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A Maldição da Bruxa no Mar

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A Bruxa de Além Mar

Acordei com as fortes ondas batendo contra o convés do navio. Das baixas cabines, pude observar
outros marujos despertando sobressaltados, como eu. Uma tempestade não era prevista para aquela noite,
nem para aquela região do golfo. Era possível ouvir as pesadas gotas de chuva derramando-se contra a
madeira enegrecida do casco. Um solavanco arrancou-me da cama. Certamente, Netuno não estava a nosso
favor, nem contente com o que estávamos carregando em nossa embarcação. Aliás, sequer os tripulantes e o
capitão concordavam com isso. Sabíamos que levar uma mulher a bordo nos traria mal agouro.
Principalmente tratando-se daquela mulher.
Disparei pelos corredores até os degraus do convés inferior. Gritos provindos do tombadilho
anunciavam os homens a baixar as velas. Descendo pelas escadarias íngremes, coloquei-me a andar
vagaroso pelo porão à procura da cela em que a deixaram viver. Não havia prisioneiros desde a última
parada de nossa embarcação. A mulher tomou o andar completamente para si. Ali, o cheiro azedo era
misturado à umidade e ao sal, combinados com dejetos deixados por ratos desprezíveis. Do alto, vozes
soavam abafadas enquanto eu descia impetuosamente para as partes inferiores da embarcação. A madeira
maciça que dividia os blocos do navio deixavam o ambiente emudecido. O silêncio era cortado apenas pelo
ribombar do oceano guerreando contra raios e trovões.
Repentinamente, um arrepio correu por minha nuca. Uma risada esguia e cheia de malícia tocou
meus ouvidos, cortando o ar na escuridão. Arredio, deixei meus passos me conduzirem em direção à cela
que abrigava o som tenebroso. Nas jaulas vazias, avistava-se apenas correntes e feno. Sob meu ombro, ouvi
um guincho animal. Lá estava ela: sentada contra a parede, iluminada apenas por uma tocha com chamas
bruxuleantes. A mulher ria solitária em meio a escuridão. Tinha os cabelos escuros e desgrenhados. Suas
vestes, um dia coloridas, agora eram apenas farrapos encardidos. Pareceu notar minha presença, pois
quando me aproximei, virou o rosto lentamente com um sorriso de escárnio estampado na face suja e
deformada.
— Os deuses parecem zombar desta missão, marujo.
Sua voz era coberta por um tom solene, mas composta de um gralhar que provinha da garganta que
não conhecia água há dias. E continuou:
— Mas não seria justo um homem do mar ser tragado pelo próprio oceano? Morrer em terra seca
parece ser tão triste para um homem como o senhor, Corin.
Terminou de falar com uma seca risada que logo se transformou numa tosse repulsiva. Não tive
palavras para respondê-la. Seus trejeitos eram obscuros. Parecia me conhecer de forma tão sombria que
nem mesmo meus amigos mais íntimos poderiam decifrar. Fui o marinheiro amaldiçoado com a
incumbência de alimentar nossa prisioneira. Nunca lhe havia dito meu nome e, mesmo assim, ela o dizia. Já
havia se passado quase um mês desde que a trouxemos para bordo do navio, e em meio a esse tempo,
nunca tivemos paz nas águas em que navegamos. A cada instante que eu passava perto daquela mulher,
minha alma parecia se tornar cada vez mais escura.
— Bem sei que toda esta sorte de males tem se posto sobre nós por sua causa, bruxa maldita.
Minha frase saiu fraca. Tive de me afastar alguns passos para dizê-lo sem pestanejar. A áurea
maligna que tomava aquele ambiente fazia meus ossos tremerem e meu espírito vacilar.
— Que há de fazer se nosso navio quebrar-se nas profundezas? Pode você respirar dentre as águas?
Não fomos nós que a sentenciamos. Somos apenas os que a levarão para seu juízo fim.
A mulher não me respondeu de imediato. Parecia saborear o medo em minha voz. Um murmúrio
saiu de sua garganta como uma canção antiga que revela mistérios e traz à tona sentimentos de tristeza e
dor. Minhas pernas fraquejaram e tive de me segurar à parede para não cair. Em um instante que pareceu
durar uma eternidade, vislumbrei cada lembrança de traumas e sofrimentos que passei em minha vida. Um
