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Mortalidade Infantil e Infanto-Juvenil em Moçambique

Manuel André Joaquim
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CAPÍTULO 7

MORTALIDADE INFANTIL E INFANTO-JUVENIL

Os níveis e tendências da mortalidade infantil (nos seus componentes neonatal e pós-neonatal) e


infanto-juvenil estão intrinsecamente inter ligados às condições demográficas, sócio-económicas, culturais
e ambientais de cada país. Eles são considerados um dos melhores indicadores do nível de desenvolvimento
duma população. Neste contexto, o conhecimento da mortalidade infantil e infanto-juvenil é indispensável
para a tomada de decisões e implementação de programas e políticas públicas na área de saúde.

Este capítulo começa por apresentar informações sobre os níveis, tendências e diferenciais da
mortalidade neonatal, pós-neonatal, infantil e na infância. Estas informações poderão ser usadas para
projecções populacionais, além de servir de instrumento de identificação dos sectores populacionais expostos
a altos riscos de mortalidade. O capítulo conclui com uma análise das relações entre os riscos de
sobrevivência destes grupos de crianças e a fecundidade das mães em idades jovens e mais velhas, incluindo
os efeitos dos intervalos curtos entre os nascimentos e a alta parturição sobre essa mesma sobrevivência.

Neste sentido, o conhecimento da mortalidade infantil e infanto-juvenil, bem com a materna, são de
extrema importância para a tomada de decisões e implementação de programas e políticas públicas na área
de saúde.

7.1 Metodologia e qualidade dos dados

Para o cálculo dos níveis e tendências da mortalidade infantil e na infância, o IDS recolheu-se dados
sobre a história de nascimentos de cada uma das mulheres entrevistadas. Para tal, perguntou-se à cada mulher
o número total de filhos, isto é, o número de filhos e filhas que viviam com ela, residiam noutro lugar e
aqueles (as) que já faleceram. No caso destes últimos, registou-se a idade que tinham quando faleceram,
usando-se três alternativas de resposta: em dias, para os que faleceram durante o primeiro mês de vida, em
meses, para os que faleceram entre 1 a 23 meses e em anos, para os que morreram depois de completar os
2 anos.

Estes dados permitem calcular, para períodos determinados, os seguintes indicadores:

• Mortalidade neo-natal (NN): probabilidade de morrer durante o primeiro mês de vida, (de
0 a 30 dias);

• Mortalidade pós-neonatal (PNN): probabilidade de morrer depois do primeiro mês de


vida, porém antes de completar o primeiro aniversário (1-11 meses);

• Mortalidade infantil (1 q0 ): probabilidade de morrer durante o primeiro ano de vida (0-11


meses);

• Mortalidade pós-infantil (4 q1 ): probabilidade de morrer entre o primeiro e o quinto


aniversário (12-59 meses);

• Mortalidade infanto-juvenil (5 q0 ): probabilidade de morrer antes de completar cinco anos


de vida (0-59 meses).

119
À semelhança de outras variáveis demográficas, a mortalidade está sujeita a erros de declaração. A
confiabilidade das estimativas de mortalidade depende dos níveis de omissão de filhos falecidos
imediatamente após o nascimento, especialmente quando os óbitos ocorreram muitos anos antes do inquérito.
Além disso, é igualmente importante, a qualidade diferencial da declaração das datas de nascimento dos
filhos sobreviventes e dos filhos falecidos, bem como das respectivas idades.

Nos inquéritos de outros países observou-se uma tendência das mães a arredondarem para 1 ano (12
meses) a idade do filho ao morrer, ainda que este não tenha falecido exactamente aos 12 meses, mas sim nos
meses próximos à essa idade. Esse arredondamento para o mês doze produz uma grande concentração de
óbitos nesse mês. No caso do IDS, tal concentração ocorreu abaixo da média. Quando o evento ocorreu aos
10 ou 11 meses de vida, o arredondamento para doze pode originar uma subestimativa da mortalidade
infantil (1 q0 ) e uma sobrestimativa da mortalidade pós-infantil (4 q1 ).

Como a recolha de dados teve lugar entre Março e Junho de 1997 as taxas de mortalidade foram
calculadas em períodos quinquenais correspondentes aos anos calendários 1972-1977, 1977-1982, 1982-
1987, 1987-1992 e 1992-1997.

