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Perigo e Risco na Saúde Ocupacional

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Perigo e risco

Não é de hoje que a relação entre o trabalho e a saúde vem sendo observada. Um fato
importante nesse contexto vem da investigação feita pelo filósofo grego Hipócrates, que, no
século IV a. C., reconheceu a toxidade do chumbo nos mineiros. Quatro séculos depois, Plínio,
em seu tratado De Historia Naturalis, descreveu as precárias condições de saúde de diversos
locais de trabalho, principalmente em galerias de minas, onde os trabalhadores estavam
expostos ao chumbo, ao mercúrio e às poeiras. Foi nesse contexto que Plínio, também
chamado de Plinio, o Velho, fez uma descrição dos primeiros equipamentos de proteção
respiratória, mencionando que os escravos utilizavam, sob a face, membranas de pele de
bexiga de animais, com o intuito de diminuir a inalação das poeiras presentes nesses locais
inóspitos (TIRELLI; RÖHM, 2022; CAMISASSA, 2022). Diversos pesquisadores, médicos e
filósofos fizeram relatos importantes sobre as exposições ocupacionais dos trabalhadores ao
longo de séculos. Um marco importante, que não podemos deixar de lado, é o do médico
italiano Bernardino Ramazzini, que publicou um livro chamado de De Morbis Artifcum Diatriba,
traduzido como Doenças dos Trabalhadores. Nessa obra, Ramazzini retrata os riscos à saúde
ocasionados por diversos produtos químicos, metais, poeira e inúmeros agentes presentes nos
ambientes de trabalho, em diferentes ocupações. Devido à sua dedicação a saúde ocupacional,
Ramazzini ficou conhecido como o pai da Medicina Ocupacional (CAMISASSA, 2022)

Como nossos antepassados mostraram, a prática da prevenção de acidentes de trabalho e de


doenças ocupacionais envolve uma série de observações do local de trabalho.

A norma ISO 45001, que especifica os requisitos para a implementação de um Sistema de


Gestão em Segurança e Saúde Ocupacional, em seu item 8.1.2, menciona que:

A organização deve estabelecer, implementar e manter um processo para a eliminação de


perigos e redução de riscos de Segurança e Saúde Ocupacional (SSO), utilizando a seguinte
hierarquia de controles:

a) eliminar os perigos;

b) substituir por processos, operações, materiais ou equipamentos menos perigosos;

c) uso de controles de engenharia e reorganização do trabalho;

d) uso de controles administrativos, incluindo treinamento;

e) uso de equipamentos de proteção individual adequados. (ABNT, 2018, p. 21)

Baseado na ISO 45001, conforme discorrido anteriormente, a Figura 1 mostra a hierarquia de


controles.
Figura 1 | Hierarquia de controle de riscos - Fonte: ABNT (2018).

Como vimos até o momento, a norma apresenta os termos perigo e risco, os quais possuem
conceitos diferentes. O anexo I da NR-1 (BRASIL, 2020) apresenta diversos termos e definições
importantes, dentre eles, os conceitos de perigo e risco, que são apresentados a seguir:

Perigo ou fator de risco ocupacional/Perigo ou fonte de risco ocupacional: “fonte com o


potencial de causar lesões ou agravos à saúde. Elemento que isoladamente ou em combinação
com outros tem o potencial intrínseco de dar origem a lesões ou agravos à saúde” (BRASIL,
2020a, p. 12). Tal fonte pode ser uma máquina ou um equipamento com as partes móveis
expostas, uma atividade ou operação do trabalho, entre outras fontes (CAMISASSA, 2022).

Risco ocupacional: “Combinação da probabilidade de ocorrer lesão ou agravo à saúde causados


por um evento perigoso, exposição a agente nocivo ou exigência da atividade de trabalho e
da severidade dessa lesão ou agravo à saúde” (BRASIL, 2020, p. 13). De forma resumida,
podemos dizer que risco é um número e é a combinação das duas palavras em negrito, ou seja,
uma multiplicação da probabilidade vezes a consequência.

