0% acharam este documento útil (0 voto)
12 visualizações19 páginas

Semiótica e Estética no Design

Enviado por

titidesigns98
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
12 visualizações19 páginas

Semiótica e Estética no Design

Enviado por

titidesigns98
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

ESTÉTICA E SEMIÓTICA

APLICADA AO DESIGN
AULA 6

Prof. Humberto Costa


CONVERSA INICIAL

Até aqui, angariamos uma série de conhecimentos. Tais conhecimentos,


quando aplicados, nos permitirão ler o mundo com mais profundidade, nos
afastando de conceitos prontos, determinados e muitas vezes
institucionalizados. O caminho trilhado até aqui foi árduo e exigiu uma abertura
de pensamento considerável, mas você, aluno, só teve e só tem a ganhar com
tal esforço.
No início das aulas, adquirimos conhecimentos básicos sobre a estética e
a semiótica. Pouco a pouco, fomos nos aprofundando e tomamos contato com
elementos mais complexos. Nesse percurso, certamente você começou a ver
que os fenômenos nos oferecem muito mais do que aparentemente revelam. Por
exemplo, o desequilíbrio em um texto, o peso das cores de uma fotografia ou um
simples borrão de tinta em uma composição gráfica podem estar repletos de
significados que somente o olhar atento e treinado poderá perceber.
À medida que nos livrarmos de preconceitos ao ler o mundo, buscando
nessa leitura as qualidades, singularidades e generalidades dos fenômenos, um
universo de possibilidade nos avizinha. É essa capacidade de enxergar em
profundidade e de fazer conexões sagazes que o diferenciará como profissional,
e é isso que buscamos aqui.

CONTEXTUALIZANDO

Nós somos testemunhas das mudanças rápidas e significativas que


ocorrem em nosso mundo e que são originárias das inúmeras inovações. Novos
desafios surgem diariamente, e para enfrentá-los, temos de exercitar nossa
flexibilidade cognitiva, ou seja, exercitar a capacidade de remodelar o nosso
modo de pensar, descobrindo maneiras distintas para solucionarmos os
problemas cotidianos.
Ademais, considerando a grande quantidade de dados com que lidamos
atualmente, é cada vez maior a necessidade de profissionais capazes de fazer
a leitura e interpretação dessas informações de maneira a respaldar a tomada
de decisões assertivas e sagazes.
Outro fator importante diz respeito à criatividade. O profissional criativo
tem a capacidade de conectar informações aparentemente desconexas e, a

2
partir desta conexão, arquitetar ideias inovadoras para apresentar algo
realmente novo. Ora, ainda que a inteligência artificial esteja ganhando relevo,
nada supera a nossa capacidade criativa.
Temos de considerar, também, nossa capacidade de pensar de forma
crítica e de solucionar problemas complexos. O pensamento crítico envolve
raciocínio e lógica e a solução de problemas complexos diz respeito à nossa
capacidade de solucionar problemas indefinidos e está sustentada por uma base
sólida de pensamento crítico.
A partir de tais considerações, vamos aprender a elaborar uma leitura
estético-semiótica ou também chamada de análise semiótica. O intuito de uma
análise semiótica é o de melhorar nossa capacidade de leitura e de criação de
mensagens sagazes e assertivas. Com isso, estamos forjando qualitativamente
nossa identidade profissional.

TEMA 1 – A RELAÇÃO ENTRE SEMIÓTICA E ESTÉTICA

Conforme foi exposto no decorrer das aulas, a semiótica e a estética se


relacionam com as diversas formas que o ser humano usa para se comunicar.
As linguagens, sejam elas verbais ou não verbais, são objetos de estudo tanto
da estética quando da semiótica.
Pela via peirceana, a estética, uma das ciências normativas, tem por
propósito descobrir o que deve ser o ideal maior da vida humana e indagar sobre
qual é o estado de coisa que é admirável por si só, sem relação com qualquer
razão vindoura (Santaella, 2001). A estética, com o passar dos tempos, foi
paulatinamente relacionada apenas a aparência e a beleza. Quando vemos
alguém falar sobre a estética de um objeto, vemos a redução do termo aos
aspectos que se apresentam fisicamente e, em muitos dos casos, dirigidos
apenas à visão. Mas em sua origem, o termo estética se liga a um tipo de
conhecimento que é obtido por intermédio dos sentidos, e por serem os sentidos
a nossa vida de acesso ao mundo (ou ao que chamamos de realidade), o
conhecimento estético é construído mediante a junção dos sentidos, do corpo e
da mente humana.
Já a semiótica, outra das ciências normativas, é a ciência que busca as
condições necessárias para se atingir a verdade. Ela também se volta para as
condições necessárias para a transmissão de significado de uma mente para