7.2 Níveis e tendências da mortalidade

O Quadro 7.1 apresenta as taxas de mortalidade neonatal, pós-neonatal, infantil, pós-infantil e


infanto-juvenil, para cinco períodos quinquenais que precedem ao inquérito, o que permite observar as
tendências nos últimos 25 anos.

As taxas de mortalidade apresentadas no Quadro 7.1 e no Gráfico 7.1, embora não resultem pouco
coerentes com a situação esperada no marco histórico da tendência da mortalidade nos países menos
desenvolvidos, reflectem os efeitos combinados da conjuntura sócio-económica, politico-militar então
vigentes, assim como das calamidades naturais que assolaram o País durante o período em análise. A queda
da mortalidade observada nos primeiros anos da Independência Nacional, reflecte os efeitos da política de
saúde que procurou ampliar a sua cobertura à todas camadas sociais, da universalização da educação e de
outras expressões do desenvolvimento. Esta tendência foi interrompida durante a década de 80 até
aproximadamente a altura do Acordo Geral de Paz em 1992, para depois paulatinamente iniciar o declínio.

Durante o período mais recente (0-4 anos, ou seja, entre 1992-1997), 2 em cada 10 crianças (201 por
mil) morreram antes de atingir o seu quinto aniversário de vida. Em cada 1.000 nascimentos, 135 morreram
antes de completar o primeiro aniversário, 77 faleceram entre o primeiro e o quinto ano de vida. Em relação
os menores de um ano, a probabilidade de morrer durante o primeiro mês de vida é de 54 por mil e à de
morrer entre o primeiro e décimo segundo mês exacto é de 81 por mil.

Quadro 7.1 Mortalidade infantil e na infância

Taxas de mortalidade neo-natal, pós neo-natal, infantil, pós-infantil e infanto-juvenil para


períodos quinquenais anteriores ao inquérito, Moçambique 1997
_________________________________________________________________________
Anos Mortalidade Mortalidade Mortalidade Mortalidade Mortalidade
anteriores neonatal pós-neonatal infantil pós-infantil Infanto-juvenil
ao inquérito (NN) (PNN) (1 q 0 ) (4 q 1 ) (5 q 0 )
_________________________________________________________________________
0-4 54 81 135 77 201
5-9 60 102 161 92 238
10-14 57 79 136 78 204
15-19 46 87 133 72 195
20-24 87 77 164 104 250

120
Dum modo geral neste período de 25 anos, entre 1972 e 1997, as taxas de mortalidade mostram uma
diminuição no inicio do período, de 1972-1977 a 1977-1982, mas de 1982 em diante as taxas se mantiveram
praticamente invariáveis. No período 5-9 anos que precederam ao inquérito, correspondente aos anos 1987-
1992, se evidencia uma subida pronunciada nos níveis de mortalidade pós-neonatal, infantil e pós-infantil.
Assim, do período de 10-14 anos precedentes (1982-1987) ao período de 5-9 anos precedentes (1987-1992)
a mortalidade infantil passa de 136 por mil a 161 por mil, e a mortalidade pós-infantil passa de 78 por mil
a 93 por mil. Vários factores conjunturais provavelmente contribuíram para este incremento na mortalidade.
Deve-se recordar que durante o período em análise o País foi afectado pela guerra e por várias calamidades
naturais: cheias, secas, ciclones, entre outros, que teriam dificultado a produção e distribuição de alimentos.

No Gráfico 7.1, pode-se apreciar o facto de que, ao contrário do que se observou na maioria dos
países em vias de desenvolvimento, incluindo os da África subsahariana, em Moçambique, os níveis de
mortalidade nantiveram-se praticamente constantes. Quer dizer, em 25 anos, os níveis de mortalidade
reduziram muito menos do que se poderia esperar e que são praticamente iguais aos observados na altura
da Independência Nacional em 1975.

7.3 Diferenciais da mortalidade

Para a análise dos diferenciais da mortalidade é recomendável ampliar o período de referência para
um período de 10 anos anteriores à data do inquérito (1987-1997), devido a que o tamanho da amostra é
insuficiente para proporcionar estimativas confiáveis para um período de 5 anos nalgumas características
estudadas.

