10.
33208/PC1980-5438v0032n02A06
ISSN 0103-5665 315
Uso de álcool e outras drogas
por adolescentes: associações com
problemas emocionais e comportamentais
e o funcionamento familiar
Use of alcohol and other drugs by adolescents: associations
with emotional and behavioral problems and family functioning
Uso de alcohol y otras drogas por adolescentes:
asociaciones con problemas emocionales y
comportamentales y el funcionamiento familiar
Ana Carolina Wolf Peuker (1)
Joici Demetrio Caovilla (2)
Crístofer Batista da Costa (3)
Clarisse Pereira Mosmann (4)
Resumo
O consumo de álcool, tabaco e de drogas ilícitas na adolescência pode
aumentar o risco de dependência futura, associar-se a uma série de comporta-
mentos de risco e levar ao desenvolvimento de problemas emocionais e de com-
portamento. O objetivo deste estudo foi caracterizar o perfil de consumo de ál-
cool e outras drogas por adolescentes oriundos de uma amostra rural e analisar
Psicóloga com Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universi-
(1)
dade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), no Laboratório de Psicologia Experimental, Neurociências e Compor-
tamento (LPNeC/UFRGS) e Pós-doutorado no Grupo de Estudos Avançados em Psicologia da Saúde (GEAPSA) do
PPG em Psicologia Clínica da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos); Pesquisadora do Centro de Pesquisa
em Álcool e Drogas (CPAD) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA). Diretora Executiva da Bee Touch. Porto
Alegre, RS, Brasil. email: ana@[Link]
Psicóloga, Mestre em Prevenção e Assistência a Usuários de Drogas pelo Programa de Mestrado Profissional em
(2)
Prevenção e Assistência a Usuários de Álcool e Outras Drogas do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), RS;
Secretária de Assistência Social e da Saúde de Chapadão do Lajeado, SC, Brasil. email: joicidemetrio@[Link]
Psicólogo, Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da Universidade do Vale do Rio dos Sinos
(3)
(Unisinos); Pesquisador colaborador no Núcleo de Estudos em Casais e Famílias (NECAF, Unisinos) e Coordenador do
Curso de Psicologia da FACEFI, Faculdade do CEFI, Porto Alegre, RS, Brasil. email: cristoferbatistadacosta@[Link]
Psicóloga, Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS); Professora
(4)
do Curso de Psicologia, Coordenadora Executiva do Programa de Pós-Graduação e Coordenadora do Núcleo de Es-
tudos em Casais e Famílias (NECAF) da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), São Leopoldo, RS, Brasil.
email: clarissemosmann@[Link]
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316 Álcool e outras drogas, adolescência e funcionamento familiar
possíveis associações entre o consumo, as variáveis cooperação, conflito e trian-
gulação coparental, coesão familiar, conflito pais-filhos e problemas emocionais
e de comportamento. Trata-se de uma pesquisa descritiva com 126 adolescentes
de escolas municipais e estaduais do Sul do Brasil. Utilizou-se um questionário
sociodemográfico e as escalas Faces III, ECPF, CIPA, YSR e ASSIST. Análises
descritivas e inferenciais apontaram que 49,2% dos adolescentes já haviam usa-
do álcool e 8,7%, tabaco. O uso de álcool correlacionou-se aos conflitos com
a mãe e o de maconha aos conflitos com o pai. Cooperação coparental (pai)
foi fator de proteção para uso de álcool, enquanto a intensidade do conflito
adolescente-pai e o conflito coparental pai-mãe foram fatores de risco. Os dados
são discutidos à luz da literatura científica considerando sua relevância social e
clínica. Direções em que podem seguir investigações futuras são sugeridas.
Palavras-chave: drogas; adolescência; sintomas; relações familiares; relações
pais-filhos.
Abstract
Consumption of alcohol, tobacco, and illicit drugs in adolescence may in-
crease the risk of future dependence, be associated with a range of risk behaviors,
and lead to the development of emotional and behavioral problems. The objec-
tive of this study was to characterize the profile of use of alcohol and other drugs
by adolescents from a rural sample and to analyze possible associations between
consumption, the variables cooperation, co-parental conflict and triangulation,
family cohesion, parent-child conflict, and emotional and behavioral problems.
It is a descriptive study with 126 adolescents of municipal and state schools in
Southern Brazil. A sociodemographic survey was employed, as well as Faces III,
ECPF, CIPA, YSR and ASSIST scales. Inferential and descriptive analyses found
that 49.2% of the adolescents had used alcohol, and 8.7%, tobacco. Alcohol use
was correlated to conflicts with the mother, and marijuana use to those with the
father. The father’s co-parental cooperation was a protection factor for alcohol
consumption, whereas the intensity of an adolescent’s conflict with the father and
the parents’ co-parental conflict were risk factors. The data are discussed in view
of the scientific literature and taking into account its social and clinical relevance.
Directions for further investigation are suggested.
Keywords: drugs; adolescence; symptoms; family relations; parent-child
relations.