3
outra (Santaella, 2001). Assim, a semiótica é a ciência das leis necessárias do
pensamento.
O homem vive em sociedade, e esta vida em sociedade só é possível por
intermédio da comunicação. Para se comunicar, o homem cria e utiliza as
linguagens verbais e não verbais. Se o que conhecemos do mundo (ou da
realidade) nos chega por intermédio dos sentidos e é processado pela mente,
então temos aqui a ligação íntima entre a estética e a semiótica. Ambas estão,
ao fim e ao cabo, trabalhando em conjunto para possibilitar a comunicação.
Claro, estamos falando de uma comunicação em sentido amplo, que se dá tanto
no nível intrapessoal (do indivíduo para consigo mesmo) quanto no nível
interpessoal (do indivíduo para os outros).
Os ideais estéticos e semióticos voltam-se para os signos e permitem que
compreendamos as palavras, as imagens, os sons, bem como todas as
dimensões e tipos de manifestações. Ora, na comunicação não há mensagem
sem signos e, sem mensagem, não haverá comunicação. É por esse motivo que
a semiótica nos auxilia na compreensão do potencial comunicativo de todos os
tipos de mensagem e nos efeitos que elas estão aptas a produzir na mente dos
indivíduos.
A conjunção entre a estética e a semiótica nos habilita a ver os fenômenos
de forma sensível, singular e pragmática, e isso nos possibilita mergulhar nos
aspectos mais profundos de uma manifestação fenomênica. Ora, sabemos que
as leis da gravidade atuam desde os primórdios da existência do nosso planeta
terra, mas por qual motivo a humanidade teve de esperar tanto para que alguém
pudesse descrevê-las (Isaac Newton, 1687)? Embora a pintura caminhe com a
humanidade há milênios, somente um movimento mostrou a dimensão que
existe, mas que até então, não podia ser vista: o cubismo.
É fato que a estética e a semiótica, sem uma mente preparada, quase
nenhuma serventia tem. Para que possamos analisar semioticamente qualquer
fenômeno, temos de ter conhecimento de linguagens que permitam embasar tal
manifestação fenomênica. Por exemplo: para analisar uma fotografia, temos de
conhecer a linguagem fotográfica. Para analisarmos um cartaz, temos de
conhecer a linguagem gráfica. Para analisarmos uma construção, temos de
conhecer a linguagem arquitetônica, e assim por diante. Quanto mais linguagens

4
um indivíduo dominar, maior será seu poder de identificar relações e
interrelações entre estas linguagens.
Ainda, para enriquecer nosso repertório, é importante nutri-lo com
diferentes experiências. Há inúmeras maneiras de se fazer isso, seja lendo um
livro, fotografando ambientes, pessoas etc., desenhando, colorindo,
conversando com uma pessoa mais experiente, aprendendo algo novo em uma
aula, viajando, contemplando algo, e assim por diante. Vemos, assim, que o
primeiro investimento para ampliar nosso repertório está na força de vontade.
Uma outra forma de enriquecer nosso repertório é empreender uma
análise semiótica de algum fenômeno que nos interessa. O motivo é que, por
intermédio de tal análise, mergulhamos na intimidade do fenômeno e tomamos
conhecimento das razões de sua existência. Tudo o que estudamos até aqui nos
trouxe para esse patamar e veremos, a seguir, como aplicar o conhecimento
adquirido.

TEMA 2 – ANÁLISE SEMIÓTICA DE UMA LOGOMARCA

Absolutamente, qualquer fenômeno pode ser semioticamente analisado.