vazio adentrou meu peito. Aquela bruxa tentava me enlouquecer. Desejei fugir e deixá-la, mas lembrei que
não havia para onde partir.
O braços da bruxa se ergueram e a cantiga parou quando o navio rebentou-se contra uma onda.
Com as mãos ao chão, a bruxa equilibrou-se, e então, tortuosamente, pôs-se de pé. Virou o corpo
lentamente em minha direção, encarando-me com os olhos profundos de quem já vivera uma vida de
maldades e sacrilégios. Não fosse as cicatrizes e pústulas que trazia em seu rosto escuro, teria a aparência
de alguém que não viveu mais de trinta ciclos.
— A mim não importa o que acontecerá comigo ou com este pequeno navio. Seu capitão conhecerá
as profundezas do oceano.
Sombria como a morte, a bruxa mancou até pôr as mãos enrugadas nas grades que a prendiam.
— Voltarei para o lugar de onde vim e esta tripulação me acompanhará. Porém, antes que isto
aconteça, contarei a você uma história.
Meditei conflituoso sobre aquelas palavras. Seria o fim de nossas vidas? Por que diabos a miserável
iria me contar algo para depois me afogar nas águas escuras? Deixei meus olhos vagarem no corredor
sombrio do convés. Estava frio como se o inverno me envolvesse em um abraço. Minhas mãos soavam e
pendiam com espasmos de aflição.
— Se não pretende falar, amedrontado marujo, contarei o que tenho a dizer.
Ela então endireitou-se, aprumando os ombros cansados e endireitando os pés feridos por correntes
que um dia a aprisionaram.
— Nem sempre fui chamada de bruxa. Em tempos longínquos me clamavam de princesa. Nem
sempre detive feições doentias e cicatrizes pútridas. Já fui a dama mais desejada de minha Terra. Vim de
uma linhagem de antigos reis. Guerreiros por natureza. Senhores de si e do mundo em que viviam.
Tínhamos nossas festas e banquetes. Nossas cerimônias triunfais. Nossas batalhas e vitórias. A riqueza não
estava apenas em nossa Terra: estava em nosso sangue. E assim vivemos por séculos. Até que certo dia, do
além-mar, uma doença nos sobreveio. Fomos amaldiçoados. O diabo tomou para si vestes brancas e cruzou
nosso reino nos destruindo por completo. Aprisionou-nos, fazendo de nós bruxas e feiticeiros.
Peguei-me atento ao que a mulher me dizia. Não conseguia desvendar o que almejava ao me contar
tais eventos. Se a bruxa tentava me enfeitiçar com suas palavras, estava de alguma forma tendo sucesso.
— Você culpa o diabo então por suas maldades?
Interroguei um tanto aflito. Desejava agora não mais correr, e sim, descobrir como alguém poderia
tornar-se tão vil a ponto de passar a ser uma bruxa. E continuei:
— Bem sei que para realizar um pacto com o demônio é preciso aceitá-lo de bom grado.
— E o que você toma por diabo, Corin, meu tolo?
Sua voz parecia ferver entre os dentes, com furor que ainda não havia visto até então.
— Não sou uma bruxa por ter feito um pacto com o demônio. Eu o sou pois o mal que percorre seu
coração me torna bruxa em seus olhos. Serei uma maldição em sua vida até que entenda que a sombra não
está comigo: está com você. Sou uma bruxa, pois você decidiu que eu fosse. Em você eu o vejo outra vez: o
diabo em vestes brancas.

***

Acordei com o som dos pássaros marinhos cantando no céu de azul intenso que iluminava a
silenciosa cabine do navio. Minha cabeça latejava com pensamentos tortuosos que assolavam meu interior.
Levantei-me, armado de pena e pergaminho, e desatei a escrever o misterioso sonho que tive naquela noite.
O negreiro chegará brevemente em terra. Espero ter tempo suficiente para desvendar o que tudo isso
significa.

Sobre o Autor

Filipe Lisbôa nasceu em setembro de 1999, no Rio de Janeiro. Criado em uma cidade interiorana,
teve sua infância marcada pela imaginação e rodeada por brincadeiras de espada e magia. Muito
influenciado por sua avó, que lhe contava as tradicionais histórias da carochinha, sempre fora incentivado à
leitura. Instrumentista desde a juventude, iniciou sua jornada literária através da composição musical,
rumando então para a poesia, autoria de contos, e agora aspira por um primeiro romance.

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