Psic. Clin., Rio de Janeiro, vol. 32, n. 2, p. 315 – 334, mai-ago/2020
Álcool e outras drogas, adolescência e funcionamento familiar 317
Resumen
El consumo de alcohol, tabaco y drogas ilícitas en la adolescencia puede
aumentar el riesgo de dependencia futura, asociarse a una serie de comportamien-
tos de riesgo y conducir al desarrollo de problemas emocionales y de comporta-
miento. El objetivo de este estudio ha sido caracterizar el perfil del consumo de
alcohol y otras drogas en adolescentes de una muestra rural y analizar posibles
asociaciones entre el consumo, las variables cooperación, conflicto y triangula-
ción coparental, cohesión familiar, conflicto entre padres e hijos y los proble-
mas emocionales y de comportamiento. Se trata de una investigación descriptiva
con 126 adolescentes de escuelas municipales y estatales del Sur de Brasil. Se
utilizó un cuestionario sociodemográfico y las escalas Faces III, ECPF, CIPA,
YSR y ASSIST. Análisis descriptivas e inferenciales fueran llevado a cabo y apun-
taron que el 49,2% de los adolescentes usaron alcohol y el 8,7%, tabaco. El uso
de alcohol se correlacionó con los conflictos con la madre y la marihuana a los
conflictos con el padre. La cooperación coparental (padre) ha sido factor de pro-
tección para el uso de alcohol, y la intensidad del conflicto adolescente-padre y
el conflicto coparental padre-madre fueron factores de riesgo. Los datos son dis-
cutidos de acuerdo con la literatura científica considerando su relevancia social y
clínica. Direcciones en las que pueden seguir investigaciones futuras se sugieren.
Palabras clave: drogas; adolescencia; síntomas; relaciones familiares; rela-
ciones padres-hijos.
Introdução
O consumo de álcool, tabaco e de drogas ilícitas na adolescência pode
aumentar o risco de dependência futura, associar-se a uma série de comporta-
mentos de risco e ao desenvolvimento de sintomas emocionais e de compor-
tamento (Chaplin et al., 2014). Trata-se de um problema de saúde pública em
diversos países, especialmente entre os jovens (UNODC, 2015). No Brasil, um
número significativo de adolescentes entre 12 e 18 anos já fizeram uso de álcool
e outras drogas (Andrade et al., 2017; Elicker et al., 2015; Laranjeira et al., 2014;
Sanchez et al., 2013).
Os principais fatores de risco para o consumo de álcool e outras drogas
são vulnerabilidade socioeconômica, características do funcionamento familiar,
ser do gênero masculino e estar na fase da adolescência, especificamente na faixa
etária entre 12 e 18 anos de idade (Andrade et al., 2017; Cerutti et al., 2015;
Noto et al., 2003; Rocha, 2012; Vargas et al., 2015). Quanto ao funcionamento
Psic. Clin., Rio de Janeiro, vol. 32, n. 2, p. 315 – 334, mai-ago/2020
318 Álcool e outras drogas, adolescência e funcionamento familiar
familiar, os estudos indicam risco aumentado se há elevados níveis de conflito,
deficiência na comunicação intrafamiliar, distanciamento emocional entre pais
e filhos, pais/cuidadores usuários de álcool e/ou outras drogas (Broecker & Jou,
2007; Costa et al., 2014), estratégias ineficazes de enfrentamento das adversida-
des e falta de suporte religioso (Andrade et al., 2017; Broecker & Jou, 2007),
estilo parental negligente e permissivo (Cerutti & Argimon, 2015; Cerutti et al.,
2015), exposição e ocorrência de violência física e sexual (Fosco & Feinberg,
2018; Noto et al., 2003).
Tais fatores geralmente se sobrepõem e desencadeiam problemas de com-
portamento externalizantes e internalizantes nos adolescentes. Os primeiros se
expressam em relação a outras pessoas e envolvem dificuldade de controlar im-
pulsos, hiperatividade, agressividade física ou verbal, raiva, delinquência e uso de
drogas (Achenbach & Rescorla, 2001). Os internalizantes se expressam por meio
de comportamentos introspectivos e em relação ao próprio indivíduo e envolvem
tristeza, isolamento, queixas somáticas e medo, entre outros sintomas (Cerutti &
Argimon, 2015; Hess & Falcke, 2013).
Por outro lado, controle e monitoramento parental, proximidade emocio-
nal, orientações sobre uso de álcool e outras drogas e valores familiares adaptativos
são considerados fatores de proteção (Cerutti & Argimon, 2015; Chaplin et al.,
2014; Hess & Falcke, 2013). Ainda, são considerados prognóstico favorável
em situações de tratamento e fator de proteção aspectos como coesão familiar
(Mosmann et al., 2017; Mosmann, Costa et al., 2018) residir com ambos os pais
(Andrade et al., 2017; Noto et al., 2003) e receber demonstrações de apoio pelos
cuidadores (Cerutti & Argimon, 2015; Chaplin et al., 2014).
Além disso, um dos subsistemas cada vez mais estudado devido a sua im-
portância para a funcionalidade familiar é o subsistema coparental, que tem sido
apontado como mediador entre as características da conjugalidade e da paren-
talidade e o desenvolvimento dos filhos. A coparentalidade ocorre quando dois
adultos compartilham os cuidados referentes à prole, dividindo a liderança e as
responsabilidades pelos papéis parentais. Envolve as interações do grupo familiar,
que podem se caracterizar como cooperação ou antagonismo, apoio ou oposição
entre os cuidadores frente à intervenção um do outro enquanto subsistema paren-
tal (Mosmann et al., 2017; Mosmann, Costa et al., 2018).
No modelo de Margolin et al. (2001), as dimensões que compõem o sub-
sistema coparental são cooperação, conflito e triangulação. A cooperação avalia
as trocas entre os cuidadores referentes aos cuidados com o filho, apoio e respeito
mútuos e a expressão à prole de que há um clima de lealdade entre eles. O conflito
coparental refere-se às brigas e discussões sobre questões relacionadas à parenta-
Psic. Clin., Rio de Janeiro, vol. 32, n. 2, p. 315 – 334, mai-ago/2020
Álcool e outras drogas, adolescência e funcionamento familiar 319
lidade, e envolve sabotar o companheiro por críticas, acusação e afastamento.
A triangulação é a coalizão formada pelo filho com um dos pais e o envolvimento
deste no conflito coparental (Margolin et al., 2001; Riina & McHale, 2014).