Desde um suspiro, um filme ou uma teoria da física quântica. Não importa a
complexidade ou a simplicidade do fenômeno. O que importa é a existência do
fenômeno.
Uma análise semiótica, na fase da significação (ou representação)
mergulha no interior das mensagens para captar três aspectos importantes. O
primeiro aspecto é atribuído à qualidade e à sensorialidade. Por exemplo, na
linguagem visual, as cores, as linhas, as formas, os volumes, os movimentos e
a luz. O segundo aspecto está relacionado à mensagem em sua particularidade
em um determinado contexto. O terceiro aspecto se refere àquilo que a
mensagem possui em termos de generalidade, de forma convencional.
Na fase da referência, uma análise semiótica possibilita que
compreendamos aquilo a que as mensagens indicam, se referem ou se aplicam.
Há também três aspectos: o primeiro origina do poder sugestivo tanto sensorial
como metafórico das mensagens; o segundo origina do poder denotativo das
mensagens (capacidade para indicar algo que está fora delas); já o terceiro
aspecto origina da capacidade das mensagens para representar ideias abstratas
e convencionais (Santaella, 2001).

5
Na fase da interpretação, a análise semiótica possibilita que examinemos
os efeitos que as mensagens podem causar no receptor. Tais efeitos são
classificados em três tipos: emocionais (o receptor é tomado por um sentimento
mais ou menos definido), reativos (o receptor é levado a agir em função da
mensagem recebida) e mentais (a mensagem faz o receptor refletir sobre algo).
Para os nossos propósitos, vamos nos voltar para alguns signos ligados
ao campo da comunicação. O primeiro signo a ser analisado é a logomarca da
empresa japonesa Kumon, presente na Figura 1.

Figura 1 – A logomarca da Kumon

Créditos: Air Elegant/Shutterstock.

O que caracteriza um signo é qualquer desenho que determinados


indivíduos entendem como sendo a representação de alguma coisa além dele
próprio. O signo pode ser um sinal gráfico que representa um nome, uma ideia,
um produto ou mesmo um serviço. Nesse horizonte, uma logomarca torna-se um
elemento relevante na formação de uma imagem institucional. A logomarca tem
a função de representar a marca da qual esta faz parte. Podemos dizer que uma
logomarca é o rosto dos negócios, especialmente por causa da evolução
ocorrida na era da informação, na qual a publicidade das empresas vem sendo
amplamente ampliada.

6
A empresa Kumon atua no âmbito da educação e utiliza o método criado
pelo professor Toru Kumon, em 1950 (Kumon, 2020). O professor, com o
propósito de auxiliar seu filho, Takeshi Kumon, a ganhar independência, criou
seu próprio material didático e método de estudo (Kumon, 2020).
Examinando o signo e considerando o ponto de vista estético, podemos
identificar um retângulo, um texto centralizado, um desenho circular irregular e
um texto. As cores utilizadas são frias, sendo o azul-claro, pouco saturado. Há a
presença de uma textura lisa em toda a composição. Há um desenho em que
podemos identificar uma configuração esquemática que lembra um rosto
humano. As linhas presentes na composição são retas e anguladas. Não há
presença de volume. A direção respeita a leitura da cultura ocidental: da
esquerda para a direita. A distribuição no espaço é harmoniosa. Embora possa
apresentar um pequeno desequilíbrio pela presença do desenho, se dividirmos
a imagem ao meio (vertical e horizontal), podemos identificar que a imagem se
equilibra bem. A composição apresenta uma boa pregnância da forma e os
elementos estão perfeitamente unificados.
Vimos que as cores carregam significações culturais e estão aptas a
despertar emoções nos indivíduos. A cor azul é a preferida entre as cores. É a
cor predileta de 46% dos homens e 44% das mulheres (Heller, 2013). O azul é
a cor de todas as características boas, de todos os sentimentos bons que estão
sob o domínio da compreensão mútua. Também, a cor azul é associada à
simpatia, à harmonia, à amizade e à confiança. O azul é o céu e, portanto, é
também a cor do divino (Heller, 2013). Já a cor preta, embora tenha uma
predominância de conotações negativas, também pode conotar saber,
seriedade, poder e elegância (Heller, 2013). Na composição que está sendo
analisada, pela combinação de cores, vemos ressaltar a seriedade e a elegância.