O Quadro 1 mostra a classificação dos principais agentes de risco ocupacionais que podem
ocorrer, caso exista a combinação da probabilidade de ocorrer lesão ou agravo à saúde
causados por um evento perigoso, exposição ou agente nocivo, separados em grupos, de
acordo com a sua natureza e a padronização das cores correspondentes (BRASIL, 1994). Um
agente só passa a ser um risco quando ele está em uma concentração, intensidade e tempo de
exposição capaz de causar danos à saúde do trabalhador

Uma das atribuições da CIPA é a avaliação qualitativa dos riscos presentes no local de trabalho,
e uma forma de fazer isso é através da elaboração do mapa de riscos. O mapa de risco, que
teve origem na Itália, nada mais é do que uma representação gráfica que identifica, nos
diferentes locais da empresa, os agentes físicos, químicos e biológicos, bem como situações
que fomentam o risco de acidentes e fatores ergonômicos (CAMISASSA, 2022).

A elaboração do mapa de risco deve ser realizada com participação do maior número de
trabalhadores. O Serviço Especializado em Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT), caso
existir, poderá auxiliar nesta elaboração, conforme o que está disposto na NR-4 – Serviços
Especializados em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho (BRASIL, 2022).

O mapa de risco deve ser revisado sempre que houver a introdução de um novo risco ou
alteração de riscos já existentes.

Quadro 1 | Classificação dos principais riscos ocupacionais - Fonte: Brasil (1994, [s. p.]).

Mapeamento de riscos I
De acordo com a nova NR-1, em seu item [Link], “a organização deve implementar, por
estabelecimento o gerenciamento de riscos ocupacionais em suas atividades” (BRASIL, 2020,
[s. p.]).

O gerenciamento de riscos ocupacionais deve constituir um Programa de Gerenciamento de


Riscos (PGR), que, a critério da organização, pode ser implementado por unidade operacional,
setor ou atividade.

Em relação ao GRO, conforme detalhado no item [Link] (BRASIL, 2020), a organização deve:

Evitar os riscos ocupacionais que possam ser originados no trabalho.

Identificar os perigos e as possíveis lesões ou agravos à saúde.

Avaliar os riscos ocupacionais indicando o nível de risco.

Classificar os riscos ocupacionais para determinar a necessidade de adoção de medidas de


prevenção.

Implementar medidas de prevenção, de acordo com a classificação de risco e na ordem de


prioridade estabelecida na alínea “g” do subitem 1.4.1 (implementar medidas de prevenção,
ouvidos os trabalhadores, de acordo com a prioridade, eliminação dos fatores de risco,
minimização e controle dos fatores, com adoção de medidas de proteção coletiva, minimização
e controle para medidas administrativas e adoção de equipamentos de proteção individual
(EPIs)).

Acompanhar o controle de riscos ocupacionais.

A seguir, é apresentada uma visão mais detalhada dos agentes de riscos apresentados no
Quadro 1:

Agente físico: este grupo representa as formas de energias e tem a cor verde. Segundo a NR-1,
agentes físicos são “qualquer forma de energia que, em função de sua natureza, intensidade e
exposição, é capaz de causar lesão ou agravo à saúde do trabalhador” (BRASIL, 2020, [s. p.]).

Agente químico: este grupo tem a cor vermelha e é representado, segundo a NR-1, por:
“substância química, por si só ou em misturas, quer seja em seu estado natural, quer seja
produzida, utilizada ou gerada no processo de trabalho, que, em função de sua natureza,
concentração e exposição, é capaz de causar lesão ou agravo à saúde do trabalhador” (BRASIL,
2020, [s. p.]).

Agente biológico: este grupo leva a cor marrom e é composto de “microrganismos, parasitas ou
materiais originados de organismos que, em função de sua natureza e do tipo de exposição,
são capazes de acarretar lesão ou agravo à saúde do trabalhador” (BRASIL, 2020, [s. p.]).

Agente ergonômico: este grupo é representado pela cor amarela e trata dos fatores
ergonômicos que podem trazer riscos à saúde e integridade física dos trabalhadores. A
ergonomia, palavra que vem do grego ergos (trabalho) e nomos (normas, leis, regras), refere-se
à organização do trabalho e seu estudo possibilita a adaptação do trabalho ao homem
(CAMISASSA, 2022). A NR-17, que trata da ergonomia, estabelece “as diretrizes e os requisitos
que permitam a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos
trabalhadores, de modo a proporcionar conforto, segurança, saúde e desempenho eficiente no
trabalho” (BRASIL, 2021, [s. p.]). As condições de trabalho, segundo o item [Link] da NR-17,
incluem “aspectos relacionados ao levantamento, transporte e descarga de materiais, ao
mobiliário dos postos de trabalho, ao trabalho com máquinas, equipamentos e ferramentas
manuais, às condições de conforto no ambiente de trabalho e à própria organização do
trabalho” (BRASIL, 2021, [s. p.]).