Evidências provenientes de estudos nacionais e internacionais confirmam
que as características das relações familiares impactam o desenvolvimento emo-
cional e comportamental dos filhos (Fosco & Feinberg, 2018; Hess & Falcke,
2013; Mosmann et al., 2017; Mosmann, Costa et al., 2018). Também indicam
que conflitos parentais e variáveis pessoais, como idade e sexo do adolescente,
aumentam as chances de a prole se envolver no consumo de álcool e outras dro-
gas (Cerutti & Argimon, 2015; Samek et al., 2014) e desenvolver sintomas e
transtornos emocionais e de comportamento (Noto et al., 2003; Rocha, 2012;
Vargas et al., 2015).
Embora esteja evidente a relação entre as características do relacionamen-
to entre pais e filhos adolescentes, uso de álcool e outras drogas e o surgimento
de problemas externalizantes e internalizantes (Samek et al., 2014), a influência
mútua entre essas variáveis e o quanto cada uma contribui para a ocorrência do
fenômeno necessitam ser investigadas. Para tanto, devem ser consideradas as ca-
racterísticas das relações familiares como fator de risco, proteção e/ou prevenção
ao consumo de álcool e outras drogas, os reflexos na saúde e desenvolvimento
de crianças e adolescentes e a necessidade de se desvelar este complexo sistema
de interações (Cerutti et al., 2015; Hess & Falcke, 2013; Mosmann et al., 2017;
Mosmann, Costa et al., 2018; Riina & McHale, 2014).
Ademais, considerar somente a visão dos pais sobre esses fenômenos limi-
ta as possibilidades de ampliar e aprofundar o conhecimento, já que evidências
apontam que os adolescentes tendem a dar respostas mais fidedignas (Teubert &
Pinquart, 2011). Por isso, este estudo foi desenvolvido com o objetivo de carac-
terizar o perfil de consumo de álcool e outras drogas em adolescentes oriundos
de uma amostra rural e analisar possíveis associações entre o consumo, as variá-
veis cooperação, conflito e triangulação coparental, coesão familiar, conflito
pais-filhos e os problemas emocionais e de comportamento.
Método
Delineamento e participantes
Trata-se de um estudo descritivo e correlacional, de caráter quantitativo e
de corte transversal. Participaram do estudo 126 adolescentes com idades entre
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320 Álcool e outras drogas, adolescência e funcionamento familiar
12 a 18 anos incompletos (M=14,21; DP=1,603), sendo 46,4% (n=58) do sexo
masculino e 53,3% (n=67) do sexo feminino. Desses adolescentes, 36,5% eram
estudantes do ensino médio (n=45) e 63,7% (n=79) do ensino fundamental da
rede pública de ensino. Em relação à variável “acompanhamento psicológico ao
longo da vida”, 20,5% (n=25) informaram já ter realizado. Quanto à classe social,
59% (n=69) indicaram pertencer à classe média, 20,5% (n=24) à classe média
baixa, 12,8% (n=15) à classe média alta, 2,6% (n=3) à classe muito alta, 2,6%
(n=3) à classe baixa, 1,7% (n=2) à classe alta e 0,9% (n=1) à classe muito baixa.
Oito participantes não responderam à questão. Em relação à condição laboral dos
pais, os adolescentes indicaram que 88,3% (n=91) das mães tinham um trabalho,
2,9% (n=3) estavam aposentadas e 8,7% (n=9) estavam desempregadas; com re-
lação ao pai, 89,9% (n=89) tinham um trabalho, 3% (n=3) estavam aposentados
e 7,1% (n=7) estavam desempregados. Quanto à configuração familiar, 85% dos
participantes morava com o pai e a mãe e 15% tinham pais separados, embora
ambos os cuidadores exercessem as funções coparentais.
Instrumentos
(a) Questionário sócio demográfico: Trata-se de uma medida constituída por
25 perguntas que permitem levantar dados sócio demográficos dos participantes
da pesquisa, por meio de informações como sexo, idade, escolaridade, cidade,
número de irmãos e outras.
(b) Escala de avaliação da coesão familiar (Faces III): É uma escala com vinte
itens pontuados numa escala likert de cinco pontos (quase nunca, alguma vez, às
vezes, com frequência, quase sempre) para avaliar a coesão e a adaptabilidade fa-
miliar (Olson et al., 1979, validado por Falceto, 1997). Neste estudo foi utilizada
somente a dimensão de coesão.
(c) Escala de conflito pais-filho (ECPF): Esta escala tem nove itens, apre-
sentados separadamente devido ao enunciado, e está dividida em duas subescalas
denominadas de “conflito-desentendimentos” e “conflito-agressão”. A primeira
tem seis itens que se referem à frequência com que os indivíduos experimentaram
desentendimentos com seu pai e mãe no último ano e são medidos numa escala
likert de seis pontos. A segunda subescala tem três itens, pontuados numa escala
likert de cinco pontos. Um item mede a frequência com que se lida de forma cal-
ma com os conflitos (codificado invertido) e os outros dois avaliam a frequência
das discussões e agressões (Buehler & Gerard, 2002, adaptado por Terres-Trinda-
de & Mosmann, 2015).
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Álcool e outras drogas, adolescência e funcionamento familiar 321
(d) Escala de coparentalidade para pais e adolescentes – The Coparenting In-
ventory for Parents and Adolescents (CIPA) (Teubert & Pinquart, 2011; evidências
de validade por Mosmann, Machado et al., 2018): Por meio deste instrumento,
os filhos realizam uma avaliação em nível diádico, ao investigar a coparentalidade
dos pais de forma conjunta (meus pais concordam se atendem ou não a meus
desejos e demandas), e individual, ao contemplar a avaliação das características
tanto da mãe quanto do pai no desempenho da coparentalidade (antes da minha
mãe/pai me permitir fazer algo, ela/ele conversa sobre isso com o meu pai/mãe).