TEMA 3 – A LOGOMARCA DA EMPRESA KUMON: FUNDAMENTO, OBJETO


E INTERPRETANTES DO SIGNO

A logomarca da empresa Kumon é o signo que vamos analisar. Nossa


análise considerará, como visto anteriormente, a natureza triádica do signo.
Logo, serão analisados o poder de significação, o poder de referenciação e o
poder de produzir efeitos (interpretação) que o signo carrega.

7
Agora, seguindo o percurso para a realização de uma análise semiótica,
vamos para a primeira etapa: olhar para o signo e seu fundamento. Se a
logomarca é o signo, o fundamento do signo é tudo aquilo que a logomarca
representa. No nosso caso, estamos partindo de uma representação que poderia
ser chamada de placa de identificação. Todavia, devemos olhar para tudo aquilo
que é particular a uma logomarca: trazer à mente do público-alvo da empresa, a
imagem da empresa. O signo, a logomarca em questão, representa a empresa
Kumon para um determinado grupo de pessoas. Então, ela é capaz de
presentificar, de trazer o significado da instituição Kumon para um determinado
público: o público-alvo da empresa.
Primeiramente, vamos contemplar o signo, sem nos deter a aspectos
particulares, como o local e o suporte em que ele se encontra. Ao contemplá-lo,
vamos identificar as qualidades (quali-signos). Se necessário, volte a contemplar
o signo quantas vezes achar necessário e não deixe se levar pela vontade de
interpretá-lo imediatamente.
Os quali-signos presentes na logomarca são as cores preta e azul-claro,
os traços retos das letras e o traço do desenho na escrita Kumon. O equilíbrio
da composição também é qualidade importante que está presente na logomarca.
Agora, observando as singularidades do signo que está sendo analisado,
encontramos um desenho que está compondo o texto da palavra Kumon. Este é
um exemplo de singularidade, ou seja, um sin-signo.
Ao nos determos na busca pelo geral no particular, vamos encontrar os
legi-signos que estão presentes na logomarca. Os legi-signos são o texto escrito,
pois este é resultado de uma convenção. Também, o formato peculiar de uma
logomarca e a textura da composição são exemplos de legi-signos.
Essa primeira parte da análise é de especial importância, pois é ela que
nos fornece os elementos que nos permitirá identificar os demais elementos das
etapas subsequentes. Só assim poderemos compreender o poder sugestivo e
representativo do signo, bem como compreender os efeitos que o signo está apto
a produzir na mente daquele que o percebe. Portanto, não negligencie esta
primeira etapa.
Agora vamos nos concentrar em identificar os objetos do signo. O
segundo passo nos leva a nos concentrarmos no poder de sugestão e

8
representação do signo. Agora, vamos identificar o objeto dinâmico e o objeto
imediato do signo.
Como vimos, o objeto dinâmico determina o signo, mas só temos acesso
àquilo a que o signo representa pela mediação do objeto imediato. O objeto
imediato diz respeito ao modo como o objeto dinâmico se apresenta, está
indicado ou está representado no signo. Ele funciona como um indicador do
recorte que o intérprete faz no contexto (objeto dinâmico), que determina o signo.
Assim, o objeto dinâmico do signo logomarca Kumon diz respeito ao ato
de aprender e de questionar dos alunos. Só conseguimos identificar isso pela
mediação do objeto imediato, e vários elementos provam isso.
O aspecto mais interessante do objeto imediato está no seu aspecto
icônico (o fundamento é um quali-signo) e diz respeito a tudo aquilo que o ícone
é capaz de sugerir: aprendizado eficiente e questionamento. Ao olharmos para
o desenho que está presente na escrita Kumon. A cor preta sugere a ideia de
grafite, de escrita à lápis ou à caneta, instrumentos comumente usados por
estudantes. O símbolo circular, em formato de letra O, apresenta um traço
irregular e assemelha-se à escrita manual. Isso tudo mostra uma associação
interessante para a logomarca da empresa, uma vez que aproxima a qualidade
com o seu objeto: o desenho feito à mão livre. Ainda, tal desenho, que é um
ícone, nos sugere um rosto pensativo, um rosto de quem está aprendendo e
questionando. Isso evoca a ideia de estudo, de aprendizado e de
questionamento.
Com relação aos interpretantes, o primeiro deles é o interpretante
imediato e diz respeito ao potencial que o signo tem para produzir certos efeitos
em uma mente interpretadora. Esse interpretante fica no âmbito do possível,
apenas esperando uma mente interpretadora para se efetivar, no nível
subsequente: o interpretante dinâmico. Um signo está apto a despertar uma
infinidade de efeitos. Na logomarca analisada, podemos dizer que o interpretante
imediato diz respeito à capacidade de aprendizado eficiente e questionador. Isso
nos leva ao segundo interpretante, o dinâmico, e este diz respeito ao efeito que
o signo realmente causou, que pode ser a ideia de que a Kumon é a escola
especialmente concebida para aquelas pessoas que querem aprender com
eficiência e qualidade. Com relação ao interpretante final, vimos que este é
apenas uma possibilidade, pois nunca o atingiremos. No entanto, isso não o