Segundo Barbosa Filho (2019), uma forma de sinalizar os agentes de riscos presentes no
ambiente de trabalho é o mapa de risco. Mais do que indicar a localização, a natureza e a
intensidade de um risco em uma planta baixa no local de trabalho, o mapeamento de riscos
tem o objetivo de fornecer as medidas de prevenção e proteção necessárias, além de orientar
quanto ao comportamento a ser adotado ao transitar pelas áreas sinalizadas ou quanto à
execução das tarefas naquele ambiente.

O mapa de risco é elaborado sob uma planta baixa do local de trabalho. Cada local indicará, por
meio de círculos:

O grupo a que pertence o risco, com suas respectivas cores, conforme o Quadro 1.

O número de trabalhadores expostos ao risco dentro ou perto do círculo.

A especificação do agente de risco presente deve ser colocada dentro ou próximo ao círculo.
Exemplo: químico – sílica, ácido sulfúrico ou ergonômico – levantamento de peso,
repetitividade.
A intensidade do risco que será proporcional ao tamanho dos círculos.

Sobre a intensidade do risco, o Quadro 2 mostra os círculos de tamanhos diferentes, de acordo


com a gravidade do agente de risco presente no local de trabalho.

Quadro 2 | Gravidade dos riscos - Fonte: Barbosa Filho (2019, p.217).

A Figura 2 apresenta um exemplo de mapa de risco.

Figura 2 | Exemplo de mapa de riscos - Fonte: SESI/SEBRAE (200, p. 32).

Mapeamento de riscos II
O mapeamento de riscos é uma forma de gerenciamento de riscos, sendo um processo em que
a CIPA, ao ouvir os trabalhadores envolvidos nas atividades laborais, levanta qualitativamente
os agentes de risco que lhes causem desconforto, mal-estar, irritação, enfim, tudo que pode
influenciar negativamente a relação do colaborador da empresa com o ambiente laboral.

Veremos um exemplo de identificação de riscos em um local de trabalho e elaboraremos o


mapa de riscos a partir da planta baixa do local de trabalho.

Para mapear os riscos presentes nos diferentes locais da empresa, a CIPA deve conhecer o
processo de trabalho no local analisado, bem como o número de trabalhadores envolvidos,
sexo, jornada de trabalho, instrumentos e ferramentas utilizadas, materiais de trabalho,
atividades envolvidas, treinamentos realizados e condições ambientais do local. Com isso, é
possível identificar os agentes de risco existentes no local analisado, conforme a classificação
apresentada no Quadro 1.

A Figura 3 apresenta um mapa de riscos de uma empresa, mostrando os locais e equipamentos


presentes. A máquina de corte, sinalizada pelo número 4, apresenta os seguintes agentes de
risco: acidentes (azul), ergonômico (amarelo) e físico (verde). Além de mostrar os riscos, a
figura também traz uma correlação entre perigo e risco da atividade analisada. Dessa forma, é
possível fazer uma correlação entre a atividade a ser realizada pelo emprego, tomando
conhecimento dos perigos dela. Assim, é possível diminuir a probabilidade de ocorrência de
possíveis riscos associados em função da hierarquia de controles apresentada na Figura 1.

O mapeamento de riscos da Figura 3 traz, portanto, um alinhamento entre a NR-5, que


preconiza a elaboração do mapa de riscos propriamente dito, e a NR-1, que relaciona perigo e
risco.

Para completar o mapa de risco da Figura 3, é necessário levantar os perigos nas demais áreas
da empresa, o número de empregados envolvidos em cada atividade e a intensidade dos
agentes de risco, trazendo círculos com diferentes tamanhos, como foi apresentado na Figura
2.

Figura 3 | Exemplo de um mapa de riscos - Fonte: Pereira (2022, [s. p.]).

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