A escala tem três partes: (1) díade coparental; (2) contribuições da mãe; e (3)
contribuições do pai, cada uma com três subescalas, cooperação, conflito e trian-
gulação, com quatro itens cada uma. Os itens são pontuados numa escala likert
de quatro pontos.
(e) Inventário de autoavaliação de jovens de 11 a 18 anos – Youth Self-Report
(YSR) (Rocha, 2012): Este instrumento faz parte do Sistema de Avaliação Em-
piricamente Baseado (Achenbach System of Empirically Based Assessment, ASEBA),
desenvolvido por Achenbach e Rescorla (2001). É uma variação do Children
Behavior Checklist – CBCL, no qual o respondente é o próprio adolescente
(Achenbach & Rescorla, 2001). O YSR é composto por oito escalas de problemas
de comportamento (ansiedade/depressão, isolamento/depressão, queixas somáti-
cas, problemas sociais, problemas de pensamento, problemas de atenção, com-
portamento de violação de regras, comportamento agressivo) e pela dimensão
“outros problemas”, com itens que não se encaixaram em nenhuma das outras
subescalas. O YSR permite a classificação em três níveis: problemas internali-
zantes (as três primeiras subescalas), problemas externalizantes (as duas últimas
subescalas) e problemas totais (todas as subescalas).
(f ) Alcohol, Smoking and Substance Involvement Screening Test – ASSIST
(Humeniuk et al., 2010) validado para a população brasileira por Henrique et al.
(2004): Trata-se de um questionário estruturado formulado pela Organização
Mundial da Saúde (OMS) contendo oito questões sobre o uso de nove classes
de drogas lícitas e ilícitas (tabaco, álcool, maconha, cocaína, estimulantes,
sedativos, inalantes, alucinógenos e opiáceos). As questões abordam a fre-
quência de uso, na vida e nos últimos três meses, problemas relacionados ao
uso, preocupações a respeito do uso por parte de pessoas próximas ao usuário,
prejuízos na execução de tarefas, tentativas malsucedidas de cessar ou reduzir
o uso, sentimento de compulsão ou uso de injetável. Cada resposta corres-
ponde a um escore que varia de 0 a 4, cuja soma total pode variar de 0 a 20.
Considera-se a faixa de escore de 0 a 3 como indicativa de uso ocasional, de 4
a 15 como indicativa de abuso e 16 ou mais como sugestiva de dependência.
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322 Álcool e outras drogas, adolescência e funcionamento familiar
Segundo o manual do instrumento, um escore de 27 pontos ou mais para
qualquer substância sugere que o indivíduo corre alto risco para dependência
ou é dependente da substância e, provavelmente, tem problemas de relaciona-
mento, legais, financeiros, sociais e de saúde como consequência do consumo.
Neste estudo serão utilizadas as faixas de risco para dependência conforme
o manual do instrumento, quais sejam: álcool (baixo risco: 0–10; risco mo-
derado: 11–26, alto risco: ≥27), e outras substâncias (baixo risco: 0–3; risco
moderado: 4–26, alto risco: ≥27).
Procedimentos
Foram acessados todos os estudantes de ensino fundamental e médio ma-
triculados regularmente nas escolas municipais e estaduais do município de Cha-
padão do Lajeado (SC) (N=278). Inicialmente, foi feito contato com a direção
das escolas, apresentados os objetivos da pesquisa e solicitada anuência para a
realização da coleta de dados. Com vistas a formalizar o trabalho de coleta, foi
entregue uma carta de apresentação juntamente com o projeto de pesquisa e uma
cópia do instrumento. A partir da autorização da direção, realizou-se uma palestra
para professores e equipe diretiva sobre uso de drogas na adolescência e relações
familiares. Na ocasião, foi apresentada também a proposta de pesquisa, os objeti-
vos e criado um espaço de discussão para esclarecer dúvidas.
Após essa etapa, as turmas foram selecionadas de acordo com a idade
mínima para inclusão no estudo (12 anos). Participaram quatro turmas de en-
sino fundamental da escola municipal, e sete turmas do ensino fundamental
e seis do ensino médio da escola estadual, totalizando 278 alunos. Antes do
agendamento da coleta, os estudantes receberam em sala de aula um convite
impresso para a participação na pesquisa, dirigido a eles e aos seus pais/cui-
dadores. Receberam também duas cópias do Termo de Consentimento Livre
e Esclarecido (TCLE) que deveria ser assinado pelos pais/responsáveis, assim
como um Termo de Assentimento (TA), a ser assinado pelos próprios jovens,
que declaravam consentir em participar. Na ocasião da entrega, foram prestados
os esclarecimentos sobre a participação na pesquisa, a assinatura e devolução
dos termos e a data da coleta de dados.
Nas datas e horários agendados, três manhãs, duas tardes e uma noite,
numa sala indicada pela direção de cada escola, foram recolhidas as vias assinadas
do TCLE e do TA, pré-requisitos para inclusão do aluno no estudo, e realizada
a coleta de dados, sempre de forma coletiva, em grupos de no máximo 20 ado-
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Álcool e outras drogas, adolescência e funcionamento familiar 323
lescentes. Os protocolos foram distribuídos em envelopes codificados, a fim de
garantir o sigilo e a confiabilidade dos dados. A coleta ocorreu no período de
fevereiro a abril de 2016, no horário de aula, e o tempo de preenchimento do
instrumento variou de 40 a 45 minutos.