9
impede de ser identificado em uma análise. Com relação à logomarca analisada,
o interpretante final é a ideia de que a Kumon se torne a marca mais lembrada e
desejada junto ao seu público-alvo.

TEMA 4 – ANÁLISE SEMIÓTICA DE UMA EMBALAGEM

O próximo signo a ser analisado será a embalagem que está presente na


Figura 2. Mais uma vez, a análise seguiu o percurso para a realização de uma
análise semiótica e vamos considerar a natureza triádica do signo: significação,
referenciação e seu poder de produzir efeitos. Antes, é importante ressaltar que
poderíamos analisar apenas o rótulo da embalagem, no entanto, vamos
considerar o conjunto todo.

Figura 2 – A embalagem de Gatorade

Créditos: Ekkamai Chaikanta/Shutterstock.

10
Do ponto de vista estético, podemos identificar vários elementos, mas
tratando do conjunto, vemos que a embalagem utiliza cores chamativas. Tais
cores têm o poder de abrir o apetite, mas também chamam a atenção para o
sabor do produto. No geral, vemos o predomínio de linhas orgânicas, sugerindo
volume. A distribuição espacial dos elementos ocupa o topo da embalagem,
deixando livre o espaço reservado para a garrafa ser segurada pelas mãos. No
entanto, há um desequilíbrio formal que, ao que tudo indica, visa o conforto
ergonômico. A embalagem possui boa pregnância da forma. Identificamos
rapidamente que se trata de uma embalagem que armazena líquido e,
considerando as cores, podemos deduzir o sabor.
O signo que vamos analisar é a embalagem da bebida Gatorade. Por
primeiro, vamos olhar para o signo em si mesmo. Os quali-signos estão nas
qualidades das cores laranja, verde, amarelo, mas somente como qualidades,
como possibilidades. Os sin-signos estão corporificados nas singularidades
dessa embalagem de Gatorade em particular. Considerando a embalagem, ela
é produzida aos milhares, mas não podemos dizer que são todas iguais. Ora,
uma pode ter um amassado, uma irregularidade, um tom de cor diferenciado etc.,
e tais características são capazes de distinguir uma embalagem da outra. Os
legi-signos estão presentes nos textos que estão escritos na embalagem, no
logotipo do produto e na textura e brilho do material plástico utilizado para
confeccionar a embalagem.
Atentemos para o fato de que as cores que estão presentes na
embalagem sugerem o sabor do seu conteúdo. Os quali-signos, as qualidades
da cor amarelo esverdeado, o verde e o laranja, sugerem o sabor de frutas
cítricas, e aqui podemos ver que se trata do sabor lemon lime (lima-limão), que
está escrito no rótulo.
Seguindo para a análise do signo com seu objeto, vamos identificar o
objeto dinâmico e o objeto imediato da embalagem. A bebida Gatorade e os
benefícios que ela propicia constituem o objeto dinâmico (algo a que o signo se
refere). É ele que determina o signo e o que neste está representado. O elemento
que o signo recorta do objeto dinâmico ao representá-lo constitui-se no objeto
imediato (o modo como o signo representa aquilo a que ele se refere), que pode
ser uma sugestão, uma alusão ao objeto dinâmico. O objeto imediato representa