Os resultados por características sócio-económicas (área de residência, províncias, nível de


escolaridade) apresentam-se no Quadro 7.2 e no Gráfico 7.2. Os resultados por características bio-
demográficas apresentam-se no Quadro 7.3 e no Gráfico 7.3.

121
Quadro 7.2 Mortalidade infantil e na infância por características sócio-económicas

Taxas de mortalidade neo-natal, pós neo-natal, infantil, pós-infantil e infanto-juvenil para o período de dez
anos anteriores à pesquisa, por características sócio-económicas, Moçambique 1997
__________________________________________________________________________________
Mortalidade
Mortalidade Mortalidade Mortalidade Mortalidade infanto-
Característica neonatal pós-neonatal infantil pós-infantil juvenil
sócio-económica (NN) (PNN) (1 q 0 ) (4 q 1 ) (5 q 0 )
__________________________________________________________________________________
Residência
Urbana 55 46 101 55 150
Rural 57 103 160 92 237

Província
Niassa 68 66 134 91 213
Cabo Delgado 45 79 123 47 165
Nampula 85 131 216 132 319
Zambézia 44 85 129 63 183
Tete 73 88 160 146 283
Manica 34 57 91 74 159
Sofala 61 112 173 83 242
Inhambane 57 94 151 49 193
Gaza 40 95 135 85 208
Maputo 53 39 92 60 147
Maputo Cidade 27 22 49 51 97

Nível de escolaridade
Sem escolaridade 60 95 156 87 229
Primário 56 88 144 82 214
Secundário ou mais (13) 59 73 54 123
1
Atendimento médico
Nenhum no pré-natal 55 55 109 - -
e parto
No pré-natal ou no parto 20 92 111 - -
No pré-natal e no parto 29 50 80 - -

Total 57 91 147 83 219


_________________________________________________________________________________
Nota: Taxas baseadas em menos de 500 casos não ponderados estão entre parênteses e aquelas baseadas em
meno s de 250 casos não são mostradas.
1
Taxas baseadas nos nascimentos ocorridos nos cinco anos anteriores ao inquérito

Os níveis de mortalidade mais elevados observam-se nas crianças cujas mães residem nas áreas
rurais ou não têm nenhum nível de escolaridade. Por exemplo, a taxa de mortalidade infantil é de 103 por
mil nas áreas urbanas contra 160 por mil nas rurais; de 73 por mil nas crianças cujas mães têm nível
secundário ou mais contra 156 por mil naquelas cujas mães nunca foram à escola.

A nível de províncias, a Cidade de Maputo- a Capital e a mais urbanizada do País- apresenta níveis
de mortalidade mais baixos, a mortalidade infantil, por exemplo, é estimada em 49 por mil. No outro
extremo, a Província de Nampula apresenta níveis de mortalidade mais elevados; estima-se que em cada 10
nascimentos 2 não alcançam o primeiro aniversário de vida e 3 não atingem o seu quinto aniversário.

122
No Quadro 7.3 apresenta-se os resultados por sexo, idade da mãe, ordem de nascimento, intervalo
inter genésico, atendimento médico e tamanho da criança ao nascer. Observa-se que, entre o nascimento e
o quinto aniversário, a mortalidade masculina é, como na maioria das populações, superior a do sexo
feminino. Em cada 1,000 nascimentos do sexo masculino, 225 não atingem o quinto aniversário, contra 213
nascimentos do feminino. A diferença segundo o sexo evidencia-se já no primeiro mês de vida, durante o
qual a mortalidade entre as crianças do sexo masculino é de 60 por mil, contra 54 por mil do feminino.

Outra característica apresentada no Quadro 7.3 é a idade da mãe. O padrão que se observa é o típico,
quer dizer, níveis de mortalidade elevados nas crianças de mães muito jovens (menores de 20 anos), menores
riscos para crianças cujas mães têm idades intermediárias (entre 20 e 39 anos), e, aumento importante de
risco nas idades mais avançada (acima dos 40 anos), configurado uma curva em forma de “J”. Os resultados
do IDS, não são consistentes com a tendência geral. Como era de esperar, a mortalidade infantil é mais
elevada entre as crianças de mães menores de 20 anos. Contudo, o contrário do que se observa geralmente,
o avanço da idade da mãe não está associado a um aumento na mortalidade infantil. Assim, a mortalidade
infantil é de 146 por mil nas crianças com mães de 20-29 anos, contra 133 por mil nas crianças de mães de
40-49 anos.