Considerações éticas
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Univer-
sidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), processo nº 14/152 (CAAE:
36888214.0.0000.5344). Os procedimentos para coleta de dados seguiram as
normas estabelecidas para a realização de pesquisa com seres humanos, con-
forme previsto na Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde,
atendendo aos fundamentos éticos e científicos pertinentes. O TCLE e o TA
citavam objetivos, caráter voluntário da participação, procedimentos, pos-
síveis riscos e benefícios, anonimato, proteção e cuidado na divulgação das
informações.
Análise dos dados
Os dados foram analisados no programa estatístico SPSS (versão 20),
considerando o nível de significância de 5% (p≤0,05). Inicialmente foram ava-
liadas as propriedades psicométricas (confiabilidade e validade convergente) de
cada escala e realizadas análises descritivas (médias, desvio-padrão, porcenta-
gens) dos resultados em geral. Para analisar as associações entre variáveis, rea-
lizaram-se correlações (Pearson) entre as variáveis de interesse (uso de álcool e
outras drogas, problemas de comportamento e variáveis familiares) e compara-
ção de médias (T de Student) para o pai e a mãe na ECPF. Para a estatística in-
ferencial, foram testados previamente os critérios de pressupostos paramétricos
(tipo de variável, tamanho da amostra, normalidade) para a eleição dos testes
estatísticos apropriados e então realizada análise de regressão linear para esta-
belecer um modelo preditivo do consumo de álcool e outras drogas. Conforme
indicado por Hair et al. (2009), para realização de análise de regressão múltipla,
estudos contendo cinco construtos ou menos, cada um com mais de três itens
(condição atendida neste estudo), com um poder de probabilidade de 0,80, o
tamanho mínimo exigido da amostra é entre 50 e 100 respondentes para obter
um R2 mínimo de 10%.
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324 Álcool e outras drogas, adolescência e funcionamento familiar
Resultados
Perfil de consumo de álcool e outras drogas
Para caracterizar o perfil de consumo de álcool e outras drogas, considera-
ram-se os marcadores de “uso na vida” e “uso atual” (últimos três meses) de taba-
co, álcool e maconha. Para caracterizar o perfil de consumo de risco para depen-
dência de álcool e outras drogas, empregou-se a classificação: baixo, moderado e
alto risco, conforme as orientações contidas no manual do instrumento ASSIST,
da OMS (Henrique et al., 2004; Humeniuk et al., 2010).
No que se refere ao uso na vida de tabaco, 8,7% (n=11) dos adolescentes
afirmaram já ter experimentado, 86,5% (n=109) relataram não ter feito uso na
vida e 4,8% (n=6) não responderam. Quanto ao uso de álcool, 49,2% (n=62)
indicaram já ter bebido alguma vez na vida e 50,8% (n=64) relataram não
ter feito uso. Quanto ao uso na vida de maconha, 93,7% (n=118) indicaram
nunca ter usado, 2,4% (n=3) fizeram uso de maconha na vida e 4% (n=5) não
responderam à questão.
Em relação ao uso atual de tabaco, 38,9% (n=49) relataram nunca ter
feito uso, 2,4% (n=3) indicaram fazer uso diário ou quase todos os dias e 58,7%
(n=74) não responderam. Sobre o uso atual de bebida alcoólica, 21,4% (n=27)
indicaram nunca ter bebido, 28,6% (n=36) afirmaram ter bebido uma ou duas
vezes nos últimos três meses, 7,9% (n=10) indicaram ter bebido mensalmente,
4,8% (n=6) relataram beber semanalmente e 37,3% (n=47) não responderam à
pergunta. Quanto ao uso atual de maconha, 39,7% (n=50) citaram nunca ter
feito uso, 0,8% (n=1) indicaram fazer uso mensal de maconha e 59,5% (n=75)
não responderam.
No que concerne ao consumo de risco para dependência de tabaco, 1,6%
(n=2) dos adolescentes apresentaram risco alto para dependência, 4,0% (n=5)
apresentaram risco moderado e 21,4% (n=27), risco baixo. No entanto, 73,0%
(n=92) dos participantes não respondeu a essa questão. No que se refere ao risco
para dependência do álcool, 4,0% (n=5) dos adolescentes apresentaram risco alto,
11,1% (n=14), risco moderado e 31,7% (n=40), risco baixo. Essa questão não
foi respondida por 53,2% (n=67) dos participantes. Quanto ao risco de depen-
dência de maconha, 1,6% (n=2) dos adolescentes apresentaram risco moderado,
23,0% (n=29), risco baixo e 75,4% (n=95) dos participantes não responderam
ao questionamento.
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Álcool e outras drogas, adolescência e funcionamento familiar 325
Variáveis familiares
O exercício da coparentalidade, considerando as contribuições da mãe,
do pai e de ambos, foi avaliado pelos adolescentes de acordo com as médias
apresentadas na Tabela 1. Considerando a escala de conflito pais-filho (ECPF),
realizou-se um teste T de Student para comparação de médias das respostas rela-
tivas aos motivos de desentendimentos com o pai e com a mãe. Constatou-se que
as médias para conflitos relacionados com o uso de internet, tarefas domésticas e
maior intensidade da discussão (gritos) foram significativamente maiores para a
mãe do que para o pai (p<0,001), conforme a Tabela 1.