11
o objeto dinâmico, pois estamos diante da própria embalagem da bebida e este
é o fator mais importante.
Atente para o fato de que estamos falando como se estivéssemos diante
da embalagem da bebida. Infelizmente, aqui, o meio nos obriga a usar uma
fotografia da garrafa, mas não estamos tratando da fotografia, mas da própria
embalagem. É importante levar isso em consideração, pois se estivéssemos
analisando uma fotografia da embalagem de Gatorade, ambos os objetos seriam
diferentes e outros elementos deveriam entrar na análise.
A última parte da análise volta os olhos para os efeitos que o signo produz.
Entramos no âmbito dos interpretantes.
É importante ressaltar que o processo interpretativo implica um
interpretante imediato (tudo aquilo que o signo está apto a produzir na mente do
intérprete – o sujeito) que permite que o signo tenha sua própria
interpretabilidade antes mesmo de ter um intérprete.
Toda a apresentação da embalagem, toda a relação imagem-palavra que
torna o signo apto a produzir um efeito em uma mente interpretadora, nesse caso
aqui, diz respeito às potencialidades da embalagem. Ou seja, conter uma bebida
que repõe a água, o sabor, a refrescância e o cuidado com a saúde.
Podemos dizer que o interpretante dinâmico (o efeito que o signo
realmente produz) podem ser vários: a ideia de refrescância, de vida saudável,
de bebida gostosa, de cuidado com a saúde etc. Na geração do interpretante
dinâmico, há uma direta dependência do repertório do sujeito que interpreta. Por
exemplo, se alguém que não conhece a bebida Gatorade, seja porque não faz
parte do público-alvo da marca ou por morar em um lugar que não tenha o
produto à disposição, pode olhar para a bebida e interpretá-la apenas como um
líquido. Uma pessoa que não aprecia a bebida pode olhar para a embalagem e
interpretá-la como algo ruim, e assim por diante.
Como interpretante final, tem-se a esperança de que Gatorade se torne
um consenso entre o público em geral, de que este produto é o melhor quando
o assunto é hidratação, cuidado para com a saúde e com o bem-estar da pessoa
que a consome.

12
TEMA 5 – ANÁLISE SEMIÓTICA DE UMA OBRA DE ARTE: GUERNICA

Como dito anteriormente, qualquer signo percebido pode ser analisado


semioticamente. A vantagem de analisarmos diferentes signos é que adquirimos
conhecimentos diferentes. No intuito de ampliarmos nosso repertório, o próximo
signo a ser analisado é uma pintura de Picasso. Trata-se de Guernica.
Analisar uma obra de arte como Guernica é altamente desafiador, pois tal
obra é aberta a diversas interpretações e é por isso que, com o passar do tempo,
seu significado é ampliado. A obra-prima de Picasso não representa a realidade
dos fatos históricos (a destruição da cidade de Guernica), tampouco informa algo
acerca desses fatos, pois não se trata de um índice (ação/reação).
Pintada em 1937, Guernica é uma das obras mais emblemáticas da
história da arte. Está exposta no Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia,
em Madrid, na Espanha. Trata-se de uma obra de grandes dimensões, já que
mede 349,3 cm x 776,6 cm (praticamente 27 m²). Possui formato horizontal e
narra uma história, devido à ordem espacial interna.
Diante de uma obra de arte, não devemos questionar “o que o artista quis
dizer”. Eis uma questão que, em muitos casos, nem o artista consegue
responder. Ainda, uma resposta atual para essas questões pode ser
completamente diferente em outro espaço de tempo. Isso é devido à evolução
do nosso repertório. Algumas perguntas se mostram mais adequadas: “o que eu
entendo dessa obra?”, “o que eu sinto?”, “quais são as interpretações a que
posso chegar?”. Sendo assim, não nos interessa saber o que Picasso quis dizer
aos espectadores, mas como Picasso disse algo aos espectadores.
Outro ponto a considerar é que não estamos diante da obra de arte em
questão, mas de uma reprodução fotográfica dela. Assim, temos de tomar o
cuidado para não voltarmos os olhos para o meio incorreto. Vamos analisar, ou
seja, fazer um esforço para analisar a pintura, e não a fotografia da pintura.

13
Figura 3 – Guernica, de Picasso

Créditos: tichr/Shutterstock.