O número de ordem de nascimento também afecta as probabilidades de morrer de uma criança. O


padrão tipo de relação entre o número de ordem de nascimento e a mortalidade infantil também tem a forma
de “J”. Quer dizer, o risco de morrer é elevado para os nascimentos de primeira ordem, diminui nos de
ordem subsequentes, mas a partir do quarto aumenta em função do número total. Isto tem sido atribuído não
só aos mecanismos biológicos, o facto de que as mulheres com muitos filhos sofrem um maior desgaste
físico e nutricional, mas também a mecanismos sociais, como aqueles vinculados às precárias condições de
vida que caracterizam as mulheres de parturição elevada. No caso de Moçambique, observa-se esta
tendência: a mortalidade infantil é de 174 por mil nas crianças de primeira ordem, de 140 por mil nas de
segunda e terceira ordem, e de 146 por mil nas crianças de ordem de 7 ou mais. A mortalidade infanto-

123
Quadro 7.3 Mortalidade infantil e na infância por características bio-demográficas

Taxas de mortalidade neo-natal, pós neo-natal, infantil, pós-infantil e infanto-juvenil para o período de dez
anos anteriores ao inquérito, por características demográficas, Moçambique 1997
___________________________________________________________________________________
Mortalidade Mortalidade Mortalidade Mortalidade Mortalidade
Características neonatal pós-neonatal infantil pós-infantil infanto-juvenil
demográficas (NN) (PNN) (1 q 0 ) (4 q 1 ) (5 q 0 )
___________________________________________________________________________________
Sexo da criança
Masculino 60 93 153 84 224
Feminino 54 88 141 82 212
Idade da mãe na época
do nascimento
Menor 20 63 107 170 76 233
20-29 58 89 146 84 218
30-39 46 84 130 93 211
40-49 71 62 133 61 186
Ordem de nascimento
1 77 97 174 67 229
2-3 53 87 140 77 207
4-6 50 87 136 90 214
7+ 48 99 146 114 243
Intervalo do nascimento
anterior
< 2 anos 78 135 212 122 308
2-3 anos 47 78 125 84 199
4 ou mais 18 57 75 52 124
1
Tamanho ao nascer
Muito pequeno - - - - -
Pequeno 39 78 118 - -
Médio ou grande 24 59 83 - -
___________________________________________________________________________________
Nota: As taxas baseadas em menos de 250 casos não são mostradas.
1
Taxas são baseadas nos nascimentos ocorridos nos últimos três anos anteriores ao inquérito.

124
juvenil (5 q0 ) está mais claramente de acordo ao padrão esperado. Esta é de 229 por mil nas crianças da
primeira ordem, reduz a 207 por mil nas crianças da segunda e terceira ordem, e passa a 243 por mil nas
crianças de sétima ordem ou mais.

Os níveis de mortalidade por duração do tempo decorrido entre um nascimento e o seguinte,


permitem apreciar outro aspecto importante relacionado com a fecundidade e a mortalidade infantil. Um
intervalo menor de 24 meses entre os nascimentos representa um factor universal de alto risco, pois não
permite a mulher recuperar totalmente as suas capacidades fisiológicas e pouco é o tempo que ela tem para
dispensar cuidados aos seus filhos. Os nascimentos muito seguidos aumentam a probabilidade de ter crianças
de baixo peso ao nascer, maior exposição às doenças e por conseguinte, menor é a probabilidade de
sobrevivência. Por outro lado, um intervalo curto também conduz à um desmame abrupto e precoce, o que
poderá resultar numa desnutrição, doenças diarréicas e respiratórias nas crianças.

Estimativas baseadas no IDS indicam que a mortalidade neonatal em nascimentos com menos de
24 meses de intervalo (78 por mil) é 66 % mais elevada do que nos ocorridos com um espaçamento de 2-3
anos, e quatro vezes mais elevada do que os nascidos com um intervalo de 4 anos ou mais. A mortalidade
infantil também reduz de 212 por mil em nascimentos com menos de 24 meses de intervalo a 75 por mil
quando o intervalos é de 4 anos e mais, o que significa que o risco de morrer reduz mais de um quarto.