Tabela 1 — Exercício da coparentalidade e motivos de conflito com o pai e a mãe
Dimensões da Escala atual Escala original
N
Coparentalidade Média DP Média DP
Cooperação mãe 122 2,38 1,137 2,68 0,910
Conflito mãe 122 1,54 1,090 1,50 1,000
Triangulação mãe 125 0,72 0,822 0,56 0,760
Cooperação pai 121 2,38 1,203 2,69 0,980
Conflito pai 122 1,29 1,075 1,38 1,030
Triangulação pai 123 0,44 0,758 0,45 0,700
Triangulação família 123 0,40 0,671 0,85 0,830
Cooperação família 122 2,84 0,970 3,01 0,990
Conflito família 121 1,88 1,137 1,29 0,920
Motivos dos
EP Médio P
conflitos
Tarefas domésticas (mãe) 120 2,98 1,885 ,172 <,001
Tarefas domésticas (pai) 120 1,90 1,480 ,135 <,001
Internet (mãe) 119 2,97 1,893 ,174 <,001
Internet (pai) 119 2,39 1,753 ,161 <,001
Discutem intensamente ou gritam? (mãe) 112 2,10 1,200 ,113 <,001
Discutem intensamente ou gritam? (pai) 112 1,69 0,987 ,093 <,001
Foi realizado teste de correlação de Pearson considerando a ECPF, a CIPA, a coe-
são familiar, os sintomas internalizantes e externalizantes e os itens do YSR relacionados
ao uso de álcool e outras drogas. Na ECPF constatou-se que o uso de maconha se corre-
lacionou com conflito com o pai relacionado ao “uso de drogas”, o uso de maconha pelo
adolescente se correlacionou à maior intensidade de conflito com o pai, caracterizado
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326 Álcool e outras drogas, adolescência e funcionamento familiar
por “discutir intensamente ou gritar” e “bater ou atirar coisas um no outro”, e o uso de
álcool se correlacionou com conflitos com a mãe relacionados a “sair à noite”.
Também se observou, conforme a Tabela 2, que o consumo de bebida
alcoólica se correlacionou positivamente de forma significativa com sintomas ex-
ternalizantes e internalizantes, intensidade do conflito coparental do pai, conflito
coparental do pai e da mãe e triangulação do pai e da mãe. Ainda, beber álcool
com aprovação dos pais se correlacionou positivamente de forma significativa
com sintomas externalizantes e internalizantes; fumar cigarro se correlacionou
positivamente de forma significativa com sintomas externalizantes e usar maco-
nha se correlacionou negativamente de forma significativa com a coesão familiar.
Tabela 2 — Correlação entre uso de álcool e outras drogas, sintomas psicológicos e
variáveis familiares
YSR CIPA
Triangulação – mãe
Cooperação – mãe
Triangulação – pai
Cooperação – pai
Externalizantes
Internalizantes
Intensidade do
Intensidade do
Conflito – mãe
Conflito – mãe
Conflito – pai
Conflito – pai
Variáveis
Coesão
Pearson
,286 ,387 –,160 –,103 ,239 ,199 –,043 ,184 ,213 ,313 ,180
correlation
Beber álcool:
cerveja, vodka, Sig.
,004 ,000 ,091 ,261 ,008 ,028 ,643 ,043 ,018 ,001 ,055
cachaça etc. (2-tailed)
N 98 86 112 120 121 122 121 121 124 110 114
Pearson
,264 ,324 ,010 –,003 ,064 ,084 –,016 ,171 ,058 ,110 ,061
correlation
Beber álcool
com aprovação Sig.
,008 ,002 ,918 ,978 ,482 ,359 ,860 ,060 ,521 ,255 ,518
dos pais (2-tailed)
N 99 86 112 120 121 122 121 121 124 110 114
Pearson
,109 ,313 –,074 ,051 –,002 ,051 –,083 ,002 ,124 ,018 ,004
correlation
Fumar cigarro Sig.
,287 ,003 ,436 ,579 ,981 ,577 ,368 ,984 ,171 ,854 ,968
(2-tailed)
N 98 86 113 120 121 122 121 121 124 110 114
Pearson
,107 ,148 –,231 –,019 –,042 ,074 –,021 –,093 ,087 ,144 ,141
Usar maconha, correlation
cocaína,
Sig.
crack e outras ,293 ,175 ,014 ,832 ,645 ,413 ,821 ,308 ,337 ,132 ,132
(2-tailed)
drogas
N 99 86 113 121 122 123 122 122 125 111 115
Psic. Clin., Rio de Janeiro, vol. 32, n. 2, p. 315 – 334, mai-ago/2020
Álcool e outras drogas, adolescência e funcionamento familiar 327
A partir das correlações, identificou-se que a variável “consumir bebidas
alcoólicas” apresentou associações de fracas a moderadas, porém significativas,
com as variáveis familiares investigadas. Por isso, foi realizada análise de regressão
linear múltipla com o objetivo de analisar o conflito pais-filhos, as dimensões da
coparentalidade do pai e da mãe, e os sintomas internalizantes e externalizantes
como conjunto de variáveis preditoras para o consumo de bebidas alcoólicas. Para
isso, foram inseridas como variáveis independentes apenas aquelas que apresenta-
ram correlações significativas com o consumo de álcool (p<0,005).
A Tabela 3 apresenta o modelo significativo (p=0,001), indicando que ape-
nas duas variáveis preditoras foram significativas: “intensidade do conflito com o
pai” (p=0,005) e “conflito coparental do pai” (p=0,050), e explicaram 15,7% do
consumo de bebidas alcoólicas para os participantes do estudo. As outras variáveis
independentes não foram significativas e foram excluídas do modelo final.
Tabela 3 — Variáveis preditoras do consumo de bebidas alcoólicas
Variáveis B Std. Error Beta t Sig
Intensidade do conflito com o pai ,178 ,062 ,246 2,856 ,005
Conflito coparental do pai ,063 ,033 ,173 1,918 ,050
Conflito coparental da mãe ,052 ,031 ,145 1,691 ,093
Triangulação da mãe ,027 ,056 ,059 ,492 ,623
Triangulação do pai ,016 ,060 ,031 ,268 ,789
Modelo testado nº 1.