Olhando para a obra, o signo, podemos identificar que o seu fundamento


está na ideia de luta que realça dois elementos antagônicos, que são a vida e a
morte. Também podemos pensar, por extensão, na oposição entre vitória e
derrota, bem e mal, caos e ordem, deus e demônio, racional e irracional.
Em termos estéticos, temos linhas, plano e textura. Há a predominância
de apenas tons monocromáticos na pintura (braço, preto e tons de cinza) e estes
organizam a luminosidade. Não há cor na obra de Picasso e a configuração real
fica por conta do objeto quadro, composto por armação, tela, tinta etc. A textura
está presente no pano da tela e na tinta usada para compor a obra. A
configuração esquemática está presentificada pelos desenhos que formam os
personagens, as formas cúbicas (veja que há, por exemplo, um triângulo central).
Os olhos do touro e a grande lâmpada central formam dois pontos que dirigem
a leitura. A pregnância da forma é de mediana a baixa, pois passamos muito
tempo para entendermos a complexa narrativa que Picasso imprimiu na obra. A
pintura é composta por nove personagens: um touro, quatro mulheres, uma
criança, a estátua de um guerreiro, um pássaro e um cavalo.
Note que há uma linha de força diagonal, presente na relação entre os
olhos do touro e os olhos de quase todos os demais personagens. Isso faz com
que o touro (na esquerda superior) ocupe um lugar de destaque na obra.
Como dito, o signo é a pintura, e partindo do primeiro nível de análise, o
signo em si, vamos identificar os quali, sin e legi-signos. Em especial, Guernica

14
é um signo em que as qualidades predominam: qualidade dos traços (alguns
fortes e expressivos, outros mais suaves e fugidios), dos tons de branco, preto e
cinza, e a interação que existe entre eles, representado pela
opacidade/luminosidade. Os legi-signos são representados pelas figuras em si,
o desenho presente na tela que constitui a singularidade da obra. Os legi-signos
referem-se à classe de obra à qual uma pintura plástica se enquadra e a tinta
utilizada na pintura.
Passando para o segundo nível, pode-se dizer que o objeto ao qual o
signo se refere é o bombardeio que arrasou a cidade espanhola de Guernica.
Esse é o objeto dinâmico. Já o objeto imediato é complexo, pois está enraizado
nos aspectos qualitativos do signo (quali-signo). Assim, os ícones são
eloquentes. De forma geral, os ícones dizem respeito ás ideias de morte, ruptura,
caos, sofrimento, catástrofe, destruição, angústia e dor. Isso é decorrente dos
quali-signos que sugerem tudo isso. Por exemplo, podemos ver que a maioria
dos personagens parecem expressar dor, pavor, medo, desespero. Os tons e as
linhas expressivas reforçam essa sugestão.
Com relação aos índices, podemos perceber que as figuras não se
apresentam tal qual o real, mas de forma fragmentada, tal como é típico da
escola cubista. Portanto, as imagens estão decompostas, quebradas e em
partes ou planos que nos possibilitam remontar o todo por suas partes.
Já quanto aos símbolos, estes também são eloquentes. A tonalidade
escura que predomina na obra simboliza a morte, a destruição, o caos. A luz que
emana da lamparina pode simbolizar a energia física e espiritual que é capaz de
ordenar o caos. Essa ideia é decorrente da sua localização superior aos
personagens. Podemos ver uma lâmpada que também emana luz e que está
dentro de algo que lembra um olho. Podemos pensar em um símbolo do olho de
Deus, que observa a cena. Podemos dizer que simboliza a verdade da história.
Metáfora do divino, do sol, da verdade. Encontramos também uma pomba e
simboliza a paz, mas pela sua posição, uma paz um tanto longínqua. O cavalo é
a metáfora do instinto animal, da vida, do tempo. Há quem entende o cavalo
como simbolizando as forças nacionalistas fascistas. Temos também o touro,
que simboliza a fortaleza e o orgulho. Na pintura, ele é a metáfora da energia e
da vida. O guerreiro caído simboliza a derrota militar e a derrota da história.

