é uma mentira.

– Um, bem, veja...

Yuigahama começou.

Ela ergueu sua cabeça e olhou para mim. Seus olhos estavam embaçados devido as
lágrimas e, mesmo assim, ela olhou para mim com determinação, sem sequer desviar seu
olhar. Eu fui aquele que teve que olhar para longe.

– ... você é um idiota.

E com isso, Yuigahama se virou e saiu correndo. Porém, depois de alguns metros, seus
passos começaram a ficar mais brandos e ela passou a caminhar de forma dura.

Eu a assisti até que ela se fosse e, em seguida, abruptamente me afastei daquele lugar.
Yuigahama poderia ter ido para o Saize, onde todos os outros estavam esperando. No

entanto, isso não tinha nada a ver comigo. Eu odeio estar com pessoas.

E eu odeio boas garotas.

Elas seguem você para qualquer lugar que você vá e mesmo assim, elas estão sempre fora
de alcance, como se fossem a lua sorrindo para você do céu noturno. A distância entre você e
elas era incomensurável.
Você não pode parar de pensar nelas após uma simples troca de cumprimentos e o
seu coração acelera mesmo quando você está apenas escrevendo uma mensagem
para uma delas. Quando uma delas liga para você, você passa o dia inteiro olhando
feito um idiota para o seu histórico de chamadas.

No entanto, eu sei como isso funciona. É assim que a gentileza é. Eu quase sempre me
esqueço de que as pessoas que são gentis comigo também são gentis com as outras pessoas.
Não é como se eu não sentisse a gentileza delas ou nada assim. Não, eu sinto isso. Você
poderia até mesmo dizer que eu sinto isso de forma exagerada. E por causa disso, eu tenho
reações alérgicas.

Eu já vivi tudo isso uma vez. Um solitário uma vez mordido, torna-se duas vezes mais
tímido. Confissões de amor como penalidade por perder no jokenpo, falsas cartas de amor
escritas por garotos que escrevem o que as garotas ditam para eles— Eu não quero nada a ver
com essas pessoas. Eu sou um veterano de guerra. Não há ninguém melhor do que eu em
perder.

Sempre tendo expectativas e sempre tendo a ideia errada— em algum ponto, eu


simplesmente desisti de ter falsas esperanças.

E então, eu sempre irei odiar boas garotas.


Palavras do Autor

Bom dia, aqui é Watari Wataru.

Desta vez eu tentei reunir minhas memórias sobre essa coisa chamada juventude, mas
minhas lembranças estavam tão distorcidas que chega a ser preocupante. A razão para isso é
que apenas as lembranças desagradáveis, das quais eu não queria me lembrar, me vieram a
mente, então talvez aqueles incidentes ainda permaneçam muito próximos de mim. Faz
muitos anos desde que eu me graduei no Ensino Médio, então em vez de uma distância
temporal, talvez fosse melhor que eu construísse uma distância mental.

Toda vez que eu comparo o meu eu de agora com o meu eu daquela época, eu sinto
que existe algo similar.

Meus dias de Ensino Médio: eu me atrasei umas duzentas vezes durante aqueles três anos.
Eu me atrasei tantas vezes que a escola acabou chamando meus pais. Eu queria me casar com
uma bonita e rica dama quando eu crescesse e viver uma vida corrupta e autoindulgente. Em
dias de chuva, havia uma grande probabilidade que eu matasse aula.

Meus vinte e poucos anos: eu me atrasei tantas vezes que meu chefe acabou me
chamando. Eu queria me casar com uma bonita e rica dama quando eu crescesse e viver uma
vida corrupta e autoindulgente. Eu realmente não trabalho nos meus manuscritos em dias de
chuva, mesmo quando existem alguns pontos com luz solar.

... Eu nunca perdi contato com meu garoto interior, uau.

Quando você pensa nisso, talvez você possa dizer que um garoto, não importa qual seja sua
idade, é um adolescente em seu coração. Esses sentimentos de ciúmes e frustração e a
incapacidade dos tempos de Ensino Médio jamais o abandonarão. E, com uma confiança sem
qualquer base, uma pessoa deve abraçar a tóxica e incompreensível contradição conhecida
como ‘Eu sou o melhor em me sentir inferior. Eu sou totalmente superior’. Eu acho que fazer
isso permite que uma pessoa continue a sonhar para sempre.

Ainda assim, existem coisas que certamente são perdidas ao longo do caminho. (...
Eu queria ir a um encontro com uma garota usando o meu uniforme.)

Agora então, para os meus agradecimentos.

Para o Ponkan8-sama: Obrigado por continuar a desenhar essas ilustrações maravilhosas. A


Yui estava tão fofa na capa que eu gritei como uma garotinha adolescente. Eu terei a certeza
de orar por você umas cinco vezes ao dia.
Ao meu editor Hoshino-sama: Apesar de todos os inconvenientes que eu causei a
você desta vez, você me ajudou com o melhor de suas habilidades. Uma vez que eu
tenho planos de continuar a ser um incômodo para você, por favor trabalhe duro. Muito
2
obrigado pela [Link] Aisora Manta-sama : Embora nós não tenhamos sido apresentados,

muito obrigado pelos comentários que você fez no revestimento deste livro. E também, muito
obrigado por me enviar o ganache. Eu fui capaz de escrever graças ao seu delicioso ganache.

A minha família (meu pai em especial): Você trabalhou duro em seu emprego por muitos
anos. Eu sou capaz de trabalhar na indústria literária hoje porque você trabalhou
arduamente. Por favor, pegue mais leve e viva uma longa e gratificante vida. E também, eu
acho que nosso gato tem um total rancor de mim, ou é apenas a minha imaginação?

A todos os leitores: Graças ao seu apoio a Yahari Ore no Seishun Love Come wa
Machigatteiru (abb. Hamachi; alt. Oregairu) eu pude lançar o segundo volume. Eu estou
verdadeiramente feliz. Muito obrigado a todos vocês. Eu vou continuar trabalhando duro,
então poderei escrever um livro interessante na próxima vez.

E com isso, eu descanso minha caneta por hora. Se eu começar a correr, eu serei incapaz
de parar— isso é ‘velocidade’ e ‘comédia romântica’ para vocês. Eu sinceramente espero que
possamos nos encontrar novamente no próximo volume.

Um certo dia de Junho, de uma certo local na Prefeitura de Chiba, enquanto devoro
3
um leitoso gelato italiano com prazer,

Watari Wataru

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