R=0,396
R2=0,157
R2 ajustado=0,122
EP=1,441
Durbin Watson=1,63
Discussão
A partir desta investigação foi atingido o objetivo de caracterizar o perfil
de consumo de álcool e outras drogas em adolescentes oriundos de uma amostra
rural e analisar possíveis associações entre o consumo, as variáveis cooperação,
conflito e triangulação coparental, coesão familiar, conflito pais-filhos e os pro-
blemas emocionais e de comportamento. Em relação ao perfil de consumo de
álcool e outras drogas, os resultados deste estudo mostraram que as drogas legais
como o álcool e o tabaco são mais comuns no uso, corroborando outras pesqui-
Psic. Clin., Rio de Janeiro, vol. 32, n. 2, p. 315 – 334, mai-ago/2020
328 Álcool e outras drogas, adolescência e funcionamento familiar
sas com a população adolescente no Brasil (Andrade et al., 2017; Cerutti et al.,
2015). Os resultados encontrados estão de acordo com uma noção já estabeleci-
da na literatura de que o álcool é a substância mais consumida entre os jovens
(Cerutti et al., 2015; Fosco & Feinberg, 2018).
Além disso, chama atenção o número expressivo de adolescentes que não
respondeu às questões sobre o consumo na vida ou no momento atual e, princi-
palmente, sobre o uso de maconha, droga menos usual, se comparada ao álcool e
ao tabaco. Da mesma forma, tanto o índice de resposta quanto o índice de con-
sumo de álcool e outras drogas diminuiu de acordo com o tipo de droga: álcool,
tabaco e maconha, conforme encontrado também no estudo de Cerutti et al.
(2015). Esse resultado pode estar demonstrando o que, segundo a percepção dos
adolescentes, é mais aceito socialmente e até menos prejudicial. Essa perspectiva
também pode explicar o índice de risco maior para o álcool em comparação aos
outros tipos de drogas, já que é mais aceito, usual e considerado menos prejudi-
cial, o que o torna potencialmente perigoso na adolescência pelos efeitos diretos
do uso e indiretos, como porta de entrada para outras drogas.
Constatou-se que as médias para conflitos relacionados com uso de inter-
net, tarefas domésticas e maior intensidade da discussão (gritos) foram significa-
tivamente maiores para a mãe do que para o pai, conforme a Tabela 1. Ainda, foi
encontrado associação entre os conflitos com a mãe e o uso de álcool pelo ado-
lescente na variável “sair à noite”. Esses resultados reportam à configuração e aos
papéis tradicionais que ainda predominam nas famílias nucleares (caso de 85%
da amostra deste estudo), em que a mãe é a principal responsável pelo cuidado
e disciplina dos filhos. Esse papel sugere maior envolvimento, monitoramento e
controle das atividades e rotina da prole, repercutindo em mais conflitos, já que
mãe-adolescente estão mais implicados nesse aspecto do que pai-adolescente
(Cerutti & Argimon, 2015; Cerutti et al., 2015).
Por outro lado, foi encontrada associação entre o uso de maconha e o
conflito com o pai sobre o uso de drogas e o uso de maconha e a maior inten-
sidade de conflito com o pai. Esse resultado, se comparado ao dado anterior
sobre os conflitos entre a mãe e o adolescente, pode sugerir que a presença do
pai ocorre se, na percepção do adolescente, trata-se de uma situação mais grave,
envolvendo maiores níveis de intensidade durante o conflito e uso de droga
ilícita. Segundo os estudos pesquisados, a parentalidade negativa caracterizada
por crítica, hostilidade e interações conflituosas entre pais e filhos pode aumen-
tar o risco de consumo de álcool e outras drogas, já que reduz a proximidade
emocional entre pais e adolescentes (Broecker & Jou, 2007; Cerutti & Argi-
mon, 2015; Chaplin et al., 2014).
Psic. Clin., Rio de Janeiro, vol. 32, n. 2, p. 315 – 334, mai-ago/2020
Álcool e outras drogas, adolescência e funcionamento familiar 329
Foram encontradas associações entre problemas de comportamento, con-
flitos familiares e uso de álcool e outras drogas, corroborando as pesquisas que
apontam baixos níveis de funcionalidade familiar, caracterizados por interações
predominantemente conflitivas e hostis e o acúmulo de tensões como fatores de
risco para o uso de álcool e outras drogas (Cerutti & Argimon, 2015; Samek et al.,
2014). O consumo de bebida alcoólica se correlacionou positivamente de forma
significativa com intensidade do conflito coparental do pai, conflito coparental
do pai, triangulação da mãe, triangulação do pai e conflito coparental da mãe.
Esses resultados sugerem que o conflito no exercício da coparentalidade e
a triangulação (envolvimento da prole no conflito coparental) repercutem negati-
vamente nos filhos adolescentes. Esses resultados podem indicar que os conflitos
familiares excessivos, aqui expressos pelas dimensões da coparentalidade, inibem
o adolescente de levar a cabo suas próprias necessidades de expor sentimentos
e contestar as figuras parentais, evitando as discussões inerentes ao processo de
desenvolvimento (Chaplin et al., 2014). Pode ocorrer também a diminuição do
monitoramento parental, já que os cuidadores estão imersos no conflito coparen-
tal, e o aumento da suscetibilidade do adolescente a envolver-se em grupos com
condutas de risco ao uso de álcool e outras drogas (Cerutti & Argimon, 2015;
Chaplin et al., 2014).
A associação entre consumo de bebida alcoólica e tabaco e os sintomas
externalizantes, e entre beber álcool com aprovação dos pais e os sintomas ex-
ternalizantes e internalizantes pode ser indicativo de que o álcool é a droga lícita
mais consumida e, consequentemente, causadora de mais prejuízos ao público
adolescente (Andrade et al., 2017; Chaplin et al., 2014). Uma hipótese é que se
trata de uma droga lícita, socialmente aceita, inclusive com consentimento da
família, presente nos rituais comemorativos e festivos.