15
Passando para o nível interpretativo, o terceiro nível, podemos dizer que
o interpretante imediato é o sentido da pintura tal como o artista tentou transmitir
mediante as atitudes e sentimentos dos personagens que estão presentes na
obra. As personagens, o jogo cromático, as metáforas que estão na pintura, tudo
isso tem poder de transmitir os horrores, as dores e a devastação que uma
guerra pode causar.
Com relação ao interpretante dinâmico, ou seja, o efeito que o signo
realmente produz na mente do intérprete, podemos pensar na ideia de horror, de
morte, de devastação, de desgraça, de depressão que uma guerra gera. Leve
em consideração que isso é apensa um dos infinitos interpretantes que podem
ser gerados, pois como dissemos, a qualidade e profundidade de uma análise
semiótica está diretamente ligada à qualidade do repertório do sujeito que
elabora a análise.
Como interpretante final (o efeito que o signo produziria em qualquer
mente se a semiose fosse levada suficientemente longe), podemos pensar na
ideia de que a guerra só gera desgraças, dores e devastação, e tem um grande
potencial para destruir física e idealmente os seres humanos.
Por fim, e como nos aponta Arnhein (1981), a obra prima de Picasso,
Guernica, nos remete à luta do homem contra a o irracional, a violência e a
barbárie.

TROCANDO IDEIAS

Para treinar e ampliar os conhecimentos adquiridos, seria uma excelente


ideia estender a análise semiótica a outras formas de manifestação. Por
exemplo, escolha uma música e faça uma análise dela. Você também pode
escolher uma fotografia ou um objeto.
Outra atividade interessante seria você fotografar algo e, depois, fazer
uma análise semiótica da fotografia. Ainda, seria interessante comparar duas
embalagens de produtos similares e fazer uma análise semiótica.
Certamente você verá que há muito mais sendo dito nas entrelinhas do
que na superfície dos fenômenos. A superfície passa uma mensagem rápida,
mas o verdadeiro potencial comunicativo está no conjunto, ou seja, no que é dito
e no que não é dito.

16
NA PRÁTICA

Para colocar em prática tudo que aprendemos, faça as atividades abaixo.

Créditos: 360b/Shutterstock.

Considerando o que foi apresentado, elabore uma análise semiótica


completa da logomarca da empresa Citroën.

Fonte: Dzianis_Rakhuba/Shutterstock.

17
Considerando o que foi apresentado nessa aula, elabore uma análise
semiótica completa do cartaz acima.

FINALIZANDO

Como dissemos no início, a análise semiótica pode de ampliar a nossa


capacidade de enxergar em profundidade e de fazer conexões sagazes. Por
isso, é importante investir um tempo para apreender a técnica de análise. O que
apresentamos aqui é uma das possibilidades de se fazer uma análise semiótica.
Com o tempo, você desenvolverá sua própria técnica. É interessante que se
respeite os três passos que foram apresentados anteriormente, sempre
lembrando que uma análise completa deve envolver o signo, seus objetos e seus
interpretantes.
Com o passar do tempo, você notará que seu repertório é ampliado. Uma
mancha de tinta que você vê em uma parede já não será mais uma mancha, mas
um signo que pode ser lido e interpretado. Ainda, no momento de criação de uma
mensagem, um esboço primeiro de uma ideia, se analisado semioticamente,
pode lhe ajudar a aprimorar a mensagem que você deseja passar. Claro,
estamos falando de mensagem de forma geral, partindo do pressuposto que uma
logomarca, uma pintura, um edifício, um brinquedo, uma vestimenta, dentre
outros, carregam um potencial que pode ser altamente rico em termos de
interpretação.

18
REFERÊNCIAS

ARNHEIM, R. El “Guernica” de Picasso: génesis de una pintura. 3. ed. [S.l.]:


Gustavo Gili, 1981. 160p.

HELLER, E. A psicologia das cores: como as cores afetam a emoção e a razão.


Trad. Maria Lúcia Lopes da Silva. São Paulo: Gustavo Gili, 2013.

KUMON. Método Kumon. Disponível em: <[Link]


kumon>. Acesso em: 16 fev. 2020.

SANTAELLA, L. Matrizes da linguagem e pensamento. São Paulo: Iluminuras,


2001.

_____. Semiótica aplicada. [Link]. São Paulo: Pioneira, 2002.

19

Você também pode gostar