O Quadro 7.3 revela ainda um outro dado importante, que é o efeito da ausência do pré-natal e do
atendimento médico durante a gestação. Filhos de mulheres que não tiveram nenhum desses serviços têm
probabilidades de morrer antes do primeiro aniversário superiores a 109 óbitos por mil nascimentos,
enquanto que para as mulheres que o tiveram essas probabilidades reduzem para 80 por mil, ou seja, uma
mortalidade quase 30 % menor.

No momento do inquérito, perguntou-se também à cada mãe para dar a sua opinião sobre o tamanho
da sua criança à nascença (se ela era muito grande, grande, média, pequena, ou muito pequena). Apesar de
que esta é uma avaliação subjectiva da mãe, os resultados mostram que a mortalidade está associada ao
tamanho da criança à nascença descrita pelas mães. A mortalidade infantil reduz de 118 por mil nas crianças
pequenas a 83 por mil naquelas com tamanho médio ou grande.

Em resumo, os diferenciais de mortalidade analisados mostram claramente os riscos para a criança


resultantes da fecundidade precoce, do intervalo inter genésico muito curto e do tamanho pequeno do
nascimento.

7.4 Grupos de alto risco

Com o objectivo de sintetizar os factores apresentados nas secções anteriores, bem como para
facilitar a identificação dos grupos de maior risco de mortalidade, no Quadro 7.4 mostra-se as categorias de
elevado risco reprodutivo, por percentagem de nascimentos ocorridos nessas categorias nos últimos três anos
anteriores ao inquérito, e percentagem de mulheres em união e com probabilidades de conceber um filho com
elevado risco de morrer. A razão de risco, apresentada na segunda coluna do Quadro 7.4, define-se como
o quociente entre a proporção de crianças falecidas em cada categoria de risco elevado e a proporção das
falecidas de mulheres com nenhuma categoria de risco.

Normalmente, considera-se como de risco elevado os nascimentos que ocorrem nas seguintes
condições:

125
• Idade da mãe inferior a 20 anos ou superior a 40 ao nascimento da criança. É sabido que
para mulheres que têm filhos nas idades muito jovens e/ou nas mais avançadas, os seus
filhos têm poucas possibilidades de sobreviverem do que daquelas que têm os seus filhos
nas idades intermediárias;

• Intervalo inter genésico inferior a 24 meses. Este é o factor de risco mais importante que
actua sobre a mortalidade infantil, mesmo na presença de controles associados ao
comportamento reprodutivo, tais como idade materna e parturição;

• Ordem de nascimento superior a três filhos. Como já foi mencionado, estudos em


numerosos países mostraram a relação entre a parturição e a mortalidade infantil,
configurando uma curva de “U” ou “J”.

Quadro 7.4 Grupos de alto risco

Porcentagem de crianças nascidas nos últimos cinco anos com risco elevado de mortalidade e
porcentagem de mulheres actualmente unidas em risco de conceber uma criança com risco elevado
de mortalidade, segundo as categorias que aumentam o risco, Moçambique, 1997
___________________________________________________________________________
Nascimentos
nos últimos 5 anos
anteriores à pesquisa
____________________
Porcentagem Porcentagem
de de mulheres
a
Categoria de risco elevado nascimentos Risco unidas
___________________________________________________________________________
b
Sem risco elevado 28.3 1.00 16.9

Risco não evitáveis 12.7 1.61 8.1

Categorias de risco evitáveis


Categorias simples de risco 39.8 1.29 35.2
Idade da mãe < 18 10.2 1.59 3.2
Idade da mãe > 34 0.9 1.84 4.4
Intervalo de nascimento (IN) < 24 5.2 2.33 9.5
Ordem de nascimento (ON) > 3 23.6 0.92 18.1

Categorias de riscosc múltiplos 19.3 1.50 39.8


Idade <18 e IN <24 0.7 4.43 0.6
Idade >34 e IN <24 0.1 0.00 0.2
Idade >34 e ON >3 10.1 1.03 23.4
Idade >34, IN <24 e ON >3 1.9 1.06 3.7
IN <24 e ON >3 6.5 2.06 11.9