Além disso, o fato de o álcool ser considerado pelos usuários uma droga
que tende a provocar desinibição e condutas socialmente mais ativas na fase ini-
cial da intoxicação pode explicar a ocorrência mais frequente de sintomas exter-
nalizantes, já que estes se expressam em relação às outras pessoas e se caracterizam
predominantemente como dificuldade de controlar impulsos, hiperatividade,
agressividade física e verbal, raiva e delinquência (Achenbach & Rescorla, 2001;
Hess & Falcke, 2013). Ademais, o resultado aponta a necessidade de maior fis-
calização e controle por parte dos órgãos reguladores com relação ao consumo de
álcool e tabaco que, embora lícitos, podem ser um disparador para a iniciação em
outros tipos de drogas que provocam prejuízos diretos aos adolescentes, como é o
caso de maconha, cocaína, crack, entre outras drogas (UNODC, 2015).
Psic. Clin., Rio de Janeiro, vol. 32, n. 2, p. 315 – 334, mai-ago/2020
330 Álcool e outras drogas, adolescência e funcionamento familiar
O modelo preditivo para o consumo de bebidas alcoólicas para os parti-
cipantes do estudo explicou 15,7% do fenômeno por meio das variáveis confli-
to coparental do pai e intensidade do conflito com o pai. O fato de o modelo
conter somente variáveis do pai como preditoras do consumo de álcool sugere
que este cuidador exerce um papel ativo sobre a prole, já que se trata de um
resultado relacionado à percepção do próprio adolescente. Os resultados podem
indicar que o adolescente reconhece a autoridade do pai como preponderante
à da mãe, e remete à divisão de responsabilidades conforme o gênero, ou seja,
o que se espera enquanto função materna e enquanto função paterna. Neste
estudo, o conflito coparental do pai e a intensidade do conflito do pai foram
fatores de risco para o consumo.
Em conjunto, esses resultados indicam que pode existir relações entre uso
de álcool e outras drogas e problemas familiares, principalmente no que se re-
fere aos conflitos do pai com a mãe (coparentalidade) e com os filhos (conflito
pais-filho). Por outro lado, a coesão familiar foi um fator de proteção do uso de
maconha, confirmando a existência de uma relação entre as características do
ambiente familiar e o envolvimento com álcool e outras drogas, já que abertura
e reciprocidade para expor sentimentos e pensamentos, proximidade afetiva e
união entre os membros, aspectos que caracterizam a coesão familiar, é um mode-
lo adaptativo e seguro que orienta o adolescente, ainda que surjam oportunidades
sedutoras para uso de drogas por meio do grupo de iguais (Cerutti & Argimon,
2015; Chaplin et al., 2014; Hess & Falcke, 2013).
Considerações finais
Por meio dos resultados deste estudo, destaca-se a necessidade de atuar em
prevenção, focada no uso de álcool e outras drogas por adolescentes e fornecendo
subsídios e embasamento empírico para a prática dos profissionais que atuam
com esse público. O papel relevante e decisivo das relações familiares resta eviden-
ciado na mediação do funcionamento emocional de seus membros. Os resultados
indicam a necessidade de se desenvolver outros trabalhos e aperfeiçoar os existen-
tes na rede pública e privada no que se refere às práticas direcionadas às famílias,
no sentido de que a orientação seja um fator de proteção e prevenção ao uso de
álcool e outras drogas, principalmente na adolescência. Psicólogos podem orien-
tar outros profissionais que atuam com famílias em diferentes contextos (escolas,
instituições públicas, privadas, programas de prevenção e tratamento em saúde
mental, etc.) no sentido de considerar em seu trabalho a importância da intera-
Psic. Clin., Rio de Janeiro, vol. 32, n. 2, p. 315 – 334, mai-ago/2020
Álcool e outras drogas, adolescência e funcionamento familiar 331
ção familiar, incluindo orientações sobre o exercício da coparentalidade de modo
coerente e coeso e a participação ativa de ambos os progenitores/cuidadores nas
intervenções preventivas e/ou terapêuticas.
São limitações deste estudo a impossibilidade de generalização dos resul-
tados para outros contextos e o grupo etário adolescente e suas famílias, já que se
trata de um estudo transversal com participantes selecionados por conveniência e
de tamanho amostral não representativo da população. Por outro lado, os resulta-
dos podem ser compreendidos no contexto da realidade de adolescentes oriundos
de áreas rurais, pouco estudadas no contexto brasileiro.
Além disso, o viés de desejabilidade social deve ser considerado no estudo,
já que os dados indicaram índices de consumo de álcool e outras drogas inferiores
ao esperado, se comparados a estudos de prevalência com adolescentes brasileiros,
principalmente, quanto à prevalência do consumo de drogas ilícitas (maconha e
cocaína, entre outras). A abstenção de respostas dos participantes também apoia
essa hipótese e pode estar relacionada ao contexto dos respondentes, ou seja, ado-
lescentes oriundos de uma comunidade de pequeno porte, receosos de que suas
respostas os identificassem, resultando em consequências legais e/ou morais. Por-
tanto, os aspectos discutidos podem ter resultado na subestimação dos percentu-
ais de prevalência do uso de álcool e outras drogas na amostra avaliada, indicando
que os dados precisam ser analisados e compreendidos com cautela. Além disso,
estudos futuros podem utilizar o método da triangulação de dados incluindo
outros informantes, como pais e profissionais da escola (professores, orientadores
educacionais), por exemplo, para avaliar as associações entre características fami-
liares, sintomas internalizantes e externalizantes e uso de álcool e outras drogas
por adolescentes.
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Recebido em 19 de janeiro de 2019
Aceito para publicação em 29 de outubro de 2019
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