Em qualquer categoria de risco 59.1 1.36 75.0

Total 100.0 - 100.0


Número 7,340 - 6,530
___________________________________________________________________________
Nota: O risco é a razão entre a proporção de crianças falecidas pertencentes a alguma categoria
específica de risco elevado e a proporção daquelas que não pertencem a nenhuma categoria específica
do risco elevado.
NA = Não se aplica
a
As mulheres foram classificadas na categoria de risco elevado de acordo com a condição em que se
encontrariam por ocasião do nascimento do filho, considerando-se que tivessem concebido na época
da pesquisa com idade menor que 17 anos e 3 meses e maior que 34 anos e 2 meses, o último
nascimento vivo ocorreu durante os últimos 15 meses e último nascido vivo era de ordem 3 ou maior.
b
Inclui mulheres esterilizadas
c
Inclui as categorias combinadas idade < 18 e ON > 3

126
Tomando em conta estes grupos foram construídas categorias especiais de risco, individuais ou
combinando duas ou mais entre.

Apesar de que os primeiros nascimentos apresentam, em muitas populações, riscos elevados de


mortalidade, não foram incluídos no Total das categorias de elevado risco porque são considerados com um
risco inevitável e tão pouco são levados em conta no cálculo do denominador para as razões de risco.

Dos resultados do Quadro 7.4 depreende-se que apenas 28 % de nascimentos ocorridos nos últimos
cinco anos precedentes à data do inquérito correspondem à nenhuma categoria de risco elevado, 13 % à
categoria de risco inevitável, ou seja, a ordem de primeiro nascimento, e a maioria (59 %) correspondem
à categorias de risco de mortalidade (dos quais 40 % pertencem às categorias de risco único e 19 % à de
riscos múltiplos). Entre os nascimentos com um único risco de mortalidade (Gráfico 7.4), a maior
percentagem (24 %) observa-se entre as mães cuja ordem de nascimentos dos filhos é superior a três (24 %).
Seguem em importância como categoria de riso elevado os nascimentos de mães cuja a idade é inferior a
18 anos (10 %).

Entre as categorias de riscos múltiplos, os maiores riscos encontram-se nas mães com idade superior
a 34 anos e intervalo inter genésico inferior a 24 meses (10 %) seguido daquelas que ademais destas
condições têm uma ordem de nascimentos superior a 3 filhos (7 %).

Para avaliar o risco suplementar de morrer a que estão sujeitos as crianças decorrente de certos
comportamentos reprodutivos das mães, calculou-se a razão de risco. O risco de morrer antes do quinto
aniversário é 60 % mais elevado que o duma criança que não pertence a uma categoria de risco elevado. As
crianças nascidas com um intervalo de nascimento inferior a 24 meses registam um risco mais de duas vezes
superior ao das que não pertencem a uma categoria de risco elevado. Em relação aos riscos múltiplos,
constata-se que a maior razão de risco regista-se entre as crianças cujas mães têm uma idade inferior a 20
anos e o intervalo inter genésico é inferior a 24 meses: o risco de morrer duma criança nascida nesta situação
é quatro vezes superior ao de outra que não pertence a uma categoria de risco elevado. Isto mostra que a
fecundidade precoce e um menor intervalo entre os nascimentos aparecem como um factor de risco muito
importante, o que, por sua vez mostra a importância de promover a planificação familiar para evitar
gravidezes prematuras e para fomentar o espaçamento entre os nascimentos.

A partir da análise do comportamento reprodutivo de elevado risco (Quadro 7.4), estimou-se a


proporção de mulheres actualmente em união conjugal que, potencialmente, poderiam ter um nascimento
de altos riscos. Partindo da idade actual das mulheres, do intervalo decorrido depois do último nascimento
e da ordem destes, determinou-se em que categoria se encontrará o próximo nado vivo. Trata-se dum
simulação que tem por objectivo de determinar, na ausência de comportamento regulador da fecundidade,
a proporção de futuros nascimentos de altos riscos. De acordo com os resultados do inquérito, três quartos
das mulheres entrevistadas (75 %) estão em risco de conceber um nascimento de elevado risco, nitidamente
superior ao daquelas da categoria com nenhum risco (17 %).

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